Prévia do material em texto
14. MUDANÇA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL: (EDUCAÇÃO EM) DIREITOS HUMANOS NA REDAÇÃO DO ENEM RicaRd o Nascim e Nto ab Re u1 INTRODUÇÃO Os dados superlativos do Brasil, seja em relação à dimensão do seu território, seja em relação ao tamanho da sua população, ou ainda no que diz respeito às múltiplas diversidades (linguística, étnica, religiosa, de gênero etc.) coexistentes e constitutivas da nossa gente, sempre se apresentaram como grandes desafios nos processos de implementação de políticas públicas de envergadura nacional. Pensar estratégias que garantam a inclusão da população nas políticas educacionais, de saúde, de assistência social, de emprego e de geração de renda, dentre outras, requer um profundo conhecimento da constituição histórica do país e das especificidades que nos permitem contemplar um universo social e cultural bastante heterogêneo e, ainda assim, sermos capazes de reconhecer no outro a essência do ser brasileiro pelos traços que nos unem. O Exame Nacional do Ensino Médio, doravante ENEM, coloca-se nesse contexto de complexidades e de dados superlativos como uma bem sucedida política educacional de acesso ao Ensino Superior, além de ser força motriz catalizadora de ações afirmativas para redução das desigualdades sociais, étnicas e regionais. Contudo, a potência de uma política de avaliação desta importância e envergadura 1 Professor do Departamento de Letras Vernáculas e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Sergipe, é licenciado em Letras Português-Inglês (UNIT), bacharel em Direito (UNIT), mestre em Educação (UFS), mestre em Direito (UFS) e Doutor em Letras (UFBA). Secretário Municipal da Educação de Aracaju. ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 198 trouxe consigo, inclusive, o condão de impactar colateralmente a lógica prototípica do fluxo pedagógico da Educação Nacional, na qual, idealmente, o currículo deveria pautar a avaliação, percebendo-se, no entanto, um movimento de contra fluxo no qual o ENEM dita, em alguma medida, a dinâmica curricular nas/das escolas. Já é possível encontrar diversas pesquisas que dão conta de avaliar os efeitos de contra fluxo gerados pelo ENEM, especialmente no que diz respeito ao ensino da língua portuguesa, das línguas estrangeiras, bem como das artes, da filosofia e da sociologia. O próprio gênero “redação escolar” foi profundamente impactado pela arquitetura de organização lógica do pensamento apresentado pela prova de redação do ENEM e sua matriz de competências. Em relação a esse movimento de contra fluxo, Oliveira e Senna (2018), ao se debruçarem sobre algumas reflexões acerca do ENEM e de questões atinentes ao letramento e à exclusão escolar, serviram-se de estudos produzidos nacionalmente e no exterior para comprovar a existência do chamado efeito retroativo ou the washback effect, que consistiria, via de regra, na capacidade de influência das avaliações, principalmente aquelas de alta relevância, a exemplo do ENEM, sobre o processo de ensino-aprendizagem. Para os pesquisadores, apesar de haver uma predominância bibliográfica que vincula o efeito retroativo a uma percepção de desdobramentos negativos, há que se considerar, sob um espectro mais alargado, a possibilidade de se obter também desdobramentos positivos que sirvam para cumprir finalidades específicas, a exemplo de difundir e/ou consolidar políticas públicas educacionais que possuam natureza estratégica para o país, a exemplo da política nacional de Educação em Direitos Humanos. Este texto, que tem como pretensão central auxiliar no processo de formação de pessoal para avaliação dos Direitos Humanos – DDHH nas redações do ENEM, socorrendo-se para tal das ideias previamente apresentadas por Abreu (2017a) e Abreu (2017b), e tendo o privilégio de dispor, para tal finalidade, da expertise acumulada pelo INEP a partir da série histórica de 25 anos de aplicação da prova do ENEM, toma como pressuposto o fato de que o Programa Nacional de Educação em Direitos Humanos – PNEDH serviu-se (ou anda serve-se), em algum momento, do efeito retroativo da prova de redação do exame, de tal modo que se torna praticamente impossível formular uma história da Educação em Direitos Humanos no Brasil sem necessariamente implicá-la com o sucesso que o respeito aos Direitos Humanos atingiu a partir da Competência V da matriz de competências da prova de redação do ENEM. Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 199 1. BREVE PERCURSO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS Segundo Piovesan e Fachin (2017), pensar os Direitos Humanos e a sua proteção implica, necessariamente, em concebermos um sistema composto por duas esferas, uma repressiva — que se ocupa de remediar violações já ocorridas — e uma esfera preventiva, que tem como finalidade coibir e prevenir futuras violações. É nessa última esfera que podemos encontrar as origens e a própria epistemologia da Educação em Direitos Humanos, que nasce a partir das propostas contidas no Programa Mundial para a Educação em Direitos Humanos. De acordo com a UNESCO, o Programa Mundial para a Educação em Direitos Humanos, a ser desenvolvido em uma série de fases, teve início em 2005, com a adoção, por unanimidade, de todos os Estados-membros das Nações Unidas, em 14 de julho daquele ano, da Resolução nº 59/113-B da Assembleia Geral das Nações Unidas. Atualmente em sua terceira fase, o PMEDH, previa que, em um primeiro momento2, a ser materializado entre os anos de 2005 a 2007, os Ministérios da Educação dos estados- membros, bem como outros agentes dos sistemas educacionais e da sociedade civil, deveriam adotar ações com a finalidade de materializar a cultura dos Direitos Humanos na Educação Básica. Já na segunda fase3, ocorrida entre os anos de 2010 a 2014, o foco deveria estar voltado para a educação superior — nos cursos de formação inicial e continuada de docentes — para o corpo de funcionários públicos do Estado, além de policiais e militares de todos os níveis; tendo em sua terceira etapa4, entre os anos de 2015 a 2019, o desafio de fortalecer a implementação das fases anteriores e promover a formação de direitos humanos para profissionais de mídia e jornalistas. No Brasil, conforme nos aponta Abreu (2017b), o percurso da Educação em Direitos Humanos tem seu nascedouro a partir da formulação dos três Programas Nacionais de Direitos Humanos (PNDH-1)5, de 1996, o (PNDH-2)6, de 2002 e o (PNDH-3)7, de 2009, os quais 2 Programa Mundial para a Educação em Direitos Humanos – primeira fase: https://unesdoc.unesco. org/ark:/48223/pf0000147853_por 3 Programa Mundial para a Educação em Direitos Humanos – segunda fase: https://unesdoc.unesco. org/ark:/48223/pf0000217350_por 4 Programa Mundial para a Educação em Direitos Humanos – terceira fase: https://unesdoc.unesco. org/ark:/48223/pf0000232922?posInSet=7&queryId=N-EXPLORE-1bb615b1-5f2b-450d-8889-32a0d0585f37 5 Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-1: http://www.dhnet.org.br/dados/pp/pndh/ textointegral.html 6 Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-2: http://www.dhnet.org.br/dados/pp/edh/ pndh_2_integral.pdf 7 Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007- 2010/2009/Decreto/D7037.htm#art7 ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 200 contribuíram para o fomento de um ambiente propício ao lançamento, em 2003, do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH)8. O PNDH-1 de 1996 tinha o foco voltado para os direitos civis e políticos, a saber: 1) Políticas públicas para a proteção e promoção dos Direitos Humanos (incluindo a proteção do direito à vida, liberdade e igualdade perante a lei); 2) Educação e cidadania: bases para uma cultura dos Direitos Humanos; 3) Políticas internacionais para a promoção dos Direitos Humanos; e 4) Implementação e monitoramento do Programa Nacional de Direitos Humanos. O PNDH-2, de 2002, incorporou alguns temas destinados à conscientizaçãoda sociedade brasileira com o fito de consolidar uma cultura de respeito aos direitos humanos, tais como cultura, lazer, saúde, educação, previdência social, trabalho, moradia, alimentação, um meio ambiente saudável. O PNDH-3 é lançado em 2009 e é importante ferramenta para consolidação dos direitos humanos como política pública. O Brasil avançou na materialização das orientações que possibilitaram a concretização e a promoção dos Direitos Humanos. Configura-se como avanço a interministerialidade de suas diretrizes, de seus objetivos estratégicos e de suas ações programáticas (BRASIL, 2013, p. 23). O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, como uma política