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1. INTRODUÇÃO
O estudo de caso ora apresentado foi elaborado com base no filme “psicose 4: A revelação”
1990 do cineasta Alfred Hitchacock. O filme se passa durante um programa de entrevista sobre
matricídio em uma rádio, aberto a participação do público. Norman decide participar do programa e
contar como cometeu o matricídio e relata como foi sua infância e seu conturbado relacionamento
com sua mãe. Norman passou por tratamentos psiquiátricos e revive a obsessão de matar novamente,
sendo a possível vítima a sua própria esposa que gesta um filho indesejado por ele, pois teme que
acriança se torne um “mostro” com o mesmo transtorno e tenha comportamentos homicidas assim
como ele.
 A vida escolar do Norman, a internação hospitalar, cidade e intervenções foram criadas pelo
grupo para discorrer sobre sua interação social e sobre um possível desfecho embasados na
sequência de fatos que o personagem retrata de sua infância. Ademais se usou recortes fidedignos
das lembranças do personagem narrada na entrevista feita pela locutora e o psiquiatra.
 Embora o filme apresente a vida do Norman numa sequência cronológica extensa e complexa,
o trabalho foi delimitado aos primeiros anos de vida e início da adolescência do personagem, com
objetivo de analisar a relação mãe e filho pelo viés da psicanálise.
Tendo em vista a importância do vínculo entre mãe e filho para estruturação da personalidade,
discutimos através do suspense a relação de Norman com sua mãe e como essa relação o levou a
desenvolver uma transtorno de personalidade, pois sabe-se que alguns indivíduos frente as pressões
iniciais da vida se saem bem enquanto outros desenvolvem na vida adulta alguma patologia. 
O filme nos instiga fazer algumas reflexões e discussões acerca do estabelecimento de vínculo:
O que faz uma pessoa chegar a vida adulta com desenvolvimento adequado das suas capacidades
psicológicas, emocionais, intelectuais, cognitivas e sociais? As privações ou excesso de carinhos e
atenção quando crianças atrapalham o desenvolvimento? Qual a importância dos vínculos afetivos
nos primeiros anos de vida? Indagações como estas impulsionaram o presente estudo. A primeira
experiência vincular de qualquer ser humano consiste na relação do bebê com seus primeiros
cuidadores, geralmente sua mãe e seu pai. Este vínculo é de vital importância para o
desenvolvimento saudável do sujeito, pois é através desta relação que o bebê será acolhido no seio
familiar e poderá vivenciar as primeiras experiências de satisfação de necessidades como, amor,
afeto, cuidado, segurança, e consequentemente vai norteando seu desenvolvimento psicossexual.
 Na psicanálise encontramos alguns pressupostos, como Winnicott (1999; 2011), que corrobora
na busca de respostas para tais indagações, possivelmente na demonstração que a família é
importante para o desenvolvimento da personalidade delineado pelo superego o que impede o sujeito
realizar seus desejos que não são aceitos pelo meio que está inserido. 
Segundo a psicanálise, os bons laços afetivos com os membros familiares fortalecem o
desenvolvimento, criando uma possível construção de uma infância saudável que será a base para
toda a vida. O estudo será norteado pelos teóricos que discursam sobre desenvolvimento psíquico,
vínculos, apego e desapego, como bem preceituam: Winnicott, Melanie Klein e John Bowlby, para
assimilar com aparato teórico a simbiose vivida nessa relação conturbada mãe e filho.
2. DADOS DE IDENTIFICAÇÃO
Nome: Norman
Idade: 12 anos
Sexo: Masculino
Série: Ensino Fundamental Incompleto
Escola: Estelita Tapajós
3. QUEIXA OU MOTIVO DA CONSULTA
Queixa principal: "relacionamento simbiótico com mãe falecida"
Início da queixa: matricídio.
Súbita ou progressiva: surto psicótico intenso
Quais as mudanças que ocorreram ou que afetou: ''ele não se controla se comporta como o
gênero oposto'', e o relacionamento social restrito.
Sintomas: alterações de domínios das próprias ações, e amnésias recorrentes.
4. HISTÓRIA DE VIDA
História Clínica
-doença crônica: ruptura da identidade pela presença de duas personalidades distintas
-enfrentamento: dificuldades em voltar a si no meio de algo que estava fazendo.
-sintomas psicológicos: lapsos na memória, fugas dissociativas.
