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Manual do Quarteirão Para moradores Projecto Maguezi Índice Introdução .................................................................................................................. 3 Fundamentação legal.............................................................................................. 4 Missão e objectivos de um quarteirão ............................................................... 6 A liderança do quarteirão ...................................................................................... 8 O Chefe do Quarteirão ....................................................................................... 8 O chefe adjunto .................................................................................................... 9 O chefe das 10 casas .......................................................................................... 9 Comissões de Trabalho .....................................................................................10 O papel da liderança no quarteirão ................................................................... 11 O papel dos moradores no quarteirão .............................................................. 13 Reuniões no quarteirão ......................................................................................... 17 Actividades no quarteirão ................................................................................... 20 Propósito de actividades no quarteirão ...................................................... 21 Identificação de recursos ................................................................................ 21 Diretrizes gerais ..................................................................................................... 23 Eventos festivos no quarteirão ..................................................................... 23 Falecimento no quarteirão ............................................................................. 24 Actividades industriais e Estabelecimentos comerciais ....................... 24 Pedidos e emissão de documentos .............................................................. 27 Consideraçoes finais ............................................................................................. 28 3 Introdução Esta brochura tem o propósito de ajudar os moradores dos órgãos locais a aprenderem e a cumprirem suas responsabilidades e seus deveres como cidadãos dentro do quarteirão. Todos os líderes e membros de uma localidade (bairro ou quarteirão) devem ajudar a cumprir os objectivos da nação de garantir a todas as pessoas “(...) a justiça social, qualidade de vida com a criação de bem-estar material, espiritual e gozo dos direitos humanos(...)”. (CRM, 2004). O objetivo é de ajudar os líderes locais nos seus objetivos de liderança local. O manual para os moradores trata do direito dos moradores á informação para o bem exercer da sua cidadania dentro dos quarteirões dos bairros municipais de moçambique. 4 Fundamentação legal Na República de Moçambique o direito de ter uma nacionalidade1 constitui fator chave para o exercício de cidadania. A nacionalidade inspira em si, o sentimento de pertencer a algum lugar2, onde nos vemos como parte de uma estrutura, um bem comum no qual todos temos de preservar, proteger3. Sendo uma nação, Moçambique tem como objectivos, melhorar o capital humano, social e o ambiente de governação4. Para o alcance destes e outros desafios, é necessário o envolvimento de todos, de forma ativa e organizada, na vida da comunidade, nomeadamente, os chefes locais e os moradores no geral. As estratégias de governação descentralizada e administração desconcentrada foram concebidas para promover o espírito de participação, solidariedade e colaboração entre os moradores das respectivas circunscrições territoriais organizadas por um agrupamento de famílias5 representadas por uma liderança. Nisto subentende-se que o líder local e as famílias são os seus próprios recursos internos e a eles se deve todo o foco. Ao observar a legislação nacional, consta que todas as comunidades, não importa quão pobres, têm recursos (muitos ainda por identificar) 1 Nº 1 do artigo 5 e nº1 do artigo 55, da Constituição da República. 2 Nº 1 e 2 do artigo 7, da Constituição da República. 3 Alíneas a), b), d) e e) do artigo 4 da Lei do Ambiente. 4 Agenda 2025; artigo 2 da Lei dos Órgãos Locais e artigo 6 da Lei das Autarquias Locais 5 Lei nº. 10/99, LFFB; Lei nº. 19/97, Lei de Terras 5 que podem ser explorados, de modo que eles, e toda a sociedade, possam se desenvolver. Os municípios, as províncias, os distritos, os postos administrativos, os bairros e os quarteirões foram criados com um fim e propósito. Aprender e cumprir nosso papel como moradores nestes lugares significa exercer nossa cidadania. 6 Missão e objectivos de um quarteirão Já sabemos que todos pertencemos a um lugar, e logo temos direitos, deveres e responsabilidades. Mas antes precisamos conhecer este lugar. Portanto, vamos conhecer uma das menores e mais básicas unidades da divisão administrativas do país – o quarteirão. Administrativamente o quarteirão é o menor espaço territorial inserido num bairro de um posto administrativo e este, inserido num distrito Municipal. Ele subdivide-se em casas6. A sua dimensão e ordenamento são definidos pelo Plano de Estrutura Urbana tendo em conta critérios de dimensão geográfica e demográfica.” O quarteirão é um espaço concebido com o objetivo garantir o bem- estar dos residentes, promover o desenvolvimento da comunidade e contribuir para a unidade nacional. Para o cumprimento de tal visão e missão, existe o poder local que no âmbito da autonomia administrativa goza da sua autoridade para criar, promover ações de desenvolvimento local, mobilizar, organizar e dinamizar a participação dos moradores nos trabalhos e actividades produtivas para a resolução dos problemas locais. O poder local é, portanto, a liderança dentro daquele órgão ou comunidade local. Em seu trabalho como como o poder local naquele órgão local, os chefes locais representam o Estado a nível local7. No 6 O Regulamento de Organização e Funcionamento das Estruturas Administrativas dos Bairros Municipais consagra, no seu capítulo I, a existência do “bairros e quarteirões”. 7 O quarteirão como órgão local do Estado têm como função à representação do Estado ao nível local para a administração e o desenvolvimento do respetivo território. Ao mesmo tempo, eles contribuem para a integração e unidade nacionais (art.º 262 da Constituição da República de Moçambique). 7 cumprimento de suas atribuições os chefes locais obedecem ao princípio de gestão do reconhecimento e valorização do saber local e da ampla participação dos indivíduos. Nesta perspectiva, os moradores podem participar devendo usar das suas capacidades físicas e intelectuais nas mesmas ações de desenvolvimento local. Neste sentido, o quarteirão é o órgão local de base criado dentro das estratégias de descentralização e desconcentração da administração pública de forma a conceder à iniciativa local ação mais ampla. 8 A liderança do quarteirão O Chefe do Quarteirão O chefe do quarteirão é autoridade da administração daquele escalão, representa, portanto, Poder local8. Ele é uma pessoa escolhida pela respectiva comunidade e que, trabalha em estreita colaboração com as autoridades locais para manter a ordem pública e garantir a segurança dos moradores. Para o alcance de tal capacidade, todos devem criar condições par que o chefe do quarteirão se sinta aceite e o ajudem a ser: a) Um líder, capaz de: • Criar um ambiente propício para que toda a comunidade fique motivada e dê o seumelhor em benefício do quarteirão; • Mostrar que todos os integrantes do quarteirão são importantes para o bom funcionamento do quarteirão; • Ouvir as preocupações/opiniões de todos; • Manter o quarteirão informado e envolvida no conjunto de actividades e tarefas planificadas; • Delegar responsabilidades e autoridade, para que o quarteirão possa ter iniciativas e procure sempre resolver os problemas que se apresentam ao quarteirão; • Produzir mudanças positivas que conduzam ao sucesso do quarteirão. b) Idóneo, zeloso e competente na resolução de problemas. 8 Artigo 271 CRM, 2004. 9 De acordo com as necessidades do quarteirão e a disponibilidade dos moradores, o Chefe do Quarteirão pode convidar pessoas para representar assuntos de natureza económica, social e cultural assim que determinar a necessidade delas. essas representações podem ser: o chefe adjunto, chefes de dez casas, e assuntos sociais. O chefe adjunto No exercício das suas funções o chefe do quarteirão é auxiliado por um chefe adjunto que ele escolhe entre os membros do quarteirão cujas tarefas são geralmente as seguintes: O chefe das 10 casas O quarteirão é organizado por um agrupamento de 10 casas com um chefe escolhido pelo chefe do quarteirão ou pelos moradores de cada grupo das Dez Casas e, ele tem as seguintes responsabilidades: a) Realizar reuniões com os moradores das Dez Casas para apresentação, debate e busca de soluções dos problemas do seu aglomerado habitacional e do quarteirão; b) Divulgar e garantir a implementação das decisões emanadas dos órgãos superiores aos moradores das Dez Casas; c) Acolher contribuições e sugestões dos moradores das Dez Casas e apresentá-las à estrutura imediatamente superior; d) Apoiar na resolução de conflitos sociais ou remeter a sua resolução para o Chefe de Quarteirão conforme a complexidade dos mesmos, desde que não sejam da competência do Tribunal; e) Dinamizar os trabalhos a nível das Dez Casas; 10 f) Informar as famílias das Dez Casas relativamente aos procedimentos administrativos a serem utilizados na obtenção de declarações comprovativas de residência quando questionado; g) Mobilizar os moradores para a boa conservação e utilização das infraestruturas, e higiene no seu aglomerado habitacional e no seu Quarteirão; Comissões de Trabalho Atendendo as necessidades, o chefe pode convidar moradores para formar comissões de trabalho, tendo cada comissão um representante, que se responsabilizará pela dinamização e acompanhamento das diferentes áreas actividades como: a) Cívica, que tem a ver com a educação cívica, convivência e justiça social; b) Social, que tem a ver com saúde pública, educação, cultura e solidariedade; c) Económica, que tem a ver com vias de acesso e drenagem, comércio, agricultura e pecuária familiar, bem como outros negócios; d) Recursos naturais, que tem a ver com aproveitamento da terra, recursos hídricos, florestas, fauna bravia e meio ambiente. 11 O papel da liderança no quarteirão Sob a direção do Secretariado do bairro ou de um membro do Posto Administrativo que supervisiona a área, a liderança local é designada com a tarefa de coordenar todas as atividades, programas económicos, sociais e culturais para a resolução dos problemas do quarteirão. Eles tem o dever de promover ações de desenvolvimento local, mobilizar, organizar e dinamizar a participação dos moradores nos trabalhos e actividades produtivas para a resolução dos problemas locais9. Nos seus esforços para cumprir com seus deveres e responsabilidades, os líderes dedicam tempo para: a) Conhecer a história local; b) Conhecer a situação socioeconômica local; c) Conhecer os moradores, suas necessidades e anseios; d) Reconhecer e valorizar a capacidade ou conhecimento local (quadros, estudantes, técnicos, conhecimento tradicional dos moradores). Na sua missão, os líderes ajudam os moradores a: 1. Conhecer seus deveres para com a comunidade de: a) Servir a comunidade (...), pondo ao seu serviço as suas capacidades físicas e intelectuais; b) Trabalhar na medida das suas possibilidades e capacidades; c) Pagar as contribuições e impostos; d) Zelar, nas suas relações (...) pela preservação dos valores culturais, pelo espírito de tolerância, de diálogo e, de uma maneira geral, contribuir para a promoção e educação cívicas; 9 Artigo 50 da Lei 8/2003 12 e) Defender e promover a saúde pública; f) Defender e conservar o ambiente; g) Defender e conservar o bem público e comunitário. 2. Realizar tarefas e programas económicos, sociais, culturais “e ambientais” de interesse local10: a) Promovendo de ações de desenvolvimento económico, social, cultural e “ambiental” locais11; b) Mobilizando e organizando a participação dos moradores nos trabalhos e actividades para a resolução dos problemas locais. 