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vResumo: Psicologia do Trânsito 26/03/2025 Texto 1: Aspectos Históricos da Avaliação Psicológica do Trânsito no Brasil: ❖ Trânsito: Sistema formado por pessoas e automóveis, regulamentado pelo CTB. Onde o foco da psicologia do trânsito é o comportamento humano, pois há necessidade de explicar e prever o comportamento do motorista, o que criou a possibilidade de padronização de modelos de investigação para prever isso. Compreender o comportamento é essencial para elaborar medidas de prevenção e promoção na mobilidade urbana. ❖ No Brasil a ênfase da atuação do psicólogo se restringe à avaliação psicológica para obter e renovar a CNH, pois segundo a legislação 168/2004 do DENATRAN, as características para obter a carteira são: O ser deve ser penalmente imputável, saber ler e escrever, possuir documento de identidade e cadastro de pessoa física. ❖ As técnicas de avaliação psicológica utilizada no contexto do trânsito, tem como finalidade o auxílio da identificação mínima dos processos psicológicos para o uso seguro da habilidade de dirigir. E deve prever a probabilidade de um indivíduo se envolver ou não em um acidente. A resolução 267/2008 do DENATRAN descreve que devem ser aferidos através de avaliação psicológica os seguintes processos psíquicos: Tomada de informações, processamento de informações, tomada de decisões, comportamento, auto avaliação do comportamento e traços de personalidade. ❖ Breve histórico da Psicologia do trânsito no Brasil: ❖ Patrizi em 1900 foi o primeiro que chamou a atenção sobre a utilidade da psicologia para os conflitos do trânsito, sugerindo a necessidade de examinar psicologicamente os condutores, controlando principalmente a constância de sua atenção. ❖ A história da psicologia do trânsito no Brasil se iniciou com a consolidação das estradas de ferro e da chegada dos automóveis e caminhões (obra das pressões das elites e opções políticas), no início do século 20, onde vieram para substituir a circulação de bondes e trens. ❖ A aplicabilidade da psicologia teve seu início em São Paulo, com o engenheiro Roberto Mange, através de seu trabalho na seleção e orientação de funcionários da estrada de ferro sorocabana. ❖ A primeira legislação que referenciou o tema no Brasil, em 1910, foi o Decreto Lei n. 8234, que aprovou o serviço de transportes de passageiros ou mercadorias por automóveis, e estabeleceu medidas de segurança para os motorneiros (chamados na época). Um dos artigos dizia que o motorneiro deve ser senhor da velocidade de seu veículo e deve diminuir a marcha ou parar todas as vezes que o automóvel possa ser causa de acidentes. ❖ O uso em massa de automóveis e de sua produção contribuiu para o desenvolvimento econômico e o início de um problema de segurança e saúde pública devido aos acidentes. Nessa época, implementou medidas preventivas como uma seleção médica e psicotécnica, que tinha como intuito restringir pessoas predispostas a se envolver em acidentes (habilitação como privilégio, onde o indivíduo era um ser seguro de conduzir um veículo) e houve a discussão sobre a validação temporária da habilitação. ❖ A estruturação do modelo de habilitação era influenciada pelo internacional, onde era ligado ao fator humano, através da seleção pessoal, com intuito de identificar pessoas certas para ocupar certos lugares. ❖ A teoria da propensão (proneness) aos acidentes, que estava sendo discutida no internacional, influenciava as disciplinas de trânsito e justificavam o uso de testes. De acordo com a teoria, algumas pessoas provocam mais acidentes que outras , o que justificaria a elaboração de um processo de identificar que é apto para dirigir e que por esse processo a segurança aumentasse. MAIOR MARCO, pois havia demanda social e científica que justificava um processo de avaliação psicológica para condutores brasileiros e começou Ψ a contribuir com o trânsito. ❖ O primeiro código nacional de trânsito ( Decreto- lei 2994/1941) estabeleceu os exames para obtenção da habilitação para condutor de veículo, sendo de características fisiológicas, patológicas e psicológicas. Então, se institui a verificação periódica das condições mínimas das capacidades dos motoristas, mostrando o caráter preventivo do exame psicológico. ❖ Após oito meses de sua implementação, o código foi alterado pelo Decreto- Lei N 3651 em 1941 que criou o Contran, o órgão máximo normativo e consultivo que coordena atualmente o SNT, o responsável pela elaboração das regulamentações em forma de resolução que impactam no trabalho do Ψ. Uma modificação foi que o exame passa a ter um caráter corretivo, sendo exigido especificamente para motoristas que se envolveram em acidentes graves e foram considerados culpados, caso já tenham passado mais de dois anos desde seu último exame. Isso significa que, em vez de avaliar preventivamente todos os condutores, a medida se concentra naqueles que já demonstraram um comportamento de risco no trânsito. ❖ O ISOP ( Instituto de seleção e orientação vocacional) foi responsável por estudos para o exercício da prática avaliativa e investigativa e para a administração dos testes Ψ. O ISOP foi fundado por Emilio Mira em 1947, para a Ψ aplicada e pesquisa psicométrica. Emílio foi o primeiro pesquisador sobre avaliação Ψ no ISOP e o que trouxe uma discussão que permanece até hoje sobre os prejuízos causado aos motoristas considerados inaptos. ❖ Na década de 1950, a indústria automobilística foi impulsionada pelo governo de Juscelino Kubitschek por meio de rodovias construídas que interligam o país, assim, o automóvel foi incentivado como principal meio de transporte. Estava se construindo um espaço de reflexões sobre a psicologia do trânsito com temas sobre a diminuição de acidentes, elaboração dos primeiros critérios e normas para a população brasileira nos testes de habilitação e a seleção psicotécnica. ❖ No Rio de Janeiro, em 1951, houve a contratação de psicólogos pelo DETRAN, para as primeiras avaliações por meio de provas de personalidade, de aptidão e entrevistas, com o objetivo de estudar o comportamento dos condutores e causas humanas envolvidas na ocorrência de acidentes. ❖ O psicólogo foi regulamentado no Brasil pela lei número 4119 de 27 de agosto de e 1962, onde os Ψ iniciaram um movimento para criação do CRP e CFP. O SNT implementou o 2 código nacional de trânsito e ele criou o DETRANS como parte do sistema, onde cada estado Brasileiro deveria implementar o seu detran (criado em 21 de setembro de 1966 e tornando parte integrante do snt). O regulamento do DETRAN foi efetivado em 1958 pelo decreto- lei N 62127, onde determinou que cada estado deveria ter um detran e também os departamentos de trânsito deveriam dispor de um conjunto de serviços a fim de realizar as atribuições como o serviço médico e psicotécnico. Assim houve um reconhecimento da importância da Ψ na segurança do trânsito e ampliou a atuação do Ψ. ❖ Em 1968, o Ψ se inseriu no processo de habilitação nos detrans e realizou alguns procedimentos como a avaliação psicológica pericial de motoristas (psicotécnico), sendo obrigatório para concessão da CNH e renovação. ❖ Nos anos 1990, a ABRAPT continuava ativa e com forte influência na construção de políticas públicas do país e, em 1997, foi instituído o Código de Trânsito Brasileiro - CTB ainda em vigor. O CTB trouxe importantes avanços para a segurança viária, inclusive a inserção da educação como um tema central para todos os participantes do trânsito. ❖ No governo de Fernando Henrique Cardoso houve a mobilização dos Ψ, que acarretou uma nova Lei: Lei N 9602 de 1998. Onde considerava o comportamento do motorista essencial para a organização do trânsito, e o Detran destinou ao Contran a realização de campanhas permanentes pela segurança do trânsito, em âmbito nacional, as quais são desenvolvidas em torno de temas específicos relacionados aos fatores de risco e à produção dos acidentesisso é a pesquisa científica, que permite diagnosticar problemas e medir os impactos das intervenções. No entanto, segundo a pesquisa do Crepop, 82,5% dos psicólogos não utilizam indicadores de acompanhamento e avaliação, e 87,8% relatam não conseguir realizar pesquisas científicas na área de mobilidade urbana, transporte e trânsito. Esses dados indicam um grande desafio na sistematização do conhecimento e na efetividade das práticas psicológicas nesse campo. ❖ Esta Referência (livro:REFERÊNCIAS TÉCNICAS PARA ATUAÇÃO DE PSICÓLOGAS(OS) EM POLÍTICAS PÚBLICAS DE MOBILIDADE HUMANA E TRÂNSITO) oferece um panorama geral da área e das atividades dos psicólogos, auxiliando tanto iniciantes quanto profissionais experientes. Além de indicar documentos importantes, destaca pontos críticos a serem considerados para manter a qualidade e o rigor profissional. Também serve como base para a expansão da atuação em outras áreas, como a educação. ❖ Avaliação Psicológica no processo de habilitação de condutores: ❖ O Crepop evidenciou que as atividades mais desenvolvidas pelas psicólogas e pelos psicólogos do trânsito são voltadas ao exame de avaliação psicológica para CNH. ❖ a avaliação psicológica como processo, as habilidades (mínimas) avaliadas dos (futuros) motoristas, além dos métodos, técnicas e instrumentos psicológicos comumente utilizados para tal. ❖ A avaliação psicológica para motoristas é obrigatória na obtenção, adição ou mudança de categoria da CNH e, na renovação, apenas para condutores que exercem atividade remunerada. Com a discussão do Projeto de Lei nº 8.085/2014, há um movimento na Psicologia para ampliar essa exigência a todas as renovações da CNH. ❖ A avaliação psicológica é a primeira etapa do processo de habilitação, conforme a regulamentação do Contran nº 168/2004. Após o cadastro no RENACH, o candidato deve passar por essa avaliação, Exame de Aptidão Física e Mental, Curso Teórico-técnico, Exame Teórico-técnico, Curso de Prática de Direção Veicular e Exame de Prática [sic] de Direção Veicular. A avaliação psicológica no contexto de habilitação de motoristas, portanto, precisa ser realizada em todos os estados brasileiros seguindo as normativas do Contran e do CFP. A avaliação psicológica do motorista verifica habilidades mínimas, definidas com base na psicogênese do comportamento, que são essenciais no paradigma cognitivista e na teoria da informação. ❖ Psicogênese do comportamento humano no trânsito: ❖ Na avaliação psicológica para habilitação, os psicólogos analisam processos psicológicos individuais essenciais para o comportamento no trânsito. Consideram também o contexto social, físico e normativo que influencia e é influenciado pelo indivíduo. Para isso, utilizam métodos e técnicas que avaliam indicadores como atenção, memória e personalidade, essenciais para a tomada de informação e a condução segura. ❖ . Inter-relações entre indivíduo-trânsito-sociedade: O entendimento da inter-relação entre o indivíduo e o contexto no trânsito permite que o psicólogo justifique e contextualize sua avaliação psicológica no processo de habilitação. Isso ajuda a aprofundar a compreensão do papel do motorista, um fator importante nos acidentes de trânsito, e a reconhecer as limitações do trabalho pericial, já que a avaliação ocorre em condições controladas, diferentes das variáveis do trânsito real. ❖ A psicóloga e o psicólogo irão concluir sobre a aptidão ou inaptidão do candidato para dirigir, com base na avaliação dos processos e indicadores comportamentais. A avaliação psicológica é vista como um processo contínuo, que será detalhado nas seções seguintes. ❖ Avaliação Psicológica como processo: ❖ A avaliação psicológica, conforme definida pelo CFP (2007) e a Resolução CFP 07/2009, é uma função exclusiva do profissional de Psicologia. Ela envolve a coleta, estudo e interpretação de dados sobre fenômenos psicológicos, considerando a relação do indivíduo com a sociedade. Utilizando métodos, técnicas e instrumentos psicológicos, a avaliação busca não apenas analisar o indivíduo, mas também compreender e modificar os condicionantes históricos e sociais que afetam o psiquismo ao longo do processo. ❖ Encarar a avaliação psicológica como um processo significa que a testagem não deve ser confundida com a avaliação. Embora