Prévia do material em texto
PSICANÁLISE CLÍNICA & CULTURA Michele Kamers, Marco Antonio Coutinho Jorge e Rosa Marini Mariotto (organizadores) ASSOCIAÇÃO PSICANALITICA 002664 DE PORTO ALEGRE Michele Kamers I Rinaldo Voltolini I Rosa Maria Marini Mariotto Julieta Jerusalinsky I Nelson da Silva Junior I Antonio Quinet I Mauro Mendes Dias I Mario Eduardo Costa Pereira Denise Maurano I Marco Antonio Coutinho Jorge & Vivian Martins Ligeiro I Paulo Roberto Ceccarelli I Marta Cerruti I Miriam Debieux Rosa I Gabriel Inticher Binkowski I Edson Luiz André de Sousa I Betty Bernardo Fuks SALVADOR, 2022 EDIÇÃO ágalma 30 anosMARCADORES SOCIAIS E A MARCA DO CASO: impasses da clínica, quando as questões sociais e políticas compa- LINGUAGEM E DISCURSO NA CLÍNICA PSICANALÍTICA recem. Atualmente, na discussão sobre ética e prática psicanalíticas, essas questões ganham destaque como também a da hegemonia epis- Miriam Debieux Rosa têmica e das políticas identitárias. Grupos sólidos de psicanalistas que migraram para contextos peri- féricos, onde os marcadores sociais gênero, classe, raça e cultura decidem como a vida e a morte acontecem, dedicam-se a construir estratégias e táticas clínicas nesses contextos. Os psicanalistas do "Laboratório psicanálise, política e sociedade (IPUSP)" trabalham sob essa perspectiva, considerando a inclusão da política na clínica psica- nalítica uma exigência ética, pois há estratégias de controle social que, mediante discursos discriminatórios e identitários, inviabilizam Introdução: Clinica e Política sujeitos e reduzem sua fala a enunciados sem polissemia, seja na sociedade, seja nas instituições. Esses sujeitos se defrontam, além do No decorrer da história da psicanálise, houve um distanciamento desamparo social e constitutivo, com desamparo discursivo, fonte entre clínica psicanalítica e questões sociais e políticas³¹⁸. Essa arti- de sofrimento sociopolítico. silenciamento daí advindo interroga a culação não se processa sem polêmicas, pois, para um bom núme- cura pela palavra e não pode ser reduzido à dimensão apenas do seu ro de psicanalistas, são termos antinômicos, na medida em que a romance familiar ou edípico. psicanálise opera sobre 0 singular e a política diria respeito à gestão Neste escrito, abordo atravessamentos discursivos dos marcado- social. Sob essa concepção, a clínica psicanalítica, centrada no atra- res sociais na construção do caso clínico e tematizo a tramutação dos vessamento da fantasia, que produz repetições sintomáticas, só seria marcadores sociais para a marca do caso. Ou seja, tais marcadores viável numa relação transferencial um a um, baseada na suposição de figuram como ponto de impasse da escuta que permitirá a constru- saber do analista que, por sua vez, seria neutro quanto aos atravessa- ção do caso clínico e da posição de analista, que autoriza a acessar mentos sociais, econômicos e culturais sujeito não teria cor, raça outras táticas e estratégias clínicas que permitam ao sujeito situar sua ou classe social. marca e contar-se em uma história que posiciona no discurso social No entanto, a arquitetura teórica e clínica da psicanálise, ao abor- e também em sua ficção fantasmática. dar inconsciente, debruça-se sobre 0 sofrimento no laço libidinal Inicialmente retomo a articulação entre linguagem e discurso, com outro, a origem da lei, as questões relativas à guerra, à morte bem como sofrimento sociopolítico proveniente do laço social. e ao poder entre outros aspectos -, também estes aspectos objetos Com base na concepção do caso clínico como construção, e apoia- de estudo das ciências sociais e políticas. Houve uma certa solução da em Edson de e Claude trago dois casos que de compromisso entre as várias posições, favorecendo a dicotomia entre clínica e política. Solução problemática, pois não enfrenta os 319 SOUSA, Edson Luiz A. de. A vida entre parêntesis: caso clínico como ficção. Psicologia Clínica, V.12, n.1, p.11-19, 2000. 318 DANTO, Elizabeth A. As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social. São Paulo: 320 DUMÉZIL, Claude. Les raisons d'um séminaire. In: DUMÉZIL, Claude; BREMOND, Bérnard. Perspectiva, 2020. du psychanalyste: le trait du cas. Paris: Érès, 2012. p. 41-58. 