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FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA “A Faculdade Católica Paulista tem por missão exercer uma ação integrada de suas atividades educacionais, visando à geração, sistematização e disseminação do conhecimento, para formar profissionais empreendedores que promovam a transformação e o desenvolvimento social, econômico e cultural da comunidade em que está inserida. Missão da Faculdade Católica Paulista Av. Cristo Rei, 305 - Banzato, CEP 17515-200 Marília - São Paulo. www.uca.edu.br Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. Todos os gráficos, tabelas e elementos são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência, sendo de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Diretor Geral | Valdir Carrenho Junior FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 3 SUMÁRIO AULA 01 AULA 02 AULA 03 AULA 04 AULA 05 AULA 06 AULA 07 AULA 08 AULA 09 AULA 10 AULA 11 AULA 12 AULA 13 AULA 14 AULA 15 06 17 26 37 46 56 68 80 92 105 117 127 140 152 162 O QUE É INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA O JORNALISMO BRASILEIRO JORNALISMO E CIDADANIA IMPRENSA X EMPRESA IMPRESSO, TELEVISIVO, RADIOFÔNICO, ELETRÔNICO. É TUDO UM MESMO JORNALISMO? QUEM CONSOME TANTAS NOTÍCIAS DE QUEM É A FALA NO JORNALISMO TUDO É NOTÍCIA, TUDO VIRA NOTÍCIA O DIÁLOGO ENTRE COMUNICAÇÃO E DIREITO DIREITO DE IMAGEM TRANSMISSÃO DE EVENTOS ESPORTIVOS CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS INTERNET, ÉTICA E O DIREITO AO ESQUECIMENTO MARCO CIVIL DA INTERNET LIBERDADE DE EXPRESSÃO E DISCURSO DE ÓDIO FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 4 INTRODUÇÃO Caro aluno de Jornalismo, estamos iniciando uma nova disciplina, fundamental e necessária em seu processo de formação como profissional de comunicação. Traremos importantes contribuições sobre o campo de atuação dos jornalistas, centrando nossos estudos no jornalismo como instituição de fortalecimento da democracia e do pleno exercício da cidadania. Abordaremos o direito a livre informação, correta, verdadeira e estruturada de acordo com preceitos e conceitos que regem a profissão. Trataremos sobre a função social da profissão e o compromisso de atuar em favor da sociedade que adquirimos ao passarmos pelo processo de formação acadêmica. Traremos a vocês conceitos sobre as rotinas do jornalismo e discutiremos tópicos de cidadania, ética e legislação, sempre com apoio de autores fundamentais. Esta disciplina foi estruturada em quatro unidades, abordando aspectos relevantes e atuais do processo de comunicação. Na primeira unidade, jornalismo e a práxis, mostrando que academia e redação devem caminhar juntas no sentido de construir um pensamento social abrangente e democrático. Na unidade dois falaremos detalhadamente sobre jornalismo, as notícias e a Mídia, trazendo textos atuais que nos farão refletir sobre o atual momento do jornalismo, as transformações advindas pela revolução tecnológica e da comunicação e pensaremos sobre o modelo de negócios do jornalismo. Á partir da terceira unidade iremos apresentar a função social do jornalismo, com tópicos relativos a Mídia e Direito e códigos que regem a ética da profissão. A quarta unidade foi reservada para falarmos sobre comunicação e internet. Quais são os direitos e quais são os limites quando se utiliza a Internet para propagar informações. Temos como objetivo mostrar a vocês, futuros profissionais de comunicação, como o jornalismo está estruturado desde sua origem no Brasil, a força da informação como instrumento de fortalecimento da cidadania e a função social da comunicação. Buscaremos também ressaltar a importância do jornalismo local e regional, feito de forma ética e por profissionais qualificados, capacitados e comprometidos com a profissão, com serão vocês ao final deste curso. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 5 Espero que gostem da disciplina e aproveitem os ensinamentos que aqui serão apresentados. Bons estudos! FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 6 AULA 1 O QUE É INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA Abrimos um jornal, ligamos a TV, acessamos um portal de notícias porque aceitamos, em maior ou menor medida, ser informados por narrativas que garantem ter “compromisso com a informação”. No entanto, é curioso pensar que, ainda que a informação seja a razão da existência do jornalismo, uma pergunta como: “O que é a informação?”, pode parecer tão inconveniente ao jornalista (Leal, et al. 2014, p, 68). https://pixabay.com/photos/mic-microphone-sound-check-sing-1132528/ Olá caros alunos e alunas. Iniciamos a partir deste momento mais uma etapa da caminhada rumo a formação acadêmica em Jornalismo. Buscaremos, por meio da disciplina Fundamentos do Jornalismo, entendermos melhor os caminhos da produção jornalística, da notícia e o que realmente importa ao consumidor de informação. A Ética em seu sentido mais amplo e os tópicos relativos a Comunicação serão apresentados. Buscaremos ainda definir os limites entre Mídia e Direito, Jornalismo e Direito e a nova postura da Comunicação diante da Internet. Além disso, falaremos sobre a relação entre liberdade de expressão e discurso de ódio. https://pixabay.com/photos/mic-microphone-sound-check-sing-1132528/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 7 Mas para que tudo isso fique muito claro ao final deste livro, precisamos discutir e responder à pergunta desta nossa primeira aula – O que é informação jornalística? 1.1. Informação Quando nos deparamos com um semáforo, uma placa de trânsito, um cartaz, um outdoor, estamos recebendo informação, estamos sendo comunicados sobre algo. As cores, os símbolos, os códigos e sinais nos informam se devemos seguir, parar, virar para a direita ou para a esquerda. Quando perguntamos a alguém na rua onde fica tal endereço, estamos recebendo informação. Quando um atendente indica qual guichê se dirigir, ou quando a placa na porta do banheiro indica o gênero, também estamos sendo comunicados sobre algo, ou seja, recebendo informações. Portanto, informação nada mais é do que um conjunto de elementos organizados por meio do conhecimento sobre determinado tema, constituindo referências sobre um fato ou acontecimento. Pode ser uma informação nova, como sobre uma rua que não conhecemos, como pode também ser uma informação que nos deparamos diariamente, ao cruzarmos a cidade. Significado de Informação: Reunião dos conhecimentos, dos dados sobre um assunto ou pessoa [...] Esclarecimento sobre o funcionamento de algo: informações sobre o aparelho [...] Ação ou efeito de informar ou de se informar. (https://www.dicio.com.br/ informacao/) https://www.freeimages.com/pt/photo/traffic-signs-1526081 https://www.dicio.com.br/informacao/ https://www.dicio.com.br/informacao/ https://www.freeimages.com/pt/photo/traffic-signs-1526081 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 8 1.2. Informação Jornalística Quando passamos a falar de informação jornalística, ou seja, no âmbito da comunicação, a informação adquire o status de conhecimento dos fatos e acontecimentos que se tornam públicos através da Mídia, por meio dos veículos de comunicação. Passamos, portanto, a falar da prática jornalística diária e de uma informação que, para alcançar o resultado final, sofre um processo de procura, seleção e tratamento, para que chegue até seu destinatário dentro de padrões que possuem elementos como: pauta, lide, apuração dos fatos, busca da verdade, clareza de narrativa, pontos de vista, além de outros elementos essenciais ao desempenho do jornalismo. Esta busca constante e incessante pela informação dentro de padrões jornalísticos é presente a cada pauta criada, a cadaprocesso de apuração dos fatos e das entrevistas, pois a informação não é apenas uma parte do jornalismo, mas sim a aspecto mais importante e fundamental do processo e da profissão. A informação é o que confere credibilidade ao trabalho jornalístico e ao profissional de jornalismo. Outra grande diferença é entender que a informação no jornalismo, busca nos informar algo e não apenas nos informar sobre algo e por este motivo precisa sempre e a todo momento estar correta, mantendo a credibilidade e isenção, fazendo com que o leitor, ouvinte ou telespectador tenha autonomia para tirar desta informação os elementos para sua análise. https://cdn.pixabay.com/photo/2016/08/20/09/46/magnifying-glass 1607160_960_720.jpg https://cdn.pixabay.com/photo/2016/08/20/09/46/magnifying-glass%201607160_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 9 Para que uma informação seja correta e traga credibilidade, o mais importante não é apenas a mídia utilizada, mas sim um longo processo de conquista dos seus leitores/ouvintes/telespectadores, como bem nos mostra o exemplo abaixo: Em meados do século XVIII, mesmo dispondo de vários jornais impressos, os parisienses costumavam ir até uma castanheira no centro da cidade, a chamada Árvore de Cracóvia, para saber as notícias, que eram transmitidas oralmente. Ainda nesse período, uma outra forma de divulgar informações em Paris era por meio de uma intrincada rede de bilhetes (ZANCHETTA, 2004, p, 9). Pelo que vimos, mesmo com a chega de uma nova tecnologia, o jornal impresso, os moradores ainda preferiam se informar pelo modo anterior, oralmente ou por carta, pois certamente haviam criado, por uma série de elementos, uma identificação com o formato de transmissão das notícias. Certamente a credibilidade, seleção de quais notícias apresentar e a maneira com que as informações eram passadas, foram fundamentais para manter fiel o público por um bom tempo, até que a nova tecnologia conseguisse despertar nos cidadãos os mesmos sentimentos e suplantasse o modelo anterior. 1.2.1 A informação jornalística nos apresenta um mundo https://cdn.pixabay.com/photo/2015/12/03/10/12/news-1074604_960_720.jpg https://cdn.pixabay.com/photo/2015/12/03/10/12/news-1074604_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 10 Quando dizemos que a informação jornalística nos apresenta um mundo, ao invés de representar o mundo, como muitos poderiam indagar, não estamos dizendo que a informação é incorreta ou sem validade, ou que o trabalho do jornalista não foi executado como deveria. Estamos dizendo, sim, que a informação, a narrativa jornalística é a protagonista, ou seja, o resultado do trabalho é uma construção, a partir dos dados selecionados pelo jornalista, constituindo uma nova realidade baseada nos fatos e acontecimentos descritos, tornando-se, portanto, um novo mundo. A informação passa a ser compreendida nesse sentido, como mediadora entre a realidade dos fatos e dos acontecimentos e a realidade da narrativa, produzida pelo jornalista, trazendo elementos como novidade, descrição e dados relativos aos fatores envolvidos. Outro ponto a ressaltar é com relação as fontes de informação. O próprio jornalista deve ser também considerado como fonte, pois é a partir dele, de seu trabalho de pesquisa, entrevistas e testemunha presencial dos fatos, que a narrativa é produzida e uma história é contada ou recontada. Com relação as fontes, também é importante lembrar que o jornalista busca sempre fontes legítimas, ligadas diretamente aos fatos e que possuem, muitas vezes, ligação com partes envolvidas. São as chamadas fontes oficiais. Mas neste caso também é preciso atenção, pois as chamadas “fontes oficiais”, constroem seus mundos por meio das histórias que nos contam e o modo como enxergam os fatos que vivenciaram, ou ainda, os próprios interesses envolvidos. Sobre esta questão, LEAL (2014), nos deixa uma reflexão sobre como devemos estar atentos a questão das fontes, para não cometermos o erro de sempre buscarmos as mesmas: [...] tal noção frequentemente leva o jornalista a eleger certas instâncias como fontes de informações mais legítimas. Onde podemos encontrar informações? Uma vítima, uma testemunha, uma autoridade, um especialista..., mas por que não aquele rapaz ali, passando despercebido, com as mãos no bolso, aparentemente desinformado? Um documento, uma fotografia, uma declaração, tudo isso pode também ser “portador” de informações. Mas não poderíamos perceber informações valiosas em lugares imprevistos? Um sussurro, uma pausa, uma encruzilhada, uma ideia não concluída? (LEAL, Et Al, 2014, p, 70). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 11 ANOTE ISSO Sobre a evolução das técnicas de informação jornalística aliadas a tradição e a credibilidade, que conferiam sobrevida aos modelos mais tradicionais, como a oralidade e as cartas, cabe aqui refletir um pouco mais sobre isso, pois vivemos um momento em que o surgimento da internet nos coloca diante de dilemas parecidos aos enfrentados no século XVIII. Sabemos que a internet veio para ficar, mas que até o momento ainda não encontrou mecanismos para que as informações que transitam por seus canais, tenham as mesmas características de credibilidade das chamadas “mídias tradicionais”, rádio, TV e impresso. Como apoio as nossas reflexões, usaremos em vários momentos neste livro, a obra 1000 Perguntas Sobre Jornalismo, escrito pelo jornalista Felipe Pena. Começaremos pelo trecho abaixo: O que eram as lettere d’avisi? As lettere d’avisi eram cartas manuscritas não periódicas que já́ eram recebidas pelos comerciantes venezianos desde o século XIII, no Brolo, a praça central da cidade, em frente ao palácio do Duque. Daí́ também serem chama- das de broli ou fogli a mano. Na França, essas cartas eram chamadas de nouvelles à la main, e nas cidades alemãs, de Geschriebene Zeitungen. Claro que havia um público restrito com interesses específicos (políticos e econômicos, obviamente), e seu conteúdo era controlado. Mesmo assim, esse tipo de “jornalismo primitivo” já́ provocava reações exaltadas de nobres e religiosos que se sentiam prejudicados pela exposição pública. (PENA, 2012, p,4) 1.2.2 O profissional transforma em informação os acontecimentos Temos também que evidenciar em toda esta análise do que vem a ser informação jornalística, o papel do próprio profissional. O jornalista é responsável não apenas por narrar os fatos e acontecimentos, mas também pela escolha dos temas e assuntos. O jornalista é quem, por meio do seu trabalho traz notoriedade e relevância a informação, conferindo-lhe status de notícia jornalística, ou seja, de interesse da sociedade. Lembrando que o jornalista não exerce apenas a função de repórter, mas tem presença em todas as instancias da produção jornalística nas diferentes Mídias. E o papel essencial e fundamental do jornalista fica evidente quando desvinculamos a natureza da informação dos lugares preestabelecidos como fontes possíveis e únicas e chamamos atenção para o fato de que tudo, em qualquer lugar, a qualquer momento pode se tornar informação. Quando tudo parece ser informação, entra em cena o jornalista, para mostrar o que de fato tem potencial e importância para se tornar informação, como bem descreve LEAL (2014): FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 12 [...] estamos evidenciando o papel fundamental do jornalista na própria constituição da informação. Ele não simplesmente descobre a informação e a torna pública; é ele quem percebe certas coisas como informação e lhes confere existência nas relações que estabelece ao narrá-las. Em outras palavras: a informação não preexiste à busca do jornalista, à pauta que a torna necessária, ao olhar que a percebe, à pergunta que ela responde, ao texto quelhe dá existência. O jornalismo informa a realidade ao permitir que algo se torne informação (LEAL, Et Al, 2014, p, 70). https://cdn.pixabay.com/photo/2015/10/26/13/45/microphone-1007154_960_720.jpg https://cdn.pixabay.com/photo/2015/10/26/13/45/microphone-1007154_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 13 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Quando falamos sobre a importância do jornalista na produção da informação e como este profissional também é uma fonte, devemos saber que o preparo para o trabalho é fundamental, como em qualquer profissão. Na matéria abaixo, quem tornou-se notícia foi o jornalista e não sua entrevistada, pelo fato do profissional não ter feito a lição de casa e se preparado adequadamente para a entrevista. Quando a cantora descobriu que o jornalista não havia ouvido as músicas do seu disco, encerrou a entrevista. Adele abandona entrevista após saber que jornalista não ouviu seu disco Segundo PageSix, ela teria saído furiosa; entrevistador se desculpa Simon Emmett/Divulgação e Bob Wolfenson/Divulgação A cantora Adele, 33, abandonou uma entrevista no meio depois de saber do jornalista nem sequer tinha ouvido seu novo disco, “30”. De acordo com o PageSix, a cantora britânica teria saído furiosa do local após o apresentador da Seven Network, Matt Doran, cometer a gafe. Também haveria um show de duas horas especialmente para sua emissora que foi cancelado. Dessa forma, a Austrália se tornou o único mercado no mundo que não teve uma entrevista frente a frente com Adele para promover o lançamento do álbum. Segundo uma fonte, Matt Doran foi repreendido e punido com uma suspensão de suas semanas, pois deveria ter feito a pesquisa necessária para entrevista, o que incluiria ouvir o álbum da cantora. Ao site The Australian, o jornalista se desculpou. “Quando me sentei para entrevistar Adele, não sabia que havia recebido por email uma prévia de seu álbum inédito. Foi um descuido, mas não um desprezo deliberado. Este é o email mais importante que já perdi”, disse Doran. Fonte:https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2021/11/adele-abandona-entrevista-apos-saber-que-jornalista-nao-ouviu-seu-disco.shtml https://f5.folha.uol.com.br/astrologia/2021/11/adele-diz-que-escreveu-novo-album-durante-seu-retorno-de-saturno-entenda.shtml https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/11/adele-tem-30-seu-novo-disco-vazado-no-telegram-a-um-dia-do-lancamento-oficial.shtml https://pagesix.com/2021/11/22/adele-leaves-interview-for-host-not-listening-to-album/ https://www.theaustralian.com.au/subscribe/news/1/?sourceCode=TAWEB_WRE170_a_GGL&dest=https%3A%2F%2Fwww.theaustralian.com.au%2Fbusiness%2Fmedia%2Fhansons-cartoon-creates-climate-for-thunberg-role%2Fnews-story%2F73a108111fc0bdf79c9ad20587169cbc&memtype=anonymous&mode=premium&v21=dynamic-cold-control-noscore&V21spcbehaviour=append https://www.theaustralian.com.au/subscribe/news/1/?sourceCode=TAWEB_WRE170_a_GGL&dest=https%3A%2F%2Fwww.theaustralian.com.au%2Fbusiness%2Fmedia%2Fhansons-cartoon-creates-climate-for-thunberg-role%2Fnews-story%2F73a108111fc0bdf79c9ad20587169cbc&memtype=anonymous&mode=premium&v21=dynamic-cold-control-noscore&V21spcbehaviour=append https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2021/11/adele-abandona-entrevista-apos-saber-que-jornalista-nao-ouviu-seu-disco.shtml FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 14 1.3. O poder da informação jornalística https://pixabay.com/pt/photos/c%c3%a2meras-filmando-6839248/ Quando falamos sobre o poder da informação jornalística, estamos nos referindo não apenas a questão da visibilidade pelo fato de serem vistas, pois hoje, devido a Internet, torna-se muito fácil e rápido uma informação circular. Estamos falando sobre o poder da visibilidade e divulgação através do jornalismo, que é um lugar legítimo e por onde as notícias ganham certificação e credibilidade. Quantas vezes nos deparamos com uma informação divulgada pelas redes sociais ou os grupos de relacionamento aos quais pertencemos e rapidamente surge a pergunta – “Mas isto é verdade? ”, “Saiu em qual lugar? ”, numa clara referência a necessidade desta informação receber a chancela de um veículo de comunicação considerado legítimo, como rádio, TV ou meio impresso. Ao falarmos sobre circulação de informação legitimada, estamos de certo modo, considerando aquela informação como verdadeira, ou seja, não existe, a princípio, um questionamento sobre a veracidade daquele acontecimento. Podem ocorrer questionamentos sobre o interesse na divulgação e a maneira como foi produzida a notícia, mas sempre considerando que o ponto de partida é legítimo, conforme explica LEAL (2014, p, 73), ao reafirmar que no meio jornalístico, “Informar é autorizar algo a existir como informação, tornar algo legítimo de ser mostrado e, ao FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 15 mesmo tempo, é afirmar que aquilo deve ser visto”, ou seja, a informação divulgada pela imprensa torna-se aquilo que podemos e devemos saber. Este poder da informação e, por conseguinte, da Mídia, também se expressa e isto é importante saber, não apenas quando a informação circula, mas também quando, por algum motivo, deixa de circular. Esta constatação torna o poder da imprensa decisivo e absoluto sobre decidir quem e o que devem ser divulgados ou não de forma legítima, e nos diz muito não apenas sobre o que é divulgado, mas também sobre o que deixa de ser divulgado, conforme pontua LEAL (2014). [...] algo só se torna informação porque uma infinidade de outras coisas foi deixada de fora. E é por essa relação que a informação está sempre em um limiar político muito delicado: ao informar, o jornalismo autoriza certas coisas a ganhar visibilidade pública, define em que termos essa visibilidade se constitui e relega à sombra diversas outras relações e sentidos que não puderam (seja por capacidade, seja por autorização) ser informados (LEAL, Et Al, 2014, p, 74). ISTO ESTÁ NA REDE O artigo abaixo, que pode ser encontrado na Internet, é uma excelente reflexão sobre o poder da informação jornalística e como a Mídia cria estratégias para legitimar-se junto a sociedade na seleção de quais informações devem ou não ser divulgadas. Celebração da prática e teoria do fazer jornalístico – Zero Hora 45 Daiane Bertasso Ribeiro e Maria Ivete Trevisan Fossá Resumo: Partimos do pressuposto de que o jornalismo se constitui em uma prática discursiva. Sendo assim, seus textos são entendidos como discursos, pelos quais ele constrói a realidade, embora no exercício da profissão persista a busca pela objetividade, entendida neste trabalho como uma estratégia para produzir efeitos de sentido de “realidade”, “verdade” e “imparcialidade”. Também partimos do pressuposto de que atualmente a prática jornalística passa por transformações decorrentes da midiatização, recorrendo a estratégias de autorreferencialidade, compreendida como a competência discursiva que os dispositivos midiáticos possuem de poder falar de si mesmo e de outros campos sociais. Para tanto, a nossa reflexão sobre a prática e a teoria do fazer jornalístico se estabelece por meio da observação dos produtos midiáticos que celebram os 45 anos do jornal Zero Hora - RS. Disponível em: https://redib.org/Record/oai_articulo1720394-a- celebra%C3%A7%C3%A3o-da-pr%C3%A1tica-e-da-teoria-do-fazer- jornal%C3%ADstico-%E2%80%93-zero-hora-45-anos. https://redib.org/Record/oai_articulo1720394-a-celebra%C3%A7%C3%A3o-da-pr%C3%A1tica-e-da-teoria-do-fazer-jornal%C3%ADstico-%E2%80%93-zero-hora-45-anos https://redib.org/Record/oai_articulo1720394-a-celebra%C3%A7%C3%A3o-da-pr%C3%A1tica-e-da-teoria-do-fazer-jornal%C3%ADstico-%E2%80%93-zero-hora-45-anos https://redib.org/Record/oai_articulo1720394-a-celebra%C3%A7%C3%A3o-da-pr%C3%A1tica-e-da-teoria-do-fazer-jornal%C3%ADstico-%E2%80%93-zero-hora-45-anos FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVAFACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 16 1.3.1 O jornalismo legitima a informação https://cdn.pixabay.com/photo/2016/02/01/00/56/news-1172463_960_720.jpg Constatamos, portanto, ao caminharmos para a parte final desta aula, que o poder da informação está diretamente ligado ao fato desta informação passar pelos filtros, formatação e reverberação propiciados pela Mídia, por meio de seus veículos de informação, que conferem a legitimidade necessária aos fatos e acontecimentos. Segundo RIBEIRO E FOSSÁ (2009), “o poder da informação está basicamente resumido ao poder da linguagem jornalística, e esse poder está expresso na forma como são construídos os discursos jornalísticos”. Para as autoras, mesmo com a variedade de informações disponíveis e os meios para acessá-las, é por meio do jornalismo que a informação se estabelece verdadeiramente. Vive-se hoje em uma sociedade midiatizada, na qual as variedade de informações são muitas e estão disponíveis nas mais diversas mídias, inclusive naquelas que não possuem a legitimidade conquistada pelo jornalismo para informar. O que se observa é que muito embora a midiatização tenha mudado muitos aspectos da forma como o campo jornalístico disponibiliza as informações e constrói as notícias e tenha alterado a relação de mediação deste com os demais campos sociais, o jornalismo continua a ocupar o lugar legítimo para produzir efeitos de sentido aos acontecimentos midiáticos. (RIBEIRO E FOSSÁ, 2009, p,19). Obrigado por chegar até aqui e na próxima aula iremos abordar o jornalismo brasileiro e suas principais características, além de falarmos também sobre a relação teoria e prática no fazer jornalístico. https://cdn.pixabay.com/photo/2016/02/01/00/56/news-1172463_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 17 AULA 2 O JORNALISMO BRASILEIRO Credibilidade é uma das palavras centrais para a imprensa. Para que um veículo de imprensa se consolide, é fundamental que ele seja respeitado pelo público que pretende atingir (ZANCHETTA, 2004, p,12). https://pt.dreamstime.com/not%C3%ADcia-brasileira-imprensa-e-conceito-do-jornalismo-microfone-ne-image124610183 Muito embora esteja presente em todo mundo, o jornalismo se firma por suas raízes nacionais e locais. Assim como os brasileiros se informam por notícias produzidas pela imprensa brasileira, os Estados e municípios também aproximam a informação dos seus leitores, ou seja, preservam seus territórios, mesmo com a inexistência de barreiras físicas e legais que impossibilitem buscar uma informação, por exemplo em sites, TVs e jornais de outro país. https://pt.dreamstime.com/not%C3%ADcia-brasileira-imprensa-e-conceito-do-jornalismo-microfone-ne-image124610183 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 18 Isto acontece, em grande parte porque forma-se um processo de assimilação cultural local e territorial, proporcionando o compartilhamento de sentimentos e aspirações comuns no entorno, produzindo estas sensações geração após geração. Quem não tem viva em sua memória a imagem dos avós e pais lendo um jornal em sua cadeira preferida, ouvindo seus programas matinais ou de final de tarde pelo rádio, a voz dos locutores tornando tudo familiar e a transcendência de gerações nesta prática, mesmo com a possibilidade do uso de novas tecnologias de comunicação e informação. Será que estes traços regionais e culturais tão impregnados no inconsciente da sociedade brasileira irão sucumbir após as transformações provocadas pela chegada da internet. E estas mudanças que a cada dia se tornam mais e mais presentes, incontroláveis e irreversíveis trarão também mudanças no conteúdo das informações, das notícias, das pautas criadas para nos mostrar como está nossa cidade, nosso Estado e nosso Brasil. Seremos consumidores globais e não mais locais de informação? Creio que será preciso, para preservar a força e a importância da comunicação local, além da criatividade e originalidade de um pensamento como nação, estado e município, manter o compromisso como profissionais do jornalismo, de produzir conteúdo que atenda aos anseios desta nova concepção de sociedade. Será preciso sim inovar, no modo de pensar o jornalismo, ao mesmo tempo que se torna extremamente necessário buscar as inovações, sejam elas no modo de sentir, decidir e agir com relação a prática jornalística, na manutenção de uma identidade comunicacional própria. Trabalharemos nesta aula, analisando e discutindo o conceito de práxis, para podermos analisar a crise por que passa o jornalismo atual, ao mesmo tempo em que entendermos ser este o momento para também discutirmos novos rumos para a profissão, debatendo valores do jornalismo e a prática profissional. Mas para que tenhamos clareza das discussões presentes e futuras, torna-se essencial entender como chegamos até aqui, e o estudo das práxis nos oferece esta oportunidade. Segundo HAUSER (2018), “A práxis é um suporte teórico que permitem pensar a realidade como uma totalidade processual em constante transformação, cujos desafios aparecem articulados, muitas vezes, ao dilema da permanência versus transformação”, como é o caso do jornalismo na atualidade. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 19 O conceito de práxis - Práxis era um termo empregado na Antiguidade clássica para designar uma ação que tem seu fim em si mesma, ou seja, que não cria ou produz qualquer objeto exterior a si. De acordo com Aristóteles, e na interpretação de Sánchez Vásquez (1977), uma ação moral ou uma conduta pode ser considerada práxis, mas o trabalho de um artesão, cujo resultado é um objeto que passa a existir fora do agente criador, tem de ser considerado fabricação ou produção, ou seja, uma atividade poética e não prática. (HAUSER, 2018, p, 13). 2.1 Práxis, modo de ver e fazer jornalismo Em uma rápida pesquisa pela internet, é possível encontrar inúmeras definições sobre o que vem a ser práxis. Para que não fiquem dúvidas sobre este conceito, adotaremos as definições do Dicionário de Língua Portuguesa, cuja versão online pode ser acessada no endereço eletrônico https://www.dicio.com.br. Importante também delimitar que usaremos a práxis no sentido de entender como os estudos acadêmicos, ou seja, a teoria, pode oferecer à prática jornalística ferramentas capazes de produzir transformações reais e concretas no fazer jornalístico. Fonte: https://www.dicio.com.br/praxis/ https://www.dicio.com.br https://www.dicio.com.br/praxis/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 20 O entendimento sobre o que vem a ser práxis nos ajuda a compreender melhor a lógica presente entre prática e teoria, na construção de uma realidade social capaz de gerar conhecimento, mas entendendo que a prática do jornalismo não pode e não deve existir sem a teoria, ou seja, a prática totalmente descolada da teoria, ao mesmo tempo em que somente a teoria, sem existir a prática, não produz os efeitos estudados e desejados. Sabemos, até de forma empírica que não existe atividade prática sem a teoria e a atividade teórica, simplesmente, nos apresenta apenas uma posição contemplativa e analítica sobre o fazer jornalístico. Quem nunca ouviu a frase “na prática, a teoria é outra”, em clara alusão ao distanciamento que existe, mas que não deveria existir. Desta forma, a práxis torna-se mediadora do pensamento ideal de como deve ser praticado o jornalismo e como o jornalismo diário, consumido por sua rotina, se afasta das teorias que o criaram e vive em uma “bolha”, prejudicial a sua função social. 2.1.1 O jornalismo feito no Brasil Em estudos anteriores conhecemos a origem lusitana do jornalismo e da imprensa brasileira, ao mesmo tempo em que, após a separação entre Brasil e Portugal, houve também a busca por uma identidade própria do nosso jornalismo. Este processo acabou desembocando parajornalistas e políticos, ou podemos dizer, mais políticos do que jornalistas, tornando-se, portanto, o pensamento fundador desta nova fase do jornalismo brasileiro impregnada por um sentimento de que o jornalismo e seu poder serviriam aos interesses dos grupos políticos e por consequência, das oligarquias que dominavam o país. Algumas vozes, como o jornalista, político e escritor Rui Barbosa se opuseram e viram nesta manobra uma clara tentativa de criar uma máquina de imprensa capaz de manipular, distorcer e produzir informações de acordo com seus interesses. Seu principal paladino, o baiano Rui Barbosa (1920), mostra-se indignado com as distorções praticadas pela nossa imprensa, corrompida pelos governos republicanos. Ele reitera o compromisso ético da profissão com o dever da verdade ao tecer um libelo contra a mercantilização dos jornais e o messalinismo dos jornalistas, na era Campos Salles [...] E trata também de lembrar que as epidemias de corrupção jornalística têm ilustres precedentes forâneos, demonstrando sua familiaridade com a literatura estrangeira (MELO, 2009, p,9). Outro momento importante para se pensar sobre o jornalismo praticado no Brasil foi durante o período de ditadura, em que o papel da imprensa passou a ser questionado não apenas pela sociedade, mas principalmente por jornalistas que passaram a sofrer censura, perseguição política ideológica e nos casos mais gritantes, pagar com a vida FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 21 por suas posições, como o jornalista Wladimir Herzog, assassinado a mando e pelo governo militar em 25 de outubro de 1975. Neste período vários nomes despontam na luta contra a opressão e na busca por um jornalismo independente. Destaque para o jornalista Alberto Dines, que não recuou em suas posições e buscou transformar o momento difícil em oportunidade de reflexão sobre o jornalismo pratica no país. Um dos críticos principais é o jornalista Alberto Dines, cuja reflexão densa, oportuna e instigante o aproximou naturalmente da universidade [...] quando, pressionada pelo governo militar, a direção da empresa o demite traumaticamente, ele decide fazer uma pausa em seu atribulado exercício profissional, escrevendo um livro antológico. Seu ponto de partida é a crise do papel, que abala a imprensa mundial, impondo mudanças radicais nas rotinas jornalísticas. Dines (1974) aproveita o ensejo para fazer uma revisão crítica do jornalismo brasileiro, pensando alternativas futuras em função de dois elementos: o contexto internacional e o cenário histórico brasileiro. No primeiro caso, ele se fundamenta em farta e atualizada bibliografia estrangeira [...] no segundo caso, recorre aos pensadores nacionais: aos mais antigos, como Alceu de Amoroso Lima, Carlos Rizzini ou Marcello de Ipanema, e aos seus contemporâneos, como Antônio Costella e José Marques de Melo, ou da profissão, como Samuel Wainer e Joelmir Betting (MELO, 2009, p,13). ISTO ESTÁ NA REDE Alberto Dines foi um dos mais importantes jornalistas e pesquisadores sobre o papel do jornalismo na sociedade. Deixou obras essenciais para debater os rumos da profissão e ao mesmo tempo o papel social que o jornalismo deve exercer. Foi crítico do distanciamento entre academia e redação e criou o Observatório da Imprensa, espaço destinado a discussão sobre jornalismo e jornalistas. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/desinformacao/combate-a-desinformacao-no-brasil-votacao-do-pl-2630-precisa-acontecer-este-ano/ http://www.observatoriodaimprensa.com.br/desinformacao/combate-a-desinformacao-no-brasil-votacao-do-pl-2630-precisa-acontecer-este-ano/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 22 Um pouco mais à frente, o jornalismo passa a conviver com uma sociedade mais urbanizada, a força dos sindicatos e a industrialização, o que acaba por transformar o resultado da produção jornalística em mercadoria. Segundo a jornalista e pesquisadora Cremilda Medina, o jornalismo passou a ser um produto à venda. Cremilda defronta-se com o processo de mutação do jornalismo na sociedade urbana e industrial, em que a notícia se converte ostensivamente em mercadoria, ou seja, “um produto à venda”. Para reverter esse quadro empobrecedor, a autora busca construir um modelo de análise da mensagem a partir da consciência do fazer jornalístico. Sem ilusões de alterar o sistema, ela trabalha com a “possibilidade de sistematizar os caminhos de aperfeiçoamento” (MELO, 2009, p,14). Já no início deste século XXI, as pesquisas se concentram em dois polos. Um trabalha pela busca de soluções para oxigenar e renovar o jornalismo brasileiro. E o segundo polo demonstra preocupação com a formação e legitimação acadêmica dos profissionais de jornalismo. Tudo isso atrelado aos impactos sofridos pela Mídias nos primeiros vinte anos deste século. Discussões como o jornalismo on-line, a digitalização do rádio e as mudanças advindas pela Internet, são alguns dos dilemas que povoam tanto as academias quanto as redações. Busca-se demonstrar, tanto dentro das faculdades e universidades, como nas redações, que a sociedade mantém a percepção do seu entorno e toma suas decisões, em muito amparada pelas informações que recebe da imprensa profissional, que atua como mediadora do pensamento médio dos cidadãos. Caso este equilíbrio seja rompido, as consequências podem ser danosas. Esta corrente emerge com a intenção de conquistar o lugar que historicamente cabe ao jornalismo no sistema nacional de ciência e tecnologia. Tendo surgido no espaço nacional como área específica do conhecimento há 60 anos, o jornalismo enfrentou o reducionismo que, nos anos de chumbo, o condenou a figurar como subárea do novo campo da comunicação social. Ameaçada de desfigurar-se tanto na arena profissional (pela iminência da abolição do diploma) quanto na acadêmica (pela tentativa de rebaixamento à vala comum das especialidades na árvore disciplinar irrigada pelo CNPq), a atividade jornalística vem sendo arregimentada pela sua vanguarda no sentido de demonstrar publicamente legitimidade ocupacional e científica. (MELO, 2009, p,19). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 23 Portanto, os desafios postos são enormes, pois as mudanças atuais afetam não apenas o faze jornalístico, a forma como a mensagem chega ao cidadão, mas reconfigura a sociedade e sua maneira de pensar e interagir com a notícia. Pede-se na atualidade um jornalismo mais presente, participativo e ao mesmo tempo multidisciplinar em suas abordagens. Não se pode tratar a notícia pela notícia em si, mas também suas complicações e consequências em todos os âmbitos sociais. Academia e redação precisam e devem atuar juntas no sentido de fazer com que o jornalismo, em sua prática diária de informar, possa também, avançar de forma interacional rumo aos questionamentos da atual sociedade, centrada na tecnologia, informação abundante e em alta velocidade. ANOTE ISSO 1000 Perguntas sobre Jornalismo – Felipe Pena fonte: (PENA, 2012, p,41) Com o que se preocupa o estudo sobre as notícias? O estudo sobre as notícias preocupa-se fundamentalmente com a produção jornalística, mas também envereda pela circulação do produto, a própria notícia. Esta, por sua vez, é resultado da interação histórica e da combinação de uma série de vetores: pessoal, cultural, ideológico, social, tecnológico e midiático. Com o que se preocupa o estudo sobre os efeitos das notícias? Os estudos sobre os efeitos das notícias podem ser divididos em afetivos, cognitivos e comportamentais, incidindo sobre pessoas, sociedades, culturas e civilizações. Mas também acabam influenciando a própria produção da notícia, em um movimento retroativo de repercussão. 2.1.2 Caminhos para uma mudança Quando falamos sobre repensar o jornalismo atual em busca de possíveis novos caminhos, uma primeira pergunta a fazerdeve ser - será que podemos repensar toda esta prática jornalística, sem incluirmos neste debate a teoria? O conceito de práxis não nos permite a separação entre as duas práticas, a acadêmica e a redacional. Para entendemos as engrenagens de uma redação, é preciso também dimensionar a força renovadora do pensamento acadêmico, agindo sobre o pensar, mas FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 24 também sobre o fazer jornalístico, para que de fato ocorram mudanças ou caminhos sejam apontados tanto para os atuais, como para os novos jornalistas. Para tanto, devemos pensar o jornalismo com suas diferenças, mas também com os elementos que unem suas práticas, sem comparações entre Mídias, mas sim compreendendo que tudo é jornalismo, seja em uma redação de jornal, emissora de rádio, TV ou jornalismo on-line. Para ajudar A entender melhor esta questão, LEAL (2014) traz uma interessante metáfora, da colcha de retalhos. Isso mesmo, aquela feita por sobras de tecidos os mais variados, criando um único mosaico, feito de pequenos pedaços, alguns maiores, outros menores, alguns vermelhos, outros verdes, alguns mais resistentes, outros frágeis, mas todos fazendo parte da mesma trama. Quando vistos de longe, formam uma única peça, o jornalismo, e quando visto em detalhes, suas diferenças e particularidades. Propomos pensar o jornalismo como uma grande colcha de retalhos, feito de pequenas partes e, sobretudo, dos diálogos possíveis entre elas. Não se trata, assim, de comparar uma e outra prática, um e outro produto, mas de compreender que há um universo de potenciais e efetivas relações entre tantos pequenos retalhos (LEAL, Et, al, 2014, p, 22). A metáfora da colcha de retalhos também nos mostra que, em jornalismo, dificilmente todos os assuntos são abordados por um único veículo e o próprio leitor/ouvinte/ telespectador recorre a sua colcha de retalhos em busca do pedaço que mais lhe agrada, ou seja, de quem lhe oferece as informações mais próximas. Não podemos falar completas, pois dificilmente é possível informar toda plenitude dos acontecimentos, mesmo sobre um único tema. Todo esse conjunto de normas se propõe a assegurar algo que é, por natureza, inviável: a tessitura proposta é aquela possível – ou a mais próxima do ideal – diante dos tecidos que lhe são oferecidos. Além de ter uma presença forte em nossa colcha imaginária, o retalho originário da grande imprensa nem sempre dá conta de reconhecer que há costuras, nós, avessos nessa amarração (LEAL, Et, al, 2014, p, 23). Para encerrarmos esta aula trazendo luz sobre a questão das práxis em jornalismo, vamos refletir sobre importantes considerações tecidas por HAUSER (2018): FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 25 Conclui-se que o conceito de crise do jornalismo se estabelece precisamente nesse vazio entre umas práxis [...] que possa solucionar os desafios da atividade no contexto das redes digitais. O vazio é, paradoxalmente, um espaço cheio de possibilidades – no qual o jornalismo poderá ser reinventado. Em que parâmetros? Isso, acredita-se, dependerá do investimento da pesquisa em jornalismo para reencontrar possibilidades de diálogo entre a teoria e a prática, formular novas teorias e, além disso, propor alternativas para elaborar o futuro a partir daquilo que a profissão tem de mais enriquecedor: a defesa da diversidade de possibilidades para a autoprodução humana na história. O contexto de crise do jornalismo é profícuo para pensar a sua reinvenção num sentido emancipatório porque enfraquece as instituições capitalistas que por muitos anos foram proprietárias dos principais meios de produção da notícia. As redes sociais digitais entram em cena para estabelecer novas disputas sobre a produção de informações e demonstrar que o jornalismo pode, em muitas frentes, se qualificar no contexto pós-industrial [...] se antes a notícia dependia, como qualquer outra mercadoria, dos donos dos meios de produção, hoje “a informação se desgarra do imperativo industrial. É através da potencialização da comunicação, dos afetos, do trabalho voluntário, dos movimentos de colaboração e das interações em redes que o jornalismo vai se transformando no contexto da cibe cultura (HAUSER, 2018, p, 21). Agradeço por nos acompanhar até aqui e fique atento. Na próxima aula trataremos sobre a importante questão envolvendo Jornalismo e Cidadania. Bons estudos. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 26 AULA 3 JORNALISMO E CIDADANIA A globalização caracteriza-se pela expansão dos fluxos de informações que atingem todos os países, afetando empresas, indivíduos e movimentos sociais. É a globalização um fenômeno inédito, que surge nas últimas décadas do século XX, trazendo consigo uma transformação fundamental no funcionamento das sociedades humanas? (BARBOSA, 2003, p, 20). https://media.istockphoto.com/vectors/election-news-seamless-pattern-vector-id677080130 Mesmo recente como profissão, o jornalismo como atividade é prática das mais antigas. Quando ainda viviam em cavernas ou em tribos, o homem sempre usou estratégias de comunicação para enfrentar inimigos ou animais, registrar sua passagem pelos lugares e repassar às novas gerações suas histórias. Estava desta maneira, orientando, informando e entretendo seus grupos. https://media.istockphoto.com/vectors/election-news-seamless-pattern-vector-id677080130 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 27 Este jornalismo pré-histórico tinha como função educar as futuras gerações, no sentido de ter vantagens contra seus inimigos, adquirir determinados conhecimentos e utilizar estas práticas a seu favor, de forma individual ou por determinados grupos. Com o passar dos séculos e o intercâmbio entre os povos, houve a necessidade de uma comunicação mais abrangente, não para determinados grupos, mas para toda sociedade. Nascia neste momento a figura do jornalista, pessoa preparada para produzir informações e distribuí-las as pessoas. Outros fatores como fortalecimento do poder político, grande mobilidade social e urbanização fizeram crescer o interesse público sobre o que acontece em todos os cantos do planeta, dando origem a uma necessidade social por informação. Quando a sorte do indivíduo depende mais da sorte da sociedade; quando a interdependência política, econômica e social se torna mais estreito quando o nível educativo e de cultura se eleva; a pressão nacional e internacional é mais forte e os vínculos primários se relaxam – o homem, isolado no seio de coletividades abstratas que se diluem nas massas ameaçado por todos os ângulos e, todavia, solidário com os seus semelhantes, conhecidos ou desconhecidos, próximos ou longínquos – este homem desumanizado e desarmado busca, no conhecimento dos acontecimentos, não só uma arma contra as ameaças senão também um refúgio contra o isolamento é o tédio. (BELTRÃO, 2006, p,15). O autor ainda nos apresenta três grupos de fatores que segundo seus estudos, trouxeram ao jornalismo este caráter de necessidade social, exigindo uma especialização maior dos jornalistas e empresas de comunicação. Listaremos a seguir os pontos mais importantes de cada um dos três fatores apontados. a) Ampliação e diversificação das atividades e aumento das populações: Quando o homem vivia em círculo estreito, dentro de um território limitado, poderia conhecer as crenças e procedimentos do pequeno grupo de suas relações [...] o crescimento da população foi ampliando este círculo de tal modo que o cidadão se tornou incapaz de obter, por si só, todos os dados de que necessita para promover o seu bem estar e movimentar-se com precisão no meio da coletividade [...] o direito à informação inclui o de apreciar se a escola que vão seus filhos é boa; [...] se os medicamentos que compra são eficientes [...] se o carro quemaneja está em boas condições para guiar; se a polícia é honrada e se os juízes são incorruptíveis. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 28 b) Incremento da mobilidade social e dos meios de comunicação: A descoberta e emprego de meios de transporte e de comunicação, que nos permitem operar mais longe e mais amplamente, se por um lado deu ao indivíduo possibilidades de maior acúmulo de conhecimentos, por outro lhe impôs maiores problemas e responsabilidades porque [...] tem somente 24 horas por dia para aprender todas as coisas de que necessitava saber há mil anos [...] não só estes meios estão capacitados a levar notícias mais longe e mais rapidamente como a mobilidade da comunicação favorece a colheita de notícias de lugares longínquos. c) Fortalecimento do poder político e desenvolvimento do interesse público: para defender-se da absorção, para não permitir que o poder político se torne um instrumento absolutista e despótico, para uma fiscalização eficiente das funções do governo e para não cair nas malhas da polícia e da justiça pela violação das leis – há que o indivíduo e a comunidade estarem em dia com os fatos e as ideias [...] em consequência desses fatores, os veículos de jornalismo precisam [...] que seja capaz de distinguir, na vertiginosa sucessão das ocorrências, aquelas de significação social que podem interferir mais ou menos fortemente na vida do cidadão comum e das quais precisa ser informado para sua segurança e desenvolvimento pleno de sua potencialidade e atividade pessoal. Fonte: BELTRÃO (2006, pp – 15-18) 3.1 Jornalismo, essencial à vida em sociedade https://cdn.pixabay.com/photo/2017/11/12/22/50/human-2944064_960_720.jpg https://cdn.pixabay.com/photo/2017/11/12/22/50/human-2944064_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 29 Jornalismo é, essencialmente informação. Antes de tudo, da literatura, da história, do passado ou do futuro, jornalismo precisa informar, trazer fatos atuais, que despertem o interesse do público e fale do momento, do hoje. Além disso, o jornalismo precisa mostrar a sociedade os impactos destas informações no seu dia a dia, em sua família, trabalho e relações. É preciso que os fatos sejam interpretados, trazendo a sociedade, além da informação, orientações e um direcionamento. Quando aumenta o combustível, a conta de energia, da água, do gás por exemplo, ou quando muda o preço da cesta básica, ou ainda, quando uma lei é aprovada no Congresso, quais serão os impactos sociais destas medidas, além da informação em si. Talvez esteja nesta constatação, aparentemente simples, de que jornalismo é antes de tudo, informação, a explicação do porque o jornalismo operar diariamente, atualizando os fatos a cada novo dia. Para que a sociedade seja informada periodicamente, construa suas interpretações e juízos de valor no desenrolar dos acontecimentos, sem perder um detalhe da notícia e construindo uma narrativa social. 3.1.1 orientar a opinião pública O jornalismo é exercido pela difusão do conhecimento e valendo-se de recursos técnicos disponíveis, o objetivo principal do jornalismo deve ser sempre levar orientação a opinião pública. A sociedade deve valer-se desse expediente, ao mesmo tempo em que se busca promover o bem comum de todos os cidadãos. Jornalismo é informação de fatos correntes, devidamente interpretados e transmitidos periodicamente a sociedade, com o objetivo de difundir conhecimentos e orientar a opinião pública no sentido de promover o bem comum (BELTRÃO, 2006, p,30). Além das características próprias do jornalismo, atuando nas modalidades oral, visual e auditiva, existem alguns elementos que precisam estar presentes nas publicações jornalísticas, para que o objetivo de alcançar o máximo de pessoas seja alcançado e se consiga cumprir a função social de informar. BELTRÃO (2006) destaca o que ele chama de atributos necessários a prática jornalística e para que uma publicação seja considerada veículo de jornalismo. Segundo o autor são seis estes atributos: FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 30 1. Atualidade – jornalismo é a informação de fatos correntes, isto é, de fatos atuais. O passado pertence a História; o jornalismo vive do quotidiano, daquilo que passa agora procurando extrair do fato registrado aquilo que nele há de substancial, de perene, de notável, mesmo que essa substância logo se esvaia e essa perenidade valha, apenas, por alguns dias ou horas. A atualidade jornalística, porém, não se limita ao que ocorre sobre a marcha do tempo[...], mas também ao que, tendo sucedido, atua sobre a consciência do hoje, ao que é oportuno para ser narrado, dito, comentado ou feito agora. Esse aspecto da atualidade jornalística, que concilia o presente com o passado e o futuro, é o que assegura ao jornalismo um caráter de permanência. 2. Variedade - o jornalismo tem como finalidades essenciais informar, orientar e entreter o cidadão que busca [...] informar-se do novo, do imprevisto, do original e, através ou por causa do jornalismo, recordar do passado, do já sabido, do quase perdido nos arcanos da memória[...] os fatos em que se baseia a obra jornalística, aqueles que, por suas características e conteúdo despertam o interesses humano ou a atenção da coletividade, não são exclusividade de um determinado setor, de uma única pessoa, de um agrupamento, de uma classe ou país. Para transformar estes fatos em notícias encontra-los onde quer que residam [...] porque o jornalismo deve ser a mais completa síntese de tudo quanto interessa e reclama o organismo social. 3. Interpretação – os fatos, transformados em notícia ou comentário, não são divulgados no jornal sem um prévio exame por parte do agente de jornalismo. Ao jornalista compete julgar a sua importância, analisá-lo, sintetizá-lo, escolher e divulgar [...]de modo que cheguem ao leitor devidamente interpretados. A mera informação, sem um juízo que a valorize e interprete, faria o jornalismo sem sentido, sem ordem nem harmonia, deixando ao leitor o pesado encargo de procurar as razões e consequências do que acontece. A informação jornalística, porém, difere substancialmente da histórica [...] requerendo não somente bom senso, honestidade, cultura e imparcialidade por parte do agente como uma excepcional aptidão para aprender o centro de interesse [...] o núcleo do fato ou da matéria que irá utilizar. 4. Periodicidade – quanto à periodicidade, esta é a menos subjetiva, a mais formal das características do jornalismo, pois diz respeito aos intervalos em que se registram as suas manifestações. Sem a regularidade e constância das suas aparições, os veículos de comunicação e informação não atingiriam suas finalidades sociais. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 31 5. Popularidade – a popularidade está ligada substancialmente ao problema máximo do jornalismo: o seu livre exercício e a sua capacidade de influir na opinião pública. O jornalismo deve servir a comunidade em que exerce, exprimindo os seus ideais, contribuindo para a realização das suas causas e soluções dos seus problemas e conflitos, advertindo-a dos seus erros e apontando-lhe os caminhos certos para o êxito dos seus empreendimentos. É uma instituição social majoritária e não de grupos ou minorias. Até mesmo práticas jornalísticas especializadas existe este propósito, pois a busca também é para atingir e beneficiar integrantes da sociedade. 6. Promoção – o jornalismo, como qualquer instituição humana, está sujeito a erros e imperfeições. Mas, se uma imprensa livre, rapidamente os identifica e corrige, sob pena de cair em descrédito perante a opinião pública. Justamente porque suas informações e conceitos são desprovidos de caráter imperativo, do poder de decisão e porque nascem do contato com a realidade quotidiana, e da captaçãode ideias e ideais da comunidade – é que o jornalismo desempenha missão política e social de elevada importância, servindo de meio de expressão à opinião pública [...] não compete ao jornalismo executar o bem comum, mas advertir e orientar a opinião para que esta, informada e consolidada, o realize. Fonte: BELTRÃO (2006, pp – 30-35) ISTO ESTÁ NA REDE Um excelente site para pesquisar sobre o tema é a Revista Eletrônica Jornalismo e Cidadania, do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade | Programa da Pós- graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco - PGCOM/UFPE: Fonte: https://issuu.com/revistajornalismoecidadania/docs https://issuu.com/revistajornalismoecidadania/docs FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 32 3.2 A força da informação local e regional Nas últimas décadas passamos a ter acesso às informações praticamente em tempo real. Não apenas relatadas, mas transmitidas ao mesmo tempo em que acontecem, diminuindo fronteiras e trazendo de fato a Globalização para dentro de nossas residências, por meio das tecnologias de comunicação. Se por um lado podemos acompanhar ao vivo o desenrolar de uma guerra, a assinatura de um acordo de paz entre as nações e um show musical no meio do deserto, queremos também que os fatos que acontecem ao nosso redor sejam transmitidos de forma rápida, se possível no momento em que acontecem. Ao levarmos em conta critérios de noticiabilidade e valor notícia, estudados em disciplinas anteriores, perceberemos que as notícias mais próximas são aquelas que conseguem despertar maior interesse e cativar o cidadão. Importa mais saber sobre o buraco na rua, a lâmpada queimada, a falta de energia elétrica ou de água, do que a crise diplomática entre Estados Unidos e China, a erupção de vulcões na Europa ou a falta de vacina no continente Africano. Não que sejamos insensíveis aos dramas das pessoas, ou que os problemas internacionais não afetem nossas vidas, mas os problemas locais estão a nossa frente todos os dias, na nossa porta, no trabalho, na padaria, nos almoços em família e dizem respeito a nossa realidade como sociedade. Por este motivo, mesmo com toda proximidade trazida pela tecnologia, o cidadão não deixará de ter interesse pelos fatos da sua cidade e região, e exigirá que a maneira de ser informado também evolua, torne-se mais presente, rápida e dinâmica, se possível como acontece em eventos a milhares e milhares de quilômetros de sua casa. 3.2.1 de qual região estamos falando Quando falamos em informação local e regional, torna-se importante salientar que o conceito de região desenvolvido pela mídia, nem sempre é o mesmo conceito de região que desenvolve órgãos governamentais, por exemplo. Divisões políticas e administrativas nem sempre correspondem a divisão feita pela mídia, quando busca trabalhar a informação. Pode existir em determinada região as divisões feitar por departamentos ou diretorias de Saúde, Educação, Segurança Pública, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, que provavelmente não serão as mesmas divisões e subdivisões elaboradas pela mídia. Por isso, quando falamos da força midiática ou de informação de uma determinada região, é preciso atentar para quais cidades ou bairros, de fato, fazem parte da região de influência de determinadas mídias. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 33 Em algumas regiões, as TVs afiliadas, por exemplo, agregam suas regiões de acordo com dados comerciais e de abrangência do sinal de retransmissão, independentemente de quais regiões administrativas e políticas fazem parte. O mesmo acontece com emissoras de rádio, que concentram suas regiões de audiência de acordo com a presença do sinal de suas antenas, chegando as residências, que podem ser diferentes das regiões administrativas, políticas e também diferentes das afiliadas de TV. Um amplo panorama das minirregiões midiáticas está contido no estudo comparativo A imprensa brasileira no final do século (1998). Ele inventaria os perfis editoriais de uma amostra representativa dos jornais diários que circulam nos municípios do Estado de São Paulo. Trata-se de um segmento da mídia bastante fortalecido, numa conjuntura de crise da indústria jornalística, justamente pela sua aderência ao espaço minirregional em que se localiza. Sem perder de perspectiva os signos que fluem dos espaços macrorregionais, nacionais ou globais, a maioria desses veículos assume fisionomia explicitamente glocal, coexistindo com uma parcela que ainda cultiva uma identidade municipalista (MELO, 2009, p, 55). Abaixo temos a capa de uma edição online de O Jornal da Cidade, de Marília-SP, que apresenta as principais notícias da cidade. https://jcmarilia.com.br/category/cidade/ https://jcmarilia.com.br/category/cidade/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 34 Ao mesmo tempo o informativo trata sobre cidades que fazem parte da região e que por serem municípios menores, não possuem veículos de comunicação com notícias locais, e são informados por meio da imprensa de cidades maiores pertencentes ao seu entorno. https://jcmarilia.com.br/category/regional/ Este exemplo nos mostra que mesmo com toda tecnologia a disposição da imprensa, comunicação em tempo real, informação sem fronteiras por meio da Internet, o dia a dia do cidadão é na cidade, nos bairros, nos distritos, onde a grande imprensa não chega com tanta participação, e, mesmo que chegasse, não conseguiria informar com a mesma sintonia de quem vive o dia a dia destas cidades e regiões. 3.2.2 Cobertura dos serviços públicos com ética Outro grande e importante diferencial que existe quando falamos em jornalismo regional e local é a cobertura da imprensa sobre os chamados serviços públicos. https://jcmarilia.com.br/category/regional/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 35 Segundo BELTRÃO (2006, p, 107), “dia a dia cresce a interferência do poder público na vida e atividade dos cidadãos [...] e igualmente se desenvolve o interesse dos leitores/ouvintes/telespectadores pela deliberações governamentais, leis, posturas e regulamentos”, diz, reforçando que os cidadãos esperam, portanto, que a imprensa, a mídia local repercuta e informe sobre estes acontecimentos. Devido a isso, quase que diariamente, prefeito, vereadores, secretários, diretores e integrantes de escalões de prefeitura e câmara municipais encontram-se com membros da imprensa local em eventos, solenidades e coberturas jornalísticas. Querendo ou não, o contato diário acaba por criar uma proximidade destes agentes com a imprensa, o que pode facilitar e ajudar o trabalho dos jornalistas, mas por outro lado trazer alguns problemas. As vantagens são inúmeras, pois os agentes públicos são facilmente encontrados, respondem as ligações ou mensagens e os temas e assuntos tratados, quase sempre são de conhecimento dos jornalistas ou foram passados com antecedência. Este contato também ajuda entrevistas mais longas, permite abordar outros temas que não apenas os de momento e traz ao jornalista uma interação profissional que dificilmente conseguiriam cobrindo serviços públicos em cidades maiores. Já os problemas podem estar nas relações que se criam, quando os agentes públicos buscam, por meio desta certa “intimidade”, ou proximidade com os donos dos veículos locais, ter sempre matérias positivas ao seu trabalho, buscando esconder o que consideram prejudicial a imagem das administrações públicas. Importante frisar também que esta proximidade não pode transformar a imprensa em mero veículo de reprodução do discurso destes órgãos, é preciso linha editorial independente, como bem salienta o autor. Isso não quer dizer que a imprensa deva se transformar em concorrente do Diário Oficial”, publicando os despachos das repartições, ocupando espaços inteiros commatérias que interessam a pequenos grupos de pessoas. Isso torna a imprensa local realmente prolixa, deserto de iniciativas, afogada numa onda de deferimentos. O jornalista consciente, diante da matéria rotineira que recebe, há de procurar selecionar aquelas que façam saltar as fagulhas do interesse público. (BELTRÃO, 2006, p, 107). 3.2.2.1 Relação com as assessorias de imprensa Outro aspecto que diferencia o jornalismo local e regional é a relação dos jornalistas dos veículos de comunicação com as assessorias de imprensa ou comunicação dos órgãos públicos locais. Formada por profissionais de comunicação, quase sempre FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 36 jornalistas, capacitados e qualificados, esta relação torna-se ao mesmo tempo próxima e profissional, o que contribui para os dois lados. Muitos jornalistas que ocupam cargos em assessorias nas pequenas e médias cidades já ocuparam lugares também nos veículos de imprensa e jornalistas contratados pelas mídias locais, também já trabalharam por determinados períodos em assessorias. Esta mediação feita por jornalistas entre o poder público e a sociedade é um modelo que o Brasil implantou com sucesso e hoje ajuda a transformar em uma linguagem simples e acessível à toda população, o emaranhado de leis e códigos existentes na administração pública, como esclarece o autor abaixo. O Brasil construiu um modelo singular de comunicação entre as empresas, o governo, os movimentos populares e a sociedade civil, mediado pela mídia, cuja eficácia profissional conquista inegável credibilidade pública. O segredo do sucesso está́, sem dúvida, na escolha dos agentes mediadores. Enquanto nos países metropolitanos os profissionais da persuasão (publicitários, mercado logos ou relações públicas) se interpõem entre os jornalistas e as fontes noticiosas, essa função tem sido aqui desempenhada pelos profissionais da informação. São jornalistas que se colocam do outro lado do balcão, na tentativa de facilitar o trabalho de apuração dos acontecimentos. (MELO, 2009, p,235). ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Mesmo estando há décadas ocupando cargos em assessorias, jornalistas ainda são questionados se estão fazendo jornalismo. O Portal Comunique-se traz luz a este instigante debate. Vale muito a leitura desse artigo disponível na internet. https://www.comunique-se.com.br/blog/afinal-assessor-de-imprensa-e-jornalista/ https://www.comunique-se.com.br/blog/afinal-assessor-de-imprensa-e-jornalista/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 37 AULA 4 IMPRENSA X EMPRESA Mas é você que ama o passado E que não vê, É você que ama o passado E que não vê Que o novo sempre vem (Como Nossos Pais – Belchior, 1976) https://cdn.pixabay.com/photo/2021/10/10/18/59/online-6698352_960_720.png Como diz o cantor e compositor Cazuza, em uma de suas mais famosas músicas, “O tempo não para”. Sobre o tempo, Caetano Veloso também escreveu, na música Força Estranha que, “O tempo não para, e, no entanto, ele nunca envelhece”. Estas duas frases nos mostram como o passar dos anos é cruel para o que já se estabeleceu, pois, quando tudo parece acomodado, surge o novo e reorganiza a ordem das coisas. Está sendo assim com o jornalismo, após o surgimento da Internet e a chamada revolução tecnológica e de comunicação. Está sendo assim com o modelo de negócios da Mídia, as narrativas e o monopólio da notícia. Com sua longa experiência em jornalismo e na produção diária de notícias, DINES (2009) já antevia esta revolução. https://cdn.pixabay.com/photo/2021/10/10/18/59/online-6698352_960_720.png FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 38 A história se altera em movimentos pendulares e a comunicação se desenvolve, ao longo dela, de forma idêntica [...] aplicando-se o princípio do desenvolvimento pendular à comunicação, percebem-se nele tempos distintos: O primeiro ocorre quando se inventa ou se aperfeiçoa um veículo; nesse momento ele é seletivo, porque desconhecido. Depois de divulgado o seu uso, torna-se massificado para, finalmente, em nova fase, e evitando o desgaste, acomodar-se e conter-se outra vez [...] assim, cada veículo começa de forma restrita pelo simples fato de apresentar a introdução de nova tecnologia, desenvolve-se até converter-se, pelo uso, em veículo de massa para, depois, buscar audiências novamente restritas e dirigidas, porque o homem sempre procura uma forma singular de existir dentro do grupo [...] Acontece com a comunicação o mesmo que ocorreu com outras tecnologias, como a aviação, que nos seus setenta anos de existência sofreu alterações mais radicais do que o navio nos seus milênios de vida (DINES, 2009, p, 59). Por isso, para sobreviver e manter-se, credibilidade é palavra central para a imprensa. E existem inúmeros fatores para atestar e explicar a credibilidade de um veículo de comunicação. Podem ser fatores subjetivos, culturais ou conjunturais, levando-se em conta momentos por que passa a sociedade e sua relação com o jornalismo. Mas é inegável que produzir conteúdo confiável e correto torna-se, além de obrigação e eticamente desejável, premissa que garante a confiança da sociedade em um veículo de comunicação, transformando esta confiança em respeito e novos leitores, ouvintes e telespectadores. Segundo ZANCHETTA (2004), existem procedimentos específicos adotados pela imprensa visando a conquista de respeitabilidade, novos consumidores e anunciantes, que segundo o autor, são elementos imprescindíveis para independência da linha editorial e obtenção de mais recursos por meio dos anunciantes: a) Utilização de estratégias de comunicação que conferem objetividade às informações; b) Abrangência, atualidade, dinamismo e atenção diante de um universo amplo de questões sociais; c) Simultaneidade, ou seja, sugerir que o veículo de comunicação dispõe das informações possíveis acerca dos fatos; d) Imparcialidade - há necessidade de apresentar distanciamento, observando e dando espaço aos diversos agentes ou ângulos que interferem em determinado fato; e) Concretude – a seleção de elementos para compor as notícias mostra-se desapaixonada e ancora-se em dados e aspectos visíveis, concretos, de algum modo observáveis; FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 39 f) Apuro na linguagem – mantem-se a ideia clássica de que a expressão em linguagem culta é prova da correção da própria mensagem; Fonte: ZANCHETTA, 2004, p, 12-13 Para o jornalista Alberto Dines (2009), a relação entre jornalistas e empresa jornalística era diferente, pois o diretor ou proprietário de um veículo de comunicação era jornalista, o que, segundo o autor, facilitava o trânsito entre linha editorial, departamento financeiro e independência. Com o passar do tempo Dines vê cada vez mais o empresário ocupando o lugar do jornalista nas tomadas de decisões. “Até poucos anos atrás, o diretor proprietário do jornal era jornalista, o que facilitava ou até mesmo dirimia a questão, pois a prioridade era naturalmente concedida a criação de um grande órgão, ainda que as finalidades posteriores pudessem ser, para alguns, menos límpidas. Hoje, com as vultosas somas que envolvem o empreendimento jornalístico, ou por uma questão de sucessão, a nova liderança nos empreendimentos jornalísticos passa a ser assumida pelo “empresário” de comunicação. (DINES, 2009, p,125). 4.1 Financiamento Como dissemos anteriormente, para que existam níveis maiores de independência jornalística e editorial, é preciso também que exista independência, ou no mínimo, estabilidade financeira, no sentido de consolidar as boas práticas jornalísticas. Segundo o professor Mário Messagi Junior, da Universidade Federal do Paraná (Portal Imprensa, https://portalimprensa.com.br, 2020), “O jornalismo no Brasil [...] sempre manteve relação com o poder estatal,como principal fonte de financiamento. Veículos brigam por subsídio e governos brigam por espaço na mídia, em uma relação que [...] precisa ser urgentemente combatida”. A expressão homem de negócios passou a fazer parte da rotina das redações e direção das empresas de comunicação, trazendo ao setor uma nova realidade, que para muitos tornou-se prejudicial ao segmento, colaborando também, ao lado do surgimento da internet e novas tecnologias de comunicação, por instaurar uma crise internacional da mídia, perceptível de forma mais clara na virada do século XX para o XXI. Buscando reconquistar parte da credibilidade perdida por tantas mudanças e interferências externas e a concorrência proporcionada pela Internet, o jornalismo inicia este novo século buscando nas origens do jornalismo, na raiz do que deve permear https://portalimprensa.com.br FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 40 sempre a comunicação, a essência da relação entre jornalismo e sociedade. Segundo DINES (2009), o segredo pode estar em os grandes, olharem para os pequenos, onde a proximidade com seu público e a sociedade continua presente e ativa. O crescimento empresarial e comercial, e a conquista de prestígio por parte de empresas de comunicação e os próprios jornalistas precisa ser visto com cautela, pois ao mesmo tempo em que se conquistam espaço e respeito junto a sociedade, tudo pode ser perdido pela proximidade com o poder, a vaidade e as tentações. Um grande jornal sempre deve comportar-se como se fosse um pequeno jornal. Não apenas por uma questão de humildade, mas também em função da preservação de seus princípios. Se um dirigente de jornal, ou alguém do escalão que o represente disser, em tom de desculpa: “ afinal, há grandes interesses em jogo...”, podemos concluir que estamos num grande jornal que já se esqueceu dos dias em que foi pequeno. O mesmo processo ocorre dentro de uma empresa jornalística. Enquanto pequeno e ágil, todos dentro do jornal lutam para conquistar novas posições e, assim, o empreendimento se desenvolve e projeta. Mas quando o destaque é alcançado, amarram-se ao imobilismo, pois ninguém quer arriscar as posições conquistadas (DINES, 2009, p, 126). 4.1.1 Modelo de negócio Com tantas mudanças trazidas ao jornalismo nas últimas décadas, seria inevitável que o modelo de negócio do jornalismo também fosse afetado, desestabilizando um certo equilíbrio existente e sedimentado. Na busca por reconquistar espaço editorial, financeiro e audiência, muitas estratégias são tentadas, mas é importante que se busca uma forma que, além de tornar o negócio jornalismo rentável novamente, se mantenham os valores da instituição e a relação de credibilidade que deve existir com a sociedade. Outro ponto importante é que os órgãos ou veículos de comunicação precisam permanecer sob comando e orientação de profissionais do jornalismo, resistindo as facilidades que podem advir de uma transformação do veículo em instituição de informação, misto de imprensa oficial com jornalismo “chapa branca”. A crise do modelo de negócio passa pela forma como o jornalismo tradicional se financia, pois, a publicidade das empresas começa a buscar novos caminhos, com maior autonomia para investir em publicidade própria, sem precisar atrelar este modelo ao modelo do jornalismo tradicional. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 41 Por outro lado, a imprensa, como a televisão por exemplo, que tem sua programação exibida em grade fixa, com horários pré-determinados, enfrenta a maior liberdade proporcionada pela internet, onde o cidadão escolhe como e quando interagir e assistir seus programas. O modelo tradicional, que buscou subsidiar para os consumidores seu conteúdo por meio da publicidade e financiamento público, tornando acessível a milhões de pessoas, por preços baixos ou até de forma gratuita o consumo do jornal, revistas, TV aberta e a programação de rádio começa a ser repensado. O impresso, circulando cada vez mais on-line, abandonou o meio físico do papel e busca, através da internet e suas plataformas, manter o espaço publicitário e de audiência conquistado há pelo menos um século. Segundo dados do site Consultor Jurídico, a “Circulação de jornais impressos no Brasil teve queda de 13,6% neste ano de 2021” (https://www.conjur.com.br/2021- nov-08/circulacao-jornais-impressos-pais-queda-136-2021). Em uma reportagem sobre o assunto, com base no IVC, o site selecionou dez dos principais veículos de comunicação do país — Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, Super Notícia (MG), Zero Hora (RS), Valor Econômico, Correio Braziliense (DF), Estado de Minas, A Tarde (BA) e O Povo (CE) — para fazer um diagnóstico da situação do jornalismo impresso brasileiro e constatou que o quadro é dramático. https://www.conjur.com.br/img/b/grafico-poder-360.jpeg O site destaca por exemplo o Super Notícia, líder em tiragens, com média diária de 80.608 exemplares e que teve uma queda de 19% entre as publicações pesquisadas. Outro exemplo é A Folha de S. Paulo, que imprime atualmente 55.373 exemplares por dia e que em épocas anteriores, superou 1 milhão de exemplares aos domingos. https://www.conjur.com.br/2021-nov-08/circulacao-jornais-impressos-pais-queda-136-2021 https://www.conjur.com.br/2021-nov-08/circulacao-jornais-impressos-pais-queda-136-2021 https://www.conjur.com.br/img/b/grafico-poder-360.jpeg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 42 Por outro lado, é possível enxergar uma luz no fim do túnel, com o crescimento da circulação on-line. Segundo dados analisados também pelo site Consultor Jurídico, os números são os seguintes: Um consolo para as empresas de comunicação é que os efeitos dessa queda na circulação dos jornais são amenizados pelo crescimento do consumo das versões digitais dos veículos. A subida foi de 6,4% em setembro, em comparação com dezembro de 2020. No ranking de assinaturas digitais pagas, a Folha é a líder, com 302.880, seguida por O Globo, com 301.779 — esses jornais cresceram 8,9% e 14,5% neste ano, respectivamente. Na lista de circulação total, em que são somados os leitores das versões impressa e digital, O Globo é o líder, com 372.061 assinaturas. Até o ano passado, a Folha (358.253) era a primeira colocada nesse quesito (https://www.conjur.com.br/2021- nov-08/circulacao-jornais-impressos-pais-queda-136-2021). https://www.conjur.com.br/img/b/grafico-poder-3601.jpeg Olhando para estes números, de queda na circulação, é preciso pensar também que a preocupação de hoje não deve ser apenas com a liberdade de imprensa, mas também a liberdade das empresas, em manter-se viáveis comercialmente. O modelo atual é um modelo de negócio que se desenvolveu subsidiando o jornalismo por verbas publicitárias e verbas públicas, proporcionando grandes tiragens e audiência, com valor baixo para o público. O momento agora é de buscar manter a autonomia empresarial, mantendo também a estrutura. https://www.conjur.com.br/2021-nov-08/circulacao-jornais-impressos-pais-queda-136-2021 https://www.conjur.com.br/2021-nov-08/circulacao-jornais-impressos-pais-queda-136-2021 https://www.conjur.com.br/img/b/grafico-poder-3601.jpeg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 43 O problema dos compromissos públicos de um jornal leva a análise de sua organização interna. Um jornal isento e independente pressupõe uma estrutura interna harmônica e liberal, sobre o qual pode ser apoiada essa atitude [...] até a década de 1950, no Brasil, o sistema dominante era o do jornalista-proprietário da empresa, mola central do processo jornalístico. A exceção surgia nos casos em que os proprietários mais ligados à atividade política ou econômica delegavam o comando a um profissional (DINES, 2009, p, 128). Hoje a situação é outra, pois vemos muitos financiadoresdo jornalismo com potencial para fazer jornalismo dentro de suas próprias empresas, dar visibilidade ao que produzem, sem precisar de jornal, rádio ou televisão. ISTO ESTÁ NA REDE A pesquisa completa sobre o mercado de circulação de jornais durante o ano está no site do Poder 360. Vale a pena conhecer os números. Fonte: https://www.poder360.com.br/midia/jornais-tem-alta-de-64-no-digital-e-queda-de-136-no-impresso-em-2021/ https://www.poder360.com.br/midia/jornais-tem-alta-de-64-no-digital-e-queda-de-136-no-impresso-em-2021/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 44 O monopólio da notícia que a mídia tradicional tinha, de dar visibilidade do mundo ao que desejasse foi extinto a partir do momento em que houve o fim do monopólio sobre as estruturas necessárias para massificar produtos e pessoas. Grandes parques gráficos, estúdios, antenas e equipamentos não são mais necessários para que se faça jornalismo de qualidade, em tempo real, por todo o mundo e para todas as pessoas. Hoje as pessoas precisam do mínimo de estrutura para ocuparem os espaços públicos e manifestarem suas opiniões e isto faz com que as empresas também apostem em suas próprias estratégias de comunicação, sem precisar mostrar a sociedade seus produtos por meio da mídia tradicional. Esta mudança de postura, investindo em marketing e publicidade direta está causando enormes problemas financeiros para as empresas jornalísticas, tanto devido à concorrência de quem antes eram seus parceiros, como pelo surgimento de novos canais e plataformas de comunicação surgidos da própria sociedade, com linguagem própria, muitas vezes mais próxima da sociedade. Isto tudo mostra que o modelo tradicional de financiamento do jornalismo, seja no meio impresso, televisivo ou radiofônico precisa se reinventar como modelo de negócio, ao mesmo tempo em que precisa voltar a se reconectar com a sociedade, para que não perca também o protagonismo da informação. Como descobrir um novo modelo de negócio para o jornalismo, para a mídia tradicional é a questão que se põe e irá exigir muito esforço dos detentores do poder midiático e dos profissionais de comunicação, marketing, publicidade e especialmente jornalistas. ANOTE ISSO 1000 Perguntas sobre Jornalismo – Felipe Pena fonte: (PENA, 2012, p,206) Qual seria a revolução do jornalismo digital? Para o professor Antônio Fidalgo, catedrático da Universidade da Beira Interior, em Portugal, estamos presenciando uma nova sintaxe das notícias, organizadas em níveis de profundidade a partir do hipertexto e influenciadas pelas bases de dados. O que Pierre Lévy diz sobre o jornalismo digital? O professor Pierre Lévy, um dos mais importantes teóricos sobre ciber-cultura do mundo, diz que os jornalistas são dispensáveis no universo digital, pois qualquer pessoa pode produzir informações. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 45 As potencialidades do jornalismo digital estão sendo superestimadas? Sim. Há certo exagero nas potencialidades dá área. Claro que a internet revoluciona a atividade jornalística, mas daí́ a acreditar que o jornalista é um ser dispensável e as novas tecnologias acabarão de vez com as barreiras de tempo e espaço, produzindo uma sociedade que os teóricos chamam de pós-humana, já́ é demais. Caros alunos, chegamos ao final desta aula e desta primeira unidade. Esperamos que tenham aproveitado ao máximo. Agora completem o aprendizado assistindo às vídeo-aulas e realizando as atividades, que ajudam na fixação e entendimento do conteúdo passado. A partir da próxima aula daremos início a Unidade 2, com o tema: Sobre o Jornalismo, as notícias e a Mídia. Abordaremos nesta unidade quatro tópicos extremamente importantes: Impresso, televisivo, radiofônico ou eletrônico. É tudo um mesmo jornalismo?; Quem consome tantas notícias?; De quem é a fala no jornalismo; Tudo é notícia, tudo vira notícia. Até a próxima aula! FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 46 AULA 5 IMPRESSO, TELEVISIVO, RADIOFÔNICO, ELETRÔNICO. É TUDO UM MESMO JORNALISMO? O planeta mídia está sofrendo um traumatismo de amplitude inédita. O impacto do “meteorito internet”, semelhante àquele que fez desparecer os dinossauros, tem provocado uma mudança radical em todo o ecossistema midiático [...] a digitalização do mundo está transformando rapidamente o biótipo informacional (RAMONET, 2012, p,15). https://cdn.pixabay.com/photo/2021/11/11/16/10/question-mark-6786623_960_720.jpg A sociedade se apropriou do jornalismo, e isto é muito bom. Nunca tivemos na história da imprensa brasileira tantas pessoas produzindo conteúdo, buscando comunicar-se com outras pessoas das mais variadas formas. O jornalismo deixou de ser exclusividade de uma empresa de comunicação, rádio, TV, jornal ou revista, para tornar-se elemento de interação social, o que também é positivo, apesar da qualidade de muito do que se produz com o rótulo de “jornalismo”, seja questionável em vários aspectos. https://cdn.pixabay.com/photo/2021/11/11/16/10/question-mark-6786623_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 47 O jornalismo é hoje uma atividade onipresente: está em toda parte, em todos os momentos, ocupa todas as dimensões do cotidiano. Nunca esteve tão vivo e ativo. Basta verificar a proliferação de emissoras de notícia 24 horas (rádio e TV) ou a multiplicação de sites, blogs e redes de informação e de mobilização social. Estamos imersos no jornalismo. Ele se apoderou de nós. O jornalismo é a cultura da vida pós-moderna (LEAL, et. Al, 2014, p,9). Outro ponto a se ressaltar é que, devido a explosão de possibilidade trazidas pela Internet e as novas ferramentas de comunicação, o modo como se comunica e as estratégias nem sempre são corretas, adequadas e o que é mais preocupante, verdadeiras. Pessoas e grupos se utilizam das facilidades proporcionadas por este momento para colocar em prática o que já dizia há décadas o Velho Guerreiro Abelardo Barbosa, o Chacrinha – “eu vim para confundir e não para explicar”. Estas mudanças nos mostram que é preciso ter um novo olhar sobre o jornalismo, debater quem são os produtores e também os consumidores de informação, e perguntar – quem são estas vozes que nos falam atualmente por meio dos telejornais, sites, blogs, jornais? Precisamos repensar também, até que ponto alguns conceitos tidos como canônicos para o jornalismo, não os são mais, ou não ocupam mais os mesmos espectros de importância no mundo do jornalismo. Mas, antes de tudo, é preciso também muita calma e discernimento para analisar o que ocorre hoje. Isso não significa que as empresas jornalísticas tenham perdido sua centralidade na produção da visibilidade, nem que tenham perdido a hegemonia do fazer jornalístico. Significa apenas que o campo está cada vez mais tensionado. O jogo de interesses parece ter se tornando mais público, e as empresas, mais permeáveis. Em seu processo produtivo, o jornalismo profissional necessita hoje fazer mais concessões e negociações (LEAL, et. Al, 2014, p,10). Ao nos depararmos com estas questões também nos surgem novas perguntas como – tudo que lemos, ouvimos e assistimos é um mesmo jornalismo? Impresso, televisivo, radiofônico ou eletrônico estão misturados e no fundo, precisam ser diferentes? Quais são os pontos de convergência e quais os elementos particulares de cada mídia que ainda resistem a integração das linguagens e das redações. Estas perguntas e tantas outras sobre jornalismo surgiram após a criação da internet, que oferece aos usuários a experiência de um único ambiente (celular, tablete, computador) para circulação, recepção e consumo de informação, provocando uma revolução no campo do discurso jornalístico. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 48 O fatode não ser preciso mais folhear um jornal ou revista, ligar o rádio ou a TV para consumir informações, seja com imagem ou apenas áudio fez com que as atuais e as novas gerações de usuários indaguem – o que é ter cara de jornal nos dias atuais?; qual a linguagem direta e objetiva dos noticiários radiofônicos, ou qual a simbiose entre texto e imagem. Indagações como estas já surgiam quando o modelo impresso dava os primeiros sinais de estagnação em suas tiragens. No livro O Destino do Jornal, o jornalista Lourival Sant´Anna traz o depoimento de um diretor (publisher) do jornal americano The New York Times, já antevendo as mudanças provocadas pela Internet e a convergência midiática. Jornais (newspapers) não podem ser definidos por sua segunda palavra – papel (paper). Eles têm de ser definidos pela primeira – notícia (news). Todos nós devemos os tornar agnósticos em relação ao método de distribuição. Temos de ser tão fortes on-line, tão fortes na TV e no rádio, como somos em notícia impressa (...) não me importa quando rodaremos nossa última edição de notícia impressa. Continuaremos sendo a grande fonte de notícias e informação neste país e talvez no mundo. Vamos fazer na web. Vamos fazer na televisão. Vamos fazer no impresso (SANT´ANNA, 2008, p,25). 5.1 Preferências https://cdn.pixabay.com/photo/2019/11/08/07/50/away-4610699_960_720.jpg https://cdn.pixabay.com/photo/2019/11/08/07/50/away-4610699_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 49 Quando falamos sobre crise de identidade, não estamos falando apenas sobre o produto jornalístico, mas também sobre seus consumidores. Se existe uma mudança na forma de gerar e oferecer conteúdo informativo, existe também uma mudança no perfil de quem consome, que busca outras formas de receber notícias e informações. Falando especificamente sobre os hábitos de consumo da população, é interessante trazer alguns tópicos apontados por uma pesquisa realizada na cidade de São Paulo em 2008, buscando conhecer melhor consumidores, seus hábitos e o processo de mudança por que estavam passando com a chegada da internet e o início da migração das mídias para o meio digital. Diz o levantamento: O que se passa com os jornais é, em grande medida, reflexo do que se passa com seus potenciais leitores. Afinal, porque menos pessoas estão lendo menos jornal, e por menos tempo? [...] o desejo que as pessoas têm de informações atende a quatro funções de sua vida cotidiana: consumo, produção, entretenimento e voto. Um indivíduo decide sobre qual informação consumir, e sobre como fazê-lo, levando em conta a relação custo-benefício. Entre os custos de adquirir a informação, estão a assinatura de um jornal, revista ou TV paga, ou o tempo gasto assistindo à TV ou navegando na internet. Mesmo a informação gratuita envolve um custo de oportunidade, de deixar de obter informações por outros meios, naquele lapso de tempo (SANT´ANNA, 2008, p, 58-59). Pelos resultados apresentados na pesquisa, ficou demonstrado que, de maneira geral, a informação e os meios de comunicação são vistos como úteis e necessários, principalmente para que os trabalhadores possam sobreviver no competitivo mercado de trabalho. Outra informação relevante é a de que os entrevistados admitiram que não se informam por um meio apenas, embora cada um possua suas predileções, os entrevistados dizem preferir criar uma rotina, uma combinação pessoal de fontes de informação, de acordo com seus horários e rotinas diárias. Sobre as mídias, trazemos um quadro resumido sobre a impressão dos entrevistados, destacando que estas entrevistas foram feitas com leitores de jornais, pessoas de classes A e B, que possuem o hábito de se informarem por meio do jornal, com uma leitura mais aprofundada dos assuntos. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 50 RÁDIO – o rádio propicia uma primeira aproximação com a notícia. Funciona como um filtro, informando quais são os fatos relevantes, para que depois o ouvinte se aprofunde neles, em outros meios. Ele fornece as informações de utilidade prática, o que no meio jornalístico se chama “serviços”, como trânsito e previsão do tempo. O rádio oferece ainda a vantagem de mesclar entretenimento com notícia. Os entrevistados consideram que no rádio a notícia não tem profundidade. TV – os recursos de imagem e de som da TV permitem entender mais a notícia. Para alguns é um meio de comunicação relaxante, descontraído de receber informação. Para outro grupo é o meio mais prazeroso. Mas existe também a percepção de que a TV trabalho com a fantasia, o mundo não real. Esta ambiguidade faz com que existam duas opiniões. Uma considera a TV mais capaz de mostrar o fato como ocorreu; outro acredita que a realidade é recriada em busca de agradar um suposto imaginário coletivo, ou seja, consideram a TV manipuladora e um veículo que banaliza a informação para conquistar as massas. INTERNET – os participantes da pesquisa qualificaram a internet como um meio infinito, no qual se obtêm as informações mais atuais de forma ágil e rápida. É um banco de dados, uma janela aberta para obter informações e notícias de qualquer parte do mundo. Consideram também que, mesmo trazendo informações em tempo real, a internet é atemporal, já que é possível conhecer e pesquisar o passado e o presente de forma simultânea. Sobre internet cabe ainda destacar que para pessoas na faixa etária de 25 a 40 anos, a internet é um aparelho fantástico, um meio moderno, em que você tem o mundo nas mãos. Para a faixa etária de 18 a 23 anos, existe uma maior proximidade com a informação, pois a maioria efetua a leitura de títulos e notícias apenas pela internet, pois consideram um meio mais prático e rápido, não buscando os meios tradicionais, como jornal impresso, rádio ou TV. JORNAL – foi definido pelos entrevistados como o meio de comunicação mais completo, o que vai mais fundo, o que é investigativo e o que estimula a pensar. O jornal também foi elogiado por documentar os fatos. Mesmo os entrevistados que não leem jornal diariamente, a opinião é de o impresso desfaz as incertezas do receptor diante das várias alternativas de uma mesma notícia. Os entrevistados ainda consideram o jornal como fundamental para apresentar as pessoas as notícias do dia, por ser o meio mais completo. Fonte: SANT´ANNA, 2008, p, 60-73. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 51 5.2 Em busca de uma nova identidade https://cdn.pixabay.com/photo/2016/08/16/10/09/head-1597548_960_720.jpg Como vimos anteriormente, a chegada da internet trouxe profundas mudanças tanto na questão editorial quando no modelo de negócios da mídia. RAMONET (2021, p,10) diz que a crise do modelo surge, primeiramente, com os impasses do modelo de negócios do jornalismo após o crescimento da internet. Segundo o autor, “esses impasses são explicáveis pela mudança cultural posta pelas novas tecnologias, em que o jornalista perde o monopólio da novidade, da produção e da disseminação da informação. Novos sujeitos passam a disputar o cenário da informação”. Na pesquisa apresentada no tópico anterior, SANT´ANNA (2008, p, 142) também observa que “sem capacidade de oferecer novidades no plano da informação, os jornais diários ainda não encontraram formas criativas de potencializar e tirar proveito das aptidões interpretativas que só os meios impressos possuem”, mas que ficam limitados pelas 24 horas do dia, ciclo médio de vida dos jornais impressos. Por um tempo os jornais impressos continuaram sendo produzidos como se os leitores não tivessem acesso antes, por meio da internet, de informações sobre os fatos da edição que chega às bancas ou em casa a cada dia. Tratando a notícia como novidade, só provocavam nos leitores aquela sensação de que já leram, ouviram e assistiram aquilo em algum lugar e que o jornal escrito no dia anterior,era ainda mais velho. Essa defasagem estrutural e limitação técnica fez https://cdn.pixabay.com/photo/2016/08/16/10/09/head-1597548_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 52 com que a notícia parecesse menos interessante e com aspecto zero de novidade e ineditismo. Nesse sentido, o meio jornal sofre de uma crescente, um descompasso, entre o seu produto e as demandas do mercado. De um ângulo darwinista, como uma espécie que não evoluiu para se adaptar ao meio, ou para competir na cadeia alimentar, ele está exposto ao risco de extinção. Novos paradigmas no negócio e no jornalismo permeiam as discussões sobre como devem reagir os jornais diante do acirramento da concorrência, das inovações tecnológicas e das mudanças de hábitos de leitura. (SANT´ANNA,2008, p,143-144). Não apenas o impresso, mas a prática jornalística como um todo foi afetada pelas mudanças, que não é somente cíclica ou evolutiva, com o implemente de novas tecnologias, mas é estrutural, no sentido de que afeta o modelo de negócio que se transformou o jornalismo em todas as suas esferas, TV, rádio e impresso, incluindo- se também as revistas. Ao analisar a crise no modelo de negócio do jornalismo, RAMONET (2012, p,16) diz que o “DNA da informação mudou, é preciso mudar o DNA dos jornalistas, e não somente o código genético da imprensa. O choque atinge também o rádio e a TV, em particular os canais de informação. Trata-se de uma mudança de paradigma”. Entende-se por paradigma, na definição apresentada por RAMONET (2012, p, 16) ao citar Thomas Kuhn, como um “conjunto coerente de modelos, conceitos, conhecimentos, hipóteses e valores estreitamente ligados. Há uma revolução científica quando um quadro conceitual (paradigma) é substituído por outro”. ISTO ESTÁ NA REDE Para aprofundar o entendimento sobre os temas tratados nesta aula, recomendo a leitura do artigo: O JORNALISMO EM TEMPO DE MUDANÇAS ESTRUTURAIS, dos pesquisadores em comunicação Fábio Henrique Pereira e Zélia Leal Adghirni, da UNB. NO resumo do artigo dizem que: “um breve cenário do que chamamos de mudanças estruturais no jornalismo [...] a partir das transformações na produção, no perfil profissional e nas relações com os públicos. Buscamos apresentar um conjunto de dados, pesquisas e análises que remetem à nossa preocupação inicial: mudanças profundas afetam diferentes aspectos do jornalismo e podem alterar radicalmente a forma como será praticado no futuro”: O artigo está disponível em: https://seer.ufrgs. br/intexto/article/view/19208/12362 https://seer.ufrgs.br/intexto/article/view/19208/12362 https://seer.ufrgs.br/intexto/article/view/19208/12362 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 53 5.2.1 A internet é totalizadora https://cdn.pixabay.com/photo/2018/03/10/09/45/businessman-3213659_960_720.jpg Sempre que algo inovador surge, uma das questões é se a nova tecnologia, o novo formato ou modelo irá suplantar o anterior, provocar sua extinção por completo ou força-lo a se adequar, buscar novas maneiras de entregar o mesmo resultado. Em jornalismo está questão surge de tempos em tempos, suscitada principalmente pela chegada de novas mídias e tecnologias, como foi a televisão em referência ao rádio. Após décadas, a TV de fato tornou-se uma mídia mais importante do que o rádio, editorial e comercialmente. Mas ao contrário do que muitos imaginavam, o surgimento da TV não significou a extinção do rádio. Ao contrário, forçou sua evolução tecnológica e a elaboração de uma nova linguagem, baseada na revisão dos fundamentos que deram origem as narrativas do rádio. Com isso o rádio modernizou-se, continuou conquistando gerações e recuperou seu prestígio junto a sociedade. Com a chegada da internet as mudanças foram mais profundas e afetaram não apenas uma mídia, mas todas. E de uma forma nunca vista na história da comunicação. A internet trouxe não apenas novas ferramentas e plataformas que facilitam a comunicação e a interação dos e entre os usuários, mas extinguiu o monopólio das empresas de comunicação em produzir informação. E esta mudança está exigindo a discussão de um novo modelo de negócios para o jornalismo e afetando profundamente seus fundamentos. https://cdn.pixabay.com/photo/2018/03/10/09/45/businessman-3213659_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 54 Por sua capacidade de integrar em um mesmo dispositivo linguagens e elementos da TV, rádio e impresso, o fazer jornalístico está em xeque. Algumas mídias como a impressa sentiram antes e mais forte, mas todas, de maneira mais ou menos acelerada, estão passando por este processo e precisarão, utilizando uma frase corriqueira nos dias atuais, “ se reinventarem”. Mídia da era industrial, a imprensa escrita provavelmente não vai desaparecer. Mas a informação não circula mais como antes, em unidades controladas, bem corrigidas e formatadas: notas de agências, jornais diários impressos, boletins radiofônicos, telejornais. Tornada imaterial, ela se apresenta agora sob a forma de um fluido, que circula em segmentos abertos da internet quase à velocidade da luz...a banda larga permite aos “web-atores” completar cada informação, acrescentando a ela uma maior precisão, um comentário, uma citação, uma foto ou um vídeo, num trabalho de inteligência coletiva ou de “alquimia das multidões” (RAMONET, 2012, p17). Quando falamos em “internet totalizadora”, é justamente sobre isso que nos referimos, uma nova lógica, totalmente diferente do que se pensou durante o processo de implantação da indústria, produção em série, preço mais em conta e atingindo um número cada vez maior de pessoas. Este sistema chamado de fordista, em referência a Henry Ford, criado da linha de produção industrial, orientou o pensamento empresarial e comercial durante todo o século XX. AS mídias levaram este sistema ao limite, seguindo suas características técnicas: jornais e revistas em milhares de exemplares, rádio e TV com sinas e antenas de retransmissão por todo país massificaram a informação, potencializando seu alcance. Agora, com a fragmentação provocada pela internet, tudo que a mídia produz ganha novos significados, pois a palavra final sobre qualquer tema cabe sempre a quem lê, curte, comenta, compartilha, reescreve e acrescenta novos dados. Claramente não estamos aqui discutindo qualidade, veracidade e compromisso ético da informação produzida ou veiculada, pois falta muito disse em grande parte das produções que acompanhamos. O que nos cabe neste momento é analisar o leque de possibilidades que se abriu com a chegada da internet ao mundo da comunicação. Conforme constata RAMONET (2021, p,17), na época inicial do pensamento fordista, “mesmo que vários operários especializados pudessem contribuir na fabricação de um produto, este, no final, era entregue completo, acabado, fechado, e correspondia ponto por ponto ao projeto inicial. Esse não é mais o caso”, diz o autor, pois a lógica da informação on-line é apresentar algo em estado inicial, que depois será atualizada, ou seja, “work im progress”, para usar um termo do próprio autor. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 55 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Portais como o Comunique-se são cada vez mais comuns na internet, pois falam de jornalismo para jornalistas, trazendo informações sobre mercado de trabalho, inovações e novas tendências em jornalismo. Para jornalistas que já atuam há algum tempo, portais e sites como este ajudam a entender o atual cenário do jornalismo e manter-se atualizado sobre os rumos da profissão. fonte: https://portal.comunique-se.com.br/ Chegamos ao final desta aula, onde discutimos as mudanças que estão ocorrendo no modelo de negócios do jornalismo e a busca de cada mídia por manter sua identidade junto ao público. Falamos de maneira detalhada sobre a forçae o impacto causado na comunicação e nos veículos de comunicação com a chegada da internet, e como será possível manter os fundamentos de cada linguagem, preservar as narrativas que tornaram impresso, rádio e TV tão singulares. Na aula seguinte, dando sequência ao entendimento sobre os fundamentos do jornalismo e suas mudanças, falaremos sobre o consumidor de informações, mais conhecido na atualidade por “usuário”. Quem é este leitor, ouvinte e telespectador? É o que procuraremos mostrar na próxima aula, ao mesmo tempo em que falaremos sobre sus hábitos de consumo e interação com o jornalismo. https://portal.comunique-se.com.br/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 56 AULA 6 QUEM CONSOME TANTAS NOTÍCIAS A NOVELA E OS COSTUMES: Faço uma pergunta – qual o melhor gênero de produção brasileira de televisão – humor, esporte, noticiários e novelas? Aposto que em qualquer classe social, região do país ou grupo cultural a novela ganha. Por quê? Minha hipótese é que a novela não tem só os bons atores, a melhor técnica. Ela aprofunda a discussão da vida atual e de suas mudanças (RIBEIRO, 2005, p,21). Fonte: https://cdn.pixabay.com/photo/2018/11/29/21/51/social-media-3846597_960_720.png Um fato ocorrido no ano de 2005 e que a época repercutiu muito na imprensa e nos meios acadêmicos nos ajuda a entender o tema central dessa nossa aula. Nove professoras universitários da USP-SP que ministraram palestras para profissionais da Rede Globo foram convidados para assistirem a reunião de pauta do Jornal Nacional, conduzida pelo apresentador e editor chefe Willian Bonner. https://cdn.pixabay.com/photo/2018/11/29/21/51/social-media-3846597_960_720.png FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 57 Um dos presentes, o sociólogo Laurindo Lalo Leal Filho publicou um artigo na revista Carta Capital, pouco tempo depois, trazendo várias críticas ao formato de escolha dos temas e reportagens abordados no telejornal e principalmente na forma como Bonner se dirigia ao público do JN, maior audiência do jornalismo televisivo brasileiro. O que mais indignou o professor Laurindo foi que Bonner chamava o telespectador do Jornal Nacional de Homer Simpson, em referência ao personagem de uma famosa série de TV americana. Segundo entendimento do professor, Bonner considera que o público do telejornal tem dificuldade para entender as informações mais complexas e buscam, por isso, descomplicar os assuntos para que Homer Simpson, o brasileiro médio na visão do apresentador, possa entender, como narra o professor em seu artigo. Perplexidade no ar [...] alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão [...] depois de um simpático “bom dia”, Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES. Na redação foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mais obtuso personagem [...] pai da família Simpson, adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento [...] dai para a frente, o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. “Essa o homem não vai entender”, diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia (https://peaobservacao.com.br/wp-content/ uploads/2014/09/de-bonner-para-hommer.pdf). Poucos dias depois, após a repercussão negativa do caso “Homer Simpson”, Willian Bonner publicou, também na revista Carta Capital uma resposta, buscando explicar seu ponto de vista e da redação sobre o ocorrido e como enxergam o chefe da família Simpson. https://peaobservacao.com.br/wp-content/uploads/2014/09/de-bonner-para-hommer.pdf https://peaobservacao.com.br/wp-content/uploads/2014/09/de-bonner-para-hommer.pdf FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 58 Nestas ocasiões, sempre abordo, por exemplo, a necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade não deve aborrecer os que estudaram mais. Neste desafio, como exemplo do que seria o público médio nessa gama imensa, às vezes cito o personagem Lineu, de A Grande Família. Às vezes, Homer, de Os Simpsons. Nos dois casos, refiro-me a pais de família, trabalhadores, protetores, conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada de trabalho. No fim do dia, cansados, querem se informar sobre os fatos mais relevantes do dia de maneira clara e objetiva. Este é o Homer de que falo (http:// www.observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/sobre-a- necessidade-de-ser-claro/). Para nos ajudar a entender este ponto, recorremos ao jornalista e pesquisador em comunicação, Alfredo Vizeu Junior, que tendo frequentando tanto as redações como as salas de aula, cunhou o tema “audiência presumida”, referindo-se como e ao que pensa o jornalista quando passa a escolher as notícias que irão compor um telejornal. O pesquisador afirma que: os telespectadores devem gostar do noticiário pois do contrário não vão assisti-lo, e é preciso que o assistam para que possam ser vendidos aos patrocinadores. Assim, a televisão fabrica a sua audiência, assim como fabrica os noticiários [...]Através das características prazenteiras do aparelho de base, através dos procedimentos ficcionais, através de apresentadores atraentes como subtexto erótico das notícias, a televisão se fabrica como objeto bom (VIZEU, 2005, p, 69). O autor também afirma que por meio de um contrato ficcional, estabelece-se um vínculo entre o público e o Telejornal, com foco na “audiência presumida”, fazendo com que os profissionais busquem construir sua audiência por meio de uma cultura profissional existente, que presume saber de antemão o que as pessoas gostariam de saber e de que maneira esta notícia deve ser tratada. Outro ponto citado por VIZEU (2005, p,94) é que ao aplicar estas regras nas redações, os profissionais de jornalismo estão na verdade construindo um discurso, ao mesmo tempo em que “o trabalho que os profissionais jornalistas realizam, ao operar sobre os vários discursos, resulta em construções que, no jargão jornalístico, podem ser chamadas de notícias”, criando, portanto, o interesse pela notícia e a exibição da notícia de acordo com critérios e parâmetros já estabelecidos. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/sobre-a-necessidade-de-ser-claro/ http://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/sobre-a-necessidade-de-ser-claro/ http://www.observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/sobre-a-necessidade-de-ser-claro/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 59 6.1 O jornalista pensando pela sociedade https://cdn.pixabay.com/photo/2017/11/06/08/42/personal-2923048_960_720.jpg Quando falamos sobre consumo de notícias, devemos pensar também sobre a produção destas notícias, como elas são pensadas e estruturadas para atingir um grande número de pessoas. Durante a disciplina Teorias da Comunicação, tratamos de forma detalhada as teorias criadas, e para nos orientar sobre Fundamentos do Jornalismo, cabe recorrer a algumas destas teorias. Lembramos ainda que as teorias elaboradas representam o momento da comunicação em que foram elaboradas, sendo, portanto, atualizadas com a evolução da comunicação e o passar do tempo, mas nunca são consideradas totalmente extintas ou independentes. Sempre teremos traços das teorias anterioresnas atuais, conferindo as teorias um processo evolutivo. Feitas as devidas ressalvas, algumas teorias nos ajudam a entender o processo produtivo da notícia e como o jornalismo vê seu público. A teoria do espelho, por exemplo, é uma das mais antiga e resumidamente explica que as notícias são como são, porque a realidade assim determina, cabendo ao jornalista apenas retratar os fatos e acontecimentos o mais próximo possível da realidade. Esta teoria, mesmo passado muito tempo de sua elaboração, continua viva principalmente dentro das redações, no chamado senso comum dos jornalistas, pois ajuda a explicar muito do que é divulgado pela imprensa, tendo como argumento que a função do jornalista é apenas relatar os fatos. Ao mesmo tempo justifica a tão contestada independência jornalística. https://cdn.pixabay.com/photo/2017/11/06/08/42/personal-2923048_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 60 Outro ponto importante deste pensamento é a aplicação da objetividade jornalística, que norteia as ações jornalísticas, ao mesmo tempo em que reduz os fatos apenas as informações necessárias para o entendimento, sem emissão de opiniões e ao mesmo tempo confere ao jornalista o status de produtor de uma realidade final, sem viés ou interesses. Uma teoria trazida por VIZEU (2005, p,25) joga luz sobre a definição do público consumidor de informação. Segundo o autor, “a teoria etnoconstrucionista defende que as notícias são o resultado de um processo de produção, definido como percepção, seleção e transformação de uma matéria prima, num produto”, em alusão a transformação dos fatos, em notícias. Por esta teoria, além do jornalista buscar ser o espelho da sociedade, retratar de forma objetiva os acontecimentos e sem interferir, surgem novos critérios para o trabalho do jornalista, com a necessidade de selecionar entre os milhares de fatos e acontecimentos diários, a notícia que tenha interesse público, em favor da sociedade e que se transforme, portanto, em noticiável. Dentro desta teoria, dois conceitos já conhecidos por nós são fundamentais: noticiabilidade e os valores-notícia, termos que já fazem parte das nossas reflexões sobre produção jornalística e por isso mesmo, chegou o momento de aprofundá-los em busca de conhecer melhor quem são os consumidores de notícias jornalísticas. Buscando orientar nossos estudos sobre estes conceitos que ajudam a delimitar e entender melhor quem é a nossa audiência, usaremos uma definição do professor Alfredo Vizeu. Na produção das notícias, temos, de um lado, a cultura profissional [...]relativas as funções da mídia e dos jornalistas na sociedade [...] por outro lado temos restrições ligadas à organização do trabalho, sobre as quais se criam convenções profissionais, que contribuem para definir o que é notícia. Estabeleceu-se, assim, um conjunto de critérios de relevância, que definem a noticiabilidade de um fato, isto é, a possibilidade de ele virar notícia. Definida a noticiabilidade como um conjunto de elementos com os quais as empresas jornalísticas controlam e produzem a quantidade e o tipo de fatos, entre os quais vai selecionar as notícias [...] os valores-notícia são critérios de relevância espalhados ao longo de todo o processo de produção, isto é, não estão presentes só na seleção de notícias, mas participam de todas as operações anteriores e posteriores a escolha (VIZEU, 2005, p,26). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 61 ANOTE ISSO Sobre os critérios de noticiabilidade, LEAL (2014) nos apresenta um importante ponto de vista, para entendermos que estes critérios partem do veículo de comunicação, de acordo com sua linha editorial e público alvo, já sendo, de partida, um critério de seleção: A adoção de critérios de noticiabilidade pelos veículos de comunicação também indica com qual tipo de público cada um pretende dialogar. Podemos citar os leitores supostos por jornais de referência e jornais populares. De acordo com Márcia Franz Amaral (2006), uma notícia tem mais chances de ser divulgada por um jornal de referência se os indivíduos envolvidos no acontecimento forem importantes socialmente, se o acontecimento tiver impacto sobre a nação, envolver muitas pessoas, gerar desdobramentos, relacionar-se a políticas públicas e puder ser divulgado com exclusividade. Em relação aos jornais populares, Franz indica que um acontecimento tem mais chances de ser pauta caso tenha capacidade de entretenimento, seja próximo geográfica ou culturalmente do leitor, possa ser simplificado, possa ser dramatizado, tenha identificação dos personagens com o leitor e seja útil. Esses critérios, que não são únicos e variam de estudo para estudo, além de orientar o jornalista no momento de produzir seus textos, já que facilitam a visualização do possível leitor, ouvinte ou telespectador. Assim como nos jornais, os critérios aparecem na produção noticiosa da televisão, do rádio e dos portais. Além de adotar pistas que contribuem para filtrar o que vai aparecer para os públicos, as organizações midiáticas escolhem maneiras de definir os acontecimentos, ou seja, de enquadrá-los. Fonte: (Leal, et al. 2014, p, 43-44). 6.2 A sociedade pensado e decidindo o que é notícia Partindo agora para entender de forma mais elaborada quem é o nosso consumidor de informação, devemos lembrar que os valores-notícia são norteadores do trabalho jornalístico personalizado, ou seja, mesmo com a produção em massa de notícias, os valores-notícia mudam de acordo com aspectos sociais, culturais e tecnológicos, tornando cada pessoa, grupo ou localidade, única no consumo de determinadas informações. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 62 Para delimitar nossa reflexão, usaremos o que VIZEU (2005) definiu como as cinco grandes categorias dos valores-notícia e dentro de cada uma destas categorias, suas especificidades. Desta forma, pela tabela abaixo, conheceremos um pouco melhor quem é o nosso público alvo e ao mesmo tempo o perfil do consumidor de notícias. 1. Categoria substantiva: ligam-se ao fato e seus personagens. Podem ser: a) Importância – grau hierárquico do indivíduo envolvido no fato; impacto sobre a nação e interesse nacional; quantidade de pessoas envolvidas no fato; relevância e significação do fato quanto a sua potencial evolução e consequência. b) Interesse (depende da perspectiva do jornalista tem da audiência) – histórias de gente comum em situações insólitas ou homens públicos no dia a dia; histórias em que se verificam a inversão de papéis (o famoso dono mordendo o cachorro); histórias de interesse humano; história de feitos excepcionais e heroicos. 2. Categorias relativas ao produto: depende da acessibilidade ao fato, deslocamento da equipe ao local e potencial de dramaticidade e entretenimento. a) Brevidade – adequado aos limites do noticiário. b) Atualidade – relativa ao momento do fato ou acontecimento e sua entrada na programação e também sobre a capacidade de ter continuidade a apuração. c) Atualidade Interna – a importância da notícia dentro da redação, quando e como ela poderá ser divulgada. d) Qualidade – o que será divulgado precisa ter qualidade mínima para ter condições de chegar ao público, dentro de um padrão aceitável. e) Equilíbrio – notícia adequada para o veículo e sua linha editorial e horário, no caso de rádio e TV. 3. Categorias relativa aos meios de informação: têm a ver com a quantidade de tempo usado para veiculação da informação. Depende menos do assunto e mais do como a informação é veiculada. Terá mais valor se oferecer bons materiais, imagens, possibilitar continuidade e um formato que atenda a narrativa jornalística. São os chamados manuais de redação, que cada veículo prepara e seus profissionais seguem. 4. Categorias relativas ao público: esses critérios referem-se à imagem que osjornalistas têm do público, mas não possui uma definição única. Vai depender de como o profissional vê seu público e como ele o entender. Aqui entram duas preocupações do jornalismo: a estrutura narrativa – que deve ter clareza para a audiência; protetividade – notícias que causem pânico ou incompletas, faltando detalhes, como em acidentes, por exemplo. 5. Categorias relativas a concorrência: empresas de comunicação competem entre si e buscam saber, antecipadamente, a pauta do concorrente. O objetivo é neutralizar as manobras dos concorrentes com: a exclusividade do furo; geração de expectativas recíprocas; desencorajamento sobre inovações – veículos que mantêm certo conservadorismo e não querem abalar seus clientes e consumidores; estabelecimento de padrões profissionais ou modelos referenciais. Fonte: VIZEU 2005, p, 27-33 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 63 Ao trazermos esta tabela, entendemos que no processo de produção da notícia, os elementos apresentados atuam no sentido de organizar a rotina diária de trabalho, criando critérios dentro das redações e ao mesmo tempo definindo a relação dos veículos com suas audiências. Cabe-nos também finalizar este tópico trazendo a conclusão de VIZEU sobre o termo “audiência presumida”, que usamos no início desta aula. Segundo o autor, a hipótese da audiência presumida foi delineada nestes apontamentos, no sentido de que: Os jornalistas constroem antecipadamente a audiência a partir da cultura profissional, da organização do trabalho, dos processos produtivos, dos códigos particulares (as regras da redação), da língua e das regras do campo das linguagens para, no trabalho da enunciação, produzirem discursos. E o trabalho que os profissionais do jornalismo realizam, ao operar sobre os vários discursos, resulta em construções que, no jargão jornalístico, podem ser chamadas de notícias (VIZEU, 2005, p, 94). 6.3 Em busca do destinatário https://cdn.pixabay.com/photo/2016/11/14/02/56/students-1822449_960_720.jpg Outro aspecto que não poderíamos deixar de mencionar nesta busca por identificarmos quem são nossos consumidores de informação na chamada mídia tradicional é o formato deste consumidor, nesta também nova formatação de jornalismo, on-line e mediado pela internet. https://cdn.pixabay.com/photo/2016/11/14/02/56/students-1822449_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 64 Sem termos ainda uma definição clara sobre a audiência rela do jornalismo, até por isso tratado de “audiência presumida” pelas referências que nos acompanham, agora temos o que RAMONET (2012) chama de prosumers, ou seja, “prodsumidores” (produtores-consumidores), termo que reúne o consumidor de notícias, que após a chegada da internet, tornou-se também um produtor de notícias, e não apenas um passivo leitor, ouvinte ou telespectador. Hoje, quando falamos de internautas, não se trata de indivíduos isolados, mas de cidadãos que fazem parte de um organismo vivo [...] basta olhar a velocidade com que se desenvolvem os sites. Em escala mundial, o número de usuários tem passado por uma explosão [...] esse crescimento alucinante dá aos web-atores um potencial comunicacional até então desconhecido [...] a criação profissional coexiste com a criação amadora [...] as novas leis da comunicação e da informação na internet ainda estão à espera de definição. Mas uma coisa parece certa [...] não são mais os jornalistas que vão determiná-las, mas os internautas (RAMONET, 2021, p, 25-26). Estas alterações no papel do produtor e do consumidor de informações provocou também uma reconfiguração, retirando da imprensa tradicional o monopólio de produzir informações, que agora passa a ser dividida com o cidadão comum, aquele que até alguns anos era consumidor de informações e nunca imaginou ser produtor de conteúdo, termo mais atual para quem posta informações pela internet. Em suas análises, LEAL (2014) nos mostra que as produções jornalísticas, sejam em impresso, rádio ou TV, são submetidas a critérios que filtrar e definem o que será notícia, o que será mostrado ao público e principalmente o que será esquecido, apagado ou retirado da pauta. Desta forma, as organizações midiáticas escolhem maneiras de definir os acontecimentos. A noção de enquadramento foi bastante desenvolvida por Erving Goffman (2006), segundo o qual o termo se refere a elementos básicos identificados pelos sujeitos para definir uma situação. Em seu artigo “O enquadramento como conceito desafiador à compreensão do jornalismo”, Carlos Alberto Carvalho (2009) chama a atenção para os limites e as possibilidades do conceito de enquadramento para o jornalismo. Carvalho se baseia nas contribuições de Goffman (2006), Gaye Tuchman (1978) e Maria João Silveirinha para explicitar quais dimensões são reveladas pelo conceito. Ele ressalta, à luz das considerações de Silveirinha (2005), que o enquadramento se liga a valores ou crenças partilhadas pela sociedade e ajuda a entender o jornalismo como “prática que negocia cotidianamente com os demais atores sociais, inclusive na tentativa de fazer prevalecer pontos de vista” (Leal, et al. 2014, p, 44). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 65 Não nos cabe aqui, repetindo novamente o que já dissemos anteriormente, falar sobre qualidade do que é produzido e “postado” como informação, pois sabemos que existe um grande abismo entre o jornalista profissional, aquele que domina o conhecimento intelectual, as tecnologias e as técnicas do jornalismo, com relação aquela pessoa que divulga uma informação sem saber ao menos a veracidade desta informação e se existem ali todos os elementos para que o usuário, ao se deparar com a notícia possa fazer a correta interpretação. Além disso, o que nos interessa neste momento é entender que, além do consumidor comum e tradicional de informações, temos uma nova audiência que certamente não existia. São milhões e milhões de brasileiros que pelos mais variados motivos não compravam jornal, não ouviam rádio ou assistiam TV e que agora munidos de um smartphone estão aprendendo a interagir com a notícia. O consumidor de informação tradicional, ao migrar par a internet ou fazer uso de novas ferramentas, certamente irá procurar as referências que tinha ao ler um jornal impresso, ouvir um noticiário em rádio ou assistir na TV, ou seja, irá adaptar seu modo tradicional de ser informado com as novas ferramentas, portais, sites e aplicativos para se informar, passando por este processo de transição e adaptação. Este usuário podemos ainda enquadrar na “audiência presumida”, ao qual temos um perfil, se não completo, próximo disso. Já com relação aquela pessoa que não consumia informação do modo considerado tradicional, e que agora passou a ser informada por meio do seu aparelho celular, das redes sociais, dos sites e blogs interativos, é uma audiência nova, com um novo perfil social, econômico, novos hábitos e maneiras de buscar informação. É inegável que sites, blogs, portais e ferramentas de comunicação foram criadas nos últimos anos, adaptam-se rapidamente a sociedade e entram em concorrência direta com as mídias tradicionais. Quem poderia supor que o Twitter, por exemplo, com a possibilidade de poucos toques (inicialmente 140), fosse se transformar numa das mais importantes plataformas de comunicação. Hoje, qualquer jornalista da mídia tradicional recorre ao Twitter antes de iniciar suas atividades, até para conferir quais são as notícias mais procuradas e populares, os chamados trends topics (tópicos de tendência), ou “assuntos do momento”, como aparece na tradução em português. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 66 Nós saímos de um sistema mídia-cêntrico e entramos num sistema eu-cêntrico, em que cada internauta possui o poder de comunicar sons,textos, imagens, de trocar informações, de redistribuí-las, de misturá-las a diversos documentos, de realizar suas próprias fotos ou vídeos e de colocá-los na rede, onde massas de pessoas vão vê-las e, por sua vez, participar, discutir, contribuir, fazer circular [...] as fontes de conteúdos passam por uma competição implacável (RAMONET, 2021, p28-29). ANOTE ISSO Sobre números e pesquisas, o jornalista deve sempre ter um olhar cauteloso, buscando não apenas trabalhar com números e tendências, mas sim com o dia a dia da sociedade, encontrando na população real, nas ruas, no trabalho, nos supermercados, o combustível para suas ações, como nos aponta Felipe Pena: Como deve ser a atitude de um jornalista diante dos números de uma pesquisa? Cautelosa. Tudo pode ser provado pelos números. Se eu como um frango e você nenhum, pela estatística, ambos comemos meio frango. Sim, essa frase é um clichê, mas há como negá-la? Os estatísticos responderão que é preciso fazer ponderações e atribuir valores para adequar a pesquisa à realidade. Pode ser, mas quem aplica essas fórmulas? Seja lá quem for, certamente não estará imune às influências externas, idiossincrasias, preconceitos e outras intempéries. Para não ficar no clichê do frango, é possível citar outro exemplo de manipulação de números por pesquisas? Sim. Segundo o historiador italiano Alessandro Portelli, citado por Sylvia Moretzsohn em sua tese de mestrado, alguns pesquisadores usaram métodos de análise estatística e valeram-se de fontes documentais para chegar à conclusão de que os escravos de um determinado país eram açoitados 0,7 vez por ano. Portelli então pergunta: é possível açoitar alguém 0,7 vez? Claro que não, mas em um grupo de cem escravos, se um deles receber 70 chibatadas, na estatística todos receberam 0,7. E é óbvio que a realidade dos outros 99 não é a mesma daquele que apanhou 70 vezes, mesmo que “a experiência excepcional deste último dê cor às expectativas e ao comportamento dos demais”, como argumenta o historiador. É possível citar um exemplo de uso de estatís7tica para aparentar objetividade? Sim. Sylvia Moretzsohn usa como exemplo uma das orientações do Manual de Redação da Folha de S. Paulo, que recomenda evitar o tom melodramático de uma narrativa através da caracterização objetiva da emoção pela utilização de números. “O réu fumou 45 cigarros em quatro horas é melhor do que O réu estava visivelmente nervoso”, diz o Manual. Mas quem determina a quantidade de cigarros que caracteriza o nervosismo do réu? E se ele for um fumante compulsivo? Talvez fume o mesmo número de cigarros quando está calmo. PENA (2012, p, 227-231). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 67 Caminhando para o final desta sexta aula, podemos concluir que tanto o telespectador quanto o ouvinte ou o leitor orientam em muito a produção jornalística e nos coloca como reflexão a maneira como este público é visto pelos profissionais de comunicação, os empresários do segmento e até que ponto suas vontades são atendidas e principalmente respeitadas. Precisamos nos perguntar se oferecemos aos nossos fiéis consumidores de informação o compromisso social que norteia o fazer jornalístico, por meio das notícias que produzimos. Segundo LEAL (2014, p, 50), “é necessário interpelar o sujeito concreto para saber. Na interação com o empírico, há possibilidade de os rumos do contrato entre organizações e públicos serem revistos e de se conhecer como o sujeito lida com o que é dado a ver pela mídia”. Na próxima aula abordaremos o “lugar de fala” no jornalismo, buscando entender ainda mais quem é o nosso leitor, ouvinte ou telespectador e como podemos continuar aplicando os conceitos que norteiam os fundamentos do jornalismo de maneira correta e objetiva, buscando cumprir a função social a qual se destina o jornalismo. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 68 AULA 7 DE QUEM É A FALA NO JORNALISMO Discurso (definição prática): modo de falar e pensar sobre um assunto, unido por princípios comuns. Seu intuito é estruturar a compreensão e as ações das pessoas sobre determinado assunto (GIDDENS, 2015, p,7). https://cdn.pixabay.com/photo/2016/10/16/00/36/one-against-all-1744093_960_720.jpg A imagem que a sociedade tem de um jornalista, foi construída por décadas de trabalho na cobertura de eventos como guerras e conflitos, o desvendar de segredos que colocam abaixo governos e a busca desenfreada por encontrar os culpados, autores de trapaças, crimes contra a sociedade. Além disso a cobertura de catástrofes humanitárias, onde o próprio jornalista, por vezes, pagou com a própria vida para trazer a sociedade uma imagem, uma entrevista ou um relato. No Brasil talvez o momento recente de maior visibilidade da imprensa tenha sido no Impeachment do ex-presidente Fernando Collor, no final de 1992, quando a imprensa tradicional não tinha a concorrência da internet e suas velozes ferramentas de comunicação e interação. https://cdn.pixabay.com/photo/2016/10/16/00/36/one-against-all-1744093_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 69 Milhões e milhões de edições de jornais, revistas semanais com edições esgotadas nas bancas e horas de reportagens na TV. A figura do jornalista investigativo, que a cada edição trazia uma novidade e desvendava um escândalo, reforçou o imaginário de super-herói e culminou com a queda do presidente do país. No cinema também é comum a imagem do jornalista como um herói, uma espécie de mensageiro da verdade, cuja função principal é investigar e trazer à tona para toda sociedade as maldades dos poderosos. A ideia de um investigador à moda de Sherlock Holmes sempre esteve presente na mitologia do jornalismo e no imaginário social. Um perito à procura de pistas que lhe permitam revelar mistérios. E essa ideia de um profissional ativo, que identifica, seleciona, faz falar e “controla” as fontes ainda é predominante quando se pensa no processo de apuração das notícias e nos processos que envolvem a obtenção de informações. Nessa visão, é quase como se a fonte fosse um deposito de dados aleatórios que só ganharão sentido após a ação do repórter de colhê-las e organizá-las. E o jornalista é aquele que, ou vivencia o fato e é capaz de relatar aquilo de que foi testemunha – faz falarem os fatos –, ou aquele que faz falar quem o vivenciou. Dessa forma, o profissional de comunicação é representado como aquele que comanda, que elabora o discurso, que decide o certo e errado e o que será publicado. Ou seja, é quem dá voz ao relato (LEAL et, al. pág. 90). Nos últimos anos, porém, podemos dizer que esta imagem criada no imaginário da sociedade sobre o jornalista, vem passando por uma, digamos, “releitura”. Isto porque, com a chegada da internet, criou-se um espaço para o questionamento dos jornalistas diante dos fatos e a postura adotada por profissionais em determinadas situações, o que não os tornam mais imunes as críticas. Além disso, existe hoje uma presença imensa de grupos, pessoas, autônomos e corporações produzindo conteúdo, seja por meio de releases das próprias empresas, ou por grupos de interesses localizados e setorizados. E em muitos destes casos, jornalistas também atuam junto a estas empresas, desmistificando certa aura de imparcialidade existente sobre este profissional. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 70 7.1 O poder das “fontes” jornalísticas https://cdn.pixabay.com/photo/2016/03/31/23/20/communication-1297544_960_720.png Não por acaso a palavra “fonte” tem uma importância muito grande em jornalismo. Fonte quer dizer o local onde brota a água do solo, a nascente, onde se consegue beber da mais pura e límpida água, sem que esta água já tenha sofrido algum tipo de poluição ou desvios durante seu percurso. Quem bebe esta água límpida,portanto, sentirá o gosto verdadeiro da água in natura e somente esta pessoa poderá descrever com certeza e credibilidade o gosto da água, pois estava lá para afirmar o que diz. Em tese, o jornalismo consagra que uma “fonte” é aquela pessoa capaz de oferecer as informações iniciais mais importantes, com a certeza de quem está próximo aos fatos, e com a credibilidade de quem presencia e acompanha o desenrolar dos acontecimentos. Sabemos que na prática nem sempre as coisas ocorrem desta maneira, pois existem também os interesses da fonte em apresentar estas informações, o que a princípio não deslegitima a informação, caso seja confirmada sua veracidade. Por este motivo, uma regra de ouro do jornalismo é aprender a escolher suas fontes, não utilizar sempre as mesmas fontes e mesmo após receber informações privilegiadas, não acreditar em tudo que ouviu e checar as informações antes de torna-las públicas. Existem os interesses legítimos das fontes, como contribuir com a sociedade ou ajudar na elucidação de algo ilegal, ou até um crime. Pode ser também por interesse profissional, por divulgar sua área de atuação ou ações às quais esteja diretamente https://cdn.pixabay.com/photo/2016/03/31/23/20/communication-1297544_960_720.png FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 71 ligada. E podem ser também interesses de pessoas ou grupos que estas informações sejam divulgadas e, mesmo verdadeiras, causem a derrocada ou prejuízo de outras pessoas e grupos. Para o trabalho jornalístico tudo isso é legítimo, desde que a informação repassada pela fonte seja verdadeira, pois ainda haverá a produção da notícia, onde caberá ao jornalista encontrar o ponto de equilíbrio entre a informação recebida, enviesada talvez, e o que irá chegar ao público, ouvindo-se todos os lados envolvidos e a narrativa apoiada em fatos concretos e comprovados. Podemos dizer, portanto, que parte da narrativa jornalística, também é produzida pelas fontes de informação, mesmo após os filtros, alterações, checagens e pontos de vistas exibidos pelo jornalista. Quem também é considerado fonte de informação é o próprio jornalista, pois em muitos temas parte do profissional a iniciativa de sugerir ou ir atrás de uma pauta que acredita ser importante e interessante. Não apenas no jornalismo político ou dos acontecimentos factuais, mas em editorias como de esporte ou celebridades, o chamado feeling jornalístico faz com que o profissional veja algo mais do que os outros e corra atrás da notícia que ninguém ainda viu ou divulgou, seguindo outro famoso ditado popular, “quem chega primeiro bebe água limpa”. 