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GEOGRAFIAS DO TURISMO DE LUGARES A PSEUDO-LUGARES RITA DE CÁSSIA ARIZA DA CRUZ COLABORADORES ANDRÉ LUIZ SABINO (81) SILVEIRA MOLINA RODOLFO PEREIRA DAS CHAGAS 254084 Ac. 117030 R Ex.3 UFJF ICH84 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta essa dinâmica coloca em contato de forma diversos esporádica sujeitos sociais: e ainda alguns vivendo car que cotidianamente o lugar, outros que "vivem" o lugar especificamente, a a produção do espaço e o uso diferenciado do Em Indaiá, são fatos consumados, com a contínua reconstrução do espaço que território requer. Novos objetos são instalados ou antigos são possibilitando o cotidiano novas ações. Nossa tarefa é, portanto, a de buscar os nexos espa- analisando criticamente como isso se dá no lugar, com auxílio de um ciais, teórico-metodológico coerente, pertinente e operacional que auxilie esquema entendimento da complexa rede de relações que emana do mundo como no totalidade em movimento, que não pára para fazermos análises, mas que uma permite cindir, mediante o resgate dos usos pretéritos do território, enten- dimento se do papel dos agentes imobiliários e do capital imobiliário e na determinação dos principais eventos com seus vetores, que se alojam no lugar a partir de interesses nem sempre locais, provocando mudanças. 17 Os moradores locais de Bertioga vivem lugar cotidianamente; os turistas esporadi- camente e, por fim, os agentes hegemônicos, os donos do capital imobiliário, vivem lugar a distância, visto que seus escritórios não estão localizados em Bertioga. escritório da empresa Praias Paulistas S.A. está situado no Município de São Paulo no Bairro dos Jardins, assim como a Companhia Fazenda Acaraú. JERICOACOARA: DE VILA DE PESCADORES A DESTINO INTERNACIONAL FABIO SILVEIRA MOLINA 978-85-7241-682-5 Antes de qualquer atividade turística, ou mesmo nas formas "primitivas" de turismo no local (década de 1970), Jericoacoara era apenas uma pequena comunidade de pescadores, de passado indígena, na qual dinheiro nada valia, e tudo (...) era na base da troca" (Galvão, 1995: 90). Segundo Lima (2004: 36), no passado nativos só conheciam a pesca, companheirismo, a vida pacata e calma, os valores e os costumes, sabendo e conhecendo valor do uso do ambiente natural que osLitoral Ócio e Negócio à Beira-mar 85 local se era chegar de difícil à vila acesso: que, à deslocamento era realizado através nas para forma, noite, contava apenas com lampiões das du- iluminação. Dessa chegar ao local já era, em si, uma para a não existiam transportes (cavalos, especiais e trajeto muitas vezes era aventura, realizado pois a pé ou com animais jegues). Hoje, a história é outra. Destacando-se como um dos principais destinos turísticos do Estado Ceará, Jericoacoara tem sido amplamente divulgada e visitada do originados de praticamente todo território nacional e do exterior, por que turistas che- gam ao local, normalmente, via Nesse sentido, a atividade turística é a que predomina em Jericoacoara atualidade, devido principalmente às suas características paisagísticas, na de reconhecida beleza cênica, e também pelas ações de marketing e iniciativas público-privadas que dão suporte e condições ao desenvolvimento do turis- mo no local (Figs. 6.11 e 6.12). O turismo em Jericoacoara se insere no contexto de um turismo litorâneo e, também, de um turismo em áreas naturais; a natureza, em especial lito- ral, apresenta-se como principal objeto de consumo das formas de turismo ditas alternativas (ou seja, aquelas que se opõem ao turismo massificado). Embora haja consumo da natureza, reconhece-se que essa modalidade de turismo "depende dos espaços urbanos, sob diversos aspectos" (Cruz, 2003: 69); daí a importância de Fortaleza como portão de entrada de turistas no Ceará (e, conseqüentemente, para aqueles que chegam até Jericoacoara), 978-85-7241-682-5 Figura Pôr do sol em Jericoacoara. Foto: Fabio S. Molina, 2005.86 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta 978-85-7241-682-5 Figura 6.12 Praia de Jericoacoara e, ao fundo, a Duna do Pôr do Sol. Foto: Fabio S. Molina, 2005. juntamente com implantação de infra-estruturas de circulação, hospedagem e restauração, essencialmente de características urbanas. Por um lado, fortalecimento significativo do turismo certamente dina- miza a economia local, mas por outro, há sinais de desgaste ambiental, entre os quais a poluição de águas subterrâneas pela construção de fossas (uma vez que a vila ainda não possui um sistema de esgotos), avanço acelerado de dunas sobre a vila (decorrente de sua desestabilização, motivada pela cir- culação de pessoas e automóveis) e a intensificação de alguns problemas sociais como prostituição (que ainda não ocorre de forma explícita), uso de drogas (principalmente crack) e, como alguns nativos costumam dizer, a perda de identidade da população local em função da "invasão" de turistas e de pessoas "de fora" que vêm estabelecer-se no local, em busca de trabalho. Max Sorre já afirmava, em 1952, que ao receber influências externas, não ne- cessariamente se anula gênero de vida (relação entre população e os recursos/ técnicas), havendo, na verdade, uma re-significação; autor (Sorre, 1994: 112) evidencia papel da circulação nessa re-significação, ao afirmar que: (...) todas as mudanças nos gêneros de vida aparecem como que ligadas à atividade da circulação. A circulação faz grupo hu- mano participar de uma vida mais geral, trazendo-lhes os germes da renovação que vêm fecundar os antigos modos de existência. Ela faz nascer novos modos de existência portadores de sua marca e organizados com vistas a seus próprios fins.Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 87 978-85-7241-682-5 Jericoacoara localiza-se no litoral oeste do Estado do Ceará (Figura a 310km da capital do (Fortaleza) e a 19km a leste da sede do Município de 6.13), de Jericoacoara, qual faz parte desde 1991. Segundo Fonteles (2004: Jijoca "a 29 de junho de 1923, Jericoacoara foi elevada à categoria de Distrito 131), Lei Municipal 94 (...). Na época, pertencia ao Município de Acaraú. por 1985, passou a pertencer ao Município de Cruz" tornando-se, até dias Em distrito do Município de Jijoca de Jericoacoara, criado pela Lei 11.796, atuais, de 6 de março de 1991. Sua paisagem é marcada por dunas, serrotes (formação dunar fixada vegetação), caatinga, lagoas, rios, enseadas, mangues e, na área urbana, con- por tém cinco ruas principais paralelas (interligadas por becos e ruelas) que se apresentam perpendicularmente à praia (Fig. 6.14). No que diz respeito à população, 1980 Jericoacoara contava com 731 habitantes, sendo 354 homens e 377 mulheres" (Fonteles, 2004: 131). Em ra- zão da evasão de boa parte da população jovem de Jericoacoara (por motivos aparentes de falta de emprego), em 1984 a população contava com 580 habi- tantes, sendo 48,8% deles com idades entre 0 e 15 anos (UECE/NUGA, 1985: 101). Conforme Fonteles (2004: 101), com a criação da Área de Proteção Ambiental (APA) de Jericoacoara (em 1984) e aumento do fluxo turístico a JERICOACOARA FORTALEZA BRASIL RIO DE JANEIRO PAULO Figura 6.13 Localização de Jericoacoara. Fonte: www.jericoacoarasite.com.88 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta 978-85-7241-682-5 Figura 6.14 Vista aérea de Jericoacoara (imagem Quick Bird 2004 Bandas Red, Green, Blue). Fonte: SEMACE, 2004. partir daí, houve um retorno dos moradores à vila, provavelmente atraídos pelas oportunidades de trabalho proporcionadas pelo turismo no local. Dessa forma, contava em 1989 com 650 habitantes (Galvão, 1995: 33) e, em 2000, com 950 (chegando a 1.300 na alta temporada) (Fonteles, 2004: 132). Com base nesse dado, pode-se afirmar que se trata, aqui, da presença de uma espécie de "população fixa flutuante" (com a presença de migrantes tempo- rários). Em 2006, a Vila de Jericoacoara possuía 2.328 O Município de Jijoca de Jericoacoara, incluindo-se, portanto, a Vila de Jericoacoara, apresenta os dados demográficos demonstrados no Quadro 6.1. O setor de serviços, impulsionado pelo turismo, é que predomina no Município (conforme Perfil Básico Municipal elaborado pelo Instituto de 1 Na dificuldade de obtenção de dado confiável na Prefeitura Municipal de Jijoca de Jericoacoara (durante a pesquisa de campo), adotamos esse dado obtido no websiteoficial do Governo do Estado do Ceará (www.ceara.gov.br), onde era noticiado, em 5 de maio de 2006, riam início das obras de saneamento na Vila de Jericoacoara e citava que elas beneficia- diretamente os 2.328 habitantes.Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 89 Pesquisa e Estratégia 81,9% do Econômica Produto do Ceará (IPECE) setor de ponsável por Interno Bruto (PIB) municipal, serviços é res- 15,1% e a indústria, em da último lugar, responsável por 3%) e as a agropecuária foram basicamente a pesca artesanal e a agropecuária (Tabelas 6.5 nômicas principais vila, antes do desenvolvimento da atividade atividades turística, eco- Por meio da Secretaria Especial do Meio Ambiente SEMA, do e 6.6). do Interior, foi criada, em 1984, a APA de Jericoacoara², com uma Ministério 6.443ha, dividida em oito sistemas de terras, onde Sistema de Terra área VIII de (área urbana) corresponde à vila. Quadro 6.1 - Produto Interno Bruto no Município de Jijoca de Jericoacoara, por setor, em 2005 % Agropecuária Indústria 15,1 3,0 Serviços 81,9 Fonte: IBGE/IPECE, 2005. Tabela 6.5 População do Município de Jijoca de Jericoacoara (1991-2005) Ano Habitantes 1991 5.897 1996 9.761 2000 12.089 2005 15.963 (estimativa) Fonte: IBGE e Fonteles (2004). Tabela 6.6 População da Vila de Jericoacoara (1980-2006) Ano Habitantes 731 1980 580 1984 650 1989 950/1.300 2000 2.328 2006 Fonte: Galvão (1995) e Fonteles (2004). 2 Área de Proteção Ambiental (APA), criada pelo Decreto Federal 90.379, de 29/10/1984.90 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta Recentemente, em 2002, parte da APA foi transformada no Parque Nacio- nal de Jericoacoara (PARNA)³, abrangendo os Municípios de Cruz e Jijoca de Jericoacoara, e compreendendo uma área de 8.416ha, administrada pelo Ins- tituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis IBAMA (que possui uma sede no local). Parque abarca basicamente as áreas de dunas e mangues, deixando de fora a área urbana (Fig. 6.15), ou seja, a Vila de Jericoacoara, já que, juridica- mente, não é permitida a existência de residentes em Parques Nacionais; nesse 978-85-7241-682-5 sentido, a vila (uma "ilha" cercada pelo PARNA) é uma APA (que agora diz respeito ao Sistema de Terras VIII, com seus limites redefinidos). Para se chegar a Jericoacoara, a partir da sede do Município de Jijoca de Jericoacoara, transita-se cerca de 19km (principalmente com automóveis de tração 4x4), passando pelo Parque, em áreas onde a circulação é permitida. A principal opção utilizada pelos turistas quanto ao meio de transporte para se chegar a Jijoca de Jericoacoara é ônibus, seguido de carro particular e, por último, avião e/ou moto ("outros"), conforme Quadro 6.2. Figura 6.15 Vista parcial da área urbana da Vila de Jericoacoara. Foto: Fabio S. Molina, 2005. Jericoacoara Parque). e redefiniu os limites da APA de Jericoacoara (apenas parte da APA compõe 3 Decreto Federal 9.492, de 4 de fevereiro de 2002, criou Parque Nacional de oLitoral Ócio e Negócio à Beira-mar 91 Quadro 6.2 Transporte utilizado pelos turistas Ônibus % Carro 65,4 Outros 26,7 Total 7,9 Fonte: SETUR/CE, Pesquisa Direta fevereiro de 2005. 