10 À semelhança do conselho de povoação o quarteirão, como órgão da autarquia local e parte de um bairro da administração municipal de um posto administrativo, não está isento da obrigatoriedade da criação de um programa de atividades para atender as necessidades locais. (Artigo 88 da Lei nº. 2/97, de 28 de maio, Lei das Autarquias Locais). 11 Artigo 271 CRM, 2004; Artigo 50 da Lei 8/2003 13 O papel dos moradores no quarteirão O quarteirão não é um limite administrativo, mas uma entidade cultural e antropológica, um lugar ao qual os moradores têm consciência de pertencer. Só com o senso de pertencimento é que se pode exercer a cidadania. Praticar um ato de cidadania é exercer uma participação (não apenas cooperar, mas ser protagonista) ativa na comunidade, visando promover o bem comum. Em seu bairro ou quarteirão, os líderes incentivam cada indivíduo, onde quer que residam, a apoiarem a missão do quarteirão e a desempenhar o papel de um bom cidadão12 sendo exemplar nos deveres de: a) Servir a comunidade nacional; Devemos sentir irmandade por todas as pessoas, especialmente por aqueles em nossa vizinhança, comunidade e nação. Devemos ser leais ao nosso próprio país e povo e fazer tudo o que pudermos a fim de ajudar nosso governo a atender às necessidades do povo. b) Trabalhar na medida das suas possibilidades, capacidades físicas e intelectuais; Toda pessoa tem o dever de trabalhar, dentro das suas capacidades e possibilidades, a fim de obter os recursos para a sua subsistência ou em benefício da coletividade. A capacidade, compromisso e esforço de suprir as necessidades vitais é um elemento essencial de bem-estar. Este esforço envolve educação, saúde, emprego, produção e armazenamento doméstico, e finanças familiares. Todo membro da comunidade deve se sentir incentivado a buscar estes ideais. 12 Deveres para com a comunidade (Artigo 45 CRM, 2004). 14 c) Pagar as contribuições e impostos; Toda pessoa tem o dever de pagar os impostos estabelecidos pela Lei para a manutenção dos serviços públicos. Quando os cidadãos de um país constantemente pagam seus impostos, esse país se tornará um lugar melhor para se viver, especialmente quando os líderes eleitos não são corruptos. Como um bom cidadão, não devemos esperar até que o governo nos pressione para pagar nossos impostos. Entenda que o pagamento de impostos é um dos nossos direitos humanos fundamentais; e torna-se um crime punível sempre que falhamos a este respeito. d) Preservar os valores culturais e contribuir para a promoção e educação cívicas; Valores culturais abrangem o conjunto de bens móveis, imóveis, saberes, fazeres, celebrações e expressões que possuem valor simbólico, histórico, cultural, arquitetónico, ambiental e afetivo para uma coletividade. Preservar os valores culturais inclui toda a ação de garantir a continuidade desses símbolos como herança comunitária. Os membrosde uma comunidade devem se sentir encorajados a criar manifestações culturais através de diversas formas (música, pintura, esculturas, trabalhos literários, fotografias, manifestações populares, dança, etc.); a promover o conhecimento cultural através de diversas formas de educação. e) Defender e promover a saúde pública; A compreensão da saúde pública é um componente crítico da boa cidadania e um pré-requisito para assumir a responsabilidade pela construção de sociedades saudáveis. Todo o cidadão pode defender e promover a saúde pública através de engajamento em ações 15 individuais, coletivas e comunitárias para melhorar o conhecimento, atitudes, habilidades e comportamentos em saúde. No geral, promover e defender a saúde é melhorar: • O estado de saúde de indivíduos, famílias, comunidades, estados e nação. • A qualidade de vida de todas as pessoas. f) Defender e conservar o ambiente; Todo o cidadão tem o direito de viver num ambiente equilibrado e o dever de o defender. A cidadania para a preservação do meio ambiente deve contemplar atividades e noções que contribuem para a conservação do meio ambiente. O meio ambiente é tudo aquilo que nos cerca, como a