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A CLÍNICA DO SUICÍDIO 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Giseli Cipriano Rodacoski 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, vamos dar destaque a algumas coisas que já discutimos até 
aqui. 
Os principais indicadores que alertam para maior risco de suicídio são 
principalmente dois: tentativa de suicídio anterior; transtornos mentais. 
Além destes, também se destaca a sensação de não pertencimento, 
pois aqui se aplicam situações de violência, exclusão e desamparo. Essa é uma 
questão que motiva alguns suicídios em crianças, pela experiência de não ser 
desejada. 
O que diferencia autolesão e suicídio é a intenção de morrer. Na 
autolesão, não há intenção de morrer, apesar de que pode acontecer de forma 
acidental. No suicídio, há intenção de morrer. 
O comportamento suicida é um continuum, que envolve: 
• ideias de morrer (pensar em fazer); 
• elaboração de planos (pensar em como fazer); 
• busca de meios; 
• tentativa de suicídio que pode resultar em morte. 
Nesta etapa, vamos abordar especialmente a teoria pulsional para 
compreender as condições em que a pulsão pode favorecer o comportamento 
suicida. Vamos entender que, conforme o destino da pulsão, a agressividade 
pode ser dirigida a si mesmo (autoagressividade) ou ao mundo externo 
(heteroagressividade). Vamos dar destaque à compreensão da 
autoagressividade, que é quando a pulsão se mantém no ego. 
O objetivo é apresentar e orientar temas de estudos sobre a 
psicodinâmica do sofrimento humano. 
TEMA 1 – HISTÓRIA DA TEORIA PULSIONAL 
Logo no início da sua produção literária, Freud já tentava compreender os 
princípios que regulavam os estímulos no psiquismo. Inicialmente, entendeu que 
havia um princípio regulatório que visava evitar o aumento de tensão, o qual, 
para isso, precisa se manter sem muitos estímulos. Essa tendência ele nomeou 
de “princípio de prazer”, em que prazer é sentido com a diminuição da tensão. 
Ainda, chamou de “princípio de constância” a tendência em manter o nível de 
 
 
3 
tensão o baixo possível ou constante. Depois, chegou a formular que há um outro 
princípio, ao qual chamou de “inércia”, que visava a descarga completa da 
tensão. 
• Princípio de prazer: tendência a evitar aumento de tensão (estímulo). 
• Princípio de constância: manter reduzido ao máximo a tensão (estímulo). 
• Princípio da inércia: eliminar todo estímulo. Parar tudo. 
Leitura complementar 
Para saber mais sobre isso, ler o texto “Projeto para uma psicologia 
científica” (Freud, 1996 [1895]). 
Freud defendia que havia uma energia que levava à ação. Trata-se da 
libido, uma energia sexual que favorecia a manutenção da vida, pois ela é 
responsável pela reprodução da espécie, e a fome, que mantém a sobrevivência 
da espécie. Essa energia sexual foi delimitada conceitualmente como a energia 
da pulsão, um conceito da metapsicologia psicanalítica, que diz respeito a um 
processo psicodinâmico que exerce força constante no psiquismo em busca de 
satisfação. No texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, publicado por 
Freud, em 1905, a pulsão é exposta como sendo: 
[…] representante psíquico de uma energia que leva ao movimento, ou 
ainda uma espécie de demanda por ação que seria feita ao psiquismo 
cuja fonte seria o processo excitatório em um órgão. Há aqui uma 
distinção entre a fonte da pulsão e o estímulo, sendo este último 
produzido fora do organismo e a fonte da pulsão dentro do próprio 
organismo. Essa pulsão, ao contrário do estímulo, não poderia ser 
eliminada, sendo, pois, contínua, e exigiria que o organismo lidasse 
com ela. (Azevedo; Melo Neto, 2015, p. 69) 
Portanto, a pulsão é designada no limite entre o somático e o psíquico, 
que leva o indivíduo a ir em busca de um objeto para atender à sua demanda de 
satisfação. Nesta primeira fase de produção teórica, as pulsões eram entendidas 
de maneira muito preliminar, como um esboço do que viria depois. Freud 
entendia que tinha dois tipos de pulsão: 
• pulsões do ego – para manutenção da vida. Ex.: fome; 
• pulsões sexuais – para manutenção da espécie (sexo/reprodução). 
As pulsões de autoconservação são do indivíduo, em oposição às 
sexuais, que são da espécie. Isso remete à distinção entre filogênese e 
ontogênese, discutida em momento anterior de nosso estudo. 
 
 
4 
Ao longo do estudo sobre o caso do pequeno Hans, Freud e seus colegas 
discutiam sobre a pulsão se tornar agressiva (Freud, 1996 [1909]). Então, no 
desenvolvimento do conceito, Freud entende que as pulsões do ego e as pulsões 
sexuais são as duas uma só, pois ambas estariam a serviço do princípio de 
prazer e em busca da manutenção da vida; assim, a partir de 1920, as nomeiam 
como “pulsão de vida”. Todavia, existiria uma outra tendência psíquica que não 
estaria (diretamente) a serviço do princípio de prazer, cujo objetivo era a 
descatexização, ou seja, o desinvestimento libidinal, que ele nomeia como 
“pulsão de morte”. 
O conceito de pulsão de morte representa um corte na teoria psicanalítica, 
pois o ponto que ficava em aberto na antiga teoria das pulsões finalmente 
ganhava uma explicação. Se o psiquismo era regido por um princípio cujas 
tendências era evitar o desprazer, como explicar os pacientes que caminhavam 
justamente na direção do desprazer? A pulsão de morte, portanto, seria a 
explicação para essa conduta: “Não há uma dominância pura e simples do 
princípio de prazer sobre os processos psíquicos e que, se tal dominância 
existisse, a maioria dos processos deveriam ser acompanhada pelo prazer ou 
conduzir a ele, o que é contradito pela experiência cotidiana” (Freud, 1996 
[1920], p. 18). 
A pulsão de morte passa a ser uma nova referência para a clínica, para a 
qual a escuta estaria voltada não somente para as pulsões a respeito das 
excitações que induziriam à busca de objetos, mas também para a tendência 
que levaria o indivíduo ao estado inanimado, visando à eliminação completa das 
tensões. 
Em 1920, Freud (1920/19961) revê a divisão inicial que havia feito das 
pulsões – em pulsões sexuais e de autopreservação. Em Além do 
princípio do prazer, propõe a existência de uma nova dualidade na vida 
psíquica, a de que existem duas forças opostas: uma energia que 
impele à ação e outra que leva à inanição. Aquelas que levam à ação 
já eram bem conhecidas, pois consistiam no agrupamento das pulsões 
sexuais e de autopreservação. Freud deu-lhes o nome de Pulsões de 
Vida. O autor dizia que estas pulsões diziam respeito às excitações que 
induziriam à busca de objetos. Por outro lado, aquelas que levavam à 
estagnação era a grande novidade da proposta, e Freud as nomeou 
Pulsões de Morte. Estas eram descritas como as que buscariam a paz, 
ou seja, a ausência de estimulação no organismo (Freud, 1920/1996). 
(Azevedo; Melo Neto, 2015, p. 70) 
 
 
1 _____. [1920]. Além do princípio do prazer. In: _____. Edição Standard Brasileira das 
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 18. 
 