a testagem seja uma prática comum no processo de habilitação de motoristas, ela não deve reduzir a avaliação a um simples exame. Reduzir o processo a apenas testagem compromete a prática ética e conceitual, e os psicólogos que fazem isso estão violando as diretrizes estabelecidas pela resolução que regula essa prática. ❖ Existem pelo menos quatro passos essenciais para alcançar os resultados esperados da avaliação psicológica: 1. objetivos da avaliação e escolha de instrumentos e estratégias adequadas 2. coleta de informações 3. integração das informações e desenvolvimento das hipóteses iniciais 4. indicação das respostas e comunicação dos resultados (apto, inapto temporário e inapto). ❖ Os Dados advindos dos testes psicológicos devem ser reunidos às informações fornecidas por outros recursos avaliativos, com o objetivo de que sua compreensão final inclua as informações contextuais. Todos esses dados, devidamente analisados, interpretados e integrados, devem ser expressos junto com a conclusão do processo, por meio de um documento psicológico: o laudo, que é decorrente de avaliação psicológica. ❖ Estudos de Silva e Alchieri (2011) e Zaia, Oliveira e Nakano (2018) identificaram problemas na elaboração de laudos psicológicos, como a falta de informações essenciais, o uso de terminologias inadequadas, laudos pouco claros e a ausência de carimbo e identificação profissional. Esses problemas podem comprometer a credibilidade dos psicólogos e da área. Assim, é fundamental que os psicólogos zelam pela qualidade e organização dos documentos, conforme a Resolução CFP nº 001/2009, para manter a confiança pública e profissional. A seguir, são apresentadas as habilidades mínimas exigidas na avaliação psicológica. ❖ Habilidades (mínimas) avaliadas dos (futuros) motorista: ❖ Existem dois tipos de condutores, os que utilizam seus veículos para se movimentarem rumo às suas atividades profissionais, sociais, de lazer e afins e outros que, além disso, utilizam o veículo como atividade profissional. ❖ As habilidades mínimas aferidas para qualquer condutor são: (A) tomada de informação; (B) processamento de informação e tomada de decisão; (C) comportamento; e (D) traços de personalidade. ❖ É possível identificar nesta normatização a influência do paradigma cognitivista, a partir da teoria da informação. ❖ O CFP (2011b), a partir da exigência do Contran, define essas habilidades, conceituando tomada de informação: como o fenômeno pelo qual o ser humano processa uma quantidade limitada de informações das várias informações disponíveis . a atenção refere-se à capacidade e esforço exercido para focalizar e selecionar um estímulo para ser processado, levando o indivíduo a responder a determinados aspectos do ambiente, em lugar de fazê-lo a outros, permitindo que o indivíduo utilize seus recursos cognitivos para emitir respostas rápidas e adequadas mediante estímulos que julgue importantes. A avaliação psicológica no contexto do trânsito deve auferir, no mínimo, três tipos de atenção: difusa/vigilância, concentrada e dividida/alternada, conforme a literatura e manuais de instrumentos padronizados. ❖ Processamento de informação e Tomada de decisão: Afere-se como indicador desses processos a inteligência, definida como a capacidade de resolver problemas novos, relacionar ideias, induzir conceitos e compreender implicações, assim como a habilidade adquirida de determinada cultura por meio da experiência e aprendizagem. A memória é considerada outro indicador, conceituada como a capacidade de registrar, reter e evocar estímulos em um curto período de tempo (memóriaem curto prazo) e capacidade de recuperar uma quantidade de informação armazenada na forma de estruturas permanentes de conhecimento. A avaliação de orientação espacial, identificação signifi cativa, julgamento ou juízo crítico e tomada de decisão tem o objetivo de obter informações a respeito da capacidade do indivíduo se situar no tempo e espaço; de sua escala de valores para perceber e avaliar a realidade para, dessa forma, identificar os julgamentos que levam a atitudes seguras no trânsito. ❖ ComPorTamento: Conjunto de reações (tempo de reação, coordenação viso e áudio-motora) do indivíduo em face das interações propiciadas pelo meio altamente dinâmico. ❖ Traços de Personalidade: A justificativa para a aferição deste indicador é a necessidade de que haja equilíbrio entre os diversos aspectos de personalidade: controle emocional, ansiedade, impulsividade e agressividade. ❖ Métodos, técnicas e instrumentos psicológicos utilizados no contexto do trânsito: ❖ O profissional tem autonomia em sua escolha do instrumento. Ao fazer essa escolha é necessário verificar os instrumentos mais adequados, ou seja, aqueles que devem ser considerados apenas para os contextos e propósitos para os quais os estudos empíricos indicaram resultados favoráveis. A escolha dos testes e instrumentos na avaliação psicológica é responsabilidade da psicóloga e do psicólogo, que devem selecionar técnicas fundamentadas na literatura científica e nas normativas do CFP. A Resolução Contran nº 425/2012 destaca as técnicas permitidas, como entrevistas individuais, testes psicológicos, dinâmicas de grupo e intervenções verbais, as quais foram reiteradas pelo CFP para orientar a prática profissional. ❖ A entrevista psicológica é uma conversa direcionada a um propósito de avaliação, fornecendo ao avaliador informações sobre a conduta, comportamentos, valores e opiniões do candidato. Ela complementa os dados de outros instrumentos e deve abordar tópicos como identificação pessoal, motivo da avaliação, histórico escolar e profissional, histórico familiar, indicadores de saúde-doença e aspectos da conduta social. O CFP (2009) sugere um roteiro de entrevista com perguntas sobre esses temas, que deve ser seguido pelos psicólogos. ❖ A entrevista psicológica deve ser realizada no início do processo de avaliação, permitindo que o psicólogo identifique fatores que possam afetar a avaliação, podendo optar por adiar a testagem para não prejudicar o candidato. O psicólogo deve planejar a entrevista com base em indicadores objetivos e, durante o processo, avaliar as condições físicas e psíquicas do candidato. ❖ A entrevista inicial não deve ser dispensada para evitar falhas na avaliação. A entrevista devolutiva também é obrigatória, mas na prática, ela é realizada principalmente para candidatos inaptos, enquanto os candidatos aptos raramente retornam para feedback. O psicólogo deve informar desde o início do processo que o candidato tem o direito de esclarecer dúvidas sobre os resultados da avaliação psicológica. ❖ As dinâmicas de grupo e escutas verbais podem ser usadas para coletar informações sobre o candidato, suas condições de saúde e bem-estar, além de esclarecer o processo de avaliação psicológica. Elas ajudam a melhorar a comunicação, desmistificar a avaliação e identificar problemas para a tomada de decisões. Se a dinâmica de grupo for usada antes da entrevista psicológica, a análise do indivíduo pode ser aprofundada, permitindo uma melhor compreensão dos problemas observados. Isso pode tornar o processo avaliativo mais educativo e reflexivo. ❖ Teste psicológico pode ser conceituado como uma medida objetiva e padronizada de uma amostra do comportamento do sujeito, tendo a função fundamental de mensurar diferenças ou mesmo semelhanças entre indivíduos, ou entre as reações do mesmo indivíduo em diferentes momentos. O teste precisa ter evidências empíricas de validade e precisão e também deve ser normalizado. Para a interpretação dos resultados dos testes psico lógicos, recomenda-se a utilização das normas específicas e/ou gerais dos instrumentos, conforme orientações constantes nos respectivos manuais. O uso de testes psicológicos para prever comportamentos no trânsito, como acidentes ou infrações, apresenta limitações. Estudos, como os de Cristo e Alchieri (2015), mostraram que não há evidências consistentes de validade preditiva dos testes, ou seja, não é possível prever com precisão o comportamento do indivíduo no trânsito a partir dos resultados desses testes. Os resultados variam dependendo da medida psicológica utilizada, do critério de segurança analisado e da forma como esse critério é registrado. ❖ Nosso país tem uma dimensão continental e diversidade cultural, social e econômica por região e até mesmo por localidade. As avaliações, portanto, precisam ser analisadas a partir desses condicionantes, com rigor científico. ❖ O trabalho psicológico deve ser orientado pela ética e cidadania, considerando a relação das pessoas com o espaço público e a complexidade do fenômeno trânsito. O psicólogo tem a responsabilidade de refletir e promover mudanças nos paradigmas sobre o uso das cidades, visando a convivência segura entre carros e pessoas. Além disso, é essencial reconhecer as limitações da perícia psicológica no processo de habilitação. A seguir, será discutido o papel da Psicologia na educação para o trânsito. ❖ Educação para o trânsito: ❖ A pesquisa do Crepop (CFP, 2010) destaca que a educação para o trânsito é vista como uma área estratégica por psicólogos, com 21% das respostas indicando seu interesse. A atuação está frequentemente associada a ações em escolas, campanhas educativas, e palestras em empresas para sensibilizar sobre questões de trânsito. Para os profissionais de Psicologia envolvidos nessa área, é importante seguir os princípios e diretrizes do Contran. As Referências Técnicas buscam apresentar os marcos legais e refletir sobre os valores que fundamentam a legislação, além de explorar a atuação da Psicologia no Sistema Nacional de Trânsito (SNT). ❖ o atual CTB, instituído em 1997, foi o primeiro código a dedicar um capítulo à educação ❖ A formação de motoristas foi regulamentada em 1968 pela Resolução do Contran nº 390, após o Código de Trânsito de 1966 ter previsto a criação de escolas de aprendizagem para motoristas e a divulgação de noções de trânsito nas escolas primárias e médias, com campanhas anuais. Em 1993, o Projeto de Lei nº 3.710 foi publicado, e em 1997 a legislação foi atualizada, instituindo a educação para o trânsito como um direito de todos e um dever prioritário dos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito (SNT). ❖ A educação para o trânsito será promovida na pré-escola e nas escolas de 1º, 2º e 3º graus, por meio de planejamento e ações coordenadas entre os órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito e de Educação, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, nas respectivas áreas de atuação (artigo 76 do capítulo VI do CTB). ❖ Embora o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) tenha sido publicado após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, ele manteve a denominação dos níveis escolares da LDB de 1971. O CTB foi alterado por mais de trinta leis e regulamentado por diversas resoluções do Contran, órgão que coordena o Sistema Nacional de Trânsito (SNT). No entanto, a denominação equivocada dos níveis escolares não foi alterada, refletindo um descompasso entre as leis que regem a educação para o trânsito. As resoluções abordaram a educação para a formação de motoristas, capacitação de profissionais, agentes de trânsito, campanhas publicitárias e formação escolar de crianças e adolescentes. ❖ Para que as ações de governo na gestão do trânsito sejam efetivas, o CTB cuidou em destinar os recursos arrecadados com a cobrança das multas de trânsito para as áreas de educação de trânsito, sinalização, engenhariade tráfego, de campo, policiamento e fiscalização, considerando-as estratégicas para a segurança e qualidade de vida. A destinação da receita arrecadada com cobrança de multas está disciplinada pelo artigo 320 do CTB, pela Resolução nº 736/2018 do Contran e pela Portaria nº 149/2018 do Denatran. ❖ Como atuar em educação para o trânsito no Sistema Nacional de Trânsito: As Resoluções do Contran e as Portarias do Denatran orientam atividades de capacitação de profissionais em Centros de Formação de Condutores, no processo de habilitação de motoristas, no contexto escolar, em campanhas publicitárias e na formação de agentes de trânsito. Essas atividades são realizadas por instituições