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BARRAGENS DE CONCRETO, TERRA, ENROCAMENTO, REJEITOS DE MINERAÇÃO E RESÍDUOS INDUSTRIAIS Elaboração Eliane Roberto Ferreira Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................................................................................................... 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA ................................................................................................. 5 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................................................................. 7 UNIDADE I INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS ..................................................................... 9 CAPÍTULO 1 AGREGADOS E PROCESSO DE OBTENÇÃO .............................................................................................................................................. 9 CAPÍTULO 2 TIPOS, CARACTERIZAÇÃO E REQUISITOS PARA EXECUÇÃO DE BARRAGENS ..................................................................... 30 CAPÍTULO 3 CIMENTO PORTLAND: TIPOS, PROCESSO DE PRODUÇÃO, CARACTERIZAÇÃO E REQUISITOS ..................................... 32 CAPÍTULO 4 ADIÇÕES MINERAIS E ADITIVOS QUÍMICOS .......................................................................................................................................... 36 UNIDADE II CONTROLE TECNOLÓGICO ............................................................................................................................................................................................ 44 CAPÍTULO 1 CONCEITOS DE DOSAGEM ............................................................................................................................................................................. 44 CAPÍTULO 2 CONCRETO BOMBEÁVEL E DOSAGEM EXPERIMENTAL DE CCR .................................................................................................. 63 CAPÍTULO 3 MATERIAIS GEOSSINTÉTICOS PARA BARRAGENS ............................................................................................................................ 69 UNIDADE III CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS ................................................................................................................. 75 CAPÍTULO 1 BARRAGENS DE CONCRETO ......................................................................................................................................................................... 78 CAPÍTULO 2 BARRAGENS DE TERRA E ENROCAMENTO ........................................................................................................................................... 85 CAPÍTULO 3 BARRAGENS DE CONCRETO COMPACTADO A ROLO – CCR ............................................................................................................ 93 UNIDADE IV PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS ........................................................................................................................ 102 CAPÍTULO 1 REJEITOS DE MINERAÇÃO: PROBLEMAS E ALTERNATIVAS ......................................................................................................... 104 CAPÍTULO 2 RESÍDUOS INDUSTRIAIS: PROBLEMAS E REAPROVEITAMENTO ................................................................................................ 112 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................................................................... 118 4 APRESENTAÇÃO Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico- tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 6 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/ conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 INTRODUÇÃO O presente material está organizado em quatro sessões, que tratarão sobre barragens de concreto, terra, enrocamento, rejeitos de mineração e resíduos industriais, perpassando por assuntos como materiais de construção civil utilizados na execução de barragens, controle tecnológico das barragens abarcando conceitos de dosagem e materiais geossintéticos para sua implementação. Ademais, abordará os critérios e metodologias para o projeto de barragens de concreto e enrocamento, e, por fim, serão contemplados os problemas associados à má execução das obras de barragem e alternativas possíveis a fim de solucioná-los. É importante apontar que, no Brasil, que apresenta uma das maiores reservas de água potável do mundo, a problemática de escassez da água tem se configurado como grande desafio para sobrevivência humana, especialmente nas localizações em que os períodos de estiagem são mais prolongados ou, ainda, as águas são contaminadas. Dessa forma, uma boa alternativa é a construção de barragens que consiste, basicamente, na captação e no armazenamento de água das chuvas, permitindo, assim, o abastecimento de áreas amplamente povoadas e viabilizando a atividade agrícola. Para boa implantação e uso dessas barragens, são fundamentaisbetuminosos; » preparação de argamassas betuminosas; » preparação de concretos hidrocarbonatos; adição a cimentos; » fabricação de borracha artificial; » adição a concretos com consumos baixos de cimento para colmatar os vazios. O filler possui propriedades que corrigem os finos da areia e melhoram a qualidade e a durabilidade do concreto, quando presentes em pequenas quantidades. Entre as propriedades de melhor desempenho, estão: a trabalhabilidade, a massa específica, a permeabilidade, a exsudação e a tendência à fissuração (NEVILLE, 1995 apud DAL MOLIN, 2005). 38 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS Outros tipos de adições minerais que podem ser citados são os materiais com características não reativas, que possuem a finalidade específica de dar cor às argamassas e concretos, como o pó de tijolo. Metacaulim O metacaulim é originado da calcinação do rejeito do beneficiamento do caulim, sendo um subproduto sílico-aluminoso proveniente da calcinação de argilas cauliníticas entre 600°C e 900°C. Após esse tratamento térmico, que é precedido pela lavagem da argila caulinítica para remoção de impurezas não reativas, forma-se, a partir dos argilominerais, um componente amorfo e de grande instabilidade química: a metacaulinita, que é responsável pela atividade pozolânica. O processo de produção é rigorosamente controlado, razão pela qual se obtém um produto de alta pureza e reatividade. Segundo Dal Molin (2005), convencionou-se chamar o metacaulim proveniente de argilas extremamente finas – com elevados teores de caulinita – de metacaulim de alta reatividade (MCAR). O MCAR também pode ser obtido por meio do tratamento do resíduo da indústria produtora de cobertura de papel. O metacaulim constitui-se basicamente de sílica e alumínio no estado amorfo, que reagem com o hidróxido de cálcio produzido pela hidratação do cimento Portland para formar silicato de cálcio hidratado (C-S-H) e hidroaluminosilicato de cálcio. Sabe-se que a incorporação de metacaulim em pastas de cimento Portland contribui para o aumento da resistência à compressão e durabilidade, pois proporciona a formação de uma estrutura de poros de tamanhos menores. Suas propriedades físicas e químicas melhoram as propriedades mecânicas dos concretos. Na definição de Helene et al. (2003) apud Tavares (2008), o metacaulim é um produto constituído principalmente por compostos à base de sílica e alumina na fase vítrea (amorfa), proporcionando alta reatividade com o hidróxido de cálcio presente no concreto, sendo recomendado para uso indiscriminado em concretos de cimento Portland. Rocha (2005) cita que a alta reatividade do metacaulim se explica por sua reação química com o hidróxido de cálcio livre presente na pasta de cimento, associada à sua finura, que produz o efeito de micropreenchimento de poros da mistura. Sílica Ativa A sílica ativa, também conhecida como sílica de fumo, sílica volatilizada ou microssílica, é um material relativamente recente cuja utilização na indústria do concreto tem crescido muito desde a década de 1980 (MALHOTRA; MEHTA, 1996). A sílica ativa é um subproduto da produção do silício metálico (utilizado na fabricação de componentes 39 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I eletrônicos, silicones e alumínio), das ligas de ferro-silício (utilizadas na produção de aços comuns) e de outras ligas de silício, produzidos em grandes fornos de fusão, do tipo arco elétrico. Um arco elétrico é resultante de uma ruptura dielétrica de um gás, a qual produz uma descarga de plasma resultante de um fluxo de corrente em meio normalmente isolante, tal como o ar. O arco ocorre em um espaço preenchido de gás entre dois eletrodos condutivos (frequentemente feitos de carbono), e isso resulta em uma temperatura muito alta capaz de fundir ou vaporizar virtualmente qualquer coisa, inclusive o quartzo. Durante a redução da sílica, quartzo de elevada pureza e carvão são introduzidos em forno elétrico no qual, dentro do arco elétrico, um gás (monóxido de silício gasoso – SiO) é produzido e escapa para a parte superior da carga. Esse gás se resfria, condensa e oxida na forma de sílica (SiO2), que é captada por filtros de manga antes da sua saída para a atmosfera, sendo devidamente armazenada para a sua posterior utilização. Nessa forma amorfa, as partículas são extremamente reativas, e o seu pequeno tamanho relativo facilita a reação química com o Ca(OH)2 produzido na hidratação do cimento Portland (KORMANN et al., 2001). Há diferentes tipos de sílica ativa com relação a composição química, cor, distribuição granulométrica e outras características. Essa variação existe em função do tipo de liga produzida, do tipo de forno, da composição química e da dosagem das matérias-primas. Muito usada em concretos de alto desempenho, a sílica ativa é umas das adições minerais de maior reatividade graças ao tamanho extremamente pequeno de suas partículas e à sua natureza amorfa. Suas partículas são esféricas, de diâmetro cem vezes menor que o do cimento. Por terem uma área específica elevada e granulometria mais fina que os cimentos, as partículas da sílica ativa densificam a zona de transição por ação física e química, gerando uma microestrutura mais densa e homogênea, com reduzido volume de vazios. Para o aproveitamento ideal desse material altamente pozolânico, faz-se necessária a utilização de aditivos redutores de água, pois sua finíssima distribuição granulométrica tende a provocar um considerável consumo de água no concreto. Em composições cimentícias, a sílica ativa tem sido utilizada para aumentar a resistência mecânica e a compacidade, graças à ocorrência de reações pozolânicas e ao efeito físico filler. As reações pozolânicas ocorrem devido à interação com o hidróxido de cálcio do cimento, produzindo silicato de cálcio hidratado (C-S-H), material mais resistente e estável que favorece a durabilidade dos compósitos, aumentando a resistência e diminuindo a permeabilidade do sistema devido ao processo de refinamento dos poros. Já o efeito filler ocorre em função da diminuição da porosidade total do sistema 40 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS promovida pelo preenchimento dos vazios de empacotamento, de poros capilares e de gel (ROMANO et al., 2006). No concreto fresco, a introdução de sílica ativa contribui para a diminuição da exsudação e da segregação, sendo o uso de plastificantes e superplastificantes necessário para garantir a trabalhabilidade da mistura. O efeito físico do empacotamento das finíssimas partículas da sílica ativa provoca a redução dos espaços vazios e consequentemente do consumo de água necessário para dar plasticidade ao sistema. No concreto endurecido, a adição de sílica ativa em proporções adequadas aumenta a resistência à compressão dos concretos. A permeabilidade e a porosidade são diminuídas, aumentando a resistência aos agentes agressivos, uma vez que as finas partículas da sílica ativa ocupam os vazios entre as partículas do cimento e do agregado, tornando o conjunto mais denso (COUTINHO, 1997). Cinzas volantes Cinzas volantes são pequenas partículas coletadas por sistemas antipó das usinas termelétricas que queimam carvão a altas temperaturas. Segundo Neville (1982), elas são as cinzas precipitadas eletrostaticamente dos fumos de exaustão de centrais termoelétricas a carvão, constituindo-se nas pozolanas artificiais mais comuns. Nas usinas termelétricas, o carvão mineral é utilizado para aquecimento da água de circulação do sistema e consequente geração de vapor para movimentação das turbinas a fim de produzir energia elétrica. Seu consumo é responsável pela geração de cinzas, resultantes da queima do carvão mineral em fornalhas de aquecimento. Ao passar pelas zonas de altas temperaturas na fornalha, materiais voláteis e carbono são queimados, enquanto a maior partedas impurezas minerais se funde e permanece em suspensão no gás dos tubos de exaustão. Ao deixarem a zona de combustão, as partículas fundentes de cinzas são resfriadas rapidamente e se solidificam na forma de partículas esféricas e vítreas. Uma parte do material fundido se aglomera no fundo para formar a cinza pesada, mas a maior parte escapa pelos fumos de exaustão, recebendo o nome de cinza volante. Na etapa subsequente, a cinza volante é recolhida por uma série de separadores mecânicos e precipitadores eletrostáticos ou filtros de manga. A elevada quantidade de cinzas produzidas varia em função da qualidade do carvão, podendo-se classificá-las em dois tipos: cinza pesada e cinza volante, sendo esta última correspondente a mais de 80% do total de cinza gerada (IOPPI, 2009). A ação da temperatura devido à queima do carvão faz com que as cinzas (compostas de argilas, materiais silicosos e aluminosos) adquiram propriedades pozolânicas. Devido às suas 41 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I características mineralógicas e granulométricas peculiares, a cinza volante geralmente não necessita passar por nenhum processo de beneficiamento antes de ser utilizada como adição mineral. Segundo a definição da NBR-5736 (ABNT, 1991), as cinzas volantes são materiais finamente divididos provenientes da combustão de carvão pulverizado ou granulado. Esse material finamente particulado se compõe de partículas esféricas simples, cenosféricas ou angulosas. Por suas características químicas, são materiais sílico-aluminosos, sílico-cálcicos ou sulfo-cálcicos, cuja composição varia de acordo com as impurezas contidas na queima do carvão da usina de energia. Dependendo das variações em parâmetros do processo em fornos industriais, é possível que se obtenham dois exemplares de cinzas volantes com características químicas similares, porém com diferentes composições mineralógicas e características de desempenho em concretos. Em função das diferenças significativas de composição mineralógica e propriedades, Mehta e Monteiro (1994) explicam que as cinzas volantes podem ser divididas em duas categorias que diferem entre si quanto ao teor de cálcio. A cinza com baixo teor de cálcio é geralmente um produto de combustão de antracito e carvões betuminosos, contendo quantidades de CaO total menores do que 10%. A cinza com alto teor de cálcio contém normalmente de 15 a 30% de CaO e geralmente é um produto de combustão de lignito ou de carvões sub-betuminosos. Essa variedade de cinza é mais reativa, pois contém a maior parte do cálcio na forma de compostos cristalinos reativos. As cinzas volantes podem ser usadas no concreto como correção da granulometria do agregado miúdo, como substituto parcial do cimento ou nas duas funções simultaneamente. Quando adicionada na fabricação de cimentos, a cinza volante está presente no cimento Portland pozolânico (CP IV) e no cimento Portland composto com pozolana (CP II Z). As características de superfície, a distribuição granulométrica das partículas e a morfologia da cinza volante empregada como adição mineral ao concreto exercem grande influência sobre o consumo de água, a trabalhabilidade do concreto fresco e a velocidade de desenvolvimento da resistência no concreto endurecido. O uso de cinzas volantes como substituto parcial do cimento diminui a exsudação, facilita o bombeamento, retarda o início de pega e faz aumentar a trabalhabilidade do concreto fresco. No concreto endurecido, o uso das cinzas reduz a resistência nas idades iniciais, mas pode levar a resistência nas idades finais a valores iguais ou superiores aos do cimento Portland sem adição. Com uma cura úmida adequada, os concretos 42 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS com cinzas volantes apresentam menor permeabilidade, aumentando a proteção das armaduras. Pozolanas naturais As pozolanas naturais são materiais que procedem de rochas vulcânicas e cinzas vulcânicas, geralmente de caráter petrográfico ácido, isto é, ricos em sílica (≥ 65% 37 SiO2) ou de origem sedimentar com atividade pozolânica. Para serem empregados, esses materiais em geral passam pelos processos de britagem, moagem, classificação por tamanho e, em alguns casos, ativação, após os quais adquirem uma maior e mais ativa superfície específica. Entre as pozolanas de origem vulcânica mais conhecidas no mundo, destacam-se as pozolanas encontradas em Bacoli (Itália) e na ilha de Santorini (Grécia), além da rocha conhecida como Trass, encontrada na Alemanha (PETRUCCI, 1995). Também podem ser citadas a pozolana de Shirasu no Japão e os tufos zeolíticos encontrados na China e na Rússia. As pozolanas de origem vulcânica têm sua formação a partir de erupções vulcânicas que lançam na atmosfera grandes quantidades de lava derretida, compostas basicamente de aluminossilicatos. O rápido resfriamento da lava resulta na formação de fases vítreas com estrutura desordenada e minerais pouco cristalinos. Os gases liberados e o vapor d’água imprimem no material vulcânico uma textura porosa contendo elevada área superficial. Essa combinação de efeitos é a causa da reatividade dos aluminossilicatos presentes na cinza vulcânica com o hidróxido de cálcio em temperatura ambiente. As pozolanas de origem sedimentar são os cherts silicosos e as terras diatomáceas. O chert é um tipo de rocha sedimentar composto principalmente de sílica e minúsculos cristais de quartzo. As terras diatomáceas consistem de opalina ou sílica amorfa hidratada proveniente de esqueletos de diatomáceas, que são minúsculas plantas aquáticas com paredes celulares compostas de carapaças silicosas (MEHTA; MONTEIRO, 1994). O material é pozolânico quando puro, mas geralmente precisa ser termicamente ativado para aumentar sua atividade pozolânica devido à presença de impurezas, como os argilominerais. Esse tipo de pozolana natural é um depósito sedimentar de granulação fina que possui algumas restrições para o uso, uma vez que demanda alto teor de água devido à sua porosidade e angulosidade (NEVILLE, 1997 apud DAL MOLIN, 2005). A classificação das pozolanas naturais segundo os critérios estabelecidos por Mehta (1987) toma por base o principal constituinte químico capaz de reagir com o hidróxido 43 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I de cálcio proveniente dos produtos de hidratação do cimento. Nesse contexto, as pozolanas naturais são classificadas em quatro categorias: vidros vulcânicos, tufos vulcânicos, argilas ou folhelhos calcinados e terra diatomácea. 44 UNIDADE IICONTROLE TECNOLÓGICO CAPÍTULO 1 Conceitos de dosagem Definição do processo de dosagem conforme o IPT/EPUSP São diversos os procedimentos de dosagem de concreto disponível em literaturas especializadas. Iniciou-se pela metodologia desenvolvida por Petricci em 1965 e teve algumas modificações pelos pesquisadores do IPT em 1970 (Kirilos, Terzian, Priszkulnik e Tango), em conjunto a Escola politécnica da USP por meio do prof. Paulo Helene. A versão final dessa metodologia buscou obter melhores desempenhos reológicos e mecânicos das misturas de concreto a fim de qualificar os materiais selecionados para a dosagem. Esse método é classificado como teórico e experimental, em que se necessita ensaiar a mistura em laboratório e, em seguida, analisar toda a parte de cálculo, totalmente baseada nas leis existentes de conduta das misturas de concreto. O critério mais considerável a ser acatado nessa metodologia é a relação entre a água e o cimento (a/c). Conforme preconizado na NBR 6118 para parâmetros de durabilidade, gasto de cimento e a sua resistência à ação de compressão do concreto, define-se a relação água e cimento mantendo-se um melhor desempenho e trabalhabilidade da mistura. Há necessidade de conhecer o desempenho dos materiais que comporão a composição do traço, como: cimento, areia, brita, adiçõesminerais e aditivos. Esse conhecimento foi aprendido anteriormente nessa disciplina. Esse método combina o conceito prático, a partir do concreto, em função dos conceitos teóricos, mas, mesmo assim, há necessidade de experimentos laboratoriais. É de fundamental importância que sejam realizados esses experimentos, pois só dessa maneira é possível fixar o abatimento e proporções de argamassa (α) para diversas proporções de famílias de traços, em que, para atingir a trabalhabilidade desejada, 45 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II procura-se colocar a menor quantidade de água. Assim, a otimização da proporção entre os agregados graúdos e miúdos é retirada de bases de experimentos já realizados, ponderando a interferência dos agregados, adições, cimento e de outras adições que forem necessárias. Resumindo, a metodologia IPT/EPUSP considera que o melhor desempenho de proporcionamento entre os agregados é aquele que menos consome água para a obtenção de um abatimento especificado, considerando a interferência do cimento na composição total da mistura. As especificações dessa metodologia são: » resistência à ação de compressão: 5MPa ≤ fc ≤ 150Mpa; » ao abatimento: sendo 0mm ≤ abatimento ≤ autoadensável; » relação entre a água e o cimento: 0,15 ≤ a/c ≤ 1,50; » tamanho máxima do agregado: 4,8mm ≤ Dmax ≤ 100mm; » teor de argamassa seca: 30% 1500kg/m3. Os termos k1, k2, k3, k4, k5 e k6 são valores considerados como constantes e só dependem do processo, isto é: » materiais (agregados adições, cimento, aditivos e fibras utilizados); » da consistência ou integração do concreto fresco (abatimento); » da mão de obra; » dos equipamentos utilizados (betoneira); » das operações de ensaio (moldagem, cura, capeamento, ensaio). » O método toma ainda como modelos de comportamento: » teor de argamassa seca = 1 1 a m + + (Equação 1); » relação água/materiais secos: ( ) / 1 a cH m = + (Equação 2); 46 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO » consumo de cimento/m3: 1 C aa p c γ = + + + (Equação 3). Em que: C = consumo de cimento a cada m3 referente ao concreto adensado em kg/m3; γ = massa específica do concreto, em kg/m3; a/c = relação água/cimento em kg/kg; a = relação entre o agregado miúdo seco/cimento em kg/kg; m = a + p = relação entre agregados secos/cimento em kg/kg; p = relação agregado graúdo seco/cimento em massa em kg/kg; α = teor de argamassa seca na mistura seca deve ser constante para determinada família para assegurar a mesma coesão do concreto fresco em kg/kg; H = relação água/materiais secos deve ser constante para determinada família para assegurar o mesmo abatimento em kg/kg. Principais passos do método A principal sequência da metodologia IPT/EPUSP é mostrada no fluxograma da figura abaixo: Figura 8. Diagrama de fluxo do método de dosagem IBRACON. Escolher dimensão máxima característica do agregado graúdo compatível com os espaços disponíveis entre armaduras e fôrmas do projeto da estrutura (depende do desenho estrutural e da obra). Escolher o abatimento compatível com a tecnologia disponível (depende da obra). Estabelecer a resistência média que se deseja alcançar na idade especificada, resistência de dosagem (consultar ABNT NBR 12655:2006). Escolher como mínimos três diferentes traços em massa seca de cimento: agregados que contenham ou estejam próximos ao traço resposta pretendido. (1:m-1) (1:m) (1:m+1) Misturar, em laboratório, os traços (1:a:p) para o traço intermediário (1:m) com base na busca do traço ideal entre cimento, adições, agregados miúdos, agregados graúdos e aditivos para lograr uma trabalhabilidade especificada, ou seja, um abatimento constante. Para produzir o primeiro traço em laboratório, variar o conteúdo de argamassa seca em massa, começando como a-0,30 e subindo esse conteúdo de 0,02 em 0,02 até encontrar o ponto ótimo por meio de observações visuais do traço, combinadas com manuseio do traço com colher de pedreiro em laboratório. Obtido o conteúdo de argamassa seca ideal, por exemplo α=0,50, moldar os corpos-de-prova para os ensaios em concreto endurecido. Misturar os demais traços para verificar o mesmo abatimento com distintas relações a/c, mantendo fixo α e H do traço intermediário otimizado anteriormente. Recomendam-se os traços (m-1) e (m+1) nos casos correntes. Nos casos de CAR (HSC), esse intervalo deve ser menor, da ordem de (m ±0,4). Moldar os corpos de prova para os ensaios em concreto endurecido. 