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Cultura e intelectualidade no Brasil na Primeira República

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Cultura e intelectualidade no Brasil na
Primeira República
Movimentos intelectuais e suas relações com as trajetórias políticas nacionais na formação da República
brasileira.
Prof. Rodrigo Perez
1. Itens iniciais
Propósito
Conhecer as diversas formas de pensar a realidade brasileira que foram verbalizadas por intelectuais de
diferentes tendências ao longo do período compreendido entre a crise da Monarquia, em meados do século
XIX, e o fim da Era Vargas, em 1945.
Objetivos
Identificar as disputas político-intelectuais que marcaram a fundação institucional do regime 
republicano no Brasil.
Reconhecer como os intelectuais que chegaram à maioria intelectual com a República tomaram a 
modernização do Brasil como questão geracional.
Examinar a formação de uma tradição intelectual iliberal que inspirou ideologicamente a Era Vargas.
Introdução
Ao longo de sua história, as Ciências Sociais desenvolveram diversas abordagens para estudar os intelectuais
e as suas ideias. Uma certa tradição da história das ideias que se formou na Europa do século XIX esteve
fundada na concepção romântica de gênio autoral, tratando os pensadores como psicologias criativas
imanentes sem pertencimento ao tempo e ao espaço. Na primeira metade do século XX, alguns estudiosos
questionaram essa “abordagem romântica” da história das ideias. Podemos destacar aqui o historiador inglês
Arthur Lovejoy, com sua reflexão sobre as “ideias-unidades”, e o sociólogo alemão Karl Mannheim, formulador
da sociologia do conhecimento.
Esses estudiosos tentaram entender a produção intelectual, as “ideias”, em suas condições de existência,
sendo o pensador considerado sujeito social subordinado a diversos condicionantes, como questões de
época, ambiência política e filiação institucional. Essa tendência de sociologizar o pensamento foi reforçada
por diversos autores, como Pierre Bourdieu, Quentin Skinner, John Pocock.
Inspirados nesses estudos, nosso esforço é compreender a atuação dos intelectuais brasileiros entre a crise
da Monarquia, em meados do século XIX, e a Era Vargas, entre 1930 e 1945. Propomos aqui uma história social
das ideias intelectuais brasileiras nesse período, buscando entender como esses intelectuais estavam
afetados pelas questões do seu tempo e produziram interpretações da realidade brasileira que apontam para
os grandes dilemas nacionais da época.
• 
• 
• 
Proclamação da República, por Henrique Bernardelli
(1900).
1. Intelectuais em atuação no Brasil na transição da Monarquia para a República
A ideia de República
O nascimento da ideia de República
A República não chegou ao Brasil de repente,
do dia para a noite. O golpe militar que instituiu
o novo regime aconteceu ao longo do dia 15 de
novembro de 1889, mas a crise da Monarquia
vinha se arrastando desde o final da década de
1860.
 
Foi resultado do acúmulo de diversas crises
estruturais que se avolumavam no País desde
meados do século XIX, tais como o desmonte
da escravidão, os conflitos entre civis e
militares, a insatisfação das elites paulistas com
o regime monárquico.
 
Aqui, nos interessa especificamente um
movimento de renovação intelectual que tomou
corpo a partir da década de 1870 e ficou sugestivamente conhecido como “geração de 1870”.
A socióloga Ângela Alonso (2002) defende que o movimento intelectual não esteve voltado para um debate
doutrinário alheio à realidade brasileira nem visava formular teorias universais.
Sua hipótese é que havia uma unidade política fruto de uma experiência compartilhada da marginalização em
relação aos postos de mando do Segundo Reinado.
Nesse sentido, o movimento intelectual da geração de 1870 recorreu ao repertório da política
científica e à tradição nacional em busca de instrumentos de crítica intelectual e de formas de ação
política para combater as instituições, as práticas e os valores essenciais da ordem imperial. O
movimento era, portanto, uma das manifestações de contestação ao status quo imperial.
A autora argumenta que, a partir de meados do século XIX, o desenvolvimento capitalista se intensificou no
Brasil, o que tornou ultrapassadas as estruturas da Monarquia. Ganhou forma na sociedade, então, uma
corrente de opinião político-intelectual que demandava por reformas na estrutura monárquica.
Algumas vozes, após a década de 1870, quando foi fundado o Partido Republicano, chegaram a defender a
mudança do regime político do País. Entre os principais nomes dessa corrente intelectual de contestação à
Monarquia, podemos destacar Joaquim Nabuco (1849-1910), Quintino Bocaiúva (1836-1912), Sílvio Romero
(1851-1914), Rui Barbosa (1849-1923), Alberto Campos Sales (1841-1913), Assis Brasil (1957-1938) e Silva
Jardim (1860-1891).
Ao centro, o presidente Campos Sales, acompanhado
por seus ministros Epitáfio Pessoa (à esquerda) e
Severino Vieira (à direita).
Estátua de Diogo Antônio Feijó, parte integrante do
Monumento à Independência, no Ipiranga, em São
Paulo.
Todos tiveram destacada participação na política
institucional nos anos que marcaram a transição da
Monarquia para a República, como deputados, ministros e
até presidentes da República. É possível dividir as ideias
desses intelectuais em duas modalidades de críticas ao
regime monárquico: o federalismo e o republicanismo.
Os debates envolvendo o federalismo datavam do período
de fundação do Estado brasileiro, na década de 1820. Na
medida em que o republicanismo foi derrotado militarmente
nas conjurações Mineira (1789) e Baiana (1792), na
Revolução Pernambucana (1817) e na Revolução Farroupilha
(1835), o consenso monárquico se estabeleceu entre os
setores mais influentes das elites brasileiras, que passaram
a discutir a organização político-administrativa do Estado brasileiro.
Os federalistas defendiam a autonomia dos governos locais (provinciais e municipais), em
detrimento do governo central. Já os centralistas defendiam o oposto, ou seja, o fortalecimento do
governo central diante dos governos locais. As disputas entre federalistas e centralistas marcaram a
produção dos principais textos que construíram o edifício institucional da Monarquia, tais como as
constituições de 1823 e 1824, o ato adicional de 1834 e a lei interpretativa do ato adicional, de 1840.
Mais do que discussões jurídicas, estavam em jogo interpretações conflitivas da realidade nacional, o que
mobilizou os intelectuais da época, os quais também eram políticos.
O Padre Diogo Antônio Feijó (1784-1843),
regente entre 1831 e 1835, e o político e
escritor alagoense Tavares Bastos (1830-1875)
são dois dos principais representantes do
federalismo brasileiro, que acabou sendo
derrotado nas disputas internas ao regime
monárquico, que durante seus 67 anos de
existência apresentou perfil muito mais
centralista do que federalista.
Nas disputas internas à Monarquia, portanto, o
centralismo, de autores e políticos como
Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850) e
Visconde de Rio Branco (1819-1880), venceu.
Mas a agenda federalista voltou com força no
final da década de 1860, quando a Monarquia
começava a enfrentar uma sucessão de crises políticas que, ao longo dos anos seguintes, resultariam na crise
estrutural do regime.
Rui Barbosa
Rui Barbosa chega ao cenário
O então jovem intelectual baiano Rui Barbosa começou a ter destaque na vida pública defendendo a reforma
da Monarquia, sobretudo o federalismo. Não se tratava naquele momento de defender a extinção do regime
monárquico, mas, sim, de “modernizar” a Monarquia, justamente para fortalecê-la dos questionamentos, cada
vez mais fortes.
O lema defendido por Rui Barbosa e por outras lideranças do Partido Liberal era “reforma para evitar a
revolução”. Revolução era entendida como sinônimo de mudança no regime, ou seja, instauração da República.
Em discurso proferido em 1873, Rui Barbosa afirmou:
A corrente se avoluma, e dia a dia redobra de força: ontem pobre vertente,
depois regato: hoje rio majestoso, amanhã será oceano [...] como dizem
todos que verdadeiramente se interessam pela sorte da nação: reformai
sem demora, reformai radicalmenteque é o seu e tudo que
produzem aponta para seu pertencimento à sua realidade concreta.
Assim, a arte e o pensamento podem nos ajudar a compreender o clima de uma época, seus valores
fundamentais, suas crenças. Foi exatamente este o nosso esforço aqui: estudar o período compreendido entre
a proclamação da República e o fim da Era Vargas, tomando as manifestações artísticas, culturais e
intelectuais como fontes.
Nesses anos, foram criadas as bases do Brasil moderno, urbano e industrial, com todas as contradições e
violências que envolveram a construção do capitalismo periférico brasileiro. Intelectuais analisaram o
processo, tentando intervir nele, disputando os rumos das transformações sociais. Artistas alegorizaram o que
estava acontecendo, também com interesse de intervenção. Os resultados dessas atuações estão
materializados no repertório intelectual/artístico nacional, cujo conhecimento é fundamental para o
amadurecimento de nossa consciência crítica.
Podcast
Ouça agora um podcast em que são abordadas as dúvidas mais frequentes sobre o conteúdo.
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Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo:
 
Veja como o Senado interpreta as ações políticas do governo Vargas lendo o texto Com golpe dado por
Getúlio, Brasil ficou nove anos sem Senado, de Ricardo Westin, na página do Senado.
 
Leia um clássico necessário de Bóris Fausto, O pensamento nacionalista autoritário: 1920-1940.
 
Assista no canal do STF no YouTube a uma bela homenagem a Rui Barbosa.
 
