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AULA 5 JORNALISMO E SEGMENTAÇÃO PAGE \* Arabic \* Prof.ª Camila de Andrade Simões CONVERSA INICIAL Nesta abordagem, vamos explorar diferentes facetas do jornalismo, com um olhar atento para as transformações e desafios que ele enfrenta atualmente. Entre as várias conexões entre os temas, destacam-se a habilidade de informar com clareza e profundidade em contextos que despertam fortes emoções, sejam elas ligadas à paixão por um clube esportivo ou à complexidade de conflitos internacionais. Como manter a objetividade em meio a pressões emocionais e tecnológicas? Pode ser necessário narrar uma derrota histórica de um time nacional em uma final, enquanto os torcedores reagem com fervor, ou cobrir crises internacionais, nas quais cada imagem e palavra escolhida tem o potencial de moldar opiniões e impactar decisões globais. Além disso, refletiremos sobre o impacto das tecnologias emergentes na forma como produzimos, transmitimos e consumimos jornalismo, com exemplos como podcasts e transmissões ao vivo. Também vamos discutir como o jornalismo organizacional se tornou uma ferramenta estratégica indispensável para empresas e instituições que precisam comunicar suas histórias e valores de maneira eficaz. Assim, trataremos dos seguintes tópicos: • Jornalismo esportivo: cobertura de eventos, linguagem e formatos • Jornalismo internacional: a importância do contexto global • Desafios na cobertura esportiva e internacional em tempos de tecnologias digitais • Jornalismo organizacional: comunicação estratégica de empresas e instituições • Tecnologias emergentes e formatos inovadores (ex.: transmissões ao vivo, podcasts) TEMA 1 – JORNALISMO ESPORTIVO: COBERTURA DE EVENTOS, LINGUAGEM E FORMATOS Uma partida de futebol pode ser encarada como algo simples. Se os alienígenas de Planeta Estranho, do cartunista Nathan Pyle, tivessem que falar PAGE \* Arabic \* de futebol, provavelmente o reduziriam a 22 humanos tentando fazer com que uma esfera passe por dentro de um retângulo mais vezes do que em outro. Mas de que maneira esses humanos impulsionam essa esfera? O que os motiva? Com quais músculos? Quantos profissionais cuidam desses músculos, sejam médicos, fisioterapeutas ou treinadores? Do que a esfera é feita? Quanto dinheiro é investido para melhorá-la? Por que alguns humanos recebem tanto dinheiro e outros não? Há várias questões por trás desses 22 humanos, uma esfera e dois retângulos. Entender de futebol – ou de algum dos outros tantos esportes que, lamentavelmente, não têm tanto espaço quanto ele – implica adotar uma perspectiva interdisciplinar e reconhecer a transversalidade da emoção. 1.1 Breve histórico No Brasil, o jornalismo esportivo começou a se consolidar com o futebol, que substituiu o remo como o esporte mais popular no início do século XX, segundo Coelho (2011). A predominância do remo nos primórdios é evidenciada pelos diversos clubes com “regatas” no nome. As primeiras páginas esportivas surgiram na década de 1910, no jornal paulistano Fanfulla, escrito em italiano, que documentou jogos e anunciou a fundação do Palestra Itália (atual Palmeiras) em 1914. Já no Rio de Janeiro, a cobertura esportiva ganhou força em 1923, quando o Vasco da Gama, com um elenco majoritariamente negro, venceu a segunda divisão e desafiou o caráter elitista do esporte (Teixeira, 2010). Publicações importantes surgiram nas décadas seguintes, como o Jornal dos Sports, fundado por Mário Filho em 1931, e a Gazeta Esportiva, lançada em 1928 como suplemento de A Gazeta, transformada em diário separado em 1947. Embora o segmento esportivo não fosse prioritário por ser associado a classes populares, a paixão pelo futebol cresceu, especialmente no Rio de Janeiro, impulsionada pelas crônicas dos irmãos Mário Filho e Nelson Rodrigues, que romantizavam jogadores e partidas. Essa narrativa épica começou a ceder espaço a uma abordagem mais objetiva nas décadas de 1980 e 1990 (Barbeiro; Rangel, 2006, p. 55). PAGE \* Arabic \* 1.2 A amplitude do Jornalismo Esportivo: além do campo e da quadra Embora o futebol ocupe o maior espaço nas páginas e transmissões esportivas, o jornalismo esportivo vai muito além disso. Ele também inclui modalidades como vôlei, basquete, atletismo, artes marciais e, mais recentemente, os E-Sports (Macedo e Falcão, 2019; Heere, 2018). O crescimento dos chamados esportes eletrônicos, com competições internacionais que reúnem milhões de espectadores, elevou os E-Sports à categoria de fenômeno cultural e econômico. Os E-Sports possuem uma dinâmica própria, com equipes globais, ligas organizadas, altos investimentos e um público engajado. Cobrir esse universo exige tanto conhecimento técnico sobre os jogos quanto sensibilidade para entender a cultura digital que permeia esse ambiente. Assim como um jornalista esportivo analisa as estratégias de um time de futebol, o profissional que cobre E- Sports precisa compreender táticas de jogo, decisões em tempo real e o impacto da comunidade no desempenho dos jogadores. Esse panorama revela a pluralidade do jornalismo esportivo, que conecta emoção e especialização, seja ao narrar a vitória em uma final da Champions League1, o desempenho de um atleta olímpico ou uma jogada decisiva em uma final de League of Legends2. 1.3 Emoção e técnica: características do Jornalismo Esportivo Paulo Vinícius Coelho (2011, p. 39) menciona a frase do jornalista Mauro Cezar Pereira: “Ninguém entende mais do assunto do que um garoto de 12 anos”. Coelho (2011, p. 40) ainda expande a ideia de Mauro Cezar Pereira: O menino apaixonado por futebol pode achar que um zagueiro de seu clube de coração é o melhor zagueiro de todas as épocas, apenas porque fez três ou quatro partidas muito boas. O homem adulto, jornalista formado, não se deixa iludir. Justamente porque carrega todo o nível de conhecimento que o menino deixou de herança. No caso do jornalismo esportivo, o menino deixa uma história muito mais bem formada do que a revelada pelo menino que se transforma em jornalista político ou da área econômica. Este aprende com o garoto de 12 anos os segredos do bom texto. Aprende com a leitura de livro bem escrito, com relato bem contado por algum parente paciente. Talvez essa seja uma característica importante dos jornalistas esportivos – 1 Acesse para saber mais. 2 Acesse para saber mais. PAGE \* Arabic \* e, consequentemente, do jornalismo esportivo. Há entusiastas produzindo e consumindo esse jornalismo. A emoção pode estar ligada ao esporte em si, mas também pode ir além, tornando-se interdisciplinar, de modo que aprendemos a enxergar o que há por trás de um gol, de vencer uma regata, de romper um ligamento, de perder um patrocínio, ou de ver um ídolo partir devido a uma doença. “O compromisso com a verdade jornalística contribui para que a linguagem se torne mais descritiva. O ideal é que se tenha um equilíbrio dessas duas vertentes: emoção e descrição dos fatos. O esporte não vive sem emoção” (Barbeiro; Rangel, 2006, p. 55). Nas primeiras aparições em veículos jornalísticos, o jornalismo esportivo apareceu em colunas, geralmente com comentários de partidas e gestões de times. Com o tempo, passou de ocupar algumas colunas a ter produtos jornalísticos exclusivos. Nas últimas décadas, expandiu-se para a internet, noticiando e visibilizando os diversos formatos, configurações e culturas esportivas, local e mundialmente. 1.4 A linguagem do Jornalismo Esportivo A linguagem do jornalismo esportivo é marcada por emoção, criatividade e aproximação com o público, mas enfrenta desafios, como a necessidade de evitar chavões e manter a imparcialidade.Embora o público exija informações precisas, o jornalismo esportivo frequentemente recorre a expressões populares, como “pisar na bola”. No entanto, o uso excessivo de clichês pode comprometer a qualidade do texto. Barbeiro e Rangel (2006, p. 51) alertam: “Seja criativo, fuja dos chavões, solte as amarras do texto, coloque paixão sem abdicar dos rigores da informação. Paixão jornalística e não clubística, deixemos claro”. Além disso, o improviso, essencial na narração ao vivo, requer preparo e profundo conhecimento do esporte. A espetacularização do esporte, como a criação de “semideuses”, pode comprometer a credibilidade dos veículos e alinhar-se mais ao entretenimento do que à informação imparcial. 1.5 Formatos e tecnologias no Jornalismo Esportivo A evolução tecnológica tem transformado o jornalismo esportivo, desde equipamentos mais avançados até novos formatos de apresentação de PAGE \* Arabic \* informações. 1.5.1 Fotojornalismo A fotografia esportiva vai além da captura de momentos de ação. Ela conta histórias, captura emoções e eterniza eventos históricos. Para isso, exige equipamentos adequados e conhecimento profundo do esporte em questão. Além de registrar lances, o fotojornalismo esportivo tem um papel fundamental na identidade visual de jornais e revistas, sendo muitas vezes destaque em primeiras páginas, de veículos impressos aos digitais. 1.5.2 Infografia e novos formatos Infográficos têm se tornado ferramentas essenciais para traduzir dados complexos de forma visual e acessível, permitindo que leitores compreendam informações como estatísticas, táticas e desempenho esportivo. Novas tecnologias, como transmissões em tempo real e análises de dados, também têm ampliado as possibilidades do jornalismo esportivo, criando formatos interativos e atraentes para um público cada vez mais exigente. TEMA 2 – JORNALISMO INTERNACIONAL: A IMPORTÂNCIA DO CONTEXTO GLOBAL O jornalismo internacional desempenha um papel essencial em um mundo profundamente interconectado, no qual eventos ocorridos em um país podem gerar impactos significativos em diversas partes do globo. Mais do que relatar acontecimentos, cabe aos jornalistas internacionais interpretar, contextualizar e traduzir a complexidade de questões históricas, culturais e políticas que moldam os cenários globais. Essa tarefa exige preparo técnico, conhecimento aprofundado e sensibilidade para compreender e transmitir histórias que vão além das fronteiras geográficas. Cobrir temas internacionais é um desafio que vai muito além do acesso à informação. Em muitos casos, é necessário decifrar a história por trás dos fatos, conectando eventos presentes a contextos passados, que muitas vezes permanecem desconhecidos do público. Por exemplo, conflitos no Oriente Médio, tensões geopolíticas na Ásia ou mudanças econômicas na Europa carregam raízes históricas profundas que influenciam diretamente os desdobramentos PAGE \* Arabic \* atuais. Esse olhar histórico é indispensável para que o público consiga compreender as camadas que compõem os fatos, indo além das manchetes superficiais. Os jornalistas internacionais também podem enfrentar barreiras linguísticas e culturais significativas, que tornam o trabalho ainda mais desafiador. Dominar mais de um idioma pode ser apenas o começo: compreender as nuances culturais de uma região, os códigos sociais e as particularidades da comunicação local é um aspecto crucial para garantir uma cobertura precisa e responsável. Além disso, o acesso direto às fontes nem sempre é viável, especialmente em situações de conflito ou tragédia. Nesses casos, agências de notícias e bancos de dados se tornam ferramentas indispensáveis, fornecendo informações confiáveis que podem ser analisadas e complementadas por perspectivas locais. A revolução tecnológica, por sua vez, ampliou o alcance das notícias e trouxe novos recursos para a cobertura internacional. O acesso instantâneo a informações e dados é uma vantagem, mas também um desafio: é preciso filtrar conteúdos, verificar a confiabilidade das fontes e assegurar que as informações sejam transmitidas com a devida profundidade. O trabalho do jornalista internacional não se limita à reprodução de notícias prontas; ele exige análise crítica, capacidade de síntese e a construção de narrativas que conectem o público a realidades distantes. Outro ponto essencial no jornalismo internacional é a seleção das pautas (Massy, 2021). Redações recebem diariamente uma avalanche de notícias de agências e correspondentes, e decidir o que será publicado envolve critérios muitas vezes subjetivos, que refletem questões como proximidade cultural e interesses econômicos. Tragédias humanitárias, por vezes, parecem não ter recebido atenção suficiente da imprensa (Massy, 2004, p. 12). Eventos em países próximos, geograficamente ou culturalmente, muitas vezes ganham mais espaço do que crises de igual ou maior gravidade em regiões distantes ou menos conhecidas do público. Essa desigualdade na cobertura é um reflexo dos desafios intrínsecos à prática jornalística global, que seria potencialmente enriquecida caso passasse a considerar olhares de perspectiva decolonial (Marques, 2024). Portanto, o jornalismo internacional vai além da simples transmissão de notícias: ele exige preparação constante, atualização cultural, domínio técnico e um olhar crítico para interpretar e traduzir o cenário global. Apenas com esse nível de comprometimento é possível oferecer ao público uma visão mais completa e PAGE \* Arabic \* relevante dos eventos que moldam o mundo, fortalecendo o papel do jornalismo como um mediador indispensável na era da globalização. 2.1 A importância do contexto histórico no Jornalismo Internacional Um dos maiores desafios do jornalismo internacional é, nas palavras de João Batista Natali (2004, p. 8), compreender “um panorama amplo e complexo de informações”. Uma notícia inicial, fornecida por agências, pode apresentar os fatos básicos. No entanto, qualquer aprofundamento demanda o entendimento de questões interligadas, muitas vezes históricas: Não é possível entender o que acontece no Oriente Médio sem que tenhamos um conhecimento mesmo rudimentar do que foi Império Otomano, que existiu a partir de 1290 e em 1923 concluiu seu longo processo de desintegração, o que levou a França e o Reino Unido a dividir entre si a vasta região. À França, coube o Líbano e a Síria. Londres ficou por sua vez com o Iraque, a Palestina e a Transjordânia. Bem mais que esferas explícitas de influência, há nessa estrutura de protetorado um pouco dos problemas que nos interpelam hoje, como fato de os curdos terem ficado sem Estado próprio e se tornarem coletividades problemáticas no Iraque e na Turquia. (Natali, 2004, p. 71) Especializar-se em jornalismo sobre determinado tema, no caso do internacional, exige mais do que conhecimento técnico: é preciso uma imersão histórica e cultural. Ariel Palacios, correspondente da GloboNews em Buenos Aires, exemplifica isso. Filho de pais argentinos, Palacios nasceu em Buenos Aires, mas considera-se brasileiro. A experiência de vida do profissional e as duas décadas de trabalho na cidade contribuíram para a compreensão aprofundada da Argentina (Militão, 2013). 2.2 Os desafios do Jornalismo Internacional Para jornalistas que não possuem contato prévio com determinada cultura ou região, a busca por especialistas, ensaios, artigos científicos e outras fontes confiáveis é essencial (Natali, 2004, p. 8). A internet ampliou o acesso a informações, mas trouxe o desafio de filtrar conteúdos confiáveis. Bancos de dados, como o do Banco Mundial, são recursos valiosos para cobrir assuntos internacionais. Outro obstáculo é a dificuldade de acesso direto a fontes. Por exemplo, é inviável chegar a tempo de entrevistar uma testemunha de umevento em outro país. Nesses casos, as agências de notícias desempenham um papel fundamental, fornecendo materiais que podem ser editados e utilizados. PAGE \* Arabic \* Como indicado anteriormente, o domínio de mais de um idioma torna-se indispensável para jornalistas internacionais. Muitas informações relevantes não estão disponíveis em português, e o profissional precisa ser capaz de acessar e interpretar conteúdos diretamente em outros idiomas. 2.3 Seleção de notícias e o papel do gatekeeper Uma das habilidades mais importantes na editoria internacional é a capacidade de selecionar quais informações serão publicadas (Massy, 2021). Redações recebem milhares de notícias de agências diariamente, além de materiais como fotos, infográficos e vídeos. Embora essas notícias venham prontas para publicação, elas também podem ser usadas como fonte para reportagens mais aprofundadas. O critério para decidir o que será divulgado envolve fatores subjetivos. É Natali (2004, p. 12) quem menciona o fato de que a cobertura de tragédias, por exemplo, reflete desigualdades: “Há vidas com mais valor noticioso do que outras”. Isso pode ser explicado, em parte, pela proximidade dos jornalistas dos eventos. Natali (2004, p. 15) compara a cobertura de dois acidentes aéreos: a queda de um Antonov em Angola e a de um Concorde em Paris. A proximidade de jornalistas ao local do segundo acidente resultou em uma cobertura muito mais detalhada. Os desafios do jornalismo internacional evidenciam a necessidade de preparação técnica, conhecimento histórico e habilidades específicas para lidar com contextos globais complexos. Profissionais da área precisam equilibrar o uso de recursos tecnológicos e informações de agências com um olhar crítico e aprofundado, além de uma constante atualização cultural e linguística. Somente assim é possível oferecer uma cobertura relevante e com a profundidade que o público exige. TEMA 3 – DESAFIOS NA COBERTURA ESPORTIVA E INTERNACIONAL EM TEMPOS DE TECNOLOGIAS DIGITAIS As tecnologias digitais revolucionaram o jornalismo, mas também trouxeram desafios significativos, especialmente nas editorias esportiva e internacional. A velocidade da internet e o acesso global a informações em tempo real oferecem oportunidades para coberturas mais dinâmicas e abrangentes, mas PAGE \* Arabic \* também exigem dos jornalistas novas competências técnicas, estratégias para lidar com a sobrecarga de dados e um olhar crítico para evitar a disseminação de desinformação. No jornalismo esportivo, o impacto das redes sociais é notável. Plataformas como Twitter (agora X) e Instagram permitem que atletas e clubes publiquem declarações, dados e bastidores sem intermediação da imprensa. Isso altera a dinâmica da relação entre jornalistas e fontes, forçando os profissionais a buscar ângulos exclusivos ou interpretações mais aprofundadas para se destacarem. Além disso, a competição com influenciadores digitais, que frequentemente produzem conteúdos sobre esportes, pressiona o jornalista a aliar rigor técnico a criatividade. Já no jornalismo internacional, as tecnologias digitais facilitaram o acesso a bancos de dados globais, imagens de satélite e fontes diretas de informações em diversas línguas. No entanto, a abundância de informações pode ser um problema: o jornalista precisa identificar fontes confiáveis, verificar dados e evitar manipulações, como deepfakes ou conteúdos distorcidos. Além disso, o excesso de informação pode criar um paradoxo: embora muito material esteja disponível, a audiência pode não absorver reportagens complexas, preferindo notícias resumidas e imediatas. Outra questão relevante é o papel das ferramentas de inteligência artificial. No jornalismo esportivo, por exemplo, algoritmos já são usados para gerar análises estatísticas de jogos em tempo real, o que aumenta a pressão por um jornalismo interpretativo mais sofisticado. No âmbito internacional, a IA ajuda a processar grandes volumes de informações, mas também representa uma ameaça em termos de automação de conteúdos básicos, diminuindo a demanda por reportagens tradicionais. Por fim, o jornalismo em tempos de tecnologias digitais exige um profissional multifacetado. É necessário dominar não apenas a apuração e a escrita, mas também habilidades de edição de vídeos, conhecimento de redes sociais e capacidade de adaptar conteúdos para diferentes plataformas. Assim, tanto no jornalismo esportivo quanto no internacional, o desafio está em equilibrar a agilidade exigida pelas novas mídias com a profundidade e a precisão que sempre caracterizaram o bom jornalismo. PAGE \* Arabic \* TEMA 4 – JORNALISMO ORGANIZACIONAL: COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA DE EMPRESAS E INSTITUIÇÕES O jornalismo organizacional, cujo público-alvo são os participantes da organização em si, e não o interesse público, passou por uma série de mudanças, amarradas aos processos de desenvolvimento dos meios de comunicação, dos movimentos sociais, políticos e econômicos pelos quais a sociedade passa e passou e pelos quais o jornalismo passou e passa. Com o tempo, a importância dessas publicações cresceu, ampliando seu caráter de orientação e auxiliando o trabalhador na adaptação àquele universo (Sólio, 2008). Responde, portanto, à demanda de auxiliar trabalhadores a compreenderem-se em um processo produtivo e a entenderem o sentido do seu trabalho no todo. Como efeito, pretende aproximar os diversos setores organizacionais, além de conectar departamentos dentro do próprio microcosmo de uma organização, entre setores e equipes. Tais publicações são feitas dentro das organizações ou, por vezes, por uma agência contratada. Sólio (2008) explica que o ideal é a produção por uma equipe de comunicação integrada, composta por profissionais de relações públicas, publicidade e propaganda e marketing, sendo que o periódico em si deve ser feito por jornalistas. Todavia, o que ela verifica é que os [...] departamentos de comunicação poucas vezes possuem profissionais com conhecimentos teóricos sobre a natureza da atividade, seja pela deficiência nos currículos dos cursos que frequentaram antes de entrar para o mercado de trabalho seja pelo pouco material produzido sobre assunto, seja porque essa tarefa é atribuída a leigos. (Sólio, 2008, p. 32) De acordo com a pesquisa "Perfil do Jornalista Brasileiro" (ENJAI, 2023), um terço dos jornalistas pesquisados trabalhava fora da mídia, principalmente em atividades como assessoria de imprensa (43,4%), comunicação ou em funções que utilizam conhecimento jornalístico. Essa fatia inclui os jornalistas que atuam na produção de jornais organizacionais, entre outras atividades. Quanto ao caráter dessas publicações, Sólio (2008) explica que a intenção das empresas é garantir a aceitação dos jornais pelos funcionários. Diferente da grande imprensa, que valoriza a diversidade de opiniões, “os jornais organizacionais trabalham com um consenso” (Sólio, 2008, p. 16). PAGE \* Arabic \* Todavia, a autora também explicita as negociações intrínsecas ao processo de produção desses jornais, seja entre jornalistas, seja entre jornalistas e outros profissionais do setor administrativo e afins. “Em muitas situações, indivíduos investindo determinado poder dentro da organização arbitram ingerências totalmente descabidas, mas que são acatadas” (Sólio, 2008, p. 33). O bom jornalismo organizacional, portanto, seria aquele que consegue agregar os processos de produção do bom trabalho jornalístico. “Parte-se do princípio de que, antes de cumprir o papel de difundir a cultura organizacional, a mídia organizacional deve cumprir sua função de jornal, somente assim será avalizada pelo receptor” (Sólio, 2008, p. 21). A autora também aponta como características de um bom periódico a clareza sobre quem é o público,os valores e a cultura da organização e de seus funcionários, nos diversos níveis, além do trabalho integrado com os profissionais de relações públicas, posicionando o jornal como uma ferramenta dos processos comunicacionais da organização. Ao analisar os processos de produção de dois jornais organizacionais, Sólio (2008) destacou especificidades e tensões e, posteriormente, analisou a recepção dessas publicações, buscando entender quais leituras o público-alvo fazia, de que formas os objetivos organizacionais eram cumpridos e como a cultura da empresa era negociada com os demais processos culturais. Figura 1 – Não há valores empresariais deslocados dos fatores culturais e sociais Fonte: Sólio, 2008, p.19. PAGE \* Arabic \* Alguns dos resultados apontados pela pesquisadora foram que há pouco acolhimento da cultura dos funcionários nos discursos dos jornais. “Os valores que os empregados trazem são desprezados e acabam se tornando, dentro da instituição, uma “cultura paralela”” (Sólio, 2008, p. 20). Isso dificulta a existência da própria cultura da empresa, visto que ela existe nas relações que se dão ali dentro e se materializa pelo modo como se dirige ao público. Silva (2010) analisou outros veículos organizacionais, buscando especialmente os aspectos de gênero dessas produções e caracterizando o que seria o gênero do jornalismo organizacional. O autor apontou para a habilidade desse jornalismo de construir uma narrativa sobre a organização, concatenando identidades e culturas, bem como processos de controle e gestão de relações de poder entre os sujeitos organizacionais. Acerca do gênero discursivo nos jornais pesquisados, Silva (2010) aponta que: (i) a identidade e a cultura organizacionais são arregimentadas pelo discurso do jornalismo organizacional; (ii) há construção de uma narrativa sobre a organização, em um sentido amplo; (iii) há um desenho de uma realidade organizacional; (iv) há presença de potencial de espetacularização no discurso; e (v) de modos de legitimação e controle. TEMA 5 – TECNOLOGIAS EMERGENTES E FORMATOS INOVADORES (EX.: TRANSMISSÕES AO VIVO, PODCASTS) O avanço das tecnologias emergentes transformou profundamente o jornalismo, ampliando as formas de produção e consumo de conteúdos. Novos formatos, como transmissões ao vivo e podcasts, oferecem oportunidades para que jornalistas e veículos alcancem audiências maiores e mais diversificadas. Contudo, essas inovações também trazem desafios em termos de adaptação, planejamento e qualidade das narrativas. 5.1 A ascensão das transmissões ao vivo As transmissões ao vivo, viabilizadas por plataformas como YouTube, Twitch, Instagram e TikTok, tornaram-se uma ferramenta essencial para o PAGE \* Arabic \* jornalismo. Elas oferecem a possibilidade de coberturas em tempo real, permitindo que o público acompanhe eventos enquanto acontecem, com um senso de urgência e autenticidade. No jornalismo esportivo, por exemplo, transmissões ao vivo de entrevistas coletivas, treinos e bastidores são cada vez mais comuns, aproximando os fãs de seus ídolos e times. Já no jornalismo internacional, lives de correspondentes em áreas de conflito ou em eventos globais, como cúpulas diplomáticas, ajudam a contextualizar os fatos à medida que eles se desenrolam. Como destaca Pavlik (2020), o engajamento em transmissões ao vivo depende não apenas da qualidade técnica, mas também da habilidade do jornalista em oferecer uma narrativa clara, envolvente e confiável, mesmo sob pressão. Por outro lado, a produção de lives exige preparação técnica e editorial. Conexões instáveis, dificuldades técnicas e erros ao vivo podem comprometer a credibilidade do veículo ou do jornalista. Além disso, o imediatismo das transmissões pode abrir margem para erros na apuração de informações, reforçando a necessidade de preparo prévio e atenção aos detalhes. 5.2 Podcasts: profundidade e engajamento Outro formato que ganhou destaque nos últimos anos é o podcast. Sua popularidade deriva de fatores como a conveniência do consumo (podcasts podem ser ouvidos em deslocamentos ou durante tarefas rotineiras), a diversidade de temas e a possibilidade de aprofundamento nas discussões. Podcasts de jornalismo esportivo, como o “GE”, da Globo Esporte, e de jornalismo internacional, como o “The Daily”, do The New York Times, ilustram como esse formato permite a exploração de tópicos com mais calma e análise. Diferentemente de transmissões ao vivo ou reportagens televisivas, os podcasts oferecem ao jornalista a chance de elaborar narrativas detalhadas, trazer entrevistados com perspectivas únicas e criar uma relação mais próxima com o público. Além disso, o baixo custo de produção comparado a formatos tradicionais democratizou o acesso ao podcasting, permitindo que jornalistas independentes e pequenos veículos também se destaquem. Entretanto, a saturação do mercado – com milhares de novos podcasts sendo lançados mensalmente – exige criatividade e qualidade editorial para se diferenciar. PAGE \* Arabic \* 5.3 Desafios e oportunidades na adoção de formatos emergentes Enquanto transmissões ao vivo e podcasts ampliam as possibilidades narrativas, eles também desafiam os jornalistas a dominar múltiplas habilidades. Ferramentas de edição de áudio, vídeo e streaming são, hoje, parte essencial do repertório técnico de muitos profissionais. Segundo