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resumo do Capítulo IX – Condição Jurídica do Estrangeiro 1. Introdução: o duplo estatuto do estrangeiro • Embora a Constituição assegure aos residentes estrangeiros todos os direitos fundamentais (CF §5º, caput), há um estatuto administrativo específico que disciplina sua admissão, permanência, conduta e eventual retirada do território. Essa dicotomia reflete a tensão entre a universalidade dos direitos humanos e a soberania estatal de controle de fronteiras . • Portela lembra que, historicamente, o estrangeiro foi visto como “potencial inimigo interno”, daí a necessidade de normas próprias (p. 310). 2. Entrada e Permanência 2.1 Discricionariedade e interesse nacional • Visto: não basta cumprir requisitos objetivos (documentos, antecedentes). O Estado pode recusar se entender que a presença do solicitante contraria seus “interesses políticos, econômicos ou de segurança” (art. 3º, Estatuto do Estrangeiro) . 2.2 Títulos de Ingresso • Passaporte: deve ter validade mínima de seis meses. Se vencido, a entrada é indeferida, salvo em casos humanitários (p. 312). • Laissez-passer: emitido a apátridas e refugiados — mas, como observa o Portela, há debate sobre sua extensão, pois não confere direito automático de residência (p. 316). 2.3 Vistos: finalidades e transformação • Turista vs. Temporário: o turista não pode prestar serviços; o temporário (estudos, trabalho, pesquisa) exige comprovação de matrícula ou contrato e pode converter-se em permanente se o estrangeiro obtiver “justo título” e atenda novos requisitos (p. 318). • Diplomático e Oficial: garantem imunidades amplas (cf. Cap. VI), mas seu visto pode ser cassado em caso de abuso de função (p. 320). • Cortesia: concedido a personalidades de passagem, sem prerrogativas plenas; deve ser comunicado ao Itamaraty em até 48 h (p. 321). 2.4 Entrada efetiva e registro • A entrada só se consuma com o carimbo válido da Polícia Federal; o estrangeiro irregular acarreta sanção e eventual deportação imediata. • Registro obrigatório: permanentes, asilados e diplomáticos devem obter em até 30 dias a Cédula de Identidade de Estrangeiro, que passa a ser seu documento principal para todos os atos civis (p. 323). 3. Deportação • Conceito técnico: medida administrativa que retira o estrangeiro em situação estritamente documental irregular, sem analisar causa política ou criminal (art. 57). • Procedimento: insta-se procedimento administrativo prévio, mas não há garantia de ampla defesa — apenas o prazo de 5 dias para o estrangeiro alegar razões de permanência (p. 330). • Custos: se o transportador negar embarque, o Estado assume despesa; caso contrário, a empresa paga (art. 59). Portela discute um caso prático em que uma companhia aérea foi obrigada a custear devolução de um turista com vistos vencidos (p. 332). 4. Expulsão • Natureza jurídica: ato político-administrativo não penal, mas de caráter sancionatório e proibitivo, pois impede o retorno do estrangeiro . • Fundamentos: não é necessário crime: bastam “atos ou atividades nocivas” (art. 62); o Portela cita cenário de “espionagem” em que diplomata foi expulso sem acusação formal (p. 336). • Garanti as processuais: prevê contraditório em alguns casos (crime grave), mas em geral dispensa audiência formal. • Inexpulsabilidade familiar (art. 75): estende-se ao dependente, não só ao cônjuge, configurando proteção ampliada (p. 338). 5. Extradição • Base legal: tratado internacional ou, na ausência, “reciprocidade** de fato” (Portela chama de “tratado tácito”, p. 342). • Princípios: o Identidade: o pedido deve narrar fato típico idêntico ao previsto na lei brasileira. o Especialidade: o extraditado só responde pelo crime que motivou o pedido. • Crimes políticos: diferenciam-se, em regra, de atos terroristas ou de tráfico; Portela examina o conflito do Brasil com pedido de extradição de ex-terrorista italiano, concluindo que a interpretação nacional ampliou o conceito de “político” (p. 345). • Proteção ao nacional: natos não são extraditáveis (CF §5º, LXVIII); naturalizados podem responder ao pedido, mas o Executivo costuma recusar extradição de pessoas de destaque profissional (p. 347). 