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Processos Psicológicos I Memória Profª: Ana Mello 1/2025 Cena do filme: Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança Sensação: é o processo pelo qual os nossos órgãos dos sentidos detectam estímulos do ambiente. É a etapa inicial da percepção, representando a resposta direta e imediata dos nossos sentidos a esses estímulos. Percepção: é o processo mental de separar, identificar e organizar informações que formem padrões dotados de significado. Atenção: é o filtro ativo que determina onde nosso foco está direcionado entre várias informações disponíveis. Memória: é como um processo, refere-se aos mecanismos dinâmicos associados ao armazenamento, retenção e recuperação de informações sobre experiências passadas. A memória envolve três operações principais: • Codificação: É o processo de transformar informações sensoriais em representações mentais. • Armazenamento: Refere-se à retenção das informações ao longo do tempo. • Recuperação: É a capacidade de acessar informações armazenadas quando necessário. No livro Introdução à Psicologia, de Charles G. Morris e Albert A. Maisto, o conceito de registros sensoriais é discutido no contexto dos sistemas de memória, especialmente como parte da memória sensorial. Essa forma de memória é essencial para capturar informações sensoriais momentâneas do ambiente, funcionando como a primeira etapa no processamento da memória. 1. Registros Sensoriais Os registros sensoriais são sistemas de armazenamento que mantêm brevemente as informações que chegam dos sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar) antes que sejam transferidas para outras formas de processamento. Essas informações são retidas por um período muito curto (geralmente menos de um segundo), mas o tempo é suficiente para decidir se o estímulo será ignorado ou processado de forma mais profunda. 2. Atenção e Memória Se a informação desaparece tão rapidamente de nossos registros sensoriais, como somos capazes de nos lembrar de qualquer coisa por mais de um ou dois segundos? Nós selecionamos por meio da atenção parte das informações para futuro processamento. A atenção é um pré-requisito para a formação de memórias. Sem atenção adequada, as informações não são processadas suficientemente para serem armazenadas na memória de curto ou longo prazo. Quando prestamos atenção a um estímulo, isso facilita sua codificação, tornando mais fácil lembrar posteriormente. A Atenção é o processo de olhar, ouvir, cheirar, saborear, sentir, de maneira seletiva. Ao mesmo tempo que selecionamos as informações atribuímos significados a elas. Assim processamos as informações dos registros sensoriais de significado. 3. Memória de Curto Prazo (MCP) A memória de curto prazo (MCP) desempenha um papel crucial na retenção temporária de informações que estamos atualmente processando ou usando. A memória de curto prazo refere-se à capacidade de armazenar, manter e administrar uma quantidade limitada de informações por um período breve, sem a prática de estratégias mnemônicas (técnica de memorização). A MCP também é chamada de memória de trabalho por causa do componente ativo e/ou administrativo desse sistema de memória. Essa forma de memória é frequentemente associada à capacidade de processamento ativo, permitindo que os indivíduos manipulem e utilizem informações para tarefas imediatas. • Características da Memória de Curto Prazo • Capacidade Limitada: A memória de curto prazo possui uma capacidade restrita. • Duração Breve: As informações na memória de curto prazo não permanecem por muito tempo. Sem a repetição ou o uso ativo, elas podem ser facilmente esquecidas em questão de segundos. • Codificação: A informação na memória de curto prazo é frequentemente codificada auditivamente, mesmo que a entrada inicial seja visual. Por exemplo, quando você tenta lembrar um número de telefone, você pode repetir o número em voz alta em sua mente. • Interferência: A nova informação pode interferir na retenção da informação anterior. Isso significa que, ao receber novas informações, a memória de curto prazo pode substituir ou apagar o que já estava armazenado, levando ao esquecimento. 4. Memória de Longo Prazo (MLP) A memória de longo prazo (MLP) é apresentada como uma das partes essenciais do sistema de memória, responsável por armazenar informações por períodos extensos, que podem variar de minutos a uma vida inteira. Qual lembrança você nunca se esqueceu? A maior parte das informações da MLP são codificadas com base no significado. Geralmente nos lembramos do significado mas não das palavras. Ex: Você me pediu para ligar pela manhã para duas pessoas, mas não me lembro os nomes. A mensagem: ligue pela manhã para Roberto e Joana. Se o conteúdo for conhecido e familiar é capaz do registro da MLP ser literal, palavra por palavra, mas de um modo geral não utilizamos o armazenamento literal da MLP. A sequência do processamento da informação em oito passos: 1. Estimulação: A informação bruta dos estímulos externos é captada pelos sentidos e direcionada para os registros sensoriais. 