 
5 
Desse modo: 
• pulsão de vida – é a energia que impele à ação e ao investimento. Induz 
à busca de objetos (agrupa aquelas que eram entendidas como pulsões 
do ego e pulsões sexuais). Inicialmente, dirigidas ao próprio ego 
(narcisismo) e depois dirigidas a objetos externos; 
• pulsão de morte – voltada à inanição, descarga completa da excitação, 
eliminação da estimulação do organismo, extinção do sofrimento, busca 
o nirvana, visa à ausência de estímulos que, em última instância, é a 
morte. “Esses tortuosos caminhos para a morte, fielmente seguidos pelos 
instintos de conservação, nos apresentariam hoje, portanto, o quadro dos 
fenômenos da vida” (Freud, 1996 [1920], p. 49). 
A vida humana é o resultado da interação entre pulsão de vida e pulsão 
de morte, que nos leva a fazer o que fazemos no dia a dia, por vezes, precisando 
de um detox, ou de deitar-se em posição fetal para conseguir sobreviver 
psiquicamente, mobilizados por uma energiacom tendência para desligar, 
desopilar, despressurizar. 
TEMA 2 – PSICODINÂMICA 
A agressão é um dos resultados da interação entre pulsão de vida e 
pulsão de morte e pode ser direcionada tanto ao próprio psiquismo quanto ao 
mundo externo. 
Em O Ego e o Id, Freud (1923/19962) afirma que a pulsão de vida 
precisa encontrar formas de manter a vida ante a tendência mortífera 
da pulsão oposta. Uma das soluções pontuadas por ele é o desviar da 
pulsão de morte para fora do organismo para não provocar a destruição 
interna. Assim, boa parte desta pulsão se voltaria para o exterior e se 
apresentaria aí, pelo menos parcialmente, em forma de destruição. […] 
Quanto à parte da pulsão de morte que permanece no ego, Freud 
(1923/1996) dizia que ela poderia chegar à descarga por meio da fusão 
à pulsão de vida também. Neste formato, formas saudáveis de 
descarga são desenvolvidas em contrapartida às soluções que a 
pulsão de morte encontra quando desfusionada, que seria o 
estabelecimento de neuroses graves. Quando desfusionada, a pulsão 
de morte encontraria no superego um aliado e seria a responsável pela 
dureza e crueldade exibida dessa instância, e por uma ação exagerada 
e excessivamente punidora voltada ao ego. A pulsão de morte é 
responsável ainda pelo sentimento de culpa instalado no ego, que faz 
com que o sujeito se julgue merecedor de sofrimento. (Azevedo; Melo 
Neto, 2015, p. 70) 
 
2 FREUD, S. [1923]. O id e o ego. In: _____. Edição Standard Brasileira das Obras 
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 19. 
 
 
6 
No trecho citado anteriormente, é importante destacar a seguinte 
explicação. Quando a pulsão de morte permanece no ego, ela pode ter dois 
destinos: 
• se unir com a pulsão de vida e fluir com saúde mental; 
• se unir com o superego e, assim, potencializar sua crueldade, ou ação 
exagerada e excessivamente punidora voltada ao ego. Responsável pelo 
sentimento de culpa e pelo sentimento de merecer o sofrimento, isso pode 
levar o sujeito a querer se matar. 
Com base na teoria da pulsão de morte, Freud (1996 [1920]) concebeu a 
ideia de um “masoquismo originário”, ou seja, um prazer na dor. Trata-se da 
pulsão de morte que se mescla à pulsão de vida no interior do funcionamento 
psíquico. Assim, parte da agressividade que deveria ser lançada para o mundo 
externo, se volta para o interior do eu. 
Com base na teoria freudiana, a concepção que se faz do ser humano é 
de ter, naturalmente, em sua essência, tanto amor quanto ódio. Por isso, é muito 
inadequado quando psicanalistas incentivam pessoas a terem só o bem dentro 
de si, condenando o mal como forças invasoras e opressoras. A compreensão 
psicanalítica é de que os conteúdos agressivos retornam ao psiquismo, mas têm 
no próprio psiquismo a sua origem, dando possibilidade para a compreensão de 
mecanismos de defesa como projeção, identificação projetiva, bem como 
sintomas de ansiedade persecutória, paranoia, delírios, alucinações. 
A teoria pulsional ajudou na compreensão da agressividade, do sadismo 
e do masoquismo. 
Na posição melancólica, o tipo de fusão é entre o eu com o sadismo do 
supereu, sendo esta uma fusão venenosa para o sujeito. 
O contexto em que se deu a elaboração do conceito de pulsão de morte 
foi marcado por traumas decorrentes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e 
o luto pela perda de sua filha Sophie Freud, aos 27 anos, durante a gripe 
espanhola, em 1920. Foi um período marcadamente sofrido para Freud. A guerra 
evidenciou a força da agressividade e destrutividade humana, o que fez Freud 
considerar a destrutividade inerente ao ser humano (Jones, 1961). 
A evolução da teoria pulsional aparece especialmente nos textos: 
• Primeira Teoria Pulsional: 
− “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Freud, 1996 [1905]); 
 