pública nacional, baseia-se na justiça social, na democracia e na cidadania, e tem, no Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos — (CNEDH) — o seu braço de fomento operacional, articulando, para a consecução dos seus resultados, os ministérios da Educação, da Justiça, e dos Direitos Humanos e da Cidadania. É a partir de 2003 que a Educação em Direitos Humanos ganhará um Plano Nacional (PNEDH), revisto em 2006, aprofundando questões do Programa Nacional de Direitos Humanos e incorporando aspectos dos principais documentos internacionais de Direitos Humanos dos quais o Brasil é signatário. Esse plano se configura como uma política educacional do Estado voltada para cinco áreas: educação básica, educação superior, educação não-formal, mídia e formação de profissionais dos sistemas de segurança e justiça. Em linhas gerais, pode-se dizer que o PNEDH ressalta os valores de tolerância, respeito, solidariedade, fraternidade, justiça social, inclusão, pluralidade e sustentabilidade (BRASIL, 2013, p. 519). Esse percurso acima descrito culmina, então, com o protagonismo do Conselho Nacional de Educação que, em maio de 2012, publica a Resolução CNE/CP n° 1, que estabelece as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (DNEDH)9, de observação obrigatória para todos os sistemas de ensino e suas instituições. No âmbito da Educação Básica, quando realizamos o cotejamento entre o percurso histórico da Educação em Direitos Humanos no Brasil e a série histórica dos temas das provas de redação do ENEM, percebemos que é a partir de 2013 (ano seguinte à publicação das DNEDH) que o respeito aos direitos humanos passa a ser compulsoriamente exigido tanto no edital que regula o exame quanto na própria proposta de redação contida na prova. Esse fato reforça então a tese de que o PNEDH e, principalmente, as DNEDH se constituem como os marcos normativos da EDH no Brasil e que ambos se serviram retroativamente da envergadura e da importância que o ENEM possui perante a sociedade brasileira para 8 Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por- temas/educacao-em-direitos-humanos/DIAGRMAOPNEDH.pdf 9 Resolução Nº 1, de 30 de maio de 2012: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rcp001_12.pdf Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 201 serem absorvidos pelas instituições de ensino, em especial por aquelas ofertantes da etapa do Ensino Médio. 2. OS MARCOS NORMATIVOS DA EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NA EDUCAÇÃO BÁSICA No âmbito do processo de avaliação do respeito aos direitos humanos nas redações do ENEM, torna-se extremamente importante que todos os envolvidos tenham conhecimento do conteúdo dos dois documentos que são considerados os marcos normativos da Educação em Direitos Humanos na Educação Básica, quais sejam: o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) e as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (DNEDH). Estando atualmente sob a gestão direta do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o PNEDH, primeiro marco normativo da EDH na Educação Básica brasileira, concebe, em seu texto, a Educação em Direitos Humanos como um processo sistemático e multidimensional que deve ocorrer em múltiplos espaços, mas que tem, na Educação Básica, um lócus privilegiado para se desenvolver, uma vez que: Não é apenas na escola que se produz e reproduz o conhecimento, mas é nela que esse saber aparece sistematizado e codificado. Ela é um espaço social privilegiado onde se definem a ação institucional pedagógica e a prática e vivência dos direitos humanos. Nas sociedades contemporâneas, a escola é local de estruturação de concepções de mundo e de consciência social, de circulação e de consolidação de valores, de promoção da diversidade cultural, da formação para a cidadania, de constituição de sujeitos sociais e de desenvolvimento de práticas pedagógicas. O processo formativo pressupõe o reconhecimento da pluralidade e da alteridade, condições básicas da liberdade para o exercício da crítica, da criatividade e do debate de ideias, e para o reconhecimento, o respeito, a promoção e a valorização da diversidade (BRASIL, 2018, p. 18). Além disso, nos termos do PNEDH, plenamente integrada ao currículo escolar da Educação Básica, a Educação em Direitos Humanos deve ser promovida a partir