Assista ao vídeo Histórias do Brasil – A Revolução de 30, no canal TV Senado, no YouTube.
Referências
ALONSO, A. Ideias em Movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil – Império. São Paulo: Paz e Terra,
2002.
 
BARBOSA, R. Escritos e discursos seletos. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1966.
 
• 
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• 
• 
BARBOZA FILHO, R. A modernização brasileira e o nosso pensamento político. Perspectivas, São Paulo, v. 37,
p. 15-64, jan./jun. 2010.
 
BIELSCHOWSKY, R. Cinquenta anos de pensamento da Cepal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
 
CARVALHO, J. M. República, democracia e federalismo (Brasil- 1870, 1891). Varia Historia, Belo Horizonte, v.
27, n. 45, p.141-157, jan./jun., 2011.
 
FAORO, R. Os donos do poder. Porto Alegre: Globo, 1958.
 
FAUSTO, B. A revolução de 1930: história e historiografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
 
FREYRE, G. Casa Grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São
Paulo: Editora Global, 2003.
 
GOMES, A. de C. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Relume Dumara, 1994.
 
HOLANDA, S. B. de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995
 
LYNCH, C. A utopia democrática: Rui Barbosa entre o Império e República. In: SENNA, Marta de. Rui Barbosa
em perspectiva: seleção de textos fundamentais. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 2007. pp.
37-66.
 
LYNCH, C. Cartografia do pensamento político brasileiro: conceito, história, abordagens. Rev. Bras. Ciênc.
Polít. [on-line]. 2016, n.19, pp.75-119.
 
NABUCO, J. O Abolicionismo (1884). 4. ed. Petrópolis: Vozes. Brasília, INL, 1977.
 
PEREZ, R. O bacharelismo interventor no pensamento político brasileiro: uma abordagem comparativa entre
Rui Barbosa e Rodrigo Janot. Revista Estudos Políticos: a publicação semestral do Laboratório de Estudos
Hum(e)anos (UFF). Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 29-50, maio de 2019.
 
PEREZ, R. O conservadorismo do jovem Eduardo Prado. Faces da História, v. 2, n. 1, p. 236-257, 20 ago. 2001.
 
PRADO, E. Coletâneas. São Paulo: Tipografia Salesiana, 1904.
 
TORRES, A. A organização nacional. Rio de Janeiro: Cia editora nacional, 1938.
 
VIANNA, O. Populações meridionais do Brasil: populações rurais do centro-sul. Niterói: Ed. UFF, 1987.
	Cultura e intelectualidade no Brasil na Primeira República
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. Intelectuais em atuação no Brasil na transição da Monarquia para a República
	A ideia de República
	O nascimento da ideia de República
	Rui Barbosa
	Rui Barbosa chega ao cenário
	Propaganda republicana
	A propaganda republicana intelectual
	Fim do Império
	Aponta o fim do Império
	Finalmente a República
	Consolida-se o golpe: do projeto à prática
	República: das ideias à prática
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	O nascimento da ideia de República
	Conteúdo interativo
	Rui Barbosa chega ao cenário
	Conteúdo interativo
	Consolida-se o golpe: do projeto à prática
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. O atraso nacional como questão para intelectuais e políticos durante a Primeira República
	Introdução e preceitos do pensamento social brasileiro
	A questão do atraso
	Comentário
	Pensamento social brasileiro
	Historiografia brasileira em debate
	Debate de Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr.
	Raízes do Brasil
	Comentário
	A modernização do Brasil
	Saiba mais
	Diversidade na cena intelectual e artística brasileira
	Exemplo
	Comentário
	A questão do atraso em perspectiva dos intelectuais brasileiros
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	A questão do atraso
	Conteúdo interativo
	Raízes do Brasil
	Conteúdo interativo
	Diversidade na cena intelectual e artística
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Pensamento social e político autoritário, ou iliberal, na Era Vargas (1930-1945)
	A Era Vargas
	Um breve contexto: a Revolução de 1930
	A Reação Republicana
	A Fundação do Partido Comunista
	A Revolta do Forte de Copacabana
	A Semana de Arte Moderna
	A Coluna Paulista
	A Coluna Prestes
	Liberalismo e o pensamento social brasileiro com foco no pensamento de Alberto Torres
	O pensamento político brasileiro nos anos 1930: a noção de organização nacional
	Comentário
	Liberalismo e o pensamento social brasileiro com foco no pensamento de Oliveira Vianna
	O pensamento político brasileiro nos anos 1930: o debate sobre o povo brasileiro
	Comentário
	Autoritarismo e o pensamento político brasileiro
	Da teoria à prática no governo Vargas
	Pensamento social e político na Era Vargas
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	Um breve contexto: a Revolução de 1930
	Conteúdo interativo
	O pensamento político brasileiro nos anos 1930: a noção de organização nacional
	Conteúdo interativo
	O pensamento político brasileiro nos anos 1930: a noção de organização nacional
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	Referênciaseste sistema corrompido; aliás, quando
procurardes pelas instituições, elas se terão afundado no abismo com o
sistema que a elas se agarrando, como nociva parasita, as desconjuntam, e
abalam em seus fundamentos.
(BARBOSA, 1966, p. 12)
O jovem intelectual e deputado baiano se referia às insatisfações com a Monarquia, que se tornavam cada vez
mais frequentes, e convidava o regime a se autorreformar, pois só assim seria possível evitar a República,
entendida pela maior parte da elite intelectual e política como sinônimo de anarquia e caos institucional.
Era ampla a agenda reformista que passou a ser defendida por liberais como Rui Barbosa: reforma eleitoral,
reforma educacional, abolição da escravidão. Porém, sem dúvida alguma, a agenda reformista mais forte era o
federalismo, bem recebido pela elite cafeicultora paulista, que desejava maior autonomia para tocar seus
negócios, sem grandes interferências do regime, controlado pelas elites fluminense e nordestinas.
Essa percepção de sub-representação das elites paulistas foi um dos fatores que empurraram esses
grupos para o republicanismo a partir da década de 1870.
De mesma geração que Rui Barbosa, o pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910), intelectual e político, foi
liderança ativa nos debates envolvendo a reforma da Monarquia. Como demonstra Alonso (2002), Joaquim
Nabuco também se dedicou à defesa do federalismo, colocando-se na esteira de uma tradição que remetia a
seu pai, Nabuco de Araújo (1813-1878), e a Tavares Bastos.
A principal militância da vida pública de Joaquim Nabuco foi a defesa da abolição da escravidão, algo que foi
sistematizado no livro O abolicionista, publicado em 1883 e um dos principais textos do pensamento político
brasileiro do século XIX.
Da esquerda para a direita: Graça Aranha, Sylvino Gurgel do Amaral, Joaquim
Nabuco, Domício da Gama e Oliveira Lima, em fotografia tirada em Londres, em
1901.
Liberal e monarquista convicto, Nabuco achava perfeitamente possível que a própria Monarquia fizesse as
reformas estruturais que seriam capazes de “colocar o Brasil na marcha da civilização”, o que significava ser
parecido com os países da Europa Ocidental, sobretudo França e Inglaterra.
Símbolo utilizado pelos primeiros republicanos: o
brasão imperial com um barrete frígio no lugar da coroa.
A escravidão era, para Nabuco, uma mácula que expunha o Brasil aos olhos do “mundo civilizado”, uma
vergonha nacional, algo que precisava ser resolvido pelas instituições estabelecidas.
A emancipação há de ser feita, entre nós, por uma lei que tenha os requisitos, externos e internos, de
todas as outras. É, assim, no Parlamento, e não em fazendas ou quilombos do interior, nem nas ruas e
praças das cidades, que se há de ganhar, ou perder, a causa da liberdade. Em semelhante luta, a
violência, o crime, o desencadeamento de ódios acalentados, só pode ser prejudicial ao lado que tem
por si o direito, a justiça, a procuração dos oprimidos e os votos da humanidade toda.
(NABUCO, 1977, p. 44)
Como podemos perceber, a defesa que Joaquim Nabuco faz da abolição da escravidão está fundada em dois
argumentos fundamentais: os valores cristãos e a necessidade de extinguir o regime escravocrata dentro da
ordem, sem agitação social e ameaça à propriedade.
Assim como fazia Rui Barbosa, Nabuco acreditava que a reforma, controlada pelo próprio sistema,
era a maneira mais segura de evitar convulsões sociais e a tão temida revolução.
O estabelecimento monárquico, contudo, se mostrou incapaz de acolher as demandas reformistas,
especialmente aquelas que vinham dos setores economicamente mais dinâmicos da sociedade, que, como já
sabemos, eram as elites cafeicultoras de São Paulo. Não à toa, foi nessa província que o Partido Republicano
foi fundado, na cidade de Itu, em abril de 1873.
Propaganda republicana
A propaganda republicana intelectual
Na história política e intelectual brasileira, a
década de 1870 foi marcada por intensa
propaganda republicana, ou melhor, por
propagandas republicanas, já que eram
diversos os projetos de República em
circulação no Brasil nesse período. Entre os
principais intelectuais e lideranças políticas do
movimento republicano, tiveram destaque os
irmãos paulistas Alberto Sales (1855-1998) e
Campos Sales (1841-1913), o gaúcho Joaquim
Francisco de Assis Brasil (1857-1938) e os
fluminense Antônio da Silva Jardim (1860-1891)
e Quintino Bocaiúva (1836-1912).
Como demonstra Carvalho (2011), o
fortalecimento do movimento republicano
brasileiro se deu menos pela adesão
ideológica da sociedade civil à causa republicana e mais pelas dificuldades da Monarquia em se
autorreformar, atendendo às demandas de setores sociais emergentes que se sentiam
desprestigiados e subvalorizados pelo regime.
Entre todas as agendas reformistas, o federalismo era a que mais atraía essas elites, e a dificuldade da
Monarquia em efetivá-las foi decisiva para que o grupo decidisse romper com o regime.
Capa do Jornal A República de 3 de dezembro de 1870,
contendo o Manifesto Republicano.
Quintino Bocaiúva, em ilustração na Revista Theatral,
em 1894.
Segundo José Murilo de Carvalho, os discursos republicanos incorporaram quase todo o programa de
reformas políticas. Era comum aos grupos a ideia de extinção do Poder Moderador, do Senado vitalício e do
Conselho de Estado, e da descentralização político-administrativa.
Para os radicais, as propostas da separação da Igreja e do Estado e da expansão do sufrágio eram centrais
em seu programa. Por outro lado, a única mudança significativa dos republicanos era a transformação da
demanda de descentralização em exigência de federalismo.
Podemos dizer, portanto, que havia relações entre o
movimento reformista que se fortalece no seio do Partido
Liberal a partir do final da década de 1860 e a propaganda
republicana, fundada, exatamente, nessa agenda de
reformas. É como se, ao longo da década de 1870, parte
considerável do estabelecimento político-intelectual
brasileiro tivesse abandonado o consenso monárquico,
convencida de que o regime estabelecido não era capaz de
tocar a agenda de reformas que acreditava ser
indispensável ao País.
Mas seria um erro, ainda segundo Carvalho (2011), acreditar
que o movimento republicano foi mais radical do que os
liberais na proposta de transformação das estruturas
fundamentais da sociedade brasileira.
Em várias pautas, como a abolição da escravidão e a ampliação de plenos direitos civis e políticos à população
liberta, os republicanos teriam sido ainda mais tímidos que a própria Monarquia. Alberto Sales e Assis Brasil,
por exemplo, afirmavam a “igualdade” como um princípio republicano fundamental, mas direcionavam o
conceito apenas para o fim dos privilégios estabelecidos pela Monarquia, sem descer às senzalas, silenciando
solenemente a respeito do tema da escravidão.
O movimento republicano brasileiro foi bastante
diverso e marcado por disputas internas. A
principal delas foi protagonizada entre Quintino
Bocaiúva e Silva Jardim. No centro do conflito,
estava o tamanho do alargamento da “inclusão
republicana”.
 