7.1.1 A fonte não secou, mas criou várias nascentes photo620x400.mnstatic.com/1fa327f5d6c9872d0837f628c8997c07/nascente-do-rio-mundo.jpg https://photo620x400.mnstatic.com/1fa327f5d6c9872d0837f628c8997c07/nascente-do-rio-mundo.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 72 Quando falamos sobre as mudanças trazidas ao jornalismo com a chegada da internet, uma das mais importantes é a relação da imprensa como as chamadas fontes de informação, que não precisam mais dos veículos tradicionais de imprensa para divulgarem assuntos de seu interesse. Inclusive, jornalistas passam a atuar por empresas as quais tinham na mídia a única maneira de aparecer. Hoje, tudo mudou e a relação fonte x jornalista x veículo de comunicação, está sendo reescrita. [...] principalmente com as reviravoltas ocorridas no campo da informação, com as novas tecnologias, a explosão das redes sociais e a profissionalização das fontes em assessorias ou grupos organizados – que produzem uma enxurrada de releases e promovem suas notícias como produtos em uma grande liquidação. Além disso, temos agora um novo cenário, marcado pela força adquirida pelos grupos sociais no espaço público e por uma demanda cada vez maior por parte de setores civis da sociedade por direito e voz [...] “democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação [...]. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas [...]. Noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo”. (LEAL et, al. pág. 90). Outra fonte que não devemos deixar de mencionar são os próprios jornalistas, que por atuarem em veículos de comunicação, também empunham bandeiras defendidas por estes veículos, o que não significa dizer que não existam em prática todos os princípios norteadores do bom jornalismo, mas significa dizer que por sua tradição na sociedade, um veículo de comunicação cria uma ideologia própria, que acaba por pautar o que é de interesse ou não desta empresa. Isto nos apresenta outra reflexão. Há que considerar também que a voz do jornalista, presente em maior ou menor medida, não é isenta de interesses e pressões. É impregnada por uma política editorial, por valores da empresa à qual está ligada e representa, e se insere num quadro político, num jogo de forças em que inevitavelmente acaba por fazer parte e tomar parte. Logo, não podemos deixar de refletir, principalmente em um momento de reconhecimento do poder do público (leitores, ouvintes, telespectadores, comunidades, grupos de opinião, etc.), sobre o impacto que ele tem na constituição de uma notícia. Em uma perspectiva relacional e dialógica, ele influencia e está presente na mensagem da mesma forma que acaba por ser influenciado e oferecer respostas que serão novamente incorporadas a ela, num circuito de produção de sentido (LEAL et, al. pág. 91). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 73 ANOTE ISSO O que é jornalismo de resistência? O que chamo de jornalismo de resistência consiste na aplicação prática de preceitos li- gados à função social da profissão. Ou seja, resistir à concepção mercadológica de jornalismo. O jornalismo de resistência é anticapitalista e revolucionário? Não. Nada a ver com a pretensão de transformar a sociedade pela via revolucionaria, o que acabaria produzindo distorções e recairia numa concepção teórica instrumentalista. Muito menos com a interpretação messiânica de alçar o jornalista à categoria de salvador da pátria. Não se deve defender uma prática marxista de produção noticiosa, mas também não podemos nos contentar com a classificação da notícia como simples mercadoria ou com as limitações das rotinas produtivas. Em que se baseia o jornalismo de resistência? Na crença de que há́ possibilidades de construção social da realidade através do jornalismo e de que profissional da imprensa tem um papel importante nessa dinâmica. FONTE: (PENA, 2012, p,221) 7.1.1.1 Rompendo com o círculo vicioso da “agenda” jornalística Aprofundando um pouco mais nossa análise, percebemos também que a cada vez mais atual perda do monopólio da pauta e consequentemente diminuição do poder de informação em voz única criado pela grande mídia alterou outro ponto deste processo, que é a construção de uma agenda, aberta diariamente pelas empresas jornalísticas e que transformou a informação em um grande círculo vicioso, com pinceladas e retoques de um verniz de atualidade. Como diz ZANCHETTA (2004, p, 14), “o noticiário dos meios de comunicação é fruto de pesquisa sobre o mundo cotidiano, mas também uma espécie de consenso, às vezes implícito, entre os meios de divulgação e o público responsável pela circulação das informações”. Jornalistas trabalham e produzem notícias com base em seu universo cultural, o perfil do local de trabalho, áreas específicas de atuação e contato com outros profissionais, além da receptividade do consumidor de informação e seu retorno, uma espécie de feedback que aprimora o trabalho do jornalista, mas, voltando a ZANCHETTA (2004, p,14), “com frequência, informações divulgadas por outros meios são de algum modo repercutidas ou servem de base para novas notícias.Existe ainda certa comunhão de interesses em determinado contexto e época, com base na qual se destacariam os temas de maior prestígio”, com relação aos temas considerados secundários naquele momento. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 74 Não podemos esquecer que o público também contribui para a manutenção de uma agenda jornalística, na medida em que se acostuma e confere índices de audiência e popularidade as notícias veiculadas. Isso explica em parte a recorrência de eventos esportivos ou da moda e as notas sobre a alta sociedade, entre outras curiosidades que ocupam o espaço privilegiado, ganham destaque ou sobrepõem- se a questões econômicas e políticas. Não é raro observar acontecimentos com forte cunho comercial revestidos de interesse informativo [...] festas de grande apelo popular como o Carnaval, campeonatos esportivos e corridas automobilísticas [...] a agenda tem uma dinâmica fluida, marcada por relações públicas e privadas que se estabelece entre os diversos agentes responsáveis pela produção e consumo dos materiais de imprensa (ZANCHETTA, 2004, p, 15). 7.1.1.2 Rede de informações internas e externas https://cdn.pixabay.com/photo/2017/06/30/10/14/social-media-2457842_960_720.png Rede de informação interna: A imprensa em geral, sejam os grandes veículos de comunicação das grandes e médias cidades, ou os pequenos jornais, rádios e TVs locais, preparam sua pauta tendo como preferência algumas editorias. https://cdn.pixabay.com/photo/2017/06/30/10/14/social-media-2457842_960_720.png FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 75 Nos grandes centros, editorias são montadas em locais chaves, próximos aos centros de poder político. No interior, a proximidade e em muitos casos convivência diária com os agentes políticos, também transforma o poder e suas adjacências em pauta. Para que consigam, portanto, abordar outros temas como os bairros periféricos e os acontecimentos que precisam de maior divulgação, buscam criar redes de contatos capazes de rapidamente serem acionados para apuração dos fatos. Segundo ZANCHETTA (2004, p,17), “Essa engrenagem precisa estar mobilizada para que, em questão de horas, as vezes de minutos, um fato possa ser identificado, avaliado, descrito e editado, e seja noticiado, com algum nível de detalhe”. Rede de informação externa: quando passamos a falar sobre as redes externas de informação, começamos a perceber que estes organismos desempenham um papel fundamental no apoio a divulgação de notícias além da agenda tradicional da grande mídia e devido a chegada da internet, tornaram-se autossuficientes para criarem suas próprias formas de divulgação, diminuindo uma dependência que sempre existiu da boa vontade destes chamados, órgãos de imprensa tradicionais, em divulgar fatos e acontecimentos fora da agenda jornalística. Participam desta rede instituições como ONGs, associações, clubes de serviços, entidades, universidades e os chamados “coletivos”, que conhecem de perto as realidades e as necessidades de determinados grupos, que mesmo na urgência de vários acontecimentos, não tinham suas vozes reverberadas, fincando muitas vezes restritas a pequenas notas dispersas entre o noticiário. Devido ao fato do poder público e órgãos governamentais possuírem assessorias responsáveis por municiar a grande imprensa diariamente, além de parte da renda de rádios, jornais e TVs, principalmente do interior do país e nas pequenas cidades, também ser por meio das chamadas verbas para divulgação institucional, ter um bom tema e informar a imprensa, nem sempre é garantia de divulgação. O intercâmbio entre a imprensa e organismos externos nem sempre parece tão simples. Governos, organismos não governamentais e mesmo empresas gastam muito dinheiro na divulgação de suas ações. Equipes compostas às vezes por dezenas de jornalistas, acompanhadas pela ação de agências de publicidade e de veículos ou informativos próprios, encarregam-se de produzir farto material para divulgação. Até boa parte do século XX, uma significativa parcela da receita da televisão e dos jornais brasileiros vinha dos cofres públicos, o que facilitava o vínculo entre os governos e o jornalismo (ZANCHETTA, 2004, p,24). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 76 ISTO ESTÁ NA REDE Um tema que ganhou relevância nos últimos anos, principalmente com as oportunidades de manifestação surgidas na internet é o que se denomina por “lugar de fala”. Quem pode falar por determinados grupos e segmentos da sociedade? A pesquisadora Djamila Ribeiro é uma das vozes mais relevantes e uma referência quando se fala no tema. Vale a pena entender um pouco mais sobre o tema: https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/mas-afinal-o-que-e-lugar-de-fala/ 7.2 Uma nova “ordem do discurso” no jornalismo Percebemos até aqui que na construção de uma notícia existe sempre um grande jogo de interesses, onde alguns personagens ganham mais destaque do que outros, ou seja, determinadas vozes acabam sendo privilegiadas, enquanto outras simplesmente https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/mas-afinal-o-que-e-lugar-de-fala/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 77 são esquecidas. Os grupos que conseguem fazer parte da agenda jornalística, com toda certeza ganham relevância e mais espaço. Mesmo com certo ar de pluralidade e aparentando oferecer espaço para todos, notamos que a narrativa jornalística é construída por meio de uma grande rede de conexões, como afirma LEAL (2014, p, 94), ao dizer que “Assim, mantém-se a tendência por uma voz jornalística monofônica, que representa sempre os mesmos setores, atende os mesmos grupos e privilegia visões de mundo e versões atreladas ao contexto sociocultural no qual o profissional está inserido”. E isto nos leva a pergunta central desta aula: Mas afinal, quem fala no jornalismo? A pergunta pode parecer óbvia, mas significativamente não é. O discurso ali presente pertence ao jornalista que relata os fatos? Aos veículos onde as notícias são divulgadas? Aos personagens envolvidos? Às pessoas que participaram dos acontecimentos ou a eles assistiram? Ou aos setores interessados nos acontecimentos? E mais, quem ganha voz na imprensa? Quem é acionado e chamado a falar e legitimado como porta-voz de informações relevantes. A quem é dada a oportunidade de se manifestar na privilegiada arena midiática? Quem define e quem diz a suposta “verdade” dos fatos? (LEAL et, al. pág. 91). Chegamos neste ponto e percebemos que a questão sobre quem fala tem relação também com “o que se fala” e “como se fala”, dois elementos presentes na análise do que vem a ser um discurso jornalístico, produzido por anos e anos de redação, ideologias, governos, interações e rupturas entre sociedade e jornalismo. Mas a questão sobre a construção do discurso ganhou corpo nos anos 1950, quando o filósofo francês Michel Foucault passou a estudar a história das doenças mentais, crimes e os sistemas prisionais. Para o filósofo, os discursos criados e moldados pela sociedade criam barreiras e organizam uma forma de pensar com influência na cultura e nas mídias de massa. Os suportes discursivos funcionam como paradigmas, definindo limites ao que pode ser prudentemente dito sobre um determinado assunto e como pode ser dito. As discussões sobre crime, por exemplo, são estruturadas de acordo com o discurso dominante da lei e da ordem [...] o conceito de discurso de Foucault torna discurso e prática discursiva centrais para o estudo do poder. Segundo ele, conhecimento e poder são intimamente ligados e não opostos (GIDDENS, 2015, p,9). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 78 Sobre esta reverberação na sociedade do discurso midiático, que o fortalece ainda mais, ZANCHETTA (2009, p, 29)nos lembra que, “boa parte dos episódios acaba estampada nas páginas de diferentes jornais como os mesmos dados, a mesma abordagem e por vezes o mesmo texto. É também recorrente o quadro de repercussão de determinados eventos dentro de um determinado grupo”. ISTO ACONTECE NA PRÁTICA O discurso sobre a pacificação das favelas no Rio de Janeiro é um bom exemplo de como se opera a construção dos discursos pelas autoridades, muitas vezes em conivência com a própria imprensa. A cobertura sobre o processo de pacificação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, pode servir para ilustrar a questão. Por mais que os veículos de mídia tenham buscado ouvir moradores e representantes da comunidade, a cobertura se pautou pelo ponto de vista do governo e da polícia. E mais: o discurso jornalístico é construído sobre determinados conceitos de segurança, justiça e autoridade e por uma visão dominante que prega, utilizemos aqui a expressão estereotipada, que “lugar de bandido é na cadeia”. Antes mesmo da apuração dos fatos, reside a noção de que “pacificação” é um processo que busca o bem, e dificilmente uma voz dissonante a essa postura ganha espaço. Ou seja, por mais que as matérias trouxessem depoimentos de crítica ou insatisfação, o tom geral dos textos era de aprovação à iniciativa. A questão ganha força graças a uma situação comum ao jornalismo: a preferência por fontes estáveis, oficiais e autorizadas. Tal fato remonta ao próprio modelo da organização jornalística, marcado pela centralidade da “sala de redação”, do deadline, pelas pressões internas e externas e pela necessidade de preencher espaços com material atual, vendável e de credibilidade. Nessa dinâmica, é preferível que a fonte seja institucionalizada, de fácil acesso e confiável, ou seja, que possua um lugar de fala já legitimado e possa realizar, sem grandes investimentos, o papel de escudo do jornalista. FONTE: (LEAL et, al. pág. 94). Ao chegarmos no final desta aula, pudemos compreender de maneira mais clara que existem personagens centrais no processo de construção da notícia, responsáveis por selecionar ou sugerir o que deve ou não ser informação. Tão importante quanto entender o que é notícia e ganha destaque na mídia é notar o que não ganha destaque, o que se torna tema tabu e ao mesmo tempo entra em uma rota de esquecimento, tentando-se apagar da memória da sociedade determinadas questões, ou ao menos não as tornas relevantes. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 79 Tratamos também sobre as fontes em suas versões mais variadas, e discutimos também a força da construção de um discurso, que acaba legitimando determinadas falas e deslegitimando outras, num processo excludente de vários segmentos de nossa sociedade. Mas vimos também que todo discurso aparentemente irremovível do fazer jornalístico, entra em uma nova fase, uma rota de colisão com segmentos da própria sociedade de ganham visibilidade devido à internet. Ganham fala, voz, imagens e a possibilidade de construírem suas próprias visões de mundo, independente do que pensam os grandes grupos. Na próxima aula falaremos sobre o processo de escolha do que é notícia e o que poderá tornar-se notícia, de acordo também com critérios jornalísticos, sociais e ideológicos pré-estabelecidos. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 80 AULA 8 TUDO É NOTÍCIA, TUDO VIRA NOTÍCIA Entre a liberdade de informação e os cidadãos, eleva-se a pilha de informações hiperabundantes, tão insuportável, ou quase, quanto os obstáculos impostos pelas ditaduras. Em outros termos, é o “muro da informação” que nos impede de ter acesso a informação. Esse excesso bloqueia o caminho para o conhecimento. O homem contemporâneo corre, assim, o risco de se tornar um ignorante saturado de informações (RAMONET, 2021, p,54). https://cdn.pixabay.com/photo/2016/02/24/21/04/octopus-1220817_960_720.png https://cdn.pixabay.com/photo/2016/02/24/21/04/octopus-1220817_960_720.png FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 81 Desde os anos 1980, as pessoas sentem com mais força os efeitos da globalização. A vida social, aliás, nunca foi e nunca será estática, é um continuo e constante processo de mudanças, mas nunca na velocidade como vemos hoje. Nas comunicações e no jornalismo mais especificamente, a chegada da internet com suas infinitas possiblidades e o surgimento das redes sociais provocaram mudanças profundas no modo de produzir, mas também de consumir informação. Como afirma GIDDENS (2015, p, 20), “a globalização não é um processo de mão única de integração cada vez mais próxima, mas um fluxo de mão dupla de imagens, informações e influência produzindo diversos resultados”, trazendo efeitos que serão sentidos por todos os entes e participantes. Na mídia o que se percebe é um certo esvaziamento das grandes pautas locais e nacionais, e uma relevância temporal cada vez menor das informações que circulam, em favor de temas mais superficiais e rotineiros, que em outras épocas certamente não ocupariam espaço e tempo da mídia tradicional. Por outro lado, e até como forma de explicar este certo esvaziamento de interesse, nunca se teve tanto acesso a informação e nunca se produziu tanta informação, ou para utilizar um termo atual, nunca se produziu tanto conteúdo. Para RAMONET (2012), o que está acontecendo é um enfraquecimento gradual do que ele chama de “quarto poder”, título atribuído a mídia e que, segundo o autor, talvez hoje esteja sendo colocado em xeque, por existir uma crise de credibilidade das mídias, devido ao fato de que: O jornalismo de especulação, de divertimento e de espetáculo triunfa em detrimento da exigência de qualidade. A encenação da informação sobrepõe-se à verificação dos fatos. Mas mídias on-line, os novos jornalistas têm tendência a dedicar espaço sobretudo à difusão de notas em vez de pesquisar informações ou desenvolver reflexões. Eles se tornaram certamente mais reativos, mas menos mediativos, mais atraídos por eventos, mas frequentemente insensíveis ao contexto (RAMONET, 2021, p,54). Existe também a sensação de urgência pela rapidez, pelo imediatismo de receber e interagir com as informações. Está quase obsessão pela rapidez acaba por pressionar também as mídias a produzirem mais, aumentando as chances de erros durante o processo, perdendo certas referências sobre o verdadeiro valor da notícia, aquilo que precisa, pode e deve ser noticiado. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 82 Estas constatações, aliás, não dizem respeito apenas ao jornalismo. Está urgência da sociedade marca o surgimento do que os sociólogos chamam de sujeito pós- moderno, ou sujeito da pós-modernidade, como afirma LEAL (2014, p,104), “de algum modo, viver na (pós/hiper) modernidade é também se valer de gestos constantes e sub-reptícios de atualização – tarefa sociotécnica encarnada, de maneira central, no processo produção/circulação/consumo de notícias jornalísticas”. Tratando especificamente da comunicação e do jornalismo na pós-modernidade, alguns estudiosos trazem previsões que podem se concretizar, ou não, mas nos ajudam e buscar respostas para este fenômeno ainda novo, e que não para de evoluir. Jean Baudrillard argumenta que a mídia eletrônica destruiu nossa relação com o passado [...] em que a sociedade é influenciada, acima de tudo, por signos e imagens. Para Baudrillard, a crescente proeminência da mídia de massa erode a fronteira entre a realidade e a sua representação, deixando apenas uma “hiper-realidade” [...] onde a nossa percepção dos acontecimentos e a nossa compreensão do mundo social ficam extremamente dependentes de enxerga-los por intermédio de alguma mídia de massa [...] da mesma forma, há muitas comprovações de que a mídia de fato exerce um papel mais importante do que em períodos anteriores, mas nãose pode afirmar que as pessoas simplesmente engolem cegamente o conteúdo midiático [...] os telespectadores, por exemplo, leem e interpretam ativamente o conteúdo da mídia, tirando conclusões próprias [...] há também mais fontes alternativas de informações e entretenimento, muitas das quais se baseiam na interação [...] e mesmo que algumas das mudanças propostas pelos pós-modernistas sejam genuínas e capazes de influenciar, a constatação de que constituem em uma mudança radical para além da modernidade continua sendo tema de debates (GIDDENS, 2015, p,30). 8.1 Para onde caminha o quarto poder? Em 2008, quando escreveu o livro O Destino do Jornal, o jornalista Lourival Sant´Anna já refletia com seus entrevistados sobre a pergunta que abre este tópico –para onde caminha o quarto poder? – No caso a imprensa, chamada de quarto poder1 por sua considerada força de produzir mudanças políticas e sociais com a mesma autoridade dos poderes constituídos (falaremos sobre isso mais adiante). 1 Não nos cabe neste momento discutir a validade ou veracidade desta proposição atribuída a imprensa, “quarto poder”, mas apenas entendê-la como aceita de forma empírica pela sociedade e pela própria imprensa em determinado momento histórico, e servindo de base para nossas análises nesta aula, por meio dos textos e obras utilizadas como apoio. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 83 Algumas das constatações, ou previsões feitas pelos especialistas, diretores ou Publisher do impresso como os jornais Folha de S. Paulo, O Globo, e O Estado de S. Paulo tornaram-se realidade em poucos anos, ou caminham para tornarem-se, menos de 15 anos após terem sido apresentadas. “Há uma dificuldade por parte dos meios de comunicação e dos jornalistas em particular em se acomodar a um novo entorno no qual as audiências têm a possibilidade não só de responder, mas de falar entre si a propósito do que nós lhes informamos. Isto gera processos de movimento informativo que até agora não existiam ou que pelo menos não se tornavam públicos [...] a interatividade, ou seja, incorporar o leitor ao discurso jornalístico, é algo radicalmente novo, e é a isso que os meios digitais estão conferindo um protagonismo”. “Um movimento centrípeto e outro centrífugo – centrípeto no sentido de que alguns elementos acumulam possibilidades tecnológicas que antes só eram possíveis em distintas ferramentas tecnológicas individuais. Agora, com uma única ferramenta, podem-se fazer muitas coisas. O computador, nesse sentido, está-se convertendo no núcleo estratégico de todos esses eletrodomésticos [...] centrífugo, que faz com que todas as ferramentas, como os telefones celulares, acumulem também possibilidades que antes eram patrimônio do computador [...] há um processo de intercâmbio, no qual, com qualquer ferramenta tecnológica, podemos fazer muito mais coisas do que antes”. “Na primeira década, a web esteve condicionada por uma limitação física: era preciso estar conectado a um computador para poder acessar a rede. Isso já não será mais assim. Agora, a internet vai se converter em um tipo de rede ambiental, que vai estar a nossa disposição através dos celulares [...] isso vai resultar em uma revolução linguística, porque poderemos acessar a informação de maneira direta, a todo momento. A informação de última hora nos vai chegar pelos celulares. FONTE: SANT´ANNA (2008, p 175-177) A partir destes relatos, cabe-nos perguntar - o que é notícia na pós-modernidade, e qual sua relevância para a sociedade. Quem são os produtores de notícias e informações na atualidade. Será que tudo isso morreu, ou está se transformando em algo que ainda não sabemos com clareza do que se trata? Como profissionais da comunicação, aprendemos que por meio de técnicas e manuais jornalísticos que conferem relevância aos fatos e acontecimentos, podemos FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 84 elencar hierarquias e trabalhar as informações de acordo com esta relevância, dotada de critérios de noticiabilidade e valores-noticia. O que temos hoje foge a estas regras do jornalismo tradicional, pois é uma construção conjunta de informações que se inicia, mas não termina na notícia em si. Persiste e ganha novas interpretações com os comentários, as curtidas, os compartilhamentos e novas formas de interação. LEAL (2014), nos ajuda nesta reflexão. Parece inevitável o abandono dogmático de algo que, ironicamente, sempre fez parte da identidade de qualquer jornalista, a saber, a tarefa de guardião da relevância – ou de caçador de furos. Ao mesmo tempo, é inegável que nos contextos de interação alimentados pelo sistema perito dos jornalistas, essa sensação existirá (e é bom mesmo que continue existindo): o sentimento e o desejo de tocar as franjas dos acontecimentos (Mouillaud, 1997), bem como a autoridade nascida automática e abruptamente desse obsceno toque, são elementos que garantem a permanência, a vitalidade, a legitimidade e a força de qualquer experiência jornalística profissional, organizada socialmente (LEAL et, al. pág.105). Podemos afirmar então que o trabalho jornalístico profissional tem seu espaço mais do que garantido e continuará atuando de maneira importante e essencial na sociedade, mas agora não de maneira única. Haverá, portanto, um deslocamento do centro das atenções na figura do jornalista e da empresa jornalística e midiática, que passa a dividir espaço com produtores de conteúdo dos mais variados espectros sociais e econômicos. Isso parece nos dizer que a experiência de narrar notícias não é tributária apenas da empresa e/ou da profissão jornalística, mas refere-se, em última análise, a uma própria atualização do lugar que ocupamos no mundo, protagonizada por qualquer um de nós. Em outros momentos, quando a conexão entre os territórios não era algo instantâneo, a tarefa de atualização da vida social era exercida por outros sujeitos – sobretudo aqueles que venciam os lugares e, imediatamente, narravam suas experiências (LEAL et, al. pág.105). Outro ponto tratado na aula anterior e que nos cabe retornar neste momento é o fator “agenda” jornalística, que como discutimos, vem a cada dia perdendo relevância para a construção de um espaço social mais plural e democrático de apresentação das notícias e informações. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 85 Mas, independentemente destas novas construções, existe uma elaboração diária e própria da mídia que de uma maneiro diferente do que já foi em anos anteriores, elabora sim uma agenda mínima, que insta na sociedade os primeiros focos de discussão, mesmo que posteriormente os caminhos se modifiquem. o lugar de prescrição e de agendamento da notícia: ela nos “oferta diariamente – na televisão, no rádio, no jornal, na internet – o ‘prato’ (ou a ‘ordem do dia’) que constituirá alimento de uma conversação social” e, como dispositivo, é lugar que pretende convocar e coordenar a interação entre os sujeitos e suas falas – já que, ao buscar a convergência da prosa social, projeta as interações “noutro plano e ali as põem em permanente circulação e rebatimento, instando os sujeitos a se tornarem seus interlocutores”. Contudo, o fato de as notícias jornalísticas, produzidas pelo complexo aparato midiático, rogarem pelo agendamento, oferecendo substrato à conversação social, não indica que a notícia seja a única instância, por excelência, produtora de experiências de atualidade (LEAL et, al. pág.110). Por meio destas definições, entendemos existir na atualidade, dois polos comunicacionais que se tencionam e se forçam mutuamente, sendo um primeiro a mídia enquanto elemento técnico de produção jornalística e um segundo polo formado por interlocutores, consumidores e produtores de conteúdo, responsáveis pela reverberação dos temas tratados. Sendo assim, a notícia jornalística é tantozona de afetação quanto de interpelação; de apostas e de inserção dos acontecimentos numa cadeia de causa/consequência; é ao mesmo tempo acontecimento e lócus de interpretação/sofrimento/passagem; é “lugar de experiência e ao mesmo tempo um lugar que interpreta e reconfigura a experiência. Fala da experiência do mundo, mas faz parte dessa mesma experiência” (Antunes; Vaz, 2006, p. 51). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 86 ANOTE ISSO Em sua obra A explosão do jornalismo: das mídias de massa a massa de mídias, de 2012, Ignácio Ramonet nos fala sobre o excesso de informação que nos bombardeia diariamente e aborda também o que chama de “a morte do quarto poder”, tema que nos acompanha nesta aula. Leia atentamente o que diz o pesquisador. Devemos lembrar que, desde a segunda metade do século XIX, a imprensa e as mídias constituíram, no seio das democracias, o recurso dos cidadãos contra os abusos dos três poderes tradicionais (Legislativo, Executivo e Judiciário), que podem falhar e cometer erros [...] nos regimes democráticos – nos quais as leis são votadas democraticamente, os governos são eleitos pelo sufrágio universal e a Justiça é independente do Executivo -, graves abusos também podem ser cometidos [...] em um contexto democrático, os jornalistas e as mídias consideram como seu dever denunciar essas violações dos direitos. Em determinadas situações, eles pagaram caro: atentados, desaparecimentos, assassinatos [...] é por essa razão que falamos, durante longo tempo, do “quarto poder”. Tratava- se na realidade de um contra poder, porque fazia contrapeso aos outros três. Foi ele que permitiu, nas democracias modernas, a aparição de um novo ator decisivo: a opinião pública (não havia opinião pública antes do desenvolvimento das mídias de massa no final do século XIX). Este “quarto poder” era, em definitivo, graças ao sentido cívico das mídias e à coragem dos jornalistas, aqueles que dispunham os cidadãos para criticar, rejeitar, contrapor – democraticamente – decisões políticas ou judiciárias certamente legais, mas que podiam revelar-se injustas, ou até criminosas. A imprensa tornava-se assim, como sempre foi dito, a voz dos sem-vozes. Nos últimos 20 anos, à medida que se acelerava a globalização neoliberal, o conteúdo deste “quarto poder” foi pouco a pouco esvaziado de seu significado. Ele perdeu sua função essencial de contra poder. FONTE: RAMONET, 2012, pág.56 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 87 8.2 Excesso de notícia e o interesse público https://i0.wp.com/gestaodesegurancaprivada.com.br/wp-content/uploads/De-interesse-p%C3%BAblico-1.jpg?fit=720%2C405&ssl=1 Recorrendo a uma análise funcionalista do que vem a ser a mídia e seus veículos e plataformas de comunicação, nos deparamos com o que GIDDENS (2015, p, 237) chama de – “produção de informações sobre a sociedade e o mundo como um todo, o que cria uma experiência compartilhada de modo que todos nós nos sentimos parte do mesmo mundo. A mídia de massa explica os eventos mundiais e auxilia nossa compreensão”, ao selecionar, organizar e divulgar os fatos e acontecimentos dentro de critérios mínimos de interesse e veracidade. Ao nos oferecer esta forma de interação conjunta e socializada, mesmo não podendo ser considerada totalmente neutra em seus posicionamentos políticos ou ideológicos, o interesse público desponta inegavelmente como fator preponderante no trabalho da mídia. Tanto é verdade esta ligação íntima entre interesse público e social, democracia e mídia, que GIDDENS (2015, p, 218) nos lembra que “as democracias modernas se desenvolveram junto com a mídia de massa [...] em um sentido bastante real, a mídia de massa possibilitou e estimulou a cultura democrática [...] e foram vitais para o desenvolvimento inicial das democracias”. https://i0.wp.com/gestaodesegurancaprivada.com.br/wp-content/uploads/De-interesse-p%C3%BAblico-1.jpg?fit=720%2C405&ssl=1 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 88 Paralelo a este papel fundamental desempenhado pela mídia, a proximidade do poder público proporcionada pela necessidade de informar trouxe outras questões, relacionadas as relações de interesse entre mídia e poder, conforme GIDDENS (2015, p, 219), “a política é manipulada no parlamento e na mídia de massa, enquanto os interesses comerciais dominam. A opinião pública não é formada por discussões abertas e racionais, mas por meio da manipulação e do controle – por exemplo, na publicidade. Nesta dicotomia entre a inegável importância da mídia para a sociedade e sua aproximação nem sempre republicada dos centros de poder, surgiu a internet, provocando a disrupção de todo este processo e colocando um ponto de interrogação no que vem a ser a relevância jornalística e interesse público da notícia. Talvez um dos elementos mais conhecidos e responsável por legitimar o lugar do jornalismo nas sociedades modernas seja seu poder de agendamento frente àquilo que, genericamente nomeia-se como interesse público. Advoga-se para o conjunto de técnicas, métodos e regras de produção jornalística uma espécie de tarefa objetiva, supostamente distanciada das paixões e cientificamente comprovada, capaz de produzir a verdade do presente [...] é esse mesmo molde, portanto, que idealiza uma imagem de interesse público como algo que supostamente possa ser alcançado somente pelos sujeitos que se distanciam da experiência e que por isso mesmo, sejam capazes de esclarecer e de iluminar o restante dos pobres e desqualificados mortais, mergulhados no senso comum da vida social (LEAL et, al. pág.111). 8.2.1 Notícia como “experiência” e não como “interesse” público A chegada da internet e a possibilidade de produção autônoma de notícias a partir de um desejo, necessidade ou identificação com determinados temas, nos coloca diante de outro dilema instigante para tratarmos sobre o excesso e a relevância das informações. Deixar de entender a notícia apenas como de interesse público, mas trata-la também como resultado das experiências da sociedade, em busca de respostas aos seus questionamentos prementes e torna-la, portanto, o resultado das experiências de quem vivencia o dia a dia da sociedade é um outro caminho proposto, como bem frisam os autores. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 89 Em primeiro lugar, o termo interesse pressupõe algo que parece ecoar de um sujeito moderno, fixo, isento de paixões, criado para dominar sua própria condição animal e responsável por construir suas escolhas a partir de uma motivação unicamente racional-instrumental. Ora, essa ideia de sujeito já se estraçalhou há tempos, como nos aponta Hall (1999): os cenários de uma modernidade em crise evidenciam a existência de sujeitos plurais, múltiplos, partidos, estilhaçados, que pertencem a grupos diversos; que possuem não apenas razão, mas também sombra e inconsciente e que não conseguem simplesmente se livrar de uma experiência comum, esta que acolhe e organiza suas histórias junto a histórias de outros. São esses mesmos sujeitos que, em vários momentos de sua vida, se assujeitarão às notícias jornalísticas, seja como leitores, seja como profissionais-produtores, tomando-as enquanto (des) encaixes de uma experiência mais ampla, somente realizada (real e potencialmente) junto a outros sujeitos (LEAL et, al. pág.112). Este olhar sobre a experiência e não apenas o interesse como determinante para a produção de informações de interesse público nos coloca diante de um produtor de conteúdo que tem sua relevância como sujeito ativo do processo e não como um profissional capacitado para tal. Por este prisma, a notícia deixa de ser resultante unicamente de um processo de construção jornalística e retransmitida por meios técnicos para ser, segundo LEAL (2014, p, 113), “encaixe de uma experiênciapública, por meio de uma configuração provocada pela vivência coletiva de uma dada situação, vivência que não se dá meramente pela dimensão coletiva ou de compartilhamento de representações e valores”. Mas é preciso que também não se faça uma leitura apressada sobre o atual momento, considerando que todas as experiências são corretas e a sociedade pode prescindir do jornalismo profissional, técnico, ético e produzido por meio da experiência do fazer jornalístico e o olhar treinado do profissional, com pesquisa, objetividade e credibilidade. É preciso existir um meio termo entre o novo, que surge por meio da internet, das redes sociais e dos produtores de conteúdo e do tradicional, construído sobre fortes alicerces sociais. Conforme LEAL (2014, p,115), “Se a relação entre relevância e interesse público não se mostra mais suficiente para explicar o papel social e o lugar de afetação pública ocupados pela notícia, a noção de experiência pública traria o indigesto perigo de se tomar tudo (e nada) como notícia? ” O autor nos indaga ainda quais garantias podem ser dadas ao campo profissional do jornalismo quanto ao impacto, ao papel, à legitimidade das notícias na sociedade, FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 90 e o que dizer aos estudiosos e aos profissionais do campo, que pretendem investigar e definir critérios de noticiabilidade? Ora, muito antes do que descaracterizar (ou banalizar) o lugar social do jornalismo nas sociedades contemporâneas, a visada da experiência pretende executar o movimento de deslocamento de suas premissas sem, contudo, deixar de reconhecer sua fundamental presença na manutenção de um modo de vida moderno em crise (LEAL et, al. pág.115). Nesse sentido chegamos a vários questionamentos que podem nos ajudar a entender o valor das notícias na sociedade atual e como devemos agir diante de um mundo conectado e sobrecarregado de informações. Será que ainda podemos utilizar conceitos como interesse e relevância da notícia ao tratarmos sobre os mais variados temas. Podemos tratar notícias como de pouco utilidade, quando estas notícias despertam o interesse de milhares de pessoas que hoje podem receber informações e refletir sobre estes assuntos. Para o autor: Tal evidência nos obriga a abandonar juízos de valor ancorados previamente num certo intelectualismo militante e arrogante, instituído sobretudo junto a inúmeros sujeitos-jornalistas e assumir que, a depender da afetação, os fenômenos das celebridades se mostram tão relevantes para a vida social contemporânea quanto as notícias políticas e os embates econômicos entre os países no mundo (LEAL et, al. pág.117). Neste momento atual, em que as notícias, muitas vezes nos chegam primeiro por meio de redes sociais, produzidas e entregues por pessoas comuns e posteriormente passam ao campo do jornalismo, precisamos reavaliar conceitos como os valores- notícia e os critérios de noticiabilidade. Precisamos indagar se estes mesmos valores e conceitos, criados para tornar o jornalismo um elo entre a sociedade e as informações e aproximar o cidadão dos seus direitos, ainda são todos aceitos e valorizados como tal? Creio que como síntese desta aula fica o debate sobre a relevância das notícias e como isto afeta a legitimação social do jornalismo. Importante também termos tratado sobre a relação existente entre experiência e interesse público na produção jornalística e como é possível unir estes dois polos em favor da sociedade, do jornalismo e da informação correta, necessária e essencial à sociedade. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 91 A partir da próxima aula iniciaremos a Unidade 3, focada no tópico Mídia e Direito, trazendo importantes reflexões sobre o diálogo entre Comunicação e Direito; direito de imagem: atuais e de arquivo; transmissão de eventos esportivos; e o Código de Ética dos jornalistas. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 92 AULA 9 O DIÁLOGO ENTRE COMUNICAÇÃO E DIREITO Existem profissões especiais? Até que ponto o jornalismo é diferente de outras atividades da sociedade moderna? O jornalismo é uma profissão ou um estado de espírito? (DINES, 2009, p, 134). https://secgts.org.br/2015/wp-content/uploads/2016/10/igualdade-de-g%C3%AAnero-620x350.png Caros estudantes, até este momento falamos sobre os conceitos e fundamentos do jornalismo enquanto atividade profissional da contemporaneidade, prática essencial para o melhor convívio em sociedade, sem, no entanto, nos afastarmos das importantes discussões sobre suas origens e percurso histórico. Abordamos teorias que envolvem o fazer jornalístico, apontando as complexidades que abrangem a prática desta atividade profissional em seus elementos estruturantes, a utilização dos diversos gêneros jornalísticos, a linguagem adequada e em constante modernização, que faz com que o jornalismo seja atual e ofereça a sociedade uma visão ampla, diversa e crítica dos fatos e acontecimentos. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 93 Trataremos à partir de agora, nas Unidades 3 e 4, que englobam as aulas 9 à 15, temas atinentes a Jornalismo e Direito, no que concerne ao direito e a liberdade de informar e ser informado, ética profissional relativa ao exercício do jornalismo e da profissão de jornalista em suas mais variadas práticas, além de tratarmos sobre Direito e Mídia, uma relação nem sempre pacífica, mas necessária, quando se trata de levar informação a sociedade. Iremos falar sobre Ética e seus fundamentos, a questão da ética na comunicação e no jornalismo, a busca pela verdade no ato de informar e o comportamento que deve existir por parte de jornalistas no exercício da profissão. Outros fundamentos a serem tratados dizem respeito ao código de ética do jornalismo, legislação dos meios de comunicação e o direito a informação, garantido à todo cidadão brasileiro por meio da Constituição Federal, mas que nem sempre é exercido em sua plenitude. Desta forma, você conhecerá de maneira mais detalhada os aspectos legais da profissão e da prática diária do jornalismo, amparado por uma legislação que regulamenta, disciplina e garante a prática em todo território nacional. 9.1 Jornalismo, Ética e direito à informação Desde o surgimento da imprensa no Brasil no início do Século XIX, ainda durante o Império, passou a existir também a preocupação com a credibilidade das publicações. Principalmente porque o jornal como veículo de informação chegou ao país por meio da família real, que detinha e usava seu poder de decidir o que seria ou não notícia. Neste período, a censura como proibição à livre circulação de informações e ao trabalho de jornalistas já existia, tanto que um outro jornal, o Correio Braziliense, que não tinha ligações com a família real e buscava ser mais independente, não era visto com bons olhos pela família imperial. Para driblar a censura sua edição e impressão ocorriam em Londres, pelo já naquela época perseguido e refugiado, Hipólito da Costa. Chegava ao Brasil de navio, o que não impedia seu confisco caso os assuntos tratados não agradassem a Monarquia. No meio deste conflito ficava a população, os consumidores de informação, que sabedores de que um jornal autorizado pela Monarquia certamente carregava nas tintas a favor do Império e da família real, enquanto o oponente, considerado independente, FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 94 poderia também ter sua linha editorial contrária aos negócios da Coroa, mas não necessariamente a favor dos interesses populares. Os fatos acima narrados demonstram que sempre existiu uma preocupação com a linha editorial e os limites da imprensa, tanto por parte dos detentores do poder ou governantes de ocasião, como por parte da sociedade. Busca-se sempre entender oque está “por traz” de uma notícia, a quem ela busca agradar e a quem procura atingir. No meio disso tudo ainda existe a figura do jornalista, profissional capacitado, por meio de sua formação e seus compromissos e juramentos a buscar a verdade dos fatos acima de qualquer interesse pessoal ou de grupos, inclusive os da empresa que atua. Além disso, o jornalista deve respeitar códigos de conduta da própria profissão e a legislação do país, que estabelecem limites sobre sua função, a fim de preservar também os direitos da sociedade, beneficiária e alvo do trabalho da imprensa. A Constituição Federal quando fala sobre os direitos e garantias fundamentais, trata em seu artigo 5º, sobre os direitos e deveres individuais e coletivos e apresenta inúmeros incisos tratando sobre acesso a informação e direito da sociedade a informar e ser informada livremente. IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm) Segundo DINES (2009, p, 135), o jornalista é também um educador, na medida que “o jornalismo, por ser uma atividade essencialmente intelectual, pressupõe no seu exercício uma série de valores morais e éticos. Sabe-se que o processo de informar é um processo formador; portanto, o jornalista, em última análise, é um educador”. Não apenas como jornalista, mas também como pesquisador, Alberto Dines ressalta que esta análise é de caráter geral e aprofunda seus estudos, apresentando o que chama de “componentes específicos da atitude jornalística”, subdivididos em três grandes grupos. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 95 a) os de natureza interna, isto é, psicológica: não correspondem àqueles estereótipos que o cinema consagrou. O jornalista não necessariamente deve compor o tipo expansivo, entusiasta, ágil, “durão”, cuja imagem o público já mentalizou. Pode ser até calado e delicado. Porém, internamente deve ser um espírito inconformado e inquieto. O jornalista não pode contentar-se com a primeira informação, impressão ou inferência, nem acomodar-se ao primeiro obstáculo. Quantas vezes a não notícia é uma excelente notícia? Basta trabalha-la. b) os de sentido operativo – o jornalista se caracteriza pela permanente tomada de decisões. Se fotógrafo, é o ângulo da fotografia que importa, uma decisão, portanto. Se repórter, importam o enfoque da notícia, a pergunta ao entrevistado e a escolha do próprio entrevistado [...] ao escrever, cada palavra é uma decisão, cada informação, uma decisão, cada orientação, decisão [...] durante todo tempo em que desempenha sua atividade diária [...] o jornalista seleciona e opta [...] o jornalista entrosa-se com a responsabilidade muito mais facilmente do que com a punição e o arbítrio. Especialmente se essa responsabilidade for um padrão de toda sociedade que ele representa. O jornalista sabe que, ao redigir uma nota de três linhas, pode estar destruindo uma reputação e uma vida [...] uma forma de incentivar a responsabilidade e de obrigar o jornalista a conviver com ela é a criação de códigos de ética. c) os de caráter exterior ou formais – referem-se à etapa final da atividade jornalística: a expressão do pensamento. O jornalista vive enunciando, parabolizando, cronicando, individualizando, generalizando, definindo, montando tendências, compondo perspectivas, rejuntando o passado [...] e como instrumento desta percepção, utiliza- se da linguagem. Nesse sentido, é um cultor dedicado do mais importante tesouro cultural de um país: sua língua [...] escrever bem é pensar bem, conceituou o jornalista e escritor Otto Lara Resende. Há escritores imbatíveis na graça, leveza ou precisão da linguagem. Mas há um número imensamente maior de jornalistas cujo contato diário com pessoas, ideias, emoções ou fatos os torna lúcidos pensadores e exemplares expositores. Fonte: DINES, 2009, p, 136-139 Encerrando este raciocínio sobre os componentes específicos da atitude jornalística diante de seu trabalho e da sociedade, o autor reflete um pouco mais sobre o papel da imprensa e dos veículos de comunicação e a relação que deve existir entre imprensa, sociedade e governantes. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 96 Os jornalistas não são semideuses, mas todos perseguem uma melhoria de sua pessoa, porque essa é uma das poucas atividades em que o aperfeiçoamento subjetivo é meta profissional. Sob a pressão diária dos acontecimentos, isto é, da vida, eles procuram objetivos que a um só tempo são formais e íntimos. O jornalista, como já se disse, não é pior que o seu patrão, nem melhor que os seus governantes. Sabemos que, sociologicamente, não há segmentos diferentes em uma população [...] um corte transversal em uma corporação de militares, religiosos, jornalistas, engenheiros, economistas e governantes de um país revelará os mesmos traços, as mesmas marcas dominantes, as mesmas qualificações, os mesmos ingredientes. O jornal é o fragmento da história e da memória de um país [...] o que não pode haver em uma sociedade que busca seu aperfeiçoamento é o espírito de “dedo no gatilho” contra a imprensa. Quando governos e elites compreenderem isso, os jornalistas serão entendidos. E poderão ser melhor jornalistas (DINES, 2009, p, 141) 9.1.1 Ética e Moral Falar sobre Ética e Moral nunca foi tarefa fácil, seja relacionada a vida privada, pública ou profissional. Se é que de fato existe esta distinção. Ao colocarmos este tema em discussão, não buscamos ter uma opinião definitiva ou única sobre o que venham a ser considerados, mas sim jogar luz sobre estes dois conceitos que regem a vida em sociedade e são norteadores para o exercício de qualquer atividade profissional, mas tem um peso fundamental no exercício do jornalismo. Principalmente por serem conceitos entronizados no dia a dia da sociedade, cada pessoa acaba por ter seu próprio entendimento do que vem a ser ética, como bem descreve Álvaro Valls, no livro O que é ética, comumente utilizado nos cursos de Comunicação. Logo na abertura o autor nos instiga e nos convida a refletirmos. A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar quando alguém pergunta. Tradicionalmente, ela é entendida como um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as ações humanas. Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos costumes considerados corretos. A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento [...] didaticamente, costuma- se separar os problemas teóricos da ética em dois campos: num os problemas gerais e fundamentais (como liberdade, consciência, bem, valor, lei e outros); e no segundo, os problemas específicos, de aplicação concreta, como os problemas de ética profissional, de ética política, de ética sexual, da ética matrimonial, de bioética, etc. É um procedimento didático ou acadêmico, pois na vida real eles não vêm assim separados (VALLS, 2013, p, 7-8). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 97 Sobre Moral, também existem as mesmas indagações, como apresenta VALLS (2013, p,43) “mas afinal, qual o critério de moralidade? Ela compreende facilmente que a consciência moral deveria ser ao menos uma espécie de critério imediato. Agir moralmente significaria agir de acordo com a própria consciência. Mas, afora isso, agir como? Buscando o quê?”, mostrando que as respostasvariam. Outro ponto a ser considerado sobre ética e moral diz respeito também as mudanças enfrentadas pela sociedade. Costumes mudam, e muito do que consideramos errado em épocas passadas, hoje são naturalmente e legalmente aceitos. Mas então devemos considerar ética apenas as convenções sociais, que existem de maneira provisória por um determinado período? Sobre esta questão também reflete o pesquisador. Se fosse assim, o que seria um comportamento correto, em ética? Não seria nada mais do que um comportamento adequado aos costumes vigentes, e enquanto vigentes, isto é, enquanto estes costumes tivessem força para coagir moralmente, o que aqui quer dizer, socialmente. Quem se comportasse de maneira discrepante, divergindo dos costumes aceitos e respeitados, estaria no erro, pelo menos enquanto a maioria da sociedade ainda não adotasse o comportamento ou o costume diferente. Quer dizer: esta ação seria errada apenas enquanto ela não fosse o tipo de um novo comportamento vigente. [...] Não seria exagerado dizer que o esforço de teorização no campo da ética se debate com o problema da variação dos costumes. E os grandes pensadores éticos sempre buscaram formulações que explicassem, a partir de alguns princípios mais universais tanto a igualdade do gênero humano no que há de mais fundamental, quanto as próprias variações. Uma boa teoria ética deveria atender à retenção da universalidade, ainda que simultaneamente capaz de explicar as variações de comportamento, características das diferentes formulações culturais e históricas (VALLS, 2013, p, 10-17) FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 98 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Para refletirmos sobre ética jornalista e moral, ou a falta delas... No dia 25 de janeiro de 1984, o Jornal Nacional tapeou o telespectador. Mostrou cenas de uma manifestação pública na Praça da Sé, em São Paulo, e disse que aquilo acontecia em virtude da comemoração do aniversário da cidade. A manifestação era real: lá estavam dezenas de milhares de cidadãos em frente a um palanque onde lideranças políticas discursavam. Mas o motivo que o Jornal Nacional atribuiu a ela não passava de invenção. Aquele comício nada tinha a ver com a fundação de cidade alguma. A multidão estava lá para exigir eleições diretas para a Presidência da República. O Jornal Nacional enganou o cidadão naquela noite – e prosseguiu enganando durante semanas a fio, ao omitir as informações sobre a campanha por eleições diretas. Para quem só se inteirasse dos acontecimentos nacionais pelos noticiários da Globo, a campanha das diretas não existia. https://veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2016/06/diretas-ja-20070927-79-original.jpeg?quality=70&strip=info&resize=680,453 No dia 25 de abril daquele ano, a emenda constitucional que restabeleceria o sufrágio universal e direito a escolha do presidente da República deixou de ser aprovada por 22 votos no Congresso Nacional. O brasileiro só reconquistou o direito de votar para presidente com a Constituição de 1988 [...] e só voltou a exercê-lo em 1898. O eleito foi Fernando Collor de Mello, cuja candidatura contou com o apoio do Jornal Nacional, do Fantástico e dos outros programas jornalísticos da Rede Globo. Apoio explícito e assumido. Roberto Marinho, o dono das Organizações Globo, foi muito claro a este respeito [...] “Sim, nós promovemos a eleição do Collor e eu tinha os melhores motivos para um grande entusiasmo e uma grande esperança de que ele faria um governo extraordinário”. Realmente, Collor realizou um governo extraordinário, deixando para a posteridade o registro de vultosas realizações na esfera da corrupção. Tão extraordinário que, em 1992, uma outra campanha de massas tomou as ruas, lembrando as jornadas pelas diretas de oito anos antes. Mas a bandeira era outra: agora, o que unia os manifestantes era e exigência do afastamento do chefe do Executivo federal. O jornalismo da Rede Globo adotou o mesmo comportamento de 1984. Ignorou – e, com isso, forçou os seus telespectadores a ignorar – inúmeras passeatas e atos públicos que tomavam conta do espaço público nacional. De novo, sonegou informação. Na tela da Globo, as jornadas que defendiam o impeachment de Collor não tinham vez. Foram aparecer apenas tardiamente, quando o movimento já estava perto da vitória. Fonte: BUCCI, 2006, p, 29-30 https://veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2016/06/diretas-ja-20070927-79-original.jpeg?quality=70&strip=info&resize=680,453 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 99 9.1.2 Ética e Jornalismo Segundo o Dicionário Onlline de Português, disponível em https://www.dicio.com.br/, Ética é “o segmento da Filosofia que se dedica à análise das razões que ocasionam, alteram ou orientam a maneira de agir do ser humano, especialmente aquelas que estão inerentes em quaisquer regras, preceitos, normas sociais” (acessado 10/02/21), ou seja, tratam sobre fusão dos princípios de valor moral e juízo de valor presentes nos indivíduos e na sociedade, forjando uma atitude ética que o impede de transgredir suas convicções. Para o jornalista e pesquisador em Comunicação Eugênio Bucci, a ética só existe na comunicação social porque o jornalismo, em suas palavras, “é conflito”. Segundo Bucci, “quando não há conflito no jornalismo, aí sim, “um alarme deve soar”. De que adiantam equipes de repórteres de fino trato se o dono da rede de televisão põe a emissora a serviço de seu candidato a presidente da República, distorcendo os fatos? Para que serve tanto cuidado na hora de investigar a privacidade do senador, se não há o mínimo de respeito para com os desempregados que, detidos como suspeitos por um delegado na periferia, são interrogados diante das câmeras como se fossem autores de crimes hediondos? Como pode a imprensa fiscalizar o poder – um de seus deveres supremos – se ela se converteu num negócio transnacional, oligopolizado em conglomerados de mídia que trafica influência junto aos governos para conseguir mais concessões de canais e mais facilidades de financiamentos públicos? Onde está a independência do jornalismo? (BUCCI, 2006, p, 11-12) Bucci (2006, p, 12) enfatiza que a ética no jornalismo não pode ficar restrita a normatização da conduta dos profissionais de imprensa, pois, “encarna valores que só fazem sentido se forem seguidos tanto por empregados da mídia como por empregadores – e se tiverem como seus vigilantes os cidadãos do público. A liberdade de imprensa é um princípio inegociável, e existe para beneficiar a sociedade”, diz. https://www.dicio.com.br/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 100 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Em 1994, os donos da Escola de Educação Infantil Base, na zona sul de São Paulo, foram chamados de pedófilos. Sem toga, sem corte e sem qualquer chance de defesa, a opinião pública e a maioria dos veículos de imprensa acusaram, julgaram e condenaram Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada, Mauricio Alvarenga e Paula Milhim Alvarenga. Foi um dos maiores crimes contra a honra de cidadãos brasileiros sem a mínima chance de defesa por parte dos envolvidos. A Rede Globo foi condenada a pagar R$ 1,35 milhão para reparar os danos morais sofridos pelos donos e pelo motorista da Escola Base. A justiça entendeu que a atuação da imprensa deve se pautar pelo cuidado na divulgação ou veiculação de fatos ofensivos à dignidade e aos direitos de cidadania. Jornais, revistas, emissoras de rádio e TV basearam-se em “ouvir dizer” sem investigar o caso. Quando foi descoberto, a escola já havia sido depredada, os donos estavam falidos e eram ameaçados de morte. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-o-que-foi-o-caso-escola-base-fake-news.phtml https://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/caso-escola-base-rede-globo-e-condenada-pagar-r-135-milhao.html https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-o-que-foi-o-caso-escola-base-fake-news.phtmlhttps://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/caso-escola-base-rede-globo-e-condenada-pagar-r-135-milhao.html FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 101 9.1.3 Ética nas empresas de comunicação e direito social a informação Outro ponto que deve ser considerado quando se discute ética no jornalismo, é o papel dos grupos de mídia e das empresas de comunicação, sejam elas pequenos jornais, rádios, sites e TVS ou os grandes grupos midiáticos. Todos devem ter como prioridade produzir e informar a sociedade, sem interferência ou predominância de interesses públicos ou privados. Ao jornalismo cabe perseguir a verdade dos fatos para bem informar o público, que o jornalismo cumpre uma função social antes de ser um negócio, que a objetividade e o equilíbrio são valores que alicerçam a boa reportagem [...] a discussão ética só produz resultados quando acontece sobre uma base de compromisso. se uma empresa de comunicação não se submete na prática às exigências de busca da verdade e do equilíbrio. O esforço do diálogo vira proselitismo vazio. E inútil [...] Tudo isso é importante, claro, mas é pouco diante das faltas éticas que vitimam a sociedade brasileira. [...] As empresas têm razão em sua preferência: do caráter dos seus profissionais depende diretamente a qualidade técnica dos produtos jornalísticos que serão postos a venda. Mas elas precisam devolver essa mesma dedicação e transparência ao público [...] Discutir ética na imprensa só faz sentido se significar pôr em questão os padrões de convivência entre as pessoas, individualmente, e de toda a sociedade no que se refere ao trato com a informação de interesse público e com a notícia. A isso precisam se subordinar não apenas os jornalistas, mas também os seus patrões e corporações em que funcionam os veículos de comunicação. Essa discussão só tem um interessado: o cidadão. Ninguém mais. É para ele que a imprensa deve existir – e só para ele. As vezes parece que todos nos esquecemos disso (BUCCI, 2006, p, 31-32) Sobre direito social a informação, torna-se fundamental o entendimento de que, ao construir o mundo de maneira simbólica, a informação produzida pela imprensa e pelo trabalho cotidiano do jornalismo, deve representar toda diversidade que existe, seja em uma pequena cidade, um Estado ou em um país. Segundo KARAM (2014). É necessário que as diversas concepções, versões, culturas e comportamentos estejam presentes [...] Mundos com significados diferenciados necessitam de uma ponte entre as várias particularidades, para que possam revelar, em seu interior, a universalidade humana potencialmente constituinte, a maneira pela qual é possível manter uma relação ética particular e universal ao mesmo tempo [...] a linguagem jornalística, texto escrito e imagem, necessita de algumas conexões com outros significados para os mesmos fatos. A diversidade de fontes que expresse a pluralidade social é indispensável para formar a compreensão do presente e permitir a intervenção mais consciente no futuro. O direito social a informação inclui a diversidade de significação FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 102 do mundo, e dele fazem parte a palavra e a imagem, o jornalismo escrito e a imagem jornalística. E o direito social à informação sentido se for conectado a conceitos e valores, como Liberdade [...] Nesse sentido, é possível falar em direito social a informação como direito de todos, e o jornalismo, como a forma pela qual, cotidiana e potencialmente, é possível o acesso imediato ao todo, plural e diverso – que está sendo produzido no espaço social da humanidade e no tempo presente (KARAM, 2014, p 15-16) Sobre comportamentos éticos e morais específicos para a prática do jornalismo e da profissão de jornalista, faremos sempre apoiados na legislação existente, seja ela de competência local ou universal, mas que estimule em vocês alunos o debate sobre questões éticas e morais no fazer jornalístico. Traremos alguns pontos da Declaração da UNESCO sobre os meios de Comunicação, redigida no ano de 1978 e que nos apresenta pontos de reflexão sobre a verdadeira função do jornalismo na sociedade. O documento reúne princípios internacionais para o setor dos meios de comunicação existentes a época, deixando claro comportamentos éticos e morais sobre a atividade jornalística considerados corretos. Lembrando, como diz KARAM (2014, p, 56), “a formalização de princípios morais e éticos em geral se dá fora da norma jurídica. Eles estão implícitos, de certa forma, mesmo que ambíguos, nas Constituições e nas legislações específicas sobre o setor. Artigo 2 (...) 2. O acesso do público à informação deve garantir-se mediante a diversidade das fontes e dos meios de informação que disponha, permitindo, assim, a cada pessoa verificar a exatidão dos fatos e fundamentar objetivamente sua opinião sobre os acontecimentos. Para este fim, os jornalistas devem ter a liberdade de informar e as maiores facilidades possíveis de acesso à informação. Igualmente os meios de comunicação devem responder às preocupações dos povos e dos indivíduos, favorecendo assim a participação do público na elaboração da informação. (...) 4. Para que os meios de comunicação possam fomentar em suas atividades os princípios da presente declaração, é indispensável que os jornalistas e outros agentes dos órgãos de comunicação, em seu próprio país, e no estrangeiro, desfrutem de um estatuto que lhes garanta as melhores condições para exercer sua profissão. (...) Artigo 5 Para que se respeite a liberdade de opinião, de expressão e de informação e para que a informação reflita todos os pontos de vista apresentados por aqueles que consideram que a informação publicada ou difundida sobre eles tenha prejudicado gravemente a ação que realizam com vistas a fortalecer a paz e a compreensão internacional, a promoção dos direitos humanos, a luta contra o racismo e a incitação à guerra. Fonte: KARAM (2014, p, 56) FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 103 O autor nos apresenta também os Princípios Internacionais da Ética Profissional dos Jornalistas, que são referências essenciais para a discussão sobre as atividades jornalísticas. Princípio I (O direito dos povos a uma formação verídica) O povo e o indivíduo têm o direito de receber uma imagem objetiva da realidade, por meio de uma informação precisa e global, como também o direito de expressar-se livremente através dos diversos meios de difusão cultural e de comunicação. (...) Princípio III (A responsabilidade social do jornalista) No jornalismo a informação é compreendida como bem social e não como mercadoria, o que implica que o jornalista comparte a responsabilidade pela informação divulgada, e portanto é responsável não só diante dos que controlam os meios de informação, mas também, afinal, diante do público em geral, e seus diversos interesses sociais. A responsabilidade social do jornalista exige que atue, sob qualquer circunstância, em conformidade com a sua consciência pessoal. (...) Princípio VI (O direito à vida privada e à dignidade humana) Parte integrante das normas profissionais do jornalista é o respeito do direito do indivíduo à vida privada e à dignidade humana, de acordo com os estipulantes do Direito Internacional e nacional, relativos à proteção dos direitos e da reputação das pessoas, proibindo-se o libelo, a calúnia, a maledicência e a difamação. Princípio VII (O respeito do interesse público) A ética profissional do jornalismo prescreve o respeito da comunidade nacional, das suas instituições democráticas e do moral público. Princípio VIII (O respeito dos valores universais e da diversidade de culturas) O Jornalista íntegro é partidário dos valores universais do humanismo, sobretudo da paz, democracia, direitos humanos, progresso social e a libertação nacional, respeitando, ao mesmo tempo, o caráteroriginal, o valor e a dignidade de cada cultura, como também o direito de cada povo a escolher e a desenvolver livremente seus sistemas políticos, sociais, econômicos e culturais (...) Fonte: KARAM (2014, p, 57) Caros estudantes, estamos finalizando esta nona aula, onde iniciamos as discussões sobre Jornalismo e Direito, no sentido de provocarmos inúmeras reflexões sobre o papel social do jornalismo e do jornalista, além de trazermos a tona discussões essenciais sobre ética e moral, que sempre devem nortear nossas ações enquanto cidadãos e profissionais de qualquer campo de atual, mas especificamente do jornalismo. Devemos entender também que esta não é uma questão que se esgota ao final de uma aula, da leitura de um livro, término da disciplina ou do curso de jornalismo. Discutir FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 104 ética e suas aplicações são elementos para toda uma vida. Enquanto respirarmos e enquanto nos comunicarmos, seja por meio da profissão que escolhemos, seja por meio do jornalismo, a ética deve ser nosso manual de conduta humana, com pontos sempre a serem alcançados e melhorados. Na próxima aula falaremos sobre “direito de imagem: atuais e de arquivo”, um tema que perpassa também pela ética profissional, a moral e a legislação, que garante e legitima o direito do autor e os direitos autorais, em um mundo cada dia mais conectado, sem fronteiras, sem barreiras, mas, diferente do que muitos pensam, com normas e regras a serem seguidas. Até mais! FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 105 AULA 10 DIREITO DE IMAGEM Art. 5o X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; (Constituição Federal de 1988) https://pixabay.com/pt/photos/c%c3%a2mera-mulher-fot%c3%b3grafo-fotografia-4702468/ Existe no imaginário de muitas pessoas que qualquer imagem feita de alguém em espaço público é de livre utilização. Na realidade não é bem assim, principalmente quando falamos sobre utilização de imagens no e para o jornalismo, palco de debates, pontos de vista conflitantes e exposição pública além do esperado em determinados momentos. Um fato acontecido em um estádio de futebol ilustra bem a situação e abre espaço para nossas observações iniciais. https://pixabay.com/pt/photos/c%c3%a2mera-mulher-fot%c3%b3grafo-fotografia-4702468/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 106 Domingo, eu vou ao Maracanã̃, vou torcer para o time que sou fá̃. Foi nesse espírito que Paulo Cardoso, torcedor do Fluminense Football Club, foi assistir a seu time de coração. Contudo, o que era para ser uma bela tarde de domingo se tornou uma grande decepção. O escrete tricolor foi derrotado e o rebaixamento para a segunda divisão inevitável. Inevitável também foram as lágrimas de Paulo, que certamente aguardaria a zombaria dos amigos e torcedores dos times rivais. Porém, no dia seguinte, para sua surpresa, a sua imagem, de triste e decepcionado torcedor, estampava a manchete do caderno de esportes do principal jornal do país, e cuja matéria retratava aquela partida de futebol. Decepção semelhante também teve José Candido, fanático torcedor do Vasco da Gama, que foi as lágrimas com a derrota do seu time e respectivo rebaixamento anos depois do tricolor. De igual modo, coube ao mesmo jornal, com base na imagem daquele triste torcedor, e cuja foto foi captada no próprio estádio, informar o descenso do tradicional clube do futebol carioca. Ambos os torcedores, no entanto, se sentiram ofendidos com as fotos e matérias jornalísticas. Aquele momento de tristeza e decepção, antes restrita ao próprio amago e aos que se encontravam no estádio, passou a se tornar público, alcançando dimensão antes não imaginada. Para os dois torcedores houve, então, violação à sua imagem e sua intimidade, logo, merecedores de indenização pelos danos morais sofridos. Os julgamentos tiveram decisões distintas. Enquanto que o torcedor do Fluminense não obteve qualquer indenização, por considerar-se inexistente a violação ao direito à própria imagem e intimidade, bem como mera retratação de um fato ocorrido em espaço público, o torcedor do Vasco da Gama, por outro lado, teve seu direito de imagem reconhecido, com a condenação da empresa jornalística ao pagamento de simplórios dois mil reais. Fonte: Schreiber, 2013, p 28-29 Estes dois exemplos, idênticos a princípio, mostram o quanto são conflituosas questões envolvendo liberdade de informação e direito de imagem. A Justiça, ao tratar de demandas surgidas de uma mesma questão, tomou decisões diferentes, deixando vários questionamentos sobre a interpretação legal do direito e do direito de informar, como também a salvaguarda do cidadão ao ser exposto e sentir-se violado em sua privacidade. Importante também pontuar que a análise inicial desta nossa aula é voltada ao direito de imagem, diferente, portanto, de direitos autorais, entendido como propriedade intelectual, confusão que segundo, SCHREIBER (2013, p,30) é mais comum do que se pensa, pois, quando estamos diante de uma captura de imagem humana “ seja uma fotografia, pintura, caricatura ou qualquer outra forma de representação física humana, encontramos uma dupla proteção: o direito autoral de quem criou o retrato (fotografo, pintor, cartunista etc.) e o direito à imagem da pessoa retratada”. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 107 Importante ressaltar, desde já́ [...] como foco a análise do uso de fotos nas matérias jornalísticas e suas consequências na esfera do direito da imagem do retratado. Nesse sentido, consideraremos o direito à imagem como um direito autônomo (Nas palavras de Hermano Duval, “O direito à imagem é, pois, um Direito Natural, equiparável ao da própria vida, que independe de lei, embora esta lhe trace limites ou restrições. [...] impossível, por- tanto, asfixiar o direito à imagem no estreito quadro de Direitos Privados de personalidade. In: Direito à Imagem, São Paulo: Saraiva, 1988, p. 106.) Assim como o direito à honra, intimidade e privacidade, todos englobados como direitos da personalidade. Assim, e por esta razão, partiremos do pressuposto de que a tutela do direito à imagem independe de lesão à honra, privacidade ou à intimidade. (Schreiber, 2013, p 30). 10.1 sobre lugar público, pessoa pública e interesse público Será que de fato o único lugar em que estamos realmente seguros em nossa privacidade é o interior das nossas residências, inviolável por lei e considerado um limite. Uma ida ao supermercado ou andar pelas ruas do comércio torna-se um consentimento para que nossas imagens possam ser capturadas e utilizadas, ou é preciso autorização de quem é retratado para que sua imagem seja utilizada como elemento jornalístico. https://pixabay.com/pt/photos/mercado-fazer-compras-vender-3304310/ https://pixabay.com/pt/photos/mercado-fazer-compras-vender-3304310/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 108 10.1.1 locais públicos, com pessoas públicas O exemplo a seguir nos mostra que, diferente do possa parecer, locais públicos, com a presença de pessoas públicas, pode não ser totalmente aberto a registros fotográficos, principalmente em momentos não tão usuais, como em um velório, por exemplo, onde o registro de cena, além de ser constrangedor, pode significar desrespeito, falta de ética e invasão de um momento de dor familiar. Toma-se, como exemplo, o episódio envolvendo o falecimento do famoso pintor Di Cavalcanti. Seu amigo, o cineasta Glauber Rocha, resolveu homenageá-lo e, de forma a imortalizar a despedida do prestigiado pintor, compareceu ao seu velório, aberto ao público, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Munido, então, de uma câmerafilmadora, registrou o evento, logo, dentro do legitimo exercício da informação e expressão, na medida em que noticiaria tal fato. No entanto, passou a concentrar o foco de sua lente no rosto do falecido pintor e, ao mesmo tempo, no de sua filha que, aos prantos, velava seu querido pai. Não obstante isso, e seguindo à risca o seu Cinema Verdade, passou a coordenar as imagens captadas como de uma autêntica obra audiovisual, ao ponto de solicitar à filha e demais familiares “mais emoção”. O uso dessas imagens foi proibido pela família por meio de uma medida liminar. Neste ponto, tanto houve o exercício abusivo da liberdade de informação e expressão, como na violação do direito da imagem de Di Cavalcanti, exercido por seus sucessores,10 como também na violação da intimidade e privacidade da família. Fonte: Schreiber, 2013, p, 32 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA O fato a seguir, ocorrido em 1º de Maio de 1994, data da trágica morte do piloto brasileiro de Fórmula 1, Ayrton Senna, mostra que o direito de escolha, também pode recair sobre o profissional: FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 109 Alex Ruffo é um dos fotógrafos mais conhecidos da história do automobilismo brasileiro e acompanhou de perto os anos finais da carreira de Ayrton Senna. O hoje comentarista da Jovem Pan revelou no programa ‘Cadeira Cativa’, do Grande Prêmio, parceiro do Ultra POP, que teve oportunidade de fotografar o corpo do brasileiro, morto em um acidente no GP de San Marino, mas não o fez. Ruffo contou que, à época, tinha um ritmo de trabalho que lhe permitia apenas tirar fotos das primeiras voltas da corrida para ter de sair correndo e entregar o filme a tempo de que chegasse na redação das revistas para as quais trabalhava. Alex soube do acidente por colegas japoneses — ele não estava na Tamburello, curva onde Senna bateu. Assim que soube da batida, Ruffo correu para o hospital Maggiore, em Bolonha, cidade próxima a Ímola. “Quando saiu a maca com o Ayrton deitado, por uns 15 segundos na minha frente, eu não levantei a máquina, não por ser purista, mas não fazia sentido. Aquilo não seria bom para ninguém, uma foto sensacionalista não ia acrescentar em nada além de vender jornal”, disse o profissional. Ruffo também disse que não se arrependia, mas que pensa “até hoje” se deveria ter feito o registro daquele momento. Os colegas de programa contestaram a atitude do fotógrafo. Fonte: https://ultrapop.com.br/esportes/por-que-um-fotografo-brasileiro-se-recusou-a-fazer-foto-do-corpo-de-senna/ 10.1.2 pessoas públicas, em locais públicos Outra maneira de mostrar que nem sempre os limites éticos e os direitos das chamadas pessoas públicas são respeitados é no exemplo a seguir, onde, para fotografar uma estrela de Hollywood em momento íntimo, foram ultrapassados vários limites. Faltou ética ao profissional, pois a atriz não estava em filmagens ou eventos destinados a promoção de filmes ou artistas, mas buscando distância da imprensa e um pouco de privacidade: Do mesmo modo que se convencionou dizer que lugar público é sinônimo de uso licito da imagem, as pessoas ditas “públicas”12 também veem sofrendo pelo uso indiscriminado de suas imagens. Cita- se o caso da então bonita e charmosa atriz italiana Sophia Loren, que aproveitava o verão europeu em um balneário francês da Côte d’azur com o tão comum, por lá́, topless. Dias depois, seus fartos seios estampavam as bancas de jornais do mundo todo. Loren foi indenizada pelo uso indevido de sua imagem.13 O uso, por si só́, da sua imagem, já́ configuraria a violação da sua personalidade. Nesse caso, porém, contou-se com um agravante: o fotógrafo, através de equipamentos de mergulho e potente câmera fotográfica, captou suas imagens de forma maliciosa e clandestina. Fonte: Schreiber, 2013, p, 32 https://ultrapop.com.br/esportes/por-que-um-fotografo-brasileiro-se-recusou-a-fazer-foto-do-corpo-de-senna/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 110 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Era início da madrugada de 31 de agosto de 1997, quando a Princesa Diana, seu namorado Dodi Al-Fayed e o motorista que conduziu um veículo Mercedes-Benz morreram após uma forte batida na saída de um túnel, na cidade de Paris, após tentarem fugir dos chamados paparazzi (fotógrafos de celebridades), que os perseguiam, após saírem de um jantar na capital francesa. A Justiça entendeu que os paparazzi também foram culpados pelo acidente, provocando uma grande discussão em todo o mundo sobre os limites da cobertura jornalista, principalmente de famosos. Fonte:https://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL390894-5602,00-MOTORISTA+E+FOTOGRAFOS+MATARAM+DIANA+DECIDE+JURI+DE+LONDRES. html Para conhecer mais sobre o caso e os envolvidos, vale conferir o excelente trabalho publicado pelo UOL, trazendo importantes contribuições para o debate sobre limite e ética profissional. Fonte: https://www.uol/tvefamosos/especiais/diana-20-anos-da-morte-da-princesa-do-povo.htm#quem-matou-diana https://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL390894-5602,00-MOTORISTA+E+FOTOGRAFOS+MATARAM+DIANA+DECIDE+JURI+DE+LONDRES.html https://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL390894-5602,00-MOTORISTA+E+FOTOGRAFOS+MATARAM+DIANA+DECIDE+JURI+DE+LONDRES.html FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 111 10.1.3 interesse público Um outro aspecto muito importante a ser levado em consideração diz respeito ao interesse público, principalmente em assuntos envolvendo ações policiais. No dia a dia nos deparamos com vários acontecimentos, como operações policiais, apreensão de indivíduos com drogas ou praticando furtos e, sem a mínima cerimônia, estas pessoas terminam estampando capas de jornais, sites e blogs noticiosos. Esta atitude, de sair fotografando, registrando e divulgando nomes e imagens de indivíduos que a princípio são apenas suspeitos, e podem não se revelar, ou não, os verdadeiros criminosos é um ponto de muita atenção e que poderá trazer inúmeros problemas jurídicos ao jornalista e ao veículo de comunicação. Bom senso e respeito, sem expor estas pessoas são primordiais, pois nem sempre divulgar nomes e imagens em nome do interesse público, sem considerar que isto possa representar uma violação ao direito de imagem, é preocupante. Vejamos o recente caso deflagrado pela Policia Federal, apelidado de “Operação Voucher”, consistente na apuração de suposto desvio de recursos públicos no Ministério do Turismo. Assessores e funcionários do Ministério foram presos e suas imagens, obtidas pela polícia para fichamento, conhecidas como mugshot, vazaram à imprensa. Tais fotos, como num clique instantâneo, circulavam na Internet e nas capas dos principais jornais do país. O clamor popular pela ridicularização dos presos e de que a identificação dos fraudadores era de interesse público colide frontalmente com a própria finalidade das imagens, afinal a sua obtenção visava apenas e tão somente o registro policial. Destaca-se, ainda, o argumento do advogado de um dos retratados, ao pedir a retirada das fotos com base no “princípio da dignidade do preso” Fonte: Schreiber, 2013, p, 33 Um outro erro muito comum de divulgação precipitado e sem o mínimo de comprometimento com a ética profissional vem ocorrendo nos meios eletrônicos. Com a facilidade de apagar qualquer postagem feita, o que não é possível em um jornal ou revista, jornalistas, ou não, se apressam em publicar imagens e textos, que nem sempre se revelam totalmente verdadeiros ou condizem com os fatos. E o que é mais grave é que, quando o erro é detectado, muitos acreditam que apagando a postagem o caso estará resolvido, ou seja, um simples “delete” e pronto. Leia o que diz sobre isso a especialista, doutora em Jornalismo Lívia de Souza Vieira: FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 112 ANOTE ISSO Erratas podem ter menos visibilidade noonline: O formato adequado para correção de erros na Internet ainda não está consolidado e seus avanços ocorrem de forma lenta. A doutora em Jornalismo Lívia de Souza Vieira tem se dedicado a estudos relacionados ao jornalismo online e à ética. De 2014, quando foi publicada sua dissertação sobre parâmetros éticos na publicação de erratas no jornalismo online, para cá, ela notou pequenos avanços, “mas que fazem diferença”. No trabalho, Lívia identificou o portal G1 como o que tinha as práticas mais adequadas. O diferencial do site estava na inserção visível da correção no meio do texto. A prática se mantém. Outro exemplo dado é relativo ao site da Folha de S.Paulo. “A Folha não conectava o Erramos com a matéria original, eram duas páginas diferentes. Para eu saber se havia algum erro naquela matéria, tinha que ir até a seção Erramos (e ninguém faz isso) ”, lembra sobre as observações que fez há cerca de quatro anos. Hoje, o jornal insere a data e a hora da atualização logo abaixo da data e horário de publicação. Acrescenta, ainda, um ícone que ao ser clicado para o leitor remete para a errata, publicada ao final da matéria. A página Erramos se mantém, permitindo que qualquer usuário verifique todas as correções feitas. Embora seja mais fácil e rápido corrigir o erro na Internet, a ausência de critérios éticos pode fazer com que essa facilidade sirva como forma de ocultar a falha cometida. Isso acontece, por exemplo, quando a notícia é, meramente, atualizada. “Ou seja, se no impresso reclamávamos da pouca visibilidade das erratas, no online pode ser ainda pior, o veículo pode ‘fingir’ que o erro não existiu. ” A imprensa tem falhado ao não dar tanto destaque à correção de erros, acentua Lívia. “O veículo precisa levar em conta os diferentes momentos em que leitores distintos podem acessar aquela matéria. E em se tratando de internet, podemos falar de anos depois, pois o erro se perpetua quando não corrigido. ” Os desafios não ficam restritos a esses pontos. O que ocorre, por exemplo, quando a notícia que contém um erro é compartilhada nas redes? O alcance é difícil de prever, assim como é imprevisível saber se a versão que terá maior visibilidade será a primeira ou a que foi corrigida. Lívia recomenda que os jornais rastreiem os compartilhamentos da notícia para notificar os usuários, destaquem a correção nas redes sociais ou enviem a errata pelos feeds de RSS. Por uma política de correção de erros na Internet: Lívia de Souza Vieira propõe os seguintes procedimentos de correção de erros: 1. Ao ser descoberto, o erro deve ser corrigido, sem subterfúgios 2. A correção do erro deve ser feita o mais rapidamente possível 3. A retificação deve ser necessariamente disseminada pelos mesmos canais nos quais a informação incorreta foi divulgada (redes sociais, site, blogs, etc) 4. Ao identificar o erro, deve-se seguir os procedimentos: • em casos de erros ortográficos (grafia incorreta de palavras) e gramaticais (erros de concordância, vírgula, regência, entre outros), é permitida a correção sem menção ao erro. No entanto, é importante lembrar que o nome incorreto de uma fonte ou uma data errada, por exemplo, devem ser corrigidos com a publicação de uma retificação. Não se trata do tamanho do erro (se é uma palavra ou um parágrafo), mas de sua relevância para o leitor. • em casos de erros de informação (que pode ser uma palavra ou até a notícia inteira), o texto da correção deve ser inserido na notícia original, em local visível na página. O repórter deve corrigir a informação e publicar a errata simultaneamente. O gerenciador de conteúdo da web jornal deve prever um campo específico para as correções, visando facilitar o procedimento pelo repórter. • em caso de uma notícia inteiramente falsa, imprecisa ou incorreta, é possível substituí-la por uma explicação completa acerca daquele fato, mencionando o erro. O título da notícia, inclusive, pode ser modificado para alertar sobre a correção, desde que todo esse procedimento seja feito na mesma URL (sem a criação de novos links desconexos com a notícia original). • O texto da correção deve ser claro e objetivo. É recomendado informar o tempo em que a notícia permaneceu com erro, para contemplar os leitores que tiveram acesso a ela em diferentes momentos. Sugestão de padrão de texto, cujo tom pode variar de acordo com a linha editorial do veículo: “Das (x) h às (x) h, informamos incorretamente que (…). No entanto, a informação correta é (…) e o erro ocorreu porque (…). O texto foi corrigido. Pedimos desculpas aos nossos leitores”. • A lista de correções de erros deve estar acessível em seção específica, para que o leitor consulte as retificações. Mas só isso não basta: a notícia original deve igualmente conter menção à retificação. Uma notícia jamais deve ser “despublicada”, mesmo que ela contenha graves erros jornalísticos. Tentar apagar o rastro do erro nunca é a melhor solução. Fonte:http://revistapress.com.br/revista-press/capa-revista-press/qual-e-o-alcance-do-erro-jornalistico/ http://revistapress.com.br/revista-press/capa-revista-press/qual-e-o-alcance-do-erro-jornalistico/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 113 Portanto, caros alunos, tendo como referência os casos que apresentamos, percebemos que existem mitos e exageros sobre o que vem a ser “pessoa pública”, “lugar público” e “interesse público”, termos tão usualmente utilizados para justificar excessos e erros da imprensa. Os possíveis parâmetros para definir estes três elementos com a finalidade de informação, precisam ser orientados e respaldados em comportamentos éticos, responsáveis e legais juridicamente, para que não se torne uso indevido de imagem. Não se pode banalizar o uso da imagem, sob pena de infringir direitos individuais garantidos por lei, como explicam os juristas. Roberto Barbosa, por sua vez, em vetusta doutrina, defende que a personalidade pública pode ser fotografada sem seu consentimento expresso, uma vez que sua atividade ou sua celebridade a atiram no “fogo da atualidade” e implicam uma renúncia geral à intimidade absoluta de sua existência. (BARBOSA, 1989, p, 80). Já o contemporâneo autor Luiz Gustavo Grandinetti Castanho de Carvalho afirma que: “Qualquer pessoa, por mais pública que seja, tem o direito a uma esfera privacidade, de forma que sua intimidade não possa ser devassada pelos órgãos da imprensa. Por exemplo, mesmo para um notório político, sua família, sua vida familiar, seus hábitos íntimos, seu cotidiano dentro de casa não podem ser divulgados. O que pode ser divulgado é a parte da sua vida – personalidade – de domínio público, como as atividades políticas; não a esfera privada, desconhecida do grande público” (CARVALHO, 2003, p, 56). 10.2 Justiça na utilização de imagens Segundo SCHREIBER (2013) um debate também se instaurou sobre direitos autorias de obras artísticas, científicas e literárias serem utilizadas sem a necessidade de autorização prévia do autor. Na busca de uma solução considerada equilibrada, criou- se a “regra dos três passos”, que mesmo não tendo sido elaborada especificamente para a imagem, criou o ponto de partida e um referencial também para este segmento. Assim, desde que o usuário atenda três regras, de forma geral: (i) utilização da obra em casos especiais; (ii) desde que essa utilização não prejudique a sua exploração normal; e (iii) não cause prejuízo aos legítimos interesses do autor, o uso é considerado justo. Evidentemente que tal regra não se aplica diretamente aos casos de uso da imagem, até́ mesmo pela sua impossibilidade técnica. No entanto, o espírito contido na “regra dos três passos” pode influenciar a criação de uma autorregulamentação para o uso justo de imagens em matérias jornalísticas (SCHREIBER, 2013, p.36) FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 114 Transportando para o uso de imagens, o autor classificou os três pontos que podemser interpretados como legitimadores de uma imagem ter sua utilização considerada justa. Segundo SCHREIBER (2013, p, 37-38): I. O sistema do fair use, assim chamado pela doutrina norte-americana, permite que alguém legalmente utilize de forma livre e gratuita a obra protegida por direitos autorais com a finalidade de crítica, comentário, noticiar fatos, ensino (inclui-se as cópias de obras literárias destinadas ao uso em classe), entre outras utilizações. A partir deste pressuposto, temos que a imagem de determinada pessoa poderá ́ ser utilizada, sem a necessidade de autorização previa, desde que para finalidade de crítica, sátira, comentário ou noticiar um fato. II. Outro aspecto que deve ser levado em consideração e em paralelo com o sistema criado nos direitos autorais é a vedação do uso da imagem sem qualquer conotação de fins publicitários, principalmente na mensagem subliminar. Evidentemente que um jornal ou portal da Internet tem como fonte de receitas a vendagem regular de exemplares, assinaturas e a inserção de publicidade no seu conteúdo [...] Outro exemplo pontual é dado por Notaroberto Barbosa, ao afirmar que: O jornal pode publicar, sem autorização, a fotografia do Presidente da República ao assinar um decreto importante [...], Mas o uso da imagem do Estadista seria totalmente diferente se acompanhada da legenda de um fabricante de canetas, com a sugestão ao público de que o Chefe do Governo não assinaria com tanta eficiência tantos papéis de seu expediente se não fosse a caneta de marca tal. III. A terceira regra estaria para o uso da imagem sem ofensa ao retratado. Vejamos o caso da cantora Preta Gil. Em pleno verão carioca, Preta Gil, em companhia de sua amiga Sabrina Sato, conhecida apresentadora de TV, resolveram tomar banho de sol no badalado Posto 9, na praia de Ipanema. Enquanto a cantora não atende aos rigorosos padrões de beleza da sociedade, a apresentadora, por outro lado, cativa grande parte do público masculino com generosas curvas de seu corpo. A revista Fatos & Notícias, no entanto, explorou, de forma jocosa, tal diferença, postando, por meio de montagem, lado a lado as mulheres, em nítido caráter depreciativo com a cantora. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 115 10.2.1 Autorização prévia e imagens de arquivo Alguns podem argumentar que com autorização prévia tudo seria resolvido, mas como conseguir autorização de milhares de pessoas que aparecem em uma foto de estádio, ou pelas ruas da cidade. Mas é lógico também que o legislador não tem a intenção de considerar qualquer imagem abuso ou que o direito a imagem esteja sendo infringido, como por exemplo pessoas andando nas ruas, nas praias, feiras livres ou nas mais variadas situações quotidianas. Temos, portanto, que entender e destacar a importância do contexto em que esta imagem foi capturada e sua possível utilização como referência a determinado tema que será tratado. Uma foto de uma jogadora de futebol durante a partida, ou caída chorando de dor é tranquilamente aceita como material de cobertura jornalística, mesmo que a jogadora esteja fazendo expressões de dor e até chorando. Mas quando o fotógrafo percebe que a atleta caída no gramado expõe mais do que deveria devido a posição que está e registra esta imagem, divulgando para sua audiência, não está agindo corretamente, pois fugiu ao contexto, que deveria ser retratar jornalisticamente o fato esportivo. É preciso atenção também ao uso de imagens de arquivo, que se utilizadas fora do contexto a que foram destinadas, podem configurar uso indevido. É claro que um político conhecido possui várias imagens em poder da imprensa, assim como artistas e pessoas consideradas públicas em pequenas e médias cidades, como atletas, representantes de órgãos e agentes públicos. O problema está em utilizar uma imagem feita, por exemplo, em uma entrevista sobre suas ações públicas, em que o entrevistado faz sinal de positivo, e utilizar a mesma foto anos depois, fazendo sinal de positivo, para falar sobre um tema que talvez ele não concorde. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 116 ANOTE ISSO Durante sua vida profissional, o jornalista irá se deparar com inúmeras situações em que terá que decidir de que maneira fará o registro de um acontecimento e depois, se deverá e poderá utilizar a imagem capturada. SCHREIBER (2013), nos deixa algumas importantes dicas para refletirmos no dia a dia. a) Em primeiro lugar, que o fotógrafo deve manter a sua aparência normal, ou seja, inserido no local em que pretende captar a foto. Em outras palavras, Henderson diz que o fotógrafo, aí se encaixa o paparazzo, jamais deverá se ocultar ao ponto de se esconder com o objetivo de captar a foto sem a percepção do fotografado; b) (i) o grau de utilidade para o público do fato informado por meio da imagem; (ii) o grau de atualidade da imagem; (iii) o grau de necessidade da veiculação da imagem para informar o fato; e (iv) o grau de preservação do contexto originário onde a imagem foi colhida. Caros alunos, chegamos ao final de mais uma aula, onde tratamos sobre direito de imagem e tudo que envolve esta questão. É um tema muito importante no dia a dia do trabalho jornalístico e coloca sempre o profissional em um dilema, sobre como levar informação a sociedade, sem ferir princípios pessoas de direito à privacidade. É preciso que o profissional do jornalismo tenha sempre em mente que é preciso respeitar os limites éticos, morais e legais, mas ao mesmo tempo não se deixar intimidar por pressões e fazer o seu trabalho, com a consciência de que está mostrando a sociedade informações que são corretas, relevantes e necessárias. Na próxima aula continuaremos neste tema de direitos, deveres e liberdade de informar, mas agora tratando sobre transmissão de eventos esportivos. Até mais! FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 117 AULA 11 TRANSMISSÃO DE EVENTOS ESPORTIVOS A ética se preocupa, podemos dizê-lo agora, com as formas humanas de resolver as contradições entre necessidade e possibilidade, entre tempo e eternidade, entre o individual e o social, entre o econômico e o moral, entre o corporal e o psíquico, entre o natural e o cultural e entre a inteligência e a vontade (VALLS, 20213, P, 56) Fonte:https://pixabay.com/pt/vectors/t%c3%b3quio-jogos-ol%c3%admpicos-de-ver%c3%a3o-4770145/ https://pixabay.com/pt/vectors/t%c3%b3quio-jogos-ol%c3%admpicos-de-ver%c3%a3o-4770145/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 118 Esta aula se faz importante e necessária, na medida em que o cerne desta nossa disciplina trata sobre ética e moral, ao mesmo tempo que apresenta fundamentos essenciais para a prática do bom jornalismo. Vivemos atualmente, transformações que afetam diretamente o fazer jornalístico. Termos como convergência jornalística, convergência nas redações, jornalista multimídia, webjornalismo, jornalismo online ou digital e tantos outros termos surgidos nas duas últimas décadas, mostram que existe um grande processo de mudança em curso, que vai além da chegada da internet, do surgimento de sites e blogs, das plataformas e redes sociais e a possibilidade de acessar qualquer conteúdo por meio eletrônico, de qualquer lugar do planeta. Existe uma mudança em curso no chamado modelo de negócios do jornalismo, que está afetando não apenas as empresas, mas o profissional de comunicação e do jornalismo, que precisa entender e principalmente estar incluído neste processo, para que, ao mesmo tempo em que busca manter seu espaço de trabalho e adequar-se a estas mudanças, continuar agindo com a ética profissional exigida. Tratar sobre eventos esportivos e suas transmissões, passando pelo direito de imagem e também direito de arena, nos coloca diante do entendimento sobre legislações voltadas aautorização para produção e veiculação de imagens de eventos, sejam os grandes eventos nacionais, dominado pela grande mídia, ou pequenas transmissões locais, onde praticamente inexistem contratos ou normas para serem seguidas, predominando em geral o acordo entre os órgãos de imprensa local e regional e os clubes esportivos envolvidos. Entender os preceitos da legislação e como aplica-los de maneira correta trará ao jornalista e principalmente aquele profissional que atua na cobertura de eventos esportivos, a possibilidade de entender que é possível e legal trabalhar a editoria esportiva por meio não apenas de textos ou a repercussão do que já foi realizado, como sempre fez a imprensa sem acesso as arenas esportivas, mas também utilizar novas ferramentas que contemplem a imagem e o áudio e tornam o seu trabalho mais dinâmico e eticamente correto. Segundo RAMONET (2012), todas estas mudanças refletem na questão financeira das empresas, em como se financia a venda ou oferecimento de informações, que no momento atual também pode ser acessada de forma gratuita pelos consumidores de informação. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 119 Assim, a informação pode ser oferecida gratuitamente. As mídias, na internet, a oferecem frequentemente como produto de apelo. Existem, na rede, milhares de sites de informações on-line com acesso livre. [...] A informação on-line é, portanto, dependente da economia do clique e do link. É o número de cliques efetuados pelos internautas nas barras publicitárias que determina a rentabilidade de uma informação (nem sua fiabilidade, nem sua credibilidade) [...] Como suporte publicitário, a internet continua a ganhar partes do mercado perante as outras mídias (RAMONET, 2021, p, 116). 11.1 Direito ao espetáculo Inegavelmente o futebol é o esporte que mais paixão desperta no brasileiro. Seja por suas belas jogadas de talento e arte, seja pela identificação cultural e social que nós brasileiros sempre tivemos com o futebol. Em uma crônica de 1959, um ano após o Brasil conquistar seu primeiro título Mundial, Paulo Mendes Campos escreveu a crônica A Bola, onde diz que “...o brinquedo mais perfeito que jamais foi inventado, a bola. Ultrapassou a área da infância e da juventude, entrou para o reino dos adultos, movimenta multidões e dinheiro”. (http:// cronicabrasileira.org.br/cronicas/15586/a-bola). Tinha razão. Fonte: https://pixabay.com/pt/vectors/futebol-bola-esporte-arredondar-157930/ http://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15586/a-bola http://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15586/a-bola https://pixabay.com/pt/vectors/futebol-bola-esporte-arredondar-157930/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 120 Com o desenvolvimento das tecnologias de geração e principalmente de transmissão, não apenas o futebol, mas o mundo dos esportes ganhou ainda mais visibilidade e espaço para atuação, resultando em maior audiência e consequentemente, mais dinheiro. As disputas desportivas envolvem mais do que os ânimos e os corpos dos atletas ali presentes. Trata-se, aliás, de mais do que mera contenda desportiva: cuida-se, em realidade, de verdadeiro espetáculo. O esporte, como afirmava Roland Barthes, “é uma grande instituição moderna baseada nas formas ancestrais do espetáculo”, assumindo, à sua maneira, a função outrora desempenhada pelo teatro, ao reunir a comunidade em torno de uma experiência comum, a do “conhecimento de suas próprias paixões” [...] O esporte, mais do que um catalisador de paixões, vem tornando-se também um negócio – e cada vez mais lucrativo. A voz, o gesto, o rosto a que se referira Barthes assumem, no esporte profissional, verdadeira feição econômica, tomando hoje a forma do que Antônio Chaves chegou a apontar como “dança dos milhões”. A realização daquelas e de outras competições, como campeonatos regionais e nacionais – especialmente de futebol, quando se pensa no Brasil –, costuma envolver parcela expressiva de audiência. Conduz, não raro, a acirradas disputas em torno da exclusividade sobre direitos de transmissão, cláusulas de confidencialidade, comercialização de cotas de patrocínio, dentre outras. (Schreiber, 2013, p, 208-209). Quando falamos sobre direito de transmissão e direito de arena, usamos o futebol como exemplo, por ser o esporte de maior abrangência e presença em todo o mundo. Entidades e organizações como Fifa, UEFA, Conmebol organizam os mais rentáveis torneios, como Copa do Mundo, Champions League, Europa League, Libertadores, além de campeonatos nacionais, regionais e estaduais. Mas é importante entender que este direito se refere também a todas as práticas esportivas, como por exemplo o MMA (Mixed Martial Arts, ou em português, Artes Marciais Mistas), que se tornou mundialmente conhecido por meio do UFC (Ultimate Fighting Championship), que é uma organização responsável por reunir os maiores lutadores em atividade e promover espetáculos de lutas por todo o mundo, vendendo direitos de transmissão, explorando a imagem dos atletas e licenciando produtos com a marca. Temos ainda inúmeros outros exemplos, como a Fórmula 1, administrada por uma empresa que prepara e transmite o “circo” da Formula 1 e percorre o planeta com seus velozes carros e pilotos. Ou os chamados esportes americanos, ligas de times independentes que faturam bilhões administrando e exibindo esportes como basquete (NBA), futebol americano (NFL), beisebol (MLB), Hóquei (NHL). No texto a seguir, fica claro que o processo de transmissão de eventos esportivos no Brasil passou por inúmeras mudanças desde sua aprovação e implementação e tornou mais abrangente as vedações e proibições de transmissões, principalmente de eventos em que existem direitos de exclusividade. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 121 ANOTE ISSO No Brasil, o direito de arena conta com previsão legal expressa. Trata-se de iniciativa considerada inovadora, visto que em outras tradições jurídicas o fundamento dos direitos de transmissão repousa essencialmente no costume [...] Há quem aponte também uma base constitucional ao direito de arena, com a promulgação da Carta de 1988. Isso porque o art. 5o, XXVIII assegura “a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas”. Além disso, invoca-se a proteção conferida, no inciso X do mesmo dispositivo, à imagem das pessoas. A Constituição da República, no entanto, não trata especificamente do direito de arena, que é, “com efeito, híbrido, mas não se confunde, repita-se, com o direito de proteção à imagem ou à voz humana”. Entre nós o instituto ganhou corpo inicialmente na Lei no 5.988/1973 (a Lei de Direito Autoral de 1973), no conjunto de direitos conexos. Como é usual acontecer em se tratando de um ineditismo jurídico, a inovadora positivação despertou curiosidade, ceticismo, esforços de conceituação – e, sobretudo, críticas, já que foi disciplinada em diploma que cuidava dos direitos de autor, sem relação propriamente com o desporto. [...] Após sucessão de críticas, e com o desenvolvimento e a edição de legislação própria para o esporte, a matéria deixou de ser tratada no diploma de direitos autorais, passando à órbita desportiva com a promulgação da Lei no 8.672/1993 (a chamada “Lei Zico”). Segundo dispunha o art. 24 da Lei Zico, o direito de arena consistia na prerrogativa atribuída às entidades de prática desportiva “de autorizar a fixação, transmissão ou retransmissão de imagem de espetáculo desportivo” de que participassem. Além disso, o legislador determinara que 20% do preço da autorização fossem distribuídos entre os atletas partícipes do espetáculo. [...] O texto foi em certa medida reproduzido posteriormente pelo art. 42 da Lei Pelé, que revogou e substituiu a Lei Zico, e, passou por recentes e sensíveis alterações – algumasdas quais se referem justamente ao direito de arena. A reforma parece ter vindo para, senão encerrar, ao menos apaziguar intensos debates, trazendo alterações de caráter, pode-se dizer, conciliador. O direito de arena, conforme a atual dicção da lei, consiste na prerrogativa atribuída com exclusividade às entidades de prática desportiva de não apenas autorizar, mas também negociar ou proibir “a captação, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução de imagens” do espetáculo desportivo de que sejam partícipes. [...] Além disso, o direito de arena abrange, além da fixação e da (re)transmissão de imagens, também a captação, a emissão e a reprodução. O teor do artigo torna, como se vê, mais amplo o alcance do instituto. Também ficou claro que essas diferentes formas de captação da imagem do espetáculo desportivo podem se dar por qualquer meio ou processo, abrindo caminho, assim, para o desenvolvimento tecnológico, que paulatinamente nos oferece diferentes, novos e potentes mecanismos de apropriação e transmissão das imagens. Fonte: Schreiber, 2013, p, 211-215 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 122 11.1.1 no início era o Rádio Desde sua implantação no Brasil e o início das transmissões, no início dos anos 1920, o Rádio mostrou que seria o grande companheiro do brasileiro, estivesse ele nos grandes centros ou nos mais distantes rincões do país. Daí para se transformar em voz oficial do futebol nacional foi questão de tempo, e muito pouco tempo, conforme descreve BONIN (et al. 2016, p, 187), no artigo “A transmissão radiofônica de jogos de futebol: a incoerente gratuidade de um espetáculo esportivo?”, publicado na Revista Brasileira de Ciências do Esporte. A primeira transmissão radiofônica de um jogo de futebol no Brasil gerou controvérsias. Para Soares (1994), ocorreu em 1931, no confronto entre as seleções paulista e carioca, com locução de Nicolau Tuma. Em contrapartida, segundo a historiadora Lia Calabre o primeiro jogo ocorreu em 1927, também numa disputa entre as seleções paulista e carioca (Bezerra, 2008). Independentemente da precisão cronológica, a primeira transmissão radiofônica de um jogo de futebol brasileiro gerou pelo menos uma grande consequência: o sucesso da parceria rádio-futebol. Ainda segundo Bezerra (2008), de um lado tinha-se o rádio, que precisava se transformar em veículo de massa para conseguir anúncios de empresas; e do outro, o futebol que, para sustentar os novos gastos oriundos da profissionalização, necessitava de jogos com grandes públicos pagantes. Durante muitos anos o rádio foi o meio de comunicação mais próximo que o brasileiro tinha das narrações esportivas. Porém, a partir de 1950 houve o processo de inserção da televisão, como veículo de transmissão midiática, destinada a grupos empresariais detentores de capital suficiente para investir em um meio inovador e de pouco acesso. Porém, como todos os meios de comunicação, suas adaptações foram progressivas e, ao pensarmos na transmissão dos jogos de futebol, de acordo com Madrigal (2009), a dificuldade de transmitir os jogos ao vivo pela televisão foi um dos principais fatores que causaram a hegemonia da transmissão radiofônica. Além disso, em uma época em que 60% do Brasil não dispunham de redes de eletrificação, a dispensa de fios e tomadas por parte dos rádios conferiu uma enorme vantagem competitiva em relação à televisão (Zucoloto, 2004). (fonte: https://www. scielo.br/j/rbce/a/LW6hkVpCFPbLjkfn3yHjpSt/?format=pdf&lang=pt ) Aliado a esta capilaridade conquistada pelo Rádio, de chegar com facilidade a todos os cantos do país, o Rádio ainda é, até os dias atuais, o mais democrático veículo de comunicação e que consegue dialogar com seus ouvintes de uma maneira que a televisão, o impresso e a Internet ainda não conseguiram, conforme descreve FERRARETO (2000, p,97), ao afirmar que “ o rádio é o jornal de quem não sabe ler, é o mestre de quem não pode ir à escola, é o divertimento gratuito do pobre, é o animador de novas esperanças, o consolador do enfermo, o guia do são, [...] de forma a proporcionar uma informação clara, objetiva e direta”. https://www.scielo.br/j/rbce/a/LW6hkVpCFPbLjkfn3yHjpSt/?format=pdf&lang=pt https://www.scielo.br/j/rbce/a/LW6hkVpCFPbLjkfn3yHjpSt/?format=pdf&lang=pt FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 123 Um outro diferencial do Rádio nas transmissões esportivas de futebol em relação a TV por exemplo, é o fato de que as emissoras de rádio não pagam para transmitir jogos de futebol em território brasileiro. Como vimos anteriormente, por estar contemplada na legislação apenas a cobrança de transmissão pela imagem, o rádio sempre ficou de fora desta cobrança, e tudo indica que deverá permanecer desta forma, conforme relata trecho do artigo de BONIN (2016), que nos ajuda a jogar luz sobre este tema. O processo de espetacularização pelo qual passou o futebol brasileiro foi estimulado e posteriormente usado pela mídia para sua rentabilidade financeira. Rádio e televisão observaram no futebol um produto financeiramente rentável, passaram a usá-lo de maneira intensa em suas programações, por meio da venda de cotas publicitárias. As transmissões de jogos de futebol integram atualmente uma grade extensa de emissoras de televisão e, principalmente, de emissoras de rádio, que compartilham do futebol com seus telespectadores e ouvintes, respectivamente. Entretanto, observamos que somente a mídia televisiva tem a obrigação de pagar pelos direitos de transmissão. O rádio é isento de tal cobrança pelo fato de que a legislação brasileira, pautada na Lei Pelé, faz alusão apenas à cobrança integral do evento devido à imagem nesse meio projetada. A Lei Pelé aborda apenas a questão da imagem na transmissão dos jogos de futebol, negligencia o áudio e a voz. Ela garante que parte das receitas adquiridas pelo clube com áudio e visual (art. 42) deverão ser distribuídas entre os jogadores, o que está de acordo com o art. 5° da Constituição, ou seja, o direito é dado ao jogador, mas não ao clube. Em uma última mudança da Lei Pelé (MP 502/2010, que culminou na Lei 12.395/11), estava prevista a inserção do áudio como um produto passível de ser negociado pelos clubes, porém, uma emenda proposta pelo senador Álvaro Dias fez com que a adição fosse retirada. Em 2008, o Clube Atlético Paranaense tentou cobrar o direito de transmissão das rádios e alegou que as emissoras usam a marca do clube para desenvolver o seu produto, as transmissões. Entretanto, o clube perdeu a causa, porque o Poder Judiciário entendeu que a marca (no caso, a imagem) não contempla o áudio. Após a investida da agremiação, uma grande parcela dos cronistas esportivos posicionou-se contrária à atitude do Clube Atlético Paranaense, por considerar que a transmissão radiofônica é um direito adquirido pelas rádios há muitos anos e que ele garante o funcionamento de muitas emissoras. Além disso, a transmissão é defendida como uma forma de divulgação gratuita do futebol. Com relação a essa gratuidade na divulgação do futebol, defendida pelos cronistas, podemos perceber que, com os novos meios de comunicação, os grandes clubes do futebol brasileiro têm outras opções para divulgar a sua marca, como a televisão (que paga pelos direitos de transmissão dos jogos) e a internet (em que cada clube tem o seu site oficial). Assim, podemos supor que na atualidade o rádio depende mais do futebol do que o futebol do rádio. Exposto todo esse cenário e entendendo este artigo como propulsor de novas questões e estímulo acadêmico para pensá-las, norteamos em nossas considerações finais e início de novos apontamentos: a Lei Pelé garante o direito ao acesso gratuito à informação esportiva para fins jornalísticos e educativos? As emissoras de rádio usam o futebol para muito além da cobertura jornalística e educativa, transformam o esporte em um produtoextremamente rentável? A televisão é obrigada a pagar pelos direitos de transmissão, isso se aplica às rádios? Sendo assim, propomos, ao término deste artigo, um estímulo ao estudo das questões aqui apresentadas não no intuito de finalizar a discussão, mas sim na tentativa de propiciar mais discussões acadêmicas em torno do assunto, principalmente no que se refere à coerente ou incoerente gratuidade da transmissão radiofônica integral dos jogos de futebol no Brasil. Fonte: BONIN, et al. 2016, p, 192 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 124 11.1.2 transmissão “pirata” não é jornalisticamente ético Fonte: https://t.ctcdn.com.br/sID5hsMB_Kb0bwmzsN8qJ7iJcrM=/1024x0/smart/i304845.jpeg Em vários artigos e parágrafos do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros percebe- se a preocupação não apenas com a natureza social do trabalho do jornalista que é informar, mas também uma preocupação sobre a maneira com que esta informação é obtida e levada a sociedade. O artigo 6º, item X, do Capítulo II, que trata sobre a conduta do jornalista é claro e taxativo, ao dizer: “defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito. E no Artigo 7º, item IX, que diz: “valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais. Estas premissas são básicas do trabalho ético e moral que deve desempenhar o jornalista e mostram que, independente da mídia em que atua o profissional, seguir a lei e o código de conduta da profissão são atitudes fundamentais, principalmente em um mundo onde a facilidade para utilização da internet e das redes sociais traz a falsa sensação de anonimato e impunidade. Para um jornalista comprometido com sua profissão e a sociedade, isto não é argumento para ultrapassar os limites da ética e da moral, além do cometimento de crimes. Segundo levantamento do site Canaltech (https://canaltech.com.br/), especializado em tecnologia, a pirataria na internet em eventos esportivos causa prejuízos bilionários aos clubes e a própria imprensa. Conforme apurou o site: https://t.ctcdn.com.br/sID5hsMB_Kb0bwmzsN8qJ7iJcrM=/1024x0/smart/i304845.jpeg https://canaltech.com.br/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 125 O site de stream FirstRow Sports, por exemplo, apresenta uma safra de transmissões ilícitas para jogos que vão do hóquei no gelo ao basquete e atrai mais de 300 mil visitantes diários, de acordo com dados da empresa de análise SimilarWeb. Somente em janeiro de 2019, fãs do esporte acessaram sites de pirataria esportiva 362,7 milhões de vezes, segundo dados da empresa de pesquisa de pirataria digital Muso. No Discord, benfeitores anônimos distribuem links para transmissões ao vivo de futebol, e depois que uma transmissão é retirada, outra é criada imediatamente. (https://canaltech.com.br/internet/o-lado-mais-obscuro-do-twitch- tem-nome-pirataria-159143/) E para não ficar apenas no futebol, o site tecmundo (tecmundo.com.br), outro site especializado em tecnologia mostra levantamento de prejuízos registrados por empresas promotoras de lutas, que agora tentam na justiça reaver os prejuízos e punir judicialmente empresas e pessoas envolvidas nas transmissões. Fonte: https://www.tecmundo.com.br/internet/216572-transmissoes-piratas-luta-rendem-processo-us-100-milhoes.htm Portanto, caro estudante, o objetivo maior desta nossa aula foi trazer para vocês a importância de um comportamento ético em todos os momentos do desempenho da profissão de jornalista. Postura e ações éticas são o que a sociedade brasileira espera de profissionais e futuros profissionais como nós, que lidamos diariamente com a informação. Não se pode admitir um tipo de atitude na apuração e divulgação dos fatos e outra atitude ao usar a internet e as redes sociais como fonte de informação. https://canaltech.com.br/internet/o-lado-mais-obscuro-do-twitch-tem-nome-pirataria-159143/ https://canaltech.com.br/internet/o-lado-mais-obscuro-do-twitch-tem-nome-pirataria-159143/ https://www.tecmundo.com.br/internet/216572-transmissoes-piratas-luta-rendem-processo-us-100-milhoes.htm FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 126 É preciso também cuidado com as parcerias na transmissão de eventos e o trabalho do jornalista por meio de webradios, cada vez mais presentes na vida da sociedade. Ao mesmo tempo em que oferece inúmeras oportunidades para que o jornalista se torne um empreendedor ético e correto da comunicação, a internet pode trazer aos profissionais inúmeras armadilhas. É preciso sempre muita atenção com as facilidades da internet e agir eticamente em todos os momentos, para que o jornalista preserve seu maior patrimônio, que não é financeiro ou empresarial, mas sim ético e moral. Na próxima aula iremos falar de maneira mais detalhada sobre o Código de Ética dos Jornalistas, conjunto de normas e regras que orientam o trabalho dos jornalistas, e do qual não se deve desviar um milímetro, sob pena de incorrer em traição e desrespeito não apenas a profissão, mas principalmente a sociedade. ISTO ESTÁ NA REDE Quem quiser entender um pouco mais sobre legislação e direitos de transmissão, recomendo o artigo que utilizamos para preparar esta aula, que apresenta de forma de maneira simples e objetiva os principais pontos sobre a questão. Fonte: https://www.scielo.br/j/rbce/a/LW6hkVpCFPbLjkfn3yHjpSt/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rbce/a/LW6hkVpCFPbLjkfn3yHjpSt/?lang=pt FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 127 AULA 12 CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS A ética jornalística não se resume a uma normatização do comportamento de repórteres e editores; encarna valores que só fazem sentido se forem seguidos tanto por empregados da mídia como por empregadores – e se tiverem com seus vigilantes os cidadãos do público. A liberdade de imprensa é um princípio inegociável, ele existe para beneficiar a sociedade democrática em sua dimensão civil e pública, não como prerrogativa de negócios sem limites na área da mídia e das telecomunicações (BUCCI, 2006, p,12) Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/intelig%c3%aancia-artificial-rede-3706562/ Constantemente nos deparamos com problemas éticos em nossas vidas, seja no trabalho, em casa, na faculdade ou em vários momentos em que precisamos tomar decisões, saber se estamos agindo da maneira que consideramos correta na solução daquele problema. No jornalismo não é diferente, pois em vários momentos, vários mesmos, a dúvida sobre nossa conduta e nossas ações acenderá uma luz interna e terá início um debate com a própria consciência, até definirmos qual a maneira adequada de agir. https://pixabay.com/pt/illustrations/intelig%c3%aancia-artificial-rede-3706562/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 128 Durante estes questionamentos, o que ajuda a decidir qual caminho seguir, além dos valores éticos que trazemos e construímos durante a vida, conta muito a formação acadêmica, o compromisso com a profissão que escolhemos e os tratados que fizemos, de exercer o jornalismo em favor da sociedade. Colocando de outra maneira, além daqueles valores universais que construímos no decorrer da vida e entendemos por ética, existem os valores próprios da profissão que escolhemos exercer, no caso os valores éticos do jornalismo. Ao entendermos que existe uma ética própria do jornalismo, desmistificamos alguns conceitos, como por exemplo: a) de que a ética é algo único, que se aplica a todos e a tudo da mesma maneira. Não, a ética não é única e não se aplica em todos os momentos da mesma maneira; b) de que a ética se aprende na escola. Na escola temos sim contanto com questões éticas e o entendimento sobre ética, mas faz parte de uma construção, de um processo, e não é o todo; c) de que a ética é um tema tratado na academia. Pode até ser tratadoacademicamente, mas a ética é para que seja exercida fora da academia, dentro das profissões, no trato com a sociedade, portanto, a ética não é um assunto apenas acadêmico; d) A ética é algo abstrato. A ética é real, ela molda nossa conduta, orienta a forma de agir, pensar e refletir sobre a tomada de decisões. Quando a ética é profissional, orienta também a forma de lidar com as questões da sua profissão, portanto, não é algo abstrato; e) Cada pessoa tem a sua própria ética. Isto não é verdade, não é a ética que se molda a pessoa, mas sim as pessoas que precisam entender as questões éticas para agir. Portanto não existe uma ética para cada cidadão, para cada família, mas sim uma ética única e universal que deve orientar nossas ações; f) De que ética e moral são a mesma coisa. Não são, pois moral é um conjunto de valores que orientam as ações, a conduta e os julgamentos. Com base nestes valores as pessoas fazem escolhas e decidem diante das situações que se apresentam cotidianamente. A ética, neste caso, pode ser definida como aquilo que as pessoas fazem com a moral, ou seja, de que forma aplicam os conceitos e preceitos morais adquiridos. Muitas vezes de forma individual, orientada por seus valores pessoais. Em outros momentos de forma coletiva, orientados pelos FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 129 grupos sociais aos quais pertencem, que nem sempre irá refletir os valores morais e éticas de cada indivíduo. Importante também entender que existe uma diferença entre recomendações morais e as leis, pois, como o próprio nome diz, são recomendações, enquanto que as leis se aplicam de modo igualitário em toda sociedade, com previsão de punição para os que as desrespeitam. 12.1 dúvidas éticas e certezas morais do jornalismo Emissoras de Rádio, de TV, jornais, revistas, sites dedicados ao jornalismo precisam existir não apenas para gerarem lucro aos seus proprietários, mas sim porque receber informação é um direito da sociedade e de cada cidadão. Quem decide produzir informação, ou conteúdo, para usar uma palavra do momento, seja o jornalista ou o dono de uma empresa jornalística, precisa ter em mente que mais importante do que os lucros conquistados, é a informação correta, honesta, sem interesses obscuros. Estes direitos estão garantidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, que em seu artigo 19 estabelece que, “todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”, (https://institutolegado.org/blog/declaracao-universal-dos-direitos-humanos). Em nosso país é garantido também pela Constituição Federal de 1988 em seu artigo 5º, inciso XIV, assegurando que no Brasil é garantido a todo cidadão brasileiro o direito de informar e ser informado, por meio do livre acesso a informação e informações públicas de relevância para a sociedade. Segundo KARAM (2014, p,44), quando se fala sobre conduta ética e moral dos profissionais de jornalismo, “existem milhares de perguntas que podem ser feitas e merecem, antes de uma apressada resposta empírica, profunda reflexão [...] perguntas, dúvidas, perplexidades ou apressadas certezas é o que não faltam quando se envolve o jornalismo na esfera moral em que se se movimenta”. Algumas das perguntas apresentadas pelo autor nos preparam para abordarmos em seguida o código de ética dos jornalistas brasileiros: https://institutolegado.org/blog/declaracao-universal-dos-direitos-humanos FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 130 - como fazer respeitar a privacidade do cidadão, quando ele está no mundo, e seus atos, em muitos casos, possuem tal relevância que as demais pessoas precisam ter conhecimento deles? - como respeitar a privacidade da pessoa pública, que, na suavidade da noite, vai tecendo uma negociata na qual o Estado perde dinheiro e, por consequência, o cidadão se vê prejudicado em serviços de saúde, educação e transporte? - como defender um jornalista que, em busca de fama, prestígio e poder envolve, na informação, a vida privada de uma personalidade pública para obter dividendos pessoais e alega, para isso, que o fato possui relevância social? - como resolver eticamente o problema de uma pessoa fotografada em sua privacidade, quando o jornalista diz que isso é de interesse público? - como revelar a verdade de um acontecimento, quando ele próprio possui várias fragmentações e interpretações – tal como a realidade aparente – e as versões são diferentes, complexas e não há espaço para todas elas nem para todas as fontes? - como obter uma boa matéria e escrevê-la com talento e precisão, se o jornalista trabalha em três lugares diferentes? - como selecionar, no mar diário de acontecimentos, aqueles que possuem relevância social? - como resolver a curiosidade social sobre a vida privada das pessoas ou a utilização dramas e tragédias do cotidiano em relação à ética? [...] Enfim, há muitas perguntas a fazer e responder. As respostas exigem debates e reflexões, antes de apressadas conclusões ou autoritárias certezas. Elas também não cabem nas generalizações que comparam a ética jornalística com a ética de qualquer outra atividade, sem levar em conta, profundamente, a relação específica da atividade com a sociedade. [...] por isso, o jornalismo não pode deixar de ser crítico, de traduzir a diversidade e conflitos. Isso só seria possível se escondêssemos a humanidade de si mesma e a cotidianeidade de todos nós. É o que tentam fazer as ditaduras, o jornalismo liberal submetido à lógica do mercado, as censuras, autocensuras e o caminho moral... Fonte: KARAM, 2013, p, 44-46 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 131 ISTO ESTÁ NA REDE Acessando este site, você confere na íntegra a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que completou 74 anos em 2022, além de acompanhar vídeos e documentários sobre o tema. https://institutolegado.org/blog/declaracao-universal-dos-direitos-humanos-integra/ 12.2 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros O ano de 1949 marca o surgimento do primeiro código de ética dos jornalistas brasileiros, que passou por revisões em 1968, sofreu mudanças em 1986 para se adequar a redemocratização do pais e foi novamente revisado e alterado no ano de 2007, sendo esta sua versão mais recente, conforme artigo que analisa de forma comparativa o código antigo e o atual. https://institutolegado.org/blog/declaracao-universal-dos-direitos-humanos-integra/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 132 O primeiro código dos jornalistas, segundo Christofoletti (2007), surgiu em 1949, mas foi revisado em 1968. Em 1986, foi elaborado o documento que “serviu de base para a atuação dos jornalistas no período da redemocratização brasileira”, estando em vigor desde o ano de 1987. Ele foi votado pelo Congresso Nacional da categoria, portanto, contou com o apoio de todos os sindicatos filiados e teve, como relator, o jornalista Ronaldo Buarque de Holanda. Desde sua criação, o código de Ética dos Jornalistas teve por objetivo fixar normas a que a atuação do profissional dos jornalistas deve subordinar-se, seja nas suas relações com a sociedade, com as fontes de informação, bem como entre os próprios jornalistas. Recentemente este documento, que está em vigor há 20 anos, passou por uma reformulação, durante a realização do Congresso Extraordinário dos Jornalistas, em Vitória (ES), nos dias 3, 4 e 5 de agosto de 2007, no qual delegações de 23 estados do país participaram da votação, o que segundo Reinholz (2007): “[...] colaborou para a formatação de um código que irá auxiliar o dia-a-dia de todos os jornalistas”. (FANTINEL, et al. 2008, p,02). O código deética dos jornalistas brasileiros tem cinco capítulos: O 1º capítulo trata sobre direito à informação; o 2º capítulo fala sobre a conduta profissional do jornalista; o 3º capítulo é sobre a responsabilidade profissional do jornalista; o 4º capítulo fala sobre as relações profissionais; e o 5º capítulo, da aplicação do Código de Ética e disposições finais. No site da Federação Nacional dos Jornalistas, FENAJ, é possível conhecer, além do código de ética, a legislação sobre a profissão de jornalista. fonte: https://fenaj.org.br/legislacao-profissional/juridica/ https://fenaj.org.br/legislacao-profissional/juridica/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 133 12.2.1 Capítulo I – Do direito à informação Este capítulo trata sobre direito a informação e o direito de informar, ressaltando as garantias para o exercício da profissão e o compromisso que deve existir para a produção de notícias, tendo como valor maior o interesse público. Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação. Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas; II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público; III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão; IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, deve ser considerada uma obrigação social; V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante. 12.2.2 Capítulo II – Da conduta profissional do jornalista Neste capítulo estão consignados os compromissos do jornalista com a sua profissão. Estão aqui os deveres que um jornalista assume com a sociedade, o veículo onde trabalha e consigo mesmo, para o correto exercício da profissão. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 134 Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética. Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação. Art. 5º É direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte. Art. 6º É dever do jornalista: I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos; II – divulgar os fatos e as informações de interesse público; III – lutar pela liberdade de pensamento e de expressão; IV – defender o livre exercício da profissão; V – valorizar, honrar e dignificar a profissão; VI – não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha; VII – combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação; VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão; IX – respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas; X – defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito; XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos, negros e minorias; XII – respeitar as entidades representativas e democráticas da categoria; XIII – denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente; XIV – combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza. Art. 7º O jornalista não pode: I – aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho; II – submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração dos acontecimentos e à correta divulgação da informação; III – impedir a manifestação de opiniões divergentes ou o livre debate de idéias; IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais; V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime; VI – realizar cobertura jornalística para o meio de comunicação em que trabalha sobre organizações públicas, privadas ou não-governamentais, da qual seja assessor, empregado, prestador de serviço ou proprietário, nem utilizar o referido veículo para defender os interesses dessas instituições ou de autoridades a elas relacionadas; VII – permitir o exercício da profissão por pessoas não-habilitadas; VIII – assumir a responsabilidade por publicações, imagens e textos de cuja produção não tenha participado; IX – valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 135 12.2.3 Capítulo III – Da responsabilidade profissional do jornalista As responsabilidades do jornalista para coma verdade das informações que divulga estão expressas neste capítulo. Fica claro que o jornalista é responsável pela informação que divulga e pelas opiniões que expressa. Alguns deveres do jornalista na produção da notícia também estão elencados neste capítulo. Art. 8º O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração será de seu autor. Art 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística. Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade. Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações: I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica; II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes; III – obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração; Art. 12. O jornalista deve: I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas; II – buscar provas que fundamentem as informações de interesse público; III – tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar; IV – informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínios ou promoções; V – rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade, sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outrasmanipulações; VI – promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria ou por cuja publicação foi o responsável; VII – defender a soberania nacional em seus aspectos político, econômico, social e cultural; VIII – preservar a língua e a cultura do Brasil, respeitando a diversidade e as identidades culturais; IX – manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho; X – prestar solidariedade aos colegas que sofrem perseguição ou agressão em conseqüência de sua atividade profissional. 12.2.4 Capítulo IV – Das relações profissionais Este pequeno capítulo, com apenas dois artigos, trata sobre a relação do jornalista com seus companheiros de trabalho, que deve ser sempre respeitosa. O jornalista FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 136 também não pode, as custas de manter-se no emprego ou buscar novas oportunidades, submeter-se a relações profissionais que firam as leis trabalhistas. Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções. Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas. Art. 14. O jornalista não deve: I – acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra; II – ameaçar, intimidar ou praticar assédio moral e/ou sexual contra outro profissional, devendo denunciar tais práticas à comissão de ética competente; III – criar empecilho à legítima e democrática organização da categoria. 12.2.5 Capítulo V - Da aplicação do código de ética e disposições finais O último capítulo trás as sansões e penalidades a serem aplicadas ao profissional que desrespeitar o código de conduta dos jornalistas brasileiros. Trata também sobre os mecanismos que podem ser criados pela categoria dos jornalistas, por meio de suas entidades, sindicatos e federações, no sentido de constituir comissões responsáveis por apurar as infrações cometidas e possíveis penalizações do profissional. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 137 Art. 15. As transgressões ao presente Código de Ética serão apuradas, apreciadas e julgadas pelas comissões de ética dos sindicatos e, em segunda instância, pela Comissão Nacional de Ética. 1º As referidas comissões serão constituídas por cinco membros. 2º As comissões de ética são órgãos independentes, eleitas por voto direto, secreto e universal dos jornalistas. Serão escolhidas junto com as direções dos sindicatos e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), respectivamente. Terão mandatos coincidentes, porém serão votadas em processo separado e não possuirão vínculo com os cargos daquelas diretorias. 3º A Comissão Nacional de Ética será responsável pela elaboração de seu regimento interno e, ouvidos os sindicatos, do regimento interno das comissões de ética dos sindicatos. Art. 16. Compete à Comissão Nacional de Ética: I – julgar, em segunda e última instância, os recursos contra decisões de competência das comissões de ética dos sindicatos; II – tomar iniciativa referente a questões de âmbito nacional que firam a ética jornalística; III – fazer denúncias públicas sobre casos de desrespeito aos princípios deste Código; IV – receber representação de competência da primeira instância quando ali houver incompatibilidade ou impedimento legal e em casos especiais definidos no Regimento Interno; V – processar e julgar, originariamente, denúncias de transgressão ao Código de Ética cometidas por jornalistas integrantes da diretoria e do Conselho Fiscal da FENAJ, da Comissão Nacional de Ética e das comissões de ética dos sindicatos; VI – recomendar à diretoria da FENAJ o encaminhamento ao Ministério Público dos casos em que a violação ao Código de Ética também possa configurar crime, contravenção ou dano à categoria ou à coletividade. Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação. Parágrafo único – Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação. Art. 18. O exercício da representação de modo abusivo, temerário, de má-fé, com notória intenção de prejudicar o representado, sujeita o autor à advertência pública e às punições previstas neste Código, sem prejuízo da remessa do caso ao Ministério Público. Art. 19. Qualquer modificação neste Código só poderá ser feita em congresso nacional de jornalistas mediante proposta subscrita por, no mínimo, dez delegações representantes de sindicatos de jornalistas. Vitória, 04 de agosto de 2007. Federação Nacional dos Jornalistas Fonte: https://fenaj.org.br/codigo-de-etica-dos-jornalistas-brasileiros/ https://fenaj.org.br/codigo-de-etica-dos-jornalistas-brasileiros/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 138 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Esta revoltante sequência de fotos mostra como uma profissional rasga o código de ética em busca de uma imagem mais degradante ainda de refugiados fugindo de seus países em guerra. A jornalista de uma TV húngara agride imigrantes para que eles caiam e possa render imagens impactantes, como se a situação pela qual passam já não seja em si um grande sofrimento. Fonte:https://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/video-mostra-reporter-hungara-chutando-e-dando-rasteira-em-refugiados.html https://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/video-mostra-reporter-hungara-chutando-e-dando-rasteira-em-refugiados.html FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 139 Caros alunos, ao chegarmos no final desta aula, acreditamos que ficou muito claro a importância de um código de ética para orientar a conduta do jornalista durante sua jornada profissional. Ficou claro também de que não adianta existir um código voltado a orientar o pleno exercício do jornalismo, se ele ficar guardado em uma gaveta qualquer, ou não for minimamente respeitado e seguido. Ser jornalista na plenitude da profissão significa, além da produção de conteúdo para sua audiência, agir com respeito ao cidadão, a sociedade que hipoteca na figura do jornalista um representante da verdade e da dignidade humana. ANOTE ISSO Para encerrar, recorro ao grande poeta Carlos Drumond de Andrade, que em mais um de seus belos poemas nos põe a pensar até que ponto a verdade estará sempre do nosso lado. Será preciso, como diz o poema, buscar sempre a verdade inteira dos fatos e saber que do outro lado, existe uma outra percepção de verdade, que precisa ser vista e respeitada pelo jornalista, para que não se torne um profissional arrogante, míope e incapaz de ver as diferenças que constroem um mundo melhor. A verdade dividida A porta da verdade estava aberta mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só conseguia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia os seus fogos. Era dividida em duasmetades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era perfeitamente bela. E era preciso optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. Carlos Drummond de Andrade Fonte:https://jornaldefilosofiadacomunicacao.blogspot.com/2019/09/analise-de-verdade-dividida.html https://jornaldefilosofiadacomunicacao.blogspot.com/2019/09/analise-de-verdade-dividida.html FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 140 AULA 13 INTERNET, ÉTICA E O DIREITO AO ESQUECIMENTO No mundo em que há o reconhecimento do outro e onde a palavra relação está ligada a algo fora de si mesmo, o indivíduo deixa de ser um mero apêndice natural agregado à vida para ser uma ponte que vai da individualidade para a totalidade e desta para sua singularidade [...] só há sentido falar em direito e ética se estas noções forem vinculadas às de compromisso com o outro, com as relações humanas...(KARAM, 2014, p,23) Fonte: https://www.politize.com.br/wp-content/uploads/2021/09/closeup-of-a-black-computer-keyboard-and-del-button-1536x1024.jpg Muitos dos questionamentos atuais do jornalismo, passam também por entender o surgimento e o uso da tecnologia e da internet, e de ferramentas de comunicação e interação surgidas a pouco mais de 30 anos e que rapidamente tornaram-se essenciais para o desempenho da atividade jornalística. https://www.politize.com.br/wp-content/uploads/2021/09/closeup-of-a-black-computer-keyboard-and-del-button-1536x1024.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 141 Criadas para facilitar e agilizar a produção de conteúdo e a interação com o consumidor de informação, as ferramentas tecnológicas trouxeram também alguns dilemas éticos para o fazer jornalístico. Uma das grandes demandas da sociedade e do jornalismo em especial sempre foi armazenar a maior quantidade possível de informações, com o objetivo de serem utilizadas no dia a dia. Sempre que se traz um fato à tona, contextualizá-lo com os elementos do passado ajudam a valorizar a notícia, lhe conferem sequência, credibilidade e um maior entendimento. Este sempre foi, aliás, um dos trunfos da imprensa para cativar sua audiência. Quem não gostaria de saber o que foi dito há 10, 15 anos por um candidato a cargo político que hoje promete fazer uma revolução se for eleito. Será que existe uma coerência em sua trajetória política, e se o que ele disse num passado não muito distante condiz com o que ele pensa hoje. E é justamente nesta possibilidade, transformada em realidade pela tecnologia, que reside a questão. Se antes a sociedade e a imprensa eram limitadas na possibilidade de acessar tudo que foi dito e pensado “sobre”, e “por” alguém, hoje a facilidade em encontrar e explorar praticamente tudo que diz respeito a uma pessoa, transforma os cidadãos em reféns do seu próprio passado. [...] as mudanças tecnológicas potencializaram a alteração desse panorama, de maneira que a regra, agora, são computadores e aparelhos eletrônicos que permitem a lembrança de tudo. Os transitórios tweets e as atualizações de status dos usuários no Facebook são transformados em registros permanentes. Os sistemas de pesquisa buscam todos os registros na internet. Os telefones celulares e serviços de e-mail geram logs das conversas, por mais mundanas e efêmeras que possam ser. E não é preciso ser uma celebridade para ser constantemente lembrado. Todos devem esperar serem tratados com o escrutínio reservado outrora apenas aos famosos. O dilema atual reside no fato de os registros do passado – capazes de serem armazenados eternamente – poderem gerar consequências posteriormente à data em que o evento foi esquecido pela mente humana. Nesse contexto, a pior situação já vivenciada por determinada pessoa pode ser vinculada com a primeira e mais importante informação a seu respeito. (SCHREIBER, 2013, p,185) Como destaca Schreiber no texto, a pior situação já vivenciada por determinada pessoa no decorrer de sua, seja qual período for, pode ser vinculada com a primeira e mais importante informação a seu respeito, e fazer com que a imagem de uma pessoa na atualidade seja vinculada as suas ações passadas, onde talvez não resida mais o seu modo de pensar e de agir. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 142 Em um artigo sobre memória e esquecimento na contemporaneidade, Sarah Catão Lucena (2011), nos apresenta uma importante reflexão, ao analisar um conto do escritor Jorge Luís Borges, intitulado “Funes, o arquivista da memória”. Em determinado ponto de suas análises questiona se o excesso de memória, ou de lembranças, seria de fato algo positivo. Seria uma virtude ou uma maldição a capacidade de recordar-se de tudo? Diz Funes: -Eu sozinho tenho mais lembranças que terão tido todos os homens desde que o mundo é mundo. (BORGES, 2007, p.105). Quão exorbitante é essa trajetória de vida, tão morta pela inatividade de estar na prisão do passado infindável? Devemos mesmo seguir nessa direção de fazer de cada rastro da nossa era um arquivo? A memória exclusivamente, sem a completude do seu oposto, se torna obsoleta na sua função: (LUCENA, 2011, p, 95) Percebemos neste pequeno fragmento do texto que a inquietação maior não é com relação a memória ou as lembranças, mas que isto seja eterno e mais importante do que o presente. Que se viva uma vida onde buscar o passado constantemente contribui para avaliar o presente, como se entre o passado e o momento atual, não houvesse ocorrido um lapso temporal e a sociedade não tivesse passado por várias mudanças. Avaliar o presente com os óculos utilizados no passado requer muito cuidado e atenção, para que não se condene alguém a perpetuidade de possíveis erros, falhas e incoerências, que neste momento já não servem mais como parâmetro. Ao mesmo tempo, não é possível considerar tudo que diga respeito ao passado como letra morta, pois o trabalho do jornalista tem como fundamentos a coleta, redação, publicação e divulgação de informações sobre fatos e acontecimentos, por meio de técnicas e procedimentos próprios da profissão, que incluem a busca ao passado um de seus importantes elementos. O que cabe refletir é a necessidade e a maneira como determinadas informações são utilizadas na composição da notícia, matéria prima do trabalho jornalístico. Questionar este ponto é extremamente válido e necessário, no sentido de uma ação ética e coerente por parte do profissional de imprensa. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 143 O que é o direito ao esquecimento? Com o avanço das tecnologias de comunicação e a consequente chance de perpetuidade dos dados e notícias divulgados, uma discussão tem retornado aos maiores tribunais do país: o direito ao esquecimento. Esse direito trata da possibilidade de que determinados fatos, mesmo que verídicos, ocorridos na vida de um indivíduo não venham a ser de conhecimento público, em razão do período de tempo decorrido, por meio de veículos de comunicação social [...] Onde surgiu o direito ao esquecimento? Apesar de configurar uma discussão recente no mundo jurídico brasileiro, o direito ao esquecimento, também conhecido como o “direito de ser deixado em paz” ou o “direito de estar só”, aparece já há décadas nos casos e decisões judiciais de outros países. Um dos primeiros casos de que se tem notícia ocorreu no ano de 1918, nos Estados Unidos: Melvin versus Reid. Nesse conflito judicial específico, a parte Gabrielle Darley era envolvida com prostituição e havia sido acusada por um homicídio, em seu passado – ocorreu que Gabrielle acabou sendo inocentada de tal crime, tendo mudado sua vida pela ressocialização. A discussão sobre o direito ao esquecimento deu-se no Tribunal da Califórnia, quando Doroty Davenport Reid resolveu produzir um filme, anos após a absolvição, sobre avida privada e passada de Gabrielle. Gabrielle, então, recorreu à justiça e obteve uma reparação aos danos ocorridos por uma exposição indevida de sua vida privada. Em outras palavras, no caso de Gabrielle, o Tribunal da Califórnia entendeu que ela tinha o direito de ser esquecida por fatos de sua vida passada que, naquela atualidade, lhe trariam sofrimento e exposição. Outro caso conhecido pela luta judicial pelo reconhecimento do direito de ser esquecido ocorreu na Alemanha em 1969: o caso “Lebach”. Similar ao que ocorreu com Gabrielle, um dos acusados pelo assassinato dos soldados Lebach tomou conhecimento de que um filme contando a história do caso seria exibido na televisão alemã dias antes de sua saída do sistema prisional. No caso Lebach, o acusado já havia cumprido sua pena e, segundo seus argumentos na ação judicial, tal exibição do filme prejudicaria sua ressocialização e o colocaria em uma exposição abusiva. O tribunal constitucional alemão acatou o pedido do acusado e proibiu a exibição do filme com os nomes e dados pessoais do autor, alegando que os meios de comunicação não podem ocupar-se dos crimes e dos condenados por tempo ilimitado, recontando suas histórias e empreitadas criminosas eternamente. O direito ao esquecimento no Brasil Diferentemente do que ocorreu em outros países, como nos casos mencionados dos Estados Unidos e da Alemanha, a discussão pelo reconhecimento do direito ao esquecimento é mais recente no Brasil. Tal direito ganhou grande notoriedade no país pelo conflito entre direitos constitucionais que acarreta, pela divergência entre os entendimentos de diferentes tribunais e pelos famosos casos que discutiram a possibilidade ou não de ser esquecido. É importante salientar que o direito ao esquecimento não possui previsão legal expressa, ou seja, não existe uma lei que verse especificamente sobre ele ou o reconheça, inclusive, por isso seu reconhecimento, ou não, foi muito discutido. Para os que acreditam na existência e na concretização desse direito pela legislação brasileira, ele estaria assegurado pela própria Constituição Federal de 1988. Os adeptos da corrente que reconhecem o direito de “ser deixado só” argumentam no sentido de que esse direito seria um desdobramento dos direitos constitucionais de respeito à vida privada, à honra e até mesmo à própria dignidade humana, sendo que o desrespeito ao direito ao esquecimento configuraria uma afronta a esses direitos básicos. Por outro lado, para aqueles que são contrários ao reconhecimento do direito ao esquecimento no Brasil, a existência de tal direito caracterizaria uma agressão à liberdade de imprensa e de expressão em geral, uma perda de história e memória do país e abalaria a lógica constitucional de que quando algum fato privado torna-se de interesse público, o último ultrapassa o direito à intimidade e a vida privada. Nesse sentido, como os tribunais brasileiros estavam reféns de entendimentos diversos, os quais em um momento reconheciam o direito ao esquecimento como direito legal e constitucional e em outro decidiam pela impossibilidade de sua existência pela colisão com a liberdade de expressão, em 2013, foi redigido e aprovado o Enunciado 531 da VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ, o qual possuía a seguinte redação: “A tutela da dignidade da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento.” Explica-se: um Enunciado, no âmbito jurídico brasileiro, não possui poder de lei. Na verdade, ele serve para divulgar a orientação de determinados juízes sobre um referido tema, objetivando criar diretrizes mais certas e concretas para temas controvertidos. A aplicação dos Enunciados não é obrigatória, comportando-se os mesmos como uma orientação, uma convenção de determinado tribunal – no caso do referido Enunciado, o Superior Tribunal de Justiça. Desse modo, o Enunciado acabou por consolidar uma vertente de interpretação, pelo menos por alguns anos, do tema nos tribunais brasileiros, tendo reconhecido o direito ao esquecimento como uma decorrência do direito à dignidade humana, previsto na Constituição. Todavia, como se verá mais adiante, o tema passou por reformas judiciais, recentemente pelo Supremo Tribunal Federal, as quais acabaram culminando em um entendimento diverso. Publicado em 30 de setembro de 2021 Fonte: https://www.politize.com.br/o-que-e-o-direito-ao-esquecimento/ https://www.politize.com.br/o-que-e-o-direito-ao-esquecimento/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 144 13.1 Questões éticas sobre o tema Fonte: https://i0.wp.com/prisioneroenargentina.com/wp-content/uploads/2017/03/Etica99.jpg?resize=629%2C445&ssl=1 Tão importante quanto discutir se é justo ou correto o direito ao esquecimento, questão que já passou inclusive pelo escrutínio da justiça, arbitrando sobre demandas específicas de pessoas que se sentiram prejudicas por fatos ocorridos há muito tempo, cabe aqui falar sobre quão ético é para o jornalismo utilizar-se deste expediente. Até que ponto informações do passado de determinadas pessoas podem e devem influenciar sua conduta no presente. KARAM (2014) ao falar sobre condutas e limites éticos da imprensa, lembra que: a preocupação com a questão ética no jornalismo surge com a complexidade social e a complexidade crescente da mediação que os meios de comunicação exercem sobre a realidade. O jornalismo, ao reconstruir o mundo, ao mostrá-lo em sua diversidade de fatos e pluralidades de versões, trouxe algo inerente consigo: a necessidade de distinguir os acontecimentos de relevância pública e a responsabilidade de publicá-los, prevendo consequências e atendendo a princípios de pluralidade social. A preocupação com a questão ética surge ao mesmo tempo em que se tenta garantir e ampliar o direito social à informação (KARAM, 2014, p,53) https://i0.wp.com/prisioneroenargentina.com/wp-content/uploads/2017/03/Etica99.jpg?resize=629%2C445&ssl=1 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 145 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Fonte:https://www.conjur.com.br/2019-ago-28/direito-esquecimento-criou-obrigacoes-meios-comunicacao 13.1.1 código moral provisório Filósofos e pesquisadores dizem que existem duas formas de enxergar a ética, por meio da conduta ideal, que seria aquela desejada e estipulada em códigos e normas, e exista a conduta real, que é a que de fato acontece no plano da realidade, aquela que se concretiza. Isto não quer dizer que tudo que se escreve sobre conduta ética só exista no plano das ideias, e o que de fato se aplica seja uma outra conduta ética. Em muitos casos elas se alinham, em outros se distanciam, cabendo a cada indivíduo a decisão sobre qual caminho seguir. https://www.conjur.com.br/2019-ago-28/direito-esquecimento-criou-obrigacoes-meios-comunicacao FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 146 Para lidar com suas questões éticas, o jornalismo tem um código de ética dos jornalistas, para que não fique a vontade do profissional decidir como agir a cada momento. Baseado no código, o jornalista realiza seu trabalho, sem fugir de uma determinada conduta profissional. Mas, mesmo tendo um código de ética, o jornalista, durante as situações que se apresentam, que são inúmeras e muitas vezes inusitadas, não apenas avalia mas emite juízos sobre isso. E no juízo, também existe o juízo de fato e o juízo de valor. Juízo de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e porque são. Em nossa vida cotidiana, os juízos se fato estão presentes. Já o juízo de valor constitui avaliações sobre coisas, pessoas, situações, e são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião, enfim, em todos os campos da existência social do ser humano. Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espíritos, intenções e decisões como sendo boas ou más, desejáveis ou indesejáveis.Trasladando do plano filosófico para o ético, temos os juízos éticos de valor, que são também normativos, isto é, enunciam normas que determinam o dever ser de nossos sentimentos, nossos atos, nossos comportamentos. São juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e ações segundo o critério do bem e do mal, ou seja, do correto e do incorreto. [...] juízos éticos de valor [...] enunciam também que atos, sentimentos, intenções e comportamentos são condenáveis ou incorretos do ponto de vista moral (https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/5754/ Etica-conduta-ideal-e-conduta-real ) Transportando especificamente para o jornalismo, o jornalista Caio Túlio Costa, doutor em Ciência da Comunicação e professor de ética traduz estas questões no que denomina de “moral provisória” do jornalista e a aplicação de um “código moral provisório” em determinadas situações, como por exemplo, utilizar ou não imagens, textos e falas do passado para justificar ou explicar o presente. Segundo COSTA (2009, p, 253), algo como um “código moral temporário é usado pelo jornalista de diferentes formas e em diferentes situações – mas sempre com o objetivo de relativizar situações e justificar comportamentos reconhecidamente contestáveis do ponto de vista da moral”. O pesquisador diz ainda que se trata de uma “moral provisória”, porque é temporária e não irá perdurar para sempre, mas servir a uma determinada situação que requer meios duvidosos para obtenção ou uso de informações, ou ainda emissão de juízo de valor por parte do profissional sobre utilizar ou não determinado material relativo ao passado de pessoas retratadas. COSTA (2009, p, 253) enfatiza ainda que, “a moral provisória não faz parte apenas do ser jornalista, é parte integrante do fazer da indústria da comunicação e é esgrimada conforme aparecem as oportunidades de alguma defesa moral”. https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/5754/Etica-conduta-ideal-e-conduta-real https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/5754/Etica-conduta-ideal-e-conduta-real FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 147 O jornalista, se não conhece teoricamente, ao menos intui o que possa ser uma moral definitiva do ponto de vista normativo, seja de forma mais aprofundada, seja do ponto de vista do senso comum. Sua moral provisória, portanto imperfeita, é convocada quando ele precisa dela internamente, por uma razão qualquer que a moral idealizada por ele não acobertaria – quando, por exemplo, necessita contar uma “mentirinha” ou precisa usar uma “meia verdade” para alcançar algum objetivo que considera nobre (COSTA, 2009, p, 253). Os casos mais famosos no Brasil Embora o tema tenha ganhado mais destaque na atualidade devido às novas interpretações judiciais e consolidações advindas dos maiores tribunais do país, os casos mais famosos do Brasil já possuem alguns anos de história. No quesito da internet como meio de propagação eterna de algumas informações, dados e imagens, uma das mais comentadas decisões diz respeito ao caso da Xuxa Meneghel. A ação judicial foi movida pela apresentadora contra o Google Brasil e tinha como intuito a retirada da plataforma de resultados de pesquisa online baseadas em palavras-chaves que vinculassem sua imagem com a prática da pedofilia. A decisão do juiz de primeiro grau foi favorável à apresentadora e determinou que o Google não apresentasse mais os resultados que vinculavam Xuxa a prática delitiva referida. No entanto, a decisão foi reformada pelo STJ, o qual argumentou que “os provedores de pesquisa não podem ser obrigados a eliminar do seu sistema os resultados derivados da busca de determinado termo ou expressão, tampouco os resultados que apontem para uma foto ou texto específico”(STJ, REsp. Nº 1.316.921 – RJ, 2012, p. 1). Isto posto, percebe-se que a apresentadora buscava o reconhecimento de seu direito a ser esquecida por um fato ocorrido há décadas atrás, no qual atuou em um filme possuindo envolvimento com um adolescente. No caso, a demanda de Xuxa e seu interesse não configuraram, segundo o Superior Tribunal de Justiça, motivação suficiente para barrar o interesse coletivo e o direito ao acesso à informação, não sendo aplicável ao episódio o direito ao esquecimento. Outro caso de grande repercussão no país e com resolução diferente do da apresentadora Xuxa diz respeito a Chacina da Candelária – um crime que ocorreu na noite de 23 de julho de 1993, nas proximidades da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, culminando no assassinato de oito jovens. No episódio, um dos acusados respondeu a ação penal e, ao final, foi absolvido. A questão englobou o direito ao esquecimento quando, anos depois do ocorrido, a Rede Globo elaborou um programa televisivo denominado “Linha Direta” e apontou o nome do acusado como um dos envolvidos que havia sido absolvido. Diante da situação, esse indivíduo ajuizou uma ação contra a emissora exigindo uma indenização pela exposição que havia sofrido, argumentando dano a sua intimidade, vida pessoal e anonimato. O STJ entendeu que, no caso em tela, a exibição do programa poderia ter ocorrido sem os dados e a imagem do indivíduo absolvido, sem que isso acarretasse prejuízo à liberdade de imprensa e de informação. Como a exibição já havia ocorrido, a Rede Globo foi condenada ao pagamento de indenização e o indivíduo teve seu direito ao esquecimento reconhecido – decisão que firmou a tese já mencionada do Enunciado 531 da VI Jornada de Direito Civil do CJF/STJ de que o sistema jurídico brasileiro protege o direito ao esquecimento. A importância desse caso está na ratificação do entendimento, por uma das maiores cortes do país, de que os condenados após cumprirem sua pena ou os absolvidos após o término da ação penal possuem o direito a serem esquecidos, de modo a não permanecerem estigmatizados e a não terem sua ressocialização prejudicada. Além do caso da Chacina da Candelária, a Rede Globo também respondeu por outro processo de natureza similar: o de Aída Curi. Aída foi vítima de um crime sexual seguido de morte no Rio de Janeiro, em 1958. Assim como na Chacina, a emissora fez a exibição da história do crime que vitimou Aída no programa “Linha Direta”, fazendo com isso a divulgação do nome da vítima e fotos da ocorrência. Com a exibição do programa, os familiares de Aída ingressaram com uma ação na justiça, buscando uma indenização por danos materiais, morais e à imagem da vítima, alegando que o programa teria relembrado na família todo o sofrimento já vivenciado. Entretanto, diferentemente do que ocorreu na ação perpetrada pelo absolvido pela Chacina da Candelária, o STJ negou provimento à ação e consequentemente considerou indevida a indenização. O argumento utilizado pela Corte para não reconhecer o direito ao esquecimento no caso de Aída pautou-se pela importância do crime, o qual constitui verdadeiro fato histórico de interesse público, sendo impossível retratá-lo sem a divulgação da imagem da vítima. Além disso, a quantidade de tempo decorrido entre o crime e a exibição do programa – cerca de sessenta anos – foi ponto importante para os Ministros ponderarem por esse entendimento. O caso de Aída Curi teve decisão proferida no Superior Tribunal de Justiça, como mencionado, mas, por meio de recurso, chegou ao Supremo Tribunal Federal para uma discussão final. O STF negou provimento ao referido recurso, mantendo a decisão do STJ, e firmando um importante entendimento sobre a incompatibilidade do direito ao esquecimento no Brasil com a Constituição Federal. Fonte: https://www.politize.com.br/o-que-e-o-direito-ao-esquecimento/ https://www.politize.com.br/o-que-e-o-direito-ao-esquecimento/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 148 13.1.2 o que diz a justiça Convém lembrar sempre aos nossos alunos que o que se busca nesta aula não é falar sobre alguma espécie de censura ou cerceamento ao direito de informar, mas sim mostrar que existeum inesgotável acervo de memória sobre a sociedade e as pessoas, que precisa e deve ser utilizado, mas sempre com muita atenção. a atual capacidade de memorização e armazenamento de dados nem sempre é um fato negativo. É possível lembrar com maior detalhamento momentos importantes das vidas. Com maior quantidade de dados, as empresas são capazes de seguir, de forma mais eficiente, as tendências do mercado. E também toda a sociedade se beneficia, pois evita que erros sejam cometidos duas vezes: para aprender com a história requer-se a capacidade social de lembrar (SCHREIBER, 2013, p,189) O que enfatizamos é a necessidade de o jornalista realizar seu trabalho sempre de maneira ética, utilizando-se das ferramentas disponíveis para isso, mas nunca esquecendo quais são os princípios e fundamentos do seu trabalho. Além disso, a ligação entre presente e passado nem sempre é direta, pois com o passar dos anos cortam-se as conexões que nos ligam ao passado, e por isso, ao acessá-lo é preciso muito cuidado, pois estaremos falando no presente, sobre acontecimentos de um outro momento histórico. Nesse contexto, a fim de examinar a influência das tecnologias sobre a memória humana, alguns estudiosos sugerem que quando se esquece não se perde a informação em si, mas a ligação até ela. Daniel Schacter, professor da Universidade Harvard e um dos mais importantes pesquisadores do assunto, argumenta que a memória não funciona como um arquivo capaz de armazenar um grande número de informações com precisão. A memória humana não é inalteravelmente esculpida; pelo contrário, ela é constantemente reconfigurada, de maneira que o que se lembra é produto das preferências e necessidades atuais. Vale dizer, a memorização depende da frequência com que se lembra e do quanto determinada memória é importante. Por isso, no processo de construção da memória, muitas das lembranças são alteradas devido às influências externas. O fato de se ter memórias do passado não quer dizer que ele ocorreu como se imagina, porque, ao longo do tempo, as lembranças sofrem alterações para se adequarem às situações atuais (SCHREIBER, 2013, p,189) FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 149 Por todas estas dúvidas existentes não só entre a sociedade ou os jornalistas, mas também por decisões da própria justiça, ora a favor, ora contrária, só nos deixa com a sensação de que o direito ao esquecimento deve ser analisado caso a caso. E foi isso que também entendeu e decidiu o Supremo Tribunal Federal (STF), que ao julgar um caso de repercussão nacional, concluiu que “direito ao esquecimento é incompatível com a Constituição Federal e que eventuais excessos ou abusos no exercício da liberdade de expressão e de informação devem ser analisados caso a caso”. E como o assunto é controverso, a decisão dos 11 ministros foi majoritária, mas não unânime, ao concluir que a passagem do tempo não impede a divulgação de fatos ou informações, desde que sejam “reconhecidamente verídicas”. Mas O STF deixa claro que cada caso deve ser analisado individualmente, baseado nos parâmetros constitucionais e na legislação, tanto civil quando penal. E acrescento ainda que também deve ser analisado a luz do código de ética dos jornalistas brasileiros. STF conclui que direito ao esquecimento é incompatível com a Constituição Federal Eventuais excessos ou abusos no exercício da liberdade de expressão e de informação devem ser analisados caso a caso. Por decisão majoritária, nesta quinta-feira (11), o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu que é incompatível com a Constituição Federal a ideia de um direito ao esquecimento que possibilite impedir, em razão da passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos em meios de comunicação. Segundo a Corte, eventuais excessos ou abusos no exercício da liberdade de expressão e de informação devem ser analisados caso a caso, com base em parâmetros constitucionais e na legislação penal e civil. O Tribunal, por maioria dos votos, negou provimento ao Recurso Extraordinário (RE) 1010606, com repercussão geral reconhecida, em que familiares da vítima de um crime de grande repercussão nos anos 1950 no Rio de Janeiro buscavam reparação pela reconstituição do caso, em 2004, no programa “Linha Direta”, da TV Globo, sem a sua autorização. Após quatro sessões de debates, o julgamento foi concluído hoje, com a apresentação de mais cinco votos (ministra Cármen Lúcia e ministros Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Luiz Fux). Solidariedade entre gerações Ao votar pelo desprovimento do recurso, a ministra Cármen Lúcia afirmou que não há como extrair do sistema jurídico brasileiro, de forma genérica e plena, o esquecimento como direito fundamental limitador da liberdade de expressão “e, portanto, “como forma de coatar outros direitos à memória coletiva”. Cármen Lúcia fez referência ao direito à verdade histórica no âmbito do princípio da solidariedade entre gerações e considerou que não é possível, do ponto de vista jurídico, que uma geração negue à próxima o direito de saber a sua história. “Quem vai saber da escravidão, da violência contra mulher, contra índios, contra gays, senão pelo relato e pela exibição de exemplos específicos para comprovar a existência da agressão, da tortura e do feminicídio?”, refletiu. Ponderação de valores No voto em que acompanhou o relator, ministro Dias Toffoli, pelo desprovimento do RE, o ministro Ricardo Lewandowski afirmou que a liberdade de expressão é um direito de capital importância, ligado ao exercício das franquias democráticas. No seu entendimento, enquanto categoria, o direito ao esquecimento só pode ser apurado caso a caso, em uma ponderação de valores, de maneira a sopesar qual dos dois FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 150 direitos fundamentais (a liberdade de expressão ou os direitos de personalidade) deve ter prevalência. “A humanidade, ainda que queira suprimir o passado, ainda é obrigada a revivê-lo”, concluiu. Exposição vexatória Por outro lado, o ministro Gilmar Mendes votou pelo parcial provimento do RE, acompanhando a divergência apresentada pelo ministro Nunes Marques. Com fundamento nos direitos à intimidade e à vida privada, Mendes entendeu que a exposição humilhante ou vexatória de dados, da imagem e do nome de pessoas (autor e vítima) é indenizável, ainda que haja interesse público, histórico e social, devendo o tribunal de origem apreciar o pedido de indenização. O ministro concluiu que, na hipótese de conflito entre normas constitucionais de igual hierarquia, como no caso, é necessário examinar de forma pontual qual deles deve prevalecer para fins de direito de resposta e indenização, sem prejuízo de outros instrumentos a serem aprovados pelo Legislativo. Ares democráticos O ministro Marco Aurélio também seguiu o relator. A seu ver, o artigo 220 da Constituição Federal, que assegura a livre manifestação do pensamento, da criação, da expressão e da informação, está inserido em um capítulo que sinaliza a proteção de direitos. “Não cabe passar a borracha e partir para um verdadeiro obscurantismo e um retrocesso em termos de ares democráticos”, avaliou. Segundo o ministro, os veículos de comunicação têm o dever de retratar o ocorrido. Por essa razão, ele entendeu que decisões do juízo de origem e do órgão revisor não merecem censura, uma vez que a emissora não cometeu ato ilícito. Fato notório e de domínio público Para o presidente do STF, ministro Luiz Fux, é inegável que o direito ao esquecimento é uma decorrência lógica do princípio da dignidade da pessoa humana, e, quando há confronto entre valores constitucionais, é preciso eleger a prevalência de um deles. Para o ministro, o direito ao esquecimento pode ser aplicado. Mas, no caso dos autos, ele observou que os fatos são notórios e assumiram domínio público, tendo sido retratados não apenas no programa televisivo,mas em livros, revistas e jornais. Por esse motivo, ele acompanhou o relator pelo desprovimento do recurso. Não participou do julgamento o ministro Luís Roberto Barroso, que declarou sua suspeição, por já ter atuado, quando era advogado, em outro processo da ré em situação parecida com a deste julgamento. Tese – A tese de repercussão geral firmada no julgamento foi a seguinte: “É incompatível com a Constituição Federal a ideia de um direito ao esquecimento, assim entendido como o poder de obstar, em razão da passagem do tempo, a divulgação de fatos ou dados verídicos e licitamente obtidos e publicados em meios de comunicação social – analógicos ou digitais. Eventuais excessos ou abusos no exercício da liberdade de expressão e de informação devem ser analisados caso a caso, a partir dos parâmetros constitucionais, especialmente os relativos à proteção da honra, da imagem, da privacidade e da personalidade em geral, e as expressas e específicas previsões legais nos âmbitos penal e civel”. Publicada em: 11/02/2021 Fonte: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=460414&ori=1 Caros alunos, ao chegarmos no final de mais uma aula, fica claro que o direito ao esquecimento é um tema que ainda precisará de muito debate até que se consiga https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=460414&ori=1 FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 151 equacionar a maneira correta de tratar as informações do passado com ética, respeito aos direitos de cada cidadão e compromisso de informar a sociedade. Importante também refletirmos que, sob o pretexto de direito ao esquecimento, não se exerça a censura sobre temas que precisam ser sempre lembrados e relembrados pela sociedade. Com a mesma intensidade em que se levantam vozes a favor de um direito ao esquecimento, há aqueles que defendam que a busca pelo direito ao esquecimento dos usuários poderia levar a violações à liberdade de expressão [...] a privacidade tem sido utilizada atualmente para justificar a censura, notadamente pelo fato de ser mais elástica em comparação com outras medidas de proteção da reputação, visto que sua tutela é justificada mesmo quando o fato em questão não seja falso [...] não há como negar que certos episódios são insuscetíveis de serem esquecidos. São fatos que se prendem à própria essência de um povo ou um indivíduo, que marcaram de forma indelével sua história, que deve ser recontada para formação da identidade cultural do país (SCHREIBER, 2013, p,206) Na próxima aula abordaremos o marco civil da internet, tema de extrema relevância não apenas para os meios de comunicação, mas também toda sociedade, e os jornalistas em especial, que lidam diariamente com a informação por meio da internet e suas ferramentas de interação. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 152 AULA 14 MARCO CIVIL DA INTERNET O jornalismo deve mostrar tanto aquilo que “humaniza” quanto aquilo que “desumaniza” o homem. Deve mostrar tanto a singularidade do movimento cotidiano dos indivíduos quanto os comportamentos particulares dos grupos e culturas e a conexão universal entre cada indivíduo e grupo com a totalidade social (KARAM, p,94) Fonte: https://www.oficinadanet.com.br/imagens/post/12558/marco-civil-da-internet.jpg A prática jornalística, a função do jornalismo na sociedade e o jornalismo como modelo de negócios vem passando por profundas mudanças nas últimas décadas, provocadas principalmente pela chegada das tecnologias digitais, que interferiram na maneira como as notícias são produzidas, publicadas e consumidas. Novos canais de comunicação surgiram e surgem a todo momento e o jornalismo torna-se, a cada dia, mais e mais eletrônico e digital, consumido por meio de dispositivos como computadores, tablets e smartphones. Para o profissional do jornalismo, termos como webjornalismo, jornalismo on-line e convergência midiática são elementos de uma nova realidade, mediada pela tecnologia e que tem na Internet seu ponto de intersecção. https://www.oficinadanet.com.br/imagens/post/12558/marco-civil-da-internet.