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🩸 Trombofilias e TVP Morgana R. Duarte- TXI A) Trombofilias hereditárias 1- Conceitos básicos I) Trombofilia Trombofilia: tendência aumentada para desenvolver trombose (hereditária ou adquirida). Trombofilia adquirida: pode decorrer de condições fisiológicas ou patológicas. Trombofilia hereditária TH: tendência genética à trombose, nem todos os pacientes com TH desenvolvem trombose. a Termo geralmente relacionado ao TEV. b Primeira descrição: deficiência de Antirombina AT em 1965. II) Tromboembolismo Tromboembolismo arterial: acomete artérias. Tromboembolismo venoso: acomete veias. Tríade de Virchow: fatores que favorecem a trombose. a Lesão endotelial + hipercoagulabilidade + estase sanguínea. TE arterial: fatores predominantes são lesões na parede do vaso (arteriosclerose). a Fatores de risco: HAS, tabagismo, DM, hipercoagulabilidade. TE venoso TEV: fatores predominantes são estase, imobilização, hipercoagulabilidade. a Manifestações clínicas principais TVP e EP (embolia pulmonar). 2- Etiologia e patogenia Causada por mutações genéticas em proteínas da coagulação ou anticoagulantes naturais. Tipos de deficiência provocadas por mutações: Deficiência quantitativa: redução dos níveis da proteína (por diminuição de RNA mensageiro ou instabilidade da proteína). Deficiência qualitativa (funcional): alteração na atividade da proteína (por substituição de aminoácido essencial, sítios ativos/ligação). Classificação das mutações: Perda de função: menor produção ou atividade da proteína, menos comum, risco mais alto de TEV. a Ex: deficiências de Proteína C PC, Proteína S PS e Antitrombina AT. Ganho de função: aumento da atividade pró-coagulante, mais frequente, risco menor de TEV. a Ex: mutação G20210A no gene da Protrombina PT. 3- Epidemiologia Trombofilias e TVP 1 O TEV é uma doença multicausal: risco aumenta com a presença de múltiplos fatores de risco (hereditários e/ou adquiridos). Fatores genéticos identificáveis: estão presentes em cerca de 50% dos casos de TEV idiopático (sem causa aparente). Gravidade e risco variam: diferentes fatores de trombofilia hereditária TH conferem diferentes níveis de risco para TEV. O risco individual depende da interação entre: fatores genéticos, idade, sexo e gravidade dos eventos trombóticos. Recorrência: alta taxa de recorrência: 30% em 8 anos após o primeiro episódio. Os fatores de risco para um primeiro episódio de TEV são diferentes dos fatores que levam à recorrência. Investigação de trombofilia TH: não há evidências que justifiquem a investigação laboratorial de TH com o objetivo de prever recorrência de trombose. 4- Diagnóstico I) Clínico Avaliação inicial: deve incluir anamnese e EF completos e minuciosos. Caracterização do evento trombótico: distinguir entre TEV secundário (associado a fatores de risco identificáveis) e TEV idiopático (sem fator de risco evidente). Achados clínicos específicos de TH: raros. Exceções: púrpura fulminante neonatal, necrose de pele induzida por cumarínico (ex: varfarina). Manifestações clínicas mais comuns: são aquelas relacionadas ao TEV (como TVP e EP. II) Classificação das trombofilias hereditárias Tipo de trombofilia Mecanismo Herança Prevalência/populações Manifestações clínicas OBS importantes Deficiência de Antitrombina AT Inibe fatores IIa, IXa, Xa, XIa e XIIa Autossômica dominante Rara; 250 mutações descritas (em heterozigose) TEV recorrente; formas graves Homozigose é geralmente letal. Pode ser adquirida (hepatopatias, heparina, CIVD, síndrome nefrótica) Deficiência de proteína C PC Inibe fatores Va e VIIIa (dependente de vitamina K Autossômica dominante 320 mutações; maioria tipo I (quantitativo) TEV, púrpura fulminans neonatal (em homozigose) Pode ser adquirida (doença hepática, cumarínicos, CIVD, autoanticorpos) Trombofilias e TVP 2 Tipo de trombofilia Mecanismo Herança Prevalência/populações Manifestações clínicas OBS importantes Deficiência de proteína S PS Cofator da PCa; também atua independentemente Autossômica dominante 131 mutações; 90% tipo I (quantitativo) TEV, púrpura fulminans neonatal (em homozigose) Diagnóstico laboratorial difícil; pode ser adquirida (cumarínicos, estrogênios, L asparaginase, gravidez, LES Fator V de Leiden/ Resistência à proteína C ativada RPCa) Mutação Arg506Gln impede clivagem do FVa pela PCa Autossômica dominante Comum em europeus (até 50% em TEV; rara em asiáticos TEV, especialmente em jovens e mulheres com anticoncepcionais Causa mais comum de TH no hemisfério norte. RPCa sem FV Leiden também pode ocorrer Mutação no gene da Protrombina PT G20210A Aumenta os níveis plasmáticos de protrombina Autossômica dominante Até 6% dos pacientes com TEV; 4% da população (mais no sul da Europa) TEV Baixo