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Parte II. Sistema Gastrointestinal I. Colecistopatia 1. Introdução A colecistolitíase é definida pela presença de cálculos na vesícula biliar. É a patologia gastrointestinal mais comum e estima-se que acometa aproximadamente 15% da população. Cerca de seiscentas mil colecistectomias são realizadas anualmente nos Estados Unidos. 2. Considerações de Enfermagem Perioperatória · Avaliação O paciente com doença hepatobiliar pode apresentar icterícia extrema, urticária, petéquias, letargia e irritabilidade. Dependendo da extensão da doença, os tempos de sangramento e coagulação podem aumentar e a contagem de plaquetas diminuir, contribuindo para preocupações intraoperatórias com a obtenção de hemostasia. A avaliação inclui dados sobre o histórico de doença crônica do paciente, medicações atuais, percepções sobre sua doença, estado de conforto, status nutricional, equilíbrio de fluidos e eletrólitos, padrões intestinais e de eliminação, nível de energia e independência, e exposição a toxinas. Estabelecer um banco de dados objetivo para uma pessoa com disfunção hepatobiliar ou pancreática requer atenção especial aos sinais característicos de disfunção orgânica. Aumento da circunferência abdominal e distensão, eritema palmar, veias periumbilicais distendidas, áreas hemorrágicas, nevos aranha, fraqueza muscular e membranas mucosas secas são alguns sinais e sintomas característicos. O volume vascular é avaliado observando os sinais vitais, incluindo quaisquer alterações ortostáticas, turgor da pele, temperatura e aparência, bem como ganho ou perda de peso. O exame físico do abdômen do paciente inclui palpação e percussão para avaliar sensibilidade, ascite e aumento dos órgãos. Testes laboratoriais comuns para avaliar a função hepática incluem aqueles que avaliam o metabolismo de gorduras, o metabolismo de proteínas, a coagulação sanguínea, o metabolismo da bilirrubina e os antígenos e anticorpos da hepatite. Testes comuns de função pancreática também são relevantes. A varredura de ácido hepático iminodiacético (HIDA) pode ser usada para avaliar a secreção fisiológica da bile. Imagens avançadas incluem ressonância magnética com contraste aprimorado (MRI), colangiopancreatografia por ressonância magnética (MRCP), ultrassonografia endoscópica (EUS) e tomografia computadorizada espiral de alta resolução em secções finas para a visualização das estruturas pancreáticas e biliares. Procedimentos diagnósticos mais invasivos incluem: - Colangiopancreatografia retrógrada endoscópica (ERCP): Permite a visualização direta do trato biliar, a injeção de contraste radiográfico no sistema ductal e a biópsia quando necessário. - Colangiografia trans-hepática percutânea (PTC): Utiliza a inserção percutânea de uma agulha flexível longa em um ducto biliar do fígado, com a injeção de meio de contraste e realização de uma série de exames de raios-X. - Arteriografia: Realizada com arteriotomia femoral e colocação de um cateter no ramo celíaco da aorta abdominal sob visualização fluoroscópica. Após a injeção de meio de contraste, são realizados exames de raios-X em série para visualizar os vasos durante as fases de perfusão e drenagem. 3. Metabolismo Hepático METABOLISMO BILIAR A bile é uma substância heterogênea composta de colesterol, sais biliares, lecitina, pigmentos, íons inorgânicos, bilirrubina conjugada, eletrólitos e água. De 500 a 1.500 mililitros de bile são secretados pelo fígado diariamente. Os sais biliares são os principais componentes da bile, juntamente com o colesterol e a lecitina, correspondendo a 80% da sua composição. A lecitina é uma substância gordurosa (um fosfolipídeo) encontrada nas membranas celulares de plantas e animais, essencial para a estrutura e função das células. Funções da Lecitina - Estrutural: Componente essencial das membranas celulares, ajudando a manter sua integridade e fluidez. Transporte de lipídios: Auxilia no transporte e metabolismo das gorduras no corpo, especialmente no fígado. Produção de neurotransmissores: Fornece colina, um nutriente essencial para a síntese de acetilcolina, um neurotransmissor importante para a função cognitiva e muscular. Diminuição de lecitina (ou colina) pode levar a: Disfunções