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Mariana M. Pantarotto T12
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Esôfago e Estômago
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Esôfago
→ Porções
> Porção Cervical
⎯ Extensão: Inicia-se imediatamente após o
músculo constritor inferior da faringe, na
altura da margem inferior da cartilagem
cricoide (nível de C6), e desce pelo pescoço
até a abertura superior do tórax (nível de
T1).
⎯ Morfologia: É a porção inicial e mais
estreita do órgão.
⎯ Sintopia (Relações Anatômicas):
• Anteriormente: Relaciona-se intimamente
com a parede membranosa da traqueia. O
nervo laríngeo recorrente esquerdo e
direito ascendem no sulco
traqueoesofágico.
• Posteriormente: Está em contato com a
fáscia pré-vertebral e os músculos longos
do pescoço, que recobrem a coluna
vertebral cervical.
• Lateralmente: Relaciona-se com os lobos
da glândula tireoide e com o feixe vásculo-
nervoso do pescoço, que inclui a artéria
carótida comum, a veia jugular interna e o
nervo vago.
> Porção Torácica
⎯ Extensão: É a porção mais longa do
esôfago. Atravessa o mediastino superior e
posterior, desde a abertura torácica superior
até o hiato esofágico do diafragma (nível de
T10).
⎯ Morfologia: Realiza duas curvaturas suaves
em seu trajeto: uma anteroposterior,
acompanhando a curvatura da coluna
torácica, e outra lateral, com um leve desvio
para a direita e depois para a esquerda.
⎯ Sintopia (Relações Anatômicas): Suas
relações são complexas e mudam ao longo
de seu trajeto descendente.
• No Mediastino Superior:
▪ Anteriormente: Traqueia (até sua
bifurcação no nível de T4-T5).
▪ Posteriormente: Coluna vertebral.
▪ À direita: Pleura mediastinal do pulmão
direito e veia ázigo.
▪ À esquerda: Artéria subclávia esquerda,
artéria carótida comum esquerda, ducto
torácico e pleura mediastinal do pulmão
esquerdo. O arco da aorta passa sobre
seu lado esquerdo.
• No Mediastino Posterior:
▪ Anteriormente: Após a bifurcação da
traqueia, relaciona-se com o brônquio
principal esquerdo e, mais
inferiormente, com o pericárdio fibroso
que recobre o átrio esquerdo do coração
(uma relação de grande importância
clínica).
▪ Posteriormente: Coluna vertebral,
ducto torácico, veia ázigo e veia
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hemiázigo. A aorta torácica descendente
posiciona-se inicialmente à sua esquerda
e depois gradualmente se posterioriza.
▪ Lateralmente: É envolvido pelo plexo
nervoso esofágico, formado por ramos
dos nervos vagos direito e esquerdo, que
se reorganizam para formar os troncos
vagais anterior e posterior.
> Porção Abdominal
⎯ Extensão: É a porção mais curta (1 a 2.5
cm). Inicia-se ao atravessar o hiato esofágico
do diafragma (nível de T10) e termina na
cárdia do estômago (nível de T11).
⎯ Morfologia: Possui um formato de funil e
está fixado ao diafragma pelo ligamento
frenoesofágico. Esta porção é recoberta por
peritônio (serosa) em sua face anterior e
lateral esquerda.
⎯ Sintopia (Relações Anatômicas):
• Anteriormente: Relaciona-se com a face
posterior do lobo esquerdo do fígado. O
tronco vagal anterior (derivado
principalmente do vago esquerdo) desce
sobre sua superfície.
• Posteriormente: Apoia-se no pilar
esquerdo do diafragma. O tronco vagal
posterior (derivado principalmente do vago
direito) localiza-se em sua face posterior.
• À direita: Relaciona-se com o lobo
caudado do fígado.
• À esquerda: Fundo gástrico e baço (mais
distante).
→ As Três Constrições Esofágicas
> O esôfago não é um tubo de calibre uniforme;
ele possui três estreitamentos fisiológicos que
são de extrema relevância clínica.
> São locais onde objetos engolidos podem ficar
impactados e onde lesões por substâncias
cáusticas são mais severas.
> Além disso, são pontos de referência em
procedimentos endoscópicos e radiológicos.