risco trombótico isoladamente Níveis elevados de Fatores de coagulação FVIII, FIX, FX, FXI, TAFI, fibrinogênio) Aumento da atividade pró- coagulante Hereditários ou adquiridos Variável TEV Somente dosagem do fator VIII é recomendada na investigação de TH Disfibrinogenemia hereditária Fibrinogênio disfuncional Autossômica dominante 0,8% dos pacientes com TEV Trombose arterial e venosa; complicações obstétricas Relacionada a trombose em até 20% dos casos Outros defeitos genéticos raros Alterações em proteínas do sistema fibrinolítico ou da via do fator tissular Variada Muito raros TEV (raro) Sem indicação de rastreio de rotina devido à baixa prevalência e evidência fraca III) Laboratorial Dosagem de AT, PC e PS a AT: método de escolha: funcional, preferencialmente cromogênico (alta precisão), pode ser reduzida por causas adquiridas (heparina, CIVD, sd. nefrótica). b PC: método ideal: funcional, do tipo cromogênico (maior especificidade). Dependente de vitamina K cumarínicos interferem na dosagem. c PS: método ideal: antigênico ELISA. Não há teste funcional disponível com boa sensibilidade/especificidade. Também dependente de vitamina K. Trombofilias e TVP 3 💡 Importante: Não dosar PC e PS durante uso de cumarínicos. Se necessário, trocar para heparina por pelo menos 2 semanas antes da coleta. Realizar exames 3 meses após evento trombótico agudo e 4 semanas após suspensão da anticoagulação. Resistência à PC ativada: baseado no TTPa (tempo de tromboplastina parcial ativado). Técnica ideal: uso de plasma deficiente em fator V. a Pré-diluição do plasma do paciente → aumenta a sensibilidade/especificidade. b Resultado (+) deve ser seguido por genotipagem para Fator V Leiden. Genotipagem para fator V Leiden e mutação da protrombina G20210A: detecta mutações FV Leiden Arg506Gln) e PT G20210A. a Métodos disponíveis: automatizados e manuais. Em geral, envolvem PCR visualização do material amplificado. b A escolha do método depende da estrutura e demanda do laboratório. Disfibrinogenemia e fator VIII a Desfibrinogenemia: teste inicial é tempo de trombina (rastreamento) i Se alterado → fazer análise funcional e antigênica do fibrinogênio. b Fator VII pode ser dosado por método funcional e/ou antigênico. a Níveis elevados estão associados a maior risco de TEV. 5- Propedêutica Não há consenso absoluto sobre as indicações da propedêutica laboratorial para TH. A investigação deve ser indicada quando os resultados puderem impactar: conduta terapêutica, aconselhamento genético e orientação familiar. Resultados dos testes NÃO influenciam: O tratamento da fase aguda do TEV (que é o mesmo para todos os pacientes). A conduta quanto à profilaxia secundária, na maioria dos casos. Em geral, a propedêutica é recomendada apenas em situações específicas, conforme indicado em tabelas clínicas. Trombofilias e TVP 4 6- Tratamento I) Tratamento de eventos agudos Idêntico ao tratamento do TEV em pacientes sem TH: heparina não fracionada HNF ou heparina de baixo peso molecular HBPM associadas a anticoagulantes orais. Objetivos do tratamento: prevenir embolia pulmonarEP e impedir a progressão ou recorrência da trombose. Duração da anticoagulação: mínimo de 3 meses: se associado a fator de risco transitório. Até 12 meses ou mais: se trombose idiopática ou em sítios incomuns (ex: cerebral, mesentérico). II) Situações especiais Ocorre em recém-nascidos com deficiência homozigótica ou dupla heterozigose de PC e PS. Tratamento: plasma fresco congelado, crioprecipitado, e warfarina (com RNI-alvo de 3,5 a 4,5). Iniciar warfarina com dose baixa 2 mg) devido ao risco de necrose de pele (estado protrombótico transitório). III) Concentrados específicos Concentrado de Proteína C PC a Indicações: púrpura fulminans, deficiência grave de PC com CIVD e TEV agudo em pacientes com deficiência grave. Concentrado de Antitrombina AT a Indicações: tromboprofilaxia cirúrgica em pacientes com deficiência hereditária de AT, gravidez e pós-parto e resistência à heparina, mesmo com altas doses. 7- Profilaxia I) Profilaxia primária Indicação: em indivíduos assintomáticos com diagnóstico de: Deficiência de anticoagulantes naturais Proteína C PC, Proteína S PS, Antitrombina AT. Mutação do Fator V Leiden. Mutação da protrombina G20210A. Condutas: Testar familiares de primeiro grau Aconselhamento médico sobre a Riscos e sintomas de TEV (tromboembolismo venoso). b Situações de risco e medidas preventivas. Anticoagulação profilática não é indicada rotineiramente, mas pode ser indicada em situações de risco aumentado: gravidez, puerpério, pré-operatório de grandes cirurgias Em crianças: evitar anticoagulação rotineira. Pode ser indicada em cirurgias abdominais ou ortopédicas a partir dos 13 anos Evitar estrogênios em mulheres