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Noelle Tavares Ferreira (11911PSI055) O liberalismo foi uma corrente filosófica e política que visava a liberdade das pessoas, preservando seus espaços de privacidade e autonomia, que seriam respaldados pelo Estado, que não deveria interferir em suas relações e direitos apenas regulá-las a fim de se manter a ordem de seus direitos. Assim, era necessário separar o Estado em três poderes (executivo, legislativo e judiciário), além de distribuí los regionalmente, visando sempre respeitar as diferentes culturas. Consequentemente, este novo modo de vida corroborou na construção do sujeito individual e em uma sociedade atomizada, que segundo Hannah Arendt, é uma que sociedade um processo de desfragmentação e se divide em camadas, consequentemente sofrendo um processo de individualização. Ocorrendo ao mesmo tempo, tinha-se a corrente do Romantismo que valorizava o sentimento e experiência subjetiva (individualismo egocêntrico) dos indivíduos em detrimento do racionalismo exacerbado do iluminismo. Este movimento trouxe para a sociedade valores nacionalistas, no qual se valorizava a sensação de pertencimento nacional em meio ao questionamento do poder exercido pelo estado, além do pensamento que a individualidade não poderia ser limitada não importasse o contexto. Consequentemente, como é mostrado no segundo capítulo de Matrizes do Pensamento Psicológico de Luis Cláudio Mendonça Figueiredo, a Psicologia no campo teórico se mostra ambígua em relação ao seu objeto de estudo, logo que tem bases tanto iluministas (racional) quanto bases românticas (subjetivas). Corroborando desta forma, em um conjunto complexo de relações simultâneas caracterizadas pelo conflito entre diversas concepções irredutíveis entre si. De um lado, escolas e movimentos gerados por matrizes cientificistas, onde a especificidade do objeto, ou seja, a subjetividade e a singularidade tendem a ser desconhecidas e surge uma imitação dos modelos e práticas das ciências naturais. Do outro lado escolas e movimentos gerados por matrizes românticas e pós românticas, onde atos e vivências de um sujeito, dotados de valor e significado para ele são valorizados, ou seja, a especificidade (singularidade) do objeto é reconhecida, reivindicando-se total independência da Psicologia em relação às demais ciências, mas, há carência de segurança e de cientificidade e assim buscam-se novos moldes científicos. Nas matrizes cientificistas, encontramos as matrizes nomotética e quantificadora, as matrizes atomistas e mecanicistas e as matrizes funcionalistas e organicistas. Sendo a primeira, a matriz que visa a natureza dos objetivos e procedimentos de uma prática teórica realmente científica, no qual, busca ordem natural nos fenômenos psicológicos e comportamentais, classificando e procurando leis gerais; embasadas no caráter preditivo, além, de formulação de hipóteses, cálculos e mensuração experimental. Já a matriz Atomicista e mecanicista, procura relações determinísticas ou probabilísticas, que possuem a concepção de causalidade onde o real é constituído de elementos que em diferentes combinações, causam mecanicamente os fenômenos complexos daí derivados, ocorrendo sempre assim uma relação de causas e efeitos. Esta matriz foi muito influente apenas na pré-história da Psicologia por suas pretensões e realizações eminentemente científicas Por fim a matriz funcionalista e organicista, que exerceu e ainda exerce sobre o pensamento psicológico a influência, mais poderosa que a matriz atomicista e mecanicista. Essa matriz traz a noção de causalidade funcional, surge, recuperando-se a noção de causa final de Aristóteles, na qual um efeito é também causa e uma causa é efeito de seu efeito, definindo assim uma interdependência das partes deste todo. É um estruturalismo biológico que se funda na idéia de complementaridade num sistema, onde o conflito é visto como patológico, o que talvez seja acertado para a Biologia mas traz para a Psicologia, conseqüências. Assim como, as matrizes cientificistas foram consequências do racionalismo iluminista, os regimes disciplinares também foram, logo que para estes se imporem dependem dessa "sociedade atomizada" que não possui grupos e camadas sociais coerentes, incapazes de resistir ao seus processos psicossociais de controle, isso se deve ao fato de elas estarem inseridas nessa individualidade privatizada proveniente da racionalidade iluminista. Podemos assim, fazer uma paralelo desses regimes disciplinares com o filme “Admirável mundo”, no qual somos apresentados a uma sociedade totalmente disciplinar e alienada embasada na racionalidade, essa sociedade é obrigada a se livrar de todos os incômodos causados por emoções, ao consumir em quantidades industriais Soma, uma droga que pode ter vários efeitos, dependendo da dose. Com a busca incessante de ordem natural nos fenômenos psicológicos e comportamentais, essas pessoas passam por um tipo de condicionamento Pavloviano a fim de ocuparem seus papéis sociais (castas), além disso pode-se inferir que o autor traz uma visão pessimista à ideia de progresso e critica ferozmente o culto positivista à ciência, onde essas imposição de felicidade em relação à racionalidade tiraria dos seres humanos a razão de ser ,ou seja, a condição humana subjetiva e particular. Em contrapartida as matrizes românticas e pós românticas, buscam o'que foi excluído pelas matrizes cientificistas, ou seja, o qualitativo, o indeterminado, o espiritual, etc. Eles se denominam vitalistas, logo que são a favor da vida e contra a razão, desta maneira surge o interesse estético no lugar do interesse tecnológico, sendo uma matriz mais enraizada no senso comum da prática psicológicas. Dentro das matrizes românticas e pós românticas existem as matrizes compreensivas que se dividem em três grandes linhas compreensivas: o historicismo idiográfico, o estruturalismo e a fenomenologia. O primeiro busca a captação da experiência como se constitui na imediata vivência do sujeito, propondo que se decifre e interprete as manifestações vitais, culturais e psicológicas. Já o estruturalismo, tenta interpretar os fenômenos vitalistas se embasando em características das ciências da natureza, construindo hipóteses, cálculos e testes de hipóteses, não se diferenciando totalmente das matrizes cientificistas. Mas é na fenomenologia que vamos encontrar uma tentativa de superação, do cientificismo, ao qual os estruturalistas sucumbem, assim como do historicismo, para eles os eventos psicológicos não são coisas no mundo, mas, constitutivos do mundo, assim, dotados de ceticismo a fenomenologia descobre que o ser humano não tem essência alguma pré definida, pois na base de tudo encontra-se um sujeito e suas escolhas. Pode-se concluir depois desta análise epistemológica, que enquanto as matrizes cientificistas secretam ideologias científicas, as matrizes românticas e pós-românticas (com exceção dos estruturalismos que fazem a balança pender para o outro lado), secretam ideologias mais subjetiva (legitimando assim, o retraimento do sujeito sobre si mesmo). Por fim, o projeto de unificação filosófica e metodológica da Psicologia permanece atual, mas parece inviável, desde Watson, até Skinner, na Psicanálise ou em Piaget, percebe-se a mesma intenção, até mesmo Karl Jaspers distribuiu os fenômenos psicológicos entre uma ciência da natureza e uma ciência do espírito. Corroborando desta forma para uma eterna busca de maneiras para se conciliar as teorias distintas na comunidade profissional da Psicologia, porém tais contradições sempre estarão presentes, apenas sendo camufladas na sensação de complementaridade, que de acordo com a Silveira e Hüning (2007) faz a "Psicologia cair na "angústia epistemológica": a dúvida sobre que direção tomar diante da diversidade de opções hoje disponíveis no campo da Psicologia". Referências Arendt, Hannah. Origens do Totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. Silveira e Hüning. A angústia epistemológica na psicologia. Disponível em:,acesso dia 26 de Agosto de 2020.