Prévia do material em texto
REDES PARA IOT AULA 6 Prof. Gian Carlo Brustolin 2 CONVERSA INICIAL Neste estudo, temos por objetivo apresentar alguns padrões de interface de comunicação para a conectividade de objetos IoT, ou que possam vir a ser um padrão interessante para esse fim. Para vislumbrar os padrões que podem se tornar soluções viáveis entre as tecnologias de LPWAN privadas, um bom norte é seguir as iniciativas de redes sem fio, aplicadas em larga escala, nas implantações de cidades inteligentes. O padrão de redes Wi-SUN (Wireless Smart Utility Network) foi idealizado pelo IEEE para o atendimento de smart grid das empresas públicas de serviços. Essas redes parecem apresentar bons resultados em implantações FAN (Field Area Networks) para medições de energia, água e outros serviços públicos. Criar um padrão LPWAN privado para essas empresas pode, inicialmente, parecer uma incongruência. Por que não usar o serviço público de telefonia celular como base? Tradicionalmente, as empresas de serviços públicos buscam soluções privadas por questões de segurança. Em caso de colapso da rede pública de telefonia, esses serviços devem perseverar. Assim, entender o Wi-SUM depende do conhecimento de alguns conceitos do ambiente para o qual ele foi desenvolvido. Considerando esse contexto, vamos abordar rudimentos de smart cities (cidades inteligentes, ou ainda cidades digitais), com suas soluções tecnológicas, antes de mergulhar, ainda nesta aula, em detalhes do protocolo desse padrão. TEMA 1 – SMART CITIES E REDES ELÉTRICAS INTELIGENTES A utilização de recursos tecnológicos ligados à computação e à comunicação (os chamados TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação), como forma de permitir a otimização da prestação de serviços públicos, não é em si um paradigma novo. A evolução das TIC, principalmente com o surgimento dos objetos IoT, conferiu a esse paradigma, entretanto, uma nova leitura. Seria possível, com o uso desses objetos, otimizar a entrega de serviços tangíveis, como transporte, energia, água e gás. Os mesmos objetos também poderiam ser fontes de dados em tempo real, permitindo a avaliação e o planejamento de outros serviços. O estudo do uso de TIC e objetos IoT para a prestação de serviços públicos em uma geografia urbana é conhecido como smart cities. 3 1.1 Smart cities A ideia de cidades inteligentes é recente (menos de 10 anos). Surge como resposta à tendência mundial de concentração populacional em centros urbanos. Essa aglomeração não é necessariamente negativa, posto que permite maior eficiência em processos de distribuição e produção. Porém, mas para que tais benefícios sejam possíveis, a urbanização precisa ser bem administrada (Lofhagen, 2020). Soluções tecnológicas para o atendimento automazidado da população, bem como o uso de inteligência de dados para o planejamento urbano, são inevitáveis na busca por uma boa administração. Lofhagen (2020) elenca seis dimensões de análise para pensar a tecnologia urbana pública. Entre tais dimensões está, por exemplo, a economia inteligente. Essa dimensão envolveria a criação, pelo Estado, de um ambiente econômico propício para o desenvelvimento de indivíduos e empresas, otimizando serviços (como eduação e saúde pública) em função de necessidades locais. Para facultar essa particularização, grandes volumes de dados precisam ser adquiridos e tratados. A criação de um ambiente urbano inteligente, com controle de iluminação, temperatura, além de facilidades de acesso a informações urbanas relevantes, é uma outra dimensão estudada pela autora. Outras dimensões são a mobilidade inteligente e a governança inteligente. Esta última viabiliza a participação constante da população nas tomadas de decisão dos administradores públicos. Além desses conceitos genéricos ligados à administração estatal, existem outros, mais pragmáticos, que se referem a empresas prestadoras de serviços públicos (conhecidas como utilities, em inglês), como distribuidoras de energia elétrica e companhias de água e esgoto. No caso de uma utility de energia, por exemplo, os processos de automação e iteligência não se limitam à iluminação pública e ao tratamento de clientes especiais, como hospitais e orgãos públicos de assistência à população. A própria administração da entrega de energia, mantendo a estabilidade e a disponibilidade