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> Constrição faringoesofágica (Esfíncter
Esofágico Superior):
⎯ Localização: No início do esôfago, ao nível
da cartilagem cricoide (C6), causada pela
tonicidade do músculo cricofaríngeo.
⎯ Importância Clínica:
• É o ponto mais estreito de todo o trato
gastrointestinal.
• Local mais comum de impactação de
corpos estranhos (espinhas de peixe,
ossos, moedas em crianças).
• A passagem de instrumentos, como
endoscópios ou sondas nasogástricas,
pode ser mais difícil neste ponto,
exigindo cuidado para evitar
perfurações.
> Constrição Torácica (Broncoaórtica):
⎯ Localização: No mediastino superior
(aproximadamente em T4-T5), onde o
esôfago é comprimido anteriormente pelo
arco da aorta e pelo brônquio principal
esquerdo.
⎯ Importância Clínica:
• Segundo local mais comum para
impactação de corpos estranhos.
• A compressão extrínseca por um arco
aórtico anômalo (disfagia lusória) ou
por linfonodos mediastinais
aumentados (por exemplo, em casos de
tuberculose ou câncer de pulmão) pode
causar dificuldade para engolir
(disfagia).
• As pulsações da aorta podem ser
observadas durante uma endoscopia.
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> Constrição Esofagogástrica (Hiatal ou
Esfíncter Esofágico Inferior):
⎯ Localização: Onde o esôfago atravessa o
hiato esofágico do músculo diafragma
(T10). Este estreitamento funcional é
crucial para a prevenção do refluxo
gastroesofágico.
⎯ Importância Clínica:
• Atua como uma barreira fisiológica
(esfíncter esofágico inferior) que, em
conjunto com a pressão do diafragma,
impede o retorno do conteúdo ácido do
estômago para o esôfago.
• A disfunção deste esfíncter é a
principal causa da Doença do Refluxo
Gastroesofágico (DRGE).
• O alargamento do hiato diafragmático
pode levar à Hérnia de Hiato,
condição na qual parte do estômago
desliza para dentro do tórax,
exacerbando os sintomas de refluxo. A
correção cirúrgica visa restaurar a
anatomia e a função desta barreira
antirrefluxo.
• É um local comum para o
desenvolvimento de estenoses
(estreitamentos) secundárias a
esofagite crônica causada pelo refluxo.
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→ Vascularização
A vascularização do esôfago é segmentar,
refletindo sua origem embrionária e seu longo
trajeto através do pescoço, tórax e abdômen. Cada
porção recebe suprimento arterial de fontes
distintas, e sua drenagem venosa e linfática segue
um padrão complexo e de grande relevância
clínica.
> Irrigação Arterial
⎯ O suprimento arterial para o esôfago deriva
de múltiplos vasos ao longo de seu percurso,
formando uma rica rede anastomótica na
parede do órgão.
⎯ Porção Cervical: É irrigada principalmente
por ramos da artéria tireóidea inferior, um
ramo do tronco tireocervical (que por sua
vez origina-se da artéria subclávia). A
artéria tireóidea superior, ramo da
carótida externa, também pode contribuir
com pequenos ramos.
⎯ Porção Torácica: O suprimento principal
vem de ramos esofágicos que se originam
diretamente da face anterior da aorta
torácica descendente. Além disso, ramos
das artérias brônquicas e, em sua parte
mais inferior, ramos da artéria frênica
superior (ramo da aorta torácica) podem
contribuir para a vascularização desta
porção.
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⎯ Porção Abdominal: É irrigada por ramos
esofágicos provenientes da artéria gástrica
esquerda (um dos três ramos do tronco
celíaco) e da artéria frênica inferior
esquerda (que se origina da aorta
abdominal).
> Drenagem Venosa e a Anastomose Porto-
Cava
⎯ A drenagem venosa do esôfago é
clinicamente significativa por ser um local
de anastomose entre o sistema venoso portalhepático e o sistema venoso cava (sistêmico).
⎯ Porção Cervical: O sangue venoso é
drenado para as veias tireóideas inferiores,
que por sua vez drenam para as veias
braquiocefálicas. As veias tireóideas
superiores e médias também podem
participar, drenando para a veia jugular
interna.