100,0 AGENTES DE PRODUÇÃO DO ESPAÇO EM JERICOACOARA Habitantes Locais significado do espaço como mercadoria nos remete à reflexão sobre as suas contradições, que não se dão necessariamente da mesma forma em diferen- tes lugares. Conforme Damiani (2001: 49): (...) um momento da compreensão das contradições do espaço, como agora se configuram, é 0 da resistência representada pelas formas de uso do espaço, consolidadas historicamente, contra- pondo-se à homogeneização e à generalização de materiais, desenhos, maneiras de viver impostas pela industrialização do espaço. A dimensão aqui aventada remete ao significado da pro- dução do espaço no processo reprodutivo. A comunidade local possui atualmente um Conselho Comunitário e já contou com uma Associação de Moradores e uma ONG, chamada SOS JERI (organização não-governamental que atuou principalmente em denúncias contra os problemas socioambientais no local, extinta desde 2002 aparente- com mente por desentendimentos internos entre os membros). A vila conta Brasil e moradores nativos e moradores provenientes de outros lugares do (em sua do exterior, entre os quais proprietários de pousadas e restaurantes maior parte localidades). Com desenvolvimento vindos de outras do turismo, a comunidade passou o local e a suas ter um práticas outro tipo de os outros e com atividades cotidianas relacionamento foram profundamente (de vida) com transformadas. animais Aos foram poucos, substituídas as pe- de las pesca, atividades agricultura decorrentes e criação do turismo; de pequenos por exemplo, poucas embarcações92 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta restam na vila e peixe consumido é, em grande parte, proveniente da nha Praia do Preá e do Município de Camocim. Em entrevista concedida vizi- jornal Diário do Nordeste (em 17/08/2003), relatando alguns dos principais ao problemas sociais presentes em Jericoacoara, educador social Nelson Go- mes Barbosa afirma: (...) a pesca praticamente desapareceu. Os pescadores e seus fi- lhos deixaram a rede e remo e passaram a ocupar outras atividades, quase sempre subempregos. Todas essas mudanças alteraram a vida dos nativos. Jericoacoara recebe gente do mundo todo, entretanto, turismo na localidade continua desordenado, que resulta em problemas para a comunidade nativa. Há nati- vos que acham que movimento de turistas é muito bom. Mas, há outros que preferiam a tranqüilidade dos velhos tempos. Tudo isso gera conflitos de identidade, porque ao mesmo tempo que chegou energia, água encanada e a própria televisão, a popula- ção perdeu a vida pacata, silêncio e a própria convivência familiar que unia os nativos. Trata-se, portanto, do que Knafou (1996: 64) define como "conflito de territorialidade", presente dualmente nos lugares turísticos: a territorialidade sedentária dos que aí vivem freqüentemente, e a territorialidade nômade dos que só passam, mas que não têm menos necessidade de se apropriar, mesmo fugidiamente, dos ter- ritórios que freqüentam. Os moradores se vêem ameaçados pela grilagem de terras (processo de fal- sificação de documentos) e pela especulação imobiliária. Boa parte dos moradores nativos que venderam suas terras aos donos de pousadas e restau- rantes deslocou-se para uma região mais afastada da vila, dando origem a uma área de ocupação conhecida como a "Nova Jeri", também formada por pessoas "invasoras", de muito baixa renda, que vinham de outras localidades próximas e construíam barracos para morar. A Prefeitura de Jijoca de Jericoacoara e o Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Lo- 978-85-7241-682-5 cal e Regional (SDLR), uniram esforços para a construção de moradias populares e promoveram a regularização fundiária na vila (no intuito de limi- tar a especulação imobiliária e as ocupações desordenadas), cuja última etapa deu-se em agosto de 2005 e privilegiava basicamente:Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 93 Figura 6.16 Duna em direção a casa de taipa. Foto: Antonio Jeovah Meireles, 2005. Que pelo menos um morador fosse residente em Jericoacoara há no mí- nimo 10 anos. Famílias mais carentes, com renda mensal de até dois salários mínimos. Que nenhum membro da família tenha sido beneficiado anteriormente por outros programas de habitação. Conforme depoimento de alguns moradores locais, alguns barracos foram construídos apenas para que a área fosse demarcada, visando à regularização das terras para futura venda, uma vez que os terrenos em Jericoacoara estão supervalorizados. Dessa forma, a "Nova Jeri" (localizada, inclusive, na rota de 978-85-7241-682-5 migração das dunas) conseguiu ser contida, juntamente com a expansão ur- bana irregular. Algumas residências presentes nesse local sofrem, porém, com 0 avanço das dunas, como ilustram as Figuras 6.16 e 6.17. Figura 6.17 - O avanço das dunas alcança limites da Vila de Jericoacoara. Foto: Antonio Jeovah Meireles, 2005.94 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta Mercado O lugar turístico é comercializado de forma capitalista e a apropriação pelo mercado ocorre, entre outras formas, com a introdução de elementos da cul- tura empresarial no mundo do turismo (Hiernaux-Nicolás, 1996). Cada vez mais a lógica do mercado e da mercadoria impõe-se à vida privada, inclusive no tempo do não-trabalho. Sobre essa questão, Martins (2001: 31-32) afirma que: Através da colonização insidiosa da vida privada, alcançada