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is O. va n- e CAPÍTULO III A AÇÃO CLÍNICA E A PERSPECTIVA e- FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL* ão de im ar ão Carmem Lúcia Brito Tavares Barreto** Henriette Tognetti Penha Morato*** ela do A ocupação do espaço psicológico pelos diversos sistemas produções teóricas e nas possibilidades de articulações e projetos não gerou proposta integrada conceitual e teori- transdisciplinares com suas implicações éticas e políticas. camente. Os sistemas de pensamento foram surgindo O panorama contemporâneo, ainda dominado pela quase ao mesmo tempo, configurando propostas diversas necessidade moderna de sínteses e respostas definitivas para para uma apreensão teórica com pretensões epistemoló- as questões centrais da Psicologia, depara-se com a frag- gicas de demarcação do "psicológico". Embora dirigidos mentação dos saberes psicológicos e aponta para a neces- preocupações aparentemente excludentes compor- sidade de revisitar as grandes contribuições das escolas e manifesto ou a experiência imediata do sujeito sistemas psicológicos, sem os vieses de uma compreensão tais sistemas não se apresentavam tão independentes já comprometida com as definições teórico-sistemáticas assim uns dos outros. Para além das diferenças, fazia-se desenvolvidas a partir delas. Tal posição legitima a atitude presente, reiteradamente, a necessidade de confirmar a de retomar a contribuição de um determinado autor sem de cada uma das posições particulares a fim a obrigação de manter-se fiel à "escola" derivada da sua de diversos sistemas se tornarem habitantes apropriados orientação e idéias psicológicas, possibilitando a elaboração mesmo espaço psicológico como campo de conheci- de outras compreensões contidas em sua proposta e que mento comum. permaneciam veladas pela imposição de interpretações que se tornaram sistemáticas. No entanto, a unificação do campo de saberes psicoló- É nesse contexto que a Fenomenologia e o Existencia- apresentou-se utópica diante da dispersão e fragmen- lismo marcaram de diferentes modos, direta ou indireta- dessa área de conhecimento. Segundo Penna (1997), mente, a psiquiatria, a Psicologia e, particularmente, o novo processo de dispersão acrescentou-se ao que já campo das práticas psicológicas. Mas, antes de explicitar campo do saber psicológico, com processo essas diferentes formas de influência que culminaram com de multiplicação de novas disciplinas como resultado do a elaboração da perspectiva fenomenológica existencial desdobramento de domínios tradicionais. Atualmente, em Psicologia, uma breve contextualização da idéia de preocupações centralizam-se na coerência interna das matrizes psicológicas, elaborada por Figueiredo (1996), poderá ajudar nessa reflexão, apontando para um lugar capítulo foi extraído de Barreto, CLBT: Ação Clínica e Fundamen- Existenciais, 2006. Teste de Doutorado em Psicologia próprio que essa perspectiva ocupa na Psicologia, para além e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Instituto de Psicologia da do plano dos projetos e sistemas psicológicos. Por tal razão, de São Paulo. O texto recorre à apresentação da pesquisadora optou-se por delinear as matrizes, que permitem traba- referindo-se à sua própria experiência no desenrolar da pesquisa; por vezes, tempo verbal aparece na pessoa do singular. lhar além das teorias e sistemas maneira mais adequada principal. e esclarecedora para se abordar a perspectiva fenomeno- da pesquisa. lógica existencial, tão acriteriosamente confundida com42 A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial a Psicologia humanista, com a Abordagem Centrada na processo objetivador, pois seus sujeitos não são Pessoa e a Gestalterapia. de autoneutralização. Sinteticamente, as matrizes do pensamento psicológico Por essa perspectiva, sua meta é a comunicação. Os têm por proposta compreender as concepções de homem, comunicativos seriam atos de indivíduos históricos e de mundo e de objeto da Psicologia que estão por trás ralmente datados numa articulação entre biografia dos diferentes projetos e sistemas psicológicos. Tal atitude dual e formas culturais, o que demandaria atitude almeja olhar os projetos e sistemas de Psicologia buscando ensiva como forma de desvelar a experiência vivida que tanto compreender as possibilidades de dispersão do manifesta pelos ou nos atos comunicativos. O sentido que campo da Psicologia quanto identificar algumas conflu- os sujeitos atribuiriam ao mundo e às experiências vivida ências e diferenças inconciliáveis. e expressas em seus atos comunicativos constituiria o Apresentam-se em dois grandes grupos. No primeiro, tivo das ciências do espírito. encontram-se as matrizes cientificistas, que, por desco- Enquanto os estruturalismos buscaram enfrentar a nhecerem a singularidade do sujeito, assumem, predo- de como fundamentar uma interpretação da verdade por minantemente, o modelo das ciências naturais. Buscam a meio do rigor metodológico, empenhando-se na formali- ordem natural e comportamental dos fenômenos psicoló- zação dos conceitos e dos procedimentos analíticos, a gicos e partem do pressuposto de que existe uma "verdade" pectiva fenomenológica existencial, de cunho que pode ser indicada por evidências e demonstrações, vai desenvolver-se como uma crítica à metafísica, suporte para confirmando assim a predominância do método científico. a constituição da ciência e da técnica moderna. Tal crítica Assumem um realismo ontológico que defende a crença foi dirigida aos significados legados pela metafísica para na realidade independente do sujeito que a conhece. Essa homem, mundo, pensamento, o ser, a verdade, seria a matriz dos projetos do Estruturalismo, do Funcio- o espaço, entre outras dimensões. Assim, antes de produzir nalismo e do Comportamentalismo. um método, engendrou nova ontologia, visando a outra via Num segundo grupo, encontram-se as matrizes român- de conhecimento fundada na episteme fenomenológica. ticas e pós-românticas, que reconhecem e sublinham a Diante de tal cenário, seria possível dirigir questiona- especificidade do sujeito. Elas reivindicam a independência mentos à prática psicológica refletindo-a como ação que da Psicologia diante das demais ciências, procurando novos poderia escapar do domínio da técnica, enveredando por