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<p>Professor(a) Ma. Emanoella dos Santos Ruffo</p><p>INTRODUÇÃO À</p><p>PSICOLOGIA</p><p>REITOR Prof. Ms. Gilmar de Oliveira</p><p>DIRETOR DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Ms. Daniel de Lima</p><p>DIRETORA DE ENSINO EAD Prof. Dra. Giani Andrea Linde Colauto</p><p>DIRETOR FINANCEIRO EAD Prof. Eduardo Luiz Campano Santini</p><p>DIRETOR ADMINISTRATIVO Guilherme Esquivel</p><p>SECRETÁRIO ACADÊMICO Tiago Pereira da Silva</p><p>COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza</p><p>COORDENAÇÃO ADJUNTA DE ENSINO Prof. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo</p><p>COORDENAÇÃO ADJUNTA DE PESQUISA Prof. Ms. Luciana Moraes</p><p>COORDENAÇÃO ADJUNTA DE EXTENSÃO Prof. Ms. Jeferson de Souza Sá</p><p>COORDENAÇÃO DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal</p><p>COORDENAÇÃO DOS CURSOS - ÁREAS DE GESTÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS Prof. Dra. Ariane Maria Machado de Oliveira</p><p>COORDENAÇÃO DOS CURSOS - ÁREAS DE T.I E ENGENHARIAS Prof. Me. Arthur Rosinski do Nascimento</p><p>COORDENAÇÃO DOS CURSOS - ÁREAS DE SAÚDE E LICENCIATURAS Prof. Dra. Katiúscia Kelli Montanari Coelho</p><p>COORDENAÇÃO DO DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS Luiz Fernando Freitas</p><p>REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Beatriz Longen Rohling</p><p>Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante</p><p>Caroline da Silva Marques</p><p>Eduardo Alves de Oliveira</p><p>Jéssica Eugênio Azevedo</p><p>Marcelino Fernando Rodrigues Santos</p><p>PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Hugo Batalhoti Morangueira</p><p>Bruna de Lima Ramos</p><p>Vitor Amaral Poltronieri</p><p>ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO André Oliveira Vaz</p><p>DE VÍDEO Carlos Firmino de Oliveira</p><p>Carlos Henrique Moraes dos Anjos</p><p>Kauê Berto</p><p>Pedro Vinícius de Lima Machado</p><p>Thassiane da Silva Jacinto</p><p>FICHA CATALOGRÁFICA</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP</p><p>R925i Ruffo, Emanoella dos Santos</p><p>Introdução à psicologia / Emanoella dos Santos Ruffo.</p><p>Paranavaí: EduFatecie, 2023.</p><p>74 p.: il. Color.</p><p>1. Psicologia. 2. Psicologia - Metodologia. 3. Psicologia e</p><p>Religião. I. Centro Universitário UniFatecie. II. Núcleo de</p><p>Educação a Distância. III. Título.</p><p>CDD : 23 ed. 150</p><p>Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577</p><p>As imagens utilizadas neste material didático</p><p>são oriundas dos bancos de imagens</p><p>Shutterstock .</p><p>2023 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2023. Os autores. Copyright C Edição 2023 Editora Edufatecie.</p><p>O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva</p><p>dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da</p><p>obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la</p><p>de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais.</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/</p><p>3</p><p>Professor(a) Ma. Emanoella dos Santos Ruffo</p><p>• Mestra em Psicologia pela UEM (Universidade Estadual do Paraná).</p><p>• Especialista em Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde</p><p>• Professora Formadora EAD - UniFatecie.</p><p>• Docente do curso de Psicologia - UniFatecie.</p><p>Possui experiência em psicologia clínica com atendimentos individuais e em grupo,</p><p>bem como acompanhamento multiprofissional de casos na rede pública de saúde mental.</p><p>CURRÍCULO LATTES: http://lattes.cnpq.br/0593518126312525</p><p>AUTOR</p><p>http://lattes.cnpq.br/0593518126312525</p><p>4</p><p>Seja muito bem-vindo (a)!</p><p>Prezado (a) aluno (a), aqui iniciamos uma jornada para ampliar seu conhecimento,</p><p>mergulhando no universo da Psicologia a fim de aprender um pouco sobre esta disciplina,</p><p>dedicada a compreender melhor o ser humano em diversas dimensões. Nas páginas a</p><p>seguir, iremos conversar sobre a origem desta área do saber e sobre alguns de seus per-</p><p>sonagens, conceitos centrais e sua aplicação.</p><p>Na unidade I iremos conhecer a história da Psicologia, que se inicia nos questio-</p><p>namentos sobre a experiência humana feitos na Antiguidade; e evolui em conjunto com os</p><p>acontecimentos históricos, sofrendo influência da filosofia e das ciências naturais. Apren-</p><p>deremos mais sobre a diferença entre o conhecimento científico e o senso comum, e as</p><p>correntes de pensamento que levaram a necessidade de estabelecer esta nova disciplina</p><p>dedicada a analisar o sujeito.</p><p>Já na unidade II vamos conhecer as abordagens mais conhecidas da Psicologia</p><p>no contexto brasileiro: A Análise do Comportamento, também chamada de Behaviorismo,</p><p>a Psicanálise, o Humanismo e a abordagem Cognitivo Comportamental. Cada uma destas</p><p>abordagens tem uma maneira particular de entender o ser humano e suas ferramentas</p><p>específicas para resolver os problemas que se apresentam.</p><p>Em seguida, a unidade III apresentará alguns conceitos básicos da psicologia, tais</p><p>como a noção de desenvolvimento, a influência da genética e do ambiente na formação do</p><p>sujeito. E por fim, a unidade IV irá tratar de temas específicos da psicologia associada à re-</p><p>ligião, como as experiências psíquicas e as maneiras de abordar indivíduos em sofrimento</p><p>intenso, falando um pouco da atuação prática do psicólogo.</p><p>Espero que esta jornada pelo conhecimento possa lhe ser útil pessoal e profissio-</p><p>nalmente, e que os conteúdos desta apostila possam estimulá-lo para continuar trilhando</p><p>os caminhos da leitura e busca por novos saberes!</p><p>Bons estudos!</p><p>APRESENTAÇÃO DO MATERIAL</p><p>5</p><p>UNIDADE 4</p><p>Psicologia e Religião: Intersecções</p><p>Como Pensa o Homem?</p><p>UNIDADE 3</p><p>Teorias e Sistemas em Psicologia</p><p>UNIDADE 2</p><p>O Que é Psicologia?</p><p>UNIDADE 1</p><p>SUMÁRIO</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>Plano de Estudos</p><p>• Conhecendo o homem: ciência e senso comum;</p><p>• Fundamentos históricos e epistemológicos da Psicologia;</p><p>• A Psicologia científica.</p><p>Objetivos da Aprendizagem</p><p>• Diferenciar o conhecimento científico do senso comum;</p><p>• Apresentar as correntes de pensamento que influenciaram</p><p>o surgimento da Psicologia científica;</p><p>• Conhecer as principais escolas do pensamento psicológico</p><p>(Estruturalismo, Funcionalismo e Associacionismo) em sua</p><p>origem.</p><p>Professor(a) Ma. Emanoella dos Santos Ruffo</p><p>O QUE É PSICOLOGIA?O QUE É PSICOLOGIA?1UNIDADEUNIDADE</p><p>7O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Caro (a) aluno (a), seja bem-vindo (a) a esta unidade!</p><p>Aqui, iniciaremos nosso percurso nos estudos, conhecendo um pouco mais sobre a</p><p>trajetória da Psicologia - desde os questionamentos realizados pelos gregos na Antiguidade</p><p>até sua constituição como uma disciplina científica, no final do século XIX. Em comparação</p><p>com outras disciplinas, como a Biologia e a Matemática, notamos que a Psicologia é uma</p><p>ciência bastante recente, e que ainda apresenta muitos debates sobre seus métodos de</p><p>pesquisa e abordagens em relação ao conhecimento.</p><p>Ao longo da História, o homem se questionou diversas vezes sobre o que o tornava</p><p>capaz de pensar. Este trabalho foi prioritariamente dos filósofos, que especularam onde se</p><p>localizava</p><p>visão de homem contribuem para o desenvolvimento de técnicas de</p><p>intervenção e avaliação, modelos de conduta sadia e fundamentos teóricos para interpretar</p><p>e explicar fenômenos da realidade.</p><p>O conteúdo desta unidade apresentou de maneira introdutória estas formas de pen-</p><p>sar em Psicologia: existem outras teorias sobre o homem, e avanços e mudanças concei-</p><p>tuais nas concepções apresentadas. Afinal, o ser humano evolui com o tempo, e situações</p><p>e comportamentos novos despertam a curiosidade e o desejo dos psicólogos de encontrar</p><p>explicações para nosso modo de ser. Como explicar a relação das pessoas com as tecnolo-</p><p>gias da informação? Ou a transformação e aceitação de novas expressões de sexualidade,</p><p>além da heterossexualidade? Ou transtornos e diagnósticos que cada vez se tornam mais</p><p>comuns em nossas vidas, como a ansiedade e o transtorno de déficit de atenção?</p><p>Questões como estas não faziam parte dos estudos dos psicólogos que inaugura-</p><p>ram as linhas teóricas que você estudou nesta unidade, mas fazem parte da realidade atual</p><p>dos estudiosos do psiquismo. Assim, podemos pensar que a Psicologia é uma ciência que</p><p>expande suas questões juntamente com os avanços da humanidade.</p><p>Aproveite o encerramento desta unidade para refletir sobre a relação entre a his-</p><p>tória da Psicologia e as três linhas teóricas apresentadas, pensando em como a forma de</p><p>entender o homem varia, sofrendo influência de acontecimentos históricos e movimentos</p><p>na forma da sociedade se organizar.</p><p>Obrigada pela companhia e até mais!</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>39TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>Abordagens terapêuticas psicológicas para a qualidade de vida de pessoas autis-</p><p>tas: Revisão de literatura</p><p>O artigo pesquisa sobre o impacto as abordagens terapêuticas psicológicas na</p><p>qualidade de vida dos autistas, comparando as estratégias terapêuticas das abordagens</p><p>Terapia Cognitivo Comportamental (TCC); Análise do Comportamento Aplicada (ABA);</p><p>Abordagens Humanistas e Fenomenológicas e a Psicanálise, bem como sua eficácia na</p><p>qualidade de vida dos autistas.</p><p>Fonte: DE JESUS DA SILVA FAUSTINO, A.; LEAL, S. S. I.; SILVA, E V. R.; FARIAS, R. R. S. As abordagens terapêuticas</p><p>psicológicas na qualidade de vida dos autistas: Revisão de literatura. Research, Society and Development, v. 10, n. 8, p.</p><p>e16010816870, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/16870. Acesso em: 6 ago. 2022.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>40TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>• Título: Sobre o Behaviorismo</p><p>• Autor: B. F. Skinner</p><p>• Editora: Cultrix</p><p>• Sinopse: O autor, um dos mais importantes da teoria Comporta-</p><p>mental, apresenta os conceitos básicos de sua teoria e discute as</p><p>críticas feitas ao behaviorismo, em uma linguagem acessível.</p><p>• Título: Sessão de Terapia</p><p>• Ano: 2016</p><p>• Sinopse: Série que retrata o dia a dia de um psicanalista em</p><p>seu consultório, entremeado nos conflitos de seus clientes e nas</p><p>problemáticas de sua própria vida.</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>Plano de Estudos</p><p>• O desenvolvimento do indivíduo;</p><p>• A concepção de loucura e sua relação com a Psicologia.</p><p>Objetivos da Aprendizagem</p><p>• Entender os conceitos de assimilação, acomodação e</p><p>equilibração;</p><p>• Conhecer os quatro estádios do desenvolvimento de Jean</p><p>Piaget;</p><p>• Compreender os três modelos para a explicação da loucura.</p><p>Professor(a) Ma. Emanoella dos Santos Ruffo</p><p>COMO PENSA O COMO PENSA O</p><p>HOMEM?HOMEM?</p><p>UNIDADEUNIDADE3</p><p>42COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Olá, querido (a) aluno (a)!</p><p>Espero que você esteja apreciando esta trajetória pelas noções da Psicologia.</p><p>Conhecer o ser humano implica em realizar uma série de perguntas e investigações sobre</p><p>como ele desenvolve suas habilidades e o que pode influenciar este processo.</p><p>Em seu cotidiano, é possível que você já tenha se perguntado algumas vezes como</p><p>cada pessoa adquire suas características: se estas já acompanham o sujeito em seu nas-</p><p>cimento ou se são adquiridas de acordo com o meio e o contexto social. Também pode ser</p><p>debatido se essas características podem ser modificadas, e de qual forma isto pode ocorrer.</p><p>Esta é uma questão muito interessante, pois afeta diretamente nossa organização social.</p><p>Compreender as possibilidades que o ser humano contém em si serve para estabe-</p><p>lecermos leis e políticas que ordenam a vida em sociedade, traçando diretrizes que podem</p><p>orientar aquilo que é saudável e aceitável para a maioria. Esta é uma das consequências</p><p>práticas da Psicologia enquanto ciência humana.</p><p>Nesta Unidade, você conhecerá um pouco sobre os estudos de Jean Piaget, um</p><p>psicólogo que buscou compreender o desenvolvimento da capacidade cognitiva do indiví-</p><p>duo. As teorias dele possuem bastante reconhecimento no campo da Pedagogia, funda-</p><p>mentando práticas no campo do ensino e influenciando trabalhadores e estudiosos que, de</p><p>alguma forma, têm um trabalho que está relacionado à inteligência humana.</p><p>Olhando para a outra ponta do espectro das capacidades humanas, você também</p><p>conhecerá um pouco mais sobre as concepções sobre a loucura: teorizações do ser humano</p><p>sobre a perda da capacidade de ser racional. Ao longo da História, diferentes entendimentos</p><p>sobre este fenômeno desencadearam diferentes formas de lidar com ele, passando pela</p><p>recente prática de tratamento em manicômios, que é muito criticada atualmente.</p><p>Ótimos estudos!</p><p>O DESENVOLVIMENTO</p><p>DO INDIVÍDUO1</p><p>TÓPICO</p><p>43COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>O ser humano se desenvolve a partir da interação de múltiplos fatores. Um deles</p><p>é a genética: o conjunto herdado de informações repassadas pelos genitores influencia,</p><p>além de características físicas, fatores como a inteligência. Contudo, o indivíduo não é</p><p>determinado pelas suas características biológicas, pois, outros elementos contribuem ou</p><p>prejudicam no desenvolvimento de suas potencialidades.</p><p>Segundo Bock, Furtado e Teixeira (1999), o entorno ambiental tem um papel</p><p>igualmente importante na formação de uma pessoa: as experiências culturais e influências</p><p>externas estimulam o indivíduo a exercitar determinadas características. A habilidade de</p><p>uma criança para observar o mundo e fazer desenhos pode ter diversas consequências,</p><p>dependendo da atitude dos adultos que a cercam, do tempo e dos materiais que possui para</p><p>se dedicar a tal atividade e de como seu contexto histórico e social aceita a execução deste</p><p>tipo de tarefa. Além disso, o desenvolvimento do organismo e a maturação das estruturas</p><p>cerebrais também influencia naquilo que o sujeito é capaz de realizar.</p><p>Para avaliar o desenvolvimento, pode-se considerá-lo a partir de quatro eixos: as</p><p>relações sociais, a capacidade emocional, o aspecto físico-motor e a capacidade intelectual.</p><p>Esta divisão serve para facilitar a avaliação, pois no cotidiano, é impossível considerar que</p><p>um aspecto do desenvolvimento ocorre de forma independente dos outros. Por exemplo, o</p><p>amadurecimento do organismo permite que o indivíduo possa articular fonemas e aprenda</p><p>a linguagem, o que abre a possibilidade de estabelecer novas modalidades de relação com</p><p>aqueles que o cercam (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA; 1999).</p><p>O psicólogo mais importante em relação</p><p>ao estudo do desenvolvimento foi o suíço</p><p>Jean Piaget, também especialista em zoologia, que concentrou seus estudos na capaci-</p><p>dade intelectual do indivíduo. Suas conclusões estabeleceram quatro estágios diferentes,</p><p>nos quais a capacidade de pensar passa por transformações importantes. Juntamente com</p><p>44COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>Freud, o fundador da psicanálise, o pensamento de Piaget trouxe uma das mais importantes</p><p>teorias sobre o desenvolvimento do indivíduo. Contudo, o trabalho de Freud analisou a evo-</p><p>lução do ser humano a partir de uma perspectiva psicossexual, que integrava as emoções</p><p>aos estágios da libido, a energia ligada aos instintos sexuais; enquanto Piaget analisou o</p><p>sujeito tomando como centro as mudanças do pensamento e da capacidade de conhecer.</p><p>1.1 Os estágios do desenvolvimento de Piaget</p><p>O modelo de desenvolvimento de Piaget considera, que o desenvolvimento ocorre</p><p>por meio da interação entre as capacidades do organismo e o ambiente, com o sujeito</p><p>interagindo com seu contexto e dando sentido à suas experiências em uma cadeia de</p><p>relações. O que ocorre quando entramos em contato com algo novo é uma assimilação</p><p>de um dado exterior, que não é incorporado como uma fotocópia, mas passa a existir em</p><p>nossa consciência integrado a uma estrutura mental que já existe (CAVICCHIA, 2010).</p><p>De acordo com Cavicchia (2010), esta capacidade de reconhecer e interagir com</p><p>algo novo é chamado de processo de adaptação, que pode ser entendida pelos conceitos</p><p>de assimilação e acomodação. A assimilação diz respeito a aquisição de determinado ele-</p><p>mento desconhecido como um objeto que faz parte do repertório de pensamentos daquele</p><p>sujeito, enquanto a acomodação é definida como a necessidade de considerar as particula-</p><p>ridades de cada elemento a ser assimilado. Estes processos estão equilibrados no sistema</p><p>cognitivo do sujeito, que se desequilibra diante da apreensão de algo desconhecido.</p><p>A partir de tais perturbações produzem-se construções compensatórias que</p><p>buscam novo equilíbrio, melhor do que o anterior. Nas sucessivas desequi-</p><p>librações e reequilibrações, o conhecimento exógeno é complementado pe-</p><p>las construções endógenas, que são incorporadas ao sistema cognitivo do</p><p>sujeito. Nesse processo, que Piaget denomina processo de equilibração, se</p><p>constroem as estruturas cognitivas que o sujeito emprega na compreensão</p><p>dos objetos, fatos e acontecimentos, levando ao progresso na construção do</p><p>conhecimento (CAVICCHIA, 2010, p. 2).</p><p>Assim, por meio de tais desequilíbrios e reequilíbrios em seus processos mentais,</p><p>o indivíduo é capaz de melhorar sua habilidade de organizar as experiências obtidas e de</p><p>se desenvolver cognitivamente, o que constitui os diferentes estádios do desenvolvimento</p><p>propostos por Piaget.</p><p>Estes estádios se desenrolam de modo sucessivo, e dependem da maturação bio-</p><p>lógica do indivíduo, mas a experiência assimilada pelo sujeito tem um papel fundamental</p><p>para tal desenvolvimento. Cavicchia (2010) destaca, que essas divisões formuladas por</p><p>Piaget dizem respeito às possibilidades do ser humano, sem necessariamente definirem a</p><p>evolução de cada indivíduo. A trajetória de cada sujeito é afetada por seu contexto socioam-</p><p>biental, assim como por sua organização afetiva.</p><p>O desenvolvimento da capacidade de pensar depende da maturação nervosa e de</p><p>sua capacidade de estabelecer conexões, que aumentam em número conforme o indivíduo</p><p>45COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>é posto em contato com experiências novas e que demandam alguma ação de sua parte.</p><p>Além do componente biológico e do exercício do sujeito sobre seu entorno, um terceiro fator</p><p>que influencia o desenvolvimento cognitivo é a interação social, já que a assimilação da</p><p>linguagem só é possível pela existência de instrumentos adequados de assimilação.</p><p>Piaget aponta que tais condições só favorecem o desenvolvimento, porque estão</p><p>associadas à capacidade dos seres vivos de auto-regulação, chamada de fator de equi-</p><p>libração. Para o autor, a interação é o principal fator para o desenvolvimento intelectual,</p><p>produzindo conhecimento quando os esquemas de assimilação que o sujeito possui, inte-</p><p>ragem com as propriedades do objeto (CAVICCHIA, 2010).</p><p>O primeiro estádio é o da inteligência sensório-motora, estabelecido como um</p><p>período que vai dos 0 aos 2 anos de idade, que lança as bases para processos cognitivos</p><p>complexos. No início da vida, o bebê age por reflexo, sugando quando algo estimula sua</p><p>boca, por exemplo. Estes esquemas cognitivos passam por adaptações para acomodar os</p><p>desajustes vivenciados a partir das experiências que a criança tem com seu meio, permi-</p><p>tindo que o infante possa construir novos esquemas de ação, que possibilita sua interação</p><p>com o ambiente. Exemplos dessas interações são o ato de olhar ou agarrar, ou mesmo a</p><p>interação com o próprio corpo, como sugar o polegar.</p><p>Depois de interagir consigo mesmo, o bebê começa a explorar seu entorno, perce-</p><p>bendo relações de causa e consequência em suas ações, que produzem ruídos, sensações</p><p>e movimentos. No final do segundo ano de vida, o indivíduo é capaz de compreender a</p><p>existência de objetos, do espaço, tempo e de causalidade e, também, consegue manter</p><p>representações no ambiente por meio de pensamentos a nível mental (CAVICCHIA, 2010).</p><p>De acordo com Cavicchia (2010), neste primeiro estádio, o infante parte de sua</p><p>capacidade perceptiva para se conectar com o meio externo, progredindo de um estado</p><p>inicial no qual está centrada em si mesmo para assimilar e acomodar sua existência e a do</p><p>mundo real. Este conhecimento permite que ela desenvolva a capacidade de representar</p><p>de forma simbólica aquilo que vivencia, constituindo assim sua subjetividade.</p><p>O estádio seguinte é o período pré-operatório, que engloba o período dos 2 aos</p><p>7 anos. Neste, a criança consolida sua inteligência representativa, na qual ainda não está</p><p>desenvolvida a capacidade de pensar, em sentido estrito, mas ela evoca imagens mentais</p><p>que representam os modelos que lhe são conhecidos. Cavicchia (2010) destaca que, este</p><p>modo de pensar infantil é calcado em símbolos particulares, pessoais, que não podem ser</p><p>chamados de conceitos abrangentes, e dependem essencialmente da experiência da criança.</p><p>Dos 7 aos 11 anos o processo de adaptação introduz novos esquemas cognitivos,</p><p>que caracterizam o chamado estádio operatório concreto. O indivíduo compreende a noção</p><p>de reversibilidade lógica, que ocorre a partir de suas ações sobre os elementos do ambien-</p><p>te. Já dos 11 aos 15 anos, período da adolescência, há o estádio das operações formais:</p><p>o jovem pode formular “representações de representações” (CAVICCHIA, 2010, p. 12) e</p><p>utilizá-las em raciocínios lógicos, sendo capaz de formular hipóteses e conclusões sem a</p><p>necessidade de manipulação concreta da realidade.</p><p>46COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>FIGURA 1 – O JOGO DA MEMÓRIA, COMUMENTE JOGADO POR CRIANÇAS COM MAIS DE</p><p>QUATRO ANOS, DEPENDE DA CAPACIDADE DE EVOCAR IMAGENS MENTAIS DOS OBJETOS</p><p>Fonte: JOGO Da Memória. Wikimedia Commons, 2005. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/</p><p>File:Memory_(game).JPG Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>A produção intelectual de Piaget, que ocorreu na primeira metade dos anos 1900, foi</p><p>influenciada pelo contato com o trabalho de outros estudiosos, cujo cerne era obter conhecimen-</p><p>to sobre o indivíduo para produzir medições e categorizações. Ribeiro e Souza (2020), falam</p><p>sobre a experiência de Piaget como tradutor de um teste de inteligência elaborado por Cyril Burt,</p><p>cujos trabalhos eram do interesse de Theodore Simon, médico e psicólogo que contribuiu com a</p><p>elaboração do primeiro teste de inteligência francês, juntamente com Alfred Binet.</p><p>O contato que Piaget teve com tal instrumento - composto por questões para as</p><p>quais a criança deveria realizar conclusões lógicas - o incitou a compreender as razões que</p><p>explicariam os erros e a incapacidade das crianças de responder a certas perguntas, o que</p><p>o levou a elaborar seu próprio método clínico (RIBEIRO, SOUZA; 2020).</p><p>O uso dos estádios</p><p>propostos por Piaget, assim, serve para explicar, e não para</p><p>classificar e diferenciar as crianças – uso dado aos testes psicológicos que surgiram a partir</p><p>de estudos psicométricos, campo da Psicologia com grande influência da proposta de ciên-</p><p>cia feita a partir da observação e experimentação. Nesta Unidade, não nos aprofundaremos</p><p>nesta parte do trabalho do psicólogo, mas é importante saber que a aplicação destas ferra-</p><p>mentas e interpretação dos seus resultados são sujeitos a estudos e discussões rigorosas.</p><p>Historicamente, testes de inteligência foram utilizados de forma ampla para avaliação</p><p>em escolas e no exército, e descuidos em sua atenção e compilação de dados contribuíram</p><p>para a reprodução de preconceitos sobre as capacidades intelectuais de grupos étnicos,</p><p>como os negros, por exemplo (JACÓ-VILELA, FERREIRA, PORTUGAL, 2006). Aconteci-</p><p>mentos como estes permitem que seja feita uma reflexão sobre a Psicologia, entendida</p><p>não apenas como uma ciência para compreender o ser humano, mas também como um</p><p>conhecimento aplicado na prática a serviço dos interesses sociais, para pensarmos e qual</p><p>seu papel na defesa ou prejuízo de determinados grupos de pessoas.</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Memory_(game).JPG</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Memory_(game).JPG</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Memory_(game).JPG</p><p>A CONCEPÇÃO DE</p><p>LOUCURA E SUA RELAÇÃO</p><p>COM A PSICOLOGIA2</p><p>TÓPICO</p><p>47COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>No Brasil, a psicologia foi alçada à categoria profissional em 1962, marco que também</p><p>garantiu o estabelecimento das primeiras faculdades de psicologia. Na lei federal que versa sobre</p><p>o assunto, estabelece-se que uma das finalidades do trabalho deste novo profissional é solucionar</p><p>problemas de ajustamento. Assim, para além de conhecer os fenômenos mentais, o psicólogo</p><p>aplica seu conhecimento em casos nos quais há dificuldades de adaptação, desenvolvimento</p><p>incomum ou sofrimento excessivo. Isto associa o trabalho deste profissional ao cuidado com</p><p>indivíduos com transtornos mentais, o que torna importante conhecer um pouco deste assunto.</p><p>A psiquiatria, campo da medicina, também se desenvolveu com o objetivo de compreen-</p><p>der, categorizar e tratar estes quadros anormais que afligiam o ser humano. É neste ponto que</p><p>a psicologia mais se aproxima da psiquiatria, trabalhando frequentemente com suas noções</p><p>diagnósticas e associando suas teorias aos saberes sobre o funcionamento do organismo. É</p><p>com base nos trabalhos psiquiátricos que os profissionais da saúde diagnosticam as pessoas</p><p>atualmente, definindo se existem sintomas que apontam para uma anormalidade a ser tratada,</p><p>tal como depressão ou síndrome do pânico. Mas a compreensão de que o comportamento</p><p>aberrante é patológico e necessita de tratamento foi formada em um contexto histórico.</p><p>O entendimento ocidental da loucura na contemporaneidade é diferente da noção</p><p>encontrada em povos primitivos, que atribuíam tais alterações de conduta a forças sobre-</p><p>naturais. Em alguns casos, estas manifestações possuíam caráter sagrado e ritualístico,</p><p>podendo ser inclusive desejadas. Esta perspectiva difere muito da forma mais popular em</p><p>nossa sociedade de compreender alterações de consciência (DALGALARRONDO, 2008).</p><p>De acordo com Cherubini (2006), pode-se observar três modelos de pensamento</p><p>que se dedicam a investigar a loucura de formas diferentes no passar dos séculos, mas</p><p>48COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>que possuem, cada um deles, uma mesma visão etiológica da loucura. São as correntes</p><p>mítico-religiosa, organicista e psicológica, que se apresentam a seguir:</p><p>O modelo de pensamento mítico-religioso pode ser encontrado em obras de autores da</p><p>Grécia Antiga, cujos personagens são apresentados em estados desvairados, que decorrem de</p><p>uma conduta que desafia os deuses, buscando se assemelhar ou superá-los. Estes castigam</p><p>os humanos com a perda da razão, fazendo da loucura uma ocorrência originada nas forças</p><p>divinas, que pode ser revertida com a mudança da conduta do personagem, aproximando-se</p><p>novamente das normas sociais. Assim, esta forma de enxergar a loucura no período homérico</p><p>parte de elementos sobrenaturais, e as consequências da insanidade tampouco provocam</p><p>culpa ou estigmas nos personagens atingidos, pois suas ações não estavam sob seu controle.</p><p>Posteriormente, tal modo de entender a loucura ganhou força de novo aproxima-</p><p>damente no século XV, momento em que os atos insensatos são atribuídos a ação do</p><p>demônio. Diferentemente do que ocorreu no período clássico, a loucura não é entendida</p><p>como um fenômeno particular, o que se vê são apenas as consequências da possessão</p><p>demoníaca, atestando assim existência da entidade demoníaca.</p><p>Se tais quadros decorriam da proximidade ou do afastamento da presença divina,</p><p>também se entendia que a cura era encontrada na religião. No período medieval, o sofri-</p><p>mento é obtido através da penitência e da submissão.</p><p>Pensadores e publicações da época difundem esta ideia, fazendo com que o compor-</p><p>tamento aberrante seja também caracterizado como diabólico, causador de medo e passível</p><p>de exorcismo - uma prática que ganha cada vez mais espaço e se torna lucrativa, já que</p><p>a variedade de expressão dos poderes demoníacos permite que qualquer comportamento</p><p>entendido como desviante pode ser categorizado como loucura. O indivíduo comprometido,</p><p>por ter sido vítima de possessão, evidencia seu distanciamento de Deus e passa a ser visto</p><p>como perigoso, fato que Cherubini (2006) questiona como a possibilidade entre associação</p><p>da loucura com a periculosidade, noção ainda muito comum nos dias atuais.</p><p>No modelo mítico-religioso da loucura, a compreensão é de que forças sobrena-</p><p>turais, boas ou más, têm responsabilidade pelos estados de insanidade que acometem o</p><p>indivíduo. Ele é visto como incapaz de ser responsabilizado pelos seus atos a nível indivi-</p><p>dual, mas sofre sanções sociais, e a própria loucura passa a ser tida como um castigo para</p><p>pessoas mal vistas a nível social nas sociedades do período mencionado.</p><p>Segundo Cherubini (2006), o modelo organicista da loucura, por sua vez, também</p><p>encontra raízes na Grécia, na Antiguidade. Hipócrates, pai da medicina, postula que um</p><p>desarranjo no cérebro é a causa para os comportamentos anormais, postulando uma teoria</p><p>de desequilíbrios hormonais no organismo. Este desequilíbrio afetaria os fluidos corporais,</p><p>49COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>que prejudicam o funcionamento biológico, causando diversas doenças. Outros pensado-</p><p>res, tais como Aristóteles, supunha que a fonte da razão era o coração ao invés do cérebro,</p><p>mas pensava de maneira similar para elucidar a causa da insanidade: alterações orgânicas.</p><p>Galeno, estudioso da antiguidade que também se dedicou ao conhecimento da</p><p>saúde, modificou a noção de desequilíbrio humoral de Hipócrates e argumentou que ao</p><p>invés de fluidos corporais, os humores seriam pneumas, vapores internos produzidos pelo</p><p>organismo, variando de acordo com os órgãos. No caso da insanidade, também haveria</p><p>um dano encefálico, que teria consequências sobre as funções mentais superiores, como o</p><p>pensamento e a memória. Assim, as postulações de Galeno atribuem a origem da loucura</p><p>a causas biológicas, mas reconhece a existência de aspectos psíquicos nesta desordem</p><p>mental, pois há menção às funções mentais superiores (CHERUBINI, 2006).</p><p>Explicações orgânicas para a etiologia da loucura tornam-se muito comuns a par-</p><p>tir do século XVII, com as influências do Renascimento questionando os antigos valores</p><p>vigentes da Igreja Católica. O corpo humano passa a ser mais investigado, e uma das</p><p>teorizações, apresentada por Félix Platter, coloca o delírio como essência da loucura, cen-</p><p>tral para seu reconhecimento. Tal visão teve grande influência nos estudos médicos que se</p><p>seguiram, e outros acadêmicos passaram a buscar as causas do delírio.</p><p>A conduta dos pesquisadores da época era o desenvolvimento de estudos que</p><p>se afastassem de explicações místicas e</p><p>filosóficas, consideradas especulativas. Teorias</p><p>diversas consideram os efeitos do ciclo lunar sobre o organismo, excesso de substâncias</p><p>tóxicas ou processos mecânicos que levassem a um mau funcionamento do corpo, preju-</p><p>dicando, por exemplo, as fibras nervosas. Este processo teria impacto no funcionamento</p><p>cerebral, com possíveis danos à estrutura do órgão, mas não havia consideração sobre os</p><p>aspectos afetivos do indivíduo. O comportamento delirante e descontrolado deriva do mau</p><p>funcionamento biológico (CHERUBINI, 2006).</p><p>No período entre os séculos XV e XVI os loucos tinham a permissão de perambular</p><p>pela cidade, bem como os miseráveis - a caridade com estes indivíduos possuía o caráter de</p><p>virtude, e contribuía para a salvação do sujeito, já que a existência dos pobres e dos desvai-</p><p>rados era entendida como um desígnio de Deus. Entretanto, a decadência do sistema feudal</p><p>acarretou diversas mudanças, que fez com que loucos, vadios e miseráveis passassem a</p><p>ser vistos como ameaças à ordem social, e passaram a receber um novo tratamento.</p><p>Se a visão católica entendia que a salvação era conquistada por meio de boas</p><p>obras, a reforma protestante passou a valorizar o trabalho ao invés da caridade. Com isso,</p><p>tais indivíduos marginalizados, como os loucos e doentes, passaram a ser julgados e ques-</p><p>tionados por não produzirem valor, vivendo no ócio. A incapacidade do louco de trabalhar o</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>50COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>colocou, assim, como um ser inferior e fraco, que não poderia se integrar ao modo de vida</p><p>em sociedade produzido pela burguesia.</p><p>A partir daí, os loucos passaram a ser encarcerados em instituições, como as que eram</p><p>destinadas anteriormente aos leprosos para que não perturbasse o convívio social. Não havia</p><p>distinção entre seu isolamento e outros indivíduos considerados problemáticos, como aqueles</p><p>com doenças contagiosas, vagabundos e criminosos. Mas a lógica capitalista observa, que</p><p>alguns desses sujeitos podem ser incorporados pelo mercado de trabalho, produzindo valor</p><p>ao invés de aumentar os custos do Estado com seu sustento. Os desvairados permanecem,</p><p>então, isolados da sociedade, e seu distanciamento das outras classes marginalizadas possi-</p><p>bilitou a produção de observações e conhecimentos sobre sua condição (CHERUBINI, 2006).</p><p>FIGURA 2 – A OBRA “CASA DE LOCOS”, DE FRANCISCO DE GOYA</p><p>Fonte: GOYA, F. O hospício. Wikimedia Commons, 1828. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/</p><p>File:Francisco_de_Goya_-_La_casa_de_locos_-_Google_Art_Project.jpg Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>Um outro marco no estudo da loucura ocorreu com a publicação de um tratado por</p><p>Phillipe Pinel, médico que estudou a alienação mental, lançando as bases para a psiquiatria</p><p>como um campo independente do saber médico. Pinel atribuiu tal condição a prejuízos no</p><p>intelecto e na vontade, causando comprometimento das faculdades mentais.</p><p>O médico também defendeu a observação do comportamento bizarro a fim de clas-</p><p>sificá-lo, e apontou que para conhecer melhor o assunto era necessário mudar a forma de</p><p>tratamento dos sujeitos enfermos, abandonando o confinamento agressivo e outras práticas</p><p>similares calcadas na violência, que afetavam o comportamento dos indivíduos. Pinel apre-</p><p>sentou distinções na classificação de quadros como a melancolia (estado de abatimento</p><p>e perda de interesse nas coisas) e a mania (quadro em que há agitação e desordens na</p><p>atividade mental, sem indicar uma perda completa da racionalidade), e entendeu que qua-</p><p>dros como estes possuem origem em questões de educação e moral (CHERUBINI, 2006).</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Francisco_de_Goya_-_La_casa_de_locos_-_Google_Art_Project.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Francisco_de_Goya_-_La_casa_de_locos_-_Google_Art_Project.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Francisco_de_Goya_-_La_casa_de_locos_-_Google_Art_Project.jpg</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>51COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>Um pensamento similar a este, que caracteriza o terceiro modo de compreender</p><p>a origem da loucura, pode ser traçado até Eurípedes, autor grego da Antiguidade, cuja</p><p>produção de peças trágicas apresentou heróis lançados à perda do juízo pelo excesso de</p><p>sentimentos como a paixão, ódio ou uma falta de controle de seus instintos, atribuindo tal</p><p>desequilíbrio como causa da insensatez, afastando-se da visão de outros pensadores de</p><p>que a loucura seria causada pelos deuses.</p><p>Os trabalhos de Eurípedes, Sófocles e Ésquilo revelam uma compreensão de ser em</p><p>conflito, que possui uma natureza instintiva que prevalece em relação à vontade, lançando o</p><p>homem a estados extremados de emoção. Em suas tragédias, é possível notar que o oposto</p><p>da loucura é a prudência e a temperança - características atribuídas ao deus Apolo. Ainda</p><p>assim, os autores citados não recorrem às divindades como causa para a loucura ou sua re-</p><p>missão, diferenciando seu entendimento da loucura da presente em outras produções antigas.</p><p>Desta forma, é possível notar semelhanças na visão presente nas tragédias gregas</p><p>e em Pinel, podendo elaborar uma compreensão psicológica da origem da loucura. Este</p><p>último pôde observar de forma privilegiada a conduta dos doentes mentais nas instituições</p><p>asilares, elaborando descrições e classificações de cada quadro.