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DISCIPLINA: TEORIA PSICANALÍTICA. 
 
1ª Aula: 
Tema de discussão: 
Apresentação do contexto relativo ao nascimento da Psicanálise: 
• Freud, um homem de seu tempo. 
• Viena fim do século XIX. 
 
REFERÊNCIAS: 
FREUD, S. História do Movimento Psicanalítico (1914). In: Obras Completas de S. 
Freud, (volume XIV), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
 
GAY, P. Freud, uma vida para nosso tempo, São Paulo: Companhia das Letras, 
1989. 
 
_______________________________________________________________ 
Freud, uma vida para nosso tempo 
Segundo Peter Gay (1989), em 4 de novembro de 1899, Sigmund Freud publicou 
a obra significativa intitulada "Die Traumdeutung" (Interpretação dos Sonhos), 
originalmente datada em 1900, mas moldada no século XIX. Essa obra tornou-
se propriedade do século XX, amada, tripudiada e inescapável, como o próprio 
Freud gostava de citar. Apesar de ter despertado pouco interesse público 
inicialmente, com apenas 351 exemplares vendidos em seis anos, o impacto da 
interpretação dos sonhos só se concretizaria anos mais tarde, conforme o autor 
destaca. 
Ao comparar Freud e Darwin, Gay relata que, em 1859, quase 40 anos antes da 
publicação da obra de Freud, "A Origem das Espécies" de Darwin vendeu 1250 
exemplares em um único dia, indicando a exotericidade e obscurantismo 
percebidos nas publicações de Freud. O autor enfatiza que a interpretação dos 
sonhos é a peça central da vida de Freud, considerada por ele em 1910 como sua 
"obra mais significativa", e afirmava que, se fosse reconhecida, a psicologia 
normal teria que ser refeita sobre novas bases. O orgulho de Freud, segundo 
Gay, não era descabido, pois suas descobertas nas décadas de 1880 e 1890 
convergiram para a elaboração da "Interpretação dos Sonhos", fora muito mais 
do que ele viria a descobrir adiante. 
Segundo Gay (1989), Sigmund Freud, renomado decifrador dos enigmas 
humanos, foi criado em meio a charadas e confusões que naturalmente 
despertariam o interesse de um psicanalista. 
Nascido em 6 de maio de 1856, na vila morávia de Freiberg (atual Município de 
Pribor, República Tcheca), Freud era filho de Jacob Freud, um comerciante de 
lãs pobre, e Amália, sua esposa. O nome originalmente registrado por seu pai 
na Bíblia da família, "Sigismund Schlomo", não persistiu além da adolescência 
de Freud. Ele abandonou o "Schlomo", referente ao avô paterno, e adotou 
"Sigmund" após ingressar na Universidade de Viena em 1873. 
A família de seu pai, após fugir da perseguição contra os judeus nos séculos XIV 
e XV, viveu por um tempo no Reno, em Colônia, e, ao longo do século XIX, migrou 
da Lituânia. O desenvolvimento emocional de Freud foi moldado não apenas pela 
erudição genealógica, mas também pela complexa trama de relações familiares 
das quais achava difícil escapar. Sua mãe, Amália, era vinte anos mais jovem 
que seu pai, resultado de seu terceiro casamento, marcado pela mortalidade 
feminina. 
Freud tinha dois meio-irmãos: Emanuel, mais velho e casado com filhos, e 
Phillip, solteiro e com um ano de diferença em relação à mãe de Freud. A 
configuração das relações familiares intrigava Freud, especialmente o fato de 
que o filho de Emanuel, seu primeiro companheiro de brincadeiras, era um ano 
mais velho que ele próprio. Essa complexidade se estendia à relação intensa de 
amizade e inimizade entre Freud e seu sobrinho John, que era praticamente da 
mesma idade que Freud. Tornando ainda mais tortuosa a percepção de Freud 
sobre as relações familiares, sua jovem mãe parecia combinar mais com seu 
meio-irmão Philipp. 
De acordo com Gay (1989), em 1858, quando Sigmund Freud tinha menos de dois 
anos e meio, sua complexidade emocional se intensificou com o nascimento de 
sua irmã Anna. Ao rememorar esses anos, Freud percebia que havia 
internalizado a ideia de que sua irmãzinha havia saído de dentro de sua mãe. No 
entanto, o aspecto mais difícil de compreender era como seu meio-irmão Philipp 
de alguma forma ocupara o lugar de seu pai na competição pelos afetos de sua 
mãe. Essas questões eram desconcertantes, e o conhecimento desses eventos 
era considerado tanto necessário quanto perigoso. 
Os mistérios da infância deixaram resíduos que Freud reprimiu por anos, e só 
viria a recapturar, através de sonhos e de uma trabalhosa autoanalise, no final 
de 1890. Suas experiências íntimas, como a mãe grávida de uma rival, o meio-
irmão como companheiro misterioso da mãe, o sobrinho mais velho que ele, 
simultaneamente seu melhor amigo e maior inimigo, e o pai benevolente com 
idade suficiente para ser avô, constituíram a essência de suas teorias 
psicanalíticas. Como afirma Gay (1989), "quando precisou delas, elas voltaram a 
ele". 
Freud, por outro lado, não viu a necessidade de reprimir verdades familiares 
evidentes. Em seu breve "estudo autobiográfico" de 1925, declarou 
sucintamente: "Meus pais eram judeus." Em 1930, recordou que seu pai, Jacob 
Freud, permitiu que crescesse em completa ignorância do judaísmo, embora 
nunca tenha se envergonhado de sua identidade judaica, Jacob lia a Bíblia em 
hebraico. Jacob criou uma atmosfera onde Freud desenvolveu um fascínio 
duradouro pela "história bíblica", pelo Antigo Testamento, desde que “mal 
adquiria a arte da leitura”. 
Segundo Gay (1989), Freud não era rodeado apenas de judeus, até os seus 2 
anos e meio teve uma babá, católica apostólica, muito ríspida e exigente com o 
pequeno Freud. Durante o puerpério de sua mãe, Phillip, seu meio-irmão, fez 
com que a babá fosse detida devido a um pequeno furto na residência, Freud 
sentiu profundamente a falta dela. A ausência da babá, juntamente com a 
indisponibilidade da mãe, resultou em uma lembrança vaga e desagradável, 
mais tarde explorada em sua autoanálise. 
 
