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PERTURBAÇÕES DO SONO SUMÁRIO 1. Introdução e estrutura do sono ............................ 3 2. Fatores que influenciam o sono ........................... 7 3. Principais transtornos............................................... 9 4. Avaliação clínica e diagnóstica ...........................17 5. Tratamento ................................................................20 6. Perturbações do sono em crianças e adolescentes .............................................31 7. Quando referenciar ................................................32 Referências Bibliográficas .........................................35 3PERTURBAÇÕES DO SONO 1. INTRODUÇÃO E ESTRUTURA DO SONO A insônia pode ser definida como uma experiência subjetiva de sono inadequado, com dificuldade em iniciar ou na manutenção do sono, despertares precoces e “sono não reparador”, com repercussão no funcionamento sócio-ocupacional diurno. Esta é uma das perturbações do sono mais comuns, sendo uma das queixas principais dos pacientes que recorrem aos cuidados médicos. CONCEITO! O sono é um estado rapi- damente reversível de redução da res- ponsividade, atividade motora e meta- bolismo. É um fenômeno observado em todos os animais de alguma forma; essa universalidade sugere que o ato de dor- mir provavelmente tem alguma relevân- cia evolutiva. Os humanos passam apro- ximadamente um terço de sua vida, ou cerca de oito horas por noite, dormindo. O propósito de dormir é mal compreen- dido, entretanto, e existem várias teo- rias. Essas teorias incluem restauração, conservação de energia e consolidação da memória. Por outro lado, sono insufi- ciente resulta em pior desempenho diur- no, sensação de cansaço ou sonolência e efeitos mensuráveis na função do sis- tema imunológico. Estudos transversais estimam uma prevalência de insônia entre 10 e 50% dos pacientes da Atenção Pri- mária à Saúde. As perturbações do humor e da ansiedade estão presen- tes em 30 a 50% dos doentes com insônia, as doenças médicas e o abu- so de substâncias em 10%, sendo apenas 10% resultante de perturba- ções primárias do sono. No DSM-5 é eliminado o termo de insônia primá- ria, passando-se a designar por per- turbação de insônia. Muito tem se estudado sobre as fun- ções fisiológicas do sono. Em estu- dos de privação do sono e neuroi- magem, a ativação e desativação de determinadas áreas cerebrais, cujas funções são conhecidas, su- gerem que o sono possui impor- tante papel na consolidação dos processos de aprendizagem e me- mória, na regulação da temperatu- ra corporal, dos processos autonô- micos e do apetite. 4PERTURBAÇÕES DO SONO De fato, as necessidades individuais de sono para manter um nível diário adequado de vigília, bem como a sen- sibilidade e a capacidade de adapta- ção à privação de sono, são bastantes variáveis. A pesquisa Sono na Améri- ca mostrou que 69% dos norte-ame- ricanos adultos frequentemente ex- perimentam problemas de sono, esse levantamento evidenciou que cerca de dois terços dos indivíduos dormem em média menos de oito horas e um terço, menos de sete horas por noite. No Brasil, estima-se prevalência de 63% de queixas relacionadas ao sono, as mais frequentes sen- do roncos (61 %) e insônia (35%), sendo esta última mais comum en- tre aqueles com menor nível educa- cional. Muitas das diferenças encon- tradas na literatura devem-se à falta de padronização dos instrumentos de avaliação e dos critérios diagnósticos. Em vista disso, o sistema classifica- tório para os transtornos do sono é fundamental. Mais de metade dos adultos experi- mentam alguma vez, pelo menos de forma intermitente, alguma espécie de distúrbio do sono, que constitui, SAIBA MAIS! Hoje dormimos cerca de 25% menos do que nossos ancestrais dormiam um século atrás, embora não haja evidências de que tenhamos menor necessidade de sono. Novos estudos têm surgido esclarecendo pontos ainda em aberto na literatura científica. Trata-se, portanto, de tema constante de investigações. por isso, uma queixa muito frequente em medicina de família e comunidade. Tratando-se de uma necessidade bá- sica que ocupa cerca de uma terça parte das nossas vidas, o sono pode ser definido como um estado regular, recorrente, facilmente reversível, que se caracteriza por uma inatividade relativa e um acentuado aumento do limiar de resposta a estímulos exter- nos quando comparado com o estado de vigília. SE LIGA! O sono tem como função ge- ral a facilitação da organização funcional do cérebro. Ele é considerado saudável quando é de quantidade e qualidade su- ficiente para manter um nível ótimo de vigília durante o dia. O sono pode ser amplamente seg- mentado em sono de movimento rá- pido dos olhos (REM) e sono não REM (NREM). • Despertar: os adultos normal- mente ficam acordados por pelo menos dois terços do dia de 24 horas. Pistas comportamentais, in- cluindo olhos abertos, movimento e conversa, demonstram estado de 5PERTURBAÇÕES DO SONO alerta. No entanto, à medida que as atividades diminuem, as pessoas reclinam-se e fecham os olhos. É neste momento que as ondas ce- rebrais desaceleram para um ritmo alfa posterior estável. Esse ritmo é a ponte entre vigília e sono. Quan- do esse ritmo diminui ainda mais, o sono chegou. Alguns adultos não geram o ritmo alfa posterior, difi- cultando o estadiamento. • NREM (non rapid eye move- ment): a maioria dos adultos en- tra no sono a partir do estado de sonolência através do sono NREM. O sono NREM é dividido em três estágios: estágio N1, estágio N2 e estágio N3. É importante ressaltar que as regras mais antigas tinham quatro estágios de sono NREM; nas regras atuais, NREM estágio 3 e NREM estágio 4 são combina- dos como estágio N3. ◊ Fase 1: Estágio N1 do sono é a transição típica da vigília para o sono. É caracterizado por frequências de EEG mistas de baixa amplitude na faixa teta (4 a 7 Hz) por pelo menos 50 por cento da época. Os mo- vimentos dos olhos são nor- malmente lentos e ondulan- tes O estágio N1 é o estágio mais leve do sono; os pacien- tes despertados geralmente não percebem que estavam realmente dormindo. O sono no estágio N1 geralmente é responsável por 5 a 10 por cento ou menos do tempo to- tal de sono em adultos jovens. Um aumento da proporção do sono em estágio N1 durante uma polissonografia pode su- gerir um distúrbio de fragmen- tação do sono, como a apneia obstrutiva do sono. No entan- to, também pode representar um “efeito da primeira noite” de um paciente se adaptando psicologicamente ao monito- ramento em um laboratório do sono ◊ Fase 2: Estágio N2 geralmen- te compreende a maior por- centagem do tempo total de sono em um adulto normal de meia-idade, tipicamente 45 a 55 por cento da noite. É carac- terizada pela frequência theta do EEG. Os benzodiazepínicos aumentam o estágio N2 do sono. Normalmente, os ben- zodiazepínicos estão associa- dos ao aumento da atividade do fuso. ◊ Fases 3: Estágio N3 do sono é frequentemente referido como “sono profundo” ou “sono de ondas lentas”. É caracteriza- do por ondas de EEG delta de baixa frequência (0,5 a 2 Hz) e alta amplitude com amplitu- de >75 microvolts, compreen- dendo pelo menos 20 por cen- to de um determinado período 6PERTURBAÇÕES DO SONO de sono. O sono no estágio N3 normalmente é respon- sável por 10 a 20 por cento do tempo total de sono em adultos jovens a meia-idade e diminui com a idade. O es- tágio N3 tende a ocorrer mais na primeira metade da noite e principalmente no início da noite, uma vez que a ativida- de de ondas lentas durante o sono representa o impulso ho- meostático para dormir, que