</p><p>FIGURA 3 – PINTURA INTITULADA “PINEL, DIRETOR MÉDICO DO HOSPITAL SALPÊTRIÈRE IN 1795”</p><p>Fonte: FLEURY, T. R. Photographie de “Pinel, médecin em chef de la Salpêtrière em 1975” Wikimedia Commons, 2017.</p><p>Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Photographie_du_tableau_%22Pinel,_m%C3%A9decin_</p><p>en_chef_de_la_Salp%C3%AAtri%C3%A8re_en_1795%22_-_Archives_nationales_(France).jpg Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>Cherubini (2006) relata, que isso colocou a medicina diante da possibilidade de</p><p>buscar a cura para a insanidade, buscando desenvolver métodos terapêuticos. No caso</p><p>dos profissionais de orientação organicista, sua prática passou a adotar tratamentos físicos</p><p>agressivos e recursos psicofarmacológicos, para atuar no sistema nervoso visando sua mu-</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Photographie_du_tableau_%22Pinel,_m%C3%A9decin_en_chef_de_la_Salp%C3%AAtri%C3%A8re_en_1795%22_-_Archives_nationales_(France).jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Photographie_du_tableau_%22Pinel,_m%C3%A9decin_en_chef_de_la_Salp%C3%AAtri%C3%A8re_en_1795%22_-_Archives_nationales_(France).jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Photographie_du_tableau_%22Pinel,_m%C3%A9decin_en_chef_de_la_Salp%C3%AAtri%C3%A8re_en_1795%22_-_Archives_nationales_(France).jpg</p><p>52COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>dança, desconsiderando as percepções do paciente. Já Pinel e seus seguidores buscavam</p><p>tratamentos físicos, que trouxessem aos loucos novas experiências cognitivas e sensoriais</p><p>opostas às indicadas pelos seus sintomas delirantes, muitas vezes transmitindo-lhes a</p><p>noção de que eram castigos empregados para o bem-estar do alienado.</p><p>A compreensão de tratamento da loucura apresentada por Pinel é a da introdução</p><p>da moralidade ao paciente, repetindo o método até que o indivíduo desenvolva uma culpa</p><p>por sua conduta. Cherubini cita, que “o louco passa a se sentir como doente e acreditar</p><p>no poder de cura do médico” (p. 24, 2006). Os psiquiatras que seguiram o trabalho de</p><p>Pinel passaram, gradualmente, a adotar sua cura moral com propósitos disciplinares, tendo</p><p>como prioridade a ordem dentro dos manicômios ao invés do bem-estar do paciente, o que</p><p>recolocou tais espaços como ferramentas de segregação.</p><p>Estes três modelos de entender a loucura se alternam, produzindo o seguinte panorama,</p><p>que influencia as ciências desenvolvidas nos séculos XVIII e XIX: O modelo mítico-religioso de</p><p>loucura é dispensado, pois, a visão racional do mundo e seus fenômenos não aceita mais tais ex-</p><p>plicações. O modelo psicológico depende de uma base organicista, e considera que a dimensão</p><p>psíquica da doença tem a ver com uma falha moral, que cabe ao médico curar - transformando-o</p><p>em um representante</p><p>de um poder social, pináculo da racionalidade (CHERUBINI, 2006).</p><p>Atualmente, no Brasil, há uma lei que dispõe sobre os direitos dos pacientes com trans-</p><p>tornos mentais, bem como questões relacionadas ao tratamento. Esta assegura o tratamento</p><p>com humanidade e respeito, visando alcançar sua recuperação, a proteção contra qualquer</p><p>forma de abuso e a preferência por tratamento em serviços comunitários de saúde mental</p><p>(BRASIL, 2001). Assim, o psicólogo, quando envolvido no cuidado de tais casos, deve agir</p><p>considerando tais princípios, executando seu trabalho embasado em práticas científicas. Isso</p><p>se opõe a considerar que a loucura seja provocada por manifestações divinas ou sobrenaturais.</p><p>Da mesma forma, a adoção do profissional de saúde mental como referência moral,</p><p>como proposto por Pinel, não constitui uma prática cientificamente validada pela Psicologia. O</p><p>psicólogo, assim, analisa os fatores biológicos e afetivos que podem desencadear um quadro de</p><p>doença, e busca desenvolver intervenções que modifiquem o curso da doença. A compreensão</p><p>da loucura a partir de um modelo psicológico é algo que se tornou objeto de análise das diversas</p><p>abordagens teóricas, formulando teorias atreladas a sua forma de entender o ser humano.</p><p>53COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>“A moral consiste num sistema de regras, e a essência de toda moralidade deve ser procurada no respeito</p><p>que o indivíduo adquire por essas regras.”</p><p>Fonte: Piaget (1932/1994, p.23).</p><p>Um outro psicólogo que se dedicou a estudar o desenvolvimento foi Lev Vygotsky, autor bielorrusso que</p><p>definiu, em sua obra, a importância de compreender historicamente os processos mentais. Você pode co-</p><p>nhecer mais sobre sua teoria neste vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=kSC8SKcMTtI</p><p>Fonte: UNIVESP. Psicologia da Educação - Teoria histórico-cultural de Vygotsky e a Prática Educativa. Youtu-</p><p>be. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kSC8SKcMTtI. Acesso em: 01 ago. 2022.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=kSC8SKcMTtI</p><p>54COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>Olá, aluno (a)!</p><p>Você chegou no final da terceira unidade, o que significa que nossos estudos já</p><p>estão se aproximando do final. Que bom que você continua empenhado! Nas páginas</p><p>anteriores, você pôde conhecer uma introdução sobre aspectos da Psicologia dedicados</p><p>a analisar o desenvolvimento humano: a teoria de Jean Piaget, psicólogo que estudou a</p><p>cognição e a capacidade de pensar em crianças.</p><p>Como já estudamos, as teorias da Psicologia variam de acordo com o entendimento</p><p>que se tem do ser humano. Algumas delas enfatizam mais a disposição biológica do indivíduo,</p><p>o que não acontece com as outras. Quando falamos sobre a questão da loucura, você notou</p><p>que um dos modelos explicativos se centrava nos fatores orgânicos. Para a Psicologia, natural-</p><p>mente, a compreensão de tal fenômeno vai além do funcionamento das estruturas biológicas.</p><p>De modo análogo, Piaget, que tinha formação em Biologia, considerou a impor-</p><p>tância da maturação do organismo na capacidade cognitiva, mas formulou uma teoria que</p><p>levava em conta a interação do organismo com os estímulos ambientais, que contribuía</p><p>para a formação dos processos mentais. Em seguida, essas interações eram moduladas</p><p>pelos processos mentais de equilibração.</p><p>Assim, você também compreendeu que o ser humano se desenvolve a partir de</p><p>suas estruturas biológicas, mas o meio que o cerca tem efeito sobre seu desenvolvimento,</p><p>e processos psicológicos ocupam uma posição tanto de influenciador das relações meio-</p><p>-ambiente, como são influenciados por essa interação. A conclusão é que o desenvolvimen-</p><p>to do ser humano é bastante complexo e dificilmente consegue-se encontrar uma causa</p><p>única para questões que afetam o crescimento do indivíduo, que muitas vezes se tornam</p><p>problemas – tais como transtornos mentais, transtornos de aprendizagem e de conduta.</p><p>Espero que esta Unidade tenha facilitado o seu entendimento sobre o ser humano</p><p>e estimulando você a aprofundar ainda mais seus estudos sobre este tema!</p><p>Até a próxima!</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>55COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>O movimento antimanicomial no Brasil</p><p>Este artigo aborda a história da luta antimanicomial no Brasil, narrando as con-</p><p>dições que levaram um grupo de indivíduos, trabalhadores de saúde mental e familiares</p><p>de pacientes a se organizarem em busca de transformações no cuidado com pacientes</p><p>com transtorno mental. A luta antimanicomial é o movimento responsável pela atual política</p><p>pública de cuidados às pessoas com doenças mentais, que preza pelo tratamento huma-</p><p>nizado, que preserve os vínculos da pessoa com sua rede de apoio e território de origem.</p><p>Fonte: LÜCHMANN, L. H. H.; RODRIGUES, J. O movimento antimanicomial no Brasil. Ciência e saúde coletiva, v.</p><p>12, n. 2, abr. 2007. Disponível em https://doi.org/10.1590/S1413-81232007000200016. Acesso em: 10 ago. 2022.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>https://doi.org/10.1590/S1413-81232007000200016</p><p>56COMO PENSA O HOMEM?UNIDADE 3</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>• Título: Piaget para Principiantes</p><p>• Autor: Lauro de Oliveira Lima.</p><p>• Editora: Summus Editorial; 6ª edição (1 janeiro 1980).</p><p>• Sinopse: Este livro inclui mais de 30 artigos do autor suíço sobre</p><p>os aspectos do desenvolvimento, sendo uma referência sólida para</p><p>aqueles que desejam se aprofundar em sua teoria.</p><p>• Título: Nise – O Coração da Loucura</p><p>• Ano: 2016.</p><p>• Sinopse: Baseado na história real da psiquiatra Nise da Silveira,</p><p>que adotou métodos considerados inovadores para o tratamento</p><p>de pacientes psiquiátricos na década de 1940, incentivando práti-</p><p>cas artísticas e o cuidado humanizado em um período em que os</p><p>doentes mentais eram mantidos em isolamento.</p><p>https://www.amazon.com.br/s/ref=dp_byline_sr_book_1?ie=UTF8&field-author=Lauro+de+Oliveira+Lima&text=Lauro+de+Oliveira+Lima&sort=relevancerank&search-alias=stripbooks</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>Plano de Estudos</p><p>• A Psicologia da religião;</p><p>• O aconselhamento religioso.</p><p>Objetivos da Aprendizagem</p><p>• Entender o que é a Psicologia da religião;</p><p>• Compreender a relação entre a religião, qualidade de</p><p>vida e saúde mental;</p><p>• Compreender as técnicas utilizadas para desenvolver a</p><p>escuta ativa;</p><p>• Entender de que modo ocorre a aproximação entre</p><p>aconselhamento religioso e escuta psicanalítica.</p><p>Professor(a) Ma. Emanoella dos Santos Ruffo</p><p>PSICOLOGIA PSICOLOGIA</p><p>E RELIGIÃO: E RELIGIÃO:</p><p>INTERSECÇÕESINTERSECÇÕES</p><p>UNIDADEUNIDADE4</p><p>58PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Seja bem-vindo (a) novamente, aluno (a)!</p><p>Você irá iniciar a última Unidade desta disciplina. Como se sente? Até aqui você já</p><p>aprendeu muito sobre este campo do conhecimento que se tornou nosso foco! Fizemos um</p><p>passeio histórico, para compreender como o homem entendia a si mesmo em diferentes</p><p>momentos: na Antiguidade, no período medieval e na era moderna, época de muitas evo-</p><p>luções, que fez com que o ser humano finalmente pudesse conhecer a si próprio de uma</p><p>perspectiva biológica e experimental.</p><p>Esta possibilidade influenciou os estudiosos que se debruçavam sobre as questões</p><p>propostas por filósofos sobre a consciência e a existência da mente. No início, a Psicologia</p><p>buscou conhecer o ser humano</p><p>por meio de experimentos e fenômenos que pudessem</p><p>ser medidos e quantificados. Mudanças na forma de entender a ciência levaram a novas</p><p>propostas teóricas para compreender o ser humano, que coexistem na Psicologia, funda-</p><p>mentando teorias e técnicas para compreender diferentes nuances da vida das pessoas.</p><p>Agora, após todos estes estudos, você está mais apto para articular algumas apro-</p><p>ximações entre a Psicologia e a religião! Nesta Unidade, você irá conhecer uma introdução</p><p>à Psicologia da religião, área da Psicologia que tem como objetivo compreender como os</p><p>fenômenos espirituais e religiosos afetam o indivíduo. A união entre estes dois campos</p><p>desperta muitas dúvidas e discussões, mas posso adiantar que não é possível conceber</p><p>uma Psicologia “religiosa”, que considere exclusivamente a visão particular de uma fé para</p><p>explicar os fenômenos humanos.</p><p>Ainda assim, como a religião faz parte da vida da maior parte das pessoas, impedir</p><p>este diálogo entre campos do conhecimento distintos é prejudicar a compreensão completa</p><p>do ser humano. Nas páginas seguintes, você poderá conhecer mais sobre as intersecções</p><p>encontradas entre estas duas formas de pensar a vida interna do indivíduo.</p><p>Desejo a você bons estudos!</p><p>A PSICOLOGIA</p><p>DA RELIGIÃO1</p><p>TÓPICO</p><p>59PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>Nas últimas unidades, diversos aspectos da Psicologia foram apresentados: sua</p><p>história, principais estudiosos e teorias populares. É possível defini-la como uma ciência</p><p>que tem como seu objeto os fenômenos mentais e subjetivos. Se há uma aproximação</p><p>da religião, na tentativa de estabelecer comparações, inicialmente é possível apontar que</p><p>ambas possuem um saber sobre o ser humano, suas práticas e pensamentos.</p><p>Entretanto, há uma nítida diferença entre estas duas áreas: a religião não é um</p><p>campo do saber científico, e não possui práticas fundamentadas com base em um método</p><p>rigoroso. Pode-se definir a religião como um conjunto de crenças e atitudes em relação ao</p><p>sagrado, e que possui um caráter coletivo, unindo um grupo de indivíduos que possuem</p><p>semelhanças em sua fé.</p><p>Ainda que estas formas plurais de se relacionar com o sagrado se organizem de</p><p>modos diferentes entre si, alguns pontos em comum podem ser encontrados para auxi-</p><p>liar em uma definição. É possível citar: uma organização hierárquica, o caráter público,</p><p>a promoção de encontros e reuniões com regularidade, a existência de rituais festivos e</p><p>o estabelecimento de limites entre o que é certo e errado, sagrado ou profano. Por fim,</p><p>Bezerra, Azambuja e Ferreira apontam:</p><p>Uma última característica comum que merece destaque é a presença e a ela-</p><p>boração de um sistema de crenças vinculado ao sobrenatural, cuja principal</p><p>finalidade é buscar pelo entendimento da morte e de uma possível vida após</p><p>o passamento (2021, p. 53).</p><p>Por se tratar de um fenômeno ligado ao ser humano, há uma área da Psicologia</p><p>que se destina a estudar a religião. A psicologia da religião se dedica a estudar o compor-</p><p>tamento religioso, investigando sua relação com aspectos culturais e pessoais. Ainda que a</p><p>60PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>ideia mais popular sobre o psicólogo é a de um profissional que trabalha em seu consultório</p><p>e analisa os problemas e patologias a nível individual, o profissional formado em Psicologia</p><p>pode direcionar seu campo de estudo para a compreensão de fenômenos variados que</p><p>dizem respeito à existência humana, sem que necessite tomar um enfoque clínico.</p><p>Para Bezerra, Azambuja e Ferreira (2021, p. 155), “a religião é responsável por nortear</p><p>uma série de costumes, valores e pode, até mesmo, afetar a ciência, sem retirar-lhe, porém, a</p><p>autonomia”. Assim, quando a psicologia se aproxima da religião, o faz com o objetivo de analisar</p><p>o indivíduo religioso. Paiva (2018) afirma, que a Psicologia da religião deve buscar compreender</p><p>o que existe de psíquico no comportamento religioso, ao invés de centralizar-se nos aspectos</p><p>religiosos existentes no psiquismo. Ancona-Lopez (2002) aponta, que esta área de estudo de-</p><p>manda do profissional uma aproximação que respeite a singularidade dos dois campos.</p><p>Ainda segundo a referida autora, ao tomar a religião para ser explicada pela</p><p>Psicologia, existe o risco de descrever os fenômenos religiosos sem a referência cultural</p><p>que atribui seus significados específicos. Por outro lado, também existe a possibilidade de</p><p>transformar a psicologia da religião em uma psicologia religiosa, ou seja, uma interpretação</p><p>dos fenômenos psicológicos baseada nos valores e crenças de uma doutrina. Ambos os</p><p>cenários estariam fora da proposta da Psicologia da religião.</p><p>É essencial que, na busca pelo diálogo entre estas duas dimensões do conheci-</p><p>mento, a autonomia de cada área seja preservada, ressaltando que o objeto da psicologia é</p><p>sempre o indivíduo, e não a religião em si. Tal convergência constitui um campo polêmico, e</p><p>Bezerra, Azambuja e Ferreira (2021) relatam que, inicialmente, a Psicologia acabou sendo</p><p>utilizada a serviço da religião, buscando fortalecer a fé ou ampliar a educação religiosa.</p><p>Outro conflito estabelecido entre os dois campos foi a associação de alguns pesquisadores</p><p>entre a religiosidade e padrões de doença mental. Estes recortes evidenciam o quão com-</p><p>plexa é a construção de um diálogo entre estas áreas do saber.</p><p>1.1 A busca pelo bem-estar do ser humano</p><p>Bezerra, Azambuja e Ferreira (2021) discutem a influência da religião na qualida-</p><p>de de vida dos indivíduos. Os autores citam que há estudos estabelecendo uma relação</p><p>entre os vínculos religiosos e um aumento do bem-estar nas pessoas, pela transmissão</p><p>de conselhos e ensinamentos de cunho espiritual. Contudo, outras pesquisas ressaltam a</p><p>associação negativa entre religião e qualidade de vida, identificando que as normas e direti-</p><p>vas de cada religião, que estabelecem o que é fonte de pecado, pode provocar sentimentos</p><p>de “repúdio, indignação e falha” (p. 102).</p><p>Além disso, a dimensão social da religião pode ocasionar situações de cobranças e</p><p>exclusão caso alguns indivíduos ajam contra as normas estabelecidas, o que pode provocar</p><p>ansiedade, conflitos emocionais, vivências estressantes e inibições, o que pode repercutir</p><p>negativamente na saúde dos fiéis, caso isso represente um conflito entre aquilo que desejam</p><p>para si e o preconizado por sua religião (BEZERRA, AZAMBUJA, FERREIRA; 2021).</p><p>61PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>Tais questões têm impacto direto na saúde mental dos indivíduos, que Bezerra, Azam-</p><p>buja e Ferreira (2021) definem como o modo de cada indivíduo agir e lidar com os sentimentos</p><p>decorrentes das mudanças, desafios e demandas apresentadas pela realidade. Os autores</p><p>apontam que atualmente, ainda se mantém uma crença de que uma boa saúde mental depende</p><p>exclusivamente da boa vontade do sujeito, dado que o sofrimento psíquico não é um sintoma</p><p>que pode ser percebido de forma concreta, sendo mais difícil de perceber em comparação com</p><p>sintomas físicos. Em muitas circunstâncias, a doença mental é associada com a preguiça.</p><p>Bezerra, Azambuja e Ferreira (2021) apontam a ligação entre a religião e os proces-</p><p>sos de cura, afirmando que a crença religiosa promove a cura pela fé. Os autores também</p><p>mencionam que, no caso das doenças psicológicas, cujo tempo de tratamento é maior, há</p><p>maior ocorrência de orações e pedidos de intercessão em nome da cura. Ainda segundo</p><p>eles, pode-se afirmar que há uma atuação da religião nos tratamentos de saúde, mesmo</p><p>que esta não se dê por meio da cura e de modo científico e medicinal.</p><p>FIGURA 1 – UM DOS MOTIVOS PELOS QUAIS AS PESSOAS ORAM É O RESTABELECIMENTO DA SAÚDE</p><p>Fonte: MULHER rezando na Igreja Cristo buen Viaje. Wikimedia Commons, 2014. Disponível: https://commons.</p><p>wikimedia.org/wiki/File:Woman_praying_in_Cristo_buen_Viaje_Church.jpg Acesso em: 10 ago. 2022.