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Proteção do Complexo Dentino-pulpar A abordagem minimamente invasiva na preparação cavitária é um pilar essencial na odontologia restauradora atual, priorizando a preservação máxima da estrutura dental sadia. O corte do dente é um procedimento irreversível, pois o tecido dental não pode ser regenerado. Essa filosofia busca restabelecer as funções mastigatórias e estéticas, mantendo a integridade fisiológica do dente em harmonia com as estruturas remanescentes, tecidos moles e o sistema estomatognático. A dissipação equilibrada das forças mastigatórias no conjunto restaurado é favorecida quando os ângulos da cavidade ou do dente, internos ou externos, são arredondados, evitando a concentração de tensões que podem levar a falhas mecânicas e fraturas. Proteção do Complexo Dentino-Pulpar (Introdução e Materiais Iniciais) 1. O que é o Complexo Dentino-Pulpar? ○ Formado pela dentina e pela polpa. ○ A polpa é um tecido conjuntivo ricamente vascularizado e inervado, com funções de formação de dentina, nutrição, defesa e sensitiva. ○ A dentina possui grande resiliência, protegendo o esmalte (que é friável) e funcionando como um "colchão" para diminuir a possibilidade de fraturas do esmalte. ○ É composta por túbulos dentinários cujo número e diâmetro aumentam quanto mais próximo da polpa. O limite amelodentinário pode ter cerca de 10.000 túbulos/mm², enquanto próximo à polpa pode chegar a 50.000 túbulos/mm². 2. Por que Proteger o Complexo Dentino-Pulpar? ○ Agressores: O complexo pode ser irritado por cárie, irritantes químicos e físicos, condutividade térmica, materiais e procedimentos restauradores, e alterações de temperatura. ■ Físicos: Calor (de alta rotação e broca durante o preparo), pressão de condensação do material restaurador, contatos prematuros, corrente elétrica. ■ Químicos: Agentes de limpeza cavitária, componentes irritantes de materiais protetores ou restauradores. ■ Bacterianos: Tecido cariado. ○ Fatores Determinantes da Proteção: ■ Profundidade da Cavidade: Fator primordial. Cavidades rasas, médias, profundas ou muito profundas requerem proteção diferenciada, influenciando o tipo de dentina a ser protegida (primária, secundária, terciária ou esclerosada). ■ Idade do Paciente: Pacientes mais jovens têm maior número e diâmetro de túbulos dentinários, exigindo mais proteção. Em idades avançadas, a dentina é mais calcificada, com menos túbulos de menor diâmetro. ■ Extensão da Cavidade: Implica diretamente na profundidade e extensão da cavidade a ser preparada. ■ Tipo de Material Restaurador: Metálico, polimérico ou cerâmico. 3. Tipos de Proteção Pulpar: ○ Proteção Pulpar Indireta: Não há contato direto entre o material protetor e a polpa. O objetivo é bloquear agressores, inibir o processo carioso, manter a vitalidade pulpar e estimular a formação de dentina reparadora. ○ Proteção Pulpar Direta: Ocorre quando há exposição da polpa (patológica ou acidental), exigindo contato direto com o material protetor. Busca o restabelecimento pulpar, proteção da polpa e indução da formação de pontes dentinárias. É realizada apenas se a polpa estiver em estágio reversível (dor provocada e fugaz, testes térmicos positivos, percussão negativa, dor que passa rapidamente). ○ Tratamento Expectante: Indicado quando há dúvidas sobre a exposição ou vitalidade pulpar. É um tratamento temporário com objetivos diagnósticos e de recuperação pulpar, visando bloquear a exposição da polpa pela cárie, interromper o metabolismo bacteriano, remineralizar a dentina descalcificada e analisar a vitalidade do dente, além de formar dentina terciária. O procedimento envolve a remoção do tecido cariado, lavagem com água de hidróxido de cálcio, aplicação de pasta ou pó de hidróxido de cálcio, e selamento com cimento de ionômero de vidro (CIV), aguardando de 40 a 60 dias para reavaliação. 