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 153 Cada vez mais as rotinas jornalísticas vão se encaminhando para a digitalização. Se, antigamente, o jornalista empunhava um bloco de anotações e uma caneta, passando por vários balcões de informação e lidando com uma inumerável lista de funcionários públicos e privados [...] o que trará destaque à profissão não é a quantidade de contatos que um jornalista possui, mas como ele é capaz de adquirir e processar dados que estão disponíveis a todo público (SANTOS, 2015, p,14) Com esta nova realidade, torna-se fundamental para o jornalista conhecer as regras de funcionamento da Internet, tema central desta nossa aula, visando aplicar corretamente princípios e fundamentos do jornalismo, como a coleta, análise e utilização das informações na produção de notícias. Nosso ponto de partida é o dia 23 de junho de 2014, data que entrou em vigor a Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014, que criou o Marco Civil da Internet, uma lei que estabelece os princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Na prática a lei delimita o que é legal ou não no uso da Internet, ao mesmo tempo que cria condições e garantias para que empresas e pessoas possam ter seus direitos resguardados e protegidos, podendo recorrer à justiça caso sintam-se violados em seus direitos. De maneira geral, a Lei criou e estabeleceu, além de normas para a venda de pacotes de acesso a internet, princípios e regras de proteção dos dados pessoais e da privacidade dos usuários, reconhecendo o direito de todos os usuários à inviolabilidade dos seus registros na Internet e de suas comunicações, só acessíveis sem autorização mediante decisão judicial. “Estamos debatendo a liberdade de acesso à informação, o direito à comunicação [...] A aprovação do Marco Civil está relacionada à democratização da comunicação, sem a qual não avançamos em direitos fundamentais. O Marco civil é uma carta de cidadania”, reforça o vice-diretor de Informação e Comunicação do Icict, Rodrigo Murtinho (https://www.icict.fiocruz.br/content/marco-civil-da-internet-congresso- nacional-votar%C3%A1-projeto-de-lei-nas-pr%C3%B3ximas-semanas ) O artigo 3º do Marco Civil disciplina o uso da internet no Brasil e possui importantes princípios, sendo alguns fundamentais para o exercício do jornalismo nas redes: I – garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição Federal; II – proteção da privacidade; III – proteção dos dados pessoais, na forma da lei. A Internet surgiu por volta dos anos 1960, nos Estados Unidos. Inicialmente era um sistema de Intranet, voltado apenas para a troca de informações entre instituições de governo e órgãos educacionais. Aos poucos a Intranet foi se abrindo para a sociedade como um todo e ai foi questão de tempo até se tornar fenômeno em todo mundo. https://www.icict.fiocruz.br/content/marco-civil-da-internet-congresso-nacional-votar%C3%A1-projeto-de-lei-nas-pr%C3%B3ximas-semanas https://www.icict.fiocruz.br/content/marco-civil-da-internet-congresso-nacional-votar%C3%A1-projeto-de-lei-nas-pr%C3%B3ximas-semanas FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 154 A origem da Internet remonta à década de 1960, quando o governo estadunidense formatou a Arpanet, rede de computadores montada pela Advanced Research Projects Agency (ARPA). De acordo com Manuel Castells, “a ARPA foi formada em 1958 pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos com a missão de mobilizar recursos de pesquisas, particularmente do mundo universitário, com o objetivo de alcançar superioridade tecnológica militar em relação à União Soviética na esteira do lançamento do primeiro Sputnikem 1957”. Hoje, a Internet tem abrangência mundial, contando com bilhões de usuários em todo o mundo, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). A regulamentação jurídica da Internet enfrenta dois grandes obstáculos já de início: o seu caráter global e a sua estrutura não hierarquizada. (SCHREIBER, 2013, p,239) ISTO ESTÁ NA REDE No site da Câmara dos Deputados é possível pesquisar sobre a Lei 12.965, suas aplicações e interpretações: Liberdade de expressão: Outro princípio garantido pela nova lei é a liberdade de expressão na internet. Agora, um provedor de aplicações de internet (como o Facebook ou o Google, por exemplo) só poderá ser responsabilizado por eventuais danos de conteúdos publicados por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar providências para tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente. Hoje há decisões judiciais diferentes sobre a responsabilização do provedor no caso de conteúdos publicados por internautas, e vários provedores retiram conteúdos do ar a partir de simples notificações. Na nova lei, a exceção fica por conta de conteúdo de nudez e sexo. Nesse caso, o provedor deve retirar o conteúdo a pedido da vítima. O provedor poderá ser punido caso não retire do ar “imagens, vídeos ou outros materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de caráter privado sem autorização de seus participantes quando, após o recebimento de notificação pelo ofendido ou seu representante legal”. Privacidade: A “Constituição da internet” também traz como princípio a proteção da privacidade e dos dados pessoais do usuário. Os direitos do internauta, nesse sentido, incluem a inviolabilidade da intimidade e da vida privada; e a inviolabilidade e sigilo do fluxo de suas comunicações pela internet. Os contratos de prestação de serviços deverão ter informações claras e completas sobre os o regime de proteção aos dados de navegação do usuário. Deverão estar destacadas das demais cláusulas contratuais as informações sobre coleta, uso, armazenamento e tratamento de dados pessoais, o que inclui a forma de compartilhamento desses dados com outras empresas. O usuário terá a possibilidade de exclusão definitiva de seus dados pessoais após o término dos contratos. Pela lei, os provedores, mesmo que sediados no exterior, deverão seguir a legislação brasileira, incluindo o direito à privacidade e ao sigilo de dados. Obrigações dos provedores: Segundo o texto, os provedores de conexão deverão guardar os registros de conexão do usuário (endereço IP, data e hora de início e término da conexão) pelo prazo de um ano. Já os provedores de aplicações e serviços deverão guardar, sob sigilo, os dados de navegação dos usuários pelo prazo de seis meses. O objetivo é ajudar em investigações policiais de crimes na rede. Esses dados só poderão ser fornecidos, porém, por autorização judicial. Fonte:https://www.camara.leg.br/noticias/436873-marco-civil-da-internet-entra-em-vigor/ https://www.camara.leg.br/noticias/436873-marco-civil-da-internet-entra-em-vigor/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 155 14.1 Jornalistas e o Marco Civil da Internet Em vários pontos o Marco Civil da Internet encontra ressonância no Código de Ética dos jornalistas, no que tange as garantias do livre exercício da profissão de jornalista e a prática do jornalismo. No Código de Ética dos jornalistas, ao tratar de acesso de dados públicos, encontramos, conforme SANTOS (2015, p, 6) Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que: (...) IV- a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, é uma obrigação social. V- a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante. Fonte: SANTOS (2015, p, 6) 14.1.1 quanto à prestação de informações pelas organizações públicas Com relação ao Marco Civil da Internet, SANTOS (2015, p, 7), destaca dois importantes pontos da Lei que atuam em harmonia com o Código de Ética dos jornalistas e tratam sobre a prestação de informações por organizações públicas. Art. 24. Constituem diretrizes para a atuação da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios no desenvolvimento da internet no Brasil: I-estabelecimento de mecanismos de governança multiparticipativa, transparente, colaborativa e democrática, com a participação do governo, do setor empresarial, da sociedade civil e da comunidade acadêmica; (...) III-promoção da racionalização e da interoperabilidade tecnológica dos serviços de governo eletrônico, entre os diferentes Poderes e âmbitos da Federação, para permitir o intercâmbio de informações e a celeridade de procedimentos; IV-promoção da interoperabilidade entre sistemas e terminais diversos, inclusive entre os diferentes âmbitos federativos e diversos setores da sociedade; V-adoção preferencial de tecnologias, padrões e formatos abertos e livres; VI-publicidade e disseminação de dados e informações públicos, de forma aberta e estruturada; (...) X-prestação de serviços públicos de atendimento ao cidadão de forma integrada, eficiente, simplificada e por múltiplos canais de acesso, inclusive remotos. (grifo nosso) Fonte: SANTOS (2015, p, 7) FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 156 Segundo o autor, estão presentes na Lei do Marco Civil da Internet, notadamente no artigo citado, de número 24, em consonância com o inciso II do artigo 25 da referida lei, quando diz, “acessibilidade a todos os interessados, independentemente de suas capacidades físico-motoras, perceptivas, sensoriais, intelectuais, mentais, culturais e sociais, resguardados os aspectos de sigilo e restrições administrativas e legais”, garantias ao jornalista do livre exercício de sua profissão. Ao proporcionar a centralização de informações por meio de um banco de dados, oferece condições, possibilidades e facilidades de acesso a informação para a produção de conteúdo jornalístico que precise utilizar dados variados. A centralização de informações passa a ser um requisito para a liberdade de ofício do jornalista porque este, sem a organização das informações oferecidas, se vê atolado com a quantidade de dados disponibilizados sem critério, em plena Sociedade de Rede (também denominada como Sociedade do Conhecimento, da Informação e outras nomenclaturas conforme a conjuntura) – na qual a informação adquire valor tangível e intangível que penetra os diferentes âmbitos sociais (...) o uso da informação é a peça chave para que um cidadão possa se tornar um agente ativo (...) ao absorver e produzir novos conteúdos ele gera coletivos inteligentes que podem alimentar o ciclo informacional: informação – conhecimento – desenvolvimento – informação. A interoperabilidade bem-aplicada possibilitaria, em tese, que, através de uma única consulta, o jornalista possa obter informações disponíveis em bancos de dados variados, desde a Receita Federal até Prefeituras e órgãos judiciários de todo o país (SANTOS, 2015, p, 8). 14.1.2 quanto à prestação de informações dos órgãos públicos Falamos no tópico anterior sobre a prestação de informações pelas organizações públicas, onde encontramos no Código de Ética dos jornalistas parâmetros de congruência com o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014). Neste tópico, falaremos sobre a prestação de informações dos órgãos públicos, trazendo pontos da Lei de Acesso a Informação (Lei 12.527, de 18 de novembro de 2011), conforme destaca SANTOS (2015, p, 9-10) no quadro a seguir, reiterando que “especificamente acerca de que dados devem ser disponibilizados e como eles deverão ser organizadospara sua divulgação na internet, gerando um manual completo para a transparência pública”: FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 157 Art. 8º É dever dos órgãos e entidades públicas promover, independentemente de requerimentos, a divulgação em local de fácil acesso, no âmbito de suas competências, de informações de interesse coletivo ou geral por eles produzidas ou custodiadas. § 1º Na divulgação das informações a que se refere o caput, deverão constar, no mínimo: I - registro das competências e estrutura organizacional, endereços e telefones das respectivas unidades e horários de atendimento ao público; II - registros de quaisquer repasses ou transferências de recursos financeiros; III - registros das despesas; (...) VI - respostas a perguntas mais frequentes da sociedade. § 2º Para cumprimento do disposto no caput, os órgãos e entidades públicas deverão utilizar todos os meios e instrumentos legítimos de que dispuserem, sendo obrigatória a divulgação em sítios oficiais da rede mundial de computadores (internet). § 3º Os sítios de que trata o § 2º deverão, na forma de regulamento, atender, entre outros, aos seguintes requisitos: I - conter ferramenta de pesquisa de conteúdo que permita o acesso à informação de forma objetiva, transparente, clara e em linguagem de fácil compreensão; II - possibilitar a gravação de relatórios em diversos formatos eletrônicos, inclusive abertos e não proprietários, tais como planilhas e texto, de modo a facilitar a análise das informações; III - possibilitar o acesso automatizado por sistemas externos em formatos abertos, estruturados e legíveis por máquina; IV - divulgar em detalhes os formatos utilizados para estruturação da informação; V - garantir a autenticidade e a integridade das informações disponíveis para acesso; VI - manter atualizadas as informações disponíveis para acesso; VII - indicar local e instruções que permitam ao interessado comunicar- se, por via eletrônica ou telefônica, com o órgão ou entidade detentora do sítio; e VIII - adotar as medidas necessárias para garantir a acessibilidade de conteúdo para pessoas com deficiência, nos termos do art. 17 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000, e do art. 9o da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pelo Decreto Legislativo no 186, de 9 de julho de 2008. Fonte: SANTOS (2015, p, 9-10) Por meio destas observações acerca da legislação, inferimos que existem inúmeras congruências entre o Marco Civil da Internet, criado por meio da Lei 12.965/2014 e leis que já vigoravam, como a Lei 12527/2011, de Acesso a Informação. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 158 É importante compreender que, no âmbito jurídico stricto sensu, o Marco Civil da Internet não traz nenhuma novidade jurídica – não há grandes transformações da realidade atual, nem para usuários comuns, que utilizam a internet para fins pessoais, ou para os procedimentos judiciais que já corriam desde antes da sua vigência. Porém, é necessário atentar-se às mudanças no meio jornalístico trazidas pela legislação em cena [...] a melhoria na qualidade do jornalismo em geral através do desenvolvimento de novas técnicas de apuração; e a segurança jurídica trazida tanto para conteúdos já publicados [...] como da proteção do sigilo virtual das fontes jornalísticas. (...) Se não inova no Direito, o Marco Civil traz profundas alterações na forma de se fazer (e discutir) jornalismo no país. Se antes o processamento de dados e a relação com computadores beirava o amadorismo, com a automação de procedimentos e informações [...] o jornalista se aproximará cada vez mais dos códigos de programação para interagir com os bancos de dados públicos, para extrair informações socialmente relevantes (SANTOS, 2015, p, 6-10). ISTO ESTÁ NA REDE Uma das leis mais importantes sobre o tema, a Lei de Acesso a Informação deve ser conhecida e consultada sempre por jornalistas e profissionais da imprensa. Em seu primeiro parágrafo apresenta sua relevância para o jornalismo e para a sociedade: Art. 1º Esta Lei dispõe sobre os procedimentos a serem observados pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com o fim de garantir o acesso a informações previsto no inciso XXXIII do art. 5º, no inciso II do § 3º do art. 37 e no § 2º do art. 216 da Constituição Federal. Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12527.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12527.htm FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 159 14.2 Fundamentos essenciais à prática jornalística Fonte: https://cdn.pixabay.com/photo/2015/07/17/22/42/startup-849804_960_720.jpg Mesmo tendo a Internet democratizado o acesso a informação, as práticas e conceitos essenciais ao trabalho jornalístico variam de acordo com as características sociais e ideológicas de cada país. Liberdade, credibilidade e objetividade são vistos de maneiras diferentes por governantes. Em países onde os meios de comunicação são controlados pelo Estado, não se pode afirmar que exista uma imprensa totalmente independente e autônoma, na medida em que os governos podem controlar o que é divulgado por meio da Internet, e até o acesso a informação por parte dos profissionais de jornalismo. Outro aspecto são os países considerados democráticos no acesso a informação, ou seja, o livre tráfego de informações, mas que enfrentam também, não podemos nos esquecer, as motivações políticas e financeiras dos próprios veículos de comunicação. Por este motivo, novamente é imperativo que a Internet possua regras, normas e uma legislação específica que discipline seu funcionamento, sem deixar apenas nas mãos dos grupos de comunicação ou governantes, a função de filtrar as informações. Somente uma imprensa com normas e regras editoriais transparentes, boas leis de utilização da internet e das tecnologias e profissionais comprometidos com suas https://cdn.pixabay.com/photo/2015/07/17/22/42/startup-849804_960_720.jpg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 160 funções perante a sociedade, podem fazer com que a notícia de fato chegue ao cidadão, que em contrapartida também pode participar das discussões e contribuir para o aprimoramento da democracia. Não podemos esquecer que o jornalista é um mediador entre os fatos e acontecimentos e a sociedade, e no desempenho de suas funções, precisa seguir fundamentos e conceitos essenciais ao completo exercício da atividade jornalística. 14.2.1 ética jornalística na Internet Com o advento da internet, houve também uma mudança na maneira de tratar a notícia, e principalmente a correção dos erros na imprensa. Em um jornal impresso, por exemplo, o erro permanece eternamente presente e a sociedade tem como descobrir e cobrar retratações e o estabelecimento da verdade na edição seguinte. Nas mídias digitais o que acontece é que um erro pode ser facilmente apagado ou alterado, para que o jornalista traga novas versões e formas de interpretação sobre determinada notícia veiculada. Desta forma, os compromissos éticos do jornalista e das empresas jornalísticas com a verdade dos fatos e a conduta ética profissional são levados a outro patamar, na medida em que um erro pode ser modificado eternamente sem que se admita a falha no processo de produção da notícia. Para que estas falhas e erros deixem de acontecer ou aconteçam cada vez menos, VIEIRA E CHRISTOFOLETTI (2014), nos lembram que o jornalista tem a sua disposição um código de ética, além de fundamentos, conceitos, normas e procedimentos a serem seguidos. O erro jornalístico é um objeto de reflexão que se localiza na esquina da ética, com a técnica e a qualidade. Não é por acaso que muitos questionamentos sobre a conduta e a tomada de decisão dos profissionais venham à tona a partir dos equívocos: Por que é importanteconfirmar uma notícia antes de publicá-la? É correto que os veículos ressaltem seus erros de competência? É válido que um meio se desculpe pelo que escrevem seus colunistas? É ético disseminar informações, e, se for comprovado que são falsas, simplesmente retificá-las? É correto mostrar uma reportagem a uma fonte antes de sua publicação para corrigir imprecisões? O papel dos editores é somente evitar que erros sejam publicados? Por que jornalistas custam tanto a corrigir seus erros? (VIEIRA E CHRISTOFOLETTI, 2014, p, 92) FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 161 É inegável que o avanço tecnológico e a facilidade para se criar conteúdo por meio da Internet faz com que a conduta ética exigida do jornalista seja constantemente cobrada e colocada à prova. Além disso, os limites do papel social do jornalismo e o compromisso do jornalista com a verdade dos fatos mostra cada dia mais, a grande diferença que existe em relação ao chamado “produtor de conteúdo”, pessoa que pelas facilidades de divulgação proporcionadas pela internet, publica suas informações sem respeitar os fundamentos básicos da profissão. As novas tecnologias, ao mesmo tempo em que trouxeram debates atuais e inéditos sobre o jornalismo, jogaram luz sobre questões há tempos debatidas na sociedade e dentro do próprio jornalismo referentes a produção e divulgação de notícias por parte da Imprensa. Neste sentido, nunca foi tão necessário a utilização de um dos fundamentos mais importantes e necessários ao correto exercício do jornalismo, que é a apuração dos fatos a serem publicados. A apuração de dados passa a ter cada vez mais importância no trabalho jornalístico – conforme Pereira Jr (2006), a notícia é e sempre foi construída através de uma extensa verificação e procura de informações, as quais são selecionadas e organizadas visando gerar um sentido enquanto reduz-se incertezas, minimizando as contradições possivelmente existentes até que reste um relato confiável. (SANTOS, 2015, p,15) Caros alunos, chegamos ao final desta aula, onde pudemos discutir um tema extremamente relevante para o trabalho ético e correto dos jornalistas, que foi o Marco Civil da Internet e seus desdobramentos. Nossa próxima aula será a última desta disciplina e traremos, liberdade de expressão e discurso de ódio, um tema atual e necessário de ser discutido entre toda sociedade, principalmente profissionais da comunicação, como os jornalistas. Uma linha muito tênue separa a liberdade de expressão, essencial para que exista a democracia e o discurso de ódio, uma realidade alicerçada na intolerância, falta de empatia e que usa a mesma liberdade de expressão como argumento para ataques e práticas violentas. Até mais! FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 162 AULA 15 LIBERDADE DE EXPRESSÃO E DISCURSO DE ÓDIO É possível esconder e alimentar em segredo outras paixões: a ira se mostra no rosto, e quanto maior é, de forma mais evidente ferve. (SÊNECA, 2020, p,26). Fonte: https://pep.ifsp.edu.br/images/IMAGENS/2020/liberdade_de_expresso.jpeg Em uma de suas obras mais conhecidas, Como Manter a Calma, escrita no ano 1 depois de Cristo, o filósofo Sêneca trata sobre temas que na sociedade contemporânea, mediada pela tecnologia e pela internet, tornaram-se muito presentes, como o ódio, a raiva e a ira. O filósofo compara a loucos os que são tomados pela ira ou pelo ódio e encontra nos dois comportamentos, traços comuns, como no trecho a seguir: https://pep.ifsp.edu.br/images/IMAGENS/2020/liberdade_de_expresso.jpeg FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 163 Para que você perceba de outra forma que os que são tomados pela ira não são saudáveis, observe a própria aparência deles; pois assim como existem sintomas próprios dos loucos (o rosto afoito e ameaçador, a feição infeliz, a face selvagem, o passo agitado, as mãos inquietas, a cor alterada, a respiração excessiva e mais ofegante), os sinais dos que se enraivecem são os mesmos: os olhos inflamam e brilham, grande é o rubor por todo o rosto, por causa do sangue que ferve dentro do peito, os lábios tremem, os dentes se cerram, os cabelos se arrepiam e se levantam, a respiração é forte e chiada; o estalo dos dedos se retorcendo, os gemidos e os lamentos, e a fala interrompida por palavras poucos claras, e as mãos que o tempo todo se chocam, e os pés batendo no chão e o corpo agitado e lançando enormes ameaças de ira, e a face, feia de se ver e medonha, desfigurada e inchada. É difícil dizer se esse vício é mais detestável ou mais deformador. Fonte: SÊNECA (org, ROMM, 2020, p, 26) Após descrição tão detalhada sobre loucura e ódio, caminhamos mais de dois mil anos à frente e nos deparamos com o que diz o sociólogo Anthony GIDDENS (2015, p,311) sobre o que vem a ser conflito, reiterando que o conflito é “tão antigo quanto a sociedade humana e, embora hoje nós o consideremos como algo inaceitável e que deva ser evitado, em termos históricos mais abrangentes, conflitos e conquistas influenciaram o universo humano”. Antes de entrarmos no tema central desta aula, “liberdade de expressão e discurso de ódio” Giddens nos apresenta a origem do conceito de discurso, que de maneira usual é definido como modo de falar e pensar sobre determinado assunto, unido geralmente por princípios comuns. O discurso tem como objetivo estruturar a compreensão e as ações das pessoas sobre determinados temas e assuntos. Diz o sociólogo. O conceito de discurso tem origem na linguística (...) nesse contexto se refere à comunicação verbal ou escrita como a que se dá uma conversa realizada pessoalmente, debates públicos, salas de bate- papo on-line, e assim por diante. Contudo, na década de 1950, o filósofo britânico J.L. Austin (1962) afirmou que as comunicações verbal e escrita não seriam apenas afirmações neutras e passivas, mas “atos do discurso”, que influenciariam ativamente o mundo que conhecemos (GIDDENS, 2015, p,8) Quem também tratou sobre o discurso e certamente foi um dos mais influentes pensadores sobre o tema foi o filósofo francês Michel Foucault, que segundo GIDDENS (2015). FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 164 Foucault relacionou o estudo da linguagem ao predominante interesse sociológico no poder e seus efeitos na sociedade. [...] o conceito de discurso de Foucault torna discurso e práticas discursivas centrais para o estudo do poder [... ] Foucault estudo a história da doença mental (loucura), o crime, os sistemas penais e as instituições médicas [...] segundo ele, conhecimento e poder são intimamente ligados e não opostos (GIDDENS, 2015, p,9). Trazendo o debate para um campo mais amplo e atual, podemos falar sobre a cobertura dos conflitos e guerras feitos pela imprensa recentemente. Ao buscar explicar ou justificar as ações como as praticadas no oriente médio, trata todos os conflitos como “guerra ao terrorismo”, criando um discurso do “nós contra eles”, que é a base do chamado discurso do ódio. Por outro lado, temos a liberdade de expressão, que se viabiliza por meio da democracia, um sistema que possibilita a participação dos cidadãos, de forma individual ou coletiva, nos processos de tomada de decisões políticas, seja de forma direta, na escolha dos representantes, seja diretamente, sem o intermédio dos agentes políticos. Não é de hoje que a sociedade contemporânea, cada vez mais plural e impulsionada pelos apelos de liberdade, democracia e igualdade, depara-se com instigantes questões relacionadas ao exercício do direito fundamental de liberdade de expressão. Em relação à sociedade brasileira, talvez em razão das enormes dificuldades verificadas em um passado recente de ditadura – em que nada poderia ser dito de forma impune e expor ideias tinha um custo muito alto – e da crescente troca de informações proporcionadapela ampla divulgação de temas e notícias pelo mundo (em suas mais variadas acepções e culturas), o debate em torno da liberdade de expressão e legitimidade de seu exercício esteja assumindo contornos mais profundos. Não se contraria a máxima de que a liberdade de expressão apresenta-se como pilar do Estado Democrático de Direito e, como tal, merecedora de tutela firme e específica como o fez a Constituição da República de 1988 no Brasil. E tal como a liberdade de expressão, outros valores e princípios igualmente essenciais ao estabelecimento de um Estado Brasileiro Democrático também receberam destaque no texto constitucional (SCHREIBER, 2013, p, 282). A partir destes entendimentos, buscaremos estabelecer parâmetros para identificar até que ponto vai o pêndulo da liberdade de expressão e á partir de qual limite este direito dá lugar a um discurso que fere os princípios de dignidade da pessoa humana e torna-se um discurso de ódio. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 165 15.1 Liberdade de Expressão Fonte: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR1SpGvT5rBvR6F_M32OK57HVYQtVyVeUh6fyNVr_6vvOkTVyURcXq4g7A3n9a9nBxb5w&usqp =CAU Quando tratamos sobre liberdade, torna-se fundamental recorrer a Constituição Federal, garantidora dos direitos fundamentais de todos os brasileiros, ou seja, a liberdade de maneira individual ou coletiva. No artigo 5º, como vemos abaixo, são considerados invioláveis os direitos: “à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”. Quando falamos sobre liberdade de expressão, a Constituição garante livre manifestação de pensamento e expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação. A atual Constituição do Brasil é de 1988, após o país ter enfrentando 21 anos de ditadura militar (1964-1985), e por este motivo apresenta inúmeros artigos tratando sobre as liberdades: Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;” Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. § 1º – Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5o, IV, V, X, XIII e XIV. § 2º – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.” (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicao.htm) https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR1SpGvT5rBvR6F_M32OK57HVYQtVyVeUh6fyNVr_6vvOkTVyURcXq4g7A3n9a9nBxb5w&usqp=CAU https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR1SpGvT5rBvR6F_M32OK57HVYQtVyVeUh6fyNVr_6vvOkTVyURcXq4g7A3n9a9nBxb5w&usqp=CAU http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 166 Quando falamos sobre Liberdade de Imprensa, estamos falando sobre os direitos relativos à informação e ao jornalismo. Segundo a Constituição de 1988: a) Garantia do direito de resposta, que deve ser proporciona ao dano que alguém tenha sofrido, podendo ainda estarem sujeitos os infratores ao pagamento de indenizações, seja por dano moral, material ou dano à imagem; b) É proibido qualquer tipo de censura, seja de natureza artística, ideológica ou política; c) Nenhuma lei poderá se sobrepor a plena e completa liberdade de informação jornalística. Para as empresas que atuam com jornalismo, os direitos são equivalentes ao direito que garante liberdade à artistas, por exemplo, de maneira ampla e irrestrita. Claro que respeitando determinados preceitos, também constitucionais. Em sua função essencial de informar, o jornalismo deve atender de maneira plena a sociedade, informando, denunciando e reportando fatos e acontecimentos de interesse da população, tornando-se, portanto, uma conquista de todos os brasileiros. Importante estes esclarecimentos, para que não se confunda liberdade de imprensa com liberdade de expressão, pois são de naturezas distintas. Enquanto a liberdade de expressão estabelece que qualquer cidadão pode se manifestar livremente, a liberdade de imprensa assegura o livre exercício do jornalismo e da profissão de jornalista. ANOTE ISTO “A imprensa é a vista da nação. Por ela é que a Nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alvejam, ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que lhe interessa, e se acautela do que a ameaça. (…) Um país de imprensa degenerada ou degenerescente é, portanto, um país cego e um país miasmado, um país de ideias falsas e sentimentos pervertidos, um país que, explorado na sua consciência, não poderá lutar com os vícios, que lhe exploram as instituições.” – Rui Barbosa Fonte:http://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/a-imprensa-eacute-a-vista-da-naccedilatildeo/ http://www.observatoriodaimprensa.com.br/armazem-literario/a-imprensa-eacute-a-vista-da-naccedilatildeo/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 167 15.2 Discurso de Ódio fonte:https://diariodorio.com/wp-content/uploads/2019/05/20190508_162305.jpg Existem inúmeras definições sobre o que é discurso de ódio. Todas possuem semelhanças, mesmo quando tratam de temas extremamente opostos. O problema segundo especialistas, está na conduta, na forma de se manifestar por meio do discurso e não o tema do discurso em si. Discurso de ódio são ideias que estimulam algum tipo de discriminação social, religiosa ou racial em determinados grupos, geralmente minorias. Pode também ser caraterizado por manifestações de intolerância ou ódio contra grupos específicos, motivados por preconceito, como deficientes, imigrantes, etnias, regiões do país, grupos LGBTQI+. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 168 Discurso de ódio x liberdade de expressão [...] o discurso de ódio se configura como crime e atenta às garantias e direitos fundamentais de todo cidadão. Entretanto, o principal debate que surge ao falarmos dessa prática é a diferença entre discurso de ódio e liberdade de expressão. Isso porque, muitos alegam que a liberdade de expressão lhes dá direito de se expressarem da maneira que melhor lhe convém sobre todo e qualquer tema. O direito à liberdade de expressão é garantido pelo inciso IX do Artigo 5º da Constituição, ou seja, uma garantia constitucional. Isso, por sua vez, não significa que ela seja uma garantia absoluta, afinal, ela também precisa respeitar outras garantias constitucionais, como o direito à intimidade, por exemplo. Na prática isso significa que você tem a liberdade de expressar suas crenças e opiniões, desde que elas não firam outras leis e garantias. Ou seja, ter falas racistas, homofóbicas e similares, utilizando do argumento de liberdade de expressão, além de ser um ato nada empático e respeitoso, é configurado como crime, por ferir vários direitos fundamentais assegurados em nossa atual Constituição. Fonte: https://www.politize.com.br/discurso-de-odio-o-que-e/ 15.2.1 discurso deódio na internet Para o professor de História Leandro Karnal, em seu livro Todos Contra Todos – o ódio nosso de cada dia, a internet surgiu para facilitar a vida de quem odeia. Karnal dedica um capítulo do livro para tratar sobre o tema. O pesquisador admite que sempre houve a violência e a barbárie na sociedade, mas a globalização, aliada ao surgimento da internet e das redes sociais, potencializou e facilitou a disseminação do ódio, ao afirmar que “há cem anos, se eu fosse um racista, precisaria expressar meu racismo num livro [...] eu teria de escrevê-lo durante meses [...], achar um editor e vende-lo [...] Hoje eu faço um post, e com enter, atinjo mais gente do que um livro clássico atingiria” (KARNAL, 2017 p, 108). A internet não criou os idiotas, mas o ataque anônimo nas redes, sem o custo do ataque pessoal, deu ao ódio do covarde uma energia muito grande. Deu-lhe a proteção da distância física e do anonimato. O pior do ódio social, que é universal, agora pode ser dirigido sem custos. (...) Junte a proteção do anonimato e da distância, o senso de identidade do ódio e acrescente um terceiro elemento importante: posso a todo instante dialogar com todos. Isso me empodera [...] repassam mensagens com informações falsas no seu WhatsApp. Essa informação falsa e repetida sucessivas vezes concentra tanto ódio que aqueles que se opõem é que obviamente são considerados mentirosos (KARNAL, 2017, p,110). https://www.politize.com.br/discurso-de-odio-o-que-e/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 169 Na aula anterior falamos detalhadamente sobre a Lei que criou o Marco Civil da Internet, um grande avanço para a sociedade e o jornalismo como um todo, pois disciplinou como se utilizam os dados disponíveis na Internet e as punições e penalidades para quem infringe a legislação. No quadro abaixo trazemos uma interessante pesquisa sobre discurso de ódio nas redes sociais e como o Marco Civil da Internet já está ajudando a organizar o uso de dados e as publicações. Discurso de ódio na internet A internet, assim como qualquer outro espaço ou ferramenta, pode ser usada para exponenciar boas e más ações. Por se tratar de um espaço imenso, muitas pessoas acreditam que a internet é “terra sem lei”, ou seja, que é permitido agir da maneira que lhes convém, sem lidar com as consequências. Por isso ainda é comum vermos comentários intolerantes nas redes sociais. Uma pesquisa feita por economistas doutorandos da Universidade de Warwick, na Inglaterra, trouxe dados relevantes sobre a relação entre discurso de ódio e o uso do Facebook. O estudo publicado em 2018 teve como alvo cidades alemãs que se teve registro de ataques violentos a refugiados e concluiu que nas cidades em que as pessoas eram mais ativas no Facebook, maior foi o número de ataques. Você pode saber mais sobre a pesquisa aqui. Ainda não existe uma lei específica que trate sobre discurso de ódio na rede mundial de computadores, entretanto, o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) é a principal fonte a ser utilizada nesta questão. Segundo ele, “A disciplina do uso da internet no Brasil tem como fundamento o respeito à liberdade de expressão, bem como: […] II – os direitos humanos, o desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais; III – a pluralidade e a diversidade;” Além disso, as próprias redes sociais contam com mecanismos reguladores de conteúdos sensíveis, que devem ser acionados pelos usuários quando os mesmos se depararem com alguma publicação de teor intolerante e desrespeitoso. Dessa maneira, por mais que não exista uma lei específica, não quer dizer que uma pessoa que cometa crime de ódio na internet possa sair impune. Fonte: https://www.politize.com.br/discurso-de-odio-o-que-e/ https://www.politize.com.br/discurso-de-odio-o-que-e/ FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 170 Cético também com relação a possibilidade das redes sociais tornarem-se locais de tolerância ou entendimento, o professor KARNAL (p, 112) diz que “o problema do Facebook, como de qualquer outra rede social, é que ele fez as pessoas se tornarem obrigatoriamente épicas, bonitas e com vidas interessantes. Ao contrário de épocas remotas, hoje dói ser alguém comum ou levar uma vida opaca”. KARNAL (2017) utiliza as falas de um personagem de romance para enfatizar que, mantendo o comportamento perante as redes sociais tal e qual este personagem, as chances de despertar a ira e o ódio tornam-se menores. Os conselhos servem não apenas aos internautas, mas a todos de maneira geral. 1. Não expressar tudo que pensa; 2. Ser amistoso, mas nunca ser vulgar; 3. Valorizar amigos testados, mas não oferecer amizade a cada um que aparecer na sua frente; 4. Evitar qualquer briga, mas se for obrigado a entrar numa, que seus inimigos o temam; 5. Ouvir a todos, mas falar com poucos; 6. Usar roupas de acordo com a sua renda, sem nunca ser extravagante; 7. Não emprestar dinheiro a amigos, para não perder amigos e dinheiro; 8. Por fim, ser fiel a ti mesmo, e jamais ser falso com ninguém. (KARNAL, 2017, p, 115). 15.2.2 discurso de ódio e a mídia Como tratamos em aulas anteriores, o trabalho da imprensa o Brasil é livre e não sofre restrições governamentais ou censura prévia, mas é preciso que os limites estabelecidos sobre o que configura informação, liberdade de expressão e discurso de ódio sejam respeitados, sob pena de retratação ou punição no caso de crimes serem cometidos. FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 171 cautelas que devem ser adotadas para evitar que declarações mais inflamadas acabem gerando aos instrumentos de imprensa responsabilidades de ordem civil [...] Analisada a questão sob o ponto de vista dos veículos de comunicação e imprensa, a liberdade de expressão assume contornos por demais relevantes, voltados à aferição da própria função comunicadora da mídia e de realização constitucional da garantia instrumental à informação [...] Os veículos de comunicação, portanto, são elementos essenciais à Democracia e, por isso, tal como prevê o artigo 220 da Constituição Federal, não são passíveis de qualquer tipo de censura, seja de natureza política, ideoló gica e/ou artística [...] todavia, tal extensão dos limites inerentes ao regular exercício da liberdade de expressão dos órgãos de imprensa, de forma alguma, chancela a veiculação de matérias de conteúdo de ódio, incitação de violência, preconceito ou marginalização de pessoas ou grupos [...] Em outras palavras, a amplitude do caráter incensurável e independente da imprensa não alberga a veiculação de discursos de ódio. Dessa forma, nota-se que os abusos da mídia também não serão, via de regra, tolerados, não se permitindo que esta divulgue matérias de cunho preconceituoso ou mesmo de incitação à violência [...] a imprensa também é instrumento de realização do valor dignidade da pessoa humana e, por isso, deve, diante de manifestações radicais de opinião e expressão, evitar as publicações ou declarações públicas – sejam da minoria contra a maioria e/ou vice-versa –, impedindo sua indevida utilização enquanto força pública de desordem. [...]Democracia sem imprensa não é democracia. Imprensa sem legitimidade não é imprensa. (SCHREIBER, 2013, p, 300-303) Caros alunos, ao chegarmos ao final desta aula e também da nossa disciplina, esperamos ter atingido os objetivos propostos, no que se refere a tratarmos sobre Fundamentos do Jornalismo. Abordamos tópicos essenciais para o entendimento sobre o fazer jornalístico, código de ética e legislação que regem o comportamento correto, adequado e comprometido dos jornalistas para com a sociedade. Agradecemos sua companhia até aqui e lembramos que esta disciplina, em consonância com as demais ofertadas no decorrer do curso contribuem para a formação de um profissional dotado de senso crítico e capacidadede discernimento para transformar em notícia os anseios da sociedade brasileira. Bons estudos! FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 172 ISTO ACONTECE NA PRÁTICA Lançada em 2020, esta cartilha tornou-se um importante instrumento de orientação. Vale muito conhecer e entender um pouco mais sobre as diferenças e limites entre liberdade de expressão x discurso de ódio. Fonte:http://cepia.org.br/wp-content/uploads/2020/07/CARTILHA-DE-ORIENTA%C3%87%C3%83O-PARA-V%C3%8DTIMAS-DE-DISCURSO-DE- %C3%93DIO-1.pdf FUNDAMENTOS DO JORNALISMO PROF. JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 173 REFERÊNCIAS BARBOSA, Alexandre F. O mundo globalizado. São Paulo. Editora Contexto, 2003 BARBOSA, Notaroberto. Direito à Própria Imagem: Aspectos Fundamentais. São Paulo. Editora Saraiva, 1989 BELTRÃO, Luiz. Teoria e Prática do Jornalismo. Cátedra Unesco Metodista de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. São Paulo. Editora Omnia. 2006 BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. São Paulo – SP. Editora Companhia das Letras. 2006 CARVALHO, Luiz Gustavo Grandinetti Castanho de. Liberdade de Informação e o Direito à Informação Verdadeira. Rio de Janeiro. Editora Renovar, 2003 CINTRA, Fernanda. SILVA, Lauriano. Ética: conduta ideal e conduta real. Disponível em https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/5754/Etica-conduta-ideal-e-conduta- real >>> acessado em 28/01/2022. Dicionário Online de Português. Disponível em https://www.dicio.com.br/ - acessado em Novembro/Dezembro 2021 Direitos de transmissão e retransmissão de eventos esportivos. Disponível em https://josemilagre.jusbrasil.com.br/artigos/136366559/direitos-de-transmissao-e- retransmissao-de-eventos-esportivos - acessado em Janeiro 2022 FANTINEL, Laisa Priscila. PEREIRA, Luana Loose. MORAES, Cláudia Herte de. Código de Ética dos Jornalistas: Antigo x Novo. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação IX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul – Guarapuava, PR – 29 a 31 de maio de 2008. 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JOSÉ ROGERIO DA SILVA FACULDADE CATÓLICA PAULISTA | 175 lid=Cj0KCQiAgP6PBhDmARIsAPWMq6m8RVo22myIxUuHznoPQgUUiBaj2wrP6LkzS mRkgrF74ntkKCDVdwYaAqdSEALw_wcB >>>acessado em Fevereiro de 2022. . Ignácio. A explosão do Jornalismo: das mídias de massa à massa de mídias. São Paulo – SP. Publisher Brasil, 2012 RIBEIRO, Daiane B.; FOSSÁ, Maria I. T. “A celebração da prática e da teoria do fazer jornalístico – Zero Hora 45 anos”. Estudos Em Jornalismo E Mídia 6, no. 2 (2009). Disponível em: https://redib.org/Record/oai_articulo1720394-a- celebra%C3%A7%C3%A3o-da-pr%C3%A1tica-e-da-teoria-do-fazer-jornal%C3%ADstico- %E2%80%93-zero-hora-45-anos>>>Acessado em Novembro 2021 RIBEIRO. Renato Janine. O Afeto Autoritário: televisão, ética e cidadania. Ateliê Editorial – SP. 2005 SANT´ANNA, Lourival. O destino do Jornal: a Folha de S. Paulo; O Globo; O Estado de S. Paulo na sociedade da informação. São Paulo – SP. Editora Record, 2008 SCHREIBER, Anderson (coord.). Direito e Mídia. São Paulo – SP. 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É TUDO UM MESMO JORNALISMO? QUEM CONSOME TANTAS NOTÍCIAS DE QUEM É A FALA NO JORNALISMO TUDO É NOTÍCIA, TUDO VIRA NOTÍCIA O DIÁLOGO ENTRE COMUNICAÇÃO E DIREITO DIREITO DE IMAGEM TRANSMISSÃO DE EVENTOS ESPORTIVOS CÓDIGO DE ÉTICA DOS JORNALISTAS INTERNET, ÉTICA E O DIREITO AO ESQUECIMENTO MARCO CIVIL DA INTERNET LIBERDADE DE EXPRESSÃO E DISCURSO DE ÓDIO