da rede, é um processo que tradicionalmente envolve inteligência computacional adaptativa. Mais recentemente, soluções de microgeração, como energia solar, instaladas nas residências e prédios, fizeram surgir a necessidade de medição e operação individual de cada cliente da rede em tempo real. 4 O aporte de tecnologia neste âmbito em particular é bastante significativo, ao ponto de ser considerado o foco inicial de implantação de inteligência urbana distribuída. Vamos entender um pouco mais esse tema. 1.2 Redes elétricas inteligentes O uso de tecnologia nas redes elétricas não é algo novo. A operação do sistema elétrico nos três níveis (geração, transmissão e distribuição) sempre contou com uma boa dose de inteligência computacional. E não poderia ser diferente, porque a interligação do sistema elétrico permite a operação em praticamente infinitas combinações de geradoras, linhas de transmissão, linhas de subtransmissão, linhas de distribuição e ramais. Apesar dessa presença computacional precoce, a evolução da tecnologia nas próprias redes sempre foi lenta. A exigência por eficiência sustentável, o surgimento de objetos capazes de operar as redes de distribuição em tempo real, bem como a sedimentação de tecnologias de microgeração, viraram as utilities de energia de cabeça para baixo na última década. Segundo Berger e Iniewski (2015), “uma variedade de serviços de energia, incluindo a resposta à demanda, gerenciamento de carga, geração distribuída, tarifação em tempo real e automação de subestação pode ser alcançada através da incorporação de tecnologias avançadas de informação aos sistemas de energia”, obrigando as empresas a uma intensa atualização tecnológica. Esse aporte tecnológico leva às redes elétricas inteligentes (REI), cuja base de operação é uma rede de comunicação que enfrenta desafios atípicos, posto que é preciso suportar sistemas elétricos altamente interligados e heterogêneos. Ainda segundo Berger e Iniewski (2015), os requisitos dessa rede são confiabilidade (pelo menos maior do que a da rede elétrica em si), escalabilidade, disponibilidade, segurança (incluindo a total privacidade e a confidencialidade das comunicações), baixa latência (para atendimento, por exemplo, da teleproteção, com tempos menores que 10ms), QoS rígido, eficácia do custo e interoperabilidade. A arquitetura da rede elétrica inteligente inclui quatro camadas: aplicação, comunicação, controle de potência e camada de sistema. Da mesma forma que na estrutura OSI, cada camada da rede é independente das demais, com 5 interfaces padronizadas com as camadas superior e inferior. A figura a seguir ilustra a divisão em camadas. Figura 1 – As quatro camadas da REI Considerando a terceira camada, a que mais nos interessa, observamos que ela é composta de três níveis de comunicação: local, rede próxima ou de campo e de longa distância. Essas redes têm características um pouco distintas do que estamos acostumados em computação. Por conta disso, vamos descrever essa camada ainda neste tema. Como vimos na figura, existem duas camadas abaixo da camada de comunicação: controle de energia, com destaque para o sistema supervisório e de aquisição de dados, permitindo a tomada de decisões de operação, e a camada de base, que é o sistema de energia, composta pela tríade clássica dos sistemas elétricos (geração, transmissão e distribuição). Fica claro, pelo diagrama, que a camada de comunicaçãoé responsável por conduzir os dados obtidos na operação da rede para o centro de decisão (camada de aplicação), reconduzindo posteriormente os sinais de controle e gestão da rede elétrica para a camada inferior, do sistema de energia, de modo a operar a rede. Vamos analisar este tema em mais detalhes. 