236 237 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURAexplicitam efeitos de tal atravessamento e permitem introduzir algu- A partir desse ponto são discursos, ou seja, materializam-se nos modos mas estratégias e táticas clínicas ante marcadores sociais. de relação em um dado tempo e lugar. Os sujeitos se constituem em cenário social, político e cultural dos quais sofrem as incidências, Linguagem e discurso: marcadores sociais, tanto na sua constituição como sujeito como diante das estratégias desamparo discursivo e sofrimento sociopolítico políticas de sua destituição desse lugar. Os laços sociais inserem 0 sujeito simultaneamente no jogo relacional, afetivo, libidinal e políti- O campo social aqui é tratado como constituído por discursos cons- co, pautando a construção da história de cada um inserida no campo truídos em torno da fantasia ideológica de que fala a qual discursivo de seu tempo. pretende mascarar a inconsistência e antagonismos constitutivos Na sociedade brasileira, discurso social predominante, embora de uma sociedade viva e pulsante para impor uma concepção de não explícito, é regido por uma voracidade obscena, interessada na sociedade fixada em uma identidade sociossimbólica que tem sua manutenção e expansão dos privilégios advindos do patriarcado e da ordem ameaçada por grupos ou indivíduos considerados estranhos, exploração escravagista, atualizada e mantida por outros meios, entre que devem ser cooptados, excluídos, escravizados ou eliminados. Tais quais discursos convertidos em práticas sociais e políticas públicas. grupos ou indivíduos não são aleatórios, 0 que reduz sujeitos a um Instâncias como poder jurídico, religioso ou político podem legiti- único aspecto preto, judeu, bandido, homossexual, pobre, louco mar ou negar a experiência e testemunho de cada um. Quando tais fixado como um marcador social. instâncias apresentam discursos hegemônicos e universalizados, mas Entendo que marcadores sociais são estratégias discursivas de se apresentam como se fossem discurso do Outro, desalojam sujei- dominação que prescrevem lugares sociais fixos impondo a submissão to da sua história pessoal, sociocultural e política, desarvorando-o de e servidão, assim como destinos de punição e exclusão caso ousem seu lugar discursivo, do lugar a partir do qual ele fala. Sua estratégia romper tal laço social. A identidade social impingida a esses sujeitos é também fazer das diferenças marca-dores sociais que justificam não será modo de obscurecer 0 campo simbólico e alienar sujeito, só governar, mas oprimir ou explorar modalidades de violências. As limitando seu campo de resistência. diferenças e a desigualdade de forças e de posição no campo social A teorização lacaniana, que articula linguagem, discurso e cons- produzem enlaces que, muitas vezes, condicionam a pertença social tituição ou destituição subjetiva, permite formular modalidades de à submissão sistemática aos parâmetros dominantes. clínica que deem conta dos impasses do sujeito no laço social, tema A clínica psicanalítica depara-se com sujeitos com histórias de desenvolvido no livro A clínica psicanalítica em face da dimensão engajamento social e político que, perante seguidas modalidades de sociopolítica do As relações entre linguagem, discurso e violência, passam a apresentar-se com discursos pautados em enuncia- laço social na perspectiva psicanalítica situam que laços sociais têm dos vitimizantes; também tem testemunhado adolescentes pulsando seu fundamento na linguagem que inaugura a entrada do homem na desejo de viver que, marcados por sua classe social e cor, por discursos cultura e remetem à condição constitutiva do homem e da civilização. discriminatórios e impeditivos de inserção social, tornam-se alvo de violências e morte. Nesses contextos em que comparece com maior nitidez a dimensão sociopolítica do sofrimento que lança sujeito ao 321 Slavoj. Eles não sabem que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. Disponível em: Acesso em: 11 jan. 2021. silenciamento, faz-se necessário debruçar-se sobre os conceitos psica- 322 ROSA, Miriam Debieux. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento. nalíticos e suas extensões, para criar dispositivos clínicos condizentes São Paulo: Escuta: FAPESP, 2016. às questões do sujeito enredadas às institucionais, sociais e políticas. 238 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURA 239A construção do caso clínico: a marca visando manter ou expandir seu poder, mascara-se de discurso do do caso e marcadores sociais Outro (campo da linguagem) para capturar sujeito em suas malhas seja na constituição subjetiva, ou nas circunstâncias de desti- O caso clínico tem especificidades e funções na transmissão/criação tuição da psicanálise. A transmissão diz respeito à construção de uma arti- Por vezes, marcadores sociais são aquilo que não foi representa- culação entre a ficção fantasmática e a história social e à dívida em do e recaem sobre sujeito como uma sobrerresponsabilização indi- torno do que herdamos da cultura. Uma transmissão exitosa ofere- vidual, falha (não falta), fracasso ou vergonha inominável. Nesse caso, ce um espaço de liberdade e uma base que permitem abandonar comparecem ora como pano de fundo, identificados pela adesão passado para melhor reencontrá-lo. Nesse