água, o solo, a vegetação, o clima, os animais, os seres humanos, todo o património natural, cultural e arquitetónico, o dentre outros. Defender e conservar o ambiente é tomar ações contra situações como: • O desaparecimento de espécies vegetais e animais; • A poluição do solo, da água e do ar; • A produção de resíduos; • A destruição dos ecossistemas aquáticos; • A desflorestação e a degradação da Terra. g) Defender e conservar o bem público e comunitário. Bens públicos são bens de titularidade do Estado, e outras que embora não pertençam ao estado, estão afetos à prestação de serviços públicos. As infraestruturas administrativas e equipamentos públicos constituem um património que deve ser 16 preservado e mantido para o bem-estar de todos os moradores13. Defender e conservar bens públicos e comunitários é valorizar e preservar • Rios, nascentes de águas, jazigos minerais, mares, estradas e pontes, ruas, praças e jardins públicos, linhas férreas e suas estações, espaços de produção (machambas)14; • Edifícios ou terrenos destinados a serviço ou estabelecimento da administração territorial ou municipal, portos e cais, barragens, represas, valas e canais, redes de distribuição de água e energia elétrica (postes e candeeiros de iluminação pública), postes de linhas telefónicas e telegráficas; • Monumentos, museus nacionais e obras de artes. 13 Os Artº. 43,44 e 69 do Código de Postura Municipal da Cidade de Nampula fazem menção de vários bens públicos a serem considerados também pelos moradores; Compete ao Chefe do Quarteirão, mobilizar para a boa conservação e utilização das infraestruturas a nível do Quarteirão (art.º. 11 alínea “g” da Resolução n.º 71 /AM/2011 de 22 de junho); 14 Horta em ambiente urbano ou rural nos quintais individuais ou familiares, lotes comunitários... (PIMENTEL, 2012). 17 Reuniões no quarteirão A interação entre os membros de uma comunidade local (quarteirão) é feita a partir de conselhos locais15, por meio dos quais os cidadãos participam e influenciam a tomada de decisões para o desenvolvimento local. O conselho do quarteirão é uma reunião aberta a participação de todos os moradores e seus representantes. É presidida pelo chefe do quarteirão e constituído por todos os segmentos do quarteirão (o chefe do quarteirão, os chefes adjuntos do quarteirão, os chefes das dez casas), e outros representantes indicados para execução de trabalhos deliberados durante o conselho. A reunião do quarteirão tem como principal propósito, fortalecer a confiança entre eles com as lideranças, manter o quarteirão informado e envolvido no conjunto de actividades e tarefas planificadas. Para o efeito, atribui-se16 aos Chefes de Quarteirão e outros líderes comunitários um papel fundamental na participação cidadã, sendo esta reunião uma oportunidade para: ✓ Apresentar, a partir de cada segmento socioeconômico, o cenário17 geral e mostrar as principais dificuldades e 15 O Conselho Local é um órgão de consulta das autoridades da administração local, na busca de soluções para questões que afectam a vida das populações, o seu bem-estar e o desenvolvimento sustentável, integrado e harmonioso. 16 Art. 7 e 9 da Resolução n.º 71 /AM/2011 de 22 de junho. 17 Como titular de Órgão Local, o Chefe do Quarteirão representa, no quarteirão, a autoridade central da administração do Estado (Lei 8/2003, Lei dos Órgãos Locais) e, no âmbito do conceito de “planificação participativa”, a prestação de contas do desempenho da ação governativa demonstra uma 18 oportunidades encontradas durante os encontros dos moradores com os líderes das dez casas e outras representações locais; ✓ Apresentar, a partir do registro das principais ideias e propostas de soluções colhidos dos moradores, um plano que estabeleça visão de futuro, propostas e projetos a serem implementados pela comunidade para o alcance do cenário desejado; ✓ Divulgar e garantir a implementação das decisões emanadas dos órgãos superiores aos moradores do Quarteirão; ✓ Quando conhecidas as ações para o alcance dos objetivos, fazer uma narrativa dos eventos e avanços mais importantes em cada um dos segmentos socioeconômicos identificados. governação participativa, capaz de promover a nível local a cidadania, a transparência, a abertura, o interesse em atender às necessidades dos munícipes e o melhoramento das condições de vida dos cidadãos. Ao exemplo do Presidente da república, o Chefe do Quarteirão dirige-se aos moradores e presta informações sobre a situação geral da nação (alíneas a e b do art.