com essas mutações. Considerar investigação em: mulheres com TEV em gravidez ou uso de contraceptivos estrogênicos II) Profilaxia secundária Indicação: deve ser considerada após evento trombótico prévio, especialmente se: Trombofilias e TVP 5 TEV idiopático grave TEV em locais nobres TEV recorrente Decisão individualizada, baseada em: Risco de novo evento trombótico Consequências do evento se não anticoagulado Risco de sangramento com anticoagulante Preferência do paciente Tratamento: uso de anticoagulante oral, geralmente warfarina. Meta de RNI 2,03,0 Monitoramento frequente Riscos da warfarina: hemorragia 3%/ano) Maior em: idosos 65 anos), uso conjunto de AAS ou AINEs, portadores de comorbidades (ex: câncer, IR, DM, úlcera, AVC e interações medicamentosas comuns → ajustes de dose exigem monitoramento do RNI. Tratamento prolongado pode ser recomendado em: deficiência de AT, PC ou PS, homozigose para FV Leiden e heterozigose dupla FV Leiden + mutação da protrombina). 💡 Importante: Reavaliar periodicamente (a cada 6 ou 12 meses). Decisão compartilhada com o paciente. Basear-se em evidências atualizadas e complicações durante o uso. 8- Prognóstico Depende da gravidade e recorrência dos eventos trombóticos Profilaxia bem indicada melhora significativamente os desfecho. B) Trombofilias adquiridas 1- Introdução Definição: condições não hereditárias que aumentam o risco de TEV. Principais causas adquiridas SAF, neoplasias, doenças clonais, estado pós-operatório, doenças reumatológicas, gestação, terapia estrogênica, uso de cateter venoso central e medicamentos específicos. Fatores de risco adicionais modernos: obesidade, HAS, DM, SM e distúrbios hormonais. 2- Síndrome antifosfolípide Trombofilias e TVP 6 I) Definição Doença autoimune caracterizada por: presença de anticorpos antifosfolípides e pelo menos uma manifestação clínica: Trombose venosa ou arterial. Perdas fetais recorrentes. Classificação: SAF primária: sem outra doença associada. SAF secundária: associada a doenças do tecido conjuntivo, principalmente LES. Principais anticorpos antifosfolípides: Anticoagulante lúpico (inibidor lúpico) Anticardiolipina Anti-beta2-glicoproteína I Esses anticorpos ligam-se a proteínas plasmáticas ligadas a fosfolipídeos, formando complexos fosfolipídio- proteína na superfície de: células endoteliais, plaquetas e monócitos. Fisiopatologia: Anticorpos fosfolípides causam: Ruptura das reações hemostáticas normais sobre membranas celulares. Ativação celular, levando à liberação de mediadores pró-trombóticos e inflamatórios. Resultado: estado pró-trombótico generalizado, com risco aumentado de tromboses arteriais e venosas e complicações obstétricas. 💡 Maior prevalência desses anticorpos em pacientes com eventos vaso-oclusivos. Correlação com o título dos anticorpos: quanto maior, maior o risco trombótico. O papel do anticoagulante lúpico, apesar de bem documentado, é difícil de mensurar e ainda envolve controvérsias. II) Epidemiologia Eventos neurológicos: cerca de 20% dos pacientes com AVC isquêmico 50 anos têm AAF positivos. Em idosos 70 anos) com AVC, essa associação é menos prevalente Tromboembolismo venoso TEV prevalência de 24% de AAF em pacientes com TEV. Frequência varia com o teste utilizado e com a definição de positividade. Gestação e complicações obstétricas: 1015% das mulheres com perdas gestacionais recorrentes têm SAF. Em gestantes com altos títulos de AAF: 1050% desenvolvem pré-eclâmpsia e 10% dos recém-nascidos têm restrição de crescimento intrauterino. III) Patogênese Principais mecanismos pró-trombóticos dos AAF Inibição da proteína C ativada APC Ligação e ativação de plaquetas a ↑ GPIIb/IIIa e produção de tromboxano A2. b Requer pré-estímulo plaquetário (ex: colágeno, trombina). Trombofilias e TVP 7 c Envolvimento da β2glicoproteína I β2GPI. Ativação endotelial a ↑ moléculas de adesão ICAM1, VCAM1, E-seletina. b ↑ fator tecidual em endotélio e monócitos. c Ativação de vias intracelulares: p38MAPK e NFκB. d Produção de citocinas inflamatórias IL6, IL8. Inibição da antitrombina Ativação do sistema complemento a C3 e C5 inflamação e trombose. Ligação a proteases da coagulação e fibrinólise a Inibição de APC, plasmina, t-PA. b Ligação ao fator Xa → retarda inativação. III-a) Ativação plaquetárias AAF não se ligam a plaquetas intactas, mas sim a plaquetas ativadas. Anticorpos anti-β2GPI ligam-se à fosfatidilserina exposta. Ativam sinalizações intracelulares → trombose dependente de GPIIb/IIIa. 