Quintino Bocaiuva, cacique do partido e um dos
signatários do manifesto republicano de 1870,
era adepto de uma República de perfil
oligárquico, que não alterasse o regime de
propriedade e a estrutura de classe. Bocaiuva
argumentava que a “questão servil” era assunto
a ser tradado pela Monarquia e que os
republicanos não deveriam se envolver na
questão.
O objetivo era não criar tensões com os proprietários de escravos, que resistiam à abolição e exigiram
indenização do governo. Já Silva Jardim, adepto de um “republicanismo jacobino”, dialogava diretamente com
a positivista da “ditadura republicana”, segundo a qual apenas um governo forte, acima da sociedade, poderia
conduzir a transição rumo à igualdade democrática, o que envolvia, necessariamente, a abolição da
escravidão.
Silva Jardim perdeu a disputa interna, terminou a vida no ostracismo político, o que nos ajuda a entender os
rumos que tomou a República brasileira em seus primeiros anos de vida.
Rui Barbosaem sua biblioteca.
Fim do Império
Aponta o fim do Império
Conde d´Eu (com a mão na cintura no centro a direita) e, à sua esquerda, José
Paranhos, futuro visconde do Rio Branco, e entre ambos, o visconde de Taunay,
cercados por oficiais brasileiros durante a Guerra do Paraguai.
Na década de 1880, estourou a questão militar, série de conflitos entre militares do Exército e políticos civis,
que seria a pá de cal na Monarquia. Se é verdade que o novo regime foi proclamado por uma quartelada,
também é igualmente verdadeiro que os militares contaram com o apoio de parte importante das elites civis,
que aderiram em massa ao republicanismo.
O caso de Rui Barbosa, certamente, é o mais emblemático. Depois de vinte anos defendendo as reformas na
Monarquia, sem jamais questionar o regime, o intelectual baiano aderiu à causa republicana tardiamente, já na
década de 1880.
Rui Barbosa foi reformista até às vésperas da proclamação
da República. Ele acreditava na capacidade da Monarquia
em transformar sua institucionalidade e na adoção da
influência inglesa, tornando-se uma “democracia federativa
coroada”. Foi somente em junho de 1889 que Rui Barbosa
aderiu publicamente à causa republicana, ao recusar o
convite para compor aquele que seria o último ministério da
Monarquia. A partir de então, Rui Barbosa passou a se
articular abertamente com lideranças republicanas (PEREZ,
2019).
Pode parecer estranho o fato de Rui Barbosa ter se aliado a
militares, pois ele era conhecido por seu “espírito civilista”. A
influência que exerceu sobre Deodoro da Fonseca ajuda a
entender a aparente contradição.
A partir do momento em que passou a participar das articulações pela República, Rui Barbosa estava
convencido de que essa era a grande chance de melhorar o País por meio da reformulação institucional à luz
de padrões anglo-saxões de organização social e política que ele acreditava serem mais evoluídos e virtuosos
do que aqueles que caracterizavam a tradição nacional. Nos tempos do reformismo, a referência era a
Monarquia britânica. Quando aderiu ao republicanismo, a referência passou a ser os EUA.
A crença de que instituições virtuosas eram capazes de provocar efeito pedagógico e estimular
costumes e práticas virtuosas na população, colaborando para o desenvolvimento dos valores
liberais no Brasil, atravessa a trajetória de Rui Barbosa.
Proclamada a República e instituído o governo provisório, Rui Barbosa se tornou um dos nomes fortes do
gabinete de Deodoro da Fonseca, ocupando o cargo de Ministro da Fazenda.
Ovação popular ao General Deodoro da Fonseca e
Bucayuva, na Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de
Janeiro.
Compromisso Constitucional de 1891, por Aurélio de
Figueiredo (1896).
A partir de então, começou a disputa pela
República. De um lado, Rui Barbosa chefiando a
ala liberal, daqueles que desejavam estabelecer
no Brasil uma democracia liberal-representativa
nos moldes norte-americanos. Do outro lado,
estavam os militares positivistas, autoritários,
que tinham o interesse de prolongar o período
da ditadura republicana.
 
Segundo o cientista político Christian Lynch
(2007), não seria exagerado dizer que Rui
Barbosa venceu a disputa pelo desenho
institucional da Primeira República brasileira. Há
o dedo de Rui Barbosa em todos os atos
jurídicos que desenharam institucionalmente o
novo regime. Em 15 de novembro, o governo
provisório promulgou o Decreto n°1, que
instaurava o regime republicano federativo do governo.
Rui Barbosa viu tornar-se realidade a federação, o fortalecimento dos poderes locais, que foi por décadas um
dos seus principais projetos reformistas. Até o Decreto n° 29, que regulou a formação da comissão
responsável por elaborar o projeto constitucional que seria submetido à apreciação da Assembleia Nacional
Constituinte, foram 28 textos que, entre outras disposições, instituíram o Estado laico, o casamento civil e a
eleição direta, medidas que Rui Barbosa defendia desde os anos 1870.
Finalmente a República
Consolida-se o golpe: do projeto à prática
A Constituição promulgada em fevereiro de 1891 coroou a
vitória de Rui Barbosa. Finalmente, o jurista baiano viu seu
projeto de nação ganhar formato institucional. De acordo
com Lynch, Rui Barbosa foi responsável por aperfeiçoar os
dispositivos de intervenção federal, visando que os poderes
judiciários e legislativos dos Estados pudessem solicitá-la, e
a do Estado de sítio, destacando o dever do Congresso
Nacional em fiscalizar os atos do governo.
Em outro aspecto, quanto ao controle da
constitucionalidade, foi Rui Barbosa quem enxertou no
capítulo do Poder Judiciário, que foi quase todo reescrito.
Além disso, incluiu na Constituição a inviolabilidade
parlamentar e a ampliação da declaração de direitos
(LYNCH, 2007, p. 51).
Deodoro da Fonseca, por Aurélio de Figueiredo (1896).
Mas a vitória do liberalismo barbosiano no
formalismo jurídico não foi capaz de chegar à
realidade política efetiva e, especialmente após
à posse do Marechal Floriano Peixoto na
Presidência da República, o autoritarismo e a
violência foram rotinizados nas práticas da
jovem República brasileira. Se durante o
governo de Deodoro da Fonseca a ditadura era
vista como provisória, como um mal necessário
no processo de consolidação do novo regime,
com Floriano Peixoto ela foi instituída como
situação permanente. Rui Barbosa, então,
rompeu com a República e foi para a oposição.
A partir desse momento, o intelectual baiano se
esforçaria para entender e explicar os motivos
do insucesso das instituições liberais
republicanas no Brasil. O tema ganha contornos
de angústia existencial nos textos do pensador que por décadas militou em defesa do liberalismo político.
Nas palavras do próprio Rui Barbosa, em representação ao Supremo Tribunal Federal na defesa dos
perseguidos pela ditadura florianista:
Nós trouxemos todas as belezas das instituições americanas, naquilo que elas têm de mais precioso,
para o Brasil. E o que é que, presentemente, estamos assistindo? (...) Podeis dizer, Sr. Presidente, se os
frutos correspondem às nossas esperanças? Podeis dizer se essas instituições tiveram, em nosso país, a
grandeza dos seus resultados? Não, Sr. Presidente. E por quê?
(BARBOSA, 1966, p. 76-78)
Como podemos notar, Rui Barbosa denunciou o não cumprimento de uma promessa institucional. Isso teria
acontecido não por culpa das instituições em questão, e sim pelo despreparo da sociedade brasileira em
acolhê-las. Em discurso no Senado proferido em 1903, o jurista baiano desenvolveu melhor o argumento. Era
fato assumido pelo legislador original da República que a Constituição liberal não impediu a implementação de
uma tirania militar no governo de Floriano Peixoto. “Por culpa dos executores do regime? Não. Por culpa das
instituições adotadas? Também não” (BARBOSA, 1966, p. 76).
De acordo com Rodrigo Perez, a defesa do formalismo constitucional republicano, significava, na prática, uma
defesa de si mesmo para Rui Barbosa, que atribuiu o fracasso da República aos “hábitos políticos brasileiros”,
segundo ele “maculados pela escravidão, pelo mandonismo e por toda sorte de violência”. Entretanto, a
defesa do formalismo constitucional não se relaciona com o argumento da inadequação das instituições
liberais à realidade nacional.
Charge Fechamento das Câmaras – Au revoir, publicada
na Revista Illustrada em 1892, por Angelo Agostini.
Eduardo Paulo da Silva Prado em 1870.
Na lógica de Rui Barbosa, as instituições
liberais seriam capazes de regenerar costumes
corrompidos, mas isso não aconteceria
rapidamente. Seria necessário dar tempo às
instituições, protegê-las, e investir na
“educação cívica do povo” (PEREZ, 2019, p. 82).
 