História Familiar
A dinâmica familiar dava-se da seguinte maneira: O pai faleceu quando Norman tinha seis
anos de idade, e o mesmo relata que foi uma morte ''terrível''. Relata que durante o velório não sentia
tristeza, e não conseguia sentir nada, a não ser ficar preocupado ao vê a mãe vestida de luto. Norman
auxiliava a mãe nos afazeres domésticos. Conversava com a mãe, ia para o quarto, ficava sozinho. O
que a mãe pedia, fazia. Alegrava-se em obedecer às manias da mãe. Norman gostava de espionar a
mãe no orifício do quarto onde praticava masturbação.
 A mãe, ora o acolhia, ora o desprezava, chamando-o de querido e menina. O paciente relata
que fora trancado no guarda-roupa pela mãe, após ela ter percebido, que quando o abraçava, Norman
se excitava, e disse-lhe: ''Que era para esquecer o que tinha entre as pernas'‘.
Sua mãe levou um amante para residir em sua casa, e demonstrou atitude de reprovação ao
relacionamento da mãe, e tinha ciúmes cada vez que espionava a relação sexual da mãe e o
namorado. O paciente relata que de início, estava convicto de que poderia conviver bem com o novo
relacionamento da mãe. Depois, passou a não aceitar a união entre a mãe e o namorado, ''pois o
mesmo não era bom o suficiente para sua mãe'', (sic) e não hesitou em matar os amantes. 
História Social
Reside na cidade de Manaus. Funcionamento social restrito, emoções fortes, impulsos vistos
como enigmáticos quando enfrenta as pessoas. Atitudes, opiniões e preferências pessoais (p. ex.;
acessórios da mãe falecida) mudam subitamente repetidas vezes. O paciente começa a falar e agir
claramente diferente na mesma maneira como se a sua mãe ainda estivesse viva. Sempre mastiga
balas e doces em situações diversas. E tem dificuldades em relacionar-se com o sexo oposto.
Dados Escolares
Está matriculado na Escola Estelita Tapajós. Pela informação da escola, sempre foi um bom
aluno, cumpre as atividades de sala de aula, faz as tarefas de casa, tira boas notas. Contudo, a
diretora queixou-se, de seu comportamento: ''Ele não se controla se comporta como o gênero
oposto''. Além disso, ele tem dificuldades em conviver com outras crianças.
5. INSTRUMENTOS UTILIZADOS PARA UMA AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA
Foram utilizados a entrevista anamnese, exame psíquico e avaliação física. Na sessão
terapêutica, que é realizada duas vezes na semana com o paciente. Foi realizado o teste de Bender,
que é uma técnica para avaliar a possibilidade de uma disfunção cerebral. 
A seguir, decidiu-se usar o HTP, com um sentido exploratório. Aplicou-se o teste TAT e o teste
das Pirâmides coloridas de Pfister recomendados em caso desta natureza patológica. Tanto o HTP,
TAT, e o Pfister foram considerados adequados quando existe a hipótese do transtorno dissociativo
de identidade. O teste de Pensamento Criativo de Torrame para medir o Q.I do paciente. 
Como intervenção clínica usou-se a ludoterapia para elaborar os traumas emocionais e
desenvolver as habilidades cognitivas e sociais. 
A seguir foram acordadas na aliança terapêutica, que o atendimento da psicoterapia infantil,
seria realizado duas vezes semanais, por tempo não determinado, o que pode ser útil em um
momento de estresse do paciente, visto que o menino teve uma relação conturbada com a mãe. Foi
também conversado com o psiquiatra na clínica multidisciplinar sobre o uso de terapia
medicamentosa e anti – psicótico para tratar o transtorno emocional do paciente. 
6. HIPÓTESE DIAGNÓSTICA
O paciente veio encaminhado pela escola para fazer atendimento psicológico no setting
terapêutico na clínicamultidisciplinar. O processo terapêutico iniciou-se com entrevista inicial
usando os dados fornecidos pela escola, e por relatos flashbacks dissociativos do paciente. Todavia,
tais dados já permitiam rejeitar ou levantar determinadas hipóteses. Em primeiro lugar, pelas
informações dadas pelo paciente, foi possível examinar que o caso não atendia aos critérios
diagnósticos de um transtorno de conduta e o espectro de esquizofrenia. Em segundo lugar, com base
em informações, fornecidos pela própria escola sobre episódio do matricídio e o homicídio do
namorado da mãe, foi possível pressupor que estivesse apresentando uma paixão patológica. Sua
personalidade mórbida, e um relacionamento simbiótico com a mãe falecida, parecem ter
desenvolvendo uma série de sintomas a essa simbiose, que, por sua gravidade e instabilidade, fora
diagnosticado com um quadro de transtorno dissociativo de identidade DSM-5 300.14 (F44.81).