💡 Estudos com camundongos confirmam: sem GPIIb/IIIa, não há trombose por AAF. III-b) Ativação endotelual e monocitária AAF induzem expressão de: moléculas de adesão, fator Tecidual FT e citocinas inflamatórias. β2GPI se liga ao endotélio (domínio I e inicia cascata intracelular Receptores envolvidos: anexina 2 e TLR4 III-c) Papel da trombina e outras proteases Trombofilias e TVP 8 AAF podem se ligar à trombina → interferem com a antitrombina e reduzem sua inativação. AAF reagem com outras serino-proteases (fibrinólise/coagulação). III-d) Patogenese das complicações obstétricas na SAF Mecanismos diretos sobre a placenta AAF afetam tanto trofoblasto quanto decídua materna. Efeitos nos trofoblastos: lesão celular direta, apoptose, inibição da proliferação e da sincicialização, redução de hCG e invasão defeituosa. AAF alteram integrinas e caderinas, comprometendo a implantação. Mecanismos mediados pelo sistema complemento Ativação de C3 e C5 liberação de mediadores inflamatórios. Indução de citocinas, quimiocinas e lesão placentária. a Resulta em placentação defeituosa e falhas gestacionais. IV) Manifestações clínicas Eventos trombóticos a SAF se caracteriza por trombose arterial e venosa, em diferentes locais: i Trombose venosa profunda TVP – forma mais comum no território venoso. ii AVC isquêmico e AIT (ataque isquêmico transitório) – mais comuns nas artérias. Complicações obstétricas a Perdas gestacionais recorrentes 3 antes da 10ª semana). b Óbito fetal 10 semanas. c Pré-eclâmpsia grave ou insuficiência placentária com parto 34 semanas. Outras manifestações associadas a Doençavalvular cardíaca (predomínio da valva mitral; insuficiência > estenose). b Comprometimento renal. i Hipertensão arterial + proteinúria. ii Microangiopatia trombótica, oclusões arteriais, atrofia cortical focal. c Livedo reticular: em 25% dos pacientes, pode indicar maior risco de trombose arterial. Trombofilias e TVP 9 V) Critérios de classificação Trombofilias e TVP 10 3- Tratamento Desafios e controvérsias a SAF é uma trombofilia adquirida com alto risco de recorrência trombótica. b O uso prolongado de anticoagulantes: i Requer monitoramento frequente INR. ii Aumenta o risco de sangramento, especialmente com INR elevado. Fatores a considerar antes do tratamento a Outros fatores de risco trombótico. b Intensidade ideal da anticoagulação. c Duração do tratamento. d Tipo, título e persistência dos anticorpos antifosfolípides. e Presença de doença autoimune associada. Condutas específicas a Primeiro evento trombótico venoso i Anticoagulação oral (varfarina) com INR alvo entre 2 e 3. ii Efetiva para prevenir novos episódios. iii Anticoagulação mais intensa não mostrou vantagem. b Eventos arteriais ou tromboses recorrentes a Risco de recorrência é maior com INR 23. b Melhores resultados com: INR 3 OU INR entre 2 e 3 antiagregante plaquetário (ex: AAS. Avaliação prévia do risco de sangramento é essencial, especialmente se: idade 75 anos, história de sangramento, uso de múltiplos medicamentos, presença de câncer ou leucoaraiose e/ou baixa adesão ao tratamento. Pacientes assintomáticos a Em geral, não se recomenda anticoagulação rotineira. b AAS (aspirina) pode ser indicada em: tripla positividade (lúpico + anticardiolipina + anti-β2GPI e/ou presença de outros fatores de risco trombótico. Medidas adicionais recomendadas a Controle rigoroso de fatores de risco cardiovascular: hipertensão, dislipidemia, obesidade e evitar tabagismo e estrogênios. b Mesmo sem trombose prévia, tais medidas devem ser adotadas. Trombofilias e TVP 11 💡 Duração do tratamento Tempo indefinido se: SAF confirmada + trombose prévia 36 meses se: Anticorpos de baixo risco + fator desencadeante transitório 4- Câncer e trombose I) Visão geral O tromboembolismo venoso TEV é uma complicação frequente e potencialmente grave em pacientes oncológicos. As manifestações variam de TEV clássico até CIVD (coagulação intravascular disseminada) e trombose arterial. II) Epidemiologia TEV ocorre em até 20% dos pacientes com câncer. Incidência depende de: tipo de estudo (coorte hospitalar vs. base de dados), estágio da doença e situação clínica (internação, neutropenia, quimioterapia). Estudos mais recentes relatam aumento na incidência de eventos trombóticos em pacientes com câncer. III) Fatores de risco trombóticos Relacionados com o câncer: a Sítios primários com maior risco de TEV: pâncreas, estômago, pulmão (adenocarcinoma), cérebro, rim, útero e hematológicos. b Subtipos histológicos: adenocarcinomas são mais trombogênicos que carcinomas de células escamosas. c Estadiamento: estádios avançados ↑ risco de TEV, especialmente em pacientes cirúrgicos. Trombofilias e TVP 12 d Momento do diagnóstico: risco mais alto nos primeiros 3 meses após o diagnóstico, redução progressiva ao longo dos anos, risco se iguala ao da população geral após 15 anos. Relacionados com o tratamento do câncer: a Quimioterapia: aumenta risco de TEV em 2 a 6 vezes. b Platinas (cisplatina > oxaliplatina) → maior risco. c Talidomida + dexametasona/quimioterapia TEV em 12% a 28%. i Maior risco com: uso de doxorrubicina, diagnóstico recente e alterações no cromossomo 11. d Lenalidomida: risco variável de TEV 5% a 75%. e Antiangiogênicos: associados a trombose venosa e arterial. f Cateteres venosos centrais: risco de trombose entre 4% e 14%. 