cognitivas e problemas de memória, devido à diminuição de acetilcolina. Dificuldades no transporte de gorduras, podendo resultar em acúmulo de gordura no fígado (esteatose hepática). Problemas no metabolismo lipídico e colesterol elevado. Excesso de lecitina pode causar: Diarreia, náusea, e desconforto gastrointestinal. Alguns estudos sugerem que o excesso de colina (da qual a lecitina é fonte) pode estar associado a um risco aumentado de doenças cardiovasculares devido à formação de substâncias como trimetilamina N-óxido (TMAO), que pode contribuir para o endurecimento das artérias. O transporte de água e solutos para os canalículos biliares ocorre de forma dependente e independente de sais biliares. O processo dependente está ligado ao retorno de sais biliares ao fígado e sua síntese, com a água e pequenas quantidades de solutos acompanhando o transporte ativo dos sais. Já o processo independente envolve o transporte ativo de sódio, responsável pela maior parte dos íons inorgânicos da bile, e é regulado por hormônios e drogas. Se a pressão nos ductos biliares ultrapassar 30 cm de água, o fluxo de bile é interrompido, podendo causar complicações no sistema biliar. METABOLISMO DO COLESTEROL A palavra colesterol deriva do grego "chole" (bile) e "stereos" (sólido). O colesterol é uma substância essencial para diversas atividades metabólicas, como o crescimento, a diferenciação e a regulação celular. Ele é um componente-chave da membrana citoplasmática das células e pode ser convertido em esteróides, lipoproteínas e sais biliares, além de ser um dos componentes da bile. A quantidade de colesterol nas células depende tanto da ingestão alimentar quanto da síntese hepática (produzido pelo fígado). As lipoproteínas plasmáticas, que circulam no sangue, são uma fonte importante de colesterol. As lipoproteínas de baixa densidade (LDL), frequentemente chamadas de "colesterol ruim", se ligam aos receptores específicos nas células e são internalizadas (absorvidas pelas células), sendo então metabolizadas em colesterol livre. O fígado é o principal responsável pela síntese primária do colesterol, ou seja, pela maior parte da produção de colesterol no corpo. O colesterol livre que não é utilizado pode ser armazenado na forma de ésteres de colesterol, que são metabolicamente inativos e representam uma reserva de colesterol. Por outro lado, o colesterol livre hepático (presente no fígado) tem diversas funções, incluindo sua utilização em reações de síntese para a produção de sais biliares. Esse colesterol também pode ser eliminado do corpo por meio da secreção direta na bile. METABOLISMO DOS SAIS BILIARES Os sais biliares são detergentes biológicos sintetizados no fígado, com várias funções importantes, incluindo a excreção do colesterol na bile. Eles circulam entre o intestino e o fígado por meio da circulação entero-hepática. Após uma refeição, a bile armazenada na vesícula biliar é liberada no intestino devido à ação da colecistoquinina (um hormônio digestivo), e os sais biliares facilitam a solubilização e absorção dos lipídios. Cerca de 99% dos sais biliares que circulam são reabsorvidos no íleo terminal (a última parte do intestino delgado) e retornam ao fígado, enquanto aproximadamente 500 mg por dia são eliminados nas fezes e substituídos por novos sais biliares sintetizados pelo fígado. Todo o volume de sais biliares circula pelo ciclo entero-hepático 8 a 10 vezes por dia. A quantidade de sais biliares no corpo e a velocidade do ciclo entero-hepático são influenciadas por diversos fatores, como a taxa de síntese de sais biliares, o esvaziamento da vesícula biliar, o tempo de trânsito intestinal e a capacidade de absorção do íleo distal. METABOLISMO DA BILIRRUBINA A bilirrubina é resultado do metabolismo das hemácias. A decomposição da hemoglobina fornece o grupo heme, do qual a bilirrubinaé sintetizada. Após a retirada do íon ferro por meio de um processo oxidativo, forma-se o precursor da bilirrubina, a bileverdina. A redução da bileverdina forma a bilirrubina não conjugada (indireta), que é insolúvel em água e é transportada ao fígado por um complexo bilirrubina-albumina. A bilirrubina é secretada na bile por um mecanismo diferente daquele utilizado para o transporte dos