⎯ Porção Torácica: A drenagem é realizada
por um plexo venoso na parede do esôfago
que drena para as veias esofágicas. Estas,
por sua vez, desembocam majoritariamente
no sistema ázigo.
• Lado direito: As veias esofágicas drenam
para a veia ázigo.
• Lado esquerdo: Drenam para a veia
hemiázigo e hemiázigo acessória, que
subsequentemente cruzam a linha média
para desaguar na veia ázigo. A veia ázigo
finalmente drena para a veia cava
superior.
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⎯ Porção Abdominal: O sangue desta porção
é drenado principalmente por veias
esofágicas que se anastomosam com os
ramos esofágicos da veia gástrica
esquerda. A veia gástrica esquerda é uma
tributária direta da veia porta hepática. A
veia frênica inferior também pode
participar, drenando para a veia cava
inferior.
→ Anastomose Porto-Sistêmica e
Varizes Esofágicas
> Na porção distal do esôfago (transição
toracoabdominal), as veias submucosas
formam uma conexão crucial entre o sistema
portal (via veia gástrica esquerda) e o sistema
cava/sistêmico (via veias esofágicas que
drenam para o sistema ázigo).
> Em condições normais, o fluxo de sangue
nesta região é de baixo volume. Contudo, em
casos de hipertensão portal (aumento da
pressão na veia porta), comumente causada
por cirrose hepática, o sangue que não
consegue atravessar o fígado busca rotas
alternativas para retornar à circulação
sistêmica. Esta anastomose esofágica torna-se
uma via de desvio principal. O fluxo
sanguíneo aumentado e a alta pressão causam
a dilatação e tortuosidade dessas veias
submucosas, formando as varizes esofágicas.
> Essas varizes são frágeis, com paredes finas e
localizadas superficialmente na mucosa,
tornando-as extremamente susceptíveis à
ruptura, o que pode levar a uma hemorragia
digestiva alta (HDA) maciça e
potencialmente fatal.
→ Drenagem Linfática
A drenagem linfática do esôfago é extensa e não
segue estritamente os segmentos arteriais, o que
tem implicações diretas na disseminação de
células tumorais (metástases). Os vasos linfáticos
formam uma rede intramural que permite o fluxo
da linfa tanto no sentido ascendente quanto
descendente.
> Porção Cervical: Drena para os linfonodos
cervicais profundos (ao longo da veia
jugular interna) e para os linfonodos
paratraqueais.
> Porção Abdominal: Drena principalmente
para os linfonodos gástricos esquerdos e
linfonodos celíacos.
> Foco na Drenagem da Porção Torácica
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⎯ A drenagem linfática da porção torácica é a
mais complexa e de maior importância para
o estadiamento do câncer de esôfago.
⎯ Terço Superior: Drena para os linfonodos
paratraqueais e cervicais profundos
inferiores.
⎯ Terço Médio: Drena primariamente para os
linfonodos mediastinais posteriores,
incluindo os traqueobrônquicos
(localizados na carina traqueal) e os
paratraqueais.
⎯ Terço Inferior: Drena tanto para cima, em
direção aos linfonodos mediastinais, quanto
para baixo, para os linfonodos celíacos e
gástricos esquerdos no abdômen
⎯ Essa extensa rede longitudinal explica por
que tumores localizados no terço inferior do
esôfago podem gerar metástases tanto nos
linfonodos abdominais (celíacos) quanto nos
mediastinais e até cervicais.
⎯ O estadiamento preciso do envolvimento dos
linfonodos do mediastino é fundamental
para definir a estratégia de tratamento
(cirurgia, quimioterapia, radioterapia) e o
prognóstico do câncer de esôfago.
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→ Inervação
A inervação do esôfago é complexa, envolvendo
componentes do sistema nervoso somático e
autônomo (simpático e parassimpático), que
variam de acordo com a porção do órgão. Essa
inervação controla tanto a motilidade (peristalse)
quanto a sensação.
> Porção Cervical
A porção superior do esôfago (aproximadamente
o terço superior) é composta por músculo
estriado esquelético, o que reflete seu controle
voluntário inicial durante a deglutição.
⎯ Fibras Eferentes Somáticas (Motoras): A
inervação motora para esta musculatura
origina-se no núcleo ambíguo no tronco
encefálico. Essas fibras viajam com o nervo
vago (X par craniano) e chegam ao esôfago
cervical principalmente através de seus
ramos, os nervos laríngeos recorrentes.
