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SUJEITOS DE DIREITO: TRATADOS CAP III 1. Conceito e Natureza Jurídica dos Tratados Os tratados são acordos escritos celebrados entre Estados ou organizações internacionais, com o propósito de produzir efeitos jurídicos em temas de interesse comum. Segundo o artigo 2.º, alínea a, da Convenção de Viena de 1969, “tratado” é todo acordo internacional concluído por escrito e regido pelo Direito Internacional, independentemente da sua denominação ou de consistir num ou vários instrumentos conexos. A Convenção de Viena de 1986 estendeu expressamente essa definição às organizações internacionais, ainda que, no Brasil, essa segunda convenção aguarde ratificação formal, seus preceitos já se apliquem como normas costumeiras. A partir da entrada em vigor em 1980, a Convenção de Viena de 1969 regula a elaboração, aplicação, interpretação e extinção dos tratados que vinculam o Brasil, salvo as exceções decorrentes das reservas acolhidas nos artigos 25 e 66 pelo Decreto 7.030/2009. 2. Elementos Essenciais dos Tratados O Quadro 1 destaca seis elementos necessários para a existência de um tratado: 1. Acordo de vontades O tratado nasce da convergência das vontades soberanas das partes, refletindo a autonomia e a manifestação livre de cada sujeito no processo de negociação. 2. Regulamentação pelo Direito Internacional Público Tanto a forma (procedimentos, autenticação, registro) quanto o conteúdo (limites materiais, normas de jus cogens, princípios gerais) são regidos pelo Direito Internacional, conferindo segurança e previsibilidade jurídica. 3. Forma escrita A exigência de documento escrito (instrumento único ou vários anexos/protocolos) assegura clareza e evidência do texto pactuado, evitando controvérsias sobre o seu alcance e conteúdo. 4. Regulação de temas de interesse comum Os tratados tratam de assuntos que afetam, de forma coletiva, as partes envolvidas — do comércio à proteção de direitos humanos — promovendo uniformidade e cooperação internacional. 5. Elaboração por Estados e organizações internacionais Apenas esses sujeitos possuem capacidade convencional (“treaty- making power”), seja de forma plena (Estados soberanos) ou derivada (organizações institucionais, Santa Sé, insurgentes reconhecidos). 6. Obrigatoriedade Uma vez em vigor, o tratado vincula as partes, criando, modificando ou extinguindo direitos e obrigações, com possibilidade de sanções internacionais em caso de descumprimento. 3. Termos Importantes do Artigo 2.º da Convenção de Viena (1969) O Quadro 2 elenca definições-chave: • Tratado: acordo internacional escrito, único ou plural, regido pelo Direito Internacional. • Ratificação/Aceitação/Aprovação/Adesão: atos pelos quais um Estado manifesta, no plano internacional, seu consentimento em se obrigar pelo tratado. • Plenos poderes: documento oficial que credencia representantes para negociar, assinar e ratificar tratados. • Reserva: declaração unilateral que, ao assinar ou ratificar, exclui ou modifica efeitos de certas disposições para aquele Estado. • Estado negociador: participou da elaboração e adoção do texto. • Estado contratante: consentiu em se obrigar, independentemente de ter ou não entrado em vigor. • Parte: Estado em relação ao qual o tratado já está em vigor. • Terceiro Estado: não participou nem está vinculado ao tratado. • Organização internacional: ente intergovernamental dotado de personalidade jurídica própria. Cada termo reflete etapas e atos distintos no ciclo de vida de um tratado — desde a negociação até a entrada em vigor ou a adesão posterior. 4. Espécies de Tratados O Quadro 3 lista diversas modalidades de atos internacionais, sem hierarquia entre si, mas com nomenclaturas que refletem escopos e formalidades: • Tratado (espécie solene de maior peso político) • Convenção (normalmente multilateral, normas gerais) • Acordo (uso amplo, temas econômicos e culturais) • Acordo por troca de notas (administrativo ou interpretativo) • Ajuste complementar (detalha ou executa tratado-quadro) • Carta (cria organizações internacionais; ex.: Carta da ONU) • Estatuto (instala tribunais internacionais; ex.: Estatuto de Roma) • Pacto (grande relevância política) • Convênio (cooperação em áreas específicas) • Declaração (princípios, posição comum, pode não ter força jurídica) • Memorando de entendimento (princípios orientadores, sem compromissos gravosos) • Modus vivendi (vigência temporária) • Concordata (Santa Sé em assuntos religiosos) • Protocolo (complementar ou interpretativo) • Acordo de cavalheiros (non-binding, entre autoridades pessoais) Embora os termos variem, todos compartilham os elementos do Quadro 1 e são regidos pela Convenção de Viena. 