Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

DIREITO PENAL III
5º Período	
Assunto: Crimes contra o patrimônio
TÍTULO II – DOS CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO
Capítulo I: Do Furto
Art. 155 – Furto
1.1. Bem Jurídico 
Tutela-se a posse, a detenção e a propriedade sobre a coisa alheia móvel (posição de Bittencourt). Greco e Nucci não incluem a detenção como bem jurídico protegido pelo crime de furto. 
1.2. Sujeitos
· Trata-se de crime comum. Qualquer pessoa pode praticar o crime (menos o proprietário da coisa). O detentor e o possuidor, quando se negam a devolver a coisa ao dono, cometem o crime de apropriação indébita (art. 168).
· Cabe o concurso de pessoas (coautoria ou participação). Pode haver também autoria mediata (coação irresistível, erro determinado por terceiro, etc.)
· O sujeito passivo pode ser o possuidor ou o proprietário (e o detentor para alguns doutrinadores). Pode ser tanto pessoa física quanto jurídica. 
1.3. Adequação Típica
a) Tipo objetivo: O núcleo é subtrair (retirar, tomar, sacar, arrebatar. OBS.: posse vigiada). O objeto material é a coisa (OBS: ser humano, cadáver, órgãos) alheia (a coisa precisa ter um dono, desde que não seja o próprio agente. Assim, não podem ser furtadas as coisas de ninguém, as coisas abandonadas, e as coisas de uso comum (estas serão objeto de furto quando possuírem valor econômico para pessoa específica). OBS.: coisa própria em poder de outrem) móvel (o conceito de móvel não é o mesmo do direito civil. Móvel aqui é tudo o que pode ser removido, transportado. É importante também que a coisa possua certo valor econômico, embora haja minoria que defenda ser também objeto material do crime a coisa com valor meramente sentimental). 
b) Tipo Subjetivo: vontade livre e consciente de subtrair a coisa alheia móvel, exigindo-se ainda o especial fim de subtrair para si ou para outrem (animus furandi). A subtração temporária não configura o crime[footnoteRef:1]. O erro de tipo pode excluir o dolo do crime. Não há previsão de modalidade culposa. [1: A questão do furto de uso se relaciona com a adequação típica, sobretudo subjetiva. A jurisprudência tem entendido que, para a caracterização do furto são necessários: a) exclusiva intenção de uso, b) uso não prolongado, c) devolução do bem imediatamente após o uso. Coisas fungíveis não permitem a configuração do furto de uso. Curioso ressaltar que o furto de uso é punido no art. 241 do CPM] 
1.5. Consumação e Tentativa
A dúvida no momento consumativo se encontra na questão da posse tranquila do agente sobre a coisa[footnoteRef:2]. Para uma corrente, se a coisa é retirada da esfera de posse da vítima o crime se consuma, ainda que o agente não tenha a posse tranquila da coisa. Para outra corrente, é necessário que o agente tenha a posse tranquila da coisa, ainda que por curto espaço de tempo. A primeira corrente, mais severa, tem sido a preferida na jurisprudência. (Greco e Nucci são adeptos da segunda corrente) [2: Baseando-se em classificação antiga do Direito Romano, a doutrina em geral aponta quatro teorias para explicar a consumação do furto: concretatio: simples contato com a coisa; amotio (apprehensio): a coisa passa para a disposição do agente, ainda que por curto espaço de tempo; ablatio: desloca-se a coisa de um lugar para outro; ilatio: a coisa deve ser levada ao local pretendido pelo agente, e mantida segura] 
A tentativa é admissível. O momento em que ela ocorre, contudo, será determinado de acordo com o momento consumativo. Possível a aplicação dos institutos da desistência voluntária, do arrependimento posterior e do crime impossível.