⎯ Fibras Aferentes Somáticas (Sensitivas):
Fibras que conduzem sensações como tato e
temperatura (sensação de "bolo na
garganta") também retornam ao sistema
nervoso central através do nervo vago.
> Porção Torácica
Na transição para o terço médio e inferior, a
musculatura do esôfago passa a ser
predominantemente músculo liso, sob controle
involuntário do sistema nervoso autônomo.
Ambas as divisões, simpática e parassimpática,
formam o plexo esofágico, uma rede nervosa que
envolve o esôfago torácico.
⎯ Fibras Eferentes Parassimpáticas:
Originam-se no núcleo motor dorsal do
vago no tronco encefálico. Essas fibras pré-
ganglionares viajam pelo nervo vago e
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fazem sinapse em gânglios localizados na
própria parede do esôfago (gânglios
intramurais do plexo mioentérico de
Auerbach e submucoso de Meissner). Sua
função é estimular a peristalse e relaxar os
esfíncteres, promovendo o trânsito do bolo
alimentar.
⎯ Fibras Eferentes Simpáticas: Originam-se
nos segmentos T1 a T4/T5 da medula
espinhal. As fibras pré-ganglionares saem da
medula e fazem sinapse nos gânglios da
cadeia simpática paravertebral. As fibras
pós-ganglionares formam os nervos
esplâncnicos cardiopulmonares que se
juntam ao plexo esofágico. Sua função é, em
geral, inibir a peristalse e contrair os
esfíncteres, além de causar vasoconstrição.
> Porção Abdominal
A inervação da porção mais distal do esôfago,
incluindo o esfíncter esofágico inferior, segue um
padrão similar ao da porção torácica inferior, com
contribuições dos troncos vagais e de nervos
esplâncnicos maiores.
⎯ Fibras Eferentes Parassimpáticas:
Conforme os nervos vagos descem ao longo
do esôfago, eles se reorganizam para formar
os troncos vagais anterior e posterior. O
tronco anterior (principalmente do vago
esquerdo) e o posterior (principalmente do
vago direito) fornecem as fibras
parassimpáticas para a porção abdominal do
esôfago e para o estômago, continuando a
promover a peristalse.
⎯ Fibras Eferentes Simpáticas: As fibras pré-
ganglionares originam-se nos segmentos
torácicos da medula espinhal,
aproximadamente de T5 a T9. Essas fibras
formam o nervo esplâncnico torácico
maior, que atravessa o diafragma e faz
sinapse nos gânglios celíacos. As fibras
pós-ganglionares seguem como um plexo
periarterial ao longo das artérias que
irrigam o esôfago abdominal, como a artéria
gástrica esquerda e a artéria frênica
inferior esquerda.
⎯ Fibras Aferentes Viscerais (Dor): As
fibras que conduzem estímulos de dor (como
distensão, isquemia ou inflamação por
refluxo) da porção torácica inferior e
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abdominal do esôfago viajam no sentido
inverso ao das fibras simpáticas. Elas
acompanham os nervos esplâncnicos até os
gânglios da cadeia simpática, entram na
medula espinhal através das raízes dorsais
nos níveis de T5 a T9 e fazem sinapse com
neurônios de segunda ordem.
> Relação com Dermátomos e Dor Referida
⎯ A convergência das fibras aferentes viscerais
(do esôfago) e das fibras aferentes somáticas
(da pele)nos mesmos segmentos da medula
espinhal (T5-T9) é a base para o fenômeno
da dor referida.
⎯ O cérebro tem dificuldade em localizar a
origem exata do estímulo doloroso visceral e
o interpreta como se viesse da área do corpo
(dermátomo) inervada pelo mesmo nível
medular.
⎯ Por isso, a dor esofágica (esofagite, espasmo
esofágico) é frequentemente sentida como:
• Dor retroesternal ou no peito (angina-
símile): Correspondendo aos dermátomos
de T5-T6, mimetizando a dor de um
infarto do miocárdio.
• Dor epigástrica: Na região superior do
abdômen.
• Dor interescapular: Irradiando para as
costas, entre as escápulas.