5- Outros fatores de risco trombótico Fatores demográficos e laboratoriais Idade avançada, sexo feminino (em hospitalizados), raça negra Biomarcadores a Plaquetas 350.000/μL. b Fator tecidual plasmático e P-seletina solúvel ↑. D-dímero elevado: marcador de risco de recorrência. 6- Fisiopatologia Células tumorais produzem: Fator tecidual → ativa fator VIIa → inicia cascata da coagulação. Procoagulante do câncer → ativa fator X diretamente. PAI1/PAI2 → inibem fibrinólise. Ativação plaquetária por contato direto ou secreção de ADP, trombina etc. Citoquinas tumorais TNFα, IL1β, VEGF: a ↑ expressão de moléculas de adesão. b ↑ fator tecidual. c ↓ trombomodulina. Interação com células normais (plaquetas, leucócitos, endotélio) → promove ativação local da coagulação. 7- Associação entre trombose venosa e câncer oculto Trombose como marcador de câncer oculto. TEV primário e recorrente pode sinalizar neoplasia não diagnosticada. • Estudos sugerem rastreio adicional em TEV primário (especialmente câncer de mama, colo uterino, cólon). Investigação básica sugerida: anamnese, exame físico, toque retal, RX de tórax. 8- Manifestações clínicas TVP, TEP, tromboflebite migratória (síndrome de Trousseau). Trombofilias e TVP 13 Endocardite trombótica não bacteriana a Vegetações estéreis (aórtica e mitral). b Embolização para cérebro, rins, baço, extremidades. CIVD crônica: plaquetopenia, fibrinogênio baixo, PDF ↑, TP e TTPa levemente alterados. Microangiopatia trombótica tumoral: até 5,7% em câncer metastático (estômago, mama, pulmão). 9- Tratamento Fase aguda: início imediato com: a Heparina não fracionada (ajuste por TTPa-R. b Heparina de baixo peso molecular HBPM (preferência). c Dalteparina: 200 U/kg 1x/dia. d Enoxaparina: 100 U/kg 2x/dia. e Trombolíticos: uso restrito a casos graves i Ex: TEP maciço, trombose extensa íleo-femoral, cateter essencial obstruído. 💡 Vantagens da HBPM: ↓ risco de sangramento ↑ sobrevida em 3 meses ↓ risco de plaquetopenia induzida Uso prático (sem necessidade de controle laboratorial) Tratamento prolongado a HBPM é mais eficaz e mais segura que a varfarina: reduz em até 52% a recorrência do TEV. b Evita oscilações do INR, comuns na oncologia. c Varfarina pode ser usada quando HBPM não está disponível INR 23. 💡 Duração do tratamento: Mínimo: 6 meses. Indefinido em: câncer ativo (metastático ou em quimioterapia). Outras abordagens a Filtro de veia cava inferior: quando anticoagulação é contraindicada ou TEV recorrente. b Cuidado em SNC: evitar anticoagulação em hemorragia ativa, neurocirurgia recente, plaquetas 50.000. c Pacientes idosos: controle rigoroso para evitar sangramentos. d Novos anticoagulantes orais DOACs): promissores (ex: rivaroxabana, dabigatrana), mas ainda carecem de mais estudos em oncológicos. C) Tromboses venosas Trombofilias e TVP 14 1- Hemostasia normal 2- Tromboses venosas I) Introdução Alta frequência na população geral. Associada a significativa morbidade e mortalidade. II) Etiologia Resulta de interação entre fatores de risco genéticos e adquiridos. Fatores adquiridos transitórios comuns: cirurgia, trauma, imobilização, gestação e terapia hormonal. III) Diagnóstico Deve ser sempre feito por métodos objetivos, que comprovem a presença do trombo. Exemplo de exames USG com doppler, angiotomografia e flebografia. O diagnóstico tem implicações diretas no tratamento do evento agudo e na profilaxia a longo prazo. IV) Fisiopatologia IV-a) Tríade de Virchow Trombose resulta da interação entre: Alterações na parede do vaso (lesão endotelial). Alterações no fluxo sanguíneo (estase). Alterações nos componentes do sangue (hipercoagulabilidade). Trombofilias e TVP 15 Diferenças entre trombose arterial e venosa Tipo de trombose Fator predominante Arterial Lesão na parede do vaso (ex: aterosclerose) Venosa Estase + alterações nos componentes do sangue Estado procoagulante) IV-b) Características do trombo venoso Formado em condições de: fluxo lento + baixa tensão de cisalhamento (shear stress).Composição: fibrina + hemácias + poucas plaquetas → chamado de "trombo vermelho". Trombose venosa superficial: acomete veias superficiais. Trombose venosa profunda TVP: acomete veias do sistema profundo. 