1.6. Causa de aumento (§1º)
DIREITO PENAL III 
4º Período
Assunto: Crimes contra o patrimônio
A causa diz respeito ao furto cometido durante o repouso noturno. Segundo o STJ, para a configuração da causa de aumento, basta que seja o furto cometido durante a noite, sendo irrelevante se o lugar era comércio ou residência, habitado ou desabitado, ou se a vítima está efetivamente repousando. O Tribunal mineiro tem algumas decisões no sentido de exigir que o local seja habitado e que as pessoas estejam realmente repousando no momento do crime. Tal posição é dividida na doutrina. Para a maioria da doutrina, só é aplicado para o furto simples. O STJ defendia tal posição, tendo mudado o entendimento em 2014.
1.7. Primariedade do agente e pequeno valor da coisa (§2º)
1) 
O fato de o réu ser primário e da coisa furtada ser de pequeno valor permitem: 
a) A substituição da pena de reclusão pela de detenção
b) A redução de uma a dois terços da pena privativa de liberdade
c) A aplicação somente da pena de multa. 
Pequeno valor não se confunde com valor irrisório, insignificante. O primeiro tem sido entendido pela jurisprudência como aquele que gira em torno de um salário mínimo. O segundo é capaz de excluir a tipicidade, por força do princípio da insignificância.
Segundo Greco, por razões de política criminal, é possível que esta causa de diminuição seja aplicada também nos casos de furto qualificado. Contudo, há várias posições em contrário. Vide súmula 511 STJ.
1.8. Coisa móvel por equiparação (§3º)
DIREITO PENAL III
5º Período
Assunto: Crimes contra a pessoa
2) 
Aqui o Código equipara à coisa móvel a energia elétrica ou outra que tenha valor econômico, para fins de configuração do crime de furto. É importante notar que, nestes casos, o crime se transforma em crime permanente, sua consumação se arrastará pelo tempo em que perdurar a situação[footnoteRef:3]. [3: No caso do furto de energia elétrica, em 2013, o STJ decidiu ser cabível a extinção da punibilidade (prevista nos crimes tributários) nos casos em que o acusado quita o débito antes do oferecimento da denúncia. Em 2018, porém, o tribunal voltou atrás no entendimento (HC 412.208-SP), de forma que o pagamento do débito enseja apenas a aplicação do art. 16 CP.] 
DIREITO PENAL III
5º Período	
Assunto: Crimes contra a pessoa
1.9. Furto qualificado (§§ 4º a 7º)
I. Destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa – obstáculo é tudo que está predisposto a proteger a coisa. Entende-se destruição o fato de causar dano ao obstáculo, e por rompimento o afastamento do mesmo, sem que haja sua destruição. Deve a destruição se dar antes da subtração, embora haja posição jurisprudencial (minoritária) em contrário. 
II. Mediante abuso de confiança, fraude, escalada ou destreza – relação de confiança é aquela existente antes do fato, da qual o agente se aproveita para praticar o furto. A fraude (meio insidioso ou ardiloso) é utilizada para facilitar a subtração. A escalada consiste em utilização de meios não destinados normalmente ao trânsito de pessoas (cavar um túnel, escalar a sacada de uma casa de dois andares, etc.). A destreza compreende a habilidade na prática do furto, de forma que a vítima não percebe a subtração. 
III. Emprego de chave falsa – qualquer instrumento destinado a abrir fechaduras (inclusive cópia da chave verdadeira) a própria chave verdadeira, furtada do dono não se tem considerado chave falsa, embora haja divergência. A “ligação direta” em veículos não tem sido admitida como hipótese de chave falsa, havendo algumas decisões que a enquadram em rompimento de obstáculo.
IV. Mediante o concurso de duas ou mais pessoas – existe divergência na doutrina quanto à necessidade de todos os concorrentes praticarem atos executórios para a configuração da qualificadora. Greco defende que todos devem estar presentes no local e cooperar nos atos executórios. Vide súmula 442 STJ
Já o parágrafo quinto traz a hipótese de subtração de veículo automotor (carro, caminhão, moto, lancha, etc.) que venha a ser transportado para outro Estado. Assim, a qualificadora se configura com o efetivo transporte, e não com a mera intenção do agente. 