A Primeira República brasileira foi alvo ainda de
outras críticas, como aquelas feitas pelo
intelectual paulista Eduardo Prado (1860-1901),
um dos principais nomes do pensamento
político monarquista brasileiro em fins do
século XIX. Filho de uma influente e poderosa
família da elite cafeicultora paulista, Eduardo
Prado saiu em defesa da Monarquia,
literalmente, nos dias seguintesà proclamação
da República.
Na ocasião, o autor estava em Portugal, onde tinha vínculos de amizade com os principais nomes da
intelectualidade lusitana, tais como Eça de Queirós (1845-1900) e Ramalho Ortigão (1836-1915). Escrevendo
ainda em novembro de 1889 na Revista de Portugal, editada por Eça de Queirós, Prado denunciou na Europa
aquilo que considerava ter sido um crime contra a dinastia dos Bragança. 
O intelectual paulista se empenhou por desacreditar a República brasileira na opinião pública
europeia, com textos, entrevistas, o que fez com que o novo regime enviasse um emissário ao velho
mundo para confrontar as críticas de Eduardo Prado. O principal argumento de Prado contra a
República afirmava a inadequação desse regime ao Brasil.
Para o autor, a República era devaneio de bacharéis que, como Rui Barbosa, se encantavam pelo formalismo
jurídico anglo-saxão, desprezando as tradições nacionais. A proclamação da República, segundo Prado, foi um
atentado contra os valores antigos que formaram o Brasil. O ato de negação teria sido promovido pela aliança
entre militares ambiciosos e indisciplinados com bacharéis formalistas e ingênuos.
Nas palavras do autor, “os militares, que no dia 15 de novembro necessitaram de alguns bacharéis com boa
prosódia para reduzirem a escrita a revolução do quartel, não andaram mal, chamando, entre outros
assessores, o Sr. Rui Barbosa” (PRADO, 1904 p. 10).
Para Eduardo Prado, o liberalismo republicano era semente
exótica que não frutificaria no Brasil. Traria apenas ruptura
com o passado, com a tradição, com os vínculos do País
com a Europa. A leitura do liberalismo republicano na chave
do exotismo institucional inspirou uma corrente
conservadora/autoritária do pensamento político brasileiro
que influenciaria, anos mais tarde, a Ditadura do Estado
Novo.
Esse é o tema do terceiro módulo do nosso estudo. A
seguir, examinamos como ao longo da Primeira República
brasileira, artistas e intelectuais interpretaram o País a partir
da imagem do atraso atávico, assumindo para si a missão
de modernizar a nação.
República: das ideias à prática
Neste vídeo, o Prof. Rodrigo Perez apresenta os intelectuais em atuação no Brasil na transição da Monarquia
para a República e as disputas político-intelectuais que marcaram a fundação institucional do regime
republicano no Brasil.
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O nascimento da ideia de República
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Rui Barbosa chega ao cenário
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Consolida-se o golpe: do projeto à prática
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Verificando o aprendizado
Questão 1
A geração de 1870 se caracterizou por forte atuação política. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela
que melhor define o conteúdo dessa atuação política.
A
A geração de 1870 se notabilizou pela defesa do trono, o que explica o fato de esses intelectuais repudiarem
os valores republicanos.
B
A geração de 1870 se notabilizou pelo militarismo, o que explica o fato de esses intelectuais terem defendido a
entrada do Brasil na Guerra do Paraguai.
C
A geração de 1870 se notabilizou pelas críticas que fez à Monarquia, o que explica o fato de esses autores
terem defendido o federalismo e a República.
D
A geração de 1870 se notabilizou pelas críticas que fez à Monarquia, o que explica o fato de esses autores
terem defendido o centralismo administrativo e a escravidão.
E
A geração de 1870 se notabilizou pela defesa do trono, o que explica o fato de esses autores terem defendido
o federalismo e a abolição da escravidão.
A alternativa C está correta.
A geração de 1870 era formada por uma classe intelectual emergente e sub-representada nas estruturas da
Monarquia, o que fez com que esses autores tenham sido críticos, buscando a descentralização do poder e
a mudança do regime.
Questão 2
O político e intelectual baiano Rui Barbosa foi uma das principais lideranças a defender a reforma da
Monarquia a partir de fins da década de 1860. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que melhor define
a agenda reformista de Rui Barbosa.
A
Rui Barbosa começou a defender a República ainda jovem, tornando-se, assim, a principal liderança do
reformismo estrutural que pretendia mudar o regime político brasileiro.
B
Rui Barbosa estreou na vida pública em fins da década de 1860, quando a Monarquia dava seus primeiros
sinais de crise estrutural, defendendo a reforma do regime, sobretudo o federalismo.
C
Rui Barbosa era um monarquista convicto, defensor do padroado, do centralismo administrativo e da
escravidão. A única reforma que apoiava era a econômica, propondo a instauração de indústrias no País.
D
Rui Barbosa defendia a República, mas apontava a necessidade de manutenção do regime parlamentarista.
Sua agenda reformista, portanto, buscava conciliar o parlamentarismo monárquico com o regime republicano.
E
Rui Barbosa aderiu ao comunismo ainda em fins da década de 1860, o que explica sua defesa da reforma
agrária, da abolição da escravidão e da transformação da Monarquia em uma federação de províncias
socialistas.
A alternativa B está correta.
Rui Barbosa estreou na vida pública defendendo a reforma da Monarquia como único jeito de evitar a
revolução republicana. No centro da agenda reformista de Rui Barbosa, estava a adoção do federalismo.
Proclamação da independência do Brasil, por François-
René Moreaux (1844).
2. O atraso nacional como questão para intelectuais e políticos durante a Primeira República
Introdução e preceitos do pensamento social brasileiro
A questão do atraso
A história do Brasil independente começou em
1822, com a ruptura dos vínculos formais com
Portugal. O debate intelectual nacional ao longo
dos primeiros quarenta anos da existência do
país teve o objetivo de construir a identidade
nacional. Nas letras, isso se refletia no
romantismo de José de Alencar.
Na historiografia, a história do Brasil era
exposta nos quadros do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, o IHGB, com destaque
para a História Geral da Civilização Brasileira,
de Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878),
publicado em 1854. 
Tratava-se de inventar a nacionalidade, de produzir narrativas capazes de convencer pessoas
diferentes, vivendo em regiões diferentes, que faziam parte de uma mesma totalidade orgânica
chamada “nação”. Não era empreendimento simples de ser feito. 
Este era, e continua sendo, um território continental, com localidades culturalmente muito diferentes entre si.
Seja como for, fato é que, por volta da década de 1860, a “questão nacional” já estava resolvida, e o debate
intelectual passou, como vimos na seção anterior, a girar em função da reforma e da modernização da
Monarquia.
A proclamação da República, portanto, aconteceu sob uma atmosfera cultural e intelectual preocupada com a
modernização do País e com a superação daquilo que se acreditava ser as “forças do atraso” que impediriam
o desenvolvimento nacional. A geração de intelectuais e artistas que chegou à maioridade intelectual com a
República era herdeira dos debates reformistas que datavam das décadas de 1860 e 1870.
Charge publicada no periódico El Mosquito, em 1889, retratando a Proclamação da
República brasileira.
Em sua visão, “desenvolvida” seria uma sociedade urbana, industrial e organizada institucionalmente nos
moldes da democracia liberal. Esses signos de desenvolvimento foram diretamente buscados nos EUA e nos
países da Europa Ocidental, sendo alheios à história e às tradições brasileiras, o que explica a relação agônica
de alguns intelectuais e artistas brasileiros com o passado nacional. Lynch (2016), argumenta que essa
Antiga Usina Beltrão, primeira refinaria da América do
Sul, inaugurado no Recife em 1895.
geração de intelectuais e artistas se aproprioudo conceito de desenvolvimento importado da Europa, o que
configuraria certo colonialismo epistemológico. 
Comentário
Para Lynch, o eixo temático do pensamento social brasileiro é o diagnóstico do atraso, da barbárie, do
retardo ou do subdesenvolvimento nacional, majoritariamente, em comparação ao imperativo do
progresso, da civilização, da evolução ou do desenvolvimento. 
Esses elementos são vistos como meios conducentes à transformação das estruturas herdadas da
colonização para alcançar a modernidade. Ao imperativo modernizador, subordinaram-se quase sempre três
tópicos maiores da teoria política: o problema da organização da ordem pública; a liberdade individual; e a
igualdade social (LYNCH, 2016).
Pensamento social brasileiro
Historiografia brasileira em debate
Essa relação agônica com o passado nacional caracteriza a produção de grande parte dos autores que se
tornaram cânones do pensamento social brasileiro. De Rui Barbosa a Raymundo Faoro (1925-2003), passando
por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) e Caio Prado Jr. (1907-1990), a estrutura político-administrativa
de Estado que o Brasil teria herdado de Portugal é definida como o grande entulho a bloquear o progresso e o
desenvolvimento nacionais.
A modernização do Brasil, portanto, tinha como primeiro
desafio a reinvenção do Estado, fosse pela reforma à luz
dos preceitos liberais, fosse pela ruptura via revolução
socialista. Rui Barbosa, como vimos, bebeu na fonte do
liberalismo anglo-saxão para definir a estrutura da
Monarquia ibérica como atrasada, centralizada burocrática-
administrativamente e incapaz de fomentar liberdades e
direitos individuais.
Segundo Rubem Barboza Filho, foi Rui Barbosa o
responsável por forjar a matriz interpretativa da história e da
realidade brasileiras nos quadros do liberalismo, o que levou
toda uma geração de intelectuais a desprezar a tradição
brasileira e a tratar os costumes como potência deletéria da virtude e dos valores nacionais. O problema do