5. Classificação dos Tratados As principais dimensões de classificação são: Critério Modalidades Número de partes Bilaterais (2 Estados) ou Multilaterais (≥ 3 Estados) Procedimento de conclusão Solene (assinatura + ratificação + promulgação) ou Simplificado (executive agreements) Execução Transitórios (efeitos imediatos e limitados) ou Permanentes (efeitos contínuos, ex.: direitos humanos) Natureza das normas Tratados-contrato (interesses específicas) ou Tratados-lei (normativos, gerais) Critério Modalidades Efeitos Restritos às partes ou alcançando terceiros (ex.: Carta da ONU) Adesão Abertos (qualquer Estado ou grupo definido) ou Fechados (participação restrita) Cada critério orienta a prática diplomática e interna de cada Estado ao escolher a forma de incorporação e aplicação do tratado. 6. Condições de Validade Para que um tratado seja juridicamente eficaz, deve observar: 1. Capacidade das partes: apenas Estados soberanos, organizações internacionais, Santa Sé, insurgentes/beligerantes reconhecidos e, excepcionalmente, entidades subnacionais (com autorização). 2. Habilitação dos agentes: representantes com treaty-making power – Chefe de Estado, Chefe de Governo, Ministro das Relações Exteriores, Embaixadores, chefes de missão ou qualquer pessoa investida de Carta de Plenos Poderes. 3. Objeto lícito e possível: matéria compatível com normas de jus cogens e princípios gerais do Direito Internacional, sem violar direitos fundamentais consagrados. 4. Consentimento regular: expressão da vontade livre, sem erro substancial, dolo, coação ou corrupção do representante. O descumprimento manifesto de qualquer condição pode levar à nulidade do tratado. 7. Agentes Habilitados São capazes de concluir tratados sem prova adicional de poderes: • Chefe de Estado • Chefe de Governo • Ministro das Relações Exteriores • Embaixadores (no âmbito de seu acreditamento) • Chefes de missão junto a organizações internacionais • Representantes acreditados a conferências ou órgãos • Qualquer pessoa com Carta de Plenos Poderes oficial Outros agentes podem atuar, desde que investidos dos mesmos plenos poderes segundo seu ordenamento interno. 8. Vícios do Consentimento Os principais defeitos que invalidam a vontade estatal são: 1. Erro: falta ou falsidade de informação essencial sobre o objeto do tratado. 2. Dolo: fraude ou artifício que induza ao erro. 3. Coação: uso de força, ameaças ou pressões sobre negociadores ou o próprio Estado. 4. Corrupção do representante: suborno ou influência indevida para firmar o acordo. A existência de qualquer vício grave permite às partes afetadas contestar a validade do tratado. Outros pontos importantes: 1. Entrada em vigor e vigência • Regra geral (Art. 24 CVT 1969): o tratado “entra em vigor na forma e na data previstas no tratado ou acordadas pelos Estados negociadores”. Inexistindo cláusula sobre início, vigora “tão logo o consentimento definitivo (…) seja manifestado por todos os Estados negociadores” . • Vigência contemporânea vs. diferida: o Contemporânea: entra em vigor imediatamenteapós a manifestação de consentimento (bilaterais: ambas; multilaterais: mínimo previsto). o Diferida: estipula prazo entre consentimento definitivo e início da eficácia, comum em convenções da OIT, MERCOSUL etc. . • Duração determinada vs. indeterminada: o Determinado: prazo expresso, cláusula resolutória ou objeto específico (ex.: construção de ponte). o Indeterminado: ausência de prazo ou objetivo genérico (ex.: proteção de direitos humanos). . 2. Princípio pacta sunt servanda e boa-fé • Pacta sunt servanda (Art. 26 CVT 1969): “Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé.” Fundamenta-se no princípio da lealdade contratual, impedindo violações por meios ardilosos . • Limitação interna (Art. 27 CVT): não se admite invocar normas internas para justificar inadimplemento, salvo violação manifesta de norma interna essencial (Art. 46 CVT) . 3. Aplicação no tempo – Irretroatividade • Princípio da não-retroatividade (Art. 28 CVT): as normas do tratado não retroagem a fatos ou atos anteriores à sua entrada em vigor, salvo previsão expressa em contrário . • Efeitos ex nunc: em regra, obrigações e direitos só produzem eficácia a partir do momento em que o tratado entrou em vigor. 4. Interpretação dos tratados • Regras gerais (Arts. 31–33 CVT): 1. Boa-fé e sentido comum dos termos, à luz do objeto e finalidade. 2. Contexto: preâmbulo, texto, anexos, acordos posteriores e prática subsequente. 3. Meios suplementares: trabalhos preparatórios e circunstâncias de conclusão, quando necessário para esclarecer sentido . • Versionamento autêntico: em caso de versões divergentes, adota-se a que melhor concilie texto, objeto e finalidade. 5. Reservas (Arts. 19–23 CVT) • Definição: declaração unilateral que, ao assinar, ratificar ou aderir, exclui ou modifica efeitos de certas disposições para aquele Estado . • Tipos: o Exclusiva: retira obrigações específicas. o Interpretativa: esclarece como cláusulas se aplicam. • Limitações: vedadas se proibidas pelo tratado ou incompatíveis com seu objeto/finalidade; produzem efeitos apenas nas relações entre Estado reservante e aqueles que aceitarem a reserva. 