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Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Unidade 1 Comunicação e relações humanas Aula 1 Comunicação: Um Conceito Polissêmico Comunicação: um conceito polissêmico Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula, você vai mergulhar no universo teórico da comunicação. Mais do que um campo de trabalho, a comunicação é uma área completa de conhecimento, com conceitos e práticas próprias. Nós sabemos que você está ansioso para estrear em sua nova carreira pro�ssional, mas, para chegar lá, é preciso avançar degrau por degrau, construindo primeiro a base para depois alcançar o topo! Vamos aprender juntos? Ponto de Partida Se você convive com crianças (ou tem lembranças vivas da infância), sabe que a curiosidade dos pequenos não tem limite. Em um espaço de poucos minutos, são capazes de fazer múltiplas perguntas – algumas bem fáceis de responder, outras, nos embaraçam de tal forma que nem temos ideia de por onde começar. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A verdade é que essas perguntas de respostas difíceis não �cam restritas à infância. Ainda que a praticidade da vida adulta tente sufocar tudo que demanda muito empenho e re�exão, algumas questões continuam nos pegando desprevenidos. Quer um exemplo? Então responda rápido: o que é comunicação? Se você tirou alguns bons segundos para pensar ou titubeou várias vezes, reformulando a resposta, saiba que está no caminho certo! Pois é: ter respostas muito simples para conceitos complexos não combina com o processo contínuo de aprendizagem. E por mais que você tenha clareza das funções da comunicação na sua vida e no mundo, nós sabemos o quanto é difícil de�ni-la de uma só forma. Que tal topar o desa�o de estudar o conceito de comunicação, procurando o sentido mais adequado para a nossa disciplina? Então aperte os cintos que a jornada começa agora! Vamos Começar! Comunicação: um conceito polissêmico Você já ouviu falar de polissemia? Polissemia é um termo utilizado na linguística para classi�car palavras que têm diversos signi�cados. Quer ver só? Acompanhe a pequena história a seguir: “Era um dia muito quente de verão. Ana estava de férias e, para se refrescar, foi até o quintal para tomar um banho de mangueira. Depois, deitada sob a sombra de uma mangueira, pôs-se cochilar. Já em sono profundo, sonhou que brincava o carnaval, rodopiando em um vestido verde e rosa – nas inconfundíveis cores da Mangueira”. No trecho apresentado, a palavra mangueira foi utilizada três vezes – e, nas três, ganhou um signi�cado diferente, sem deixar de fazer sentido na história. Isso é polissemia! Quanto mais um termo é polissêmico, mais difícil é de�ni-lo de um jeito só. Esse parece ser o caso da comunicação. Ainda que, comumente, costumemos associá-la ao diálogo entre duas pessoas, em que localizamos a �gura de um emissor e de um receptor, a comunicação é bem mais do que isso. Há sim a comunicação verbal entre duas pessoas. Mas também há comunicação entre animais, entre máquinas, entre células de um organismo, entre inteligências arti�ciais, em formato midiático, digital, individual, massivo… En�m: a comunicação pode ter muitos contextos e maneiras de se manifestar, o que a torna extremamente polissêmica. Basta um rápido passeio pela teoria da comunicação para nos depararmos com inúmeros conceitos diferentes, isso sem contar as outras áreas de conhecimento que também utilizam o termo comunicação. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Neste ponto, você pode estar pensando: e aí? Como resolvemos essa confusão? Luiz Martino (2001), importante teórico da comunicação, aponta um caminho possível a se seguir – e o primeiro passo é aceitar a polissemia: […] não se trata de achar a verdade ou eleger um único sentido em detrimento dos vários usos do termo. A�nal não temos nenhuma razão para negar outras tantas acepções válidas. Ao tentarmos de�nir um uso para o termo comunicação, o que está em questão é nos colocarmos de acordo sobre o que falamos, e que por conseguinte nos interessa estudar. Trata-se então de falar de uma mesma coisa e não de se estabelecer a verdade derradeira sobre o que é comunicação (Martino, 2001, p. 11). O que nos interessa aqui, portanto, não é proclamar o conceito de�nitivo de comunicação, mas encontrar o sentido que mais se adeque aos nossos objetivos de estudo, trazendo luz à prática comunicativa e instigando nossa re�exão. Siga em Frente... Comunicação: uma prática histórica Mesmo reconhecendo que a comunicação também pode ser desenvolvida por e entre seres e coisas, nosso foco será a comunicação humana (considerando seus mais diversos meios e formatos). Partindo desse ponto de vista, olhar para o passado e compreender em que momento e contexto surge o termo comunicação é uma ótima pista para delinearmos o conceito que procuramos. De acordo com Martino (2001), comunicação vem do latim communicatio – e este termo é composto por três elementos: a raiz munis, o pre�xo co e o su�xo tio. Munis signi�ca “estar encarregado de”, enquanto o pre�xo co expressa “simultaneidade, reunião”, e o su�xo tio designa “atividade”. Communicatio, então, representava uma “atividade realizada conjuntamente”. E foi este o primeiro signi�cado que o termo recebeu no vocabulário religioso medieval, em que foi inventado. Mas espera aí: porque os sacerdotes medievais precisaram criar o termo communicatio? Martino (2001) explica que, no universo do cristianismo antigo, a vida eclesiástica era marcada pelo isolamento e pela contemplação. Nessa época, duas correntes monásticas interpretavam essas práticas de forma distinta: os anacoretas acreditavam na solidão radical e seus monges viviam completamente sozinhos; já os cenobitas defendiam uma vida em comunidade nos “cenóbios” (do grego koenóbion), um “lugar onde se vivia em comum”. Foi nos “cenóbios” que apareceu uma prática designada como communicatio, quando os monges, então isolados, se reuniam toda noite para “tomar a refeição da noite em comum”. A Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA peculiaridade da communicatio não está na banalidade do ato de comer, mas de fazer isso coletivamente, reunindo aqueles que se encontravam isolados. A originalidade dessa prática �ca por conta dessa ideia de ‘romper o isolamento’, e nisto reside a diferença entre a communicatio eclesiástica e o simples jantar da comunidade primitiva. Não se trata, pois, de relações sociais que os homens naturalmente desenvolvem, mas de uma certa prática, cuja novidade é dada pelo pano de fundo do isolamento. Daí a necessidade de se forjar uma nova palavra, para exprimir a novidade dessa prática (Martino, 2001, p. 13). A comunicação como ação coletiva e compartilhada A história sempre tem muito a nos ensinar – e é recuperando o sentido original da communicatio que vamos construir nosso conceito de comunicação. Dessa maneira, três características do termo são essenciais: A communicatio não designa toda e qualquer relação, mas aquela que se destaca de um fundo de isolamento. Na communicatio há a intenção de romper o isolamento. A communicatio é uma realização em comum. Assim, comunicar-se não é ter algo em comum no sentido de características ou propriedades semelhantes, nem ter um hábito coletivo, mas compartilhar um mesmo objeto de consciência em um processo bem delimitado no tempo. Desenhar o conceito de comunicação atrelando-o ao seu sentido original e histórico dá “alma” e signi�cado ao termo. A comunicação é uma invenção, uma prática humana, que rompe o isolamento e conecta, por um período especí�co, duas consciências distintas em um mesmo objeto. Portanto, quando lemos que comunicação é um processo de envio e recebimento de mensagens por meios verbais ou não verbais entre um emissor eparte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue de�nir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do que imaginam estar falando (Jenkins, 2009, p. 29). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Quando tratamos de convergência, é comum a associarmos diretamente à tecnologia, principalmente aos smartphones, suportes em que imagem, vídeo, áudio, internet, informação, entretenimento e mais uma in�nidade de coisas convergem. E, de fato, smartphones são resultados diretos da convergência – mas não seus atores principais. A convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais so�sticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros. Cada um de nós constrói a própria mitologia pessoal, a partir de pedaços e fragmentos de informações extraídos do �uxo midiático e transformados em recursos através dos quais compreendemos nossa vida cotidiana (Jenkins, 2009, p. 30). Portanto, a ideia de convergência extrapola o âmbito tecnológico, e aí está a necessidade de se referir a ela como uma nova forma de cultura. A convergência está nas indústrias, nos mercados, nos públicos e nos relacionamentos. Para Jenkins (2009), até a noção de consumo se alterou, ganhando contornos mais coletivos, na medida em que somos incentivados a interagir, trocando ideias sobre quando, como e o que consumimos. Nesse cenário, a inteligência coletiva emerge como um dos pilares da cultura da convergência. Nenhum de nós pode saber tudo; cada um de nós sabe alguma coisa; e podemos juntar as peças, se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades. […] Estamos aprendendo a usar esse poder em nossas interações diárias dentro da cultura da convergência (Jenkins, 2009, p. 30). Siga em Frente... Convergência e plataformas midiáticas As plataformas digitais, sobretudo as midiáticas, têm papel fundamental na cultura da convergência. Ao permitirem (e incentivarem) a interação entre usuários, fazem os �uxos comunicacionais circularem, alterando a antiga lógica rígida de emissores versus receptores, adotada pelos meios de comunicação de massa. A convergência, como podemos ver, é tanto um processo corporativo, de cima para baixo, quanto um processo de consumidor, de baixo para cima. A convergência corporativa coexiste com a convergência alternativa. Empresas de mídia estão aprendendo a acelerar o �uxo de conteúdo de mídia pelos canais de distribuição para aumentar as oportunidades de lucro, ampliar mercados e consolidar seus compromissos com o público. Consumidores estão aprendendo a utilizar as diferentes tecnologias para ter um controle mais completo sobre o �uxo da mídia e para interagir com outros consumidores (Jenkins, 2009, p. 46). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA O fato da convergência de “cima para baixo” conviver com a de “baixo para cima” não subentende uma relação sempre harmoniosa – pelo contrário, muitas vezes há con�ito e reações. Desde a democratização da internet, mídias clássicas são forçadas a se reinventar e se adaptar aos novos cenários, enfrentando crises de autoridade e audiência. Ainda que a convergência não seja um “ultimato” aos meios de comunicação de massa, ela representa um risco, “já que a maioria dessas empresas teme uma fragmentação ou uma erosão em seus mercados. Cada vez que deslocam um espectador, digamos, da televisão para a internet, há o risco de ele não voltar mais” (Jenkins, 2009, p. 47). Que tal retomarmos o exemplo de A mulher da casa abandonada para compreendermos como se desenham os �uxos comunicativos entre emissores, receptores, plataformas midiáticas e mídia tradicional? A primeira constatação que temos é que, como os in�nitos caminhos que alguém pode traçar para procurar uma informação na internet, os produtos criados dentro da cultura da convergência vão construindo seus limites sem que o emissor inicial tenha qualquer controle. No caso analisado, começamos com um podcast, que ganhou repercussão nas redes sociais, sendo compartilhado, debatido, criticado. Tal engajamento deu novos sentidos e contornos ao material inicial, já que a ele se somou à produção de conteúdo dos usuários. Acompanhando o interesse crescente da internet, emissoras de televisão (consideradas mídias de massa) também passaram a repercutir os desdobramentos do caso – isso sem contar os “�uxos reais”, de pessoas se deslocando até à casa no bairro paulista, gerando interações off-line. Isso é a cultura da convergência em movimento, guiada pelos novos modelos de comunicação, pela inteligência coletiva e pelas plataformas digitais. A segunda constatação que temos é de que este cenário é irreversível. A interação, a evolução das plataformas, a transformação da comunicação – nada disso vai regredir, mas progredir. Por essa razão, cabe a nós, futuros pro�ssionais da área, saber navegar pelos mares agitados da convergência. Vamos Exercitar? Como bem pontua Jenkins (2009), a convergência é um processo – e não um ponto �nal. Apesar de analisarmos, re�etirmos e conjecturarmos a respeito das características dessa nova cultura, nada garante que, em um espaço de poucos anos, tudo seja transformado. A tecnologia evolui cada vez mais rápido, emprestando essa mesma velocidade à comunicação, aos relacionamentos e à dinâmica de vida. Embora essa falta de controle possa parecer aterrorizante, é também fascinante. Você já parou para pensar que faz parte dessa revolução? Que as portas abertas pela comunicação interativa e coletiva podem lhe conduzir a lugares e audiências completamente inesperadas? Pense nisso! O próximo podcast a se tornar um case de cultura da convergência pode ser o seu. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Saiba mais Se você ainda não ouviu o podcast A mulher da casa abandonada, está mais do que na hora de ouvir! Além de ser um caso emblemático da cultura da convergência, a série dá ótimas lições de como conduzir uma narrativa a partir do jornalismo investigativo. O podcast está disponível no per�l da Folha de S.Paulo nas principais plataformas de streaming. Que tal se aprofundar mais no diálogo entre mídias tradicionais e internet? O livro TV digital interativa: convergência das mídias e interfaces do usuário, de João Schlittler e Carlos Costa, é uma ótima dica. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Referências CASTELLS, M. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2010. DIZARD JUNIOR, W. A nova mídia. A comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009. JENKINS, H. Cultura da conexão. São Paulo: Aleph, 2015. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999. SCHLITTLER, J. P. A.; COSTA, C. Z. TV digital interativa: convergência das mídias e interfaces do usuário. São Paulo: Blucher, 2012. Aula 3 Plataformas Digitais e Relações Sociais Plataformas digitais e relações sociais Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788521207221/pageid/0 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788521207221/pageid/0 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula, nós vamos falar do tipo de plataforma digital mais popular no Brasil: as redes sociais. Somos o terceiro maior consumidor do mundo quando o assunto é rede social. Quais serão as mais populares? Que implicações podemos tirar desses dados? Aperte o play e vamos re�etir juntos! Ponto de Partida Estudante, chegamos à mais uma aula da disciplina Mídia e Sociedade Contemporânea, que trata das plataformas digitais. Até aqui, falamos do conceito,da história e do contexto das plataformas na era da comunicação digital. Nesta aula, vamos falar de como implementar uma plataforma digital e descobrir quais são as mais utilizadas no Brasil, com foco nas redes sociais e naquelas voltadas para a música e a educação. Convidamos você a conhecer a bibliogra�a desta aula para se aprofundar nos assuntos tratados, além de conferir as dicas de estudo que, com certeza, complementarão o seu aprendizado. Bom estudo! Vamos Começar! Como já pontuamos em outra aula, plataforma digital é um ambiente on-line que conecta quem produz a quem consome informação e serviços, permitindo uma relação de troca, muito além da simples compra e venda. Pode ser usada para trabalho, lazer e entretenimento (Patel, 2022). As plataformas digitais têm inúmeras funcionalidades e servem para diversos objetivos. Do ponto de vista tecnológico, implementar uma plataforma digital não é tarefa fácil, pois depende de sólido conhecimento em programação, computação e em sistemas de informação. Se as plataformas existentes no mercado, pagas e gratuitas, não atenderem a uma demanda pessoal ou de uma empresa, faz-se necessário criar uma plataforma sob demanda. Por exemplo, há diversas plataformas para a educação, mas se nenhuma delas atender a uma necessidade especí�ca de uma determinada escola é necessário criar uma plataforma sob medida. A maneira mais simples de implementar o uso de uma plataforma digital é criando uma conta nas já existentes. Há opções para todas as demandas, das tradicionais redes sociais, que envolvem entretenimento e negócios, às plataformas de educação, serviços bancários, streaming Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA etc. Boa parte dessas plataformas tem serviços gratuitos e pagos, sendo que o serviço pago oferece mais funcionalidades. Para cadastrar-se em cada uma delas é preciso basicamente ter um e-mail válido, para o qual são enviados uma senha e um link para entrar. É preciso ter em mente quais objetivos o levam a entrar em uma determinada plataforma – ou em várias. Vamos citar o caso das redes sociais como Instagram e Facebook. Além dessas duas, há dezenas de outras redes sociais, umas mais, outras menos conhecidas, algumas para públicos bem especí�cos. Você não precisa estar necessariamente em todas elas. Veja seu plano estratégico, quem você representa com essas plataformas e quais públicos quer atingir. Muitas vezes, mais vale focar duas ou três redes sociais do que estar em mais de dez, sem conseguir, porém, dar conta de forma otimizada de todas elas. O foco pode ser fundamental no sucesso. As plataformas digitais mais utilizadas no Brasil As plataformas digitais fazem parte da vida cotidiana moderna, pois são capazes de proporcionar uma série de facilidades no nosso dia a dia, como pedir comida, comunicar-se com amigos, estudar e realizar transações bancárias sem sair de casa. Nesse contexto de mundo altamente conectado e tecnológico, é possível encontrar uma gama quase in�nita de plataformas digitais, com diversos objetivos e funcionalidades, pagas e gratuitas. Para Santaella (2017, p. 124), esse universo digital “está provocando um verdadeiro abalo sísmico nas sociedades humanas”. Já McLuhan (apud Santaella, 2017, p. 123) a�rma que toda nova tecnologia de comunicação proporciona um ambiente humano totalmente novo: “Ambientes midiáticos não são meramente passivos, mas intensamente ativos, e criam novas ecologias que transformam os hábitos, o comportamento, os modos de pensar, de agir, de sentir e de conviver dos seres humanos”. Nesse enredo, o Brasil, assim como boa parte do mundo hiperconectado, tem se revelado um grande consumidor de serviços das diversas plataformas digitais, haja vista que o país tem 152 milhões de pessoas com acesso à internet (Leon, 2021), que também utilizam plataformas, já que elas “trabalham convergindo tudo o que há de mais valioso nos dias de hoje: conectam interesses e pessoas, otimizando tempo” (Patel, 2022). As plataformas digitais oferecem diversos serviços e, no geral, são de fácil uso, além de acessíveis, por isso que em países como o Brasil são bastante populares. Para cada segmento do público, incluindo faixa etária, teríamos uma lista diferente das plataformas mais utilizadas. No âmbito das redes sociais, as preferidas dos brasileiros são Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e TikTok. Essas são as mais populares, mas não são as únicas. Por trás desses conglomerados de comunicação global, há uma economia bastante pujante nos negócios digitais, o que Castells (2010) chama de era do capitalismo informacional. Nesse contexto, grandes empresas nacionais Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA e internacionais visam se adaptar para oferecer conteúdo aos milhões de clientes com per�l de consumo bastante diferente. Assistir �lmes não signi�ca necessariamente ir ao cinema; assistir a uma série não signi�ca necessariamente ver televisão. As plataformas digitais de streaming estão aí para mostrar isso. As opções no Brasil são variadas e vão da popular Net�ix a semelhantes como Disney+, Amazon Vídeo e Globoplay, sem esquecer do YouTube. Vale lembrar que esse cenário é naturalmente dinâmico. Novos hábitos, necessidades e a busca por novidades por parte da sociedade o fazem bastante volátil e concorrido entre as gigantes da comunicação no Brasil e no mundo. Oferecer bons serviços a preços atrativos parece ser a estratégia deste mercado em busca dos novos consumidores de mídia via plataformas digitais. Siga em Frente... Precisamos falar de redes sociais Por sua enorme popularidade, as redes sociais acabam sendo a principal referência quando o assunto são as plataformas digitais. No entanto, como temos visto até este momento, elas são apenas um dos muitos tipos de plataforma. Por isso, nunca é demais reforçar que redes sociais e plataformas digitais não são termos sinônimos. Toda rede social é uma plataforma digital, mas nem toda plataforma digital é uma rede social. Dito isso, é importante analisarmos alguns dados para termos uma visão mais completa quando o assunto é consumo de redes sociais no Brasil. De acordo com a pesquisa divulgada pela Comscore em 2023, nosso país é o terceiro que mais acessa redes sociais no mundo, �cando atrás apenas de Índia e Indonésia. A análise “Tendências de Social Media 2023” mostra que os 131,5 milhões de usuários conectados no Brasil têm passado cada vez mais tempo na internet, em especial nessas plataformas. A categoria foi a mais consumida em dezembro de 2022, somando 356 bilhões de minutos, o que equivale a 46 horas de conexão por usuário no mês, e representa um aumento de 31% em relação a janeiro de 2020. Além disso, a audiência dessas plataformas superou o tempo despendido em categorias múltiplas, serviços, entretenimento, trabalho, presença corporativa, varejo, serviços �nanceiros, entre outras (Pacete, 2023). A pesquisa também investigou quais plataformas têm mais consumo cruzado – ou seja, as redes sociais que apresentam sobreposição no consumo dos usuários. “As que se destacam são: Instagram e TikTok em relação ao YouTube, 99,1% dos usuários que acessam ambas também acessam o canal de vídeos.” (Pacete, 2023). Por �m, é interessante observar as diversas categorias que mais engajam os consumidores nas redes sociais. No Facebook, os usuários gostam de viagens e telecomunicações; no Instagram, viagens e saúde; e, no TikTok, telecomunicações e games. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Tais dados adiantam as diferenças de per�l de usuário entre uma rede social e outra, sem deixar de mostrar que uma mesma pessoa pode acessar simultaneamente várias plataformas. Isso também explica o tempo médio despendido em frente às telas pelos brasileiros: 46 horas mensais. Plataformas digitais para música e educação As plataformas digitais têm inúmeras funções, objetivos e funcionalidades. Existem muitas plataformas de entretenimento e tantas outras de educação, por exemplo. No campo da cultura, elas mudaram radicalmente o modelo de negócios na músicae a forma como a sociedade a consome. Podemos considerar que tudo isso aconteceu com advento do iPod pela Apple, que revolucionou, a partir daí, a indústria da música. “O dispositivo, principal antecessor do iPhone, foi sensação nos anos 2000 e ajudou a revolucionar a relação com a música” (Loubak, 2021). Até a chegada do iPod, os tocadores de MP3 da época não funcionavam muito bem, devido a questões de memória, bateria e qualidade do áudio, mas o novo dispositivo propôs uma nova experiência para ouvir música. Em junho de 2002, a segunda geração do iPod se tornou compatível com o sistema operacional Windows, o que facilitou a proliferação do aparelho. A publicidade também �cou mais forte, trazendo �guras importantes da música para reforçar a marca: Mick Jagger, Bono Vox, Madonna, entre outros nomes, estiveram envolvidos nas campanhas do iPod (Loubak, 2021). Na esteira dessa novidade, o iTunes também impactou bastante o mercado e a cultura da música. A plataforma servia como uma espécie de player multimídia do iPod, funcionando como hub de mídia da Apple. No entanto, embora tenha feito muito sucesso e, talvez, tenha sido a grande plataforma pioneira e executora de música digital, já não existe mais. Atualmente, o Spotify é a plataforma digital de música mais popular no Brasil e no mundo. Trata-se de um serviço de streaming de áudio (música e podcasts) desenvolvido pela startup Spotify AB, na Suécia, e ativo desde 2008. A plataforma Deezer também se destaca entre as executoras de música, sendo um serviço de streaming de áudio, lançado em 2007, e presente em mais de 180 países. De acordo com o site da plataforma, atualmente são mais de 90 milhões de músicas disponíveis, mais de 100 milhões de playlists e mais de 4 milhões de programas de áudio em seu acervo, a exemplo de podcasts. Além de entretenimento, as plataformas digitais também oferecem opções para a educação. De um modo geral, cada instituição de ensino, seja de nível básico, médio ou superior, tem a sua própria plataforma digital de educação. Essa série de interfaces virtuais para o uso educativo tem sido chamada de ambiente virtual de aprendizagem, conhecido também pela sigla AVA, a exemplo das plataformas Moodle, BlackBoard e Canvas. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Os AVAs são sistemas que permitem a realização de aulas on-line (e demais estruturas de um ambiente educacional, com secretaria, biblioteca etc.), e podem ser criados por pro�ssionais de programação e sistemas de informação. Um exemplo do AVA é o sistema virtual de universidades para os seus cursos de graduação EAD. Moodle, que é um ambiente virtual de aprendizagem, é uma plataforma digital de educação de código aberto para a criação de cursos on-line. Sua sigla signi�ca Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment, ou seja, ambiente de aprendizado modular orientado ao objeto. “O Moodle funciona como uma sala de aula online onde professores podem disponibilizar material didático e propor tarefas interativas, como testes e discussões em fóruns” (Loubak, 2019). Vamos Exercitar? Depois desta aula, esperamos que você tire um tempinho para re�etir a respeito de seu próprio uso das plataformas digitais. Que tipo de usuário você é? Quanto tempo você dedica às redes sociais? Você faz consumo cruzado? Que papel as plataformas têm desempenhado na sua vida? Começar olhando para dentro é uma forma corajosa de encarar a realidade e os impactos irreversíveis que a era digital proporciona. Se o mundo alterou a forma de construir e manter as relações sociais, é natural que você também faça parte disso. No entanto, como pro�ssional de comunicação, você precisa ser um agente ativo – utilizando as plataformas digitais com consciência e senso crítico. Saiba mais Que tal pensar um pouco mais a respeito dos impactos da era digital em nossa vida? O livro Vivendo esse mundo digital, de Cristiano Abreu e colegas, é um ótimo convite para a re�exão. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Faz parte do aprendizado �car bem-informado em relação a todas as novidades quando o assunto é mídia, marketing e comunicação. Nesse sentido, o portal da revista Meio e Mensagem funciona muito bem como fonte de informação. Vale o clique! Referências ABREU, C. N.; EISENSTEIN, E.; ESTEFENON, S. G. B. Vivendo esse mundo digital. Porto Alegre: Grupo A, 2013. CASTELLS, M. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2010. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788582710005/pageid/0 https://www.meioemensagem.com.br/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA DEEZER. Página inicial. 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Brasil é o terceiro maior consumidor de redes sociais em todo o mundo. Forbes Tech, 9 mar. 2023. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro- pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/. Acesso em: 4 fev. 2024. PATEL, N. Plataformas digitais: o que são e quais as melhores para sua empresa. Disponível em: https://neilpatel.com/br/blog/plataformas-digitais/. Acesso em: 19 mar. 2022. RIBEIRO, F. Apple anuncia o �m do iTunes; Relembre a importância do controverso aplicativo. Canaltech, 4 jun. 2019. Disponível em: https://canaltech.com.br/software/apple-anuncia-o-�m- do-itunes-relembre-a-importancia-do-controverso-aplicativo-140879/. Acesso em: 20 mar 2022. SANTAELLA, L. Redação publicitária digital. Curitiba: Intersaberes, 2017. Aula 4 Plataformas Digitais: Um Olhar Crítico Plataformas digitais: um olhar crítico Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. https://www.deezer.com/br https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/20-anos-do-ipod-conheca-a-historia-do-produto-que-mudou-a-historia-da-musica/ https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/20-anos-do-ipod-conheca-a-historia-do-produto-que-mudou-a-historia-da-musica/ https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-08/brasil-tem-152-milhoes-de-pessoas-com-acesso-internet#:~:text=Pesquisa%20promovida%20pelo%20Comit%C3%AA%20Gestor,anos%20t%C3%AAm%20internet%20em%20casa%3E https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-08/brasil-tem-152-milhoes-de-pessoas-com-acesso-internet#:~:text=Pesquisa%20promovida%20pelo%20Comit%C3%AA%20Gestor,anos%20t%C3%AAm%20internet%20em%20casa%3E https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-08/brasil-tem-152-milhoes-de-pessoas-com-acesso-internet#:~:text=Pesquisa%20promovida%20pelo%20Comit%C3%AA%20Gestor,anos%20t%C3%AAm%20internet%20em%20casa%3E https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-08/brasil-tem-152-milhoes-de-pessoas-com-acesso-internet#:~:text=Pesquisa%20promovida%20pelo%20Comit%C3%AA%20Gestor,anos%20t%C3%AAm%20internet%20em%20casa%3E https://www.techtudo.com.br/noticias/2019/10/o-que-e-moodle-conheca-a-plataforma-de-ensino-a-distancia.ghtml https://www.techtudo.com.br/noticias/2019/10/o-que-e-moodle-conheca-a-plataforma-de-ensino-a-distancia.ghtml https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro-pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro-pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/ https://neilpatel.com/br/blog/plataformas-digitais/ https://canaltech.com.br/software/apple-anuncia-o-fim-do-itunes-relembre-a-importancia-do-controverso-aplicativo-140879/ https://canaltech.com.br/software/apple-anuncia-o-fim-do-itunes-relembre-a-importancia-do-controverso-aplicativo-140879/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula, nós vamos analisar dados e pesquisas que tratam do acesso à internet e do uso das redes sociais no Brasil. O que será que os números têm para nos mostrar a respeito da nossa realidade? Como podemos utilizá-los para re�etir a respeito dos impactos das plataformas digitais em nossa vida? Aperte o play e venha pensar conosco! Ponto de Partida Na última aula, nós acompanhamos que, de acordo com a pesquisa realizada pela Comscore em 2023 (Pacete, 2023), o Brasil é o terceiro maior consumidor de redes sociais no mundo. Ultrapassamos países que, classicamente, eram associados ao alto uso da internet, como Estados Unidos, por exemplo. No pódio, dividimos lugar com Índia e Indonésia – ambas nações em desenvolvimento, à semelhança do Brasil. Mais do que nos surpreendermos com esses dados e, eventualmente, compartilhá-los em conversas com amigos, precisamos nos inquietar. O que esses números dizem para além dos seus valores matemáticos? Quais são as consequências do consumo exacerbado de plataformas digitais, como as redes sociais? Vamos juntos re�etir a esse respeito! Vamos Começar! 131,5 milhões de usuários. 356 bilhões de minutos. 46 horas de conexão mensais. Pois é. Se fôssemos pensar em horas ininterruptas, o brasileiro dedica quase dois, dos 30 dias de cada mês, conectado às redes sociais. Bastante, não é mesmo? Esses dados, levantados pela Comscore em 2023 (Pacete, 2023), mostram a preferência do nosso país pelas plataformas digitais sociais, superando todas as outras, como trabalho, serviços �nanceiros, entretenimento, varejo. Ainda de acordo com o estudo, as redes mais acessadas pelos brasileiros são o YouTube (com incríveis 96,4% de alcance), Facebook e Instagram. TikTok e Kwai aparecem logo atrás. Agora, preste atenção nesses números: Facebook, X (antigo Twitter) e Instagram, juntos, somaram 15,6 bilhões de ações durante todo o ano de 2022; 10 milhões de conteúdos e 230,8 milhões de compartilhamentos. O Instagram segue sendo a rede de maior volatilidade, no entanto, é a que concentra a maior cota de ações e comentários entre usuários e marcas. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Nós sabemos que esses dados surpreendem – mas o que eles contam sobre o nosso consumo das plataformas digitais? Quais implicações eles têm? Você, como futuro pro�ssional da comunicação, deve ter um interesse ainda maior em pensar a respeito desses números, porque eles são uma representação direta dos novos comportamentos atrelados à era digital. É com esses consumidores que você vai falar; são eles a quem você informar, instruir e por aí vai. Por essa razão, quanto mais preparado você estiver, melhor se sairá no planejamento de estratégias editoriais e de comunicação. Sem contar o exercício crítico, importantíssimo para criar pessoas mais atentas e conscientes do seu papel social. Compreendendo o cenário brasileiro Para compreender esses dados de forma mais contextualizada, é necessário abrir o campo de visão e combinar resultados de diferentes pesquisas. Por isso, começaremos comparando o consumo das redes sociais no Brasil com o acesso à internet pelo país. De acordo com os números divulgados pelo IBGE em 2023, pouco mais de 80% dos lares brasileiros têm acesso à internet. Esse percentual, no entanto, é uma média – o que signi�ca que ele se altera dependendo da região que analisarmos. De acordo com a pesquisa, a conectividade dos domicílios é maior na área urbana, sendo 82% das residências com internet. Já na zona rural, a inclusão digital chegou a 68% dos domicílios. A Região Centro-Oeste é a que apresenta maior quantidade de residências com acesso à internet (83%), seguida do Sudeste (82%), Sul (81%), Nordeste (78%) e Norte (76%). Os principais tipos de conexão utilizados são �bra óptica ou cabo e rede móvel 3G/4G (Ascom, 2023). Apesar de 80% parecer um índice alto, ele revela que 20% dos lares do país não têm acesso à internet. São 36 milhões de pessoas à margem da era digital. E esse número �ca ainda mais signi�cativo quando fazemos o recorte por cor, idade e classe socioeconômica: desses 36 milhões, 58% são pessoas negras, a maioria pertencente às classes D e E, com mais 45 anos e com baixa escolaridade. Isso mostra que o Brasil tem um claro recorte sociorracial quando tratamos de exclusão digital, evidenciando o quanto ainda precisamos evoluir no acesso democrático à internet e às novas tecnologias. Sermos o terceiro país do mundo em consumo de redes sociais não signi�ca dizer que todos temos acesso a essas plataformas. Pelo contrário – trata-se de um abismo no qual dezenas de milhões de pessoas sequer têm contato com computadores, celulares e aplicativos. Siga em Frente... Sobre redes sociais e saúde mental E como �ca nossa saúde mental quando falamos do consumo excessivo das redes sociais? Embora muitos estudos ainda precisem ser desenvolvidos no Brasil, iniciativas realizadas por Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA outros países já apontam algumas tendências preocupantes. Em 2023, uma pesquisa orientada pelo psicólogo e pesquisador Jean Twenge, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, mostrou que, quando analisamos a Geração Z (ou seja, pessoas nascidas entre a segunda metade da década de 1990 e 2010), há uma relação signi�cativa entre ascensão das redes sociais, tempo gasto em frente às telas e o aumento da depressão entre os adolescentes. O estudo, que é feito desde 1991, apontou que, em 2023, quase metade dos 50 mil adolescentes pesquisados concordou com frases como: “não consigo fazer nada direito”; “não aproveito a vida”; e “minha vida é inútil”. […] as taxas de sintomas depressivos em adolescentes aumentaram enormemente desde a popularização em massa do smartphone no início de 2010. “Não há dúvida de que essa é a principal causa do aumento da depressão adolescente agora”, disse [Jean] Twenge. “É de longe a maior mudança na vida cotidiana dos adolescentes nos últimos 10 a 12 anos. Nada se compara.” (Sousa, 2023). Os resultados obtidos pela pesquisa têm muita gravidade – e é primordial que comunicadores e consumidores de redes sociais se debrucem sobre esses dados sem ter medo de re�etir, analisar e repensar suas atitudes, tanto no âmbito pro�ssional quanto no âmbito pessoal. É muito comum encontrarmos matérias e artigos pela internet que mostram apenas o lado bom do crescimento das redes sociais, salientando a dinamização e democratização da produção de conteúdo; os novos nichos de mercado; as inovações do marketing digital. E de fato, são tendências promissoras, mas que não podem ser analisadas sem contexto e, principalmente, não podem negligenciar a parte mais importante disso tudo: por trás de todo usuário da internet e das redes sociais existe uma pessoa. E nós somos muito mais complexos que os nossos avatares. Abundância versus escassez nas plataformas digitais Martha Gabriel, uma das principais pesquisadoras brasileiras da área da tecnologia e da inovação, defende que enxerguemos a era digital e suas plataformas a partir de dois polos: o da abundância e o da escassez. É evidente que a tecnologia é uma ferramenta fantástica para transformar escassez em abundância, assim como as redes sociais. Com poucos toques na tela de um smartphone, somos inundados por conexões, entretenimento e informação. Tudo isso seduz, preenche. Depois da internet e das plataformas digitais, sentir tédio é quase uma escolha. Porém, como qualquer escolha, existem consequências.E é neste ponto que encontramos o polo da escassez – escassez de tempo, de silêncio, de privacidade. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Nossa fuga do tédio tem sérios efeitos colaterais, porque o tédio é uma dor, uma frustação necessária. O tédio, quando se instala, recruta nossos recursos internos de regulação, ativando nosso autoconhecimento e nossa criatividade. Se nós não deixamos o tédio vir, consequentemente, não deixamos nosso cérebro descansar, gerando sobrecarga. Tal sobrecarga gera ansiedade. Ansiedade gera estresse – e o estresse pode desencadear uma série de outras coisas, inclusive doenças, como a depressão. Você percebe como todas as questões estão conectadas? Por isso é tão importante re�etir sobre pesquisas, tendências de mercado, de comportamento etc. A�nal, os dados são apenas fragmentos de uma realidade muito mais complexa. Vamos Exercitar? Nós temos certeza de que a análise que �zemos nesta aula lhe tocou em algum ponto – principalmente porque nós todos somos parte dessa realidade. Nós somos os usuários brasileiros que alçamos o país ao pódio dos maiores consumidores das redes sociais. Que consequências diretas esse uso excessivo tem na sua dinâmica de vida? Como anda sua saúde mental? Tire um tempo para pensar nisso, e peça ajuda, se necessário! Também queremos propor um desa�o: na próxima vez que o tédio aparecer por aí, antes de acionar seu smartphone, deixe-o �car por uns minutinhos – ele pode até não ser uma ótima companhia, mas é um amigo mais do que necessário. Saiba mais Que tal assistir a palestra completa da professora Martha Gabriel com o tema abundância e escassez na era digital? Ela está disponível na plataforma TED Talks. Vale o clique! Outra dica de outro é o livro Você, Eu e os Robôs, também de Martha Gabriel. A obra é um manual acessível e prático para nos movermos em meio às transformações contemporâneas. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Referências 36 milhões de pessoas no Brasil não acessaram a internet em 2022, diz pesquisa. G1, 16 maio 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2023/05/16/36-milhoes-de- pessoas-no-brasil-nao-acessaram-a-internet-em-2022-diz-pesquisa.ghtml. Acesso em: 5 de fev. 2024. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788597028140/epubcfi/6/2%5B%3Bvnd.vst.idref%3Dcover%5D!/4/2/2%4051:2 https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2023/05/16/36-milhoes-de-pessoas-no-brasil-nao-acessaram-a-internet-em-2022-diz-pesquisa.ghtml https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2023/05/16/36-milhoes-de-pessoas-no-brasil-nao-acessaram-a-internet-em-2022-diz-pesquisa.ghtml Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA ASCOM. 80% dos domicílios brasileiros possuem acesso à internet, aponta pesquisa. Ascom – Ministério das Telecomunicações, 17 maio 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mcom/pt- br/noticias/2023/maio/80-dos-domicilios-brasileiros-possuem-acesso-a-internet-aponta- pesquisa. Acesso em: 5 fev. 2024. GABRIEL, M. Você, Eu e os Robôs – Como se Transformar no Pro�ssional Digital do Futuro. São Paulo: Grupo GEN, 2021. E-book. ISBN 9788597028140. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597028140/. Acesso em: 5 fev. 2024. JENKINS, H. A cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009. PACETE, L. G. Brasil é o terceiro maior consumidor de redes sociais em todo o mundo. Forbes Tech, 9 mar. 2023. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro- pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/. Acesso em: 4 fev. 2024. SOUSA, D. Número de adolescentes que ‘não aproveitam a vida’ dobrou com as redes sociais. Istoé Dinheiro, 20 jun. 2023. Disponível em: https://istoedinheiro.com.br/numero-de- adolescentes-que-nao-aproveitam-a-vida-dobrou-com-as-redes-sociais/. Acesso em: 5 fev. 2024. Aula 5 Novas plataformas de comunicação Novas plataformas de comunicação Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula faremos o encerramento da Unidade 2, destacando a competência desenvolvida e os resultados de aprendizagem esperados. Nós vamos destacar, ainda, os conceitos e https://www.gov.br/mcom/pt-br/noticias/2023/maio/80-dos-domicilios-brasileiros-possuem-acesso-a-internet-aponta-pesquisa https://www.gov.br/mcom/pt-br/noticias/2023/maio/80-dos-domicilios-brasileiros-possuem-acesso-a-internet-aponta-pesquisa https://www.gov.br/mcom/pt-br/noticias/2023/maio/80-dos-domicilios-brasileiros-possuem-acesso-a-internet-aponta-pesquisa https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro-pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/ https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro-pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/ https://istoedinheiro.com.br/numero-de-adolescentes-que-nao-aproveitam-a-vida-dobrou-com-as-redes-sociais/ https://istoedinheiro.com.br/numero-de-adolescentes-que-nao-aproveitam-a-vida-dobrou-com-as-redes-sociais/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA re�exões mais importantes para que você, futuro pro�ssional da comunicação, mantenha-se atento e alinhado às principais tendências do mercado. Vamos juntos? Ponto de Chegada Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é interpretar a evolução das plataformas digitais enquanto meios de comunicação, você precisa, primeiramente, conhecer o conceito de plataforma digital. Embora as de�nições variem de um pesquisador para outro, de uma maneira geral, podemos entender as plataformas digitais como “bases tecnológicas capazes de promover a produção, o armazenamento, a recuperação, a disseminação de informações e interações, de maneira dialógica ou não dialógica, entre seus usuários”. (Albuquerque; Silva, 2021, p. 67). Simpli�cando ainda mais, plataformas digitais funcionam como canais de comunicação baseados em tecnologia – por isso, a interação é seu elemento central. É justamente por sua “alma interativa” que as plataformas digitais representam uma verdadeira revolução no campo comunicativo. Elas recon�guram os �uxos e as práticas, até então baseadas em mídias de massa, em que um emissor produzia mensagens genéricas destinadas a receptores-modelo, cujas individualidades eram quase sempre ignoradas. Nessa forma de comunicação, era muito difícil promover um diálogo efetivo entre audiência e meio. O �nal do século XX viu o acesso à internet ser democratizado e, com ele, a ascensão das plataformas digitais. Em poucos anos, a interação se tornou palavra de ordem, reorganizando não só nossa comunicação, mas as maneiras de nos relacionarmos, de nos comportarmos, como e o que consumirmos. En�m, a tecnologia e suas plataformas inauguraram novas formas de pensar e viver – reunidas no conceito de cultura da convergência. É Henry Jenkins (2009), na primeira década dos anos 2000, quem percebe e sintetiza as características desse novo momento cultural. Por convergência, re�ro-me ao �uxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue de�nir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do que imaginam estar falando (Jenkins, 2009, p. 29). Compreender do que se trata e como funciona a cultura da convergência é muito natural para nós – a�nal, nós vivemos e a praticamos todos os dias. Fazemos parte do movimento Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA convergente, mas nem por isso devemos nos deixar levar pelas circunstâncias, sem re�etir a respeito delas. É daí que vem a necessidade de interpretarmoso uso das plataformas digitais e seu novo tipo de comunicação. As transformações que atravessam o tecido social também atravessam o mercado de trabalho, rede�nindo práticas, competências, habilidades e sensibilidades. O pro�ssional de comunicação do século XXI deve ser capaz de combinar curiosidade com senso crítico, abrindo-se às inovações sem fechar os olhos para as consequências que elas podem trazer. Por tudo isso, reforçamos que aprender e questionar nunca é demais. Um pro�ssional atento à sua realidade é também um cidadão consciente de seu papel social. Bons estudos! É Hora de Praticar! Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Letícia é uma estudante do curso de jornalismo e acaba de conseguir um estágio no jornal impresso mais antigo de sua cidade – o Jornal do Povo. Apesar de ter resistido bravamente às transformações tecnológicas e oscilações no número de assinantes, o periódico se viu obrigado a adequar seu formato e sua forma de comunicação com o público nos últimos três anos. Além de manter um portal de notícias on-line, reduziu a tiragem impressa a um quinto do que costumava circular no início dos anos 2000. A diretoria do Jornal do Povo, no entanto, sabe que essas mudanças são insu�cientes – e, se quiserem continuar �rmes no mercado, precisam se adaptar e se reinventar na era digital. A chegada de Letícia e de outros jovens estagiários foi uma aposta da diretoria para “oxigenar” a redação e a forma de pensar do jornal. Como primeiro desa�o, o time de jovens jornalistas recebeu a tarefa de elaborar um plano-piloto de inserção do Jornal do Povo nas redes sociais, criando um per�l o�cial. À Letícia, coube a tarefa de pesquisar qual seria a rede social mais adequada para o início do processo. Se você fosse Letícia, quais caminhos seguiria para levantar os dados necessários? Que papéis as plataformas digitais exercem atualmente em nosso cotidiano? Quais impactos diretos as plataformas digitais trazem para a minha pro�ssão? Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Meu uso das plataformas digitais, especialmente as sociais, tem oscilado mais entre o polo da abundância ou da escassez? Existem várias maneiras de reunir dados, pesquisas e informações para a tarefa de Letícia, ainda mais se levarmos em consideração a inteligência coletiva e o ambiente altamente interativo proporcionado pela internet. Na web, cada usuário pode criar seu próprio caminho – por isso que destacamos, aqui, apenas uma das possibilidades de resolução deste estudo de caso. O primeiro passo de Letícia deve ser estipular, com a diretoria do jornal, que tipo de público eles pretendem alcançar com as redes sociais. Qual seria o per�l médio de usuário? Jovens e adolescentes? Adultos? Idosos? Estabelecer uma faixa etária já auxilia a pensar quais redes sociais se encaixam e quais não. Outra preocupação deve ser o tipo de conteúdo que o jornal pretende oferecer. O formato principal serão vídeos? Imagens? Textos? Áudios? Cada plataforma recebe melhor (e engaja melhor, consequentemente) determinados tipos de conteúdo. Sem contar que o próprio público-alvo tem suas preferências. De�nindo per�l de público e formato de conteúdo, Letícia já terá boas indicações de quais redes sociais sugerir, levando a uma escolha mais assertiva para o Jornal do Povo. Plataformas digitais ocupam papel central na forma de agir e de se comunicar da sociedade contemporânea. Por essa razão, preparamos um mapa mental indicando seu conceito e alguns tipos mais populares de plataforma. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Figura 1 | Plataformas digitais ALBUQUERQUE, A.; SILVA, T. Plataformas digitais e departamentos de comunicação/relações públicas: uma revisão sistemática. Revista Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação, n. 42, 2021. Disponível em: http://www.risti.xyz/issues/risti42.pdf. Acesso em: 20 fev. 2022. DIZARD JUNIOR, W. A nova mídia. A comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009. JENKINS, H. Cultura da conexão. São Paulo: Aleph, 2015. MARTINO, L. M. S. Teoria das mídias digitais. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. SILVA, G. C.; SANTOS, M. F. L.; SANSEVERINO, G. G.; MESQUITA, L. Como as plataformas digitais provocaram uma ruptura no modelo de jornalismo consolidado no século XX. Revista Eptic, v. 22, n. 1, 2020. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/12124. Acesso em: 20 fev. 2022. , http://www.risti.xyz/issues/risti42.pdf https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/12124 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Unidade 3 Produtos, processos e discursos midiáticos Aula 1 Comunicação e Mídia Comunicação e mídia Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Depois de passearmos pelas plataformas digitais e as novas formas de comunicação, está na hora de conhecermos os conceitos de mídia e sociedade de massa. Você vai ver que essas estruturas e �uxos comunicativos ainda movem nossa sociedade e estão longe de serem superados. Vamos nessa? Ponto de Partida Imagine que você vive em um mundo no qual não existe mídia impressa, não há jornais ou revistas. Conseguiu imaginar? E um mundo sem rádio? Tente pensar na sala da sua casa sem a presença da televisão. Talvez esteja �cando mais difícil. E como seria a sua vida sem celular? Agora, a cartada �nal: você consegue conceber sua vida sem a internet? Conseguiria passar um mês sem acesso à rede? Uma semana? Um dia? Algumas horas pelo menos? Esse exercício nos coloca diante do fato de que, atualmente, é praticamente impossível pensar nossa vida sem a intermediação da mídia. Qualquer que seja o seu formato, ela é uma instância onipresente no nosso cotidiano. Mais do que instrumentos de transmissão de mensagens, os Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA meios de comunicação se tornaram a forma pela qual apreendemos nossa realidade. Como a�rma Luhmann: “aquilo que sabemos sobre nossa sociedade, ou mesmo sobre o mundo no qual vivemos, o sabemos pelos meios de comunicação.” (Luhmann, 2005, p. 15). Nos relacionamos com o mundo através da mídia sem que tenhamos consciência disso ou mesmo possibilidade de escolha. Como de�ne Sodré (2013), estamos imersos nesse bios midiático, isto é, todas as nossas relações, sejam elas sociais, econômicas, culturais ou políticas, são atravessadas pela mídia, suas tecnologias, linguagens e estética. Por essa razão é tão importante re�etir a respeito do conceito de mídia, da comunicação midiática e de todos os processos que se engendram a partir dela. Vamos aprender juntos? Vamos Começar! Mídia e comunicação midiática Falar de comunicação midiática passa pela necessidade de uma concepção clara e precisa do que esse adjetivo implica – isto é, que características particulares a mídia confere à comunicação. Segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa (2021), midiática (mídia + ática) é um adjetivo que indica algo 1. Relativo à mídia; 2. Que é transmitido, difundido pela mídia. Então, o primeiro conceito a se de�nir é: o que é mídia? De acordo com Perassi e Meneghel (2011), “a mídia é o sistema físico que suporta, veicula e canaliza ou comunica a informação como mensagem”. Quer dizer, a mídia é o sistema físico ou suporte que, no mundo contemporâneo, faz com que mensagens e informações percorram o caminho entre emissor e receptor, podendo ser chamado também de mediador, de onde vem a palavra mídia (media). Mídia e comunicação de massa A história da comunicação midiática está diretamente relacionada ao desenvolvimentodo sistema capitalista, mais especi�camente à chamada Revolução Industrial (meados do século XIX), uma continuação do processo de industrialização iniciado um século antes na Inglaterra (por volta de 1760). Neste momento, o mundo passava por profundas mudanças em várias esferas: tecnológicas (transporte, comunicação), industriais (novas fontes de energia e aço) e sociais (aumento da população urbana provocado pelo êxodo rural e pela industrialização). Thompson (1998) relata que, para atender ao aumento das demandas de um número cada vez maior de pessoas vivendo nas cidades, tanto a produção quanto a distribuição de bens passaram Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA a ser realizadas em grande escala – ou em massa. Por extensão, a massa passa a ser utilizada para descrever também a sociedade. O termo sociedade de massa é utilizado como referência à condição das sociedades surgidas no seio do sistema capitalista, em que formas tradicionais de associação como comunidade, classe, etnicidade e religião perderam sua centralidade dando lugar a uma organização social burocratizada e de grande escala, estruturada para atender às necessidades do sistema. Assim, sociedade de massa de�ne uma sociedade marcada pela produção, distribuição e consumo de bens e serviços em larga escala, guiada por modelos de comportamento generalizados e que participa da vida cultural e política segundo estes mesmos modelos, num processo mediado pelos meios de comunicação (Hall, 1996, p. 720-722). E aqui encontramos o que particularmente nos interessa nesta aula. No decorrer do século XIX, ao mesmo tempo que as transformações tecnológicas permitiram o desenvolvimento técnico dos meios de comunicação capazes de transmitir mensagens a um número cada vez maior de pessoas, a estruturação desses meios se dá com base nas regras do mercado capitalista. Assim, chamamos de comunicação de massa o processo industrializado de produção e distribuição de mensagens culturais para a coletividade, por meio de veículos mecânicos (elétricos/eletrônicos/digitais), com o objetivo de informá-la, educá-la, entretê-la ou persuadi-la. Como de�ne Thompson: Comunicação de massa refere-se, portanto, à uma série de fenômenos que emergiram historicamente através do desenvolvimento de instituições que procuram explorar novas oportunidades para reunir e registrar informações, para produzir e reproduzir formas simbólicas, e para transmitir informação e conteúdo simbólico para uma pluralidade de destinatários em troca de algum tipo de remuneração �nanceira (Thompson, 1998, p. 32). Se os produtos, processos e discursos midiáticos na sociedade contemporânea são realizados e transmitidos por meios de comunicação que se organizam segundo o modelo industrial, compreender as características dessa mediação e as consequências (planejadas ou não) dessa estrutura justi�cam a relevância do tema. A relação que estabelecemos com esses meios já está tão entranhada na nossa sociedade que pouco nos damos conta de seus impactos. Segundo Chauí (2006), é possível identi�car algumas características do fenômeno da comunicação de massa: A comunicação de massa envolve certos meios institucionais de produção e de difusão: o desenvolvimento das indústrias da mídia tornou possível a produção e a difusão generalizada das formas simbólicas. Mercantilização das formas simbólicas: os objetos produzidos pelas instituições de mídia passam por um processo de valorização econômica. Dissociação estrutural entre a produção das formas simbólicas e sua recepção: (nas mídias tradicionais) o �uxo de mensagens é predominantemente em sentido único, com Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA �uxo estruturado e limitada capacidade de intervenção ou contribuição dos receptores, estabelecendo uma parceria desigual no processo de intercâmbio simbólico. Extensão da disponibilidade das formas simbólicas no tempo e no espaço: uma vez que a mídia estabelece uma separação entre os contextos de produção e os contextos de recepção, as mensagens mediadas se tornam disponíveis em contextos muito distintos daqueles em que elas foram originalmente produzidas. Circulação pública das formas simbólicas mediadas: a comunicação de massa �ca à disposição, inicialmente, de uma pluralidade de receptores, mesmo que circulem apenas entre um relativamente pequeno e restrito setor da população. Siga em Frente... Os processos midiáticos Segundo Gomes (2017, p. 36), os processos midiáticos podem ser entendidos como um conjunto de práticas comunicacionais pertencentes ao campo das mídias que operam mediante dispositivos (TV, jornal, livro, fotogra�a etc.) segundo diferentes linguagens. Quer dizer, assim como o processo de produção industrial extrapola as relações econômicas e estrutura outras esferas da nossa vida, o processo de midiatização extrapola o contexto da comunicação e atinge outros espaços, e nossas interações sociais passam a se estabelecer baseadas no modelo midiático. É por meio desses processos midiáticos que estabelecemos contato e criamos vínculo social. Ou seja, a estrutura midiática – suas técnicas, tecnologias, linguagens e a cultura que ela cria – atravessa o mundo social, alterando formas de sociabilidade e ressigni�cando nosso contato com o mundo. Isso não quer dizer que todas as outras mediações sociais tenham desaparecido, mas a mediação tecnológica tem, no mundo contemporâneo, uma importância maior do que todas as outras. A midiatização é, portanto, uma renovação da forma como os sujeitos se apresentam e se comunicam no mundo, com uma maior dependência das tecnologias infocomunicacionais (Brittos; Santos, 2012). Por isso, é fundamental que tenhamos nossos olhos abertos aos processos midiáticos, uma vez que eles atravessam a estrutura dos dispositivos de comunicação, promovendo mudanças nas esferas sociais. Tipos e características de comunicação midiática Vamos, então, analisar com um pouco mais de atenção essa relação entre mídia, cultura e sociedade – ou entre comunicação, técnica e mediação – pelo histórico do desenvolvimento dos meios e seus impactos na sociedade de cada época – uma vez que as mudanças nas tecnologias de comunicação não resultaram apenas em novos aparelhos, mas estabeleceram novas formas de linguagem, novas sensibilidades e novas formas de percepção. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA O primeiro processo de comunicação ampliada se deu com o desenvolvimento da mídia impressa e, neste caso, a técnica prescindiu de duas pré-condições fundamentais: alfabetização e dinheiro. Quer dizer, para que a técnica tivesse de fato alcance ampliado, era preciso gente que soubesse ler e com recursos para poder comprar. Inicialmente, essas produções tinham uma circulação mais limitada, voltada para temas especí�cos, como a medicina e a ciência. No século XIX, em uma sociedade que ganhava seus contornos urbano e industrial, os jornais e as revistas aumentaram sua circulação e, além de meios de informação, criaram nichos e per�s editoriais. Também os folhetins e cadernos de assuntos de atualidades surgiram como uma modalidade literária mais acessível, de natureza narrativa e destinada ao grande público, com a �nalidade de promover não a re�exão e formação política, mas entretenimento para uma população imersa no trabalho industrial. Os avanços técnicos associaram �guras e imagens aos textos, abrindo caminho para a prática das manchetes. A própria noção de notícia como informação ultrapassou a referência comunitária, abrangendo fatos e processos em curso no mundo e, assim, a chamada comunicação de massa foi se desenhando por meio da mídia impressa, passando a fazer parte do cotidiano da sociedade urbano-industrial. Ao longo do século XX, novas tecnologias permitiram a transmissão de mensagens pelo som, um recurso fundamental também para a mídia impressa, pois permitiu a constituição de agências de notícias inicialmente pelo telégrafo, depois com o telefone e o rádio. Foi o rádio, aliás, uma tecnologia que impactou signi�cativamente a relação do público coma informação, uma vez que os recursos como a voz do locutor, os efeitos sonoros (sonoplastia) e a música trouxeram para a audiência a possibilidade da experiência, ampliada posteriormente com a comunicação simultânea por som, imagem e texto: cinema, TV, VHS, DVD, Blu-Ray, internet, celulares são meios e recursos de comunicação que conjugam texto (legendas e transcrições) com imagens �xas ou em movimento (fotos ou vídeos). Do ponto de vista da recepção, é importante destacar dois pontos. As mensagens exigem posturas e repertórios distintos em razão do meio técnico: as mensagens impressas exigem certa re�exão e repertório para a compreensão do texto, ao passo que mensagens sonoras exigem atenção e até um pouco de imaginação do ouvinte. Ambas, contudo, estabelecem relação de credibilidade em dois níveis: do veículo de imprensa (a empresa, mais especi�camente), e de quem divulga (o nome que assina a informação). Nos dois casos, estão implícitos recortes de realidade, isto é, a informação veiculada será sempre resultante de uma leitura do real: Um texto jornalístico não trata apenas de um assunto, mas do que pudemos saber sobre ele. Na compreensão do texto, estão embutidos os processos da produção discursiva, as decisões que o jornalista tomou ao escrevê-lo, as informações que ele não conseguiu obter, o cuidado ao relatar certos fatos, os links casuais que seu autor fez e deixou de fazer (Steinberger, 2005, p. 88-89). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Vamos Exercitar? Como a�rma Garcia (2006, p. 60), “midiar é mais que verbo de ação, é uma articulação competente da informação e do consumo inerente à linguagem”. No mundo contemporâneo, imerso e conduzido pelas tecnologias digitais, o impacto da produção de produtos e discursos midiáticos é ainda mais avassalador em razão da velocidade e das distâncias que as mensagens conseguem percorrer em um espaço de tempo menor, talvez, que um piscar de olhos. Por isso, devemos analisar a mídia, ou os meios de comunicação, de maneira crítica, pois eles são um elemento social poderoso, capaz de expor e consolidar vínculos sociais mediados diferentes linguagens (Garcia, 2006, p. 60). Seu exercício de re�exão não termina por aqui. Que tal associar o que aprendemos nesta aula com os conceitos de plataformas digitais e cultura da convergência? Em que medida eles alteram – e são alterados – pela mídia de massa? Pense nisso! Saiba mais O Capítulo 1 do livro Atuação da mídia apresenta com mais profundidade o conceito de comunicação de massa e sua relação com a sociedade. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Referências BRITTOS, V. C; SANTOS, D. G. Processos midiáticos do esporte: do futebol na mídia para um futebol midiatizado. Comunicação, mídia e consumo, São Paulo, v. 9, n. 26, p. 173-190, 2012. Disponível em: http://revistacmc.espm.br/index.php/revistacmc/article/view/350/pdf. Acesso em: 27 abr. 2022. CHAUI, M. Convite à �loso�a. São Paulo: Ática, 2006. GARCIA, W. Produtos midiáticos: per�s simbólicos e culturais. ECO-PÓS, v. 9, n. 2, ago.-dez. 2006, p. 54-63. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/1080/1020. Acesso em: 30 mar. 2022. GOMES, P. G. Dos meios à midiatização: um conceito em evolução. São Leopoldo: Unisinos, 2017. HALL, J. A. Verbete sociedade de massa. In: Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996. LUHMANN, N. A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788563899316/pageid/12 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA MCQUAIL, D. Atuação da mídia: comunicação de massa e interesse público. Porto Alegre: Grupo A, 2012. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788563899316/. Acesso em: 22 jul. 2024. MIDIÁTICO. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2021. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/midi%C3%A1tico. Acesso em: 30 mar. 2022. PERASSI, R.; MENEGHEL, T. Conhecimento, mídia e semiótica na área de Mídia do Conhecimento. Mídias do conhecimento. Florianópolis: Padion, v. 1, p. 47-72, 2011. SODRÉ, M. O socius comunicacional. In: VERÓN, E.; FAUSTO NETO, A.; HEBERLÊ, A. L. O. Pentálogo III: Internet: viagens no espaço e no tempo. Pelotas: Cópias Santa Cruz, 2013. p. 241- 252. SOUSA, L. Processos midiáticos, mediações e as ressigni�cações da técnica. Dispositiva, Belo Horizonte, v. 9, n. 5, p. 100-116, 2020. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/dispositiva/article/view/23132. Acesso em: 27 abr. 2022. STEINBERGER, M. B. Discursos geopolíticos da mídia. São Paulo: Fapesp, 2005. THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. Aula 2 Os Estudos Midiológicos Os estudos midiológicos Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788563899316/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Olá, estudante! Mago, visionário, determinista tecnológico, revolucionário: Marshall McLuhan costuma receber muitos adjetivos – alguns elogiosos, outros bastante críticos. Mas uma coisa é certa: suas ideias �zeram história nas teorias da comunicação. E, em um mundo cada vez mais tecnológico, não podemos deixar de falar dele. Vamos nessa? Ponto de Partida Quando o mundo assistiu assustado (e igualmente fascinado) a ascensão dos meios de comunicação de massa na primeira metade do século XX, pouco se falava das mídias em si. A grande preocupação eram seus efeitos – e é por isso que muitos pesquisadores só sinalizam a existência de uma “escola de estudos da mídia” no limiar dos anos 1990, quando computadores e internet adentraram nossos lares. No entanto, isso não quer dizer que alguns teóricos não tenham se aventurado nos estudos da mídia bem antes disso. Esse é o caso de Marshall McLuhan. Já nos anos 1960, suas ideias e teorias acerca dos meios de comunicação sacudiram a academia. Houve quem amasse – e houve quem odiasse. Guardadas as devidas ressalvas, e sem incorrermos em anacronismos, McLuhan, de fato, conseguiu antecipar muita coisa do cenário comunicativo do século XXI. E é por isso que revisitar seus ensaios é sempre tão interessante. Prepare-se para entender, de uma vez por todas, porque “o meio é a mensagem”. Vamos lá? Vamos Começar! Quem foi Marshall McLuhan Hebert Marshall McLuhan nasceu no dia 21 de julho de 1911, em Edmonton, no Canadá. Filho de um corretor de imóveis e de uma professora, tornou-se bacharel em artes em 1933. Logo em seguida, ingressou no mestrado em literatura inglesa, ainda no Canadá. Depois, foi para a Inglaterra para concluir sua pós-graduação em Cambridge. Na década de 1940, voltou para sua terra natal, construindo a carreira universitária que o deixaria mundialmente conhecido. Na Universidade de Toronto, trabalhou no Centro de Cultura e Tecnologia, com Edmund Carpenter e Harold Innis – ambos colegas exerceram forte in�uência em seus estudos. Além disso, lecionou nos Estados Unidos na Fordham University (Nova York) e na Universidade de Dallas. Paralelamente, também atuava como consultor em grandes corporações. Uma de suas clientes mais conhecidas foi a International Business Machines (IBM). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA McLuhan faleceu aos 69 anos, em dezembro de 1980, e quase 50 anos depois suas ideias arrojadas ainda continuam reverberando na academia. França e Simões (2017, p. 190) salientam que “sua grande contribuição foi a ênfase e a leitura do impacto das tecnologias comunicacionais.” Mesmo sem ter acompanhado a consolidação da world wide web, sua tese do desenvolvimento de uma “aldeia global” antecipou a diminuição das distâncias, a globalização e a convergência por meioda evolução tecnológica. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Figura 1 | Marshall McLuhan. Fonte: Wikimedia commons. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Siga em Frente... Os meios como extensões do ser humano Em um de seus livros mais conhecidos, Understanding Media (traduzido no Brasil como Os meios de comunicação como extensões do homem), McLuhan defende a tese de que as tecnologias operam como extensões do corpo humano. “Toda extensão é uma ampli�cação de um órgão, de um sentido ou de uma função que inspira ao sistema nervoso central um gesto autoprotetor de entorpecimento da área prolongada” (McLuhan apud França; Simões, 2017, p. 190). De acordo com ele, os meios elétricos funcionam como uma expansão do nosso sistema nervoso, criando uma espécie de interdependência orgânica com todas as instituições sociais, alterando de�nitivamente o modo de ser da sociedade. É essa concepção, de que os meios não apenas estabelecem novas formas de se comunicar, mas afetam e modi�cam o ser humano, sua forma de se ver e se relacionar, que leva McLuhan a estabelecer uma organização da história da humanidade em decorrência da presença das tecnologias de comunicação. A evolução social humana teria se dado em três etapas: cultura oral, cultura escrita ou tipográ�ca, cultura eletrônica (França; Simões, 2017, p. 191). A primeira etapa (cultura oral) compreende as sociedades tribais antes da invenção da escrita, cuja característica principal estava na vivência grupal. Para ele, o órgão predominante nessa etapa foi a orelha, compondo o que chama de sociedade acústica. “A cultura oral favorece a proximidade e o partilhamento; tem forte componente emocional, estimula a criatividade; é volátil, e se perpetua através da memória coletiva.” (França; Simões, 2017, p. 191). Depois, com a invenção da escrita e a expansão da alfabetização, inaugurou-se a cultura tipográ�ca e a hegemonia do olho. A consciência humana passou a ser linear, fragmentando as tarefas cognitivas e favorecendo o individualismo. Ou seja, a era Gutenberg (inaugurada com a invenção da imprensa) traz condicionamentos individuais e coletivos. Psicologicamente, o livro impresso, como extensão da faculdade visual, intensi�cou a perspectiva e o ponto de vista �xo; trouxe a ilusão da perspectiva e a ilusão de que o espaço é visual, uniforme e contínuo. Trouxe também o “dom […] do desligamento e do não envolvimento – o poder de agir sem reagir” (França; Simões, 2017, p. 191). É na era da escrita que se desenvolvem os estados-nação, a Revolução Industrial e a consolidação do sistema capitalista. Segundo McLuhan, todos esses fenômenos são consequências diretas das mudanças em nossa consciência e cognição. Por �m, na etapa da cultura eletrônica, iniciadas a eletricidade e a invenção do telégrafo, vemos um retorno à palavra falada, restaurando o domínio da sinestesia e a reaproximação dos seres Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA humanos em uma nova aldeia planetária. “Em contraposição às outras fases, que privilegiaram um ou outro sentido, na era da eletricidade é o próprio sistema nervoso central que é estendido, num ‘abraço global’.” (França; Simões, 2017, p. 192). Nessa nova era, McLuhan aponta como diferentes mídias ativam seus usuários de formas diversas – seja o rádio, a televisão ou o cinema. Aqui, entra também sua polêmica classi�cação dos meios de comunicação entre quentes e frios. A “temperatura” de cada mídia tem a ver com o impacto que cada uma causa à percepção humana. “O meio é a mensagem” Grande parte do sucesso – e das polêmicas – de McLuhan vinha do tom ensaístico que costumava usar em suas teses. Ele gostava de apostar em frases de efeito, ainda que lhe faltassem sustentação em fatos. Foi assim que surgiu a célebre máxima de que “o meio é a mensagem”. O que McLuhan quis dizer com essa a�rmativa aparentemente contraditória é que a mídia também responde por aquilo que é dito e pela forma como é dito. Os meios, suportes ou canais não são apenas “condutores” da mensagem, mas protagonistas no processo comunicativo. Na perspectiva do autor, não é o conteúdo transmitido por um meio que responde pelo impacto que ele vai exercer em determinada sociedade, mas a sua presença; não é na qualidade de transmissores que eles exercem a sua força, mas pela maneira como modi�cam os indivíduos e suas relações (França; Simões, 2017, p. 193). McLuhan: entre erros e acertos Assim como outros teóricos clássicos, McLuhan oscila entre teses geniais e outras nem tanto – a�nal, pesquisadores são pessoas como nós: complexos e suscetíveis a perspectivas enviesadas. Além disso, não podemos esquecer que McLuhan foi um homem do seu tempo, e julgá-lo apenas pela régua contemporânea é incorrer em anacronismo. Devemos analisá-lo, na medida do possível, em seu próprio contexto, com todas as suas potencialidades e limitações. Gostando ou não de suas teorias, devemos reconhecer seu esforço e pioneirismo ao sinalizar o papel relevante que as mídias ocupam em nossa vida. Elas, de fato, são muito mais do que meros suportes. Há, sim, uma recon�guração de percepção e cognição provocada pela inserção de tecnologias em nosso cotidiano e sociedade. A internet e as plataformas digitais estão aí para provar que McLuhan estava certo – depois delas, nunca mais fomos os mesmos. No entanto, isso não quer dizer que ferramentas tecnológicas operam por si, ou que são entidades descoladas dos seres humanos, como muitas vezes as teorias de McLuhan fazem parecer. Tecnologias são instrumentos essencialmente humanos, suscetíveis às nossas complexidades e atravessadas “de cabo a rabo” por nossas condições históricas, sociais e econômicas. Tecnologias não são neutras e nem acontecem fora das contradições e das forças sociais. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA É daí que provém a grande crítica ao pensamento de McLuhan e a acusação de que ele é um determinista tecnológico. Ao concentrar seus estudos nos impactos que as mídias exercem sobre a percepção humana, ele esquece que, inicialmente, as mídias também são criadas e geridas pela percepção humana. Não é um caminho de uma mão só – é via dupla. Ao interpretar seus exemplos históricos, McLuhan subtrai e menospreza toda atividade criativa do trabalho humano na transformação do mundo […]. Ele não está interessado no aperfeiçoamento de ser humano, no crescente desenvolvimento e consciência dos poderes humanos e potencialidades, a crescente capacidade para inventar mudanças e executá-las. Ao invés, ele dá realce a uma espécie de ‘impacto’ das técnicas, ou o que ele chama “comunicações”. Como essas técnicas apareceram, não lhe interessa (Finkelstein apud França; Simões, 2017, p. 195). Vamos Exercitar? Conhecer um dos grandes nomes da teoria da comunicação é sempre interessante – não só pelas contribuições que cada um traz à área, mas também pela forma com que suas ideias conversam com as transformações históricas e sociais do século XX. Marshall McLuhan certamente é um pesquisador que sempre vale a pena revisitar. Sua inclinação tecnológica, que em sua época parecia meio torta, atualmente faz o mais completo sentido. Estamos vivendo a aldeia global que o professor canadense vislumbrou há mais de 60 anos. Que outras percepções ele teria a acrescentar se tivesse acompanhado o boom da internet? E se você pudesse entrevistá-lo, que perguntas faria? Pense nisso! Saiba mais Marshall McLuhan é um dos nomes mais in�uentes na área da comunicação, por isso vale a pena conhecê-lo um pouco mais, já que frequentemente você se deparará com suas referências. Para se aprofundar em suas teorias, vale a pena ler o Capítulo 6 do livro Curso básico de Teorias da Comunicação, de Vera França e Paula Simões. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Outra fonte de informações interessantíssima sobre o autor é o site The O�cial Site for the Estate of Marshall McLuhan, que compila o conjunto de produções de McLuhan como biogra�as, produções acadêmicas, entrevistas e referências ao autor em �lmes, entre muitos outrosmateriais. Vale o clique! Referências https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788551301746/pageid/187 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788551301746/pageid/187 https://www.marshallmcluhan.com/ https://www.marshallmcluhan.com/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA FRANÇA, V. V.; SIMÕES, P. G. Curso básico de Teorias da Comunicação. Belo Horizonte: Grupo Autêntica, 2017. GOMES, P. G. Dos meios à midiatização: um conceito em evolução. São Leopoldo: Unisinos, 2017. LUHMANN, N. A realidade dos meios de comunicação. São Paulo: Paulus, 2005. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008. MCLUHAN, M. O meio e a mensagem. São Paulo: IMA Editorial, 2011. Aula 3 Mídia e Relações de Poder I Mídia e relações de poder I Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Algumas ferramentas teóricas têm o poder de nos tirar do eixo e fazer questionar muitos hábitos e práticas que aceitamos como convencionais. A análise do discurso é uma dessas teorias. Depois dela, acredite, você nunca mais verá a comunicação da mesma forma. Vamos lá? Ponto de Partida Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Quem nunca paralisou diante de pedidos incessantes de “discurso” depois de uma homenagem? Ou assistiu de braços cruzados um político discursar do púlpito, �oreando fatos e aumentando números? É por essas e outras que nem sempre a palavra discurso é recebida com entusiasmo. Isso acontece porque o senso comum costuma atrelar a noção de discurso a exercícios retóricos, geralmente baseados na linguagem falada. Discursar é subir no palco, assumir riscos, convencer, agradar ou desagradar. Acontece que, na área acadêmica, a palavra discurso pode assumir sentidos diversos – e bem mais profundos. Quando recorremos às teorias e metodologias da linguística, aprendemos que discurso é, antes de tudo a linguagem em curso, nos mais diferentes formatos e contextos. Você discursa o tempo todo, ainda que não perceba. Que tal embarcar conosco nessa jornada discursiva? Temos certeza de que ela será transformadora! Vamos Começar! O conceito de discurso Segundo o dicionário Oxford Languages (2022, [s. p.]), discurso é uma “mensagem oral, geralmente solene e prolongada, que um orador profere perante uma audiência”, como em uma formatura ou assembleia, por exemplo. No nosso cotidiano, utilizamos a palavra discurso como referência a uma fala proferida por alguém de maneira metódica com o objetivo de comunicar, expor algo, in�uenciar ou persuadir o ouvinte/interlocutor. Na academia, o termo discurso pode apresentar vários signi�cados em razão da área de estudos, sendo um conceito comumente utilizado entre linguistas, �lósofos, cientistas sociais e pro�ssionais da comunicação. Embora ele apresente diferenças e particularidades em cada uma das áreas, no geral parte-se da noção de discurso como um sistema social de pensamento ou de ideias. De modo geral, esse conjunto de ideias con�gura uma ideologia que sustenta e é sustentada pelo discurso. Dessa forma, a análise do discurso permite acessar os pensamentos e visões de mundo que os grupos e instituições sustentam perante a sociedade a �m de defender e legitimar seus interesses. Mikhail Bakhtin (1895-1975) foi um dos mais importantes pensadores do século XX a se dedicar ao estudo do signi�cado e papel do discurso, constituindo referência para diversas teorias que discutem e problematizam a comunicação. Ponto-chave da sua análise é a compreensão sócio- histórica dos processos discursivos, ou seja, segundo o estudioso, todo ato comunicativo é contextual: toda comunicação está situada em um campo constituído por sujeitos, instituições, tempos e espaços de�nidos. Por isso, a comunicação não se restringe a uma mensagem transmitida de uma pessoa para outra, mas de pessoas que estão em uma relação. Nesse Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA sentido, a comunicação é uma relação que envolve vários elementos: a alteridade (a relação do eu com o outro), o interlocutor, os modos e as circunstâncias da interação verbal. Quando produzimos discurso não estamos sozinhos. Para nos comunicar, utilizamos a linguagem, um elemento que é essencialmente social, dado que os signos e sujeitos envolvidos se situam em contextos sócio-históricos especí�cos que permitem a compreensão da comunicação. Por isso, como de�ne Bakhtin, ao produzir discursos, o sujeito não é a fonte deles, mas um mediador que dialoga com outros discursos. Dessa forma, a comunicação é um terreno de interações, con�itos, disputas e marcações sociais que fazem parte de uma época e de determinado lugar. Bakhtin (2003) distingue dois gêneros de discurso: Gêneros primários: discursos constituídos nas circunstâncias de uma comunicação verbal espontânea, como a réplica do diálogo cotidiano, ou a carta, por exemplo. Gêneros secundários: discursos predominantemente escritos, que surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado, como nas artes, na ciência, na política etc. O discurso midiático está inserido nessa segunda categoria. Nela, a comunicação ocorre em circunstâncias complexas que, durante seu processo de formação, absorvem e modi�cam os gêneros primários. Siga em Frente... A relação entre discurso, sujeito e ideologia Agora que já conhecemos o conceito de discurso, é importante reforçarmos sua relação com as noções de sujeito e ideologia – a�nal, é essa tríade que compõe o âmago das teorias da análise do discurso. Medeiros (2016, p. 8) explica que o conceito de ideologia utilizado na análise do discurso tem suas bases no marxismo, que pressupõe uma relação entre os modos de produção dos sujeitos e suas realidades histórica e social. “Pensando a relação entre as ideias e representações das pessoas com as suas realidades, a ideologia seria a explicação para que as realidades das pessoas não fossem percebidas exatamente como são na verdade”. A ideologia, dentro do escopo marxista, funciona como uma visão invertida da realidade, conformando os indivíduos em suas posições sociais – ainda que elas sejam injustas e pautadas na exploração. “Assim, é trazida a noção de alienação: uma vez que as pessoas não se percebem como produtoras da sociedade, as con�gurações sociais são percebidas como prontas, estabilizadas, dadas de antemão – e não construídas.” (Medeiros, 2016, p. 8). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Ainda de acordo com Medeiros (2016, p. 9), podemos citar como características da ideologia: A Ideologia não tem história: a ideologia é uma realidade não histórica devido à sua estrutura e ao seu funcionamento. É eterna, atemporal, e, por isso, sem uma história sua. A Ideologia é uma “representação” da relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência: na ideologia, não são representadas as condições reais de existência, mas, sim, as relações imaginárias das pessoas com suas condições reais de existência. A ideologia interpela os indivíduos enquanto sujeitos: só existe ideologia quando existem sujeitos e só existem sujeitos porque existe ideologia. Dizer sujeito, então, é dizer sujeito ideológico, pois ele vive espontaneamente na ideologia. Assim, podemos a�rmar que não existe discurso sem ideologia – tampouco ideologia sem sujeito. Portanto, tudo o que lemos, escrevemos, interpretamos, pensamos e enunciamos está inserido nessa relação. Nós (e todos os outros) somos sujeitos! Isso quer dizer que o sujeito não é autônomo nem original diante da Ideologia; por outro lado, a Ideologia não é uma entidade homogênea que se repete da mesma forma em todos os lugares. A principal di�culdade no estudo da Ideologia é que, aoum receptor, é também de communicatio que estamos falando. É compartilhar um mesmo objeto de consciência, é ter algo em comum e compartilhá-lo com outrem. Vamos Exercitar? Nós ainda estamos longe de esgotar a discussão que trata do conceito de comunicação – nem foi este nosso objetivo nesta aula. Nosso intuito foi instigar a re�exão crítica, o interesse teórico e histórico a respeito da prática comunicativa humana. Ainda que pratiquemos a comunicação desde os tempos mais remotos, o termo communicatio surgiu apenas na Idade Média, carregando com ele um contexto especí�co, que dá, até hoje, Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA sentido ao ato comunicativo. Mais do que representar um processo (ou um esquema) engessado em emissor-receptor, a comunicação é uma atividade essencialmente humana, coletiva e compartilhada. Portanto, cheia de nuances, especi�cidades e polissemias – exatamente como a nossa própria existência. Saiba mais Conhecer o conceito de comunicação e re�etir a respeito dele é o primeiro passo para se aprofundar nas principais teorias e práticas pro�ssionais do vasto campo comunicativo. Por essa razão, o Capítulo 1 do livro Curso Básico de Teoria da Comunicação, de Vera Veiga França, é uma indicação certeira. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Ficar de olho em artigos e eventos cientí�cos da área da comunicação é uma ótima forma de exercitar a re�exão e ampliar seus conhecimentos. O Portal Intercom reúne tudo isso em um lugar só. Vale a pena uma visita periódica! Referências CORDEIRO, R. Q. F. et al. Teorias da comunicação. Porto Alegre: Grupo A, 2017. FRANÇA, V. V.; SIMÕES, P. G. Curso básico de Teorias da Comunicação. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. MARTINO, L. C. De qual comunicação estamos falando? In: HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. (org.