2. Registro sensorial: As informações são armazenadas temporariamente sob a forma de "ícone" ou "eco". Os registros sensoriais têm alta capacidade, mas mantêm as informações por um período muito breve. 3. Atenção: A atenção direciona a saída das informações relevantes dos registros sensoriais e as transfere para a memória de curto prazo. 4. Memória de curto prazo: Também chamada de memória de trabalho, essa memória retém informações das quais estamos conscientes no momento, permitindo seu uso em processos futuros. 5. Repetição na memória de curto prazo: A repetição ajuda a manter a informação ativa na memória de curto prazo, evitando que ela se deteriore rapidamente. 6. Codificação para a memória de longo prazo: Informações processadas ativamente na memória de curto prazo são codificadas e transferidas para a memória de longo prazo para armazenamento. 7. Memória de longo prazo: As informações armazenadas na memória de longo prazo tornam-se relativamente permanentes e constituem o que "sabemos". 8. Recuperação: A informação recuperada da memória de longo prazo é transferida novamente para a memória de curto prazo, para ser utilizada quando necessário. 5. Efeito de posição serial O efeito de posição serial é um conceito que se refere à tendência das pessoas lembrarem mais facilmente os itens apresentados no início e no final de uma lista, em comparação com aqueles que aparecem no meio. Esse fenômeno foi investigado por Hermann Ebbinghaus, um dos pioneiros nos estudos da memória. O efeito é dividido em duas partes: • Efeito de Primazia 1. Refere-se à tendência de lembrar mais facilmente dos primeiros itens de uma lista. 2. Esse fenômeno ocorre porque os primeiros itens recebem mais atenção e têm maior chance de serem armazenados na memória de longo prazo por meio da repetição ou elaboração mental. • Efeito de Recência (a qualidade do que é recente) 1. Indica que as pessoas se recordam melhor dos últimos itens apresentados. 2. A explicação para isso é que esses itens ainda estão ativos na memória de curto prazo no momento da recordação, especialmente se o teste de memória for feito logo após a apresentação da lista. Por que esquecemos os itens do meio? Os itens apresentados no meio da lista geralmente são mais difíceis de lembrar, porque: eles não têm tempo suficiente para entrar na memória de longo prazo (como ocorre com os primeiros itens) e também saem rapidamente da memória de curto prazo (diferente dos últimos itens). Exemplo do Efeito de Posição Serial Imagine que você precisa memorizar esta lista de palavras: casa, livro, telefone, sol, cadeira, cachorro, carro, pão, planta, copo. É provável que você lembre mais facilmente de "casa" e "livro" (efeito de primazia) e também de "planta" e "copo" (efeito de recência), enquanto pode ter dificuldade em recordar palavras como "sol", "cadeira" ou "cachorro" que estão no meio da lista. 6. Três formas de reter informações na MLP 1. Repetição Mecânica:Consiste em repetir uma informação várias vezes, de forma literal e sem alterar o conteúdo. O objetivo é manter os dados ativos na memória até que sejam eventualmente transferidos para a memória de longo prazo. Exemplo: repetir uma fórmula matemática várias vezes até memorizá-la. Limitações: embora seja útil para lembrar fatos ou informações simples, a repetição mecânica não favorece o entendimento profundo ou a criação de conexões significativas, o que pode dificultar a retenção a longo prazo. 2. Repetição Elaborativa: Envolve um processamento mais profundo das informações, conectando-as a conhecimentos já existentes ou buscando significados adicionais. A repetição elaborativa facilita a retenção, pois cria associações ricas entre o novo conteúdo e o que já está armazenado na memória de longo prazo. Exemplo: ao estudar um conceito, você o relaciona com situações cotidianas ou o compara a algo que já conhece. Vantagens: esse tipo de repetição é mais eficaz para garantir que a informação seja consolidada e acessada com facilidade no futuro. 