O parágrafo sexto pune mais gravemente o furto de semovente domesticável de produção, no intuito de contemplar as recorrentes questões de roubo de gado, mesmo quando o animal é abatido ou dividido em partes no local do furto. Trata-se de qualificadora com pena menos grave do que as acima mencionadas (2 a 5 anos).
Os parágrafos 4º-Ae 7º surgiram na legislação para fazer frente aos constantes incidentes envolvendo explosão de caixas eletrônicos. Se, na execução do furto, há o emprego de explosivo ou artefato análogo que cause perigo comum, a reprimenda passa a variar entre 4 e 10 anos de reclusão (mesmo patamar do roubo simples), sem prejuízo da multa. O mesmo ocorre quando o objeto da subtração forem substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem a fabricação, montagem ou emprego do explosivo.
Por fim, o § 4º B pune a utilização de meio ou dispositivo eletrônico na execução do furto com fraude (§ 4º, II). O dispositivo utilizado não precisa estar conectado à internet. Também não é necessária a violação de mecanismo de segurança. Pode ocorrer mediante vários meios fraudulentos, desde a utilização de programas maliciosos de computador, dispositivos que copiam dados de cartões, links enviados por e-mail ou Whatsapp, ou qualquer outro meio análogo. A pena é de reclusão, de 4 a 8 anos, e pode ser aumentada de 1/3 a 2/3 se há utilização de servidor fora do território nacional, ou de 1/3 ao dobro, se a vítima é idosa ou vulnerável.
Em caso de concurso de qualificadoras, aplica-se somente uma, restando a outra a ser analisada enquanto agravante genérica (se prevista no art. 61) ou como circunstância judicial. Em caso de concurso entre os parágrafos, tem-se entendido pela aplicação dos mais graves.
1.10. Concurso de crimes
Pode haver concurso material homogêneo (vários furtos, nos termos do art. 69) ou heterogêneo (furto e estupro, por exemplo), ou concurso formal (furto contra várias pessoas hospedadas em um mesmo quarto de hotel, por exemplo) bem como o crime continuado (vários furtos, nos termos do art. 71). A violação de domicílio é absorvida pelo furto, assim como o dano no furto qualificado pelo rompimento de obstáculo. 
No caso do furto de cheques para fins de estelionato, a jurisprudência não é pacífica. Há decisões que consideram o furto absorvido pelo estelionato (pós-fato impunível), havendo também decisões que consideram que o estelionato é que absorve o furto (antefato impunível: crime-fim que absorve crime-meio – princípio da consunção). 
1.11. Pena e ação penal
A pena é de reclusão de 1 a 4 anos e multa para a modalidade do caput. Pode incidir o aumento de um terço na hipótese do parágrafo primeiro. As formas qualificadas são punidas com reclusão de 2 a 8 anos e multa (§ 4º) ou 3 a 8 anos (§ 5º). Nas hipóteses do § 2º existe a possibilidade da substituição da pena de reclusão por detenção, diminuição de 1 a 2 terços ou aplicação unicamente da pena de multa. 
A ação penal é pública incondicionada (os arts. 182 e 183 trazem exceções, que serão posteriormente estudadas), e a competência é da Justiça Comum.
Art. 156 – Furto de coisa comum
1.1. Bem Jurídico e objeto material
Tutela-se a posse e a propriedade sobre a coisa comum, ou seja, aquela que pertence ao condômino, co-herdeiro ou sócio. O objeto material é a coisa (móvel) comum furtada. 
1.2. Sujeitos
· Trata-se hoje de crime próprio. O sujeito ativo é o condômino, co-herdeiro ou sócio da coisa comum.
· O sujeito passivo é a pessoa que detém a posse da coisa (condômino, co-herdeiro, sócio, ou até um terceiro). Se o sujeito ativo já detinha a posse da coisa quando resolve assenhorear-se dela, é caso de apropriação indébita. Se a coisa comum furtada for patrimônio de pessoa jurídica, ocorrerá o crime de furto, já que o patrimônio da pessoa jurídica é diferente do patrimônio dos sócios.