3- TVP e embolia pulmonar I) Trombose venosa profunda (TVP) TVP pode ocorrer em qualquer segmento do sistema venoso profundo → mais comum nos MMII. Também pode afetar MMSS, veias esplâncnicas e seios venosos cerebrais (mais raro) MMII distal: veias abaixo da veia poplítea (ex: tibial, fibular). MMII proximal: acomete veias popllítea, femoral ou ilíaca. Mais associada à embolia pulmonar EP. II) Embolia pulmonar (EP) Complicação grave e comum da TVP. Ocorre quando o trombo (ou fragmento) se desprende e migra para a artéria pulmonar. Origem dos êmbolos: cerca de 90% originam-se de veias profundas dos MMII (especialmente proximais). Progressão da TVP: cerca de 20% das TVPs distais propagam-se para segmentos proximais. Ocorre geralmente dentro de 1 semana. Eleva o risco de EP subsequente. Trombofilias e TVP 16 💡 Trombos nas veias dos MMII podem ser assintomáticos. Em alguns casos, EP grave ou fatal pode ser a primeira manifestação clínica da doença. III) Tromboembolismo venoso (TEV) Termo que engloba TVP e EP. O paciente pode apresentar cada uma isoladamente ou ambas simultaneamente. III-a) Epidemiologia 1 a 2 casos por 1.000 pessoas/ano. Mais comuns em negros e brancos comparado a outras etnias. Importância clínica 3ª doença CV mais comum após IAM e AVC considerada problema de saúde pública. Mortalidade: depende da idade e comorbidades (ex: câncer, doenças pulmonares e/ou CVs). Mortalidade em 30 dias 1015% dos casos. Complicações: hipertensão pulmonar tromboembólica crônica 4% dos casos após 2 anos da EP e síndrome pós-trombótica (comum após TVP. III-b) Fatores de risco para TEV Genéticos a Deficiência de inibidores naturais da coagulação: antitrombina (mais grave), proteína C e proteína S. b Mutações com ganho de função: fator V de Leiden G1691A ou mutação da protrombina G20210A. c Mais comum em brancos, deficiência de AT está relacionada com maior risco e TEV precoce 50 anos). Origem mista ou incerta a Níveis elevados de fatores de coagulação VIII, IX, XI, fibrinogênio, TAFI. b Redução do TFPI: inibidor da via do fator tecidual. c Hiper-homocisteinemia: associada a polimorfismos e dietas pobres em vitaminas (ex: B12, B6, folato). d Suplementação de vitamina B não reduz risco trombótico → sem impacto clínico definido. Fatores adquiridos (permanentes ou relacionados a doenças) a Obesidade, câncer, doenças mieloproliferativas, hemoglobinúria paroxística noturna HPN, sd. do anticorpo antifosfolípide SAF, DII, sd. nefrótica, LES, doença de Behçet, TVS prévia e idade avançada. b Câncer como fator de risco: pode ser a primeira manifestação clínica de uma neoplasia oculta. c Situações que aumentam o risco trombótico no câncer: imobilização, cirurgia, quimioterapia, terapia hormonal e cateter venoso central. Fatores adquiridos transitórios (reversíveis) a Cirurgia, trauma, imobilização (acamado, paralisia, viagens longas), cateter venoso central, gestação, puerpério (risco 5x maior do que na gestação), uso de AC oral (risco maior nos primeiros 6 meses de uso) e terapia de reposição hormonal (risco maior via oral e no primeiro ano de uso). b Risco aumenta com idade, dose de etinilestradiol, tipo de progestágeno (maior risco: gestodeno, desogestrel, acetato de ciproterona, drospirenona; menor risco: levonorgestrel). 2- Manifestações clínicas I) Avaliação inicial Trombofilias e TVP 17 Associado a fatores transitórios (ex: cirurgia, imobilização) ou ocorreu espontaneamente? Importante avaliar na anamnese: Condições predisponentes: câncer, HPN, Lúpus, síndrome nefrótica, doenças mieloproliferativas. História obstétrica e uso de hormônios (mulheres). História familiar de TEV → suspeita de trombofilia hereditária. II) TVP de membro inferior TVP distal: frequentemente assintomática. TVP proximal: sintomas mais comuns. Sinais e sintomas: dor, edema (unilateral ou bilateral assimétrico), aumento da consistência muscular, aumento da temperatura local e trajetos venosos superficiais visíveis. Diagnóstico diferencial: celulite, miosite, hematoma muscular, ruptura de cisto de Baker. III) EP (Embolia Pulmonar) Quadro inespecífico, pode variar de leve a grave: dispneia, dor torácica, tosse, hemoptise, taquipneia, taquicardia. Casos graves: síncope, hipotensão, hipoxemia, morte súbita. 3- Diagnóstico I) Exames complementares Devem sempre ser realizados para confirmação, pois o quadro clínico não é específico. Importância do diagnóstico objetivo: define a conduta terapêutica aguda e estratégias de profilaxia a longo prazo. II) Exames de imagem II-a) TVP Flebografia: padrão-ouro, alta sensibilidade para TVP, inclusive distal. a Invasiva e com uso de contraste → pouco utilizada atualmente. USG venosa com doppler: método de escolha na prática clínica. a Sensibilidade 97% e especificidade 98% para TVP proximal, menor acurácia para TVP distal. Outros métodos TC de MMII (menos comum). II-b) EP Angiografia pulmonar: padrão-ouro, invasiva e cara (uso restrito). Cintilografia ventilação-perfusão: alta sensibilidade, baixa especificidade. a Resultado normal exclui EP. b Muitas vezes não diagnostica → investigação adicional necessária. TC helicoidal (angio-TC: exame de escolha atual, alta especifidade e sensibilidade com novos equipamentos. 