4. Materiais Protetores Pulpares (Iniciais): ○ Funções gerais: Vedamento da interface dente-restauração, isolamento térmico, selamento dos canalículos dentinários e redução da dor pós-operatória. ○ Vernizes Cavitários: ■ Composição: Resina copal natural ou sintética em solvente orgânico (éter, clorofórmio ou acetona). ■ Mecanismo: Forma uma película que adere às paredes da cavidade após a evaporação do solvente. ■ Indicações Antigas: Usados antes e abaixo de restaurações de amálgama. ■ Incompatibilidade: Não podem ser usados sob resinas compostas (o solvente dissolve a resina e impede sua polimerização) nem sob CIV (comprometem a adesividade). ■ Vantagens: Reduzem infiltrações, formam barreira contra ácidos e produtos corrosivos, minimizam a pigmentação do dente (com amálgama), são bons isolantes químicos e elétricos, e possuem baixa solubilidade. ■ Desvantagens: Ineficazes como isolantes térmicos. ■ Manipulação: Aplicados em duas ou mais camadas finas e contínuas; a primeira preenche os canalículos dentinários cortados, e as seguintes obliteram os microporos da camada anterior. ■ Modificações (sem sucesso): Tentativas de adição de hidróxido de cálcio, óxido de zinco ou agentes bactericidas para melhorar a barreira química e antibacteriana não obtiveram grande sucesso e caíram em desuso. ○ Produtos à base de Hidróxido de Cálcio: ■ Propriedades: Estimulam a formação de dentina esclerosada e reparadora devido ao seu pH altamente alcalino (aproximadamente 12,6). Protegem a polpa contra estímulos térmicos e elétricos e têm ação antimicrobiana. ■ Indicações: Cavidades profundas, especialmente aquelas com risco de microexposições não detectáveis clinicamente. ■ Desvantagem: Alta solubilidade, devendo ser usados em camadas muito finas. ■ Formas de Apresentação: ■ Solução (Água de Hidróxido de Cálcio): Solução alcalina útil para lavagem de cavidades de qualquer profundidade. Proporciona alcalinidade, neutraliza a acidez, atua como agente bacteriostático, estimula a calcificação dentinária e funciona como hemostático em exposições pulpares. ■ Suspensão: Suspensão em solução aquosa de metilcelulose. Aplicada por gotejamento na cavidade e seca com jato de ar para formar uma película branca e fosca. ■ Pasta: Usada para proteção direta (exposição acidental da polpa). Não endurece na cavidade, então uma quantidade mínima deve ser aplicada. ■ Cimento (ex: Dycal): Apresenta relativa dureza e resistência mecânica. É impermeável a ácidos e eficaz contra estímulos térmicos e elétricos, especialmente sob restaurações metálicas ou de amálgama. É apresentado em duas pastas (base e catalisadora) que são misturadas rapidamente e levadas à cavidade. Materiais Protetores Pulpares (Cimentos Odontológicos e Outros) 1. Cimentos Odontológicos (Contexto Histórico): ○ Utilizados por quase um século para proteção pulpar, formação de base cavitária e cimentação. ○ Com o avanço dos materiais adesivos (como resinas compostas) e o desenvolvimento dos cimentos de ionômero de vidro, muitos cimentos tradicionais perderam seu papel principal. 2. Cimento de Óxido de Zinco e Eugenol (ZOE): ○ Composição: Pó (óxido de zinco, óxido de magnésio, partículas de carga e aceleradores de presa) e Líquido (eugenol, óleo de oliva/algodão e aceleradores). ○ Indicações: Cimentação temporária (coroas provisórias), cimentação permanente (tipo 2), e restaurações temporárias ou bases (tipos 3 e 4). ○ Vantagens: Propriedades biológicas (pH por volta de 7,1, proporcionando tratamento sedativo e ajudando na recuperação pulpar) e boa capacidade de vedamento periférico. ○ Desvantagens: Baixa resistência mecânica e abrasiva. Não deve ser utilizado sob resinas compostas, pois o eugenol inibe sua fotopolimerização, comprometendo o sucesso da restauração. ○ Modificações: Tentativas de reforço com resinas ou poliéteres no líquido e polimetacrilato no pó aumentaram a resistência, mas diminuíram as propriedades biológicas. A substituição parcial do eugenol por ácido etoxibenzóico visava aumentar a resistência e diminuir a solubilidade.○ Tempo de Presa: O ideal é de 3 a 6 minutos. Fatores como a natureza e o tamanho das partículas do óxido de zinco, a temperatura da placa de manipulação, a quantidade de água e a umidade do ar influenciam o tempo de presa. ○ Proporção Pó/Líquido: Para cimentação, a maioria dos fabricantes indica a proporção 1:1. Para restaurações, a proporção é geralmente de três medidas de pó para uma gota de líquido. ○ Manipulação: O pó é adicionado gradualmente ao líquido na placa de vidro com movimentos de pressão e compressão, até atingir uma consistência homogênea de "massa de vidraceiro" (que forma um rolo), em aproximadamente 60 segundos. 