Brasil seria, então, nada mais que o próprio Brasil, seus costumes e tradições fundacionais, sua história.
Nesse sentido, o liberalismo cria uma “utopia” para o Brasil, nas considerações do autor, e gera
simultaneamente um inimigo a ser vencido por esse projeto modernizante: o passado, o
patrimonialismo, o asiatismo, a “colônia portuguesa”. Na mentalidade das elites, a herança da
tradição, os seus personagens e as suas expectativas estavam sendo desprezados em favor da
modernização.
Como uma utopia, o liberalismo era visto como o começo de uma nova história no Brasil, na possibilidade de
democratização da tradição, nos termos do próprio liberalismo. Nesse movimento, elimina no horizonte e da
vida política da nação o sujeito dessa potência democrática: o povo (BARBOZA FILHO, 2010, p. 17).
Debate de Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr.
Raízes do Brasil
A “agonia” com o passado nacional ganharia seus contornos mais claros em dois dos principais livros que
compõem o repertório de textos clássicos de interpretação do Brasil: o Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de
Holanda, publicado em 1936, e Os donos do poder, de Raymundo Faoro, publicado em 1958.
Sérgio Buarque de Holanda talvez tenha sido o autor que mais longe levou a relação agônica com o passado
colonial ao desenvolver os conceitos de “patrimonialismo” e “homem cordial”. Na interpretação do autor, o
Brasil herdou de Portugal uma cultura político-administrativa de Estado marcada pela dificuldade em separar
público e privado, afeto e razão. É como se todas as relações sociais fossem regidas pela lógica familiar, dos
sentimentos domésticos.
O “homem cordial” é a categoria que, na intepretação buarqueana, exerce a função de tipo ideal para a análise
do brasileiro médio, que seria incapaz de tratar a coisa pública com racionalidade e impessoalidade.
Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a
civilização será de cordialidade — daremos ao mundo o “ homem cordial”. A
lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por
estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido
do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e
fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano,
informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas
virtudes possam significar “ boas maneiras” , civilidade. São antes de tudo
expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e
transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo — ela pode
exprimir-se em mandamentos e em sentenças.
(HOLANDA, 1995, p. 146-147)
“Fundo emotivo extremamente rico e transbordante”, “hospitalidade”, “generosidade”. Lido de forma
descontextualizada e pouco cuidadosa, o trecho acima pode sugerir que Sérgio Buarque de Holanda está
elogiando a formação histórica brasileira, ou fazendo apologia da herança portuguesa. A verdade, no entanto,
é o exato oposto. Sérgio Buarque de Holanda é um dos principais críticos do iberismo. Sua obra é exemplo da
tal “relação agônica” com o passado e as tradições. 
Comentário
Em sua crítica ao iberismo, Holanda destaca o predomínio das vontades particulares ordenada de
maneira pessoal e com círculos particulares. Dentre esses círculos, dá atenção especial à família e afirma
que esse núcleo se exprimiu com força na sociedade brasileira. 
Como ponto de destaque dessa expressão de poder do núcleo familiar está o alcance que as relações que se
criam na vida doméstica forneceram um modelo obrigatório de qualquer composição social. Para Holanda
(1995), isso ocorre mesmo em instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos.
Historiador e sociólogo Caio Prado Júnior.
O grande dilema da nacionalidade brasileira, o elemento responsável pelo atraso do País, seria exatamente a
projeção do afeto, da emoção e do familismo para o espaço público, resultado do patrimonialismo de Estado,
de funcionários públicos e políticos incapazes de abstração, subordinados aos interesses privados, corruptos
e corruptores.
Seria necessário, então, a modernização da coisa pública, do Estado, nos moldes da racionalidade burocrática
liberal, fundada na rígida distinção entre público e privado. Seria esta a fonte de toda a corrupção: o Estado
patrimonialista ocupado por agentes públicos que não separam as esferas pública e privada.
Essa interpretação teve vida longa na história, inspirando outros autores e capilarizando-se no
imaginário coletivo. Raymundo Faoro, por exemplo, escrevendo no final da década de 1950, via o
Estado brasileiro como espaço de reprodução de uma elite burocrata parasitária e sem espírito
público.
A natureza patrimonial do Estado brasileiro seria “herança direta recebida da metrópole, pois tanto em
Portugal como no Brasil, a independência sobranceira do Estado em relação à sociedade não seria uma
exceção de certos períodos históricos, mas a constante na evolução dos dois povos” (FAORO, 1958, p. 263).
A sobrevivência do patrimonialismo nas estruturas do Estado é vista por Faoro como o grande fator do atraso
nacional. A modernização e o desenvolvimento do país passariam pela superação desse passado atávico, pela
ruptura com as heranças ibéricas e pela reforma geral do Brasil à luz dos preceitos liberais.
Também Caio Prado Jr. se notabilizou pela
crítica à herança portuguesa, fazendo-o em
perspectiva bastante distante daquela que
caracterizou os escritos de Sérgio Buarque de
Holanda e Raymundo Faoro. O livro A formação
do Brasil Contemporâneo é a principal da obra
de Caio Prado Jr., publicada em 1942, e escrita
ao longo das décadas de 1920 e 1930, quando
o autor militava nas fileiras do Partido
Comunista Brasileiro, o PCB. No livro, o autor
argumenta que a colonização do Brasil é um
dos desdobramentos da construção do
capitalismo europeu, tendo legado a inserção
do País em posição periférica na divisão
internacional do trabalho.
A colonização teria forjado um “sentido” para a
história do Brasil que acompanharia o País até o tempo presente, tornando-o mero exportadorde matéria-
prima e importador de produtos de alto valor agregado. Esse seria, na interpretação pradiana, o principal fator
do atraso nacional.
Ibapuru, de Tarsila do Amaral (1886-1973).
Realmente a colonização portuguesa na América não é um fato isolado, a aventura sem precedente e
sem seguimento de uma determinada nação empreendedora; ou mesmo uma ordem de acontecimentos,
paralela a outras semelhantes, mas independente delas. É apenas a parte de um todo, incompleto sem a
visão desse todo. Incompleto que se disfarça muitas vezes sob noções que damos como claras e que
dispensam explicações; mas que não resultam na verdade senão de hábitos viciados de pensamento.
Estamos tão acostumados em nos ocupar com o fato da colonização brasileira, que a iniciativa dela, os
motivos que a inspiraram e determinaram, os rumos que tomou em virtude daqueles impulsos iniciais se
perdem de vista. Ela aparece como um acontecimento fatal e necessário, derivado natural e
espontaneamente do simples fato do descobrimento. E os rumos que tomou também se afiguram como
resultados exclusivos daquele fato. Esquecemos aí os antecedentes que se acumulam atrás de tais
ocorrências, e o grande número de circunstâncias particulares que ditaram as normas a seguir. A
consideração de tudo isso, no caso vertente, é tanto mais necessária que os efeitos de todas aquelas
circunstâncias iniciais e remotas, do caráter que Portugal, impelido por elas, dará à sua obra
colonizadora, se gravarão profunda e indelevelmente na formação e evolução do país.
(PRADO JR, 1986, p. 14-15)
A modernização do Brasil
A modernização e o desenvolvimento do Brasil, nessa perspectiva, implicariam na superação das estruturas
capitalistas que fundam a história nacional. O tema da modernização do Brasil também influenciou a atividade
artística do País durante os anos da Primeira República.
Entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, o Teatro Municipal de
São Paulo foi agitado por grande movimentação artística.
Pintores como Di Cavalcanti (1897-1976) e Tarsila do Amaral
(1886-1973), escritores como Mário de Andrade e Oswald
de Andrade (1893-1945) e músicos como Heitor Villa-Lobos
(1887-1959) atenderam ao chamado de Washington Luís
(1869-1957), governador do Estado de São Paulo, do
Partido Republicano Paulista, o mais poderoso da época. O
objetivo era passar a imagem de que a elite política paulista
estava comprometida com aquilo que havia de mais
moderno em termos de arte e estética.
A Semana de 1922 simbolizou o ambiente político,
intelectual e artístico que, desde o fim da I Guerra Mundial
(1914-1918), idealizava a modernização do Brasil,
entendendo “modernidade” como sinônimo de urbanização
e industrialização. O clima de renovação inspirou muitos artistas a buscarem outras formas de linguagem e
expressão. As diversas manifestações dessa nova experimentação estética é o que muitos autores chamam
de “modernismo artístico brasileiro”.
Ainda que, na época, a sociedade brasileira fosse predominantemente rural, desde fins do século XIX já era
possível perceber o avanço no ritmo de urbanização e industrialização do País, o que, obviamente, causou
mudanças sociais profundas.
Começava a se formar uma classe média urbana letrada, com novas demandas de socialização e
representação cultural, o que foi esgotando as escolas artísticas do século XIX, sobretudo o
romantismo nacionalista. As vanguardas artísticas europeias eram recebidas e ressignificadas
Mário de Andrade (primeiro à esquerda, no alto),
Rubens Borba de Moraes (sentado, segundo da
esquerda para a direita) e outros modernistas em 1922,
dentre os quais (não identificados) Tácito, Baby, Mário
de Almeida e Guilherme de Almeida e Yan de Almeida
Prado.
nesses círculos letrados urbanos, em busca de um tipo de cultura artística que fosse capaz de
alegorizar o País que se pretendia moderno.
Segundo Elza Ajzenberg, a ideia de organizar uma semana de arte que reunisse a “fina flor da classe artística
inovadora brasileira” partiu de Marinete Prado, esposa do escritor Paulo Prado. A inspiração veio dos festivais
culturais de Deauville, nos EUA. 
Apesar das especificidades, esses artistas
possuíam uma agenda política em comum, que
não era muito diferente daquela que mobilizava
os intelectuais que tinham relação agônica com
o passado nacional.
 