sais biliares. No sangue, a bilirrubina indireta é extraída pelo fígado e conjugada por uma enzima chamada glucoronil-transferase, tornando-se hidrossolúvel. A bilirrubina conjugada é secretada na bile a uma taxa de 300 mg por dia. Quando atinge o trato gastrointestinal, é reduzida pela flora bacteriana a urobilinogênio, que é oxidado em urobilina. Cerca de 70% da bilirrubina é excretada nas fezes, conferindo-lhes a coloração amarelo-esverdeada. O fígado normalmente conjuga e excreta a bilirrubina, mantendo o nível sérico normal abaixo de 1,5 mg/dL. Quando ocorre hemólise, há um aumento significativo da fração indireta da bilirrubina sérica (que normalmente não ultrapassa 5 mg/dL). Ambas as frações, direta e indireta, estão igualmente elevadas em casos de doença hepatocelular. Já quando existe obstrução extra-hepática, inicialmente há um aumento na fração direta da bilirrubina, e, caso a obstrução seja completa, os níveis de bilirrubina direta podem ultrapassar 30 mg/dL. A colestase (redução do fluxo de bile do fígado para o intestino) decorrente de outros fatores que não sejam obstrução extra-hepática não pode ser diferenciada apenas pelos níveis de bilirrubina. 4. Patogênese dos Cálculos Biliares Uma série de fatores de risco está envolvida no desenvolvimento dos cálculos biliares. Tabela 1. Fatores de risco para o desenvolvimento de cálculos biliares Fatores de Risco para Cálculos Biliares Genético Idade Sexo feminino Anticoncepcionais e estrógenos Paridade Obesidade Nutrição parenteral prolongada Hemólise crônica Litíase biliar ou colelitíase é o termo que se dá a presença de cálculos na vesícula biliar e/ou ductos biliares. Quando presente apenas na vesícula biliar, chama-se de colecistolitíase ou simplesmente colelitíase. Quando presente ductos biliares, chama-se coledocolitíase. A colecistolitíase pode ocorrer na infância e na adolescência, mas predomina na quinta década de vida e pode aumentar progressivamente com a idade. Entre as mulheres, na faixa etária de 45 a 55 anos, a incidência oscila entre 10% e 30%. A variação observada na incidência em mulheres se deve a fatores de risco como idade, obesidade e número de gestações, seguindo a máxima dos "quatro F's" (termo derivado das palavras em inglês: forty, female, fat e fertile), que correspondem a essa situação. Os cálculos podem ser classificados com base em seu aspecto macroscópico e na predominância de colesterol ou bilirrubinato em sua composição. CÁLCULOS DE COLESTEROL Nos Estados Unidos, de 75 a 85% das pessoas com colelitíase possuem cálculos biliares compostos de 40 a 60% de colesterol. O colesterol é insolúvel em soluções aquosas, e sua solubilização na bile depende da interação com lecitina e sais biliares. Os sais biliares funcionam como detergentes biológicos, formando micelas com seus grupos hidrofóbicos afastados da água e grupos hidrofílicos em contato com as moléculas de água. A lecitina, também insolúvel em água, incorpora-se nessas micelas formadas pelos sais biliares. Estas micelas compostas de lecitina e sais biliares podem solubilizar o colesterol, permitindo sua excreção. Quando a concentração de colesterol excede a capacidade máxima de solubilização na bile, ele pode se cristalizar, desencadeando a formação de cálculos biliares. CÁLCULOS PIGMENTARES Cálculos pigmentares são caracterizados por uma alta concentração de bilirrubina e uma baixa concentração de colesterol. A formação desses cálculos ocorre devido à solubilização alterada da bilirrubina não conjugada, resultando na precipitação de bilirrubinato de cálcio. Esses cálculos costumam apresentar um formato semelhante ao de pequenas framboesas e são compostos principalmente de bilirrubina e outros pigmentos. Eles representam aproximadamente 15 a 25% dos cálculos biliares nos Estados Unidos. Existem dois tipos principais de cálculos pigmentares: marrons e negros. Em ambos, a fração insolúvel de bilirrubina não conjugada combina-se com cálcio, formando bilirrubinato de cálcio, a matriz predominante dos cálculos. · Cálculos negros estão associados a doenças hemolíticas, como cirrose, nutrição parenteral prolongada, ressecções ileais e em pacientes idosos. Eles são encontrados predominantemente na vesícula biliar. · Cálculos marrons estão relacionados à estase biliar e à infecção bacteriana ou parasitária. O papel crítico da infecção na formação dos cálculos marrons é apoiado pelo frequente achado de bactérias na matriz destes cálculos pigmentares, o que não acontece com os cálculos negros. 