credenciadas nos Detrans, escolas e outros órgãos do Sistema Nacional de Trânsito (SNT), com apoio de profissionais autônomos em alguns casos. Psicólogos podem se beneficiar desses conhecimentos tanto como gestores quanto como consultores. ❖ Educação para o trânsito no processo de habilitação de motoristas: A Resolução Contran nº 168/2004 estabelece a estrutura curricular básica para o curso teórico no processo de formação de motoristas, reciclagem de motoristas infratores, transporte coletivo de passageiros e transporte escolar, sendo os operadores dessa atividade os Centros de Formação de Condutores credenciados pelos Detrans.Nos cursos de formação de motoristas, o conteúdo sobre relacionamento interpessoal é fundamental e deve ser ministrado por instrutores capacitados, com carga horária de 20% a 30% do curso, conforme a Resolução Contran nº 358/2010. Além disso, para atuar como instrutor de trânsito, é necessário realizar um curso de capacitação que inclua a disciplina de Noções de Psicologia da Educação, com carga horária de aproximadamente 10% do total do curso. Esses cursos devem cobrir aspectos das bases psicológicas da aprendizagem e os princípios de relacionamento interpessoal no trânsito. ❖ Educação para o trânsito no contexto escolar: A Portaria Denatran nº 147/2009 estabeleceu diretrizes para a educação para o trânsito no contexto escolar, criando orientações específicas para a pré-escola e o ensino fundamental. O documento articula as normativas sobre trânsito com os Parâmetros Curriculares Nacionais, a Base Nacional Comum Curricular e as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Além disso, oferece sugestões detalhadas de abordagens pedagógicas para trabalhar o tema trânsito de maneira transversal nas salas de aula. ❖ A Resolução Contran nº 265/2007 permite que estudantes do ensino médio façam a prova teórica do Detran sem precisar frequentar o Centro de Formação de Condutores, caso participem de atividades extracurriculares na escola, como cursos teórico-técnicos de formação de motoristas. O conteúdo programático desse curso é semelhante ao da Resolução nº 168/2004, mas com carga horária maior, abordando aspectos econômicos, políticos e sociais do trânsito, além das normas gerais de circulação e conduta. ❖ Educação para o trânsito promovida por órgãos, entidades, instituições e profissionais autônomos: A Resolução Contran nº 314/2009 define as campanhas educativas como ações que buscam informar, mobilizar, prevenir ou alertar a população sobre comportamentos seguros e saudáveis no trânsito. Ela disciplina órgãos e entidades do SNT, estabelecendo a necessidade de recursos financeiros e profissionais adequados para o planejamento, execução e avaliação das campanhas. A normativa também orienta sobre o planejamento das campanhas, com base nos princípios da Política Nacional de Trânsito (PNT) e sugere estratégias de pesquisa, incluindo pré e pós-testes, para garantir sua eficácia. ❖ Educação para o trânsito na capacitação de profissionais de centros de formação de condutores: A Resolução Contran nº 358/2010 estabelece os critérios para o credenciamento de centros de formação de condutores no Detran, que devem seguir um conteúdo programático específico para capacitação de profissionais, incluindo diretores, instrutores de trânsito e examinadores. O curso de capacitação abrange temas como Psicologia aplicada à segurança no trânsito (incluindo relações interpessoais, obediência às leis, controle emocional, atenção e cuidados para a segurança), Psicologia da aprendizagem e aspectos psicológicos no processo de avaliação. ❖ Educação para o Trânsito em Escolas Públicas de Trânsito: Às Escolas Públicas de Trânsito não formam condutores nem atuam diretamente na educação escolar. A Resolução Contran nº 515/2014 padroniza procedimentos para promover a Política Nacional de Trânsito (PNT), focando na cidadania, mobilidade e segurança. Essas escolas podem firmar parcerias com órgãos, instituições e organizações da sociedade para viabilizar cursos e garantir recursos financeiros para suas atividades. ❖ Educação para o trânsito na capacitação de agentes de trânsito: Em 2017, a Portaria nº 94 do Denatran instituiu o curso para agentes de trânsito, destinado a profissionais que atuam na fiscalização, operação e policiamento no trânsito. O curso, com no mínimo 200 horas-aula, pode ser oferecido por instituições privadas e inclui módulos como Ética e Cidadania (8h), Psicologia Aplicada (12h) e O Papel Educador do Agente (8h). ❖ Como são financiadas as ações em educação para o trânsito: Toda receita arrecadada com a cobrança das multas de trânsito deve ser destinada a atender exclusivamente as despesas públicas com sinalização, engenharia de tráfego e de campo, policiamento, fiscalização e educação de trânsito.A Resolução Contran nº 638/2016 define que os recursos destinados à educação de trânsito devem ser utilizados para a formação cidadã dos usuários das vias, promovendo um trânsito seguro e sustentável. As atividades incluem publicidade institucional, campanhas educativas, palestras, cursos, seminários, eventos, atividades escolares, materiais didáticos, capacitação de profissionais do SNT e formação de agentes multiplicadores. ❖ Esta seção aborda a educação para o trânsito, destacando a legislação, parâmetros éticos e técnicos, além das fontes de financiamento. Psicólogos do trânsito têm um campo amplo de atuação e desafios a enfrentar para consolidar sua importância nesse setor. A próxima seção tratará das possibilidades de atividades docentes. ❖ Atividades docentes: ❖ A docência é uma área relevante para psicólogos do trânsito, especialmente no ensino superior, pós-graduação e capacitações, contribuindo para a formação de profissionais na mobilidade humana. Segundo pesquisa do Crepop (CFP, 2010), apenas 13,7% dos respondentes atuavam como docentes, principalmente em palestras e seminários (36,8%), supervisão de estagiários (18,4%), especializações (15,8%), ensino médio (10,5%) e pós-graduação stricto sensu (7,9%). ❖ A docência na Psicologia do Trânsito é um campo a ser explorado, exigindo alta qualificação, interesse e vocação. Esta seção aborda a atuação na graduação e pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), além de discutir temas de ensino e pesquisa, bem como desafios na pesquisa acadêmica. ❖ A formação em Psicologia do Trânsito na graduação ainda é limitada, sendo oferecida por poucas instituições. É necessário impulsionar essa área, incluindo disciplinas que abordem mobilidade humana, trânsito e transporte. ❖ O contato inicial dos graduandos com a Psicologia do Trânsito ocorre em disciplinas introdutórias, mas é necessário fazer mais para cativá-los. O número de estagiários na área é baixo em comparação com outras especialidades, refletindo a falta de conhecimento e interesse. Para ampliar o envolvimento, é preciso criar oportunidades e estimular a curiosidade dos alunos, fortalecendo a formação e incentivando futuras atuações no campo da mobilidade humana e trânsito. ❖ A pós-graduação lato sensu em Psicologia do Trânsito expandiu-se a partir de 2008 devido à exigência do Contran para a especialização de psicólogos que realizam avaliações de motoristas. Issoampliou o mercado para docentes na área, mas, na falta de especialistas, profissionais de áreas afins assumiram esse papel. Atualmente, a oferta de especializações diminuiu e se ajustou à demanda de novos interessados, em vez de atender a uma necessidade imposta por regulamentação. ❖ Algumas especializações em Psicologia do Trânsito focam excessivamente na avaliação psicológica, especialmente na testagem, sem aprofundar discussões sobre teorias específicas, políticas e métodos de pesquisa, essenciais para a formação generalista do especialista. As especializações devem fornecer ferramentas para que os profissionais construam respostas e ampliem suas atuações além do mercado clínico, preparando-os para desafios mais amplos na área do trânsito. ❖ Quanto à pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), a quantidade de psicólogas e psicólogos interessados é muito baixa, infelizmente. De fato, é durante esta formação que as pesquisas atuais têm sido produzidas. ❖ Um dos desafios para a academia na Psicologia do Trânsito é articular debates sobre mobilidade humana com direitos humanos, políticas públicas, educação para o trânsito, transporte e segurança pública, além de integrar com a saúde mental. Outro desafio é melhorar a qualidade das pesquisas, especialmente nos delineamentos. Muitos psicólogos da área, especialmente na avaliação de motoristas, não se sentem qualificados para fazer pesquisa e tendem a focar mais na prática profissional do que na ciência que a sustenta. Aqueles interessados na docência devem associar seu trabalho a pesquisas e/ou extensão, que são essenciais para o desenvolvimento da ciência e motivam o aprendizado prático dos alunos. 2. Por que o trânsito é uma política pública? O trânsito é regulado pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e pelo Sistema Nacional de Trânsito (SNT), que inclui órgãos como: 3. Psicologia do Trânsito como política pública 4. Por que a mobilidade urbana ainda não é uma política pública completa? A mobilidade urbana envolve não apenas o trânsito, mas também transporte público, infraestrutura para pedestres e ciclistas, acessibilidade e planejamento urbano. Apesar de existir legislação sobre mobilidade, como a Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei nº 12.587/2012), sua implementação enfrenta desafios: ❖Eixo 2 – Contribuições éticas, políticas e técnicas do processo democrático e de garantia de direitos. Defesa da democracia e dos direitos: O Sistema Conselhos de Psicologia deve atuar para garantir um trânsito mais seguro (terrestre, marítimo e aéreo), assegurando o direito à vida e à cidadania. ❖Eixo 3 – Ampliação e qualificação do exercício profissional no Estado de garantia de direitosde trânsito. ❖ Tarefas do Ψ do trânsito:administrando, avaliando e analisando os resultados dos instrumentos; coordenando, desempenhando papel administrativo e fiscalizando as atividades realizadas pelas clínicas credenciadas, contando com o apoio do Conselho Federal de Psicologia e de suas Regionais; a capacitação de psicólogos peritos em trânsito, de diretores e instrutores de trânsito, a elaboração e a implantação de programas de reabilitação e educação de motoristas infratores; ações de prevenções de acidentes; perícias em exames para motoristas com o objetivo de sua readaptação ou reabilitação profissional e tratamento de fobias ao ato de dirigir. ❖ Em 2 de março de 2010, a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas declarou a década 2011 – 2020 a “Década de Ação para Segurança Viária". Essa declaração teve o objetivo de estabilizar e reduzir a mortalidade mundial decorrente de acidentes de trânsito até 2020 A declaração tende a incentivar a produção de conhecimentos e criação de políticas públicas em relação ao trânsito, bem como, a ampliação da atuação dos psicólogos desta área que têm como foco o comportamento, principal causador de acidentes de trânsito ❖ Avaliação Ψ no contexto do trânsito: ❖ A avaliação psicológica no contexto do trânsito no Brasil tem sido objeto de frequentes indagações e atualizações devido à necessidade de avaliar os candidatos, visando prever comportamentos adequados no trânsito e, principalmente, a necessidade da ampliação de estudos e elaboração de pesquisas dos instrumentos utilizados neste processo. Desde o início, o processo de avaliação psicológica para o trânsito foi denominado “Exame psicotécnico”, porém, com a publicação do novo Código Brasileiro de Trânsito de 1998, houve a mudança da nomenclatura Avaliação Psicológica Pericial. Posteriormente, foram realizadas duas importantes mudanças para os profissionais desta área: as avaliações passaram a ser realizadas somente por psicólogos que possuíssem o curso de capacitação específico para a função de perito examinador; e, atualmente, a exigência de título de especialista em Psicologia do Trânsito, regulamentado pelo CFP. ❖ O contran exigiu que as áreas a serem avaliadas fossem: Preceptora Reacional, motor e nível mental; equilíbrio