sentido, ressaltamos 0 identificatória que veda 0 lugar do sujeito; outras vezes, a marca caráter criativo e inovador do caso clínico. do sujeito vem encoberta pelos marcadores sociais, seja como uma Os aspectos constituintes e enodados na construção do caso clíni- identificação imaginária e definitiva, seja como uma explicação ou co dão realce a três termos: a marca do caso, que diz do enigma em ressentimento, ou mesmo como ideal. Isto é, marcadores sociais torno do qual a narrativa do analista é estruturada; a construção do podem participar como aquilo que obtura ao sujeito interrogar-se ou caso, que busca a elaboração de um saber na direção tanto da histori- como ponto de ancoragem que permite reconfigurar a história, como zação do sujeito como da interrogação da teoria; e a transmissão por se poderá ver no movimento social e subjetivo da filha de Maria. A uma escrita, que opera naquele que é escutado e pode se re-situar no escuta será fundamental nessa tramitação. laço social e naquele que recebe a narrativa e encontra a possibili- A título de localizar impasses na construção do caso diante de dade de dar endereço para a circulação das inquietações que caso marcadores sociais e das marcas que não cessam de não se inscrever, promove. Esses termos operam em diferentes tempos, e sua escrita apresento resumidamente recortes de dois casos escritos com vários carrega as inscrições e apagamentos desses processos. outros psicanalistas: sobre adolescente que visa enquanto pai fazer Tomo a "marca do caso", tal como apresentada por Dumézil, barreira ao discurso que 0 designa como traficante e sobre a mulher como 0 fio condutor da construção do caso que, em sua dimensão trabalhadora, religiosa, que, apesar das dores que não cessam, recua simbólica, imaginária e real, baliza a questão da realidade e verdade. em saber-se negra até que a filha reconstrua publicamente a trajetória A marca do caso porta um real que põe em movimento as vias simbó- familiar incluindo esse marcador social. licas do sujeito seu discurso e "forma laço entre a história do sujeito e as estruturas presentes na Ou seja, a marca do caso Caso 1: Shake: traficante ou pai vai implicar analista no laço com outro e conduzir a construção do caso clínico e suas táticas de intervenção. O caso chegou por meio do Núcleo PSILACS, coordenado Os marcadores sociais podem se tornar um enigma ou configurar por Andréa Guerra (UFMG), que me solicitou uma leitura para mais um impedimento para caso clinico, porque estabelecem nomea- ções que fixam identidades não dialetizáveis que podem promover 324 ROSA, M. D. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento, op. cit., desamparo discursivo. Produz-se, então, um desamparo discur- 325 ROSA, Miriam D.; MARTINS, Aline S.; MUSATTI-BRAGA, Ana Paula; TATIT, Isabel. Clínica sivo quando discurso social e político, carregado de interesses e e política interrogadas pelo ato infracional: a construção do caso. In: MOREIRA, Jacqueline de GUERRA, Andréa M.C.; SOUZA, Juliana M.P. de (Org.). Diálogos com campo das medidas socioe- ducativas: conversando sobre a justiça, o cotidiano do trabalho e adolescente. Curitiba: CRV, 2013. 323 DUMÉZIL, C. Les raisons d'um séminaire, op. cit., p.26 P.75-92. Disponível em: Acesso em: 14 jan. 2021. 241 240 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURAuma volta na costrução do caso. Tendo passado por medidas socioe- pela psicanalista, entre a distinção do espaço de elaboração do ato ducativas, Shake apresenta-se estando "longe do tráfico" e próximo e 0 preço a pagar pela inscrição no laço social. Ao ser chamada por de fazer 18 anos, atravessamentos de fronteiras. Desse modo, "dois Shake a testemunhar seus rabiscos, a analista pôde legitimar seu significantes se articularam: maioridade (não mais (de) menor) e lugar êxtimo, considerando 0 ato sem que 0 marcador social ficasse trabalho, produzindo um sujeito articulado a uma demanda quero como única versão. trabalhar. Mas algo mais ocorrera para produzir este efeito: encon- Do lado do adolescente, se discurso na sessão era de responsa- tro faltoso com Outro sexo encontrara uma bilização, havia um impasse a ultrapassar: em seu cálculo de gozo, A marca do caso, relatada pela analista, agita e abala a ele, a ela, à faltou reconhecimento do outro como parte do reconhecimento de instituição e nos interroga. Ao terminar 0 atendimento, a psicanalista, si. Ou seja, faltou considerar os efeitos do seu ato e de seu excesso no psicóloga de uma instituição de Liberdade Assistida, se depara com outro e no discurso, que se processaria no tempo de compreender. efeitos das escritas pela parede da instituição realizadas por Shake Shake, ao buscar desgarrar-se do lugar de "infrator", deparou-se com enquanto