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5. AS CIÊNCIAS DA HOSPITALIDADE P arece inegável que a explosão meteórica de cursos ligados aos diversos ramos aplicados da ciência, nos campos, entre outros, da saúde (medicina, enferma- gem, terapia ocupacional, nutrição, dietética, fisicultura, etc.), da educação (educação física, educação artística, educação ambiental, etc.), da administração de empre- sas (bancária, escolar, etc.), foi determinada não apenas pela importância científica dos novos conhecimentos, mas também porque um contexto ideológico¹ adequado favoreceu, estimulou e utilizou esses novos conhecimen- tos presumidos ou reais segundo sua própria lei e lhes conferiu seu prestígio. 1. No pensamento marxista, a ideologia é uma concepção da ação e, portanto, um atributo da superestrutura. As forças produtivas mais modo de produção (a estrutura social, a organização da pro- priedade, as funções sociais, a luta de classes) constituem a chamada68 Coleção ABC do Turismo Já é sobejamente estudada a circunstância ideológica que presidiu à ênfase hoje atribuída pelos órgãos educa- cionais centrais do País aos campos aplicados do conhe- cimento em detrimento das ciências puras, sobretudo das ciências sociais e humanas.² Já se conhece o suficiente, sem necessidade de nisso insistir, significado ideoló- gico de uma universidade mais próxima do mercado e mais distante da reflexão especulativa. Essa ênfase na ciência aplicada, de início assentada na lógica de con- trole político pela ditadura militar que se implantou no infra-estrutura, à qual se integra a superestrutura (instituições políti- cas e jurídicas), expressão do modo de produção. A ideologia nunca é verdadeira, no sentido lógico ou ontológico. É sempre falsa ("falsa consciência"). Contudo, pode ser progressista ou reacionária. Se esta representa a totalidade das forças produtivas, é uma ideologia progressista. Se mantém as relações de dominação, é reacionária (GRAWITZ, M. Méthode des sciences sociales. In: DGOTMAN, Anne. Le sens de l'hospitalité. Essai sur les fondements sociaux de l'accueil de l'autre. p. 120-121). Entenda-se aqui ideologia, no seu sentido filosó- fico mais elementar, como a visão distorcida provocada pela posição especial do agente no campo decisório e seus interesses. Invocando contexto ideológico, estamos ao mesmo tempo perguntando: a quem interessa a decisão? 2. CAMARGO, Luiz O. L. Novas tecnologias de comunicação: democracia cultural ou ideologia da modernização? In: FADUL, Ana Maria (Org.). Novas tecnologias de comunicação: impactos políticos, culturais e socioeconômicos; DEMO, Pedro. Pesquisa e construção de conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas.Hospitalidade 69 Brasil na década de 1960 para a qual as ciências puras como a sociologia, a antropologia e a história eram fontes de valores de contestação ao regime que se implantava -, posteriormente teve o respaldo de um modelo de de- senvolvimento econômico que necessitava de apoio da Universidade para o seu incremento. À ideologia políti- ca, assim, sucedeu a ideologia econômica, ao menos no primeiro plano da análise, já que para muitos analistas ambas estiveram sempre juntas. Aliás, diga-se que este fenômeno acompanha o próprio nascimento das diferentes ciências. A Economia firmou-se como ciência apenas depois que a sociedade refutou as nor- mas de inibição do lucro e do capital presentes no coração do sistema escolástico. Se a História foi-se organizando nos planos de estudo do ensino primário, secundário ou universitário como disciplina acadêmica, não foi somente em função de motivos científicos, mas em função da dialé- tica ideológica dos Estados nacionais frente à Igreja e dos Estados nacionais entre si. Este trajeto aplica-se integralmente àquilo que se observa ao longo do desenvolvimento dos cursos ligados ao entretenimento. surgidos em 1968, os cursos de comunicação (jornalismo, editoração, biblio- teconomia, rádio, tevê, publicidade, cinema, teatro, etc.) respondiam não apenas aos conflitos estudantis ocorridos em torno das