5. Colecistite Aguda Cálculos biliares estão presentes em 95% dos pacientes com colecistite aguda. Os outros 5% possuem colecistite aguda acalculosa, normalmente associada a traumatismo, doenças do colágeno e síndrome da imunodeficiência adquirida. A obstrução do ducto cístico por um cálculo é o evento inicial no desenvolvimento da colecistite aguda. A duração e o grau de obstrução são provavelmente os dois fatores que determinam a extensão da inflamação e a progressão da doença. Na maioria dos pacientes, cerca de 90%, a obstrução se desfaz e o processo inflamatório diminui, causando graus variáveis de fibrose da parede vesicular. Se a obstrução não se desfaz, a distensão e a inflamação da vesícula biliar produzem um comprometimento vascular que leva à isquemia e necrose da vesícula, evento que ocorre em menos de 5% dos casos. A necrose e perfuração da parede vesicular apresentam mortalidade elevada que pode variar de 20 a 70%. O processo patológico primário da colecistite aguda é a inflamação e não a infecção. Em aproximadamente 50% dos pacientes, bactérias podem ser isoladas em meios de cultura da bile vesicular. Os microorganismos isolados fazem parte da flora intestinal normal. A colecistite aguda acalculosa é verificada em 5% dos pacientes que são operados por colecistite aguda. Ela incide em pacientes jovens e de faixa etária avançada e está associada a fatores específicos como queimaduras, septicemia e permanência prolongada em UTI. SINAIS E SINTOMAS A apresentação inicial normalmente é de dor no quadrante superior direito do abdome, associada a anorexia, náuseas, vômito e febre. O início da dor é gradual e persiste, podendo ser mal localizada no início dos sintomas e, após, localizar-se no quadrante superior direito do abdome. História prévia de episódios similares é relatada em 75% dos casos. A dor pode irradiar ao longo do gradeado costal direito até as costas e comumente até a ponta na escápula direita. Tipicamente, o paciente irá referir dor à palpação profunda do hipocôndrio direito, com parada abrupta da inspiração profunda (sinal de Murphy). Em 30% dos pacientes, é possível palpar massa no hipocôndrio direito, que normalmente representa um bloqueio do omento e alças intestinais em resposta ao processo inflamatório da vesícula. Nos casos não complicados, a contagem de leucócitos está pouco aumentada. A bilirrubina sérica pode estar discretamente aumentada em 20% dos pacientes, sendo menor que 4 mg/dL. Transaminases, fosfatase alcalina, gama-GT e amilase podem também estar discretamente elevadas. DIAGNÓSTICO O ultrassom e os estudos de medicina nuclear podem fazer o diagnóstico precoce da doença biliar. A presença de cálculos é confirmada pela ultrassonografia com o aparecimento de falhas de enchimento na luz da vesícula biliar com sombra acústica posterior. Outros achados incluem halos hipoecogênicos ao redor da vesícula biliar, espessamento da parede vesicular e aumento do diâmetro da vesícula. A maior vantagem da ultra-sonografia é a rapidez do procedimento, o caráter não-invasivo e o alto grau de sensibilidade, que pode atingir 98% de especificidade.A presença de cálculos vesiculares, dor no quadrante superior direito e um sinal de Murphy confirma o diagnóstico clínico de colecistite aguda. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL Discretas elevações de amilase podem ocorrer tanto na colecistite aguda quanto na pancreatite; entretanto, valores mais elevados indicam pancreatite aguda. A pneumonia pode apresentar-se com uma dor referida no quadrante superior direito do abdome. Os achados da auscuta pulmonar e, eventualmente, de uma radiografia simples do tórax podem realizar o diagnóstico diferencial. TRATAMENTO Uma vez realizado o diagnóstico, é mandatória a internação do paciente e medidas clínicas devem ser tomadas, como: - Restrição da ingesta alimentar; - Reposição volêmica; - Sedação da dor. A utilização de sondagem gástrica está indicada nos pacientes com náuseas e vômitos