pe- 978-85-7241-682-5 los circuitos de valorização, as malhas do mercado se estendem justamente até esse tempo que não se encontrava diretamente inserido nas tramas reprodutivas do capital. O que implica alie- nação, pois coações de toda ordem cada vez mais pesam sobre a vida, privando-a de capacidade criadora, e, portanto, de possibi- lidades de apropriação pelo homem da sua natureza. Isso se verifica, cabalmente, por exemplo, no consumo do espaço pres- crito pela chamada indústria do turismo. Em Jericoacoara, que se presencia é um número considerável (devido ao pequeno tamanho da vila) de pousadas, restaurantes, bares, lanchonetes e algumas casas noturnas, responsáveis, entre outras coisas, pela poluição sonora no local⁴. São muitas as agências de viagens em Fortaleza que pro- movem destino turístico de Jericoacoara, oferecendo pacotes, em sua maioria de duas noites, incluindo transporte, hospedagem e alguns passeios de buggy pelas lagoas, dunas e pela vila vizinha, Nova Tatajuba. É grande número de bugueiros na vila, oferecendo-se para tais passeios, geralmente a preços altos, disponibilizando também, juntamente com do- nos de caminhonetes e moto-táxis, serviço de transporte até a sede do Município (comumente chamada de Jijoca). A vila possui cerca de cinco agências de viagens que, de forma mais orga- nizada, oferecem passeios de buggy e veículos off-road para localidades próximas ou mais distantes, como passeios que saem de Jericoacoara e vão até São Luís, no Maranhão, passando pelo Delta do Parnaíba (PI) e Lençóis Maranhenses (MA). ca, durante a madrugada. 4 É possível, em qualquer parte da vila, ouvir-se o som do forró ou da música eletrôni-Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 95 978-85-7241-682-5 comércio alguém informal ser abordado também é muito presente na vila. Durante sanatos caseiros, e à noite, no início bijuterias, arte- comum e petiscos/doces na praia por vendedores de dia, é (próximo à praia), diversas barracas concorrem entre da Rua Principal baixos. cimentos fixos na venda principalmente de bebidas si alcoólicas, e com os estabele- a preços Outra atividade que começa a ser explorada em Jericoacoara é portes náuticos, principalmente windsurfe praticados a dos es- maioria por estrangeiros e pessoas de alto poder aquisitivo, se tratarem em sua de atividades cujo aluguel dos equipamentos é, geralmente, por alto. Pela disposição e velocidade dos ventos, Jericoacoara é muito procura- da por adeptos desses esportes e já está sendo divulgada no exterior, em revistas especializadas, pelo proprietário do Clube dos Ventos, estabele- cimento que vende esse serviço (aluguel de equipamentos e cursos para principiantes) e possui, na vila, um espaço de convivência, com restaurante e lanchonete. É curioso notar também considerável número de massa- gistas na vila, tendo em vista a recomposição física dos esportistas ao final do dia. Surge, portanto, mais uma atividade em função da existência de outra. Atualmente, a oferta hoteleira de Jericoacoara é composta de 71 esta- belecimentos, 833 UH (apartamentos) e 2.373 leitos. Segundo pesquisa realizada em fevereiro de 2005⁶, a capacidade instalada, em termos de UH, apresentou a seguinte composição: hotéis (14,9%) e pousadas (85,1%) (Tabela 6.7). Em uma pesquisa realizada em 60 pontos de hospedagem⁷, incluindo campings e quartos avulsos, Nascimento (2001: 378) identificou que 85% dos meios de hospedagem não eram registrados pela Embratur⁸. 5 Esses dois esportes se utilizam de uma prancha parecida com a de surf, com o que uma os estrutura de suporte para os pés; windsurfé realizado à vela e o kitesurf com adeptos chamam de pipa, "papagaio" ou, simplesmente, asa. 6 Governo do Estado, 2005. 7 Em 2001 havia 39 em Jericoacoara, com 866 leitos, e em conforme 2005 esse Conselho número pousadas total de 71 estabelecimentos (porém, pousadas -, Comunitário, cresceu cerca de a vila 69,23%, apresenta em um atualmente um número maior cerca de 110 diferindo dos dados da Setur). 8 Instituto Brasileiro de Turismo, vinculado ao Ministério do Turismo.96 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta Tabela 6.7 Oferta hoteleira de Jericoacoara (2005) Estabelecimento Quantidade UH Leitos № % № % № % 978-85-7241-682-5 Hotéis 5 7,0 107 14,9 269 Pousadas 66 93,0 726 85,1 11,0 2.113 Total geral 71 100,0 833 100,0 89,0 2.373 100,0 Fonte: Setur/CE, Pesquisa Direta Fevereiro de 2005. No que diz respeito ao quadro de funcionários, é composto, em sua maio- ria, pelos proprietários e seus familiares, que não possuem capacitação profissional. A pesquisa detectou ainda que somente 30% dos meios de hos- pedagem pertencem aos nativos, em razão da grande maioria ter vendido ou sublocado seus estabelecimentos. Com efeito, são os estrangeiros e pessoas vindas de outras partes do Brasil que se estabelecem como donos dos me- lhores pontos de serviços de Jericoacoara. Turistas Jeri (como se referem os moradores e freqüentadores) foi citada internacio- nalmente pelo jornal americano The Washington Post, em 15 de março de 1987, em uma lista dos dez lugares mais belos do mundo, fato que despertou aumento considerável da procura pelos turistas (nacionais e estrangei- ros). Antes disso, a vila era visitada por um pequeno número de viajantes, em sua maioria hippies e "mochileiros", que buscavam no local a tranqüili- dade e um contato íntimo com a natureza, hospedando-se nas casas de pescadores. Dessa forma, pressupõe-se que público àquela época demonstrava um respeito maior à natureza e à cultura local. Nos dias de hoje, é notável a presença de turistas, de classe média/alta, com predominância do sexo masculino, que também buscam diversão e vida noturna, sexo e uso de drogas. Fonteles (2004: 86) identificou em Jericoacoara a presença de "turistas ecológicos e não ecoló- gicos, alternativos e de massa, de lazer e mesmo de eventos"⁹ e, em 1996, houve a Primeira Regata Verde de Canoas de Jericoacoara, com intuito de atrair tu- ristas na baixa temporada, promovida pelo Conselho Comunitário. 