1.3. Adequação Típica 
c) Tipo objetivo: Subtrair (retirar, tomar, sacar, arrebatar) o condômino, co-herdeiro ou sócio (ou seja, a coisa subtraída também pertence ao agente) para si ou para outrem (é necessário que o agente queira ter a coisa como sua, não configurando o crime a subtração temporária) a quem legitimamente a detenha (como dito, pode ser tanto o condômino, co-herdeiro, ou sócio, como também um terceiro). O objeto material é a coisa comum (aquela sobre a qual existe um condomínio, ex.: se o morador de um prédio furta para si um bem pertencente ao condomínio, impedindo que os demais condôminos também usem, ou um dos herdeiros furta bem da herança, etc.). A coisa deve ser móvel, embora não esteja expressa essa qualidade na lei. É importante também que a coisa possua certo valor econômico. Conforme o parágrafo segundo, não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não excede a quota a que tem direito o agente.
d) Tipo Subjetivo: vontade livre e consciente de subtrair a coisa móvel comum (animus furandi), exigindo-se ainda o especial fim de subtrair para si ou para outrem (dolo específico). Não há previsão de modalidade culposa. 
1.4. Consumação e Tentativa
Neste ponto, segue-se o mesmo raciocínio já estudado no delito de furto. Também com relação aos institutos da desistência voluntária, do arrependimento posterior e do crime impossível.
1.5. Pena e ação penal
A pena, alternativamente cominada, é de detenção de 6 meses a 2 anos ou multa. 
A ação penal é pública condicionada à representação do ofendido, e a competência é dos Juizados Especiais.
QUESTÕES
1. De acordo com a legislação pátria,
a) sempre que o autor de furto for primário, deverá sua conduta ser analisada como “furto privilegiado”;
b) nos casos de furto de veículo automotor, o transporte deste para outro Estado é circunstância impositiva de pena mais grave
c) a extração de mineral em propriedade alheia, sem a competente autorização, não caracteriza o crime de furto
 d) responderá por furto quem subtrair coisa alheia para pagar-se ou ressarcir-se de prejuízos.
2. A. entrou em uma loja e, enquanto o amigo que o acompanhava distraía a vítima (proprietária do estabelecimento), foi embora do local com vestimenta que não lhe pertencia, não mais retornando. A. cometeu o crime de:
a) furto qualificado por fraude.
b) estelionato.
c) furto qualificado por destreza.
d) furto qualificado por abuso de confiança.
e) furto de uso.
3. Tícia, no dia 1º de janeiro de 2003, ao sair de uma festa realizada em um clube, passa pela chapelaria e verifica que ali está uma bolsa bonita, que entende ser valiosa. Então, vai até o local e, dizendo que havia perdido o tíquete comprovador da propriedade e que no interior da bolsa estavam todos seus documentos e as chaves de sua casa, convence a funcionária responsável pela chapelaria e recebe a bolsa, da qual se apossa. Ao retirar-se do local, apura que a bolsa valia R$ 130,00 e tinha em seu interior coisas sem nenhuma importância. Tícia responderá pelo crime de:
a) furto simples, podendo ser aplicado em seu favor o privilégio em face do pequeno valor da coisa.
b) furto qualificado pela utilização da fraude, não podendo ser beneficiada pelo privilégio, pois este é incompatível com o furto qualificado.
c) estelionato, podendo ser aplicado em seu favor o privilégio em face do pequeno prejuízo causado.
d) furto simples, pois o valor do bem não pode ser considerado pequeno.
4. Diferencie:
a) Furto qualificado pela fraude x estelionato
b) Furto x apropriação indébita
5. É possível a aplicação da causa de aumento de pena do art. 155, § 1º nas hipóteses de furto qualificado? Explique a discussão doutrinária e jurisprudencial a respeito.
6. No caso do furto de energia elétrica, é possível extinguir a punibilidade do agente que paga o débito antes do recebimento da denúncia? aponte os argumentos favoráveis e contrários
image1.jpeg

Mais conteúdos dessa disciplina