aguardava seu atendimento. Diante da gerente, da coor- novas insígnias do campo social. Esse processo não se dá sem angús- denadora e da Polícia Militar, a analista é convocada a se posicionar, tia, uma vez que 0 sujeito se confronta com limites do real, com em ato, perante 0 que foi chamado de ato infracional na instituição. furo do sentido quando, por exemplo, não se encaixa mais numa Várias são as considerações sobre a construção e a marca desse identidade que defina por inteiro, tal como "Shake, infrator". Em caso, mas seu enigma está na consideração de que 0 espaço analí- seu lugar, as perguntas: Como é 0 Shake pai? E Shake que traba- tico não ficou restrito às paredes internas da sala de atendimento. lha? Essas novas posições angustiam porque lançam para 0 novo, mal-estar que Shake traz para dentro da instituição que trabalha com para 0 desconhecido. A angústia enquanto espera ansiosa, expectativa adolescentes infratores, no dentro-fora da sala de atendimento, diz pelo acontecimento, introduz a dimensão do tempo. Ou, mais bem das duas dimensões presentes no campo transferencial e no campo dito, a expectativa ansiosa pode produzir a sensação de urgência que social. De um lado, a concepção de cada um desses jovens obedece a elimina tempo de compreender e precipita 0 tempo de concluir, a uma trama que envolve tanto do ponto de vista subjetivo e pulsio- hipótese para este caso. Este é um fragmento de real que impulsiona nal quanto político e social. Nesse caso, a escuta clínica permite dar tanto a escrita de Shake quanto a construção do caso. peso aos seus dilemas: não soube que fazer com 0 mal-estar da Possibilitar a abertura para que 0 sujeito possa inscrever algo da "demora para ser atendido" e a "cabeça cheia" (porque a namorada sua singularidade na instituição faz parte da função do analista que estava grávida), e a escrita na parede foi sua saída. De outro lado, a se propõe a trabalhar nesses espaços. A instituição é "sistema de experiência subjetiva de Shake, a "demora", uma vez posta em ato, regras que cerca a comunidade de e é nesse sentido que relança na posição social de "infrator". acabamos todos referidos a ela (a instituição), tanto nos consultórios Quando a cena social e pública é convocada, quando a angústia clínicos quanto nos espaços que reúnem vários sujeitos. papel e 0 desejo de inscrição atravessam territórios público e privado, do analista nas instituições é, portanto, contribuir para que não comparece outra modalidade de inscrição: a do discurso social em se esqueça a particularidade de cada um: preciso recordar que relação a seu ato, ou seja, seu mal-estar seria inscrito socialmente como um ato infracional. Trava-se então um embate, mediado 327 LAURENT, Eric. Dois aspectos da torção: entre sintoma e instituição. In: HARARI, Angelina; CARDENAS, Hortênsia; KRUGER, Flory (Org.). Usos da psicanálise: Primeiro Encontro Americano 326 Id., ibid., p.81. do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2003. p.84. 243 242 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURAnão se deve tirar de alguém sua particularidade, a fim de misturá-lo risco, especialmente de abusos. No entanto, procura por tratamento com todo 0 universal, em razão de algum humanitarismo ou qual- porque tivera que se aposentar por dores do corpo. Dores do corpo, quer outro dores da história que não pôde elaborar e que retornam. Encontra Considero importante a posição da analista na intervenção clini- certo alívio e pertencimento numa igreja evangélica. co-política da instituição, a leitura da escrita na parede que, mais do No caso relatado, Maria constrói, por meio do estudo e do traba- que uma "infração", revelava uma tentativa de falar dessa experiência lho, um novo lugar no laço social para si e para seus filhos. De subjetiva e particular. Nesse sentido, foi uma prática ético-política vítima silenciada, toma posição de um terceiro que insere a lei, inter- que propiciou a escuta e indicou um lugar discursivo que possibilitou ceptando para outras crianças abusos vividos. No entanto, lugar ao jovem uma posição de fala e outra posição no campo social. de defensora da lei, atenta aos abusos, em trabalho reconhecido pela A designação de traficante nesse caso encobre marcador social comunidade, não é suficiente para livrá-la das dores no corpo, não de classe e cor trata-se de adolescente periférico e negro. A possi- simbolizadas, apesar dos vários tratamentos, inclusive psicanalíti- bilidade de intervenção na instituição que escuta 0 dizer do ato de CO. Há um luto, um luto de um lugar social que não foi processado. Shake como um adolescente provoca uma inversão no imaginário Podemos detectar 0 limite do sujeito para sustentar um laço social social acerca dele, abrindo espaço para a