 
7 
− “Análise de uma fobia de um menino de cinco anos” (Freud, 1996 
[1909]); 
− “A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão” 
(Freud, 1996 [1910]); 
− “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental” 
(Freud, 1996 [1911]); 
− “Recordar, repetir e elaborar” (Freud, 1996a [1914]); 
− “Sobre o narcisismo: uma introdução” (Freud, 1996b [1914]); 
• Segunda Teoria Pulsional: 
− “As pulsões e seus destinos” (Freud, 1996 [1915]); 
− “Além do princípio do prazer” (Freud, 1996 [1920]). 
TEMA 3 – HOMEOSTASE 
Freud é considerado um dualista (Jones, 1961), por causa de sua 
tendência de analisar forças opostas e relacioná-las com a psicodinâmica, como 
podemos dizer que só há dia porque há noite, ou que só há errado porque há o 
certo. A nossa vida é o resultado da interação entre pulsão de vida, representada 
na imagem a seguir como a chama do fogão, e pulsão de morte, representada 
na imagem pela descarga de vapor da chaleira. 
 
Crédito: Lana Nikova/Shutterstock. 
 
 
8 
Uma limitação na imagem é o fato de representar apenas o estímulo vindo 
de fora, quando, na verdade, os estímulos podem ter origem interna também. 
Uma questão muito importante que dominou a discussão de psicanalistas 
é se a tendência primordial do psiquismo é retornar ao nirvana ou é sobreviver. 
Ao se deparar com a compulsão que os pacientes tinham em repetir 
conteúdos que traziam sofrimento, Freud se deparou com algo que parecia 
incoerente no funcionamento psíquico, situação que contrariava a sua tese de 
que o psiquismo visava evitar o desprazer. “O autor percebeu que, por vezes, ao 
invés de reduzir a carga de energia, como prezava o princípio do prazer, o 
psiquismo buscava o contrário: aumentar a carga, o que gerava desprazer” 
(Azevedo; Melo Neto, 2015, p. 72). 
No artigo “O problema econômico do masoquismo” (1996 [1924]), Freud 
tenta dar uma nova direção para o impasse a respeito da dor-prazer, que envolve 
a questão da homeostase do aparelho psíquico. Pois, se no masoquismo a dor 
é sentida como prazer, como relacioná-lo ao princípio de prazer, que é entendido 
como uma descarga de energia para evitar o aumento de tensão (dor) e, assim, 
proporcionar prazer? 
Esse fator econômico do psiquismo levou Freud a postular o masoquismo 
primário, ou seja, um masoquismo que estaria na origem da vida psíquica e 
estaria para além do princípio de prazer, pelo qual a pulsão de morte ganharia a 
sua expressão. 
Assim, dor-prazer entra no regime da pulsão de morte, isto é, destinado a 
uma compulsão, a repetição na tentativa de dominação da experiência. Porém, 
ao repetir, não encontra o seu objeto, portanto, é condenado a uma 
impossibilidade de completude. 
Exemplos clínicos foram fundamentais para a constatação de um 
masoquismo erógeno, que veio sendo construído desde a postulação da pulsão 
de morte, como em pessoas vítimas de traumas de guerra, por exemplo, e na 
brincadeira de crianças como no jogo do carretel (Fort-da), em que se tenta 
inscrever no psiquismo algo de inassimilável. O texto “Recordar, repetir e 
elaborar” (Freud, 1996a [1914]) foi o precursor dessa base e apresenta os 
caminhos dessa compreensão psicodinâmica na metapsicologia freudiana. 
 