cânones científicos que a legitimem. Denunciam a insu- outros caminhos, afastando-se de procedimentos prescri- ficiência dos métodos das ciências naturais para o estudo tivos voltados para o tratamento e a cura? Será que as consi- dos fenômenos psicológicos, privilegiando a experiência derações críticas, feitas por Heidegger, à ciência moderna subjetiva antes de qualquer racionalização e objetivação. e aos pressupostos norteadores da constituição da Psico- Nesse grupo, há uma perspectiva mais vitalista e natu- logia científica poderiam subsidiar tais reflexões sobre as ralista própria das Psicologias humanistas. Há, também, as práticas psicológicas? Heidegger (1966) considera a ciência um dos fenô- matrizes compreensivas, que congregam as raízes estrutu- menos essenciais da Idade Moderna e a técnica meca- ralistas da Psicologia da forma e da psicanálise, e a matriz nizada, o resultado mais visível da essência da técnica fenomenológica existencial. Ambas buscam encontrar moderna. Por toda atividade do homem respostas para problema da verdade e se apresentam moderno e contemporâneo está afinada por um único como ciências compreensivas. diapasão: a razão tecnológica. Nossa cultura está dominada Nessa direção convém, recorrendo a Dilthey (1883- por essa perspectiva, e, no sentido corrente, apreende-se 1911), distinguir as ciências históricas, fundamentadas no a técnica na sua dimensão instrumental, possibilitando à método das ciências natu- ação humana atingir determinados fins regidos pelo prin- rais, baseadas, por sua vez, no método explicativo das ciên- cípio de causalidade. Isso significa que assumimos real e cias causais com a elaboração de leis gerais distinção a natureza como grande fundo de reserva, disponível para que postula diferentes orientações ontológicas e episte- extração e obtenção, transformação e acumulação, sob o mológicas. Assim, Dilthey definiu as ciências naturais comando da previsão e do cálculo. como ciências explicativas, ressaltando fato de estarem Por sua vez, a compreensão da condição humana prove- submetidas à previsão e ao controle. Quanto às históricas, niente do modo de pensar heideggeriano levanta questio- consideradas ciências do espírito, não se submetem a um namentos sobre o mostrar-se do ser-homem e o acessoA Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial 43 que este exige a partir de sua singularidade, denunciando da vontade do homem, não pode ser estudado pela ciência. insuficiência do conhecimento científico-natural para Assim, como pensar a ação clínica, intervenção própria do compreender ser-homem específico. O ser exige uma psicólogo, limitada unicamente pelos ditames das ciên- identificação própria, que não significa abandonar a cias naturais (ônticas) que ainda predominam nas ciên- ciência, mas "chegar a uma ação refletida, conhecedora cias humanas? Os pressupostos ontológicos, via método com a ciência e verdadeiramente meditar sobre seus fenomenológico, por meio da hermenêutica, poderiam (HEIDEGGER, 2001, p. 45). ampliar a intervenção clínica do psicólogo, permitindo o No entanto, conhecimentos científicos naturais foram acesso ao sentido do existir em uma existência particular? aplicados à Psicologia sem nenhuma consideração à especi- Sendo assim, a situação clínica demanda compreensão das ficidade do ser-homem. Tal aplicação pode responder pelo dimensões ônticas e ontológicas, assentando-se no trânsito suceder e pelas mudanças no psíquico, mas não pelo que é possível convergência entre essas duas dimensões? psíquico. Essa resposta não se fundamenta no princípio da Na busca desse outro modo de pensar a ação clínica causalidade idéia que faz parte da estrutura do ser da natu- é que me debruço sobre pensamento heideggeriano, Os fenômenos psíquicos, para serem vislumbrados, considerando não somente a crítica que apresenta a razão exigem outro modo de aproximação: supõem, segundo tecnológica, mas também o modo como pensou ser do Heidegger, a motivação, que "se refere à existência do homem em sua analítica da existência. homem no mundo como um ente que age, que tem expe- Ao considerar o desamparo e a angústia como estru- (HEIDEGGER, 2001, p. 51). Assim, apesar de turas ontológicas do modo de ser do homem (Dasein), ser humano constituir-se como ser de necessidade enrai- compreende que ser humano está lançado em um mundo no mundo natural e de estar inserido numa sociedade inóspito na condição de exilado, acossado para dar conta pelas condições socioculturais, ele pode ir além da do seu acontecer humano. Tais estruturas, consideradas que o atravessa e além das determinações socio- Pode reposicionar-se diante daquilo que chega até por Heidegger existenciais, não podem ser explicadas por seja pela natureza, seja pelo social, já que o modo de se mecanismos psicológicos, já que, como estruturas ontoló- abordar o ser humano não é pelo princípio da causalidade, gicas fundamentais do homem, são as condições de possi- pela motivação o que motiva o gesto. bilidade do acontecer dos fenômenos psicológicos. As ciências naturais estão atreladas a "premissas" que Compreensão assim permite dizer que o sofrimento as coisas por meio de conclusões. Por tal concepção, humano, apesar de sua manifestação na esfera do psico- ponto de partida das ciências naturais é a relação lógica lógico, demanda abertura à dimensão originária, ou onto- premissa e conclusão. Mas esse acesso de observação lógica, do acontecer humano. Tal dimensão leva a ir-se à exigência da singularidade do ser-homem? para além do nível das técnicas e das teorias psicológicas Ao levantar esse questionamento, Heidegger recorre à fundadas em pressupostos metafísicos da subjetividade; entre premissa e suposição e indica que essa última, aponta para a emergência de uma ação clínica que transite não derivar da relação lógica entre premissa e conclusão, entre a compreensão psicológica dos fenômenos clínicos atender às exigências da singularidade do ser-homem. e a ontologia existencial ao modo de Heidegger. Sendo ele, "na suposição a observação científica do respectivo assim, poderia ser constituída por uma abertura do olhar é fundamentada no suposto. Aqui não se trata de clínico que, "afinado" por preocupações filosóficas acerca relação lógica, mas sim ontológica" (HEIDEGGER, do homem, vislumbrasse outra ótica no horizonte no qual 57, grifos do autor). Na relação ontológica, o ponto o ser humano fosse compreendido na condição de ser-no- partida é o pressuposto trata-se de uma circunstância, Tal possibilidade já não subordi- de um fundamento lógico -, ele é a razão de ser (rato nada a pressupostos ontológicos metafísicos talvez apon- mas não a causa. Nas ciências naturais, o âmbito tasse um "novo paradigma" para a Psicologia clínica, no já é preestabelecido, o que não acontece com o ser, sentido específico de Thomas Kuhn.