é máximo após o período de vi- gília. Freqüentemente, é mais difícil despertar os dormentes durante o estágio N3 do sono em comparação com os está- gios N1 e N2, e o estágio N3 é um período típico para a ocor- rência de parassonias NREM. No seu conjunto, a fase NREM tem uma função restauradora, participan- do na conservação da energia doorganismo e contribuindo para a termorregulação, sendo estimulada pela prática de exercícios físicos. • REM (rapid eyes movement): Acontece em cada uma 1 hora e 30 minutos a 2 horas de sono e dura cerca de 20 minutos (o que corresponde a quatro a cinco ve- zes por período total de sono, se este for de 8 horas), em que ocorre o maior afluxo de sangue ao cére- bro. Está particularmente rela- cionada com sonhos e fantasias e é fundamental para a recu- peração funcional do cérebro e para a consolidação mnésica. O sono REM é subdividido em sono REM fásico e sono REM tônico. O sono REM Fásico é a porção do sono REM durante a qual ocorrem surtos de movimentos rápidos dos olhos, que podem estar associados a breves surtos de atividade EMG (às vezes chamados de espasmos) e / ou aumentos repentinos na ati- vidade simpática. O sono REM tô- nico é a porção do sono REM que existe entre as explosões fásicas, nas quais o tônus muscular baixo é consistente. As designações de estágio discutidas acima não são baseadas apenas em EEG; parece haver diferenças fisioló- gicas entre os movimentos oculares não rápidos (NREM) e os movimen- tos oculares rápidos (REM). Em ge- ral, o sono NREM profundo (N3) ten- de a ser um período de estabilidade respiratória e cardiovascular. O sono REM está associado a mais irregulari- dades na frequência cardíaca, frequ- ência respiratória, pressão arterial e ventilação. 7PERTURBAÇÕES DO SONO SONO NREM SONO REM Sistema nervoso autónomo Tônus parassimpático aumentado Instável, surtos breves na ativida- de simpática e parassimpática Sistema cardiovascular A frequência cardíaca é lenta e regular A pressão arterial está mais baixa A frequência cardíaca é irregular Aumentos transitórios na pressão arterial Sistema respiratório Diminuição leve no impulso ven- tilatório em resposta à hipóxia e hipercapnia Taxa respiratória diminuída Diminuição significativa do im- pulso ventilatório em resposta à hipóxia e hipercapnia Aumento da frequência respiratória Regulação de temperatura Ponto de ajuste da temperatura hipotalâmica diminuída Mecanismos termorregulatórios reduzidos Sistema reprodutivo Ereções penianas Aumento do fluxo sanguíneo vaginal Sonhando Menos vívido Mais vívido, visualmente intenso Tabela 1. Efeitos fisiológicos do estágio do sono Fonte: 2020 UpToDate, Inc. 2. FATORES QUE INFLUENCIAM O SONO O sono pode ser influenciado por uma grande variedade de fatores, e as perturbações do sono podem apresentar-se e evoluir de várias ma- neiras, correspondendo também a di- ferentes abordagens para sua inter- pretação, compreensão, diagnóstico e tratamento. O médico de família e comunidade, devido ao seu lugar de proximidade com as pessoas e conhecedor do seu contexto rela- cional, socioprofissional e familiar, tem um papel absolutamente fun- damental na antecipação e avalia- ção das perturbações do sono. Ele leva em conta tais fatores, de modo a fazer uma correta abordagem do pro- blema, contribuindo para um rápido restabelecimento do bem-estar das pessoas, diminuindo as suas reper- cussões pessoais, familiares e so- cioprofissionais e estabelecendo um plano de acompanhamento adequa- do a curto, médio e longo prazo. Os principais fatores que influenciam o sono são: • Idade: Influencia nas horas de ne- cessidade de sono e no tipo de ci- clos (estrutura do sono). O adulto jovem dorme de 7 a 8 horas/dia e essa necessidade diminui com a idade até os 50 anos. A partir daí, a tendência é acordar várias ve- zes durante a noite, necessitando, assim, de mais horas de sono. O sono profundo diminui a partir dos 30 anos, podendo até chegar a desaparecer. 8PERTURBAÇÕES DO SONO • Ambiente: As temperaturas ex- tremas, o ruído (afeta sobretudo o sono profundo mesmo que não chegue a despertar), a luminosi- dade, a modificação frequente dos ritmos e horários de atividade, a mudança de fusos horários ( jetlag), todos esses fatores perturbam o sono. • Psicológicos: O estresse, a an- siedade, a depressão, a labilidade afetiva e de humor, a personali- dade neurótica. A dificuldade em adormecer é mais característica das situações de ansiedade, e a dificuldade em manter o sono e o despertar precoce são mais ca- racterísticos das perturbações depressivas. • Orgânicos: Os mais frequente- mente implicados nas perturba- ções do sono são a dor, a dispneia, a tosse, o prurido, a dispepsia, as alterações da micção, as cãibras musculares, a angina noturna, a asma, a hipertensão arterial e as alterações da tireoide. • Fármacos: As cafeínas (nomea- damente chá e café), o álcool, as anfetaminas, os corticoides, o pro- pranolol. Os antidepressivos tricí- clicos podem provocar mioclonias e cãibras. Outras substâncias e drogas de abuso. Principalmente o tabaco e os psicoestimulantes, como a cocaína. SAIBA MAIS! As alterações do sono induzem alterações na ativação do sistema nervoso autônomo, sen- do assim influenciada a PA. Das alterações do sono destacam-se a insónia, a síndrome das pernas inquietas, o movimento periódico dos membros durante o sono e a apneia do sono. Esta última condição, para além de promover o aumento da PA por alteração na ativação do sistema nervoso autónomo, também promove o aumento através de outros mecanismos: alterações na função renal devido à retenção de sódio, aumento do volume sanguíneo e ati- vação do SRAA; disfunção dos barorreceptores arteriais devido às variações constantes no ritmo cardíaco e PA; stress oxidativo por diminuição da produção de NO e consequente vaso- constrição; ativação de processos inflamatórios, em que elevados níveis de proteína C reativa, levam à disfunção endotelial, aterosclerose e consequente aumento da PA. Estes fatores de risco podem contribuir para o desenvolvimento da hipertensão arterial. 9PERTURBAÇÕES DO SONO Estresse, ansiedade, depressão, labilidade afetiva, humor, tipo de personalidade FATORES QUE INFLUENCIAM O SONO Cafeína, álcool, anfetaminas, corticoides, propranolol, antidepressivos tricíclicos Tabaco, cocaína, cannabis Dor, dispneia, tosse, prurido, dispepsia, alterações da micção, cãibras musculares, angina noturna, asma, hipertensão arterial alterações da tireoide Temperaturas extremas, ruído, luminosidade, alterações do ritmo circadiano Necessidade de dormir diminui com avançar de idade PSICOLÓGICOS FÁRMACOS DROGAS DE ABUSO ORGÂNICOS AMBIENTE IDADE 3. PRINCIPAIS TRANSTORNOS Podem-se classificar as perturbações do sono em primárias e secundárias. • Primárias: Correspondem a anor- malidades na quantidade ou qua- lidade do sono (dissônias, que po- dem ser insônias, se há diminuição do sono, ou hipersônia, se há aumento do sono), ou associa- das a acontecimentos comporta- mentais ou fisiológicos anormais (parassônias). • Secundárias: São consequência de perturbações psiquiátricas, mé- dicas ou ao uso de substâncias de abuso. 