47 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II Verificar resistência e demais requisitos nas idades especificadas. Construir os Diagramas de Dosagem e de Desempenho (opcional) específicos a essa família de concretos. Obter o traço otimizado a partir do Diagrama de Dosagem entrando com a resistência média requerida ou outra propriedade ou requisito desejado. Opcional: para o caso de certas pesquisas, é aconselhável confeccionar pelo menos dois traços mais (um mais rico e outro mais pobre) com a mesma relação a/c do traço intermediário (m). Fonte: Boggi, 2000. A metodologia necessita que a mistura seja obtida, preferencialmente, interpolando ou de vez em quando realizando uma extrapolação de determinada consistência, em que a especificação da resistência e as suas demais propriedades sejam mantidas. Sequência para obtenção do traço básico Segundo Helene (2007), uma sugestão de sequência das atividades para elaborar um bom estudo de dosagem no laboratório é apresentada abaixo: » “untar” a betoneira com uma porção de argamassa (> 20 kg) a um traço de 1:2, a/cde argamassa; » adentrar outra vez a colher de pedreiro na mistura de concreto e pegar uma parte, suspendendo até a região superior da cuba da betoneira. Com a mistura nessa disposição, constatar se há desprendimento de agregado graúdo da massa de concreto, o que sugere uma falta de argamassa. Em seguida, a essa verificação, soltar a amostra de concreto que está sobre a colher e examinar se ela desmorona de modo coeso e homogêneo, o que sugere teor de argamassa adequado; » posteriormente ao ensaio de abatimento, permanecendo o concreto com o formato de tronco de cone, é preciso realizar mais algumas batidas suaves na lateral inferior do concreto, com ajuda da haste utilizada para a ação de socamento, com a finalidade de averiguar sua queda. Se essa queda acontecer de modo homogêneo e coeso, sem que haja um desprendimento de bocados, o concreto apresenta um teor de argamassa avaliado como adequado; 49 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II » ainda nessa mesma amostra retirada, em que foi realizado o ensaio de abatimento, é preciso notar caso a superfície lateral do concreto se apresente compactada, sem apresentar vazios; » outra questão a ser analisada e depois executada é referente a, ao redor da base de concreto com contorno de tronco de cone, passar a existir uma camada de água proveniente da mistura. Essa ocorrência é uma evidência de que existe uma disposição a uma exsudação de água referente a essa mistura por questão de falta de agregado finos, que poderá ser retificada depois com uma mudança na granulometria de areia, colocando também um aumento do teor de adições minerais ou mesmo de mais aglomerante, o cimento; » sobre o resultado do teor final da argamassa seca, está pendente um fator externo, que é a possível perda de argamassa no momento de transporte e de lançamento, em especial na quantidade que fica retida na fôrma, na tubulação da bomba, na armadura ou mesmo quando se utiliza de bica de madeira para o lançamento. Esse volume, em procedimentos comuns, pode ser considerado entre 2% e 4% de “perdas” (ALENCAR, 2008). Para executar uma nova combinação com o traço intermediário, com o teor de argamassa definido, deve-se gerar todas os atributos do concreto fresco, que são (ALENCAR, 2008): » relação água/cimento é imprescindível para alcançar a consistência almejada; » gasto de cimento por m³ de concreto; » gasto de água por m³ de concreto; » massa específica do concreto fresco; » abatimento do tronco de cone; » teor de ar aprisionado; » relação entre a água/materiais secos (H) em kg/kg; » por consequência, calcular as constantes dessa procedência do traço intermediário (m); » teor de argamassa seca (α) em kg/kg. 50 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Misturas auxiliares Quando mantida a relação água/materiais secos (H) e o teor de argamassa (α), é possível realizar o cálculo das proporções para mais duas misturas, um traço pobre (1: m+1 ou 1: m+0,5) e um traço rico (1: m-1 ou 1: m-0,5). Deve-se sempre manter as condições ambientais, de mão de obra e materiais quando for reproduzir esses traços em laboratório. Dosar sempre 80% da água e, após a homogeneização, adicionar os 20% restantes, a fim de se ajustar a consistência final. No final da mistura, deve-se pesar a quantidade de água que sobrou para se conseguir o abatimento especificado. Realize todos os ensaios do concreto no estado fresco e molde corpos-de-prova, a fim de checar sua resistência à compressão. Deve-se medir, no final, a quantidade de água efetivamente necessária para conseguir o slump requerido. Para esses traços, deve-se moldar e ensaiar corpos-de-prova e fazer todas as determinações no concreto fresco (ALENCAR, 2008). Mistura final para a obra Após a compilação de todos os resultados adquiridos no estudo de dosagem (para a mesma família deverá ser rodado no mínimo três traços), deverão ser constituídas correlações entre relação a/c e mistura de concreto, fc = função (a/c), relação dos agregados secos/cimento, m = função (a/c) e o consumo de cimento, C = função (m) conforme as leis de tecnologia do concreto estudadas neste capítulo e a utilização do diagrama de dosagem. A constituição das interpolações origina o que é chamado de Diagrama de Dosagem. A validade desse diagrama é somente para misturas de concreto com o mesmo tipo de cimento, agregados, adições, equipamentos e demais variabilidades. Com ele é possível adquirir várias dosagens com propriedades diversas em seu estado endurecido, mas somente para a mesma família de traço. Constituição do diagrama de dosagem A Figura 9 ilustra os dados processados adquiridos dos estudos de dosagem, mostrando todo o comportamento da família de traço estudado, como o mesmo abatimento agregado graúdo (Dmáx), mas com propriedades, no seu estado endurecido, bem diferentes. 51 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II Figura 9. Diagrama de dosagem dos concretos de cimento Portland. Fcj (MPa) C (Kg/m³) 28 dias 7 dias 3 dias C2e penetração de íons cloretos, para a mesma família de concreto. Fcj 28 dias (MPa) Fonte: Assunção, 2002. É observado que, a partir de um valor de resistência à compressão, pode-se chegar a outros valores e propriedades do concreto. Um exemplo é fixar a resistência à compressão e verificar quanto vai ser o resultado de penetração de íons cloretos na mistura de concreto. Evidentemente, sempre é recomendada a realização dos cálculos por meio das equações estudadas neste capítulo, para realizar uma análise mais precisa dos resultados. 54 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Avaliações das operações de ensaios Com a realização dos ensaios, a variação dos resultados de resistência média de dosagem pode aumentar; consequentemente, o custo do concreto também. Para se obter o desvio-padrão de produção e ensaio do concreto (Sc), calcula-se como descrito abaixo: 2 2 2 , c c ef eS S S= + (Equação 4) Em que: Sc = desvio-padrão do processo de produção e ensaio do concreto em MPa (geralmente adota-se sd = sc); Sc,ef = desvio-padrão efetivo ou real do processo de produção do concreto em MPa; Se = desvio-padrão das operações de ensaio em MPa. Então, Ve = Se/fcm pode ser definido como um coeficiente de variação de ensaio, expressado em porcentagem. Esse coeficiente de variação do ensaio Ve deverá ser enquadrado nos índices especificados na Tabela 2, em que é definida a eficiência dos ensaios executados (ABNT NBR 7212:1984). Tabela 2. Enquadramento do coeficiente de variação de ensaio. Local de preparo do concreto Coeficiente de variação Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 4 Na central 3% 3 a 5% 5 a 6% >6% No laboratório 2% 2 a 4% 4 a 5% >5% Fonte: ABNT NBR 7212:1984. Cálculo de Se e Ve; ( )1 21 1 1,128 1,128 n n i c ci e A f f S n n = − = =∑ ∑ (Equação 5) e e e cm S f ν = (Equação 6) Em que: Ai = diferença (amplitude) entre o maior e o menor resultado obtido dos corpos-de-prova irmãos que representam um mesmo exemplar; 55 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II n= número de exemplares considerados; fcm = média dos 2n corpos-de-prova (n > 9); fc1, fc2 = resultados de cada corpo-de-prova de um mesmo exemplar, irmãos; 1,128 = constante da teoria das probabilidades referida a 2 cps irmãos, pois, no caso de 3 ou mais, muda o valor da constante. O resultado define a homogeneidade de produção do concreto, em que quanto maior o índice de desvio-padrão e o coeficiente de variação, menor é a homogeneidade de concreto. Com isso, há necessidade de aumentar o fcm para não comprometer o fck especificado pelo projetista. Método de dosagem ACI/ABCP História da metodologia A metodologia foi baseada na Norma Americana (ACI 211.1-81), em que foram adaptadas as condições de construções no Brasil à norma americana, permitindo a utilização de agregados miúdos de origem de rio e de agregados graúdos de origem mineralógica granítica. Dessa forma, foi enquadrada a uma norma brasileira, a NBR 7211, em que foram desenvolvidos tabelas e gráficos com valores médios obtidos de ensaios laboratoriais. Esse método serve de ferramenta de dosagem de misturas de concretos, adequando-se a materiais de diversas regiões do Brasil. Definição da metodologia O método da ABCP/ACI preocupa-se com o abatimento de diversas incógnitas relativas aos materiais utilizados na composição, às condições da obra e ao tipo de adensamento que será realizado nas peças. Um conceito fundamental abordado pelo método é aquele que vincula, para cada granulometria da areia e cada tamanho máximo de agregado graúdo, um valor máximo do volume de agregado compactado seco por m3 de concreto. As atividades, variáveis e dados de entrada do método estão apresentados no fluxograma simplificado representado na Figura 12 (BOGGIO, 2000). Desenvolvimento da metodologia A primeira coisa a ser executada é a fixação de uma consistência desejada para se trabalhar com o concreto fresco, por meio do ensaio de slump test, como descrito anteriormente nesta disciplina. O abatimento está condicionado a essa metodologia, 56 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO conforme o tipo de peça a ser concretada e as técnicas de lançamento do concreto que será empregado. Na norma americana (ACI 211.1-81) mostrada na Tabela 3, são as diferentes recomendações dos valores conforme a necessidade dos abatimentos que poderão ser executados conforme a necessidade da obra. A segunda etapa corresponde às dimensões de cada peça a ser concretada em relação às distâncias entre as barras da armação. Conforme preconizado na norma ABNT NBR 6118, é possível adequar o diâmetro máximo do agregado graúdo às características de cada material, com a necessidade de menores índices de ar incorporado. A terceira etapa está condicionada ao diâmetro máximo dos agregados e à consistência desejada. A Tabela 4 mostra as quantidades aproximadas de água a serem adicionadas na mistura, utilizando agregados graúdos de origem mineralógica de granito, areias de origem de rios com o Módulo de Finura menor ou igual a 1,8 e de concretos que terão consumo de cimento médio de 300 kg/m³. A definição da quantidade de água de amassamento (expressos em l/m³ de concreto) deverá ser adicionada conforme a experiência de cada engenheiro, por meio de tentativa de ensaios de dosagem e confrontando com ensaios de abatimento para o devido ajuste das misturas de concreto. Tabela 3. Valores de abatimentos recomendados em função do tipo de obra (ACI 211.1-81). Tipos de obras Abatimento (mm) Máximo Mínimo Paredes de fundações e sapatas armadas 75 25 Sapatas planas, caixões e paredes de infraestrutura 75 25 Vigas e paredes armadas 100 25 Pilares de edifícios 100 25 Pavimentos e lajes 75 25 Construções de concreto massa 50 25 Fonte: Boggio, 2000. Obs.: em caso de adensamento por meio de vibrações, deve-se incrementar, conforme os valores tabelados, 25mm. Tabela 4. Quantidade de água de amassamento do concreto em função do abatimento e da Dimensão máxima característica do agregado. Abatimento (mm) Dimensão máxima característica do agregado graúdo Dmc (mm) 9,5 19 25 32 38 40 a 60 220 kg/m³ 195 kg/m³ 190 kg/m³ 185 kg/m³ 180 kg/m³ 60 a 80 225 kg/m³ 200 kg/m³ 195 kg/m³ 190 kg/m³ 185 kg/m³ 80 a 100 230 kg/m³ 205 kg/m³ 200 kg/m³ 195 kg/m³ 190 kg/m³ Fonte: Rodrigues, 1990. 57 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II O método da ABCP recomenda a utilização de uma fórmula empírica que permite o ajuste da água de amassamento necessário, num processo iterativo, a partir da água adicionada inicialmente e dos abatimentos inicial e requerido. A fórmula em questão tem a seguinte expressão (EFNARC, 2001): . 0,1 . requerido inicial Abat requeridoQ Q Abat inicial = (Equação 7) Em que: Q = consumo de água da mistura; Abat. = abatimento pelo ensaio do tronco de cone (NBR NM 67); 0,1 = valor do coeficiente exponencial, que depende dos materiais empregados. A metodologia dispõe de coeficientes de correção para a quantidade de água a ser adicionada na mistura na utilização de seixo rolado e a utilização de agregado miúdo fino. Já na metodologia originalmente desenvolvida pelo ACI, são apresentados valores estimados de ar incorporado no concreto, em que é prevista redução da quantidade de água de amassamento. No método da ABCP, não é definido certo teor de ar aprisionado, pois as condições climáticas não são tão severas como nos EUA quanto às baixas temperaturas e situações de congelamento. A Tabela 5 mostra os valores na norma americana ACI 211. A próxima etapa está em relação às necessidades das condições de exposição e resistência característica do concreto, conforme as especificações do projeto, em que deverá ser fixada a relação água/cimento (a/c). As metodologias da ABCP, como a original do ACI, especificam, de uma maneira mais precisa, a relação a/c utilizando-se as curvas deAbrams, já estudadas nessa disciplina. Há também a opção de utilizar as curvas, mostradas na Figura 12, quando não for possível a utilização das curvas de Abrams e não houver informações confiáveis de resistência à compressão. Essas curvas, que serão apresentadas a seguir, são conhecidas como curvas de Walz, que foram elaboradas pelo departamento de Cimento e Concreto da ABCP. Elas foram elaboradas pela metodologia de misturas experimentais em laboratório, levando em consideração diferentes tipos e marcas de cimento Portland, com areias de rio e com britas de origem granítica. Para a interpretação das curvas de Walz, é necessário que se tenha previamente a resistência do cimento. Com essa resistência conhecida, a utilização do ábaco fica simplificada. 58 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Tabela 5. Quantidade de água da mistura de concreto, com e sem ar incorporado, em função do abatimento e da dimensão máxima característica do agregado (ACI 211.1-81). Abatimento do tronco do cone (mm) Q = Quantidade aproximada de água de mistura (kg/m³) requerida para concretos com diferentes abatimentos e com agregados com distintas dimensões máximas característica 9,5 mm 12,5 mm 19 mm 25 mm 38 mm 50 mm 76 mm 152 mm Concreto sem ar incorporado 25 a 50 208 199 187 178 163 154 130 113 75 a 100 228 216 201 193 178 169 145 125 150 a 175 243 228 213 201 187 178 160 - Quantidade aproximada de ar aprisionada no concreto (%) Concreto com ar incorporado 25 a 50 181 175 166 160 148 142 122 107 75 a 100 202 193 181 175 163 157 133 125 150 a 175 243 228 213 201 187 178 160 - Quantidade média de ar a ser incorporada na mistura em função do nível de agressividade Exposição Suave 4,50% 4,00% 3,50% 3,00% 2,50% 2,00% 1,50% 1,00% Exposição média 6,00% 5,50% 5,00% 4,50% 4,50% 4,00% 3,50% 3,00% Exposição extrema 7,50% 7,00% 6,00% 6,00% 5,50% 5,00% 4,50% 4,00% Fonte: Boggio, 2000. Figura 12. Gráfico para a determinação da relação x em função das resistências do concreto e cimento aos 28 dias. Fonte: Alencar, 2008. 59 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II Outro ponto a ser considerado em relação a água/cimento é a questão da durabilidade, que é a capacidade do concreto de resistir, por longos períodos, aos ataques químicos e físicos (ALENCAR, 2008). A utilização de cimentos especiais, resistentes a alguns tipos de ataques químicos, e a adoção de relação água/cimento baixíssima podem aumentar a vida útil do concreto, bem como diminuir sua porosidade e permeabilidade, obtendo melhores desempenhos no quesito durabilidade (ALENCAR, 2008). Em termos de durabilidade, o método da ABCP aconselha a considerar as recomendações do Comitê ACI 201, que, resumidas por meio da Tabela 6, limitam os valores máximos da relação água/cimento em função das condições de exposição (ALENCAR, 2008). Tabela 6. Relação água/cimento x em função do tipo de estrutura e das condições de exposição (ACI 211.1-81). Tipo de Estrutura Estrutura continuamente ou frequentemente úmida e exposta a congelamento e degelo Estrutura exposta a água de mar ou sulfato Peças delgadas (parapeitos, guias, soleiras, abas e concreto ornamental) 0,45* 0,40** Todas as outras estruturas 0,50 0,45** Fonte: Boggio, 2000. * O concreto submetido a ciclos de congelamento e degelo deve ter ar incorporado. ** Caso sejam utilizados cimentos resistentes aos sulfatos, as relações água/cimento podem ser incrementadas em 0,05. A relação água/cimento poderá ser adotada no traço de concreto, cujo menor valor será adotado conforme preconizado nas normas de durabilidade (ALENCAR, 2008). Com base no consumo de água, é determinado o consumo de cimento C, cuja relação x ⇒ C (kg/m3) = Q (kg/m3) ÷ x (ALENCAR, 2008) A filosofia do método é obter uma trabalhabilidade conforme o menor volume de vazios, a fim de realizar uma proporção entre agregado graúdo e agregado miúdo. Com isso, o conceito é compor uma mistura com o máximo volume de agregados compactado no estado seco por volume em m³ de concreto (BOGGIO, 2000). A Tabela 5, referente ao módulo de finura, foi construída conforme ensaios laboratoriais realizados pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP). Com ela, é possível determinar resultados médios com base do Módulo de Finura do agregado miúdo e a Dimensão máxima do agregado graúdo (ALENCAR, 2008). 60 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Os agregados, a água e o cimento homogeneizados obtêm um menor grau de compactação, conforme ensaios realizados pela ABCP. O método da ACI ou da ABCP levam em consideração todas as diferenças dos graus de compactação e o aumento dos vazios comunicantes na mistura de concreto (ALVES, 2000). A tabela que fornece os valores do volume ocupado pelos agregados para 1 m³ de concreto compactado mostra a dimensão máxima característica do agregado graúdo aumentando. Fixando as variáveis, a menor quantidade de argamassa é necessária, a fim de manter uma boa trabalhabilidade (ALVES, 2000). O valor retirado da Tabela 7 corresponde ao volume que foi compactado seco (VCS) de agregado graúdo para 1 m³ de mistura de concreto, multiplicando pela massa unitária de agregado seco, determinando a massa de agregados a ser adicionada no traço (BOGGIO, 2000). A dosagem de areia adicionada na mistura pode ser determinada pelo método volumétrico, sendo que o volume da mistura de concreto é a somatória dos volumes absolutos de água, cimento e de ar incorporado. Podem também ser consideradas quantidades de aditivos e ar aprisionado para um melhor desempenho das misturas. Para calcular a quantidade de agregado miúdo, utiliza-se a fórmula abaixo: 1 aproximado a c b Q C B QA V γ γ γ γ = − + + + (Equação 8) Em que: A = Dosagem em kg de agregado miúdo por m3 de concreto; C = Dosagem em kg de cimento por m3 de concreto; B = Dosagem em kg de brita por m3 de concreto; Q = Dosagem em kg de água por m3 de concreto; Var aprisionado = Volume de ar incorporado (m3); γc = massa específica do cimento (kg/m3); γb = massa específica da brita (kg/m3); γQ = massa específica da água (kg/m3); γa = massa específica da areia (kg/m3). 61 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II Tabela 7. Volume compactado seco (VCS) de agregado graúdo por m3 de concreto, função do módulo de finura da areia e da dimensão máx. car. (Dmc) do agregado graúdo. Módulo de Finura da areia Dimensão máxima característica do agregado graúdo Dmc(mm) 9,5 19 25 32 38 MF Volume compactado seco (Vc) de agregado graúdo por m³ de concreto 1,8 0,645 0,77 0,795 0,82 0,845 2,0 0,625 0,75 0,775 0,80 0,825 2,2 0,605 0,73 0,755 0,78 0,805 2,4 0,585 0,71 0,735 0,76 0,785 2,6 0,565 0,69 0,715 0,74 0,765 2,8 0,545 0,67 0,695 0,72 0,745 3,0 0,525 0,65 0,675 0,70 0,725 3,2 0,505 0,63 0,655 0,68 0,705 3,4 0,485 0,61 0,635 0,66 0,685 3,6 0,465 0,59 0,615 0,64 0,665 Fonte: Rodrigues, 1990. Obs.: os volumes de agregados compactados seco referem-se à mistura de todos os tipos de brita que entram na composição do concreto. Com isso, a composição da mistura em massa do concreto é realizada em função das relações dos materiais referentes à quantidade de cimento em massa, como mostrado a seguir: 1: A/C: B/C // Q/C ⇒1: a: b //x. Com a determinação da composição teórica, ensaia-se o traço experimental, em que é permitida a realização de alguns acertos na dosagem dos materiais, obtendo uma mistura adequada, com características de trabalhabilidade e o desempenho exigido pelo projeto. Essa mistura será avaliada quanto ao teor de ar incorporado e sua massa específica, checando a consistência, de modo não haja segregação nem uma exsudação excessiva, a fim de obter um bom acabamento. Se a quantidade de água adicionada na dosagem da mistura, que foi prevista pela metodologia, for o suficiente para atingir o slump desejado, mas a mistura não apresentar argamassa suficiente, deve-se acrescentar mais agregado miúdo ao traço, diminuindo a quantidade de agregado graúdo para mantera relação m com o valor fixo. Conserva-se o valor de m fixo mantendo a sua relação água/cimento inicial. Isso conserva a relação H, que, na teoria, não terá alterações em seu abatimento. Por outro lado, se o traço estiver com mais argamassa, acrescenta-se mais brita em substituição aos materiais finos, para assim conservar o valor de m fixo. 62 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Quando a quantidade de água do traço não for suficiente para chegar no slump desejado, deve-se então aumentar as quantidades de cimento e água, diminuindo a relação m e conservando a relação água/cimento. A primeira opção, preconizada pela ACI-211/81, é manter as proporções e as quantidades dos materiais, adotando uma relação água/cimento menor, com uma quantidade maior de cimento. A segunda opção é mais econômica: coloca-se toda a água da mistura, acrescentam-se agregados miúdos e graúdos, para que seja mantida a relação água/cimento e o teor de argamassa da mistura, como foi determinado inicialmente pela metodologia. Para correção do slump pela metodologia do ACI, é recomendado diminuir ou aumentar a quantidade de dosagem de água da mistura em 2 kg/m³ para cada 10 mm de abatimento. Para substituir parte da quantidade de água de amassamento do traço, pode ser aumentada ou diminuída a quantidade de água do traço em 3 kg/m³ de concreto para cada 1% de ar aprisionado. Método de De Larrard A utilização dessa metodologia serve para qualquer tipo de mistura de concreto, com resistência de alto desempenho, pós reativos, projetado, normal, compactado a rolo ou de diferentes massas específicas. Esse método foi desenvolvido pelo francês François De Larrard em 1990, baseado em uma metodologia de empacotar as partículas, melhorando a compacidade das misturas de concreto e diminuindo os riscos de segregação das partículas. Essa otimização do traço de concreto vem da teoria tradicional de se obter uma granulometria contínua dos materiais que compõem essa mistura. A aplicação desse método é mais complicada do que as metodologias já estudadas nesta disciplina, dependendo de softwares e de ensaios de reologia, como a viscosidade. Para se determinar o empacotamento dessas partículas, é necessário combinar os agregados de forma que haja a maior compacidade possível, diminuindo o índice de vazios e o consumo de cimento. Antigamente, as metodologias de ensaios de granulometrias tanto de máxima compacidade ou descontínua eram realizadas por tentativas de misturas até conseguir a compacidade máxima dos grãos. Após conseguido o maior empacotamento das partículas na mistura dos agregados, a metodologia De Larrard cruza com a correlação das propriedades do concreto em seu estado fresco e endurecido. As formulações matemáticas são as mesmas estudadas nesta disciplina. 63 CAPÍTULO 2 Concreto bombeável e dosagem experimental de CCR Concreto bombeável Bauer (2008) determina que, para um concreto ser bombeável, ele precisa apresentar um índice de abatimento de cone de Abrams localizado entre 60mm e 160mm, proferindo também os seguintes fatores que influenciam a bombeabilidade do concreto: tipo e granulometria dos agregados, quantidade de cimento e trabalhabilidade deste. Contudo, Jolin et al. (2009) dizem que a bombeabilidade não é um conceito simples de ser definido e que o concreto, para tal, necessita estar estável e possuir a capacidade de mobilizar-se enquanto se mantém sob pressão. Kaplan (2001) define que “um concreto é bombeável se ele puder ser lançado com uma bomba”. Apesar de simplista, a definição de Kaplan demonstra que o concreto não depende apenas de suas características, mas também do sistema ao qual será submetido, sendo necessário o estudo das propriedades do concreto que possam trabalhar em conjunto com o sistema em questão. Os seguintes fatores, exemplificados por Feys et al. (2016), representam um risco para a bombeabilidade do concreto: » formação da camada de lubrificação em concretos de alta performance, em que há a formação de uma fina camada de pasta por onde o concreto desliza por meio de fluxo de pistão; » cotovelos e redutores ao longo do sistema de bombeamento; » variação nas propriedades do concreto ao longo do bombeamento. Reologia O Comitê de Fundações Profundas, DFI (2016), caracteriza o conceito de reologia como o estudo da deformação e do fluxo de uma substância sob efeito de um cisalhamento. A reologia do concreto é estudada para a determinação de seu comportamento durante solicitações em estado fresco. Uma série de fatores pode afetar a reologia de um concreto, como sua composição, a influência da forma, do tipo de agregado, da quantidade de água, do tipo de misturador, da sequência de mistura, do tempo de mistura e da temperatura. Diante da importância dessa área de estudo, Ferraris et al. (2001) realizaram levantamento do desenvolvimento alcançado no estudo da reologia do material ocorrido ao redor do mundo e definem 64 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO que o concreto, em seu estado fresco e submetido a determinado fluxo, enquanto se mantém homogêneo, pode ser considerado fluido. Ainda de acordo com Ferraris et al. (2001) e observado por demais autores como Kaplan (2001) e Feys et al. (2007), o comportamento do concreto homogêneo considerado fluido se assemelha ao comportamento de um fluido binghamiano, com seu fluxo sendo determinado por dois parâmetros, a tensão de escoamento e a viscosidade plástica. Entretanto, Castro et al. (2011) consideram que o tratamento por meio da aplicação do modelo de Bingham, proposto e desenvolvido internacionalmente, é inaceitável por considerarem que o material é heterogêneo e que apresenta descontinuidades mecânicas internas extremas. Assim, o autor desenvolve suas análises a partir de variáveis dependentes do instrumento de medida resultando em curvas de cisalhamento em função do torque e da velocidade de rotação, obtendo-se o torque de escoamento e a viscosidade de torque, todas as unidades sendo dependentes da geometria de ensaio executado. Apesar do contraponto, a metodologia de análise realizada por Kaplan (2001), Ferraris et al. (2001), Feys et al. (2007), Jolin et al. (2009), De Shutter et al. (2016), Secrieru et al. (2017), entre outros, será a adotada no presente trabalho, pois, segundo Chalimo (1989), um concreto, para ser bombeável, precisa ser homogêneo. Assim, o modelo de análise a ser utilizado será o modelo de Bingham, respeitando a seguinte equação: τ = τo + μ × γ (1) Em que: τ = tensão de cisalhamento (Pa); τo = tensão de escoamento (Pa); μ = viscosidade plástica (Pa.s); γ = taxa de cisalhamento (1/s). Ensaios reológicos existentes Inúmeros ensaios são utilizados ao redor do mundo para prever o comportamento do concreto nas mais variadas situações (FERRARIS, 2001). Entretanto, em sua maioria, são utilizados apenas ensaios tecnológicos prevendo uma parcela do real comportamento do material. Hu (1995) cita que testes tecnológicos, como o abatimento de cone d’Abrams, usualmente utilizados para caracterização do material em estado fresco, geralmente mede apenas uma grandeza, podendo, dessa forma, traduzir apenas uma parcela do 65 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II real comportamento reológico do material. A partir das constatações, são necessários aparelhos que possam determinar as propriedades reológicas, comumente conhecidos como reômetros. Os reômetros são divididos em dois grupos: os reômetros de placa paralelas e reômetros rotacionais (HU, 1995). Reometria de placas paralelas Betioli (2007) conceitua o funcionamento desse tipo de reometria da seguinte maneira: uma amostra de material é confinada entre duas placas paralelas, cuja placa superior móvel exerce, uma rotação controlada na parte superior do material, enquanto a placa inferior, contendo uma célula de carga, permanece fixa, registrando a tensão normal ao longo do ensaio. Reometria rotacional Uma série de velocidades predeterminadas são impostas em um instrumentode leitura, seja ele uma haste, pás ou cilindros, e o torque resultante necessário à execução de tal velocidade de rotação é registrado (FEYS, 2007). Inúmeros instrumentos de leitura seguem tal princípio de funcionamento e baseiam-se na reometria rotacional para determinação das propriedades dos materiais ensaiados, como os reômetros. Diante da gama de diferentes reômetros existentes, encontra-se o reômetro Pheso, equipamento a ser utilizado no presente trabalho, com seu funcionamento e especificidades. Reômetro Pheso Pileggi et al. (2001), Schankoski et al. (2017), França et al. (2015) e Sakano et al. (2015) utilizam-se do reômetro Pheso e da reometria rotacional para caracterizar concreto e argamassa, obtendo o torque de início de escoamento e a viscosidade de torque, conforme exemplificado por Castro et al. (2011), para dada geometria de ensaios. Schankoski et al. (2017) exemplificam o processo de funcionamento do reômetro Pheso da seguinte maneira: “o equipamento varia controladamente a 32 rotação, em rpm, transferindo-a, por meio de uma raquete dentada, para a mistura ser analisada”. Sakano (2016) relata que a aquisição de dados do reômetro Pheso, o controle de velocidade, o posicionamento e o torque se dão por meio de um servoconversor que converte o sinal obtido na execução do ensaio em informações que permitem analisar o comportamento reológico dos materiais. 66 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Materiais e métodos O presente trabalho foi realizado em duas etapas, sendo uma destas realizada por meio de trabalho em campo, e outra, em laboratório. Na etapa em campo, foram visitadas duas obras, em que os concretos foram caracterizados empregando-se alguns ensaios que serão descritos posteriormente. Já em laboratório, foi estudada a influência da composição dos concretos sobre as propriedades que influenciam o bombeamento das misturas. Descrição dos ensaios utilizados A fim de caracterizar o material disponibilizado pelas concreteiras e os concretos dosados em laboratório, foram realizados os seguintes ensaios reológicos e tecnológicos: » determinação de massa específica – por meio da NBR 9833:2008 – Versão Corrigida em 2009; » ensaio de reometria rotacional; » abatimento de cone d’Abrams – NBR NM 67:1998; » ensaio de cone invertido – proposto por Weidmann (2008); » escoamento em Funil-V – NBR 15823-5:2017. No campo, foram também registradas as temperaturas do ambiente e do concreto no cocho da bomba e as pressões base e de pico do concreto (para determinada rede de bombeamento) em campo. Em seguida, os valores encontrados “in loco” foram correlacionados com as propriedades obtidas por meio dos ensaios executados, verificando-se, assim, suas influências nos parâmetros de bombeamento. Método de ensaios em campo A sequência da metodologia de ensaios foi a seguinte: » coleta do concreto na tremonha da bomba em recipientes metálicos apropriados para a coleta e transporte; » no momento da coleta de material, foi realizado o registro da temperatura ambiente e da temperatura do concreto em descarga no cocho da bomba; » transporte do material até laboratório móvel instalado no canteiro; » determinação de massa específica; 67 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II » ensaio de reometria rotacional; » abatimento do cone d’Abrams com registro tanto do abatimento quanto do espalhamento; » determinação do tempo de escoamento em cone invertido d’Abrams, quando concreto com abatimento inferior a 20 cm, ou determinação do tempo de escoamento em Funil-V, quando concreto autoadensável. Método de ensaios em laboratório A metodologia de ensaios adotada em laboratório para analisar as influências de mudanças na composição de concretos em suas propriedades visando torná-los mais facilmente bombeáveis foi a seguinte: » realização da mistura; » realização do registro da temperatura ambiente e da temperatura do concreto ao final do processo de mistura; » determinação de massa específica do material; » ensaio de reometria rotacional; » abatimento do cone d’Abrams com registro tanto do abatimento quanto do espalhamento; » determinação do tempo de escoamento em cone invertido d’Abrams quando concreto convencional ou determinação do tempo de escoamento em Funil-V quando o concreto for autoadensável. Os seguintes fatores foram analisados visando otimizar o desempenho do material em relação ao bombeamento: » forma do agregado britado – VSI x Girosférico; » influência do índice de abatimento; » influência da água; » influência de aditivos superplastificantes na mistura; » relação água x aditivos super plastificantes. Para um mesmo índice de abatimento, a influência da água e dos aditivos na tensão de escoamento, viscosidade do material e capacidade de formação da camada de 68 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO lubrificação. Para a identificação da influência do índice de abatimento, da água e de aditivos nas propriedades reológicas do concreto, fixou-se a proporção dos materiais constituintes em 1: 0,99: 1,49: 2,52 (cimento, areia fina natural, areia média natural e brita zero), variando a quantidade de água necessária para a obtenção de concretos com índices de abatimento de 8,0 (230 litros de água por m³), 12,0 (240 litros) e 16,0 cm (250 litros). Em um segundo momento, fixou-se o consumo de água em 200 litros por m³ e em 205 litros por m³, variando assim o teor de aditivo superplastificante até a obtenção desses índices de abatimento. Já com a finalidade de identificar a influência da forma de agregados britados nas propriedades reológicas dos concretos, fixou-se uma proporção de materiais constituintes em 1: 0,99: 1,49: 2,52 (cimento, areia de duna, areia estudada e brita zero), variando a água utilizada até a obtenção dos índices de abatimento de 8, 12 e 16 centímetros. 69 CAPÍTULO 3 Materiais geossintéticos para barragens Conceitos sobre geossintéticos Geossintéticos são produtos poliméricos, sintéticos ou naturais, industrializados, que podem ser utilizados em diversas aplicações, sobre variados tipos de solo ou em combinações de solo e rocha como parte de projetos e soluções de engenharia geotécnica (VERTEMATTI, 2004). Propriedades e ensaios Como todo material industrializado, os geossintéticos devem obedecer a um rigoroso controle de qualidade de produção. Segundo Vertematti (2004), é recomendado que ensaios de recebimento sejam realizados para que se confirme que o produto entregue na obra possua as características técnicas especificadas pelo projetista. De acordo com as normas e com a literatura existente sobre o assunto, as propriedades físicas, mecânicas e hidráulicas dos geossintéticos devem ser analisadas de acordo com ensaios preestabelecidos. Propriedades físicas As propriedades físicas de mais interesse para a aplicação desse material incluem a sua gramatura, espessura nominal e porcentagem de área aberta. Tem-se a seguir uma breve descrição dessas propriedades, de acordo com Bueno e Vilar (2004): » gramatura é a relação de massa por unidade de área da manta, expressa em g/m². Ela deve ser entendida como um índice de caracterização e ser utilizado como elemento de comparação entre geossintéticos com mesmo processo de fabricação, pois, dependendo desse processo, o geossintético pode apresentar propriedades hidráulicas e mecânicas muito diferentes; » a espessura é expressa em milímetros e é determinada a partir da medição em milímetros entre duas placas rígidas que comprimem um corpo de prova, com uma força de 2kPa. A norma da ABNT NBR ISO 9863-1, de 2013, comenta sobre a determinação da espessura de geotêxteis. Os ensaios utilizam as normas norte-americanas ASTM D 5199/01 e ASTM D 6525/00 como parâmetro de execução; » a porcentagem de área aberta equivale aos espaços vazios resultantes do processo de fabricação. 70 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO Propriedades mecânicas De acordo com Bueno e Vilar (2004), essas propriedadesexpressam relações entre o carregamento imposto ao material e as deformações que ele sofre, além de fornecer dados utilizados no dimensionamento de projetos. Algumas dessas propriedades são brevemente comentadas a seguir: » compressibilidade: obtida por meio da medição da espessura do geossintético por diferentes tipos de carregamento em corpos de prova, utilizando normalmente tensões de 10, 20, 50, 100 e 200 kPa; » resistência à tração: a pressão causada entre o contato das partículas de solo sobre o geossintético causam uma tensão de tração lateral sobre o material. É, então, recomendado que seja estimada a máxima deformação que esse material sintético sofrerá. A norma da ABNT NBR ISO 10319 de 2013 (Geotêxteis – Determinação da resistência à tração não confinada – Ensaio de tração de faixa larga – Método de ensaio) determina as condições de aplicação do ensaio de tração por meio da aplicação de uma força crescente num corpo de prova, até que ocorra sua ruptura; » resistência à punção: quando submetidos a esforços de compressão causados pelo contato com grãos isolados, o material geossintético pode sofrer perfurações. A norma da ABNT NBR ISO 12236, de 2013, explicita as recomendações sobre o ensaio para determinar a resistência ao puncionamento tipo CBR. Esse ensaio é realizado a partir da aplicação de pressões em corpos de prova por meio de um cilindro metálico, que tenta perfurar o material ensaiado. Essa é uma importante propriedade em relação à instalação do geossintético no canteiro de obras, uma vez que esse material deve resistir ao processo de aplicação intacto, de forma a garantir suas características técnicas de utilização; » resistência ao rasgo: durante a instalação ou manuseio do geossintético, pode haver a ocorrência de um corte, que pode se propagar e causar a perda da integridade física desse material. O ensaio de propagação do rasgo trapezoidal mede a resistência à propagação de um rasgo pelas fibras do geotêxtil e materiais correlatos; » resistência ao estouro: Há a possibilidade, em situações particulares, de o geossintético penetrar nos espaços entre as partículas granulares em que foi aplicado e assumir uma forma esférica. O ensaio de resistência ao estouro 71 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II fornece, então, um índice de classificação qualitativa dos geossintéticos em relação a esse tipo de deformação; » fluência em tração: os geossintéticos, quando submetidos a esforços de cisalhamento, tração ou compressão, por longos períodos, podem vir a fluir ou escoar. Esse fenômeno dependerá da magnitude do esforço e da temperatura à qual ele estará submetido. O ensaio em que se analisa esse tipo de fenômeno tem como resultado curvas que relacionam carga e deformação para um tempo determinado, além de uma curva de fluência, a partir da qual se pode estabelecer tempos de ruptura para os tipos de carregamento (VERTEMATTI, 2004). Propriedades hidráulicas Essas propriedades, segundo Costa et al. (2008), são mais importantes no emprego dos materiais geossintéticos como filtros e drenos. Os ensaios mais utilizados são os destinados à determinação do coeficiente de permeabilidade, que indica a facilidade que o fluido tem para percolar, e a determinação da abertura de filtração. » Permissividade: a permissividade é um parâmetro que relaciona a permeabilidade do geossintético e a sua espessura. No procedimento do ensaio necessário para determinar essa propriedade, são realizadas leituras de diferentes cargas de fluido, num determinado tempo, que passam por um corpo de prova com dimensões normatizadas (MACCAFERRI, 2008). » Transmissividade: este parâmetro se traduz no produto entre a permeabilidade do geossintético e a sua espessura sobre determinada tensão normal de confinamento, ou seja, é a quantidade de água que passa por um corpo de prova em um intervalo sobre uma carga normal e um gradiente hidráulico específico (NORTÈNE, 2012). » Abertura de Filtração: pode ser definida como a abertura do geotêxtil equivalente ao maior diâmetro do agregado granular que por ele pode passar, como afirma Muñoz (2005). Esse é o índice mais utilizado para definir o potencial de filtração e para o dimensionamento de filtros. Aplicações Os geossintéticos devem ser especificados para cumprir determinadas funções associadas às propriedades específicas de cada obra, sejam elas geotécnicas, ambientais 72 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO ou hidráulicas. Para Bueno (2003), as propriedades ditas dominantes caracterizam a função do geossintético na obra. Já as características essenciais permitem que o material desempenhe a sua função dominante. As funções que se destacam quando os geossintéticos são aplicados isoladamente são: separação, filtração, drenagem, reforço, contenção de fluidos/gases, o controle de processos erosivos e a impermeabilização. É importante observar que esses materiais podem desempenhar mais de uma função simultaneamente (BUENO, 2003). Filtração O geossintético que realiza essa função permite que haja a livre passagem de fluidos pelo solo, sem deixar que haja a movimentação de partículas sólidas. Os geotêxteis, por exemplo, podem ser utilizados para evitar a entrada de solo em tubulações ou agregados drenantes (VERTEMATTI, 2004). Drenagem O geossintético pode agir como um dreno que colete ou facilite os movimentos dos fluidos por solos com menor permeabilidade. Drenos de agregados naturais podem ser substituídos, por exemplo, pelas georredes, que garantem vantagens em relação à rapidez da execução e à economia de espaço, já que uma geonet de 5 mm de espessura pode substituir uma camada drenante de areia grossa de 30 cm (NORTÈNE, 2012). Reforço Na vida útil da obra e na sua construção, os geossintéticos geralmente estão sujeitos a solicitações mecânicas como a resistência à tração, à perfuração e à penetração. Para que esse material exerça a função de reforço, deve haver a combinação do solo e do geossintético, convenientemente orientados, para obter um produto com melhor capacidade de resistência e com deformações restritas em comparação com o solo natural. Segundo Vertematti (2004), essa forma de emprego do geossintético viabiliza a realização de aterros e fundações sobre solos moles, reforço e contenções de taludes, além do seu uso em obras de pavimentação, por meio da melhoria na capacidade de suporte mecânico das camadas do pavimento. Separação A mistura de camadas de solos diferentes pode alterar suas propriedades e comprometer a qualidade do projeto. Portanto, deve ser mantida a espessura de projeto da camada 73 CONTROLE TECNOLÓGICO | UNIDADE II de solo e deve-se prevenir a entrada de finos para o interior de camadas granulares. Uma solução convencional para essa situação é a introdução de uma camada de sacrifício de agregado. No entanto, segundo a IGS Brasil (2007), essa camada aumenta o custo da obra e, em longo prazo, não garante a integridade das camadas de solo, tornando conveniente o uso de geossintéticos. Controle de processos erosivos Em locais onde a vegetação natural por si só não promove proteção suficiente contra a erosão superficial, pode-se utilizar um material geossintético com o objetivo de reduzir os efeitos da erosão produzida por eventos naturais, como chuvas ou ventos. De acordo com Highland e Brobowski (2008), hoje em dia, alguns desses materiais são biodegradáveis, fabricados para reter a vegetação natural, conservar a umidade do solo, além de oferecer sombra parcial para que o desenvolvimento das sementes seja favorecido. Impermeabilização Essa função faz referência à criação de uma barreira hidráulica que reduza ou evite a infiltração de água. O uso de geossintéticos com o objetivo de atuar como barreira impermeabilizante data desde a década de 1970, sendo aplicados em obras ambientais para armazenamento ou contenção de resíduos, de forma a proteger a fundação, aquíferos e encostas contra a contaminação (SANTOS,2014). Segundo a IGS – Brasil (2007), a utilização de geossintéticos com função de impermeabilização tem se mostrado bastante útil na recuperação de barragens de concreto. Utilização de geossintéticos em barragens de terra e enrocamento Diversos pesquisadores têm estudado a utilização de material geossintético em substituição a materiais naturais em barragens de terra como uma solução viável diante da falta de disponibilidade ou do alto custo do material granular tradicionalmente utilizado. Segundo Artières et al. (2009), a primeira grande barragem em que foi utilizado material geossintético foi construída na França em 1970, com um geotêxtil agindo no talude de montante como elemento separador entre a face de enrocamento e o solo, e no talude de jusante, como elemento filtrante, junto aos drenos granulares. Desde então, diversas pesquisas têm sido feitas em relação ao comportamento desses 74 UNIDADE II | CONTROLE TECNOLÓGICO materiais nas barragens em relação à sua durabilidade, condições de aplicação em função de suas propriedades, questões de segurança, além de estudos de viabilidade e comparativo de custos. Os geossintéticos têm sido considerados pelos pesquisadores e construtores para a realização das seguintes funções nas barragens de terra: » filtração e drenagem; » separação; » reforço; » proteção e controle de erosões de superfície; » impermeabilização. 75 UNIDADE III CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Fatores que influenciam a escolha do tipo de barragem São realizadas, normalmente, estimativas de custos junto aos projetos preliminares para afirmar, ou não, a viabilidade da construção de um barramento, seja qual for o seu tipo. Assim, a escolha final do tipo de barragem deve ser feita considerando as características físicas do local e a sua capacidade de adaptação ao projeto preliminar, isto é, a sua propensão em se adequar ao propósito construtivo inicial. Para isso, torna-se imperativo o cumprimento invariável de questões de segurança, de acordo com as condições climáticas da região, além de quesitos como a dimensão e a locação do vertedouro (GAIOTO, 1998). Em relação aos custos, são fatores particularmente importantes durante a escolha da solução construtiva a ser adotada: a mão de obra, o tipo de solução de engenharia, o material disponível e, finalmente, as dificuldades de acesso. É importante contar, ainda, com a colaboração de um geólogo para verificar se as fundações do local são compatíveis com as solicitações de carga da estrutura que se pretende construir. Além disso, o profissional de geologia de engenharia, na fase de estudos de viabilidade, auxilia a equipe com o mapeamento geológico de superfície, com a qualidade geomecânica do maciço rochoso, com os ensaios in situ do tipo sondagem a percussão – SPT (Standard Penetration Test), com a caracterização e a avaliação volumétrica das áreas de empréstimo solicitadas e com o mapeamento geológico das possíveis áreas de inundação, entre outras atividades. Para Filho e Geraldo (2009), as características investigadas são de bastante relevância para a elaboração do projeto executivo e de construção. Em obras de concreto ou enrocamento, os parâmetros a considerar são, principalmente, aqueles relacionados à escavação e à estabilidade de taludes. Em contraste, nas barragens de terra, além das propriedades do solo utilizado como material de aterro, são muito importantes suas características de suporte e permeabilidade. É também interessante ressaltar que, durante a elaboração dos projetos de barragens, vem se dando grande importância às considerações ambientais, 76 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS uma vez que a construção desse tipo de obra pode trazer grandes consequências negativas para a população e para a fauna e a flora da região de possível construção. Principais elementos das barragens Pode-se dizer que os elementos básicos que formam um barramento são a sua fundação e o seu corpo estrutural. Isso posto, em vista dos inúmeros fatores que devem ser considerados quando da elaboração do projeto do barramento, dificilmente a mesma seção transversal de uma barragem será repetida para outras. A seguir, estão listados alguns dos principais elementos que compõe um barramento. Fundação “Como fundação será considerado todo o embasamento geológico existente no local onde será assentada a barragem ou suas obras complementares” (GAIOTO, 1998, p. 16). Os principais aspectos a se analisar para a construção de uma fundação de barragem são a deformabilidade, a estabilidade e a estanqueidade. A deformabilidade diz respeito à deformação que a fundação pode apresentar sem que ocorram rupturas em sua estrutura. Já os aspectos de estabilidade estão relacionados ao estudo da possibilidade de ruptura em decorrência das cargas impostas pelo barramento ou pela presença de solos compressíveis ou de baixa resistência. A estanqueidade, por fim, está ligada ao impedimento da passagem de água por um maciço ou sua fundação (COSTA, 2012). Para se investigar esses três aspectos, pode-se fazer o estudo de mapas topográficos e geológicos, a realização de sondagens à percussão e rotativas, a abertura de poços e trincheiras de inspeção e os ensaios de laboratório para a caracterização de material granular, a exemplo dos limites de liquidez (LL), limite de plasticidade (LP), ensaio de granulometria e compactação. Crista Determinada de acordo com as necessidades de tráfego que apresenta, a crista é a superfície superior da estrutura e tem tamanho que varia, normalmente, entre seis e doze metros. Segundo Gaioto (1998), não é recomendado que seu tamanho seja inferior a três metros, mesmo em barragens pequenas, para que as condições mínimas de acesso e segurança para a construção do barramento sejam atendidas. 77 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III Núcleo Quando se quer limitar a percolação de água por meio do maciço, pode-se utilizar a diferença de características entre os materiais granulares para formar uma zona estável e com baixa permeabilidade. Aqueles materiais com maior resistência, como os pedregulhos, podem ser colocados nas laterais, ou abas, do barramento, e aqueles com menor permeabilidade, como os solos argilosos, podem ser colocados na parte interna da seção da barragem, ou seja, no seu núcleo (GAIOTO, 1998). Além de materiais argilosos, podem ser empregados nos núcleos impermeabilizantes de barragens, materiais betuminosos. Assim, foi construída, em 2010, a primeira barragem de enrocamento em solo brasileiro que utilizou concreto asfáltico em seu núcleo. É interessante frisar que esse tipo de núcleo traz algumas vantagens significativas, entre as quais a possibilidade de aproveitar a grande quantidade de enrocamento disponível a partir das escavações, o status relativamente rápido do processo construtivo e a viabilidade de construção em regiões com alto índice pluviométrico (NETO, 2013). 78 CAPÍTULO 1 Barragens de concreto Barragem de concreto O mesmo princípio abordado no início sobre os agregados e a forma como devem proceder à sua seleção e aos ensaios ao qual devem ser submetidos deve ser utilizado no processo de obtenção dos agregados para as barragens de concreto. Figura 13. Barragem de Concreto – Alqueva. Fonte: http://www.roteirodoalqueva.com/barragem-do-alqueva. Os cimentos, as cinzas volantes e as pozolanas são utilizados no processo de produção do concreto. Esses materiais devem seguir os ensaios e a seleção que estiver especificada no projeto e as exigências técnicas para esse tipo de construção. Esse tipo de medida é uma forma de assegurar o controle de qualidade do concreto a ser empregado na barragem. O modo de realizar o transporte para os locais de armazenagem precisa levar em consideração o fato de se escolher um local de fácil acesso para as máquinas ou os funcionários, quando forem reabastecer ou utilizarinvestimentos financeiros e humanos, bom monitoramento e manutenção, especialmente para evitar intercorrências nocivas ao meio ambiente e à vida humana. Não obstante, as barragens além da formação de reservatórios de água são capazes de contribuir para a geração de energia, permitir o amortecimento das cheias, evitando, dessa forma, inundações, aumentar a disponibilidade hídrica e contribuir para navegação e lazer da sociedade, influenciando a área em que está localizada, bem como suas proximidades rurais e urbanas, afetando de forma direta o ecossistema da região. Portanto, consideradas como barreiras artificiais para retenção de grandes quantidades de água, em um primeiro momento da história da humanidade, foram concebidas com o intuito de combater a falta de água em tempos de seca. Entretanto, com o adensamento populacional e o crescimento urbano, passaram a ter sua demanda atrelada não só ao acúmulo hídrico, mas também para atender a demanda de energia hidrelétrica e a deposição de resíduos e rejeitos. Essa necessidade culminou em melhores técnicas de concepção e implementação das barragens, especialmente as de concreto, mais modernas, atuando no controle da 8 INTRODUÇÃO reserva das cheias, manejo de abastecimento em períodos de estiagem, preservação da vazão para assegurar a produção de energia e, até mesmo, navegação e recreação. Contudo, é imperativo que, para cada tipo de utilização, exista específica fiscalização, cujas regras operacionais estão ancoradas pela Política Nacional de Segurança de Barragens – PNSB (Lei n. 12.334/2010) –, que define a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) como instituição responsável por fiscalizar a segurança de barragens de acumulação de água localizadas em rios de domínio da União. Em contrapartida, a Agência Nacional de Mineração (ANM) apresenta-se como a instituição responsável por fiscalizar mineradoras e garantir a segurança de barragens. A verificação presencial das barragens de usinas hidrelétricas será realizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Sobremaneira, o planejamento e a fiscalização poderão minimizar os impactos ambientais, garantindo preservação de ecossistemas; assegurar safras em épocas de estiagem; movimentar a economia por meio da preservação de abastecimento de indústrias; disponibilizar água potável para a sociedade e, ainda, lazer e recreação nos trechos navegáveis. Não obstante, esse material tem por objetivo discretizar questões acerca de barragens, abordando temáticas como materiais de construção civil utilizados em sua execução, controle tecnológico e conceitos de dosagem para sua implantação. Esperamos que seja uma experiência enriquecedora e proveitosa! Objetivos » Discutir sobre agregados, processo de obtenção e requisitos dos materiais para execução de barragens. » Tratar do controle tecnológico a partir dos conceitos de dosagem e materiais empregados na execução das barragens. » Discutir sobre os critérios e metodologias de projetos para barragens, abordando os tipos de barragem: concreto, enrocamento e concreto compactado a rolo. » Abordar a problemática associada à execução de barragens e alternativas possíveis para uma melhor implementação. 9 UNIDADE I INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS CAPÍTULO 1 Agregados e processo de obtenção Definição dos agregados A norma NBR 7225 (ABNT, 1993) distingue os agregados como um material com ótimas propriedades a serem utilizadas na construção civil, seja eles em sua condição natural ou obtidos por fragmentação artificial de brita, com sua dimensão nominal entre as faixas de 100 mm e de 0,075 mm. Na faixa de tamanho, os agregados são ainda divididos entre graúdos e miúdos, sendo o limite entre esses grupos o diâmetro de 4,8 mm, conforme ilustrado na Figura 1 (ISAIA, 2007). Figura 1. Comparação entre as classes texturais segundo várias normas. Pó-de-pedra miúdo agregado graúdo pedrísco brita bloco Material Artificial NBR 7225 Finos areia pedregulho Matacão Material Natural NBR 7225 Silte e Argila areia pedregulho Pedra de mão Material Natural NBR 6502 Matacão Silte e Argila areia pedregulho Pedra de mão Material Natural DNIT 2005 Matacão areia pedregulho Pedra de mão Material Natural ASTMD 2487 Matacão Finos Fonte: Isaia, 2007. 10 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS Agregado miúdo e graúdos O termo agregado miúdo, conforme a NBR7211 (ABNT, 2005), remete-se aos fragmentos que possuem dimensões nominais entre 0,150 mm e 4,75 mm, e os agregados graúdos são aqueles referentes a grãos com dimensões entre 4,75 mm e 75 mm. Entendemos então que o agregado é graúdo quando retido na peneira #10, como as britas, pedregulhos etc. Já para os agregados miúdo são todo o material que passa na #10 e fica retido na #200 com abertura de 0,075 mm, como a areia, o pó de pedra etc. Além desses nomes mais conhecidos, temos o fíler, que é um material de enchimento que possui dimensões muito pequenas – ao menos 65% de sua totalidade passa na peneira de # 200. É essa classe que abrange materiais finos não plásticos, como a cal extinta, o cimento Portland, o pó de chaminé etc. Agregados e suas características Ter ciência sobre as características dos agregados é essencial para a elaboração ideal de dosagem dos diferentes tipos de funções que os concretos desempenharam, assim como é indispensável esse conhecimento no momento de recomendar os materiais e misturas granulares a serem usados, seja para um elemento estrutural ou para uma obra mais específica, como as barragens e suas variações, como será visto no decorrer dos estudos. Os agregados são importantes e utilizados em outros tipos de projeto, como em camadas que servirão de base para pavimentos, para lastros de ferrovias, ou em outras estruturas de interesse de engenharia. Alguns detalhes podem afetar a resistência dos agregados, como a sua composição mineralógica e a sua porosidade, que afetam também a compressibilidade e a sanidade dos concretos quando já endurecidos. Só é possível ter um controle sobre o consumo do cimento a partir do consumo de cimento Portland, que é bastante dependente da superfície específica e da porosidade dos grãos de agregados (ISAIA, 2007). Em questão das características do agregado, elas podem variar conforme a estrutura de sua rocha de origem, que são definidas pela sua porosidade, sua composição mineralógica, a massa específica e sua exposição anterior, para se conhecer o grau de intemperismo que essa rocha já sofreu e as condicionantes de sua extração, assim como o uso de explosivos, o tipo de britadores etc. De acordo com as condicionantes, as propriedades dos agregados podem ser desmembradas em três grupos (MEHTA; MONTEIRO, 1994): 11 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I » características que dependem de sua porosidade: como a massa específica, a massa específica aparente, resistência, absorção de água, módulo de elasticidade e sanidade; » características que dependem de sua composição química e mineralógica: resistência, módulo de elasticidade, substâncias deletérias presentes e cargas elétricas; » características que dependem de suas condições prévias e condicionantes de extração: tamanho, forma e textura das partículas. Determinadas propriedades físicas são deliberadas para uma partícula individual, mas, na maioria dos casos, são apontadas para um conjunto ou massa de partículas em meio a determinada classe granulométrica, representando um valor médio para aquela faixa. Em geral, há procedimentos específicos para agregados graúdos e para agregados miúdos (ISAIA, 2007). Resistência aos esforços mecânicos Os esforços de resistência a compressão, flexão e tração atuam sobre os agregados e são transmitidos pelos carregamentos presentes e atuantes em determinada estrutura naesses materiais, inclusive para proteger esses produtos. Devem ser previstos silos suficientes para o armazenamento do volume condizentes com o consumo que foi previsto e conforme a necessidade do material de ser ensilado, sendo que o uso dos materiais só deve ser feito a partir dos resultados favoráveis dos ensaios que foram submetidos. Para ter maior controle sobre o material dentro do silo, é preciso que se faça a identificação do dia em que foi carregado, visto que o consumo dos materiais deve seguir a ordem de sua chegada no canteiro de obra. Realizar uma gerência sobre esses silos é uma 79 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III maneira de se assegurar o perfeito estado desses grandes depósitos durante o período operacional. Outra questão é a água que será usada na produção do concreto, que pode ser captada no próprio rio em que será realizada a barragem e deve ser submetida a análises periódicas para determinar e acompanhar suas características químicas e físicas. Podem ser armazenadas em tanques para preservar essas características obtidas pelo ensaio. Os concretos para as barragens podem receber aditivos que, em geral, são empregados para proporcionar uma melhor trabalhabilidade do concreto, diminuir a segregação dos agregados no concreto ainda fresco, majorar sua resistência mecânica, além de reduzir sua permeabilidade e prolongar o tempo de pega. Para o armazenamento dos aditivos nos canteiros de obra, é preciso respeitar as especificações técnicas do próprio produto e as normas que o regulamentam. Para o controle de qualidade do aditivo, são realizadas coletas de amostras e ensaios. Sem o aço, seria impossível a execução de uma barragem de concreto, visto que as propriedades do aço em conjunto com o concreto são responsáveis por tornar o maciço resistente aos empuxos e aos esforços a que a barragem é submetida. Contudo, o tipo de aço utilizado, seja para as armaduras ordinárias ou para as de protensão, devem seguir o que se exige no projeto e nas especificações técnicas e nos regulamentos que se aplicam em conjunto com as normas. O aço também pode vir a ser utilizado como uma estrutura definitiva ou uma estrutura provisória. Composição do concreto para barragens convencionais Os concretos para a construção de barragens necessitam acatar, em sua composição as especificações técnicas em conjunto com as normas técnicas e os regulamentos que forem aplicáveis, sendo preciso realizar estudos para atender às reivindicações de qualidade na construção, em particular, referente à sua resistência mecânica e à sua resistência química, sobre a sua permeabilidade, a sua deformabilidade, a trabalhabilidade, suas características térmicas e a sua durabilidade e questões de dimensões limites aos agregados e ao processo de emprego. Para a produção do concreto, é necessário adotar processos que visem à qualidade e à integridade do concreto que será fabricado. A princípio, realizar um registro de todas as instruções que devem ser executadas para a central, como acompanhar questões de pesagem das betoneiras. Além de se analisar o tempo em que a mistura fica dentro das betoneiras, para que ela seja completamente homogênea, incluindo a questão da fusão do gelo empregado junto à mistura no momento em que será utilizado. Deve-se 80 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS verificar pontos como temperatura do concreto e a sua consistência tanto no momento de produção desse concreto quanto no momento de lançamento na obra em si. Para todo o concreto lançado deve ser retirada uma amostra, isto é, um corpo de prova, para que a resistência mecânica possa ser determinada. Figura 14. Central de fabricação do concreto. Fonte: ANA, 2016. Para assegurar a qualidade do concreto que será produzido, é preciso passar por alguns processos durante a fabricação deste. Devem ser registradas todas as instruções para a central de produção, de modo que sejam acompanhadas as pesagens das betonadas, sendo necessário esse controle de peso e de temperatura. O tempo para cada betonada deve ser igual, para que a sua homogeneidade seja atingida, inclusive em meio à mistura do gelo, quando esse concreto for utilizado na obra. A temperatura e a consistência do concreto devem ser atendidas tanto na própria fabricação quanto no momento em que será lançado na obra. E, por fim, serão retiradas amostras que servirão como corpos de prova para os ensaios de resistência mecânica. 81 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III Lançamento e compactação Sempre devem ser seguidas as disposições do projeto, visto que seu planejamento conta o percurso adotado e o tempo em que esse material se encontrará em transporte, e qualquer alteração pode vir a comprometer as características do concreto, principalmente no seu tempo de pega. No momento de lançamento e na compactação, é necessária a autorização do profissional responsável pela supervisão da obra, pois é importante a verificação das condições para essa concretagem, como a posição das formas, e como as armaduras dentro estão posicionadas, se os elementos de espaçamento das formas estão bem posicionados, para que se evite que a armadura fique encostada na forma que comprometeria o cobrimento necessário dessas armaduras. Questões meteorológicas devem ser verificadas também para que o processo de lançamento não seja interrompido pela chuva, por ventos muito fortes ou mesmo pelo excesso de calor que pode causar aceleração no processo de hidratação do concreto. Por isso, são colocadas, em meio à mistura, pedras de gelo na betonada. Ter o conhecimento do tipo de classe do concreto também é parte fundamental para se assegurar a qualidade do concreto. Durante o lançamento, é necessário ter o cuidado para não causar a segregação da mistura. Podem ser realizados os ensaios de resistência mecânica e os de coeficiente de elasticidade, do volume vazio e da tensão de ruptura. Fundação e juntas de concretagem Assim que for realizada a incubação do plano de fundação, deve ser colocado o concreto o mais breve possível, para que sejam respeitadas as disposições das normas técnicas e as especificações técnicas em conjunto com os regulamentos técnicos, como o fato de as superfícies correspondentes às feições. Sendo elas de diaclases, de planos de estratificação ou mesmo de xistosidade, é preciso que apresentem uma rugosidade suficiente para se criar uma boa aderência. As rochas que estiverem adjacentes a essas feições e que já tenham sido retiradas não devem, de forma alguma, sofrer lesões enquanto forem realizados os trabalhos de remoção. Já as cavidades que venham a existir precisam ser lavadas com um processo de jateamento com água e ar, e a superfície que passará a ser rugosa após o processo de apicoamento será preenchida com a mistura de concreto. Contudo, é preciso que a supervisão da obra realize a verificação da superfície da fundação para se confirmar, ou não, sua aptidão para receber essa colocação do concreto. As juntas de concretagem entre concretos com idades diferentes satisfazem a superfície de descontinuidade, seja ela, em geral, horizontal ou com uma leve inclinação. Tais juntas precisam ser executadas e receber tratamento para que sua estanqueidade e seu monolitismo sejam assegurados, respeitando as disposições e especificações técnicas. 82 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Estrutura da forma As formas seguem a geometria estabelecida no projeto das estruturas, em que serão feitas e posicionadas seguindo o projeto estrutural conforme as especificações técnicas. As formas que forem empregadas para as superfícies de concreto que vão estar em contato direto com um fluxo de água intenso precisam ter sua própria superfície acabada, para que o concreto, quando desenformado, possua uma superfície bem lisa e sem muitos poros que possam facilitar a infiltração da água. Como em todas as etapas,é preciso que a superfície verifique todas as formas e seu posicionamento correto perante o projeto. Juntas de dilação e contração Juntas de contração servem para a superfície de descontinuidade para dividir duas seções da barragem, deixando a ideia de blocos que se interligam por meio de juntas que permitem certa movimentação, limitada, para que se tenha um melhor desempenho que não cause fissuras. A junta desempenha função importante para reduzir as possibilidades de deformação dos concretos, em específico em meio à fase inicial no momento de hidratação do concreto, que é a fase de liberação do calor. Além de limitar a questão das dimensões de cada bloco de concretagem, reduz também um pouco da rigidez de algumas peças estruturas, com o intuito de permitir certa movimentação ocasionada pela contração do concreto. Com o objetivo de certificar o bom comportamento tridimensional das estruturas, são utilizadas as juntas de contração denteadas ou decorre a injeção das juntas. A injeção deve seguir de acordo com as disposições estabelecidas no projeto, conforme as especificações técnicas, com o intuito de certificar a segurança estrutural por meio do conhecimento: de que as áreas onde será executada a obra são desmembradas com o objetivo da injeção; das faces dessa injeção, em relação à evolução dessa construção, assim como as possíveis sequências de injeções nos locais de interesse em cada fase do projeto e as composições dos materiais de que são feitas as injeções e as pressões as serem utilizadas; das questões a serem observadas, como as grandezas na operação das injeções, as temperaturas e os níveis de água, o deslocamento das juntas, assim como os da estrutura. Hidratação do concreto O concreto sofre um processo de hidratação poucos minutos depois de ser lançado. Esse processo é tido como cura, em que é preciso evitar que a água da mistura evapore, pois a hidratação, ou cura, necessita da presença de água para realizar o processo sem 83 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III que ocorram fissuras de retração. O concreto necessita atingir um endurecimento satisfatório; contudo, tal processo demanda um cuidado especial, pois cada concreto é feito para uma finalidade específica. Por isso, é importante estar atento e respeitar as especificações do projeto, pois o tempo de cura varia de acordo com cada concreto e com a dureza que se almeja. Alguns pontos devem ser destacados para assegurar as condições necessárias, conforme especificações como: » conservar úmidas todas as superfícies que estiverem expostas, de modo que não haja nenhum processo de arraste da calda de cimento que fica sobre a superfície, e buscar evitar a variação da temperatura sobre as superfícies; » evitar a circulação dos colaboradores e dos equipamentos pesados sobre as superfícies concretadas, bem como de maquinários que possam surtir qualquer tipo de vibração sobre a o concreto ainda jovem. Os procedimentos de concretagem devem seguir as especificações técnicas para que o lançamento do concreto e a cura possam seguir seu tempo ideal estipulado. Devem também serem verificadas as operações que envolvem a questão de desforma, que é o ato de desenformar os elementos estruturais que foram concretados, visto que o cuidado nesse processo deve ser alto principalmente quando forem as superfícies que ficarão sujeitas ao fluxo de água. Pontos de imperfeições e reparações nas superfícies, como as obturações das aberturas onde foram realizadas as fixações das formas, precisam ser sanados imediatamente após a desforma do elemento, para que o prazo estipulado no projeto seja seguido e respeitado. Evaporação por meio da hidratação e a refrigeração do concreto Em especial quando o clima se encontrar quente e para retardar o tempo dessa dissipação do calor, precisam ser consideradas as especificações técnicas e as normas regulamentadoras e questões como a altura das camadas de concreto e um intervalo mínimo entre um lançamento consecutivo e aumentar o período de espera entre os lançamentos. Tudo deve servir de acordo com o plano de execução dessa concretagem. Para realizar a refrigeração, podem ser utilizados sistemas de refrigeração artificial, e, quando forem utilizados esses sistemas, é comum que possuam serpentinas embebidas no concreto, que servem para a circulação da água fria. A configuração desse sistema e seus procedimentos em relação à sua montagem e as manobras de controle devem seguir o projeto e as especificações técnicas. 84 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Etapas de concretagem O planejamento para a concretagem precisa buscar assegurar a qualidade na construção, compõe parte complementar do fluxograma de trabalhos e necessita determinar: as cotas das camadas de concretagem, assim como os intervalos, tanto o mínimo quanto o máximo, que ficam em meio ao cumprimento de camadas consecutivas. Para as datas de abertura e conclusão das tarefas, existem as datas-chave e os momentos previstos para a instalação dos equipamentos. Na preparação do plano de concretagem, devem ser respeitados aspectos como a série de atividades sequenciadas da construção que são previstas no projeto e a competência da central de concreto e da empreiteira para a produção, o transporte e o lançamento desse concreto. A ocasional necessidade de retardar a construção de alguns blocos pode ocorrer para consentir a passagem de vazões de cheia. Deve-se ficar atento sobre as épocas do ano em que se executam as concretagens e sobre a compatibilização entre as tarefas de controle dos concretos que foram lançados e de monitoramento e instrumentação da obra, assim como sobre os resultados do rompimento dos corpos de prova que foram coletados antes da realização do lançamento do concreto. 85 CAPÍTULO 2 Barragens de terra e enrocamento Barragens de aterro ou barragens de terra e enrocamento Em um projeto de barragem e aterro/terra, é preciso que se realizem os estudos referentes aos materiais que serão utilizados e às suas condições de uso nesse projeto, sendo preciso ter base sobre a investigação geológica e geotécnica e seguir as diretrizes que constam para a correta elaboração de projetos especiais como as barragens. Para isso, na primeira etapa de obra, são feitas as questões de análise e investigação das jazidas e dos materiais que foram definidos para o projeto, de modo que sejam empregados os equipamentos adequados e específicos para as atividades que forem executadas e os veículos para transportar os materiais paras as áreas de uso. Nessa etapa, são analisados e considerados alguns aspectos como: » para solos residuais, é indicada a ação mecânica para os equipamentos de escavação, transporte, equipamentos de espalhamento e os de compactação, a qual altera a granulometria dos materiais empregados; » em diferentes tipos de materiais, é mais comum que se realize uma previsão de uma área específica para a realização de processamento, seja processo de homogeneização ou de umidificação, e outra área para o armazenamento provisório dos materiais que posteriormente serão transportados para os aterros. Somente devem ser transportados os materiais que passarem pela análise de registros de ensaios para o controle tecnológico desses materiais que foram processados nas jazidas, de modo que os resultados apresentados sejam acareados com os paramentos tidos como ponto de referência, assim como as especificações técnicas, como a própria faixa granulométrica, que servem como base para todos os ensaios de laboratórios que serão realizados no material do maciço; » pontos referentes ao controle do teor de umidade que devem ser protegidos para que o cronograma das atividades seja realizado sem que haja a necessidade de posterior correção do teor de umidade devido a alguma deformidade do aterro, a não ser as umidificações controladas; » para solos finos, em uma região saturada ou que apresente o nívelfreático muito próximo à superfície, é necessário ter equipamentos que possam 86 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS colocar os materiais com o teor de umidade que foi especificado no projeto, de modo que sejam de espalhamento e arreamento, e um equipamento que possa realizar ações de drenagens antes da exploração das jazidas; » quando realizado o plano de ação de exploração das jazidas, é necessário que se atente às cotas em que se localizam tais materiais que serão explorados, assim como às cotas de possíveis inundações. Isso vale para qualquer etapa da exploração ou mesmo do desvio do rio. Sendo assim, será possível prever a necessidade de se antecipar a exploração de um local a fim de retirar os materiais e colocá-los em um depósito provisório, servindo de bota-espera; » será garantida a seleção adequada e o uso ideal aos materiais com o uso de depósitos temporário de bota-esperas; » deve ser realizado um desmonte experimental, nas jazidas ou nas pedreiras utilizadas na construção das barragens de enrocamento, assim como a separação dos materiais e o seu devido armazenamento em depósitos antes mesmo da execução dos aterros. Figura 15. Barragem de terra. Fonte: https://engenharia360.com/principais-tipos-de-barragens-e-funcoes/. Filtros, transições e drenos Os elementos de filtragem devem seguir as disposições especificadas no projeto, assim como toda a orientação das normas técnicas. Tais materiais devem possuir 87 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III uma composição mineralógica que possa realizar checagens convenientes sobre a resistência à alteração e a possíveis esmagamentos. E sua composição granulométrica deve ser específica após a compactação, que deve ser acompanhada do umedecimento em abundância. Quando forem realizadas as execuções dos filtros, devem ser adotadas as técnicas construtivas que possam assegurar, de maneira efetiva, seu bom funcionamento, de modo que não ocorra contaminação desses filtros em relação ao solo fino ou mesmo com o caldo de injeção que é utilizado na consolidação e na impermeabilização da fundação da barragem. Deve-se também assegurar contra a segregação granulométrica dos materiais. Esses elementos de filtragem, drenos e de transição, que estiverem desempenhando função de dreno, devem ser empregados úmidos e levemente compactados com o auxílio de uma máquina, isto é, um trator ou mesmo um rolo vibrador, para que a compactação seja relativa e não muito elevada, sendo necessária apenas uma compacidade relativa de 75 a 80%, de modo a evitar que fiquem muito rígidos e possam ocorrer recalques diferenciais quando relacionados aos materiais adjacentes. Já as camadas de filtro e de drenos só são necessárias quando forem realizados os procedimentos de tratamento do maciço da fundação. Preferencialmente, as camadas de filtros e drenos devem ser executadas antes que camadas de solos finos adjacentes, para que haja apenas uma defasagem de duas camadas de drenos ou de filtros. Para as barragens de terra zonada, com a vedação, ou núcleo, não deve ser permitida a circulação de veículos após ser realizada a colocação do filtro a jusante nesse núcleo, para que impeça qualquer tipo de contaminação de modo que desempenhem a função crítica de assegurar a estabilidade da barragem. Devem ser executadas as camadas de filtro e de drenos horizontais assim que houver um avanço relativo aos aterros adjacentes, de modo que se garanta a inclinação das camadas jusantes. Em relação à segregação granulométrica, o que pode ser feito para se evitar essa ação é realizar a seleção granulométrica dos materiais a serem utilizados que devem apresentar um coeficiente de não conformidade da maneira como foi previsto nas especificações do projeto. Para a retomada dos aterros, devido a alguma descontinuidade no tempo de trabalho ou na própria execução, seja por alguma questão climática ou por atraso, deve ser realizada uma operação de remoção da camada do material que foi alterado, considerando a sua exposição excessiva durante o tempo sem atividades. 88 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Projetos que utilizam geotêxteis precisam apresentar uma resistência mecânica, uma abertura de filtração e uma transmissividade, que é a permeabilidade em um longo plano do geotêxtil, e a admissividade, que é a permeabilidade perpendicular da superfície do geotêxtil, assim como a sua durabilidade. Aterros experimentais Como dito anteriormente, é preciso que as camadas de filtro e de drenos horizontais sejam executadas em um avanço relativo aos aterros adjacentes para que se garanta a inclinação das camadas que servirão para jusante. Para as barragens de médio ou para as de grande porte, é preciso que sejam executados os aterros experimentais antes mesmo de serem empregados os materiais na obra, em pontos em que serão aprovados pela supervisão da obra, seguindo as disposições feitas no projeto e nas especificações técnicas. Aterros experimentais são, em sua maioria, feitos além dos aterros da barragem em si, sendo, sempre que possível, fixadas nas ensecadeiras, e precisam ser concretizados conforme o prazo previsto no planejamento e no cronograma de atividades da obra, para que se encontrem executadas e para que os resultados sejam apropriadamente decifrados previamente ao início da instalação dos aterros da barragem. A elaboração para os aterros experimentais segue as regras de construção previstas para a construção da barragem, de maneira que sejam utilizados os mesmos equipamentos para que os resultados sejam considerados para a execução da obra. Se houver alterações posteriores às execuções dos aterros experimentais que ofereçam impactos ao andamento do processo construtivo, como a alteração de algum equipamento de compactação, haverá a necessidade de uma execução de um aterro experimental novo. A partir da execução, são realizados os ensaios que serão analisados para a geração de um relatório com seus resultados e a forma como os ensaios foram interpretados. Devem constar nesse relatório fotografias, em conjunto com as descrições da execução desses aterros experimentais. Com esses resultados, serão definidos os métodos para a realização dos aterros para cada um dos materiais testados, principalmente em relação à sua característica de teor de umidade, espessura da camada, número de passagens para rolo etc. Meios de proteção do talude Em barragens de aterro, é preciso tomar algumas medidas para proteger os taludes, principalmente os taludes montantes, em que essa proteção é feita por enrocamento, são feitas as camadas de transição, e todos esses materiais empregados devem ser 89 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III submetidos aos ensaios necessários, conforme as especificações, principalmente os ensaios referentes às granulometrias e à sua durabilidade. Figura 16. Proteção do talude com pedras. Fonte: ana.gov.br. Materiais de origem de pedreiras ou jazidas devem ser selecionados conforme os ensaios retratados no início do conteúdo. A proteção contra a erosão pela ação de enxurradas, ou mesmo por um córrego, mais conhecida como ravina, é empregada nesses taludes para assegurar a sua proteção. Por isso, a aplicação dos revestimentos deve necessariamente acompanhar a construção do aterro para que se evitem ações de ravinamento. O modo como são lançados esses materiais é para que as pedras de maiores dimensões sejam empurradas para a face externa do talude. Outro material que pode servir de proteção para os paramentos corresponde aos cascalhos, gabiões, solo-cimento etc. Os paramentos jusantes também podem receber os cascalhos como cobertura de proteção, mas é mais frequente a realização da proteção por meio de cobertura vegetal, o que funciona como uma integração do projeto com a paisagem local, um meio de se recuperar um pouco do que foi alterado. Ainda que se busque umbom visual, não se deve esquecer que tal vegetação deve se manter em todos os períodos do ano e necessita de manutenção. Vedação de aterro em barragens de enrocamento de face de concreto Na face do enrocamento de montante, é empregado um sistema constituído de uma laje de concreto que garante a estanqueidade das barragens de enrocamento. Essa laje é engastada direto na fundação de uma laje espessa, ou plinto, em conjunto com uma cortina de injeções no maciço da própria fundação. A questão construtiva para a realização da laje de concreto e do plinto e os equipamentos que devem ser empregados na construção precisam ser adequados para o tipo de serviço que deverão desempenhar, a fim de que seja respeitado tudo o que foi definido no projeto e as especificações técnicas. 90 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Para a realização de transição de fundação das lajes ou mesmo dos plintos adjacentes, os materiais de uso dessa transição e os materiais que cobrem as lajes e os plintos precisam ser definidos no projeto. A compactação dos enrocamentos do corpo da barragem será executada por um rolo liso vibrador de grande peso, que realiza a irrigação com água para que de fato o solo seja compactado. A ligação entre o plinto e a fundação depende muito da topografia, do tipo e da qualidade em que o maciço de fundação se encontra executado, podendo variar conforme a solução geométrica adotada e a maneira como se pode realizar o acesso apropriado. O plinto convencional, que costuma ser maciço, de material rochoso e apresentar boa qualidade, é composto por uma laje que é apoiada na fundação com uma área espessa que constitui um apoio perpendicular em relação à laje da face de concreto. É recomendável a execução de plintos em algumas ombreiras com uma laje externa, com aproximadamente 3 a 40 m, e uma laje interna, que possa servir como complemento para esse comprimento. Em situações em que as ombreiras se encontram muito íngremes, ou em vales estreitos, os plintos são normalmente executados como se fossem uma parede que se encontra ancorada ao maciço rochoso. Para diminuir o fendilhamento, que ocorre por meio da mudança de temperatura que também causa a retração, podem ser realizadas as juntas de dilatação, no momento da construção, para que sejam permitidas essas ações de retração e dilatação. Devem ser executadas e tratadas mantendo a superfície molhada por pelo menos 14 dias. São realizadas juntas nos plintos também com o objetivo de permitir que esses elementos se adaptem à topografia do terreno natural. Essas juntas precisam ser livres de vedantes e possuir uma continuidade na armadura. Figura 17. Barragem de enrocamento. Fonte: https://www.ofitexto.com.br/comunitexto/conheca-todos-os-tipos-de-barragem/. 91 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III A superfície do talude montante deve ser preparada para receber a laje da face de concreto. Quando a barragem não possui uma mureta de concreto, essa proteção por ser feita por meio de um revestimento asfáltico, de concreto projetado ou de argamassa. Esse processo de proteção deve ser empregado com o objetivo de impedir a ação de erosão da superfície desses taludes, que pode ser provocada pela simples precipitação da chuva, assim como oferecer uma base mais resistente para a instalação de equipamentos que fiquem à disposição tanto das ferragens quanto das formas das lajes. A utilização do concreto só deve ser feita após a realização dos ensaios previstos para saber a composição desse concreto e a sua resistência mecânica. E a laje de concreto necessita de pelo menos dois tipos de formas, sendo de madeira, quando forem executadas as lajes de partida ou lajes de arranque, e as formas deslizantes para a realização da construção da laje principal, que, por sua vez, precisa ser construída de maneira alternada, ou seja, entre bandas alternadas, em que a concretagem seja constante de junta a junta, sem qualquer interrupção. Já as lajes de arranque necessitam de formas trapezoidais, as quais possuem ligação no plinto, no qual sua concretagem necessita ser manualmente e de maneira simultânea à construção do enrocamento, e deve ser realizada antes da laje principal, visto que sua concretagem antecipada em relação à laje principal oferece a oportunidade de se concretar com mais atenção e cuidado o ponto de junta de ligação entre a laje e o plinto. A laje principal é construída pelo deslizamento da forma após a realização da instalação da armadura de aço. Somente devem existir juntas em lajes principais quando forem em construção horizontal; em lajes de ombreira, em meio às lajes de arranque e às lajes principais, são empregadas as formas deslizantes. No projeto e nas relações técnicas, é preciso destacar em detalhes as soluções encontradas para se realizar as conexões entre os sistemas, entre os plintos e as lajes da face de concreto, assim como os tipos de veda-juntas, como a junta perimetral e a junta vertical. O comportamento de estanqueidade deve ser acompanhado com atenção pelo plano de monitoramento e instrumentação da barragem e outros pontos como a resistência mecânica e a impermeabilização desses elementos que compõem a barragem e a deformabilidade. Materiais de uso O projeto deve especificar todas as exigências em relação a cada material, como o aço, o cimento, o concreto produzido, os diferentes materiais possíveis para se realizar os revestimentos dos taludes, como o solo-cimento, o enrocamento, o cimento betuminoso, e a vegetação apropriada ao local. 92 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Tipo de fundação e tratamento O contato direto entre a superfície do maciço que servirá de fundação e o solo que será um material de aterro apresenta a necessidade de assistência e acompanhamento, visto que envolve questões de durabilidade, estanqueidade erosão e deformabilidade. Para isso, são indicados alguns estudos, sendo necessário que todo esse processo seja realizado antes de se iniciar qualquer tipo de procedimento, visando sempre seguir todas as especificações técnicas que estiverem no projeto. 93 CAPÍTULO 3 Barragens de concreto compactado a rolo – CCR Barragens de concreto compactados a rolo (CCR) Os concretos que são compactados a rolo, mais conhecidos por CCR, são concretos secos que possuem um abaixamento nulo para permitir que equipamentos de transporte e de lançamentos possam transitar sobre o concreto fresco, do mesmo modo que ocorre na construção de aterros. Para a composição desse concreto, é preciso realizar estudos para saber a porcentagens dos diferentes componentes desse concreto para que se mantenha um abatimento nulo, levando em conta o local onde está sendo realizada a obra e os materiais que estão sendo empregados e os equipamentos disponíveis, para que satisfaçam as necessidades e exigências de qualidade que o projeto almeja e a resistência mecânica necessária, conforme as definições de projeto. Tanto a durabilidade do concreto quanto o seu peso específico são questões importantes e devem ser consideradas. Bloco experimental Os blocos experimentais devem ser executados em uma etapa anterior a todo o processo de construção das barragens de CCR. O lugar onde será executado deverá ser de acordo com a empreiteira e a supervisão que servirá para a realização de ensaios que possam aferir alguns parâmetros de construção que costumam ser parâmetros de maior dificuldade para a caracterização durante a fase de projeto. Esses blocos precisam ser realizados por meio de equipamentos de fabricação, de lançamento e de compactação semelhantes aos que serão empregados na construção da barragem. A partir dos resultados que forem obtidos por meio dos ensaios feitos no bloco experimental é que poderão ser realizados os projetos e, em paralelo, serão definidas as especificações técnicas, abrangendo a origem e as características dos agregados e a composição do ligante. Tambémserão abrangidas nessas especificações técnicas questões como características de compactação, em relação à espessura das camadas, a energia utilizada para essa compactação e o número de vezes em que é realizada a passagem do compressor. Outros detalhes são referentes às condições do material ligante em meio às camadas e aos tipos de ensaios que devem ser realizados e a frequência indicada para a realização, com o objetivo de ter um controle sobre a qualidade da construção. É preciso que sejam considerados e respeitados os aspectos relativos ao tratamento de singularidades, tais como vedantes, interfaces com paramentos e concretos convencionais, 94 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS de mesmo modo como a realização das juntas de contração. No momento em que forem executados os blocos experimentais, é preciso realizar uma aferição na central de produção do concreto, para que se estabeleça uma data de início da fabricação dos concretos que serão destinados à obra assim que for realizada essa aferição da central de produção. Armazenamento e transporte dos agregados Questões como local de implantação e dimensões do depósito são definidas considerando sempre a posição em que se encontra a central de fabricação do concreto. A logística busca otimizar todo o caminho que os materiais devem realizar, de seu armazenamento à central de produção do concreto. É preciso que o controle sobre disponibilidade dos agregados esteja sempre atento para que nunca falte o material no momento em que for necessário, visto que é preciso deixar um volume de agregado permanentemente disponível para garantir a continuidade de trabalho e que não haja interrupções no processo de produção por falta desses materiais para não prejudicar o ritmo de atividades a serem realizadas durante o dia de obra. Outra questão é que, no percurso entre o depósito e a central, não pode haver nenhum tipo de alteração em suas características. Produção do concreto A central de fabricação do concreto deve disponibilizar uma capacidade adequada de produção e de confiabilidade que seja compatível com as altas frequências de lançamento do CCR, do mesmo modo como deve garantir o grau de exatidão que é exigido em conjunto com o nível de controle da mistura enquanto está sendo realizado o processamento em que tanto o plano da instalação e as especificações do equipamento precisam estar disponíveis para análise da supervisão. Para o controle de qualidade do concreto, é preciso seguir as normas técnicas vigentes e os regulamentos que são aplicáveis à questão no momento, em conjunto com as adaptações que as especificações técnicas tenham definido em relação ao controle de qualidade sobre a fabricação do concreto. Processo de condução, colocação e compactação do concreto No momento em que for realizada a condução do concreto, do ponto de partida, que é a central de produção, até o destino, que é a própria obra, é preciso seguir algumas especificações tanto das normas técnicas quanto dos regulamentos que forem aplicáveis. O percurso, o processo de descarregamento e a circulação das máquinas devem ser realizados com certo planejamento e cuidado, tanto para assegurar um funcionamento 95 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III com boa eficiência por parte dos equipamentos quanto com a segurança e a garantia da integridade do material lançado. Limpeza do equipamento é uma exigência para que se evite a contaminação feita pela superfície das camadas de lamas em mistura com óleos e outras substâncias que possam vir a prejudicar o concreto que será lançado. No momento de lançamento do concreto, é preciso seguir as especificações técnicas que são definidas no projeto, assim como as questões das normas técnicas e os regulamentos. Podemos ressaltar alguns pontos que lá são abordados, como: » respeitar a altura máxima de queda livre para o concreto em até o 0,60 metros; » antes de ser lançada a mistura, é preciso verificar se a camada que receberá essa mistura se encontra livre de materiais soltos; » no momento de espalhamento da mistura, é realizada uma técnica que possa garantir que o material seja depositado o mais próximo possível do local final na camada que foi lançada. Assim como em todas as etapas, no momento em que é realizada a compactação, é preciso seguir todas as especificações técnicas, as normas e os regulamentos técnicos que se aplicam ao caso. O processo de compactação do concreto deve, necessariamente, ser realizado momento após ter sido feito o processo de espalhamento, para que o tempo transcorrido entre o lançamento do concreto, o espalhamento e a compactação não exceda trinta minutos. Existe uma espessura almejada para as camadas compactadas que seguem uma regra de que sua espessura seja de, no máximo, três vezes a maior dimensão dos agregados lançados. É dispensável a presença do rolo vibrador nas camadas que já foram compactadas, visto que sua ação poderia causar danos como fissuras no concreto no momento em que estivesse em processo de pega. Para as camadas que apresentam rebordos expostos, que não serão cobertos pela camada seguinte, precisam ser compactados com um equipamento apropriado e indicado para a função, em um tempo limite de até trinta minutos após ter sido realizado o lançamento do concreto. Controle de qualidade no concreto produzido O controle da qualidade sobre o concreto em obra deve ser realizado basicamente na determinação, por meio de alguns ensaios apropriados, da espessura e da regularidade das camadas executadas, do teor de umidade, do peso específico e do teor da temperatura. 96 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS A partir das especificações técnicas que serão recomendadas, sondagens mecânicas para se retirar um corpo de prova deverão ser realizadas. Esses testemunhos terão por função servir de material de prova para realização dos ensaios de resistência mecânica, para os ensaios de resistência química e para a verificação de deformabilidade e de permeabilidade. Tabela 8. Ensaios correntes de caracterização dos materiais constituintes do concreto (*). Componentes Ensaios Normatização Agregados – NBR 7211; NBR NM 26; NBR NM 27; NBR 15577 Análise granulométrica ABNT NBR 7217/87; NBR NM 248. Massa Específica e Absorção ABNT NBR 9937/87; NBR NM 53 (agregados graúdos); NBR 9777/87; NBR NM 30; NBR NM 52 (agregados miúdos); Massa Unitária ABNT NBR 7251 Material pulverulento (passante na #200) ABNT NBR 7219/87; NBR NM 46. Teor de umidade ABNT NBR 9775/87; NBR 9939/87 Teor de argila e materiais friáveis ABNT NBR 7218/87(Agregados graúdos) Teor em matéria orgânica ABNT NBR NM 49 (Agregado miúdo) Abrasão “Los Angeles” ABNT NBR NM 51 (Agregados graúdos) Índice de forma ABNT NBR 7809/83 (Agregado graúdo) Resistência ao esmagamento ABNT NBR 9938/97 Cimento Análise química ABNT NBR NM 10; NBR NM 11; NBR NM 20; NBR NM 22; NBR 11578/91 Superfície específica (Blaine) ABNT NBR 7224/84; NBR NM 76 Calor de hidratação (Garrafa de langavant) ABNT NBR 12006 Massa específica ABNT NBR NM 23; NBR 6474/87 Resistência à Compressão ABNT NBR 7215/07/ Tempo de início e fim de pega ABNT NBR NM 65; NBR 11581/91 Equivalente Alcalino (Teor de Sódio e Potássio) ABNT NBR NM 17 Resíduo insolúvel ABNT NBR NM 15; BNR NM 22 Perda ao fogo ABNT NBR NM 18 Expansibilidade “Le Chateller” ABNT NBR 11582 Óxidos elementares ABNT NBR NM 11-2; NBR NM 22 Álcalis solúveis e totais ABNT NBR NM 17 Cal Livre NBR NM 13 Fonte: ANA, 2016, p. 57. (*) Além desses ensaios, podem também ser realizados ensaios especiais, tais como teores de cloretos, de sulfatos solúveis e de partículas leves, durabilidade (sanidade 97 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III ao ataque pelo sulfato de sódio ou magnésio, ciclagem artificial em água e estufa ou ciclagem acelerada com etilenoglicol, entre outros). Tabela 9. Ensaios correntes de caracterizaçãodos materiais constituintes do concreto (*). Componentes Ensaios Normatização Água (NBR 12654 e NBR NM 137) pH ABNT NBR 9251/86. Análise Química Aditivos (NBR 11768) pH, teor de material sólido, massa específica NBR 10908 Análise Química Fonte: ANA, 2016, p. 57. (*) Além desses ensaios, podem também ser realizados ensaios especiais, tais como teores de cloretos, de sulfatos solúveis e de partículas leves, durabilidade (sanidade ao ataque pelo sulfato de sódio ou magnésio, ciclagem artificial em água e estufa ou ciclagem acelerada com etilenoglicol, entre outros). Tabela 10. Ensaios correntes de controle na produção de concretos. Tipos de Concretos Ensaios Normatização Concreto convencional Concreto no Estado Fresco Teor de ar comprimido ABNT NBR NM 47; NBR 9833/87 Massa Específica ABNT NBR 9833/87 Trabalhabilidade/Abatimento (Slump test) ABNT NBR 7219/87; NBR NM 46 Espalhamento no cone de Abrams (Slamp Plow Test) ABNT NBR NM 67 Início e fim de pega ABNT NBR 15823 Temperatura ASTM C 403; NBR NM 09 Concreto Endurecido Resistência à compressão unilateral em corpos de prova ABNT NBR 5739/07 Módulo de elasticidade em corpos de prova ABNT NBR 8522/03 Extração de carotes e determinação de: Resistência à compressão unilateral ABNT NBR 5739/07 Módulo de elasticidade ABNT NBR 7222/94 Concreto Compactado a Rolo (CCR) Concreto no Estado Fresco Ensaio Vebê ACI2113/87 Ensaio Vebê modificado “Cannon Time” Massa Unitária Densidade in situ com densímetro nuclear ASTM C1040M-08 Concreto Endurecido Resistência à Compressão Uniaxial em corpos de prova ABNT NBR 5739/07 Módulo de elasticidade em corpos de prova ABNT NBR 8522/03 98 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS Concreto Endurecido Extração de carotes e determinação de: Resistência à compressão uniaxial ABNT NBR 5739/07 Resistência à compressão diametral ABNT NBR 7222/94 Absorção de água por imersão ABNT NBR 9778/87 Fonte: ANA, 2016, p. 58. Além destes ensaios, podem também ser realizados ensaios especiais, tais como teores de cloretos, de sulfatos solúveis e de partículas leves, durabilidade (sanidade ao ataque pelo sulfato de sódio ou magnésio, ciclagem artificial em água e estufa ou ciclagem acelerada com etilenoglicol, entre outros). Face da fundação e juntas de concretagem As superfícies da fundação serão preparadas para o lançamento do concreto seguindo todas as especificações técnicas do projeto e respeitando as normas técnicas respectivas ao lançamento do concreto e as regulamentações que forem aplicáveis a essa ação. As superfícies que correspondem às feições, sejam elas diaclases ou de planos de estratificação ou de xistosidade, precisam apresentar certa rugosidade que proporcione uma aderência satisfatória em relação ao que se estabeleceu de função no projeto. Outro quesito referente a regulamentações é sobre as rochas que forem adjacentes às feições e forem removidas. Elas não podem ser danificadas por conta dos trabalhos que foram realizados durante a remoção. Para as eventuais cavidades que possam surgir, devem ser realizadas limpezas com o uso de jateamento de ar, em conjunto com água. A superfície sofrerá um apicoitamento para que se torne rugosa e possa ser preenchida com concreto. O responsável pela supervisão da obra deve verificar, antes de ser realizado o lançamento do concreto, se a superfície se encontra livre e apta para receber essa mistura. As juntas de concretagem são referentes às superfícies de interrupção dos lançamentos entre os concretos em diferente idade de cura. As camadas devem ser cobertas com o concreto da camada superior, antes mesmo que a camada tenha iniciado o seu processo de pega, para que se assegure uma ligação perfeita entre essas duas camadas. Se somente for possível realizar o lançamento de uma camada, antes que essa camada lançada comece a iniciar a pega, a junta resultante, que é uma junta fria, precisa ser tratada conforme as especificações técnicas do projeto considerando os resultados dos blocos experimentais em diferentes condições do processo construtivo, em específico sobre o intervalo de interrupção, em relação à temperatura e a uma eventual aplicação de uma argamassa de ligação. 99 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III Concretagem em condições adversas Não se deve executar uma concretagem em período de chuva considerada intensa que venha a prejudicar a mistura lançada e causar um tipo de lavagem dos materiais finos do concreto. Nos tempos frios, podem sim ser efetuadas, porém devem ser seguidas questões e procedimentos especificados no projeto, sobretudo as normas técnicas e as possíveis regulamentações aplicáveis ao caso. Formas As estruturas que servem de suporte às formas, que geralmente são formadas por blocos ou por painéis deslizantes, precisam respeitar questões de movimentação, para que os equipamentos de compactação não sejam restringidos em excesso. O tratamento da junta de contração Para as barragens de concreto compactado com rolo, em que a estanqueidade é assegurada pelo concreto, é preciso prever as juntas de contração que são formadas por meio de cisalhamento de cada camada logo após concretagem ou por meio de dispositivos que são indutores de fendas. As injeções de tratamento para as juntas de contração, do mesmo modo que a possíveis fendas que apresentem uma disposição em transversal, deverão ser efetuadas, assim que for necessário, por meio de furos, a partir dos parâmetros ou de galerias. Órgão anexos e galerias A construção de galerias integradas ao corpo da obra, assim como os órgãos hidráulicos que são constituídos em um concreto convencional, devem também ser realizadas conforme as especificações técnicas definidas no projeto e de acordo com as funções reais e as condições de execução dessas galerias. Essa construção deve ser seguir os procedimentos de colocação do CCR em conjunto com os equipamentos. Cronograma de concretagem O processo de concretagem deve estar no plano de atividades de todos os trabalhos a serem executados, e não pode haver conflitos sobre essa execução, isto é, não pode haver atrasos ou mesmo interferências. Esse plano de execução é importante para a construção das barragens CCR, pois cada módulo e cada etapa envolve um volume muito grande de concreto, e o processo de lançamento precisa ser realizado de modo que não haja formações de juntas frias entre elas. Nesse cronograma de concretagem, 100 UNIDADE III | CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS devem ser especificados os níveis de cada camada de concretagem. Para as condições ideais para a formação de juntas frias, precisam ser datados seu início e sua conclusão, e, em conjunto, devem constar as datas de montagens dos equipamentos que serão utilizados para o processo de compactação pelo rolo. Para esse plano de concretagem, devem ser analisadas questões como a compatibilização do lançamento do CCR com os demais elementos da obra em que serão utilizados os concretos convencionais, assim como os demais equipamentos dos órgãos que servem como extravasores de operação. Outra questão que precisa ser analisada e considerada é a capacidade da obra de fabricar os concretos, transportar esse material e realizar o seu lançamento. Além disso, deve ser feito o estudo para os períodos em que poderá ser realizada a concretagem, para que condições climáticas não interfiram no processo. Tratamento das fundações Barragens executadas em concreto são, em sua maioria, fundadas sobre material maciço rochoso, cuja superfície, que ficará entre o concreto e o maciço da fundação, e o maciço da vizinhança desse local devem receber um tratamento específico para que sejam asseguradas as propriedades do maciço e haja um comportamento estrutural e hidráulico mais adequado. Em barragens que possuem elementos de obra diretamente apoiados ao solo, esses estudos são realizados com maior cuidado pelo fato de o contato direto ter mais possibilidadede presença de água, o que pode afetar questões estruturais Impermeabilização, consolidação e drenagem Para os tratamentos dos maciços rochosos de fundação dessas barragens feitas de concreto, principalmente nos pontos de consolidação, drenagem e impermeabilização, é feita a impermeabilização para que seja controlada a percolação da água no maciço. A consolidação tem por função aperfeiçoar as características mecânicas do próprio maciço. Já a drenagem realiza a ação de recolher a água de percolação e a conduzir de modo que controle os gradientes hidráulicos e a própria subpressão que ocorre na base das barragens e em eventuais superfícies de deslizamento potencial do maciço. Devem ser adotados e executados alguns procedimentos para as ações citadas de impermeabilização, a consolidação e a drenagem da fundação, que possam seguir os critérios e as exigências técnicas previamente estabelecidas para as dimensões da barragem em particular. Dessa maneira, as particularidades do maciço de fundação, como a possível alteração das rochas que o constituem e as suas feições, devem ser 101 CRITÉRIOS E METODOLOGIA DE PROJETOS PARA BARRAGENS | UNIDADE III consideradas, podendo ser disclasamento, estratificação e xistosidade, falhas, mergulhos e cavernas. É importante que os procedimentos adotados no momento de tratamento das fundações sejam revistos enquanto for realizada a construção, conforme as informações adicionais que foram obtidas nessas fases por intermédio das análises de investigação, geológicas e geotécnicas, complementares e de escavação. Domínio das atividades de consolidação e de impermeabilização Refere-se à forma do domínio das atividades para as medidas de consolidação e de impermeabilização das fundações rochosas de barragens, como a execução dos furos, sobre as características das caldas e as pressões que devem ter as injeções. O objetivo é principalmente a garantia da estabilidade das barragens e do maciço das fundações vizinhas enquanto for realizada a injeção. A redução do desperdício do produto que é injetado também é uma causa. É preciso avaliar a questão de desenvolvimento de algumas características do maciço em diferentes fases do tratamento, permitindo ajustar o projeto ao que está no local. O controle das atividades de consolidação e de impermeabilização precisa ser assegurado por meio de inspeção visual da superfície do maciço rochoso e das juntas da barragem e de sua interseção dos parâmetros com a fundação. Deve-se detectar possíveis comunicações entre os furos, que não tenham sido previstas, e realizar análise dos registros das pressões das injeções e das absorções em cada furo e a comparação entre os resultados de ensaios de permeabilidade. É importante fazer uma interpretação dos resultados de observação sobre a detecção de possíveis comportamentos anômalos na barragem e na fundação. A maneira mais eficaz do tratamento pode ser avaliada por uma comparação entre as propriedades iniciais dos maciços rochosos com as que foram obtidas em meio das fases posteriores ao tratamento. As propriedades do maciço rochoso são caracterizadas a partir de ensaios de permeabilidade e de ensaios geofísicos, realizados em locais característicos da fundação, que são definidos com base em estudos do seu faturamento. A quantidade de furos e a distância entre eles para a inserção da injeção de calda de cimento precisam estar ajustadas no decorrer das atividades, em função da quantidade de caldas que foram absorvidas em cada furo. 102 UNIDADE IV PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS Problemas por falha de construção Em barragens feitas com concreto, é possível que haja algumas deficiências por conta da má execução das atividades estabelecidas para a sua construção. Exemplo dessas falhas são as percolações excessivas, em conjunto com a erosão interna, em que ocorre um arraste das partículas de enchimento e das fissuras dos maciços rochosos por conta de tratamentos de consolidação mal executados, assim como a própria impermeabilização na fundação, que pode apresentar falhas em sua execução. As subpressões em excesso na fundação podem ser causadas por meio de um tratamento deficiente na drenagem da fundação. As possíveis deformações ou movimentos em excesso que causem desalinhamento dos blocos de barragem e fendas grandes que permitam a passagem de água podem ser resultado de uma escavação errada no terreno. A falha no tratamento de consolidação do maciço rochoso também prejudica a estrutura. Fissuras no concreto podem ser resultado de um recalque na fundação, assim como pode ocorrer a degradação exagerada dos concretos por conta de sua baixa qualidade e dos concretos ou mesmo dos produtos utilizados para as juntas ou por deficiências técnicas durante a construção. A deterioração por conta da expansão causada pelas reações químicas, os álcalis- agregados e a falta de estudos prévios para prevenir esses fenômenos durante o processo de planejamento e projeto são prejudiciais. Questões de segurança para barragens de concreto As estruturas das barragens realizadas em concreto são estáveis, considerando que foi realizada a sua construção de maneira correta e que não ocorreram danos por monta em situação de galgamento (“overtopping”). Outra questão é que não se encontram propensas a deslizamento ou erosões; porém, a maior questão corresponde às vegetações maiores, considerando suas raízes, que podem prejudicar a segurança da estrutura das barragens de enrocamento e terra. Sabendo que a água, em um reservatório, desempenha certa pressão nas paredes da estrutura de concreto que transmitem para as ombreiras e para a fundação, as principais 103 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV questões levantadas quanto aos riscos da estabilidade da estrutura das barragens feitas de concreto se encontram atreladas diretamente à sua integridade estrutural, isto é, à questão de não haver fissuração, à transmissão dos esforços às ombreiras e posteriormente para a fundação e sobre sua qualidade e a sua integridade, à característica de resistência em relação às ações mecânicas, seja por erosão ou cavitação, e sobre a possível deterioração por influência de agentes externos, podendo pontuar a água como exemplo, ou mesmo por agentes internos, com a própria reação álcalis-agregado, que foi abordada no capítulo anterior, ou por qualquer contaminação dos materiais empregados. É preciso levar em conta o número de barragens de concreto que são construídas e se encontram ativas e operando há algumas décadas e ainda assim tiveram a mesma ação de envelhecer. Logo, ainda que barragens de concreto apresentem certa vantagem estrutural, não se exclui a necessidade de manutenção e reparos. E tais ações podem apresentar custos crescentes com o passar dos anos. Em qualquer estrutura, seja ela de concreto ou não, que possa apresentar ação de ruptura que represente danos de monta, em barragens com estrutura de concreto, é preciso que seja realizado o monitoramento de seu desempenho, de modo que se acompanhe a estabilidade e a segurança dessa barragem. Controle de segurança durante a construção Acompanhamento e instrumentação Para se ter o controle em questões de segurança na etapa de construção, é preciso ter como principal objetivo não apenas garantir que não ocorram incidentes ou acidentes enquanto as etapas de execução estão em andamento, mas ter por finalidade a contribuição para uma qualidade ainda maior e uma redução nos impactos ambientais que estejam diretamente associados às modificações causadas pela construção. Nessa etapa, toda a segurança se apoia em rotina de inspeções de segurança sobre as atividades e no monitoramento entre os resultados obtidos por meio da instrumentação. No momento de construção, do plano para o monitoramento e da instrumentação, o projeto precisa estar convenientemente adaptado para considerar as especificações que são relativas às instalações e ao uso dos instrumentosde monitoramento e outros dispositivos e acessórios, assim como os procedimentos que devem ser seguidos. 