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Resenha narrativa-técnica: gestão de impacto social em primeira pessoa
Quando entrei na sala onde se reuniam líderes comunitários, gestores de fundos e consultores, senti que a expressão "impacto social" assumia várias formas ao mesmo tempo — desejo, protocolo, relatório, frustração. A cena serviu de abertura para uma investigação que realizei por seis meses: analisar um programa municipal que se dizia exemplar em gestão de impacto social. A narrativa que segue é ao mesmo tempo depoimento de campo e avaliação técnica, uma resenha que busca traduzir vivências em critérios operacionais.
No primeiro encontro, ouvi histórias poderosas: emprego retomado, escola reformada, relação entre vizinhos reconstituída por projetos culturais. Mas essas narrativas conviviam com planilhas que não conversavam entre si. Foi ali que a avaliação técnica começou: mapear inputs, atividades, outputs, outcomes e impactos — aquela cadeia lógica que todo gestor de impacto tenta operacionalizar. O programa dispunha de uma teoria da mudança bem desenhada no papel, mas limitada por indicadores fracos e por coleta irregular de dados. A experiência revelou o nó clássico entre intenção e mensuração.
Ao caminhar pelos territórios atendidos, vi também a dimensão humana que os indicadores não captam facilmente. Uma líder comunitária narrava como a participação em reuniões mudou sua autoestima; um jovem descreveu como o curso profissionalizante alterou sua perspectiva. Essas informações qualitativas ajudaram a complementar a análise técnica: sem métodos mistos capazes de integrar dados quantitativos e narrativas locais, a leitura do impacto permanece parcial. Assim, recomendo a incorporação sistemática de relatos estruturados e avaliações participativas como parte do sistema de monitoramento e avaliação (M&A).
Do ponto de vista técnico, algumas lacunas eram repetitivas e apontam para lições fundacionais. Primeiro: governança e responsabilidades. Projetos multifundos exigem estruturas claras de tomada de decisão, fluxo de recursos e prestação de contas. No programa estudado, sobreposição de papéis e prazos inconsistentes geraram atrasos e desperdício. Segundo: indicadores relevantes. Medir presença em oficinas ou número de bolsas concedidas não basta; é imprescindível definir indicadores de resultado e impacto — taxa de empregabilidade seis meses após o curso, mudanças na renda familiar, redução de conflitos locais mensuráveis. Terceiro: tecnologia e qualidade dos dados. Plataformas digitalizadas existem, mas sem padronização e capacitação, tornam-se repositórios de dados pouco confiáveis.
Havia, contudo, práticas notáveis que merecem ser destacadas. A adoção de ciclos de aprendizagem rápida (Plan-Do-Study-Act) permitiu ajustes em tempo real; parcerias com universidades locais ampliaram a capacidade de análise; e um conselho consultivo integrado por beneficiários trouxe legitimidade e correções essenciais. Essas medidas ilustram princípios técnicos eficientes: adaptação contínua, evidência local e inclusão dos stakeholders na governança.
Minha resenha conclui que gestão de impacto social é simultaneamente técnica e relacional. Técnicos precisam dialogar com afetos, e movimentos sociais precisam incorporar disciplina analítica. A sustentabilidade de qualquer intervenção depende de capacidade institucional — pessoas, processos, tecnologia — e de respeito aos ciclos sociais que não podem ser apressados por métricas internas.
Para gestores que buscam operacionalizar mudanças, deixo um roteiro sintético, baseado na observação e na teoria aplicada: (1) construir uma teoria da mudança co-criada; (2) definir indicadores de impacto relevantes e mensuráveis; (3) implantar M&A misto (quantitativo + qualitativo); (4) estabelecer governança clara com participação comunitária; (5) institucionalizar ciclos de aprendizado e ajuste; (6) planejar sustentabilidade financeira e transferência de capacidades para atores locais. Esses passos, quando integrados, elevam a probabilidade de transformar boas intenções em impactos verificáveis.
Ao fechar este balanço, retorno à cena inicial: o olhar esperançoso dos participantes, a planilha que ainda precisava de sentido, a conjunção entre prática e técnica. Fazer gestão de impacto social é aceitar paradoxos: medir o que é humano sem desumanizar, padronizar sem silenciar, escalar sem perder essência. Esta resenha propõe que o melhor caminho seja híbrido — narrativas que legitimem dados, e dados que sirvam às narrativas — numa arquitetura de governança que aprenda com o erro, celebre o progresso e mantenha o foco nas vidas transformadas.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1) O que diferencia monitoramento de avaliação de impacto?
Resposta: Monitoramento acompanha atividades e outputs em tempo real; avaliação de impacto busca causalidade entre intervenção e mudanças duradouras, normalmente com desenho contrafactual ou métodos mistos.
2) Como escolher bons indicadores de impacto?
Resposta: Bons indicadores são relevantes (medem resultado esperado), sensíveis (detectam mudanças), mensuráveis e exequíveis com recursos disponíveis; combinam quantitativos e qualitativos.
3) Qual o papel da comunidade na gestão de impacto social?
Resposta: Comunidades co-criam teorias da mudança, validam indicadores, participam da governança e garantem legitimidade, relevância e sustentabilidade das ações.
4) Quando aplicar métodos qualitativos em M&A?
Resposta: Sempre; qualitativos explicam mecanismos, capturam experiências e contextualizam dados numéricos, essenciais para interpretar resultados e ajustar estratégias.
5) É possível medir impacto em curto prazo?
Resposta: Alguns outcomes podem ser medidos em curto prazo (conhecimento, participação), mas impacto estruturante frequentemente exige médio a longo prazo; planejar indicadores para ambas as janelas é crucial.
Resposta: Bons indicadores são relevantes (medem resultado esperado), sensíveis (detectam mudanças), mensuráveis e exequíveis com recursos disponíveis; combinam quantitativos e qualitativos.
3) Qual o papel da comunidade na gestão de impacto social?
Resposta: Comunidades co-criam teorias da mudança, validam indicadores, participam da governança e garantem legitimidade, relevância e sustentabilidade das ações.
4) Quando aplicar métodos qualitativos em M&A?
Resposta: Sempre; qualitativos explicam mecanismos, capturam experiências e contextualizam dados numéricos, essenciais para interpretar resultados e ajustar estratégias.
5) É possível medir impacto em curto prazo?
Resposta: Alguns outcomes podem ser medidos em curto prazo (conhecimento, participação), mas impacto estruturante frequentemente exige médio a longo prazo; planejar indicadores para ambas as janelas é crucial.

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