💡 TVP em membros inferiores está presente em 90% dos casos de EP. Em paciente com suspeita de EP, a confirmação de TVP é suficiente para iniciar tratamento. Trombofilias e TVP 18 III) Papel do D-dímero Produto de degradação de fibrina. Muito sensível, mas pouco específico → não serve para confirmar, mas sim para excluir TEV em baixa probabilidade clínica. Limitações: falso positivo em várias situações (idade avançada, gestação e puerpério, cirurgia, trauma, câncer, infecção e inflamações). 💡 Como usar o D-dímero corretamente: utilizar sempre em conjunto com avaliação da probabilidade clínica (escores validados). Baixa probabilidade clínica D-dímero negativo → exclui TEV evita exames de imagem. Alta probabilidade clínica → não usar D-dímero isoladamente para excluir. 4- Tratamento Objetivos: prevenir extensão do trombo, embolização EP e recorrência e promover a restauração do fluxo venoso. Principal estratégia: anticoagulação → inibe extensão e permite ação do sistema fibrinolítico endógeno. Fibrinolíticos: usados em casos seletivos para rápida desobstrução vascular. 💡 Início do Tratamento: após confirmação diagnóstica por imagem, o tratamento anticoagulante deve ser iniciado imediatamente. Em casos de forte suspeita clínica, pode-se iniciar antes da confirmação diagnóstica. I) Tratamento na fase aguda Heparina não fracionada HNF IV ou SC a IV bólus: 80 U/kg, infusão contínua: 18 U/kg/h. b Monitorar TTPa: a cada 6h até a faixa terapêutica (relação 1,52,5 com controle), após estabilização: 1x/dia. c SC também eficaz se dose adequada. d Variação nos reagentes → cada laboratório deve definir seu intervalo terapêutico. Heparina de baixo peso molecular HBPM SC a Vantagens: menor risco de osteopenia e trombocitopenia, melhor biodisponibilidade, dispensa monitoramento laboratorial (exceto em insuficiência renal grave- clearance 30 mL/min e gestantes). b Monitoramento (se necessário): atividade anti-Xa (após 4h da injeção). c Doses de enoxaparina: 100 U anti-Xa/kg a cada 12h ou 150200 U/kg a cada 24h. Fondaparinux- SC pentassacarídeo sintético → inibe fator Xa. a Dose única ajustada ao peso. b Não requer monitoramento de rotina. c Contraindicado em insuficiência renal grave. Antagonistas da Vitamina K AVK Warfarina a Início precoce: 1º dia de tratamento com heparina/fondaparinux. Dose inicial 5 mg/dia. Trombofilias e TVP 19 b Monitoramento pela RNI faixa terapêutica:23 (alvo: 2,5. c 5 dias e RNI terapêutica por 24h. d Uso prolongado em TEV base do tratamento crônico. e Contraindicações: gestação (teratogênica, atravessa placenta). f Segura na amamentação (não passa para o leite). II) Duração do tratamento Baseia-se no risco de recorrência X risco de sangramento. Situação Duração sugerida 1º episódio com fator de risco transitório 36 meses 1º episódio espontâneo Individualizar (pode prolongar) 2º episódio espontâneo Anticoagulação definida Risco de recorrência: 25% em 5 anos. Maior se TEV espontâneo ou com trombofilia grave (ex: câncer, AT deficiente). D-dímero elevado após suspensão da anticoagulação pode indicar maior risco de recorrência → estudos ainda em andamento. III) Papel da trombofilia no manejo do TEV Objetivos da investigação: identificar doenças associadas (câncer, HPN, SAF etc.) e avaliar risco de recorrência e orientar tempo de anticoagulação. Trombofilia adquirida a Câncer: manter anticoagulação enquanto persistir. b SAF: preferir AVK a longo prazo RNI 23. c Doenças mieloproliferativas: pesquisar mutação JAK2 (ex: em trombose esplâncnica). Trombofilia hereditária a Fator V Leiden (heterozigose) e Protrombina G20210A: geralmente não influenciam duração do tratamento. Pode ser útil investigar em casos com: história familiar forte (parentes jovens com TEV e/ou suspeita de defeitos graves (ex: deficiência de AT. IV) Filtro de Veia Cava Inferior (VCI) Indicação: pacientes com TEV agudo que não podem usar anticoagulantes por risco hemorrágico. Tipos: permanentes e removíveis. Complicações: ↓ risco de EP, mas ↑ risco de TVP a longo prazo. Após o risco hemorrágico ser resolvido → iniciar anticoagulação. V) Tratamento fibrinolítico Objetivos: aliviar sintomas, reduzir síndrome pós-trombótica. Promove lise do trombo → útil em casos graves e selecionados: Ex: EP maciça com instabilidade hemodinâmica. Modalidades: sistêmica IV estreptocinase, urocinase, rtPA. Direcionada por cateter: TVP proximal extensa (ex: ilíaco-femoral). Trombofilias e TVP 20 14 dias de sintomas. Baixo risco de sangramento. Risco principal: sangramento. Após fibrinólise → manter anticoagulação adequada. 