º 159 CRM, 2004); ou pronunciar-se sobre assuntos de interesse para os moradores, e sobre a execução de deliberações anteriores (Lei n.º 2/97, Lei das Autarquias Locais). 19 Legalmente18, compete a liderança: ✓ Acolher sugestões e contribuições dos moradores do Quarteirão e apresentá-las ao Secretário de Bairro; ✓ Dinamizar os trabalhos a nível do quarteirão e participar na solução dos problemas; ✓ Divulgar e garantir a implementação das decisões emanadas dos órgãos superiores aos moradores do Quarteirão; ✓ Mobilizar moradores para a boa conservação, utilização e higiene das suas casas; ✓ Zelar e colaborar na criação de uma convivência harmoniosa entre as famílias, boa-vizinhança, solidariedade, combate a comportamentos desviantes, cumprimento das obrigações comunitárias; ✓ Registar pessoas carenciadas, idosos desamparados e crianças órfãs. ✓ Estimular a escolarização da rapariga e a alfabetização de adultos. ✓ Incentivar manifestações de arte e cultura; ✓ Educar os moradores, para o conhecimento e cumprimento das suas obrigações fiscais (pagamento de taxas e impostos) e para o conhecimento, participação e controle da aplicação das receitas nas realizações municipais. 18 Resolução n.º 71 /AM/2011 de 22 de junho; Resolução nº 20/2018, de 26 de Outubro (Lei dos Bairros Municipais) 20 Actividades no quarteirão O quarteirão deve ser um lugar de realização de programas ou atividades de interesse local. Um bom quarteirão é aquele ande indivíduos, famílias e líderes agem dentro dos seus recursos, talentos, capacidades para implementar os planos de desenvolvimento económico, social e cultural a nível local. Para tal, líderes e moradores devem inteirar-se da situação socioeconômica local, identificar o seu potencial de recursos e se certificar da aplicação dos mesmos para atender as necessidades coletivas. Sob a direção do Secretariado do bairro ou de um membro do Posto Administrativo que supervisiona a área, a liderança local é designada com a tarefa de coordenar19 todas as atividades,programas económicos, sociais e culturais para a resolução dos problemas do quarteirão. Isso inclui: • Criar um plano de desenvolvimento do quarteirão que reflita as prioridades dos órgãos de escalões superiores. • Implementar o plano e gerenciar o trabalho de desenvolvimento económico, sociocultural e ambiental da comunidade adequadamente. O plano de atividades é um instrumento elaborado pela liderança em colaboração com os moradores20 e partes interessadas. Visa promover 19 Compete ao Chefe do Quarteirão, dinamizar os trabalhos a nível do Quarteirão (art. 9 alínea “a” da Resolução n.º 71 /AM/2011 de 22 de junho); 20 O plano de atividades um instrumento de planejamento mais próximo do morador que registra seus sonhos por melhor qualidade de vida. (art. 9 alínea “c” da Resolução n.º 71 /AM/2011 de 22 de junho); 21 e apoiar iniciativas locais de desenvolvimento num horizonte temporal. contém as regras e linhas gerais para a execução das principais ações durante os quais identificaram-se prioridades. Propósito de actividades no quarteirão O propósito das actividades no quarteirão é de fomentar a melhoria da qualidade de vida e a coesão social da comunidade, através da dinamização de diversos projetos e programas com vista à inclusão, promoção, capacitação e participação dos moradores. ✓ As atividades promovem competências pessoais e sociais, a motivação e autoestima ✓ As atividades devem ajudar os membros a sentir-se integrados uns com os outros, com seus líderes e com sua família. ✓ As atividades são um meio onde todos trabalham juntos para alcançar o conjunto de objetivos que trará as melhorias necessárias e ajudam os moradores a despertar o sentimento de solidariedade e unidade. Identificação de recursos Todos os quarteirões ou localidades estão repletos de capacidades, talentos ou habilidades a espera de serem explorados. Não importa quão pobres sejam, todos têm recursos21 (muitos ainda por identificar) que podem ser explorados, de modo que eles, e toda a sociedade, possam se 21 Deveres para com a comunidade (Artigo 45 CRM, 2004). 