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12 Glossário Aformosentar: embelezar Afear: tornar feio; Canárias: arquipélago no Oceano Atlântico, próximo à costa africana, usado como ponto de passagem na navegação. (Grande Canária: uma das ilhas do arquipélago das Canárias.) Légua: antiga unidade de medida de distância. No contexto náutico, equivale a aproximadamente 5,5 km. Cabo Verde: arquipélago africano usado como rota na navegação para as Índias e, neste caso, para o Brasil. (Ilha de São Nicolau: uma das ilhas que compõem o arquipélago de Cabo Verde.) Oitavas de Páscoa: os oito dias após o domingo de Páscoa; referência religiosa ao calendário litúrgico. Botelho e Rabo-de-asno: tipos de alga marinha ou planta aquática flutuante encontrada no mar. Mareante: marinheiro ou marujo; Furabuchos: aves marinhas também chamadas de bobo-pequeno. Horas de véspera: final da tarde, início da noite (por volta das 18h). Leia o texto. Senhor, posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu. [...] E digo quê: A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.[...] E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas - os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El-Rei D. Manuel. São Paulo: Dominus, 1963, p. 1-2 Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2003. Acesso em: 16 maio 2025. ATIVIDADE 1 D028_P Identificar o tema de um texto. O assunto desse texto é A) o cotidiano dos marinheiros durante a viagem. B) a descrição da viagem e da chegada à nova terra. C) as dificuldades da navegação no Atlântico Sul. D) a descrição dos costumes indígenas encontrados. E) o comércio marítimo entre Portugal e as ilhas africanas. 13 Leia o texto a seguir. [...] Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou- lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. batéis: pequenas embarcações a remo usadas para transporte entre navios e terra firme. esquifes: barcos menores, geralmente usados como auxiliares das naus. Serviam para transportar pessoas ou cargas em distâncias curtas. naus: grandes embarcações utilizadas em viagens marítimas longas. rijamente: com energia, rapidez ou vigor. Aqui indica que os indígenas vinham com firmeza em direção ao batel. barrete: um tipo de gorro ou touca usado na época pelos portugueses. carapuça: touca ajustada à cabeça, usada para proteger do frio ou do sol. sombreiro / sombreiro de penas de ave: chapéu de abas largas que protege do sol. No contexto indígena, refere-se ao cocar usado por diferentes etnias. ramal: conjunto de contas ou enfeites pendurados, como um colar. aljôfar: tipo de pérola muito pequena e irregular, bastante valorizada na época. volveu: o mesmo que voltou. Glossário CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El-Rei D. Manuel. São Paulo: Dominus, 1963, p. 2 Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2003. Acesso em: 16 maio 2025. Nesse trecho, Pero Vaz de Caminha, autor da primeira carta sobre a terra do Brasil, tratou de qual assunto? ____________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________________________________________ ATIVIDADE 2 D028_P Identificar o tema de um texto. 14 CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El-Rei D. Manuel. São Paulo: Dominus, 1963, p. 7-8. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2003. Acesso em: 16 maio 2025. Leia o texto a seguir. [...] Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Glossário Povoação: pequeno agrupamento de casas; aldeia. Nau capitaina: principal embarcação de uma expedição naval. Ilhargas: lados de uma construção; laterais. Esteios: pilares ou colunas de madeira que sustentam a estrutura do telhado. ATIVIDADE 3 D062_P Identificar discursos que contribuíram para a formação da identidade nacional em textos da literatura brasileira. Nesse texto, qual elemento contribuiu para a formação da identidade nacional? A) A apresentaçãodas casas e costumes dos povos indígenas. B) A exaltação dos navios europeus e as construções locais. C) A idealização dos colonizadores pelas terras recém-descobertas. D) A recusa dos indígenas