Freud recordava o momento em que procurava por sua mãe e seu meio-irmão 
Phillip, ao abrir um objeto doméstico, disse que ela não estava lá e informou que 
a babá estava "trancafiada". Nesse episódio, Freud rivalizou com seu meio-
irmão, a quem admirava, como se, além de supostamente ter dado um filho à 
mãe, Phillip pudesse trancafiá-la. 
Apesar da atenção delicada, a família de Freud era pobre, moravam em uma 
casa simples de dois andares na Schlossergasse 117, acima dos aposentos do 
ferreiro Zajík. A fertilidade de Amália também contribuiu para a situação 
precária, e entre 1860 e 1866, Freud ganhou quatro irmãs (Rosa, Marie, Adolfine 
e Pauline) e o caçula, Alexander. Em 1865, as dificuldades aumentaram com o 
indiciamento e condenação de Josef Freud, irmão de Jacob Pai de Freud, por 
negociar rublos falsos, conforme mencionado na "Interpretação dos Sonhos". 
Além do desgosto, Jacob enfrentava a angústia de seus filhos mais velhos, que 
haviam emigrado para Manchester, estarem envolvidos nas atividades de Josef. 
As razões para Freud não querer lembrar seus primeiros anos em Viena não se 
limitavam apenas às dificuldades econômicas. Ele sentia falta de Freiberg, 
especialmente dos belos campos que cercavam a cidade. Em 1899, Freud 
confessou que nunca se sentiu realmente à vontade na cidade e que nunca 
superou a saudade dos bosques de sua casa, para onde costumava fugir de seu 
pai quando mal sabia andar, como evidenciado por uma lembrança daquela 
época. 
Viena, final do século XIX. 
Desde cedo, Freud demonstrou interesse em atividades intelectuais e se tornou 
um jovem extremamente persistente e trabalhador. Viveu durante a era 
vitoriana, marcada pela repressão sexual. Sua vida também recebeu influências 
da Primeira Guerra Mundial, que devastou a Europa, e do crescente 
antissemitismo daquela época. A repressão sexual e as hostilidades que Freud 
testemunhou deixaram marcas em sua visão sobre a natureza humana. 
Médico, cursava especialização em neurologia quando começou clinicar em 
Viena, no final do século XIX. Como muitos neurologistas de sua época, atendia 
pessoas com problemas nervosos, com medos irreais, obsessões e angústia.No final dedicou-se ao tratamento dos transtornos mentais utilizando um 
procedimento inovador que havia desenvolvido e denominado de Psicanálise, 
que exigia longas interações verbais com pacientes, durante as quais 
investigava suas vidas em profundidade. 
A Psicanálise deve sua origem a Freud a partir dos estudos da histeria. 
Atualmente a histeria é considerada pelo DSM como um transtorno de 
ansiedade. No século IX, era diagnosticada como doença dos nervos, daí o nome 
neurose. A palavra histeria deriva do grego histeros que significa útero, pois 
acreditavam tratar de uma doença apenas de mulheres. 
Jean Martin Charcot (1825- 1893), neurologista francês, percebeu que a histeria 
não era uma doença só de mulheres e se interessou em estudá-la. A histeria 
clínica se caracteriza por sintomas de conversão, a pessoa sofre sintomas 
físicos como paralisias, amnésias, dormências, cegueira, mutismo sem que haja 
substrato anatômico que o justifique. Charcot percebeu que, através da 
sugestão hipnótica, era capaz de “curar” um sintoma histérico e de induzir a 
formação dos sintomas. Nesse período, os médicos perceberam a força e o 
poder da sugestão. 
Joseph Breuer (1842- 1925), médico vienense também se valia da hipnose para 
tratar seus pacientes e tinha o jovem Freud como colaborador. Diferentemente 
de Charcot, eles se interessavam não só em tratar, mas em descobrir a etiologia 
dos sintomas. 
Sigmund Freud em uma breve descrição da Psicanálise afirma que podemos 
dizer que a Psicanálise nasceu com o século XX, oriunda do livro “A 
interpretação dos sonhos”. Para ele psicanálise cresceu em campo muito 
restrito, seu objetivo inicial era de compreender as doenças nervosas 
“funcionais” com vistas a superar a impotência que até então caracterizara o 
tratamento médico. Na época os neurologistas eram instruídos a terem uma 
elevada consideração pelos fatos químico-físicos e patológicos-anatômicos, ou 
seja, todo adoecimento psíquico era considerado apenas como disfunção 
biológica e não psicológica. 
Na época a falta de compreensão afetava diretamente o tratamento que em 
geral consistia em ““endurecer” o paciente com prescrição de remédios e em 
tentativas, na maioria muito mal imaginadas e executadas de maneira 
inamistosa, de aplicar-lhe influências mentais por meio de ameaças, zombarias 
e advertências, exortando-o a decidir-se a “conter-se”. (Freud) 
 
_______________________________________________________________ 
 
DISCIPLINA: TEORIA PSICANALÍTICA. 
PROFESSOR: FLÁVIO R. PROVAZI 
 
2ª Aula: 
Tema de discussão: 
O nascimento da Psicanálise 
• Questionamentos freudianos – o fracasso do modelo médico para a explicação 
da histeria – a influência de J.M. Charcot; a influência de J. Breuer 
• O caso Anna O. 
• Os primórdios da psicanálise – o trauma, a hipnose, catarse, ab-reação. 
 
REFERÊNCIA: 
FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Primeira lição (1910). In: Obras Completas 
de S. Freud (volume XI), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
_______________________________________________________________ 
PRIMEIRA LIÇÃO. 
Na primeira sessão do seminário, Freud descreveu a história clínica e 
terapêutica contida nos "Estudos da Histeria", realizados por ele em 
colaboração com o Dr. Breuer. A paciente em questão, conhecida como "Ana O", 
era uma jovem com educação e dons incomuns, que adoeceu enquanto cuidava 
de seu pai, a quem era profundamente afeiçoada. Quando Breuer assumiu o 
caso, Ana O apresentava uma variedade de sintomas, incluindo paralisias com 
contraturas, inibições e estados de confusão mental. Durante os dois anos de 
sua doença, ela manifestou várias perturbações físicas e psíquicas, como 
paralisia espástica das extremidades do lado direito, com anestesia, sintomas 
que às vezes se manifestavam no lado oposto, alterações na visão, dificuldade 
em manter a cabeça erguida, tosse nervosa, aversão a alimentos, incapacidade 
de beber por semanas, redução da faculdade verbal, não reconhecimento da 
língua materna e, finalmente, ausência. (Freud 1910) 
Esses sintomas surgiram precisamente quando o pai de Ana O faleceu. Nos 
períodos sem manifestações dos sintomas, ou seja, quando estava em seu 
estado natural, ela não conseguia identificar a origem desses sintomas 
estranhos e enfrentava dificuldades em manter-se mentalmente sã e lúcida. No 
entanto, durante estados de hipnose, ela conseguia relatar a origem de cada 
sintoma, sempre relacionando-os à morte de seu pai. 
Naquela época, os médicos afirmavam que a histeria não passava de simulação, 
adotando uma abordagem inamistosa e enfrentando dificuldades para 
estabelecer um tratamento adequado, pois desconheciam a origem dessa 
condição. Ao contrário das afecções orgânicas, como apoplexia e tumor, cuja 
ideia exata permite a compreensão do quadro mórbido, a histeria deixava os 
médicos desamparados, apesar de seus conhecimentos em anatomia, fisiologia 
e patologia. 
Nesse contexto, Freud apresenta o Dr. Breuer como um médico diferente da 
maioria, destacando sua postura acolhedora que permitia prestar os primeiros 
auxílios à paciente. Breuer observou que as palavras da paciente, durante os 
estados de confusão mental, pareciam estar relacionadas aos pensamentos que 
a dominavam naquele momento. 
Essa observação fortuita levou Breuer a perceber que a paciente poderia ser 
aliviada desses estados nebulosos de consciência se fosse induzida a expressar 
em palavras a fantasia emotiva pela qual se achava no momento dominada. 
Desse modo, concluiu, que os sintomas eram produto de suas memórias 
perturbadas que permaneciam adormecidas em sua mente inconsciente e que 
ao proporcionar o resgate e trazê-las de volta à realidade, dando voz aos 
pensamentos que lá habitavam, possibilitou o desaparecimento dos sintomas. 
A partir desta descoberta Breuer chegou a um novo método de tratamento. Ele 
levava a paciente a uma hipnose profunda e fazia-a dizer-lhe, o que lhe oprimia 
a mente, em estado de vigília (acordada) a moça não conseguia descrever como 
seus sintomas surgiam e na hipnose ela de pronto descobria as ligações que 
faltavam. (Freud 1910) 
Assim Breuer percebeu que os resultados do tratamento tinham maior alcance 
se ele permitisse à sua paciente falar sobre suas fantasias e sentimentos em 
um estado de hipnose denominado por ele de estados hipnoide. Depois de 
relatar certo número de vezes suas fantasias, sentia-se como que aliviada e 
reconduzida a vida normal. Esse método de tratamento foi nomeado pela 
paciente de “cura pela palavra” (talking cure), ou limpeza de chaminé. Verificou-
se logo, que “limpando a mente” por esse modo era possível conseguir alguma 
coisa a mais do que o afastamento passageiro das perturbações. (Freud 1910) 
Dessa maneira, criou-se a teoria da catarse (purgação, purificação), o método 
catártico1. Por outro lado, seria inútil apenas recordar perante o médico, se por 
 