104 CAPÍTULO 1 Rejeitos de mineração: problemas e alternativas Barragens de rejeitos minerais Uma barragem de rejeito é uma estrutura de terra construída para armazenar resíduos de mineração, os quais são definidos como a fração estéril produzida pelo beneficiamento de minérios, em um processo mecânico e/ou químico que divide o mineral bruto em concentrado e rejeito. O rejeito é um material que não possui maior valor econômico, mas, para salvaguardas ambientais, deve ser devidamente armazenado. As características dos rejeitos variam de acordo com o tipo de mineral e de seu tratamento em planta (beneficiamento). Podem ser finos, compostos de siltes e argilas, depositados sob forma de lama ou formados por materiais não plásticos (areias) que apresentam granulometria mais grossa e são denominados rejeitos granulares (ESPÓSITO, 2000). Os rejeitos granulares são altamente permeáveis e contam com uma boa resistência ao cisalhamento, enquanto os rejeitos de granulometria fina, abaixo de 0.074mm (lamas), apresentam alta plasticidade, alta compressibilidade e são de difícil sedimentação. De acordo com Chammas (1989), o rejeito em forma de polpa passa por três etapas de comportamento: » comportamento de lâmina líquida, com floculação das partículas de menor tamanho; » em processo de sedimentação, apresentando comportamento semilíquido e semiviscoso; » em processo de adensamento, comportando-se como um solo. É importante mencionar que o rejeito não é propriamente um solo, mas, para fins geotécnicos, seu comportamento é considerado equivalente ao de um solo com características de baixa resistência ao cisalhamento. Barragens pelo Brasil As barragens de mineração são estruturas projetadas e empregadas como reservatório para contenção e amontoamento de substâncias líquidas ou de combinação de líquidos e sólidos originários dos procedimentos de beneficiamento de minérios. No campo de Minério de Ferro, possuímos uma estatal brasileira com ao menos 124 barragens cadastradas na Agência Nacional de Mineração (ANM). Ao todo, 82% dessas barragens estão localizadas em Minas Gerais. 105 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV Figura 18. Barragens de mineração de ferro. Barragens de minério de ferro no país Barragens de rejeito Em Minas Gerais Fonte: http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/servicos-para-comunidade/minas-gerais/atualizacoes_brumadinho/Documents/PT/entenda- as-barragens-da-vale-pt.html. Figura 19. Barragens de mineração de ferro no território brasileiro. Barragens Barragens Barragens Fonte: http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/servicos-para-comunidade/minas-gerais/atualizacoes_brumadinho/Documents/PT/entenda- as-barragens-da-vale-pt.html. Problemas e alternativas Segregação hidráulica A segregação hidráulica é um processo de disposição em que partículas de diferentes tamanhos são dispostas a distâncias específicas em relação ao ponto de lançamento. A segregação hidráulica apresenta um efeito direto na distribuição granulométrica e nas condições de fluxo ao longo da praia (BHERING, 2006). De acordo com Vick (1983), durante o processo de disposição hidráulica, espera-se uma zona de alta permeabilidade nas áreas próximas ao ponto de descarga (rejeitos granulares), assim como uma zona de baixa permeabilidade situada mais distante do ponto de lançamento (rejeitos finos), com uma zona de permeabilidade intermediária 106 UNIDADE IV | PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS entre estas. A disposição hidráulica cria também características estruturais típicas, como estratificação, acamamentos, microestruturas etc. Segundo Blight (1994), em rejeitos arenosos, a segregação granulométrica ocorrida na praia gera o arraste das partículas finas para locais mais distantes do ponto de lançamento dos rejeitos, com redução da condutividade hidráulica em função da distância do ponto de lançamento. A condutividade hidráulica média k foi estimada por aquele autor em função da distribuição granulométrica e com a equação de Sherard (1984): ( )2 150,35k d= Em que k representa a condutividade hidráulica em (cm/s) e d15 o diâmetro efetivo em milímetros. Evaporação No processo de disposição de rejeitos, normalmente o intervalo entre o lançamento de camadas consecutivas é suficiente para permitir o ressecamento da camada anterior lançada. À medida que o grau de saturação diminui, a sucção desenvolvida pode ser suficientemente alta para aumentar a resistência do material, formando um perfil geotécnico com características de pré-adensamento, o que contribui na minimização de recalques após o final da disposição (FAHEY et al., 2002). Sedimentação No momento da disposição dos rejeitos, algumas regiões da camada tornam-se mais densas que outras, dependendo do tipo de disposição. Disposições turbulentas tenderiam a provocar maiores índices de vazios nas camadas. Adensamento Adensamento é o processo que envolve a ocorrência de deformações e aumento da tensão efetiva no material, com o consequente aumento de sua resistência devido à dissipação dos excessos de poropressão ao longo do tempo. A polpa depositada no reservatório possui considerável quantidade da água no momento de sua disposição, sendo fundamental a existência de um sistema de drenagem eficiente para garantir a ocorrência do adensamento. A permeabilidade dos rejeitos diminui significativamente à medida que o adensamento avança, as camadas inferiores tornando-se menos permeáveis com o tempo e o sistema de drenagem nessas camadas deixando de ser eficazes (BHERING, 2006). No momento de lançamento de resíduos de densidades muito baixas no reservatório, existe a ocorrência de sedimentação e adensamento 107 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV simultaneamente. No comportamento da mistura líquido-sólido, a diferença entre sedimentação e adensamento é feita usualmente em termos da ocorrência ou não das tensões efetivas. Quando não há contato entre grãos, o comportamento da camada de resíduos é governado pela teoria da sedimentação (MCROBERTS; NIXON, 1976), enquanto a teoria do adensamento seria aplicável quando tensões efetivas entre partículas sólidas fossem desenvolvidas. As propriedades de deformabilidade e permeabilidade variam significativamente ao longo do tempo, necessitando-se de uma teoria do adensamento a grandes deformações para um tratamento rigoroso do assunto. Adicionalmente, os recalques gerados nos rejeitos não são somente provocados pelo adensamento, mas também pelo ressecamento, com a formação de uma crosta superficial com características de material pré-adensado. Alteamento de barragens Barragem de rejeito é uma estrutura construída com a finalidade de armazenar os resíduos de mineração (CRUZ, 2004). No Brasil, a frequente disposição de rejeito na forma de polpa faz com que a construção adequada e a segurança das barragens sejam indispensáveis para armazenar corretamente os rejeitos e reduzir os riscos ambientais. A Política Nacional de Segurança das Barragens (PNSB), instituída em 20 de setembro de 2010 pela Lei Federal n. 12.334, estabelece que a segurança das barragens deve ser considerada em todas as etapas, desde planejamento, projeto, construção, enchimento, operação, até a desativação e os usos futuros, sendo o empreendedor responsável legal pela segurança da barragem. Durante as fases planejamento e projeto, devem ser realizados ensaios em campo e em laboratório, a fim de verificar as propriedades físicas e mecânicas das fundações, rochas e materiais de empréstimo. Além disso, devem ser avaliadas as características das águas subterrâneas, sua localização e composição (LOZANO, 2006). Segundo Machado (2007), no processo de escolha do local, é necessário analisar a topografia da região para determinar a geometria da barragem, sendo possível a utilização de valesexistentes na construção das barragens. É importante que o solo do local escolhido apresente capacidade de suporte suficiente, para que não ocorram deslizamentos ou grandes acomodações durante a operação da barragem Para o dimensionamento das barragens, deve ser considerado o volume e as diferentes características do rejeito. Em situações nas quais o rejeito seja de textura argilosa, esse dimensionamento dependerá da previsão da consolidação desse material. 108 UNIDADE IV | PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS Com o tempo, a consolidação liberará espaço útil na barragem para novos lançamentos de rejeito (LIMA, 2009). De forma geral, as barragens de rejeito são construídas em etapas e alteadas de acordo com as necessidades da mina. O alteamento pode ser realizado com materiais de empréstimo, material compactado proveniente de áreas próximas, ou com material do próprio rejeito (CRUZ, 2004). O uso de rejeito nos alteamentos é bastante frequente devido ao baixo custo, à fácil execução e à grande disponibilidade de material. Para a utilização de rejeito na construção da barragem, é necessário que suas frações sejam separadas, pois as partículas finas são impróprias para o uso devido à sua baixa resistência ao cisalhamento e à sua alta compressibilidade. A ciclonagem dos rejeitos é comumente utilizada para obter a separação dos componentes de maiores diâmetros (LIMA, 2009). Para as construções das barragens, é utilizada a técnica de hidromecanização, na qual ocorre o transporte e a disposição do rejeito com o auxílio da água. As barragens resultantes desse procedimento apresentam comportamento de aterro hidráulico, estrutura construída pelo transporte e pela deposição de solo em meio aquoso (PEREIRA, 2005). O lançamento hidráulico de rejeitos provoca segregação hidráulica, afetando diretamente a distribuição granulométrica e as condições de fluxo ao longo da praia. Além disso, pode haver aumento do risco de ruptura devido à formação de potenciais focos de liquefação (PEREIRA, 2005). A liquefação é um fenômeno no qual ocorre redução da resistência ao cisalhamento de solos granulares, fofos e saturados em reposta a um carregamento não drenado. Esses focos podem ser caudados por vibrações no terreno provenientes de desmonte com explosivos próximo das barragens, alteamentos muito rápidos, entre outros (PEREIRA, 2005). A etapa inicial da construção consiste na execução de um dique de partida de pequena altura (normalmente em torno de 5 metros), constituído de material de empréstimo, seguido pelo lançamento do rejeito em sua crista, formando uma praia que se adensará e atuará como fundação. Esse lançamento é realizado por meio de hidrociclones por uma série de barras aspersoras (spray bars) ou por espigotes, todas com o objetivo de obter a formação uniforme da praia (LUZ; LINS, 2010). Os espigotes apresentam uma forma mais simples de instalação e mais complexa de funcionamento, pois existe a possibilidade da não uniformidade nos pontos de 109 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV lançamento, formação de poças de lama/água entre os pontos de lançamento e grande viabilidade das características geotécnicas dos rejeitos (PEIXOTO, 2012). Alteamento a montante O método de montante é o mais antigo, simples e econômico método de construção de barragens. A etapa inicial na execução desse tipo de barragem consiste na construção de um dique de partida, normalmente de material argiloso ou enrocamento compactado. Após realizada essa etapa, o rejeito é lançado por canhões em direção a montante da linha de simetria do dique, formando assim a praia de deposição, que se tornará a fundação e eventualmente fornecerá material de construção para o próximo alteamento. Esse processo continua sucessivamente até que a cota final prevista em projeto seja atingida (ARAUJO, 2006). De acordo com Troncoso (1997), o método de montante para alteamento de barragens de rejeito é o mais econômico em curto prazo, pois permite obter a menor relação entre volumes de areia/lama. Embora seja o mais utilizado pela maioria das mineradoras, o método de montante apresenta um baixo controle construtivo, tornando-se crítico principalmente em relação à segurança. O agravante, nesse caso, está ligado ao fato de os alteamentos serem realizados sobre materiais previamente depositados e não consolidados. Assim, sob condição saturada e estado de compacidade fofo, esses rejeitos (granulares) tendem a apresentar baixa resistência ao cisalhamento e susceptibilidade à liquefação por carregamentos dinâmicos e estáticos (ARAUJO, 2006). Nesse método construtivo ainda existe uma dificuldade na implantação de um sistema interno de drenagem eficiente para controlar o nível d’água dentro da barragem, constituindo um problema adicional com reflexos na estabilidade da estrutura. Figura 20. Alteamento a montante. Rejeitos Dispostos Fundação Dique Inicial Alteamentos Lago de Decantação Fonte: adaptada pelo autor (2021). Alteamento a jusante Já no método de jusante, a etapa inicial consiste na construção de um dique de partida, normalmente de solo ou enrocamento compactado, em que os alteamentos subsequentes 110 UNIDADE IV | PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS são realizados para jusante do dique de partida. Esse processo continua sucessivamente até que a cota final prevista em projeto seja atingida. De acordo com Klohn (1981), as vantagens envolvidas no processo de alteamento para jusante consistem no controle do lançamento e da compactação, de acordo com técnicas convencionais de construção. Nenhuma parte ou alteamento da barragem é construída sobre o rejeito previamente depositado. Além disso, os sistemas de drenagem interna podem ser instalados durante a construção da barragem e prolongados durante seu alteamento, permitindo o controle da linha de saturação na estrutura da barragem e aumentando sua estabilidade. A barragem também pode ser projetada e construída apresentando a resistência necessária ou requerida, inclusive resistir a qualquer tipo de forças sísmicas, desde que projetadas para tal, já que há a possibilidade de atendimento integral das especificações de projeto. Entretanto, barragens alteadas pelo método de jusante necessitam de maiores volumes de material para construção, apresentando maiores custos associados ao processo de ciclonagem ou ao empréstimo de material. Além disso, com esse método, a área ocupada pelo sistema de contenção de rejeitos é muito maior, devido ao progresso da estrutura para jusante em função do acréscimo da altura (ARAUJO, 2006). Figura 21. Alteamento a jusante. Rejeitos Dispostos Fundação Dique Inicial Alteamentos Lago de Decantação Fonte: adaptada pelo autor (2021). Alteamento linha de centro Barragens alteadas pelo método de linha de centro apresentam uma solução intermediária entre os dois métodos citados anteriormente, apresentando vantagens dos dois métodos anteriores e tentando minimizar suas desvantagens. Segundo Assis e Espósito (1995), o comportamento geotécnico do método de linha de centro se assemelha mais a barragens alteadas para jusante, constituindo uma variação desse método, em que o alteamento da crista é realizado de forma vertical, sendo o eixo vertical dos alteamentos coincidente com o eixo do dique de partida. Nesse método, torna-se possível a utilização de zonas de drenagem internas em todas as fases de alteamento, o que possibilita o controle da linha de saturação e promove uma dissipação de poropressões, tornando o método apropriado para utilização inclusive em áreas de alta sismicidade. 111 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV Figura 22. Alteamento linha de centro. Rejeitos Dispostos Fundação Dique Inicial Alteamentos Lago de Decantação Fonte: adaptada pelo autor (2021). Segundo Araújo (2006), a escolha de um ou outro método de execução dependerá de uma série de fatores, tais como: tipo de processo industrial, característicasgeotécnicas e nível de produção de rejeitos, necessidade de reservar água, necessidade de controle de água percolada, sismicidade, topografia, hidrologia, hidrogeologia e custos envolvidos. No entanto, como as barragens alteadas pelo método de montante têm se mostrado de maior facilidade de execução e mais economicamente viáveis, estas têm sido as preferencialmente adotadas pelas empresas mineradoras. 112 CAPÍTULO 2 Resíduos Industriais: problemas e reaproveitamento Barragens de rejeitos industriais Barragens de contenção de rejeitos geralmente retêm materiais sólidos e água que podem ser considerados contaminantes se liberados para o meio ambiente. A composição desses materiais depende do processo industrial e do tipo de mineral explorado. A contaminação do meio ambiente pode acontecer por meio de drenagem ácida, infiltração dos contaminantes para o lençol freático, contaminação do solo e água superficial a jusante, podendo até mesmo afetar a fauna local, que utiliza a água da barragem para consumo. A linha comum para cada uma dessas diferenças é que as barragens demandam gestões específicas, ou seja, cada barragem apresenta peculiaridades em relação ao local em que se encontra, ao tipo de processo industrial e às características dos rejeitos, ao tipo de construção e operação, e, por isso, não devem ser utilizadas fórmulas prontas, comuns para todas as barragens. Cada barragem de contenção de rejeitos é única e demanda estudos específicos para uma gestão eficiente. Incidentes e acidentes com barragens de contenção de rejeitos De acordo com Vieira (2005), acidente é uma anomalia de grande porte correspondente à ruptura parcial ou total de uma obra e/ou a sua completa desfuncionalidade, com graves consequências econômicas e sociais. Incidente é um evento físico indesejável, de pequeno porte, que prejudica a funcionalidade da obra, podendo vir a gerar eventuais acidentes, ainda que muito pequenos, se não corrigidos a tempo. A eliminação ou o controle de todos os incidentes deve ser a preocupação principal de todos os envolvidos nas questões de prevenção de acidentes ou controle de perdas. As barragens de contenção de rejeitos de mineração e de resíduos industriais são estruturas complexas e dinâmicas que requerem cuidados especiais na elaboração dos projetos de engenharia, operação, manutenção das estruturas, bem como para o descomissionamento. No histórico de acidentes reportados pela ICOLD (2001), as principais causas de rompimento de barragens são problemas de fundação, capacidade inadequada dos vertedouros, instabilidade dos taludes, falta de controle da erosão, deficiências no controle e inspeção pós- fechamento e falta de dispositivos graduais de segurança ao longo da vida útil da estrutura. As causas desses acidentes podem estar relacionadas com a perda da compreensão dos fatores que controlam a segurança das operações, ou seja, falta ou falhas na 113 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV instrumentação e monitoramento. Existem poucos casos de eventos não previsíveis ou causados por condições climáticas inesperadas (terremotos, por exemplo), uma vez que o conhecimento de hoje permite a previsão desses eventos. Os incidentes e acidentes também são resultados de condições inadequadas de investigações de campo, projeto, construção, operação, monitoramento, ou a combinação destes. O conhecimento sobre os fatores que controlam o comportamento das barragens de contenção de rejeitos cresceu bastante nos últimos trinta anos. As consequências e a percepção pública dos rompimentos nas barragens de contenção de rejeitos cresceram consideravelmente, tornando os proprietários e os gerenciadores mais conscientes dos riscos envolvidos nas construções dos reservatórios. A probabilidade de uma falha ocorrer pode ser baixa, porém as consequências podem ser desastrosas para comunidades locais e o ambiente a jusante. O risco imposto por toda a barragem de contenção de rejeitos será específico para o local, dependendo, por exemplo, do projeto, da construção e da manutenção da barragem, das características da rocha subjacente, das condições de precipitação e da atividade sísmica na área. Por isso, cada aspecto deve receber a devida atenção, de modo a evitar falhas e acidentes. Entretanto, há uma relutância dos proprietários em divulgar os incidentes ou falhas, a não ser quando os casos se tornam públicos, dominados pela mídia e jornais. Em barragens, as falhas ganham mais publicidade que os sucessos adquiridos ao longo do tempo. A primeira ruptura de uma barragem tradicional pelo método de montante provavelmente foi a de Barahona, no Chile. Durante um grande terremoto em 1928, a barragem se rompeu, matando mais de 50 pessoas, resultando numa inundação catastrófica. A barragem de Barahona foi substituída por uma mais estável, pelo método de jusante, com uso de ciclones para obter o material grosseiro dos rejeitos para a construção da barragem (ICOLD, 2001). Fases da gestão de segurança em barragens de contenção de rejeitos Os vários estágios de uma mina que afetam a gestão em longo prazo de barragens de contenção de rejeitos são apresentados a seguir. As minas que apresentam como forma de disposição as barragens de contenção de rejeitos passam por pelo menos quatro fases distintas de gestão – desenvolvimento, operação, reabilitação/fechamento e pós-fechamento. A Figura 23 ilustra essas fases e as mudanças no custo da reabilitação e da gestão em longo prazo sobre a vida útil da mina e mostra como os custos contínuos, 114 UNIDADE IV | PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS tais como aqueles de monitoramento e de manutenção na fase do pós-fechamento, podem variar, dependendo da adequação da reabilitação na altura do fechamento. Figura 23. Estágios da mina e custos potenciais de reabilitação. Custo (R$) Tempo (anos) desenvolvimento operação Reabil./ fechamento Pós-fechamento 1 2 3 D C B A E G F Fonte: adaptado de MAC (1998). A Figura 23 ilustra os custos médios potenciais sobre a época da reabilitação e do pós- fechamento em mineração que contém barragens de contenção de rejeitos, sendo: » data de partida, A, é a data em que os primeiros distúrbios e preparação do local para a mineração começam; » a fase de desenvolvimento, AB, é o período que conduz ao começo das operações da mineração; » a fase de operação, BC, é o período após o desenvolvimento do local, quando a extração do minério e dos minerais ocorrem, e os rejeitos são produzidos. O cessamento da mineração e da disposição dos rejeitos ocorre em C; » durante a fase de reabilitação/fechamento, CD, a reabilitação é realizada na preparação para o fechamento do local da mina em D; » na fase de pós-fechamento, os trabalhos de reabilitação continuam até total atendimento dos critérios de descomissionamento. A manutenção das barragens de contenção de rejeitos e o monitoramento de seus efeitos ambientais podem continuar por um período indefinido. 115 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV No início das operações de mineração, haverá uma obrigação para reabilitação do local no ponto E. Se nenhuma reabilitação progressiva for realizada durante todo o período operacional, o custo de reabilitação do local aumentará ao ponto G, quando as operações cessam. Se a reabilitação progressiva for realizada durante o período operacional, representado pela linha EF, o custo para reabilitar o local estará reduzido ao ponto F. Há três níveis de custo potencial na fase de pós-fechamento, dependendo da extensão e do sucesso da reabilitação. Estes são ilustrados na Figura 23 como: » custos de reabilitação, monitoramento e manutenção do local continuarão a aumentar se nenhuma reabilitação ocorrer antes ou durante o fechamento; » ocorrerão custos, mas ligeiramente mais baixos se a reabilitação progressiva ocorrer durante a fase operacional, mas nenhuma reabilitação adicional será realizadaqual serão empregados. Os agregados utilizados em construção também estão expostos a esforços de esmagamento, impacto, desgaste e abrasão. Há vários ensaios que buscam reproduzir cada um desses esforços, sendo o ensaio de abrasão o mais utilizado. Aos agregados que são empregados em concretos ou em outras situações, como em lastros de ferrovias, camadas granulares de pavimentos e aterros em geral, devem resistir aos esforços de abrasão a que estão submetidos tanto em meio ao processo construtivo quanto em serviço. O ensaio mais utilizado no Brasil para verificar a resistência do agregado a essas solicitações é o de “Abrasão Los Angeles”, normatizado pela NBR 6465 (ABNT, 1984) e pelo ME 035 para aplicações rodoviárias (DNIT, 1998b). O ensaio utiliza um tambor giratório feito de aço de elevada dureza. O procedimento do ensaio ocorre com uma amostra de agregado de massa M1, em determinada faixa granulométrica, sendo introduzida no tambor juntamente com certo valor de esferas de aço padronizadas. A quantidade de esferas e a massa a ser empregada no ensaio por faixa granulométrica estão prescritos na norma. O tambor gira a 33 rpm em um período de 15 ou 30 minutos, dependendo da graduação da amostra. 