construção de apostas e quando discurso social despontencializa seu lugar. saídas singulares, do analista e do adolescente. Saída que representa A marca do caso para analistas é produzida quando sofrimen- um novo e particular fazer com a instituição, com a linguagem e to de Maria se desloca para a relação com a filha. A sustentação de com muros delimitados pelo marcador social de classe e cor que seu orgulho por ter filhos estudando na universidade vacila quando impõem a esses jovens um tipo de laço social. ela passa a suspeitar da filha, que vinha frequentando uma religião de matriz africana e grupos de estudos sobre a história dos negros. Caso 2: Maria trabalhadora, religiosa: saber-se negra Ela mesma atualiza e repercute signos historicamente atribuídos à mulher negra, suspeitando dos movimentos da filha, atribuindo a ela O recorte do caso Maria também salienta que processo de cons- a loucura ou supondo que esteja sendo abusada ou mesmo promís- trução de um lugar social não se opera apenas no campo intrapsíqui- cua. Maria se angustia com OS movimentos emancipatórios da filha, mas também no discurso social, no laço social, no plano coletivo especialmente sua escolha religiosa e seu destaque à condição de e público. Trata-se de um atendimento de que fomos supervisores, negritude. Dizer-se negra, atualiza a dinâmica da invisibilização/ realizado em uma clínica pública caso está no artigo "Tornar-se superexposição, risco conhecido, pois pode fazê-la alvo de violências, mulher negra: uma face pública e coletiva do entre elas a sexual e as humilhações que ela, Maria, como mulher Maria, migrante do interior do Nordeste para 0 Sul do país, relata negra brasileira, conhece bem. orgulhosa como superou a situação de miséria e de abusos sexuais Uma virada nesse processo, numa transmissão às avessas, operou- e físicos na família e fora dela. Conquistou um cargo de educado- -se quando sua filha convida a família para, em cena pública de apre- ra social cuja função é detectar e resgatar meninas em situações de sentação de seu trabalho na universidade, falar das relações raciais na história da família. Ressalte-se que a filha pôde realizar essa trajetória 328 Id., ibid., ancorada na legitimidade da universidade e na transferência com 329 ROSA, Miriam D.; BINKOWSKY, Gabriel I.; SOUZA, Priscilla S. de. Tornar-se mulher negra: sua professora desse lugar potente, ousa e aposta em construir e uma face pública e coletiva do luto. Clínica Cultura, v. 8, n. 1, p.86-100, jan./jun. 2019. sustentar um lugar de fala que atravesse discursos hegemônicos 244 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURA 245e legitime seu lugar na polis. Conta publicamente a saga familiar, da periferia de Belo Horizonte (MG/Brasil), citando em seguida os não sob a ótica do discurso social hegemônico e, sim, incluindo a Racionais: "Você sai do gueto, mas 0 gueto nunca sai de você". atualização cotidiana da lógica escravocrata ainda presente nos Nesses casos, a função da escuta será convocar indivíduo como laços discursivos. sujeito que se autoriza se contar entre outros, se situar; convocará Maria relata que ouve calada em um canto da cena pública. fazer do marcador social uma marca, uma inscrição, que, se situa 0 Assustada, busca com 0 olhar OS parentes e vê sobrinhos e a irmã, sujeito numa história que ultrapassa, produz uma posição para atentos e emocionados com a história que se descortina. Nesse jogo sujeito na ficção fantasmática, desidentificando-o e, ao desautorizar identificatório e de desidentificação, consegue processar que está poder dos marcadores, ele pode tomar para si singularmente a marca sendo dito e se emociona com a filha, orgulha-se de ela estar se apre- que 0 situa coletivamente em uma história e, singularmente, num sentando em uma instituição de prestígio, reconhece seu valor ponto de inflexão do desejo. seu e dela. Desse modo, a cena pública promovida pela filha de A eficácia de tal autorização dependerá do suporte coletivo e Maria pode ter tido a função de, à medida que recupera a História, público, particularidade desses casos em que sua marca está no atra- romper com a negação do racismo e possibilitar a reconstrução de vessamento dos marcadores sociais em uma zona entre público e uma realidade, isto é, de uma ficção singular, que inclua não somen- subjetivo, entre a cena psíquica e a social. Nos casos relatados, algo te a sua responsabilização, mas também a dos fatos políticos. do público emergiu, êxtimo ao atendimento clínico, mas fundamen- Em ambos casos, a cena pública, embora não provocada pelo tal na reconfiguração do campo discursivo; 0 êxtimo, formulado por analista, pode ser por ele avalizada. Teve impacto na direção do trata- como interior excluído, que de fora revela que