9 Porém, autor não define cada um desses segmentos.Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 97 A Vila de Jericoacoara é reconhecida internacionalmente e boa parte dos turistas estrangeiros chega por meio de vôos charters à capital, Fortaleza, que 978-85-7241-682-5 como dissemos anteriormente é o portão de entrada do turismo no Estado do Ceará. De Fortaleza, pode-se chegar à Jericoacoara de ônibus (aproximada- mente 7h de viagem), avião (desembarcando no aeroporto de Camocim uma cidade próxima e seguindo via terrestre até a vila) e há também passeios off- road, oferecidos por agências de turismo especializadas nesse tipo de viagem. A maioria dos turistas estrangeiros é proveniente da Holanda, da Itália e da Argentina e os nacionais são provenientes de São Paulo (principal pólo emissor de turistas no Brasil), Rio de Janeiro e Minas Gerais, conforme Tabelas 6.8 e 6.9. Tabela 6.8 Procedência dos turistas (2005) Países Geral (%) Brasil 66,1 Holanda 6,2 Itália 4,1 Argentina 3,1 Canadá 2,0 Israel 2,0 Inglaterra 1,8 Outros 14,7 Total 100,0 Fonte: Setur Pesquisa Direta Fevereiro de 2005. Tabela 6.9 Procedência dos turistas nacionais (2005) Estados Geral (%) São Paulo 29,6 Rio de Janeiro 10,7 Minas Gerais 10,7 Distrito Federal 8,5 7,2 Ceará Rio Grande do Sul 5,0 4,4 Piauí 3,8 Bahia 3,8 Pernambuco 16,3 Outros 100,0 Total Fonte: SETUR Pesquisa Direta Fevereiro de 2005.98 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta PLANEJADORES E PROMOTORES TERRITORIAIS (SETOR PÚBLICO) Com o turismo, espaços antes não-urbanizados (pequenas localidades, como Jericoacoara) começam a viver um intenso e abrupto processo de transfor- mação, decorrente de toda uma infra-estrutura urbana necessária ao fazer turístico e, nesse contexto, é lícito dizer que "a lógica do Estado completa a lógica da mercadoria, igualizando as desigualdades (...), impondo estruturas 978-85-7241-682-5 espaciais homogeneizantes, fragmentadoras e hierarquizantes" (Damiani, 2001: 51). No que diz respeito ao caráter espacial das intervenções do Estado, a autora afirma que a planificação espacial tem uma função organizadora na econo- mia, e a economia moderna cada vez mais toma forma espacial: os fluxos se generalizam. E domínio do espaço tende a torná-los eficientes, tentando anular as contradições. (Damiani, 2001: 56) Nos seus estudos sobre a geografia do turismo na região Nordeste do Bra- sil, Cruz (2000) analisa as políticas de turismo incidentes sobre esse território, como a Política de Megaprojetos e Prodetur-NE, que tecem efeitos tanto nas capitais dos Estados como também sobre pequenas localidades litorâneas e do interior da região. Em termos gerais, as políticas públicas de turismo devem criar as condi- ções para fomentar a atividade turística no país, por meio de parcerias e articulação com os diversos agentes, de modo a executar e avaliar programas e projetos voltados para setor. Prodetur-NE (Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste), lançado em 1991, é uma "política de urbanização" para o turismo, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID, que visa à criação de infra-estruturas necessárias à atividade. Nas palavras de Rodrigues (2001: 102): (...) fecunda é a busca da compreensão da ideologia subjacente que determina as diretrizes políticas, quase sempre elitistas, com tendência a favorecer a classe empresarial, em particular os megaprojetos sustentados por capitais transnacionais, por inter- médio dos agentes financeiros mundiais, tipo Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, além de outros.Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 99 978-85-7241-682-5 Programa ainda encontra-se à atualmente em sua segunda etapa (Prodetur submetido aprovação do Banco do através da II), PDITS (Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável), análise do se trata basicamente de um plano elaborado com a finalidade de que diagnosticar o Prodetur I e apontar as ações para Prodetur II, que inclui, avaliar/ Ceará, todos os municípios do Litoral Oeste e também Município de Aquiraz no (onde se localiza a Praia de Canoa Quebrada). O Prodetur II é basicamente um programa que deverá complementar e corrigir eventuais falhas da primeira fase (Prodetur I) e apresenta um forte discurso enfocando a sustentabilidade socioambiental como premissa básica. Em termos gerais, 0 Prodetur I teve destaque, no Ceará, principalmente pela construção da Rodovia Costa do Sol Poente (que visa ao acesso a algu- mas praias do Litoral Oeste) e obras de saneamento e requalificação urbana em alguns municípios de interesse turístico. A Rodovia Costa do Sol Poente, mesmo não tendo alcançado Município de Jijoca de Jericoacoara, facilitou deslocamento mais rápido até ele e, des- sa forma, teve algum impacto sobre local. Conforme depoimento de Roberto Meira Barreto¹¹ Prodetur II irá contemplar algumas obras de infra-estrutura ainda absolutamente necessárias para dar salto de qualidade que turismo precisa. Cito Centro Multifuncional de Feiras, o Aeroporto em Parazinho (distrito de Granja, entre este e Jijoca de Jericoacoara) e algumas outras obras estruturantes. Mas a gran- de vertente do Prodetur II, complemento do Prodetur I, será a capacitação nos