¹ embora possa ser pré-clareado, não pode ser espacial- pensado, pois não é um ente. noção de paradigma utilizada é a de Kuhn (1970) em seu livro A estru- tura das revoluções Para Kuhn (1970), uma disciplina científica Diante do exposto, delineia-se a impossibilidade de é definida por seus paradigmas, que são científicas universal- ser pela ciência natural, a partir de premissas mente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e por conclusões causais. O ser, por não depender soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência" (KUHN, 1970, p. 13).44 A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial No mesmo rumo dessa reflexão, encontro questiona- a discussão, explicitando, graficamente, a compreensão da mentos semelhantes em outros autores. Loparic (1997), existência humana, constituída como Dasein em contrapo- por exemplo, ao questionar a metapsicologia freudiana, sição às representações da psique, da consciência e do eu. apresenta a necessidade da desconstrução heideggeriana presentes na Psicologia e na psiquiatria clássicas. da Psicanálise, ressaltando que "os pontos de vista metapsi- Na Fig. 3.1, a seta vinda de um espaço aberto, vazio, em cológicos não são originária e genuinamente' da direção a um horizonte semifechado, significa a tentativa estrutura do ser do ser humano, mas das teorias metafí- de apontar a diferença conceitual entre a sua ontologia sicas" (LOPARIC, 1997, p. 12, aspas do autor). Na mesma do ser humano e a proposta pela metafísica. Referindo-se linha de pensamento, Loparic atribui à obra de Winnicott à forma gráfica, Heidegger (2001, 33, grifos do autor) o estatuto de revolução paradigmática: diz: [...] Winnicott modificou também a matriz dis- A finalidade deste desenho é apenas mostrar que ciplinar. Ele rejeitou ou modificou significativa- o existir humano em seu fundamento essencial mente o emprego de conceitos fundamentais tais nunca é apenas um objeto simplesmente presen- como sujeito, objeto, relação de objeto, pulsão te num lugar qualquer, e certamente não é um (vontade, impulso), representação mental, meca- objeto encerrado em si. Ao contrário, este existir nismo mental, força pulsional. No seu lugar e no consiste em 'meras' possibilidades de apreensão da teoria do desenvolvimento sexual, ele colocou que apontam ao que lhe fala e encontra e não a teoria do amadurecimento humano, assim como podem ser apreendidas pela visão ou pelo tato. To- uma série de conceitos básicos novos a serem usa- das as representações encapsuladas objetivantes de dos, doravante, no estudo de problemas antigos. uma psique, um sujeito, uma pessoa, um eu, uma (LOPARIC, 1997, p. 58) consciência, usadas até hoje na Psicologia e na psi- copatologia, devem desaparecer da visão daseinsa- Medard Boss (apud HEIDEGGER, 2001, p. 7), nalítica em favor de uma compreensão completa- inquieto com rumos da psiquiatria clássica e preocu- mente diferente. A constituição fundamental do pado com "extremo perigo no qual se encontra próprio existir humano a ser considerada daqui por diante ser-humano do homem atual", que não pode ser captado se chamará 'Da-sein' ou com a ajuda das atuais ciências da medicina, Psicologia e sociologia, inicia uma reflexão, objetivando romper com Os elementos contidos nesse texto indicam os aspectos modo de pensar ocidental moldado por Descartes. Nessa centrais da estrutura ontológica de ser do ser humano linha de pensamento, encontrou amparo no pensamento proposta por Heidegger, em contraposição à objetivação de Martin Heidegger, que não só reconhecia perigo em naturalista vinculada à metafísica da subjetividade presente que espírito tecnocrata colocara homem, mas também nos projetos de constituição da Psicologia como ciência apontava para outra possibilidade de relacionamento independente. com a realidade. Assim, começou uma formação filosó- Tais considerações apontam para a possibilidade de fica com Heidegger a qual teria tornado possível, segundo outra compreensão da ação clínica do psicólogo. Nessa o próprio Boss (1977, p. 8), "a remodelação da teoria e prática terapêutica dentro da minha atividade médica, para a análise do Dasein". Nos seminários de Zollikon,² Boss (apud HEIDEGGER, 2001) busca uma abertura para a discussão dessa temática. Heidegger (2001) inicia realizados em Zollikon (1959-1969) por Heidegger e editados por Medard Boss em número superior a 20. Contaram com a participação de a 70 estudantes e assistentes de psiquiatria. No conjunto desses even- tos, Heidegger propunha buscar a possibilidade de os seus insights filosóficos ultrapassarem as salas dos filósofos, beneficiarem pessoas que necessitassem de ajuda, enquanto Boss propunha buscar fundamento sólido para uma compreensão satisfatória de seus pacientes e de seus mundos. Fig. 3.1A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial 45 direção serão visitadas as principais contribuições para a base filosófica e as diretrizes metodológicas de sua proposta. consolidação da perspectiva fenomenológica existencial Descontente com atrelamento da psiquiatria clássica às como ciência compreensiva, e que poderão respaldar a ciências naturais e reconhecendo o caráter específico da ação clínica do psicólogo. existência humana, apoiou-se na "desconstrução" empre- pioneiro a se ocupar com as ciências compreensivas endida por Heidegger da idéia fundamental da episteme por sua vivência na prática clínica, mais precisamente na metafísica para considerar que a divisão do mundo em e na psiquiatria, foi Karl Jaspers (1883- objeto e sujeito trazia sérios danos à psiquiatria; quali- 1969), seguidor da mesma tradição de Dilthey quanto ficou-a inclusive de "câncer da Na verdade, dese- distinção entre explicação e compreensão. Trabalhou java suprimir essa divisão no pensamento psiquiátrico. com o método