das seguintes dimensões: a) a dimensão dos conhecimentos e das habilidades: compreender os direitos humanos e os mecanismos existentes para a sua proteção, assim como incentivar o exercício de habilidades na vida cotidiana; b) a dimensão dos valores, das atitudes e dos comportamentos: desenvolver valores e fortalecer atitudes e comportamentos que respeitem os direitos humanos; ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 202 c) a dimensão das ações: desencadear atividades para promoção, defesa e reparação das violações aos direitos humanos. Já as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos, segundo e mais importante marco normativo da EDH para a Educação Básica, concebida pelo Pleno do Conselho Nacional de Educação e publicada sob a forma da Resolução CNE/CP n° 1, de 30 de maio de 2012, de observação obrigatória para todas etapas, níveis e modalidades operadas pelos sistemas de ensino, prevê sua materialização tanto pela transversalidade, por meio de temas relacionados aos Direitos Humanos tratados interdisciplinarmente, como também pela disciplinaridade, como conteúdo de uma das disciplinas já existentes no currículo escolar, ou ainda, de maneira mista, combinando transversalidade com disciplinaridade. Na resolução do CNE, podemos encontrar as diferenças e definições entre as noções de Educação em Direitos Humanos e Direitos Humanos, sendo a primeira vinculada ao uso de concepções e práticas educativas fundadas nos Direitos Humanos e em seus processos de promoção, proteção, defesa e aplicação na vida cotidiana e cidadã de sujeitos de direitos e de responsabilidades individuais e coletivas (Brasil, 2012), enquanto, no segundo caso, os Direitos Humanos, internacionalmente reconhecidos como um conjunto de direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sejam eles individuais, coletivos, transindividuais ou difusos, referem-se à necessidade de igualdade e de defesa da dignidade humana (Brasil, 2012). O Art. 3° das DNEDH pode ser considerado como o núcleo preceitual da EDH para a educação nacional e contém, em um rol de sete incisos, os princípios que apontam para a mudança e a transformação social como grandes finalidades da EDH no Brasil. São eles: I - dignidade humana; II - igualdade de direitos; III - reconhecimento e valorização das diferenças e das diversidades; IV - laicidade do Estado; V - democracia na educação; VI - transversalidade, vivência e globalidade; e VII - sustentabilidade socioambiental. É imperioso que todos aqueles que estejam diretamente envolvidos com a avaliação das redações do ENEM possuam conhecimento da existência desses sete princípios de suas respectivas conceituações e nuances próprias, pois, em última análise, o desrespeito a um direito humano stricto-sensu materializado no texto do participante significará, necessariamente, a propositura de uma violação de uma ou mais normas principiológicas contidas no rolde incisos do artigo 3º das DNEDH. Em um esforço de elucidação dos significados de cada um dos princípios contidos no art. 3° das DNEDH, o Conselho Nacional de Educação, por meio do Parecer n° 8/2012, apresenta seus conceitos e suas características atinentes, os quais listamos abaixo: • Dignidade humana O princípio da dignidade humana coloca o ser humano e seus direitos como centro das ações para a educação. Qualquer iniciativa deve obedecer, ou pelo menos levar Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 203 em consideração, a promoção dos direitos humanos e da valorização da dignidade do homem. Relacionada a uma concepção de existência humana fundada em direitos. A ideia de dignidade humana assume diferentes conotações em contextos históricos, sociais, políticos e culturais diversos. É, portanto, um princípio em que se devem levar em consideração os diálogos interculturais na efetiva promoção de direitos que garantam às pessoas e aos grupos viverem de acordo com os seus pressupostos de dignidade. • Igualdade de direitos A respeito do princípio de igualdade de direitos, orienta a realizar a justiça social, que é muito além de tratar a todos como iguais, é dar a cada indivíduo a atenção e a importância que merece, percebendo as necessidades individuais. O respeito à dignidade humana, devendo existir em qualquer tempo e lugar, diz respeito à necessária condição de igualdade