faculdades de filosofia e ciências sociais da USP como ao desabrochar da economia da comunicação70 Coleção ABC do Turismo de massa no País, agora em escala industrial³, que pos- teriormente diversificou-se agregando as áreas de lazer, turismo e hotelaria. A cada novo desdobramento, a cada disciplina que se instala, a mesma dinâmica se instaura. A nova disciplina da ciência aplicada passa a ter, também, uma ação ideo- lógica própria. Tem que disputar terreno com as demais; mais ainda, somente pode crescer reivindicando parte dos campos e dos objetos de estudo que vinham sendo cul- tivados por disciplinas já estabelecidas e, nesse sentido, não apenas deve distinguir-se e emancipar-se delas daí o novo nome como também tentará submetê-las. Tal é o início do processo que desemboca na tentativa de 3. Cabe aqui uma explicação sobre as relações entre campos da comunicação e do entretenimento. Os egressos das escolas de comu- nicação (sobretudo OS jornalistas) sentem-se pouco à vontade quando catalogados dentro do campo do entretenimento. Ficariam menos constrangidos se confrontados à evidência de que lazer das pessoas é na sua quase totalidade vivido dentro das casas e, dentro das casas, metade desse tempo de lazer é circunscrito por meios de comunicação de massa em geral (tevê, rádio, publicidade, jornais, revistas, "games" eletrônicos, etc.). Já tive a oportunidade de me deter mais longamente nesta análise (Camargo, L. O. L. Educação para lazer. 132-133). Em decorrência, ainda, entenderiam melhor porque cursos de turismo, lazer e hotelaria surgem nos departamentos de comunicação das Uni- versidades, mais até mesmo do que nos departamentos de administra- ção, como seria lógico dentro da ótica mercadológica, ou da educação, como seria lógico dentro da gênese dos problemas (sobretudo lazerHospitalidade 71 de tantas disciplinas particulares novas⁴e que é princípio ativo dos ismos correspondentes (sociolo- gismo, economicismo, historicismo, psicologismo, antropo- logismo, biologismo...). Foi o que ocorreu também com o jornalismo em relação às demais áreas da comunicação e, atualmente, com o turismo em relação à hotelaria, lazer e eventos. É certo, também, que a entronização de um novo nome de uma disciplina implica essencialmente uma reorgani- zação, de alguma maneira, do campo das ciências na qual esta se insere. A nova disciplina, como se fora uma forma vivente, há de introduzir-se entre as outras, obedecendo à lei implacável da luta darwiniana pela sobrevivência do menos inviável. E, a esta altura, mais do que nunca, repita-se, a designação da disciplina é essencial, pois é essa preocupação que preside à discussão epistemológica sobre o campo e o objeto dessa disciplina e sobre processo de reorganização do campo mais amplo. Essa reorganização, no caso das ciências puras, não acontece como uma forma surge em diferentes sociedades como uma preocupação, de início, edu- cacional). Resumindo, poder-se-ia colocar a hipótese de que a Academia ainda é conservadora a ponto de não aceitar termo entretenimento, mas é lógica suficiente para entender as afinidades entre campos da comunicação de massa, do lazer, do turismo e da hotelaria. 4. BUENO, Gustavo. ¿Qué es la ciencia?72 Coleção ABC do Turismo de acumular saber aos saberes tradicionais, mas quase sempre como ruptura.⁵ A Economia teve de abrir cami- nho em conflito com a moral, que pretendia pôr limites nas leis do lucro do capital, em função da nova situação dos Estados colonialistas; a Sociologia desvinculou-se da Filosofia; a Psicologia opôs-se à Teologia e à Filosofia; a História entrou em competição não somente com a His- tória da Igreja, mas também com a Sociologia. No campo das ciências aplicadas, a ruptura é secundá- ria, parecendo mais evidente a disputa encarniçada pelo espaço de ação e pela importância no contexto acadêmico. A hospitalidade, a recém-chegada ao universo das ciên- cias aplicadas, repete a mesma saga das lutas anteriores de competição com outras disciplinas pela conquista de status como instituição acadêmica com direito próprio (denominação, financiamento, cátedras, departamentos, horários nos planos de ensino). Naturalmente, as disci- plinas mais próximas têm toda razão em temer que essa nova disciplina invada abusivamente as suas próprias searas tentando abocanhar um naco de problemas cien- tíficos e (o que é mais importante) de espaço acadêmico. A própria reflexão aqui entabulada pode ser colocada nessa perspectiva. Em tempo: da mesma forma como seria ingênuo 5. GRAWITZ, Madeleine. Méthodes des sciences sociales. 92.Hospitalidade 73 supor que todas as ciências, puras e aplicadas, surgem apenas do zelo de estudiosos interessados no progresso do conhecimento, seria injusto atribuir processo exclu- sivamente a intuitos exógenos à ciência, de leitura ideo- lógica patente ou velada. Assim, esta análise seria parcial se esquecesse, nesse caminho, da participação de agentes da ciência seriamente imbuídos de desígnios genuínos de fazer avançar o conhecimento científico. Parafraseando a sátira de Bachelard sobre a psicanálise, o esterco não explica a rosa. Não obstante os desvios e seqüelas decor- rentes da ideologia político-econômica subjacente à sua implantação, diferentes cursos de comunicação figuram entre os mais produtivos cientificamente no momento. E os campos do turismo, lazer e hospitalidade caminham celeremente na mesma direção. Estas breves linhas apontam para três circunstâncias envolvidas, como causa ou efeito, com a divisão dos cam- pos da ciência pura ou aplicada: da parte de alguns, um genuíno interesse em am- pliar conhecimento naquela área - é evidente que muitos acadêmicos, de um lado incapazes de lutar contra o esvaziamento de suas áreas de origem, sen- tem-se verdadeiramente estimulados em estudar a dinâmica deste novo e poderoso setor da ação social e econômica;74 Coleção ABC do Turismo da parte do poder político e/ou econômico, uma tentativa de manter a ciência dentro da lógica de seu interesse de poder naturalmente, o setor de hospedagem e restauração é hoje tão significativo, dentro do turismo, como ligado à viagem; da parte da disciplina emergente, mais do que inte- resse, a necessidade de disputar espaço com outras áreas da ciência, de forma a viabilizar-se: os cursos ligados à hospitalidade desejam dividir bolo do conhecimento antes açambarcado pelos cursos de turismo, assim como desejam dividir bolo do co- nhecimento restrito a outros cursos como relações públicas, nutrição e dietética, bem como efetuar um recorte de disciplinas como filosofia, sociologia, antropologia. Se uma nova disciplina começa disputando espaço com outras disciplinas, para a hospitalidade o primeiro campo da disputa é certamente com a disciplina-mãe: o turismo. E essa primeira disputa é decisiva em relação a todas as outras. A hospitalidade e o turismo terão de se ocupar do campo da recepção turística e estudá-lo conjuntamente, sob pontos de vista diferentes. Aqui é preciso ser claro e assertivo. O fenômeno turístico envol- ve a dupla perspectiva da viagem e da hospedagem. Até hoje os turismólogos aceitaram o desafio de estudá-loHospitalidade 75 nessa dupla perspectiva e alguns estudos até caminharam bastante nessa direção.⁶ Estudos recentes⁷, contudo, já têm dado conta do mal- estar diante da ênfase que os estudos turísticos dão aos aspectos econômicos e gerenciais da parcela do fenômeno compreendida pela viagem. Aí começam as mazelas... Exemplos? O sucesso do turismo é medido por quilômetros viajados e dólares gastos. O órgão máximo do turismo nacional, a EMBRATUR, contabiliza ganhos e perdas, tanto em termos financeiros, sobretudo da balança entre dólares gastos por turistas que viajam e que chegam (mas sempre viajantes), como em postos de trabalho abertos, ainda que, na sua maioria, sabidamente precários, além de mal remunerados (mas sempre no campo da economia). Essas ênfases atuais dos estudos turísticos têm con- seqüências também na forma como a recepção turística é hoje planejada e recomendada, confinada num mero acervo de soluções técnicas estandardizadas de city tours, centros de informações e sugestão de passeios, hotéis e restaurantes. O centro do processo é o viajante, o turista. 6. BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. 7. Reporto-me, em especial, à totalidade das reflexões de estu- diosos (Gastal, Krippendorf, Castrogiovanni, Wainberg, Lemos, Beni, Moesh) que participaram da coletânea organizada por Susana Gastal, Turismo: 9 propostas para um saber-fazer.76 Coleção ABC do Turismo Há, assim, uma crítica justa à evidente ênfase dos estudos atuais nos aspectos econômicos e operacionais do turismo e ao fato de todos os elementos do sistema turístico serem vistos sob o ângulo da viagem, valorizando abusivamente tanto o ponto de vista do emissor, como do transporte associado, resultando numa outra valorização abusiva, no caso, a do transporte aéreo, que é relevante do ponto de vista da economia do turismo, mas bem me- nos relevante para a cultura do turismo e muito pouco relevante para a hospitalidade. Esse paradigma atual dos estudos turísticos acaba por contaminar os estudos das relações entre turismo e meio ambiente, turismo e lazer, turismo e patrimônio, deixando entrever um subtexto segundo o qual o meio ambiente deve ser pensado para o turista, que o patrimônio cultural e o sistema de lazer de uma localidade devem ser pensados para turista. Luiz Trigo tem uma frase que gosta de repetir: "Pode-se pensar em lazer sem turismo, mas não se deve pensar em turismo sem lazer". Caio Luiz de Carvalho, ex-presidente da EMBRATUR, tem uma frase semelhante: "Nenhuma cidade pode ser turística se não for prazerosa para seus habitantes". Estas frases são importantíssimas no sentido de mostrar que a necessidade de lazer é pri- meiro dos residentes e, só posteriormente, dos turistas, mas o fato de não repercutirem adequadamente, nem asHospitalidade 77 frases, nem as críticas dirigidas às mesmas⁸ em estudos mais aprofundados, é um sintoma da presença do para- digma da viagem que valoriza emissor e o transporte. E não seria arriscado dizer que esse paradigma permeia inclusive o único campo dos estudos turísticos que dá es- paço à hospitalidade, o campo do planejamento turístico (que, aliás, poderá um dia ser chamado de planejamento da hospitalidade, se seus proponentes estiverem dis- postos efetivamente a saber a opinião da comunidade como um todo e não apenas donos de agências, hotéis e restaurantes sobre impactos positivos e negativos do aumento do fluxo turístico). Não basta, pois, que os estudiosos de uma disciplina afirmem e demonstrem que já estão estudando um proble- ma. Não se trata de dizer simplesmente que um campo de estudo está sendo coberto por uma disciplina. Mais impor- tante é saber se há um novo paradigma de análise. Além do mais, o desafio de um mesmo grupo de pen- sadores assumir essa dupla perspectiva é, quem sabe, impossível para o nosso paradigma (queiramos ou não!) ainda cartesiano, que não sabe pensar holisticamente e fatalmente elege um único ponto do processo como 8. Refiro-me especialmente aos estudos de Rita Cruz (2002), que fornecem uma chave para a compreensão do problema. Na verdade, turismo, para não ter de assumir residente, sai-se numa pirueta, operando uma cirurgia do espaço, preparando-o para turista à revelia da demanda dos residentes.78 Coleção ABC do Turismo perspectiva para análise e, no caso do turismo, assume a perspectiva do viajante. Assumir diferentes centralida- des de pontos de vista num mesmo grupo ou em grupos diferentes (mas em interação) de pensadores pode, sem dúvida, ser mais benéfico. Quais os benefícios dessa constituição de grupos di- ferentes de pensadores de um mesmo processo sob pers- pectivas diferentes? Comecemos com os pensadores do turismo. Certamente, estes podem absorver no diálogo (este diálogo, sim, é a verdadeira chave para o estudo integral do fenômeno!) com os pensadores da hospitalidade novas problemáticas que afloram quando um novo paradigma passa a privilegiar a perspectiva do hóspede, do residente. E se existe um estudioso do turismo que já avançou nessa direção (e vem incomodando agenciadores e mesmo alu- nos de turismo com o seu antiturismo), foi certamente o pranteado Jost que, dentro da filosofia do Birô Internacional de Turismo Social¹⁰ no qual militava, propugna pela valorização do elo mais frágil da cadeia turística, o residente, com o redimensionamento e, se ne- cessário, o controle dos fluxos turísticos. 