em manter contato com os portugueses. E) A imposição da religiosidade africana nas terras recém-descobertas. Leia o texto a seguir. Capítulo sétimo DA CAPITANIA DO ESPÍRITO SANTO A Capitania do Espírito Santo está cinquenta léguas de Porto Seguro em vinte graus, da qual é Capitão e governador Vasco Fernandes Coutinho. Tem um engenho somente, tira-se dele o melhor açúcar que há em todo o Brasil. Pode ter até cento e oitenta vizinhos. Há dentro da povoação um mosteiro de padres da Companhia de Jesus. Tem um rio muito grande onde os navios entram, no qual se acham mais peixes-bois que noutro nenhum rio desta Costa. No mar junto desta Capitania matam grande cópia de peixes grandes e de toda maneira, e também no mesmo rio há muita abundância deles. Nesta Capitania há muitas terras e muito largas, onde os moradores vivem muito abastados assim de mantimentos da terra como de fazendas. E quando se tomou a fortaleza do Rio de Janeiro desta mesma Capitania do Espírito Santo sustentaram toda a gente e proveram sempre de mantimentos necessários enquanto estiveram na terra os que defendiam. GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: história da província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. p. 46. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/188899. Acesso em: 16 maio 2025. Glossário Capitania: divisão territorial e administrativa do Brasil colonial, entregue a um donatário para colonização e exploração. Engenho: instalação colonial onde se processava a cana-de-açúcar, transformando-a em açúcar, melaço ou cachaça. Companhia de Jesus: ordem religiosa católica fundada por Inácio de Loyola, também conhecidos como jesuítas. Cópia (no contexto): grande quantidade. Abastados: com muitos bens e recursos financeiros. 15 D062_P Identificar discursos que contribuíram para a formação da identidade nacional em textos da literatura brasileira. Nesse texto, qual elemento que contribuiu para a formação da identidade nacional está em evidência? A) A valorização da distância entre a capitania e Porto Seguro. B) A crítica à presença dos colonos portugueses nas capitanias. C) A descrição da quantidade de moradores que a capitania poderia comportar. D) A explicação das dificuldades enfrentadas na navegação dos rios brasileiros. E) A exaltação da produção de açúcar e da abundância de recursos naturais. ATIVIDADE 4 Leia o texto a seguir. Capítulo segundo DOS COSTUMES DA TERRA [...] A maior parte das camas do Brasil são redes, as quais armam numa casa com duas cordas e lançam-se nelas a dormir. Este costume tomaram os índios da terra. Os moradores destas Capitanias tratam-se muito bem e são mais largos que a gente deste Reino, assim no comer como no vestir de suas pessoas, e folgam de ajudar uns aos outros com seus escravos e favorecem muito os pobres que começam a viver na terra. Isto se costuma nestas partes: e fazem outras muitas obras pias por onde todos têm remédio de vida e nenhum pobre anda pelas portas a pedir como neste Reino. GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: história da província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. p. 56. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/188899. Acesso em: 16 maio 2025. Nesse texto, qual elemento contribuiu para a formação da identidade nacional? A) A crítica direta aos costumes religiosos das Capitanias. B) A desvalorização da cultura europeia nas Capitanias. C) A imagem dos habitantes como povo cordial e solidário. D) A presença dos escravos como base da cultura local. E) A exaltação exclusiva dos hábitos indígenas. D062_P Identificar discursos que contribuíram para a formação da identidade nacional em textos da literatura brasileira. ATIVIDADE 5 Glossário Largos: generosos, desprendidos; pessoas que gostam de compartilhar e ajudar. folgam: sentem prazer, têm satisfação em fazer algo. obras pias: ações de caridade, práticas religiosas ou sociais feitas em benefício dos mais necessitados. remédio de vida: meios de sobrevivência ou sustento. Reino: referência ao Reino de Portugal, na época em que o Brasil era colônia. 