Se os intelectuais desejavam superar o passado
colonial, visto como atraso, os artistas
buscavam ressignificar as tradições, visando
criar uma nação genuína, que pudesse se
inserir de forma original no mundo. Era essa a
proposta da “Antropofagia Cultural” de Oswald
de Andrade. Buscando inspiração nos índios
antropófagos, o Brasil moderno deveria digerir
as tradições estrangeiras, tirando o que elas
tivessem de melhor, para assim construir uma
identidade artística brasileira e original.
 
Tais como os intelectuais, os artistas
apontavam a insuficiência das tradições, sem,
contudo, pregar a total ruptura com elas.
 
Prática ritual em que se come pequenas partes do inimigo reconhecido para que ele continue vivendo no
vitorioso.
Saiba mais
Antropofagia é a prática ritual em que se come pequenas partes do inimigo reconhecido para que ele
continue vivendo no vitorioso. 
Diversidade na cena intelectual e artística brasileira
Aeria um equívoco acreditar que todos os intelectuais e artistas atuantes na Primeira República tiveram
relação crítica com as tradições nacionais. Rubem Barboza Filho demonstra que, já nos primeiros anos da
República, formou-se no Brasil certa tradição intelectual elogiosa com as origens históricas do País, com a
herança portuguesa e com a própria ideia de miscigenação racial.
Guimarães Rosa.
O jornalista e escritor brasileiro Euclides da Cunha em
1900.
Exemplo
Barboza Filho (2010, p. 38) destaca o papel de Euclides da Cunha e afirma que o literato flagra na vida
do sertanejo o exercício espontâneo da linguagem dos afetos, da multiplicidade de contato que o habilita
a enfrentar a natureza e a civilização da razão e do interesse. 
Essa conversão emblemática, que condenava a
imaginação puramente modernizante de nossas
elites políticas e intelectuais, foi um sopro
libertador que fez nascer um dos ramos mais
importantes da nossa literatura. Segundo
Eduardo Lourenço, a literatura dos sertões, que
reúne Jorge Amado, José Lins do Rego,
Graciliano Ramos, entre outros autores, chega
ao auge com Grande Sertão: Veredas, de 
Guimarães Rosa.
 