1.3 Camada de comunicação em REI Redes de computadores com as quais temos intimidade operam com redes amigáveis, ou seja, à exceção de invasores esporádicos, todos os hosts de uma rede local fazem parte de uma mesma organização, cuja operação tem 6 um objetivo comum. Em uma REI, as redes congregam usuários distintos e mesmo concorrentes. Por exemplo, uma rede de campo FAN em um distrito industrial pode congregar vários objetos de indústrias concorrentes entre si. Daí a característica diversa das redes de computadores que conhecemos em relação às redes de objetos de uma REI. A rede local de uma REI é conceitualmente diferente de uma LAN tradicional. Há um nível HAN (Home Area Network ou rede residencial) definido para conter, eventualmente, os objetos inteligentes domésticos. Ainda no nível local, temos a rede predial, BAN (Building Area Network), que pode congregar HANs ou ainda ser um ente independente, no caso de prédios monocomerciais. No mesmo nível local, se a instalação atendida for uma indústria, teremos a rede IAN (Industrial Area Network). O próximo nível de rede será a rede de vizinhança, NAN (Neighborhood Area Network), e a rede de campo, FAN (Field Area Network). A distinção entre esses dois tipos na verdade não mais existe. Porém, originalmente, as redes que atendiam dispositivos de controle de rede ou de automação da distribuição de energia eram chamadas FAN. As redes que apenas congregavam equipamentos de medição dos clientes recebiam a denominação NAN. Essas redes estão se tornando gradativamente mais difíceis de distinguir. Finalmente, os dados serão entregues a uma rede de longa distância, WAN, incluindo a rede de backhaul, o núcleo da rede e a rede metropolitana. Essa estrutura hierárquica está ilustrada na figura a seguir. Figura 2 – Comunicação hierárquica da REI Fonte: Elaborado com base em Berger; Iniewski, 2015. 7 Nosso estudo, por estar focado em redes para IoT, se concentra no nível das redes locais e de sensoriamento e automação NAN/FAN. Dada a brevidade deste estudo, não vamos abordar temas interessantes, como carriers residenciais e de rede de baixa e média tensão (PLCs, HomePlug, IEEE 1901, por exemplo), soluções que usam a própria linha de transmissão como meio de comunicação, com aplicação mais voltada às empresas de energia elétrica. 1.4 Tecnologias sem fio para redes locais e NAN/FAN em REI Em soluções implementadas ou em fase de implementação, as tecnologias sem fio mais frequentes, para o nível de rede local, são padrões 802.11, já estudados, Z-Wave, ZigBee, LoRa e IEEE 802.13.4 (Berger; Iniewski, 2015). O padrão 802.13.4 engloba várias definições de tecnologia para as redes de WPAN e, genericamente, para redes de baixas taxas de transmissão, em áreas próximas e de baixo custo e consumo, a exemplo do próprio ZigBee, cuja especificação tem origem nesse padrão. O WiSUN, que será o nosso foco de estudo nesta aula, também tem a mesma origem, tendo recebido a designação 802.15.4g pelo IEEE. Para as redes NAN/FAN, são usados os mesmos padrões, mas neste nível algumas soluções de maior alcance são alternativas viáveis, a exemplo de 802.16 (WiMax), NB IoT e NB LTE, já estudados anteriormente. TEMA 2 – INTRODUÇÃO AO WISUN O Wi-SUM é baseado no padrão IEEE 802.15.4g para camada física (PHY) e no IEEE 802.15.4e para MAC, estabelecendo uma rede de baixíssimo consumo de energia, com boa densidade de objetos conectados por rede (até cinco mil) e alta interoperabilidade. A velocidade da rede é focada em IoT, 300 kbps, alcance elevado (4 km). Opera tanto na faixa baixa de UHF como em 2,4 GHz para conexões indoor. A novidade desse padrão em relação ao LoRa, por exemplo, é a sua potencial baixa latência, em torno de 20 ms, o que a torna viável para operações de tempo real em controle de provimento de serviços públicos essenciais, como gás, água e eletricidade. Outro fator distintivo da tecnologia é a especificação pela WiSUM Aliance de tempo de operação. Um dispositivo WiSUM deve ser capaz de operar, segundo o protocolo de máxima 8 economia de energia (que em breve estudaremos), ao menos 15 anos sem reposição de baterias (Wisum Alliance, 2019, p. 9). 2.1 Histórico O padrão WiSUN foi inicialmente idealizado para resolver o problema de comunicação sem fio entre sistemas inteligentes de medição de energia elétrica e sistemas de gerenciamento de energia residencial – ou seja, para permitir a otimização de consumo residencial. O primeiro teste de escala foi realizado no Japão, com dezenas de milhões de consumidores. Dado o sucesso do padrão, foram feitos estudos de novos campos de aplicação, como agricultura de precisão, previsão de desastres e sistemas de suporte inteligente (Harada et al., 2017). As primeiras especificações, alteradas após o sucesso da interface, seguiam as seguintes limitações: espectro de frequência liberado para a operação de 920 MHz e máxima potência de TX, 20 mW, o que resultou em um alcance máximo de 500 m. Esses parâmetros não poderiam atender às novas demandas. Porém, elevar a potência de TX reflete diretamente no consumo do equipamento, o que limita a flexibilidade de utilização. Dessa forma, foram concebidas três categorias topológicas de WiSUM, conforme a sua aplicação. 