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Estômago
→ Morfologia
O estômago é um órgão muscular oco em formato
de "J", a porção mais dilatada do trato
gastrointestinal, localizado na região superior do
abdômen, entre o esôfago e o duodeno. Ele atua
como um reservatório de alimentos, inicia a
digestão de proteínas e, através de seus
movimentos e secreções, transforma o bolo
alimentar em uma massa semilíquida chamada
quimo.
→ Porções ou Regiões
Anatomicamente, o estômago é dividido em
quatro regiões principais, possuindo duas
margens (curvatura menor e maior) e dois
orifícios (óstio cárdico e óstio pilórico).
⎯ Cárdia: É a região que circunda o óstio
cárdico, a abertura onde o esôfago
abdominal se conecta ao estômago. Localiza-
se ao nível da vértebra T11.
⎯ Fundo Gástrico: É a porção superior, em
formato de cúpula, que se projeta acima e à
esquerda do nível da cárdia. Geralmente,
está preenchido por gás, o que é visível em
radiografias ("bolha gástrica").
⎯ Corpo Gástrico: É a maior parte do
estômago, estendendo-se do fundo até o
antro pilórico. É o principal local de
armazenamento de alimentos e produção de
ácido clorídrico e pepsinogênio.
⎯ Porção Pilórica: É a região de saída do
estômago, dividida em:
• Antro Pilórico: A porção mais larga e
proximal.
• Canal Pilórico: A porção mais estreita que
leva ao piloro.
• Piloro: A porção terminal que contém um
anel de músculo liso espessado, o esfíncter
pilórico, que regula a passagem do quimo
para a primeira porção do duodeno.
As margens do estômago são a curvatura menor,
que é a borda côncava medial mais curta, e a
curvatura maior, a borda convexa lateral mais
longa.
→ Sintopia (Relações Anatômicas)
O estômago está em contato com diversas outras
estruturas abdominais:
> Anteriormente: O diafragma, o lobo
esquerdo do fígado e a parede abdominal
anterior.
> Posteriormente: A bolsa omental (ou saco
menor da cavidade peritoneal) separa o
estômago das estruturas do retroperitônio,
coletivamente chamadas de "leito do
estômago". Estas incluem a parte superior do
rim esquerdo, a glândula suprarrenal
esquerda, o baço, a artéria esplênica e,
principalmente, o pâncreas.
> Superiormente e à Esquerda: O esôfago e o
diafragma.
> Inferiormente e Lateralmente: O cólon
transverso.
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→ Ligamentos Peritoneais (Omentos)
O estômago é revestido por peritônio visceral,
que se funde ao longo de suas curvaturas para
formar dobras peritoneais de duas camadas,
chamadas de omentos (ou mesogastros).
> Omento Menor (originado do Mesogástrio
Ventral)
Estende-se da curvatura menor do estômago e
dos 2 cm proximais do duodeno até a face visceral
do fígado. É dividido em duas partes:
⎯ Ligamento Hepatogástrico: A porção
maior e mais medial, conectando a curvatura
menor ao fígado.
⎯ Ligamento Hepatoduodenal: A porção
lateral, mais espessa, que conecta a primeira
porção do duodeno ao fígado. É clinicamente
importante por conter a tríade portal: a
artéria hepática própria, o ducto colédoco
(biliar) e a veia porta hepática.
> Omento Maior (originado do Mesogástrio
Dorsal)
É uma grande prega peritoneal em formato de
avental que se prende à curvatura maior do
estômago e à porção proximal do duodeno,
descendo sobre o cólon transverso e as alças do
intestino delgado. É dividido em três ligamentos
principais associados ao estômago:
⎯ Ligamento Gastrofrênico: Conecta a
porção superior da curvatura maior (fundo
gástrico) à face inferior do diafragma.
⎯ Ligamento Gastroesplênico (ou
Gastrolienal): Conecta a porção média da
curvatura maior ao hilo do baço. Contém os
vasos gástricos curtos e os vasos
gastromentais esquerdos.
⎯ Ligamento Gastrocólico: A maior parte,
que desce como um avental e depois se dobra
para trás, fixando-se à face anterior do cólon
transverso e seu mesocólon.