3. Cimento de Fosfato de Zinco (FZ): ○ Histórico: Material odontológico de longa data, utilizado para cimentação de coroas, bandas ortodônticas, núcleos metálicos fundidos e como base cavitária sob restaurações metálicas e de amálgama. Tem sido gradualmente substituído pelo CIV para bases cavitárias e por cimentos resinosos para cimentação, especialmente com a introdução dos pinos de fibra de vidro. ○ Indicações: Cimentação, restauração temporária/intermediária, e base. ○ Composição: Pó (90% óxido de zinco e 10% óxido de magnésio) e Líquido (ácido fosfórico, água e fosfato de alumínio). ○ Reação: O ácido ataca as partículas do pó, liberando íons de zinco, formando um gel de fosfato de alumínio e zinco. Retardadores de presa são incluídos para controlar a reatividade. ○ Tempo de Presa: O ideal é de 4 a 10 minutos (média de 5 minutos). Uma presa muito rápida pode causar distúrbios na formação dos cristais e fratura durante a espatulação, enquanto uma presa muito lenta o torna clinicamente inadequado. ○ Fatores que Influenciam o Tempo de Presa: Composição e temperatura de fusão do pó, composição do líquido (sais neutralizadores e água), tamanho das partículas do pó (partículas maiores levam a reações mais lentas), temperatura da placa de manipulação (baixas temperaturas retardam a presa), e velocidade/tempo de espatulação. ○ Acidez Inicial: É alta (pH de aproximadamente 1,6), mas se aproxima de 7 após 48 horas. ○ Solubilidade e Desintegração: A microexposição da linha de cimentação pode levar à dissolução gradual da matriz do cimento. Uma maior quantidade de pó agregado resulta em menor solubilidade. ○ Manipulação: Deve-se utilizar uma placa de vidro grossa para controle da temperatura. A mistura inicia-se com a adição de pequenas quantidades de pó ao líquido para neutralizar o ácido, seguida de adições sequenciais rápidas e amplas por 1,5 minutos. A consistência final é verificada pela formação de um fio ao levantar a espátula. 4. Agregado Trióxido Mineral (MTA): ○ Material revolucionário para tratamentos endodônticos complexos, incluindo perfurações de furca, reabsorções radiculares, apicificações, regeneração pulpar e retro-obturações. ○ Origem: Derivado do cimento Portland (cimento de parede), mas com processamento rigoroso para ser biocompatível. ○ Propriedades: É um agente protetor pulpar expressivo, induz a formação de pontes dentinárias, possui alta biocompatibilidade, excelente atividade antimicrobiana, elevada resistência mecânica e, notavelmente, pode ser utilizado em superfícies úmidas. Também é radiopaco (mais que a dentina e o osso) e tem pH alcalino. ○ Desvantagens: Seu tempo de presa é elevado (ocorre apenas na presença de umidade) e tem custo alto. ○ Composição: Principalmente silicato tricálcico, aluminato tricálcico, dióxido de silicato, óxidos minerais e óxido de bismuto (este último para radiopacidade). ○ Apresentação: Disponível em cápsulas pré-dosadas, pastas, seringas auto-misturadoras, ou em pó e líquido (MTA cinza e branco). ○ Manipulação: Utiliza-se placa de vidro e espátula esterilizadas. O pó é adicionado aos poucos à água destilada (1 medida de pó para 1 gota de água). A manipulação dura 30 segundos, resultando em uma massa arenosa e manipulável. Deve ser utilizado imediatamente após a manipulação, pois sofre sinérese. Relação da Abordagem Minimamente Invasiva com os Materiais Restauradores (Complemento das Fontes) Os princípios gerais do preparo cavitário são fundamentais para entender como o dente deve ser cortado de forma conservadora e assertiva, pois não é possível regenerar o que é cortado. 1. Princípios Atuais dos Preparos Cavitários: ○ Máxima conservação de estrutura dental sadia: É o pilar da odontologia minimamente invasiva, buscando remover apenas o tecido cariado e preservar o máximo de estrutura dental remanescente. ○ Respeitar o Espaço Biológico: Este espaço, de aproximadamente 2,04 mm, composto pelo sulco gengival, epitélio juncional e inserção conjuntiva, não deve ser invadido pela restauração para evitar inflamação e perda óssea/dental. Os preparos cavitários devem estender-se, no máximo, 0,5 mm no interior do sulco gengival. ○ Remoção Seletiva do Tecido Cariado: Remover apenas a dentina infectada (superficial, amolecida e desorganizada) e preservar a dentina afetada (mais profunda, desmineralizada, mas passível de remineralização). A consistência é o padrão-ouro para diferenciar esses tecidos. Nas paredes