2.2 Topologias WiSUM Três foram as categorias idealizadas para o padrão: comunicação em espaço aberto, comunicação urbana e comunicação móvel. Para comunicação em espaço aberto, o padrão atende o monitoramento e o sensoriamento para gerenciamento de energia, agricultura e pecuária de precisão, por exemplo. O sistema operará em PTM, com cobertura máxima entre 1 e 5 km. A comunicação tende a ser predominantemente LOS. Em caso de indisponibilidade temporária da estação rádio-base (BS – Base Station), o rádio-cliente poderá usar outro rádio-cliente para intermediar a comunicação (protocolo multi-hop). Nessa categoria, a BS pode ser composta por um rádio WiSUM ou por vários rádios operando em diversidade, desde que a eles sejam agregadas uma unidade de processamento de sinais (SPU) para seleção, tratamento e gerenciamento dos transceptores. A figura a seguir ilustra essas coposições. 9 Figura 3 – Composições WiSUM: operação em espaço aberto Fonte: Elaborado com base em Harada et al., 2017, p. 1034. Já na categoria de comunicação urbana existe o atendimento a edifícios inteligentes, bem como o sensoriamento e o monitoramento de dispositivos móveis. A BS é instalada no próprio prédio e a comunicação se dá em NLOS. A falta de linha de visada geralmente obrigará o protocolo a operar em multi-hop. Na categoria de comunicação móvel, o foco é o atendimento a veículos inteligentes e a transportes urbanos multimodais inteligentes. As BSs operam em prédios de modo similar ao sistema celular, objetivando garantir comunicação 10 LOS sempre que possível. Um sistema de gerenciamento das várias BSs deverá ser implementado. Agora que já conhecemos os rudimentos, as facilidades e os objetivos dessa tecnologia, podemos mergulhar nos protocolos das camadas PHY e MAC, de modo a entender o padrão por uma aproximação técnica. TEMA 3 – CAMADA PHY WISUM Já antecipamos que o WiSUM se baseia no padrão IEEE 802.15.4, como as demais soluções para atendimento de sensores e acionadores. A especificação das camadas física e de enlace/rede dessa tecnologia estão descritas precisamente nos padrões 802.15.4g e 802.15.4e. Neste tema, vamos estudar a camada física WiSUM, responsável pelo surpreendente desempenho dos transceptores dessa tecnologia.3.1 Visão geral da IEEE 802.15.4g A norma IEEE 802.15.4g é de fato uma extensão da 802.15.4, que trata genericamente de comunicações sem fio de baixa taxa de transmissão ou LDRW (Low Data Rate Wireless). Essa extensão foi criada para acomodar especificações de medições por objetos inteligentes de serviços públicos, alterando algumas características da camada PHY da norma original, o que gera a necessidade de alterar também a camada MAC, o que levou à criação da norma 802.15.4e, que vamos estudar ainda nesta aula. A nova norma estabelece três PHYs ou três possibilidades de modulação para os rádios: multi-rate FSK (MR-FSK), MRoffset QPSK e MR-OFDM. A primeira técnica, MR-FSK, atraiu a maior parte dos fabricantes interessados no desenvolvimento dos transceptores. Atualmente, é onipresente nessa tecnologia. Trataremos a seguir dessa técnica de modulação aplicada ao WiSUN. 3.2 Modulação de sinal Como vimos, a modulação do sinal de dados no WiSUM é feita por chaveamento de frequência. A tabela a seguir ilustra alguns parâmetros de modulação MRFSK que serão tratados na sequência. 11 Tabela 1 – Parâmetros de frequência WiSUM Fonte: Elaborado com base em Harada et al., 2017, p. 1035. Na tabela, temos as bandas de frequências utilizadas na Europa e nos EUA. No Brasil, a liberação da faixa provavelmente será mantida segundo os parâmetros europeus. Observe que, na descrição da modulação, ocorre a precedência da expressão filtered, ou “filtrada”, de forma a indicar que para operar nessas faixas de frequência (dominadas pelas operadoras de celular) é necessário filtrar o FSK, limitando o espalhamento nesse espectro. Depois dessa expressão, temos um número que indica a amplitude da constelação da modulação, que pode ser entendida como o número de portadoras ou fases envolvidas. A expressão do sinal de transmissão FSK é dada por: Onde: ƒc e Ǿ(t) são a frequência e a fase da portadora. A filtragem é feita por um filtro gaussiano, cuja expressão matemática é: Onde: e B é a banda resultante da filtragem. A filtragem de um sinal FSK por um filtro gaussiano resulta na modulação GFSK, que é a técnica presente na camada PHY do WiSUM. 