 
9 
TEMA 4 – AGRESSIVIDADE 
A concepção de pulsão de morte não foi uma unanimidade entre 
psicanalistas pós-freudianos. Winnicott entendia que a pulsão de morte e a 
consequente agressividade/destrutividade não é inerente ao ser humano, mas 
sim uma reação de defesa (Ferreira, 2008). 
Lacan retoma a defesa da pulsão de morte, como uma força que opera de 
modo inconsciente e se manifesta no comportamento agressivo auto ou 
heterodirigido. Uma discordância entre Freud e Lacan era em relação a ser inata 
a pulsão de morte. Ao contrário de Freud, Lacan defendia a ideia de que a pulsão 
de morte não era inerente ao ser humano, ou seja, não era natural, inata (dada 
ao nascer), pois ao nascer a criança ainda não está inscrita no circuito pulsional. 
Para Lacan (1948/1998), toda pulsão é, em sua potência 
representacional, pulsão de morte, porque está no mecanismo quemantém o 
sujeito em relação ao objeto que causa seu desejo. Toda pulsão é “virtualmente” 
uma pulsão de morte. Aquilo que a torna pulsão de vida, que a erogeniza, é sua 
ligação aos objetos. Isso que a torna sexual, no sentido psicanalítico. Esse objeto 
pode ser o eu, por exemplo, que faz frente à angústia de despedaçamento. 
Lacan relata que as intenções agressivas se apresentam como imagens 
de castração, mutilação, desmembramento, desagregação, devoração, 
ilustradas algumas vezes como capa de seus livros. Essas imagens ilustram a 
relação do sujeito com seu próprio corpo conforme são relatadas por pacientes 
neuróticos, sendo mais graves nas paranoias e outras experiências psicóticas. 
A angústia do despedaçamento impele à busca por unificação (Lacan, 
1948/1998). 
Para ampliar o estudo sobre o manejo clínico na clínica do suicídio, é 
importante buscar aprofundamento na compreensão da agressividade como 
resultado de um processo estruturante: 
Existe um componente erótico, porque o sujeito vê no outro uma 
imagem ideal, narcísica, de si mesmo, que ele investe libidinalmente 
como sua própria imagem. Existe um componente agressivo porque, 
se “eu é o outro”, então esse outro pode tomar meu lugar. E é em 
termos de “você ou eu” que se desdobra então a relação. A única saída 
vem a ser a destruição do outro. (Guillot, 2014, p. 7) 
A agressividade faz parte do processo de sobrevivência psíquica. “Se a 
princípio desenvolveu-se a pulsão de morte para teorizar sobre a agressividade, 
 