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→ Espaço de Traube
O espaço semilunar de Traube é uma área na
superfície da parede torácica anterior que
corresponde à projeção do fundo gástrico. É uma
região importante no exame físico do abdômen,
especificamente na percussão.
> Limites:
⎯ Superior: Borda inferior do pulmão
esquerdo.
⎯ Direita: Lobo esquerdo do fígado.
⎯ Esquerda: Baço.
⎯ Inferior: Rebordo costal esquerdo.
> Importância Clínica: Em condições normais,
o fundo do estômago contém a bolha gástrica
(ar), portanto, a percussão sobre o espaço de
Traube produz um som característico
timpânico. A ausência desse som (substituído
por macicez) pode indicar:
⎯ Esplenomegalia: Aumento do baço, que
invade o espaço medialmente.
⎯ Derrame pleural esquerdo: Líquido na
cavidade pleural que desce e ocupa a
região.
⎯ Hepatomegalia do lobo esquerdo:
Aumento do fígado.
⎯ Estômago cheio de líquido ou alimento.
⎯ Massa ou tumor na região (ex: câncer de
estômago ou pâncreas).
A percussão do espaço de Traube é uma manobra
semiológica clássica para avaliar a suspeita de
aumento do baço.
→ Vascularização
A vascularização do estômago é notavelmente
rica e robusta, originando-se inteiramente do
tronco celíaco, o primeiro grande ramo ventral
da aorta abdominal. Essa rede vascular garante
um suprimento sanguíneo abundante, essencial
para as funções secretoras e motoras do órgão,
mas também o torna um local comum de
sangramentos significativos.
> Irrigação Arterial
A irrigação arterial do estômago é elegantemente
organizada em dois arcos anastomóticos que
percorrem suas curvaturas.
⎯ Arco da Curvatura Menor:
• Artéria Gástrica Esquerda: É o menor
ramo do tronco celíaco. Ascende em
direção à junção esofagogástrica, onde
emite ramos para o esôfago abdominal, e
depois desce ao longo da curvatura menor
do estômago, anastomosando-se com a
artéria gástrica direita.
• Artéria Gástrica Direita: Geralmente se
origina da artéria hepática própria (ramo
da artéria hepática comum, que por sua vez
vem do tronco celíaco). Percorre a
curvatura menor da direita para a esquerda
para encontrar e se anastomosar com a
artéria gástrica esquerda.
⎯ Arco da Curvatura Maior:
• Artéria Gastromental (ou
Gastroepiplóica) Esquerda: Origina-se
da artéria esplênica (o maior ramo do
tronco celíaco) perto do hilo do baço. Corre
da esquerda para a direita ao longo da
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curvatura maior, entre as camadas do
omento maior.
• Artéria Gastromental (ou
Gastroepiplóica) Direita: Origina-se da
artéria gastroduodenal (ramo da artéria
hepática comum). Percorre da direita para
a esquerda ao longo da curvatura maior
para se anastomosar com a sua contraparte
esquerda.
> Além desses arcos principais, o fundo
gástrico e a parte superior da curvatura
maior são supridos pelas artérias gástricas
curtas, que também são ramos da artéria
esplênica.
> A presença dessas extensas anastomoses
(circulação colateral) garante que o
estômago raramente sofra de isquemia. É
possível ligar uma ou mais dessas artérias
principais (como a gástrica esquerda) durante
procedimentos cirúrgicos sem comprometer a
viabilidade do órgão.→ Drenagem Venosa
A drenagem venosa do estômago espelha o
suprimento arterial e é de extrema importância,
pois todo o sangue venoso gástrico drena, direta
ou indiretamente, para a veia porta hepática.
> Veias Gástricas Direita e Esquerda:
Drenam a curvatura menor e desembocam
diretamente na veia porta. A veia gástrica
esquerda se anastomosa com as veias
esofágicas, formando a crucial anastomose
porto-sistêmica.
> Veias Gastromentais Direita e Esquerda:
Drenam a curvatura maior.
⎯ A veia gastromental direita drena para a
veia mesentérica superior.
⎯ A veia gastromental esquerda drena para
a veia esplênica.
> Veias Gástricas Curtas: Drenam o fundo
gástrico e também desembocam na veia
esplênica.