municípios impactantes, a restauração e a con- servação do nosso patrimônio histórico e cultural, término das obras de saneamento e de preservação do meio ambiente (...) pre- cisamos dar uma arrumada na Cidade de Fortaleza que éo de grande algu- portão de entrada e começar a trabalhar a qualificação mas âncoras como Jericoacoara e Canoa Quebrada. A requalificação urbana da Vila de Jericoacoara encontra-se concluída e Maranhão em sua maior parte e representantes dos governos do Ceará, Piauí nador 10 11 de Turismo junho Prodetur II tem como mutuário do programa do o Estado Banco do do Nordeste Ceará (Setur). e como de coorde- 2003. Titular e executor da Setur, estadual em entrevista a Secretaria ao jornal Diário do Nordeste no dia 8 de100 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta discutem a criação de um corredor turístico abrangendo os três Estados, inte- grando os destinos de Jericoacoara, Delta do Parnaíba e Lençóis por meio do Prodetur II, em parceria com empresários do ramo de empreendi- mentos turísticos (principalmente investidores italianos), com Banco no Nordeste e com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Além disso, segundo notícia do jornal Diário do Nordeste (de 10/03/ 2005), a Embratur, por meio do projeto Caravana Brasil, está desenvolvendo a promoção turística de Jericoacoara (entre outros destinos), promovendo a ida de dez operadoras brasileiras para conhecerem de perto os atrativos turísticos cearenses, visando ao aumento do fluxo de turistas, principalmente estrangeiros. TURISMO E PRODUÇÃO DO ESPAÇO EM JERICOACOARA Com crescimento acelerado do turismo em Jericoacoara nos últimos anos, a vila passou por significativas transformações nos aspectos físico e huma- no. Estradas de acesso foram construídas e há um projeto para a criação de um aeroporto nas proximidades, além de também ter ocorrido a ampliação da infra-estrutura urbana, por exemplo, rede de abastecimento de água e de energia (com fiação subterrânea e ausência de postes de luz nas ruas, por exigência da comunidade local). As mudanças mais significativas talvez se- jam as construções de hotéis, pousadas, restaurantes e outras infra-estruturas necessárias para receber os turistas. Como já dissemos anteriormente, hou- ve, também, um processo de ocupação desordenada nas margens da vila e a inserção de novas relações de trabalho no local, intensificadas pelo incre- mento da atividade turística, que impulsionou a circulação tanto de pessoas e mercadorias quanto de idéias, valores e informações. A produção espacial em Jericoacoara em função do uso turístico está di- retamente relacionada aos interesses privados e à especulação imobiliária e também ao fato de que: (...) crescimento do capitalismo acaba exigindo uma economia política do e espaço, caracterizada pela produção do espaço [alia- da à questão sobre a qual] as relações de produção capitalistas dominam espaço e se apropriam dele, passando a produzi-lo e a transformá-lo através do sentido do urbano. (Santana, 2001, p. 182) No ano de 1999, com intuito de incrementar turismo no Estado, governo cearense elaborou Plano Diretor de Diretrizes Urbanas (PDDU) de Jeri-Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 101 coacoara, Urbana sendo da um Vila dos de desdobramentos desse plano o Projeto de lificação e de turismo, um Jericoacoara. que previa a construção de Requa- cultural mercado público, creche, oficina de um centro tro esportivo, posto de saúde, posto policial, parque do cemitério, artesanato, cen- serviços de terraplenagem, urbanização, pavimentação, paisagismo, quiosques e ção de vias, estacionamento, além também de dar início à licitação sinaliza- plantação do sistema de esgoto sanitário de Jericoacoara¹² Tais para a im- a melhorias infra-estruturais, mas podem acarretar consideráveis medidas visam socioambientais, alguns noticiados tanto pela imprensa como também impactos extinta ONG "SOS JERI"¹³ que surgiu como reação à ações impactantes reali- pela zadas na vila, como a derrubada de coqueiros para a terraplenagem. lugar também passou por um estado de tensão e intensa mobilização do Conselho Comunitário em 2001, quando houve a liberação da construção de novos hotéis e pousadas (proibidas desde 1992) e a alteração do limite vertical das construções de um pavimento (4m) para dois pavimentos (7,5m) (Brasil, 2001). Além disso, governo cearense sinaliza a realização de diver- sas obras e medidas estruturantes que permitam que Jericoacoara receba um maior fluxo turístico, com destaque para 0 possível asfaltamento do acesso até a sede do Município de Jijoca de Jericoacoara e a construção de um aero- porto regional (ainda não realizados). Em áreas naturais de difícil acesso (ou 978-85-7241-682-5 com um acesso controlado), lembra Boullón: uma vez 978-85-7241-682-5 que se melhorem ou se construam estradas e aeroportos e se esta- beleçam meios de transporte turístico, corre-se risco de que qualquer um desses lugares (...) sofra impacto negativo de uma exploração irracional. (Boullón, 2002: 237) Além de melhorias nas vias de circulação, a construção do Aeroporto de Parazinho, distante cerca de 37km da sede do Município de Jijoca de Jeri- provavelmente contribuirá para intensificar o número de turistas. Essa medida contraria ambientalistas e parte da população, por tratar-se de uma área que apresenta frágeis ecossistemas litorâneos, "mais suscetíveis à degradação, apesar de terem sido, num primeiro momento, recursos básicos para a captação dos projetos turísticos" (Rodrigues, 2001: 95). 12 Informação oficial do Governo do Estado, datada de 27/02/2002, disponível em www.ceara.gov.br. Disponível em: Acesso em 25/01/2004. 