16 Leia o texto a seguir. Capítulo sexto DAS FRUTAS DA TERRA Uma fruta se dá nesta terra do Brasil muito saborosa, e mais prezada de quantas há. Cria-se uma planta humilde junto do chão, a qual tem umas pencas como cardo, a fruta dela nasce como alcachofras e parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, chamam-lhes ananases, e depois de maduros têm um cheiro muito excelente, colhem-nos como são de vez, e com uma faca tiram-lhes aquela casca grossa e fazem-nos em talhadas e desta GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: história da província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. p. 64. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/188899. Acesso em: 16 maio 2025. prezada: valorizada, estimada. cardo: planta espinhosa, semelhante ao alcachofra. alcachofras: planta comestível que forma uma flor arredondada. ananases: abacaxi. de vez: maduras, no ponto certo para serem colhidas. talhadas: fatias, pedaços cortados. cardais: plantações de cardos (plantas espinhosas) pêros repinaldos: variedade antiga de pêras, compridas e doces. fel: substância amarga produzida pelo fígado. alqueires: antiga unidade de medida. Glossário maneira se comem, excedem no gosto a quantas frutas há neste reino e fazem todos tanto por esta fruta, que mandam plantar roças dela, como de cardais: a este nosso reino trazem muitos destes ananases em conserva. Outra fruta se cria numas árvores grandes, estas se não plantam, nascem pelo mato muitas; esta fruta depois de madura é muito amarela: são como pêros repinaldos compridos, chamam- lhes cajus, têm muito sumo, e cria-se na ponta desta fruta de fora um caroço como castanha, e nasce diante da mesma fruta, o qual tem a casca mais amargosa que fel, e se tocarem com ela nos beiços dura muito aquele amargor e faz empolar toda a boca; pelo contrário este caroço assado, é muito mais gostoso que amêndoa; são de sua natureza muito quentes em extremo. Há na terra tantos destes caroços que os medem aos alqueires. Também há uma fruta que lhe chamam bananas, e pela língua dos índios pacovas: há na terra muita abundância delas: parecem-se na feição com pepinos, nascem numas árvores muito tenras e não são muito altas, nem têm ramos senão folhas muito compridas e largas. [...] ATIVIDADE 6 O assunto principal desse texto é A) a relação entre frutas e doenças bucais. B) a influência dos índios na alimentação colonial. C) o modo de cultivo e preparo de frutas tropicais. D) a variedade de frutas brasileiras e suas características. E) a comparação entre a flora brasileira e a portuguesa. D028_P Identificar o tema de um texto. 17 GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: história da província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. p. 129-130. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/188899. Acesso em: 16 maio 2025. Leia o texto a seguir. Capítulo IX DO MONSTRO MARINHO QUE SE MATOU NA CAPITANIA DE SÃO VICENTE, ANO 1564 Na capitania de São Vicente sendo já alta noite a horas em que todos começavam de se entregar ao sono, acertou de sair de fora de casa uma índia escrava do capitão; a qual lançando os olhos a uma várzea que está pegada com o mar, e com a povoação da mesma capitania, viu andar nela este monstro, movendo-se de uma parte para outra com passos e meneios desusados, e dando alguns urros de quando em quando tão feios, que como pasmada e quase fora de si se veio ao filho do mesmo capitão, cujo nome era Baltasar Ferreira, e lhe deu conta do que vira, parecendo-lhe que era algumavisão diabólica; [...] Então se levantou ele muito depressa e lançou mão a uma espada que tinha junto de si [...] e pondo os olhos naquela parte que ela lhe assinalou viu confusamente o vulto do monstro ao longo da praia, sem poder divisar o que era, por causa da noite lhe impedir, e o monstro também ser cousa não vista e fora do parecer de todos os outros animais. E chegando-se um pouco mais a ele para que melhor se pudesse ajudar da vista, foi sentido do mesmo monstro: o Glossário várzea: terreno plano, geralmente próximo a rios ou ao mar, que