10PERTURBAÇÕES DO SONO Insônia Figura 1. Fonte: https://artritereumatoide.blog. br/o-que-fazer-em-caso-de-insonia/ Corresponde a 10% de todos os dis- túrbios do sono. É mais frequente nas mulheres e tem predisposição fami- liar. Apresenta-se normalmente por queixas de dificuldade em iniciar ou manter o sono, despertares precoces e “sono não repousante”, bem como queixas diurnas de sonolência, fadiga e falta de atenção. Deve distinguir-se da insônia secundária a perturbações psiquiátricas prévias, perturbações médicas ou como consequência do uso de substâncias. O tratamento deve ser iniciado por medidas não farmacológicas (serão mais exploradas a seguir), procuran- do estabelecer um horário regular do sono e do despertar e evitando o con- sumo de álcool ou de cafeínas (café, chá) a partir do fim da tarde, exercícios físicos intensos 2 horas antes de dor- mir (sexo pode ser exceção), sonecas durante o dia ou fazer sestas, assim como permanecer na cama sem von- tade de dormir. Se for necessário recorrer a fármacos para o tratamento de insôniainicial (dificuldade em pegar no sono), de- vem-se utilizar hipnóticos de meia- -vida curta (triazolam, loprazolam, estazolam, flunitrazepam, midazo- lam, zolpidem, entre outros) usando a mínima dose eficaz e por curto espa- ço de tempo (2-4 semanas). Se o pro- blema for essencialmente manter o sono (insônia intermédia ou terminal), pode-se admitir a utilização de hipnó- ticos de meia-vida média/prolongada (cloxazolam, alprazolam, bromaze- pam, nitrazepam, entre outros) pelo mais curto espaço de tempo possí- vel. A abordagem será aprofundada adiante. Referenciar, se persistir após 3 a 4 semanas de tratamento, ou se houver dúvidas no diagnóstico. Hipersônia primária Sonolência excessiva durante mais de 1 mês é evidenciada por períodos prolongados de sono ou por episó- dios de sono diurno quase diariamen- te. Afeta 1 a 5% dos adultos, inician- do normalmente entre os 15 e os 30 anos. A qualidade do sono noturno é normal, mas acontecem frequente- mente sonecas diurnas intencionais ou inadvertidas. O tratamento deve iniciar-se por medidas psicoeducativas de higie- ne do sono. Se necessário, recorrer a 11PERTURBAÇÕES DO SONO fármacos, devendo-se utilizar inibi- dores seletivos da recaptação da se- rotonina (ISRS), ou psicoestimulantes anfetamínicos. Em caso de dúvidas diagnósticas ou falha de tratamento ao fim de 4 semanas, justifica-se a referenciação. Figura 2. Fonte: https://dorminhoco.com/hipersonia/ Narcolepsia Sonolência excessiva diurna (causa- da ou associada a fármacos), com in- capacidade de se manter acordado, acompanhada de alterações do sono REM, diariamente, durante pelo me- nos 3 meses. Por vezes, está associa- da à catalepsia ou à paralisia do sono (incapacidade para executar movi- mentos voluntários, apesar de estar acordado e consciente, acontecendo na fase de adormecimento). Em todas as entidades, o diagnóstico é clínico, e o doente, assim como a família, deve ser aconselhado a manter a calma. No caso da paralisia do sono, o do- ente deve tentar focar em mover uma pequena parte do corpo até recupe- rar a movimentação. 12PERTURBAÇÕES DO SONO Todos os tipos de narcolepsia têm incidência familiar e iniciam-se fre- quentemente em adultos jovens. Em quase metade das vezes, está asso- ciada a situações de ansiedade gene- ralizada ou depressão. O tratamento SAIBA MAIS! Forte gatilho emocional Catalepsia parcial Catalepsia completa Fraqueza em face e pescoço Fraqueza em membros e tronco Figura 3. Catalepsia. Fonte:http://www.medicinadosonoam.com/wpcontent/uploads/2019/01/CATA.jpg] A catalepsia é uma condição, na grande maioria das vezes, transitória, na qual o paciente apresenta uma incapacidade total para mover os membros, a cabeça ou até falar. Em alguns casos, os eventos de catalepsia podem ser confundidos com a morte, pois a respiração tam- bém é afetada. Um episódio de catalepsia pode durar desde minutos a alguns dias, porém, habitualmente, dura entre 1 a 10 minutos. Normalmente, a catalepsia é desencadeada pela excitação emocional. A perda dos movimen- tos podem ocorrer devido à incapacidade de regular o sono e os estados de vigília. Durante o estágio REM do sono, há uma perda natural do tônus muscular. No caso da catalepsia, essa característica do sono REM ocorre subitamente durante o dia, causando fraqueza ou paralisia total, mesmo quando a pessoa permanece acordada durante o episódio. Os ataques podem variar em gravidade, desde uma breve sensação de fraqueza até um total colapso físico. As causas da catalepsia ainda permanecem desconhecidas em sua plenitude, apesar de ter- -se sobre elas algumas hipóteses e especulações. O problema tanto pode ter sua origem em um traumatismo craniano como em uma má formação congênita de alguma região cerebral ou, ainda, ser psicogenética. Ademais, ocorre mais em pacientes com distúrbios do sono e em epilépticos, podendo ser um tipo de manifestação de epilepsia em que a pessoa fica imóvel ao invés de apresentar convulsões. da narcolepsia passa por fomentar a prática de sestas periódicas ao longo do dia e, se necessário, recorrer a fár- macos. Devem ser utilizados estimu- lantes anfetamínicos ou antidepres- sivos tricíclicos supressores do REM 13PERTURBAÇÕES DO SONO (amitriptilina, nortriptilina). Em caso de dúvidas diagnósticas ou falha no tratamento ao fim de 4 semanas, jus- tifica-se a referenciação. Perturbações do sono relacionadas com a respiração Sonolência excessiva e/ou insônia de- corrente de anormalidades ventilató- rias durante o sono, sendo a principal, pela sua frequência e importância, a síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS). De início insidioso, atin- ge 1 a 10% da população adulta e cerca de metade das crianças, apare- cendo, na maior parte das vezes, em pessoas com mais de 40 anos. Tem tendência familiar e é mais frequen- te no sexo masculino, sendo a obe- sidade um importante fator de risco (outros fatores de risco são história de alergias, pólipos nasais, desvio do septo nasal e hipertrofia das amígda- las – sendo mais comum em crian- ças). É uma patologia importante, pois aumenta a resistência à insulina, aumentando o risco de acidente vas- cular cerebral (AVC) em 20% e o de infarto agudo do miocárdio (IAM) em 40%. O diagnóstico é feito de acordo com a informação dada pelo parceiro com quem dorme (ronco e apneia) e a aplicação da escala de Epworth, mas a confirmação obriga ao estudo do sono em laboratório específico, iden- tificando-se quando acontecem pelo menos cinco episódios de apneia ou hipopneia por hora (a respiração mantém-se, mas a ventilação diminui em 50%) ou 30 por período de sono. É importante ressaltar que respiração anormal ou ronco não é sinônimo de apneia. Figura 4. Obstrução respiratória típica da apnéia obstrutiva do sono. Fonte: https://www.politecsaude.com.br/produto/apneia-obstrutiva-do-sono/ 14PERTURBAÇÕES DO SONO O tratamento não farmacológico im- plica redução ponderal, não uso da posição supina na cama e exclusão de sedativos e álcool à noite. Tais medidas, por si só, melhoram a so- nolência diurna objetiva e a subjetiva, assim como resistência à insulina, re- duzem o risco cardiovascular e me- lhoram a qualidade de vida do doen- te, diminuindo o risco de acidentes de trânsito. Pode haver necessidade de cirurgia (uvulopalatoplastia, amigda- lectomia), principalmente em crian- ças. Esses casos devem ser sempre referenciados tanto para efeitos de diagnóstico como para tratamento médico (pressão positiva contínua na via aérea [CPAP, do inglês continuous positive airway pressure]) ou cirúrgi- co (otorrinolaringologia), em caso de persistência dos sintomas. Perturbações do ritmo circadiano do sono Nestas perturbações, incluem-se as induzidas pelas mudanças de fuso horário ( jetlag) ou pelas mudanças de turnos de trabalho e correspondem a um padrão persistente de distúrbio em que os tempos de sono e vigília estão atrasados relativamente ao de- sejável, por desajuste entre o sistema circadiano endógeno de sono-vigília e os quesitos exógenos. É mais fre- quente