fenomenológico de Husserl na dimensão Para isso chegou a fazer uma descrição daseinsanalítica de descritiva dos fenômenos da consciência e propôs enfocar numerosos casos de esquizofrenia, apoiando-se na apresen- "captação" e a "descrição" dos estados psíquicos vividos tação heideggeriana da estrutura da existência como ser- pelos pacientes. Assim, atentou para a complexidade da no-mundo,³ a qual lhe permitiria superar não só a velha reconhecendo que os fenômenos humanos dicotomia entre sujeito e objeto, mas também o defeito só são explicáveis por meio do modelo explicativo fatal de toda a Psicologia representado pela manutenção causal da ciência natural, mas também compreensíveis da referida dicotomia. interpretáveis, a fim de se estabelecerem conexões de Baseado em tais pressupostos, compreendeu a doença sentido entre os fenômenos, de modo a tornar acessível mental como modificações da estrutura fundamental do lógica interna. ser-no-mundo e apontou a importância das dimensões É com relação a essa última dimensão da sua psico- de espacialização e temporalização da existência para a que, segundo Cardinalli (2004), Jaspers consi- compreensão das enfermidades mentais, que, por sua vez, sua proposta uma "Psicologia já passariam a ser descritas como flexões da estrutura onto- além da descrição fenomenológica da vivência dos lógica do ser. também buscava o que denominava "conexões Ao assumir tal fundamento, encaminhou a prática Sendo assim, sua contribuição foi bastante para a constituição da matriz fenomenoló- da análise existencial à compreensão da espacialização e temporalização, contextualizando a concepção de mundo existencial do pensamento psicológico, sobretudo por que orienta uma forma determinada de existência ou sua a busca de fundamentos filosóficos considerados pertinentes à compreensão do acontecer humano em configuração individual. Nesse enfoque, a ação clínica dos fundamentos oferecidos pelas ciências naturais. objetivava proporcionar ao próprio sujeito compreensão uestionou, então, modelo explicativo causal proposto do seu modo de ser-no-mundo, abrindo-lhe possibilidades ciência natural para estudo dos fenômenos humanos para novas formas de existir, e devolver-lhe a capacidade de dispor das possibilidades próprias e mais autênticas. encontrou, na perspectiva fenomenológica, possibili- para o esclarecimento e a descrição daquilo vivido Assim, o objetivo da perspectiva analítica existencial não experienciado pelo paciente. era a cura nem fazer uma adaptação tranqüila, mas propi- Ludwig Binswanger (1881-1966) foi outro estudioso ciar ao cliente a autocompreensão e, por ela, uma atitude por sua prática clínica a dirigir-se à perspec- de responsabilidade e preocupação para com a própria existência. fenomenológica existencial. Seus primeiros trabalhos influência da fenomenologia husserliana quando Em seus estudos sobre as formas da existência Dasein woltou ao estudo da descrição e da compreensão das esquizofrênica, Binswanger buscou, além da descrição patológicas relativas aos estados de consciência. clínico-psiquiátrica da sintomatologia dos casos estudados, tarde, já sob a influência de Heidegger, inaugurou a compreensão existencial-analítica das transformações modo de abordar fenômenos patológicos, deno- dos modos da existência humana em geral. Seu objetivo minado existencial ou daseinsanalítico, e ocupou-se em era retirar a esquizofrenia do juízo de valor biológico e da projeto de mundo dos pacientes. Ele denominou Análise Existencial a escola de pensa- ³De acordo com Nunes (2002), ser-no-mundo pertence ao Dasein, "a re- lação com mundo é um engajamento pré-reflexivo, que se cumpre in- que desenvolveu (no livro Existência, de Rollo May, dependentemente do sujeito por um liame mais primitivo e fundamental e apontou a Análise do ser, de Heidegger, como a do que o nexo entre sujeito e objeto admitido pela teoria do conhecimen- to" (p. 14).46 A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial perspectiva médico-psiquiátrica da doença e da morbidez. estritamente ontológico, ou seja, a constituição funda- Buscava transportar a compreensão da esquizofrenia "para mental da existência humana foi considerada em seu quadro mais amplo da estrutura existencial ou do ser-no- significado puramente ôntico. O cuidado como condição mundo, cujo a priori foi à luz' por Heidegger em constituinte fundamental (ontológica) do existir humano sua analítica existencial" (BINSWANGER, 1977, p. 9). não exclui as diversas formas de relações afetivas, como as Nesse processo investigatório, ocupou-se com a estru- inclui, constituindo-se a condição fundamental de todas tura ôntica de determinadas formas e transformações as possibilidades de comportamento concreto. existenciais, destacando três estruturas distintas do ser-aí frustrado: extravagância, excentricidade e amaneiramento. Essa ampliação e a psiquiatria analítica, de Binswanger, Preocupado com as peculiaridades essenciais de cada uma, foram duramente criticadas por Heidegger. Nos Seminá- rios de Zollikon (2001), quando se referiu ao "mal-enten- apresentou-as da seguinte forma: Para facilitar a compreensão, observe-se de an- dido produtivo" de Binswanger, Heidegger apontou que temão que ressaltamos como essencial para a ex- Dasein não tem nada a ver com postura solipsista; ele travagância a desproporção entre a "amplidão da é determinado como ser-uns-com-os-outros original. Ao experiência" e a "elevação da problemática" da fundamentar sua crítica, considerou que: existência humana, ou, para falar com Ibsen, a O mal-entendido de Binswanger não consiste tan- desproporção entre a elevação da capacidade de to em que ele quer complementar o "cuidado" construir e a da própria capacidade de subir. Para pelo amor, mas, sim, no fato de que ele não vê que a excentricidade, porém, consideramos essencial o cuidado tem um sentido existencial, isto é, on- a desproporção dos contextos referenciais mun- tológico, que a analítica do Dasein pergunta pela danos no sentido do "través" ("Quere"). O que se constituição fundamental ontológica (existencial) mostrou essencial para amaneiramento foi, por e não quer simplesmente descrever fenômenos ôn- sua vez, o sentimento desesperado e medroso de ticos do Dasein. Já o projeto abrangente de ser- não poder ou não saber, ser-se-a-si-mesmo, junta- homem