3.3 Quadro de transmissão 12 O quadro de transmissão MR-FSK está ilustrado na figura a seguir. Basicamente, há um cabeçalho de sincronização composto de uma sequência alternada de 0 e 1, que pode ter entre quatro e mil bytes. Após essa sequência, temos um delimitador, seguido do controle/comprimento do frame e finalmente dos dados. Figura 4 – Quadro de transmissão Sinc. 01010101... Delimitador Comprimento DADOS DADOS DADOS O delimitador não só indica o final da sequência de sincronização, como também informa se há algoritmo de correção de erro. Além disso, aponta qual dos dois tipos possíveis de correção de erro foi implementada na transmissão do quadro, considerando a norma. A correção de erro, se habilitada, é feita por algoritmo de correção, com redundância, de código convolucional, que cobre tanto os dados como o segmento de comprimento do frame. Os campos iniciais são transmitidos sem passar pelo algoritmo de correção. O campo de controle, composto por 2 bytes, contém outras informações além do comprimento do campo de dados. No primeiro byte, os primeiros cinco bits não indicam o comprimento, mas fornecem informações sobre a necessidade de correção de padrões longos de 0 e 1 (Data Whitening), ou ainda se houve variação de taxa de transmissão. A correção de padrões longos é uma técnica bastante usada em rádio comunicação, uma vez que longas sequências de um tipo de bit geram invariância no sinal transmitido, alterando a banda total do sinal. A correção é feita por algoritmos próprios definidos pela União Internacional de Telecomunicações. A implementação de DW só deve ser feita caso seja detectado um padrão recorrente de invariância, uma vez que há retardo no tratamento dos dados e ocupação da capacidade de processamento do equipamento. 3.4 Demodulação O processo de demodulação segue basicamente a sequência inversa à modulação, com a inserção de um bloco de compensação da portadora. Neste bloco, o demodulador filtra a portadora para que, comparando-a com o padrão esperado, seja possível obter informações para o tratamento do sinal recebido. 13 Após a filtragem, o estágio demodulador GFSK precisa ser sincronizado com o sinal recebido, para que compreenda corretamente as variações de frequência e fase. Demodulado o sinal, uma nova fase de sincronização é encetada para a obtenção do clock. Obtido o clock, será possível extrair do quadro recebido os campos delimitador e controle, que orientam a decodificação de Whitening – DW (se houver) e correção de erro, segundo o tipo escolhido na transmissão. O diagrama a seguir ilustra o processo. Figura 5 – Demodulação TEMA 4 – CAMADA MAC WISUN A camada de controle de acesso ao meio, MAC, na norma 802.15.4e, pode apresentar características síncronas e assíncronas. As MAC assíncronas são as escolhidas para a maioria das implementações. Tais protocolos assíncronos ainda podem operar em três modos, quais sejam: CSMA/CA, CSL e RIT. Vamos entender cada um deles. 14 4.1 Protocolo CSMA/CA O protocolo CSMA/CA (Carrier Sense Multiple Access with Collision Avoidance) é uma evolução do protocolo CSMA/CD, estudado anteriormente. Naquele caso, o protocolo buscava detectar a colisão (CD- Colligion Detection) e avisar as estações para que suspendessem as transmissões, aguardando nova janela. O CSMA/CA, por sua vez, é um protocolo que busca evitar a colisão (CA – Collision Avoidance). Nessa versão, antes de iniciar a transmissão propriamente dita, o dispositivo envia um “aviso de transmissão” RTS (Request to Send), aguardando o CTS (Clear to Send) da BS. Só então os dados são transmitidos. O dispositivo também escuta o meio antes de enviar o RTS, tentando avaliar o nível de RF para antever a presença de dados de outros dispositivos. O protocolo CSMA/CA é uma das possibilidades de MAC para o WiSUN. Embora seja a técnica preferida nas novas versões de WiFi, como já estudamos, tem desvantagens importantes naquelas aplicações, em virtude do delay inserido no caso de não recepção do CTS. Nas aplicações de baixa velocidade do WiSUN, tais desvantagens são bem menos perceptíveis. 