 
10 
agora em Lacan, ela aparece como consequência lógica da gênese do eu”. 
(Guillot, 2014, p. 14). 
Conforme Lacan (1955/2002), a noção de agressividade corresponde à 
possibilidade de dilaceração do sujeito em relação a si mesmo, dilaceração que 
é afastada no momento de reconhecer sua imagem unitária no espelho. 
• Dilaceramento: experiência da etapa do autoerotismo e o corpo 
fragmentado. 
• Quando há o reconhecimento da Gestalt no estádio do espelho, ou seja, 
quando se percebe unitário, o dilaceramento passa a ser uma 
possibilidade, o que dá um medo imenso de sentir a experiência da etapa 
anterior. 
No texto “A agressividade em psicanálise”, que está nos Escritos (Lacan, 
1948/1988), a explicação é que a possibilidade de dilacerar essa imagem (do eu 
unitário) é o que fará do eu uma sede de agressividade, desde que exposta à 
possibilidade de desintegração. Como o eu se forma muito em relação a essa 
imagem do espelho (o eu é o outro), ele vem sempre acompanhado de um outro, 
seu ideal de eu. Daí o registro do imaginário ser essencialmente paranoico e as 
relações, nesse registro, serem de competição, rivalidade e tudo ou nada. 
Colocar o eu em risco é entendido como essa possibilidade de dilaceração. 
TEMA 5 – CLÍNICA CONTEMPORÂNEA 
Na clínica contemporânea, podemos observar a psicodinâmica da pulsão 
de morte quando o paciente aborda uma sensação de esvaziamento do ego ao 
se deparar com o mundo midiático e idealizado. É como se o psiquismo agisse 
para se excluir diante da competitividade, inveja e sensação de insegurança 
quando inicialmente a busca era por pertencimento, inclusão, autoestima e bem-
estar; o sujeito recua. Contudo, não podemos dizer que ele quer 
intencionalmente morrer, e sim, que precisa sumir. Por isso, não se pode afirmar 
que suicídio é uma pulsão de morte, porque suicídio é a morte intencional e a 
pulsão de morte tem o objetivo de sobreviver psiquicamente. 
Em casos limites, há um superinvestimento no objeto, uma dependência 
extrema, em uma articulação com a melancolia, por exemplo, em que há uma 
sensação de hemorragia do eu, dando uma sensação de que há um ralo 
constantemente aberto pelo qual o eu se esvai, juntamente com o objeto perdido. 
 
 
11 
Em algumas situações de perda de emprego, reprovação, divórcio, ou em 
lutos por aborto e outras perdas significativas, o luto por ter a intensidade de 
melancolia. Observamos que, na fase aguda do sofrimento, a pessoa se segura, 
se aperta, se abraça, como se estivesse tentando não se desintegrar. A perda 
de objeto aqui, como não pode ser substituída por outros (simbólicos), aponta 
para a melancolia como psicose. Nos casos limites, a ameaça de suicídio são 
patognomônicos, ou seja, são sinais observados ou são notificações 
confirmadas, o que possibilita aos profissionais de saúde estabelecer uma 
relação entre luto complicado e maior risco de comportamento suicida. 
Outro período crítico, que exige atitudes pautadas pela ética do cuidado, 
é durante a adolescência. Nessa fase, há um despojamento de si mesmo, o 
corpo da infância é perdido e o sujeito precisa habitar um corpo “recentemente” 
sexuado. “Recente” entre aspas porque o corpo sempre foi erótico, mas, na 
adolescência, a sexualidade passa a implicar a relação genital em relações 
físicas com outras pessoas, com as quais não se têm uma história afetiva 
significativa anterior, em que não há referências objetais. 
As questões que se impõem são relativas a: limites, identidade pessoal, 
identidade corporal. Há um conjunto de elementos em transformação, a 
representação sobre si mesmo se modifica. O corpo passa a ser um modo de 
expressão política, de afirmação, de identificação. As transformações não 
acontecem todas ao mesmo tempo, como se dormisse criança e acordasse 
adolescente. Há um período de instabilidade que em geral é explicado por 
contradições: muito adulto para fazer tal coisa e muito criança para fazer tal 
coisa. Na clínica com adolescentes, especialmente na vigência de 
comportamento autolesivo e suicida, é importante ter habilidade para manejar a 
relação transferencial de modo a dar uma sensação de continente e 
tranquilização, para que o adolescente possa ser menos reativo, para que não 
precise se defender de confrontos e para que possa ser uma oportunidade de 
experimentar um processo reflexivo calmo. 
NA PRÁTICA 
O burnout é um exemplo de excesso de estímulos que leva o trabalhador 
ao limite de “queimar para fora”, que seria uma tradução literal para o termo em 
inglês. 
 