em pessoas idosas ou no fim da “meia-idade”, e a queixa principal é a dificuldade para adormecer à hora razoável. O tratamento é essencialmente não farmacológico, procurando adiar de forma gradual a hora de deitar-se durante alguns dias até conseguir dormir à hora desejada. Se absoluta- mente necessário, recorrer a fárma- cos, devendo-se utilizar hipnóticos de meia-vida curta (triazolam, zolpidem, alprazolam). Perturbações devidas a pesadelos Ocorrência repetida de sonhos assus- tadores que levam a despertares em que o indivíduo fica completamente alerta, podendo levar a evitar o sono com a consequente sonolência diur- na. Surgem na fase REM do sono e, por isso, quando necessário, devem ser utilizados antidepressivos tricícli- cos como fármacos de eleição (ami- triptilina, nortriptilina). Perturbações de terrores noturnos Semelhante às perturbações de pe- sadelos, são mais frequentesem crianças e correspondem à ocorrên- cia repetida de terror durante o sono levando a despertares incompletos e abruptos, geralmente iniciados por um grito de pânico e que quase nun- ca respondem às tentativas dos ou- tros para um completo despertar, vol- tando a adormecer com amnésia para 15PERTURBAÇÕES DO SONO o episódio de terror. Tem um padrão familiar e pode ser um primeiro sin- toma de epilepsia do lobo temporal. Esses casos devem ser referenciados para psicoterapia individual e, em al- guns casos, utilizadas baixas doses de diazepam. Figura 5. Pintura ilustrando o que se acreditava que era a origem dos terrores noturnos. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Terror_noturno Perturbações de sonambulismo Episódios repetidos de despertares incompletos no primeiro terço do pe- ríodo de sono, com franca diminuição do estado de alerta e responsividade aos estímulos exteriores, olhar vazio e relativa ausência à comunicação, e os indivíduos podem chegar a realizar ações simples (deambular, mastur- bar-se, despir-se, repetir certas pala- vras, sobretudo monossílabos). Esses casos devem ser referenciados à con- sulta de especialidade (psiquiatria). Parassônias não especificadas Parassonias são eventos físicos ou sensações indesejáveis que ocorrem durante o sono REM, o sono não REM (NREM) ou as transições do sono (in- clusive na transição sono vigília). Os eventos podem se manifestar como movimentos, comportamen- tos, emoções, percepções, sonhos ou mesmo atividades do sistema nervo- so autônomo. Com esta designação incluem-se: Mioclonias noturnas Contração abrupta e estereotipada de certos músculos das pernas durante o sono sem consciência por parte do indivíduo, levando a frequentes des- pertares e a sono não reparador. É muito frequente depois dos 65 anos e, se necessário, podem ser utilizados fármacos como benzodiazepínicos de meia-vida média/longa (diazepam), ou agentes colinérgicos (carbidopa, levodopa). Síndrome das pernas inquietas Intenso formigamento nos gastroc- nêmios ao sentar ou ao deitar, muito incomodativo, e que leva a um irre- sistível impulso de mover as pernas, interferindo na conciliação e na quali- dade do sono. 16PERTURBAÇÕES DO SONO SE LIGA! A síndrome das pernas in- quietas pode configurar o primeiro sinal de um quadro de aterosclerose. É também frequente nas pessoas mais velhas, podendo necessitar da utilização de fármacos, assim como as mioclonias noturnas, benzodiazepí- nicos de ação média/longa (diaze- pam) ou agentes colinérgicos (carbi- dopa,levodopa), ou, ainda, agonistas dopaminérgicos, como o pergolida e a bromocriptina. O bruxismo (ranger de dentes) e os sonilóquios (monólogos de poucas palavras e difícil compreensão) São fenômenos que podem aconte- cer em vários tipos de parassonias e não exigem particular atenção, de- vendo ser desvalorizados, exceto no caso do bruxismo, o qual pode, em casos extremos, ser objeto de corre- ção cirúrgica (ortodôntica). Perturbações secundárias do sono Induzidas por outras situações clí- nicas de natureza psiquiátrica (em geral, depressão ou ansiedade ge- neralizada) ou médica (mais frequen- temente neurológica, como doença de Parkinson ou coreia de Hunting- ton, endócrinas, com hiper ou hipoti- reoidismo, síndromes febris, doenças musculoesqueléticas particularmen- te dolorosas), por efeito de medica- mentos ou utilização de substâncias variadas, incluindo drogas de abuso. Podem caracterizar-se por insônia (forma de insônia mais frequente) ou hipersônia. Deve-se tratar a afecção principal. No entanto, a insônia pode manter-se mesmo após o tratamento bem-su- cedido da patologia principal, poden- do ser necessário tratar os dois jun- tos. Muitas vezes, a insônia precipita, exacerba ou prolonga outras comor- bidades, sendo que o seu tratamento pode também ajudar no tratamento da afecção principal. 17PERTURBAÇÕES DO SONO 4. AVALIAÇÃO CLÍNICA E DIAGNÓSTICA A anamnese deve ser a mais por- menorizada possível, a fim de se esclarecer se, de fato, se trata de uma verdadeira perturbação do sono, cole- tando o máximo de indicações quan- to à sua etiologia. Os fatores a serem PRINCIPAIS TRANSTORNOS DA ALTERAÇÃO DO SONO Insônia Hipersônia primária Narcolepsia Perturbação relacionadas com respiração Perturbações do ritmo circadiano do sono Perturbações devidas a pesadelos Perturbações de terrores noturnos Perturbações de sonambulismo Parassônias não especificadas Perturbações secundárias do sono Mioclonias noturnas Síndrome das pernas inquietas Bruxismos Sonilóquios Depressão e ansiedade Parkinson Hiper ou hipotireoidismo Síndromes febris 18PERTURBAÇÕES DO SONO levados em conta são, essencialmen- te, os seguintes: • História do sono. Rotinas ao dei- tar-se, horário do sono, tipo de atividades durante o dia, quando começaram as perturbações e de que tipo são, existência de ronco, episódios de sonolência diurna (pode ser avaliado por meio da es- cala de Epworth), sonecas ou ses- tas, impacto nas atividades do dia a dia. • História familiar de perturbações do sono. • Contexto familiar e social, situação de vida. • Humor. Existência de perturba- ção afetiva, como ansiedade ou depressão. • Estilo e hábitos de vida. Exercício físico, tabaco, álcool, café, chá, dro- gas, medicamentos, outras subs- tâncias (como as bebidas “energé- ticas” ou com guaraná). • Fatores ambientais. Ruído, luz, animais domésticos, temperaturas extremas. • Antecedentes pessoais e familiares. • Avaliação da história social e ocupacional. No exame físico deve-se realizar um exame físico geral, para detecção de possíveis causas orgânicas, como obesidade, processos obstru- tivos das vias aéreas, hiper e hipoti- reoidismo, patologia cardiovascular, doenças neurológicas, doenças de- generativas, doenças musculoesque- léticas, doenças infiltrativas. Uma vez que as perturbações do sono podem ser muito variadas e são múltiplos os fatores que podem contribuir para o seu aparecimento, são também muito variados os exames complementares de diagnóstico para o seu esclareci- mento. No entanto, podem ser úteis em casos selecionados e consoante a história e o exame físico: • Laboratoriais gerais, incluindo, par- ticularmente, hemograma, glice- mia, função tireóidea (tireotrofina [TSH] e tiroxina livre [T4L]), função renal (creatinina, microalbuminúria) e função hepática (gama-glutamil- transferase [γ-GT] transaminase glutâmico-oxalacética [TGO]). • Radiografia torácica. • Eletrocardiograma (ECG). • Tomografia computadorizada (TC) de crânio. • Laboratório do sono (em caso de suspeita de SAOS). Podem ser usados também tes- tes de rastreamento para depres- são e ansiedade, mas estes não substituem uma boa anamnese 19PERTURBAÇÕES DO SONO direcionada à