6. Entrega ao TPI • Estatuto de Roma impõe obrigação de cooperação plena. • Interposição: antes de entregar, a Justiça brasileira deve assegurar que direitos de defesa sejam respeitados, conforme art. 5º, XXXVIII, “g” (p. 350). • Conflito de poderes: Portela discute decisão do STF reconhecendo que o comando de entrega exige decreto legislativo de autorização (p. 352). 7. Asilo e Refúgio • Asilo diplomático: embora o Brasil não tenha lei específica, segue práticas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos — Cabral interpreta que somente a embaixada de país signatário pode conceder asilo (p. 356). • Refúgio: o Regulamentado pela Lei 9.474/97 e regulamento de 2008; o Critérios objetivos: “fuga de perseguição” por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou grupo social; o Comitê Nacional para Refugiados (CONARE): órgão colegiado que decide os pedidos, com prazo de 90 dias (p. 359). • Direitos do refugiado: equipara-se a permanente em direitos de trabalho, educação e saúde, mas não em direitos políticos (p. 361). 8. Direitos e Deveres • Isonomia constitucional: estrangeiros residentes têm direito ao habeas corpus, amparo jurisdicional, propriedade e due process (pp. 363-364). • Estatuto do Estrangeiro (arts. 95–110): detalha proibições (ex.: exercer funções públicas, portar arma) e obrigações (manter endereço atualizado, portar documento) (p. 366). • Infrações administrativas: o Atos puníveis com multa, detenção e retirada de visto (art. 125–128), como falsificação de vistos ou exercício de atividade não autorizada (p. 369). 9. Estatuto Brasil-Portugal • Tratado de Amizade (2000): permite a portugueses no Brasil e brasileiros em Portugal o acesso à previdência, educação e saúde, sem visto ou autorização prévia, bastando residência habitual (p. 374). • Limitações: não alcançam cargos estratégicos (Forças Armadas, diplomacia) e não implicam extradição automática — cada Estado decide com base na reciprocidade (p. 376). Quadro 1: Títulos de Ingresso e Vistos Documento Quando se usa Validade/Observação Passaporte Viagem internacional em geral Válido ≥ 6 meses; exigido na entrada Laissez-passer Refugiados, apátridas ou quando passaporte não é reconhecido Provisório; não garante residência automática Visto de trânsito Trânsito pelo país, sem saída do aeroporto Geralmente de curta duração Visto de turista Turismo ou visita de curta duração Até 90 dias (prorrogáveis em alguns casos) Visto temporário Estudos, trabalho, pesquisa etc. Prazo conforme objetivo; pode virar permanente Visto permanente Residência definitiva Registrar-se na PF em 30 dias Visto oficial Funcionários do governo em missão não diplomática Imunidades limitadas a atos oficiais Visto diplomático Embaixadores e familiares Goza de imunidades plenas (veja Cap. VI) Visto de cortesia Personalidades de passagem (honorário) Válido apenas enquanto durar a missão Quadro 2: Deportação × Expulsão Aspecto Deportação Expulsão Motivo Documento vencido/ausente (situação irregular) Nocividade ou inconveniência (política, segurança, moral, etc.) Autoridade Polícia Federal Presidente da República (delegado ao Ministro da Justiça) Procedimento Ato administrativo, prazo de 5 dias para defesa, custas da transportadora ou Estado Decreto formal, sem necessidade de processo penal, retorno proibido salvo revogação Possibilidade de Retorno Sim, se tiver “justo título” e quitar despesas Não, salvo se o próprio decreto for revogado Quadro 3: Extradição Princípios Descrição Identidade O fato descrito no pedido deve corresponder exatamente ao tipo penal brasileiro Especialidade O extraditadosó pode ser julgado pelo crime que motivou o pedido Crime Político Não se extradita por infrações políticas (salvo conexas a crimes comuns) Nacionalidade Brasileiros natos não são extraditáveis; naturalizados podem ser, se o crime for anterior à naturalização ou tráfico de drogas Competência STF processa; Executivo decide; entrega após decisão final Quadro 4: Refúgio Critério Quem decide Principais direitos Perseguição (raça, religião, opinião, etc.) CONARE (Comitê Nacional para Refugiados) Trabalho, educação, saúde e outros direitos sociais (igual ao residente permanente) Prazo para decisão 90 dias (podendo ser prorrogado) Documentação Protocolo de solicitação e carteira de refúgio Limitação de direitos políticos Não adquire direitos de votar ou ser votado