13102 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta Trata-se de mais uma das contradições da atividade turística na qual, ao mesmo tempo em que se dinamiza a economia, um considerável número de impactos negativos de outras naturezas se impõe aos lugares dos quais se apropria. que está em curso é a expansão desenfreada do capital, que dissolve relações de produção, transformando-as ao desenvolvê-las subordinadamente às suas tramas reprodutivas, inscrevendo-lhes novos conteúdos e sentidos [e impondo] seu domínio às fontes 978-85-7241-682-5 originais de riqueza, que inclui, além do trabalho, a natureza. (Martins, 2001: 23-24) Estudo realizado por Matias e Silva (2001: 28), com apoio do IBAMA, atenta para fato de que acesso indiscriminado de automóveis a todas as regiões da APA de Jericoacoara contribui também para a degradação do solo e da vegetação, devendo trânsito ter um ordenamento compatí- vel com a capacidade de suporte do ambiente e as necessidades econômicas da APA. Além da preocupação com a perda da qualidade paisagística e dese- quilíbrios ecológicos, a questão da qualidade de vida da população e da preservação da cultura local são também fatores preocupantes assinalados pelos que apresentam resistência ao progresso do turismo na região e con- trários ao turismo de massa. Por outro lado, uma boa parte dos habitantes é adepta do desenvolvimento do turismo, cabendo ressaltar que: (...) a possibilidade da população local obter autonomia econômica com a atividade turística impõe a constatação de que a idéia de um neo-colonialismo não se sustenta. Por outro lado, aqueles que se põem em defesa da preservação das comunidades locais, tradicionais, in- cluindo aí a manutenção de uma economia de subsistência, arcaica, incorrem, mais do que os primeiros, em uma concepção colonialista de distanciamento e exclusão dos grupos tradicionais. (Luchiari, 1998: 20) Projeto de Requalificação Urbana da Vila de Jericoacoara começou a ser executado em abril de 2002, com licença para construção emitida pela Superintendência Estadual do IBAMA, com sede no Ceará. Tem por empre-Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 103 978-85-7241-682-5 endedor a Secretaria denominada de Infra-Estrutura (SEINFRA) do Estado e por executora a empresa Fujita Engenharia Ltda. Logo após foi início das obras em Jericoacoara e por pressão do Comunitário, realizada uma vistoria nas construções do Projeto Conselho 3 e 4 de julho de 2002). Naquele momento, algumas obras ainda não (nos dias sido iniciadas, como o Centro Esportivo, Centro de Cultura e Turismo tinham Parque do Cemitério; os outros equipamentos estavam sendo implantados e de forma simultânea e que se podia presenciar era a vila sendo transformada em um verdadeiro canteiro de obras. As irregularidades verificadas nessa vistoria deram subsídios para a ela- boração de um pedido oficial ao Ministério Público Federal para que se pronunciasse a respeito das intervenções no local, realizadas sem ter sido elaborado um estudo de impacto ambiental, além da obtenção de licença para construção emitida pelo IBAMA, que juridicamente não seria órgão competente para emiti-la. Ministério Público Federal decidiu, então, pela paralisação e embargo das obras, mas em razão da elaboração posterior de um estudo de impacto ambiental, deu-se continuidade a elas no início de 2004 (Figs. 6.18 e 6.19). Em 6 de janeiro de 2005, o Governo do Estado do Ceará informou esta- rem prontas as obras de requalificação urbana da Vila de Jericoacoara. Representaram um investimento de 7.896.210,37, recursos referentes à compra dos terrenos e realização das "benfeitorias" aos habitantes. Foram concretizadas as construções do mercado público com 230m² de área divi- didos em 12 boxes; da creche com 340m² de área, com capacidade para 50 VENDO AREA Figura 6.18 Aspecto bucólico de uma rua na vila (detalhe para ani- mais na rua e placa indicando venda de terreno). Foto: Fabio S. Molina, 2005.104 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta Figura 6.19 Mercado Público e Centro de Artesanato (obras inau- guradas, porém não se encontram em funcionamento). Foto: Fabio S. Molina, 2005. crianças; da oficina de artesanato com 650m² de área (duas salas de aula, uma oficina, uma sala de exposição, dois banheiros e duas lanchonetes); do posto de saúde com 350m² de área construída; do estacionamento para 256 vagas; do posto policial com 105m² de área construída; urbanização e passeios de contorno das vias com 4.100m²; e demarcação da poligonal de contorno da vila (piquetes) com 2.150m. Resta, ainda, a implementação da rede de esgoto sanitário (Figs. 6.20 e 6.21). CONSIDERAÇÕES GERAIS A produção do espaço em Jericoacoara teve como marco histórico a criação da APA (1984), pois foi por meio dela que se deu início de um turismo mais intenso. A divulgação internacional da vila, realizada em 1987 pelo jornal americano The Washington Post, intensificou ainda mais turismo no local (fatos temporalmente seqüenciais, sugerindo a íntima relação entre eles). Jericoacoara é produzida sob um discurso ecológico e social e inserida na lógica do mercado, que revela uma contradição, intrinsecamente relacio- nada ao consumo da natureza e sua valorização, remetendo-nos à idéia de que"o espaço onde é possível encontrar a "paisagem natural intocada" é trans- formado para ganhar outro uso e ser consumido como sendo extensão do urbano" (Santana, 2001: 179). 