1 Método de psicoterapia em que o efeito terapêutico visado é uma “purgação” (catharsis), uma 
descarga adequada dos afetos patogênicos. O tratamento permite ao sujeito evocar e a reviver 
os acontecimentos traumáticos a que esses afetos estão ligados, e ah-reagi-los. 
Historicamente, o “método catártico” pertence ao período (1880- 1895) em que a terapia 
psicanalítica se definia progressivamente a partir de tratamentos efetuados sob hipnose. 
alguma razão se dava de modo sem externalização afetiva, ab-reação2. O 
desaparecimento de sintomas, surgia no momento que, em hipnose, “a doente” 
recordava com exteriorização afetiva à ocasião e motivo do aparecimento 
desses sintomas pela primeira vez. 
Por exemplo, a paciente experimentava hidrofobia e mantinha uma dieta 
baseada em frutas. Em estados de confusão e ausência, ela externava uma 
situação de verão na qual sofria de sede. Nesse momento, a paciente pegava 
um copo, mas ao aproximá-lo dos lábios, o repelia como se fosse hidrofóbica. 
Sob hipnose, foi possível recordaruma dama de companhia com quem convivia 
e não apreciava. Ao expressar sua repugnância, relatou um episódio em que 
entrou no quarto dessa senhora e viu seu cãozinho bebendo água num copo, um 
animal que ela achava nojento, mas por polidez nada disse. Ao externalizar 
intensamente a cólera reprimida, pediu para beber, consumiu sem 
constrangimento e acordou da hipnose com o copo nos lábios, resultando no 
desaparecimento definitivo da perturbação. (Freud 1910) 
Em outra ocasião, ela estava angustiada ao lado do pai febricitante, aguardando 
ansiosamente o cirurgião que vinha de Viena para operá-lo. Com a mãe ausente, 
Anna, sensata à cabeceira, entrou em um estado semissono, no qual viu uma 
cobra emergindo da parede em direção ao pai enfermo para mordê-lo. Ao tentar 
afastar a cobra, seu braço estava adormecido, e ao contemplá-la, seus dedos 
se transformaram em pequenas cobras com pontas em forma de caveira. Após 
retornar desse estado, aterrorizada, tentou rezar, mas não encontrou palavras 
em nenhum idioma, lembrando-se apenas de uma poesia infantil em inglês. A 
reconstituição dessa cena durante a hipnose removeu a paralisia espástica do 
braço direito, que existia desde o início da doença. (Freud 1910) 
Freud observou que quase todas as impressões patogênicas, os sintomas se 
voltavam a fatos comovedores que experimentará enquanto cuidava do pai, isto 
é, seus sintomas tinham um significado e era resíduos ou reminiscências3 
daquelas situações emocionais. Verificou-se que na maioria dos casos que tinha 
havido algum pensamento ou impulso que ela tivera que suprimir enquanto se 
encontrava a cabeceira do enfermo, e que, em lugar dele, como substituto, 
surgia um sintoma e quando a paciente de forma alucinatória, sob a hipnose, 
com expressão livre de emoção ao ato originalmente suprimido, o sintoma era 
 
 
2 Descarga emocional pela qual um sujeito se liberta do afeto * ligado à recordação de um 
acontecimento traumático, permitindo assim que ele não se torne ou não continue sendo 
patogênico. A ab-reação, que pode ser provocada no decorrer da psicoterapia, principalmente 
sob hipnose, e produzir então um efeito de catarse, também pode surgir de modo espontâneo, 
separada do traumatismo inicial por um intervalo mais ou menos longo. 
3 Palavra de origem latina, reminiscentia que significa lembrança vaga ou quase acabada, ou 
retorno de uma ideia à mente. 
eliminado. Por esse processo Breuer conseguiu, após longos e penosos 
esforços, aliviar a paciente de seus sintomas. (Freud 1910) 
Segundo Breuer e Freud a doença se instalava porque as emoções 
desenvolvidas nas situações patogênicas não podiam ter externalização 
normal, e que a essência da doença consistia na atual utilização anormal das 
emoções entaladas. Nesse contexto, o uso da hipnose permitia com que a 
paciente se recorde dos afetos patogênicos, esquecidos, que eram 
incompatíveis com princípios e ideais conscientes. Sendo assim, o sintoma é a 
energia do afeto patogênico, impedido de externalização, conduzido para 
insólitas vias da inervação, causando a conversão histérica4. 
Para Freud (1910), o fundamental das descobertas de Breuer “era o fato de que 
os sintomas de pacientes histéricos se baseiam em cenas do passado que lhes 
causaram grande impressão (traumas), mas foram esquecidas; a terapêutica, 
nisto apoiada, consistia em fazê-los lembrar e reproduzir essas experiências 
num estado de hipnose (catarse). 
Freud (1910), destaca a “chegada a uma teoria puramente psicológica da histeria, 
dando o primeiro lugar para os processos afetivos”. Ele encerra o seminário 
dizendo que os conhecimentos que foram apresentados não progrediram muito. 
As teorias de Breuer sobre os estados hipnoides, tornou-se embaraçosa e 
supérflua, sendo abandonada pela Psicanálise atual. 
 
 
 
4 Conversão: consiste numa transposição de um conflito psíquico e numa tentativa de resolvê-
lo em termos de sintomas somáticos, motores ou sensitivo. 
DISCIPLINA: TEORIA PSICANALÍTICA. 
PROFESSOR: FLÁVIO R. PROVAZI 
 
3ª Aula: 
Tema de discussão: 
A descoberta do inconsciente: 
• Repressão; resistência e formação de sintomas. 
 
 
REFERÊNCIA: 
FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Segunda Lição (1910). In: Obras Completas de S. 
Freud (volume XI), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
_______________________________________________________________ 
Na segunda lição do seminário, Freud expõe que ao mesmo tempo em que 
Breuer praticava a cura de conversão com sua paciente, o “grande Charcot”, em 
Paris, iniciava suas investigações com as histéricas de Salpêtrière, onde havia 
de surgir uma nova concepção de enfermidade. 
Freud menciona que Charcot não era propenso a concepções psicológicas, mas 
seu discípulo Pierre Janet dedicou-se aos processos psíquicos específicos da 
histeria, considerando a divisão da mente e a dissociação da personalidade 
como ponto central de sua teoria. 
Janet também era propenso as ideias predominantes na França sobre o papel 
da hereditariedade e da degeneração, enxergando a histeria como uma forma 
de alteração degenerativa do sistema nervoso, evidenciada pela fraqueza 
congênita do poder de síntese psíquica. Consequentemente, os pacientes 
histéricos eram vistos como incapazes de manter a integridade dos processos 
mentais, resultando na dissociação psíquica. Entretanto, a fragilidade emocional 
dos pacientes histéricos, como observado, manifestava-se em fenômenos de 
capacidade diminuída, bem como em outros de natureza compensatória. Por 
exemplo, um paciente de Janet esquecera sua língua materna, lembrando-se 
apenas do inglês a ponto de traduzir um livro em alemão com facilidade. (Freud 
1910) 
Quando Freud prosseguia sozinho as pesquisas iniciadas por Breuer, foi levado 
a outro ponto de vista a respeito da dissociação histérica, a divisão da 
consciência. Nesse sentido diverge com Janet, ao passo que não atribuiu a 
divisão psíquica à incapacidade inata para síntese da parte do aparelho psíquico, 
mas sim pela dinâmica constante de conflito de forças mentais contrarias que 
resulta em uma luta ativa de dois agrupamentos. Observa-se assim uma 
regularidade do eu (ego) se defender de recordações penosas, sem que isso 
produza a divisão psíquica. 
Freud (1910) admitiu que o método hipnótico se tornou enfadonho, como recurso 
incerto e místico. Percebeu também, que mesmo com muitos esforços 
conseguia hipnotizar apenas uma pequena parte dos pacientes, e, que as 
experiências dos hipnotizadores de Nancy, indicavam que os participantes se 
recordavam de atos realizados sob sonambulismo hipnótico. 
Com isso, ele abandona o uso da hipnose, tornando o procedimento catártico 
independente a ele, que consistia em uma técnica da pressão para impulsionar 
seus pacientes a relatarem conteúdos desagradáveis que julgavam não 
lembrar. Com a fala aberta e não concentrada como na hipnose, as pacientes de 
Freud começam a falar sobre o que as afetam. 
Logo, através do procedimento catártico (de limpeza, purificação) Freud, 
percebe a resistência do paciente trazer a consciência o olvidado na memória, 
“jaziam do poder do doente e prontas e ressurgir associação com os fatos ainda 
sabidos, mas alguma força as detinha, obrigando-as a permanecer 
inconsciente. 
Neste momento Freud se depara cada vez mais, com um fenômeno muito 
contundente, a resistência5. 
No decurso da conferência, Freud (1910) apresentou o afeto patogênico e os 
mecanismos de defesa da personalidade, a repressão e a resistência e suas 
ligações intrínsecas. 
Nesse contexto, Freud descreve o afeto patogênico, em analogia a um suposto 
perturbador da conferência que impedia, através de deboches e risos, a 
continuidade do seminário. Diante o inconveniente do perturbador (o afeto 
patogênico6), três viris homens, o retiram do recinto (repressão7), o perturbador 
ofendido tenta retornar (o reprimido, o recalcado), com isso os viris homens 
colocam cadeira impedindoa entrada dele (resistência). Assim, Freud destaca 
também a topografia do psiquismo, o recinto da conferência é a parte 
 