22 desenvolver. Para tal, é importante propor o que eu, você, nós podemos fazer, em vez de apontar o que os outros devem fazer. Em suma, podemos considerar como recursos: ✓ As instituições existentes na nossa circunscrição territorial (estabelecimentos comerciais, instituições de ensino e formação, instituições de saúde, etc.), ✓ Pessoas (capacidades, as habilidades e talentos) existentes no meio. ✓ Ao ter consciência do ambiente circundante, valorizar os talentos dentro do meio, estaremos mais preparados para planejar e realizar atividades que respeitem os anseios de todos para a melhoria do lugar a que eles pertencem. 23 Diretrizes gerais De acordo com a Lei Fundamental (CRM, 2004) todos tem o dever de zelar, nas suas relações pela preservação dos valores culturais e, de uma maneira geral, contribuir para a promoção e educação cívicas. Isto implica, manter uma postura cidadã de forma a zelar e colaborar na criação de uma convivência harmoniosa entre as famílias, boa- vizinhança, solidariedade, combate a comportamentos desviantes, cumprimento das obrigações comunitárias. Uma destas relações são, as celebrações ou comemorações que possuem valor histórico, cultural e afetivo para uma coletividade. Eventos festivos no quarteirão Comemorações e demais atividades festivas são marcos importantes na história do quarteirão e devem, portanto, ser marcados como memória local. Para os devidos efeitos, devem ser evitados atitudes e comportamentos antissociais que causam desconforto aos companheiros do quarteirão, com respeito a: ✓ Poluição sonora – garantindo o direito a um ambiente calmo e sossegado que a vizinhança tem para o exercício das suas actividades diárias, e ao silêncio noturno para o devido repouso. ✓ Poluição do ar e saneamento do meio – garantindo o direito de todos ter um ar sadio, livre de poluição pelo acondicionamento 24 adequado do lixo e não exposição de substancias toxicas no ambiente22. Falecimento no quarteirão Em situação de morte de morador, os membros do quarteirão devem dar toda a assistência à família dentro daquilo que lhe for possível. Caso o morador more sozinho, é necessário que se tome algumas providências até que se encontre um parente do falecido. No entanto, quando houver suspeita de falecimento no interior do imóvel, antes de invadir ou arrombar a unidade, o certo é acionar a polícia, para que esta possa acompanhar o procedimento, isentando o quarteirão de qualquer responsabilidade quanto à reparação civil. Actividades industriais e Estabelecimentos comerciais Vendedores, estabelecimentos comerciais e pequenas indústrias operando no quarteirão são activos (pontos fortes) a serem considerados como recursos para o alcance das necessidades dos moradores. No entanto, como forma de ajudar o Estado a manter um registro sobre os meios de vida, incluindo as formas de subsistência, 22 De acordo com o Código de Postura Municipal em vigor, é punida com a multa de dois/três salários mínimos nacionais, toda e qualquer forma de poluição através de ruídos ou sons, resíduos e efluentes domésticos, comerciais, industriais, emitidos na via pública ou a partir de locais de culto , desde que o acto e/ou efeitos sejam em quantidades tais que afectem negativamente o ambiente nos termos do nº 21 do artigo 1 da Lei nº 20/97, de 01 de Outubro. 25 recomenda-se que estas atividades tenham o seu registro na Câmara Municipal. Em Moçambique, as actividades e indústrias de pequena escala, e comerciais praticadas fora dos mercados (Barracas, Bancas, Quiosques, Take Away, Fast Food, Comércio ambulatório e Tendas)23 devem ser licenciadas de acordo com critérios gerais próprios ao exercício desse tipo de actividade. São consideradas actividades indústrias de pequena escala: a) Alfaiataria; b) Carpintaria; c) Artesanato de mobílias; d) Serralharia, bate-chapas e pintura; e) Latoaria; f) Oficinas de eletrodomésticos e aparelhos sonoros; g) Oficinas de motociclos e velocípedes; h) Estações de serviços e automóvel ou garagens; i) Bombas de combustível; j) Sapatarias; k) Barbearias; l) Relojoaria; m) Fotografia; n) Engraxador de sapatos; o) Fábrica de blocos; p) Fabrico de pão caseiro; q) Fábrica de bebidas caseiras; r) Lavadores de viaturas. 