Nessa Literatura, o Brasil expõe suas vísceras,
a sua miséria provocada pelo andamento
insensível de uma modernização que condena o
povo à invisibilidade.
Ao mesmo tempo, entretanto, a chamada Literatura dos sertões registra a riqueza da vida popular, os sonhos
dos homens comuns de um Brasil ainda rural (BARBOZA FILHO, 2010).
Euclides da Cunha (1866-1909) teria feito um gesto de
interpretação do Brasil diferente daqueles intelectuais da
perspectiva agônica, que encontrou em Rui Barbosa seu
principal representante. De Euclides a Guimarães Rosa
(1908-1967), portanto, passando por Graciliano Ramos
(1892-1953), Jorge Amado (1912-2001) e José Lins do Rego
(1901-1957), teria se formado no Brasil uma imaginação
literária que denunciou a violência dos projetos
modernizadores impostos tanto por liberais como por
marxistas, que seriam insensíveis ao cotidiano da população
real.
Também Gilberto Freyre destoou do sentimento agônico
que caracterizou essa geração de intelectuais que começou
a ganhar notoriedade na Primeira República, sobretudo no
clássico Casa Grande e Senzala, publicado em 1936. O
sociólogo pernambucano definiu o colonizador português como um tipo específico de europeu, um “branco
mestiço”, por conta do contato com povos africanos da proximidade geográfica com o Norte da África. O
português, portanto, teria tido êxito no empreendimento colonial exatamente por sua maior capacidade de
“aclimatabilidade”, de adaptação à diferença.
Outra circunstância ou condição favoreceu o português tanto quanto a
miscibilidade e a mobilidade, na conquista de terras e no domínio de povos
tropicais: a aclimatabilidade. Estavaassim o português predisposto pela
sua mesma mesologia ao contato vitorioso com os trópicos. Ao contrário da
aparente incapacidade dos nórdicos, é que os portugueses têm revelado
tão notável aptidão para se aclimatarem em regiões tropicais. É certo que
por meio de muito maior miscibilidade que os outros europeus: as
sociedades coloniais de formação portuguesa têm sido todas híbridas. É
certo que os portugueses triunfaram onde outros europeus falharam: da
formação portuguesa é a primeira sociedade moderna constituída nos
trópicos com características nacionais e qualidades permanentes.
(FREYRE, 2003, p. 11-12)
Fica claro como, na pena de Gilberto Freyre, o colonizador português é pintado com cores bastante diferentes
daquelas que encontramos nas telas de Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Não se trata do
patrimonialista parasitário, tampouco do colonizador capitalista mercantil.
Trata-se do branco não tão branco assim, vocacionado para o convívio com a alteridade e com a hostilidade
da natureza tropical. Se o português é tratado nesses termos por Freyre, seu legado para a formação histórica
brasileira não é lido como fator de atraso, mas, sim, como potencialidade para o progresso. Vejamos nas
palavras do próprio autor:
A partir do antagonismo inerente à cultura lusitana é possível compreender o especialíssimo caráter que
teve a colonização brasileira, igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre
antagonismos. Uma mobilidade espantosa. O domínio imperial realizado por um número quase ridículo
de europeus correndo de uma para outra das quatro partes do mundo então conhecido como num
formidável jogo de quatro cantos. A miscibilidade, mais do que a mobilidade, foi o processo pelo qual os
portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga
escala e sobre áreas extensíssimas.
(FREYRE, 2003, p. 08-09)
Como podemos perceber, a cena intelectual e artística da Primeira República brasileira foi diversificada. Temas
como o atraso e desenvolvimento, vantagens e desvantagens das tradições estiveram na ordem do dia.
Tratava-se de mobilizar os estudos sociais para interpretar o Brasil e apresentar diagnósticos que pudessem
colaborar com o desenvolvimento nacional.
Comentário
Esse tipo de engajamento intelectual chegou aos anos da chamada Era Vargas (1930-1945) na forma de
um pensamento social e político iliberal (considerado autoritário por alguns), tendo sido, inclusive,
acionado pelo regime em seus esforços de autolegitimação. 
A questão do atraso em perspectiva dos intelectuais brasileiros
Neste vídeo, o Prof. Rodrigo Perez aborda o atraso nacional como questão para intelectuais e políticos durante
a Primeira República e como eles tomaram a modernização do Brasil como questão geracional.
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A questão do atraso
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Raízes do Brasil
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Diversidade na cena intelectual e artística
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Verificando o aprendizado
Questão 1
A proclamação da República se deu sob atmosfera intelectual caracterizada por uma grande discussão.
Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que melhor define essa discussão.
A
A proclamação da República se deu sob atmosfera intelectual marcada pela preocupação em inventar a
identidade nacional por meio da escrita da história e das artes.
B
A proclamação da República se deu sob atmosfera intelectual marcada pelo fortalecimento das ideias
socialistas, o que levou à instauração de um governo comunista já nos primeiros anos do novo regime.
C
A proclamação da República se deu sob atmosfera intelectual marcada pela preocupação em acelerar o
desenvolvimento do Brasil, o que colocou o atraso nacional na agenda dos intelectuais e artistas dessa
geração.
D
A proclamação da República se deu sob atmosfera intelectual marcada pela preocupação em devolver o País
às suas origens agrárias, o que resultou na desindustrialização das principais cidades brasileiras.
E
A proclamação da República se deu sob atmosfera intelectual conservadora, o que fortaleceu a agenda da
restauração monárquica nos primeiros anos do novo regime.
A alternativa C está correta.
A geração que chegou à maioridade intelectual com a República era herdeira dos debates reformistas dos
anos 1860/1870, que tinham o atraso e o desenvolvimento nacional como temas centrais.
Questão 2
A geração de intelectuais e políticos que chegou à maioridade intelectual com a República foi caracterizada
pela relação de agonia com a história e com as tradições brasileiras. Assinale, entre as alternativas abaixo,
aquela que melhor explica essa afirmação.
A
A relação agônica com a história e o passado nacionais se explica pelo fato de esses intelectuais serem
comunistas e o Brasil ter sido por séculos capitalista.
B
A relação agônica com a história e o passado nacionais se explica pelo fato de esses intelectuais serem
capitalistas e o Brasil ter sido por séculos comunista.
C
A relação agônica com a história e o passado nacionais se explica pelo fato de esses intelectuais serem
monarquistas e o Brasil ter sido por séculos republicano.
D
A relação agônica com a história e o passado nacionais se explica pelo fato de esses intelectuais terem se
apropriado de signos de desenvolvimento importados dos EUA e da Europa.
E
A relação agônica com a história e o passado nacionais se explica pelo fato de esses intelectuais terem se
apropriado de signos de desenvolvimento importados da África e da Ásia.
A alternativa D está correta.
A geração que chegou à maioridade intelectual com a República via no passado ibérico a fonte dos
entulhos que impediam o desenvolvimento e o progresso nacionais e que precisavam ser removidos.
3. Pensamento social e político autoritário, ou iliberal, na Era Vargas (1930-1945)
A Era Vargas
Um breve contexto: a Revolução de 1930
Em 24 de outubro de 1930, uma frente política formada por militares do Exército, lideranças políticas
dissidentes e setores da classe média urbana articulou a derrubada do Presidente Washington Luís
(1869-1957), que estava nos últimos dias de seu mandato, iniciado em 1926.
Os rebeldes eram membros da “Aliança Liberal”, que havia sido formada para a disputa das eleições
presidenciais, realizadas em março de 1930. O movimento de ruptura, que seria conhecido como “Revolução
de 1930”, era o desfecho de uma década marcada por sucessivas crises políticas e intensa instabilidade
institucional.
1922
A Reação Republicana
1922
A Fundação do Partido Comunista
1922
A Revolta do Forte de Copacabana 
1922
A Semana de Arte Moderna 
1924
A Coluna Paulista 
1924-1928
A Coluna Prestes
Júlio Prestes em 1930.
Diversos conflitos sugeriam que o pacto político que por anos sustentou a Primeira República, com base na
hegemonia das oligarquias mineira e paulista, estava se esgotando.
Como vimos antes, ao longo da Primeira República aconteceram mudanças estruturais na sociedade
e na economia brasileiras, sobretudo no que se refere à industrialização e à urbanização, o que
demandou mudanças no equilíbrio político em virtude da ascensão de novos grupos que passam a
reivindicar seu lugar na estrutura do poder.
Foram, exatamente, esses grupos que formaram a Aliança Liberal, lançando a candidatura de Getúlio Vargas
(1882-1954), então governador do Rio Grande do Sul, para a corrida presidencial. Vargas disputou as eleições
com o paulista Júlio Prestes (1882-1946), candidato do Partido Republicano Paulista e representante da
máquina oligárquica até então dominante na política nacional.
Getúlio Vargas foi derrotado, e o resultado das
eleições questionado pela Aliança Liberal, que
tinha remanescentes do tenentismo em seus
quadros, oficiais doexército com algum
controle sobre tropas armadas. Washington
Luiz foi deposto seis meses depois da
divulgação do resultado das eleições. Júlio
Prestes nem chegou a assumir o cargo. Estava
consumada, assim, a ruptura institucional que
inauguraria um novo momento na história
brasileira: a Era Vargas, que se estenderia até
1945.
Segundo o historiador Boris Fausto, a Aliança
Liberal era formada por um arco tão vasto e
diversificado de forças políticas, com
diferenças notórias entre si, mas que não
chegavam a discordar no que se refere às estruturas sociais econômicas do País. Por isso, argumenta o autor,
o “governo revolucionário” era, na verdade, uma coalizão, um tipo de “Estado de compromisso”.
A possibilidade de concretização do Estado de compromisso é dada, porém, pela inexistência de
oposições radicais no interior das classes dominantes e, em seu âmbito, não se incluem todas as forças
sociais. O acordo se dá entre as várias frações da burguesia; as classes médias – ou pelo menos parte
delas – assumem maior peso, favorecidas pelo crescimento do aparelho do Estado, mantendo,
entretanto, uma posição subordinada. À margem do compromisso básico fica a classe operária, pois o
estabelecimento de novas relações com a classe não significava qualquer concessão política apreciável.
(FAUSTO; 1997, pp. 136-137)
A Era Vargas foi um período complexo, heterogêneo, mas que pode ser resumido em uma grande
característica: o fortalecimento do centralismo administrativo do Estado nacional diante dos interesses
particulares das oligarquias rurais, sobretudo a paulista. Tratou-se da consolidação de uma cultura política
que define o Estado como centro planejador do desenvolvimento nacional. Essa cultura-política, que
posteriormente foi chamada de “nacional-desenvolvimentismo”, teve vida longa na história brasileira.
Construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN)
em 1941.
Os desenvolvimentistas nacionalistas defendiam, como os
demais desenvolvimentistas, a constituição de um
capitalismo industrial moderno no País. Tinham como
principal traço distintivo uma decidida inclinação por ampliar
a intervenção do Estado na economia, por meio de políticas
de apoio à industrialização, integradas, na medida do
possível, em um sistema de planejamento abrangente e
incluindo investimentos estatais em setores básicos.
Tratava-se de um conjunto de técnicos de órgãos do
governo que pautavam seu exercício profissional pela
ideologia da industrialização planejada como solução
histórica para o atraso da economia e da sociedade
brasileiras.
Enfim, a preocupação dos desenvolvimentistas
nacionalistas era garantir o processo de industrialização.
Dessa maneira, tanto podiam entusiasmar-se com inversões estatais em setores que consideravam
estratégicos quanto com inversões estrangeiras em setores cuja implantação poderia seguir, em sua opinião, o
curso privado, sem prejuízo do processo como um todo (BIELSHOWSKI, 2000).
Liberalismo e o pensamento social brasileiro com foco no
pensamento de Alberto Torres
O pensamento político brasileiro nos anos 1930: a noção de organização
nacional
O grande objetivo da situação política que ascendeu ao poder na Revolução de 1930, portanto, foi consolidar