5RESISTÊNCIA: Chama-se resistência a tudo o que nos atos e palavras do analisando, durante o 
tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao seu inconsciente. Por extensão, Freud 
falou de resistência à psicanálise para designar uma atitude de oposição às suas descobertas 
na medida em que elas revelavam os desejos inconscientes ao homem um “vexame psicológico” 
6 AFETO: termo que a psicanálise exprime para qualquer estado afetivo, penoso ou 
desagradável. 
7 REPRESSÃO OU RECALCAMENTO: Em sentido amplo: operação psíquica que tende a fazer 
desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno. 
 
consciente, e a parte de fora, onde o perturbador fora atirado, o inconsciente. O 
sintoma acontece quando o perturbador do lado de fora, ofendido, passa a 
perturbar a ponto de colapsar as atividades da conferência (consciente). Com 
essa perturbação permanente (pressão de retorno de afeto patogênico), o reitor 
da universidade(psicanalista) fora chamado, e, prestou papel de conciliador da 
relação do indivíduo perturbador com a conferência (consciência). 
Nesse sentido, Freud (1910) destaca o sintoma como resultado da luta de duas 
forças, o impulso de satisfação inconsciente da libido contra a proteção do 
recalque, como forças exercem seu imperativo no mesmo momento, até que o 
sofrimento que as forças provocam, levam o indivíduo a buscar de uma solução. 
A repressão ou recalcamento é o principal mecanismo de defesa utilizado pelo 
neurótico. Ele procura repelir ou manter inconsciente as representações 
ligadas à pulsão. Desejos ou necessidades provocadoras “de prazer em si 
mesmas “, mas que provocariam desprazer no consciente. O recalque é também 
o principal mecanismo de defesa da histeria. Quando o desejo que permanece 
no inconsciente não foi recalcado de forma efetiva, ele continua fazendo 
pressão, exigindo satisfação. Foi denominado de retorno do recalcado, esse 
material reprimido, o qual continua a pressionando por satisfação, gerará 
conflito no consciente, conflito este que, afastado da consciência, se torna 
gerador de ansiedade. O sintoma é a formação de compromisso que tende 
conciliar o desejo reprimido com a instância repressora. 
A partir do conceito de resistência, ele abandona o método da pressão, da 
catarse, e, baseado no conceito de determinismo psíquico estabelece a livre 
associação, como regra principal da psicanálise. 
A livre associação é uma técnica fundamental da Psicanalise, ela envolve 
encorajar o paciente a expressar livremente seus pensamentos, sentimentos e 
imagens, sem censura ou seleção consciente. A ideia por trás da livre 
associação é permitir que pensamentos inconscientes e conteúdos reprimidos 
venham à tona, proporcionando ao analista insights sobre os processos mentais 
subjacentes. Ao permitir que o paciente relate espontaneamente o que lhe vem 
à mente, independentemente da aparente relevância ou lógica, o analista pode 
explorar associações inconscientes e identificar padrões que podem estar 
relacionados aos conflitos psíquicos. A livre associação é uma ferramenta 
valiosa para acessar o inconsciente e compreender as dinâmicas internas do 
indivíduo. 
RESISTÊNCIA: Chama-se resistência a tudo o que nos atos e palavras do 
analisando, durante o tratamento psicanalítico, se opõe ao acesso deste ao seu 
inconsciente. Por extensão, Freud falou de resistência à psicanálise para 
designar uma atitude de oposição às suas descobertas na medida em que elas 
revelavam os desejos inconscientes ao homem um “vexame psicológico” 
REPRESSÃO OU RECALCAMENTO: Em sentido amplo: operação psíquica que tende a 
fazer desaparecer da consciência um conteúdo desagradável ou inoportuno. 
RECALQUE OU RECALCAMENTO: No sentido próprio. Operação pela qual o 
sujeito procura repelir ou manter no inconsciente representações 
(pensamentos, imagens, recordações) ligadas a uma pulsão. O recalque produz-
se nos casos em que a satisfação de uma pulsão — suscetível de proporcionar 
prazer por si mesma — ameaçaria provocar desprazer relativamente a outras 
exigências. O recalque é especialmente patente na histeria, mas desempenha 
também um papel primordial nas outras afecções mentais, assim como em 
psicologia normal. Pode ser considerado um processo psíquico universal, na 
medida em que estaria na origem da constituição do inconsciente como campo 
separado do resto do psiquismo. 
 
DISCIPLINA: TEORIA PSICANALÍTICA. 
PROFESSOR: FLÁVIO R. PROVAZI 
4ª Aula: 
Tema de discussão: 
A descoberta do inconsciente: 
• A teoria dos sonhos. 
• A Psicopatologia da vida cotidiana. 
• A primeira tópica freudiana: Sistemas - Inconsciente, Pré-Consciente e 
Consciente. 
 
Referências: 
FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Terceira Lição (1912). In: Obras Completas de S. 
Freud (volume XI), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
GARCIA ROZA, L.A. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: editora Jorge Zahar, 2009. 
(páginas 76 - 81). 
_____________________________________________________________________ 
Talvez o insight mais duradouro de Freud tenha sido a identificação de como as 
forças inconscientes influenciam o comportamento. Ele inferiu a existência do 
inconsciente a partir de uma diversidade de observações que efetuou em seus 
pacientes. Reparou, por exemplo, que os atos falhos revelam frequentemente 
os verdadeiros sentimentos de uma pessoa. Também observou que os sonhos 
de seus pacientes expressavam desejos ocultos. Mais importante, ajudou seus 
pacientes a descobrir sentimentos e conflitos dos quais não tinham 
conhecimento. 
No texto Terceira Lição, Freud menciona as “experiências de Jung de Zurique e 
seus discípulos, que partindo da premissa do determinismo dos processos 
mentais, não podia crer que uma ideia concebida pelo doente com atenção 
concentrada fosse inteiramente espontânea, sem nenhuma relação com a 
representação mental esquecida (inconsciente), por nós procurada. Nesse 
sentido, duas forças antagônicas atuavam no doente, de um lado o esforço para 
trazer à consciência o que jazia deslembrado no inconsciente; de outro lado, a 
nossa já conhecida resistência impedindo a passagem para o consciente do 
elemento reprimido ou dos derivados deste”. 
Freud percebe que a totalidade dos processos mentais não se restringe à 
consciência. Assim ele propõe a teoria do inconsciente. Determinados 
conteúdos só se tornam acessíveis à consciência depois de superadas certas 
resistências. Quanto mais perturbadores e angustiantes forem as ideias ou 
sentimentos, mais difícil seu acesso a consciência. Ele elabora seu conceito de 
inconsciente a partir das parapraxias, dos sintomas e dos sonhos. A palavra 
parapraxia significa algo como uma fala paralela à fala, são os lapsos, os atos 
falhos8, os esquecimentos. Nas parapraxias ou lapsos, ele demonstra que 
existem processos mentais que se infiltram e perturbam o desenvolvimento 
natural de uma ideia. 
Exemplo de lapso/ato falho: uma moça jovem solteira, trabalha como atendente 
de loja. Há dois anos tornou-se mãe, e o pai da criança desapareceu sem prestar 
nenhuma ajuda. Ela teve sua vida mudada abruptamente, recebe ajuda da 
vizinha em troca de dinheiro para cuidar de sua filha enquanto ela trabalha. Sua 
vida social, passeios foram reduzidos a zero. Em consulta com o psicanalista 
ela conta sobre sua vida e diz: “A Julia (filha) foi a pio... melhor coisa que me 
aconteceu” (corrige rapidamente a frase). 
O pensamento se relaciona diretamente com reprimido na forma de alusão a 
uma representação do mesmo por meio de palavras indiretas. Além dos lapsos 
Freud estudou outras manifestações do inconsciente que produzem resultados 
semelhantes, como o caso do chiste. 
“O problema da técnica psicanalítica forçou-me a estudar o mecanismo das 
pilhérias”. Freud analisa a técnica portrás das piadas. A partir dessa análise, 
ele conclui que elas têm a mesma função e origem que os sintomas neuróticos, 
os sonhos e os atos falhos. Ou seja, o chiste é também uma forma de expressão 
do inconsciente. As piadas, principalmente as tendenciosas, serviriam como 
uma forma de liberar determinados pensamentos inibidos. 
Assim Freud entende a possibilidade de desvendar o reprimido, desde que o 
paciente proporcione um número suficiente de associações livres9. 
“Pedir para o paciente falar o que quiser, mesmo que pareça muito fastidioso 
esse processo de descobrir os elementos reprimidos, mas assegura, que é o 
único praticável. Pela observância dessa regra garantimo-nos o material que 
nos conduz ao roteiro do complexo reprimido”. 
Nesse sentido, Freud menciona a importância da “interpretação dos sonhos 
como entrada real para o inconsciente, a base mais segura da psicanálise”. 
 