na orientação das relações entre os seres humanos. O princípio da igualdade de direitos está ligado, portanto, à ampliação de direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais a todos os cidadãos e cidadãs, com vistas a sua universalidade, sem distinção de cor, credo, nacionalidade, orientação sexual, biopsicossocial e local de moradia. • Reconhecimento e valorização das diferenças e das diversidades Já o princípio do reconhecimento e da valorização das diferenças e das diversidades fala da existência da pluralidade de sujeitos, em que podem nascer os preconceitos e as discriminações. Esse norte aconselha como honrar as diferenças de cada um e, assim, construir um ambiente de valores igualitários. Esse princípio se refere ao enfrentamento dos preconceitos e das discriminações, garantindo que diferenças não sejam transformadas em desigualdades. O princípio jurídico-liberal de igualdade de direitos do indivíduo deve ser complementado, então, com os princípios dos direitos humanos da garantia da alteridade entre as pessoas, grupos e coletivos. Dessa forma, igualdade e diferença são valores indissociáveis que podem impulsionar a equidade social. • Laicidade do Estado A laicidade do Estado é o princípio que propõe a liberdade religiosa no contexto educacional, mantendo a imparcialidade da pedagogia ao disseminar os saberes, garantindo a diversidade das crenças. Esse princípio se constitui em pré-condição para a liberdade de crença garantida pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e pela Constituição Federal Brasileira de 1988. Respeitando todas as crenças religiosas, assim como as não crenças, o Estado deve manter-se imparcial diante dos conflitos e das disputas do campo religioso, desde que não atentem contra os direitos fundamentais da pessoa humana, fazendo ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 204 valer a soberania popular em matéria de política e de cultura. O Estado, portanto, deve assegurar o respeito à diversidade cultural religiosa do país, sem praticar qualquer forma de proselitismo. • Democracia na educação O princípio da democracia na educação tangencia os preceitos de liberdade, igualdade, solidariedade e, principalmente, dos direitos humanos, que embasam a construção das condições de acesso e permanência ao direito educacional. Direitos humanos e democracia alicerçam-se sobre a mesma base — liberdade, igualdade e solidariedade —, expressando-se no reconhecimento e na promoção dos direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais. Não há democracia sem respeito aos direitos humanos, da mesma forma que a democracia é a garantia de tais direitos. Ambos são processos que se desenvolvem continuamente por meio da participação. No ambiente educacional, a democracia implica a participação de todos os envolvidos no processo educativo. • Transversalidade, vivência e globalidade O princípio da transversalidade, vivência e globalidade levanta a questão da interdisciplinaridade dos direitos humanos na edificação das metodologias para educação em direitos humanos. Refere-se, também, à globalidade, que quer dizer o envolvimento completo dos atores da educação. Os direitos humanos se caracterizam por seu caráter transversal e, por isso, devem ser trabalhados a partir do diálogo interdisciplinar. Como se trata da construção de valores éticos, a educação em direitos humanos é, também, fundamentalmente vivencial, sendo-lhe necessária a adoção de estratégias metodológicas que privilegiem a construção prática desses valores. Tendo uma perspectiva de globalidade, deve envolver toda a comunidade escolar: alunos, professores, funcionários, direção, pais, mães e comunidade local. Além disso, no mundo de circulações e comunicações globais, a EDH deve estimular e fortalecer os diálogos entre as perspectivas locais, regionais, nacionais e mundiais das experiências dos estudantes. • Sustentabilidade socioambiental Por fim, o princípio da sustentabilidade socioambiental informa que a educação em direitos humanos deve incentivar o desenvolvimento sustentável, visando ao respeito ao meio ambiente e preservando-o para as gerações vindouras. A EDH deve estimular o respeito ao espaço público como bem coletivo e de utilização democrática de todos. Nesse sentido, colabora para o entendimento de que a convivência na