como Dasein no sentido ek-stático é on- mente com a busca de apoio numa imagem (Vor- tológico, pelo qual a representação do ser-homem Bild) e tomada ao domínio público da "Gente" como da é superado. (Man) e a hiperenfatização dessa imagem modelar Este projeto torna visível a compreensão do ser como com o fim de ocultar o desenraizamento, o mun- constituição fundamental do Dasein". (BINSWAN- do inseguro e a situação de ameaça da existência. GER, 2001, p. 142, destaques do autor) Para terminar, observemos mais uma vez expres- samente que o decaimento no sentido de Heideg- Reconhecido o erro, Binswanger parou de qualificar as ger desempenha papel decisivo em todas as nossas pesquisas em andamento de "daseinsanalíticas" e voltou formas de existência frustrada. (BINSWANGER, à posição defendida por Husserl, que mantinha a noção 1977, p. 11-12) de consciência subjetiva existente primordialmente em si. Nessa posição, deu outro nome à nova orientação de Para acompanhar o modo de Binswanger interpretar pesquisa que desenvolvia: "fenomenologia antropoló- a analítica do Dasein, é necessário analisar a "ampliação" gica". que apresentou da perspectiva heideggeriana. Ele acres- Apesar das críticas, os estudos de Binswanger impulsio- centou à estrutura de ser-no-mundo (cuidado) a estrutura naram outros psiquiatras e psicanalistas entre quais de (amor). Tal ampliação Medard Boss (1903-1990) a se aproximarem da analí- contemplaria a necessidade de complementar "cuidado" tica existencial, de Heidegger, para 0 estudo das pato- (Sorge), vislumbrado por ele como "sombria finitude", por logias psiquiátricas. Certamente existia, desde início, meio de um tratado sobre amor, compreendido como uma diferença importante entre suas motivações: enquanto "abertura eterna" da existência humana não proporcio- Binswanger dirigiu-se para pensamento de Heidegger nada pela resolutidade antecipada da morte do ser-no- por um "impulso e não por interesse de ordem mundo. Essa preocupação indica, por si só, que a dimensão terapêutica, Boss orientou sua escolha, sobretudo, por de "cuidado" compreendida por Heidegger em sentido preocupações terapêuticas.A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial 47 Graças ao acompanhamento pessoal de Heidegger desde mentos epistemológicos das psicoterapias vigentes, inclu- 1947, Boss encaminhou-se para um pensamento funda- sive da psicanálise freudiana. Considerou que todas eram mentalmente novo na psicopatologia, o qual abriu novos ainda tributárias de um embasamento científico técnico caminhos para a aproximação da medicina e da Psico- demais para apreender a condição da existência humana, Essa orientação foi, antes de tudo, nova abordagem que demandava ser compreendida, e não explicada, por de ordem fenomenológica do conjunto de fenômenos pressupostos naturalistas e cientificistas. considerados normais e patológicos do existir humano. Boss (1977), ao elaborar críticas às idéias das teorias Sua proposta: "ver sem deformações aquilo que se mostra psicológicas vigentes, reconheceu a inconsistência da nós de si-mesmo" -, aparentemente simples, mas de mentalidade dinâmica dominante, que, ao objetivar difícil consecução, pois exige de nós um "desaprender" das homem, priorizava a explicação dos fenômenos psicoló- exigências científicas de nossa cultura ocidental, conforme gicos a partir de determinações causais genéricas. Propôs, muito bem nos diz Fernando Pessoa: então, o abandono das mencionadas teorias psicológicas Mas isso (triste de nós que trazemos a alma ves- e sugeriu nova perspectiva para a psicoterapia na medi- tida!), cina clínica, norteada pela preservação devido respeito Isso exige um estudo profundo, diante da autenticidade e originalidade dada de cada fenô- Uma aprendizagem de desaprender meno humano. Temos que permitir que exista o que se E uma seqüestração na liberdade daquele con- manifesta, como aquilo que ele mesmo revela" (BOSS, vento 1977, p. 25). De que os poetas dizem que as estrelas são as frei- Nas suas críticas, alegava que psicólogos baseavam as ras eternas determinações em conceitos que partiam da compreensão E as flores as penitentes convictas de um só dia, de sujeito separado de mundo: o sujeito em si encami- Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas nhando-se para os objetos do mundo a fim de compre- Nem as flores senão flores, endê-los e conhecê-los. Ele refutava tal compreensão, Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flo- porque sua experiência imediata mostrava não ser neces- res. (ALBERTO CAEIRO apud FERNANDO sário esse sair do interior de uma psique por não existir PESSOA. 1952, p. 48) tal interior. Não existe sujeito separado de mundo: "já nos encontramos 'fora', estirados na abertura deste âmbito Insatisfeito com a prática da psiquiatria clínica, Boss do mundo, aberto e aclarado a nós, na compreensão do partiu para um questionamento crítico das teorias psico- encontro comum" (BOSS, 1977, p. 38). lógicas e psiquiátricas que mantinham os fundamentos Com o intuito de fundamentar sua posição, Boss da ciência da natureza, buscando encontrar, na onto- recorreu aos estudos realizados sob a orientação de Heide- logia heideggeriana, possibilidades mais adequadas para gger, nos famosos Seminários de Zollikon (1959-1969). compreender acontecer humano. Neles, a ciência, enquanto modelo epistemológico domi- Por essa forma de pensar, a condição humana de existir, nante, fora criticada por não levar em conta a diferença originalmente fundada na fluidez constante e na mutabi- ontológica entre ser e ente, ponto de partida da perspectiva lidade, não pode ser reduzida à natureza humana, ou seja, heideggeriana. Para a ciência, âmbito objetivo já estava à simples presença entificada do ser. Constitui-se como previamente estabelecido e só o método científico propor- Dasein, lançado no mundo, um ter-que-ser, cujo cionaria a verdade objetiva. Mas tal concepção não se apli- modo de ser não é da realização, mas o da possibili- cava ao ser, que, não sendo nenhum ente, não pode ser dade como abertura para ser no horizonte da tempo- vislumbrado pela ciência, pois exige identificação própria, ralidade. "não depende da vontade do homem e não pode ser estu- Assim, Boss foi elaborando sua contribuição com a dado pela ciência" (HEIDEGGER, 2001, p. 45). fenomenologia