8 Atos Falhos: Os atos falhos são ações ou expressões que ocorrem de forma não intencional, muitas vezes 
considerados erros, esquecimentos ou lapsos na fala, na escrita ou em ações cotidianas. Segundo Freud, os atos falhos 
não são meramente acidentais; eles revelam pensamentos, desejos ou impulsos que estão presentes no inconsciente 
da pessoa. Exemplos comuns de atos falhos incluem lapsos de língua, esquecimentos, troca de palavras, entre outros. 
9 ASSOCIAÇÃO LIVRE: Método que consiste em exprimir indiscriminadamente todos os pensamentos que 
ocorrem ao espírito, quer a partir de um elemento dado (palavra, número, imagem de um sonho, 
qualquer representação), quer de forma espontânea. 
Inclusive entende que o método da interpretação dos sonhos se confunde com 
a psicanálise, pois ambos os métodos consideram o nexo/ligação entre o 
conteúdo latente e o manifesto10. 
Para Freud, a formação do sonho envolve três fatores essenciais: 1) Estímulos 
sensoriais, sejam internos ou externos, como ruídos, odores, luz, ou a vontade 
de urinar, considerados com pouca influência na origem dos sonhos; 2) Restos 
diurnos, provenientes de estímulos ambientais significativos, como eventos 
marcantes, filmes impactantes, ou a mente impregnada de interesses e 
preocupações; 3) A existência de sentimentos, pensamentos e desejos 
reprimidos no inconsciente. 
Nesse sentido, os sonhos podem ser também facilmente explicados, como um 
sonho de uma criança pequena relacionado ao desejo não satisfeito. No caso 
dos adultos o conteúdo é mais ininteligível, sem nenhuma semelhança com a 
satisfação de desejos, os sonhos estariam distorcidos. Para Freud os sonhos 
são produções psicológicas aparentemente incompreensíveis, mas plenas de 
significados e desejos. O sonho é a realização alucinatória do desejo de natureza 
inconsciente. 
 
Em continuidade a esses fatores que envolvem os sonhos, Freud concebeu a 
participação de diversos fenômenos psíquicos que concorrem para a formação 
dos sonhos: 
1. Conteúdo Manifesto do Sonho: Refere-se ao que aparece na consciência do 
sonhador, geralmente sob a forma de imagens visuais, podendo ou não ser 
recordado após o despertar. 
2. Elaboração Onírica Secundária (também conhecida como “Atividade do 
Sonho”): Constitui uma atividade psíquica durante o sono, responsável por 
disfarçar e dissimular o que está reprimido no inconsciente, proibido de 
aparecer no consciente de forma bruta. 
3. Conteúdo Latente do Sonho: Corresponde ao conjunto oculto de desejos, 
pensamentos, sentimentos, representações e angústias reprimidas no 
inconsciente. Esses elementos só têm acesso ao pré-consciente e ao 
consciente após o disfarce realizado pela elaboração secundária. 
 
10 CONTEÚDO MANIFESTO: Designa o sonho antes de ser submetido à investigação analítica, tal como 
aparece ao sonhante que o relata. CONTEÚDO LATENTE: Conjunto de significações a que chega à 
análise de uma produção do inconsciente, particularmente do sonho (o que é oculto). O latente de um 
sonho seria então constituído por restos diurnos, recordações da infância, impressões corporais, alusões 
à situação transferência], etc. 
 
4. Censor Onírico: Freud compara essa parte onírica do ego inconsciente a um 
"censor de notícias" com amplos poderes para suprimir qualquer trecho que 
julgue inconveniente. 
5. Mecanismos Defensivos do Ego: Incluem a condensação, que visa formar uma 
imagem única representando simultaneamente todos os componentes do 
conteúdo latente; deslocamento, que envolve o deslocamento de significados ao 
longo de uma cadeia associativa; e simbolização. A simbolização, inicialmente 
considerada universal, foi posteriormente reconhecida como individual, 
correspondendo aos significados específicos de cada indivíduo e suas 
respectivas repressões. 
6. Linguagem do Processo Primário: Durante a elaboração onírica, ocorre a 
passagem do conteúdo latente para um conteúdo manifesto, formado pelos 
recursos mágicos da condensação, deslocamento e símbolos deformadores. 
Essa expressão é caracterizada por uma linguagem típica do processo primário 
do pensamento, com confusão entre os elos de conexão dos elementos do 
sonho. Embora possa aparentar coerência e lógica, nos casos descritos por 
Freud, os disfarces e as distorções podem ser tão intensos que os aspectos 
representativos do conteúdo latente da satisfação de desejos tornam-se 
completamente irreconhecíveis. 
7. Formação de Compromisso: Analogamente à formação de um sintoma 
neurótico, Freud (1933) concebe que o sonho resulta de uma "formação de 
compromisso entre as pulsões do id e as defesas do ego", permitindo apenas 
uma gratificação parcial e tolerável dessas pulsões. 
A função do sonho, segundo Freud, foi defendida até o término de sua obra, onde 
sustentou que a função única do sonho reside em uma forma disfarçada de 
gratificação de desejos reprimidos, através de uma "negociação com o ego". 
Inspirou-se em sonhos simples de crianças na primeira infância, os quais 
expressariam de maneira mais clara e menos distorcida os desejos não 
satisfeitos do dia anterior, como exemplificado por uma criança sonhando que 
está em uma confeitaria comendo doces. 
Ao analisar os sonhos de seus pacientes, Freud postulou que a principal 
finalidade do sonho era a realização de desejos. Ele acreditava que pessoas 
preenchem necessidades não realizadas em suas horas de vigília, por meio dos 
sonhos. Por exemplo, alguém que seja sexualmente frustrado, tenderá a ter 
sonhos eróticos, enquanto uma pessoa sem sucesso sonhará com grandes 
realizações. 
Além disso, Freud propôs que os pensamentos insuportáveis durante a vigília 
encontram uma via de expressão nos sonhos. Nesse sentido, conforme nos traz, 
em razão de estarmos dormindo, o ego, agora imbuído de outras funções, sendo 
uma das principais a de nos manter dormindo, tem suas defesas "rebaixadas". 
Esses pensamentos, insuportáveis em vida de vigília, ganham, então, a 
possibilidade de virem à consciência. Passarão por transformações e se 
mostrarão em forma de imagens, de cenários que serão vividos como 
agradáveis ou aterrorizantes. 
Outra função primordial atribuída ao sonho, de acordo com Freud, é a de ser o 
"guardião do sono". O sonho atua como protetor, permitindo que, mesmo com a 
diminuição das defesas do ego e a redução da vigilância consciente, o sujeito 
durma sem ser invadido por desejos proibidos que emergem do inconsciente. 
Mesmo com a diminuição das defesas do ego, o sonho possibilita uma certa 
gratificação desses desejos. No entanto, quando o sonho não desempenha 
efetivamente seu papel de guardião do sono, pode ocorrer o fenômeno 
conhecido como terror noturno, expresso em adultos como sonhos de angústia, 
popularmente denominados "pesadelos". 
Segundo Zimerman (1999), uma questão que começou a preocupar Freud e seus 
seguidores foi: onde estaria a realização de desejos nos sonhos penosos? Freud 
mesmo, a partir da decifração dos "hieróglifos" no conteúdo manifesto de seu 
famoso sonho da "injeção deIrma", chegou a uma interpretação corajosa de que 
o sofrimento expresso nas imagens desse sonho traduzia desejos inaceitáveis, 
como, por exemplo, o desejo de vingança. Dessa forma, Freud aprofundou sua 
convicção de que o desejo inaceitável está sempre presente no sonho, embora 
seja irreconhecível devido às transformações comuns que ele sofre, 
frequentemente manifestando-se pelo oposto. 
Um exemplo ilustrativo é o de uma paciente que nutria um desejo sexual por um 
homem "proibido". Ela trouxe à análise um sonho no qual está dançando com 
ele, uma decifração fácil nesse caso específico. Em contrapartida, o sonho de 
outra analisanda, com um desejo semelhante, apresentava uma luta intensa e 
hostil com um homem ameaçador que pretendia assaltá-la, evidenciando uma 
transformação para o oposto. Dessa forma, as manifestações simbólicas do 
conteúdo manifesto desse desejo podem ser bastante complexas e difíceis de 
reconhecer. 
A partir das suas primeiras publicações e da obra interpretação dos sonhos, 
Freud postulou a primeira tópica, conhecida como a teoria topográfica do 
aparelho psíquico. Neste modelo o aparelho psíquico é composto por 3 
sistemas. 
Inconsciente (ICS) Pré-consciente (PC’S) Consciente (CS). 
*Não importa os lugares, conjunto dos sistemas têm um sentido, uma direção”. 
(GARCIA ROZA pág. 76) 
Nossa atividade psíquica inicia-se a partir de estímulos (internos/externos) e 
termina em uma atividade motora. Ou seja, o funcionamento psíquico começa 
quando somos influenciados por estímulos, que podem ser internos ou 
externos. Esse processo culmina em atividades motoras, ou seja, ações físicas. 
Dessa forma, é constituído por dois sistemas: o primeiro é o receptor de 
estímulos, também conhecido como sistema perceptivo, que processa as 
informações dos estímulos. O segundo sistema está na ponta final do processo, 
conectando-se à atividade motora e traduzindo nossos pensamentos e 
percepções em ações físicas. 
 