pode ser alagado; planície. meneios: movimentos, gestos, balanços. desusados: pouco comuns, estranhos, diferentes do habitual. urros: sons fortes e estrondosos, parecidos com gritos ou rugidos. pasmada: espantada, surpresa, assustada. cousa: forma antiga da palavra “coisa”. pareceres: aparências, formas, aspectos Os índios da terra lhe chamam em sua língua ipupiara, que quer dizer demônio da água. Alguns como este se viram já nestas partes, mas acham-se raramente. E assim também deve de haver outros muitos monstros de diversos pareceres, que no abismo desse largo e espantoso mar se escondem, de não menos estranheza e admiração; [...] qual em levantando a cabeça, tanto que o viu começou de caminhar para o mar de onde viera.[...] ATIVIDADE 7 D062_P Identificar discursos que contribuíram para a formação da identidade nacional em textos da literatura brasileira. Nesse texto, qual elemento contribuiu para a formação da identidade nacional? A) O medo dos colonos diante dos animais locais. B) A transmissão das lendas locais no imaginário popular. C) O uso da espada, arma europeia, contra o monstro. D) A ideia do mar como um lugar tranquilo e sem perigo. E) A comprovação científica da existência de monstros do mar. 18 Leia o texto a seguir. C A P Í T U L O XLV EM QUE SE DIZ QUEM SÃO OS GOITACASES, SUA VIDA E COSTUMES. Este gentio foi o que fez despovoar a Pedro de Góis, e que deu tantos trabalhos a Vasco Fernandes Coutinho. Esse gentio tem a cor mais branca que os que dissemos atrás, e tem diferente linguagem; é muito bárbaro; o qual não granjeia muita lavoura de mantimentos: plantam somente legumes, de que se mantêm, e a caça, que matam às flechadas, porque são grandes flecheiros. Não costuma esta gente pelejar no mato, mas em campo descoberto, nem são muito amigos de comer carne humana, como o gentio atrás; não dormem em redes, mas no chão, com folhas debaixo de si. Costumavam estes bárbaros, por não terem outro remédio, andarem no mar nadando, esperando os tubarões com um pau muito agudo na mão, e, em remetendo o tubarão a eles, lhe davam com o pau, que lhe metiam pela garganta com tanta força que o afogavam, e matavam, e o traziam à terra, não para o comerem para o que se não punham em tamanho, perigo, senão para lhes tirar os dentes, para os engastarem nas pontas das flechas. SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. p.75 Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do? select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 16 maio 2025. Glossário gentio: termo antigo que, no contexto, é usado para se referir aos povos que não eram cristãos. despovoar: fazer com que um lugar fique sem habitantes; obrigar a população a fugir ou abandonar a área. granjeia: cultiva, produz; pelejar: lutar, guerrear, agudo: com ponta fina e afiada. engastarem: encaixarem, fixarem algo dentro de outra coisa; no caso, prender os dentes nas pontas das flechas. O assunto desse texto é A) a descrição dos costumes dos goitacases, como a pesca de tubarões para confecção de flechas. B) a descrição física dos goitacases, destacando as características físicas e psicológicas desse grupo em contraste com as outras etnias. C) a explicação sobre a origem da língua falada pelos indígenas no litoral brasileiro. D) a denúncia das violências cometidas contra os povos nativos pelos colonizadores europeus. E) a comparação entre os hábitos dos indígenas e os costumes dos colonizadores portugueses. ATIVIDADE 8 D028_P Identificar o tema de um texto. 