23 Código de Postura Municipal em vigor 26 s) Outras classificáveis de pequena escala. Nos quarteirões dos bairros é comum observar-se a prática do comércio nas varandas, garagens, e nos quintais das residências. Nos seus esforços de liderança, os líderes locais garantem que os proprietários de atividades comerciais e industriais nos quarteirões estejam devidamente legalizados24. O conselho local e as demais reuniões são boas oportunidades para apelar e certificar que todos estejam em conformidade com as posturas municipais. Para o efeito a liderança usa deste meio ou canal para divulgar demais políticas/estratégias ou programas25 disponíveis com vista a assegurar que os pequenos empreendimentos industriais e comerciais não só iniciem na comunidade, mas que também a se mantenham e prosperam. 24 Compete aos líderes locais garantir o cumprimento das posturas Municipais (art.º 5 alínea “c” da Resolução n.º 71 /AM/2011 de 22 de junho; Resolução nº 20/2018, de 26 de outubro - Regulamento de Organização e Funcionamento das Estruturas Administrativas dos Bairros Municipais). 25 Refere-se aqui aos demais incentivos no âmbito das estratégias de desenvolvimento da economia local que visam a facilitar o ambiente de negócios nos postos administrativos; actores que intervêm no apoio e atendimento às pessoas, grupos sociais e famílias em situação de vulnerabilidade.27 Pedidos e emissão de documentos Ao cumprir seus deveres, o Estado protege nossos direitos como cidadãos. Um desses direitos, é o do acesso26 aos demais serviços públicos ou privados que exijam de nós informação fidedigna sobre nossa proveniência. O chefe de quarteirão e o de 10 casas são indispensáveis quando se quer tratar alguma declaração que comprove a nossa proveniência. Por questões de segurança, o chefe de quarteirão e o de 10 casas são responsáveis por informar sobre o desempenho dos moradores, se o seu comportamento perturba, ou não, a ordem e unidade local. Depois de passar pelo chefe de quarteirão e/ou o de 10 casas, o secretário de bairro pode emitir declarações para vários efeitos, pedidas pelos moradores sempre que estes pretendam tratar assuntos de seu interesse. Ao se dirigir ao Secretário do bairro, chefe de quarteirão e/ou de 10 casas, os moradores devem estar prontos para demonstrar que observam suas recomendações de pagar impostos como o Imposto Pessoal Autárquico (IPA) e/ou outras taxas. 26 A Constituição da República de Moçambique estabelece um estado de Direito que preconiza a edificação de uma sociedade de Justiça social e equidade, bem-estar social, de promoção e defesa dos direitos humanos e de igualdade dos cidadãos perante a Lei. 28 Consideraçoes finais A obra apresentada visa aprofundar o conhecimento sobre quarteirões urbanos e promover uma reflexão crítica sobre a cidadania nesses espaços. Seu objetivo principal é não apenas informar, mas também inspirar os leitores a se tornarem agentes ativos na transformação de suas comunidades, destacando a importância de assumir uma postura proativa em relação às responsabilidades sociais e cívicas. O texto se propõe a ser mais do que uma simples referência; é um estímulo à motivação contínua e engajamento dos moradores em ações que visem a melhoria de seus ambientes. Além disso, o livro almeja cultivar líderes, educadores e visionários que se dediquem à construção de quarteirões que sejam seguros, sustentáveis e inclusivos. A obra enfatiza a necessidade de trabalhar na inovação e criar espaços que não só garantam a segurança, mas que também promovam saúde, educação, cultura, saneamento e autossuficiência. Com isso, busca-se garantir o bem-estar de todos os residentes e fomentar um senso de comunidade mais coeso e colaborativo.