investigação de transtornos psiquiátricos. A queixa de sonolência diurna deve ser dife- renciada de fadiga, caracterizada por cansaço, sensação de fraqueza ou falta de energia. A prevalência de so- nolência diurna excessiva é de apro- ximadamente 20% da população adulta. A sonolência diurna pode ser secundária a privação de sono, efeito de medicações, uso de drogas ilícitas, apneia obstrutiva do sono e transtor- nos psiquiátricos (as hipersonias de origem central primárias, como nar- colepsia, são menos comuns). É pos- sível avaliá-la por meio da Escala de Sonolência de Epworth. O ponto de corte dessa escala é de 10 pontos. QUAL A PROBABILIDADE DE VOCÊ COCHILAR OU DORMIR, E NÃO APENAS SE SENTIR CANSADO, NAS SEGUINTES SITUAÇÕES? Considere o modo de vida que você tem levado recentemente. Mesmo que você não tenha feito algumas destas coisas ultimamente, tente imaginar como elas o afetariam. Escolha o número mais apropriado para responder cada questão 0 = nunca cochilaria 1 = pequena probabilidade de cochilar 2 = probabilidade média de cochilar 3 = qrande probabilidade de cochilar Situação Probabilidade de cochilar Sentado elendo 0 1 2 3 Assistindo TV 0 1 2 3 Sentado, quieto, em um lugar público (por exemplo, em um teatro, reunião ou palestra) 0 1 2 3 Andando de carro por uma hora sem parar, como passageiro 0 1 2 3 Sentado quieto após o almoço sem bebida de álcool 0 1 2 3 Em um carro parado no trânsito por alguns minutos 0 1 2 3 Uma pontuação superior a 10 é compatível com sonolência excessiva. Tabela 2. Escala de Sonolência de Epworth A sonolência diurna pode ter conse- quências graves como acidentes au- tomobilísticos, mas também pode ser implicada em desempenho acadêmi- co e profissional abaixo da expecta- tiva, bem como ser confundida com déficit de atenção. Quando confirma- da a sonolência diurna, deve-se fazer o diagnóstico diferencial entre as di- versas condições que causam esse sintoma, algumas delas não consti- tuindo transtornos do sono propria- mente ditos. Quem acompanha o paciente duran- te o sono pode informar sobre dificul- dades respiratórias e movimentação 20PERTURBAÇÕES DO SONO anormal e sobre a presença de comorbidades clínicas, gerais ou neurológicas. PRINCIPAIS CAUSAS DE SONOLÊNCIA DIURNA Insônia Síndrome da apneia obstrutiva do sono Dor ou outros sintomas comprometendo o sono Privação de sono ou falta de tempo adequado para dormir (por exemplo, trabalhadores em turno) Narcolepsia Episódio depressivo Movimentos periódicos durante o sono Medicamentos (por exemplo, sedativos, betablo- queadores, inibidores seletivos da recaptação da serotonina) Hipotireoidismo Doenças neurológica Tabela 3. Principais causas de sonolência diurna. 5. TRATAMENTO Tratamento não farmacológico Diversos estudos demonstram a efi- cácia da terapia cognitivo-compor- tamental (TCC) no tratamento da in- sônia, sendo que esta é considerada por várias sociedades médicas como o tratamento padrão. A TCC tem re- velado uma eficácia comparável aos hipnóticos a curto-prazo, mas mais eficaz a longo-prazo (> seis meses), com manutenção dos ganhos alcan- çados (o que não se verificou com os hipnóticos) e uma eficácia compro- vada no tratamento da insônia em pacientes jovens, idosos e na insônia associada a outras patologias, nome- adamente depressão. Higiene do Sono: A higiene do sono inclui um conjunto de hábitos comportamentais que faci- litam o adormecer e a manutenção do sono, sendo um denominador comum em todas as intervenções terapêuti- cas utilizadas para as perturbações do sono. Esta é útil como coadjuvante de outras terapias cognitivas e/ou far- macológicas, não existindo dados so- bre a sua utilidade no tratamento da insônia aguda. Passos para higiene do sono: • Dormir apenas o tempo necessário para se sentir descansado. Se com 8 horas já se sente bem, evite dor- mir mais do que 8-9 horas, mesmo que não tenha compromisso no dia. • Crie uma rotina de acordar sempre no mesmo horário, independente se for fim de semana ou não e de ter tido insônia na noite anterior. Então, se o horário estabelecido for oito horas da manhã, policie-se para sempre acordar neste horário, mesmo que tenha dormido pouco por conta de insônia na noite an- terior (p.ex. 4 horas). Você pode passar o dia com sono, mas isso vai ajudá-lo a regular seu ciclo cir- cadiano (ciclo do sono). 21PERTURBAÇÕES DO SONO • Se você tem insônia à noite, re- comenda-se evitar tirar qualquer forma de cochilo ao longo do dia. Depois que o sono estiver normal, não há problemas em tirar peque- nos cochilos. • A prática regular de exercícios ajuda a regular o ciclo circadiano. Contudo, é importante que esses exercícios sejam feitos em horários distantes da hora de dormir. Evite fazer exercícios 4 horas ou menos antes de dormir. O melhor horário para a prática dos exercícios é pela manhã. • Mesmo que você não repare di- retamente, dormir em ambientes barulhentos diminui a qualidade do sono e pode levar a insônia. Se certifique de que o lugar em que você dorme não tem muitos baru- lhos. Se o lugar em que dorme for barulhento, recomenda-se com- prar um “tapa-ouvidos”. • Fazer um lanche leve antes da hora de dormir costuma ajudar muitas pessoas a dormir. • Tomar um banho quente antes de dormir. • Evitar ingerir qualquer tipo de esti- mulante depois das 18 horas. Es- timulantes mais comuns são: café, coca cola, guaraná, chimarrão e al- guns tipos de chá. • Evitar fazer atividades muito esti- mulantes na hora antes de dormir (p.ex. ver filmes de ação, games no computador/online). • Preferencialmente usar a cama apenas como lugar para dormir (evite trabalhar ou assistir televi- são na cama). • Antes de dormir, faça alguma forma de relaxamento (p.ex. respiração). • Caso você tenha ido para a cama e não tenha conseguido dormir em 20 minutos, é melhor sair da cama e dar uma volta antes de tentar novamente (pode ler por alguns minutos, assistir um pouco de TV, etc.). • Se tiver tentado dormir por duas vezes sem sucesso, recomenda- -se que vá para a cama e fique lá sem tentar dormir por 20 minutos. Se acabar dormindo, não tem pro- blema, mas a ideia é ir para a cama sem o objetivo de dormir. Terapia Cognitivo-Comportamental A TCC inclui diferentes estratégias, com o objetivo de identificar pensa- mentos, crenças e atitudes disfuncio- nais que perpetuam ou precipitam a insônia e substituí-los por comporta- mentos e cognições mais adequadas. Normalmente, consiste num progra- ma de quatro a oito sessões, por meio de uma abordagem com múltiplas es- tratégias, que inclui o controle de estí- mulo, restrição do sono, relaxamento, 22PERTURBAÇÕES DO SONO terapia cognitiva e intenção parado- xal. Alguns autores incluem a higie- ne do sono nas estratégias da TCC. A TCC tem eficácia comprovada no tratamento da insônia sem ou com comorbidades, com manutenção a longo prazo dos seus efeitos,sendo, assim, recomendada como primeira linha de tratamento na insônia sem comorbidades. A TCC em grupo tem-se mostrado eficaz no tratamento da insônia, as- sim como a TCC self-help. Este último tenta diminuir a dificuldade de aces- so dos pacientes a esta terapia, di- minuindo a necessidade de sessões presenciais com o terapeuta, utilizan- do, em substituição, livros, folhetos, vídeos ou internet. Controle de Estímulo O objetivo desta estratégia é auxiliar o indivíduo a associar a cama apenas ao sono ou atividade sexual e não a sentimentos negativos (como o medo de não conseguir dormir) ou outras atividades que possam interferir no sono. O controle de estímulo aumen- ta a qualidade do sono e tem efeitos mantidos a longo prazo. Restrição do Sono Alguns