</p><p>Em situações de fragilidade diante de uma doença, o papel da religião seria um</p><p>espaço protetor, que forneceria uma perspectiva de sentido para a vida, controle das situa-</p><p>ções presentes</p><p>e futuras, e acolhimento das necessidades daquele sujeito. Isto não exclui</p><p>a adoção do tratamento prescrito pelo profissional de saúde, conforme esclarecem Bezerra,</p><p>Azambuja e Ferreira (2021). Para estes autores, o acompanhamento por um profissional</p><p>de saúde mental auxiliaria a evitar ou diminuir o impacto de possíveis intervenções negati-</p><p>vas causadas pela espiritualidade e a religiosidade. A diferença entre a personalidade e o</p><p>contexto social de cada sujeito dificulta o estabelecimento de quais aspectos de uma expe-</p><p>riência religiosa podem ser prejudiciais à saúde mental e a qualidade de vida do indivíduo.</p><p>Até aqui, é possível observar que a religião e a Psicologia guardam algumas se-</p><p>melhanças entre si. Mesmo sem apresentar um consenso em sua forma de compreender o</p><p>homem, as teorias psicológicas se opõem a um tratamento desumano e abusivo, buscando</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Woman_praying_in_Cristo_buen_Viaje_Church.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Woman_praying_in_Cristo_buen_Viaje_Church.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Woman_praying_in_Cristo_buen_Viaje_Church.jpg</p><p>62PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>combater ações que prejudiquem o ser humano. A religião também apresenta um código</p><p>moral, que não está fundamentado em uma análise ética racional, sendo derivada dos</p><p>dogmas e mandamentos divinos (BEZERRA, AZAMBUJA, FERREIRA; 2021).</p><p>O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005) aponta que o profissional,</p><p>em sua prática, não deve induzir seu cliente a convicções religiosas, proibição que também</p><p>se estende a ideologias políticas e filosóficas e orientação sexual. Este artigo não impede</p><p>ao psicólogo que possua uma crença ou exercite sua fé, mas diz respeito às atividades que</p><p>desempenha no âmbito profissional.</p><p>Em outro artigo, há uma normativa que reitera a necessidade de que o profissional</p><p>utilize, em sua conduta, técnicas e conhecimentos fundamentados na ciência psicológica.</p><p>Assim, não é possível, de acordo com a orientação do Conselho Federal, que a prática do</p><p>psicólogo se utilize de teorias e métodos religiosos, tais como experiências de conversão,</p><p>regressão a vidas passadas ou outras práticas adivinhatórias.</p><p>FIGURA 2 – PRÁTICAS DE CURA ESPIRITUAL NÃO SÃO ACEITAS COMO PARTE DA CONDUTA</p><p>DO PSICÓLOGO</p><p>Fonte: CURA pela fé na Igreja Metodista Llandrindod Wells. Wikimedia Commons, 2010. Disponível: https://commons.</p><p>wikimedia.org/wiki/File:Faith_healing_at_Llandrindod_Wells_Methodist_Church_(4404430594).jpg Acesso em: 10 ago. 2022.</p><p>O Conselho Federal de Psicologia (CFP), entende que a prática psicológica deve se</p><p>desenvolver de modo laico, seguindo os princípios da Constituição Federal. A noção de lai-</p><p>cidade diz respeito à rejeição de um ponto de vista unilateral religioso em suas práticas, que</p><p>prevaleça sobre o direito de cada indivíduo de manifestar sua fé (ou ausência dela) da forma</p><p>que preferir. Assim, no Brasil, a Psicologia não é agnóstica ou antirreligiosa, mas ela se opõe</p><p>ao uso da espiritualidade e da religiosidade como ferramentas pelo psicólogo. O emprego das</p><p>próprias crenças por este profissional é uma atitude antiética, que pode acarretar prejuízo e</p><p>mais sofrimento ao paciente (BEZERRA, AZAMBUJA, FERREIRA, 2021; CFP, 2005).</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Faith_healing_at_Llandrindod_Wells_Methodist_Church_(4404430594).jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Faith_healing_at_Llandrindod_Wells_Methodist_Church_(4404430594).jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Faith_healing_at_Llandrindod_Wells_Methodist_Church_(4404430594).jpg</p><p>O ACONSELHAMENTO</p><p>RELIGIOSO2</p><p>TÓPICO</p><p>63PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>Outra aproximação entre a Psicologia e a religião ocorre na prática do aconselha-</p><p>mento religioso, orientação oferecida por uma figura de liderança religiosa aos seguidores</p><p>que buscam respostas para questões pessoais. Santos (2010) entende, que a função do</p><p>conselheiro é auxiliar o aconselhando a lidar de forma madura com situações desfavoráveis</p><p>do cotidiano, conduzindo o sujeito “a um melhor relacionamento com Deus, consigo mesmo</p><p>e com a sociedade em geral” (p. 14). Assim, compreende-se que a pessoa que busca o</p><p>aconselhamento apresenta algum nível de angústia, situação próxima à relação que se</p><p>estabelece entre o psicólogo clínico e os pacientes que utilizam tal serviço.</p><p>A Organização Mundial de Saúde (OMS) (2016), em um programa de qualificação</p><p>para profissionais sobre o manejo de pacientes com transtornos mentais, neurológicos e</p><p>abuso de substâncias (mhGAP) em países com pouco acesso a profissionais especia-</p><p>lizados, destaca que uma habilidade muito importante na abordagem desses casos é a</p><p>habilidade de comunicação. Em seu manual, a OMS destaca alguns tópicos que favorecem</p><p>a boa comunicação: alguns deles são o acolhimento inicial, o uso de linguagem clara e</p><p>concisa, o uso de perguntas abertas e o exercício de uma postura respeitosa em todos os</p><p>momentos, além da prática da escuta ativa.</p><p>Segundo este programa, a escuta ativa é a habilidade de ouvir com atenção o que está</p><p>sendo verbalizado, ao mesmo tempo em que se procura o sentido daquilo que está sendo co-</p><p>municado. Para além das mensagens verbais, uma pessoa pode transmitir aquilo que sente por</p><p>meio de gestos, expressões faciais e posicionamento do corpo, além de pausas e mudanças na</p><p>entonação do discurso. O indivíduo pode ter a necessidade de permanecer em silêncio ao tratar</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>64PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>de alguma questão difícil, e as recomendações são que o ouvinte não tema estes momentos,</p><p>permitindo a expressão livre daquilo que o sujeito sente, sem apressá-lo (OMS, 2016).</p><p>FIGURA 3 – É IMPORTANTE PARA UM CONSELHEIRO OUVIR E ESTAR ATENTO A TODAS AS</p><p>MENSAGENS TRANSMITIDAS PELO ACONSELHANDO</p><p>Fonte: PNG serviço de aconselhamento para mulheres. Wikimedia Commons, 2008. Disponível: https://commons.wikimedia.</p><p>org/wiki/File:PNG_counselling_service_for_women._PNG_2008._Photo-_AusAID_(10713786424).jpg Acesso em: 10 ago. 2022.</p><p>A OMS (2016) também cita a empatia como característica necessária para a escuta</p><p>ativa. A capacidade de compreender e partilhar os sentimentos do outro é fundamental para</p><p>entender a perspectiva de quem fala, além de servir para reforçar um vínculo entre o par que</p><p>conversa. Para ampliar esta compreensão, a recomendação é utilizar questões abertas, tais</p><p>como “como você se sente?” ao invés de “você está bem?”; “com quem você mora?” ao invés</p><p>de “você é casado(a)?” para estimular a pessoa a detalhar o que pensa. Questões fechadas</p><p>podem ser úteis diante de indivíduos retraídos, ou para encerrar conversas, se necessário.</p><p>Outra estratégia que pode ser utilizada para aprimorar a comunicação é a capacidade</p><p>de síntese do que o indivíduo relatou. Ao verbalizar os pontos principais do que foi dito pelo</p><p>sujeito, nas palavras do ouvinte, este tem a oportunidade de mostrar que estava atento ao</p><p>relato, ao mesmo tempo que pode clarificar se compreendeu corretamente. Utilizar termos</p><p>como, “me pareceu que você quis dizer...” e “o que eu entendi foi...” fortalecem esta perspecti-</p><p>va, de que o ouvinte quer compreender melhor o que o indivíduo está relatando (OMS, 2016).</p><p>Além desta referência para a construção de um bom vínculo com o sujeito que</p><p>necessita relatar seu sofrimento, Santos (2010) propôs o estabelecimento de uma reflexão</p><p>entre a psicanálise e o aconselhamento religioso. O autor apontou que a construção teórica</p><p>de Freud possui aspectos que antagonizam com a fé cristã, mas ressalta que a escuta</p><p>psicanalítica do indivíduo é um recurso interessante para este modelo de aconselhamento.</p><p>Para ele, a escuta deve ser realizada de forma isenta de parcialidade, que permita a ex-</p><p>pressão legítima dos tormentos do aconselhando.</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:PNG_counselling_service_for_women._PNG_2008._Photo-_AusAID_(10713786424).jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:PNG_counselling_service_for_women._PNG_2008._Photo-_AusAID_(10713786424).jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:PNG_counselling_service_for_women._PNG_2008._Photo-_AusAID_(10713786424).jpg</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>65PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>Tal atitude de escuta seria uma instrumentação psicanalítica do aconselhamento pasto-</p><p>ral, sem renunciar à proposta de aconselhamento que considera a espiritualidade, ameaçar a fé</p><p>do aconselhando com a apresentação de uma outra teoria, ou realizar um trabalho psicológico ou</p><p>psicanalítico. Como já discutido, a prática psicológica utiliza recursos e intervenções baseados</p><p>em teorias científicas, e a Psicanálise também possui uma teoria e método próprio. O trabalho</p><p>de Santos (2010) possibilita incluir o modelo de escuta proposto por Freud ao aconselhamento</p><p>religioso, para que o conselheiro possa conhecer mais sobre o indivíduo que busca auxílio.</p><p>A fala do sujeito que busca o aconselhamento só pode expressar a situação de</p><p>sofrimento que lhe despertou a necessidade de ajuda se o ouvinte puder acolhê-lo de</p><p>modo neutro, permitindo que ele elabore a situação em suas palavras, sem interrupções e</p><p>silenciamentos. O autor ainda afirma:</p><p>O trabalho do conselheiro é o de ajudar nesse árduo caminho da descoberta</p><p>de si mesmo. Essa tarefa exige preparo, empenho e, acima de tudo, res-</p><p>ponsabilidade na condução desse processo que pode agravar uma situação</p><p>desfavorável, tornando-a psiquicamente irreversível (SANTOS, 2010, p. 71).</p><p>Deste modo, a descoberta de si ocorreria por meio do relato, e caberia ao conse-</p><p>lheiro identificar e ajudar o aconselhando a perceber o que está contido nas entrelinhas do</p><p>seu discurso. Santos (2010) ainda destaca que a história de cada sujeito é única, e que</p><p>semelhanças na história pessoal ou fatos relatados não significam que o aconselhamento</p><p>realizado com uma pessoa possa ser transposto para outra: o ouvinte deve estar atento</p><p>para a singularidade de cada pessoa.</p><p>Ainda que Freud, fundador da Psicanálise, tenha declarado seu ateísmo, Santos</p><p>(2010) aponta que não existe uma associação incontestável entre a teoria psicanalítica e a</p><p>descrença no transcendente. Para o autor, esta teoria busca uma investigação de proces-</p><p>sos psíquicos inconscientes em busca da cura de estados de sofrimento, independente da</p><p>postura do sujeito que sofre perante Deus, assim como o aconselhamento pastoral deve</p><p>visar auxiliar o aconselhando para lidar melhor com os obstáculos em sua vida, sejam estas</p><p>dificuldades de ordem religiosa ou secular. O autor afirma, que “a psicanálise e o aconselha-</p><p>mento pastoral serão excludentes no que diz respeito à fé, mas ao mesmo tempo inclusivos</p><p>na observação de aspectos da saúde psíquica e espiritual do aconselhando” (2010, p. 93).</p><p>Outra aproximação entre os estudos sobre o psiquismo e a religião ocorreu por</p><p>meio do diálogo entre Freud e Oskar Pfister, pastor protestante e psicanalista. Há registro</p><p>da correspondência entre os dois, que mantiveram uma relação de amizade mesmo ape-</p><p>sar das crenças diferentes. Segundo Albuquerque (2017), as cartas entre os dois autores</p><p>serviram como base para estudos posteriores e fundamentaram as posições subsequentes</p><p>66PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>adotadas por aqueles que se debruçaram pela questão do diálogo entre a psicanálise e</p><p>a crença religiosa. Acerca das teorizações de Pfister, que buscou uma confluência entre</p><p>religião e psicanálise, diz-se que:</p><p>(...) a psicanálise pode ter um efeito benéfico sobre formas de vivência religiosa</p><p>imatura ou até mesmo psicopatológica. Entretanto, entusiasmado com o uso</p><p>do dispositivo psicanalítico para o tratamento do sofrimento em sua prática</p><p>pastoral, ele minimizava as diferenças entre esses campos, na medida em que</p><p>seu forte desejo de integrá-los o impossibilitava de reconhecer diferenças fun-</p><p>damentais, que denunciariam como ilusória a sua concepção de alcançar uma</p><p>completa harmonia entre campos distintos (ALBUQUERQUE, 2017, p. 226).</p><p>Assim, é possível afirmar que existem intersecções entre a religião e a psicologia</p><p>– não apenas na busca pela compreensão da vida interna do ser humano, mas também no</p><p>estabelecimento de condições que auxiliem o ser humano a enfrentar melhor os dissabores</p><p>e situações fontes de sofrimento. Ainda que não seja possível mesclar a prática psicoló-</p><p>gica com a religiosa, tanto pelas normas apresentadas no Código de Ética Profissional</p><p>do Psicólogo quanto por incompatibilidade de algumas teorias, tais como a Psicanálise, o</p><p>conselheiro religioso pode aprimorar suas habilidades ao conhecer melhor as produções</p><p>do campo da Psicologia, ampliando seu entendimento sobre o sofrimento humano e formas</p><p>para melhor compreender os aconselhando.</p><p>67PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>“A psicanálise em si não é religiosa nem anti-religiosa, mas um instrumento apartidário do qual tanto o religioso</p><p>como o laico poderão servir-se, desde que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofredores.”</p><p>Fonte: Sigmund Freud, em correspondência a Oskar Pfister, datada de 9 de fevereiro de 1909).</p><p>Como você estudou anteriormente, a Psicanálise é uma teoria que se constitui de modo independente da</p><p>Psicologia. Embora muitos psicólogos utilizam esta abordagem em seu trabalho, pode-se obter uma forma-</p><p>ção independente de psicanalista, por meio de institutos e sociedades dedicadas à transmissão e pesquisa</p><p>na área. A formação se faz por meio de estudos teóricos e de análise pessoal constante, por um período</p><p>de alguns anos, assegurando que o futuro psicanalista domine os conhecimentos técnicos e aprimore sua</p><p>capacidade de pensar clinicamente. Assim, a formação em Psicanálise se dá por meio de um processo lento,</p><p>que requer um investimento significativo de tempo e dinheiro. Em paralelo, anúncios frequentes de for-</p><p>mações que duram semanas ou meses, que não mencionam a necessidade de análise pessoal também são</p><p>ofertados, mas o interessado deve ter o discernimento de que o domínio de uma teoria que se aprofunda na</p><p>complexidade do psiquismo humano não pode ocorrer brevemente.</p><p>Fonte: A autora (2022).</p><p>68PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>Olá, prezado (a) aluno (a)!</p><p>Aqui encerramos nossa última unidade! Parabéns pelo seu compromisso com as leitu-</p><p>ras e estudos, pois você não teria chegado até aqui sem se dedicar. O que achou do assunto</p><p>que foi trabalhado aqui? Certamente, você deve ter tido muitas questões. Como você percebeu,</p><p>as relações entre a religião e a Psicologia ainda não estão consolidadas, e o que você estudou</p><p>até agora pode servir como estímulo para se aprofundar ainda mais nessa discussão.</p><p>Mesmo que as duas áreas possuam divergências na perspectiva que utilizam para</p><p>entender a espiritualidade, ambas convergem na busca da compreensão e melhora na qua-</p><p>lidade de vida do ser humano, podendo auxiliar pessoas em situação de sofrimento. Tanto a</p><p>Psicologia, quanto a Psicanálise, como uma área independente de estudos, não coincidem</p><p>por completo com a perspectiva religiosa, seus dogmas e celebrações divinas. Isto não</p><p>significa que o psicólogo rejeita a religião, quando se propõe a conhecer um indivíduo!</p><p>A Psicologia busca entender, a partir da história e da crença de cada sujeito, de</p><p>que forma a religiosidade é expressa e como afeta seu comportamento e modo de pensar.</p><p>A combinação entre aspectos da personalidade e o contexto religioso podem favorecer</p><p>condutas saudáveis ou patológicas, mas o vínculo com o sagrado e o transcendental não</p><p>pode ser tomado como algo a ser evitado, pois é como muitos indivíduos dão significado</p><p>para a vida e a morte.</p><p>Além disso, nem sempre o sujeito é capaz de explicar com clareza as angústias e</p><p>pensamentos que o perturbam - por isso, é fundamental que o conselheiro religioso também</p><p>instrua sua capacidade de ouvir, buscando conhecer mais sobre a Psicologia.</p><p>Espero que você tenha apreciado esta jornada em busca de compreender melhor o</p><p>ser humano, e que estes estudos tenham ampliado seu desejo de saber mais sobre a vida</p><p>psíquica do ser</p><p>humano!</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>69PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>Atendimento psicológico e direção espiritual: semelhanças, diferenças, integrações</p><p>e... confusões</p><p>Este artigo apresenta uma discussão que aponta as semelhanças e diferenças entre</p><p>o atendimento psicológico e o aconselhamento espiritual, destacando os riscos de confusão</p><p>que podem ocorrer pela sobreposição de papéis e funções diversos às duas práticas.</p><p>Fonte: ALETTI, M. Atendimento psicológico e direção espiritual: semelhanças, diferenças, integrações e... confusões.</p><p>Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 24, n. 1, pp. 117-125, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-</p><p>37722008000100014. Acesso em: 02 ago. 2022.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>https://doi.org/10.1590/S0102-37722008000100014</p><p>https://doi.org/10.1590/S0102-37722008000100014</p><p>70PSICOLOGIA E RELIGIÃO: INTERSECÇÕESUNIDADE 4</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>• Título: Gênio Indomável</p><p>• Ano: 1997.</p><p>• Sinopse: Will Hunting trabalha como zelador em uma universidade</p><p>após cumprir tempo na prisão. Ao resolver alguns problemas com-</p><p>plexos de matemática, ele passa a ser visto como um gênio, mas</p><p>ainda tem dificuldades de comportamento e se envolve em situações</p><p>agressivas. Para não ser preso novamente, Will é encaminhado para</p><p>fazer terapia, mas tem dificuldades de aceitar o acompanhamento</p><p>de um terapeuta – até que se identifica com um deles.</p><p>• Título: Cartas Entre Freud e Pfister. Um Diálogo Entre a Psica-</p><p>nálise e a Fé Cristã</p><p>• Autor: Ernst L. Freud, Heinrich Meng.</p><p>• Editora: Ultimato.