psíquico, cognição práxica e equilíbrio psíquico. ❖ O Manual de Avaliação Psicológica de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação e condutores de veículos automotores foi instituído pela resolução 012/2000 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). A resolução do CFP 012/2000 determinou que o perfil psicológico do candidato a CNH e do condutor de veículos automotores deve considerar Nível Intelectual capaz de analisar, sintetizar e estabelecer julgamento diante de situações problemáticas (somente para a categoria C, D, E); Nível de atenção capaz de discriminar estímulos e situações adequados para a execução das atividades relacionadas à condução de veículos; Nível psicomotor capaz de satisfazer as condições práticas de coordenação entre as funções psicológicas e as áreas audio visuomotoras; Personalidade, respeitando as características de adequação exigidas por cada categoria; Nível psicofísico, considerando a possibilidade da adaptação dos veículos automotores para os deficientes físicos (CFP, 2000). ❖ Por meio da Resolução CFP 007/2003, a Avaliação Psicológica se definiu como um processo técnico-científico que consiste na coleta de dados, estudos e interpretação dos fenômenos psicológicos dos indivíduos, sendo que, para sua realização, pode o profissional psicólogo pode empregar de instrumentos como entrevistas, testes, observações, dinâmicas, entre outras. os testes psicológicos são procedimentos sistemáticos de observação e registro de amostras de comportamentos e respostas de indivíduos com o objetivo de descrever e/ou mensurar características e processos psicológicos. ❖ As técnicas de avaliação psicológica utilizadas pelos psicólogos do trânsito tem a finalidade de auxiliar na identificação de adequações psicológicas mínimas necessárias para o uso seguro da habilidade de dirigir, sendo esta remunerada ou não. Desse modo, os testes psicológicos têm sido utilizados como recurso para identificar a habilidade e também para prever a probabilidade de um indivíduo de se envolver em acidentes. destaca-se que a avaliação pericial no contexto do trânsito tem como princípio o fato de que conduzir um veículo não é um direito do cidadão, mas sim, uma concessão, que pode ser realizada desde que ele atenda a diversos critérios. Texto 2: REFERÊNCIAS TÉCNICAS PARA ATUAÇÃO DE PSICÓLOGAS(OS) EM POLÍTICAS PÚBLICAS DE MOBILIDADE HUMANA E TRÂNSITO - Psicologia, mobilidade humana e trânsito: relações e possibilidades: ❖ Mobilidade seria um atributo humano, a dinâmica operacional de trânsito, transporte, vias, sinalização, legislação (Controle e plataformas econômicas que tessitura as mobilidades). Mobilidade como contribuinte ou não na forma de interagir com os espaços, com os outros e conosco, pensar. Os movimentos dos pensamentos, a respiração, movimentos do corpo, escolhas de deslocamento, modos de se deslocar, tempo, espaço, velocidade – tudo compõe mobilidades. Se pensarmos nos movimentos migratórios humanos e suas implicações, o movimento cotidiano, desde o percurso mais curto ao mais longo, está aí a mobilidade. ❖ A intenção do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (Crepop) é construir um caderno de Referências técnicas para a prática de profissionais de psicologia em Políticas de mobilidade humana e trânsito, as práticas psicológicas na seara da mobilidade e do trânsito devem irmanar-se com o desejo de uma atuação que coloque o ser humano como prioridade, em vez de formas específicas e não raro excludentes de transporte, conforme se observa a partir do enfoque no automóvel que, por consequência, mantém a prática do psicólogo entrelaçada majoritariamente às práticas de avaliação psicológica para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e, em menor escala, por exemplo, às ações vinculadas ao campo da educação para o trânsito e ao planejamento urbano. ❖ O CREPOP mostra que as práticas aplicadas a psicologia do trânsito estão em sua maior parte na aplicação de testes para obter CNH, orientações em entrevistas devolutivas, atividades educacionais em órgãos de trânsito municipal e estadual e poucas intervenções em planejamento urbano e projetos vinculados á saúde e a maior parte do conhecimento sobre a legislação e documentos são sobre a CNH. ❖ Estrutura das políticas públicas na mobilidade: ❖ Participação social limitada: O único espaço de participação da sociedade civil na formulação dessas políticas era o Conselho das Cidades (Concidades). No entanto, ao longo dos anos, sua atuação foi enfraquecida pelo descaso do Governo Federal com o Ministério das Cidades. ❖ Órgãos técnicos e políticos: Outras instituições, como o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e os Conselhos Estaduais de Trânsito, fazem parte do Sistema Nacional de Trânsito (SNT). Apesar de serem políticas (porque envolvem decisões que afetam a sociedade), nem sempre são "públicas", pois podem estar mais voltadas para interesses técnicos e administrativos do governo do que para a participação social. ❖ Interesses públicos x privados: Há uma mistura entre interesses públicos (voltados para o bem comum) e privados (relacionados a contratos e terceirizações). Isso ocorre porque muitos serviços relacionados ao trânsito e transporte são terceirizados, criando um cenário onde empresas privadas influenciam as decisões do setor. Essas tensões que limitam os princípios de bem viver coloca os profissionais condicionados a uma dinâmica normativa, então se organizam pelo SNT o que reduz e dificulta as possibilidades e modos de ação. ❖ Conflitos e limitações: Essa situação gera tensões entre o que é público e o que é privado. Como resultado, podehaver dificuldades para garantir que os espaços e serviços públicos sejam preservados e organizados com base no interesse coletivo, em vez de favorecer interesses particulares. ❖ O Sistema Nacional de Trânsito (SNT) é o conjunto de órgãos e entidades da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios que tem por finalidade o exercício das atividades de planejamento, administração, normatização, pesquisa, registro e licenciamento de veículos, formação, habilitação e reciclagem de condutores, educação, engenharia, operação do sistema viário, policiamento, fiscalização, julgamento de infrações e de recursos e aplicação de penalidades. O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) é o coordenador do SNT e órgão máximo normativo e consultivo. ❖ A gestão da mobilidade urbana e do trânsito no Brasil é fortemente baseada em normas e legislações (leis, resoluções, portarias etc.), o que influencia diretamente a atuação dos profissionais da área. Vamos por partes: 1. Forte regulação legal: O setor de trânsito e transporte é sustentado majoritariamente por normas jurídicas. Isso significa que as decisões e práticas dentro do Sistema Nacional de Trânsito (SNT) são amplamente determinadas por leis e regulamentos, limitando a flexibilidade na busca por soluções inovadoras. 2. Impacto sobre os profissionais: Diversos profissionais (engenheiros, urbanistas, psicólogos, sociólogos, entre outros) que atuam neste campo precisam seguir essas normas rigidamente. Isso os coloca em um contexto onde a burocracia e a regulamentação podem restringir sua liberdade para propor novas abordagens. 3. Dificuldade de inovação e adaptação: A dependência excessiva de normas faz com que soluções mais criativas ou alternativas para melhorar o trânsito e a mobilidade sejam dificultadas. Algumas mudanças necessárias podem exigir romper com certas regras estabelecidas, desde que isso seja útil para a sociedade. No entanto, a estrutura rígida do SNT torna isso mais difícil. ❖ Psicologia, mobilidade humana e trânsito: por onde ir? ❖ O texto destaca a fragilidade das políticas de mobilidade no Brasil e a necessidade de maior atuação da Psicologia, junto a outras áreas, para garantir a efetivação dos direitos e melhorias urgentes no setor: ❖ Nessa perspectiva, esta Referência Técnica, que aborda a prática profissional, se propõe uma publicação provocativa à pró pria Psicologia e se une às muitas outras ações do Sistema Con selhos de Psicologia que, desde 1998, têm oferecido mais efe tivamente diferentes visões e formas de cuidar desse campo de atuação da Psicologia no contexto da mobilidade, e que ainda en contra inúmeros obstáculos à sua plena atuação. 1. Seria importante que os profissionais de psicologia estivessem em um campo de prestação de serviço público, que ainda não se configura como uma política pública (não se produz em instâncias democráticas de controle social). 2. A gestão da mobilidade costuma focar apenas em infraestrutura, engenharia, fiscalização e educação. O texto propõe uma visão mais ampla, que considere o espaço público como um local de convivência, bem-estar e qualidade de vida. ❖ A mobilidade urbana não é plenamente considerada uma política pública porque, apesar de ser um serviço essencial para a sociedade, sua gestão não ocorre totalmente dentro de instâncias democráticas de controle social. Já o trânsito e a Psicologia do Trânsito são políticas públicas porque possuem regulamentação formal dentro do Sistema Nacional de Trânsito (SNT) e estão organizadas por meio de leis e normativas. Vamos entender melhor essa diferença. 1. O que caracteriza uma política pública?Para algo ser considerado uma política pública, precisa atender a alguns critérios: ● Ser elaborado e implementado pelo Estado (governo em suas diferentes esferas); ● Ter participação social e controle democrático (como conselhos e audiências públicas); ● Possui um objetivo voltado ao bem comum, garantindo direitos sociais. 2. Por que o trânsito é uma política pública? O trânsito é regulado pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e pelo Sistema Nacional de Trânsito (SNT), que inclui órgãos como: ● Conselho Nacional de Trânsito (Contran): define normas e diretrizes; ● Departamentos Estaduais de Trânsito (Detrans): gerenciam habilitação, fiscalização e educação no trânsito; ● Polícias de Trânsito e órgãos municipais: fazem a aplicação das leis. Esses órgãos têm regras claras e o trânsito é tratado como uma questão pública, com fiscalização e investimento governamental. 3. Psicologia do Trânsito como política pública A Psicologia do Trânsito se consolidou como política pública porque o Estado determina sua aplicação em: ● Avaliações psicológicas para obtenção da CNH (Carteira Nacional de Habilitação); ● Campanhas educativas de trânsito; ● Estudos sobre comportamento e segurança viária. Isso significa que há normas e diretrizes que fazem com que a Psicologia do Trânsito seja um serviço prestado à sociedade dentro de um contexto regulado pelo poder público. 4. Por que a mobilidade urbana ainda não é uma política pública completa? A mobilidade urbana envolve não apenas o trânsito, mas também transporte público, infraestrutura para pedestres e ciclistas, acessibilidade e planejamento urbano. Apesar de existir legislação sobre mobilidade, como a Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei nº 12.587/2012), sua implementação enfrenta desafios: ● Falta de participação popular efetiva: Diferente de outras áreas, a mobilidade não conta com um conselho forte que envolva diretamente a sociedade civil nas decisões. ● Influência do setor privado: O transporte público e outros serviços de mobilidade (como aplicativos de transporte) são amplamente terceirizados, o que significa que há um conflito entre o interesse público e o lucro das empresas. ● Descontinuidade das políticas: Mudanças de governo afetam a continuidade dos projetos, e muitas cidades não priorizam investimentos em transporte coletivo e infraestrutura para pedestres. ❖ Pelos eixos: ❖ Mobilidade humana: expressa um posicionamento que assume a necessidade de melhorar as condições da vida humana concernentes à mobilidade e estimular a participação das pessoas nas dinâmicas dos espaços públicos. A compreensão de mobilidade adotada abrange diversas formas de locomoção (i.e., como nos deslocamos) e como estamos nesse deslocamento. ❖ Eixo 2 – Contribuições éticas, políticas e técnicas do processo democrático e de garantia de direitos. Defesa da democracia e dos direitos: O Sistema Conselhos de Psicologia deve atuar para garantir um trânsito mais seguro (terrestre, marítimo e aéreo), assegurando o direito à vida e à cidadania. ❖ Eixo 3 – Ampliação e qualificação do exercício profissional no Estado de garantia de direitos 1. Fortalecer a atuação da Psicologia no trânsito estreitando relações com o Contran, garantindo melhores condições de trabalho e respeitando os valores da Fenapsi para a avaliação psicológica de candidatos à CNH. 2. Atualizar a Resolução CFP nº 009/2011, que trata dos procedimentos de avaliação psicológica no trânsito. 