esfera pública se constitui numa forma de educação para a cidadania, estendendo a dimensão política da educação ao cuidado com o meio ambiente local, regional e global. A EDH, então, deve estar comprometida com o incentivo e a promoção de um desenvolvimento sustentável que preserve a diversidade da vida Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 205 e das culturas, condição para a sobrevivência da humanidade de hoje e das futuras gerações. Entendemos, pois, que, como forma de garantia da segurança jurídica ao processo de avaliação de possíveis desrespeitos aos direitos humanos contidos nas redações dos participantes do ENEM, todo e qualquer modelo de valoração dessa especificidade deve imperiosamente partir das Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos e, em especial, dos princípios contidos nos incisos do art. 3º da Resolução do Conselho Nacional de Educação. 3. OS DIREITOS HUMANOS NA REDAÇÃO DO ENEM Atualizando a tabela proposta por Abreu (2017b), percebemos que o respeito aos Direitos Humanos na redação do ENEM passou a gozar de um estatuto de regularidade a partir da edição da prova aplicada no ano de 2013, logo após a publicação das DNEDH, do Conselho Nacional de Educação. QUADRO 1 EXIGÊNCIA DE RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS NO EDITAL E NA PROPOSTA DE REDAÇÃO DO ENEM Ano de realização do Enem Proposta de redação Respeito aos direitos humanos na proposta de redação do Enem Respeito aos direitos humanos no edital do Enem 1998 Viver e aprender Não Não 1999 Cidadania e participação social Não Não 2000 Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional Não Não 2001 Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito? Sim Não 2002 O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais de que o Brasil necessita? Não Não 2003 A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo? Sim Não 2004 Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação Não Não 2005 O trabalho infantil na sociedade brasileira Sim Não 2006 O poder de transformaçãoda leitura Sim Não ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 206 2007 O desafio de conviver com as diferenças Sim Não 2008 Foram três os temas, que versavam sobre a proteção da Floresta Amazônica Sim Não 2009 O indivíduo frente à etica nacional Sim Não 2010 O trabalho na construção da dignidade humana Sim Não 2011 Viver em rede no século XXI: os limites entre o público e o privado Sim Não 2012 Movimento imigratório para o Brasil no século XXI Sim Não 2013 Efeitos na implantação da lei seca no Brasil Sim Não 2014 Publicidade infantil em questão no Brasil Sim Sim 2015 A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira Sim Sim 2016 Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil (1ª aplicação) Caminhos para combater o racismo no Brasil (2ª aplicação) Sim Sim 2017 Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil Sim Sim 2018 Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet Sim Sim 2019 Democratização do acesso ao cinema no Brasil Sim Sim 2020 O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira (ENEM impresso) O desafio de reduzir as desigualdades entre as regiões do Brasil (ENEM digital) Sim Sim 2021 Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil Sim Sim 2022 Os desafios para a valorização das comunidades e povos tradicionais do Brasil (aplicação regular) Medidas para o enfrentamento da recorrência da insegurança alimentar no Brasil (reaplicação e PPL) Sim Sim Fonte: INEP Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 207 O desrespeito aos Direitos Humanos (DDH), por sua natureza agentiva, está associado à proposta de intervenção, materializando-se como uma das possibilidades de atribuição do nível 0 para a Competência V, no texto do participante que nele incorrer. Por conta da pluralidade de possibilidades do tratamento da questão dos Direitos Humanos na prova de redação do ENEM, as orientações específicas acerca do processamento da questão do (des)respeito aos direitos humanos somente poderão ser apresentadas a partir do desvelamento do tema da redação, que é tratado em regime de sigilo até o momento de aplicação da prova. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Um conjunto significativo dos capítulos de uma história da Educação em Direitos Humanos na Educação Básica brasileira confunde-se com a evolução da aplicação de um dos maiores exames admissionais ao ensino superior do globo terrestre. Contando com cifras superlativas, o ENEM impulsionou, como um dos seus vários efeitos retroativos, a difusão da EDH no currículo básico nacional, em especial no Ensino Médio, por meio de componentes curriculares a exemplo da língua portuguesa, da sociologia, da filosofia e da história (somente para citar alguns). Os processos anuais de formação de profissionais para atuar nas avaliações das redações do ENEM, que têm ocorrido nos últimos 25 anos, operam como verdadeiros cursos de formação continuada dos licenciados em língua portuguesa que, no bojo das suas atuações profissionais, têm ajudado a consolidar essa cultura dos Direitos Humanos nas escolas. O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos e as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos são documentos basilares e imprescindíveis para a garantia da segurança jurídica do processo e da atuação de todos os profissionais diretamente envolvidos com a avaliação do (des)respeito aos Direitos Humanos na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio. ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros Artigos e e-Book 208 REFERÊNCIAS ABREU, R. N. Exercício da cidadania e direitos humanos – as funções da Competência V na redação do Enem. In: GARCEZ, L. H. C.; CORRÊA, V. R. (Orgs.) Textos dissertativo argumentativos: subsídios para qualificação de avaliadores. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2017a. ABREU, R. N. Um olhar teórico, normativo e metodológico sobre a Educação em Direitos Humanos. In: GARCEZ, L. H. C.; CORRÊA, V. R. (Orgs.) Textos dissertativo argumentativos: subsídios para qualificação de avaliadores. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2017b. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Diretrizes Nacionais Gerais da Educação Básica. Brasília: MEC, 2013. BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília, 2018. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CP Nº 8/2012, sobre a proposição das Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos. Relatores: Antônio Carlos Caruso Ronca; Rita Gomes do Nascimento; Raimundo Moacir Feitosa e Reynaldo Fernandes. BRASIL. Ministério da Educação. Resolução Nº 1, de 30 de maio de 2012. Estabelece as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 31 mai. 2012. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rcp001_12.pdf. Acesso em: 12 jun. 2023. OLIVEIRA, Helen Vieira; SENNA, Luiz Antônio Gomes. Algumas reflexões sobre o ENEM, letramento e exclusão escolar. e-Mosaicos – Revista Multidisciplinar de Ensino Pesquisa, Extensão e Cultura do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-UERJ), 2018. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/e-mosaicos/article/ view/36885. Acesso em: 15 jun 2023. PIOVESAN, Flávia; FACHIN, Melina Girardi. Educação em Direitos Humanos no Brasil: desafios e perspectivas. Revista Jurídica da Presidência. Brasília, v. 19, n 117, 2017. Disponível em: https://revistajuridica.presidencia.gov.br/index.php/saj/article/view/1528. Acesso em: 20 jun 2023. Artigos e e-Book ENEM 2023 ● A alegria dos reencontros 209 LEITURAS DE APOIO CANDAU, V. M. et al. (Orgs.). Educação em direitos humanos e formação de professores(as). São Paulo: Cortez, 2013. NEVES, Cynthia Agra de Brito. Direitos Humanos e Educação: a polêmica em torno da prova de redação do ENEM 2015 e 2017. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, n (57.2), 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tla/a/ fGNRsbXvrjzjKLWPWt3GYTP/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 13 jun. 2023. SILVEIRA, R. M. G. et al. (Orgs.). Educação em Direitos Humanos: fundamentos teórico- metodológicos. João Pessoa: Editora Universitária, 2007. TELES, Jaqueline Gomes dos Santos. A redação do ENEM entre as políticas oficiais e oficiosas: o lugar dos direitos humanos. Revista X, v. 15, n 15, 2020. Disponível em: https://revistas. ufpr.br/revistax/article/view/73529/41887. Acesso em: 10 jun. 2023. VICENTINI, M. A redação no ENEM e a redação no 3° ano do ensino médio: efeitos retroativos nas práticas de ensino da escrita. Dissertação (mestrado) Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem. 292 p. Campinas, SP: 2015.