</p><p>• Sinopse: Este livro apresenta a correspondência entre Freud, o</p><p>fundador da teoria psicanalítica, e Oskar Pfister, pastor protestante.</p><p>Ambos compartilham uma amizade e o interesse pela compreen-</p><p>são do homem, apresentando em suas cartas concordâncias e</p><p>divergências entre seus pontos de vista.</p><p>71</p><p>Caro (a) aluno (a),</p><p>Chegamos ao final desta disciplina de introdução à Psicologia, e eu espero que você</p><p>tenha aproveitado ao máximo esta oportunidade de conhecer esta área do conhecimento que se</p><p>dedica a buscar o conhecimento das dimensões psíquicas do ser humano! A partir deste ponto,</p><p>você pode continuar ampliando seu conhecimento e buscar mais livros e artigos sobre o tema.</p><p>Como você viu, nestas páginas foram apresentadas noções introdutórias sobre</p><p>esta disciplina. Muitos pensadores e cientistas buscaram formas de acesso aos fenômenos</p><p>subjetivos, tendo influência de correntes filosóficas e acontecimentos sociais. Foram esta-</p><p>belecidos diferentes métodos e objetos de estudo, numa tentativa de desenvolver modelos</p><p>gerais para os acontecimentos intrapsíquicos, como vimos nas primeiras unidades.</p><p>Cada ser humano é singular, e para termos contato com suas particularidades, o pro-</p><p>fissional precisa estar atento. Uma postura empática e livre de julgamentos é essencial para</p><p>termos contato com as emoções e a perspectiva da pessoa que fala, e não nos deixarmos levar</p><p>pelas nossas impressões e interpretações sobre a experiência da outra pessoa, que procura</p><p>ajuda em momentos de vulnerabilidade e revela situações difíceis em busca de acolhimento.</p><p>Por fim, a Psicologia e a Religião são áreas focadas no ser humano, mas que apresen-</p><p>tam particularidades em relação à abordagem escolhida. Ambas se encontram na Psicologia da</p><p>religião, campo em desenvolvimento, que estuda o que existe de psíquico no comportamento</p><p>religioso. Caso deseje se aprofundar nesta esfera do saber, você poderá traçar conexões</p><p>entre os fenômenos psicológicos e religiosos, sem reduzir uma área ao domínio da outra.</p><p>Agradeço pela sua companhia nesta jornada e espero ter contribuído para ampliar</p><p>seu conhecimento sobre o ser humano!</p><p>Até uma próxima oportunidade!</p><p>CONCLUSÃO GERAL</p><p>72</p><p>ALBUQUERQUE, B. P. Sigmund Freud e Oskar Pfister: um diálogo sobre psicanálise e</p><p>religião. 2017. 242 f. Dissertação (Mestrado em Pesquisa Clínica em Psicanálise) - Univer-</p><p>sidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017. Disponível em: https://www.bdtd.</p><p>uerj.br:8443/handle/1/14677. Acesso em: 10 ago. 2022.</p><p>ANCONA-LOPEZ, M. Contexto geral do diagnóstico psicológico. In: TRINCA, W. Diagnós-</p><p>tico psicológico: a prática clínica. São Paulo: EPU, 1984.</p><p>ANCONA-LOPEZ, M. Psicologia e religião: recursos para construção do conhecimento.</p><p>Estudos de psicologia. (Campinas) 19 (2) • Ago 2002. Disponível em: https://www.scielo.</p><p>br/j/estpsi/a/3bwpqw7SL47NDhfygmJC84m/?lang=pt#. Acesso em: 01 ago. 2022.</p><p>BEZERRA, N. E. S.; AZAMBUJA, C. S. FERREIRA, P. R. Religião e Psicologia. Curitiba:</p><p>Intersaberes, 2021. 247 p. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br/Acervo/Publi-</p><p>cacao/194855. Acesso em: 01 ago. 2022.</p><p>BOCK, A. M. M.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. L. T. Psicologias: uma introdução ao estudo</p><p>de psicologia. São Paulo: Saraiva, 1999.</p><p>BRASIL. Lei nº 10.126, de 6 de abril de 2001. Brasília: 2001. Disponível em: http://www.</p><p>planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm. Acesso em: 04 ago. 2022.</p><p>CAVICCHIA, D. C. O desenvolvimento da criança nos primeiros anos de vida. 2010.</p><p>Disponível em: https://acervodigital.unesp.br/handle/123456789/224?mode=full. Acesso</p><p>em: 02 ago. 2022.</p><p>CHERUBINI, K. G. Modelos históricos de compreensão da loucura.: Da Antigüidade Clás-</p><p>sica a Philippe Pinel. Revista Jus Navigandi. Teresina, ano 11 , n. 1135, 10 ago. 2006.</p><p>Disponível em: https://jus.com.br/artigos/8777. Acesso em: 30 jul. 2022.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/14677</p><p>https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/14677</p><p>https://www.scielo.br/j/estpsi/a/3bwpqw7SL47NDhfygmJC84m/?lang=pt</p><p>https://www.scielo.br/j/estpsi/a/3bwpqw7SL47NDhfygmJC84m/?lang=pt</p><p>https://plataforma.bvirtual.com.br/Acervo/Publicacao/194855</p><p>https://plataforma.bvirtual.com.br/Acervo/Publicacao/194855</p><p>https://acervodigital.unesp.br/handle/123456789/224?mode=full</p><p>https://jus.com.br/artigos/8777/modelos-historicos-de-compreensao-da-loucura</p><p>73</p><p>CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Éti-</p><p>ca Profissional do Psicólogo. Brasília, 2005. Disponível em:</p><p>https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf. Acesso</p><p>em 12 ago. 2022.</p><p>DALGALARRONDO, P. Religião, psicopatologia e saúde mental. Porto Alegre: Artmed,</p><p>2008.</p><p>FIGUEIREDO, L. C. M. Matrizes do pensamento psicológico. Petrópolis: Vozes, 2008.</p><p>FREIRE, I. R. Raízes da Psicologia. Petrópolis: Vozes, 1997.</p><p>FREUD, S. (1998). Cartas entre Freud e Pfister (1909 – 1939). Viçosa, MG: Ultimato.</p><p>GONZÁLEZ REY, F. L. Pesquisa qualitativa em psicologia: caminhos e desafios. São</p><p>Paulo: Cengage Learning, 2005.</p><p>HERRMANN, F. O que é psicanálise. Blucher: São Paulo, 2015.</p><p>HOLANDA, A. Fenomenologia, psicoterapia e psicologia humanista. Estudos de psicolo-</p><p>gia. v.14, n.2, p.33-46. 1997.</p><p>JACÓ-VILELA, A. M.; FERREIRA, A. A. L.; PORTUGAL, F. T. História da Psicologia: ru-</p><p>mos e percursos. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2006.</p><p>ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Module: Essential care and</p><p>practice. Disponível em: https://cdn.who.int/media/docs/default-source/brain-health/mhga-</p><p>p-training-manuals/ecp_module.pdf?sfvrsn=a53c5775_5. Acesso em 11 ago. 2022</p><p>https://cdn.who.int/media/docs/default-source/brain-health/mhgap-training-manuals/ecp_module.pdf?sfvrsn=a53c5775_5</p><p>https://cdn.who.int/media/docs/default-source/brain-health/mhgap-training-manuals/ecp_module.pdf?sfvrsn=a53c5775_5</p><p>74</p><p>PAIVA, G. J. Psicologia da Religião: natureza, história e pesquisa. Numen: revista de es-</p><p>tudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 21, n2, jul./dez. 2018, p. 9-3 https://periodicos.</p><p>ufjf.br/index.php/numen/article/view/25611</p><p>PIAGET, J. (1994). O juízo moral na criança (E. Lenardon, Trad.). São Paulo, SP: Sum-</p><p>mus. (Original publicado em 1932).</p><p>PINTO, A. C. O que é que a psicologia científica tem que a psicologia popular e o senso</p><p>comum não têm? Psicologia, Educação e Cultura, Portugal, v. 3, n. 1, p. 157-178, 1999.</p><p>RIBEIRO, A. E. M; SOUZA, L. L. O encontro de Piaget com o teste de inteligência de</p><p>Cyril Burt: uma revisão narrativa. Psicologia e educação,</p><p>São Paulo, n. 51, p. 11-21,</p><p>dez. 2020 . Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pi-</p><p>d=S1414-69752020000200002&lng=pt&nrm=iso Acesso em 05 ago. 2022.</p><p>SANTOS, F. A. S. É possível aliar a psicanálise ao aconselhamento religioso? Disser-</p><p>tação (Mestrado em Teologia) – Escola Superior de Teologia. São Leopoldo, p. 97, 2010.</p><p>Disponível em: http://dspace.est.edu.br:8080/jspui/bitstream/BR-SlFE/132/1/santos_fas_</p><p>tm217.pdf. Acesso em: 10 ago. 2022.</p><p>TELES, M. L. S. O que é psicologia? São Paulo: Brasiliense, 1989.</p><p>https://periodicos.ufjf.br/index.php/numen/article/view/25611</p><p>https://periodicos.ufjf.br/index.php/numen/article/view/25611</p><p>http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752020000200002&lng=pt&nrm=iso</p><p>http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752020000200002&lng=pt&nrm=iso</p><p>http://dspace.est.edu.br:8080/jspui/bitstream/BR-SlFE/132/1/santos_fas_tm217.pdf</p><p>http://dspace.est.edu.br:8080/jspui/bitstream/BR-SlFE/132/1/santos_fas_tm217.pdf</p><p>ENDEREÇO MEGAPOLO SEDE</p><p>Praça Brasil , 250 - Centro</p><p>CEP 87702 - 320</p><p>Paranavaí - PR - Brasil</p><p>TELEFONE (44) 3045 - 9898</p><p>Shutterstock</p><p>Site UniFatecie 3:</p><p>a sede da consciência e da racionalidade. As investigações filosóficas também</p><p>foram influenciadas pelo contexto histórico, pela religião no período medieval, e o rompi-</p><p>mento com esta forma de pensar que ocorreu no período moderno.</p><p>Os avanços sociais ocorridos na modernidade permitiram ao ser humano uma outra</p><p>maneira de entender sua realidade, como a exploração científica do corpo humano, o que</p><p>expandiu ainda mais o conhecimento obtido sobre si. Esta possibilidade se combinou com</p><p>o momento histórico no final do século XVIII, em que as sociedades ocidentais se reorgani-</p><p>zavam, acolhendo um aumento populacional e um novo modelo econômico e político, que</p><p>enfatizava a soberania individual e a liberdade. Neste período, tornou-se possível transfor-</p><p>mar as especulações filosóficas em estudos dotados de rigor científico, aproximando esta</p><p>nova disciplina do modo conceituado de produzir o saber próprio das Ciências Naturais.</p><p>Esta é a base da Psicologia que está na nossa sociedade, que produz conhe-</p><p>cimento sobre o homem e busca auxiliá-lo a se compreender melhor. Espero que esta</p><p>primeira unidade facilite sua aproximação com esta importante área do saber que se dedica</p><p>a conhecer nossa vida interior!</p><p>Bons estudos!</p><p>CONHECENDO O HOMEM:</p><p>CIÊNCIA E SENSO COMUM1</p><p>TÓPICO</p><p>8O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>Em sua vida, certamente você já apresentou curiosidades e questionamentos sobre</p><p>si mesmo, em várias circunstâncias diferentes: Por que pessoas da mesma família às vezes</p><p>são tão diferentes? Por que todas as pessoas parecem pensar de uma forma, enquanto</p><p>eu pareço ser o único a ver as coisas de outro jeito? Por que, na época escolar, alguns</p><p>parecem ser tão inteligentes, e outros têm tanta dificuldade de aprender e se expressar?</p><p>Como o ser humano pensa e aprende? Será que o que se passa na minha cabeça é igual</p><p>ao que está na cabeça do outro?</p><p>Questões como essas se fazem presente na História, desde civilizações muito</p><p>antigas. Mesmo antes do surgimento da Psicologia, é possível encontrar perguntas que</p><p>se propõem a buscar estas respostas. Atualmente, mesmo sem nenhum conhecimento</p><p>específico nesta área do saber, cada pessoa tem suas teorias e ideias sobre as questões</p><p>colocadas acima.</p><p>Para conhecer a realidade que nos cerca, o ser humano parte daquilo que vê e</p><p>sente para pensar e refletir além das aparências. Assim, ele adota uma postura científica</p><p>para aprender mais sobre um determinado fenômeno, transformando aquilo que percebe</p><p>em sua realidade como seu objeto de investigação. Contudo, há outra forma de conhecer</p><p>a realidade, na qual não há a necessidade de apresentar informações de forma rigorosa.</p><p>Chama-se de senso comum o saber que se obtém de forma espontânea e intuitiva,</p><p>que frequentemente adquirimos com a educação transmitida por nossas famílias ou no</p><p>contato cotidiano com outras pessoas. O senso comum agrupa de forma simplificada aquilo</p><p>que se sabe sobre o mundo, e assim as teorias do conhecimento produzidas no campo</p><p>9O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>científico de pessoas comuns, permitindo sua aplicação prática para resolvermos problemas</p><p>em nossas vidas (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999; PINTO, 1999). Exemplos desta forma</p><p>de saber, bastante populares, são os alimentos que podem curar algum mal-estar do corpo:</p><p>como a prescrição de chá de camomila para acalmar, ou mamão para regular o intestino.</p><p>FIGURA 1 - O EFEITO CALMANTE DO CHÁ DE CAMOMILA É UM EXEMPLO COTIDIANO DE</p><p>APLICAÇÃO DO SENSO COMUM</p><p>Fonte: https://br.freepik.com/fotos-gratis/copo-de-alto-angulo-com-bule-e-pote-de-mel_8560533.</p><p>htm#query=ch%C3%A1%20de%20camomila&position=26&from_view=search&track=ais</p><p>Assim como em outras áreas do saber, a maioria das pessoas possui algum conheci-</p><p>mento em Psicologia, que pode ser percebido no uso cotidiano de expressões como: “fulano</p><p>surtou”. Embora você não conheça a definição exata desta palavra dentro do contexto do saber</p><p>psicológico, possui noção de seu significado, e pode utilizá-la para explicar um estado emocional</p><p>que não costuma ser comum. Mas este entendimento tem como ponto de partida estudos reali-</p><p>zados num contexto formal, que buscam conhecer, nomear e explicar fenômenos que cercam e</p><p>despertam a curiosidade dos indivíduos; tais como a expressão de seus estados afetivos.</p><p>Assim, pode-se afirmar que o saber produzido pela ciência é diferente do conheci-</p><p>mento existente no senso comum: o saber científico busca conhecer determinados aspectos</p><p>por meio de uma investigação rigorosa, sistemática e controlada, a fim de obter conclusões</p><p>de forma objetiva e passível de verificação, para que possam ser generalizadas e atender a</p><p>demandas diversas. Um exemplo de conhecimento científico são os estudos sobre desenvol-</p><p>https://br.freepik.com/fotos-gratis/copo-de-alto-angulo-com-bule-e-pote-de-mel_8560533.htm#query=ch%C3%A1 de camomila&position=26&from_view=search&track=ais</p><p>https://br.freepik.com/fotos-gratis/copo-de-alto-angulo-com-bule-e-pote-de-mel_8560533.htm#query=ch%C3%A1 de camomila&position=26&from_view=search&track=ais</p><p>10O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>vimento infantil e aprendizagem, que permitem a elaboração de modelos de ensino válidos</p><p>para crianças e jovens em escala global (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999; PINTO, 1999).</p><p>Desta forma, de acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1999), a psicologia se es-</p><p>tabelece como uma ciência que pretende investigar aspectos do mundo interno do ser</p><p>humano, buscando responder suas dúvidas, facilitar sua convivência com o coletivo e</p><p>consigo mesmo, e trafegar de modo tranquilo pela diversidade de experiências humanas.</p><p>Algumas abordagens propõem analisar o comportamento; outras, o inconsciente; e outras</p><p>ainda, a personalidade. Por se tratar de uma ciência surgida há pouco mais de cem anos,</p><p>a Psicologia ainda apresenta muitas questões em aberto.</p><p>Além disso, autores citados acima apontam que o surgimento da Psicologia como</p><p>campo do conhecimento ocorreu ao final do século XIX, embora questões sobre os proces-</p><p>sos de pensamento e funcionamento do homem já ocupassem os filósofos há muito tempo.</p><p>Seu desenvolvimento nos últimos séculos se deu, em particular, a partir do debate entre os</p><p>filósofos racionalistas e empiristas, que teorizaram sobre as características da mente.</p><p>Para os empiristas, o que havia no mundo era a percepção sensorial que estimulava os</p><p>neurônios, fazendo com que a experiência da vida fosse constituída por estes elementos. Já os</p><p>racionalistas discordavam, entendendo que a capacidade de ter ideias fazia parte da mente, inde-</p><p>pendente do estímulo sensorial. Para este grupo, a atividade mental era complexa e a percepção</p><p>seria um processo seletivo empregado pela consciência (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999).</p><p>Segundo Teles (1989), as teorizações destes pensadores geraram inquietação,</p><p>mas muitas dúvidas não encontraram resposta até os dias de hoje, dado que seus ques-</p><p>tionamentos não consideravam um método que lhes permitisse encontrar respostas com</p><p>comprovação. Já as descobertas realizadas pelos cientistas que investigavam fenômenos</p><p>da natureza, das áreas da Física e da Biologia, foram produzidas baseando-se no método</p><p>experimental, que permitiu avanços no conhecimento do corpo e respondeu algumas ques-</p><p>tões sobre o funcionamento do ser humano, oferecendo bases para novas questões sobre</p><p>a vida psíquica dos indivíduos.</p><p>Bock, Furtado e Teixeira (1999) também apontam que como ciência, a Psicologia</p><p>também apresenta uma peculiaridade: ao contrário da Matemática, por exemplo, o investiga-</p><p>dor que se propõe a conhecer os processos psicológicos, dedica-se a estudar fenômenos que</p><p>se misturam com ele próprio. A concepção de indivíduo que o pesquisador carrega, acaba por</p><p>enviesar sua investigação sobre o ser humano, podendo ser afetada pelas próprias vivências</p><p>deste sujeito em particular. De acordo com a definição escolhida para o homem, o objeto de</p><p>estudo da psicologia varia para se adequar a ela. Como em nossa sociedade é possível a</p><p>11O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE</p><p>1</p><p>existência de várias concepções de ser humano, podemos afirmar que a Psicologia possui</p><p>diversos objetos de estudo e se dedica a investigar estes “diversos homens” existentes.</p><p>Também é possível afirmar que, ao encontrar espaço para o estudo destas dife-</p><p>rentes concepções de ser humano, a Psicologia busca estudar a subjetividade - entendida</p><p>como o modo de existir de uma pessoa, que expressa de um jeito único seu modo de</p><p>existir nas condições socioculturais que a cercam. A subjetividade nos diferencia, pois,</p><p>cada pessoa processa de forma singular tal vivência, mas também nos iguala, pois sua</p><p>constituição parte de elementos que são percebidos pelas nossas relações sociais. Cada</p><p>pessoa vai se tornando sujeito, conforme interage e transforma o ambiente que a cerca</p><p>(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999).</p><p>Tem-se como marco da inauguração da Psicologia Científica a criação do Labo-</p><p>ratório de Experimentos de Psicofisiologia, em 1875, por Wilhelm Wundt, em Leipzig, na</p><p>Alemanha. Este ato indica a trajetória do estudo da Psicologia, que procurava cortar suas</p><p>relações com noções filosóficas e espirituais de cunho abstrato, que buscavam investigar a</p><p>alma e aproximar-se de um modelo investigativo próprio das ciências naturais. Ainda assim,</p><p>esta busca não esgotou todas as respostas, o que aproximou alguns psicólogos de outras</p><p>práticas não-psicológicas, de caráter místico e adivinhatório, como a astrologia, a utilização</p><p>de cristais, entre outros (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999).</p><p>É importante esclarecer que tais práticas não fazem parte da psicologia, além de</p><p>não serem construídas a partir de pressupostos científicos. Além disso, práticas místicas</p><p>são opostas à visão da psicologia, que entende que o homem é um sujeito autônomo,</p><p>capaz de transformar seu futuro a partir da forma como atua em seu meio, enquanto prá-</p><p>ticas adivinhatórias pressupõem a ideia de um destino traçado por forças superiores e</p><p>imutável. O psicólogo tem recursos e ferramentas específicas para conhecer os fenômenos</p><p>psicológicos, e a utilização de práticas não científicas em seu trabalho, sujeita o profissional</p><p>a advertências e suspensão de seu exercício profissional.