3. Esquemas: são estruturas mentais organizadas que ajudam a organizar e interpretar informações. Eles funcionam como moldes que influenciam a maneira como percebemos e armazenamos novos dados, com base em conhecimentos e experiências prévias. Como um roteiro escrito por experiências passadas. Exemplo: se você possui um esquema mental sobre como é uma festa de casamento, será mais fácil lembrar-se de detalhes específicos de uma festa, como a presença de um bolo, música, traje indicado, lista de presente, ritual, porque esses elementos já fazem parte do seu esquema. Vantagens: esquemas ajudam na organização e recuperação eficiente das informações, pois fornecem um contexto que facilita o entendimento de novos conteúdos. No entanto, também podem levar a falsas memórias, caso algo não coerente com o esquema seja ignorado ou distorcido. 7. Tipos de MLP 1. Memórias Episódicas: São lembranças de acontecimentos presenciados em um momento e lugares específicos. São memórias pessoais. Semelhante a um diário. Eventos específicos da vida pessoal. 2. Memória Semântica: Relacionada a conhecimentos gerais, fatos, conceitos. Semelhante a uma enciclopédia. 3. Memória de Procedimentos: Relacionada a habilidades motoras e hábitos. Não são memórias sobre hábitos e habilidades, mas os próprios hábitos e habilidades, como dirigir, andar de bicicleta, escrever, ler, pentear o cabelo. 4. Memórias emocionais: são respostas emocionais aprendidas em relação a diversos estímulos: sentimentos de amor e ódio, medos, repulsa, ansiedade, alegrias. 8. Memória Explícita e Memória Implícita A memória explícita e a memória implícita são dois tipos principais de memória de longo prazo, que diferem na forma como as informações são armazenadas e recuperadas. Ambas são fundamentais para o nosso aprendizado e comportamento cotidiano, mas envolvem processos distintos. • Memória Explícita: Refere-se às memórias que podemos conscientemente recuperar e verbalizar. Envolve fatos, conceitos e experiências que temos plena consciência de saber. Esse tipo de memória é frequentemente testado em situações de aprendizado formal (como provas) ou em conversas cotidianas sobre o passado. • Memória Implícita: Envolve habilidades e informações que são recuperadas inconscientemente, sem necessidade de esforço consciente. É utilizada em comportamentos automáticos, como habilidades motoras e condicionamentos, que podemos executar sem pensar ativamente neles. Ambas operam simultaneamente, colaborando para nossa aprendizagem e adaptação às experiências diárias. Quando nos lembramos de uma ocasião em que fomos no restaurante japonês, não apenas nos recordamos do evento (memória episódica), mas do tipo de comida servida (memória semântica), das habilidades de lidar com os hashis/pauzinhos (memória de procedimento) e do constrangimento de não saber usá-los (memória emocional). 9. Como as memórias são formadas e armazenadas São formadas por alterações nas conexões sinápticas existentes entre os neurônios. Tudo o que se aprende é gravado no cérebro em conectividade com os neurônios. Quando aprendemos coisas novas, novas conexões são formadas. Quando recapitulamos ou praticamos coisas que já aprendemos, as antigas conexões são reforçadas. Embora a aprendizagem ocorra de modo mais rápido, a consolidação das memórias é mais lenta. As memórias são armazenadas em várias regiões do cérebro, dependendo do tipo de memória e da função que ela desempenha. Diferentes áreas e circuitos neurais são responsáveis por diferentes aspectos das memórias: • Hipocampo: é essencial para a formação e o armazenamento inicial das memórias declarativas (ou explícitas), como fatos e eventos. • Córtex cerebral: é responsável pelo armazenamento das memórias de longo prazo, onde cada tipo de informação é distribuído em áreas específicas. O córtex pré-frontal também está envolvido em memórias de trabalho (ou memória de curto prazo) e na organização e recuperação de memórias mais complexas. • Amígdala: está envolvida na formação e armazenamento das memórias emocionais. Ela atribui valor emocional às memórias, especialmente aquelas que envolvem emoções intensas, como medo ou alegria. • Cerebelo: O cerebelo está relacionado ao armazenamento das memórias procedimentais, ou memórias implícitas, como habilidades motoras e aprendizados automáticos. Habilidades como andar de bicicleta ou tocar um instrumento musical são armazenadas nesta área. • Estriado: O estriado, localizado nos núcleos da base, também é responsável por tipos de memórias implícitas e de hábito. Ele ajuda na formação de padrões de comportamento repetitivos, como andar ou realizar uma tarefa sem muita concentração. Essas regiões trabalham em conjunto, formando redes que são ativadas e coordenadas para consolidar, armazenar e recuperar memórias. 