4.2 Protocolo CSL No CSL (Coordinated Sampled Listening), cada dispositivo amostra o meio em intervalos constantes de tempo dito MCP (MAC CLS Period), comum a toda a rede. Quando um dispositivo deseja transmitir, ele emite uma sequência de despertar – WS (Wakeup Sequence), repetida continuamente, com duração maior que o MCP. Os demais dispositivos amostram o meio ao menos uma vez durante o WS transmitido. Ao perceber a sequência, desligam os transmissores por um período de quarentena. 4.3 Protocolo RIT e F-RIT O protocolo RIT (Receiver Initiated Transmission), ou protocolo de transmissão iniciada pelo receptor, tem um comportamento um pouco distinto dos demais protocolos, focado em operação da rede no modo Mesh. Na figura a seguir, cada dispositivo que deseja fazer uma transmissão emite uma requisição (data request) a intervalos constantes. Nessa requisição, que é aderente ao 15 quadro que estudamos anteriormente, o campo de dados informa a identificação da subrede e do endereço do transmissor, bem como a subrede e o endereço de destino. Figura 6 – Protocolo RIT Fonte: Elaborado com base em Harada et al., 2017, p. 1035. Após o “data request”, o dispositivo aguarda um período igual, escutando a rede. Nesse período, o dispositivo verifica se há uma requisição para ele na rede. Se a requisição chega neste intervalo e é emitida pelo equipamento destino, TX iniciará a transmissão de dados. Essa técnica permite a um dispositivo entrar em modo de latência após aguardar o períodoposterior ao “data request”, pois apenas nesse intervalo escutará a rede, despertando novamente apenas no novo ciclo de requisição. As latências podem chegar a dez segundos. O consumo de energia em latência será de apenas 2 μA, 8 mA em escuta e 14 mA quando em transmissão (Wisum Aliance, 2019). Uma implementação um pouco mais densa do protocolo é o F-RIT. Nessa versão, é acrescentado um pré sensoriamento de portadora, ou seja, o dispositivo, antes de mandar a requisição, escuta o meio; caso perceba a presença da portadora, aborta a transmissão do data request. O dispositivo tentará nova transmissão apenas no próximo ciclo. Essa técnica reduz as colisões, porém pode acarretar retardo de transmissão. Todas as técnicas que trabalhamos podem ser configuradas na maioria das soluções WiSUM. Como vimos, cada uma delas apresenta vantagens e desvantagens. O projetista, entendendo as particularidades de cada aplicação, poderá escolher a solução de maior otimicidade. 16 TEMA 5 – WISUM PARA IOT Os padrões IEEE que definem o WiSUM são relativamente novos, de modo que poucos fabricantes implementaram esses padrões em seus dispositivos. Isso não significa que a quantidade de objetos IoT equipados com transceptores WiSUM seja pequena. Esse paradoxo pode ser explicado pela origem do padrão ligada às empresas prestadoras de serviços públicos. Os protocolos IEEE 802.15.4g e IEEE 802.15.4e foram desenvolvidos para atender às exigências de redes de comunicação para tais empresas, principalmente para as empresas de energia elétrica, que têm um nível mais restritivo de especificações para atendimento às suas REIs. Entendido esse paradoxo, é bastante provável que em breve o padrão esteja popularizado e disponível em larga escala, tornando-o uma opção interessante para o projeto de uma rede segura de objetos inteligentes, sem limitação do número de objetos, e com resiliência suficiente para o atendimento a sistemas heterogêneos e de disponibilidade variável. Outro indicativo importante da robustez do protocolo e de seu potencial de crescimento é a criação da WiSUM Aliance. 5.1 WiSUM Aliance Todos os padrões de comunicação longevos, como WiFi, LoRa e ZigBee, apresentam uma associação de manutenção do protocolo, que certifica os fabricantes de dispositivos, atestando a compatibilidade com o padrão, bem como a interoperabilidade entre dispositivos de fabricantes distintos. O padrão WiSUM tem associação com sede no Japão, país precursor no uso dessa tecnologia. A associação recebeu o nome de WiSUM Aliance, com um sítio eletrônico com várias informações interessantes sobre as funcionalidades e topologias possíveis1. A consulta ao site é indicada para um aprofundamento dos conhecimentos de aplicações possíveis e de casos de sucesso em operação. Na área destinada à certificação (Certification), você pode conferir todos os fabricantes e equipamentos certificados, o que permite uma pesquisa do estado atual de implantação da tecnologia. 