3. Ampliar o campo de atuação dos psicólogos no trânsito, indo além da avaliação psicológica, promovendo debates sobre mobilidade urbana, acessibilidade e uso dos espaços urbanos. 4. Recomenda-se ao Contran a obrigatoriedade da avaliação psicológica na renovação da CNH, independentemente da categoria ou atividade remunerada, e incluir psicólogos na formação e qualificação de condutores. 5. Mediar junto ao Denatran e Contran para garantir a participação dos psicólogos na definição de diretrizes éticas e técnicas nos Detrans. O foco é fortalecer o papel da Psicologia no trânsito, garantindo mais segurança e melhor qualificação dos profissionais. - Dimensão ético-política na relação entre Psicologia, mobilidade humana e trânsito: ❖ O Brasil tinha 48,4 milhões de veículos circulando em 2010, e esse número subiu para65,8 milhões em 2017, um crescimento de 35,8%. Esse aumento foi puxado principalmente por carros e motos, enquanto ônibus e micro-ônibus cresceram menos. Apesar do aumento geral, o crescimento da frota vem desacelerando desde 2011. Em 2017, foram adicionados apenas 889,6 mil veículos, o que representa um crescimento de apenas 1,37%. Isso preocupa a indústria automotiva, que pede mudanças nas políticas para incentivar a renovação da frota (substituição de veículos antigos por novos) e evitar que o número de veículos em circulação caia. A renovação da frota é importante para garantir a segurança no trânsito, reduzir a poluição e aumentar a eficiência do transporte. Veículos antigos tendem a ser mais poluentes, menos seguros e têm maior custo de manutenção. Sem a renovação, o Brasil corre o risco de manter um número crescente de veículos velhos e ineficientes circulando, o que pode aumentar acidentes, gastos com manutenção e o impacto ambiental. A venda de carros novos caiu entre 2013 e 2016, mas voltou a crescer 9,4% em 2017. Já as vendas de motos caíram 14,7% no mesmo período. O Brasil já esteve entre os 5 maiores mercados de veículos do mundo, mas caiu para a 9ª posição em 2017. Portanto, a falta de renovação da frota é uma preocupação tanto para a indústria quanto para a segurança pública e o meio ambiente. ❖ A indústria automotiva no Brasil movimenta grandes quantias de recursos financeiros, mas o retorno para o país é desigual. Boa parte dos lucros das montadoras (fabricantes de veículos) vai para as matrizes, ou seja, para as empresas-mãe, muitas das quais estão fora do Brasil, principalmente em países estrangeiros. Isso significa que o dinheiro gerado pela indústria automotiva não é totalmente reinvestido no país, impactando negativamente a economia local.Por outro lado, o Brasil assume o ônus (responsabilidade) de lidar com as consequências dessa grande quantidade de veículos em circulação. Esses impactos incluem:Acidentes de trânsito; Impactos ambientais; infraestrutura.Além disso, o Brasil tem a incumbência de administrar e fiscalizar o sistema de trânsito, incluindo a regulação do número de veículos, a fiscalização das normas de trânsito, e a promoção de políticas públicas para mitigar os problemas decorrentes dessa forma de mobilidade. Ou seja, o país acaba arcando com os custos sociais e ambientais, enquanto os lucros da indústria automotiva, em grande parte, não ficam no Brasil. ❖ Apesar de haver mais automóveis do que qualquer outro tipo de veículo na frota nacional, a maior parte das viagens foi feita a pé e por transporte coletivo, em 2003-2014 feito pela ANTP. E no ano, as viagens feitas por transporte coletivo e não monitorizado somam quase 70%. Dessa análise, se evidencia a desproporcionalidade no investimento destinado a sustentar uma estrutura que prioriza o transporte individual motorizado. As calçadas e o sistema de transporte público apresentam inúmeros problemas, e sem contar a precariedade das estradas e rodovias que conectam o país com transporte terrestre de pessoas e mercadorias. Estradas que pelo pagamento das taxas anuais do transporte motorizado (IPVA). O que ocorre também é a permissão da administração de rodovias para empresas privadas, que se mostra negligente e com falhas em relação ao serviço ofertado. A crítica aqui é que, com os recursos arrecadados por meio dos impostos e taxas (como o IPVA, licenciamento de veículos, etc.), não haveria a necessidade de entregar as rodovias para administração privada. O governo poderia usar esses recursos diretamente para manter e melhorar a infraestrutura rodoviária, evitando a cobrança de pedágios e garantindo uma gestão pública mais eficiente, onde os cidadãos poderiam acessar rodovias em boas condições sem precisar pagar tarifas extras. Assim, o modelo de concessão, quando mal executado, aumenta os custos para a população e não garante o serviço adequado que os contribuintes deveriam receber com os impostos que pagam. A falta de qualidade nas rodovias e a cobrança de pedágios, além de aumentarem a carga sobre os cidadãos, deixam claro que o sistema de concessões não tem funcionado como deveria em muitos casos. ❖ O custo dos deslocamentos dos transportes individuais motorizados onera (gastos maiores) o espaço público assim como as pessoas. O automóvel é a tecnologia que mais consome espaço e energia por passageiro, além de estar em segundo lugar em emissão de poluentes e custos com acidentes. A motocicleta, embora ocupando menos espaço viário, tem um consumo de energia mais elevado por passageiro e gera maiores emissões de poluentes e custos de acidentes. Por outro lado, o ônibus, o meio de transporte coletivo mais comum no Brasil e no mundo, apresenta os menores impactos em termos de consumo de espaço, energia, emissão de poluentes e custos com acidentes. ❖ Relação renda e locomoção: Quanto menor a renda familiar dos brasileiros, maior o percentual daqueles cujo principal meio de locomoção é andar a pé e de ônibus. Os gastos públicos alocados em vias e configurações urbanas que reforçam a submissão do espaço público aos interesses privados. Há uma supervalorização do transporte individual motorizado, associando-o a melhores condições financeiras e status. Uma questão de valor e hierarquia social, o uso do transporte individual motorizado é também uma forma de mercantilização e privatização do espaço público, que tem sido tratado pelo poder público, pela iniciativa privada e pela população em geral como espaço de passagem, lugar de não permanência, espaço de todos e de ninguém. Os modos escolhidos ou induzidos para trespassar espaços e lugares dizem respeito à forma como nos relacionamos com os espaços, não apenas do ponto de vista pessoal, mas sobretudo coletivo e político, uma vez que ocupados/utilizados por muitos/outros. Por isso mesmo, o que ainda vemos, os modos escolhidos/ induzidos de mobilidade, são também modos de subjetivação imbuídos em manter a sociedade em economia estável por meio do estímulo ao consumo. Falamos de um sistema econômico e de um sistema de locomoção que matam necessariamente e sem intenção em larga escala. Falamos, que fique bem claro, de um sistema econômico capitalista e de um sistema de locomoção capitalista. ❖ Além de deslocamento, mobilidade é uma faceta geográfica de existência, e como tal nos oferece um terreno rico no qual narrativas e ideologias, podem ser construídas. ❖ Para quem a psicologia do trânsito oferece o trabalho, com o que ele contribui e qual a relação dele com as políticas públicas de mobilidade e trânsito. ( Isso nos coloca diante de escolhas éticas e políticas que vão além de abordagens, é uma identificação das matrizes ideológicas do pensamento psicológico e quais visões de mundo e homem representam) . ❖ No que tange à mobilidade como campo de conhecimento e ação, a infusão dos pressupostos mercantilistas está fortemente enraizada e confundem-se às nossas escolhas de estilo de vida, portanto, de relações sociais, e de como os espaços evidenciam essas escolhas. Esse tipo de dinâmica se apresenta sobre um espaço público, comum; trata-se, portanto, de uma demonstração pública. Compreendemos dessa forma que o espaço público é também o instrumento onde são sinalizados conteúdos da vida social urbana. Isso corresponde a dizer que esse espaço permanece sendo um terreno de comunicação social até mesmo quando os conteúdos das práticas traduzem uma negação do estatuto fundamental do espaço público, como um terreno normativo de convivência e de respeito social entre diferentes. A cidade tem a nossa “cara”, uma vez que a teia de conexões revela também as configurações urbanas, nossos percursos e como fazemos para percorrê-los. Há, então, um indissociável elo que nos posiciona e nos situa, dando o sentimento de pertença ou segregação. Somos constituintes da e constituídos pela realidade. No entanto, o que entendemos por realidade não é algo naturalmentedado, mas construído por todos nós. ❖ Pensar a mobilidade humana nesse contexto é concebê-la como resistência à mercantilização ( lucro, gerar serviço) da vida, dos espaços e do aparelhamento sustentável voltado prioritariamente à estabilidade econômica e política das sociedades. Portanto, ao pensar a mobilidade humana como resistência, busca-se desafiá-la como um campo de negócios e colocá-la como uma questão de justiça social, acessibilidade e sustentabilidade. A mobilidade deve ser pensada como um meio de garantir o direito à cidade e ao transporte para todas as pessoas, sem discriminação, e como uma forma de promover o equilíbrio social e ambiental, não apenas a estabilidade econômica ou política de um pequeno grupo. ❖ Um paradoxo no Brasil em relação à política de mobilidade urbana, especialmente no que diz respeito à Lei nº 12.587, que estabelece diretrizes para a mobilidade urbana desde 2012. Por um lado, o governo brasileiro implementou políticas como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para apoiar a indústria automotiva, alegando que isso seria necessário para manter a estabilidade econômica do país. Por outro lado, a priorização do transporte individual motorizado (como carros particulares) gerou uma série de problemas, como congestionamentos, acidentes e estresse nas cidades, além de um impacto negativo no ambiente urbano e nas áreas rurais. Esse paradoxo se revela na forma como a sustentabilidade econômica (focada em manter a indústria e a economia estáveis) se sobrepõe à sustentabilidade ambiental e ao bem-estar humano. Ou seja, o foco em apoiar a indústria automobilística, sem considerar adequadamente as consequências para o ambiente e a qualidade de vida das pessoas, pode resultar em uma "sustentabilidade" que não leva em conta os efeitos negativos para a vida humana e para o espaço urbano. ❖ Daí a adjetivação “humana” à palavra “mobilidade”, como uma forma de enfatizar que nosso olhar se dirige às melhorias de condições da vida humana no tocante à mobilidade, que possibilita diretamente a participação das pessoas nas dinâmicas dos espaços públicos. ❖ Concepções sobre mobilidade: ❖ Psicologia abordando mobilidade requer: Mobilidade como um atributo humanos e as dimensões subjetivas que surgem na transitoriedade; um campo de saber relevante ao mundo contemporâneo, onde o movimento, o transitório, a velocidade e o tempo volatizam as experiências humanas de viver e conviver ; Algo acontece com os sujeitos no movimento que é mais que o próprio movimento. É, além disso, um pacto silencioso de suas múltiplas formas de significação dos espaços, paisagens e de si mesmos. A expectativa que o movimento nos traz como possibilidade de ir para outro lugar, é a mesma de, por lá, colocar-se como um outro que reinventa a sua própria existência. ❖ A mobilidade, enquanto atributo humano, vai além dos conceitos convencionais de trânsito ou deslocamento. Não é apenas