</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>FUNDAMENTOS HISTÓRICOS</p><p>E EPISTEMOLÓGICOS DA</p><p>PSICOLOGIA2</p><p>TÓPICO</p><p>12O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>As questões acerca do ser humano inquietam a humanidade desde o apogeu da</p><p>civilização grega, que se desenvolveu no último milênio a.C. Além de terem desenvolvido</p><p>conhecimentos no campo da agricultura, da engenharia e da política, os gregos dedicaram-</p><p>-se a pensar sobre a arte e a filosofia, passando a questionar a vida interior do homem. A</p><p>própria palavra psicologia tem raiz etimológica grega: psyché, pode ser entendido como</p><p>alma e logos significa razão, fazendo com que psicologia signifique o estudo da alma.</p><p>De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1999), neste período havia a noção de</p><p>que a alma seria uma parte imaterial do indivíduo, responsável pelos sentimentos, as per-</p><p>cepções e a irracionalidade. Os filósofos que antecederam Sócrates, buscavam entender a</p><p>relação do homem com o mundo através de sua percepção da vida exterior, debatendo se</p><p>as ideias eram responsáveis por criar o mundo ao redor, ou se o ambiente existia anterior-</p><p>mente ao homem. Já Sócrates passou a questionar, qual era a diferença entre o homem e</p><p>os outros animais, afirmando encontrar sua resposta na racionalidade, que permitia que o</p><p>ser humano superasse suas necessidades instintivas.</p><p>A seguir, Platão, aluno de Sócrates, se dedicou a compreender onde a razão se</p><p>localizava no corpo, teorizando que a cabeça era onde se localizava a alma humana. Para</p><p>o pensador, a alma era algo separado do corpo, já que este último definhava com a morte,</p><p>mas a alma não sofria do mesmo destino e poderia habitar outro corpo posteriormente.</p><p>Aristóteles, que estudou com Platão, contribuiu para a questão ao afirmar que não poderia</p><p>haver separação entre corpo e alma, sendo esta última a condição para que houvesse</p><p>vida. Esta visão aristotélica teve grande influência até a Idade Média (BOCK; FURTADO;</p><p>TEIXEIRA, 1999; JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006).</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>13O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>Outras contribuições importantes para a questão da vida psíquica partiram de estu-</p><p>diosos desta época, filósofos cristãos, já que este período histórico é muito influenciado pelo</p><p>grande poder da Igreja Católica no Ocidente. Um deles, Santo Agostinho, argumentava que</p><p>a alma e o corpo deviam possuir uma separação, sendo a alma a manifestação de Deus no</p><p>homem, um elemento imortal que seria o cerne da racionalidade.</p><p>Outros filósofos se debruçaram sobre a questão no período renascentista, momento</p><p>no qual questiona-se a visão de mundo da Igreja Católica, bem como seus dogmas e sua</p><p>influência na construção do conhecimento. Passou-se a desenvolver uma nova organiza-</p><p>ção social, na qual as hierarquias religiosas e monárquicas perderam seu lugar e o homem</p><p>passou a ter liberdade, sendo capaz de escolher seu futuro, guiando-se pela racionalidade.</p><p>Um exemplo é René Descartes, que reforçou a ideia de uma separação entre corpo</p><p>e mente e deu a esta última o caráter de substância pensante, o que rebaixou o corpo à</p><p>condição de uma simples máquina, que passou a poder ser estudada pelos médicos após a</p><p>morte. Anteriormente, a visão religiosa defendia que o corpo não deveria ser maculado por</p><p>ser o receptáculo da alma, e só a partir da Renascença pôde-se buscar mais conhecimento</p><p>sobre a anatomia e fisiologia humana. Neste período, os filósofos também expandiram suas</p><p>análises sobre as relações que o ser humano estabelece com a sociedade e as descobertas</p><p>que fazia sobre si (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999).</p><p>FIGURA 2 - AS TEORIAS DE DESCARTES CONTRIBUÍRAM PARA O DESENVOLVIMENTO DA</p><p>PSICOLOGIA</p><p>Fonte: RENASCIMENTO Artístico Cultural Científico – Séculos XIV, XV, XVI. DocPlayer, 2019. Disponível em: https://</p><p>docplayer.com.br/91302881-Renascimento-artistico-cultural-cientifico-seculos-xiv-xv-xvi.html Acesso em: 15 jul. 2022.</p><p>No início do Renascimento, o debate filosófico se concentrou em elaborar o funcio-</p><p>namento da consciência. O próprio Descartes defendia que, em decorrência da separação</p><p>https://docplayer.com.br/91302881-Renascimento-artistico-cultural-cientifico-seculos-xiv-xv-xvi.html</p><p>https://docplayer.com.br/91302881-Renascimento-artistico-cultural-cientifico-seculos-xiv-xv-xvi.html</p><p>https://docplayer.com.br/91302881-Renascimento-artistico-cultural-cientifico-seculos-xiv-xv-xvi.html</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>14O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>entre mente e corpo, o ser humano era composto de substâncias distintas, com um aspecto</p><p>material e outro imaterial. A mente, dimensão imaterial da existência, era também a sede da</p><p>racionalidade. A intersecção do sujeito com seu corpo produzia ilusões, sendo a fonte dos</p><p>enganos experienciados pelo ser (JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006).</p><p>Outros filósofos, como David Hume e John Locke, interpretavam que a consciência se</p><p>dava pelas percepções sensoriais, que também eram fonte de todo o conhecimento. Assim,</p><p>enquadravam-se em uma compreensão empirista: “Nada haveria no espírito que não fosse</p><p>proveniente destes, sendo as nossas funções superiores meras complicações e conjunções</p><p>de impressões sensoriais (e, neste ponto, responsáveis pelas nossas ilusões)” (JACÓ-VILELA;</p><p>FERREIRA; PORTUGAL, 2006, p. 20). Os empiristas tomavam as evidências observáveis como</p><p>base para fundamentar o conhecimento objetivo. Posteriormente, a percepção destas evidên-</p><p>cias da realidade passou a ser posta em xeque como algo incerto, dependente da capacidade</p><p>de sentir, considerada tão arbitrária quanto às experiências afetivas (FIGUEIREDO, 2008).</p><p>O que os racionalistas e empiristas tinham em comum era a noção, de que o espí-</p><p>rito oferecia um contato com o conhecimento puro sobre o sujeito, ao contrário do corpo.</p><p>Este paradigma sofreu uma mudança com as postulações de Immanuel</p><p>Kant, pensador do</p><p>século XVIII, para quem o conhecimento ocorria a partir de uma soma entre as categorias</p><p>chamadas de sujeito transcendental e sujeito empírico. O sujeito transcendental de Kant</p><p>não se trata de um indivíduo propriamente dito, e sim do conjunto de condições previa-</p><p>mente existentes, que permitem ao ser humano experienciar e refletir sobre os objetos que</p><p>existem no espaço e no tempo (JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006).</p><p>De acordo com Jacó-Vilela, Ferreira e Portugal (2006), Kant compreendia que o</p><p>sujeito transcendental, representando a razão pura; e o empírico, composto somente pela</p><p>experiência, produziriam aproximações ao conhecimento com muitas distorções. Sua tese</p><p>era de que o espírito era composto por estas duas categorias: o sujeito transcendental,</p><p>incapaz de experienciar o conhecimento de si mesmo, ao mesmo tempo que torna possível</p><p>o saber sobre a realidade e seus objetos; e o sujeito empírico, capaz de ser compreendido</p><p>e marcado pelo contato com as experiências que o indivíduo tem de si. Partindo disto, Kant</p><p>entendia que uma ciência psicológica deveria analisar o sujeito empírico de forma rigorosa,</p><p>objetiva e matemática, indo além da descrição da experiência individual.</p><p>Além disso, a existência da psicologia também dependeu de mudanças no contexto</p><p>histórico, que favoreceram o surgimento de uma noção de individualidade - algo que não</p><p>existia na Antiguidade, por exemplo. Ainda que, neste período, houvesse uma valorização</p><p>da autonomia, esta serve para garantir a autonomia da pólis, e não de um modo de vida</p><p>individual. Já o período medieval, dominado pelo modo de pensar cristão, favoreceu a</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>15O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>experiência de uma dimensão íntima, na qual o homem busca sua salvação e purificação,</p><p>a fim de obter para si a garantia da vida eterna. Tal individualização era presente nos</p><p>mosteiros, nos quais havia necessidade de um domínio da vida interior e o exercício do</p><p>livre-arbítrio em busca da redenção. Contudo, os nobres e plebeus do período ainda exis-</p><p>tiam de forma regulada pelo seu local de nascimento, linhagem e posição hierárquica em</p><p>relação às outras famílias, havendo poucas experiências individuais (FIGUEIREDO, 2008;</p><p>JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006).</p><p>Para os autores citados acima, é este o cenário antes do Renascimento, em que</p><p>começaram a surgir os Estados modernos, experiência que é associada à visão cristã de</p><p>que todos são irmãos e iguais – neste caso, não perante Deus, mas o Estado. Assim, o</p><p>início da Idade Moderna foi palco de uma mudança que fez surgir uma experiência de</p><p>individualização, na qual o homem era um ser igual aos demais, dotado de autonomia e de</p><p>uma dimensão interior, o foro íntimo. Os filósofos do período trataram de escrever sobre</p><p>esta visão de sujeito e sua relação com a política, estabelecendo o homem como soberano,</p><p>mas sujeito à lei (JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006).</p><p>Mas a existência de um saber sobre este indivíduo, ainda necessita de uma nova</p><p>perspectiva surgida a partir do século XVIII, junto com transformações sociais como o</p><p>aumento populacional e as novas relações de trabalho capitalistas. Neste cenário, surgiu</p><p>um indivíduo disciplinado, analisado de acordo com uma norma que o situa dentro ou fora</p><p>daquilo que é considerado normal. Assim, a nova perspectiva sobre o indivíduo é a de</p><p>objeto determinado, singular, diferenciado e dotado de uma interioridade</p><p>(identificada agora a uma natureza biológica), que será o alvo do cuidado dos</p><p>Estados contemporâneos e de uma série de agências privadas. (...) E partindo</p><p>dessa forma de zelo pelos indivíduos, cuja qualidade de vida e o bem-estar</p><p>são metas últimas, é que vão se constituir os saberes psicológicos, médicos e</p><p>psiquiátricos. (JACÓ-VILELA; FERREIRA; PORTUGAL, 2006, p. 28).</p><p>Na era moderna, a busca da razão contemplativa deu lugar a uma razão instrumen-</p><p>tal, que oferecesse um embasamento para a produção científica. Buscou-se compreender o</p><p>homem, analisando suas partes e seu modo de funcionamento, de modo similar às máqui-</p><p>nas que podiam ser construídas e naquele momento impulsionaram a economia capitalista:</p><p>a diretriz para o conhecimento científico tornou-se a utilidade prática de previsão e controle</p><p>de seus objetos (FIGUEIREDO, 2008).</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>A PSICOLOGIA</p><p>CIENTÍFICA3</p><p>TÓPICO</p><p>16O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>A constituição da Psicologia enquanto campo independente do conhecimento,</p><p>tomou forma à medida que novos estudos foram indicando possibilidades de mensurar</p><p>fenômenos, tais como a percepção visual. Nesta época, no fim dos anos 1800, a concepção</p><p>vigente de ciência era derivada do estudo dos fenômenos naturais, e entendia-se que aquilo</p><p>que não podia ser quantificado não poderia ser estudado pela ciência.</p><p>Wilhelm Wundt, ao estabelecer seu laboratório em 1879, realizou experimentos de</p><p>Psicofisiologia e desenvolveu um conceito chamado de paralelismo psicofísico, noção que</p><p>estabelece que fenômenos mentais têm correspondência com fenômenos orgânicos (tal</p><p>qual o som da chuva, um estímulo auditivo percebido por um indivíduo, desencadeia nele</p><p>uma atividade mental). Baseando-se nisso, ele também desenvolveu um método chamado</p><p>introspeccionismo, no qual o pesquisador questionava um indivíduo previamente treinado</p><p>para realizar uma auto-observação, buscando quais caminhos uma estimulação sensorial</p><p>percorria em seu interior, a fim de obter mais conhecimento sobre a mente de um indivíduo.</p><p>FIGURA 3 - WILHELM WUNDT, SENTADO, E SEU GRUPO DE ESTUDOS REALIZANDO UM EXPERIMENTO</p><p>Fonte: LEIPZIG’TE Içgözlem Denemeleri. Wikimedia Commons, 1920. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/</p><p>File:Wundt-research-group.jpg#/media/File:Leipzig%27te_i%C3%A7g%C3%B6zlem_denemeleri.jpg Acesso em: 15 jul. 2022.</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wundt-research-group.jpg#/media/File:Leipzig%27te_i%C3%A7g%C3%B6zlem_denemeleri.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wundt-research-group.jpg#/media/File:Leipzig%27te_i%C3%A7g%C3%B6zlem_denemeleri.jpg</p><p>17O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1999), trabalhos como os de Wundt foram</p><p>cimentando o caminho da Psicologia como uma ciência, afastando-a dos questionamentos</p><p>filosóficos que tinham contribuído para seu desenvolvimento até então. Para tanto, os pes-</p><p>quisadores da área buscaram delimitar um campo de estudo para esta nova ciência, um</p><p>objeto para ser investigado, os métodos de pesquisa a serem aplicados e um corpo teórico</p><p>de conhecimentos sobre o assunto, levando sempre em conta os princípios da ciência</p><p>vigentes no século XIX, que pregava a neutralidade do conhecimento e a coleta de dados</p><p>passíveis de comprovação.</p><p>Diferente das ideias filosóficas de outrora, que se questionavam sobre a alma, Wun-</p><p>dt buscava o conhecimento que possa ser observado e mensurado, escolhendo um método</p><p>de trabalho que se aproxima muito mais da Medicina do que da Filosofia. O projeto de Wundt</p><p>utilizou as sensações, como elemento mensurável e objetivo, para avaliar a experiência do</p><p>sujeito. Desta forma, sua construção é válida de acordo com os pressupostos kantianos,</p><p>com as sensações fisiológicas ocupando o lugar do sujeito transcendental (JACÓ-VILELA;</p><p>FERREIRA; PORTUGAL, 2006).</p><p>O trabalho de Wundt buscou estabelecer uma ciência da consciência, mas outros</p><p>cientistas estabeleceram o comportamento como um outro objeto possível de ser investi-</p><p>gado com a finalidade de compreender melhor o indivíduo. Isto consolidou uma tendência</p><p>entre os psicólogos americanos, que tiveram grande influência na psicologia moderna,</p><p>produzindo estudos que deram origem a três abordagens teóricas sobre os fenômenos</p><p>psicológicos: o associacionismo, o estruturalismo e o funcionalismo.</p><p>Para Bock, Furtado e Teixeira (1999), o estruturalismo derivou da pesquisa de Wun-</p><p>dt, mas foi um de seus seguidores, Edward Titchener, que cunhou este termo para diferen-</p><p>ciá-lo das outras</p><p>escolas de pensamento que estavam sendo formadas na época. Titchener</p><p>continuou investigando a consciência, buscando quais seriam seus estados elementares a</p><p>nível de estruturas do sistema nervoso. O pesquisador reforçou o método introspectivo e a</p><p>pesquisa experimental, produzida em condições de laboratório.</p><p>Ainda segundo os autores acima, o funcionalismo apoiou-se bastante nos valores</p><p>pragmáticos que permeavam a sociedade norte-americana. Seu maior expoente foi William</p><p>James, que também estabeleceu como seu objetivo o estudo da consciência para poder</p><p>compreender o que os seres humanos faziam e por qual razão. Já o associacionismo,</p><p>bastante associado ao nome de Edward Thorndike, tornou-se reconhecido por elaborar a</p><p>primeira teoria da aprendizagem na psicologia. Tal nome faz referência ao fato apontado,</p><p>de que a aprendizagem decorre de uma associação de ideias, que partem das noções mais</p><p>simples relacionadas a um fato em direção às mais complexas.</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>18O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>Thorndike também foi responsável pela chamada Lei do Efeito, um postulado que</p><p>aponta uma tendência em todos os seres vivos de repetirem um comportamento, caso</p><p>haja uma recompensa imediatamente após seu acontecimento. Do mesmo modo, há uma</p><p>tendência de um comportamento não se manifestar novamente caso um castigo seja apli-</p><p>cado em sequência. Tal lei também aponta, que estes seres realizarão associações entre</p><p>a circunstância vivenciada a ocorrências semelhantes - postulando sobre a capacidade do</p><p>sujeito de aprender algo que foi explorado, posteriormente por outros teóricos da Psicologia</p><p>(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 1999).</p><p>Em paralelo aos avanços da ciência psicológica, a noção de Psicologia Clínica</p><p>surgiu neste mesmo período, no final do século XIX. Neste contexto em que o estudo do</p><p>corpo humano se tornou possível e as doenças mentais tiveram sua causa atribuída ao</p><p>funcionamento de sistemas orgânicos, os estudiosos do período trataram de desenvolver</p><p>pesquisas sobre estas patologias. Assim, a Psicopatologia se desenvolveu, com o objetivo</p><p>de compreender estes quadros de doença, observando-os, classificando-os, estabelecen-</p><p>do sua origem e outros fatores relevantes. A Psicologia Clínica caminhou a seu lado, com</p><p>o objetivo de prevenir e aliviar o sofrimento psíquico, sendo influenciada pela metodologia</p><p>científica própria das Ciências Naturais, que tratava os fenômenos mentais como objetos</p><p>a serem conhecidos por métodos experimentais, descritos de forma objetiva e passível de</p><p>generalização (ANCONA-LOPEZ, 1984).</p><p>Com o passar do tempo, as influências do conhecimento filosófico voltaram a afetar</p><p>a Psicologia, questionando seu desenvolvimento como uma ciência que pretendia conhecer</p><p>seu objeto de estudo como algo completamente separado do pesquisador. Para alguns filó-</p><p>sofos, era impossível realizar uma distinção entre o sujeito e o objeto da psicologia - ambos</p><p>seres humanos - o que impediria o estudo deste de forma objetiva e experimental, tal como</p><p>se fazia em outras ciências. Isso exigiria o desenvolvimento de novas metodologias para</p><p>compreender os fenômenos intrapsíquicos, que levaram à elaboração de teorias psicológi-</p><p>cas como o humanismo e a psicologia fenomenológico-existencial.</p><p>Segundo González Rey (2005), pode-se encontrar um exemplo de tais questiona-</p><p>mentos no trabalho de Sigmund Freud, médico fundador da teoria psicanalítica, que será</p><p>apresentada com mais detalhes na unidade seguinte. Freud era neurologista, e em seu</p><p>cotidiano encontrou diversos pacientes com sintomas inexplicáveis por causas orgânicas,</p><p>problema que o levou a investigar fenômenos como memórias e pensamentos que não</p><p>eram acessíveis à observação direta e estavam relacionados a tais quadros sintomáticos.