de mais mento e evidencia que a potência alienante e mortífera dos marca- íntimo há no interior. dores sociais comparece para se reafirmar. Individualmente, não há como se renomear diante do outro social será preciso apoio social Clínica, territórios e discursos: uma construção ou institucional para reverter seu poder. Há outros casos em que tal entre marca-dores e marcas ancoragem simbólica pode fazer parte da intervenção clínico-política. Os marcadores sociais promovem impasses, pois, mesmo quando Os fragmentos dos casos acima visam ressaltar que discursos sociais, há deslocamentos produzidos na escuta, algo não cessa de não se a linguagem, predicados e modo como sujeito é falado pelo inscrever, e 0 sujeito se vê impedido de se renomear. A nomeação outro compõem as cenas social e analítica. Isso quer dizer que a supõe suporte coletivo e público, particularidade dos casos marca- maneira com que se fala dos adolescentes, dos negros, dos morado- dos pela segregação e racismos apoiados pelo discurso social. Aline res de rua, dos imigrantes, e das instituições às quais estão referidos em pesquisa com jovens envolvidos com a guerra no tráfi- compõe a prisão e discursiva. Esta determina lugares escuta os limites colocados aos jovens periféricos, negros e pobres. sociais e de fala, naturaliza a desigualdade social que exclui parte da "Só da gente colocar pé ali na rua a gente já está errada. A gente já população da partilha dos bens materiais e culturais e designa formas dá motivo para os caras matarem a gente", diz um adolescente negro fixadas de subjetivação no laço social, elegendo nomeações por 331 LACAN, Jacques Seminário, Livro 7: a ética da psicanálise [1959-60]. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. 330 MARTINS, Aline Souza. outro lado da violência: escutando adolescentes envolvidos na guerra do tráfico. In: PRÊMIO Marcos Vinicius Psicologia e Direitos Humanos. São Paulo: Conselho Regional 332 SOARES, Luiz Eduardo. Justiça: pensando alto sobre a violência, crime e castigo. Rio de Janeiro: de Psicologia -CRP 2017. Nova Fronteira, 2011. 247 246 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURAmarcadores de identidades desqualificadas ou patologizadas, quando processos de identificação e num jogo especular não criminalizadas. na relação com outro. A estratégia político-ideológica de manutenção de um sistema de Ambos casos aqui mencionados nos confrontam com que exploração, dominação e opressão no Brasil, caracterizado por um se inscreve e faz marca, mas não cessa de não se inscrever no sujeito histórico patriarcal e escravocrata, recai e se atualiza em segmentos e no laço social. sofrimento sociopolítico perante a falta de reco- da população, particularmente sobre OS pobres, as negras e negros, nhecimento não comparece como uma queixa, mas como um efeito, somando-se também outros grupos minoritários. Ainda que tenham Produz-se um silenciamento, muitas vezes advindo do abalo narcí- ocorrido inúmeras mudanças históricas, mito da democracia sico que lança 0 sujeito à angústia, ao vazio e ao furo constitutivo racial, com a suposta harmonia na mistura das raças, ainda cumpre que 0 habita. Processa-se a perda do laço identificatório com seme- a função de silenciar, impondo-se como uma ficção social que omite lhante e a desarticulação de sua ficção fantasmática. Sem lugar no 0 quanto essa opressão e essa violência atravessam as instituições discurso, desprovido da função polissêmica da linguagem, sujeito em todos níveis, culminando nas incessantes violências sobre as vê-se impossibilitado de dar contorno simbólico ao furo, ao trou que pessoas de pele negra, como relatam inúmeras pesquisas sobre habita, sem poder construir sintoma e uma racismo institucional. As dimensões públicas e coletivas dessa prática, que se traduzem Isso posto, a clínica psicanalítica constrói as suas táticas a depen- de modos diferentes em cada caso, mas sempre supõem uma elabo- der dos territórios geográficos e discursos que compõem a cena social ração coletiva do trauma através da qual há condições de recuperação e subjetiva. Destacam-se alguns elementos a serem levados em conta da história social e política, da explicitação das distorções, omissões na construção do caso clínico, a saber: (i) silenciamento, fruto do dos interesses e poderes em jogo. Dessa forma, processam-se altera- desamparo discursivo que desarticula 0 endereçamento ao outro e ções do campo imaginário/simbólico, social e político em que sujei- processos narcísicos, caracterizando um processo traumático e a to se situa em uma história, reconstituindo campo ficcional. perda de um lugar de fala; (ii) impedimentos sociais dos proces- A psicanálise implicada inclui a cena social e os atravessamen- SOS de luto na medida