6. Suspensão e extinção dos tratados (Arts. 54–64 CVT) • Suspensão: ineficácia temporária, total ou parcial, em casos de força maior, violação substancial por parte de um Estado ou acordo entre as partes . • Extinção: desaparecimento permanente do tratado, ocorrendo por: o Vontade comum ou unilateral (denúncia). o Expiração de prazo ou condição resolutória. o Alteração fundamental das circunstâncias (rebus sic stantibus). o Violação grave de jus cogens (arts. 53 e 64 CVT). o Caducidade (desuso prolongado) ou perda do objeto . 7. Alteração e emenda (Art. 39 CVT) • Emenda: revisa o texto do tratado (acréscimo, modificação ou supressão), mediante acordo entre as partes (bilaterais: ambas; multilaterais: mínimo previsto) . • Efeitos diferenciados: vincula apenas Estados que aprovaram a emenda, gerando “duplicidade de regimes” entre aprovadores e não- aprovadores . • Revisões vs. emendas: mudanças de pequena amplitude (emendas) x modificações substanciais (revisões). 8. Efeitos sobre terceiros (“pacta tertiis”) (Arts. 34–38 CVT) • Regra geral: tratados não criam direitos nem obrigações para terceiros sem consentimento destes. • Exceções: quando previsto no próprio texto ou direitos irrevogáveis a beneficiários, bem como transformação em norma costumeira internacional . 9. Incorporação ao direito interno brasileiro • Modelo tradicional: primeiro, aprovação pelo Congresso Nacional (decreto legislativo), em seguida ratificação pelo Presidente e entrada em vigor internacional; por fim, promulgação presidencial (decreto) para internalização e publicação no DOU . • Efeitos internos: a partir da promulgação, o tratado integra a hierarquia normativa (em regra, lei ordinária; em matéria de direitos humanos, pode atingir status supralegal ou mesmo emenda constitucional). 10. Aplicação Provisória de Tratados A Convenção de Viena prevê que um Estado-parte pode concordar em aplicar provisoriamente, total ou parcialmente, as disposições de um tratado antes de sua entrada em vigor definitiva (Art. 25). Essa aplicação ex nunc independe de promulgação interna, mas exige previsão expressa no texto do tratado ou acordo entre as partes . 11. Função e Atribuições do Depositário Os Arts. 76–80 da CVT 1969 estipulam que o depositário (que não precisa ser parte no tratado) deve: • Guardar o texto original e os plenos poderes; • Autenticar e distribuir cópias às partes; • Receber instrumentos de adesão, ratificação, reservas e notificações; • Verificar a forma dos atos e informar os Estados envolvidos; • Registrar o tratado junto à ONU. 12. Normas de Jus Cogens e Nulidade Tratados não podem contrariar normas imperativas (jus cogens) da comunidade internacional. Se o objeto viola jus cogens, o tratado é nulo ab initio. A CVT dedica todo o Part V, Arts. 46–53, a esse tema, explicitando causas de nulidade por vícios graves de consentimento ou efetiva afronta a tais normas . 13. Teorias Monismo × Dualismo No conflito entre normas internacionais e leis internas, há duas principais correntes: • Monismo: o Direito Internacional incorpora-se diretamente ao ordenamento interno, podendo ter status supralegal ou mesmo constitucional. • Dualismo: requer ato interno específico (ex.: promulgação, lei) para que o tratado produza efeitos domésticos. No Brasil, prevalece o modelo dualista tradicional, embora existam julgados que conferem supralegalidade a certos tratados (ex.: tributários) . 14. Registro e Publicação • Registro: após depósito, o depositário registra o tratado no Secretariado da ONU. • Publicação Interna: no Brasil, mesmo após entrada em vigor internacional, o tratado só é invocável internamente mediante decreto presidencial de promulgação, publicado no DOU . 15. Modelos de Incorporação • Tradicional (Brasil): necessidade de decreto legislativo (Congresso) → ratificação (Presidente) → promulgação (Presidente). • Automático: tratado passa a ter eficácia interna tão logo entre em vigor internacional, sem etapas adicionais (ex.: União Europeia) . 16. Tipos de Execução Os tratados podem ser: • Transitórios: efeitos imediatos e pontuais (ex.: delimitação de fronteiras). • Permanentes: obrigações duradouras enquanto em vigor (ex.: direitos humanos) . 17. Sujeitos Ampliados de Capacidade Convencional Além de Estados soberanos, podem celebrar tratados com plenos poderes: • Organizações internacionais (CVT 1986, em analogia à CVT 1969) • Santa Sé, insurgentes/beligerantes reconhecidos • Excepcionalmente, entes subnacionais com autorização expressa QUESTÕES file:///C:/Users/paara/Downloads/questoes_direito_internacional_completo.p df file:///C:/Users/paara/Downloads/questoes_direito_internacional_completo.pdf file:///C:/Users/paara/Downloads/questoes_direito_internacional_completo.pdf