aquilo que se considerava ser um capitalismo industrial nacionalista, que, sem mexer na hegemonia do poder
burguês, fosse capaz de promover o desenvolvimento nacional autônomo.
As estruturas desse modelo de ação política foram inspiradas por certa tradição de um pensamento político
que, ao longo da Primeira República, interpretou a realidade nacional na perspectiva da crítica ao liberalismo
que inspirou a constituição de 1891 e que, como já sabemos, encontrou em Rui Barbosa seu principal
representante.
Essa interpretação do Brasil, que pode ser encontrada nos textos de autores como Eduardo Prado
(1860-1901), Alberto Torres (1865-1917) e Oliveira Vianna (1883-1951), via o liberalismo como
elemento estranho às tradições brasileiras, como mero estrangeirismo importado por intelectuais
bacharelescos e descolados da realidade nacional, como seria o caso do próprio Rui Barbosa.
O jurista baiano se tornou o grande alvo das críticas desses autores, que defendiam o fortalecimento das
instituições do Estado-Nação centralizado que representassem os “valores fundamentais” do Brasil. Já vimos
como o intelectual paulista Eduardo Prado inaugurou as críticas a Rui Barbosa e a seu liberalismo anglo-saxão
logo nos primeiros anos da República ao defender a restauração da Monarquia.
O jurista fluminense Alberto Torres partiu dessas críticas para desenvolver sua reflexão sobre a organização
da sociedade brasileira. Em uma série de artigos publicados no jornal Gazeta de Notícias entre dezembro de
1910 e fevereiro de 1911, Torres defendeu que somente o “Estado Nacional, forte, centralizado e rigidamente
hierarquizado” seria capaz de atuar como “demiurgo” da organização da sociedade e do desenvolvimento
nacional. Mais tarde, esses textos formariam o livro A organização nacional, publicado em 1914, que seria
reconhecido como a principal obra de Torres.
A autoridade política é, portanto, um poder que se cria a si mesmo, que se
impõe e se mantém por sua própria força de móveis opostos às tendências
e aos interesses sociais; que dita as normas. E comanda os destinos do
povo, obedecendo aos instintos de sua origem, ou a idéias arbitrariamente
adotadas. Sua ação é predominante e decisiva – soberana em todo o rigor
da palavra.
(TORRES, 1938, p. 243-245)
Por si só, argumenta Torres, a sociedade é amorfa, sem energia vital, fragmentada pelos interesses e apetites
individuais. À autoridade orgânica, criada a partir das tradições e dos valores fundamentais, caberia a função
de forjar a solidariedade social e a identidade que cimenta o povo, fazendo-o marchar na direção do
progresso coletivo.
Comentário
Nada mais distante do liberalismo barbosiano, fundado nas ideias de governo local e liberdade
individual, do que o nacional-estatismo de Alberto Torres, que aprofunda as críticas de Eduardo Prado
ao modelo institucional vigente na Primeira República. Diferente do que fez Eduardo Prado, Torres não
negou a República para pregar a restauração da Monarquia. 
Na época em que Torres escreveu seus principais textos, a República já era fato consumado. O autor se
dedicou, então, à defesa daquilo que acreditava ser uma “República forte”, orgânica ao “espírito nacional” e
capaz de fomentar o desenvolvimento do País. Estado forte, centralizado, comandado por uma burocracia
profissional, racionalizada e treinada. Para Alberto Torres, essa seria a República que “organizaria” o Brasil.
Liberalismo e o pensamento social brasileiro com foco no
pensamento de Oliveira Vianna
O pensamento político brasileiro nos anos 1930: o debate sobre o povo
brasileiro
As ideias de Alberto Torres encontraram eco nos escritos do jurista fluminense Oliveira Vianna, um dos
autores mais influentes no período da Era Vargas, tendo ocupado cargos na burocracia do Estado, atuando
como um dos principais formuladores da legislação trabalhista que em 1943 resultaria na CLT (Consolidação
das Leis Trabalhistas). Entre os mais importantes trabalhos de Oliveira Vianna estão o Populações Meridionais
do Brasil, publicado em 1920, e o Evolução do Povo Brasileiro, de 1923.
Nesses textos, Vianna faz um duplo exercício: primeiro, atua como historiador interessado na formação
histórica do Brasil, sobretudo no período da crise da Monarquia e da proclamação da República. Depois,
apresenta a tese que afirma a inadequação do liberalismo ao Brasil, pois sendo estranho aos costumes
nacionais não poderia inspirar instituições capazes de governar o país e prover solidariedade social e
desenvolvimento econômico.
É possível que essas condições objetivas de nossa atual estruturação
profissional e econômica não preocupem o espírito dos partidários da
escola voluntarista, para os quais a vontade do Estado pode tudo, inclusive
plasmar uma sociedade em novos moldes [...] Eu não posso pensar assim:
venho sustentando, em quase uma dezenade livros, uma tese diferente – a
de que a “sociedade existe”, encerra forças incoercíveis e
incompreensíveis, com que o Estado, apesar da sua onipotência atual, tem
que contar, se não quiser fracassar nas suas tentativas de reforma ou de
transformação da sociedade.
(VIANNA, 1987, p. 243)
Diferente de Alberto Torres, Oliveira Vianna não afirma a amorfia da sociedade, reconhecendo que há
existência social independente da ação do Estado. Porém, por si só, essa existência social não se desdobra
em vínculos sociais orgânicos, e que para isso, o Estado precisa agir, fomentando, organizando,
potencializando virtudes e corrigindo vícios.
A concepção de “Estado provedor” era fundamental tanto na reflexão intelectual de Oliveira Vianna
como na sua atuação no Ministério do Trabalho. Para o autor, a cidadania se efetivava pela inserção
no mundo do trabalho industrial e urbano. Caberia ao Estado, então, organizar a atividade produtiva,
garantindo aos cidadãos acesso ao trabalho e a direitos trabalhistas básicos. O próprio Oliveira
Vianna usava o termo “Estado corporativo” para sintetizar sua tese. 
Segundo Ângela de Castro Gomes, Oliveira Vianna foi um dos arquitetos do “trabalhismo”, pois sua tese
inspirou diretamente a legislação trabalhista que por décadas regulou as relações produtivas no Brasil.
Nesse sentido, seu objetivo principal era a construção de uma “ideologia da outorga”, como se convencionou
chamar na historiografia sobre questão social. Isto é, a legislação social brasileira, como instrumento mediador
das relações entre governantes e governados, teria sido outorgada pela personalidade clarividente do chefe
de Estado ao seu povo. A relação fundadora do Estado era uma relação de doação, uma relação de dar e
receber dádiva/presente/benefícios (GOMES, 1994, p. 211).
Comentário
Na perspectiva de Vianna, haveria entre Estado e sociedade relação de outorga recíproca. A sociedade,
sentindo-se representada afetivamente pelo líder, lhe outorgaria autoridade de comando. O Estado, por
sua vez, personificado no líder, outorgaria direitos à sociedade, não poupando esforços na promoção do
conforto material para a população trabalhadora, considerada honesta e digna de ter acesso a direitos
sociais. 
O direito social, então, seria um tipo de reconhecimento pelo bom comportamento moral e social, assim como
a cidadania plena não era considerada direito natural, disponível a qualquer um. Era necessário atender aos
critérios disciplinares, evitar envolvimento com atividades consideradas criminosas, como “vadiagem”, termo
utilizado para definir o envolvimento com algumas práticas sociais, culturais e artísticas que a disciplina
trabalhista considerava serem perniciosas.
Autoritarismo e o pensamento político brasileiro
Da teoria à prática no governo Vargas
A esfera das manifestações artísticas nos permite perceber com clareza como o projeto político nacional-
desenvolvimentismo liderado por Getúlio Vargas operou no plano simbólico. A arte e a cultura eram tão
estratégicas para o governo que, em 1939, já durante a ditadura do Estado Novo, foi criado o Departamento
de Imprensa e Propaganda, a DIP, cuja função era, exatamente, controlar o trabalho de artistas e intelectuais.
O governo investiu energia para criar o “samba de exaltação”, que utilizava um gênero musical já bastante
popular para louvar as belezas nacionais. Ary Barroso (1903-1964) foi o principal representante dessa
modalidade estética, com sua “Aquarela do Brasil”, lançada em 1939.
Por outro lado, manifestações populares, como o próprio samba, eram acompanhadas com atenção
pela polícia, sendo acusadas de comprometer a tão defendida “disciplina trabalhista”. Não eram
raros os casos de perseguição a artistas populares, de rua, acusados de vadiagem e arruaça. Rodas
de samba e rituais religiosos costumavam ser interrompidos na base da violência policial. 
Como já sabemos, a dignidade, a honestidade e a cidadania eram condicionadas à atuação em um ramo
profissional controlado pelo Estado por meio do sindicalismo oficial. A carteira de trabalho era o grande
símbolo dessa cidadania desejada pelo poder.
Pensamento social e político na Era Vargas
Neste vídeo, o Prof. Rodrigo Perez vai falar sobre o pensamento social e político autoritário, ou liberal, na Era
Vargas (1930-1945) e a tradição intelectual liberal que inspirou ideologicamente esse governo.
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Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Um breve contexto: a Revolução de 1930
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O pensamento político brasileiro nos anos 1930: a noção de organização
nacional
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O pensamento político brasileiro nos anos 1930: a noção de organização
nacional
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Apesar da complexidade da Era Vargas, é possível afirmar que o período foi caracterizado por uma grande
tendência. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que melhor define essa tendência.
A
A principal tendência da Era Vargas foi alterar radicalmente a estrutura social e econômica brasileira,
implantando o comunismo, fazendo a reforma agrária e extinguindo a propriedade privada.
B
A principal tendência da Era Vargas foi reafirmar o privatismo oligárquico característico da Primeira República,
o que demonstra como a Revolução de 1930 não significou mudanças substanciais no Brasil.
C
A principal tendência da Era Vargas foi afirmar o centralismo político-administrativo do Estado diante do
particularismo das oligarquias locais.
D
A principal tendência da Era Vargas foi afirmar o particularismo das oligarquias locais diante do centralismo
político-administrativo do Estado.
E
A principal tendência da Era Vargas foi afirmar a “vocação agrária” da economia brasileira, o que implicou na
total ausência de projetos de industrialização no período.
A alternativa C está correta.
A Revolução de 1930 marcou o fortalecimento de uma cultura política que define o Estado nacional como
centro planejador do desenvolvimento nacional.
Questão 2
Ao longo da Primeira República, tomou forma no Brasil uma tradição de pensamento político que criticou o
liberalismo que havia inspirado a Constituição de 1891. Assinale, entre as alternativas abaixo, aquela que
melhor define essa crítica.
A
A principal crítica de autores como Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda foi à dimensão rural e agrária
da Primeira República. Esses autores defendiam a industrialização.
B
A principal crítica de autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda foi à ideia de que os governos
locais deveriam ser mais fortes que a autoridade central, o que comprometeria a organização do País.
C
A principal crítica de autores como Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda foi à ausência de uma
proposta de reforma agrária que, de fato, democratizasse o acesso à terra e incluísse descendentes de
escravos na sociedade de classes.
D
A principal crítica de autores como Alberto Torres e Oliveira Vianna foi à ideia de que os governos locais
deveriam ser mais fortes que a autoridade central, o que comprometeria a organização do País.
E
A principal crítica de autores como Alberto Torres e Oliveira Vianna foi à ausência de uma proposta de reforma
agrária que, de fato, democratizasse o acesso à terra e incluísse descendentes de escravos na sociedade de
classes.
A alternativa D está correta.
Oliveira Vianna e Alberto Torres eram os principais representantes da crítica ao liberalismo da Primeira
República, defendendo o fortalecimento da autoridade central diante dos governos locais.
4. Conclusão
Considerações finais
Neste conteúdo, aprendemos que as atividades culturais e intelectuais não se dão no vazio social, sem
interferência do meio social e político. O artista e o intelectual vivem no mundo