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Síntese de "Crítica da Razão Negra" de Achille Mbembe A obra "Crítica da Razão Negra" de Achille Mbembe (2013) é uma profunda e erudita reflexão sobre como a figura do "Negro" foi construída e opera como elemento central e, ao mesmo tempo, de exceção na constituição da Modernidade e do capitalismo. O livro não busca ser uma história das ideias ou uma sociologia, mas sim uma crítica filosófica do mundo contemporâneo, focando na "razão negra", que designa: 1. Um conjunto de imagens e saberes produzidos sobre o Negro, que o transformaram em sinônimo de exploração, degradação e submissão. 2. Um modelo de exploração e depredação que remonta à escravidão e se perpetua em novas formas no capitalismo globalizado. 3. Um paradigma de submissão e as formas de sua superação e resistência. Mbembe argumenta que a categoria "Negro" é a cripta viva do capital e da modernidade ocidental. A experiência histórica da escravidão transformou a carne do Negro em coisa (mercadoria e moeda), conferindo-lhe um estatuto de "morto-vivo" ou "sombra personificada" no sistema moderno. O autor traça a genealogia dessa razão, mostrando como o processo de racialização, desde a escravidão até o colonialismo, foi crucial para a formação do sujeito moderno (branco, europeu, burguês) por contraste. O Devir-Negro do Mundo A crítica de Mbembe culmina na ideia do "devir-negro do mundo" (devenir- nègre du monde). Se antes a tragédia era ser explorado pelo capital (o Negro era o modelo ideal de trabalhador explorável), hoje, a tragédia de uma crescente parcela da humanidade é a de se tornar supérflua e descartável, humilhada e exposta ao abandono, sem sequer ser útil à exploração capitalista. O sofrimento e a precariedade historicamente impostos ao Negro generalizam-se, estendendo-se a vastas populações excluídas em escala global, indicando uma crise da própria humanidade na qual a raça opera como tecnologia política de dominação. O Conceito de Necropolítica O conceito de necropolítica (desenvolvido mais detalhadamente no ensaio homônimo, mas fundamental para a crítica) é a tese de que, sob o poder soberano moderno, a expressão máxima da soberania reside no poder de ditar quem deve viver e quem deve morrer. Mbembe expande o conceito foucaultiano de biopolítica (o poder de gerir a vida, fazê-la viver e deixá-la morrer), argumentando que o projeto colonial e as formas contemporâneas de dominação (como Estados de exceção, ocupações militares e o terrorismo) operam sob uma lógica de necropolítica. A necropolítica utiliza o poder de morte para subjugar a vida e transformá-la em "morto-vivo" (como o escravo no sistema de plantation). Nela, a guerra, o terror e o homicídio não são exceções, mas sim a regra, usados para gerir populações consideradas inimigas, descartáveis ou supérfluas. O corpo do Negro, historicamente o mais exposto à violência e à morte por decreto do poder, é o arquétipo desse regime necropolítico. Questões Dissertativas sobre o Texto 1. Discorra sobre o que Achille Mbembe define como a "razão negra" e analise como essa categoria, desde o período da escravidão transatlântica, moldou o conceito de humanidade na modernidade ocidental. 2. De que forma a obra "Crítica da Razão Negra" estabelece uma relação intrínseca entre a constituição do capitalismo moderno e a invenção da categoria racial do Negro? 3. Explique o conceito de necropolítica de Achille Mbembe, destacando como ele se diferencia e, ao mesmo tempo, se apoia no conceito foucaultiano de biopolítica. Quais são os "espaços de morte" ou estados de exceção característicos da necropolítica? 4. Analise a tese de Mbembe sobre o "devir-negro do mundo". O que o autor quer dizer ao afirmar que o sofrimento historicamente imposto ao Negro está se generalizando e tornando-se o padrão da humanidade descartável? 5. Discuta a afirmação de que, na ordem da modernidade, o Negro é o único humano cuja carne foi transformada em coisa e o espírito em mercadoria. Quais são as implicações éticas e políticas dessa desumanização radical? Referências Bibliográficas MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018. (Originalmente publicado como ensaio em 2003, e como livro no Brasil em 2018). Este vídeo do YouTube traz uma discussão aprofundada sobre o livro, com foco na sua dificuldade e importância: Biblioteca Afro | Túlio Custódio: Crítica da Razão Negra (Achille Mbembe). https://www.youtube.com/watch?v=WWDFSi0-vF8 https://www.youtube.com/watch?v=WWDFSi0-vF8