5- Profilaxia Objetivo: prevenir primeiro episódio de TEV ou recorrência após suspensão da anticoagulação. Indicação: baseada na presença de fatores de risco. Profilaxia é indicada mesmo sem trombofilia, se houver história prévia de TEV. I) Paciente cirúrgico O tipo de cirurgia é o principal fator determinante do risco. Cirurgias com risco elevado: abdominal, ginecológica, urológica, neurológica, bariátrica, vascular, torácica, ortopédicas maiores: artroplastia de quadril, joelho, fratura de quadril, traumas grandes e lesões medulares Procedimentos laparoscópicos ou menores: podem requerer profilaxia se houver fatores de risco adicionais. II) Paciente clínico Indicação de profilaxia em internados com: insuficiência cardíaca, doença respiratória grave ou acamados com câncer, sepse, doença neurológica aguda, doença inflamatória. III) Métodos de profilaxia Medidas gerais: deambulação precoce e frequente → sempre estimulada, mas não é suficiente isoladamente. Método mecânicos: meias de compressão graduada, Compressão Pneumática Intermitente CPI. Usadas isoladamente em: pacientes com baixo risco de TEV ou contraindicação ao uso de anticoagulantes. Profilaxia farmacológica HNF SC 23x ao dia. HBPM: preferida pela conveniência e menor risco de efeitos adversos. Fondaparinux: também eficaz. AVK (warfarina): pouco usado na profilaxia aguda → início lento e necessidade de monitoramento. Antiagregantes plaquetários (aspirina) NÃO devem ser usados para prevenir TEV. 💡 Ajustes e considerações: Escolha da droga, dose e duração da profilaxia depende: Do nível de risco trombótico. Da função renal (especial atenção a idosos, diabéticos e pacientes de alto risco hemorrágico). IV) Síndrome pós-trombótica Acomete 30 a 50% dos pacientes com TVP de membros inferiores. Ocorre principalmente nos primeiros 2 anos após o episódio agudo. Decorre de: dano às válvulas venosas → insuficiência valvular e refluxo venoso crônico. Fatores de risco para SPT TVP extensa (ilíaca ou femoral comum), TVP recorrente no mesmo membro, obesidade, idade avançada e níveis subterapêuticos de anticoagulação no início do tratamento. Trombofilias e TVP 21 Manifestações clínicas: dor, edema, pigmentação da pele, varizes secundárias e úlceras nas pernas (casos graves). V) Tratamento e prevenção Meias de compressão graduada: principal forma de tratamento. a Também recomendadas para prevenção após TVP proximal. Fibrinolíticos: não é recomendado rotineiramente para prevenir SPT. a Reservados para casos específicos (vide tratamento fibrinolítico). VI) Perspectivas futuras no tratamento e profilaxia Novos Anticoagulantes Orais NOACs ou DOACs) a Mecanismo: inibidores específicos de fatores da coagulação. b Dabigatrana → inibidor direto da trombina (fator IIa). c Rivaroxabana → inibidor direto do fator Xa. Vantagens: administração oral, início rápido de ação e resposta previsível → não exige monitoração rotineira. a Potencial para uso tanto em tratamento quanto profilaxia do TEV. Desafios: ausência de antídotos universais (ainda que alguns já existam para certas drogas). a Monitoramento difícil em: insuficiência renal e pacientes muito obesos. b Resultados promissores em estudos clínicos, mas: faltam dados robustos para populações de alto risco, geralmente excluídas dos estudos. 4- TV superficial I) Definição e apresentação clínica Trombose em veias superficiais com reação inflamatória local. Clínica típica: cordão palpável, quente, doloroso e hiperemiado no trajeto da veia. II) Epidemiologia Mais comum que TEV, embora a incidência exata não seja conhecida. Muitas vezes relacionada a infusões IV (tromboflebite superficial). III) Riscos e complicações Pode: coexistir com TEV profundo e ser fator de risco para futuro TEV. Compartilha fatores de risco com TEV: imobilização, cirurgia, trauma, gestação, obesidade, hormônios, câncer, autoimunidade. Relação com trombofilia hereditária ainda pouco definida. IV) Diagnóstico Tradicionalmente clínico. Ultrassonografia venosa: fortemente recomendada atualmente. Permite avaliar: presença do trombo, extensão e acometimento venoso profundo. V) Tratamento da TVS Medidas gerais Trombofilias e TVP 22 AINES tópicos ou orais (casos leves, especialmente tromboflebite por infusão). Anticoagulação sistêmica a Destaque no tratamento da TVS, especialmente em casos com maior risco de complicação. b HBPM em doses profiláticas ou intermediárias por pelo menos 4 semanas é recomendada. Fatores que influenciam conduta: causa (etiologia), extensão do trombo e gravidade dos sintomas. VI) Cirurgia Pode ser considerada em casos selecionados (ex: prevenir extensão para sistema profundo). Risco de tromboembolismo pós-cirúrgico elevado → anticoagulação costuma ser mais segura. Trombofilias e TVP 23