Newman (2023), jornalistas precisam ser multitarefa, capazes de gravar, editar e publicar conteúdos em prazos curtos, sem comprometer a qualidade. Outro ponto importante é o consumo de dados. As lives demandam internet de alta velocidade, tanto para os produtores quanto para os consumidores, o que pode limitar o alcance em áreas com infraestrutura precária. Além disso, a monetização desses formatos, especialmente para jornalistas independentes, nem sempre é viável, gerando dificuldades para garantir a sustentabilidade do trabalho. Por outro lado, o engajamento proporcionado por esses formatos cria oportunidades para a construção de audiências fiéis. As transmissões ao vivo permitem interação direta com o público por meio de comentários em tempo real, enquanto os podcasts criam um espaço íntimo de conexão, aumentando a confiança na marca ou no profissional que os produz. As tecnologias emergentes e os formatos inovadores transformaram a prática jornalística, exigindo que os profissionais se adaptem a um novo cenário marcado pela convergência de mídias e pela demanda por conteúdos interativos e acessíveis. Tanto transmissões ao vivo quanto podcasts representam mais do que tendências passageiras: são pilares do jornalismo contemporâneo, que se reinventa para atender às necessidades de uma audiência conectada e exigente. Para os jornalistas, o desafio está em equilibrar inovação com responsabilidade editorial, garantindo que as novas ferramentas sirvam ao propósito fundamental do jornalismo: informar, contextualizar e engajar. Ao longo deste conteúdo, refletimos sobre as diversas dimensões do jornalismo, as nuances e os desafios que o cenário contemporâneo impõe. O jornalismo esportivo, com a capacidade de despertar emoções intensas, demonstra como a escolha das palavras e o domínio da narrativa são cruciais para informar sem perder a objetividade, mesmo em situações polarizadas. Seja cobrindo a euforia de uma vitória ou a tristeza de uma derrota, a habilidade de conectar-se ao público sem comprometer a precisão é uma arte essencial. PAGE \* Arabic \* Na esfera internacional, observamos como o contexto global molda a percepção das audiências e as decisões que impactam vidas em diferentes partes do mundo. O jornalista, diante de crises, guerras ou eventos históricos, precisa ser um mediador da informação, fornecendo uma visão ampla e fundamentada que ultrapasse barreirasculturais e geográficas. As tecnologias emergentes, como podcasts e transmissões ao vivo, surgiram como ferramentas poderosas para ampliar o alcance e diversificar formatos jornalísticos. Porém, essas inovações trazem desafios, como a adaptação às novas demandas do público e a preservação da credibilidade em meio à instantaneidade das informações. O equilíbrio entre inovação e responsabilidade é fundamental para garantir a qualidade do conteúdo produzido. Por fim, no jornalismo organizacional, percebemos como empresas e instituições utilizam estratégias comunicativas para alinhar-se ao público e fortalecer a própria imagem. Essa vertente reforça a importância do jornalismo como uma ponte entre organizações e sociedade, mostrando que comunicar histórias e valores é uma prática estratégica essencial. Assim, o jornalismo contemporâneo permanece em constante transformação, exigindo um olhar crítico e adaptável para continuar cumprindo uma função fundamental, que vai além de informar: conectar e inspirar. PAGE \* Arabic \* REFERÊNCIAS BARBEIRO, H.; RANGEL, P. Manual do jornalismo esportivo. São Paulo: Contexto, 2016. CARTER, S.; GRAHAM, R.; WARD, J. How Mariano Rivera Dominates Hitters. The New York Times, 29 jun. 2010. Disponível em: . Acesso em: 29 jan. 2025. COELHO, P. Jornalismo Esportivo. São Paulo: Contexto, 2011. ENJAI, Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Imprensa. ENJAI 2023: assessoria de imprensa é a principal atividade de 43,4% dos jornalistas brasileiros. Assessoria de imprensa é a principal atividade de 43,4% dos jornalistas brasileiros. 2023. Disponível em: . 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