9. Jost. Sociologia do turismo. 10. Aliás, Birô Internacional do Turismo (BITS), sediado em Bru- xelas, é um parceiro mais adequado para estudos de hospitalidade do que a Organização Mundial do Turismo (WTO).Hospitalidade 79 benefício do estudo sob ângulo do anfitrião coloca, de forma imediata e urgente, a necessidade do estudo dos estilos de hospitalidade e traz conjuntamente (por que não como desdobramento no campo da prática social?) a possibilidade de invenção de estilos de hospitalidade. Mas é claro que a hospitalidade pensada nessa perspectiva vai desvelar os tempos/espaços nos quais se realiza, modelos culturais neles embutidos, os públicos (os demais residentes e os turistas), os seus equipamentos, a sua en- genharia financeira e os seus recursos humanos. Por outro lado, a nova designação (hospitalidade e não hotelaria) não apenas permite uma ampliação do campo, como a reelaboração de referenciais teóricos de pesquisa e estudo da hotelaria e da restauração. Ao incluí- las no campo da hospitalidade, estamos redefinindo um objeto de estudo atualmente restrito à condição (sem- pre economia e negócios) de infra-estrutura turística, adicionando-lhe dimensões de análise que já constam dos clássicos da sociologia, da antropologia, da história, além, é claro, da filosofia. Um novo recorte surge quando pensadores da hospi- talidade dialogam com os pensadores da comunicação. A noção do senso comum de hospitalidade já desvela e privilegia um processo de comunicação entre aquele que visita e aquele que recebe. Como as ciências da comu- nicação auxiliam no estudo desse processo? Também a comunicação sofre diante da amplitude do desafio de80 Coleção ABC do Turismo estudar um campo no qual se desenrola um processo ainda mais complexo, com três elementos em permanente feedback o emissor (e sua mensagem), o canal (sempre supondo que não existe contato pessoal entre emissor e o receptor) e o receptor (e a forma como ele elabora a mensagem recebida, condição para o início do processo de feedback). Daí resulta que a comunicação interpessoal é pra- ticamente abandonada e, não fossem historiadores do cotidiano como historiadores da cultura como Burke¹² e Elias¹³; e, sobretudo, psicólogos e antropólogos como Augé¹⁵, Boorstin¹⁶, pouco se saberia sobre processos tão importantes na comunicação humana como a conversação, a etiqueta, o banquete, a festa, nos quais seres humanos se defrontam com a condição original que a vida lhes propiciou ou exigiu. Até mesmo o fato de não existir uma faculdade de comunicação humana (é quase sempre de comunicação 11. ARIÈS, Phillipe. (Coord.). História da vida privada. 5 vols. 12. BURKE, Peter. A arte da conversação. 13. ELIAS, Norbert. processo civilizador: uma história dos costumes. 14. MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. 15. AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. 16. BOORSTIN, Daniel. The image: a guide to pseudo-events in America.Hospitalidade 81 social, como para ressaltar a importância da comuni- cação com grupos sociais e não entre indivíduos e, em decorrência, sempre através dos meios de comunicação de massa) já é revelador dessa lacuna. Entre suas ha- bilitações, os cursos de comunicação social privilegiam as áreas de jornalismo, rádio e tevê, publicidade e pro- paganda (sempre comunicação de massa, a ponto de alguns já falarem que o termo midiologia exprimiria melhor o conteúdo dos cursos do que comunicação). Mesmo os cursos de Relações Públicas não constituem uma exceção a essa regra. Na verdade, as relações pú- blicas falam de relações entre etiquetas, de relações secundárias e terciárias, marcadas em maior ou menor grau pela etiqueta e não pela espontaneidade que rege as relações primárias. Uma verdadeira exceção são os cursos de biblioteco- nomia. Na