12 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS Figura 2. Ilustração do ensaio Los Angeles. Tambor Peneira de 1,7 mm Massa Perdida 33 rpm Por 15 ou 30 min. M1 Esfera de aço Fonte: Isaia, (2007). O tambor possui aletas internas que apanham os agregados e esferas, os quais caem por gravidade quando atingem a parte mais alta. Dessa forma, a amostra de agregados é triturada tanto pela ação do atrito (com outros fragmentos, com as paredes internas do tambor e com as esferas) como pelo impacto da queda das esferas (ISAIA, 2007). No momento de finalização do ensaio, os agregados são removidos de dentro do tambor e peneirados em uma peneira de malha com abertura de 1,7 mm, restando uma massa M2 retida nessa peneira. O “Desgaste Los Angeles” é a perda de massa percentual conforme a expressão (ISAIA, 2007): 1 2 .100 1 M MLA M − = (Equação 1) Quão menor o valor do Desgaste Los Angeles, melhor então será o material. Em complementação ao ensaio de abrasão, do mesmo modo é efetivado o ensaio de resistência ao esmagamento (DNIT, 1997b). Índices físicos Os índices físicos despontam propriedades intrínsecas a um dado material, ou seu estado e sua estrutura atuais. Em muitas dessas propriedades, são especificadas, estabelecendo-se limites de aceitação ou rejeição do material para dada aplicação. Entre os índices físicos mais relevantes em agregado, podemos citar: umidade, massa específica, absorção, 13 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I porosidade aparente. Esses índices são formados conforme os ensaios realizados em laboratórios, que, na maioria das vezes, são realizados em uma amostra de materiais de uma classe granulométrica mais ou menos uniforme (ISAIA, 2007). Índice de absorção e de umidade O índice de umidade tem alusão ao teor de água que existe em determinado material. A definição da umidade é em valores volumétricos ou gravimétricos, sendo a última a mais comum. Assim, umidade tem definição em analogia percentual entre a quantidade de água contida em uma amostra e a massa da amostra 100% seca, sendo a massa de sólidos, que é calculada como: Máguaw Msólidos = (Equação 2) A amostra pode apresentar diferentes condições em quatro diferentes situações, como mostra na Figura 3: (1) condição ambiente ou seca ao ar; (2) condição saturada com superfície úmida; (3) condição saturada com superfície seca (SSS); e (4) completamente seca (ISAIA, 2007). Figura 3. Teor de umidade e absorção. Umidade no ambiente ou seca ao ar (A=Mseca_ar) Saturada sup. úmida (B=Mssu) Imersão por 24h (umidade absorvida) (umidade absorvida) (umidade livre) Enxugar Temp. Ambiente Vazio Não comunicante Saturada sup.seca (C=Mssu) Completamente seca (D=Mssu) (umidade absorvida) Estufa por 24h Fonte: Isaia, 2007. 14 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS Na primeira situação, em que é descrita a condição ambiente, vemos que a amostra sempre absorve determinada quantidade de água, podendo essa água ser da chuva, de lençóis freáticos ou mesmo a que está presente no próprio ar. Contudo, dificilmente essa água é satisfatória para saturar completamente a amostra, melhor dizendo, para que se preencha ao ar completamente e os seus vazios intercomunicantes. Ainda que a amostra seja seca ao ar, apresenta uma pequena quantidade de umidade denominada higroscópica (ISAIA, 2007). É compreendida como amostra saturada quando, em meio a todos os seus vazios entre grãos e nos próprios grãos, apresentam preenchimento de água. A amostra é considerada saturada posteriormente à imersão em água e por um período de 24 horas. Contudo, ainda nessas condições, é possível haver presença de bolhas de ar oclusas nos vazios, e, eventualmente, deve-se buscar outros métodos, como o uso de vácuo em conjunto com a agitação, para se livrar inteiramente das bolhas. Os grãos do agregado de uma amostra que se encontra saturada, ao serem removidos da água, além da água que foi absorvida nos poros internos, conservam uma lâmina de água em sua superfície, originando o que é chamado de umidade livre (ISAIA, 2007). As condições das partículas, conforme Mehta et al. (1994), serão consideradas saturadas quando apresentarem a superfície úmida (SSU). A umidade livre pode ser extinguida secando a amostra com o auxílio de um pano ou de um papel absorvente, ou mesmo deixando sob a exposição de uma corrente de ar; assim sendo, as partículas são consideradas em condição dita saturada com superfície seca (SSS). A amostra evolui para a condição totalmente seca assim que houver a perda de toda a umidade. De modo mais real, é considerada amostra totalmente seca logo após ficar em estufa a uma temperatura entre 105°C +- 5ºC até equilíbrio de peso, o que, na maioria das vezes, é observado após 24 horas. Nesse fato, tem-se a massa de sólidos sendo a mesma que a massa seca. sólidos secaM M= É possível realizar uma definição do teor de umidade para qualquer circunstância da amostra, seja ela em estado natural, seca ao ar, totalmente seca, totalmente saturada, partículas saturadas com superfície úmida ou partículas saturadas com superfície seca. A massa de água será determinada pela diferença entre o peso da amostra, ou seja, entre o material somente e a água, cada um em particular, e o peso da amostra totalmente seca. 15 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I Uma medida de umidade é a absorção a que a amostra, com suas partículas, é submetida no estado de saturação, porém com superfície seca (SSS). Em outras palavras, a absorção afere a quantidade de água que pode completar os poros comunicantes nos grãos de uma massa de agregados. O cálculo dessa absorção é realizado da seguinte maneira (ISAIA, 2007): água sólidos M w M = (Equação 3) Essa absorção que ocorre no agregado está inteiramente relacionada com a abundância de vazios comunicantes ou a porosidade aparente dos grãos sólidos. Os resultados da absorção das rochas ígneas e as metamórficas normalmente são inferiores a 0,5% e dificilmente extrapolam 1,0%. Alguns tipos de basalto são exceções e podem ter alta absorção. As rochas sedimentares têm maior inclinação à absorção. E agregados lateríticos, ou lateritas, são grandemente porosos, e a absorção de água pode chegar prontamente aos 10% (MOIZINHO, 2007). Massa específica Entendemos como massa específica (γ) a relação de massa (M) e volume (V) de certo material. Podemos determinar a massa específica para o material em diferentes condições,durante o fechamento; » custos contínuos do pós-fechamento (monitoramento e manutenção) serão mais baixos se a reabilitação for realizada durante o fechamento. De acordo com os Procedimentos dos Guidelines de Segurança de Barragens da Nova Zelândia (NZSOLD, 2000), inspeções efetivas e contínuas na operação e manutenção são essenciais para assegurar a viabilidade e a segurança de uma barragem; o custo dos procedimentos é pequeno em relação às consequências de falhas ou dos danos da barragem causados pelo escoamento dos contaminantes. Os guidelines categorizam perigos da barragem em baixo, significativo e elevado. Os fatores que podem afetar o potencial do perigo incluem a altura da barragem, o volume do material armazenado, a natureza do material armazenado e as características geológicas e climáticas da área em que a barragem é situada. Os guidelines sugerem ainda que a frequência das inspeções das barragens deve ser baseada na categoria de perigo. Por exemplo, as inspeções rotineiras de barragens de perigo elevado devem ser realizadas semanalmente a mensalmente, comparadas às barragens de perigo baixo, que requerem somente revisão mensal. Nem sempre a construção de uma barragem ocorre de acordo com as especificações do projeto. Assim, após a construção, deve-se elaborar o projeto as built (como construído), que implica trabalho contínuo de identificação de alterações verificadas em obra e do registro dessas alterações nos projetos correspondentes. Consequentemente, melhorias adicionais devem ser avaliadas na prática do projeto, da construção e da operação, reduzindo os riscos de incidentes no futuro (UNEP; ICME, 1997). O projeto as built é importante para a atualização dos projetos finais, para manutenção da edificação e pela retroalimentação que pode ser gerada para projetos futuros, 116 UNIDADE IV | PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS além de ser uma exigência legal de entregar aos futuros proprietários os projetos que representam necessariamente o executado. Essa exigência, no entanto, não é prática comum das empresas, que se limitam a entregar o projeto aprovado. Na maioria dos projetos, durante o andamento da construção, ocorrem mudanças na obra que diferem do projeto original, e muitas vezes os projetos não são alterados para estarem de acordo com o executado. Isso pode resultar em falhas gerenciais e, consequentemente, em um rompimento da estrutura. Andamentos das ações socioeconômicas As ações de cunho socioeconômico visam à retomada produtiva de Brumadinho. Elaborado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT) em Políticas Públicas e Desenvolvimento Territorial (INPuT), o estudo Estratégia para Transformação de Brumadinho é um dos diagnósticos externos que embasam o Plano de Reparação Integral e aponta caminhos que permitirão maior diversificação econômica do município, diminuindo sua dependência da mineração e criando ferramentas que suportem uma transformação da realidade local. Tal mudança está condicionada a ações interligadas e integradas de desenvolvimento do território como um todo, buscando deixar um legado para o desenvolvimento sustentável da cidade de Brumadinho. Meio Ambiente Para reparar os danos ambientais, o nosso plano é remover totalmente todos os rejeitos até 2023 e revegetar toda a área até 2025. Parte dessa área já foi recuperada, e parte do curso original do riacho Ferro-Carvão foi refeito. Balanço de Reparação Ao longo destes dois anos, temos realizado diversas ações para mitigar, reparar e ressignificar as comunidades e as vidas das pessoas impactadas. Avançamos no processo de indenização individual e por grupo e em projetos voltados para capacitação, desenvolvimento e bem-estar das pessoas. Além disso, ações socioambientais e socioeconômicas estão gerando resultados para as regiões atingidas. A recuperação do rio Paraopeba e de sua biodiversidade é uma das premissas mais importantes do nosso trabalho. Para isso, medidas de curto, médio e longo prazos estão sendo realizadas. Retomada da remoção de rejeito A remoção foi paralisada em março, em função da pandemia do coronavírus, e retomada em agosto. Até o momento, 18 milhões de metros cúbicos já foram manuseados, o que corresponde a 20% do total. 117 PROBLEMAS ASSOCIADOS À EXECUÇÃO DE BARRAGENS | UNIDADE IV Segurança de Barragens A Barragem B, uma das estruturas remanescentes da Mina do Córrego do Feijão, recebeu Declaração de Condição de Estabilidade (DCE) positiva e foi retirada do nível 1 do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração, retornando ao nível 0, que atesta as condições de estabilidade e segurança da barragem. Fonte: http://www.vale.com/esg/pt/Paginas/Brumadinho.aspx. Acesso em: 1º fev. de 2021. Considerações finais Ao longo deste material, foi possível fazer uma análise sistemática sobre as estruturas que são as barragens, desde sua influência em seu entorno, bem como sua importância no âmbito social, quando associamos às interferências relativas aos ecossistemas locais, fomentando a manutenção e o desenvolvimento da sociedade. É possível concluir que, à medida que a população cresceu de forma substancial, as barragens ganharam ainda maior importância, tento em vista o aumento da demanda por água potável e energia. Em função dessa ocorrência, é deflagrado um movimento de aprimoramento no projeto e na execução dessas estruturas. Dessa forma, é fundamental que compreendamos os elementos constituintes de uma barragem, independentemente de sua tipologia, seus materiais, controle tecnológico e maneiras para fiscalizar sua execução e manutenção, objetivando um bom desempenho e, principalmente, ofertando segurança para os moradores da região. Sabemos que essas construções são estruturas físicas que conseguem represar determinado curso de água, mas, para além disso, poderão ser utilizadas para o acúmulo hídrico, para a geração de energia (hidrelétrica), para deposição de rejeitos e resíduos e, ainda, lazer e navegação. Vale ressaltar que, para cada tipo de utilização, haverá uma fiscalização específica, a fim de asseverar eficiência e eficácia para todo o sistema, assim como proteger a população. 118 REFERÊNCIAS AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (Brasil). Diretrizes para a Construção de Barragens. ANA, 2016, p. 57. AITCIN, P. C. High-Performance Concrete. Londres: E&FN Spon, 1998. 591p. ALAEJOS GUTIERREZ, M. P.; CÁNOVAS, M. F. Dosificación de hormigones de alta resistencia. In: Revista Cemento-Hormigón, n. 738, 1994. ALENCAR, R. A. Dosagem do concreto autoadensável: produção de pré-fabricados. 2008. Dissertação (Mestrado em engenharia civil) - Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. ALVES, M. F. Estudo comparativo de métodos de dosagem para concreto de alta resistência. 2000. Dissertação (Mestrado em engenharia civil) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, Porto Alegre, 2000. AMBROISE, J.; PÉRA, J. 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Em contrapartida, o volume tomado pelo material pode aludir ao volume real (Vr) ocupado pelos sólidos, deduzidos todos os vazios permeáveis, nos grãos e entre os grãos, ou ao volume aparente (Va), o qual abrange todos os vazios permeáveis. Dessa maneira, destaca-se entre massa específica real ou absoluta de um agregado (γr) e massa específica aparente (γa) (ISAIA, 2007): Mr Vr γ = Ma Va γ = (Equação 4) Compreende-se como massa específica real (γr) aquela que normalmente não leva em consideração os poros não comunicantes que ficam internos aos grãos. Para extinguir o resultado desses poros totalmente fechados, o material necessitaria ser pulverizado, o que é um pouco mais trabalhoso e sensível na dimensão em que os fragmentos foram diminuídos (MOIZINHO, 2007). Já o volume real que é ocupado pelos grãos é adquirido do volume de água deslocado pelos sólidos. Sobre a massa específica dos sólidos em agregados miúdos usados em 16 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS concretos hidráulicos, a norma NBR NM 52 (ABNT, 2003a) substituiu o frasco de Chapman por um novo tipo de frasco com volume aferido (ISAIA, 2007). A Tabela 1 oferece a massa específica de agregados de múltiplos grupos de rocha (NEVILLE, 1997). Grande parte tem massa específica de partículas entre 2,60 e 2,70 g/cm³. O basalto expõe valores médios um pouco superiores em função da presença comum de ferro. Concreções lateríticas, deduzindo os poros internos, extrapolam uma massa específica real de 3,00 g/cm³ em função dos elevados teores de óxidos de ferro e de alumínio (MOIZINHO, 2007). Tabela 1. Valores da Massa Específica para rochas comuns (NEVILLE, 1997). GRUPO Basalto Granito Arenito Calcário Quartzito Lateritas Massa específica do agregado (g/cm³) 2,80 2,69 2,69 2,66 2,62 3,17 Intervalo de valores (g/cm³) 2,60 – 3,00 2,60 – 3,00 2,60 – 2,90 2,50 – 2,80 2,60 – 2,70 3,00 – 3,30 Fonte: Moizinho (2007). Formatos dos grãos dos agregados e sua textura superficial Os agregados apresentam formatos que são equivalentes à sua geometria. Não é algo simples representar corpos tridimensionais e irregulares, sendo então melhor definir as características geométricas desses corpos, tais como alongamento, achatamento, cubicidade, esfericidade, angulosidade etc. (ISAIA, 2007). A rocha, quando é submetida ao processo de fragmentação mecânica, gera fragmentos com distintos tamanhos e formatos. Essa forma dos agregados é muito influenciada pela estrutura e pela textura da rocha de origem, chamada de rocha-mãe. Essas rochas que apresentam estrutura maciça, como os basaltos compactos, geram britas de forma cúbica. Por outro lado, rochas com estrutura xistosa, como é típico em rochas sedimentares e alguns tipos de rochas metamórficas formadas a partir destas, com frequência produzem fragmentos de formas alongadas e lamelares. O processo de britagem também influencia no formato dos agregados (ISAIA, 2007). Há múltiplos métodos para a ponderação da forma de agregados. Uns são diretos e se fundamentam em medidas de números significativos de partículas, usando-se um paquímetro, como descrito nas normas NBR 7809 (ABNT, 1983) e NBR 6954 (ABNT, 17 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I 1989). Já outros métodos são indiretos e empregam gabaritos comparativos, ou uma série de peneiras e crivos de formatos e aberturas diversas (ISAIA, 2007). A NBR 7809 (ABNT, 1983) determina o grau de cubicidade do agregado graúdo utilizando dimensões obtidas com o método do paquímetro. Contudo, a NBR 6954 (ABNT, 1989) usa três dimensões para determinar duas relações entre os lados do agregado. Imaginando-se uma partícula inscrita em um paralelepípedo imaginário, toma-se a sua dimensão maior (comprimento, A), sua dimensão intermediária (largura, B) e sua dimensão menor (espessura, C). O alongamento é medido pela relação espessura/largura (C/B), e o achatamento ou lameridade é medido pela relação largura/comprimento (B/A). Tomando-se essas duas medidas em conjunto, definem-se as seguintes formas: cúbica (B/A>0,5 e C/B>0,5), alongada (B/A0,5), lamelar (B/A>0,5 e C/Besférica com diâmetro D, tem-se Se=6/D, enquanto que para uma cúbica de lado L, Se=6/L. Tomando-se duas partículas, uma esférica e outra cúbica, com o mesmo volume, isto é, L=³√π/6, pode-se determinar que a superfície específica da partícula esférica é, aproximadamente, 90% daquela da partícula cúbica (Figura 5). 19 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I Figura 5. Superfície específica de partículas esférica e cúbica. Fonte: Isaia (2007). Em todos os casos, a superfície específica é inversamente proporcional à dimensão “nominal” da partícula. Tomando-se, por exemplo, 1 kg de uma rocha com massa específica de 2,65 g/cm³, é possível moldar um corpo de prova, ou seja, com uma superfície de 0,675 m2, ou um quadrado com 0,822 m de lado. Se dividirmos o lado por 3 em cada direção, a superfície específica triplica. Se dividirmos cada lado do cubo original por 10, para obtermos partículas do tamanho de brita 3 (L=33,54 mm), o mesmo quilo de material equivaleria a uma área de 6,75 m2, ou um pequeno quarto. O mesmo peso com partículas de areia grossa (L=3,354 mm) tem superfície equivalente a um pequeno apartamento (67,5 m2). Se as partículas têm 0,033 mm, a superfície de um quilo de material é equivalente à de um campo de futebol (ISAIA, 2007). O mesmo quilo de argila (L=0,003 mm) já equivaleria a uma área de 67.502 m2, ou aproximadamente a 10 campos de futebol. Com o exemplo acima, pode-se perceber a importância da superfície específica dos agregados na dosagem de concretos. O consumo de água de molhagem em concretos de cimento Portland é de cerca de 10 litros por metros cúbicos para partículas com diâmetro de 38 mm a 76 mm (brita 3-4), cuja superfície específica média é de 105 m²/ m³. Esse consumo sobe para 300 litros por metros cúbicos para partículas com diâmetro de 0,15 mm a 0,30 mm (areia fina), cuja superfície específica média é de 26670 m²/m³. O consumo de ligante asfáltico também aumenta muito com o conteúdo de partículas finas na massa de concreto betuminoso (ISAIA, 2007). 20 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS Tipos de agregados e suas granulometrias Para a produção de um concreto que atenda às especificações técnicas e às condições de aplicação das normas técnicas referentes à granulometria que devem ser aplicadas, é preciso realizar algumas ações de verificação, análise e inspeção minuciosa desses materiais. A princípio, é preciso realizar a inspeção superficial dos agregados de modo a visualizar suas formas e sua condição de limpeza, visto que a presença de matéria orgânica na mistura do concreto pode prejudicar seu desempenho estrutural. Se for constatado um material sujo, é preciso que se realize uma limpeza para a remoção desse material, seja ele orgânico ou não. A questão do tamanho dos agregados é relativa à necessidade definida pelo projeto. Para isso, é realizada a seleção segundo as classes granulométricas. Com a limpeza, é viável a realização dos ensaios para verificação dos aspectos de propriedades desse material, de seu peso específico, a determinação de granulometria, ter conhecimento sobre seu coeficiente de forma e no modo como reage em relação aos álcalis. Sendo assim, serão separadas por tamanhos para que possam ser aplicadas conforme o projeto. A maneira de se armazenar esse agregado deve ser de acesso fácil, protegendo de ações do tempo, como chuva, sol e o vento. Os agregados desempenham uma função importante em um concreto e na sua qualidade. Portanto, é importante um acompanhamento dos ensaios laboratoriais realizados com as amostras de agregados que foram retirados de sua origem. Para armazenamento, é comum a utilização de silo, e, para esses materiais estocados, é necessária a realização de ensaios, seja para a determinação do módulo de finura ou mesmo para a determinação do teor de umidade e de material orgânico. Análise mineralógica A análise mineralógica dos agregados para uso em uma obra de engenharia civil ajuda a identificar: a. a presença de minerais deletérios ou nocivos; b. as propriedades físico-químicas dependentes da composição mineralógica e que interferem com as propriedades de ligantes betuminosos; c. o estado de alteração e a durabilidade (ISAIA, 2007). Substâncias deletérias podem incluir impurezas orgânicas, finos argilosos, torrões de argila e partículas friáveis, material pulverulento, além de outros, como sais e minerais reativos. Impurezas orgânicas podem influir nas reações de hidratação do cimento 21 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I em concretos hidráulicos. Materiais finos podem formar uma película superficial nos agregados, prejudicando a aderência com as pastas de concreto ou com o ligante asfáltico. Materiais pulverulentos não plásticos nem sempre são nocivos, desde que sejam sãos e inertes; porém, devem ser evitados em quantidades excessivas, pois, devido à grande superfície específica, aumentam não só o consumo de asfalto em concretos betuminosos, como também a demanda de água em concretos hidráulicos. Além disso, certos minerais dos agregados podem reagir com os álcalis presentes no cimento (ISAIA, 2007). Impurezas orgânicas Deve-se averiguar a presença de compostos orgânicos nocivos em areias a serem usadas em argamassas e concretos (de cimento Portland ou betuminoso). A norma ME 055 (DNIT, 1995) fixa o procedimento para identificação desses materiais por colorimetria (ISAIA, 2007). Para o ensaio, são previamente preparadas duas soluções: uma de hidróxido de sódio a 3% em água destilada, e outra, chamada de solução padrão, que usa 3 ml de ácido tânico a 2% em álcool mais 97 ml da solução de hidróxido de sódio a 3%. A seguir, uma amostra de 200 g do agregado seco ao ar é colocada em um recipiente, ao qual se adicionam 100 ml da solução de hidróxido de sódio, agitando-se a mistura vigorosamente. O recipiente com o agregado na solução é deixado em repouso durante 24 horas. Ao mesmo tempo, outro recipiente com 100 ml da solução padrão também é deixado em repouso por 24 horas. Após esse prazo, as duas soluções são filtradas em papel filtro qualitativo e recolhidas cada uma delas em tubos para a comparação das cores. Caso a amostra colhida da solução da mistura com agregado seja mais escura que a solução padrão, é um indicativo da presença de compostos orgânicos nocivos na areia. Ensaios posteriores devem ser realizados visando à aceitação ou à rejeição do material. Material pulverulento A determinação da quantidade de torrões de argila e partículas friáveis é normalizado na NBR 7218 (ABNT, 1987a). Para os agregados miúdos, toma-se uma amostra retida na peneira de 1,18 mm; enquanto os agregados graúdos são divididos em diferentes amostras retidas nas peneiras de 4,8 mm, 9,5 mm, 19,0 mm e 37,5 mm. A massa de cada amostra é especificada na norma. Cada amostra seca é pesada (Mi) e depois espalhada em um recipiente inoxidável com dimensões suficientes para formar uma camada delgada de agregado no fundo do recipiente. A seguir, cobre-se a amostra com água destilada e deixa-se em repouso por 24 h ± 4 h. Posteriormente, tenta-se romper as partículas de cada amostra, pressionando-as entre os dedos indicador e 22 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS polegar. Todas as partículas que possam ser rompidas dessa forma são classificadas como torrões de argila ou partículas friáveis. A seguir, cada amostra é recolhida, e os detritos são separados por peneiramento úmido nas peneiras previamente listadas, vertendo-se um jarro de água sobre a peneira enquanto se agita manualmente. As partículas retidas em cada peneira são removidas cuidadosamente e, depois, secas em estufa até constância de massa (ISAIA, 2007). Após esfriar, cada amostra é pesada novamente (M2), e calcula-se a diferença de massa percentual em cada peneira, p = 100.(M1-M2)/M1. O teor de torrõesde argila e partículas friáveis no agregado miúdo é dado pela perda de massa na peneira de 1,18 mm. Para os agregados graúdos, toma-se a média ponderada das perdas nas diversas peneiras, tomando-se como fator de ponderação as percentagens retidas em cada peneira na composição original do agregado graúdo (ISAIA, 2007). Finos argilosos Agregados miúdos usados em concreto betuminoso ou argamassas asfálticas como AAUQ (Areia Asfalto Usinada a Quente) devem ser livres de finos argilosos. Uma medida da quantidade de finos é dada pelo ensaio de Equivalente de Areia de acordo com a norma rodoviária ME 054 (DNIT 1997c). No ensaio, a fração que passa na peneira de 4,8 mm é agitada energicamente em uma proveta graduada, contendo uma solução padronizada. O material é, então, deixado em repouso por 20 minutos, enquanto a areia se assenta no fundo da proveta e a fração argilosa fica em suspensão. Determina-se, na proveta graduada, a leitura no topo da areia e a leitura no topo da argila em suspensão. O Equivalente de Areia (EA) é dado pela relação em percentagem entre esses dois volumes (ISAIA, 2007): .100 Leitura notopoda areiaEA Leitura notopoda argila = (Equação 6) Quanto maior o valor de EA, mais livre de finos argilosos será o agregado miúdo (ISAIA, 2007). Partículas reativas Um problema que tem demandado vários estudos se deve a reações entre os agregados e a pasta de cimento. Citam-se as chamadas reações álcali-sílica e álcali-carbonato. Na primeira, os álcalis do cimento atacam certos tipos de sílicas reativas que podem estar presentes nos agregados, formando um gel que pode destruir a aderência entre o agregado e a pasta de cimento. Por outro lado, as reações álcali-carbonato ocorrem entre alguns 23 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I agregados calcários dolomíticos e os álcalis do cimento. A presença de sais, comuns em areias dragadas do mar e em areias de desertos, também deve ser evitada. Os sais podem corroer a armadura de aço em concreto armado, além de absorver umidade, provocando depósitos de aspecto desagradável na superfície do concreto (NEVILLE, 1997). Durabilidade O ensaio de durabilidade tem por objetivo determinar a resistência à desintegração dos agregados sujeitos à ação do tempo. Isso é muito importante em rochas que apresentam minerais poucos estáveis, como é o caso de alguns tipos de basaltos alterados, muito comuns no Brasil (ISAIA, 2007). A norma ME 089 (DNIT, 1994b) apresenta o procedimento para avaliação da durabilidade de agregado pelo emprego de soluções de sulfato de sódio ou de magnésio. O ensaio começa com a análise granulométrica do agregado, dividido em duas frações: a parte graúda com material retido na peneira de 4,8 mm, e parte miúda. Para cada fração isoladamente são tomados pesos definidos de amostras entre as várias peneiras da série normal. Essas amostras são imersas na solução por um período de 16 a 18 horas na temperatura de + 1°C. Após a imersão, a amostra é retirada da solução, drenada por 15 ± 5 minutos e, em seguida, colocada para secar em estufa a 105°C a 110”C até constância de peso. Após a secagem, a amostra é esfriada até a temperatura ambiente. O processo de imersão e secagem alternada constitui um ciclo, o qual é repetido até o número desejado de ciclos. Geralmente, são tomados cinco ciclos (Figura 6). Esse processo acelera a desintegração da amostra simulando o efeito do tempo. Após o número de ciclos desejado, as frações maiores são examinadas qualitativamente, procurando-se identificar visualmente sinais de fendilhamento, desintegração, esmagamento, quebra, laminagem etc. (ISAIA, 2007). Figura 6. Ilustração do Ensaio de Durabilidade. M1 Solução, 17h, Tamb Peneira de Controle M2 Massa perdida M2 Estufa a 105°C, 24h Ciclos Fonte: Isaia (2007). 