7. REFERENCIAL TEÓRICO
Pensar a infância de Norman permite-nos entender não somente a sua história, mas também as
diversas relações construídas em torno de sua psicodinâmica. Por isso, a importância de olharmos
para o seu significado, em seu contexto social, compreendendo os momentos (des) favoráveis para
este desenvolvimento. Como ser dinâmico, não há como entender a infância de Norman longe de
fatores (emocional e psicossocial) que contribuíram na construção do seu sentimento, concebidos
diante das necessidades estabelecidas tanto pela dinâmica familiar, como a dinâmica da escola, e a
hereditariedade. 
as considerações sobre a hereditariedade não deixam muito espaço para conclusões.
Presume-se que toda a hereditariedade se dê ao nível físico, mesmo quando a
consequência é psicológica (por exemplo, a tendência para a depressão ou para um
temperamento histérico transmitido à criança por um dos pais). (WINNICOTT 1990,
p.37)
Affonso (2012, p. 104), diz:
não basta o profissional analisar o histórico do desenvolvimento da criança e do
sintoma. É preciso também estudar as condições externas, sejam educacionais,
culturais ou sociais, que possibilitaram o aparecimento do sintoma, prevendo ou
tentando prever o curso do mesmo. (AFFONSO 2012, p. 104)
Para Winnicott (1990) falhas no ambiente em que a criança está inserida pode ter
consequências negativas no desenvolvimento infantil. O ambiente saudável pode ser propício para
um bom desenvolvimento da criança. A criança em sua faixa etária, no ambiente desestruturado, que
consegue enfrentar o comprometimento da hereditariedade, o desenvolvimento prossegue,
gradualmente, transformando-a em um individuo saudável, caso contrário a criança não tendo meios
para dar suporte necessário ao seu desenvolvimento, ela pode sofrer um adoecimento como
mecanismo de defesa.
Segundo Winnicott (1990) independente da criança desenvolver uma inteligência abaixo, ou
cima da média, à base para o intelecto é o emocional, o que pode está sujeita a crises psicóticas, se
houver emoção instável, não podendo cuidar de si mesma, e ter uma personalidade que não seja de
confiança para as pessoas que a cerca.
Bowlby (1997) fala da ambivalência entre mãe e filho e é atribuída a resolução do conflito
intrapsíquico entre os instintos sexuais e o ego. Tal conflito gera o sentimento de amor e ódio, por
existir um desejo não aceito socialmente, prevalecendo o superego com função de equilibrar os
impulsos e levá-los a sublimação ou mesmo criação de mecanismos de defesa. A regulação desse
desejo é de suprema importância em um desenvolvimento saudável da personalidade.
 se a criança seguir um caminho favorável, ela crescerá consciente de que existem,
em seu instinto ,impulsos contraditórios, mas estará apta a dirigi-los e controlá-los, e
a ansiedade e culpa que eles engendram será suportável. Se seu progresso for menos
favorável, a criança será assediada por impulsos sobre os quais sente não ter controle
ou ter controle inadequado. (BOWLBY 1997 p. 19)
Se a criança não tem mecanismos favoráveis para regular os seus impulsos e permitir o
desenvolvimento de vínculos com a figura parental com confiança e controle de seus desejos, ocorre
o risco que ela, para Bowlby (1997) “recorra aos incontáveis mecanismos psíquicos primitivos e
bastante ineficazes destinados a proteger seus entes queridos de danos e ela própria da forma de um
conflito que parece insolúvel por outros meios”.
Segundo Winnicott (1990) no complexo de Édipo existe um relacionamento triangular, onde a
criança elabora a relação entre o pai e a mãe. Na fantasia, quando se trata do menino, o alvo é a
relação amorosa com a mãe, possibilitando a morte simbólica do pai. A mãe necessita de realizar a
castração simbólica da criança, pois isso possibilita que o filho se torne um adulto maduro. A
criança desenvolve uma saúde mental equilibrada sem construir mecanismos de defesas como a
criação de sintomas. Em contrapartida, a criança pode desenvolver a ansiedade que surge em matar
o objeto do complexo de Édipo.