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> Tanto a veia mesentérica superior quanto a
veia esplênica se unem para formar a veia
porta hepática. Portanto, todo o sangue do
estômago passa pelo fígado antes de retornar
à circulação sistêmica.
→ Drenagem Linfática
> A drenagem linfática do estômago é extensa e
complexa, seguindo de perto os vasos
sanguíneos.
> A linfa drena para múltiplos grupos de
linfonodos localizados ao longo das
curvaturas (gástricos e gastromentais) e ao
redor das artérias principais (esplênicos,
hepáticos e celíacos).
> Importância Clínica (Câncer de
Estômago): O padrão de drenagem linfática é
fundamental para o estadiamento e
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tratamento do câncer gástrico. As células
tumorais podem se disseminar (metastatizar)
seguindo essas vias linfáticas. Por isso, a
cirurgia para câncer de estômago
(gastrectomia) envolve não apenas a remoção
de parte ou de todo o órgão, mas também a
linfadenectomia, a remoção sistemática dos
grupos de linfonodos regionais para erradicar
metástases e estadiar a doença com precisão, o
que define a necessidade de tratamentos
adjuvantes como a quimioterapia.
→ Implicações Clínicas
> Vascularização Hemorragia Digestiva e o
Ligamento de Treitz: A vascularização do
esôfago abdominal (ramos da a. gástrica
esquerda) e do estômago é uma fonte comum
de sangramento gastrointestinal.
Clinicamente, os sangramentos são
classificados com base em sua localização em
relação ao Ligamento de Treitz (ou
ligamento suspensor do duodeno), uma faixa
fibromuscular que fixa a junção
duodenojejunal.
⎯ Hemorragia Digestiva Alta (HDA): É
qualquer sangramento que ocorre proximal
(acima) ao Ligamento de Treitz. As causas
mais comuns estão diretamente relacionadas
à vascularização estudada:
• Úlceras Pépticas (gástricas ou
duodenais): A erosão de uma úlcera pode
atingir uma artéria submucosa (como um
ramo da gástrica esquerda ou da
gastroduodenal), causando sangramento
maciço.
• Varizes Esofágicas: Ruptura das veias
dilatadas na junção esofagogástrica, uma
complicação da hipertensão portal.
• Gastrites Erosivas e Esofagites:
Inflamações que podem causar
sangramento difuso da mucosa.
⎯ Hemorragia Digestiva Baixa (HDB):
Sangramento que ocorre distal (abaixo) ao
Ligamento de Treitz, originado no intestino
delgado, cólon ou reto.
⎯ O Ligamento de Treitz é, portanto, o marco
anatômico que divide o trato
gastrointestinal superior do inferior para
fins de diagnóstico e manejo de hemorragias.
> Cirurgia Bariátrica e a Vascularização da
Curvatura Maior: As técnicas de cirurgia
bariátrica modificam a anatomia do estômago,
e seu sucesso depende do profundo
conhecimento da vascularização.
⎯ Gastrectomia Vertical (Sleeve): Este
procedimento envolve a remoção de
aproximadamente 80% do estômago,
especificamente ao longo da curvatura
maior. Para isso, o cirurgião deve ligar e
seccionar sequencialmente os vasos que
compõem o arco da curvatura maior: as
artérias gástricas curtas (do fundo) e os
ramos da artéria gastromental esquerda e
direita. O estômago remanescente, em
formato de tubo, é nutrido pelo arco intacto
da curvatura menor (artérias gástricas
direita e esquerda).
⎯ Bypass Gástrico em Y de Roux: Nesta
técnica, uma pequena bolsa gástrica (pouch)
é criada na parte superior do estômago,
separando-a do restante do órgão. Essa
pequena bolsa é irrigada principalmente por
ramos da artéria gástrica esquerda. O
restante do estômago ("estômago excluso")
permanece vascularizado pelo arco da
curvatura maior e pela gástrica direita, mas
é desviado do trânsito alimentar. A
inervação vagal também é seccionada para a
porção excluída, o que contribui para a
redução da fome e da produção de ácido.
→ Inervação
A inervação do estômago é realizada pelo sistema
nervoso autônomo, que regula suas funções
motoras (motilidade, esvaziamento) e secretoras
(produção de ácido e enzimas) de forma
involuntária. As fibras nervosas chegam ao órgão
através dos plexos que acompanham as artérias,
principalmente o plexo celíaco.