</p><p>Mesmo tendo recebido uma formação médica, calcada nos princípios do conhecimento</p><p>objetivo do corpo humano, o estudioso desenvolveu uma metodologia própria para ter</p><p>19O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>acesso aos fenômenos que buscava conhecer: uma metodologia interpretativa, baseada</p><p>na relação estabelecida entre terapeuta e paciente - relação esta que deve buscar a escuta</p><p>e interpretação singular daquilo que é dito ao profissional.</p><p>Ao se debruçar sobre tais aspectos da vida psíquica, Freud realizou várias revisões</p><p>e ampliações de sua teoria, sendo especulativo em alguns momentos. Isso revela que o</p><p>autor considerava, que a produção do conhecimento sobre o mundo interno dependia da</p><p>subjetividade, sendo, portanto, única e em permanente desenvolvimento, algo contrário ao</p><p>método experimental adotado por Wilhelm Wundt e seus discípulos (GONZÁLEZ REY, 2005).</p><p>O desenvolvimento de correntes filosóficas como a fenomenologia, cuja perspecti-</p><p>va ante o conhecimento e o sujeito é diferente das proposições racionalistas e empiristas,</p><p>também permitiu uma mudança na abordagem da Psicologia. Atualmente, a Psicologia é</p><p>uma ciência com abordagens distintas, que busca conhecer e atuar sobre o homem a partir</p><p>de visões de sujeito e de mundo diferentes: Algumas conferem maior importância aos as-</p><p>pectos neurofisiológicos, outras tendem a considerar que o homem é indissociável de seu</p><p>contexto histórico. Todas estas abordagens, contudo, possuem um método investigativo</p><p>e pressupostos teóricos próprios que sustentam a atuação do psicólogo para conhecer o</p><p>homem de modo científico.</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>20O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>“O que dizemos da realidade, depende da perspectiva em que a coloquemos.”</p><p>William James, Pragmatismo, 1984</p><p>A Psicologia e a Psiquiatria são áreas próximas, mas diferentes. A Psiquiatria é uma disciplina da Medicina e,</p><p>como profissão, é exercida por um profissional com formação médica. O psiquiatra inclui em sua prática a</p><p>prescrição de medicamentos, e se especializa nas doenças mentais. Já o psicólogo é um profissional formado</p><p>em psicologia, que possui conhecimento mais amplo sobre o funcionamento psíquico, podendo analisar o</p><p>ser humano em contextos individuais ou grupais, bem como realizar avaliações e diagnósticos psicológicos.</p><p>Fonte: A autora (2022).</p><p>21O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>Aqui encerramos nossa primeira unidade! A longa viagem pela história foi importan-</p><p>te, pois as transformações que afetaram a maneira de existir do ser humano influenciaram</p><p>a forma como o homem conseguiu estudar a si próprio.</p><p>Nesta unidade, você pôde observar como a Psicologia é uma disciplina especial:</p><p>ela congrega os estudos filosóficos, mas também leva em conta o conhecimento produzido</p><p>pela Biologia e pela Medicina sobre os sistemas e funções do corpo. O surgimento da Psi-</p><p>cologia científica, assim, só foi possível no contexto social da era moderna, no qual o foco</p><p>das produções e do trabalho era o homem. Tomado como força soberana, mas também</p><p>carecendo de controle e disciplina, tem-se um panorama para que as indagações sobre o</p><p>ser humano passem a compor uma disciplina com sua própria metodologia de investigação.</p><p>A proposta de conhecer o homem como um sujeito singular, é ancorada em uma</p><p>perspectiva que não existia antes da modernidade: a de subjetividade. O debate atual, para</p><p>a Psicologia, é como tomar conhecimento desta dimensão humana. As primeiras teorias</p><p>que consolidaram a Psicologia científica, abordaram este problema elegendo como objetos,</p><p>aspectos que poderiam ser mensurados e quantificados, como o comportamento e a per-</p><p>cepção, mas posteriormente outros pesquisadores fizeram críticas e revisões a esta visão.</p><p>Ainda assim, as diferentes abordagens psicológicas concordam que os fenômenos</p><p>humanos devem ser analisados de modo científico. Quando falamos em Psicologia, é mui-</p><p>to importante ter em mente que apesar dos conhecimentos que acumulamos, estes não</p><p>equivalem às construções teóricas elaboradas por pesquisadores, utilizando estudos e me-</p><p>todologias que permitem a formulação de noções gerais sobre o psiquismo dos indivíduos.</p><p>Espero que o estudo desta unidade tenha sido prazeroso e motivado você a mer-</p><p>gulhar ainda mais fundo nos estudos! Até a próxima!</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>22O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>Para saber um pouco mais sobre a história da Psicologia no Brasil, o seguinte artigo</p><p>propõe apresentar os caminhos percorridos por esta disciplina, considerando as tendências</p><p>racionais dominantes e outros aspectos de caráter sociopolítico que tangenciam seu esta-</p><p>belecimento. Se destacam dois discursos principais: o das ciências, que considera o sujeito</p><p>como um organismo cujo funcionamento está ligado a um conjunto de leis; e o teológico-filo-</p><p>sófico, que sofre influência da Igreja e se dedica particularmente ao estudo da alma.</p><p>ALBERTI, S. História da psicologia no Brasil - origens nacionais. Mnemosine,</p><p>Campina Grande, v. 1, n. 0, p.149-155, 2004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.</p><p>uerj.br/index.php/mnemosine/article/viewFile/41349/286 Acesso em: 18 jul. 2022.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/mnemosine/article/viewFile/41349/28618</p><p>https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/mnemosine/article/viewFile/41349/28618</p><p>23O QUE É PSICOLOGIA?UNIDADE 1</p><p>MATERIAL COMPLEMENTAR</p><p>• Título: A História da Psicologia</p><p>• Ano: 2018.</p><p>• Sinopse: O vídeo apresenta de forma didática e sintética a his-</p><p>tória da psicologia, também passando pela influência histórica dos</p><p>filósofos até chegar à sua constituição como ciência.</p><p>• Link: https://www.youtube.com/watch?v=2aSxrLNsIYo</p><p>• Título: O livro da Psicologia</p><p>• Autor: Globo Livros.</p><p>• Editora: Globo Livros.</p><p>• Sinopse: O livro apresenta de forma didática várias informações</p><p>sobre as escolas de pensamento psicológicas.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=2aSxrLNsIYo</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>Plano de Estudos</p><p>• Behaviorismo: o estudo do comportamento;</p><p>• Psicanálise, a teoria do inconsciente;</p><p>• Existencialismo e humanismo.</p><p>Objetivos da Aprendizagem</p><p>• Conhecer as diferentes perspectivas sobre o homem para</p><p>as teorias comportamental, psicanalítica e humanista;</p><p>• Compreender o modelo estímulo-resposta, e os conceitos</p><p>de reforço, punição e extinção;</p><p>• Conhecer os modelos freudianos do psiquismo, e as</p><p>noções de mecanismos de defesa e repressão;</p><p>• Entender as influências da fenomenologia e do</p><p>existencialismo na psicologia humanista.</p><p>Professor(a) Ma. Emanoella dos Santos Ruffo</p><p>TEORIAS E TEORIAS E</p><p>SISTEMAS EM SISTEMAS EM</p><p>PSICOLOGIAPSICOLOGIA2UNIDADEUNIDADE</p><p>25TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Olá, aluno (a)! Vamos dar sequência aos seus estudos?</p><p>Nesta unidade, os assuntos serão algumas das abordagens que a Psicologia utiliza</p><p>para compreender o homem. Ao contrário do que pode parecer, não existe uma abordagem</p><p>melhor, ou pior: suas diferenças provêm da forma de ver o mundo, e repercutem no desen-</p><p>volvimento de teorias e modelos para explicar.</p><p>É possível que a Psicanálise seja a mais conhecida: por não ter se desenvolvido di-</p><p>retamente da Psicologia, está se popularizou entre médicos, além de outros pesquisadores</p><p>das ciências humanas, que utilizam seus conceitos em análises e produções socioculturais.</p><p>Mesmo sem ser uma abordagem exclusiva da psicologia, a prática da psicanálise se con-</p><p>funde com ela: a imagem popular que se tem do psicólogo como um profissional silencioso e</p><p>um paciente que se deita num divã e fala sobre o que sente deriva do método psicanalítico.</p><p>A análise do comportamento, por sua vez, derivou das primeiras teorias científi-</p><p>cas da Psicologia, tendo como propósito a construção de um conhecimento mensurável</p><p>e objetivo, estudando o comportamento de forma direta. Esta abordagem dos fenômenos</p><p>humanos entende que o indivíduo se comporta de forma diferente de acordo com os estí-</p><p>mulos recebidos e as consequências associadas à sua ação, o que permite discutir formas</p><p>de aprendizagem e transformações na forma de agir.</p><p>Já a abordagem humanista se aproxima da existencialista, baseadas no posicio-</p><p>namento filosófico da fenomenologia: esta teoria foi uma crítica aos modelos propostos por</p><p>Descartes, e buscava superar o dualismo entre corpo e mente. A psicologia iniciou uma</p><p>interlocução com esta forma de pensar, pois, alguns estudiosos consideram que não era</p><p>possível conhecer os fenômenos subjetivos por meio do método experimental.</p><p>Estas são algumas visões da Psicologia sobre o indivíduo, para que você entenda de</p><p>modo mais profundo de que forma o psicólogo trabalha com as pessoas. Espero que esta uni-</p><p>dade auxilie você a compreender melhor as teorias que sustentam o trabalho deste profissional!</p><p>Bons estudos!</p><p>26TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>BEHAVIORISMO:</p><p>O ESTUDO DO</p><p>COMPORTAMENTO1</p><p>TÓPICO</p><p>Conforme os pesquisadores desenvolvem experimentos, também foram surgindo</p><p>teorias e escolas de pensamento que se centralizam em objetos específicos para sua in-</p><p>vestigação. Uma delas é chamada Behaviorismo, derivada do termo em inglês behavior,</p><p>que significa comportamento. Por isso, o Behaviorismo também é conhecido como Análise</p><p>do Comportamento ou Teoria Comportamental, e naturalmente elege como seu objeto de</p><p>estudo o comportamento.</p><p>Esta escolha se deu pelo fato de o comportamento preencher os requisitos neces-</p><p>sários de uma ciência: exigia-se um objeto de estudo que pudesse ser observado, medido,</p><p>quantificado, e reproduzido em diferentes condições, trilhando o caminho traçado por Wilhelm</p><p>Wundt, William James e Edward Thorndike, apresentados na Unidade I. Uma das preocupa-</p><p>ções de seu fundador, John B. Watson, era o desenvolvimento de uma ciência psicológica</p><p>que não recorresse a conceitos de alma, mente, ou métodos subjetivos, na qual houvesse</p><p>capacidade de previsão e controle dos fenômenos. Conforme Freire (1997), Watson entendia</p><p>que o ser humano não possuía nenhuma tendência inata, desenvolvendo-se a partir de sua</p><p>capacidade enquanto organismo e sua interação com as circunstâncias do ambiente.</p><p>De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1999), o Behaviorismo busca analisar</p><p>as interações entre o indivíduo e o meio em que ele se encontra, entendendo que o com-</p><p>portamento não corresponde a uma ação isolada de uma pessoa. O meio externo afeta a</p><p>forma de agir do sujeito, e assim, os behavioristas passaram a descrever este conjunto de</p><p>relações em termos de estímulos (elementos que estimulam o cérebro, como o contexto em</p><p>que alguém se encontra) e respostas (as atitudes tomadas por esta pessoa).</p><p>SSABREU-ACER</p><p>Realce</p><p>27TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>Um dos behavioristas com maior destaque foi B. F. Skinner, que estabeleceu uma</p><p>diferenciação entre o que ele chamava de comportamento respondente e comportamento</p><p>operante. A primeira categoria trata de ações normalmente reflexas, tais como a contração</p><p>da pupila diante de uma luz forte: uma resposta a fatores ambientais que não depende de</p><p>aprendizagem. Já a segunda, o comportamento operante, engloba ações que têm efeito so-</p><p>bre o espaço ao seu redor, tais como a interação com algum objeto ou com outro indivíduo.</p><p>Skinner não levava em consideração a subjetividade do ser humano, indo contra a ideia</p><p>de que a personalidade poderia determinar a existência do indivíduo. (BOCK, FURTADO,</p><p>TEIXEIRA; 1999; FREIRE, 1997).</p><p>Um dos experimentos</p><p>realizados acerca do comportamento consistia na observação</p><p>de um rato, que era mantido fechado em uma caixa transparente - conhecida, atualmente</p><p>como “Caixa de Skinner” - na qual havia uma alavanca. Quando o animal exerce pressão</p><p>sobre esta alavanca, um mecanismo da caixa leva até ele uma gota de água. Para fins de</p><p>experimento, o ratinho passava as 24hs anteriores sem receber água, estando com sede na</p><p>situação montada com a Caixa de Skinner. Os cientistas do comportamento constataram que</p><p>a pressão da alavanca era realizada inicialmente por acaso, mas como esta ação trazia água</p><p>ao animal com sede, observou-se uma alta probabilidade de repetição do comportamento.</p><p>No experimento citado, a resposta seria a pressão na alavanca, que levaria ao</p><p>estímulo à água. Assim, os analistas do comportamento entendem que a resposta a uma</p><p>determinada situação levou o sujeito ao estímulo desejado: mesmo que este surja após a</p><p>resposta, o comportamento ocorre por sua causa, estando atrelado à produção do estímu-</p><p>lo. Assim, o Behaviorismo teoriza sobre a existência de uma relação fundamental entre as</p><p>ações do indivíduo e suas consequências, que alteraram o contexto no qual ele se encon-</p><p>tra. O resultado desta ação afeta este sujeito e muda a probabilidade futura de repetição</p><p>do comportamento, incentivando-o ou desencorajando-o. De acordo com Bock, Furtado e</p><p>Teixeira (1999, p. 63), “agimos ou operamos sobre o mundo em função das consequências</p><p>criadas pela nossa ação”.</p><p>Outro conceito importante dentro da Teoria Comportamental é o reforçamento. O</p><p>reforço é uma consequência que, associada a uma resposta comportamental, aumenta sua</p><p>probabilidade de ocorrência. Pode ser dividido em reforço positivo ou negativo: o reforço</p><p>positivo aumenta a chance de ocorrência de determinada resposta que o produz, como era</p><p>o caso da gota de água no experimento com a Caixa de Skinner.</p><p>Já o reforço negativo contribui para a ocorrência de respostas que interrompem de-</p><p>terminado estímulo. Se, no experimento com o rato, a caixa disparasse choques elétricos e o</p><p>movimento de pressionar a alavanca cessasse estas descargas de eletricidade, veríamos um au-</p><p>mento na probabilidade de pressão da alavanca, dessa vez buscando cessar o estímulo elétrico.</p><p>28TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>FIGURA 1 – ESTUDANTES REALIZANDO UM EXPERIMENTO UTILIZANDO UM POMBO EM UMA</p><p>CAIXA DE SKINNER</p><p>Fonte: WIKIMEDIA Commons, 1998. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UNMSM_</p><p>PsiExperimental_1998_2.jpg Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>Já o reforço negativo contribui para a ocorrência de respostas que interrompem</p><p>determinado estímulo. Se, no experimento com o rato, a caixa disparasse choques elétricos</p><p>e o movimento de pressionar a alavanca cessasse estas descargas de eletricidade, vería-</p><p>mos um aumento na probabilidade de pressão da alavanca, dessa vez buscando cessar o</p><p>estímulo elétrico.</p><p>Embora a maioria de nós associe choques elétricos a experiências ruins, não é pos-</p><p>sível definir estímulos como reforçadores de antemão: esta qualidade depende de como o</p><p>estímulo afeta o comportamento de um indivíduo. Por exemplo: em alguns contextos, como</p><p>clínicas de estética ou massagem, a corrente elétrica utilizada em baixa voltagem pode ser</p><p>estimulante e desejada pelo indivíduo. O Behaviorismo, contudo, reconhece que há refor-</p><p>çadores que podem ser considerados primários, pois funcionam para toda uma espécie de</p><p>indivíduos: no caso do ser humano, podemos citar o alimento e o carinho como exemplos.</p><p>Quando o sujeito se depara com estímulos desagradáveis (também chamados de</p><p>aversivos), a resposta adotada pode incluir a fuga e/ou de esquiva: são processos similares</p><p>no qual o indivíduo evita o contato com o estímulo. No caso da fuga, tem-se um comporta-</p><p>mento de fugir, abandonando a situação após o início do estímulo. A esquiva ocorre quando</p><p>a pessoa, prevendo a ocorrência do estímulo aversivo por perceber algum outro elemento</p><p>que o antecede, pode se comportar de modo a evitar o contato com a circunstância indese-</p><p>jada (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA; 1999).</p><p>Outros processos importantes apontados pelo Behaviorismo são a extinção, em</p><p>que uma resposta anteriormente reforçada deixa de ter um reforçador como consequên-</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UNMSM_PsiExperimental_1998_2.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UNMSM_PsiExperimental_1998_2.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:UNMSM_PsiExperimental_1998_2.jpg</p><p>29TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>cia. Isso leva a uma queda na frequência daquele comportamento, podendo até deixar de</p><p>ocorrer. Além deste, há a punição, que ao contrário do reforçamento, diminui a frequência</p><p>de uma resposta: ela ocorre quando determinado comportamento tem como consequência</p><p>um novo estímulo aversivo, ou a remoção de um reforçador positivo. Exemplos de tais</p><p>situações estão presentes na educação de crianças: diante de uma mentira, um pai pode</p><p>dar uma palmada no filho (estímulo desagradável) ou castigá-lo, tirando seu acesso a jogos</p><p>(perda de um reforçador positivo) (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA; 1999).</p><p>Os trabalhos da Análise do Comportamento abrem a possibilidade de discutir so-</p><p>bre punições. Suas conclusões são de que punir altera a ocorrência temporária de uma</p><p>resposta (a mentira, no exemplo acima), mas não altera sua motivação. Além disso, o</p><p>comportamento punido só deixa de ocorrer completamente se a punição for extremamente</p><p>intensa. O que ocorre, para evitar a punição, é o aumento de comportamentos de esquiva</p><p>e fuga. Assim, a teoria comportamental permitiu aos psicólogos um controle maior das</p><p>ações dos sujeitos, baseando-se no estudo das variáveis e suas consequências sobre o</p><p>comportamento humano.</p><p>30TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>PSICANÁLISE, A TEORIA</p><p>DO INCONSCIENTE2</p><p>TÓPICO</p><p>É necessário esclarecer que o termo psicanálise diz respeito a um campo do co-</p><p>nhecimento que se desenvolve de forma distinta da psicologia, mas que caminha muito</p><p>próxima desta. A palavra ainda pode ser utilizada para se referir a uma teoria, um método</p><p>de investigação da vida psíquica e uma prática com finalidades terapêuticas, que se apro-</p><p>xima e contribui para o desenvolvimento de um trabalho psicológico fundamentado nos</p><p>pressupostos da psicanálise.