circundantes, deve-se remover até a dentina firme para uma boa adesão, enquanto na parede pulpar, pode-se deixar dentina amolecida se todas as paredes do preparo estiverem seladas. ○ Acesso à Lesão de Cárie: Realizado com o menor desgaste possível de estrutura dental sadia. ■ Em cáries oclusais ocultas, a cárie pode começar a desmineralizar a dentina antes de cavitar o esmalte, exigindo acesso com brocas esféricas pequenas em alta rotação. ■ Em cáries proximais (Classe II), o acesso direto é preferível se houver condições (dente adjacente ausente, diastema, coroa provisória, aparelho ortodôntico, ou uso de borrachinhas interdentais para criar espaço). Se não houver acesso direto, opções como slot horizontal ou tipo túnel podem ser usadas para preservar a crista marginal. ■ Em cáries proximais de dentes anteriores (Classe III), o afastamento interdental é o mais indicado, e o acesso palatino é preferível para questões estéticas. ■ Para classes IV e V, o acesso é geralmente direto devido à localização da lesão. ○ Forma de Conveniência: Tudo o que facilita a instrumentação e a inserção do material restaurador, como o isolamento do campo operatório com dique de borracha e afastadores. ○ Acabamento das Paredes Cavitárias: Remoção de prismas de esmalte fragilizados e alisamento das paredes internas, de acordo com o material restaurador. Para ionômero de vidro, o ácido poliacrílico (ácido fraco) é usado para remover a smear layer, nunca o ácido fosfórico (ácido forte), pois este removeria o cálcio essencial para a adesão do CIV. 2. Relação Direta com os Materiais Restauradores: ○ A resistência e a retenção são bases mecânicas dos preparos dentais e estão diretamente relacionadas ao tipo de material odontológico utilizado. A escolha do material restaurador influencia diretamente a forma da cavidade. ○ Resinas Compostas (Materiais Adesivos): ■ Sua principal vantagem é a adesão à estrutura dental, que dispensa a necessidade de formas de retenção na cavidade. Isso permite preparos muito mais conservadores, que podem ser mínimos ou inexistentes em dentes desgastados. ■ Não exigem um desenho cavitário padronizado ou profundidade mínima para inserção. ■ Os preparos para resina composta geralmente apresentam ângulos internos arredondados para evitar a concentração de tensões. ■ Não requerem biselamento no ângulo cavossuperficial e permitem a manutenção de esmalte sem apoio de dentina. ■ São indicadas para uma ampla gama de restaurações, incluindo classes I, II, III, IV, V, dentes fraturados, lesões cervicais não cariosas e fechamento de diastemas, frequentemente exigindo mínima remoção de tecido dental. ■ O conceito de adesão minimiza a microinfiltração, a pigmentação marginal e evita o acúmulo de tensões, fazendo com que o dente restaurado se comporte biomecanicamente comoum corpo único. ■ Os sistemas adesivos atuais (ácido condicionante, primer, bond) são projetados para otimizar a união à estrutura dental. ○ Amálgama Dental: ■ Em contraste com a resina, o amálgama não possui adesão à estrutura dental. Isso significa que a cavidade deve ser autorretentiva para reter e estabilizar a restauração, o que frequentemente exige um preparo mais extenso e específico. ■ Os preparos para amálgama requerem paredes paralelas e uma profundidade maior que a largura da cavidade para retenção. Em casos de menor profundidade, a convergência das paredes vestibular e lingual pode ser necessária para favorecer a retenção. ■ Para garantir a resistência do material, o amálgama deve ter uma espessura mínima de 1,5 mm, e a parede pulpar deve ser paralela ao plano oclusal para assegurar espessura homogênea. ■ Em restaurações de classe II, é necessária a curva reversa de Hollemback na parede vestibular da caixa proximal para garantir um ângulo de 90° com a superfície externa do dente, aumentando a resistência. As paredes proximais devem ser ligeiramente divergentes para a oclusal para apoiar os prismas de esmalte. ■ O maior problema do amálgama é que, sendo um metal, ele transmite muita força para o dente, podendo causar fraturas irreversíveis na estrutura dental, especialmente em dentes posteriores com envolvimento proximal. Proteção do Complexo Dentino-Pulpar (Introdução e Materiais Iniciais) Relação da Abordagem Minimamente Invasiva com os Materiais Restauradores (Complemento das Fontes)