10. Esquecimento: Por que as vezes esquecemos das coisas? O esquecimento ocorre através de diversos mecanismos que afetam a forma como o cérebro armazena, retém e recupera informações. Alguns dos principais conceitos: • Decadência da memória: A memória se enfraquece com o tempo, especialmente se não for utilizada. Este processo é entendido como um tipo de deterioração das conexões sinápticas entre os neurônios. Quando uma memória é formada, as sinapses são fortalecidas, mas, sem estímulo, essas conexões enfraquecem gradualmente, levando ao esquecimento. • Falhas na consolidação e interferência: Ocorre no hipocampo. Quando a consolidação é interrompida (por fatores como o estresse, sono insuficiente ou até uma interferência significativa), as memórias podem não ser totalmente armazenadas. Cada vez que uma memória é recuperada, ela passa por um processo chamado reconsolidação, no qual a memória é "atualizada" e armazenada novamente. Durante a reconsolidação, é possível que a memória seja alterada ou, em alguns casos, enfraquecida, levando a um esquecimento parcial ou modificação da lembrança original. • Esquecimento por recuperação inadequada: a informação está armazenada na memória, mas a pessoa tem dificuldade para acessá-la. Isso pode ocorrer devido a pistas ineficazes de recuperação ou ao contexto diferente entre o momento da codificação e o da recuperação, o que prejudica o acesso à memória armazenada. • Supressão e repressão: Fatores emocionais também desempenham um papel importante no esquecimento. As vezes, o esquecimento é motivado, o que significa que a pessoa pode inconscientemente ou conscientemente esquecer memórias dolorosas ou perturbadoras. Esse fenômeno é conhecido como repressão (inconsciente) ou supressão (consciente), ambos mecanismos que envolvem a biologia do cérebro ao utilizar recursos como a amígdala e o córtex pré-frontal para evitar que lembranças desagradáveis cheguem à consciência. • Papel das emoções e estresse: O estresse e as emoções intensas afetam o armazenamento e a recuperação das memórias. Altos níveis de cortisol (hormônio do estresse), por exemplo, podem prejudicar a capacidadedo hipocampo de consolidar novas memórias, enquanto a amígdala pode fazer com que memórias emocionalmente intensas fiquem mais fortes e resistentes ao esquecimento. • Lesões e suas consequências na memória: Lesões em regiões específicas do cérebro podem levar a diferentes formas de amnésia e comprometimento da memória. Exemplos: • Lesões no hipocampo - podem levar à amnésia anterógrada, uma condição na qual a pessoa não consegue formar novas memórias, mas ainda consegue acessar memórias antigas. É um tipo de esquecimento que afeta a memória de eventos após a lesão; • Lesões no córtex pré-frontal - podem causar dificuldades na memória de trabalho e na organização e recuperação de memórias complexas, afetando o planejamento e a execução de tarefas que dependem de informações passadas; • Lesões na amígdala - podem impactar a capacidade de armazenar memórias emocionais e, por vezes, deixar a pessoa mais "indiferente" a memórias que anteriormente eram emocionalmente carregadas. • Lesões no lobo temporal - está envolvido na memória de longo prazo e na capacidade de lembrar informações semânticas. Lesões podem causar amnésia retroativa, na qual a pessoa esquece eventos que ocorreram antes da lesão. • Neuroplasticidade e recuperação: Apesar das consequências negativas, o cérebro possui uma capacidade de adaptação chamada neuroplasticidade. Em alguns casos, áreas cerebrais adjacentes ou outras regiões podem, em parte, compensar as funções de áreas lesionadas, promovendo a recuperação da memória. Esse processo de recuperação depende da gravidade da lesão, da idade da pessoa e do tipo de memória afetada. • Doenças e degeneração: Além de lesões traumáticas, doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, também afetam a memória e levam ao esquecimento progressivo. Essas doenças causam danos cerebrais lentos e contínuos que prejudicam a capacidade do cérebro de consolidar novas memórias e recuperar as antigas. Em resumo, as lesões cerebrais podem afetar profundamente o funcionamento da memória e o processo de esquecimento, resultando em condições como amnésia, dificuldade de recuperação de informações e, em alguns casos, perda permanente de memórias. O cérebro, contudo, pode se adaptar de forma limitada a essas lesões, graças à neuroplasticidade, ainda que a recuperação completa nem sempre seja possível. Embora o esquecimento possa ser interpretado como uma falha, ele é necessário para que o sistema de memórias mantenha-se funcional e adaptável. O esquecimento é um processo ativo, onde tanto fatores internos (como os biológicos e emocionais) quanto externos (como o contexto e o ambiente) influenciam o modo como as memórias são armazenadas, mantidas ou esquecidas. Referências de apoio: MORRIS, C. G.; MAISTO, A. A. Memória. In: Introdução à psicologia. Tradução Ludmilla Lima, Marina S. D. Baptista. 6. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2004.