hermenêutica no campo da medicina e, Assim, Boss, após analisar as teorias psicanalíticas e especialmente, da psicopatologia e Psicologia. Por esse psiquiátricas clássicas e questionar-lhes fundamentos caminho, foi confirmando seu afastamento da metaPsi- filosóficos para pensar o acontecer humano, procurou cologia freudiana e assumindo o universo da fenomeno- explicitar a natureza existencial do fenômeno psicológico, logia existencial. Durante tal processo, reviu funda- articulando-a à compreensão do existir humano como48 A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial Dasein. Comparou, ao modo de Heidegger, a "essência" os nexos causais psicodinâmicos dos fenômenos psíquicos, da existência humana com uma clareira que consiste em colocando em segundo plano a compreensão a partir dos um poder ver que vem ao seu encontro. Assim, existir fenômenos observados. Por esse caminho, a Psicologia, a humano é um "ek-stare", que, como abertura ilumina- psicoterapia e a psicopatologia continuariam comprome- dora, está em livre relação com o que se oferece na aber- tidas com o pensamento técnico de Freud, pois, mesmo tura iluminadora de seu mundo. Ao mesmo tempo, o ao substituírem "psique" por alma, sujeito ou pessoa, não existir humano se apresenta primordialmente como ser- estariam rompendo com pensar tecnológico que objeti- em-relação e vive tempo que lhe é dado, situando-se em vava 0 ser humano. A angústia e culpa continuavam enten- relação ao que aparece, correspondendo-lhe seja no modo didas como "defeitos" do aparelho psíquico que impedem da percepção ou da ação. o funcionamento adequado das estruturas psíquicas e das Sob esse ângulo, desenvolveu reflexões em torno da organizações sociais; devem, portanto, ser eliminados. Tal angústia e da culpa, por considerá-las os fenômenos crítica estendia-se também às teorias psicológicas acerca humanos mais significativos e dominantes na vida dos seres da personalidade, as quais, orientadas pelo modelo de humanos, em razão da sua significância no processo do operação mental da ciência da natureza, enfatizavam a adoecimento e no terapêutico. Como forma de confirmar ordem cronológica dos fenômenos como cadeia causal. tal lugar significativo, apontou que a presença dos referidos Boss (1977) reconhecia que essa compreensão impli- fenômenos nos processos de adoecimento era já reconhe- caria perder de vista os próprios fenômenos da existência cida desde final do século anterior, tanto nos "sinais humana que não pudessem ser apreendidos, unicamente, ruidosos e obstinados das histéricas" quanto nos quadros pelas explicações causais genéricas psicodinâmicas. Sugeria, de fobias, nas neuroses obsessivas e, principalmente, nas assim, a necessidade de nova reflexão para campo da "indisposições depressivas" e melancolias. Psicologia, da psicoterapia e da psicopatologia, possível de Partindo de sua experiência clínica, observou a inci- se resumir na seguinte proposta: desistir de decompor o dência cada vez maior de pessoas sofrendo de vaga opressão ser humano com a ajuda das teorias psicológicas vigentes, e de tédio diante da vida, diferentemente da predomi- buscando-se recuperar o devido respeito à autenticidade nância dos grandes fenômenos histéricos presentes nas de cada fenômeno humano. Para isso, seria necessária uma neuroses manifestas desde a época de Charcot e Freud até atitude que não explicasse a priori os fenômenos psico- a Primeira Guerra, seguidas das neuroses orgânicas que lógicos, abrindo-se mão do pensar analítico e da tenta- falavam a linguagem dos distúrbios funcionais: cardíacos, tiva de encontrar possíveis causas por detrás dos fenô- gástricos, intestinais. A neurose do tédio ou vazio, que menos. Apontava, assim, para a constituição de novo olhar denominou "neurose do futuro imediato", estava asso- clínico investigativo que buscaria interrogar os próprios ciada à prepotência atual da tecnologia, revelando que o fenômenos de angústia e culpa sobre que expusessem distúrbio da abertura para mundo do ser-aí (Dasein) seria imediatamente. em verdade tédio. Nessa condição, as pessoas permane- Por tal compreensão, Boss (1977) percebeu que a ciam indiferentes a tudo, sentiam tempo comprido:⁴ angústia e a culpa propõem algumas questões fundamen- passado, o presente e futuro pareciam não ter mais nada talmente próprias, de cuja resposta depende a compreensão a dizer, que revelava um significativo comprometimento do sentido dessas manifestações: "cada angústia humana da temporalidade na neurose de tédio. Nela, "todo tédio tem um 'de do qual ela tem medo, e um 'pelo comum, desde logo, inclui aquilo que exprime a própria pelo qual ela teme. Cada culpa tem um 'o quê' que ela palavra, um sofrer do tempo vagaroso, uma secreta saudade 'deve', e um 'credor' ao qual ela está devendo" (BOSS, de estar abrigado num lugar tão almejado quando inaces- 1977, p. 26, destaques do autor). sível, ou por uma pessoa querida e distante" (BOSS, 1977, Nesse sentido, analisou as situações geradoras de 17). angústia apresentadas pelas teorias psicológicas, mostrando Ao lado de tais reflexões, Boss alertava para perigo que, para além de todas as significações e explicações possí- de 0 espírito tecnocrata continuar aprisionando os pensa- veis, a angústia é inerente à vida, traz à luz medo pelo mentos e as ações clínicas que, desde Freud, priorizavam estar e medo da destruição de estar-aí. Do mesmo modo, desmontou as compreensões psicologizantes sobre a palavra alemã Langwewle, tédio, se decompõe em a culpa, indicando que se baseavam na "aplicação errônea Lang (comprido) e Weile (o tempo, a duração). daquela operação mental científico-naturalista a qual querA Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial declarar como sendo anterior à causa efetiva do posterior mento de doentes" (BOSS, 1977, p. 52). Tais práticas, só pelo fato de ter surgido antes" (BOSS, 1977, p. 29). segundo autor, não conseguiriam cumprir as esperanças Para isso, partiu da significação arcaica alemã da palavra nelas depositadas, pois necessitavam de uma "correção "culpa" (Schuld) "aquilo que carece e falta" para consi- fenomenológica" das interpretações teóricas decorrentes, derar a experiência de culpa também como algo próprio, para se afastarem das antigas técnicas psicanalíticas, por originário da condição