indivíduos com insônia per- manecem mais tempo na cama para tentarem recuperar o “sono perdido”. Isto acarreta uma maior dificuldade a iniciar o sono na noite seguinte e uma maior necessidade de permanecer na cama nas manhãs seguintes. Por meio desta estratégia, induz-se uma privação do sono temporária, reduzin- do voluntariamente o tempo passado na cama até a um nível que o paciente não está habituado. Esta restrição não deve ser, contudo, inferior a 5-5,5h. Esta estratégia está, geralmente, in- dicada para pacientes em que a ra- zão entre o tempo total que passam a dormir e o tempo total que passam na cama é inferior a 85% (esta razão é intitulada eficiência do sono), ou seja, naqueles que, apesar de estarem muitas horas na cama, têm tempo to- tal de sono baixo. Como efeitos ad- versos potenciais, a restrição do sono pode aumentar a sonolência diurna e diminuir o tempo de reação. Relaxamento As técnicas de relaxamento podem ser eficazes para reduzir a excitação fisiológica e psicológica e, assim, pro- mover o sono. Estas são mais efica- zes com o intuito de melhorar a fase inicial do sono, e deverão ser utiliza- das durante o dia, antes de deitar-se e no meio da noite se o paciente não conseguir dormir. Terapia CognitivaAs crenças, atitudes disfuncio- nais, preocupações ou expectativas 23PERTURBAÇÕES DO SONO irrealistas sobre o sono podem per- petuar a insônia, levando mesmo a um ciclo vicioso. O objetivo da terapia cognitiva é identificar essas crenças e atitudes disfuncionais e substituí- -las por outras mais adequadas. Esta estratégia deve ser aplicada por pro- fissionais especializados em terapia cognitiva. Intenção Paradoxal A intenção paradoxal tem como ob- jetivo diminuir a ansiedade associada ao medo de não conseguir adormecer ou não dormir o suficiente. O pacien- te é instruído a tentar não adormecer e manter-se acordado o maior tempo possível. Isto faz com que o paciente relaxe e acabe por adormecer. Exercício Físico O exercício físico parece ter um efeito benéfico na qualidade do sono, dimi- nuindo as queixas de insônia e o uso de medicação hipnótica. O exercício “agudo” (apenas uma sessão de ati- vidade física) parece ter benefícios leves a moderados na qualidade do sono, diminuindo a latência do sono e a ansiedade prévia a adormecer e aumentando a eficiência do sono e o tempo total de sono. Estes benefí- cios parecem ocorrer apenas após a prática de exercício aeróbio mode- rado (exemplo, uma caminhada) e não para exercícios aeróbicos inten- sos (exemplo, corrida) ou exercícios de resistência moderados (exemplo, musculação). Programas de exercício regular parecem mostrar, nas meta- -análises, melhorias semelhantes às encontradas para os hipnóticos, sen- do que a maioria dos estudos se refe- rem ao exercício aeróbico moderado. Todavia, deve-se evitar a sua realiza- ção duas horas antes de deitar-se. Acupuntura Estudos mostram que tem benefí- cios no tratamento da insônia, ao me- lhorar a manutenção e eficiência do sono. Contudo, devido à baixa qua- lidade metodológica dos estudos, a evidência atual não permite que se recomende a acupuntura como um tratamento eficaz. 24PERTURBAÇÕES DO SONO TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO Higiene do Sono • Dormir o tempo necessário para se sentir descansado (usualmente 7-8h nos adultos) e posteriormente levantar-se da cama; • Evitar olhar constantemente para as horas ao deitar; • Evitar excesso de líquidos ou refeições pesadas à noite; • Evitar cafeína, nicotina e álcool quatro a seis horas antes de ir para a cama, e minimizar o seu uso diário; • Manter um ambiente calmo, escuro, seguro e confortável no quarto quando for se deitar; • Evitar um ambiente ruidoso, com luz e temperatura adequada durante o sono; • Evitar o uso prolongado de TV, tablet, computadores ou celulares antes de dormir; • Tentar resolver as “preocupações” antes de se deitar; • Deitar e acordar todos os dias à mesma hora (±30min), incluindo fins-de-semana; • Evitar exercício vigoroso três a quatro horas antes de se deitar; • Evitar dormir durante o dia, especialmente se durar >20-30 minutos Controle de Estímulo • Ir para a cama apenas quando sentir sono; • Usar a cama/quarto só para dormir e para a atividade sexual; • Não ler, comer, ver TV, fazer telefonemas na cama; • Se não conseguir adormecer em 15-20 minutos, o paciente deve levantar-se e deslo- car-se para outro cômodo da casa e realizar tarefas calmas. Só deverá regressar à cama quando sentir sono. Repetir este passo todas as vezes necessárias; • Colocar o despertador/alarme para despertar à mesma hora todos os dias, incluindo fim-de-semana; • Não realizar sestas durante o dia. Restrição do Sono • Determinar o tempo de sono médio do paciente a partir do diário do sono; • Utilizar este tempo médio de sono como o novo período de sono concedido em cada noite; • Definir um tempo de vigília consistente com base no tipo de insônia e necessidade do paciente; • Evitar realizar sestas durante o dia; • Se a eficiência do sono aumentar acima de 90%, aumentar o tempo na cama de 15 a 30 minutos; • Se a eficiência do sono diminuir abaixo de 85%, em seguida, reduzir o tempo na cama de 15 a 30 minutos. Relaxamento • Relaxamento muscular progressivo • Relaxamento e tensão de diferentes grupos musculares do corpo. • Respiração profunda • Inclui respiração diafragmática. • Treino autogênico • Visualização de uma cena/imagem calma e repetição de frases que acalmem o paciente. • Meditação • Biofeedback Tabela 4. Tratamento não farmacológico 25PERTURBAÇÕES DO SONO Tratamento farmacológico Há dois grupos principais de hipnóti- cos: os benzodiazepínicos e os ago- nistas dos receptores dos benzodia- zepínicos. Em situações em que haja insônia com perturbação depressiva ou contraindicações para a utilização dos benzodiazepínicos, pode-se re- correr aos antidepressivos com efei- to hipnótico. A farmacoterapia deve ser considerada em situações agudas com necessidade de redução imedia- ta dos sintomas. A seleção do fármaco deve ter em consideração diferentes fatores como os sintomas, objetivos do tratamento, resposta a tratamen- tos prévios, preferências do paciente, custos, comorbilidades, contraindica- ções e efeitos secundários. SE LIGA! O tratamento deve ser inicia- do com a menor dose eficaz, no menor tempo possível. A medicação deve ser descontinuada gradualmente para evi- tar o efeito rebote. Se houver necessida- de de administrações durante um longo período, a administração dos fármacos deve ser intermitente, (por exemplo, três noites por semana), ou conforme haja necessidade. Fármacos Hipnóticos As benzodiazepinas (BZD) e fárma- cos análogos têm indicação no tra- tamento da insônia quando os sin- tomas assumem caráter patológico, pelo que não devem ser utilizadas por rotina no tratamento sintomático de insônias leves a moderadas. Não devem utilizar-se simultaneamen- te mais do que uma BZD hipnótica ou fármaco análogo. Previamente à prescrição de fármacos hipnóticos, o doente deverá ser informado sobre o risco de habituação, risco de síndrome de privação, risco de toxicidade com a ingestão concomitante de álcool e/ou sedativos, risco de interferir com as funções psicomotoras e risco de que- das (especialmente nos idosos). Agonista dos receptores das benzodiazepinas Estes fármacos produzem um efei- to hipnótico semelhante às benzo- diazepinas, tendo como exemplo o zolpidem. SUBSTÂNCIA ATIVA DOSE DIÁRIA (MG) INÍCIO DE AÇÃO DURAÇÃO DE AÇÃO SEMI-VIDA (HORAS) CONTRAINDICA- ÇÕES PRECAUÇÕES Zolpidem 5-10 Rápido Curta 1,5 a 2,4 • SAOS • Insuficiência pulmonar • Depressão respiratória • Miastenia gravis • IH grave • Psicose • Gravidez e aleitamento • Depressão • História de abuso de tóxicos • IH ou IR Idosos Tabela 5. Agonista dos receptores da benzodiazepina.] 