Segundo Klein (1996) quando uma criança comete um crime ela esconde no seu psíquico o
amor disfarçado de ódio. O que justifica para a criança criminosa é o seu motivo de ódio e espírito
destrutivo, o que traz certo alívio psicológico por não conseguir reconhecer o seu sentimento de
culpa. O que causa violentos mecanismos patológicos de natureza sádica.
De acordo com Winnicott (1990) a criança com distúrbios do desenvolvimento emocional,
tipo psicose, têm um amor implacável em reação à perda de objetos, mesmo sendo a causa de
fatores ambientais. A doença psicose ocorre no ambiente precoce, ou seja, antes do
desenvolvimento da criança em sua relação interpessoal com outras pessoas.
A estrutura da psicose tem como base um profundo conhecimento científico. Em particular a
psicose infantil que é um fenômeno generalizado, e bastante comum. Um profissional habilitado na
psicoterapia infantil é o mais indicado para trabalhar as defesas dos sintomas de uma criança que é
propícia a desenvolver um tipo de psicose nos seus estágios iniciais de desenvolvimento. Klein
(1996, p 268), diz:
uma das principais tarefas do analista de criança é a descoberta e a cura das psicoses
durante a infância. o conhecimento teórico adquirido dessa maneira sem dúvida seria
de grande valor para compreendermos a estrutura das psicoses e nos ajudaria a
estabelecer um diagnóstico diferenciador mais preciso entre as várias doenças.
(KLEIN 1996, p. 268)
Com base nesse referencial percebe que a personalidade de Norman foi influenciada pelo
objeto materno, e os fatores ambientais. O que possibilita notar que a estrutura da psicose é um
campo ainda muito discutido com pontos divergentes pelos profissionais da abordagem
psicanalítica.
 
8. RECOMENDAÇÕES E SUGESTÕES
É recomendado que o paciente Norman, prossiga a sua psicoterapia infantil por tempo
indeterminado, com duas sessões semanais, e que tenha apoio da escola. Uma sugestão que pode
ajudá-lo é trabalhar com o ego fragmentado na psicoterapia, matando a sua mãe na fantasia, ou por
ter sofrido um trauma emocional, a hipnose pode ajudá-lo a descrever a sua história de vida
esquecida e se desligar da relação simbiótica da mãe falecida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS – SÚMULA PSICOPATOLÓGICA
O estudo de caso mostra um menino obcecado pela mãe, e sente-se atraído sexualmente pela
figura materna a tal ponto de cometer o matricídio, o que gerou certo alívio psicológico, pois a mãe
não cedia o incesto, e por ciúmes causou a morte do namorado da mãe.
A estrutura é de uma psicose com a fixação na fase oral na mordedura que há sempre prejuízo
físico e psicológico no individuo. O paciente apresentava um complexo de Édipo tardio o que podia
ser identificado com o pai aprendendo os papéis masculinos. E por consequência, também
demonstravacomportamento infantilizado e teatral.
O transtorno de identidade dissociativa, tem origem no narcisismo, em que o individuo pela
fantasia deseja o objeto de imediato, e no caso do paciente Norman o desejo do objeto materno foi
proibido e destruído.
O transtorno dissociativo de identidade surge desde a infância quando a criança tem um
amiguinho imaginário, e esse amiguinho passa a está dentro dele, ou seja, passa a ser amiguinho
imaginário. 
Esse amiguinho aparece para dar um suporte emocional porque está em uma situação muito
caótica, muito abusiva, estressante. E esse amiguinho surge para tirá-lo da realidade muito
estressante para brincar. 
Nesse transtorno tem um alter ego infantil, ou seja, ser uma criança. Aparentemente no caso de
Norman, isso também acontece, pois há indicação que exista uma criança muito imatura. Pois o
próprio Norman é infantilizado nos trajetos, como mastigar uma bala.
REFERÊNCIA
AFFONSO, Rosa Maria Lopes. Ludodiagnóstico. Investigação clínica através do brinquedo.
Porto Alegre: Artmed, 2012
Bowlby, J. Formação e Rompimento dos Laços Afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 1997 
DSM-5. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre Artmed, 2014.
Klein, Melanie. Amor Culpa e Reparação. E outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Psicose IV. Direção: Mick Garris. Nova York: Estados Unidos, ano 1990. Disponível:

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