humana. Segundo ele mesmo meio das quais a superestrutura secundária da metaPsicologia afirmou: freudiana poderia distorcer a prática clínica. o ser humano é essencialmente culpado e assim Assim, propôs uma prática psicoterápica que buscaria permanece até a morte, pois sua essência não se levar 0 cliente a participar da compreensão da sua condição realiza antes de ele ter levado a termo todas as humana básica numa relação em que o terapeuta, por uma possibilidades de explorações provenientes de seu "ação de cuidado compreendesse a "essência" futuro e antes de ele ter deixado desabrochar os singular de cada cliente. Denominou essa dimensão da âmbitos do mundo que aparecem na luz de sua relação terapêutica "eros que "ainda não existência. Mas, o futuro do ser humano, ele só o foi descrito suficientemente do ponto de vista científico- alcança completamente no momento da morte. fenomenológico nos compêndios de psicoterapia" (BOSS, (BOSS, 1977, p. 40) 1977, p. 43). Acreditava, ainda, não ser possível chegar ao "eros psicológico" por meio de reflexão teórica, mas, sim, Encaminhava-se, assim, para outra reflexão de Psicologia da experiência imediata de análise didática. de psicoterapia denominada Daseinsanalyse, fundada nas Então, para ele, a prática psicoterápica precisaria seguintes considerações: envolver-se com um procedimento co-humano criativo, Por tudo que vimos até agora, fica claro o domínio não-apreensível por teorias que descendessem do subjeti- quase total, no campo da Psicologia, psicopatologia vismo e do conceito cartesiano de homem e de seu mundo. e psicoterapia, da mentalidade dinâmica que objeti- Para se alcançar essa nova compreensão, seria preciso dar va o homem e que opera em cadeias de causa e efei- um salto indispensável: do subjetivismo e psicologismo to; também não resta dúvida quanto a sua ineren- abstrato das ciências humanas, derivadas do pensamento te inconsistência e falta de base. Com a apressada moderno, para uma atitude de abertura ao mundo que elaboração de forças e causas que atuam por detrás ampara e guarda seu aparecimento. Tal salto romperia com dos fenômenos, desde logo perdemos os próprios as interpretações teóricas fundamentadas na Psicologia fenômenos da vida. [...] Ao contrário, partindo-se subjetivista, possessiva e tecnicista e assumiria o modo de da coisa em si, desde logo, é bem provável que os ver e conhecer fenomenológico, segundo o qual a prática fenômenos do nosso mundo, cada vez mais des- psicoterápica diria respeito: fraldados, saibam nos dizer mais, e mais detalhada ao fato de ela mesma ser livre e de permitir aos e distintamente sobre sua essência. Por isso, temos homens tornarem-se livres dentro dela. Como psi- também que nos guardar de querer sempre expli- coterapeutas queremos, no fundo, libertar todos car a priori os fenômenos de angústia e culpa hu- os nossos pacientes para si mesmos [...]. Com a manos, em nosso pensar analítico, com quaisquer libertação psicoterápica, queremos levar nossos causas meramente supostas por detrás deles. Antes pacientes "apenas" a aceitar suas possibilidades de interroguemos os próprios fenômenos intactos de vida como próprias e dispor delas livremente e angústia e culpa sobre 0 conteúdo que expõem ime- com responsabilidade. Isso quer dizer também que diatamente. (BOSS, 1977, p. 25-26) nós queremos que eles criem coragem de levar a termo suas possibilidades de relacionamento co- Conforme Boss (1977) argumentava, tanto as teorias humanos e sociais de acordo com a sua consciência psicológicas quanto a metaPsicologia freudiana, funda- intrínseca e não como pseudoconsciência imposta mentadas no modo técnico-científico-natural, através de por qualquer um. (BOSS, 1977, p. 61) cadeias causais dinâmicas, originaram práticas psicotera- que ignoravam "sentido e meta; constituindo-se Visitadas as principais contribuições para a constituição em aplicação de uma ciência sobre homem no trata- da perspectiva fenomenológica existencial em Psicologia,50 A Ação Clínica e a Perspectiva Fenomenológica Existencial retomo os questionamentos iniciais que apontavam para Acompanhar cliente nessa passagem significa assumir a a necessidade de outras possibilidades e concepções de tarefa de tornar explícita, para o cliente, a posse do sentido clínica psicológica e ensaio algumas reflexões que foram de sua dor e das suas possibilidades negadas. Nessa compre- se configurando diante da perplexidade do acontecer da ensão, não há nenhum direcionamento, mas a quebra das singularidade humana, a qual põe em xeque a universali- habitualidades abre fissuras que são o fôlego de possíveis dade do conhecimento psicológico na situação clínica. mudanças, transformando acontecer clínico em expe- Cada ser humano é único e singular; exige do profis- riência em ação, constituída por "aceitar simplesmente sional de Psicologia abertura ao inusitado, à reinvenção aquilo que se mostra no fenômeno do tornar presente e da sua forma de trabalhar, à revisitação da teoria psicoló- nada mais" (HEIDEGGER, 2001, p. 101). gica e da concepção de subjetividade que sustentam sua Apesar de tal atitude, resgatar o simples requer a silen- proposta de intervenção clínica. ciosa vigília em que ele se manifesta. Essa vigília pode Além desse registro singular da experiência de cada retirar o homem da submissão ao universo-já-dado, que, cliente, o acontecer humano demanda do clínico acolher assumido como natural e único possível onde tudo é expli- a constituição originária do homem, pois nela pode vir à cado e tem um fim já estabelecido, oferece ao homem a luz todo e qualquer fenômeno afetivo-emocional. "garantia" de manipulação e controle, defendendo-o de não Assim, a ação clínica pode ser repensada como um se confrontar com o espaço vazio onde precisa se inventar, espaço aberto, condição de possibilidade para a emergência arriscar, comprometer e construir. Condição que desvela a de uma transformação não produzida, mas emergente em irremediável contingência da existência humana e a inevi- forma de reflexão, aqui compreendida como quebra⁵ do tável ambivalência de todas as opções, identidades e projetos estabelecido e condição necessária para novo olhar poder de vida; contingência e ambivalência que desvelam o provi- emergir. Esse novo olhar, ao desalojar o homem da sua sório da condição humana, a