26PERTURBAÇÕES DO SONO O uso deste fármaco está recomen- dado no tratamento da insônia a curto prazo, especialmente na insônia ini- cial. O zolpidem diminui a latência do sono e o número de despertares no- turnos e aumenta a duração e a quali- dade do sono. O tratamento com este fármaco deve ser curto, com duração média inferior a quatro semanas. Um ensaio clínico randomizado mostrou eficácia do zolpidem até oito meses de tratamento, mas sem melhoria nos parâmetros subjetivos relativamente ao placebo. Os efeitos secundários mais comuns são cefaleias, tonturas e sonolência. Em 2013, a US Food and Drug Ad- ministration recomendou o uso de uma dose menor que os 10mg/dia, especialmente em mulheres, vis- to que doses mais elevadas podem estar associadas a uma diminuição da capacidade de conduzir. Estudos mostraram que concentrações san- guíneas de 50ng/ml serão capazes de diminuir a capacidade de dirigir, sendo que estas doses se encontram em cerca de 15% das mulheres que tomaram zolpidem 10mg oito horas antes. Benzodiazepinas As BZD estão recomendadas apenas na fase aguda das queixas de insônia, na menor dose possível, com duração de duas a quatro semanas. Estes fár- macos diminuem a latência do sono e o número de despertares noturnos, aumentando a duração e qualida- de do sono. Adicionalmente, as BZD podem diminuir asqueixas de ansie- dade. Previamente à prescrição de BZD, dever-se-á avaliar a presença de causalidade ou comorbilidade fí- sica, abuso de álcool ou outras subs- tâncias, miastenia gravis, insuficiên- cia respiratória grave, apneia do sono, insuficiência hepática grave. Nos pa- cientes com queixas de insônia inicial dever-se-á utilizar uma BZD de curta ação e nos pacientes com queixas de dificuldade de manutenção do sono é preferível uma BZD com ação mais prolongada. O diazepam não deve ser utilizado, pois é de longa duração de ação e pode levar à acumulação de metabolitos ativos. 27PERTURBAÇÕES DO SONO Tabela 6. Título: Benzodiazepinas SUBSTÂNCIA ATIVA DOSE DIÁRIA (MG) DOSE DIÁ- RIA IDOSO (MG) INÍCIO DE AÇÃO DURAÇÃO DE AÇÃO SEMI-VIDA (HORAS) INTERAÇÃO CYP450 Triazolam 0,125-0,5 0,0625 -0,125 Rápido Curta 2-3 Sim Brotizolam 0,125 - 0,25 0,125 Rápido Curta - - Estazolam 1 - 2 0,5 Rápido Intermediária 10 – 24 Limitado Loprazolam 1 – 2 0,5 – 1 Rápido Intermediária - - Lorazepam 2 – 4 0,5 – 1 Intermediária Intermediária 10 – 20 Não Temazepam 10 – 20 10 Intermediária Intermediária 3 – 19 Não Flurazepam 15 – 30 15 Rápido Longo 47 – 100 Limitado Diazepam 5 – 10 5 Rápido Longo 20 – 50 Limitado Os efeitos adversos mais comuns são sedação matinal, incoordenação motora, perturbações mnésicas, so- nolência excessiva, atraso de tempo de reação, redução da libido e desi- nibição comportamental. Após duas a quatro semanas de utilização, au- menta o risco de desenvolver tolerân- cia, dependência física e psicológica e síndrome de privação. Esta síndrome pode durar até três semanas após a suspensão de BZD de longa ação e caracteriza-se pela presença de sin- tomas de ansiedade, perda de apetite, tremor, sudação e alterações percep- tuais. A maioria dos hipnóticos são depressores respiratórios, pelo que podem agravar a síndrome da apneia obstrutiva do sono ou hipoventilação. Antidepressivos Os antidepressivos sedativos são fár- macos comumente prescritos para o tratamento da insônia, embora con- clusões que comprovem a sua eficá- cia sejam limitadas. Geralmente, as doses utilizadas para indução do sono são inferiores às utilizadas no trata- mento da depressão. No momento atual, não há evidência que susten- te a sua eficácia na insônia sem co- morbilidades médicas ou psiquiátri- cas, contudo, podem estar indicados como primeira linha quando a insônia está associada a sintomas depressi- vos ou de ansiedade ou em pacientes com abuso de substâncias. 28PERTURBAÇÕES DO SONO SUBSTÂNCIA ATIVA DOSE DIÁRIA (MG) DOSE MÁ- XIMA DIÁ- RIA (MG) INÍCIO DE AÇÃO DURAÇÃO DE AÇÃO CONTRAINDICAÇÕES E PRECAÇÕES Agomelatina 25 50 - - • Disfunção hepática • Inibidores potentes CY- P1A2 (exemplo, fluvoxamina, ciprofloxacina) • Monitorizar as transaminases séri- cas durante o tratamento Amitriptilina 10 – 20 150 2 – 4 17 – 40 • Infarto Agudo do Miocárdio recente • Arritmias • Fase maníaca da doença bipolar • Doença hepática grave Mianserina 30 – 40 90 - - • História de epilepsia • Deve-se fazer controlea do hemo- grama ao fim de quatro semanas nos primeiros três meses Mirtazapina 15 15 1,2 – 1,6 20 – 40 • Epilepsia • Alterações da função hepática e renal • Hipotensão • História de retenção urinária • Glaucoma de ângulo aberto • Psicose • História de doença bipolar • Gravidez e aleitamento Trazodona 50 150 0,5 – 2 8 • Contraindicado - EAM recente • Epilepsia • Insuficiência hepática ou renal • Angina pectoris, distúrbios de con- dução ou bloqueios AV • Hipertireoidismo • Glaucoma de ângulo fechado agudo Tabela 7. Antidepressivos com efeito sedativo Trazodona Atualmente, não existe evidência sustentada da eficácia da trazodona no tratamento da insônia. Um estudo randomizado concluiu que a trazodo- na ao final de uma semana de utili- zação melhorou a latência do sono, duração total do sono e número de despertares noturnos quando com- parado com o placebo, contudo, na segunda semana de utilização não se verificaram diferenças entre a trazo- dona e o placebo. Por outro lado, na depressão com insônia comórbida, 29PERTURBAÇÕES DO SONO estudos verificaram melhoria da qua- lidade do sono e do número de des- pertares noturnos. Mirtazapina, Amitriptilina, Mianserina Não há evidência sustentada para a eficácia destes antidepressivos, não existindo estudos a longo prazo. Eles têm um potencial efeito benéfico na insônia associada à depressão. Agomelatina Tem um efeito potencial na regula- ção do ritmo circadiano nos pacientes com depressão. Verifica-se uma me- lhoria da qualidade do sono, redução da latência do sono e redução dos despertares noturnos em pacientes com depressão comorbida. Aparen- temente, tem menos efeitos secun- dários que outros antidepressivos, nomeadamente na disfunção sexual ou sintomas de descontinuação Antipsicóticos Não estão recomendados em pacien- tes sem psicose, dado que não há evidência comprovada da sua eficá- cia. Em relação à quetiapina, os be- nefícios no tratamento da insônia não superam os riscos potenciais da utili- zação do fármaco, mesmo em doen- tes com comorbidades, que possam justificar o seu uso Anti-histamínicos Não há evidência de que os anti-his- tamínicos melhorem as queixas de insônia. Por outro lado, podem cau- sar sedação no dia seguinte, assim como estão associados a efeitos se- cundários como diminuição do tempo de reação, diminuição da capacida- de cognitiva, delírio, alterações visu- ais, retenção urinária e constipação intestinal. Valeriana Atualmente, existe uma baixa evi- dência do benefício da utilização de valeriana no tratamento da insônia. Contudo, o uso deste fármaco, em al- guns estudos, parece ter algum efeito benéfico ao melhorar subjetivamente a qualidade do sono dos pacientes. Melatonina A melatonina apresenta efeitos mo- destos no tratamento da insônia sem comorbilidades, parecendo diminuir a latência do sono, aumentar o tempo total de sono e a qualidade do sono. Todavia, os efeitos observados são inferiores ao de outros tratamentos farmacológicos. A melatonina pode- rá ser uma escolha de tratamento na perturbação do sono relacionada com o ritmo circadiano 30PERTURBAÇÕES DO SONO • História de insônia • Qualidade do sono • Dificuldade em manter/ dificuldade em iniciar o sono • Diário do sono/ Hábitos de sono • Fármacos • Informação do acompanhante QUEIXAS DE ALTERAÇÃO DE SONO Perturbação do sono relacionada com a respiração (suspeitar) Roncopatia? Apneias? Duração > 1-3 meses Outra insônia especificada Insônia breve (suspeitar) Sonolência diurna excessiva? Comportamentos bizarros durante o sono? Cataplexia? Ataques repetidos e irresistíveis de sono? Pesadelos, terrores noturnos, sonambulismo? Parassônia (suspeitar) Narcolepsia (suspeitar) SIM NÃO NÃO SIM SIM SIM Duraçãooutras causas/ fatores para a insôniaReferenciar cuidados saúde secundários Fonte: Ribeiro NF. Tratamen- to da Insônia em Atenção Primária à Saúde. Rev Bras Med Família e Comunidade. 