em que retiram 0 reconhecimento, valor e tos discursivos dos marcadores sociais na construção do caso clinico, pertença do sujeito no laço social trabalho analítico supõe luto bem como tematiza a tramutação dos marcadores sociais para marca desse lugar de dejeto e uma rearticulação da ficção histórica e do do caso. Trata-se não de ignorar ou explicar, mas de subverter as estra- lugar do sujeito nela; (iii) a função da cena pública e 0 processo tégias de oprimir ou explorar que fazem das diferenças marca-dores. coletivo de reconhecimento, a fim de escrever que não cessa de Detectar, intervir e reconhecer a face sociopolítica do sofrimen- não se inscrever, 0 lugar do sujeito na cena; e (iv) a volta a mais to na direção de reposicionar 0 sujeito em relação ao seu discurso, na constituição subjetiva, destacada por que propicia um seu luto, sua voz, dissolver identidades, desarticular gozo, recuperar saber fazer com a alienação aos marcadores sociais com vias de memórias e repensar as bases do pacto social vigente são formas de tornar-se outro mulher, negro, estudante -, singularizando, a seu conceber as práticas psicanalíticas clinicopolíticas. Isso porque tais modo, as suas marcas. Para Fanon334, são várias as dimensões dos práticas desmascaram 0 conflito social e permitem que sujeito 333 SOUSA, Neusa Santos. Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em 335 MARTINS, Aline Souza. As voltas do reconhecimento. 2020. Tese (Doutorado em Psicologia)- ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1990. Universidade de São Paulo, 2020. 334 FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. 336 ROSA, M. D. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento, op. cit. 248 249 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURApolítico retome a cena não mais como vítima ou algoz, mas como que transcendem campo ideológico, dizendo respeito ao domínio testemunha de um tempo. da política (o laço com outros) e da cultura (a relação ao Outro). O segundo caso dá mostras claras dos impactos das relações raciais A partir destas considerações, pode-se conceber um trabalho clíni- que abalam a posição do sujeito, que pode ser "confundido em suas co que possibilite restituir um campo mínimo de significantes que expectativas, submetido a exigências, compelido a expectativas alie- possam circular, referidos ao campo do Outro, e permite ao sujeito nadas", como diz Ressalto que em casos como esses se trata localizar-se e poder dar valor e sentido à sua experiência, articulando de se executar um trabalho psíquico a mais. Como diz a psicanalis- um apelo que retire do silenciamento. ta Neusa Sousa, ser negro é tornar-se negro. Tal formulação se apoia Tematizar a clínica na contramão dos discursos que instituem em Simone de Beauvoir tornar-se mulher é trabalho psíquico de marcadores sociais faz dela uma ferramenta que permite movimen- subversão da posição imposta no laço discursivo, assim como tornar- tar fronteiras em que, como diz Boaventura descoloniza -se negra é contraponto a um imperativo de se constituir como uma olhar. Trata-se de subverter as estratégias de oprimir ou explorar caricatura do branco e sua estética, comportamento, ideologia. Ser que fazem das diferenças marca-dores e desmistificar a eficácia desses negro é "tomar consciência do processo ideológico que, através de discursos. Essa perspectiva coloca também a psicanálise em articula- um discurso mítico acerca de si, engendra uma estrutura de desco- ção com outros saberes e práticas. nhecimento que aprisiona numa imagem alienada, na qual se Na guerra social, há uma lógica que ultrapassa sujeitos, anali- reconhece"338. Mas: "ser negro não é uma condição dada a priori. É sados ou não. ressalta; "um sujeito só pode ser produto um vir a ser", como diz ou seja, não se trata de outra iden- da articulação significante. sujeito como tal nunca domina essa tidade essencializada, mas da construção da trajetória de um sujeito. articulação, de modo algum, mas é propriamente determinado por A expressão saber-se negro não se refere apenas ao tom da pele, mas à ela". Intervir na contramão dos discursos sociais quando estes fazem consideração desse traço na experiência com outro. do sujeito um resto está no cerne da subversão proposta pela ética Para além dos marcadores que congelam num lugar social especí- psicanalítica. Por vezes, esse momento de impasse torna-se a marca fico condizente à história hegemônica, a traço, marca, significante e do caso e será decisivo na direção do tratamento. Tal posição supõe sentidos partilhados, essas são dimensões que atravessam as fronteiras que 0 psicanalista atravesse a fantasia social que mascara a incon- do eu, da história, da sociedade e da política que, articulados à experi- sistência