 
12 
Na Classificação Internacional de Doenças – CID-11, a Síndrome de 
Burnout é considerada um fenômeno ocupacional, sendo uma das causas que 
levam as pessoas a buscar tratamentos de saúde, e recebeu o código QD85. 
Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no 
local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. 
É caracterizada por três dimensões: 
• sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia; 
• aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de 
negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho; 
• redução da eficácia profissional. 
Burnout não é estresse; é o que resulta do estresse crônico. É o que vem 
depois de uma exaustão física e mental. Alguns dos sintomas são: dores de 
cabeça, problemas de estômago, dificuldade para dormir e falta de ar, bem como 
pode levar a adoecimentos físicos, sociais, emocionais e prejuízos nos 
relacionamentos da vida pessoal e profissional. 
FINALIZANDO 
Nesta etapa, exploramos a teoria pulsional na teoria psicanalítica. Vimos 
que, inicialmente, as pulsões foram identificadas como pulsão do ego e pulsão 
sexual, que posteriormente foram agregadas em pulsão de vida. 
As pulsões de vida foram analisadas em relação com a pulsão de morte 
(dualidade), e na evolução da teoria psicanalítica, pós-freudianos a partir de 
Lacan defenderam a ideia de que toda pulsão é pulsão de morte, pois a 
finalidade é manter a sobrevivência psíquica, mesmo que seja por meios que 
impliquem sofrimento mental. 
Falamos também sobre psicodinâmica (modos de funcionamento) que 
podem ser mais saudáveis ou resultar em melancolia e agressividade, por 
exemplo. Por meio da história clínica de cada paciente esses temas precisam 
ser abordados na supervisão para que sejam relacionados de modo singular, 
assim como deve ser no exercício da psicanálise.13 
REFERÊNCIAS 
AZEVEDO, M. K.; MELLO NETO, G. A. R. O desenvolvimento do conceito de 
pulsão de morte na obra de Freud. Revista Subjetividades, Fortaleza, v. 15, n. 
1, p. 67-75, abril 2015. 
FERREIRA, F. P. Pulsão e relação de objeto no pensamento psicanalítico 
contemporâneo. 149 f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) – Pontifícia 
Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. 
FREUD, S. [1895]. Projeto para uma psicologia científica. In: _____. Edição 
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 
Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 1. 
_____. [1905]. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: _____. Edição 
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 
Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7. 
_____. [1909]. Análise de uma fobia de um menino de cinco anos (o pequeno 
Hans). In: _____. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas 
Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 10. 
_____. [1910]. A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. In: 
_____. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de 
Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 11. 
_____. [1911]. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. In: 
_____. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de 
Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12. 
_____. [1914]. Recordar, repetir e elaborar. In: _____. Edição Standard 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996a. v. 12. 
_____. [1914]. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: _____. Edição Standard 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996b. v. 14. 
_____. [1915]. A pulsão e seus destinos. In: _____. Edição Standard Brasileira 
das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 
1996. v. 14. 
 
 
14 
_____. [1920]. Além do princípio do prazer. In: _____. Edição Standard 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de 
Janeiro: Imago, 1996. v. 18. 
_____. [1924]. O problema econômico do masoquismo. In: _____. Edição 
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 
Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 19. 
GUILLOT, É. Da agressividade à pulsão de morte. Almanaque On-line, Belo 
Horizonte, ano 8, n. 14, jan./jun. 2014. 
JONES, E. Vida e obra de Sigmund Freud. Barcelona: Anagrama, 1961. 
LACAN, J. [1948]. Agressividade em psicanálise. In: _____. Escritos. Rio de 
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 104-126. 
_____. [1955]. O Seminário. Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar 
Editor, 2002.

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