2016;11(38):1–14.] 31PERTURBAÇÕES DO SONO 6. PERTURBAÇÕES DO SONO EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES Nesta faixa etária, as perturbações do sono podem ter um significati- vo impacto negativo no desenvol- vimento da criança e na dinâmica e no equilíbrio familiar, sendo, por vezes, desvalorizadas ou erronea- mente interpretadas e abordadas. O padrão do sono em geral estabiliza aos 12 meses de idade (14-16 ho- ras de sono diárias), com diminuição progressiva das horas totais de sono (sobretudo pela diminuição do sono diurno), até estabilizar em 8 horas de sono no fim da adolescência. A histó- ria clínica é fundamental, e deve ser realizado um diário do sono durante 2 semanas para a melhor compreensão do problema. Lactente Pré-escolar Escolar Adolescente Adulto jovem Adulto Idoso Recomendado Pode ser apropriado Não recomendado Ho ra s d e so no Figura 6. Recomendações de duração do sono por idade da National Sleep Foundation. Fonte: 2020 UpToDate, Inc. e / ou suas afiliadas.] Insônia Muito variada na forma de apresenta- ção e abordagem consoante a idade da criança. • Bebês e crianças mais novas: As dificuldades em adormecer e os despertares noturnos são as queixas mais frequentes. Como o 32PERTURBAÇÕES DO SONO padrão de sono só se estabiliza a partir dos 12 meses, não deve ser considerado o diagnóstico de per- turbação do sono antes dessa ida- de. Todo o processo do sono nessa idade depende fundamentalmente das características temperamen- tais da criança, das condições ex- teriores e das atitudes paternais. A atitude do médico de família e comunidade deve ser principal- mente uma escuta empática das dificuldades dos pais, evitando a culpabilização e motivando-os para a criação de rotinas que in- cluam a regularização dos horários de sono da criança. A criança deve ser incentivada a adormecer sozi- nha e em quarto próprio, evitan- do o “coletivo” (excepcionalmente, pode ter indicação em bebês que são amamentados, estando, con- tudo, contraindicado em casos de tabagismo, alcoolismo e toxicode- pendência dos pais). Os eventuais rituais de adormecimento devem ser simplificados e pouco rígidos, podendo ser encorajada a utiliza- ção de objetos transicionais (ursi- nho de pelúcia, boneco preferido) que apoiam a criança no processo de separação dos pais na passa- gem da vigília para o sono. • Idade escolar: A manifestação mais comum é a resistência em ir dormir. O médico de família e co- munidade deve motivar os pais para o estabelecimento de regras de horário do sono, assim como devem assegurar um ambiente tranquilo no quarto de dormir da criança. Muito excepcionalmente pode haver necessidade de recor- rer a fármacos que devem ser utili- zados por um curto período, sendo os mais comuns a hidroxizina e o clonazepam. • Adolescentes: O médico de famí- lia e comunidade deve trabalhar com o adolescente e a família, de modo a, consensualmente, ser im- plementada uma boa higiene do sono, que passa por um rigoroso cumprimento de horário de sono (incluindo fins de semana), evitar bebidas estimulantes (café ou be- bidas com cafeína, bebidas “ener- géticas” ou com guaraná), evitar sestas diurnas e exercícios físicos intensos nas 6 horas antes de dei- tar e evitar ler ou ver televisão na cama. Uma perturbação que pode suceder é a delayed sleep pha- se syndrome, que corresponde a uma alteração fisiológica do rit- mo circadiano com dificuldade em adormecer a horas aconselháveis e que passa pela antecipação pro- gressiva da hora de acordar e de adormecer até alcançar o horário pretendido. 7. QUANDO REFERENCIAR Existem algumas especificidades re- lativamente ao tratamento da insônia 33PERTURBAÇÕES DO SONO no idoso, durante a gravidez, em pa- cientes com abuso crônico de álcool e em pacientes com depressão. São critérios de referenciação para os cui- dados de saúde secundários a per- turbação do sono relacionada com a respiração, sonolência diurna exces- siva, narcolepsia, parassonias, dúvi- das de diagnóstico, má resposta ao tratamento adequado (farmacológico ou não farmacológico) e referenciação para realização de TCC por profissio- nais especializados. Outras situações incluem: • Dificuldades ou dúvidas de diagnóstico. • Situações refratárias ao tratamen- to (mais de 1 mês). • Situações que exijam técnicas fi- siológicas (estudo da estrutura do sono) ou psicológicas específicas, ou ainda se houver necessidade de referenciamento imediato para outras especialidades, como psi- quiatria (suspeita de perturbação psicótica) ou otorrinolaringologia/ pneumologia (SAOS). 34PERTURBAÇÕES DO SONO Fatores que influenciam o sono: Anamnese Exame Físico Exames complementares Rastreamento para depressão e ansiedade Principais transtornos Tratamento Quando referenciar? Idade Ambiente Psicológicos Orgânicos Fármacos Rotina e história do sono Antecedentes familiares e pessoais Contexto familiar e social Fatores psicológicos e habito de vida Fatores ambientais Exame físico geral com atenção a causas orgânicas Laboratoriais gerais Radiografia torácica ECG TC de crânio Laboratorial de sono Avaliação clínica e diagnóstica Insônia Hipersônia primária Narcolepsia Perturbação relacionadas com respiração Perturbações do ritmo circadiano do sono Perturbações devidas a pesadelos Perturbações de terrores noturnos Perturbações de sonambulismo Parassônias não especificadas Perturbações secundárias Não farmacológico Farmacológico Higiene do sono Terapia cognitivo- comportamental Controle de estímulo Restrição do sono Relaxamento Exercício físico Benzodiazepínico Agonista dos receptores dos benzodiaze- pínicos Dificuldade ou dúvidas de diagnóstico Situações refratárias ao tratamento Situações que exijam técnicas fisiológicas ou psicológicas Encaminhamento para especialistas PERTURBAÇÕES DO SONO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE Definido por experiência subjetiva de sono inadequado, com dificuldade em iniciar ou na manutenção do sono, despertares precoces e “sono não reparador”, com repercussão no funcionamento socio-ocupacional diurno 35PERTURBAÇÕES DO SONO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GUSSO, G. et al. Tratado de medicina de família e comunidade. 2 ed. Porto Alegre. Artmed, 2019. DUNCAN, B. et al. Medicina Ambulatorial: condutas de atenção primária baseada em evi- dências. 4 ed. Porto Alegre. Artmed, 2013 Ribeiro NF. Tratamento da Insônia em Atenção Primária à Saúde. Rev Bras Med Família e Comunidade. 2016;11(38):1–14. Neves, Gisele SML; Macedo, Philippe; Gomes M da M. Transtornos do sono: Atualização (Parte 1 e 2). Rev Bras Neurol. 2018;54(1):32–8. Kiran Maski, MD. Insufficient sleep: Evaluation and management. 2020 UpToDate, Inc. Douglas Kirsch, MD, FAASM. Stages and architecture of normal sleep. 2020 UpToDate, Inc. 36PERTURBAÇÕES DO SONO