As percepções deixam marcas de memória na parte próxima ao sistema 
perceptivo. Freud considera essas marcas como alterações permanentes no 
sistema. Como o sistema perceptivo não pode desempenhar simultaneamente 
as funções de percepção e armazenamento de memória, Freud propõe a 
distinção entre a parte encarregada de receber (pcpt) e a parte responsável pelo 
armazenamento (mnêm). Dessa forma, o sistema perceptivo (pcpt), localizado 
na parte frontal do aparelho, recebe estímulos perceptivos, mas não os registra 
nem os associa, pois precisa permanecer permanentemente aberto. As funções 
de associar e armazenar, ficam reservadas aos vários sistemas mnêmicos que 
recebem as excitações do primeiro sistema e as transformam em traços 
permanentes. (GARCIA ROZA, 2009) 
“As associações ocorrem apenas no interior do sistema mnêmicos, ocorre tanto 
pela diminuição das resistências como pelos caminhos facilitadores por meio 
de condensação e deslocamento11 .”(GARCIA ROZA pág. 78) 
Freud percebe no sonho a existência de uma instância crítica cuja função é 
excluir da consciência atividades de outra instância. Essa instância crítica é 
localizada na extremidade motora por ter maior relação com a consciência que 
é a instância responsável pelas ações voluntárias e conscientes. 
 
Aqui o inconsciente deixa de ser adjetivo, designado como um sistema do 
aparelho psíquico. 
Assim o sistema ICS só pode ter acesso à consciência através do sistema PCS 
e CS, sendo que nessa passagem seus conteúdos são submetidos as exigências 
desses sistemas. Qualquer conteúdo do ICS, só pode ser conhecido se 
transcrito, portanto, modificado e distorcido pela síntese do PCS e CS. 
No ICS, Freud localiza à formação dos sonhos, o desejo ICS liga-se a 
pensamentos oníricos pertencentes ao PCS e procura uma forma de acesso a 
consciência, graças a diminuição da censura durando o sono. 
Enquanto na vigília o processo de excitação percorre de modo progressivo (do 
sist. pcpt ao sist. motor). Nos sonhos e na alucinação o processo caminha de 
 
11 CONDENSAÇÃO: no latim condensare que significa “tornar compacto”. Modo essencial do 
funcionamento dos processos inconscientes. Uma representação única representa por si só várias cadeias 
associativas, em cuja interseção ela se encontra numa espécie de fusão(neologismo). Portanto, a 
transformação dos pensamentos em imagens, são selecionadas, a condensação age no sentido de 
comprimir vários conteúdos latentes num único elemento que o sonho manifeste. DESLOCAMENTO: um 
fato importante, ou uma representação de uma intensidade importante “perde a importância” e é 
deslocada para outro evento sem nenhuma importância afetiva. É a independência relativa entre afeto e 
representação. O afeto ligado à uma representação pode se deslocar para outras representações pouco 
intensas, dando-lhe uma nova intensidade 
 
forma inversa. Da extremidade sensorial para o sistema perceptivo, produzindo 
reinvestimento de imagens mnêmicas, esse caminho Freud nomeia de 
Regressão. 
Principais características do Consciente: A consciência é um órgão sensorial 
que recebe informação do mundo externo para o mundo interno. Porém a 
consciência não retém informação, ficando a cargo da memória. A consciência 
é momentânea e a memória é inconsciente. É uma qualidade momentânea, que 
faz parte de um sistema, o sistema perceptivo - segundo Freud o acesso à 
consciência está, inicialmente, ligado as percepções que os nossos órgãos 
sensoriais recebem do mundo exterior, ou seja, a consciência é um órgão 
sensorial para a percepção das qualidades psíquicas. 
Principais características do pré-consciente: Na pré-consciência possuem 
conteúdos que estão no inconsciente que podem ser facilmente resgatados ao 
consciente. É aquilo que está fora da consciência, mas seu acesso é 
relativamente fácil, pode ser evocado. O sistema pré-inconsciente, assim como 
o consciente, é regido pelo processo secundário, ou seja, pelo princípio de 
realidade, possui uma “energia ligada” a qual não pode se ecoar livremente, só 
o faz de forma controlada, ou seja, a satisfação pode ser adiada. Por exemplo: 
algo me incomoda, não tenho consciência imediata de que se trata, instante 
depois, posso dar nome a isso: fome. Quando algo que incomoda estava pré-
consciente e quando percebo e ligo a sensação a uma palavra esse algo sai do 
pré-consciente e entra no consciente. No consciente o desejo de comer fica 
evidente, porém o impulso não pode ser ecoado livremente. Levo em conta a 
realidade (processo secundário-princípio de realidade), pois não posso avançar 
na comida do outro, não vou invadir um restaurante, vou adiar minha satisfação 
até chegar em casa. 
Principais características do inconsciente: O inconsciente é constituído de 
conteúdos recalcados aos quais foram recusados o acesso para o sistema pré-
consciente e consciente, é regido pelo princípio do prazer; pelo processo 
primário, cujos principais mecanismos são a condensação e deslocamento; o 
inconsciente é atemporal, seus conteúdos não são afetados pela passagem do 
tempo; no inconsciente não há lugar para negação, impulsos contraditórios 
coexistem sem se influenciarem; o inconsciente é a fonte e a origem interna da 
pulsão. 
O inconsciente compreende o representante da pulsão, podemos dizer que a 
pulsão é semelhante (não igual) aos instintos nos animais. No instinto os 
padrões são predeterminados pela genética, tanto em relação ao objeto quanto 
ao objetivo, por exemplo, o instinto sexual no animal, seu objeto será outro 
animal da mesma espécie com objetivo de reprodução. No caso da pulsão, ela 
está apoiada em uma necessidade fisiológica, ou seja, apoiada no instinto, 
porém seu padrão não é fixo nem predeterminado, e seu desenvolvimento é 
constituído pela história individual. 
Segundo Freud, para um psicanalista não existe nada insignificante, arbitrário 
ou casual nas manifestações psíquicas. Ele é disposto a aceitar causas 
múltiplaspara o mesmo efeito. 
Por fim sugere que “o estudo das ideias livremente associadas pelos pacientes, 
seus sonhos, falhas e ações sintomáticas; se ainda juntarem a tudo isso o 
exame de outros fenômenos surgidos no decurso do tratamento psicanalítico 
(...) transferência – chegarão comigo à conclusão de que nossa técnica já é 
suficientemente capaz de realizar aquilo que se propôs: conduzir à consciência 
o material psíquico patogênico, dando fim desse modo aos padecimentos 
ocasionados pela produção dos sintomas de substituição.” 
“O orgulho da consciência que chega a por exemplo a desprezar os sonhos 
pertence ao forte emparelhamento disposto entre nós de modo geral contra a 
invasão dos complexos inconscientes. Esta é a razão por que tão dificultoso é 
convencer os homens da realidade do inconsciente e dar-lhes a conhecer 
qualquer novidade em contradição com seu conhecimento consciente”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DISCIPLINA: TEORIA PSICANALÍTICA. 
PROFESSOR: FLÁVIO R. PROVAZI 
 
5a Aula: 
Tema de discussão: 
A teoria da sexualidade: 
• As zonas erógenas e as pulsões. 
• A evolução da libido. 
 