locomoção, mas também envolve evasão, possibilidade, ação, desejo e reparação. Ela pode ser vista como um "lugar" ou "não-lugar", uma itinerância que molda a subjetividade das pessoas, desafiando definições padronizadas e simplificações do termo. ❖ A mobilidade humana surge como um fenômeno no qual a nossa forma de viver se desenha também pelos modos de construção subjetiva de espaço, tempo, velocidade, distâncias e lugares, e também de como isso tudo se apresenta e se manifesta no (des)encontro com todos e todas que compartilham da experiência de mobilidade, desde sua dimensão mais geográfica até a íntima relação que estabelecemos (ou não) com nosso movimento interno, com nossa respiração e nosso corpo. Nesse particular de sensações, percepções, subjetivações, modos de viver, enfim, encontra-se talvez o lugar da Psicologia na relação com mobilidades. ❖ Aa mobilidade expandida de uns parece limitar a de outros tantos, considerando o equívoco de pensar a liberdade como mobilidade irrestrita de ir a todo e qualquer lugar, a qualquer momento e quando bem entender, apesar dos esforços contínuos para aumentar a liberdade individual de mobilidade, essa ainda é bastante desigual e está associada a formas de poder que negam a alguns a mobilidade que outros possuem. o grau de relação entre liberdade cívica, democracia, política e mobilidade fica evidente em função do quão acessível está para uma população ou sociedade a efetiva participação no espaço público disponível ou não pela mobilidade. Aqui, fazer-se cidadão é ao mesmo tempo estar livre para participar da esfera pública da vida e ter a mobilidade como rede de conexões e intercâmbios que facilitam essa imersão cívica no tecido social. Estar no espaço público é, a um só tempo, poder participar política e socialmente e redimensionar o convívio social em tal espaço público. A mobilidade é necessária por possibilitar a sustentação de comunidades políticas, uma vez que o acesso ao espaço público viabiliza o livre encontro e a reunião de grupos e coletivos para ações políticas. Quanto mais privatizados são os espaços públicos, mais empobrecida é a liberdade cívica de mobilidade. O acesso a bens e serviços, incluindo bens culturais e lazer, tende a ficar restrito a uma parcela selecionada da população. Mobilidade é também compreender a relação das pessoas com o espaço, considerando que a complexa teia de deslocamentos é um desenho também subjetivo dos traçados urbanos. Subjetivo, mas não menos reprodutor das lógicas mercantis, uma vez que para o poder econômico (e agora também político) somos todos consumidores. ❖ De que forma o movimento nos afeta, pergunta para a psicologia: A mobilidade afeta a subjetividade das pessoas, pois, ao invés de sermos sujeitos ativos no processo de deslocamento, muitas vezes somos reduzidos a meros objetos, desconectados de nós mesmos, dos outros e do ambiente ao nosso redor. A Psicologia tem se interessado pouco por como esses processos de deslocamento impactam nossa subjetividade. Quando pensamos sobre mobilidade, ela se apresenta como algo plural e humano, que envolve não só o movimento físico, mas também os significados que ele carrega. ❖ Cresswell (2009) propõe uma abordagem de mobilidade que considera os diferentes aspectos do movimento, suas implicações e os significados associados. Ele identifica seis aspectos importantes relacionados à mobilidade, que têm impacto nas políticas públicas de mobilidade: 1. Por que uma pessoa ou coisa se move? 2. A que velocidade? 3. A que ritmo? 4. Qual caminho é seguido? 5. Como se sente ao se mover? 6. Quando e como termina o movimento? Cresswell destaca que a mobilidade está ligada à hierarquia, inclusão e exclusão, sugerindo que ela pode ser um elemento central na produção das desigualdades sociais e da diferença em nossa sociedade, conforme a visão de Zygmunt Bauman. ❖ É essencial analisar a política de mobilidade urbana e seus marcos legais, considerando os compromissos ético-políticos para o desenvolvimento de políticas públicas. A Psicologia pode contribuir para melhorar as condições de mobilidade e ajudar a construir um futuro mais humano e sustentável, por isso: ❖ Política pública: para quem, para quê, para onde? ❖ Políticas públicas são aqui entendidas como o “Estado em ação” é o Estado implantando um projeto de governo, através de programas, de ações voltadas para setores específicos da sociedade. O Estado não pode ser reduzido à burocracia pública, aos organismos estatais que conceberam e implementaram as políticas públicas. As políticas públicas são aqui compreendidas como as de responsabilidade do Estado – quanto à implementação e manutenção a partir de um processo de tomada de decisões que envolve órgãos públicos e diferentes organismos e agentes da sociedade relacionados à política implementada. Neste sentido, políticas públicas não podem ser reduzidas a políticas estatais. ❖ Uma análise das políticas de trânsito deve considerar os marcos regulatóriose como a Psicologia pode contribuir para entender as questões de poder e impacto, conforme a definição de Laswell. Também é importante avaliar o contexto social, político e econômico, distinguindo Estado e governo, e garantir que as políticas públicas sejam transversais e independentes de planos de governo. ❖ Podemos entender políticas públicas como um conjunto de diretrizes e referências éticas, políticas e legais, adotadas pelo Estado para responder às demandas sociais Esse processo pressupõe permanente e necessário o questionamento entre Estado e a sociedade civil, já que propostas e ações governamentais nem sempre encontram pontos coincidentes com as demandas sociais. É a partir do embate entre esses poderes distintos e quase sempre assimétricos que uma sociedade democrática constrói seu espaço de interlocução e elaboração de saídas legítimas para os mais diversos impasses ❖ Mobilidade e políticas públicas: No tocante à dinâmica urbana, políticas públicas, enquanto ações de governo que produzirão efeitos específicos e influenciarão a vida dos cidadãos e deveriam ser pensadas em um sistema político republicano e se organizam por meio da concepção de cidade capitalista: A cidade capitalista cria centros de consumo, onde o comércio se concentra, especialmente com produtos de luxo. Esses centros, geralmente nos núcleos antigos da cidade, não só atraem consumidores em busca de produtos, mas também se tornam espaços de encontro social, onde as pessoas se reúnem, observam e interagem, impulsionadas pela aglomeração de objetos nas lojas e vitrines. ❖ Cidade como condição essencial para a vida urbana, composta por elementos estruturais (praças, estradas, passeios, jardins), elementos privados (parques, edifícios, comerciais) e espaços de expressão pública. Os parâmetros utilizados por Indovina (2002, p. 120) para definir o espaço público incluem a propriedade, os limites de uso, o custo de acesso e os condicionamentos a seu uso, o que, por sua vez, o leva a apresentar uma “gradação dos espaços em razão da sua ‘publicidade’”. O espaço de propriedade privada, por sua vez, possui limites de uso, acesso pago e fortes condicionamentos de utilização. ❖ A cidade se divide em espaços públicos e privados, ambos regulados por leis de uso do solo que buscam garantir seu funcionamento social e o bem-estar da população (BRASIL, 1988). Além disso, as vias públicas são vistas como resultado da cidade industrial, que impõe eixos de circulação devido à presença do automóvel na vida cotidiana (LEFEBVRE, 2016; PAES-LUCHIARI, 2005). ❖ Paes-Luchiari (2005) destaca a disputa econômica, política e simbólica entre Estado, setor privado e sociedade civil em relação aos bens tombados, ressaltando a importância do investidor privado para transformações urbanísticas e valorização ambiental, conforme o Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001). Embora as ruas sejam infraestrutura pública, seu uso por veículos individuais configura uma apropriação do espaço urbano. Isso influencia a mobilidade, o acesso a serviços e o bem-estar da população, mas também gera conflitos, como congestionamentos e disputas pelo uso do espaço. O conceito de cidade e a relação público-privado ajudam a entender o trânsito como um fenômeno transitório, essencial para a circulação de mercadorias e serviços nas cidades capitalistas, com a finalidade de fazer circular/mover mercadorias, bens, produtos e serviços que satisfarão os desejos e as necessidades das pessoas que vivem nas cidades capitalistas. ❖ As políticas públicas de mobilidade e trânsito historicamente sustentam um modelo centrado no transporte individual motorizado, favorecendo um sistema econômico que lucra com essa estrutura. Esse modelo gera desigualdades na distribuição dos benefícios urbanos e afeta a mobilidade humana de forma excludente. Moretzsohn (2010) propõe que a Psicologia deve intervir na análise da cidade, não apenas pelo traçado arquitetônico, mas pelos processos de subjetivação que influenciam a mobilidade. A disciplina deve questionar as desigualdades urbanas e compreender como essas dinâmicas afetam a circulação e a expressão dos indivíduos no espaço público. Além disso, deve participar da construção de políticas públicas que priorizem o ser humano, reconstruam o pacto social e estabeleçam uma arquitetura urbana mais inclusiva. O compromisso da Psicologia é contribuir para redes sociais que valorizem a diversidade de experiências e promovam espaços urbanos que respeitem a complexidade da circulação humana, garantindo acessibilidade, segurança e qualidade de vida para todos. ❖ A Psicologia tem um papel essencial na construção de políticas públicas para a mobilidade humana, pois a mobilidade reflete relações sociais e processos de subjetivação. Os psicólogos devem atuar como mediadores da cidadania, denunciando desigualdades e falácias técnicas que ignoram subjetividades.Para isso, é necessário transformar o conhecimento obtido na prática clínica e social em ações políticas, dando voz às dificuldades e ao sofrimento das pessoas que enfrentam barreiras na mobilidade urbana. A Psicologia deve ser um canal de mediação, tornando visível essa realidade e influenciando políticas que promovam inclusão e equidade no espaço público. - EIXO 2 Marcos regulatórios e dimensão histórica: consolidação da Psicologia na área e os limites que processa ❖ A primeira ferrovia em solo brasileiro foi inaugurada em 30 de abril de 1854, num trecho de 14,5 km que ligava o Porto de Mauá (SP) a Fragoso (RJ). Quase 50 anos depois, o primeiro veículo motorizado chegou ao Brasil, em 1898, importado da Europa, configurando-se como uma das primeiras raízes que mudaria, posteriormente, nossa matriz de transporte. O Brasil, nessa época, vivia o recém-implantado sistema político republicano, com diversos impactos socioeconômicos, A capital que produzia e concentrava a maior riqueza no país também produziu, em 1903, o primeiro texto normativo sobre trânsito de veículos automotores, promulgado pelo primeiro prefeito da cidade, que ainda não possuía sequer uma fábrica de automóveis. A finalidade era disciplinar o trânsito cujo crescimento se iniciara e criar critérios para emitir carteiras de motorista, conforme os registros históricos da época: Em 1903 São Paulo tinha seis carros, mas no ano seguinte assistiu ao primeiro boom do setor: a frota paulistana cresceu quase catorze vezes e explodiria em impressionantes 83 veículos. ❖ No âmbito nacional, a primeira legislação foi o Decreto--Lei nº 8.324/1910, que “Aprova o regulamento para o serviço subvencionado de transportes por automóveis”. Nessa época, havia poucos automóveis, e seus condutores eram chamados de “motorneiros”. Conforme o artigo 21 da lei, “O motorneiro deve estar constantemente senhor da velocidade de seu veículo, devendo diminuir a marcha ou mesmo parar o movimento, todas as vezes que o automóvel possa ser causa de acidentes”. Até 1941 as normativas sobre o trânsito foram reguladas pelos municípios. A necessidade de uma legislação mais rigorosa para a circulação de veículos levou à criação de leis que estabelecem limites de velocidade, variando entre 30 e 80 km/h, dependendo do tipo de veículo e da via, evitando que a segurança dependesse apenas do