qual a mentalidade moderna habitual relação com mundo e a consciência, abre um buscou suprimir, gerando uma verdadeira "intolerância" a espaço que só aparece quando habitual é desconstruído e tudo que não pode ser definido, classificado, ordenado. o homem (Dasein) se descobre entregue à tarefa inexorável Em tal condição, existir, convertido em objeto, desenraíza- de "ter-que-ser". Essa quebra do habitual pode vir a acon- se de si mesmo, "na medida em que, sob o signo da eficiência tecer quando o homem começa a ceder ao apelo dos traços e da do ser', homem se desencarrega, se des- fundantes e constitutivos (ontológicos) do nosso modo empenha do existir" (CRITELLI, 1988, p. 85). de ser. O apelo aparece nas brechas da nossa existência A ação clínica, transitando entre 0 ôntico e o ontoló- superficial via "acontecimentos" que, ao provocar ruptura gico, teria como tarefa intervir nessa "tragédia" e dar opor- e transição, destroçam e fundam mundos. Tal rompimento tunidade ao poder-ser por meio do apropriar-se da proprie- possibilita mudança e transformação ao abrir a crise que dade e da impropriedade, próprias da condição humana, aniquila e leva o "aí" a constituir-se outro. na busca de existir com serenidade, numa constante aber- tura ao mistério. De acordo com Heidegger (1957, p. 25), "a serenidade em relação às coisas e a abertura ao segredo ⁵Para Heidegger (1960, p. 68), a "Reflexão é valor de se converter no mais são inseparáveis. Concede-nos a possibilidade de estarmos discutível, a verdade dos próprios axiomas e âmbito dos próprios fins". no mundo de um modo completamente REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARRETO, CLBT. A ação clínica e os pressupostos fenome- CARDINALLI, IE. Daseinsanayse e esquizofrenia: um estudo nológicos existenciais. 2006. 215f. Tese de Doutorado em da obra de Medard Boss. São Paulo: Epuc: Fapesp, 2004. Psicologia Universidade de São Paulo. São Paulo: 2006. CRITELLI, MD. O des-enraizamento da existência. In: BINSWANGER, L. Três formas de existência malograda: DICHTCHEKENJAN, MF. (org). Vida e morte: ensaios extravagância, excentricidade, amaneiramento. Rio de fenomenológicos. Educ/Brasiliense: Editora C.I., 1988. Janeiro: Zahar, 1977. FIGUEIREDO, LC. Matrizes do pensamento psicológico. BOSS, M. 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Essa orientação foi, antes de tudo, uma abordagem de or- da noção de técnica moderna enquanto modo histórico de dem fenomenológica do conjunto de fenômenos considerados produção da verdade? normais e patológicos do existir humano. Apresentou como pro- R: Partindo de uma reflexão crítica da história da Psicologia, per- posta orientadora "ver sem deformações aquilo que se mostra a cebe-se de imediato a impossibilidade de unificação do campo nós de si-mesmo" aparentemente simples, mas de difícil con- dos saberes psicológicos. panorama contemporâneo, ainda secução, pois exige um "desaprender" das exigências científicas dominado pela necessidade de sínteses e respostas definitivas, de nossa cultura ocidental. aponta para definições teórico-sistemáticas sobre as questões Para desconstruir esse modo técnico-científico de abordar a centrais da Psicologia e da prática psicológica, esta fundada no realidade, no exercício de uma abertura fenomenológica ao sen- conhecimento científico-natural e na noção de técnica engen- tido dos entes, assume, sob orientação de Heidegger, uma outra drada pelos diversos sistemas e projetos da Psicologia científico- compreensão do tempo, do espaço e da existência humana. natural. Em tal perspectiva, tenta mostrar como a objetificação cien- É nesse contexto que as considerações críticas, feitas por Hei- tífica obstrui acesso ao modo de ser mais essencial do homem, degger, à ciência moderna e aos seus pressupostos poderiam sub- levando a representações arbitrárias e distantes do "mundo da sidiar uma reflexão sobre a possibilidade de outra compreensão vida". Para isso, seria necessária uma atitude que não explicasse da ação clínica do psicólogo. a priori fenômenos psicológicos, abrindo mão da tentativa Tal reflexão aponta para repensar a ação clínica como exer- de encontrar possíveis causas por detrás dos fenômenos. Assim, de uma abertura fenomenológica ao sentido dos entes, apontava para a constituição de um novo olhar clínico interven- principalmente daquele cujo sentido deveria estar sempre em tivo que buscaria interrogar os próprios fenômenos de angústia e questão na clínica, próprio homem. Sendo assim, a ação clínica culpa compreendidos por Boss como originários da condição busca desenvolvimento de um método, distinto do método humana sobre que expusessem imediatamente. científico-natural, compreendido como atitude serena de dis- posição à abertura ao fenômeno, que não exclui por princípio 3) Como pensar a ação clínica do psicólogo numa perspectiva possibilidade alguma, nem mesmo aquela da intervenção técni- fenomenológica existencial? co-científica, embora já descaracterizada em sua pretensão de hegemonia e de verdade absoluta. R: A ação clínica do psicólogo nessa perspectiva precisaria en- volver-se com um procedimento co-humano criativo, não-apre- 2) Como pensamento de Heidegger exerceu influências no ensível por teorias que descendessem do subjetivismo e do con- campo da Psicologia e, mais especificamente, na compreen- ceito cartesiano de homem e de mundo. Para tal, seria necessá- são da ação clínica do psicólogo? rio desvincular-se do subjetivismo e psicologismo abstrato das ciências humanas e assumir uma atitude de abertura ao mundo R: pensamento de Heidegger exerceu uma influência mais di- que ampara e guarda seu aparecimento. reta na Psicologia e psiquiatria através do longo relacionamento Assim, a ação clínica pode ser repensada como espaço aberto, do filósofo com psiquiatra Medard Boss, que desenvolveu um condição de possibilidade para a emergência de um novo olhar projeto visando a articular a compreensão e a prática psicológica que desaloja homem de sua habitual relação com mundo e com seu pensamento. a consciência, no qual homem (Dasein) se descobre entregue Boss encaminhou-se para um pensamento fundamentalmente à tarefa inexorável de "poder-ser", permitido por meio do apro- novo na psicopatologia, abrindo novos caminhos para a Psico- priar-se da própria condição humana de existir.