REFERÊNCIAS: 
FREUD, S. Cinco Lições de Psicanálise: Quarta Lição (1912). In: Obras Completas de S. 
Freud (volume XI), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
FREUD, S. A Pulsão e seus destinos (1915). In: Obras Completas de S. Freud (volume 
XIV), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). In: Obras 
Completas de S. Freud (volume VII), Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda. 
_______________________________________________________________ 
“o sol, o ar em nosso mundo civilizado não são favoráveis à atividade sexual... 
Porque não dizer simplesmente, contentando-vos apenas com a descrição 
fisiológica, que já no lactente são observadas atividades, como a sucção e a 
retenção de excrementos, que nos mostram que a criança visa o prazer do 
órgão. Existe então uma sexualidade infantil. A infância não é, ao contrário, o 
período da vida marcado pela ausência do instinto sexual? Não meus senhores. 
Não é verdade que certamente que o instinto sexual, na puberdade, entre o 
indivíduo que segundo o evangelho, os demônios nos porcos. A criança possui, 
desde o princípio, o instinto e as atividades sexuais. Ela os traz consigo para o 
mundo, e deles provêm, através de uma evolução rica de etapas, a chamada 
sexualidade normal do adulto. Não são difíceis de observar as manifestações da 
atividade sexual infantil; ao contrário, para deixá-las passar desapercebidas ou 
incompreendidas é que é preciso certa arte”. (FREUD, S. pág. 53) 
Em 1905, são publicados os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. Freud 
cria assim a teoria da sexualidade infantil, na qual está também incluída a teoria 
das pulsões. Neste constructo teórico, Freud refere a sexualidade humana não 
baseada em instintos como nos animais e introduz o conceito de pulsão” trieb”. 
A pulsão possui fonte de origem corporal, particularmente ligadas as 
membranas e contato com o objeto, como exemplo, a satisfação através dos 
lábios, ânus, do olhar, da audição. A pulsão encontra no objeto a sua meta, que 
é a satisfação. 
A pulsão, é inata, constante, instintiva e apreendida, é desde se inclinar para o 
alimento a partir de reações fisiológicas ou de desenvolver dependência em 
alguma substância. Podemos associar a origem da pulsão com as ondas 
cerebrais, que são atividades rítmicas e contínuas do sistema nervoso central, 
essas ondas brotam da parte mais primitiva do cérebro, região relacionada à 
emoção e a soma. Essas pulsões constantemente se transformam em 
representações psíquicas, imagens, ideias, necessidades, fantasias etc. Como 
Freud disse, se pararmos de pensar é morte cerebral. 
 A pulsão tem sua fonte num estado de tensão corporal e a meta do 
aparelho/organismo12 é eliminar este estado de tensão, removê-lo para retornar 
ao seu estado anterior. Tudo aquilo que remove uma necessidade promove uma 
satisfação. 
Conforme Freud descreveu, toda pulsão implica a existência de quatro fatores 
que lhe são imanentes: uma fonte, uma força, uma finalidade e um objeto. Além 
destes, pode-se depreender dos trabalhos de Freud mais essas características: 
o deslocamento da pulsão de uma zona corporal para outra, o intercâmbio entre 
as distintas pulsões, a compulsão à repetição e as transformações das pulsões. 
A fonte provém das excitações corporais, ditadas pelas necessidades de 
sobrevivência. A força determina o aspecto quantitativo da energia pulsional, ou 
seja, representa o importante aspecto “econômico” do psiquismo, conforme o 
modelo energético de Freud acerca do funcionamento psíquico. A finalidade, 
primariamente, é a descarga da excitação para conseguir o retorno a um estado 
de equilíbrio psíquico, segundo o “princípio da constância” ou o da 
“homeostasia”, sendo que ambos são equivalentes à busca do “princípio de 
Nirvana”, que alude ao fato de o organismo tentar reproduzir o idilíaco estado 
intra-uterino. O objeto – bastante variável e mutável – é aquele que seja capaz 
de satisfazer e apaziguar o estado de tensão interna oriunda das excitações do 
corpo, ou que, no mínimo, sirva-lhe como mero depósito de descarga. 
O conceito de investimento pulsional – ou seja, a catéxis- alude ao fato de que 
uma certa quantidade de energia psíquica, a qual também pode manifestar-se 
 
12 PRINCÍPIO DE INÉRCIA: Princípio de funcionamento do sistema neurônico postulado por 
Freud no Projeto para uma psicologia científica (Entwurí ciner Psychoiogie, 1895): os neurônios 
tendem a evacuar completamente as quantidades de energia que recebem. PRINCÍPIO DE 
CONSTÂNCIA: Princípio enunciado por Freud, segundo o qual o aparelho psíquico tende a 
manter a nível tão baixo ou, pelo menos, tão constante quanto possível a quantidade de 
excitação que contém. A constância é obtida, por um lado, pela descarga da energia já 
presente e, por outro, pela evitação do que poderia aumentar a quantidade de excitação e pela 
defesa contra esse aumento. 
por um “interesse do ego”, esteja ligada a um objeto, tanto externo como ao seu 
representante interno, numa tentativa de reencontrar as experiências de 
satisfação que lhe estejam correlacionadas. Para cada finalidade pulsional 
corresponde um determinado objeto. Um exemplo simples disto é a fome, cuja 
finalidade é a sua satisfação, e cujo objeto é o alimento, e, na condição do bebê, 
isso corresponde à necessidade do leite, ou seja, do objeto parcial “seio”. No 
caso em que o objeto do investimento pulsional seja o próprio indivíduo, já 
estamos falando de narcisismo. 
As transformações das pulsões podem ser depreendidas de muitas concepções 
de Freud, como o fenômeno da sublimação, dos mecanismos de defesa do ego, 
como a formação reativa entre outros “destinos das pulsões”.13 
Freud concebeu a pulsão humana como origem do conflito psíquico. Nesse 
sentido, Freud considerava a luta entre a Pulsão de autoconservação 
(preservação de si, do eu, da totalidade) em oposição as pulsões sexuais (oral, 
anal, fálico, genital etc.). 
Partindo do conceito da pulsão Freud descreve desenvolvimento da sexualidade 
em fases. Cada fase da sexualidade infantil se caracteriza por autoerotismo, 
pela dependência de uma função somática e predominância de uma zona 
erógena14. O sexual não é redutível ao genital assim como o psíquico não se 
reduz a consciência. 
Freud propôs a surpreendente afirmativa de que os fundamentos básicos da 
personalidade de um individuo são estabelecidos até a tenra idade de 5 anos. 
Para aclamar melhor esses primeiros anos cruciais, ele formulou a teoria de 
estágios de desenvolvimento. Enfatizou o quão precocemente as crianças se 
ocupam com suas necessidades sexuais, imaturas, mas poderosas (usou o 
termo sexual com sentido universal referindo-se às muitas necessidades de 
 
13 Destinos das Pulsões -Sublimação: Impulsos indesejadossão redirecionados para atividades 
socialmente aceitáveis e culturalmente valorizadas, como arte, esportes ou realizações 
intelectuais. Repressão: Mecanismo central que mantém pensamentos, desejos ou memórias 
inconscientes, fora da consciência para evitar ansiedade. Racionalização: Justificação lógica de 
comportamentos ou pensamentos contraditórios ou inaceitáveis para reduzir a 
ansiedade.Projeção: Atribuição de pensamentos, desejos ou sentimentos indesejados em outras 
pessoas para evitar o reconhecimento deles em si mesmo. Deslocamento: Redirecionamento 
de impulsos emocionais de um objeto ou pessoa para outro menos ameaçador ou mais 
aceitável. Formação Reativa: Adoção de comportamentos ou sentimentos opostos aos desejos 
ou impulsos verdadeiros, geralmente exagerando a sua expressão. Negação: Recusa em aceitar 
a realidade ou verdade de uma situação para reduzir a ansiedade. 
14 Zona erógena: qualquer região do corpo suscetível de se tornar sede de excitação sexual. 
Misto de necessidade fisiológica, fantasia e zona de prazer. 
 
prazer físico). Segundo Freud, essas necessidades sexuais mudam de foco 
conforme as crianças passam de um estágio de desenvolvimento para outro. 
Inclusive os nomes dos estágios (oral, anal, genital) são baseados em onde as 
crianças concentram sua energia sexual durante dado período. Assim os 
estágios psicossexuais são períodos de desenvolvimento com foco sexual 
característico, que deixam suas marcas na personalidade adulta. 
Estágio Idades Aproximadas Foco erótico Principais tarefas e 
experiências 
Oral 0-1 (chupar, morder) Boca Desmame (do peito e da 
mamadeira) 
Anal 2-3 Ânus (expulsão ou retenção de desses) Treinamento de usar o banheiro 
Fálico 4-5 Genitais Identificação com modelos de 
papéis, adultos; superação da 
crise edípica 
Latência 6-12 Nenhum (reprimido sexualmente) Expansão de contatos sociais 
Genital Puberdade em diante Genitais (ter intimidade sexual Estabelecimento de 
relacionamentos íntimos, 
contribuição para sociedade por 
meio de trabalho 
 