24 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS Tanto a fração graúda quanto a miúda são novamente pesadas para calcular-se a perda de massa em relação ao peso original de amostra retida em cada peneira da série normal. O valor da durabilidade para a fração graúda e miúda é dado pela média ponderada das perdas entre cada peneira da série normal na fração, tomando-se como fator de ponderação as percentagens retidas em cada peneira na análise granulométrica original (ISAIA, 2007). A norma aconselha, ainda, que se misturem novamente os agregados após o processo de desintegração acelerada e que se faça nova análise granulométrica para se determinar a variação no “módulo de finura” (ISAIA, 2007). Obtenção de agregados Os agregados são matérias-primas de origem mineral extraídas de jazidas que são muito utilizadas no território brasileiro, sendo um material importante para a sociedade e para a economia. Os agregados utilizados na construção civil para a produção de concreto possuem uma faixa de tamanho determinada para os agregados finos ou miúdos, de 0,0075 a 4,75mm, e, para os agregados graúdos, vão de 4,75 a 75mm. Eles podem ser usados em outros setores além do concreto, como em pavimentos e em lastros de ferrovias. As jazidas de rochas ígneas, como basaltos e granitos, são materiais utilizados para a obtenção dos agregados, do mesmo modo como as rochas metamórficas, calcários, são empregadas para obtenção de agregados. A disponibilidade dessas rochas é relativa à região em que se explora. Algumas regiões possuem rochas sedimentares, arenitos, que atendem a um mercado específico. Há outros tipos de agregados, porém são menos utilizados, seja por sua baixa disponibilidade ou por seu alto custo. Alguns desses agregados menos aplicados são produzidos a partir da calcificação de argilas a uma temperatura próxima a 1200°C. São agregados leves. Outros são obtidos de origem residual, isto é, são agregados produzidos a partir do Resíduo da Construção e Demolição (RCD), que possuem uma proposta ambiental e econômica. A Associação Nacional das Entidades de Produtores de Agregados para Construção (ANEPAC) projetou um aumento no consumo de agregados, nos anos de 2018 e 2019, de 514 milhões de toneladas somente em 2018, representando um crescimento de 3,5% em relação ao ano anterior, e ainda apresentou uma expectativa para 2019 de um crescimento de 5%, mesmo tendo apresentado uma baixa de consumo de 33% 25 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I entre os anos de 2013 e 2017. Sendo o consumo per capita de 3,7 toneladas no ano de 2013, em 2019 o consumo foi de 2,5 toneladas por habitantes no Brasil. A média mundial é de 6 toneladas por habitantes. O agregado pode ser considerado o material mais consumido pelo setor da construção, representando a maior parte em estoque de material, seja de uma construção de edifício ou da infraestrutura de uma cidade. A cada único metro quadrado de local de habitação popular existe pelo menos 1,36 tonelada de material agregado, sendo então que, a cada quilômetro de uma via pavimentada, é estimada a presença de pelo menos 9.800 toneladas de agregados (IBRAM, 211). Jazidas e pedreiras As jazidas para a aquisição desses agregados devem, preferivelmente, estar dentro do local onde será feita a barragem, ou ao menos em um local próximo, para que não exista um percurso longo entre a origem do agregado e a obra. Planejamentos como esses são realizados para que a mineração e a própria obra busquem reduzir seus impactos ambientais ao máximo. Antes de ser realizada a construção, será necessário que se realize um trabalho de investigação sobre o solo, de modo que esse estudo geotécnico complementar complemente o estudo feito para as jazidas, seja para os filtros, solos, drenos ou mesmo para a transição. É preciso realizar a verificação sobre a potencialidade das pedreiras que farão esse fornecimento dos agregados destinados à produção do concreto, da argamassa e dos enrocamentos. Tais estudos são aplicadospara que se avaliem os potenciais qualitativos e quantitativos, seja das pedreiras ou jazidas. Existem as jazidas de solos, que servem para aterros, ou para desempenharem a ação de transições ou dos filtros, em que serão limpas superficialmente para a remoção da camada vegetal, com gramas, plantas e suas raízes. Material orgânico, como essa camada de vegetação, não deve compor de forma alguma um volume de aterro, e sim ser removidos e colocados para bota-fora, ou serem colocados em local onde desempenharão uma camada superficial sem função de aterro, apenas compondo uma camada de solo. Tal material jamais deve ser utilizado para a construção da barragem em si. Os projetos devem deixar claro o uso dos materiais que serão extraídos de jazidas ou de pedreiras, visto que existem planejamentos para a remoção desses materiais em sua origem e uma movimentação correta paras as máquinas e a drenagem superficial das áreas exploradas. 26 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS A empresa responsável pela execução das atividades de investigação geotécnica deve realizar uma programação para essas ações serem executadas, assim como a metodologia adotada e os equipamentos utilizados devem ser estudados para a situação do local. Os materiais devem ser mantidos em abrigos em função do tipo de exposição que uma construção de barragem oferece, podendo haver inundações no local. É responsabilidade dos profissionais analisar com cuidado o modo como o canteiro de obra será montado para o cuidado dos colaboradores e dos insumos necessários para a obra. Como parte da responsabilidade da empresa que realizar explorações de jazidas, é preciso que, para aquelas jazidas encontradas fora do perímetro do reservatório, sejam realizadas ações para a manter o local seguro, deixando uma rampa definitiva, os sistemas de drenagens e de proteção contra ação de erosão. A exploração de pedreiras deve seguir o mesmo parâmetro que as jazidas, visto ser necessário um planejamento para cada ação adotada em um projeto de grande porte como esse, além de ter que respeitar o que foi levantado sobre questões de impacto ambiental. As rochas maciças são quebradas em pedaços menores, que são conduzidos a um depósito, posteriormente podendo ser quebradas novamente. Pedreiras exploradas fora do perímetro da obra devem ser reconstruídas conforme um plano de recuperação que a empresa responsável deve traçar, e a cobertura vegetal presente deve ser recolocada no local, bem como medidas que previnam possíveis deslizamentos. A questão dos agregados mais relevante é sobre seu custo de transporte, que pode vir a ser mais caro que o próprio material. Contudo, os agregados são bens de consumo que apresentam baixo valor econômico, sofrendo com esse alto custo sobre o frete. Reação álcalis agregado Os estudos realizados sobre os tipos de materiais a serem empregados são importantes para se prever seu comportamento em um projeto tão complexo. Saber a origem dos elementos que aplicamos em uma construção é parte do planejamento da obra para evitar problemas futuros de qualquer tipo. Para exemplificar tal questão, podemos mencionar a reação álcalis-agregados (RAA) em uma barragem. Essa reação data desde 1940, nos Estados Unidos, quando pesquisadores desenvolveram métodos de ensaios que possibilitaram a identificação de possíveis agregados reativos. Apesar de ter sido considerado um problema passado e resolvido, houve ocorrência dessa reação em diversas barragens pelo mundo, expondo que haviam 27 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I falhas nos ensaios. Essa reação ocorreu no Brasil na década de 1970, em Minas Gerais, na hidrelétrica de Peti. Não é um tipo de reação isolada apenas às barragens. Elas podem ocorrer em pontes, viadutos, túneis, obras portuárias ou mesmo na fundação de um edifício. A reação é uma patologia que afeta internamente o concreto a partir da reação química entre os materiais hidróxidos alcalinos, que estão presentes no cimento, um tipo de derivado de potássio e sódio, em conjunto com outros minerais que os agregados apresentam. O resultado dessa reação química entre esses elementos, quando realizada a absorção de umidade, possui a característica de expansão, o que pode vir a prejudicar a estrutura, considerando as fissuras que esse movimento causará, reduzindo, inclusive, propriedades como o módulo de elasticidade dessa estrutura e o dano sobre a resistência mecânica, diminuindo a durabilidade desse concreto. Podemos separar a reação em tipos, como: » Reação Álcalis-Carbonato (RAC); » Reação Álcalis-Sílica (RAS); » Reação álcalis-Sílica-Silicato (RASS). As reações dependem do material e de sua composição mineral, sendo que no território brasileiro é mais comum a reação sobre a sílica reativa que encontramos nos agregados e os hidróxidos alcalinos da mistura, resultando em cimento. Outra questão a ser analisada é a maneira como a estrutura se encontra exposta, sendo que a reação resultará na expansão, e isso pode vir a ocorrer em poucos anos ou em muitos anos após a execução, o que torna mais difícil essa identificação inicial. Mas, por se ter conhecimento sobre a reação que ocorre com a presença de umidade, espera-se que estruturas executadas em áreas úmidas apresentem essa predisposição à reação álcalis. A preocupação com tal patologia é como ela pode vir a prejudicar o sistema de funcionamento de equipamentos hidrodinâmicos e elétricos em uma barragem. Por não dispormos de um meio eficiente de tratar ou mesmo interromper o progresso dessa reação, torna-se mais importante a atenção sobre os ensaios e estudos que devem ser realizados sobre os materiais que comporão o concreto estrutural dessas obras para a prevenção desse tipo de reação. Causas da instalação da reação álcalis-agregados Como dito, a presença de minerais reativos nos agregados em conjunto com a álcalis presentes no cimento são causadores dessa reação quando expostos a determinada temperatura e à presença de umidade. Esses fatores, umidade e temperatura, são 28 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS responsáveis pela expansão em meio à estrutura, pois a umidade se torna um transporte nos poros do concreto. Essas condições proporcionadas por esses fatores, que ditam a velocidade e a intensidade das reações, podem ser descritas de tal forma: » se o teor de álcalis presente no cimento e o consumo de cimento no concreto for maior, então a expansão do produto da reação será maior; » se os minerais dos agregados apresentarem uma estrutura desorganizada e instável, maior então será a sua reação; » ambientes cuja umidade relativa chega entre 80 e 85% proporcionam um aumento na dimensão da expansão. Sintomas e efeitos Tais reações podem vir a se manifestar de muitas maneiras. Contudo, há alguns indícios, ou sintomas, que podemos observar nas estruturas de concreto. » Padrão de fissura do tipo “mapa”, que aparece nas superfícies das estruturas com um traço parecido com um mapa. Tal fissura ocorre por uma condicionante, seja pelas restrições internas da estrutura de concreto com a própria armação, protensão ou mesmo pela carga que está sendo colocada. » A exsudação do gel, feito de um produto resultante de uma reação química que, quando exposta à umidade, expande-se, o que causa a fissuração do concreto. » Manchas escuras ou descoloração do concreto. » Agregados que apresentem uma borda, seja branca ou escura, que propicia a reação. » Material branco que preenche espaços dos poros do concreto. Medidas de prevenção Em casos como esses, em se busca evitar a reação álcalis-agregados, é aconselhável realizar: » estudo e ensaios preliminares nas rochas e nos agregados que farão parte da obra; » caracterização sobre a relação físico-química na mistura entre agregado e cimento; 29 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOSEM BARRAGENS | UNIDADE I » ensaios em laboratório especializado para verificar essa combinação entre o cimento e o agregado; » adição de outros materiais de característica mineral e pozolânica. Os estudos e ensaios laboratoriais realizados nesses materiais que podem apresentar ou não o RAA são análises petrográficas que buscam verificar os tipos de minerais que apresentam potencial reativo para causar o RAA. A análise feita no cimento busca verificar o teor de álcalis, totais e solúveis, sendo possível por meio da análise química. Esse estudo sobre a reatividade nos agregados é normatizado pelos Estados Unidos, sendo utilizada a norma ASTM C-1260, a qual apresenta um ensaio de reativo acelerado apresentando resultados entre 16 e 30 dias. Ele investiga a RAA conforme a sua variação do comprimento da barra e argamassa que foi imersa em uma solução com hidróxido de sódio (NaOH a 1N) a uma temperatura de 80°C. Se houver a identificação de que tal material apresenta minerais com potencial reativo e posteriormente isso for comprovado por meio dos ensaios de reatividades, com uma expansão maior do que as consideradas limites pela norma americana, devem ser realizadas as medidas preventivas, sendo necessária a troca desse material. A princípio, o uso de outro tipo de agregado que não apresente minerais reativos é a decisão ideal e mais indicada. Porém, na impossibilidade, é aconselhável que se busque um equilíbrio entre os minerais reativos dos agregados e os álcalis do cimento, ou seja, por serem detectados minerais reativos, é necessário que o cimento apresente um teor de álcalis menor para que a reação não ocorra. A norma ASTM C-150 apresenta um dado de que um cimento com baixo teor de álcalis possui como condição química que o equivalente alcalino (% Na2O + 0,658 x %K2O) não ultrapasse o percentual de 0,60%. Contudo, o ACI Committee 221 diz que o limite percentual na verdade é de 0,40%, mas pontuar esse valor não necessariamente diminui ou neutraliza as reações, pois é possível que haja outras fontes de álcalis que possam contribuir para a reação ocorrer. 30 CAPÍTULO 2 Tipos, caracterização e requisitos para execução de barragens Tipos de barragens de concreto Barragens funcionam como grandes reservatórios de água. Assim, são projetos especiais que demandam muitos cuidados por conta de suas proporções. Podem desempenhar funções como uma hidrelétrica, como parte de um sistema de abastecimento ou mesmo para realizar o controle de água. Desse modo, as barragens possuem outros elementos em seu sistema de funcionamento, como os vertedouros, os canais de adução de água e a própria tomada d’água. Existe uma classificação para as barragens; contudo, existem as que mais são executadas e as que serão abordadas para estudo nessa disciplina. Durante sua execução, as barragens apresentam comportamentos distintos do momento de seu enchimento. Por exemplo: a previsão das tensões e deformações desenvolvidas durante as etapas de construção, tanto no maciço como na fundação, é um fator importante nessa etapa do projeto, já que as análises de estabilidade são feitas após a determinação da distribuição desses campos no interior da estrutura, requerendo-se, portanto, um estudo dos fatores que afetam a distribuição das tensões e deformações e dos métodos adequados para a sua determinação (PARRA, 1996). Ademais, o cálculo dos recalques ou deslocamentos verticais de uma barragem podem ser desenvolvidos levando em conta hipóteses simplificadoras, a mais importante delas considerando que o aterro tem uma grande extensão (LAW, 1975). Por isso, os deslocamentos podem ser considerados unidimensionais. Todavia, o comportamento de barragens de terra e enrocamento, por exemplo, durante o primeiro enchimento é bastante diferente daquele apresentado durante a etapa da construção, principalmente em relação a compressibilidade, perda da rigidez e perda de resistência ou cisalhamento, dependendo da geometria, da natureza e das propriedades físicas dos materiais. Isso ocorre principalmente porque os acréscimos de carga na face de talude de montante por incremento do nível de água são aplicados em curtos períodos, dando origem à ocorrência de movimentos complexos que geram deslocamentos e variações de tensões. Assim, devem ser estabelecidos parâmetros geotécnicos que estimem requisitos para execução dessas barragens. Fundamentalmente, os materiais empregados na construção de uma barragem devem, em princípio, satisfazer às condições de: 31 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I » alta resistência ao cisalhamento; » estabilidade permanente contra a ruptura; » impermeabilidade suficiente; » insolubilidade dos sólidos constituintes; » facilidade nas operações de construção. Barragens de gravidade Dependem que sua própria massa para que fiquem estáveis, necessitando ter uma fundação em rochas sã. Contudo, podem ser fundadas em solos compactados, mas demandam mais cuidados e só em casos excepcionais devem ser feitas nesse tipo de solo. É comum ser empregado concreto compactado com rolo (CCR). Logo, para essa classificação, podemos destacar as barragens arco-gravidade e as de gravidade aliviada. Barragens em arcos Podem ser empregadas em locais de vales apertados, em que as ombreiras sejam de rochas para que suporte os esforços solicitantes devido ao barramento. Tais barragens podem ser distinguidas entre outras três formas em arco: cilíndrico, com ângulo de abertura e com dupla curvatura. Nesses casos, devem ser aplicados concretos convencionais. Barragens de contraforte Os esforços solicitantes no ponto de montante são todos transmitidos para a fundação por meio de vários contrafortes, que ficam posicionados perpendicularmente ao eixo do montante. Nesses casos, seguem os mesmos requisitos da barragem de gravidade, em que possuem vales abertos. Tanto para as barragens em arcos quanto paras as de contraforte podem ser empregados os tipos de concreto compactado com rolo quando seguirem as questões de restrições e limitações da estrutura. 32 CAPÍTULO 3 Cimento Portland: tipos, processo de produção, caracterização e requisitos Cimento Portland e sua definição O cimento Portland é fabricada por meio da pulverização de clínquer que contém silicatos hidráulico de cálcio, sulfato de cálcio natural e aditivos, em que são modificadas suas propriedades, facilitando sua obtenção. Conforme já estudado nessa disciplina, o clínquer tem um formato granuloso resultante da calcinação da mistura desses materiais (em certa proporção) até que tenha certa temperatura de fusão. Composição química A cal (CaO), a alumina (Al2 O3), a magnésia (MgO), a sílica (SiO2), o óxido de ferro (Fe2 O3) e uma porcentagem de anidrido sulfúrico (SO3) são os principais constituintes do cimento Portland. Outros constituintes em menor escala são o óxido de sódio (Na2 O), o óxido de titânio (TiO2) e o óxido de potássio (K2 O). Os álcalis do cimento são constituídos pelos óxidos de potássio e sódio. A quantidade total de sílica, a alumina, o óxido de ferro e a cal são de aproximadamente 95 a 96% da composição total do cimento Portland. A proporção da magnésia usualmente presente gira em torno de 2 a 3%. Esse limite aqui no Brasil é um pouco maior, de 6%, e alguns óxidos menores são adicionados a uma proporção inferior a 1%. Quando a matéria-prima é misturada nas proporções mencionadas anteriormente, é pulverizada e, em seguida, homogeneizada. Depois, é direcionada ao calor do forno da fábrica de cimento, aquecendo-a à temperatura de fusão, resultando no clíquer. Os seguintes compostos são combinados quimicamente, sendo a maioria em seu estado sólido: » silicato tricálcico 33 ;a iC O S O C S→ = » silicato bicálcico 2 22 ;a iC O S O C S→ = » aluminato tricálcico 2 3 33 ;aC O Al O C A→ = » ferro aluminato tetracálcico 2 3 2 3 44 .aC O Al O Fe O C AFe→ = O proporcionamento dos óxidos citados anteriormenteé resultado de ensaios químicos realizados em cimento Portland (SIQUEIRA, 2008). 33 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I Todas as propriedades químicas do cimento Portland estão diretamente ligadas às quantidades de silicato e dos aluminatos (PETRUCCI, 1978). Com a determinação dessas proporções conforme a análise dos óxidos, é determinada uma operação chamada composição potencial do cimento. Para calcular essas proporções, é usada a metodologia de Bogue (BAUER, 2000). Nesse método, o cálculo parte da proporção total de cal, deduzindo-se, a princípio, as parcelas necessárias à formação do sulfato de cálcio e a cal livre eventualmente encontrada (PETRUCCI, 1978). Determinam-se, a seguir, as proporções de cal necessárias para a formação do ferro aluminato de cálcio, de aluminato tricálcico e de silicato bicálcico (BAUER, 2000). O saldo na proporção original de óxido de cálcio é, a seguir, associado à proporção de silicato bicálcico já calculada, resultando na determinação da proporção atual de silicato tricálcico (PETRUCCI, 1978). A sobra de silicato bicálcico constitui o teor desse composto no cimento (BAUER, 2000). O cálculo pode ser feito dessa maneira, ou resolvendo-se o sistema de equações que engloba a sequência (SIQUEIRA, 2008): 1. %C 3 S = 4,07 X %CaO — 7,60 X %SiO 2 — 6,72 X %Al 2 O 3 — 1,43 X %Fe 2 O 3 — 2,85 X %SO 3 ; 2. %C 2 S = 4,07% X %CaO — 7,60 X %SiO 2 — 6,72 X %Al 2 O 3 — 1,43 X %Fe 2 O 3 — 2,85 X %SO 3 ; 3. C 3 A = 2,65 X %Al 2 O 3 — 1,69 X %Fe 2 O 3 ; 4. %C 4 AF = 3,04 X %Fe 2 O 3 . Na Figura 7 encontra-se um nomograma apropriado para o cálculo da composição potencial do cimento Portland pelo método de Bogue (BAUER, 2000). Esse método não conduz a resultados estritamente corretos para a composição potencial do cimento Portland, que varia em função das condições de operação do forno e do subsequente resfriamento do clínquer (SIQUEIRA, 2008). O encontro das correções apropriadas é objeto de trabalho de diversos investigadores, sendo, entretanto, aceita a aplicação pura e simples do método de Bogue como um 34 UNIDADE I | INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS instrumento de controle da mistura de matérias-primas no processo de fabricação do cimento (BAUER, 2000). O aluminato de cálcio (C3 A) muito contribui para o calor de hidratação, especialmente no início do período de cura. O silicato tricálcito é o segundo componente em importância no processo de liberação de calor. Os dois outros componentes contribuem pouco para a liberação de calor. O aluminato de cálcio, quando presente em forma cristalina, é o responsável pela rapidez de pega. Com a adição de proporção conveniente de gesso, o tempo de hidratação é controlado (SIQUEIRA, 2008). A importância do conhecimento das proporções dos compostos constituintes do cimento reside na correlação existente entre estes e as propriedades finais do cimento e também do concreto (BAUER, 2000) O silicato tricálcico (C 3 S) é o maior responsável pela resistência em todas as idades, especialmente até o fim do primeiro mês de cura. O silicato bicálcico (C 2 S) adquire maior importância no processo de endurecimento em idades mais avançadas, sendo largamente responsável pelo ganho de resistência a um ano ou mais (BAUER, 2000). O aluminato tricálcico (C 3 A) também contribui para a resistência, especialmente no primeiro dia. O ferro aluminato de cálcio (C 4 AFe) não contribui para a resistência (BAUER, 2000). Por exemplo: SO3 = 1,5% CaO = 1,0% CaSO4 = 2,5% Fe2O3 = 4,9% Al203 = 4,3% CaO (livre) = 1,0% CaO = 8,8% C4AF = 15,0% C3A = 3,0% CaO (livre) = 1,0% 35 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I CaO = 61,8% SiO2 = 24,0% CaO anterior = 10,8% Diferença: 61,8 - 10,8 = 51,0% C2S = 50,0% C3S = 25,0% Figura 7. Nomograma para o método de Bogue. Fonte: Bauer, 2000. Os dois outros componentes contribuem pouco para a liberação de calor. O aluminato de cálcio, quando presente em forma cristalina, é o responsável pela rapidez de pega. Com a adição de proporção conveniente de gesso, o tempo de hidratação é controlado. O silicato tricálcico (C3S) é o segundo componente com responsabilidade pelo tempo de pega do cimento. Os outros constituintes se hidratam lentamente, não tendo efeito sobre o tempo de pega (BAUER, 2000). 36 CAPÍTULO 4 Adições minerais e aditivos químicos Definição de aditivos minerais Na definição de Malhotra e Mehta (1996), o termo adição, de forma abrangente, refere-se a qualquer material além de água, agregados e cimento, que é utilizado como um ingrediente do concreto e adicionado à massa imediatamente antes ou durante a mistura. Na literatura geral sobre concreto, entretanto, há uma definição distinta para as adições, que não se confundem com os aditivos. As adições são utilizadas com o objetivo de somar ou mesmo substituir parcialmente a matéria-prima cimento (devido às suas propriedades semelhantes às do cimento), enquanto os aditivos são utilizados para alterar as características do cimento sem alterar sua proporção na composição do concreto. Conforme sua ação físico-química no concreto, as adições minerais podem ser classificadas em três grupos distintos: materiais pozolânicos, material cimentante e filler. O material pozolânico, de acordo com a norma NBR 12653 (ABNT, 1992) e a ASTM C 618 (1978), é definido como um material silicoso ou sílico-aluminoso que em si mesmo possui pouca ou nenhuma propriedade cimentante, mas, numa forma finamente dividida e na presença de umidade, reage quimicamente com o hidróxido de cálcio liberado na hidratação do cimento, a temperaturas ambientes, para formar compostos com propriedades cimentantes. Quanto à sua origem, os materiais pozolânicos são classificados pela NBR 12653 em pozolanas naturais e pozolanas artificiais. As pozolanas naturais são materiais de origem vulcânica ou sedimentar, e as pozolanas artificiais são materiais provenientes de tratamento térmico (argilas calcinadas ou termicamente ativadas) ou subprodutos industriais com atividade pozolânica (cinzas volantes, cinzas de casca de arroz, sílica ativa etc.). O material cimentante é aquele capaz de formar produtos cimentantes, como o C-S-H, sem a necessidade do hidróxido de cálcio presente no cimento Portland. Sua auto-hidratação é lenta, porém, quando usado como adição ou substituição em cimento Portland, sua hidratação é acelerada na presença de hidróxido de cálcio e gipsita, como é o caso da escória granulada de alto-forno. O filler é um material finamente dividido sem atividade química, cuja atuação é basicamente um efeito físico de empacotamento granulométrico e ação como pontos de nucleação para a hidratação dos grãos de cimento (DAL MOLIN, 2005). 37 INTRODUÇÃO AOS MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO CIVIL UTILIZADOS EM BARRAGENS | UNIDADE I As adições minerais comumente utilizadas em concretos para fins estruturais variam conforme sua forma de ação, podendo ser classificadas da seguinte forma (RILEM et al., 1998 apud DAL MOLIN, 2005): » cimentantes: escória granulada de alto-forno; » cimentantes e pozolânicos: cinza volante com alto teor de cálcio; » superpozolanas: sílica ativa, metacaulim, cinza de casca de arroz predominantemente amorfa; » pozolanas comuns: cinza volante com baixo teor de cálcio, argilas calcinadas, cinzas vulcânicas; » pozolanas pouco reativas: escórias de alto-forno resfriadas lentamente, cinza de casca de arroz predominantemente cristalina; » filler: calcário, pó de quartzo, pó de pedra. Filler O filler é um material finamente dividido, com partículas de diâmetro médio próximo ao do cimento, podendo ser constituído de materiais naturais ou materiais inorgânicos processados. Segundo Petrucci (1995), utiliza-se o filler principalmente nos seguintes casos: » espessador de asfaltos fluidos; » fabricação de mástiques