e antagonismos constitutivos de uma sociedade viva e ência com 0 outro, não somente propiciam a reconstituição narcísica pulsante. Posição delicada, pois 0 analista depara-se com um impas- de sua imagem, mas também a recomposição do lugar a partir do se que implica também sua responsabilização e 0 rompimento da qual se vê amável para Outro (ideal do eu), reafirmando uma posi- alienação promovida por esse campo supostamente simbólico. Põe ção que lhe permita localizar-se no mundo e estabelecer laços sociais, em jogo um trabalho na transferência, endereçado e comprome- inclusive analíticos. Desse modo, constituem pressupostos éticos tido com uma práxis a ser compartilhada, articulada com elemen- tos singulares de um tempo e lugar que, visitados, permitem a 337 SOUSA, N.S. Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão 340 SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma eco- social, op. cit., logia de saberes. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias 338 Id., ibid., do Sul. São Paulo: Cortez, 2010. 31-83. 339 Id., loc. cit. 341 LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 18: de um discurso que não fosse semblante [1970-1971]. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p.18. 250 251 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURAtransmissão de um desejo e a manutenção da vitalidade e atualidade e Direitos Humanos. São Paulo: Conselho Regional de Psicologia da prática psicanalítica. CRP 2017. ROSA, Miriam Debieux. A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento. São Paulo: Escuta: FAPESP, 2016. Miriam Debieux Rosa é psicanalista e Professora Titular do PPG ROSA, Miriam Debieux, BINKOWSKY, Gabriel Inticher; SOUZA, Priscilla de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP. Coorde- Santos de. Tornar-se mulher negra: uma face pública e coletiva do luto. na O Laboratório Psicanálise, Sociedade e Politica (PSOPOL) e Clínica Cultura V. 8, n. 1, p.86-100, jan./jun. 2019. O Grupo Veredas: psicanálise e imigração. Presidente da Rede ROSA, Miriam Debieux; BROIDE, Emilia Estivalet; SEINCMAN, Pedro Interamericana de Psicanálise e Política (REDIPPOL). Pesqui- Magalhães. A supervisão enquanto articuladora da transmissão da experiência sa Bolsa Produtividade CNPq; Pesquisadora da Rede Interna- clínica: a construção do caso clínico. São Paulo: Zagodoni, 2018. cional Coletivo Amarrações: políticas com adolescentes. Fez ROSA, Miriam Debieux; MARTINS, Aline Souza; MUSATTI-BRAGA, Ana pós-Doutorado na Université Paris Diderot, PARIS 7, França, Paula; TATIT, Isabel. Clínica e política interrogadas pelo ato infracional: a na temática de violência e imigração. debieux@terra.com.br construção do caso. In: MOREIRA, Jacqueline de O.; GUERRA, Andréa M.C..; SOUZA, Juliana M.P. de (Org.). Diálogos com campo das medi- das socioeducativas: conversando sobre a justiça, cotidiano do trabalho e Referências adolescente. Curitiba: CRV, 2013. P.75-92. SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas DANTO, Elizabeth Ann. As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social. globais a uma ecologia de saberes. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; São Paulo: Perspectiva, 2020. MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, DUMÉZIL, Claude. Les raisons d'un séminaire. In: DUMÉZIL, Claude; 2010. p. 31-83. BREMOND, Bérnard. L'invention du psychanalyste: le trait du cas. Paris: SOARES, Luiz Eduardo. Justiça: pensando alto sobre a violência, crime e castigo. Érès, 2012. 41-58. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008. SOUSA, Edson Luiz André de. A vida entre parêntesis: 0 caso clínico como LACAN, Jacques O Seminário, Livro 7: a ética da psicanálise [1959-1960]. Rio ficção. Psicologia Clínica, V.12, n.1, p.11-19, 2000. de Janeiro: Zahar, 1988. SOUSA, Neusa Santos. Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 18: de um discurso que não fosse semblante brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1990. [1971]. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. Slavoj. Eles não sabem que fazem: o sublime objeto da ideologia. Trad. LAURENT, Eric. Dois aspectos da torção: entre sintoma e instituição. In: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. HARARI, Angelina; CARDENAS, Hortênsia; KRUGER, Flory (Org.). Usos da psicanálise: Primeiro Encontro Americano do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2003. MARTINS, Aline Souza, As voltas do reconhecimento. 2020. Tese (Doutorado em Psicologia)-Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020. MARTINS, Aline Souza. O outro lado da violência: escutando adolescentes envolvidos na guerra do tráfico. In: PRÊMIO Marcos Vinicius Psicologia 252 253 MIRIAM DEBIEUX ROSA PSICANÁLISE, CLÍNICA E CULTURA