associados a íleo ou distensão abdominal. A antibioticoterapia deve ser realizada de forma rotineira nos pacientes com colecistite aguda, e a escolha do antibiótico deve se basear na penetração deste na árvore biliar. Recomenda-se o uso de cefalosporinas de segunda geração como antibióticos de primeira escolha. A utilização de antibióticos com ação específica contra anaeróbios, tais como metronidazol ou clindamicina, deve ser realizada apenas em pacientes de alto risco, como ictéricos, idosos ou diabéticos. A colecistectomia é o procedimento de escolha para o tratamento da colecistite aguda e deverá ser realizada precocemente, ou seja, durante a internação do evento agudo, preferencialmente nos primeiros três dias da doença. A cirurgia laparoscópica deve ser utilizada de forma rotineira, podendo ser realizada com sucesso na grande maioria dos casos. A cirurgia de urgência está indicada na suspeita de complicações, como empiema, abscesso perivesicular, gangrena ou perfuração da vesícula biliar. Pacientes com condições clínicas graves podem ser submetidos à colecistectomia tardiamente, após a compensação do quadro clínico, diminuindo assim o risco cirúrgico. As infestações por Ascaris lumbricoides ou por Clonorchis sinensis são causas mais raras de colecistite aguda, normalmente evoluem com complicações associadas, como obstrução das vias biliares, e necessitam de tratamento cirúrgico de urgência. COMPLICAÇÕES Empiema Vesicular: · Estágio avançado da colecistite aguda; · Caracterizado por dor intensa, febre, calafrios e leucocitose; · Tratamento: Antibióticos e colecistectomia ou colecistostomia; Gangrena Vesicular: · Indicativo de doença avançada com isquemia e necrose; · Sintomas incluem toxemia, febre alta e leucocitose elevada; Perfuração: Complicação comum, ocorrendo em até 10% dos casos; · Sintomas: Aumento da dor, febre, leucocitose, calafrios, hipotensão; · Tipos: · Localizada: Abscesso sub-hepático; · Peritonite Difusa: Dor inicialmente localizada, tornando-se generalizada; Fístula Colecisto-Enterica e Íleo-Biliar: · Ocorrência em 1 a 2% dos pacientes; · Resulta em perfuração da vesícula biliar para um órgão adjacente e possível passagem de cálculos para o trato gastrointestinal; 6. Colecistite Crônica A expressão "colecistite crônica" refere-se aos pacientes portadores de processo inflamatório recorrente da vesícula biliar, associado à litíase vesicular. A presença de cálculos na vesícula biliar é responsável pelo desenvolvimento de irritação crônica da mucosa, o que provoca seu mau funcionamento. Além disso, os cálculos são responsáveis por episódios de obstrução parcial da drenagem vesicular, desencadeando os surtos de cólica biliar. Histologicamente, a colecistite crônica apresenta espessamento da parede da vesícula biliar e infiltrado inflamatório mononuclear. SINAIS E SINTOMAS Dor Recorrente: No hipocôndrio direito, com irradiação para o mesogástrio, muitas vezes associada a náuseas e vômitos. Início da Dor: Súbito, muitas vezes associado à ingestão de dieta rica em gordura, com melhora progressiva em até 24 horas. A associação da dor com a alimentação ocorre em apenas 50% dos casos. Exame Físico: Durante o episódio de cólica biliar, pode haver dor à palpação do hipocôndrio direito e aumento da tensão da parede abdominal. Pacientes livres de dor têm exame físico normal. A intensidade da dor não reflete a gravidade do processo inflamatório. Sintomas Inespecíficos: Dispepsia, intolerância à gordura, má digestão e flatulência. DIAGNÓSTICO Baseado em: Presença de surtos de dor abdominal associados à litíase vesicular. História Clínica e Exame Físico: Fundamentais para afastar diagnósticos diferenciais. Diagnósticos Diferenciais: Gastrite; Esofagite; Úlcera péptica; Pancreatite; Diverticulite; Síndrome do intestino irritável; Litíase renal; Angina; Radiculite; Carcinoma de vesícula biliar Exames: Ultra-som Abdominal: Exame de escolha, com alta sensibilidade (95 a 98%) para detecção de cálculos biliares e informações adicionais sobre pólipo de vesícula biliar e aspectos anatômicos. Radiografia Simples de Abdome: Identificação de cálculos radiopacos em 10% dos casos e diagnóstico de vesícula em porcelana. Colecistograma Oral: Deixou de ser utilizado após a introdução