ECA/USP, como um exemplo que se expandiu, mais do que cuidar de bibliotecas, o desafio é o da ação cultural. Mas, ainda assim, a comunicação interpessoal é relegada a segundo plano. Pensando-se fundiariamente o campo do exercício da ciência (e é sempre assim que se procede, infelizmente, no atual estágio metodológico das ciências humanas e de suas disciplinas aplicadas), os pensadores da hospitalidade podem trazer para si e assumir esse recorte do campo da comunicação, ainda não devidamente valorizado, que é o da comunicação interpessoal e, quem sabe, corrigir uma82 Coleção ABC do Turismo lacuna atual dos estudos de comunicação turística, que apenas enfatizam a comunicação de massa, conferindo uma maior ênfase à comunicação interpessoal que, em todos os campos, inclusive no do turismo, é sempre mais decisiva do que a comunicação de massa e entre seres humanos (relações humanas e não relações públicas). Uma decorrência dessa valorização das relações huma- nas pode ser o repensar do planejamento estratégico de serviços de recepção em geral (não apenas do turista, mas, sobretudo, do residente nas suas relações com as organi- zações públicas, privadas com e sem fins lucrativos) em empresas, hospitais, clínicas, órgãos públicos, instituições culturais e esportivas, etc. Há um paradoxo que consiste, de um lado, na consciência do importante papel do re- cepcionista, daquele que tem um primeiro contato com o cliente, e, de outro lado, sua inexplicável baixa exigência de qualificação (a hotelaria e alguns outros poucos tipos de negócios são honrosas exceções). Um terceiro recorte importante é o que se estabe- lece no diálogo com o urbanismo. A forma de inserção espacial preferida dos seres humanos é a da cidade e é lá que se processam e se criam estilos de hospitalidade. Em relação ao urbanismo, a hospitalidade pode privile- giar as expectativas culturais dos residentes nas cidades. Um urbanismo inspirado pelas ciências da hospitalidade certamente daria maior importância ao uso das áreas verdes pelos habitantes locais mais do que ao resultadoHospitalidade 83 estético ou às regras de um pretenso (embora, no caso, verdadeiro) higienismo. Um quarto recorte é o da nutrição. Essa disciplina pensa o ato de comer nas suas necessárias dimensões de higiene, de qualidade de nutrientes, mas relegou defini- tivamente a dimensão sociocultural do estar juntos para se alimentar. Causa espécie uma frase de Dumazedier, o criador das ciências do lazer, de que "restaurantes e bares, antes de ponto de serviço de comidas e bebidas, são lugares aonde se vai para ver e ser visto". Este é um recorte que pode e deve ser legitimamente feito pelas ciências da hospitalidade. Os campos de estudos do meio ambiente e do lazer também permitem recortes? Aqui a palavra mais correta seria decalque. Hospitalidade e ecologia de alguma forma falam de casa, da perspectiva do morador. Por esse moti- vo, os estudos de desenvolvimento sustentável estão bem confortáveis nos dois endereços. O mesmo se pode dizer do lazer que, mesmo quando a hospitalidade privilegia a parcela extradoméstica, ainda assim faz em nome do morador, do residente, antes de pensar no visitante, no turista.Os tempos/espaços da hospitalidade humana. 84 Recepcionar Hospedar Alimentar Entreter Doméstica Receber pessoas em Fornecer pouso e abrigo Receber em casa Receber para recepções casa, de forma em casa para pessoas. para refeições e e festas. intencional ou casual. banquetes. Pública A recepção em A hospedagem A gastronomia Espaços públicos de Coleção ABC do Turismo espaços e órgãos proporcionada pela local. lazer e eventos. públicos de livre cidade e pelo país, acesso. incluindo hospitais, casas de saúde, presídios... Comercial Os serviços Hotéis. A restauração. Eventos e espetáculos. profissionais de Espaços privados de recepção. lazer. Virtual Folhetos, cartazes, Sites e hospedeiros de Programas na Jogos e entretenimento folderes, internet, sites. mídia e sites de na mídia. telefone, e-mail. gastronomia.

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