978-85-7241-682-5 A prática social do turismo acaba por (re)criar urbano em locais inicial- mente escolhidos por não serem e, no que diz respeito ao Estado do Ceará, este está sendo cada vez mais reconfigurado para inserir-se no contexto deLitoral Ócio e Negócio à Beira-mar 105 Figura 6.20 Piquetes de demar- cação da vila. Foto: Fabio S. Molina, 2005. Figura 6.21 Calçamento (obra embargada). Foto: Fabio 978-85-7241-682-5 S. Molina, 2005. um mercado global, com a implantação de infra-estruturas que respondam a demandas específicas desse mercado, sobretudo demandas turísticas. Nos últimos anos, que se pôde verificar em Jericoacoara foi uma série de ações (por parte das iniciativas públicas e privadas, nos mais diferentes níveis escalares) responsáveis pela introdução de um novo sistema de objetos, materializado no espaço. Mesmo sendo uma APA, desde 1984, e atualmente cercada por um Parque Nacional (desde 2002), a Vila de Jericoacoara não está imune a impactos socioambientais, uma vez que os diversos agentes sociais continuam intervindo no território, com o intuito de criar as condições ne- cessárias para desenvolvimento do turismo, além da falta de aplicação dos mecanismos de ordenamento do uso desse território. Como Unidade de Con- servação, Parque Nacional de Jericoacoara necessita de instrumentos elabora- (como exemplo, um plano de manejo, ainda inexistente, mas em vias de106 Lugares e Regiões: do Plano das Possibilidades à Realidade Concreta ção) que orientem a ocupação racional do espaço físico reservado às mo- radias, ao lazer e a seu suprimento¹⁴. A participação do Conselho Comunitário, juntamente com boa parte dos habitantes de Jericoacoara, foi muito significativa na produção do espaço local, atuando basicamente como uma forma de contra-racionalidade às determinações hegemônicas. Conforme Milton Santos (2002: 19): A tendência atual é que os lugares se unam verticalmente e tudo é 978-85-7241-682-5 feito para isso, em toda parte. Créditos internacionais são postos à disposição dos países mais pobres para permitir que as redes se es- tabeleçam ao serviço do grande capital. Mas os lugares também se podem unir horizontalmente, reconstruindo aquela base de vida comum susceptível de criar normas locais, normas regionais. Com turismo, "os 'bens naturais' tornados 'novas raridades' são objetos de uso corrente e a condição de ser raro atribui a eles valor de troca, por con- seguinte, são passíveis de serem convertidos em mercadoria" (Santana, 2001: 179). Segundo Smith (1988: 94): A produção capitalista (e a apropriação da natureza) é acompa- nhada não pela satisfação das necessidades em geral, mas pela satisfação de uma necessidade em particular: lucro. Na busca do lucro, capital corre mundo inteiro. Ele coloca uma etiqueta de preço em qualquer coisa que ele vê, e a partir desta etiqueta de preço é que determina destino da natureza. Contraditoriamente ao que se pode presenciar na prática, há um discur- so ambiental e socialmente sustentável por parte dos agentes planejadores e promotores territoriais do espaço de Jericoacoara que está sendo produzido e inserido no contexto de um turismo massificado (opondo-se à forma de turismo dito alternativo e ecológico, praticada no passado). Em função da atividade turística, intensificou-se a circulação na vila, em seu sentido amplo. À medida que isso ocorreu, ampliou-se a tendência à es- pecialização produtiva do lugar e, com isso, a (des)valorização de certas parcelas do território, uma vez que 14 Jornal Diário do Nordeste, Opinião, 12 de fevereiro de 2004, p. 2.Litoral Ócio e Negócio à Beira-mar 107 978-85-7241-682-5 dade os lugares aos se distinguiriam pela capacidade de oferecer virtude das investimentos. Essa rentabilidade é maior rentabili- condições locais de ordem técnica (equipamentos, ou menor, em relações trabalhistas, tradição laboral). estrutura, acessibilidade) e organizacional (leis locais, impostos, infra- (Santos, 2002: 247-248) Dessa forma, a fluidez territorial tem um papel significativo nesse de especialização dos lugares e a criação de fluxos sempre se faz necessária, processo pois: Como se produzem, cada vez mais, valores de troca, a especializa- ção não tarda a ser seguida pela necessidade de mais circulação. O papel desta, na transformação da produção e do espaço, torna-se fundamental. Uma de suas conseqüências é, exatamente, aprofundamento das especializações produtivas, tendentes a con- vocar, outra vez, mais circulação. Esse círculo vicioso ou virtuoso? depende da fluidez das redes e da flexibilidade dos regulamentos. (Santos 2002: 241) No que diz respeito ao Estado, este vem legitimando as ações executadas no intuito de se criarem as condições para desenvolvimento do turismo e para a reprodução do capital, "atuando na implementação da infra-estrutura básica, como transportes, energia, comunicações, fornecimento de água e sa- neamento agindo também "na oferta de subsídios e incentivos fiscais aos projetos, nos três níveis de atuação: federal, estadual e municipal" (Rodrigues, 2001: 103). Isso pode ser exemplificado pela recente criação de uma lei municipal de Jijoca de Jericoacoara que isenta do pagamento de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), por um período de dez anos, as pousadas e ge- de médio e grande porte, com mais de 25 apartamentos, privilegiando rando incentivos aos grandes empresários. Na história do a dinamicidade e a rapidez seletivo ganham do peso ponto e de ao mesmo presente, capital circula livremente ele é lógica do capi- vista espacial. tempo Como em que reflexo o das determinações impostas pela apresenta-se talismo, turismo também possui caráter seletivo e Jericoacoara como mais um entre os lugares escolhidos.

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