19 O assunto desse texto é A) o isolamento das nações indígenas nas florestas. B) a destruição das cidades pelos portugueses. C) o número de portugueses que vieram para o Brasil. D) a oposição entre os indígenas de diferentes etnias. E) a diversidade indígena e suas diferentes línguas. CARDIM, Fernão. Tratados da terra e da gente do Brasil. p. 95. Disponível em: https://fundar.org.br/publicacoes/biblioteca-basica-brasileira/tratados-da-terra-e-da-gente-do-brasil/. Acesso em: 16 maio 2025. Glossário corda: faixa, extensão territorial (geralmente linear) discrepam: diferem, apresentam pequenas diferenças (neste caso, em palavras da língua falada). copiosa: abundante, rica em palavras e expressões. composições: aqui, refere-se às formas complexas de construção de palavras ou expressões na língua indígena. Capitania de São Vicente: localizada no atual estado de São Paulo. ATIVIDADE 9 D028_P Identificar o tema de um texto. Leia o texto a seguir. DA DIVERSIDADE DE NAÇÕES E LÍNGUAS Em toda esta província há muitas e várias nações de diferentes línguas, porém uma é a principal, que compreende algumas dez nações de índios: estes vivem na costa do mar, e em uma grande corda do sertão, porém são todos esses de uma só língua ainda que em algumas palavras discrepam e esta é a que entendem os portugueses; é fácil, e elegante, e suave, e copiosa, a dificuldade dela está em ter muitas composições; porém dos portugueses, quase todos os que vêm do Reino e estão cá de assento e comunicação com os índios a sabem em breve tempo, e os filhos dos portugueses cá nascidos a sabem melhor que os portugueses, assim homens como mulheres, principalmente na Capitania de São Vicente, e com essas dez nações de índios têm os padres comunicação por lhes saberem a língua [...] Os primeiros dessa língua se chamam potiguaras senhores da Paraíba, [...] Perto desses vivia grande multidão de gentio que chamam Viatã, destes já não há nenhuns, [...] Outros há a que chamam tupinabas: estes habitam do Rio Real até junto dos Ilhéus; estes entre si eram também contrários, os da Bahia com os do Camamu e Tinharê. Por uma corda do Rio de São Francisco vivia outra nação a que chamavam Caetés, e também havia contrários entre estes e os de Pernambuco. [...] Dos Ilhéus, Porto Seguro até Espírito Santo habitava outra nação, que chamavam tupinaquim; estes procederam dos de Pernambuco e se espalharam por uma corda do sertão, multiplicando grandemente, mas já são poucos; [...] Outra nação mora no Espírito Santo a que chamam Tememinó eram contrários dos tupinaquins, mas já são poucos. Outra nação que se chama Tamoios, moradores do Rio de Janeiro, estes destruíram os portugueses quando povoaram o Rio [...] 20 Leia o poema a seguir. Em Deus, meu criador Não há cousa segura. Tudo quanto se vê se vai passando. A vida não tem dura. O bem se vai gastando. Toda criatura passa voando. Em Deus, meu criador, está todo meu bem e esperança meu gosto e meu amor e bem-aventurança. Quem serve a tal Senhor não faz mudança. Contente assim, minha alma, do doce amor de Deus toda ferida, o mundo deixa em calma, buscando a outra vida, na qual deseja ser toda absorvida. Do pé do sacro monte meus olhos levantando ao alto cume, vi estar aberta a fonte do verdadeiro lume, que as trevas do meu peito todas consome. Correm doces licores das grandes aberturas do penedo. Levantam-se os errores, levanta-se o degredo e tira-se a amargura do fruto azedo! ANCHIETA, José de. Em Deus, meu criador. p. 4. In: AZEVEDO FILHO, Leodegário A. de. Anchieta e a literatura barroca em latim. Revista Letras, Curitiba, n. 58, p. 83–96, 2001. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/letras/article/viewFile/19272/12561. Acesso em: 16 maio 2025. OPENAI. Imagem gerada por inteligência artificial. ChatGPT, 2025. ATIVIDADE 10 Nesse texto, qual elemento contribuiu para a formação da identidade nacional? A) A crítica à colonização portuguesa. B) A exaltação dacultura indígenas. C) A apresentação de valores cristãos. D) A valorização da natureza. E) A idealização amorosa. D062_P Identificar discursos que contribuíram para a formação da identidade nacional em textos da literatura brasileira. dura: duração bem-aventurança: felicidade plena e eterna, geralmente associada à salvação ou à vida ao lado de Deus. cume: ponto mais alto de uma montanha; no poema, simboliza elevação espiritual ou proximidade com o divino. penedo: rocha grande. errores: forma antiga da palavra “erros”; aqui representa os pecados ou desvios da alma que são purificados. degredo: castigo que consiste em ser afastado ou exilado de um lugar; no poema, simboliza o afastamento do sofrimento ou do mundo terreno. Glossário