do ultra-som. Tomografia Computadorizada: Baixa sensibilidade (50%) para o diagnóstico de colecistite crônica, indicada para suspeita de complicações associadas ou exclusão de diagnósticos diferenciais. · COMPLICAÇÕES: Colecistite Aguda: Desenvolve-se em aproximadamente 20% dos pacientes com colecistite crônica. Outras Complicações: Icterícia; Coledocolitíase; Pancreatite; Fístula biliar; Síndrome de Mirizzi; Íleo biliar; Carcinoma de vesícula biliar. · TRATAMENTO: Colecistectomia: · É o tratamento de escolha para pacientes com colecistite crônica. · A via laparoscópica com colangiografia intra-operatória é indicada. · A dor abdominal é resolvida em aproximadamente 96% dos casos e os sintomas dispépticos em 75% dos casos após o tratamento cirúrgico. Tratamento Clínico: · Para pacientes com doenças sistêmicas graves e risco cirúrgico elevado. · Inclui medicação sintomática, dieta leve pobre em gordura e controle dos surtos de cólica biliar. Opções Terapêuticas Alternativas: 1. Ácido Ursodesoxicólico: · Utilizado para dissolução de cálculos. · Indicado apenas para cálculos de colesterol menores que 1 cm, não calcificados e com vesícula biliar funcional. · Administração: 10 mg/kg/dia por 6 a 8 meses. · Apresenta baixa resolutividade e deve ser usado em casos selecionados. 2. Litotripsia Extra-corpórea: · Embora tenha excelentes resultados na litíase renal, não é recomendada para litíase biliar. · Alto risco de complicações, como colecistite aguda, pancreatite aguda, hematoma e laceração hepática. Figura 1. Ultra-sonografia abdominal em paciente com colecistite crônica: Observa-se a presença de cálculos biliares com sombra acústica posterior e espessamento da parede da vesícula biliar. Figura 2. Produto de colecistectomia. Presença de vesícula biliar preenchida por cálculos com importante espessamento de sua parede. 7. Colecistolitíase assintomática · Doença mais prevalente das vias biliares. · Diagnóstico incidental, geralmente durante exames de imagem como ultra-som abdominal. · Normalmente tem um curso benigno. · Aproximadamente 2% dos pacientes com cálculos vesiculares assintomáticos desenvolvem complicações graves, como pancreatite aguda e colecistite aguda, ao longo de um ano de observação clínica. · Complicações são mais graves em pacientes idosos ou diabéticos. · 90% dos pacientes desenvolvem sintomas antes de apresentarem complicações graves. · Existe uma relação direta entre colecistolitíase e a incidência de carcinoma de vesícula biliar. · Maior incidência de sintomas e complicações em pacientes com microlitíase. · Controvérsia sobre o tratamento cirúrgico. · Risco de complicações graves justifica a realização de colecistectomia profilática. · Crianças com cálculos biliares quase sempre desenvolvem sintomas e devem ser submetidas a colecistectomia. · Pacientes com anemia falciforme e cálculos vesiculares podem ter dificuldade no diagnóstico durante crises de falcização. · A colecistite agudapode precipitar crises de hemólise em pacientes com anemia falciforme. 7. Discinesia Biliar Definição: Condição com sintomas clássicos de cólica biliar, mas sem cálculos biliares e com exames diagnósticos normais (ultra-som, endoscopia digestiva alta, colonoscopia, tomografia computadorizada). Diagnóstico: É um diagnóstico de exclusão. Tratamento e Diagnóstico: Controvérsia: A indicação de tratamento cirúrgico é controversa. Cintilografia Hepática e Vias Biliares: Utilizada para diagnóstico; inclui infusão de colecistoquinina (colecintilografia). Exame DISIDA: Avalia a fração de ejeção da vesícula biliar. · Critério de Diagnóstico: Retardo no esvaziamento da vesícula biliar e eliminação menor que 35% do radiofármaco após 20 minutos de administração de colecistoquinina indica baixa fração de ejeção vesicular. · Resolução: Aproximadamente 84% dos pacientes com baixa fração de ejeção apresentam resolução dos sintomas após colecistectomia. Procedimento Cirúrgico: Escolha do Procedimento: Colecistectomia laparoscópica com colangiografia intra-operatória. Informação ao Paciente: Deve ser informado sobre a possibilidade de não resolução dos sintomas após a cirurgia Enfermagem no Perioperatório Caio Rodrigo M. dos Santos Acadêmico em Enfermagem – UFS/Lagarto image1.png image2.png