bom senso dos condutores. ❖ Em 1925, foi criada a primeira montadora de veículos automotores do Brasil. No entanto, o primeiro marco histórico do setor se deu 31 anos depois, com o Decreto-Lei nº 39.412/1956, que contribuiu para grandes saltos na produção automobilística do país, Essa expansão do transporte motorizado produziu sérios problemas de segurança e saúde pública, decorrentes dos acidentes de tráfego que, na década de 1940, começaram a se transformar em preocupação nacional. Em busca de solução, as autoridades desenvolveram e implementaram medidas para tentar barrar ou diminuir tal revés. As primeiras políticas públicas de segurança no trânsito começaram então aser articuladas, e vários campos de saber foram chamados para colaborar com essa tarefa: 1. A adoção de normas e códigos de conduta no trânsito e sua fiscalização por meio de convênios com a polícia; 2. Planejamento e intervenção junto às vias a partir da engenharia; 3.. seleção e formação de motoristas e cidadãos para conviver no trânsito, e profissionais como médicos, psicólogos. ❖ Dessa forma os primeiros automóveis começaram a modificar o modelo de deslocamento, que foi fruto de uma série de fatores econômicos, políticos e sociais, que ocorreu também por opções das políticas urbanas na esfera federal e estadual, assim como por pressões da elite da época. Assim as cidades se expandiram e foram moldadas, por vias, calçadas, pessoas morando longe do trabalho, órgãos de trânsito (se organizaram para gerenciar as mudanças e os números de veículos). ❖ A evolução do trânsito e dos transportes no Brasil gerou demandas sociais que exigem a organização do trânsito e a formação de profissionais qualificados, incluindo psicólogos do trânsito. Esses profissionais devem compreender o conceito de trânsito, a Psicologia do trânsito e seu desenvolvimento histórico, pois esse conhecimento influencia diretamente sua atuação. ❖ Contextualizando a história da Psicologia do Trânsito: ❖ Trânsito: deslocamento de pessoas ou coisas pelas vias de circulação; um conjunto de todos os deslocamentos diários feitos pela via e que aparece na rua como forma de movimentação geral, tanto do pedestre como do veículo. Para o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), trânsito é a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga, em condições seguras. Esse mesmo documento acrescenta ainda que o trânsito em condições seguras é um direito de todos e dever dos órgãos do Sistema Nacional de Trânsito. Essas definições deixam claro que o trânsito é uma construção social que atende às necessidades humanas de movimentar-se de um lugar para o outro. Sendo assim, a psicóloga e o psicólogo do trânsito não podem perder de vista os aspectos sociais, culturais e históricos interagentes. Mesmo quando se considera, tradicionalmente, que o sistema de trânsito é composto por três elementos, isto é, homem, veículo e via, é preciso reconhecer que esses elementos precisam estar interligados e em pleno funcionamento para garantir o direito de ir e vir das pessoas. A psicóloga e o psicólogo do trânsito, portanto, jamais devem perder de vista a complexidade das relações, a fim de não se deter exclusivamente em um desses elementos (o homem), sob o risco de isolá-lo num vácuo social, num psicologismo infrutífero. A compreensão do que é trânsito, por sua vez, está refletida nas definições da área, do que é Psicologia do Trânsito. O Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2000) define Psicologia do Trânsito como um campo disciplinar que se comunica com outras subáreas da Psicologia. ❖ o CFP toma os conceitos de Rozestraten (1988) e a define como uma área da Psicologia que investiga os comportamentos humanos e os fatores e processos internos e externos, inconscientes e conscientes, que podem provocar ou alterar, apontando como objeto da Psicologia do Trânsito, lato sensu, os diversos usuários das vias, os comportamentos que corroboram a construção de vias e veículos e aqueles indispensáveis à criação de leis e sua fiscalização. Stricto sensu, o objeto é o estudo do comportamento específico dos usuários das vias . A definição da Psicologia do Trânsito ajuda profissionais a compreender o fenômeno e sua atuação na área. Ela amplia o foco além dos motoristas, incluindo outros participantes do trânsito, e sugere o estudo do comportamento e dos processos mentais sob diferentes perspectivas psicológicas. ❖ A Psicologia do Trânsito é um campo multidisciplinar que integra saberes da Psicologia e de outras ciências para estudar o trânsito e os transportes em sua complexidade. Ela é uma área aplicada da Psicologia Ambiental e Social, analisando o comportamento humano no trânsito e suas relações com fatores sociais, políticos, econômicos, culturais e estruturais que influenciam sua gestão e organização. ❖ A Psicologia do Trânsito atua respeitando a cidadania e os princípios de compromisso social da Psicologia. Ela considera que o trânsito não é apenas resultado das ações individuais, mas também de fatores sociais, políticos e econômicos. Essa abordagem amplia o papel da psicóloga e do psicólogo do trânsito, indo além da avaliação de motoristas e incluindo a gestão, organização e fiscalização do trânsito, reconhecendo a influência da Psicologia nesses aspectos. ❖ A Psicologia do Trânsito surgiu em 1910, em um laboratório da Universidade de Harvard, a partir do trabalho de Hugo Münsterberg, primeiro psicólogo a submeter os motoristas de bonde de Nova York a uma bateria de testes de habilidade e inteligência. A Psicologia do Trânsito, portanto, nasce da necessidade de compreensão do fenômeno do trânsito e dos elementos que o compõem. ❖ Hoje em dia, o fazer do psicólogo ainda é associado apenas à demanda por segurança viária. ❖ No Brasil, a Psicologia do Trânsito iniciou-se em São Pau lo, em 1913, com o trabalho do engenheiro Roberto Mange na seleção e orientação de funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana. Todavia, com o incentivo ao automóvel como matriz de transporte cada vez mais utilizada, e em detrimento das demais, a Psicologia logo direcionou suas atividades aos motoristas, em razão das demandas sociais. Assim, na década de 1950, no Rio de Janeiro, iniciou-se a contratação de psicólogos pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran), cuja finalidade era estudar o comportamento dos condutores e as causas humanas envolvidas nas ocorrências de acidentes, sendo utilizadas provas de aptidão, personalidade e entrevista psicológica. ❖ Em 1962, com o advento da profissão de psicólogo (Lei nº 4.119/1962), o Contran, ratifica a avaliação psicológica como uma etapa obrigatória para a obtenção da CNH. ❖ Marcos regulatórios para avaliação psicológica de motoristas: 1. A partir dos anos 1900 até a década de 1950: ➔ A primeira menção ao comportamento humano no trânsito na legislação brasileira ocorreu no Ato nº 146 da Prefeitura de São Paulo, em 1903. Esse ato exigia uma “carta de condutor de automóvel”, concedida após comprovação de conhecimento do veículo, habilidade para manobrá-lo e que o peticionário possuísse os requisitos necessários de prudência, sangue frio e visualidade ( condições básicas para dirigir). ➔ Nesse período, o documento de habilitação do condutor era fornecido pelas prefeituras e, somente após a edição do Código Nacional de Trânsito, em 1966, é que a emissão da CNH passou a ser responsabilidade do estado. ➔ O primeiro marco regulatório do trânsito no Brasil foi o Decreto-Lei nº 2.994/1941, que instituiu o primeiro Código Nacional de Trânsito e estabeleceu as bases para a futura atuação do profissional da Psicologia na área, abordando aspectos psicológicos e físicos importantes para dirigir. De acordo com o referido Decreto-Lei, o futuro motorista deveria se submeter ao exame fisiológico/médico e psicológico para estabelecimento do perfil psicofisiológico profissional mínimo, compatível com o exercício da atividade. Os anualmente por uma comissão designada pelo Contran, e tais índices variam nas modalidades de exercício de atividade entre “amador”, “profissional” e “transporte coletivo”, sendo necessária realização de novo exame quando da transferência de uma categoria para outra. O exame feito para obtenção de “licença para praticagem” serviria também para a prova de habilitação, desde que o prazo entre o exame psicofisiológico e a realização da prova não fosse superior a 12 meses. O candidato poderia ser “recusado” por não ter o mínimo “perfil psicofisiológico” exigido ou por se apresentar sob efeitode “álcool ou inebriantes”. Essas duas questões, colocadas desde o primeiro Código de Trânsito, parecem permanecer em aberto até os dias atuais: a primeira pela inexistência desse chamado perfil psicofisiológico mínimo. E a segunda pelas controvérsias em torno da validade/precisão e da possível violação de direitos do exame toxicológico de larga janela de detecção ➔ O uso de álcool e direção foi um tema de discussões desde os anos 1940, mas somente nos anos 2000, com a Lei Seca (Lei Federal nº 11.705/2008 e Lei Federal nº 12.760/2012), foi estabelecida a proibição de consumir bebida alcoólica enquanto dirige. ➔ Lei nº 10.350, de 21 de dezembro de 2001: Altera a Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro, de forma a obrigar a realização de exame psicológico periódico para os motoristas profissionais. ➔ Em 1941, a nova redação do Código de Trânsito passou a exigir o exame psicofisiológico apenas em casos de culpa em acidentes graves, ou quando mais de dois anos se passaram desde o último exame. Essa mudança suspendeu a avaliação psicológica como parte do processo de obtenção da carteira de habilitação, retirando seu caráter preventivo. Isso pode ser visto como o primeiro veto à avaliação psicológica no processo de habilitação, que se concretiza na década de 1990. A intenção era eliminar candidatos com condições de saúde que comprometessem a condução de veículos. ➔ Na década de 1940, o Decreto-Lei nº 9.545 foi promulgado, estabelecendo normas para o exame médico (físico e mental) de candidatos a condutores de veículos. O decreto determinava que fosse feito um exame psíquico, sem caráter eliminatório, até que fossem definidas as "médias normais" do perfil psicofisiológico do motorista. Também continuava a recusa de candidatos com vícios em entorpecentes, uso excessivo de álcool ou perturbações mentais que impedissem a condução segura. ➔ Entre 1946 e 1966, o Brasil vivenciou avanços no reconhecimento da Psicologia como profissão, especialmente com as contribuições de Emilio Mira y López no Instituto de Seleção e Orientação Profissional (Isop) e na Associação Brasileira de Psicotécnica. Esses trabalhos influenciaram a Resolução do Contran nº 262/1953, que tornou obrigatório o exame psicotécnico para candidatos a motoristas. Nos anos 1950, o Isop desenvolveu estudos e práticas para avaliar as condições psicológicas dos motoristas, incluindo entrevistas sobre condições familiares e de trabalho, provas de habilidades específicas e avaliações de personalidade com técnicas expressivas gráficas. ➔ Em 1953, o ano marca uma nova fase na legislação sobre a avaliação psicológica de motoristas, com a introdução do "exame psicotécnico". A avaliação de funções psicológicas começou a ser conduzida por especialistas, e com o reconhecimento da Psicologia como profissão, passou a ser realizada por profissionais qualificados. A partir desse momento, as normas passaram a incluir psicólogos no processo de formação de motoristas. No entanto, surgiram críticas sobre o alto custo do exame e os prejuízos causados pelo afastamento dos motoristas do trabalho, especialmente quando eram considerados inaptos, sem direito à aposentadoria. 2. Da década de 1960 até a década de 1990 ➔ Em 1968, o Decreto nº 62.127 aprovou o Regulamento do Código Nacional de Trânsito e passou a prever que o Departamento Estadual de Trânsito (Detran), instância responsável pelo processo de habilitação de motoristas, deveria dispor dos serviços médicos e psicotécnicos. Esses “exames psicotécnicos” deveriam ser uniformes em todo o país e com normas indicadas pelo Contran, sendo aplicados nos seguintes casos: O decreto estabeleceu a exigência de exames psicotécnicos para certificar diretores e instrutores de escolas de formação de condutores, além de candidatos à condução de transporte coletivo e cargas perigosas. Se reprovados, os candidatos deveriam fazer novo exame psicotécnico na presença de um médico do INPS. O Conselho Nacional de Trânsito poderia expandir a exigência do exame para todas as categorias de veículos, desde que as repartições de trânsito estivessem adequadamente equipadas para realizá-los. Essas normas formam a base legal para a avaliação psicológica no trânsito atualmente. ➔ O Decreto nº 5.766/1971 criou o Conselho Federal de Psicologia e os Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs), regulamentados pelo Decreto nº 79.822/1977. Essa criação foi fundamental para disciplinar a profissão de psicólogo, incluindo sua atuação no contexto do trânsito, garantindo que fosse realizada conforme os padrões estabelecidos pelo órgão competente. ➔ No final dos anos 1990, a avaliação psicológica para a obtenção da CNH foi vetada no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), mas essa decisão gerou grande mobilização nacional. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) e os Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs), junto com outras instituições e profissionais, conseguiram sensibilizar os deputados, derrubando o veto. O Código de Trânsito de 1997 manteve a avaliação psicológica, e o Contran passou a estabelecer procedimentos para a avaliação de candidatos à CNH. Em 1998, a Resolução Contran 51 estabeleceu os exames de aptidão física e mental e de avaliação psicológica para motoristas, com percentuais mínimos para áreas cognitivas, práticas e de equilíbrio psíquico. Também foi exigido um curso de capacitação de 120 horas para que psicólogos se credenciarem como peritos examinadores de trânsito. No mesmo ano, a Resolução Contran nº 80 revogou a anterior e criou novos parâmetros técnicos, incluindo uma junta especial de saúde composta por três psicólogos para revisar casos de inato. 3. Dos anos 2000 até os tempos atuais: ➔ A Resolução CFP nº 12/2000 introduziu exigências específicas de qualidade para a atuação de psicólogos no trânsito, buscando solucionar problemas históricos da área. Com a Resolução CFP nº 14/2000, a Psicologia do Trânsito foi reconhecida como uma especialidade, atribuindo competências aos profissionais da área, o que representou um avanço na regulamentação da prática de avaliação psicológica no processo de habilitação. ➔ Atribuições do especialista em Psicologia do Trânsito :Estudo de processos psicológicos, psicossociais e psicofísicos relacionados ao trânsito, como diagnóstico da estrutura dos indivíduos, desenvolvimento de ações educativas e socioeducativas, realização de pesquisas e avaliação psicológica de motoristas e candidatos à habilitação. Além disso, os psicólogos atuam na elaboração de laudos, pareceres e relatórios técnicos, participam de equipes multiprofissionais e analisam os acidentes de trânsito para sugerir formas de prevenção. Eles também estudam os efeitos psicológicos do uso de substâncias e atuam como peritos em exames de habilitação e readaptação profissional. ➔ Em 2001, o CFP criou o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi) para melhorar a qualidade dos instrumentos utilizados nas avaliações psicológicas, incluindo as de motoristas. A má qualidade dos instrumentos anteriores afetava a credibilidade dos psicólogos, e com a implementação do Satepsi, muitos testes amplamente utilizados na época não foram aprovados, impactando o trabalho dos psicólogos peritos em trânsito. ➔ Em 2008, a Resolução nº 267 do Contran estabeleceu que, para o credenciamento de psicólogos peritos examinadores de trânsito, seria necessário um curso de capacitação de 180 horas, em vez de 120 horas, como anteriormente exigido. Além disso, passou a ser necessário que os psicólogos apresentassem a especialidade em Psicologia do Trânsito registrada na carteira de identidade profissional. ➔ A Resolução Contran nº 300/2008 estabeleceu um procedimento para que condutores condenados por crime de trânsito ou envolvidos em acidentes graves se submetessem a novos exames, incluindo a avaliação psicológica, como parte de um novo processo de formação como motorista. Em 2009, a ResoluçãoContran nº 327 passou a exigir o credenciamento das clínicas de acordo com normas de vigilância sanitária. Em 2012, a Resolução nº 425 regulamentou o exame de aptidão física e mental, e a avaliação psicológica, com alterações pela Resolução nº 500/2014, que simplificou a exigência de tempo mínimo de formação. Em resposta, o CFP criou a Resolução nº 007/2009, estabelecendo normas e procedimentos para a avaliação psicológica no trânsito. ➔ Em 2015, o CFP realizou o Seminário "Psicologia e Comportamento do Trânsito", como preparação para a 2ª Conferência de Alto Nível sobre Segurança no Trânsito da ONU em Brasília. Em parceria com as comissões de Trânsito e Consultiva em Avaliação Psicológica (CCAP), foi lançada a publicação Psicologia do Tráfego: Características e Desafios no Contexto do Mercosul (CFP, 2016). No mesmo ano, foi fundada a Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego (Abrapsit), com o objetivo de promover o desenvolvimento técnico-científico na área de tráfego e circulação humana em diversos modais: terrestre, aéreo e aquaviário, uma novidade no contexto histórico da psicologia do trânsito. ➔ Em 2018, por meio da Resolução CFP nº 09/18, o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi) foi atualizado, reforçando o seu papel de agente catalisador de evolução dos instrumentos de avaliação psicológica no país, desde a sua criação no início dos anos 2000. ❖ Políticas sobre a construção do espaço público, o seu uso e os deslocamentos: ❖ A Psicologia deve ir além do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e considerar outras políticas que influenciam o espaço público e os deslocamentos. O trânsito não pode ser visto apenas como um fenômeno individual, mas como um fenômeno social que envolve o ir e vir de pessoas. O momento atual exige que a Psicologia atue na interface entre o espaço público e o privado, visando à construção do bem-estar e da qualidade de vida para todos. ❖ Para ampliar a atuação dos psicólogos, é crucial identificar e reconhecer os espaços de discussão e as demandas sociais, como mobilidade urbana, educação, cidadania e violência. A construção de indicadores para avaliar tanto a atividade dos psicólogos quanto às políticas em que estão envolvidos é fundamental. O Eixo 1 oferece os fundamentos para entender a importância ética e política da Psicologia nesse contexto. As políticas públicas, que influenciam a vida dos cidadãos, devem ser pensadas com base nas concepções de cidade, e a Psicologia do Trânsito é essencial para refletir sobre os espaços que moldam e constituem a sociedade. ❖ Planejamento e mobilidade urbana: ➔ As discussões sobre acessibilidade para idosos e pessoas com deficiência, bem como a qualidade de vida de pedestres, ciclistas e motociclistas, são essenciais, considerando a vulnerabilidade desses grupos ao compartilharem espaços com veículos em movimento. A Psicologia precisa abordar aspectos do planejamento urbano, como o uso do desenho universal, que visa a inclusão de todos nos espaços públicos sem adaptações posteriores, e a participação popular no Plano Diretor Participativo, que orienta a expansão urbana ➔ O Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001) visa ordenar o desenvolvimento urbano, com a criação de órgãos colegiados de política urbana nos níveis Federal, Estadual e Municipal. A lei destaca a importância de estudos de impactos sociais e ambientais, com a participação da população nas transformações urbanísticas. Psicólogos podem colaborar nesse processo, seja de forma autônoma ou em equipes de planejamento. ➔ A Política Nacional de Trânsito (PNT), promulgada em 2004, resultou de discussões envolvendo diferentes esferas de governo e a sociedade. Ela propõe uma abordagem integrada do trânsito, considerando desde o uso do solo até aspectos sociais, econômicos e de saúde. A PNT busca enfrentar esses problemas de forma multidisciplinar e é regulamentada pela Resolução Contran nº 514/2014. ➔ A Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei nº 12.587/2014) foi criada para orientar o desenvolvimento urbano, estabelecendo a criação de órgãos colegiados. Ela foca especialmente na política tarifária do transporte público urbano e na infraestrutura necessária para a mobilidade a pé e de bicicleta, visando melhorar a acessibilidade e a qualidade do transporte nas cidades. ❖ Educação e cidadania: ➔ No caderno Trânsito, questão de cidadania (BRASIL, 2004), o Ministério das Cidades aborda a segurança no trânsito, enfatizando a cidadania e a qualidade de vida. O acidente de trânsito é visto como evitável, com a responsabilidade compartilhada entre todos para melhorar a convivência nas vias. O documento destaca projetos educativos de trânsito em diferentes níveis de ensino, com foco na mudança de atitudes e comportamentos, além de tratar o trânsito no contexto do uso do solo e do transporte de pessoas e cargas. ➔ O exercício da cidadania envolve o conhecimento dos direitos e deveres, além da prática e vigilância para sua efetivação. Nesse contexto, psicólogos e psicólogas devem conhecer documentos relevantes para apoiar ações e investigações relacionadas à promoção da cidadania no trânsito. ➔ Não se pode falar em mobilidade humana sem que se incluam todas as pessoas, a fim de que possam acessar os equipamentos e bens públicos da cidade. ❖ Violência: ➔ A violência no trânsito é um problema global, e a Organização Mundial da Saúde lançou, em 2011, a Década Mundial pela Segurança no Trânsito. O Brasil, figurando entre os dez países com os maiores índices de mortes no trânsito, foi incluído no Projeto Segurança no Trânsito em Dez Cidades. O Mapa da Violência, publicado em 2013, revelou a evolução da violência no trânsito, com ênfase na mortalidade de motociclistas entre 1980 e 2011. Os dados apresentados ajudaram a analisar fatores relacionados aos acidentes de trânsito, que causam danos financeiros, sofrimento e sequelas físicas e psicológicas, destacando a necessidade de atenção, especialmente em relação aos acidentes com motocicletas. ➔ A violência no trânsito tem ganhado grande destaque, e, em janeiro de 2018, a Lei nº 13.624 alterou o Código de Trânsito Brasileiro, criando o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito. Esse plano estabeleceu o objetivo de reduzir em 50% as mortes no trânsito até 2028, reconhecendo a dificuldade de cumprir a meta anterior, acordada com a ONU, que visava a redução até 2020, no âmbito da Década Mundial de Segurança no Trânsito. ❖ O resgate histórico das políticas públicas de trânsito, especialmente no processo de formação de motoristas, revela que a demanda por conhecimentos psicológicos surgiu inicialmente para garantir a segurança pública. Até hoje, as instituições continuam a garantir a legalidade do exercício profissional dos psicólogos nesse contexto específico. ❖ A inserção dos psicólogos nas políticas públicas relacionadas ao espaço público, mobilidade urbana, educação e cidadania é essencial, mas exige o reconhecimento das diversas demandas sociais. A atuação dos psicólogos no trânsito precisa ser organizada e apoiada pelo Sistema Conselhos de Psicologia e outras associações profissionais, garantindo a promoção da saúde e qualidade de vida. O CFP e outras instituições têm desempenhado um papel importante nesse processo, buscando ampliar as possibilidades de atuação e garantindo a autonomia profissional dentro de um referencial ético-político. - Eixo 3: Psicologia, mobilidade humana e trânsito: dimensão técnica: ❖ A dimensão técnica do trabalho do psicólogo do trânsito, notadamente em três conjuntos de atividades, incluindo: a avaliação psicológica, a educação para o trânsito e a atividade docente na relação com mobilidade humana e trânsito. ❖ A base desse eixo, envolve diversas competências profissionais e a necessidade de construir e utilizar indicadores para avaliar tanto a atuação de psicólogos quanto às políticas públicas em que estão inseridos. A base para