</p><p>A psicanálise foi fundada por Sigmund Freud, médico neurologista, que iniciou sua</p><p>carreira clínica em Viena, formado em 1881, no final do século XIX. Sua experiência profis-</p><p>sional o colocou em contato com pacientes com problemas nervosos, e posteriormente o</p><p>aproximou de Jean Charcot, um psiquiatra que empregava a hipnose como recurso para o</p><p>tratamento de casos histéricos.</p><p>Um caso em particular observado pelo médico contribuiu para o desenvolvimento</p><p>de suas teorias: Anna, uma jovem do sexo feminino, apresentava paralisia dos membros</p><p>e inibições da capacidade de pensamento. Sem nenhuma atribuição de causas orgânicas</p><p>para os sintomas, a paciente observou que o início de sua sintomatologia coincidiu com</p><p>a necessidade de cuidar de seu pai, que estava enfermo. Tal situação provocará nela</p><p>sentimentos e pensamentos que remeteram ao desejo de que o pai viesse a falecer, mas</p><p>tais pensamentos, fonte de temor, sofreram uma espécie de esquecimento forçado, dando</p><p>origem aos sintomas (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA; 1999).</p><p>A paciente não conseguia recuperar a causa de seu quadro de saúde quando estava</p><p>consciente, mas a hipnose conseguia fazê-la recordar as situações problemáticas, o que cau-</p><p>31TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>sava o desaparecimento dos sintomas. Bock, Furtado e Teixeira (1999, p. 94), afirmam que tal</p><p>alívio “não ocorria de forma ‘mágica’, mas devido à liberação das reações emotivas associadas</p><p>ao evento traumático — a doença do pai, o desejo inconsciente da morte do pai enfermo.”</p><p>O médico responsável pelo tratamento de Anna, Josef Breuer, nomeou esta prática</p><p>de método catártico, estabelecendo como seu cerne a liberação de emoções vivenciadas</p><p>em acontecimentos traumáticos que não puderam ser expressos na ocasião e postulando</p><p>que sua expressão acarretaria o desaparecimento dos sintomas. Freud adotou tal método</p><p>em seu trabalho, realizando observações e desenvolvendo técnicas que auxiliassem seus</p><p>pacientes a falar livremente sobre o que pensavam. A hipnose foi deixada de lado, pois nem</p><p>todos os casos podiam ser hipnotizados.</p><p>De acordo com Bock, Furtado e Teixeira (1999), a investigação de Freud sobre as</p><p>memórias reprimidas e os sintomas causados apontou-lhe que aquilo que caía no esque-</p><p>cimento sempre se tratava de algo penoso e difícil de recordar, seja por tratar-se de uma</p><p>lembrança negativa, ou de algo muito desejado que fora perdido. Durante os atendimentos</p><p>que realizava, também verificou que seus clientes apresentavam alguma dificuldade de fa-</p><p>lar de determinadas situações vivenciadas, apresentando resistência para recordar certos</p><p>fatos. Associando tal resistência e o esquecimento forçado de situações, Freud postulou a</p><p>existência de um mecanismo chamado repressão, que atua no psiquismo para esconder</p><p>ou eliminar determinadas recordações que evocam sofrimento. Este processo colocaria tais</p><p>recordações no inconsciente.</p><p>O referido autor formulou uma teoria para compreender o funcionamento do psi-</p><p>quismo, postulando que existem três sistemas: um consciente, um pré-consciente e um</p><p>inconsciente. O consciente é a instância que pode acessar o conhecimento do mundo ex-</p><p>terno e do mundo interno do indivíduo, relacionando-se a percepção sensorial e capacidade</p><p>de raciocínio, ao passo que o pré-consciente abarca informações que podem se tornar</p><p>conscientes, caso necessário (exemplo: memórias antigas, conhecimentos aprendidos), e</p><p>o inconsciente contém aquilo que não pode se tornar consciente, por uma ação de meca-</p><p>nismos psíquicos de censura e repressão (HERRMANN, 2005).</p><p>Posteriormente, no desenvolvimento de sua obra, Freud introduziu um segundo</p><p>modelo para compreender o funcionamento psíquico, nomeando três estruturas psíquicas:</p><p>o Id, ego e o superego. Ao ego, cabe sediar os processos mentais conscientes, mas também</p><p>possui atividades inconscientes. O ego é a estrutura que media o funcionamento do supe-</p><p>rego e do Id. Esta última é um agrupamento de representações psíquicas inconscientes,</p><p>seja porque sofreram repressão ou nunca se tornaram conscientes, mas que afetam o ser</p><p>humano. O Id é a instância psíquica presente desde o nascimento, que funciona de acordo</p><p>32TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>com as normas do inconsciente. Assim, faz-se necessário o desenvolvimento de outras</p><p>estruturas, tais como o ego e o superego (HERRMANN, 2005).</p><p>O superego é uma parte modificada do ego, cuja função é fazer cumprir as normas</p><p>morais de forma estrita. É uma instância que funciona como uma espécie de juiz, balizando o fun-</p><p>cionamento do ego em relação às demandas do mundo externo e os desejos do Id, e evocando</p><p>sentimentos de censura e angústia quando o ego não atua estritamente dentro de seu modelo.</p><p>Para Freud, os sintomas apresentados por seus pacientes decorrem de um conflito</p><p>de forças no psiquismo, causado pela impossibilidade de satisfação de desejos. Seus estu-</p><p>dos também enfocaram a presença de um tema comum: muitos destes desejos impossíveis</p><p>diziam respeito a situações de caráter sexual, e algumas estavam ligadas a vivências infan-</p><p>tis, que haviam sofrido repressão, por serem intoleráveis para a consciência.</p><p>O senso comum entende que a sexualidade é uma dimensão da vida humana</p><p>que floresce apenas na puberdade e é característica do universo adulto, e a ideia de uma</p><p>“sexualidade infantil” contradiz a visão da criança como alguém puro, sem maldade. Freud</p><p>também observou a existência deste tabu sobre o assunto quando desenvolvia sua teoria.</p><p>Contudo, ele postulou que a sexualidade era um aspecto que se desenvolvia gradativa-</p><p>mente no indivíduo, passando por estágios de obtenção de prazer por fontes variadas, até</p><p>que se consolidasse na expressão sexual adulta, em que a atividade genital se associa à</p><p>reprodução e a obtenção de prazer (HERRMANN, 2005).</p><p>FIGURA 2 – O ATO DE CHUPAR O DEDO, PARA A TEORIA PSICANALÍTICA, MOSTRA A REGIÃO</p><p>ORAL COMO FONTE DE PRAZER</p><p>Fonte: WIKIMEDIA Commons, 2017. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_little_girl_</p><p>sucking_a_thumb.jpg Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_little_girl_sucking_a_thumb.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_little_girl_sucking_a_thumb.jpg</p><p>https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A_little_girl_sucking_a_thumb.jpg</p><p>33TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>Assim, a psicanálise enxerga a existência de uma energia ligada aos instintos se-</p><p>xuais, chamada de libido. No início da vida, tais instintos estão ligados à sobrevivência, e</p><p>o prazer encontra-se no próprio corpo, em regiões tais como a boca, o ânus e os genitais.</p><p>Na perspectiva de um adulto, pode ser difícil comparar o prazer da relação sexual com a</p><p>existência de algo parecido em outras partes do corpo, mas observamos exemplos desta</p><p>disposição para o prazer em crianças pequenas que se acalmam ao sugar o bico da chupeta</p><p>ou mamadeira, ou na sensação de alívio e satisfação da evacuação.</p><p>Ao pensarmos neste “mundo psíquico” em que estão nossas memórias, sentimen-</p><p>tos e medos, é necessário entender que para Freud, este era comandado por um conjunto</p><p>de regras diferentes da realidade. Uma delas dizia respeito à passagem do tempo: o in-</p><p>consciente não aceitava as noções de passado e de presente, sendo atemporal. Situações</p><p>também poderiam ser imaginadas ou fantasiadas a fim de satisfazer alguns desejos do</p><p>indivíduo, apresentando o mesmo impacto e consequência de uma situação real, o que</p><p>demonstrava que o sujeito tomava como sua realidade o que acontecia em sua realidade</p><p>psíquica, ainda que esta não corresponda com a realidade externa. O autor ainda defende,</p><p>que os sintomas (manifestos como comportamentos ou pensamentos) eram decorrentes</p><p>de um conflito entre os desejos do sujeito e os chamados mecanismos de defesa. Assim, o</p><p>sintoma é ao mesmo tempo o sinal de um problema e uma tentativa de solução deste por</p><p>parte do psiquismo (BOCK, FURTADO, TEIXEIRA; 1999).</p><p>Os mecanismos de defesa são recursos empregados pelo aparelho psíquico de forma</p><p>inconsciente para limitar o contato do sujeito com aspectos desagradáveis da realidade inter-</p><p>na ou externa, que seja fonte de sofrimento. Bock, Furtado e Teixeira (1999, p. 101) afirmam,</p><p>que “a pessoa ‘deforma’ ou suprime a realidade — deixa de registrar percepções externas,</p><p>afasta determinados conteúdos psíquicos, interfere no pensamento.” Alguns exemplos de</p><p>mecanismos de defesa incluem a regressão, um retorno a momentos mais primitivos do de-</p><p>senvolvimento, que incluem respostas características de situações infantis, como chorar de</p><p>forma intensa, quase perdendo o controle. A projeção é outro mecanismo, bastante presente,</p><p>em que alguém atribui a existência de algum aspecto negativo de si no mundo exterior, não</p><p>reconhecendo-o como algo pertencente a si. Tal situação é comum, quando observamos</p><p>pessoas que criticam defeitos alheios que elas também cometem, sem que se deem conta.</p><p>34TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>EXISTENCIALISMO</p><p>E HUMANISMO3</p><p>TÓPICO</p><p>A psicologia existencialista e a humanista são frequentemente apresentadas em</p><p>conjunto, como se caminhassem juntas. Na verdade, trata-se de teorias diferentes, mas que</p><p>ramificam em um ponto comum: o desenvolvimento da perspectiva fenomenológica em filoso-</p><p>fia. Esta decorre das observações de Edmund Husserl, que assim como muitos dos filósofos</p><p>apresentados na primeira unidade, buscava questionar uma forma de obter uma fundamen-</p><p>tação segura para o conhecimento. Para o autor, era necessário aceitar a impossibilidade de</p><p>conhecer as coisas em si mesmas, compreendendo a percepção como um fenômeno, que</p><p>dizia respeito à relação da coisa com o sujeito que a percebe, tentando</p><p>superar a dicotomia</p><p>entre sujeito e objeto (JACÓ-VILELA, FERREIRA, PORTUGAL, 2006; HOLANDA, 1997).</p><p>Husserl realizou uma crítica à epistemologia da época e sua postura diante da subjeti-</p><p>vidade, e privilegiou a intuição como um modo de produzir o saber, considerando-a uma via de</p><p>acesso a tais fenômenos. Sua perspectiva é contrária à de outras filosofias sobre o conhecimento,</p><p>que como você estudou na primeira unidade, tinham como objetivo a delimitação de um campo</p><p>objetivo para o estudo dos objetos, que não sofresse influência das percepções e experiências.</p><p>Nesta lógica, também não seria possível conhecer a consciência em si, mas somente a</p><p>consciência de algo, estabelecendo a intencionalidade como uma de suas características. Deste</p><p>modo, pode-se compreender a fenomenologia como “a descrição das estruturas da consciência”</p><p>(JACÓ-VILELA, FERREIRA, PORTUGAL, 2006, p.320). Assim, alguns pesquisadores que con-</p><p>sideravam a aplicação dos métodos e epistemologias das ciências naturais inadequados para o</p><p>estudo do homem, passaram a vislumbrar a abordagem fenomenológica do conhecimento como</p><p>uma alternativa, lançando as bases para uma outra forma de pensar o indivíduo.</p><p>35TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>Uma crítica similar à da fenomenologia se manifestou no existencialismo, filo-</p><p>sofia que defende, que a existência do homem é o que caracteriza sua “essência”. Esta</p><p>reconhece o indivíduo como um ser caracterizado pela sua singularidade e liberdade de</p><p>escolhas. Tal pensamento parte de uma crítica à filosofia enquanto produção especulativa</p><p>de modelos ideais e universais para definir a humanidade. Kierkegaard, um dos principais</p><p>filósofos dessa corrente de pensamento, via o homem como um ser que é livre ao assumir</p><p>a responsabilidade sobre aquilo que escolhe: este existe antes de qualquer coisa, e não</p><p>tem uma existência pré determinada, podendo dar qualquer sentido a ela a partir de sua</p><p>capacidade de ter consciência (JACÓ-VILELA, FERREIRA, PORTUGAL, 2006).</p><p>FIGURA 3 - KIERKEGAARD, RESPONSÁVEL PELO DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO</p><p>EXISTENCIALISTA</p><p>Fonte: MONTE, A. Monte de leituras: Blog do Alfredo Monte, 2011. Disponível em: https://armonte.wordpress.</p><p>com/2011/01/23/a-escola-da-possibilidade/ Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>Outro pensador, Martin Heidegger, realizou uma articulação entre as teorias feno-</p><p>menológicas e existencialistas. Seu pensamento considerou o sujeito como alguém cuja</p><p>existência é livre e sua relação com o mundo é o que produz o sentido: não é possível</p><p>considerar uma existência em si mesmo. Este autor utiliza o termo Dasein para se referir à</p><p>sua compreensão de sujeito, alguém que existe em relação com o mundo, sem uma exis-</p><p>tência pensada previamente por outrem (JACÓ-VILELA, FERREIRA, PORTUGAL, 2006).</p><p>Além disso, ele aponta um modo de ser que encobre o existir, fazendo com que o</p><p>sujeito se expresse de forma inautêntica, relacionando-se com o mundo de forma prees-</p><p>tabelecida. Isto prejudica sua capacidade de expressar-se de modo singular. O indivíduo,</p><p>muitas vezes, também pode tomar como dado o sentido das relações consigo mesmo ou</p><p>com os outros, compreendendo sua existência como algo absoluto e natural.</p><p>Para Jacó-Vilela, Ferreira e Portugal (2006), este entendimento do mundo fracassa</p><p>quando algum objeto não funciona conforme o esperado, indicando ao indivíduo a possibi-</p><p>https://armonte.wordpress.com/2011/01/23/a-escola-da-possibilidade/</p><p>https://armonte.wordpress.com/2011/01/23/a-escola-da-possibilidade/</p><p>https://armonte.wordpress.com/2011/01/23/a-escola-da-possibilidade/</p><p>36TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>lidade de encontrar outros sentidos no contexto externo. Nesta situação, a falta do sentido</p><p>esperado é sentida como angústia. Ainda que o senso comum nos traga a ideia de que</p><p>esta é uma sensação ruim, a visão de Heidegger revela que esta sensação surge para o</p><p>indivíduo junto com sua capacidade de aprender novas formas de encarar uma ocorrência,</p><p>e de assumir a responsabilidade pela possibilidade de agir de forma diferente e livre.</p><p>Já a psicologia humanista desenvolveu-se em um contexto histórico que favoreceu</p><p>a valorização de cada indivíduo, marcada especialmente pela constituição, em 1948, da</p><p>Declaração Universal dos Direitos do Homem. Conforme segundo Jacó-Vilela, Ferreira e</p><p>Portugal (2006), este contexto aponta para a valorização da igualdade entre os homens,</p><p>que também favorece o entendimento de que, mesmo apesar das variações étnicas e cultu-</p><p>rais, a espécie humana não possui diferenças essenciais de nenhuma natureza, não sendo</p><p>determinada por nenhuma condição de seu desenvolvimento, tais como sua localização</p><p>geográfica, genética ou contexto histórico.</p><p>A psicologia humanista se desenvolveu inicialmente nos EUA, nas décadas de</p><p>1940 e 50, com os trabalhos de Carl Rogers, Abraham Maslow e Gordon W. Allport, entre</p><p>outros nomes. Seu surgimento ofereceu uma outra perspectiva psicológica diversa do</p><p>behaviorismo e da psicanálise, criticando ideias que entendiam ser deterministas sobre o</p><p>ser humano. Para os humanistas, o ser humano sadio possui a capacidade de transcender</p><p>tais determinações e ser plenamente responsável por suas ações.</p><p>O homem, para os humanistas, possui uma capacidade de autorrealização, o que</p><p>implica a preexistência de um potencial a ser realizado e uma tendência para sua realização.</p><p>Tal visão desperta o pensamento de que os humanistas também consideram que o ser humano</p><p>é predeterminado pela biologia, mas segundo Jacó-Vilela, Ferreira e Portugal, a constituição</p><p>física do ser humano, “possibilita o desenvolvimento psicológico, mas não o determina. O de-</p><p>senvolvimento nesse nível é possibilitado pelas relações interpessoais vividas.” (2006, p. 344).</p><p>A abordagem humanista aplicada no contexto terapêutico também é chamada de</p><p>abordagem centrada na pessoa, noção proposta por Carl Rogers, cujo intuito é enfatizar a auto-</p><p>nomia do indivíduo. Devido a sua compreensão de que os fenômenos subjetivos só podem ser</p><p>compreendidos pelas pessoas através de suas experiências imediatas, o psicólogo humanista</p><p>faz seu trabalho estando aberto à relação com o paciente, sem a necessidade de desempenhar</p><p>condutas específicas. Ele deve estar disponível e presente para apreender o sentido daquela</p><p>relação na qual não há mediação entre o terapeuta e o cliente (HOLANDA, 1997).</p><p>37TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>“Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que</p><p>modo específico ele pode ser salvo”.</p><p>Fonte: FREUD, S. A civilização e seus descontentes. Good Reads, 2018. Disponível em: https://www.</p><p>goodreads.com/quotes/9424573-n-o-existe-uma-regra-de-ouro-que-se-aplique-a Acesso em: 10 set. 2022.</p><p>Além das teorias apresentadas, existem outras abordagens psicológicas, muitas das quais são utilizadas</p><p>no contexto clínico. Pode-se citar a psicologia cognitivo-comportamental, a Gestalt, a abordagem familiar</p><p>e sistêmica e a psicologia histórico-cultural como abordagens conhecidas e utilizadas por psicólogos que</p><p>trabalham neste contexto, que também podem servir para a pesquisa ou para o diagnóstico psicológico.</p><p>Outras teorias, como a psicologia social e institucional, são muito utilizadas por pesquisadores que desejam</p><p>conhecer e intervir em fenômenos coletivos, como relações em grupos sociais ou de trabalho.</p><p>Fonte: A autora (2022).</p><p>https://www.goodreads.com/quotes/9424573-n-o-existe-uma-regra-de-ouro-que-se-aplique-a</p><p>https://www.goodreads.com/quotes/9424573-n-o-existe-uma-regra-de-ouro-que-se-aplique-a</p><p>https://www.goodreads.com/quotes/9424573-n-o-existe-uma-regra-de-ouro-que-se-aplique-a</p><p>38TEORIAS E SISTEMAS EM PSICOLOGIAUNIDADE 2</p><p>O que achou do conteúdo desta unidade? Espero que tenha conseguido aproveitar</p><p>ao máximo o conhecimento até aqui!</p><p>Nestas páginas, você aprendeu um pouco mais sobre três diferentes compreensões</p><p>sobre o homem, que constituem abordagens psicológicas. As teorias formuladas a partir</p><p>de uma determinada</p>

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