1 Disponível em: . Acesso em: 21 fev. 2022. 17 Outra consulta interessante é a comparação entre WiSUM, LoRa e NB- LTE para o uso em objetos IoT, tema que resumiremos a seguir. 5.2 WiSUM, LoRa o NB-LTE para conectividade de objetos IoT? A WiSUM Aliance publicou um estudo sobre as vantagens e desvantagens do uso dessas três tecnologias para atendimento às redes de objetos IoT (Wisum Aliance, 2019). O protocolo LoRaWAN tem a desvantagem de ser proprietário de um determinado fabricante, o que implica um acesso parcial à documentação dos protocolos, o que interliga a longevidade do padrão àquela da indústria proprietária. Naturalmente, existem outros fabricantes que produzem dispositivos compatíveis com o padrão LoRa; entretanto, como o padrão não é totalmente aberto, a compatibilidade nunca será plena. Do ponto de vista do consumo, os valores de repouso são idênticos, porém em escuta e transmissão a variação pode chegar a 50% a favor do WiSUM. O padrão NB-LTE (Narrow Band LTE), ou NB-IoT, ofertado por operadoras de celulares, é constituído de fato por ao menos dois padrões distintos, um gerenciado por um grande fabricante chinês e outro ligado a fabricantes europeus. Os padrões sofreram várias atualizações e se aproximaram, ainda que tenham se mantido distintos. Mesmo nas novas tecnologias de redes celulares 5G, que prometem novidades importantes nessa área, não há um padrão único previsto para a operação de banda estreita. Do ponto de vista do consumo, os valores de repouso são maiores em comparação às tecnologias anteriores. Porém, em transmissão, a variação é grande, podendo chegar 300 mA. A grande desvantagem dessa tecnologia, entretanto, é a questão da operação. Uma rede NB-IoT depende da presença da operadora celular na região e da disponibilidade do serviço. Esse fator limita substancialmente a aplicação da tecnologia, principalmente fora dos centros urbanos. 18 FINALIZANDO Nesta aula, estudamos alguns conceitos interessantes sobre smart cities e REI. Por um lado, a sua existência foi possibilitada pela evolução dos objetos IoT; por outro lado, constituíram-se elementos de tração para a evolução desses objetos. Estudamos com certa profundida o padrão WiSUM, que é uma excelente solução para a criação de redes de objetos IoT do ponto de vista técnico. Porém, dada a sua origem recente e a conexão com padrões exigentes de qualidade, ele pode apresentar custos elevados de aquisição. Chegamos ao fim de nosso estudo sobre redes para IoT. Partimos da difícil definição de objetos IoT, e então conhecemos a sua arquitetura e funcionamento, avaliando as principais redes para a conectividade desses objetos. Ainda não se pode definir quais serão os padrões de rede preponderantes no atendimento a tais objetos, pelo simples fato de que os próprios objetos ainda estão em franca evolução. Veremos, em um curto espaço de tempo, objetos inteligentes capazes de realizar funções que neste momento não existem. Certamente, os requisitos de rede serão impactados de tal forma que será preciso criar novas soluções. De qualquer forma, o estudo das redes rudimentares atualmente disponíveis forma uma base de conhecimento para o entendimento das redes do futuro. 19 REFERÊNCIAS BERGER, L. T.; INIEWSKI, K. Redes elétricas inteligentes: aplicações, comunicação e segurança. São Paulo: LTC, 2015. HARADA, H. et al. IEEE 802.15. 4g based Wi-SUN communication systems. IEICE Transactions on Communications, v. 100, n. 7, p. 1032-1043, 2017. LOFHAGEN, J. C. P. Startups: transformando cidades tradicionais em cidades inteligentes. Curitiba: Contentus. 2020. WISUM ALIANCE. Comparing IoT networks at a glance: How Wi-SUN FAN stacks up against LoRaWAN and NB-IoT. 2019. Disponível em: . Acesso em: 19 fev. 2022. Conversa inicial TEMA 1 – SMART CITIES E REDES ELÉTRICAS INTELIGENTES TEMA 2 – INTRODUÇÃO AO WiSUN TEMA 3 – CAMADA PHY WiSUM TEMA 4 – CAMADA MAC WiSUN TEMA 5 – WiSUM PARA IoT FINALIZANDO Nesta aula, estudamos alguns conceitos interessantes sobre smart cities e REI. Por um lado, a sua existência foi possibilitada pela evolução dos objetos IoT; por outro lado, constituíram-se elementos de tração para a evolução desses objetos. Estudamos... REFERÊNCIAS