Freud teorizou que cada um dos estágios psicossexuais possui seus desafios 
ou tarefas especificas. O modo como se lida com tais desafios supostamente 
molda a personalidade. A noção de fixação é muito importante neste processo. 
A fixação envolve uma impossibilidade de progredir ao estágio seguinte 
conforme seria esperado. Basicamente interrompe o desenvolvimento 
emocional de uma criança por certo tempo. Ela pode ser ocasionada devido a 
excessiva gratificação de necessidades psicossexuais em determinado estágio 
ou à excessiva frustração das necessidades. De qualquer forma, os 
remanescentes das fixações na infância afetam a personalidade adulta. A 
fixação geralmente implica uma ênfase acentuada nas necessidades 
psicossexuais mais importantes daquele estágio fixado. Freud descreveu uma 
sequência de cinco estágios e como a fixação pode ocorrer. 
Estágio oral: ocorre no primeiro ano de vida. Durante esse período, a principal 
fonte de estimulação erótica é a boca (no morder, no sugar, mascar e assim por 
diante). Na visão de Freud, a maneira como se lida com as experiências de 
alimentação da criança é crucial para seu desenvolvimento subsequente. Ele 
atribuía considerável importância à maneira como se dava o desmame da 
criança, seja no peito ou mamadeira. Para Freud a fixação no estágio oral pode 
estabelecer a base para o comer ou fumar obsessivos no decorrer da vida 
(entre várias outras coisas). 
A boca é a primeira parte do corpo que a criança irá a prender a controlar, 
portanto, ela direciona toda a libido na boca, então tudo que o bebê faz com a 
boca, comer, morder, beber, sugar, gera prazer / satisfação, então mesmo 
alimentado, ele desejará sugar objetos, por causa da pulsão, a fome já foi 
satisfeita organicamente, mas a pulsão que é uma necessidade orgânica e 
psíquica nunca saciada. As atividades da criança giram em atividades que lhe 
proporcionam prazer oral. Nessa fase, ocorre a primeira experiência de falta, 
sendo então suprida pela alimentação. Essa experiência vai servir de modelo 
para a organização do aparelho psíquico na forma como este vai definir e buscar 
os objetos necessários para saciar suas necessidades, nessa fase ocorre 
também a formação do ego. A meta sexual consiste na incorporação do objeto, 
paradigma do que mais tarde, sob a forma da identificação, desempenha um 
importante papel psíquico. 
Estágio anal: Durante o segundo ano de vida, as crianças obtêm prazer erótico 
com o movimento do intestino, seja através da expulsão ou da retenção das 
fezes. O evento crucial desse período é o treinamento de usar o banheiro, que 
representa o primeiro esforço sistemático da sociedade em regular as 
necessidades biológicas da criança. Um treinamento altamente punitivo pode, 
por exemplo, ocasionar um sentimento latente de hostilidade com relação ao 
treinador. 
Com o desenvolvimento muscular a criança, ela passa a ter mais autonomia e 
maior capacidade de exercer sua vontade. O controle dos esfíncteres vai 
possibilitar uma relação ampla de controle de si e das relações entre retenção 
e expulsão. Esse controle também é atravessado pelos hábitos de higiene e 
normas sociais. O ânus é então o órgão predominantemente associado ao 
prazer, as relações de dominação, controle, retenção ou doação se 
desenvolvem fortemente nesta fase. Nessa fase ocorre a divisão de opostos que 
atravessam a vida social, mas ainda não podemos chamá-la de masculino e 
feminino e sim ativo e passivo. 
“As dificuldades da criança residem no dilema que se impõe: ou ela continua 
apreciando sua criação (fezes) ou rende-se às demandas educacionais e 
sociais” (FREUD 1905). 
Estágio fálico: Entre 3 e 5 anos, os genitais tornam foco de energia erótica da 
criança, principalmente pela autoestimulação. Durante este estágio decisivo, 
emerge o complexo de Édipo, ou seja, os meninos desenvolvem uma preferência 
com inclinações em relação à mãe. Sentem também hostilidade com relação ao 
pai, a quem veem como competidor pela afeição da mãe. Da mesma forma que 
a menina desenvolve uma ligação especial com o pai. 
Nessa fase a criança já está relativamente desenvolvida e as pulsões que 
estavam organizadas primariamente nas funções digestivas (boca e ânus) vão 
se concentrar na zona genital, sendo somente o pênis percebido como órgão 
genital, nessa fase a oposição dos sexos é equivalente à oposição fálico 
castrado ou atrofiado. 
A fase fálica corresponde ao momento culminante e ao declínio do complexo de 
Édipo; o complexo de castração é aqui predominante fase marcada pela relação 
de ciúmes entre os pais. 
Estágio de Latência: Dos 5 anos, aproximadamente, até a puberdade, a 
sexualidade da criança é recalcada, torna-se latente. Eventos importantes 
durante este estágio concentram-se na expansão de contatos sociais além da 
família imediata. Devido as regras sociais internalizadas na fase anterior é um 
período calmo no desenvolvimento sexual, as relações com os objetos tornam-
se não sexualizadas. Essa energia sexual passa a se expressar através de das 
relações de objetos e dos sentimentos de ternura, na construção de laços de 
amizade, sentimentos de pudor/ repugnância e de aspirações morais. 
Estágio genital: com o advento da puberdade, a satisfação sexual passa a ser 
através da sexualidade dirigida a um parceiro. Temos então uma organização 
da sexualidade que deverá abarcar tanto os desejos narcísicos (de si) do sujeito 
quanto as imposições colocadas pela castração (frustração). O sujeito deve 
conseguir amar, de estabelecer relações sociais e sexuais satisfatórias com 
outras pessoas, como também trabalhar, ou seja, usar energia para 
transformar o meio e para obter satisfação de suas necessidades. Nessa fase a 
energia sexual é normalmente canalizada para os objetos, e não a si mesmo, 
como no estágio anterior. 
Em grande parte, a personalidade do individuo se forma nasfases do 
desenvolvimento psicossexual. É nesse período em que se constroem as 
formas de como o ego vai lidar com os impulsos libidinais, como o sujeito busca 
solucionar as demandas provocada pelos impulsos e as formas de se defender 
das pressões exercidas pelo mundo externo. O desenvolvimento dos laços 
afetivos e perspectivas morais, bem como o aprendizado realizado no período 
de latência. Haverá sempre, então, algum grau de conflito presente no indivíduo 
na fase genital. Portanto um sujeito, além de estabelecer a capacidade de amar 
outro, desenvolve a capacidade de trabalhar o que implica no desenvolvimento 
formal e mais elaborado da personalidade. 
Pulsão de vida e Pulsão de morte: De acordo com Zimerman (1999) a partir de 
"Além do Princípio do Prazer" (1920), a dualidade inicial que diferenciava as 
pulsões do "ego" e as "sexuais" cedeu lugar a uma nova dualidade: pulsões de 
vida ("eros") e pulsões de morte ("tanatos"). Freud manteve definitivamente 
essa concepção pulsional em sua obra. Além disso, concluiu que o ego tinha 
uma energia própria, independente da sexualidade, enfatizando que, acima de 
tudo, o ego é corporal. 
As pulsões de vida passaram a abranger as "pulsões sexuais" e as de 
"autopreservação", unificando a libido como energia, não mais da pulsão sexual, 
mas sim da pulsão de vida. Essa concepção de que nem todas as manifestações 
da pulsão de vida são necessariamente de natureza sexual possui enorme 
importância na prática clínica psicanalítica, especialmente por representarem 
primariamente componentes da "libido do ego", voltada para a preservação do 
próprio indivíduo. 
Freud introduziu o conceito de pulsão de morte, que visa reduzir toda a carga 
de tensão orgânica e psíquica, buscando um retorno a um estado inorgânico. 
Essa pulsão pode permanecer dentro do indivíduo (sob a forma de fortes 
angústias e tendência para a autodestruição) ou para fora (pulsões destrutivas). 
A partir da "pulsão de morte", Freud postulou o princípio da "compulsão à 
repetição", que expressa a tendência do psiquismo humano em repetir 
situações penosas e traumatizantes anteriores, evidente em fenômenos como 
a neurose de transferência, nas neuroses traumáticas (notadas nas "neuroses 
de guerra"), em muitos jogos infantis ou em certas formas patológicas como 
melancolias e no enigma do masoquismo.

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