Mariana M. Pantarotto T12
Mariana M. Pantarotto T12
> Inervação Parassimpática: A inervação
parassimpática é o principal motor da função
gástrica, sendo responsável pela fase cefálica e
gástrica da digestão.
⎯ Origem e Trajeto: As fibras
parassimpáticas pré-ganglionares para o
estômago vêm do nervo vago (X par
craniano). Conforme descem pelo tórax, os
nervos vagos esquerdo e direito formam o
plexo esofágico e, ao entrar no abdômen,
reorganizam-se nos troncos vagais
anterior e posterior.
• O tronco vagal anterior (derivado
principalmente do vago esquerdo) percorre
a face anterior do estômago.
• O tronco vagal posterior (derivado
principalmente do vago direito) percorre a
face posterior.
⎯ Sinapse: Essas fibras pré-ganglionares
longas fazem sinapse em gânglios
parassimpáticos (gânglios intramurais)
localizados na parede do próprio estômago,
principalmente nos plexos submucoso (de
Meissner) and mioentérico (de Auerbach).
⎯ Função (Vagal):
• Estimula a motilidade gástrica: Promove
as contrações peristálticas do corpo e do
antro.
• Estimula a secreção glandular: Aumenta
a produção de ácido clorídrico (HCl) pelas
células parietais e de pepsinogênio pelas
células principais.
• Promove o relaxamento do esfíncter
pilórico: Facilita o esvaziamento gástrico
para o duodeno.
> Inervação Simpática: A inervação simpática
tem, em geral, um efeito inibitório sobre a
digestão, sendo ativada em situações de "luta
ou fuga".
⎯ Origem e Trajeto: As fibras simpáticas pré-
ganglionares originam-se nos segmentos T6
a T9 (às vezes T10) da medula espinhal.
Elas viajam através do nervo esplâncnico
torácico maior, atravessam o diafragma e
fazem sinapse no gânglio celíaco. As fibras
pós-ganglionares seguem os plexos
periarteriais ao longo das artérias (gástrica
esquerda, esplênica etc.) até alcançarem a
parede do estômago.
⎯ Função:
• Inibe a motilidade gástrica: Reduz a
peristalse.
• Contrai o esfíncter pilórico: Retarda ou
impede o esvaziamento gástrico.
• Causa vasoconstrição: Reduz o fluxo
sanguíneo para a parede do estômago.
• Modula a secreção glandular (efeito
inibitório menor).
Mariana M. Pantarotto T12
Mariana M. Pantarotto T12
> Inervação Visceral Aferente (Dor
Referida): As fibras aferentes viscerais
conduzem sensações do estômago para o
sistema nervoso central. É importante notar
que as vias para a dor e para os reflexos
fisiológicos são distintas.
⎯ Fibras para reflexos (fome, saciedade,
náusea): Viajam de volta ao tronco
encefálico acompanhando as fibras
parassimpáticas do nervo vago.
⎯ Fibras para a dor (distensão excessiva,
inflamação, isquemia): Essas fibras viajam
no sentido inverso (retrogradamente) ao
longo das vias simpáticas. Elas
acompanham os nervos esplâncnicos, passam
pelo gânglio celíaco (sem fazer sinapse),
entram na cadeia simpática e chegam à
medula espinhal através das raízes dorsais,
nos mesmosníveis de origem das fibras
simpáticas eferentes, ou seja, T6 a T9.
Mariana M. Pantarotto T12
Mariana M. Pantarotto T12
> Relação com Dermátomos e Dor Referida
⎯ O cérebro interpreta a dor visceral gástrica
como se ela viesse da superfície do corpo
inervada pelos mesmos segmentos da
medula espinhal (T6-T9). Os dermátomos
correspondentes a esses níveis localizam-se
na região do epigástrio (a "boca do
estômago") e na parte inferior do tórax.
⎯ Portanto, a dor proveniente de uma úlcera
gástrica, gastrite severa ou câncer de
estômago é tipicamente sentida como uma
dor em queimação ou pontada na região
epigástrica. Essa convergência de vias
aferentes viscerais e somáticas no mesmo
nível da medula espinhal é o mecanismo
fisiológico por trás da dor referida gástrica.