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001. PENA, F. 1000 Perguntas sobre Teoria da Comunicação. São Paulo: Grupo GEN, 2012. PENTEADO, J. R. W. A Técnica da Comunicação Humana. São Paulo: Cengage Learning Brasil, 2012. Aula 2 Comunicação e Evolução Humana Comunicação e evolução humana https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788551301746/pageid/19 https://portalintercom.org.br/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula, nós vamos conhecer o interesse da antropologia pela comunicação e a forma como esta última nos acompanha desde os tempos mais remotos (estamos falando de milhares de anos atrás). Prepare-se para compreender como nossa habilidade comunicativa e a fofoca (pois é!) alavancaram nossa espécie para o topo da cadeia alimentar e do mundo. Nós garantimos que depois dessa aventura, você nunca mais verá a comunicação da mesma forma! Ponto de Partida Desde que o mundo é mundo, o ser humano tem interesse em si e no outro. Seja esquadrinhando-se em frente a um espelho, ou fascinado ao observar um estrangeiro, homens e mulheres sempre dedicaram muito tempo analisando sua existência. Por essa razão, não é errado dizer que temos alma de antropólogos – essa pro�ssão dedicada a descrever e estudar o que signi�ca ser humano. Se a antropologia, em seus mais diferentes campos, preocupa-se em registrar a ação humana em seus saberes e fazeres, é natural que a comunicação acabe se tornando um objeto de estudo antropológico. Qual papel a prática comunicativa desempenhou e tem desempenhado em nossas relações e evolução? Vamos pensar a esse respeito? Vamos Começar! Marina Marconi e Zelia Maria Presotto (2022) explicam que a palavra “antropologia” apareceu pela primeira vez no século XV. No entanto, como já comentamos, o interesse do ser humano pelo próprio ser humano é muito mais antigo. Em civilizações milenares como a chinesa, a grega e a romana, é possível encontrar registros e relatos de diferentes povos e culturas. Avançando no tempo, vemos a antropologia se tornar uma disciplina acadêmica durante o Iluminismo, no �nal dos anos 1700 e início dos anos 1800. Nessa mesma época, nações Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA europeias avançavam sobre o “novo mundo”, colonizando diversas regiões do planeta. O leitor mais atento pode ter percebido que existe uma característica comum entre os “antropólogos” do período a.C. e a antropologia iluminista do século XVIII d.C. Pois é: China, Grécia, Roma, Europa – todas foram civilizações do tipo “império”, comandando conquistas estrangeiras, colonizando e, por conseguinte, deparando-se diretamente com o outro, o estrangeiro, o diferente, e as variações da existência humana. A antropologia, portanto, nasce como uma tentativa dos membros das sociedades cientí�cas de registrar objetivamente e compreender essa variação. A curiosidade relacionada com esses povos e seus costumes motivaram os primeiros antropólogos amadores. Por pro�ssão, eles eram naturalistas, médicos, clérigos cristãos, ou exploradores (Marconi; Presotto, 2022, p. 1). Obviamente, esse olhar sobre o outro nem sempre foi empático. Como Hannah Arendt (2012) bem pontua, foram o imperialismo e a colonização europeia que gestaram e organizaram burocraticamente o racismo, dando cienti�cismo à desumanização de seres humanos. E, por muito tempo, a antropologia foi praticada em uma cisão completa entre observadores civilizados e observados primitivos. Felizmente, os métodos, as re�exões (e inclusive a autocrítica) foram sendo lapidados no decorrer dos séculos XIX e XX, amadurecendo a antropologia até transformá-la na “ciência que objetiva descrever no sentido mais amplo possível o que signi�ca ser humano” (Lavenda; Schultz apud Marconi; Presotto, 2022). De forma geral, segundo Marconi e Presotto (2022, p. 6) a antropologia é dividida em quatro campos principais: Antropologia biológica ou física: estuda as bases biológicas do comportamento humano, bem como a evolução do homem. Inclui disciplinas como genética, paleoantropologia (estudos da evolução humana a partir de fósseis de hominídeos), primatologia, etologia, sociobiologia etc. Arqueologia: estuda vestígios materiais de culturas humanas desaparecidas, como ossadas, palácios, pirâmides, fortalezas, vias de comunicação, ferramentas etc.; busca conhecer o passado das sociedades humanas. Descreve o auge e a decadência de culturas e os fatores que in�uenciaram o seu desenvolvimento. A antropologia contribui na explicação das práticas culturais, como guerra, caça, horticultura e estrati�cação social. Antropologia linguística: estuda a variedade de línguas faladas pelo homem, a sua função e origem, bem como a in�uência da linguagem na cultura e vice-versa. Antropologia cultural ou social: estudo comparativo das sociedades humanas: sua variabilidade cultural, estilos de vida, práticas, costumes, tradições, instituições, normas e códigos de conduta Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA do passado e do presente. Se observarmos atentamente, a prática comunicativa é um objeto de estudo possível em qualquer um desses campos – e assim têm se costurado as relações entre antropologia e comunicação. Siga em Frente... Antropologia e Comunicação Apesar da evidente conexão entre antropologia e comunicação, na academia, as coisas não se resolvem de maneira tão simples assim. Etienne Samain (1998), importante expoente da antropologia brasileira, resume essa relação da seguinte maneira: comunicação e antropologia se dão muito bem, embora se comuniquem muito mal. Quando desistem de estabelecer fronteiras e se abrem ao diálogo, a ciência, os métodos e as re�exões avançam sobremaneira. Não é nosso objetivo nesta aula nos debruçar profundamente sobre a metodologia, a epistemologia e a interdisciplinaridade da comunicação, mas sinalizarcontrário de algumas noções que podem ser observadas de fora, é impossível para o sujeito se situar externamente à Ideologia. Você pode pensar na Ideologia como um tracejado que cerceia as nossas ações no mundo: quando pensamos sobre Ideologia, já estamos interpelados por ela. Reconhecer a Ideologia não nos isenta de seus efeitos (Medeiros, 2016, p. 11). Michel Foucault, sujeito e relações de poder A análise do discurso, assim como outros eixos teóricos, é bastante heterogênea, pois foi construída a partir da contribuição de diferentes intelectuais. Por essa razão, conceitos-chave, como sujeito, podem variar de um autor para outro. Nesta aula, optamos por apresentar as concepções de Michel Foucault, mas isso não signi�ca invalidar ou julgar outras de�nições. Trata-se apenas de um alinhamento teórico – exercício que você também poderá fazer na medida em que for se aprofundando na análise do discurso. Uma das características mais interessantes de Foucault (e que também justi�cam a complexidade do seu pensamento) é a capacidade de articular diferentes áreas de conhecimento. E seus conceitos de sujeito e discurso não fogem à regra, já que ele os compreende no entroncamento das relações de poder. Para Foucault, o discurso é controlado por minuciosas regras, e estas de�nem quem pode ter acesso a certos discursos ou pode entrar na ordem do discurso. [...] O que isso quer dizer? Que, na concepção de Foucault, não existe uma essência, uma verdade universal anterior à construção de um discurso sobre ela. O discurso é visto como uma luta, uma batalha, e não como um re�exo ou expressão de algo (Medeiros, 2016, p. 15). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Se a noção de discurso, em Foucault, é construída a partir de uma relação de poderes e forças, a constituição dos sujeitos vai se dar também nessas disputas entre o desejo de “ter” a verdade e o poder de a�rmá-la. Pense, por exemplo, no enunciado “É preciso escovar os dentes após cada refeição”. Você pode escutar isso de um dentista e di�cilmente vai contestá-lo, a�nal, a pro�ssão dele confere ao seu discurso a legitimidade sobre alguns discursos, reproduzidos e aceitos como verdades. Mas e se esse mesmo enunciado vier de um paciente diagnosticado com Transtorno Obsessivo Compulsivo, que escova os dentes quinze vezes por dia? E se vier de um representante de uma marca de produtos para higiene bucal? É a isso que Foucault se refere quando a�rma que o sujeito, em sua teoria, não é uma pessoa, mas uma posição que alguém assume diante de um certo discurso (Medeiros, 2016, p. 16). Assim, é importante reforçarmos que o conceito de sujeito, na análise do discurso, não está necessariamente atrelado a uma pessoa real, de carne e osso, mas ao papel, à posição que ela ocupa durante uma interlocução. Dessa maneira, uma mesma pessoa pode ocupar diferentes posições de sujeito, variando de acordo com os contextos e as relações de poder. Vamos Exercitar? Você já deve ter lido (ou até mesmo usado este argumento) que alguns textos ou falas são “discursos ideológicos”, desquali�cando seu conteúdo. De fato, o senso comum costuma apontar a ideologia em alguns textos e em outros, não. Isso sem contar que muitas vezes a ideologia é atrelada apenas a um espectro político, seja ele na extrema esquerda ou na extrema direita. Mas depois dessa breve incursão pelas ferramentas da análise do discurso, já temos três concepções elementares: 1. Todo ato comunicativo, toda linguagem em curso, subentende a existência de um discurso, esteja ou não o emissor ciente disso; 2. Todo discurso é dito por um sujeito; 3. Todo sujeito só existe dentro de uma ideologia e dentro de um contexto de relações de poder. Como bem salienta Medeiros (2016, p. 9): Se você não identi�ca imediatamente a Ideologia, isso não quer dizer que ela não esteja presente. O que acontece é que, como você acabou de ver, é próprio da Ideologia assegurar que algumas coisas sejam evidentes: ela funciona justamente quando dissimula seu funcionamento. Como a Análise do Discurso reconhece a Ideologia como constitutiva, não é possível pensar textos, discursos ou qualquer situação que esteja isenta dela. Não é preciso ser um expert em análise do discurso para se bene�ciar das suas ferramentas. Mesmo conhecendo apenas seus conceitos principais, já nos tornamos mais atentos, tanto aos discursos que recebemos quanto àqueles que produzimos. Manter a criticidade no radar é fundamental para formar pro�ssionais de comunicação mais éticos e socialmente responsáveis. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Olhos abertos e vamos em frente! Saiba mais Que tal se aprofundar mais nos conceitos e métodos da análise do discurso? O livro Análise do discurso, de Laís Medeiros é uma ótima porta de entrada. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Referências BAHKTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. CHARAUDEAU, P. Discursos das mídias. São Paulo: Contexto, 2007. FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UnB, 2001. LIMA, V. A. Mídia: teoria e política. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008. MEDEIROS, L. V. A. Análise do discurso. Porto Alegre: Grupo A, 2016. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788569726678/. Acesso em: 22 jul. 2024. OXFORD UNIVERSITY PRESS. Oxford Languages. 2022. Disponível em: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/. Acesso em: 19 abr. 2022. SOUZA, J. P. As notícias e os seus efeitos. Coimbra: Minerva Coimbra, 2000. THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998. Aula 4 Mídia e Relações de Poder II Mídia e relações de poder II https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788569726678/pageid/0 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788569726678/pageid/0 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788569726678/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Depois de aprendermos as ferramentas básicas da análise do discurso, está na hora de acioná- las! Você está pronto para re�etir a respeito das diferentes formas de discurso midiático? Prepare suas anotações porque esta aula será um divisor de águas na forma como você consome e se comunica utilizando diferentes mídias. Ponto de Partida Nesta aula, seguiremos falando de comunicação e mídia, partindo da constatação de que esta constitui uma das principais características da sociedade contemporânea. Mais especi�camente, voltaremos nossa atenção agora para a prática comunicativa, para a produção de discursos, entendendo que são mais do que informação, são reproduções de modelos mentais de compreensão do mundo. Nesse sentido, a própria ideia de informação pode ser problematizada na medida em que questões como o que é ou não notícia e como ela será abordada são de�nidas pelos próprios meios. Dessa forma, juntos re�etiremos a respeito da teoria da análise do discurso e das maneiras como ela pode contribuir para a formação de pro�ssionais da comunicação. Vamos nessa? Vamos Começar! O discurso midiático Fairclough (2001) de�ne discurso como prática social. Para o autor, o discurso é um modo de ação, uma forma como as pessoas agem sobre o mundo e sobre os outros. E justamente por estar no mundo, o discurso consiste também em uma representação dele, estabelecendo uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social. O discurso constitui objeto de Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA conhecimento, sujeitos, relações sociais e estruturas conceituais que produzem imagens e relações com o mundo,mas dentro de estruturas já existentes. Partimos, então, da compreensão do discurso como um sistema social de pensamentos e ideias que se concretiza como ato comunicacional em uma relação dialógica e contextual. Se a comunicação é a matéria-prima da produção midiática, a prática discursiva que ela enseja (seja uma notícia, uma peça publicitária ou uma novela) chamamos de discurso midiático. Como já de�nimos anteriormente, chamamos de mídia o conjunto das instituições que utiliza tecnologias especí�cas na mediação da comunicação humana. Em termos concretos, quando falamos em mídia, nos referimos ao conjunto das emissoras de rádio e de televisão, de jornais e de revistas, do cinema e das outras diversas instituições que utilizam recursos tecnológicos na veiculação das mensagens (Lima, 2004). Como descreve Thompson (1998), o surgimento das instituições de comunicação – a mídia – promoveu transformação signi�cativa na produção, no intercâmbio e armazenamento dos conteúdos simbólicos, e desde meados do século XX ela se con�gura como o espaço da produção e circulação de discursos de formas e normas sociais, organizando nossas percepções e sensibilidades. Isso signi�ca dizer que os signi�cados dos conteúdos simbólicos passam a ser construídos pelos discursos midiáticos. Na medida em que a mídia produz e reproduz a cultura, ela intervém sobre a realidade, as ideias e ações dos seres humanos. Bakhtin (2003) de�ne que a palavra é essencialmente ideológica; e se essa mesma palavra é o instrumento de trabalho do comunicador, logo, devemos inferir que o discurso da mídia é, necessariamente, ideológico. Por meio do seu discurso, a mídia cria modelos a serem seguidos, homogeneíza estilos de vida e contribui para a naturalização de crenças e papéis sociais, preconceitos e relações de poder. Ao construir signi�cados para o mundo, a mídia constrói sistemas classi�catórios que in�uenciam nossas leituras desse mundo e nossos sistemas cognitivos. Por isso, os discursos midiáticos desempenham papel importante na formação dos modelos mentais responsáveis tanto pela nossa compreensão quanto pela produção de discursos. Não é raro vermos argumentos que a�rmam que o que é apresentado pela mídia é o real em si. Contudo, os discursos midiáticos são muitos, e como vimos em aulas anteriores, existem recortes de realidade que devem ser considerados nessas análises, pois a própria ideia de realidade está relacionada a uma leitura do real. Sempre que tentamos dar conta da realidade empírica, estamos às voltas com um real construído e não com a própria realidade. “[…] O espaço social é uma realidade empírica compositória, não homogênea, que depende, para sua signi�cação, do olhar lançado sobre ele pelos diferentes atores sociais, através dos discursos que produzem para tentar torná-lo inteligível” (Charaudeau, 2007, p. 131). Siga em Frente... Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA O discurso jornalístico Todo discurso emitido se organiza em um contexto especí�co de valores, crenças, interesses, posições e relações sociais. Nos discursos midiáticos isso não é diferente. Vamos olhar para essa questão por meio da análise do discurso jornalístico. A notícia é um objeto linguístico que se apresenta como a matéria-prima do jornalismo. Por isso, seu estudo permite analisar as ideologias em atuação na mídia e como elas in�uenciam a sua produção. Como descreve Souza (2000), as notícias resultam da interação de diversos fatores e: […] resultam de um processo de construção e fabrico onde interagem, entre outros, diversos fatores de natureza pessoal, social, ideológica, cultural, histórica e do meio físico/tecnológico, que são difundidos pelos meios jornalísticos e aportam novidades com sentido compreensível num determinado momento histórico e num determinado meio sociocultural (ou seja, num determinado contexto), embora a atribuição última de sentido dependa do consumidor da notícia (Souza, 2000, p. 15). Ou seja, a produção da notícia não ocorre em um terreno livre, mas dentro de um contexto e uma estrutura. Como a�rma Charaudeau (2007, p. 13), se uma das tarefas das mídias é reportar os acontecimentos do mundo, esse “reportar não é fundamentalmente reproduzir, repetir”. Os textos midiáticos estão sujeitos a processos de seleção que de�nem quais eventos são dignos de se tornarem notícia. Os textos da mídia constituem versões da realidade que dependem de posições sociais, interesses e objetivos daqueles que os produzem. Nesse sentido, a escolha do que deve ser noticiado, a forma como isso é feito, a seleção das testemunhas, dos ângulos, das falas etc., con�guram recortes de realidade que demonstram o quanto a visão apresentada é parcial e, consequentemente, ideológica. A realidade que se apresenta na notícia é um recorte selecionado que (re)constrói essa realidade a partir dos recursos especí�cos de cada tipo de mídia. Na imprensa escrita, por exemplo, a notícia é apresentada segundo critérios determinados de construção do espaço redacional que correspondem ao grau de importância atribuído a ela, de�nindo-se a partir daí a sua localização (na primeira página, ou em uma página interna, no alto ou no �m da página, com pré-título, título ou subtítulo); a tipogra�a (dimensão e corpo dos caracteres de impressão no conjunto dos títulos); a quantidade de superfície redacional comparada à de outras notícias, entre outros elementos (Charaudeau, 2007, p. 146-147). E é interessante notar que os próprios pro�ssionais da mídia não estão alheios a esse processo, pois todo o imaginário pré-construído in�uencia também a relação do repórter com a notícia e o discurso, dado que ele, enquanto sujeito imerso neste mesmo corpo social, tem uma visão prévia do narrado. Nesse sentido, ao mesmo tempo que contribui para a criação de imaginários sociais, a mídia também se alimenta dos imaginários já difundidos na sociedade, con�gurando-se em um processo dialético. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Apesar dessa prevalência da mídia na conformação das sensibilidades por meio da força de seu discurso, Martín-Barbero (2008) pondera que é preciso problematizar a questão da absorção desses conteúdos simbólicos, uma vez que os atores sociais modelam suas percepções dos meios de comunicação por meio do cognitivo, do contato com a técnica e também com o social. O autor defende que entre o discurso construído pela mídia e os atores sociais há um espaço formado por crenças, visões particulares e dimensões culturais coletivas que vão atuar no modo como os atores sociais se relacionam com os meios. Assim, os modelos mentais acessados e construídos pelo discurso midiático formam a interface entre representações sociais generalizadas, por um lado, e o uso individual dessas representações na percepção social, interação e discurso, por outro. Redes sociais e os novos desenhos do discurso midiático A ERA DIGITAL e a cultura da convergência, ainda que não tenham extinguido, colocaram em xeque a hegemonia do discurso midiático das grandes corporações de comunicação (emissoras de rádio, TV e imprensa). É inegável que elas ainda ocupam um lugar importante e “regulatório” na compreensão da realidade, no entanto, cada vez mais têm convivido com novos discursos e novas formas de pensar o mundo. Uma das novidades do século XXI foi justamente nossa dispersão como sujeitos. As plataformas digitais, ao expandirem nosso raio de ação e comunicação, abriram as portas para nos multiplicarmos em vários papéis, alternando nossas posições de fala em discursos igualmente múltiplos. Fotogra�as, textos, fotos, vídeos: muitas são as formas de expressão que permitem a veiculação e a divulgação de discursos e performances de sujeitos. Em tempos de redes sociais, somos convidados incessantemente a postar, comentar, compartilhar, repercutir, curtir, criticar, amar e odiar discursos, atravessados por disputas de forças cada vez mais complexas. Se antes era nítida a verticalização do poder comunicativo (do tipo macro), agora, ele vem disperso e pulverizado em relações cadavez mais micro. Assim, a noção de sujeito foucaultiana nunca foi tão útil e requisitada. Se quisermos manter os radares da criticidade ligados, devemos, mais do que nunca, acionar a análise do discurso para sabermos, minimamente, nos guiarmos nesse mar de dados, informações e opiniões. Nesse sentido, Fischer (2013 apud Medeiros, 2016, p. 16) apresenta uma lista pertinente de perguntas que devemos fazer ao nos depararmos com sujeitos e discursos: Quem fala neste texto? De que lugar fala? De que autoridade se investe alguém para falar aqui e não em outro espaço? Quem pode falar sobre isto? Quais as regras segundo as quais a alguém é permitido a�rmar isto ou aquilo, neste ou naquele lugar? Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Vamos Exercitar? A comunicação nunca teve tantas plataformas e contextos para se efetivar como encontramos atualmente. Tal fato não só coloca as pro�ssões da área em destaque como multiplica suas responsabilidades. Ser jornalista, publicitário, relações públicas, produtor audiovisual, entre tantos papéis, exige um senso crítico apurado e �exibilidade para lidar com �uxos comunicativos que se alteram constantemente. Praticar a análise do discurso é uma ótima forma de praticar a autocrítica e a re�exão – ambas habilidades fundamentais para sermos pro�ssionais e cidadãos melhores. Vamos juntos? Saiba mais Para acompanhar uma boa análise da relação entre mídia e política, indicamos o artigo Sete teses sobre mídia e política no Brasil, do professor Dr. Venício de Lima, no qual ele oferece um pequeno resumo de algumas das principais teses que têm sido exploradas acerca da relação da mídia com a política no contexto brasileiro. Além disso, a autor apresenta o acervo de resultados de pesquisas empíricas existente, constituindo um bom recurso de aproximação com a temática. Que tal se aprofundar um pouco mais suas re�exões a respeito da mídia? O capítulo “Principais correntes teóricas na crítica da mídia”, do livro Crítica da Mídia, é uma boa porta de entrada. Disponível em sua Biblioteca Virtual. Referências BAHKTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. CHARAUDEAU, P. Discursos das mídias. São Paulo: Contexto, 2007. FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: Editora UnB, 2001. JUSKI, J. do R. et al. Crítica da Mídia. Porto Alegre: Grupo A, 2020. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786556900452/. Acesso em: 18 fev. 2024. LIMA, V. A. Mídia: teoria e política. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004. LIMA, V. A. Sete teses sobre mídia e política no Brasil. Revista USP, v. 61, p. 48-57, 2004. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2008. https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13317 https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13317 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786556900452/pageid/12 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA MEDEIROS, L. V. A. Análise do discurso. Porto Alegre: Grupo A, 2016. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788569726678/. Acesso em: 18 fev. 2024. OXFORD UNIVERSITY PRESS. Oxford Languages. 2022. Disponível em: https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/. Acesso em: 19 abr. 2022. SOUZA, J. P. As notícias e os seus efeitos. Coimbra: Minerva Coimbra, 2000. THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998. Aula 5 Produtos, processos e discursos midiáticos Produtos, processos e discursos midiáticos Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula faremos o encerramento da Unidade 3, destacando a competência abordada nas últimas discussões e, também, os resultados esperados de aprendizagem. Em nosso percurso, analisaremos criticamente o papel da mídia e suas diversas relações com a sociedade. Então, prepare suas anotações porque vem conteúdo importantíssimo por aí! Ponto de Chegada Olá, estudante! https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788569726678/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Para desenvolver a competência desta unidade, que é analisar o papel da mídia e a forma como os discursos são construídos nesses meios de comunicação, precisamos, primeiramente, estabelecer o conceito de mídia. Muito são os pesquisadores que se dedicam aos estudos da mídia, e é por isso que sua de�nição pode variar de um autor para o outro. No entanto, de uma forma geral, podemos compreender mídia como o “o sistema físico que suporta, veicula e canaliza ou comunica a informação como mensagem” (Perassi; Meneghel, 2011). Assim, mídia é o canal, o meio que possibilita a transmissão de informações entre emissores e receptores. A mídia, como o próprio nome adianta, é uma intermediadora – o que não signi�ca dizer que ela ocupa um papel de mera coadjuvante no processo comunicativo. Mídias são tecnologias, ferramentas que o ser humano foi desenvolvendo com sua própria evolução, que participam ativamente de todas as nossas revoluções históricas, sociais e econômicas. Assim, não é de se admirar que a trajetória das mídias se confunda com a própria jornada da comunicação humana. Em cada época, uma mídia foi criada e aperfeiçoada, destacando-se em seu período, e recon�gurando relações, pensamentos e formas de compreender o mundo. Um dos primeiros intelectuais a se atentar para o papel-chave das mídias na sociedade foi o canadense Marshall McLuhan. Genial e controverso, assegurou seu lugar de destaque nas teorias da comunicação ao defender a relevância dos meios no processo comunicativo. “O meio é a mensagem” – preconizou nos anos 1970, quando ainda nem vivíamos a era digital. O olhar bem calibrado de McLuhan previu a formação de uma aldeia global e os impactos cada vez maiores da mídia em nossa percepção. É verdade que seu determinismo tecnológico mereça ressalvas, mas isso não invalida a importância dos seus estudos. Talvez, o que faltou a McLuhan foram boas doses de análise do discurso (AD) – ferramenta metodológica da linguística para compreender os usos e as funções da linguagem em nosso mundo. Pautada, sobretudo, nas noções de discurso, sujeito e ideologia, a AD é um instrumento crítico e muito útil para pro�ssionais da comunicação. Ao usar uma lupa nas contradições, disputas de sentido e de poder que envolvem os processos comunicativos, ela nos ajuda a analisar e pensar o que, por que, quando e como usamos a linguagem (ou o discurso, para sermos mais precisos). Em tempos de plataformas digitais e de mesclagem cada vez maior entre emissores e receptores, mantermos o olhar aguçado e o senso crítico a�ado é fundamental para não nos perdermos nas múltiplas disputas de sentido das mensagens contemporânea – e, com a análise do discurso como aliada, tudo isso �ca mais fácil. É Hora de Praticar! Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Samara Coutinho é uma in�uenciadora digital e tem como foco questões relacionadas à maternidade e à maternagem. Jornalista por formação, Samara se afastou do mercado de trabalho com o nascimento da primeira �lha, que a colocou diante de situações que afetam cotidianamente as mães que trabalham fora. Com o crescimento do alcance das redes sociais, Samara viu aí uma possibilidade de seguir desempenhando seu trabalho aliando suas habilidades de comunicação ao mundo materno. Há pouco tempo, Samara recebeu uma proposta de uma marca de leite infantil para a realização de uma parceria em que ela deveria mostrar nos seus storiesdo Instagram, de maneira espontânea, que oferece o leite LeiteBom para a sua �lha de sete meses. Ocorre que, embora Samara já tenha iniciado a introdução alimentar da �lha, a sua disponibilidade de trabalhar em casa permitiu que ela pudesse seguir amamentando a menina, seguindo a orientação da OMS que recomenda o aleitamento materno até os dois anos. Samara já realizou diversas parcerias publicitárias, mas não está confortável com essa situação e está decidida a recusar a proposta. Pensando na relação entre comunicação-mídia-sociedade, de que maneira o fato de ser jornalista in�uencia a decisão de Samara na recusa da parceria, pensando nos temas analisados durante esta unidade: produtos, processos e discursos midiáticos? Que impactos a mídia traz em minha vida cotidiana? De que maneira leio e analiso as mensagens que chegam até mim? Como posso incorporar a análise do discurso em minha prática pro�ssional? Vivemos em uma sociedade imersa em uma lógica de produção e consumo que ultrapassa as relações econômicas e se expande para todas as esferas da nossa vida: o capitalismo. Nesse sistema, as estruturas de mercado e consumo estabelecem os parâmetros na produção de bens materiais e simbólicos, orientando nossa existência objetiva e subjetiva, e neste contexto toda produção midiática se articula por essa mesma lógica, organizando-se tal qual a produção industrial. Se chamamos de produto tudo o que é construído, produzido ou elaborado pela indústria, por extensão de�nimos como produto midiático tudo o que é produzido pela mídia ou sob sua in�uência direta. Por isso, assim como as marcas pautavam suas estratégias de venda com foco no público das mídias tradicionais, hoje elas voltam seus olhares para as redes sociais, uma mídia que alcança milhões de pessoas, rompendo barreiras geográ�cas. As redes abriram caminho para um novo tipo de formador de opinião: o in�uenciador digital – celebridades ou pro�ssionais de destaque em uma área capazes de in�uenciar as escolhas e a opinião de outras pessoas. Para o mercado, essas pessoas são vitrines. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Pro�ssional da área de comunicação, Samara conhece a estrutura dos processos, produtos e discursos midiáticos que, construídos em molde industrial, visam à elaboração de produtos para venda. Esse é o foco. Ela entende que as empresas perceberam que os in�uenciadores digitais têm impacto direto sobre seus seguidores, e que o modelo de divulgação das redes chamado de “recebidos” tem um custo bem mais baixo para a empresa se comparado à produção de uma campanha publicitária. Porém, analisando o papel do in�uenciador digital, Samara entende que para a empresa ela também é um produto midiático. Sua imagem, seu discurso, sua produção de conteúdo, tudo isso se desenvolve por meio de processos midiáticos e com um discurso que tem esse mesmo poder de alcance. Enquanto produto, o que ela tem para oferecer? Alcance e credibilidade. No caso de Samara, podemos julgar que esse fator pesou em sua decisão. As pessoas seguem os in�uenciadores porque con�am em sua opinião, por isso ela entende que ser in�uenciador é uma responsabilidade e envolve muito mais coisas que uma simples publicidade. Quem consome conteúdos na internet busca nichos de assuntos e pessoas com os quais tenham a�nidade de visão de mundo que, no caso de Samara, são pessoas interessadas em conteúdo de uma maternidade ativa e consciente. Para ela, esse agir natural, sem deixar clara a parceria com um produto que ela não apenas não consome, mas que contraria seu discurso, poderia colocar em risco a credibilidade e a imagem que ela construiu junto ao seu público ao longo dos anos. Compreender os conceitos centrais da análise do discurso é fundamental para utilizar corretamente as suas ferramentas. Por isso, é imprescindível não perder de vista a relação entre sujeito-discurso-ideologia. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Figura 1 | Análise do discurso CHARAUDEAU, P. Discursos das mídias. São Paulo: Contexto, 2007. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA GARCIA, W. Produtos midiáticos: per�s simbólicos e culturais. ECO-PÓS, v. 9, n. 2, ago.-dez. 2006, p. 54-63. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/1080/1020. Acesso em: 30 mar. 2022. GOMES, P. G. Dos meios à midiatização: um conceito em evolução. São Leopoldo: Unisinos, 2017. MCLUHAN, M. O meio e a mensagem. São Paulo: IMA Editorial, 2011. MCQUAIL, D. Atuação da mídia: comunicação de massa e interesse público. Porto Alegre: Grupo A, 2012. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788563899316/. Acesso em: 22 jul. 2024. MEDEIROS, L. V. A. Análise do discurso. Porto Alegre: Grupo A, 2016. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788569726678/. Acesso em: 18 fev. 2024. PERASSI, R.; MENEGHEL, T. Conhecimento, mídia e semiótica na área de Mídia do Conhecimento. Mídias do conhecimento. Florianópolis: Padion, v. 1, p. 47-72, 2011. THOMPSON, J. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. , Unidade 4 Cenários, processos e relações sociais da comunicação na vida contemporânea Aula 1 A Sociedade Pós-Moderna A sociedade pós-moderna Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788563899316/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788569726678/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Nesta videoaula, vamos debater o conceito de pós-modernidade, que está longe de ser uma unanimidade nas ciências humanas. Conheceremos o ponto de vista de estudiosos como Habermas, Giddens e Bauman. Então, prepare suas anotações porque vem re�exão por aí! Ponto de Partida Alguns embates teóricos são clássicos nas ciências humanas e sociais. No campo da comunicação de massa, Umberto Eco tornou popular a disputa entre os apocalípticos e os integrados do início do século XX. De um lado, as escolas norte-americanas que instrumentalizavam a prática comunicacional, do outro, as escolas europeias que profetizavam o �m dos tempos com a indústria cultural. Esse também parece ser o caso da discussão que envolve a existência – ou não – da pós- modernidade. Há autores que fazem desse conceito seu pilar de sustentação; outros que o refutam incisivamente; e há, ainda, aqueles que relativizam os dois lados, preferindo o caminho do meio. Nosso intuito não é “bater o martelo” sobre a validade (ou a falta dela) do conceito de pós- modernidade, mas utilizá-lo para promover re�exões a respeito da contemporaneidade e da história recente. Vamos nessa? Vamos Começar! Pós-modernidade: um debate em aberto Os anos 1980 foram o epicentro do debate acadêmico sobre a existência, ou não, da pós- modernidade. Mais de 40 anos depois, ainda que as discussões ocupem menos espaço, não é possível dizer que haja um consenso acerca do uso do conceito. Adelman (2009), analisando o campo da sociologia, diz que a grande cisão entre os que defendem e os que refutam o termo está na noção de ruptura ou continuidade com a modernidade. A modernidade, iniciada no século XVIII após a Revolução Francesa e a aceleração da Revolução Industrial, é compreendida como um momento histórico de mudança de paradigmas. Com suas revoluções em curso, alterou as noções de economia, trabalho e lucro, propiciando a consolidação do capitalismo. No campo político, emergiram os Estados-nação e os ideais de representatividade e voto. Por �m, no que diz respeito à intelectualidade, o racionalismo, a lógica e a ciência passaram ser as balizas do pensamento. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A modernidade representa um mundo “desencantado” pelos mitos e pelasreligiões, movido pelo consumo e pela crença na ciência. Tais direcionais regeram o mundo até metade do século XX, quando alguns paradigmas passaram a se alterar. A criação de novos meios de comunicação, o surgimento da internet, a aceleração tecnológica, a exacerbação do consumo, a fragmentação das identidades e das relações sociais, a descrença na ciência e outros movimentos levaram alguns estudiosos a questionar se não estávamos perante um novo momento histórico, batizado de pós-modernidade. Assim, para aqueles que defendem a existência da pós-modernidade, há uma ruptura signi�cativa entre um momento e outro – novos paradigmas foram inaugurados, justi�cando a “virada de chave” de uma era. No entanto, essa concepção não foi (e ainda não é) unânime. Sociólogos como Habermas e Giddens não enxergam rupturas, mas continuidades entre o mundo contemporâneo e a consolidação das instituições sociais modernas. Para Habermas, vivemos o “projeto inacabado” da modernidade, em que as tendências desintegrativas e a pulverização das identidades sociais ameaçam a capacidade dialógica da democracia moderna (Adelman, 2009). Já Giddens observa um agravamento das características modernas na contemporaneidade, propondo o conceito de “modernidade radicalizada”. Isso, no entanto, não quer dizer que ele não localize mudanças signi�cativas entre a sociedade do século XVIII e a que encerra o século XX. […] no século XX, e especialmente na sua segunda metade, completa-se a transformação de certas instituições sociais que promovem transformações da família, da sexualidade, das relações de gênero, e da vida política, e a incorporação de novos atores e novas formas (legítimas) de atividade política. As relações de poder e desigualdades em acesso a poder e recursos são cada vez mais negociáveis e negociadas (Adelman, 2009). Esse também é o entendimento de Bauman. Embora seu pessimismo a respeito do período contemporâneo o aproxime de autores declaradamente pós-modernos (como Jean Baudrillard), ele é enfático ao apontar um agravamento (mas não rompimento) entre a modernidade e o limiar dos séculos XX e XXI. Para abarcar as mudanças que acontecem, ele propôs o conceito de modernidade líquida. A modernidade líquida representa a �uidez do mundo no qual os indivíduos não têm mais modelos e padrões de referência tão sólidos quanto os da modernidade clássica. O termo descreve a condição de constante mobilidade e mudança nos relacionamentos, identidades, na economia e política global da sociedade contemporânea, em que tudo é tão rápido e inconstante que os padrões, valores e normas não duram tempo su�ciente para se estabelecerem como um novo farol de orientação. Assim, o uso do adjetivo líquida se justi�ca: se pegarmos qualquer elemento sólido e mudá-lo de recipiente, ele continuará tendo a mesma forma. Ao contrário, um líquido assume a forma do recipiente que o contém. A água segue sendo água, mas sua forma se altera se estiver em um Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA copo baixo e largo, em uma garrafa, ou até poderá escorrer entre os dedos se tentarmos segurá- la. Ao de�nir que vivemos a modernidade líquida, Bauman indica que os valores, padrões e referências de certa forma ainda são os da modernidade, mas não mais exatamente como eram, pois o mundo mudou. Sua ênfase está nas mudanças sociais cada vez que, em razão das transformações nas tecnologias, principalmente de comunicação, permitem que as ideias circulem e se alterem muito rapidamente. Essas mudanças podem ser vistas com facilidade, por exemplo, nas abordagens contemporâneas da autoidentidade: na modernidade líquida, a construção de uma identidade durável e coerente no tempo e no espaço torna-se cada vez mais improvável. As diferentes formas de ser e agir na vida moderna líquida se re�etem na fragilidade, na vulnerabilidade e na inclinação à mudança constante. Há uma sensação vaga de estar submetido a condições que fogem do domínio, provocando o medo e o estresse Assim como os objetos e itens de consumo são substituíveis rapidamente, isso se dá com os indivíduos que são colocados nas relações como objetos que caem em desuso e são facilmente descartados. Cada nova estrutura que substitui a anterior é declarada antiquada e ultrapassada, sua data de validade é momentânea. O que é entendido como contemporâneo muda de forma, por isso o que Bauman de�niu como modernidade líquida é a crescente convicção de que a mudança é a única permanência; e a incerteza, a única certeza. Siga em Frente... A contemporaneidade Já que não há consenso entre a existência ou não da pós-modernidade, o que podemos considerar como características da contemporaneidade? O fator considerado determinante das mudanças que assistimos no tempo presente é a globalização, que por meio de uma série de processos e avanços tecnológicos de diversas ordens (com destaque para transporte e comunicação) promoveu transformações na nossa relação com o espaço geográ�co e o tempo, aumentando a conexão entre nações, culturas e pessoas. Podemos, ainda, destacar como características da sociedade contemporânea: A ascensão da tecnologia de comunicação: o caminho percorrido pelas tecnologias de comunicação que culminaram na tecnologia digital modi�caram o mundo. A internet mudou os padrões de comunicação e relacionamento. As redes sociais provocaram mudanças nas conexões entre as pessoas em várias dimensões: sociais, pro�ssionais, interpessoais, coletivas, amorosas etc. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Economia global: as relações comerciais entre países não são novidade, porém, a relação de escala hoje é totalmente diferente, o que reestruturou a ordem econômica mundial em outros eixos, exigindo o desenvolvimento de suporte logístico, técnico, político e até mesmo legal na de�nição de regras que orientem e conduzam a economia em esfera global. Expectativa de vida: enquanto a expectativa de vida média de um indivíduo era de 46 anos em 1950, graças ao avanço da medicina e da melhora na qualidade de vida a expectativa de vida média global atualmente chega aos 70 anos. Esse aumento transformou nossa relação com o tempo e com o mundo, que se vê diante da realidade do envelhecimento de sua população. Novas de�nições geracionais se apresentam, assim como novas questões relacionadas ao convívio dessas gerações. Aumento da alfabetização: em 1820, apenas 12% da população mundial sabia ler e escrever, ao passo que hoje 86% da população mundial é alfabetizada. Essa métrica aponta a educação como um fator de desenvolvimento, seja ele econômico, social ou político. Pessoas mais escolarizadas tendem a encontrar empregos melhores, ascendem economicamente e têm mais acesso à saúde, chegando à velhice com qualidade de vida. Também o acesso facilitado a bens e meios de cultura podem alterar o olhar dessas pessoas para os problemas sociais, provocando impacto em suas visões políticas. Assim, a alfabetização e o aumento da escolarização acabam produzindo um efeito em cadeia. Questões sociais: a sociedade contemporânea vive profundos desa�os quando os assuntos são problemas sociais e a luta para superá-los. Somos marcados por diversas questões e contradições entre nossa forma de pensar e as ações cotidianas, em uma relação de avanços e retrocessos constantes. Podemos citar muitos exemplos dessas relações con�ituosas como o preconceito contra a população LGBTQIA+, a violência policial contra grupos sociais especí�cos, o racismo sistêmico e estrutural, a desigualdade de gênero, xenofobia e o impacto desigual da crise climática, dentre inúmeras outras. Isso pode ser observado em escalas macro e micro: podemos olhar para esses fenômenos por meio do nosso grupo de convivência, das cidades, países e mesmo em aspecto global por meio de análises comparadas. Pobreza e desigualdade social: a pobreza é um dos grandes problemas a ser enfrentado pelo mundo globalizado. A ascensão das grandes corporações, o declínio das pequenas produções, a desigualdade de renda, de distribuição e de acesso aos bens, a exploração desiguale o esgotamento de recursos naturais; todo esse conjunto faz com que populações e países sejam afetados de maneira diferente pelos problemas contemporâneos, mas em geral todos são afetados. Por isso, pensar nessa lógica que estrutura nosso sistema de relações é fundamental para seguirmos avançando. Vamos Exercitar? Nas ciências humanas, há muitas formas de olhar para os fenômenos buscando compreendê-los e explicá-los. Dependendo da forma como se analisa e das variáveis consideradas, podemos chegar em considerações diferentes. É dessa forma que operam as proposições teóricas. Elas são uma caixinha de ferramentas que utilizamos para entender o mundo. Se você precisa Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA consertar um problema em um cano de água, di�cilmente uma chave de fenda será de alguma serventia. Assim também funciona a nossa caixa de ferramentas teóricas: elas ajudam a orientar nosso olhar na compreensão de um problema e, ao mesmo tempo que explicam muita coisa, acabam deixando outras sem explicação. Portanto, agora é a sua vez de pensar na existência, ou não, da pós-modernidade. Você concorda ou discorda com os autores aqui apresentados? Pense nisso! Saiba mais Zygmunt Bauman faleceu em 2017, por isso, pôde acompanhar os desdobramentos das suas teorias no século XXI, sendo constantemente acionado a analisar processos e tendências contemporâneas. Em uma rápida pesquisa, é possível encontrar inúmeras entrevistas, artigos e documentários com a presença do �lósofo polonês. Vale a pena! Para aprofundar suas re�exões a respeito da pós-modernidade, sugerimos a leitura do livro A invenção do futuro, de Jorge Forbes, Miguel Reale Júnior e Tércio Sampaio Ferraz Júnior (2005). Você pode acessá-lo em sua Biblioteca Virtual. Referências ADELMAN, M. Visões da pós-modernidade: discursos e perspectivas teóricas. Sociologias, v. 21, jun. 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/soc/a/QwYJCDbXhf6gHFcQqvKtbTD/#. Acesso em: 29 fev. 2024. BAUMAN, Z. A ética é possível num mundo de consumidores? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2011. BAUMAN, Z. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. FORBES, J.; REALE JÚNIOR, M.; FERRAZ JÚNIOR, T. S. A invenção do futuro: um debate sobre a pós-modernidade e a hipermodernidade. Barueri: Manole, 2005. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520443453/. Acesso em: 22 jul. 2024. PINTO, T. S. "O que é Idade Contemporânea?". Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-idade-contemporanea.htm. Acesso em: 6 abr. 2022. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788520443453/pageid/4 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788520443453/pageid/4 https://www.scielo.br/j/soc/a/QwYJCDbXhf6gHFcQqvKtbTD/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520443453/ https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-idade-contemporanea.htm Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA RAMOS, J. E. M. A Idade Contemporânea: cronologia e características. 30 jul. 2020. Disponível em: https://www.suapesquisa.com/historia/idade_contemporanea.htm. Acesso em: 10 abr. 2022. Aula 2 A Sociedade da Informação A sociedade da informação Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula discutiremos as características da chamada sociedade da informação. Que benefícios e malefícios experimentamos diante do uso irrestrito das tecnologias de informação e comunicação na contemporaneidade? Vale a pena re�etir a esse respeito! Ponto de Partida Olá, estudante! Nesta aula vamos explorar perspectivas do cenário da comunicação na vida contemporânea, além das tecnologias de informação e comunicação, e seus impactos na sociedade. Você já imaginou como seria viver sem internet, sem plataformas digitais, sem recursos tecnológicos e sem redes sociais? Como seria não poder acessar informação e adquirir conhecimento a um clique de distância? Como seria não interagir em grupos virtuais de a�nidade? Como seriam os aprendizados https://www.suapesquisa.com/historia/idade_contemporanea.htm Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA organizacionais, os processos de inovação, estratégias de negócios, transformação industrial e de serviços, qualidade, produção, marketing e vendas sem a gestão do conhecimento? Essas questões nos trazem uma série de re�exões para compreender os cenários, processos e relações sociais na era do capitalismo informacional, que exige rápida adaptação a mudanças de forma con�ável e responsável. Vamos começar? Vamos Começar! Sociedade contemporânea: informação e conhecimento Viver sem internet nos dias de hoje é algo inimaginável para muitas pessoas. O fato é que esta tecnologia foi responsável por impulsionar uma revolução histórica nas formas de produzir e consumir informação a partir do século XX com a Terceira Revolução Industrial (1950-2010). Essa fase marcou a substituição gradual da mecânica analógica pela digital, uso de microcomputadores e criação da internet em 1969, além de avanços na digitalização de arquivos e o surgimento da robótica. A Quarta Revolução Industrial, cunhada de Revolução 4.0 por Schwab, então presidente do Fórum Econômico Mundial e autor do livro A Quarta Revolução Industrial, propõe a convergência e sinergia de diferentes tecnologias como a internet das coisas, impressão 3D, Big data (análise de volumes massivos de dados) e realidade aumentada, dentre outras, para gerar conhecimento e produtividade. Para muito além de trocas de e-mails e armazenamento de informações, como utilizada no início, a segunda geração da internet – a internet 2.0 – no século XXI impulsiona o estabelecimento da era da informação, permitindo que as pessoas usuárias interajam e colaborem entre si como criadoras de conteúdo, melhorem suas experiências em websites e facilitem o compartilhamento e a troca de informações, em uma proposta disruptiva de hábitos e processos comunicacionais enquanto sujeitos-receptores. O protagonismo assumido pelas tecnologias de informação e comunicação (TICs) nas relações sociais da contemporaneidade são ponto de partida para a caracterização da sociedade da informação e a sociedade do conhecimento. Ainda que esses termos sejam utilizados como sinônimos, eles sugerem diferenciação e complementaridade a partir de diferentes teóricos e in�uenciadores das ciências sociais, da economia, da informação e da comunicação. Para iniciarmos as re�exões acerca da sociedade da informação e da sociedade do conhecimento, uma de�nição prática utilizada pelo escritor e educador João Kepler (2021, [s. p.]) nos é cara: “Informação signi�ca dados processados sobre alguém ou alguma coisa, enquanto conhecimento refere-se a informações úteis obtidas através da aprendizagem e da experiência”. Pensar as perspectivas de cenário na vida contemporânea exige pensar a in�uência das Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA tecnologias da informação e comunicação na ampliação e democratização do conhecimento humano para um capitalismo consciente, que valorize a inclusão da diversidade com equidade e que não deixe ninguém para trás. Mas, de fato, ainda que internet e as TICs tenham alcance global, enfrentamos inúmeros desa�os para a efetiva inclusão digital, seja em espaços e contextos públicos ou privados. Sabemos que nem todo conteúdo gerado e disponível na internet é acessível ou con�ável. Sabemos que ao mesmo tempo que as redes sociais fomentam movimentos de impacto positivo são também armadilhas para a desinformação e violação dos direitos humanos. A evolução das TICs em países subdesenvolvidosou emergentes, sem um compromisso prévio assumido por seus respectivos governos – partindo da educação para a inserção das pessoas nos contextos digitais – certamente pode ser motivo para o desencadeamento de crises estruturais, afetando a geração de empregos e desenvolvimento social, com o agravamento das desigualdades. Vamos, a seguir, compreender os desdobramentos dos principais pontos abordados até este momento. Siga em Frente... TICs e desigualdade social Pensar a sociedade contemporânea e sua evolução a partir das tecnologias de informação e comunicação (TICs) exige considerar controvérsias quanto à democratização da informação, da educação e do conhecimento. De acordo com Dziekaniak e Rover (2011), ao passo que novidades tecnológicas são acessíveis apenas para um grupo social, as pessoas menos favorecidas �cam ainda mais distantes de crescimento e acesso ao novo tecnológico, que deveria impulsionar e direcionar a sociedade. Dentre os impactos das TICs no desenvolvimento das sociedades estão os novos postos de trabalho que exigem mão de obra especializada; trabalhos autômatos geralmente acompanhados por desemprego ou redução da jornada de trabalho/redução salarial, exigindo educação continuada por parte das pessoas trabalhadoras. Com a demanda por trabalho maior que a oferta, os salários também se tornam mais baixos, desestimulando o investimento em autocapacitação, favorecendo o índice de desemprego e o crescimento contínuo da miséria e das diferenças sociais, culturais e de exclusão em todo o mundo. Um caminho para a equidade seria o de desenvolvimento de projetos de cunho governamental idealizados para o acesso ao conhecimento codi�cado, de forma a posicionar países periféricos mais próximos da posição de igualdade informacional diante dos países centrais. No entanto, Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA esta possibilidade não é do interesse de todas as partes, sobretudo em um momento no qual as transformações são muito rápidas e o foco estratégico é direcionado à competitividade internacional pelo lucro e pela geração de riqueza, em um clássico modelo de capitalismo selvagem. Assim, cria-se um “círculo vicioso de obsolescência versus atualização, um fosso social entre aqueles que têm acesso às tecnologias e os que não têm e, provavelmente estes últimos cada vez tenham menos, dada a realidade de distanciamento que surge entre os dois pólos" (Dziekaniak; Rover, 2011, p. 4). Conforme os autores, a problemática trazida pela introdução das TICs vinculadas à geração de riqueza e lucro para o setor empresarial, sem a devida atenção em políticas públicas que valorizem a inclusão, acarretou à sociedade contemporânea um dos maiores gaps sociais da história mundial. Nessa dinâmica são destacadas quatro dimensões que regem a homogeneização e diferenciação desencadeadas pelas TICs: 1. dimensão espacial: expansão dos mercados em larga escala alterando a divisão internacional do trabalho; 2. dimensão social: estabelecimento de linhas divisórias de capacitação ou não capacitação em bases teóricos-produtivas, 3. dimensão econômica: na qual as organizações são protagonistas se mantendo mais dinâmicas e competitivas; e 4. dimensão político-institucional: distintos formatos estratégicos para lidar com a realidade das diferenças. O contraponto positivo aos impactos negativos das TICs está na a�rmação de Castells (1999 apud Dziekaniak; Rover, 2011, p. 4), “a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas.” Para Castells (1999), é a habilidade das sociedades dominarem as tecnologias da informação e comunicação que traçará os seus destinos, e embora não seja a tecnologia quem determina a mudança social e a evolução das nações, é ela a responsável por abarcar o potencial de transformação das sociedades. Dado esse contexto, quais as perspectivas de evolução da sociedade da informação e da sociedade do conhecimento? Transformações sociais e TICs Dadas as referências anteriores, faz sentido para você que na expressão sociedade da informação o enfoque deva estar no termo sociedade e não em informação? Como dissemos anteriormente, informação trata-se de dados. Já a palavra sociedade considera pessoas, culturas, formas de organização e comunicação. “A informação tem que ser determinada conforme a sociedade, e não a sociedade conforme a informação” (Burch, 2005 apud Dziekaniak; Rover, 2011, p. 5). No entanto, colocar a informação a serviço da sociedade exige mais do que uma simples intenção: é preciso planejamento e mobilização para o desenvolvimento de políticas públicas que Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA permitam acesso e efetiva participação de todas as pessoas em diferentes áreas do conhecimento. A partir da expressão viralizada “nada sobre nós, sem nós”, é recomendável que essas políticas sejam heterogêneas; maleáveis, pensadas na transversalidade e com recortes da diversidade, respeitando as diferenças e suas complexidades, em uma “troca vantajosa para ambas as partes: cidadão e Estado. Não se faz política pública somente para e pela sociedade, mas com a sociedade” (Freitas, 2007 apud Dziekaniak; Rover, 2011, p. 6), permitindo que as pessoas se apropriem de suas histórias. Cabe também comentar o efeito das políticas públicas nas corporações, replicando o contexto do público ao privado em termos de acesso à informação, manipulação da informação, geração de aprendizagem e gestão do conhecimento. As vivências das pessoas, motivadas por melhorias sociais, educacionais e econômicas, assim como a geração de competências fundamentadas no aprendizado empírico, idealizam para a sociedade do conhecimento uma tecnologia que não contenha em si “potencialidades de inovação enquanto agente, e sim, enquanto instrumento” (Nehmy; Paim, 2002 apud Dziekaniak; Rover, 2011, p. 6). Assim, para além da sociedade da informação, a sociedade do conhecimento parece ser o caminho mais próspero para todos. “Uma sociedade em que a informação, a educação e a comunicação, baseadas nas potencialidades das TICs, possam desenvolver-se, transpor e romper as barreiras geográ�cas, econômicas, políticas e sociais” (Dziekaniak; Rover, 2011, p. 6). Nesse contexto é fundamental reiterar a necessidade de rompimento de barreiras quanto à acessibilidade digital – um direito constitucional das pessoas com de�ciência, infelizmente ainda hoje invisibilizadas. Vamos Exercitar? Este é o momento de re�etir a respeito do seu papel na sociedade contemporânea. Em tempos de conceito ESG (Environmental, Social and Governance) ou ASG (ambiental, social e governança), Agenda 2030 da ONU e seus 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), como você interpreta a utilização do potencial da informação e das TICs para a geração de impactos positivos? Você produz e consome conteúdos em plataformas multimídia com qual intuito? Você converte as informações acessadas em conhecimento para si e para as demais pessoas, seja em âmbito pessoal ou pro�ssional? Como o exercício de sua pro�ssão pode impactar a informação e o conhecimento para a evolução das pessoas, dos negócios e do meio ambiente? Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A sociedade contemporânea precisa se apropriar do entendimento de que além da informação é preciso munir as pessoas de conhecimento e cultura, a �m de empoderá-las e torná-las capazes e competentes no exercício de decisões e realizações em prol de um futuro mais justo, saudável, inclusivo e equânime. Sabemos que os caminhos são muitos e a jornada é longa, mas lembre-se de que você não está só. Vamos juntos! Saiba mais Para se aprofundar ainda mais no conceito de sociedade da informação, bem como nos seus desdobramentos, recomendamos a leitura do livro Sociedade da informação – para onde vamos, de Renato Martini (2017). Você pode acessá-lo em sua Biblioteca Virtual. Que tal se divertir, e ao mesmo tempo pensar no uso da tecnologia na sociedade contemporânea? Séries como Black Mirror, ao imaginarem (ou anteciparem) futurosusos para as plataformas digitais, nos fazem analisar a relação que temos atualmente com esses dispositivos. Vale a pena conferir! Referências DZIEKANIAK, G.; ROVER, A. Sociedade do conhecimento: características, demandas e requisitos. Revista de Informação, v. 12, n. 5, p. 1-9, outubro 2011. Disponível em: https://egov.ufsc.br/portal/conteudo/artigo-sociedade-do-conhecimento-caracter%C3%ADsticas- demandas-e-requisitos. Acesso em: 28 fev. 2022. KEPLER, J. Como transformar educação em conhecimento. A Gazeta do Povo, Curitiba, 19 fev. 2021. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/nova-economia-com-joao- kepler/como-transformar-informacao-em-conhecimento/. Acesso em: 1 mar. 2022. MARTINI, R. Sociedade da Informação – para onde vamos. São Paulo: Trevisan, 2017. E-book. ISBN 9788595470196. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595470196/. Acesso em: 22 jul. 2024. ROCK CONTENT. Conheça a história da Internet, sua �nalidade e qual o cenário atual. Rock Content, 27 jan. 2020. Disponível em: https://rockcontent.com/br/blog/historia-da-internet/#4. Acesso em: 1 mar. 2022. SANTOS, L. Conheça as quatro Revoluções Industriais que moldaram a trajetória do mundo. CFA – Conselho Federal de Administração, Brasília, 6 dez. 2019. Disponível em: https://cfa.org.br/as- outras-revolucoes-industriais/. Acesso em: 1 mar. 2022. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788595470196/pageid/1 https://egov.ufsc.br/portal/conteudo/artigo-sociedade-do-conhecimento-caracter%C3%ADsticas-demandas-e-requisitos https://egov.ufsc.br/portal/conteudo/artigo-sociedade-do-conhecimento-caracter%C3%ADsticas-demandas-e-requisitos https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/nova-economia-com-joao-kepler/como-transformar-informacao-em-conhecimento/ https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/nova-economia-com-joao-kepler/como-transformar-informacao-em-conhecimento/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595470196/ https://rockcontent.com/br/blog/historia-da-internet/#4 https://cfa.org.br/as-outras-revolucoes-industriais/ https://cfa.org.br/as-outras-revolucoes-industriais/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Aula 3 A Sociedade da Virtualização A sociedade da virtualização Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula, conheceremos os principais conceitos propostos por Pierre Lévy, importante pesquisador das áreas da tecnologia, da informação e da comunicação. Prepare-se para pensar o ciberespaço e a cibercultura de uma forma diferente, percebendo o seu papel nesses espaços. Vamos juntos? Ponto de Partida Olá, estudante! Nesta aula vamos explorar perspectivas do cenário contemporâneo a partir da elaboração construída por Pierre Lévy, uma das mais importantes vozes que tratam da relação entre a tecnologia, os meios de comunicação criados por ela e os seus impactos na sociabilidade. Para tanto, destacaremos três de seus principais conceitos: cibercultura, ciberespaço e virtualização. Embora alguns pesquisadores considerem as teorias de Lévy otimistas demais, é inegável o quanto algumas de suas ideias descrevem o ambiente contemporâneo, permeado cada vez mais pela cibercultura. Vamos aprender juntos? Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Vamos Começar! Pensando a contemporaneidade No decorrer desta disciplina, destacamos que a sociedade vem passando por transformações culturais, mercadológicas, econômicas e sociais ao longo de toda a sua história. No campo da comunicação, ao mesmo tempo que o avanço tecnológico permitiu o desenvolvimento de novas ferramentas de comunicação, essas ferramentas impactaram a forma como nos comunicamos e nos relacionamos com o mundo. Nos últimos anos, o impacto das transformações ganhou novos contornos, alcance e velocidade em razão das novas tecnologias da informação e comunicação – TICs. A tecnologia digital permitiu o desenvolvimento dos computadores domésticos com conexão via internet, modi�cando a forma de produção e disseminação de informações. Atualmente, todos somos, ao mesmo tempo, emissores e receptores dessas informações. Nesse contexto, vários estudiosos e pesquisadores nomearam esse momento da sociedade com termos diversos. Assim, a sociedade do século XXI é chamada de sociedade da informação, sociedade em rede, sociedade global, sociedade do conhecimento, sociedade pós-industrial, sociedade da virtualização, entre outros nomes. Apesar das diferenças, em comum essas visões discutem a sociedade a partir da mudança de paradigma causada pelo advento do computador e da Internet. A convergência dos sistemas de comunicação, as tecnologias da informação e o crescimento das redes integradas tornaram-se responsáveis pela transição de uma sociedade centrada na produção industrial para uma sociedade agora baseada na informação: Podemos dividir a história da humanidade em três importantes eras: agrícola, industrial e digital. Na era digital a sociedade tem recebido o nome de ‘sociedade da informação’, aquela cuja cultura e economia dependem essencialmente da tecnologia, da comunicação e da informação. Em tese, todos participam de alguma maneira da interação, compartilhando o conhecimento com base nas informações que possuem (Mendes, 2022, [s. p.]). É impossível pensar o mundo hoje sem a tecnologia digital. Ela faz parte de nossas vidas; são milhões de adeptos conectados durante 24 horas por dia realizando inúmeras tarefas, desde uma simples conversa na rede social, pesquisas de produtos ou comparações de preços entre lojas, jogos, entre incontáveis outras atividades. Mais que isso, o espaço digital não serve apenas para troca ou busca de informações, e hoje esse ambiente abarca os mais diversos tipos de interação social. Um dos mais importantes nomes nesta área é Pierre Lévy. Lévy é um �lósofo, teórico cultural e estudioso de mídia especializado na compreensão das implicações culturais e cognitivas das tecnologias digitais e do fenômeno da inteligência coletiva humana. Para compreendermos o Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA caminho de sua análise, vamos iniciar por sua classi�cação dos dispositivos comunicacionais, que ele divide em três categorias: Um-todos: um emissor envia suas mensagens a um grande número de receptores. Exemplo: meios de comunicação de massa, como rádio, imprensa e televisão. Um-um: relações estabelecidas entre indivíduo-indivíduo, ponto a ponto, como telefone e correio. Todos-todos: dispositivo comunicacional original, possibilitado pelo ciberespaço, pois permite que comunidades constituam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum, como as conferências eletrônicas, o ambiente de educação a distância, a world wide web etc. Nessa explicação encontramos um dos principais conceitos desenvolvidos pelo autor – e é justamente para ele que voltaremos nossa atenção agora. Siga em Frente... O ciberespaço As palavras ciberespaço, cibercultura e virtualização podem ser diretamente associadas ao nome de Pierre Lévy – e é a partir da intersecção entre essa estrutura material da tecnologia que media nossa comunicação e as estruturas sociais que os conceitos são construídos: É impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo. Da mesma forma, não podemos separar o mundo material - e menos ainda sua parte arti�cial - das ideias por meio das quais os objetos técnicos são concebidos e utilizados, nem dos humanos que os inventam, produzem e utilizam […] (Lévy, 1999, p. 21). Para o autor, as realidades virtuais compartilhadas que fazem comunicar milhares ou mesmo milhões de pessoas pelos dispositivos de comunicação todos-todos é o contexto tecnológicotípico da cibercultura (1999, p. 105), que deve ser entendida como o comportamento sociocultural que provém da relação entre a sociedade, cultura e o espaço eletrônico virtual. A cibercultura é, portanto, a expressão cultural, a forma como nos relacionamos com o mundo baseado na tecnologia digital. Mais especi�camente, a cibercultura é a cultura desenvolvida a partir do ciberespaço. O ciberespaço é o ambiente em que a comunicação é feita mediante a utilização das redes de computadores. Porém, é importante compreender que o ciberespaço é mais que a rede, a internet ou os computadores: "as grandes tecnologias digitais surgiram, então, como a Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA infraestrutura do ciberespaço, novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também novo mercado de informação e do conhecimento" (Lévy, 1999, p. 32). Ou seja, a internet é a infraestrutura de comunicação que sustenta o ciberespaço e sobre a qual se montam diversos ambientes, como a web, os fóruns, os chats e o correio eletrônico, para �car apenas com os exemplos mais comuns e disseminados. Tendo a internet como uma das infraestruturas, o ciberespaço É o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo especi�ca não apenas a infraestrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e alimentam esse universo (Lévy, 1999, p. 17). Dadas suas características, o ciberespaço não se prende aos aspectos da geogra�a física e, por isso, promove um enredamento dos sujeitos por meio de práticas e atividades que permitem o desenvolvimento de uma cibercultura, construindo um vínculo próprio com a sociabilidade. Com as redes digitais planetárias, o navegar no ciberespaço possibilita que o indivíduo observe a multiplicidade de lugares, processos, oportunidades de vida, de trabalho, de lazer, que se sucedem por meio de computadores, tablets, celulares e demais dispositivos móveis, uma vez a relação do sujeito com o espaço se modi�ca. O sujeito percorre o espaço remotamente em uma relação acorporal que altera a interação entre matéria e espaço; e a proximidade de espaço, considerada elemento necessário para a troca de informações, é substituída pela interação via rede. Nesse sentido, Lévy enxerga essa sociabilidade desenvolvida no ciberespaço a partir de uma ótica positiva, entendendo que o ciberespaço encoraja uma troca recíproca e comunitária, enquanto as mídias clássicas praticam uma comunicação unidirecional na qual os receptores estão isolados uns dos outros. A virtualização No seu caminho analítico, Pierre Lévy revisita o conceito geral de virtualidade. Para muitos contemporâneos deste autor, há uma percepção comum de que uma sociedade que enfatiza as interações virtuais está fadada à despersonalização. Porém, aqui temos um dos grandes pontos de destaque da construção deste autor: não há oposição entre "virtual" e "real". Quer dizer, Lévy concebe a virtualidade como um dos quatro modos de existência, descritos como: realidade, possibilidade, atualidade e virtualidade. Cada um deles é de�nido em termos de sua relação com o ambiente, e todos esses modos podem ser vividos pelo sujeito. Com isso, Lévy constrói uma nova compreensão do viver em um mundo cada vez mais digital. A virtualização não é, como muitos apontam, uma destruição do pessoal, mas uma transformação. A virtualização não substitui o real, pelo contrário, ela adiciona; o virtual é o real em potência, o que pode vir a ser. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Nesse sentido, o que ele destaca em suas análises é a potencialidade humana em um mundo em que o virtual permite uma gama de possibilidades, promovendo um comportamento dinâmico e inquieto. Este dinamismo rompe paradigmas cristalizados e galga avanços tecnológicos: "[…] quanto mais o digital se a�rma como um suporte privilegiado de comunicação e colaboração, mais essa tendência à universalização marca a história da informática." (Lévy, 2000, p. 112). Assim, o ambiente virtual torna-se um local de interação social. Os relacionamentos constituídos no ciberespaço se ampliam para todas as áreas de produção da vida como a ciência, a medicina, a educação, o jornalismo etc., gerando uma rede ampla de comunicação e difusão de conhecimento. Os desa�os da cibercultura Como todas as inovações tecnológicas, as TICs e seus processos associados têm prós e contras. O mesmo pensamento se aplica para a cibercultura e o ciberespaço. A questão aqui não é valorativa, até porque a tecnologia não é boa ou má em si. Os impactos e processos devem ser analisados em razão dos usos e das apropriações feitas dessas tecnologias, ou o que se faz a partir do que a tecnologia pode fazer. Exempli�cando: atualmente, a sociedade utiliza os canais de comunicação que emergem no ciberespaço e da sensação de liberdade que eles fornecem para manifestar suas opiniões. Ao mesmo tempo que a ausência de barreiras para a entrada de novos participantes pode levar à criação de um espaço propício à democracia, na medida em que o debate coletivo amplia os canais formadores de opinião, essa sensação de liberdade plena em que tudo é possível pode levar ao surgimento ou ampli�cação de vozes antidemocráticas, travestidas de liberdade de expressão. A tecnologia abarca as duas possibilidades, mas o caminho que seguiremos não é determinado por ela. Como a�rma Lévy (1999): […] Quanto mais o ciberespaço se amplia, mais ele se torna ‘universal’, e menos o mundo informacional se torna totalizável. O universal da cibercultura não possui nem centro nem linha diretriz. […] Este acontecimento transforma, efetivamente, as condições de vida da sociedade. Contudo, trata-se de um universo indeterminado e que tende a manter sua indeterminação, pois cada novo nó da rede de redes em expansão constante pode tornar-se produtor ou emissor de informações, imprevisíveis, e reorganizar uma parte da conectividade global por sua própria conta (Lévy, 1999, p. 111). Para além das disputas de sentido que acontecem na multiplicidade de vozes do ciberespaço, um dos grandes desa�os da cibercultura é pensar justamente em quem está fora dela. Para participar ativamente e se bene�ciar das possibilidades in�nitas que emergem na virtualização é imprescindível ter acesso às tecnologias e à internet. Quem não tem esse acesso �ca automaticamente marginalizado, reforçando outros marcadores de desigualdade social. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Vamos Exercitar? Não é preciso concordar plenamente com Pierre Lévy para se bene�ciar das suas ideias. Até no exercício da crítica, precisamos primeiro compreender para depois refutar – e, nesse processo, crescemos intelectualmente. O que você tem a dizer a respeito do ciberespaço? Quais papéis você assume na cibercultura? Pensar em si é umas das maneiras mais efetivas de também re�etir acerca da sociedade e das constantes mudanças que estamos experimentando. Pratique esse exercício! Saiba mais Por ser um pesquisador contemporâneo e referência nas áreas de informação, comunicação e tecnologia, é muito fácil encontrar entrevistas de Pierre Lévy nos mais diversos meios: revistas, jornais, televisão etc. Lévy, inclusive, já esteve no centro do programa Roda Viva, da TV Cultura, no início dos anos 2000. Vale a pesquisa! Para se aprofundar no conceito de cibercultura, recomendamos a leitura do capítulo Cibercultura, do livro Jornalismo digital e cibercultura (Forechi; Flores, 2020). Você pode acessá-lo em sua Biblioteca Virtual. Referências BURCH, S. Sociedade da informação/Sociedade do conhecimento. In: AMBROSI, A.; PEUGEOT, V.; PIMIENTA, D. Desa�os de palavras: enfoques multiculturais sobre as sociedades da informação. C & F Éditions, 2005. CASTELLS, M. A sociedade em rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. Volume I. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. FORECHI, M.; FLORES, N. M.; MELO, C. O. Jornalismo digital e cibercultura.Porto Alegre: Grupo A, 2020. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786581492755/. Acesso em: 22 jul. 2024. LEMOS, A. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002. LÉVY, P. O que é o virtual? São Paulo: 34,1996. LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: 34,1993. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786581492755/pageid/40 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786581492755/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA LÉVY, P. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo. 34, 1999. Aula 4 A Sociedade da Pós-Verdade A sociedade da pós-verdade Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! A velha máxima “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade” parece ter sido substituída pela adaptação tecnológica: “uma mentira compartilhada mil vezes se torna mais do que verdade”. Pois é: em tempos de plataformas digitais e fake news, ser jornalista pode ser uma tarefa árdua! Vamos re�etir juntos a esse respeito? Ponto de Partida Um dos efeitos colaterais da cibercultura foi dinamizar a produção e a disseminação de fake news. Como veremos, criar e colocar em circulação notícias falsas é uma prática antiga – a novidade contemporânea é a rapidez com que elas são produzidas e extensamente compartilhadas. A internet, ao permitir uma comunicação todos-todos (para recuperar a classi�cação de Pierre Lévy), abriu as portas, também, para todo tipo de discurso: dos mais democráticos, aos mais violentos e irresponsáveis. Saber navegar nesta nova con�guração do ciberespaço é obrigação de todo comunicador, seja ele jornalista ou não. Em um momento em que as instituições midiáticas e suas práticas são Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA questionadas como um todo, colocando em xeque a credibilidade de vários pro�ssionais, é preciso re�etir e agir. Vamos Começar! Opinião pública e “bolhas informacionais” É inegável que a consolidação do ciberespaço rompeu com a hegemonia da informação praticada pelos grandes conglomerados de mídia do século XX. A possibilidade de falar e ser ouvido (e respondido, curtido, compartilhado etc.) acrescentou uma nova possibilidade comunicacional a quem tem acesso à internet, especialmente às redes sociais. No entanto, o que se esperava ser a nova ágora grega, tornou-se também uma arena de extremismo na qual narcisos se admiram em brilhantes “bolhas informacionais”. Juski et al. (2020, p. 65) explicam que as “bolhas informacionais” são um fenômeno relativamente recente, impulsionado pelas mudanças de programação das redes sociais. […] antigamente, as redes sociais — com destaque para o Facebook — mantinham os conteúdos produzidos pelos seus usuários acessíveis de forma integral a todas as pessoas. Com o aumento considerável do número de usuários na última década, as redes sociais passaram a utilizar critérios para distribuir os seus conteúdos, tais como a interação dos usuários com publicações e a relevância das mesmas de acordo com as preferências expressadas por cada internauta. Ou seja, por meio da programação algorítmica, os usuários recebem apenas os conteúdos com os quais mais engaja – os demais deixam de ser oferecidos. O resultado, então, é a criação de “bolhas” de pensamento, já que usuários passam a consumir e interagir somente com as informações que corroboram com suas próprias concepções de mundo. Dessa maneira, as informações e os conteúdos produzidos e disseminados pelos seus pares �cam compilados, ampliando uma “bolha” ou um aspecto de isolamento ideológico em que apenas informações que reforçam os seus posicionamentos são apresentadas. Em consequência, o indivíduo acredita que todos os demais internautas pensam como ele e, por isso, alimenta um ciclo de rea�rmação constante, de modo que nunca se abre ao diferente ou ao controverso (Juski et al., 2020, p. 66). Fechar-se ao controverso, em um contexto político, é cômodo e seguro, a�nal, deparar-se com o diferente, com a alteridade, é enxergar os limites da nossa própria identidade e convicção. Nesse sentido, não é inesperado que o conceito de pós-verdade e o fenômeno das fake news sejam sintomas diretos das “bolhas informacionais”. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Siga em Frente... A pós-verdade O conceito de pós-verdade apareceu pela primeira vez em 1992, no ensaio do escritor Steve Tesich. Porém, foi somente na segunda década do século XXI que o termo ganhou destaque, impulsionado, principalmente, pelas discussões desenvolvidas na mídia a respeito das campanhas presidenciais dos Estados Unidos e o plebiscito do Brexit, no Reino Unido. Ambos os acontecimentos foram marcados pela ampla disseminação de notícias falsas nas redes sociais. Em decorrência da popularidade do conceito de pós-verdade, o Dicionário Oxford o incorporou à sua lista em 2016, relacionando-o a “situações nas quais a subjetividade do indivíduo, incluindo a sua ideologia e as suas crenças, vale mais do que os fatos objetivos da realidade que o cerca” (Juski et al., 2020, p. 70) Ou seja, para reiterar suas próprias convicções, reforçando sua “bolha informacional”, indivíduos aceitam e consomem apenas informações que conformem a realidade à sua opinião, pouco interessando se são falsas ou manipuladas. Juski et al. (2020, p. 71) reforçam que ao analisar os efeitos da pós-verdade, podemos entender melhor a dinâmica da sociedade contemporânea, em especial, a partir da eclosão das mídias sociais e do amplo compartilhamento de informações de forma extensiva e em larga escala, mas sem as devidas veri�cações das fontes. O fenômeno das fake news Compreendendo a formação das “bolhas informacionais” e as aplicações da pós-verdade, �ca mais fácil vislumbrar porque as fake news ganham tanta projeção no cenário atual. Estima-se que mais da metade das pessoas que compartilham notícias na internet o façam sem sequer ler seu conteúdo. Informações demais, tempo de menos, torcida pela sua versão da história (quando alguma ideologia está em jogo) e, é claro, um pouco de preguiça: está aí o fértil campo minado da pós-verdade (Branco apud Juski et al., 2020, p. 67). Apesar de terem encontrado o período ideal para se propagarem, as fake news não são uma novidade. O uso político da mentira, da manipulação e do enviesamento de dados sempre foi comum nos jogos de poder. De acordo com Spadaccini de Teffé (apud Juski et al., 2020, p. 68), podemos entender as fake news como conteúdos inverídicos, distorcidos ou fora de contexto que são espalhados como se fossem notícias reais com a intenção deliberada de promover desinformação ao público. Ou seja, trata- se de uma ação realizada de modo proposital para interferir na percepção do público sobre a realidade. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA O próprio Facebook, ao ser confrontado com a responsabilidade de servir de palco para a disseminação de fake news estabeleceu um sentido para o termo: “artigos de notícias que parecem ser factuais mas que contêm distorções intencionais de fatos com o propósito de provocar paixões, atrair audiência ou enganar” (Weedon; Nuland; Stamos, 2017 apud Ribeiro; Ortellado, 2018, p. 72). Vale lembrar, ainda, que Juski et al. (2020) fazem questão de diferenciar fake news de desinformação. Segundo os autores, as fake news são produtos de uma intenção deliberada de enganar os receptores, distorcendo fatos e acontecimentos da realidade. Já a desinformação é uma informação equivocada que é veiculada, mas não necessariamente de forma proposital, embora os efeitos de ambas possam ser parecidos. Pradoa relevância, já atestada pelos estudos antropológicos, da prática comunicativa na evolução e nas relações humanas. Comunicação e o triunfo do Homo sapiens Devemos a Charles Darwin, e à sua teoria da evolução das espécies, a abertura de um novo horizonte acerca de nossa existência e história. Foi ele quem primeiro vislumbrou nossa descendência compartilhada com os primatas em 1857 – tese cientí�ca depois comprovada por meio dos estudos de fósseis nos campos antropológicos da paleontologia humana e da arqueologia. Ainda que tenhamos avançado muito no processo de contar nossa própria história, os dados fósseis encontrados são poucos e insu�cientes para esquadrinharmos completamente nossa trajetória ao longo dos milênios. É por isso que existem inúmeras teorias e debates cientí�cos que tentam explicar como e por que prosperamos na batalha evolutiva. Nosso primeiro ancestral, que dividimos com os primatas, surgiu há cerca de 70 milhões de anos. Marconi e Presotto (2022) explicam que dele, até o triunfo do Homo sapiens, passamos por diferentes fases estruturais – e daí surgem nomes como Australopithecus, Homo habilis, Homo erectus e Homo sapiens. Bloco 1 NOME PERÍODO CRÂNIO LOCAL Australopithecus 4,2 – 1,4 milhão 700 cm³ África Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Homo habilis 2 – 1,5 milhão 750 cm³ África Homo erectus 1,5 milhão – 300 mil 900 cm³ África, Ásia, Europa Homo sapiens neanderthalensis 200 – 40 mil 1300 – 1600 cm³ África, Ásia, Europa Homo sapiens sapiens 100 mil – hoje 1300 – 1600 cm³ Todos Bloco 2 CARACTERÍSTICA Postura semiereta, uso de ferramentas Fabricação de artefatos rudimentares Coluna ereta, controle do fogo, caçador habilidoso Fala, religiosidade, cerimoniais fúnebres Todas as atuais Tabela 1 | Principais características de cada um dos ancestrais dos seres humanos. Fonte: adaptada de Ascari apud Marconi e Presotto (2022). Dentre as muitas características que foram responsáveis pela evolução humana, estão o desenvolvimento da linguagem e a comunicação. Ambas foram fundamentais para pavimentar nossa “conquista do mundo” e nos distanciar dos outros animais em termos cognitivos. Foi também por meio da linguagem e da comunicação que construímos nossas relações sociais e cultura. A habilidade inerente ao ser humano, de constituir uma comunicação efetiva e original com seus pares, é a base precursora da construção de nossas relações sociais. A cultura é indiscutivelmente o próprio re�exo da comunicação humana. Como bem cita Benveniste (1989), língua e sociedade não podem ser concebidas separadamente, é pela comunicação que o homem constrói sua relação com o mundo (Batista, 2008, p. 1-2). Yuval Noah Harari (2015) também confere à linguagem e à comunicação papéis centrais na evolução do Homo sapiens. Compilando diversos estudos e pesquisas, Harari (2015) defende que os Homo sapiens triunfaram como espécie humana dominante porque passaram por uma “revolução cognitiva” até então inédita, desenvolvendo as capacidades mentais de abstrair e memorizar, por meio da linguagem. E o que havia de tão especial na nova linguagem dos Homo sapiens? Como vimos, a linguagem e a comunicação não são privilégios humanos – animais também se comunicam, como insetos, baleias e chimpanzés. No entanto, nenhuma dessas linguagens é tão versátil e voltada à transmissão de informações como a nossa. “Podemos, assim, consumir, armazenar e comunicar Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA uma quantidade extraordinária de informação sobre o mundo à nossa volta. […] nossa linguagem singular evoluiu como um meio de partilhar informações sobre o mundo.” (Gaglietti, 2024). Compartilhar informações é uma das maneiras mais e�cientes de suscitar a cooperação social – e cooperar foi fundamental para garantir nossa sobrevivência e reprodução. Para dominar a caça e a colheita, eles precisavam aprender a cooperar. E a maneira mais e�ciente de fazer isso é compartilhando informações sobre o papel de cada indivíduo. Ou seja, fofocar sobre os outros. Conforme nossos ancestrais foram deixando as �orestas para as áreas de savana, mais abertas, aumentou a necessidade de trabalharem juntos para conseguirem caçar com sucesso. Isso forjou um alto grau de trabalho em equipe e compartilhamento de informações pessoais (Gaglietti, 2024). Na medida em que nossa linguagem e comunicação foram se so�sticando, nos tornamos também capazes de criar �cções, lendas, mitos, deuses e religiões – práticas até então inéditas no mundo. Tudo isso reforça a teoria antropológica e sociológica de que o ser humano é, antes de tudo, um animal social. E é justamente a comunicação que consolida nossas relações e laços sociais, provando que não foi a competição, mas a cooperação que determinou nosso triunfo e sobrevivência enquanto espécie. Vamos Exercitar? Você já tinha parado para pensar no quanto a comunicação desempenhou (e desempenha) um papel-chave em nossa vida? Ela não é só uma área cientí�ca, ou uma atividade pro�ssional, mas uma prática intrínseca à nossa existência, atravessando nosso passado, presente e futuro. Por essa razão, a antropologia tem na comunicação um importante objeto de estudo, descrevendo e analisando a forma como ela nos une enquanto sociedade. Pensando assim, faz ainda mais sentido de�nir a comunicação como communicatio – aquela prática dos monges medievais de romper o isolamento e praticar uma atividade em comum. Foi a comunicação que nos consolidou como animais sociais, capazes de cooperar uns com os outros e de compartilhar informações, assegurando nosso triunfo e sobrevivência. Saiba mais Se você se interessou pela antropologia, o livro Antropologia – uma introdução, de Marina Marconi e Zelia Maria Presotto, é uma boa porta de entrada para essa área do conhecimento. Disponível em sua Biblioteca Virtual. O livro de Harari que trata da trajetória do Homo sapiens, Sapiens: uma breve história da humanidade, é um grande best seller mundial e vale cada página. Escrito de forma acessível e https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788597022681/epubcfi/6/2%5B%3Bvnd.vst.idref%3Dhtml0%5D!/4/2 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA envolvente, leva antropologia, história e �loso�a até aos leitores mais leigos. O sucesso de vendas foi tão grande que ele está disponível inclusive na versão em quadrinhos. Vale a leitura! HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015. Referências ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. BATISTA, J. C. Antropologia e comunicação: Interconexões. Anais do IX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul. Guarapuava, 2008. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2008/resumos/R10-0601-1.pdf. Acesso em: 24 abr. 2024. GAGLIETTI, M. J. O DNA da fofoca. Caos Filosó�co, 29 set. 2019. Disponível em: https://caos�loso�co.com/2019/09/29/sapiens-e-o-dna-da-fofoca-parte-1/. Acesso em: 10 jan. 2024. HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015. MARCONI, M; PRESOTTO, Z. M. Antropologia – uma introdução. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2022. SAMAIN, E. (org.). O Fotográ�co. São Paulo: Hucitec, 1998. Aula 3 As Relações Humanas e a Tecnologia As relações humanas e a tecnologia http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2008/resumos/R10-0601-1.pdf https://caosfilosofico.com/2019/09/29/sapiens-e-o-dna-da-fofoca-parte-1/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula trataremos de um assunto que não pode �car para amanhã: inteligência arti�cial. De que forma as inovações tecnológicas têm alterado nossas relações humanas? É possível negar ou fugir das novas tecnologias?(2022) reforça esse ponto de vista, demonstrando que a imprensa pode errar e apontar seu equívoco. As consequências da desinformação, no entanto, são sempre graves: “Erros na imprensa nem sempre são intencionais, são erros passíveis de correção. Fake news (FN) fazem parte de um fenômeno com objetivos próprios de enganar, capitalizar adeptos e atingir adversários”, é o que Jessica Pepp, Eliot Michaelson e Rachel Sterken (2019) corroboram. Quando a imprensa erra, mesmo que depois aponte seus erros em alguma seção (erramos) do jornal ou portal, acaba por fazer um grande desserviço informativo, pois funciona do mesmo jeito que as FN. Quem leu (ou ouviu, viu) nem sempre vai receber a errata, pois não será no mesmo segundo, no mesmo lugar, com o mesmo tamanho etc. (Prado, 2022, p. 36). Os desa�os do jornalismo do século XXI Dizer que o jornalismo contemporâneo enfrenta uma crise não é ser alarmista. É, na verdade, uma constatação dos �uxos comunicacionais e das fake news na atualidade. A Poynter Institute, em conjunto com o Google, constatou que, em 2022, 4 em cada 10 brasileiros receberam notícias falsas todos os dias (Guimarães; Rodrigues, 2022). Paralelamente, a descon�ança nos jornalistas e nos veículos jornalísticos cresce ano após ano (em 2023, segundo a Reuters, 48% dos brasileiros não con�am na imprensa). Esses dois movimentos (fake news e descon�ança no jornalismo) são complementares, a�nal, como salienta Prado (2022, p. 36), é difícil para o público leigo diferenciar quem está comprometido com a ética e quem não está: A princípio, a pecha de publicar FN [fake news] recaiu principalmente sobre os ombros dos jornalistas, tamanha era, e ainda é, a semelhança estética entre as FN e as notícias. Difícil diferenciar, especialmente por leigos, quem de fato persegue a ética jornalística e se preocupa com a veracidade das informações, com os fatos do cotidiano e, consequentemente, com a credibilidade, de quem sequer pensa nisso. De qualquer modo, parte-se do princípio de que um jornalista não inventa notícias ou ao menos não deveria fazer isso. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA É justamente por essa lacuna de entendimento acerca da pro�ssão dos jornalistas que muitos pesquisadores defendem que parte do antídoto para a crise contemporânea esteja no “letramento midiático”, ou media literacy, usando o termo em inglês. Ao incluir os estudos da mídia no currículo escolar, estaríamos fornecendo subsídios para que receptores compreendam os fundamentos do jornalismo, seu compromisso ético, seus limites e seus propósitos. Além disso, ao entender a construção da notícia, o senso crítico aumenta, bem como os questionamentos a respeito das fontes e ao tratamento dos dados, colaborando para o romper o ciclo das fake news. A solução, no entanto, não se esgota na media literacy, passando também pela responsabilização das plataformas e pela criação de leis especí�cas que condenem os produtores e disseminadores de fake news. Vamos Exercitar? Ser comunicador na sociedade da pós-verdade é desa�ador – mas não deve ser paralisante. A luta pela ética, pela informação responsável e pela defesa da cidadania não pode esmorecer. Pelo contrário, ela deve ser fortalecida e erguer-se como um farol para guiar os novos pro�ssionais que entram no mercado. Como estudante de comunicação, é muito importante que você construa um bom repertório teórico e esteja munido de ferramentas que favoreçam a re�exão, o senso crítico e a atuação comprometida. Nossa disciplina caminhou justamente por esses objetivos, oferecendo referenciais clássicos e análises atualizadas para que você pense as relações estabelecidas entre mídia e sociedade. Seu trabalho, no entanto, não termina por aqui. O exercício re�exivo e a vontade de aprender devem ser constantes. Bons estudos e sucesso! Saiba mais Para se aprofundar no debate das fake news, sugerimos a leitura do livro Fake News e Inteligência Arti�cial, de Magaly Prado (2022). Você pode acessá-lo em sua Biblioteca Virtual. Uma das formas de acompanhar a reação da imprensa diante das fake news é seguir o trabalho de agências de fact checking. No Brasil, vários portais e veículos de imprensa contam com agências, como UOL Confere, Fato ou Fake, Agência Lupa etc. Vale o clique! Referências https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788562938917/pageid/4 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788562938917/pageid/4 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA GUIMARÃES, P.; RODRIGUES, C. 4 em cada 10 brasileiros a�rmam receber fake news diariamente. In: CNN Brasil, Rio de Janeiro, 2022. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/4-em- cada-10-brasileiros-a�rmam-receber-fake-news-diariamente/. Acesso em 29 fev. 2024. JUSKI, J. do R. et al. Crítica da Mídia. Porto Alegre: Grupo A, 2020. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786556900452/. Acesso em: 22 jul. 2024. MEIO & MENSAGEM. Cresce o percentual de brasileiros que não con�a em notícias. Meio & Mensagem, 16 jun. 2023. Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/midia/cresce-o- percentual-de-brasileiros-que-nao-con�a-em-noticias. Acesso em: 29 fev. 2024. PRADO, M. Fake News e Inteligência Arti�cial: O poder dos algoritmos na guerra da desinformação. São Paulo: Edições 70, 2022. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788562938917/. Acesso em: 22 jul. 2024. RIBEIRO, M. M.; ORTELLADO, P. O que são e como lidar com as notícias falsas. Sur: Revista Internacional de Direitos Humanos, São Paulo, v. 15, n. 27, p. 71-83, 2018. Disponível em: https://sur.conectas.org/wp-content/uploads/2018/07/sur-27-portugues-marcio-moretto-ribeiro- pablo-ortellado.pdf. Acesso em: 22 jul. 2024. Aula 5 Cenários, processos e relações sociais da comunicação na vida contemporânea Cenários, processos e relações sociais da comunicação na vida contemporânea Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/4-em-cada-10-brasileiros-afirmam-receber-fake-news-diariamente/ https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/4-em-cada-10-brasileiros-afirmam-receber-fake-news-diariamente/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786556900452/ https://www.meioemensagem.com.br/midia/cresce-o-percentual-de-brasileiros-que-nao-confia-em-noticias https://www.meioemensagem.com.br/midia/cresce-o-percentual-de-brasileiros-que-nao-confia-em-noticias https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788562938917/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Nesta videoaula faremos o encerramento da unidade, destacando a competência desenvolvida e os resultados de aprendizagem esperados. Destacaremos os principais conceitos e re�exões que precisam ser compreendidos para aprimorar ainda mais seu senso crítico e capacidade de atuação no mercado da comunicação do século XXI. Vamos lá? Ponto de Chegada Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é analisar os cenários, processos e relações sociais da sociedade contemporânea sob o prisma de diferentes vertentes teóricas da comunicação, você precisa, primeiramente, observar o tempo presente. Vários são os estudiosos que contribuíram para as re�exões no campo da contemporaneidade, propondo ou refutando conceitos como o de pós-modernidade. Esquadrinhando as características do mundo a partir da segunda metade do século XX, Habermas, Giddens, Bauman e outros produziram análises enriquecedoras em vários pontos, propondo caminhos e re�exões fundamentais para compreendermos o que estamos fazendo e que tipo de relações estamos construindo. Pensar o tempo presente passa, também, pela necessidade de considerar o papel-central que as tecnologias de informaçãoe comunicação têm ocupado em nossa sociedade. Com benefícios e malefícios, as TICs precisam ser observadas como ferramentas de transformações sociais, históricas, econômicas e educacionais, abrindo caminhos para alguns, e fechando caminhos para outros, principalmente quando tratamos de desigualdades de oportunidades. Re�etir a respeito da contemporaneidade passa, ainda, pelas contribuições de Pierre Lévy, autor de conceitos como ciberespaço e cibercultura – ambos fundamentais para o funcionamento dos �uxos comunicacionais atuais. Assim como as TICs, tais práticas não são isentas de �utuações sociais, desigualdade de acessos e multiplicidade de usos. O ciberespaço pode ser usado tanto para promover quanto para rechaçar a democracia. E, assim, chegamos ao último debate importante que precisa ser feito para compreendermos a sociedade contemporânea: a ascensão das “bolhas informacionais” e as consequentes instalação do conceito de pós-verdade e disseminação de fake news. Tais fenômenos não são próprios da atualidade, mas encontram no tempo presente terreno fértil para se desenvolver e se enraizar com uma profundidade nunca experimentada. É este, portanto, o cenário que você, futuro comunicador, encontrará pela frente. Por isso, �ca clara a necessidade de munir-se de repertório teórico, senso crítico e visão aguçada para analisar com ética e bom-senso a realidade da qual todos fazemos parte. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA É Hora de Praticar! Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Aline é uma garota de 16 anos, aluna do ensino médio, e como todo jovem está sempre conectada nas redes sociais, acompanhando celebridades e seus artistas favoritos. Ela é apaixonada por uma boy band que está fazendo um grande sucesso. Dos cinco integrantes, Aline tem um favorito, que é também o favorito de muitas meninas da sua idade. Recentemente, o garoto preferido de Aline fez uma postagem nas redes sociais ridicularizando uma fã. O comentário repercutiu muito mal e, em questão de horas, a banda perdeu milhares de seguidores e contratos publicitários, uma crise que afetou a imagem de toda a banda. Diante da repercussão e do movimento de cancelamento, a equipe decidiu afastá-lo do grupo. Ele tentou se explicar, desculpar-se com os fãs, mas não houve jeito. O impacto econômico foi mais forte. Agora, Aline está confusa. De fato, o comentário emitido pelo garoto foi maldoso. Ao diminuir uma fã, fãs no mundo todo se sentiram atingidos. Mas houve um pedido de desculpas. Além disso, Aline pensou que todos podemos errar. Aline está sofrendo pressão dos amigos para “cancelar” seu cantor favorito e, agora, ela mesma tem medo de ser cancelada por eles. Vamos ajudá-la a pensar nessa questão? A partir do referencial apresentado e debatido nesta unidade, vamos pensar em como os autores e perspectivas abordadas nos ajudam a pensar a cultura do cancelamento? Que características da pós-modernidade mais consigo localizar em minha rotina? Em que pontos elas me afetam? Como atuo e que usos faço do ciberespaço? Eu faço parte de uma “bolha informacional”? Como posso rompê-la? Os autores analisados nesta unidade e os conceitos desenvolvidos por eles nos ajudam a compreender aspectos desta situação vivida por Aline. O impacto da sociedade da informação, a fragilidade das relações e a dinâmica do ciberespaço nos permitem analisar a situação. A tecnologia digital e seus meios criam um tipo de mobilização social que age de maneira privada e que não se organiza socialmente no espaço público. Quer dizer, nas relações sem mediação, talvez não disséssemos tudo o que pensamos como quando estamos protegidos pelo suporte. Isso também tem permitido espaço para uma confusão entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA A cultura do cancelamento não visa à reconstrução de relações abaladas ou desgastadas, mas sim a uma paralisação do que poderia conduzir a rearticulações importantes para a sociedade na medida em que impossibilita o debate. Enquanto o debate pode levar a melhoria no sistema social aberto, ao fortalecimento de boas condutas, educação e formas de comportamento mais inclusivos, sua interdição pode gerar culturas mais severas a partir da ideia de que existe um poder sem barreiras, levando à segregação e à censura. O que Aline está vivendo é próprio deste momento em que o avanço das tecnologias e as transformações que elas promovem é mais rápido que a elaboração social do impacto desse processo. Isso é próprio da modernidade líquida de�nida por Bauman, e desse espaço que é um espaço virtual em razão dos meios, mas também real – o ciberespaço. O cancelamento não tira a pessoa de circulação ou interdita sua existência física, mas impacta a realidade de indivíduos e grupos. Embora uma seja uma ação com um caráter coletivo, seu resultado é individual. Neste exemplo, a modernidade líquida, a sociedade da informação e o ciberespaço se conectam. Conhecer e compreender os conceitos propostos por Pierre Lévy é uma das formas de pensar a sociedade e as relações contemporâneas. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Figura 1 | Pierre Lévy ADELMAN, M. Visões da pós-modernidade: discursos e perspectivas teóricas. Sociologias, v. 21, jun. 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/soc/a/QwYJCDbXhf6gHFcQqvKtbTD/#. Acesso em: 29 fev. 2024. BAUMAN, Z. A ética é possível num mundo de consumidores? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2011. BAUMAN, Z. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. FORBES, J.; REALE JÚNIOR, M.; FERRAZ JÚNIOR, T. S. A invenção do futuro: um debate sobre a pós-modernidade e a hipermodernidade. Barueri: Manole, 2005. E-book. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520443453/. Acesso em: 22 jul. 2024. https://www.scielo.br/j/soc/a/QwYJCDbXhf6gHFcQqvKtbTD/ https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520443453/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA LEMOS, A. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002. LÉVY, P. O que é o virtual? São Paulo: 34,1996. LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: 34,1993. LÉVY, P. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo. 34, 1999Como esse cenário afeta sua vida e sua carreira pro�ssional? Fique atento, porque nós vamos responder todas essas perguntas. Ponto de Partida O que você pensa quando ouve falar sobre inteligência arti�cial? Você é daquelas pessoas que logo a associa a tecnologias e equipamentos, pensando em como podem facilitar nossa rotina? Ou, ao contrário: você pensa imediatamente em um futuro distópico, no qual máquinas e robôs roubam nossas vidas e trabalho? Evidentemente que entre uma posição e outra há inúmeras formas de se colocar, sem aderir completamente um lado ou outro da moeda. O importante mesmo é re�etir: que rumos a tecnologia já nos reservou? Quais projeções o amanhã tem para nós? E mais: de que forma as inteligências arti�ciais modi�cam irremediavelmente nossas relações humanas? Embarque nessa discussão atual conosco, pois garantimos que será não só muito interessante, mas também um divisor de águas na sua relação com a tecnologia. Vamos lá? Vamos Começar! É praticamente impossível falar de inovação e tecnologia sem citar o nome da professora Martha Gabriel. Atuando há anos nesse campo, ela é uma referência fundamental quando o assunto é discutir os impactos que os avanços tecnológicos propiciam em nossa vida e em nossa relação enquanto sociedade. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Um de seus grandes trunfos é conseguir traduzir termos complexos de maneira simples, para que todos possam acessar e compreender o que tem se produzido em diferentes áreas da tecnologia, como informática, robótica, biogenética etc. Para tanto, Gabriel (2021) primeiro constrói o cenário da relação humanidade-tecnologia para, depois, discutir o conceito e os efeitos da inteligência arti�cial. Humanidade e tecnologia: uma relação milenar Desde que começamos a evoluir como espécie, lançamos mão de diversas tecnologias. Da pedra lascada à inteligência arti�cial, percorremos um longuíssimo caminho, é verdade. Mas, independentemente do recurso utilizado, precisamos compreender a interrelação entre a criação de tecnologias e as transformações que elas propiciam. Ou sejam, elas não só facilitam a realização de determinadas atividades, como modi�cam nossa maneira de pensar, agir e se relacionar. Assim, as tecnologias não apenas nos instrumentalizam, mas transformam também o nosso pensamento – cada revolução tecnológica no mundo nos conduz a uma nova mentalidade que nos permite ser parte dela. A tecnologia tem, portanto, recriado a realidade, fundando e colapsando civilizações ao longo da história em função das transformações a que dá origem (Gabriel, 2021, p. 11). Partindo desse princípio, �ca evidente que o mais importante não é a tecnologia em si, mas a forma como ela transforma e afeta nossa realidade. Quanto mais rápido compreendermos e ajustarmos nossa mentalidade, mais bem-sucedidos seremos. Mas você pode se perguntar: então todos os recursos tecnológicos criados são neutros e só trazem benefícios? A resposta é não para as duas perguntas. O primeiro fato que precisamos assumir é que nenhuma tecnologia é neutra, porquê: 1) nenhum de nós é neutro, todos temos nossas certezas e convicções, as quais emprestamos a tudo que criamos; 2) as tecnologias fazem parte da nossa sociedade e economia, portanto, �cam sujeitas às suas lógicas, inclinações, preferências e exclusões. Com relação aos benefícios da tecnologia, há de se considerar que para além deles estão os prejuízos, como dois lados inseparáveis de uma moeda. Todo recurso tecnológico tem “efeitos colaterais”, que muitas vezes são invisibilizados pela euforia das novas possibilidades, ou pelo pânico de oferecerem um breve vislumbre de um futuro ainda desconhecido. Sejamos nós eufóricos ou apanicados, a questão é uma só: não podemos mais ignorar os debates e as inovações tecnológicas. Ainda mais porque o século XXI nos apresenta um novo patamar de junção homem-máquina. Se antes as transformações se davam fora do corpo humano para depois provocar revoluções biológicas físicas/mentais, agora os algoritmos computacionais, a robótica, a nanotecnologia, a inteligência arti�cial e a biotecnologia permitem Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA aplicações tecnológicas diretamente em nossos corpos, seja na forma de dispositivos usáveis (wearables) ou de implantes (insideables). Ou seja, independentemente de quem você é, ou da pro�ssão que deseja seguir, a tecnologia já lhe atravessa. Cabe a você tomar minimamente as rédeas do processo ou ser completamente engolido pelas transformações. Siga em Frente... Sobre revoluções cognitivas e civilizacionais Em nossa disciplina temos visto que a comunicação (e suas diferentes tecnologias) foram essenciais para nossa evolução e triunfo como espécie. A invenção e o desenvolvimento da linguagem do Homo sapiens foi fruto de uma primeira revolução cognitiva, alterando completamente nossa forma de nos relacionarmos com o mundo, com os outros e conosco mesmos. Acontece que essa foi só a primeira revolução cognitiva humana. Tivemos mais uma com a linguagem escrita e o livro, permitindo conexões cerebrais em dimensões inéditas, já que passamos a acessar ideias e informações de indivíduos de outras épocas e locais. E, mais recentemente, a internet inaugurou uma terceira revolução cognitiva, potencializando exponencialmente a conexão de cérebros humanos entre si, além de favorecer, também, a interação com cérebros computacionais. Assim, além da descentralização e democratização ainda maior da informação entre seres humanos, a internet acrescenta outro “ser”, o computacional, nas relações de troca. Em função das diferentes capacidades que o cérebro computacional tem, quando comparado com o humano, essas interações têm o potencial de alçar nossa cognição para um nível totalmente diferente, gerando verdadeiramente uma nova civilização (Gabriel, 2021, p. 27). Se você ainda está processando as mudanças dessa terceira revolução, saiba que, de acordo com Gabriel (2021), a quarta revolução cognitiva já começou – e ela compreende a introdução da inteligência arti�cial em nossa vida e rotina, transformando completamente as cognições individuais e coletivas. Você está preparado? Quem tem medo da inteligência arti�cial? “Desde o momento em que o ser humano começou a projetar computadores, a inteligência arti�cial (IA) tem sido a última fronteira: conseguir construir um ser arti�cial com as mesmas habilidades humanas.” (Gabriel, 2021, p. 189). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Um robô com capacidade de pensar e agir como humano sempre foi uma �gura recorrente em nosso imaginário. Livros, �lmes, séries – diversas formas de �cção já imaginaram como seria esse “ser arti�cial”, às vezes bom e, na maioria das vezes, mau. Esse repertório, somado às manchetes alarmistas que decretaram o �m de muitas pro�ssões com a abertura da inteligência arti�cial generativa (como o Chat GPT), arrastou muita gente para o medo e a descon�ança. Mas antes de sermos contra qualquer coisa, é essencial sabermos exatamente do que ela se trata, não é mesmo? Então, o primeiro passo é desmisti�car a IA. Você sabia que já convive com inteligências arti�ciais há vários anos? Pois é, bem antes do Chat GPT, plataformas digitais e aplicativos já lançavam mão da IA. Google, Waze, Apple, Microsoft e Amazon incorporaram a inteligência arti�cial em seus produtos, sem contar ferramentas de processamento de imagens, reconhecimento facial, assistentes pessoais computacionais – todos operados por IA. Ou seja, a inteligência arti�cial já é parte ativa da sua rotina há um bom tempo. A diferença é que essa tecnologia, antes restrita às grandes corporações, começa a ser democratizada. E, para extrair o melhor dessa ferramenta, é necessário conhecê-la mais profundamente. De acordo com a Gabriel (2021, p. 189), “o termo inteligência arti�cial é utilizado quando máquinas imitam as funções ‘cognitivas’ que os humanos associam com ‘mentes humanas’, como ‘aprendizagem’ e ‘solução de problemas’”. Dessa maneira, trata-se de imputar aos computadores característicascomo: Conhecimento. Criatividade. Raciocínio. Solução de problemas complexos. Percepção. Aprendizagem. Planejamento. Comunicação em linguagem natural. Habilidade de manipular e mover objetos. Outras habilidades consideradas de comportamento “inteligente”. Uma IA, para ser assim considerada, não precisa combinar todas essas características – tudo depende da sua �nalidade e da maneira como ela desenvolverá a inteligência. Agora que já conhecemos o conceito, a pergunta que não quer calar é: precisamos ter medo da inteligência arti�cial? Certamente essa é uma pergunta complexa que exige uma resposta complexa. Não se trata de responder um simples sim ou não, mas de analisar o cenário e, sobretudo, acompanhar as transformações que a IA inaugura – que são irreversíveis. Você pode até não gostar da inteligência arti�cial, mas isso não a impedirá de modi�car sua rotina, sua forma de trabalho e Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA até sua forma de pensar. Desta feita, é melhor ter consciência e certo controle desse processo, do que ser simplesmente sugado pelo vórtice da história, certo? Como já dissemos, toda tecnologia tem efeitos colaterais, e cabe a nós enxergar criticamente os malefícios e extrair o máximo dos benefícios. É preciso ter curiosidade, explorar, experimentar, ou seja, ter papel ativo, descobrindo usos e potencialidades. Assim, a tecnologia pode ampliar nossas capacidades cognitivas, aumentando nossa inteligência, mas, para que isso aconteça, precisamos primeiro incorporar essas tecnologias ampli�cadoras em nossas vidas. O simples fato de uma tecnologia existir no mundo não nos torna automaticamente mais rápidos ou inteligentes. É o seu uso que nos transforma. Por exemplo, o lápis e papel não me dão nenhum poder, a menos que eu saiba como usá-los; um carro não nos torna mais rápido, a menos que o usemos. Assim, o poder da tecnologia em nossas vidas individuais reside no seu uso (Gabriel, 2021, p. 227) Portanto, se a evolução das inteligências arti�ciais é cada vez mais rápido, é imprescindível que também sejamos rápidos na compreensão e apropriação das IAs. Gabriel (2021, p. 227) resume bem o desa�o que temos pela frente: conforme sistemas computacionais, robôs e assistentes computacionais pessoais passam a coexistir conosco, é a nossa habilidade de interagir com eles que determinará o nosso sucesso e evolução. “Nesse sentido, o pensador Kevin Kelly preconiza que, no futuro, você será pago de acordo com o quão bem você trabalha com robôs.” Vamos Exercitar? Em suas palestras (muitas delas disponíveis gratuitamente em plataformas digitais), a professora Martha Gabriel costuma questionar as pessoas da plateia se elas têm medo de serem substituídas por robôs no mercado de trabalho. Para as que sinalizam que sim, Gabriel lança uma provocação: se você não quer ser substituído por um robô, o caminho é simples – não seja um robô! A obviedade dessa colocação é simples e potente. Quando realmente nos interessamos pela tecnologia e pela inteligência arti�cial, desempenhando um papel ativo, descobrimos que não se trata de uma relação de competição entre humanos e máquinas, mas de colaboração. Se lá no início de nossa existência como espécie foi a cooperação que de�niu nosso sucesso, aqui também ela aparece. Não é quebrando ou negando máquinas que impediremos novas revoluções: é compreendo seu funcionamento e nos apropriando de suas ferramentas que daremos incríveis saltos cognitivos. Saiba mais Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Que tal conhecer mais o trabalho da professora Martha Gabriel? Além de ter per�s ativos nas redes sociais (como Instagram e TikTok), ela também tem palestras gravadas e disponibilizadas no acervo do TED Talks. Vale o clique! E, para se aprofundar ainda mais no debate que trata de inteligência arti�cial, leia a Parte 2 do livro Você, Eu e os Robôs, disponível em sua Biblioteca Virtual. Referências GABRIEL, M. Você, Eu e os Robôs – Como se Transformar no Pro�ssional Digital do Futuro. São Paulo: Grupo GEN, 2021. GABRIEL, M. Inteligência Arti�cial: Do Zero ao Metaverso. São Paulo: Grupo GEN, 2022. GUEVARA, A. J. de H. Da sociedade do conhecimento à sociedade da consciência. São Paulo: Saraiva, 2007. KAUFMAN, D. Desmisti�cando a inteligência arti�cial. São Paulo: Grupo Autêntica, 2022. MARTINO, L. M. S. Teoria das mídias digitais: linguagens, ambientes, redes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017. SANTAELLA, L. A inteligência arti�cial é inteligente? Lisboa: Grupo Almedina (Portugal), 2023. Aula 4 Comunicação Interpessoal como Ferramenta Comunicação interpessoal como ferramenta https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788597028140/epubcfi/6/56[%3Bvnd.vst.idref%3Dchapter15]!/4/2 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta aula, compreenderemos de que maneira a comunicação emerge como uma das habilidades mais importantes do século XXI. Em tempos de plataformas digitais e inteligências arti�ciais, saber se expressar adequadamente pode garantir sua contratação e ascensão no mercado de trabalho. Vamos juntos? Ponto de Partida Década de 1960, José Abelardo Barbosa de Medeiros, o Chacrinha, marcava a história da televisão brasileira com seus programas populares e de muito sucesso. Seja comandando o show de calouros ou apresentando as músicas mais tocadas da época, Chacrinha não só divertia, como distribuía “pérolas” com seus bordões. Um deles, além de dar uma preciosa dica a todos, tornou-se praticamente uma profecia do futuro que nos aguardava: “quem não se comunica se trumbica”. Pois é: mais de 60 anos depois, o ensinamento do Velho Guerreiro continua mais atual do que nunca. Em um mundo digital, extremamente midiático – e mediado – por plataformas de comunicação, saber se comunicar é uma habilidade primordial e cada vez mais valorizada no mercado de trabalho. E você? Tem se comunicado adequadamente? Vamos pensar sobre isso! Vamos Começar! Se você já participou de algum processo seletivo para uma vaga no mercado de trabalho, ou ao menos deu uma olhada nas descrições de ofertas de emprego, deve ter se deparado com expressões como comunicação interpessoal, competências (hard skills) e habilidades (soft skills). Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Tais termos são cada vez mais comuns nos departamentos de RH. Seja em grandes corporações ou empresas locais, os executivos estão interessados em pro�ssionais competentes, obviamente, mas que também sejam capazes de se expressar claramente e relacionar-se bem em equipe; além de demonstrarem habilidades subjetivas, como criatividade, empatia e motivação. Foi-se o tempo em que ter um grau superior era garantia de contratação na certa. O mercado de trabalho do século XXI Em 2022, a plataforma de recrutamento ZipRecruiter divulgou o relatório Perspectivas do mercado de trabalho para graduados. Com base nos dados das empresas que utilizam os seus serviços, a consultoria chegou a uma conclusão importantíssima: 93% das companhias consideram as habilidades sociais (ou soft skills) tão importantes quanto a formação técnica (ou hard skill). Ou seja, mesmo que você seja muito bom no que faz, se não tiver boa comunicação, planejamento e gestão de tempo, pode perder a vaga para outra pessoa. Essa é a ponta de um iceberg que tem se formado há muito tempo. Desde a aceleração tecnológica do século XX, o mercado de trabalho está se transformando – e, com a evolução das inteligências arti�ciais, a tendência é que estas possam desempenhar cada vez mais competências técnicas. Por outro lado, as IAs ainda têm muito chão pela frente quando o objetivo é performar habilidades sociais. Criatividade, empatia, motivação…Por enquanto,esse campo ainda é privilégio humano. Assim, não é de se espantar que as empresas enxerguem nas soft skills uma relevância equivalente às hard skills. E, segundo os especialistas em RH do século XXI, a comunicação interpessoal é uma das principais (senão a principal) soft skill esperada em um pro�ssional, independentemente do seu campo de atuação. Siga em Frente... A comunicação interpessoal A comunicação interpessoal nada mais é do que comunicação. Trata-se do processo de troca de informações, ideias e sentimentos entre duas ou mais pessoas por meio de métodos verbais ou não verbais. Muitas vezes, ela inclui troca de informações face a face na forma de voz, nas expressões faciais, linguagem corporal e gestos. O nível das habilidades de comunicação interpessoal de uma pessoa é medido pela e�cácia da transferência de suas mensagens. Nossas habilidades individuais de comunicação interpessoal estão em desenvolvimento desde que começamos a nos comunicar quando crianças, e variam de pessoa para pessoa. No entanto, podemos tomar medidas para melhorar nossa capacidade de comunicação – e quando conseguimos fazer isso, encontramos enormes benefícios. A capacidade de se comunicar com Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA seus colegas, membros da equipe e clientes de maneira e�caz é um comportamento necessário para construir relacionamentos de trabalho fortes e incentivar a troca de ideias. A comunicação interpessoal e�caz não é apenas sobre palavras. Seus gestos, tom de voz, expressão facial, linguagem corporal e diferenças culturais também fazem parte do seu estilo de comunicação interpessoal, que engloba uma enorme variedade de comportamentos. Por exemplo: em uma entrevista de emprego, as perguntas não são meramente transacionais e, muitas vezes, os entrevistadores visam ali estabelecer um elo com o entrevistado para além de questões técnico-pro�ssionais já pensando no relacionamento de trabalho – a�nal, vínculos de con�ança e respeito são essenciais para um trabalho produtivo. O bom uso da retórica argumentativa é outro exemplo de comunicação interpessoal. O argumento equilibra a manutenção do relacionamento por meio da negociação de objetivos e pontos de vista contrastantes. Chats on-line e mensagens de texto via aplicativos como WhatsApp são também exemplos de comunicação interpessoal, embora não presenciais, assim como reuniões via plataformas digitais como Teams, Zoom e Skype. A comunicação interpessoal é crucial para todos os aspectos da vida, mas é especialmente importante nos espaços pro�ssionais. Empregadores de várias áreas a�rmam que a comunicação interpessoal é necessária para alcançar uma boa colocação e ascender na carreira. No dia a dia pro�ssional, a comunicação interpessoal ocorre de várias formas: em reuniões de equipe, ligações com clientes, memorandos e e-mails, durante avaliações de desempenho, feedback aos funcionários e até casualmente durante um almoço ou bate-papo. “Quem não se comunica se trumbica” Como vimos, embora aprendamos a nos comunicar desde bebês, essa habilidade pode ser treinada e aperfeiçoada. De acordo com Marcos Gross (2013, p. 17), um bom comunicador é, acima de tudo, um observador. Alguém atento que consegue perceber seu interlocutor, procurando pontos em comum e ajustando sua mensagem para que seja recebida da melhor forma. “Especialistas como Barnard a�rmam que a comunicação e�caz depende da cooperação e boa vontade no relacionamento interpessoal. Isso signi�ca que devemos buscar sempre os elementos convergentes com o interlocutor e não ampli�car aquilo no qual somos diferentes.” Gross (2017, p. 18) ainda sugere três requisitos que devem ser desenvolvidos por cada um de nós para que sejamos exímios comunicadores interpessoais: Ter conhecimentos de comunicação: é fundamental conhecer como funcionam as ciências da comunicação, estudar, ler sobre o assunto, observar a troca de mensagens no cotidiano, nos meios de comunicação, propaganda e jornalismo, e analisar a forma como as pessoas compartilham informações no trabalho e nos momentos informais. Ter habilidades de comunicação: é importante saber como se comunicar e compreender de que maneira transmitir com e�ciência a mensagem às pessoas – fazer, por meio da Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA linguagem, com que os outros entendam com clareza o que se quer falar. Ter atitudes comunicacionais: é essencial querer se comunicar com boa vontade, entusiasmo, determinação e �rme intenção de intercambiar informações, escutando e “passando o recado” aos destinatários. Vamos Exercitar? Estudar a comunicação, como você está fazendo agora, já é um belo início para aperfeiçoar e consolidar suas habilidades comunicativas. Mas, como Gross (2017) adianta, ainda não é o su�ciente. É preciso ter sensibilidade e empatia para reconhecer seus interlocutores, além de querer se comunicar com boa vontade. É preciso, também, construir repertório, consumir comunicação, munir-se de ferramentas, dados e informações que possam turbinar sua retórica e seus argumentos. Mesmo que pareça um trabalho árduo, lapidar sua capacidade de comunicação nunca será um esforço perdido – pelo contrário, é uma atividade altamente compensatória. Do mercado de trabalho aos relacionamentos, expressar-se com segurança, clareza e efetividade lhe renderá apenas bons frutos. Mãos à obra! Saiba mais O livro de Marcos Gross, Dicas práticas de comunicação, é um manual simples e objetivo quando o assunto é comunicação para o mercado de trabalho. Você pode acessá-lo na íntegra em sua Biblioteca Virtual. Que tal se inspirar em exemplos de grandes pro�ssionais? O Portal da Forbes no Brasil, além de trazer as últimas tendências na economia e no mercado de trabalho, reúne diferentes per�s inspiradores, dedicados às mais diversas áreas. Vale o clique! Referências CRISPINO, L. Qual a diferença entre hard skills e soft skills? Exame, 20 set. 2017. Disponível em: https://exame.com/carreira/qual-e-a-diferenca-entre-hard-skills-e-soft-skills/. Acesso em: 16 jan. 2024. FLATLEY, M.; RENTZ, K.; LENTZ, P. Comunicação empresarial. Porto Alegre: Grupo A, 2015. GROSS, M. Dicas práticas de comunicação. São Paulo: Trevisan, 2013. PENTEADO, J. R W. A Técnica da Comunicação Humana. São Paulo: Cengage Learning Brasil, 2012. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788599519479/pageid/1 https://forbes.com.br/ https://exame.com/carreira/qual-e-a-diferenca-entre-hard-skills-e-soft-skills/ Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA SANTANA, W. Veja as 10 soft skills mais procuradas por 93% das empresas. Época Negócios, 2022. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2022/07/veja-10-soft- skills-mais-procuradas-por-93-das-empresas.html. Acesso em: 16 jan. 2024. Aula 5 Comunicação e relações humanas Comunicação e Relações Humanas Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula vamos destacar as competências e habilidades desenvolvidas na unidade, além de pontuar conexões das discussões que desenvolvemos até este momento com o mercado de trabalho e sua futura atuação pro�ssional. Então, �que ligado porque só vamos tratar de assuntos importantes! Vamos lá? Ponto de Chegada Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é compreender o papel da comunicação na evolução e nas relações humanas, devemos, primeiramente, estabelecer o conceito de comunicação – já que se trata de um termo bastante polissêmico. Para tanto, é importante não negar os muitos sentidos possíveis da comunicação nem cravar julgamentos do tipo certo e errado. Trata-se, en�m, de demarcar de que tipo de comunicação estamos falando, colocando todos “na mesma página”. https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2022/07/veja-10-soft-skills-mais-procuradas-por-93-das-empresas.htmlhttps://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2022/07/veja-10-soft-skills-mais-procuradas-por-93-das-empresas.html Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Depois de debater o conceito de comunicação, precisamos compreender a forma como a prática comunicativa está intrinsecamente conectada à humanidade, determinando seu desenvolvimento e evolução. Neste ponto, a antropologia pode ser muito útil, já que seu objetivo é justamente descrever, no sentido mais amplo possível, o que signi�ca ser humano. Estudando a trajetória do Homo sapiens, é possível descobrir como a comunicação e a linguagem foram decisivas em nossa primeira revolução cognitiva, alçando a espécie humana a patamares inéditos em comparação a outros animais. E se a comunicação foi fundamental para pavimentar nosso desenvolvimento, ela continua exercendo papel central em nossa vida e em nossas relações, mesmo em um contexto de inovações tecnológicas e de sucessivas revoluções cognitivas. Por isso, também é essencial conhecer a atual era digital e re�etir a respeito dela, que está permeada por inteligências arti�ciais que ressigni�cam e transformam nossos saberes e fazeres. Neste cenário, a comunicação continua emergindo como uma das práticas humanas fundamentais, capaz de nos destacar no campo social e pro�ssional. É Hora de Praticar! Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Antônio é um jornalista experiente com mais de 20 anos de carreira. Do começo da sua pro�ssão até os dias atuais, viu diversas mudanças e reestruturações acontecerem na redação. Acompanhou a consolidação do uso do computador e da internet, a digitalização dos acervos, a mudança na maneira de apuração de dados e fatos. Por tudo isso, considerava-se um jornalista aberto às mudanças e inovações, até ser apresentado ao Chat GPT, inteligência arti�cial generativa. Em um curso promovido pela diretoria do jornal, Antônio e seus colegas conheceram a plataforma e foram incentivados a utilizá-la rotineiramente em seu trabalho. Inteirando-se dos potenciais da IA, Antônio �cou completamente assustado e, pela primeira vez, temeu por seu emprego. Depois de uma noite toda sem dormir, pensando em como driblar o Chat GPT, ele chegou à conclusão de que esse não era o caminho. Mas também não fazia ideia de como lidar com a sua insegurança diante das inovações propostas pela diretoria do jornal. Antônio, então, decide conversar com seus colegas a respeito do que está sentindo. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Imagine que você é um dos colegas jornalistas de Antônio. Que conselhos você lhe daria? Como incentivaria o experiente jornalista a passar por mais essa transformação em sua carreira? O que é comunicação? De que forma a comunicação está relacionada ao desenvolvimento da espécie humana? Como a comunicação interpessoal pode destacar um pro�ssional no mercado de trabalho? A comunicação é umas das características mais humanas que temos. Foi por meio dela que nos desenvolvemos e evoluímos continuadamente. E, por ser um traço fundamental da nossa espécie, é natural que acompanhe as revoluções cognitivas e tecnológicas que ocorrem de tempos em tempos. Para aconselhar Antônio de maneira efetiva, é fundamental que você também se interesse pela comunicação como atividade primordial – além de estar antenado com as inovações e discussões mais atuais que tratam de tecnologia. O primeiro passo, para tranquilizar seu amigo jornalista, é incentivá-lo a aprofundar seu conhecimento acerca da inteligência arti�cial. Muito provavelmente Antônio está assustado porque não sabe exatamente qual é o propósito da IA, por isso não consegue enxergá-la como uma ferramenta, mas como uma inimiga. Depois, você pode abrir a plataforma e explorá-la junto com Antônio, mostrando usos possíveis e ensinando-o a otimizar seu trabalho, seja revisando textos, solicitando insights criativos ou até sugestões de pauta. Nossa evolução como espécie foi e é marcada por diferentes revoluções cognitivas. Ou seja, é marcada por transformações irreversíveis na maneira como pensamos, agimos e nos relacionamos. Até este momento já passamos por quatro revoluções, todas elas, em grande medida, in�uenciadas pelas tecnologias e por práticas comunicativas. Que outras mudanças o futuro nos reserva? Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Figura 1 | Revoluções cognitivas GABRIEL, M. Você, Eu e os Robôs – Como se Transformar no Pro�ssional Digital do Futuro. São Paulo: Grupo GEN, 2021. GROSS, M. Dicas práticas de comunicação. São Paulo: Trevisan, 2013. KAUFMAN, D. Desmisti�cando a inteligência arti�cial. São Paulo: Grupo Autêntica, 2022. MARTINO, L. C. De qual comunicação estamos falando? In: HOHLFELDT, A.; MARTINO, L. C.; FRANÇA, V. V. (org.). Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2001. MARCONI, M.; PRESOTTO, Z. M. Antropologia – uma introdução. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2022. , Unidade 2 Novas plataformas de comunicação Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Aula 1 As Plataformas Digitais As plataformas digitais Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Nesta videoaula, vamos conhecer o conceito de plataforma digital, associando-o à nossa própria história e realidade – a�nal, somos consumidores vorazes das novas tecnologias de comunicação. Antes de dar o play, faça sua lista de plataformas preferidas (lembrando até daquelas que já foram excluídas) porque vamos fazer um passeio pela linha evolutiva dos últimos 20 anos. Você está preparado? Ponto de Partida Olá, estudante! Nesta aula, vamos abordar o que são as plataformas digitais, seu processo de evolução e suas principais características. Neste percurso de aprendizado, vamos entender também por que as plataformas digitais mudam completamente o cenário dos pro�ssionais de comunicação, redesenhando as competências necessárias para a atuação na área. Com isso, esperamos que você tenha uma compreensão mais ampla da importância deste novo cenário infocomunicacional da sociedade contemporânea, das novas formas de socialização por meio das redes digitais e da evolução histórica das plataformas. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Por meio do nosso estudo, você ainda poderá checar seus níveis de conhecimento de tais plataformas digitais que tanto se fala atualmente. Vamos nessa? Vamos Começar! Você já parou para pensar que o termo plataforma digital não sai do radar contemporâneo? O que, de fato, ele designa? Nós vamos explicar, mas antes vale pontuar que o conceito de plataforma digital é relativamente novo, assim como muitas coisas deste cenário virtual – que, atualmente, já está na esfera do metaverso. De acordo com Silva e Santos (2020), O’Reilly foi o primeiro a usar o termo plataforma digital ao se referir a um “intermediário digital”. Nessa primeira conceituação, podemos notar a mesma ideia de mediação característica dos meios de comunicação tradicionais, como rádio e TV. Quando aplicada ao contexto das plataformas digitais, observamos que elas também fazem uma mediação entre emissor e receptor da mensagem. No entanto, há um divisor que separa drasticamente a nova e a velha mídia: a interação. Essa é a palavra-chave quando falamos em plataformas digitais, porque até o advento da internet, as mídias analógicas e tradicionais (TV, rádio, jornal etc.) baseavam-se em um modelo de comunicação vertical e hierárquico, no qual apenas um dos lados emitia informação/mensagem, enquanto ao outro lado, o público, cabia apenas consumir passivamente tais produtos midiáticos. O cenário das plataformas digitaiselimina barreiras físicas e muda estruturalmente a relação sociedade-mídia, porque, nas plataformas digitais, existe interação – além da possibilidade mais democrática de criar e distribuir conteúdo em larga escala, o que antes só era possível por meio dos mass media, ou seja, da grande indústria de mídia tradicional. Para Albuquerque e Silva (2021, p. 67) as plataformas digitais são “bases tecnológicas capazes de promover a produção, o armazenamento, a recuperação, a disseminação de informações e interações, de maneira dialógica ou não dialógica, entre seus usuários”. Nota-se, portanto, que o dialogismo pode acontecer ou não nas plataformas digitais, enquanto nas mídias tradicionais sequer ocorria, prevalecendo uma comunicação do tipo monológica (ou seja, baseada em um monólogo). O dialogismo, portanto, não só é favorecido, como incentivado nos processos e �uxos comunicacionais via plataformas digitais, pois parte das suas características estão justamente no diálogo e na interação. De maneira mais prática, podemos dizer ainda que as plataformas digitais são canais de comunicação que se baseiam na tecnologia digital. Exemplos destas plataformas são as redes sociais, como Instagram e YouTube. Mas vale destacar que rede social e plataforma digital são conceitos diferentes. O Facebook é uma plataforma digital de relacionamento. O aplicativo do banco é uma plataforma digital para seus serviços bancários, assim como existem plataformas digitais para outras �nalidades, como entretenimento, educação e transporte. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Siga em Frente... Plataformas versus aplicativos Atualmente, boa parte das plataformas digitais que usamos encontra-se na palma da nossa mão, no celular – que, na verdade, é mais um minicomputador, por isso é chamado de smartphone. O smartphone é um dispositivo que precisa da internet, suporte imprescindível para seu funcionamento pleno. Os aplicativos, e suas diversas funções, são plataformas digitais, mas, atenção: nem toda plataforma digital é um app. Ou seja, aplicativo e plataforma digital não são termos sinônimos. Depois de tantas de�nições possíveis e corretas, podemos resumir o conceito de plataforma digital como um suporte de tecnologia, capaz de funcionar como um meio de comunicação altamente interativo, dialógico e que rompe barreiras, permitindo que qualquer pessoa possa produzir e distribuir conteúdo pelas redes de internet. Além disso, as plataformas digitais podem ser consideradas símbolos da convergência midiática, reunindo simultaneamente imagem, vídeo, texto e som. Evolução das plataformas digitais Até este ponto já sabemos o que são plataformas digitais e as suas principais características. Agora, vamos avançar na evolução destas plataformas ao longo do tempo. Atualmente, com o avanço da tecnologia da informação e da comunicação, as mudanças são muito rápidas. O que nasce como uma grande novidade, em pouco tempo pode se tornar obsoleto e ultrapassado. A genealogia das plataformas digitais remonta à criação da internet, que foi capaz de sair do estágio analógico para o digital com o sistema binário. Nos anos 1960, para resolver demandas da Guerra Fria, surgiu a ArpaNet – “mãe” da internet atual. Nessa época, os computadores eram do tamanho de uma sala e serviam basicamente para fazer cálculos. A partir de 1990, com a criação e popularização dos computadores domésticos, foi surgindo a web, que é a parte mais interativa da internet, na qual podemos navegar. Da criação da web para cá, praticamente tudo mudou – e continua mudando. O computador gigante virou um computador de mesa, depois um �no notebook, e hoje cabe no bolso, como um computador de mão, o smartphone. As plataformas digitais, no início da popularização da internet, envolviam o e-mail, os chats, os fóruns etc. É preciso destacar que a forma como usamos as plataformas digitais atualmente não é igual à usada há 10 ou 15 anos, e certamente não será a mesma das próximas gerações, tendo em vista sua alta capacidade de mudança e transformação constantes. Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Isso acontece porque todo este cenário digital depende de um “universo” conhecido como ciberespaço – conceito associado a um ambiente de tecnologias. Pierre Lévy foi um dos primeiros pesquisadores a observar o ciberespaço sob a ótica da cultura, propondo a existência da cibercultura, ou seja, de práticas culturais próprias do ciberespaço (Martino, 2015). Assim, cabe salientar que a evolução das plataformas digitais faz parte do estudo da história social da mídia. E entender esse processo envolve, também, a ideia de que, além dos fatores sociais e tecnológicos, os aspectos políticos e econômicos in�uenciam a con�guração desse cenário. Na cronologia recente da evolução das plataformas digitais, vimos mudanças de interfaces e entrada de novos atores. No campo das plataformas digitais de entretenimento e rede social, temos o exemplo emblemático da superação do Orkut (2004) pelo Facebook (2004); a chegada do Twitter (2006), do WhatsApp (2009) e, mais recentemente, do TikTok (2016). Na área musical, evoluímos da rádio web para plataformas de streaming. No campo da TV, saímos da transmissão das emissoras pelos seus sites para Net�ix e YouTube, por exemplo. Vale ressaltar que esse processo é dinâmico e está em constante mudança. Como não é possível enxergar o ponto �nal da linha evolutiva das plataformas digitais, resta observar com cuidado e atenção nossa realidade, adquirindo novas habilidades e se adaptando a cada novidade. Plataformas digitais e o mercado de comunicação Caro estudante, vamos prosseguir nosso estudo nesta aula avançando para o campo prático das plataformas digitais. Como já foi pontuado, a sociedade contemporânea está em constante transformação, e no campo da comunicação não é diferente. Neste cenário, exige-se do pro�ssional da área habilidades básicas para implementar os diversos produtos de mídia. Atualmente, todo e qualquer planejamento de comunicação deve considerar as plataformas digitais como parte da sua estratégia, seja na comunicação mercadológica, institucional, jornalística etc. O mercado atual é digital e on-line, dialogando com as mídias tradicionais que, embora em menor intensidade, continuam fazendo parte do cotidiano das pessoas. É preciso dominar as duas opções. As plataformas digitais podem ser interpretadas de diversas formas em razão do ponto de vista. No caso da comunicação, o foco está nos tipos de relacionamentos que essas redes podem proporcionar por meio do processo comunicativo. Quando pensamos na comunicação dessas plataformas, devemos considerar o modelo dialógico, a interação e o engajamento. Por exemplo, um jornal impresso antes da internet Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA mantinha uma interação com seus leitores basicamente por carta e telefonemas. Hoje, os pontos de contato entre meio e público estão pulverizados em site, WhatsApp, redes sociais, app... Tais plataformas permitem interação quase que irrestrita com o jornal, compartilhando, comentando, reagindo, engajando, repostando. En�m, a forma de relacionamento emissor-receptor mudou, e tais papéis têm se confundido cada vez mais. Outro fator importante quando levamos em consideração a aplicabilidade das plataformas digitais diz respeito às características de cada plataforma e de cada per�l de usuário. É sabido, por exemplo, que há diferenças de público do Instagram, Facebook e TikTok, embora todas estejam no rol das redes sociais. Cada plataforma tem suas próprias características e usuários, então é preciso pensar em uma comunicação dirigida para públicos especí�cos, porque a segmentação também é uma das características desta nova mídia, já que há diversas ferramentas, inclusive gratuitas, para conhecer com detalhes a audiência. Vamos Exercitar? Quando olhamos para a história, muitas foram as mudanças que causaram verdadeiras rupturas: a verticalização da nossa postura, a invenção da linguagem escrita, as inúmeras revoluções econômicas epolíticas. É neste rol de marcos da nossa trajetória que também estão a criação da internet e das plataformas digitais. Depois delas, nossa vida nunca mais foi a mesma. Talvez seja cedo para analisar o cenário mais amplo – a�nal, ainda estamos vivendo essa revolução digital, experimentando cada uma das suas novidades, dos seus desa�os, dos seus benefícios e malefícios. No entanto, um fato é certo: ninguém pode escolher deliberadamente �car à margem dessas mudanças. Ainda mais se você pretende ser um pro�ssional da comunicação, área completamente impactada pelas novas tecnologias. Por isso, conhecer, dominar e re�etir a respeito das plataformas digitais é sua obrigação. Explore as possibilidades, compreenda os recursos das interfaces, acompanhe as pesquisas periódicas que tratam de usos, comportamentos e tendências das plataformas. Tais dados são fundamentais para a construção de pro�ssionais estratégicos e alinhados aos objetivos do mercado. Saiba mais Para se aprofundar nos debates a respeito do ciberespaço e da cibercultura, você pode ler o capítulo Cibercultura, do livro Jornalismo digital e cibercultura. Acesse a obra em sua Biblioteca Virtual. Que tal aprimorar o conteúdo desta aula analisando as plataformas digitais do principal jornal impresso diário do seu estado? Veri�que o site, as redes sociais e como funciona sua estratégia https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9786581492755/pageid/40 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA para ser uma mídia tradicional ao mesmo tempo em que dialoga com as novas mídias. Tente responder à pergunta: como esse jornal articula os conceitos e ferramentas tecnológicas para manter a sua presença nas plataformas digitais? Referências ALBUQUERQUE, A.; SILVA, T. Plataformas digitais e departamentos de comunicação/relações públicas: uma revisão sistemática. Revista Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação, n. 42, 2021. Disponível em: http://www.risti.xyz/issues/risti42.pdf. Acesso em: 20 fev. 2022. FORECHI, M.; FLORES, N. M.; MELO, C. O. Jornalismo digital e cibercultura. Porto Alegre: Grupo A, 2020. DIZARD JUNIOR, W. A nova mídia. A comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: 34, 1999. MARTINO, L. M. S. Teoria das mídias digitais. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. SILVA, G. C.; SANTOS, M. F. L.; SANSEVERINO, G. G.; MESQUITA, L. Como as plataformas digitais provocaram uma ruptura no modelo de jornalismo consolidado no século XX. Revista Eptic, v. 22, n. 1, 2020. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/12124. Acesso em: 20 fev. 2022. Aula 2 Plataformas Digitais e a Cultura da Convergência Plataformas digitais e cultura da convergência Este conteúdo é um vídeo! Para assistir este conteúdo é necessário que você acesse o AVA pelo computador ou pelo aplicativo. Você pode baixar os vídeos direto no aplicativo para assistir mesmo sem conexão à internet. Dica para você http://www.risti.xyz/issues/risti42.pdf https://seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/12124 Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Aproveite o acesso para baixar os slides do vídeo, isso pode deixar sua aprendizagem ainda mais completa. Olá, estudante! Como já sabemos o que são as plataformas digitais, entraremos em seu universo de comunicação, tecnologia e… cultura! Pois é, mesmo que você ainda não tenha pensado nisso, fazemos parte de uma nova cultura, atravessada por múltiplas transformações, �uxos de conteúdo, experiências e interações inesperadas. Vamos re�etir juntos? Ponto de Partida Quando lemos a palavra conceito, temos a impressão de que se trata de algo difícil e abstrato. E não é à toa. A�nal, disciplinas teóricas são feitas de conceitos, deixando essa sensação de que eles só existem no mundo das ideias, sem muita conexão com a vida prática. Nós até concordamos que alguns conceitos, de fato, são abstratos demais. No entanto, esse, de�nitivamente, não é o caso da cultura da convergência. Por sermos agentes ativos da era digital, estamos mergulhados até o topo na dinâmica da convergência, praticando-a cotidianamente. Por isso, você pode até não conhecer o conceito teórico da cultura da convergência, mas quando lê-lo pela primeira vez, temos certeza de que saberá na hora do se trata – e mais, conseguirá relacioná-lo a inúmeros casos e fatos (inclusive na esfera pessoal). Vamos nessa? Vamos Começar! Nossa aula começa com uma história. Imagine que você acaba de se mudar para um dos bairros mais ricos e nobres da capital de São Paulo. Entre prédios de luxo e praças arborizadas, você nota um sobrado caindo aos pedaços e que ocupa quase uma quadra inteira. Como pode existir um terreno tão grande e abandonado em uma área tão cobiçada como aquela? E, para instigar ainda mais a sua curiosidade, você descobre que a casa, na verdade, não é abandonada. Uma senhora mora lá, mas costuma sair muito pouco e, quando sai, está sempre com o rosto coberto por uma espessa pomada branca. Nós apostamos que você �cou intrigado para descobrir qual é a história dessa senhora e da casa… Pois é! Essa curiosidade também foi decisiva para que, em 2022, um jornalista da Folha de S.Paulo (um dos jornais diários mais importantes do Brasil) começasse a pesquisar e conversar com outras pessoas do bairro, até decidir produzir um podcast sobre isso. Trata-se da série A Disciplina MÍDIA E SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA mulher da casa abandonada, produzida pelo jornalista Francisco Felitti em conjunto com outros colegas da Folha. O podcast, dividido em sete episódios, foi um verdadeiro fenômeno de audiência. Reproduzido milhões de vezes via plataformas de streaming, extrapolou qualquer expectativa positiva: virou trend nas redes sociais, coreogra�a no TikTok, thread no X (antigo Twitter) e fez centenas de pessoas irem �sicamente até à casa, em uma espécie de turismo “instagramável” – a�nal, todos queriam garantir uma fotogra�a ou vídeo em frente ao imóvel. Não demorou muito para que conteúdos secundários e análises críticas também aparecessem nas redes sociais e em artigos de opinião de grandes portais da internet. E, em um movimento inesperado, a televisão clássica passou a se interessar pelo caso. Programas policialescos e do tipo grande reportagem começaram a mandar suas equipes para cobrir os desdobramentos da “casa abandonada”. Em um só dia, Polícia Civil, emissoras de televisão, usuários de redes sociais e ONGs de proteção animal estavam todos reunidos no quintal da casa abandonada, em um verdadeiro espetáculo midiático – um desfecho que o jornalista Francisco Felitti jamais imaginou quando decidiu descobrir quem era a senhora da pomada branca. Agora, você deve estar se perguntando: por que estamos falando dessa história? Porque ela é a ilustração perfeita da cultura da convergência! E, acredite, não estamos exagerando. Em 2009 (ou seja, 13 anos antes do podcast A mulher da casa abandonada), Henry Jenkins, renomado pesquisador de mídia comparada no MIT (Massachusetts Institute of Technology), dava ao mundo as boas-vindas à cultura da convergência – tema de um dos seus livros mais conhecidos. Para tanto, ele usava a seguinte frase: Bem-vindo à cultura da convergência, onde as velhas e as novas mídias colidem, onde mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor de mídia e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis (Jenkins, 2009, p. 29). Tal trecho parece ter sido escrito para de�nir o fenômeno do podcast A mulher da casa abandonada, tamanha sua assertividade acerca do que aconteceu. Isso não comprova o dom da clarividência de Jenkins (2009), mas a precisão do seu conceito de cultura da convergência. Não é uma ideia abstrata – é a descrição exata do que estamos experimentando todos os dias. Por convergência, re�ro-me ao �uxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer