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1 FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ UNIVERSIDADE DE FORTALEZA – UNIFOR Vice-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação – VRPPG Centro de Ciências Saúde – CCS Programa de Pós-Graduação em Psicologia Doutorado em Psicologia REBECA CAVALCANTE FONTGALLAND A Atuação de Psicólogos em Centros de Atenção Psicossocial de Regiões Geográficas do Brasil The Performance of Psychologists in Centers of Psychosocial Attention of Geographical Regions of Brazil FORTALEZA – CE 2019 2 REBECA CAVALCANTE FONTGALLAND A Atuação de Psicólogos em Centros de Atenção Psicossocial de Regiões Geográficas do Brasil The Performance of Psychologists in Centers of Psychosocial Attention of Geographical Regions of Brazil Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, como requisito parcial à obtenção de título de Doutor em Psicologia. Linha de Pesquisa: Psicologia do Trabalho e Saúde. Orientadora: Drª Cynthia de Freitas Melo Lins FORTALEZA – CE 2019 3 Ficha catalográfica da obra elaborada pelo autor através do programa de geração automática da Biblioteca Central da Universidade de Fortaleza Fontgalland, Rebeca Cavalcante. A Atuação de Psicólogos em Centros de Atenção Psicossocial de Regiões Geográficas do Brasil / Rebeca Cavalcante Fontgalland. - 2019 129 f. Tese (Doutorado) - Universidade de Fortaleza. Programa de Doutorado Em Psicologia, Fortaleza, 2019. Orientação: Cynthia de Freitas Melo Lins. 1. Centros de Atenção Psicossocial. 2. Reforma Psiquiátrica. 3. Saúde Mental. 4. Atuação Profissional. 5. Psicologia. I. Lins, Cynthia de Freitas Melo . II. Título. 4 Universidade de Fortaleza – UNIFOR Programa de Pós-Graduação em Psicologia Ambiente, Trabalho e Cultura nas Organizações Sociais Tese intitulada “A Atuação de Psicólogos em Centros de Atenção Psicossocial de Regiões Geográficas do Brasil”, de autoria da doutoranda Rebeca Cavalcante Fontgalland, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: ______________________________________________________________ Profa. Dra. Cynthia de Freitas Melo Lins (UNIFOR) - Orientadora ______________________________________________________________ Profa. Dra. Lucila Moraes Cardoso - UECE ______________________________________________________________ Prof. Dr. João Carlos Alchieri - UFRN ______________________________________________________________ Profa. Dra. Regina Heloisa Mattei de Oliveira Maciel - UNIFOR ______________________________________________________________ Profa. Dra. Karla Patrícia Martins Ferreira - UNIFOR Fortaleza, 12 de abril de 2019. Visto: Profa. Dra. Normanda Araujo de Morais Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia UNIFOR Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz- Fortaleza, CE – 60.811-905 – Brasil - tel: 55 (0**85) 3477-3000 5 AGRADECIMENTOS A Deus e Nossa Senhora, por mais esta graça recebida. Ao meu marido, Carlos Irlando Moreira, que mais uma vez, esteve junto comigo nesses momentos, contribuindo com seu apoio, compreensão, generosidade e paciência. A minha família, pelas orações e boas energias. À Profa. Dra. Cynthia Freitas Melo Lins, por sua dedicação e paciência com a minha jornada, além de ser um ser humano incrível, apoiando-me em todas as dificuldades e, principalmente, acreditando no potencial de seus alunos. Aos membros da banca examinadora, por disponibilizarem seu tempo e atenção a esta pesquisa. À Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Dra. Normanda Araújo de Morais. Ao Antônio Vitor Reis Gonçalves Mello, por toda colaboração no levantamento e contabilização dos dados da pesquisa. Aos integrantes do Laboratório de Estudos e Práticas em Psicologia e Saúde - LEPP Saúde, que colaboraram com suas dicas e ideias. As minhas companheiras do LEPP-Saúde, pela amizade e boas risadas, principalmente, Camila Ramos com seus doces maravilhosos em nossas reuniões e palavras de incentivo. Aos participantes desta pesquisa, que se prontificaram em ajudar. À secretária do PPGP Sônia Bezerra, pelas informações e atenção. Às instituições de ensino superior que leciono, UniFanor e Uni7, e aos meus alunos, pelo apoio. E a todos que contribuíram, direta e indiretamente, para elaboração desta tese. 6 RESUMO A partir da Reforma Psiquiátrica, surgiram serviços, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs), que se constituem em dispositivos de construção da dignidade, a partir de ações e intervenções que favoreçam o processo de reinserção social e autonomia do indivíduo com transtorno mental, em seu território, acompanhados por uma equipe de referência, composta por diferentes categorias profissionais, entre eles o psicólogo. Profissionais que devem ter sua práxis congruente com esse modelo de cuidado em saúde mental. A presente pesquisa objetivou verificar se a atuação dos psicólogos do CAPS está em consonância com os ideais da Reforma Psiquiátrica. Realizou-se uma pesquisa de abordagem quantitativa, do tipo descritiva e de levantamento, em nível nacional. Contou-se com amostra não probabilística por conveniência composta por 104 psicólogos atuantes em CAPS, em 19 estados brasileiros. Utilizou-se um questionário, com perguntas abertas e fechadas, abordando os temas: dados pessoais, formação complementar, caracterização do trabalho, modos de atuação profissional e avaliação da atuação profissional, divulgado via redes sociais. Ao final, os dados quantitativos foram analisados por meio de estatística descritiva, com apoio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), e os dados qualitativos foram compreendidos por Análise de Conteúdo de Bardin. Como resultado, observou-se que a maioria são mulheres, com idade média de 35,58 anos, formados há 10,26 anos e que atuam predominantemente no interior. A maioria não possui formação específica em saúde mental ou saúde coletiva, trabalham em regime estatutário, celetista ou por contrato. As teorias mais utilizadas são Psicanálise e Terapia Cognitivo Comportamental, com menor representatividade de teorias contemporâneas voltadas para a Reforma Psiquiátrica. Realizam atendimentos individuais, grupais ou familiar, acolhimento e visitas domiciliares ou institucionais. Os objetivos das atividades diárias no CAPS consistem em reinserção social, tratamento psicoterapêutico e a melhora das condições de vida e autonomia e empoderamento. Trabalham prioritariamente em equipe e em conjunto com outras redes de assistência, realizando ações de expansão e consolidação da RAPS, como: matriciamento, articulação e reuniões intersetoriais. Realizam o Projeto Terapêutico Singular, além de usarem outros recursos e instrumentos. Não possuem supervisão clínico-institucional, nem programa de formação permanente. Não conhecem práticas inovadoras, mas afirmam que seu trabalho está em convergência com a Reforma Psiquiátrica. Realizam ações no território, de matriciamento e saúde mental na Atenção Primária, de inserção social do usuário, e empoderamento e autonomia. Mencionam dificuldades e desafios em sua prática. Conclui-se que existem práticas sendo realizadas em consonância com a Reforma Psiquiátrica, embora ainda existam profissionais que as realizem em divergência com a proposta. Sugere-se uma constante avaliação dos serviços, das políticas e da atuação dos psicólogos, bem como superar a autenticação das práticas atreladas à teoria, propondo práticas inovadoras, que surgem no cotidiano do CAPS. Propõe-se o fortalecimento e a continuidade das políticas de saúde mental potencializadorasque podem ser entendidos como um trabalho vivo em ato. Estes PTS são definidos numa perspectiva de macro e micropolítica, pois são definidos numa lógica do sistema de normas e regras, assim como pelos próprios trabalhadores e suas concepções singulares acerca do que é o cuidado em saúde, respectivamente. Estas concepções definem a maneira como os profissionais de saúde vão trabalhar e delinear as estratégias no cotidiano do usuário. Há uma lógica subjetiva na produção do cuidado, em que perpassa três dimensões: a do desejo (que se inscreve no encontro do profissional de saúde com o usuário do serviço), a da rede como dispositivo de cuidado (em que pese o fortalecimento do sujeito) e a dimensão do trabalho vivo (relação face a face entre trabalhador e usuário ou comunidade). (Vasconcelos et al., 2016). Conforme Silva et al. (2016), o PTS possui quatro movimentos que são fundamentais para atingir o seu objetivo, ao quais são entendidos a partir de uma “definição das hipóteses diagnósticas; definição de metas; divisão de responsabilidades; e reavaliação”. Uma vez delimitadas passam por constante reformulação e reconstrução. Esse PTS personaliza o atendimento ofertado, tanto no CAPS como fora dele, propondo as atividades de acordo com as necessidades de cada usuário, minimizando o estigma e promovendo o protagonismo de cada usuário frente à sua vida. Entre as atividades terapêuticas oferecidas no CAPS, contempladas no PTS estão: atendimento individual e/ou grupal, atendimento familiar, oficinas e atividades comunitárias e artísticas, orientação, distribuição e acompanhamento da medicação e seu uso, o encaminhamento e acompanhamento dos usuários em residências 43 terapêuticas. Esses momentos são parte de uma estratégia terapêutica de reabilitação psicossocial, que são realizadas junto à comunidade, ao trabalho e à vida social do usuário. Além do que, é fundamental essa articulação das ações com programas de reabilitação psicossocial, com as Equipes de Saúde da Família (ESF) e com os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) (Anjos Filho & Souza, 2017; Feitosa et al., 2012; Grigolo & Pappiani, 2014; MS, 2004; Ribeiro & Bezerra, 2015; Silva et al., 2016; Vasconcelos et al., 2016). Com base no disposto na legislação e diretrizes do SUS e Reforma Psiquiátrica, visando à mudança de paradigma frente ao cuidado, acolhimento e atenção à pessoa em sofrimento psíquico, o CAPS tem o desafio de fornecer ao seu usuário atividades terapêuticas variadas, que proporcionem subsídios e fortalecimento do sujeito (MS, 2004), sendo um espaço de práticas inovadoras, diferenciadas em relação a clínica tradição de medicalização, silenciamento e enclausuramento, que busca uma atenção integral do usuário do serviço. Essas práticas inovadoras desenvolvem-se como consequência da Reforma Psiquiátrica Brasileira, uma vez que “ao engrendrar novos dispositivos assistenciais e novas práticas clínicas, cria atividades práticas anteriormente desconhecidas da saúde mental” (Berlinck et al., 2008, p. 21), como por exemplo, oficinas de arte, dança e música (Nunes, Torres, & Zanotti, 2015). A clínica do CAPS, conhecida a partir de uma perspectiva ampliada, vai muito além do que apenas observar, diagnosticar e medicar. Assume uma postura de interface com outras práticas, a fim de proporcionar ao usuário outros recursos que fortaleçam seus potenciais e que rompam com a visão de transgressão ou marginalidade do louco. Como afirmam Berlinck et al. (2008, p. 24-25), “o sucesso da Reforma depende, portanto, de novas formas de clinicar e praticar o tratamento, e supõe que o trabalhador em saúde mental esteja preparado para 44 realizar essas atividades”. Esse é um processo que começa a se fortalecer, uma vez que nem todas as propostas e ações encontram-se materializadas nesses dispositivos de saúde mental. A Clínica Ampliada visa ser uma clínica do sujeito, que enfatiza que a doença não ocupa completamente a vida do sujeito, que deixa uma condição de objeto, mas ocupa um lugar ativo em seu processo. Perspectiva contrária daquelas que visam uma abordagem curativista, em que o sujeito é visto apenas como um ser biológico. A Clínica Ampliada vê o sujeito muito além disso, numa perspectiva biopsicossocial, espiritual, histórica e cultural. Responsabiliza-se não apenas pela necessidade, mas também por demandas concretas dos usuários, sem negligenciar a existência da doença (Amorim, Andrade, & Branco, 2015; Campos, 2001; Grigolo & Pappiani, 2014; MS, 2007, 2009; Ribeiro & Bezerra, 2015; Trajano, Bernardes, & Zurba, 2018). Esse tipo de clínica favorece o trabalho em equipe, já que as ações, necessariamente, passam a se esbarrar nas outras disciplinas envolvidas na atenção em saúde. O trabalho em equipe pode ser considerado como uma prática inovadora, pois tira os profissionais de um lugar privilegiado e ideológico sobre suas práxis e o articula com outros saberes. É um lugar que se constitui em movimento e construção cotidiana, que permite uma atenção integral ao sujeito (Campos, 2001; Santos et al., 2018). 45 2 O PSICÓLOGO NOS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL – CAPS GERAL: INSERÇÃO E PRÁTICAS Desde quando foi regulamentada como profissão, em 1962, a Psicologia no Brasil faz parte e vem acompanhando todo o percurso político, econômico e social do país, influenciando e sendo influenciada, principalmente, sobre os aspectos que provocaram mudanças na assistência à saúde do Brasil. Por volta da década de 1970 e 1980, iniciou-se um processo de inserção do psicólogo na saúde pública do Brasil, reforçado por três fatores, a saber: 1) a crise econômica e diminuição do mercado; 2) a redemocratização do país e a luta pelos direitos sociais; e 3) a Reforma Sanitária e a proposta de Clínica Ampliada (Dias & Silva, 2016). Neste período, começavam a se delinear mudanças na sociedade brasileira, principalmente, no que concerne aos fatores econômicos e sociais, uma vez que o país estava passando por um período de crise. Por conta disso, a classe de psicólogos começou a sentir o afastamento de seus clientes, tendo que encontrar alternativas para suprir essa crise e partir para novos campos de atuação (Cantele et al., 2012; Carvalho & Yamamoto, 2002; Yamamoto & Oliveira, 2010). Igualmente ocorria nesse período um processo de redemocratização do país, com o fim da ditadura, e de mudanças sobre a saúde e a saúde mental. Estava sendo realizada uma revisão sobre o conceito de saúde, modelo de assistência vigente e seus determinantes (orientados pela Reforma Sanitária). Na mesma direção, era realizada uma revisão sobre os direitos sociais e a luta pelos direitos dos doentes mentais e a forma de assistência a eles oferecida (orientados pela Reforma Psiquiátrica). Ocorria uma crítica ao modelo asilar e à maneira desumana de lidar com a loucura dentro dos hospitais psiquiátricos (Cantele et al., 2012). 46 Como consequência da Reforma Sanitária, surge um conceito ampliado de saúde, marcado por vários determinantes. Passa-se a criticar o modelo biomédico, em prol de um modelo biopsicossocial, abrangendo o sujeito em sua integralidade e convocando diferentes saberes e categorias profissionais para integrar as equipes multiprofissionais, dentre eles, a Psicologia (Campos, 2001; Pinho et al., 2018). Verifica-se um posicionamento autocrítico à Psicologia dos moldes clínicos tradicionais de atuação (avaliação psicológica, psicopatologia, psicodiagnóstico e psicoterapia individual), uma vez que no contexto em que se apresentava o país na época, este tipo de prática não tinha um significado social (Campos, 2001; Cantele & Arpini, 2017; Cantele et al., 2012; Carvalho & Yamamoto, 2002; Dimenstein, 1998, 2001; Ferreira Neto, 2008, 2010; Lara & Monteiro, 2013; Macedo & Dimenstein, 2016; Mota & Costa, 2017; Oliveira & Caldana, 2016; Trajano et al.,2018). Como consequência, surgiram outros campos mais relevantes socialmente para atuação do psicólogo, como os hospitais, os ambulatórios e os centros de saúde. Ocupação de espaços que foi reforçada pela redefinição da função social do psicólogo, difusão da psicanálise e “psicologização” da sociedade (Cantele & Arpini, 2017; Cantele et al., 2012; Lima, 2005). No decorrer das últimas décadas, observa-se a atuação dos psicólogos nas políticas sociais, sendo o Sistema Único de Saúde (SUS) um dos maiores empregadores (Macedo & Dimenstein, 2012). Expressando em números, no início, no período entre 1976 a 1984, a inserção do psicólogo na saúde destacou-se entre os profissionais de saúde, com um crescimento de 21,4% (Dias & Silva, 2016). Na década de 1990, ao iniciar o processo de estruturação do SUS, da efetivação das estratégias de saúde do Brasil e da rede de atenção psicossocial, muitas vagas continuaram sendo abertas para psicólogos nos três níveis de 47 atenção dos serviços públicos de saúde, para integração das primeiras equipes multidisciplinares (Lara & Monteiro, 2013). A inserção nesses campos exige uma mudança paradigmática na capacidade teórico- metodológico do psicólogo para atuação nesses espaços. Reconheceu-se a limitação do modelo de Psicologia Clínica tradicional, e da ineficácia da mera adaptação de seu trabalho para atender as novas demandas no SUS (Campos, 2001; Cantele & Arpini, 2017; Cantele et al., 2012; Carvalho & Yamamoto, 2002; Dias & Silva, 2016; Dimenstein, 1998, 2001; Ferreira Neto, 2008, 2010; Lara & Monteiro, 2013; Macedo & Dimenstein, 2012, 2016; Mota & Costa, 2017; Oliveira & Caldana, 2016; Trajano et al., 2018). Era necessário um repensar sobre as verdadeiras formas de atuação, que levassem em conta o contexto em que o indivíduo estava inserido, como ele o influencia e por ele é influenciado. Inclusive esta mudança voltava-se para a incorporação do compromisso social e da responsabilização com as demandas do usuário, a partir de suas especificidades. Um compromisso que não é burocrático (cumprir horários e agenda), mas sim um compromisso que passa pela reflexão crítica e percepção da necessidade de mudança; que erradica o desinteresse, a alienação, o agir mecânico e burocratizado (Dimenstein, 2001; Lara & Monteiro, 2013). Ou seja, era fundamental voltar-se a uma maior qualificação técnica e política do profissional, uma compreensão sobre o seu saber-fazer-agir, ao manejo, entre outras possibilidades (Cantele & Arpini, 2017; Macedo & Dimenstein, 2012, 2016; Paulon et al., 2011). Não é apenas focar-se na reflexão sobre a forma de inserção dos psicólogos na saúde mental, mas apropriar-se de outros subsídios relevantes que fazem parte desse processo de imersão nesse campo tão complexo e que muitos não tiveram a oportunidade de se especializar para poder atuar. 48 A inserção do psicólogo no CAPS, como dispositivo central da Rede de Atenção Psicossocial, exige que o psicólogo reveja sua forma de lidar com o modo clássico de organização, de atuação, de saber técnico que define sua prática e sua identidade. Necessita reconhecer a não neutralidade da produção de conhecimento e perceber esse dispositivo como um espaço de emancipação, reinserção social e de desenvolvimento de autonomia, que perpassa inúmeros saberes, os quais se complementam. Inclusive, levar em conta não somente aspectos relacionados ao seu conhecimento teórico, de sua área, pois o CAPS exige o embasamento em diversos campos de saber. Deve-se respaldar em conhecimentos acerca da luta antimanicomial, saúde mental, saúde coletiva e de outras vertentes teóricas que devem ser consideradas em sua prática ética (CFP, 2013), tais como uma visão de homem e de mundo ampliada, e os referenciais da Psicologia Social e Comunitária, da Análise Institucional e das próprias políticas públicas, principalmente, ao que concerne à saúde pública. Entra em discussão o lugar que a teoria assume no trabalho do psicólogo, uma vez que a teoria exigida dentro do CAPS não se esgota apenas em uma abordagem psicológica. Essa assume uma perspectiva secundária, já que o psicólogo deveria estar submetido ao referencial e às diretrizes de uma proposta de reforma. O questionamento volta-se para responder se o referencial vai em direção à uma ética inclusiva e libertária, proporcionadora de cidadania e respeito (CFP, 2013). Essa postura ética está relacionada com a prática política que assume o papel do psicólogo no CAPS, voltando-se para a reflexão acerca da transformação social que o trabalho do psicólogo assume nesse espaço, necessitando desenvolver uma capacidade atitudinal de aplicar suas habilidades numa perspectiva psicossocial, ressignificando a prática tecnicista e individualista de atenção à saúde mental. É refletir sobre como a prática do psicólogo pode ser emancipatória no tratamento do usuário do serviço. Para tanto, precisa adequar-se à forma 49 como os serviços funcionam e às reais demandas de seus usuários, circulando nas comunidades e no cotidiano de seus usuários, desenvolvendo uma capacidade de trabalhar em equipe, de forma interdisciplinar, para conquistar novos parceiros (profissionais e usuários) (Macedo & Dimenstein, 2012). Essa é uma crítica que Macedo e Dimenstein (2012) fazem sobre a valorização excessiva do caráter técnico e especialista em detrimento ao trabalho interdisciplinar, em equipe e de articulação com as redes e com o apoio comunitário. O desafio é justamente o entendimento acerca do papel do outro como importante no processo, a fim de obter uma complexidade dos fenômenos. Deve-se ter uma visão horizontalizada, que respeite o saber de todos os envolvidos (Cantele et al., 2012), inclusive os saberes dos usuários, os quais não devem ser isolados e tratados como desnecessários no tratamento. Dessa forma, a elaboração de um Projeto Terapêutico Singular (PTS) leva em consideração os conhecimentos de diferentes profissionais e as realidades já apreendidas e vivenciadas pelos usuários e suas famílias (Cunha & Galera, 2016; Santos et al., 2018). O saber disciplinar é fundamental, mas em consonância com os saberes populares, permitindo ao usuário uma atenção de forma integral, humanizada e participativa. O respeito a estes saberes consiste na busca de referenciais que proporcionem o atendimento ao objeto de trabalho, que seria a necessidade humana de promoção de saúde mental, e para isso esses referenciais devem promover autonomia ao usuário do CAPS, garantindo sua condição de cidadania, e não apenas tratar sua “doença” ou estabilizá-lo. Os referenciais teóricos devem transformar o sujeito, mas isso só pode ocorrer se a prática psicológica for além da finalidade de cura, e proporcionar uma participação mais ativa do sujeito social atendido pelo CAPS. Visa-se mostrar à sociedade que o sujeito com transtorno 50 mental pode e deve assumir seu papel de protagonismo social, que pode ser fortalecido com os subsídios adequados fornecidos pelo CAPS, pela família e pela sociedade. Dentro de uma perspectiva antropológica sobre o fenômeno da loucura, o trabalho do psicólogo incide menos sobre a cura de uma doença ou um sintoma e mais sobre a produção de subjetividades inconformadas. [...]. Subjetividade é processo vivido e tecido ao longo da trajetória do sujeito. [...]. Os psicólogos, como outros trabalhadores dessa clínica, não produzem apenas intervenções técnicas, mas antes disso disponibilizam acolhimento para dar suporte à travessia que o outro deve construir em sua experiência como sujeito humano. [...] e cabe aos profissionais, parceiros nesse empreendimento de tecer novas biografias e produzir novas subjetividades [...] (CFP, 2013, pp. 82-83). Mais do que isso, com a mudança na assistência em saúde mental, o foco do trabalho do profissional é o sofrimento que perpassa o sujeito, sofrimentovoltado para fatores além das dificuldades relacionadas ao transtorno em si, o sofrimento social, que ainda é muito forte e estigmatiza as pessoas, cristalizando-as na condição de doente e de passividade. Para entender e atuar junto a esse sujeito, o trabalho em comunidades é fundamental, levando em consideração as peculiaridades do território, sua complexidade e caráter multifacetado, se apropriando do cotidiano e das vivências dos usuários no território. Assim, é possível a construção do vínculo da sociedade com o trabalho do CAPS, desmistificando todos os a priori acerca dos cuidados em prol da saúde mental de seus usuários, encontrando estratégias de intervenção mais condizentes com o perfil local (Cantele et al., 2012; Cézar & Melo, 2018; CFP, 2013). Isso facilita o processo de reinserção social do usuário e o resgate de sua 51 potencialidade, criando uma ponte entre serviço, comunidade, família e a rede existente no território (Leal & Antoni, 2013; Santos et al., 2018; Vasconcelos et al., 2012). Ao levar em consideração esses aspectos, no momento da inserção, pode-se pensar que uma atuação dentro de uma perspectiva psicossocial deve ser articulada, não apenas no território e no equipamento, mas com outras redes, que propiciem uma atenção integral ao usuário, fortalecendo o indivíduo em todos os seus aspectos, em prol da sua reinserção social e cultural. Assim, o psicólogo pode respaldar os fundamentos de ação a articulação com a rede, principalmente, dentro do território do indivíduo, abrindo espaços para que o sujeito se torne ativo na produção de saúde. Esse tipo de ação visa superar a fragmentação das políticas de saúde mental, que também é de responsabilidade do psicólogo, além de facilitar o planejamento de projetos e práticas em saúde mais adequadas à clientela. Os dispositivos de saúde devem assumir seu papel social de atenção ao usuário (Santos et al., 2018; Severo & Dimenstein, 2011). O papel social está estreitamente relacionado com as práticas de cuidado, que visam empoderar e estimular nos sujeitos recursos pessoais e sociais que o façam se reabilitar em outros aspectos que não apenas biológico ou psicológico. Isso é estimulado em seus espaços sociais e de convivência, a fim de proporcionar ao usuário propriedade sobre sua capacidade de se desenvolver e fomentar o exercício do protagonismo social, o acesso ao direito, construindo redes de sustentação e de suporte. A clínica do CAPS proporciona um espaço de escuta, de cuidado e, principalmente, acolher o usuário em seu sofrimento e em seus mais diversos signos, de forma individualizada, respondendo caso a caso, a partir de suas reais necessidades. Numa perspectiva biopsicossocial, cultural e espiritual, esse sujeito acolhido, em sua máxima potencialidade, pode desenvolver autonomia para reconstruir uma vida em sociedade, familiar, laboral e tantas outras possibilidades estruturais (CFP, 2013). Essa 52 reorientação da prática clínica, muitas vezes ligado aos níveis mais pauperizados da sociedade, organiza-se em sua grande parte a partir dos Programas de Saúde Mental, em que pesa o amplo contingente de psicólogos atuantes (Ferreira Neto, 2008). É nesse sentido que, para que as práticas em Psicologia nos CAPSs sejam em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica, exigem-se que novos elementos se construam, sejam eles teóricos, metodológicos, ético-político, ideológico, entre outros, no cuidado e na atenção em saúde mental. Se a ideia é superar os modelos tradicionais, rompendo com a perspectiva dominante de cura e tratamento, para uma concepção de reabilitação psicossocial, que se constitui como um novo olhar e uma estratégia de cuidado, fazem-se necessárias práticas inovadoras (Barros, Oliveira, & Silva, 2007; Costa, Jorge, Coutinho, Costa, & Holanda, 2016; Ribeiro & Bezerra, 2015), que constituem-se em práticas, que são constantemente pensadas e repensadas pelos profissionais de saúde, que se conectam com as necessidades e as demandas concretas da população adscrita, no território onde estão instalados os equipamentos de atenção em saúde mental e o local de referência dos usuários, e que consideram o contexto histórico-social, político e cultural do sujeito. Essa nova perspectiva visa a restituição do poder do usuário, que permite o desenvolvimento da autonomia, estabelecendo normas e ordens para a própria vida. No cotidiano podem ocorrer práticas que considerem a reabilitação social do usuário e que preencham o seu tempo com atividades e objetos úteis e de trabalho produtivo, não sendo apenas uma espécie de entretenimento (Barros et al., 2007), mas que se constituam como espaços de criatividade, e não como simples forma de deixar o usuário ocupado enquanto estiver no CAPS, ou de mera produção estética sem quaisquer reflexões sobre a atividade realizada (Ribeiro & Bezerra, 2015). Essas práticas devem ser entendidas como dispositivos clínicos de saúde mental, e o psicólogo apropria-se de uma visão acerca das diversidades que 53 se apresentam no CAPS, realizando práticas humanizadas em direção à integralidade da saúde (Schneider et al., 2014). Mesmo com as práticas sendo realizadas por profissionais do país, Queiroz, Ferreira e Silva (2013) mostram que existem algumas dificuldades que ainda são obstáculos às práticas de cuidado voltadas para uma proposta de Reforma Psiquiátrica, tais como a falta de pessoal, a família e o contexto social que não estão preparados para lidar com a loucura. Existe dificuldade, inclusive por parte dos profissionais, de compreensão do significado e dos fatores envolvidos no cuidado e acompanhamento dos usuários. Existem, inclusive, compreensões diferentes sobre as formas de atuar e acerca do processo de tratamento dos usuários dos CAPSs. Por isso, faz-se necessário apresentar pesquisas realizadas, a fim de entender como se encontra a realidade das práticas dos psicólogos pelo Brasil. A mais notável pesquisa de levantamento sobre a atuação dos psicólogos no CAPS foi realizada em 2007 e divulgada em 2009 pelo CFP (2009). Os resultados da pesquisa mostraram que o público alvo de trabalho dos psicólogos consiste em crianças, jovens, adultos, idosos, familiares dos usuários, pessoas com necessidades especiais, estagiários e os próprios colaboradores. Realizam muitas atividades tradicionais (atendimentos individuais e grupais), e também atividades inovadoras, que comumente não são encontradas em referenciais teóricos ou disciplinares na literatura (CFP, 2013). Tal diferenciação ocorre devido aos vários fatores inerentes ao cotidiano do CAPS e do território (CFP, 2009; 2013). Realizam atendimento individual (psicoterapia, acolhimento, escuta, terapia breve, acompanhamento e outras formas de nomeação, triagem, acolhimento, entrevista inicial, anamnese, avaliação, escuta, encaminhamentos ou admissões, entre outros); de coordenação de grupos (terapêuticos, operativos e produtivos), atendimentos sozinhos ou em dupla com outro profissional; atendimento aos familiares (individual ou em grupo); atuação com o 54 funcionários colaboradores (capacitação, supervisão, discussão sobre as questões vivenciadas diariamente); visita domiciliar; trabalhos em equipe multidisciplinar; atuação em rede e na comunidade; elaboração de pareceres, laudos, relatórios e prontuários; trabalhos de coordenação de CAPS (treinamento de pessoal, articuladores de rede e representantes do equipamento); atividades extramuros (caminhadas, ida ao cinema e museus, dentre outros); atuação em discussões políticas (fóruns de discussão e construção de políticas); e realizam atendimentos baseados em alguma abordagem teórica (CFP, 2009; 2013). O relatório do CFP (2009) mostra que a psicoterapia individual é exercida mais precisamente nas situações em que o profissional é o Técnico de Referência do usuário no serviço. Os gruposterapêuticos acontecem com aqueles usuários que estão em condições de compreender as reflexões proporcionadas pela psicoterapia, independentemente de o mediador do grupo ser o Técnico de Referência ou não. O entendimento do Ministério da Saúde (2004) sobre o que seja atendimento individual consiste na prática de atenção em psicoterapia, e também as orientações, as prescrições de medicamentos, dentre outras possibilidades características dos tipos de CAPS. Um dos dados de maior destaque dessa pesquisa refere-se ao uso extensivo da psicoterapia individual; devido à preocupação sobre a manutenção de um modelo anterior de Psicologia Clínica tradicional, que isolado não condiz com a demanda e proposta do CAPS e com os ideais de Reforma Psiquiátrica. Dados semelhantes aos encontrados por diversas outras pesquisas de menor projeção, como de Correia (2007), em Santa Catarina; Bichaff (2006), em São Paulo; Cantele et al. (2012), no Rio Grande do Sul; Cunha e Galera (2016), em Minas Gerais; Figueiredo e Rodrigues (2004), no Espírito Santo; Jucá et al. (2010), na Bahia; Lara e Monteiro (2014), em Santa Catarina; Macedo e Dimenstein, (2013, 2016), no Piauí; Oliveira e Caldana (2016), no Pará; e Ramminger e Brito (2011), no Rio de Janeiro. 55 Ademais, observa-se que a psicoterapia é uma das práticas realizadas pelo psicólogo, mas que pode ser ou não a atividade principal exercida por ele nos CAPSs (Jucá et al., 2010). Esse uso frequente de psicoterapia na prática do psicólogo no CAPS justifica-se, de acordo com Ramminger e Brito (2011), por ser a atividade-ambulatorial que o psicólogo mais se sente à vontade para realizar. A psicoterapia individual, enquanto atividade principal, seria uma maneira para trabalhar com o usuário o entendimento do seu tratamento e a necessidade de acompanhamento no CAPS. Quando o profissional realiza uma psicoterapia que trabalhe todas essas angústias, dúvidas e sofrimentos frente à doença mental e ao tratamento, o usuário passa a ter mais confiança de que o equipamento e o processo psicoterapêutico são importantes para ele. O usuário pode ter a possibilidade de significar melhor as atividades das quais participa no CAPS. Bechelli e Santos (2002) pactuam desta concepção, uma vez que para eles as abordagens terapêuticas devem ser iniciadas com um processo terapêutico individual, pois é nesse momento que pode ser estabelecida uma aliança terapêutica do usuário com o serviço, ou até mesmo com seu Técnico de Referência. Entendem que mesmo que as outras ações interventivas sejam importantes e fundamentais no processo de desenvolvimento humano do usuário do CAPS, a psicoterapia individual proporciona um entendimento maior do processo por parte do usuário, já que envolve o sujeito de maneira ativa e criativa. Essa visão da psicoterapia, como foco principal de inserção do usuário no processo de cuidado do serviço de saúde mental, é suscetível de críticas por autores como Luzio e Sinibaldi (2012), que ao realizarem um mapeamento da produção científica existente (1990-2007) propuseram reflexões acerca do uso da psicoterapia individual e grupal, que não trazem a construção de práticas inovadoras. 56 À época da pesquisa produções retratavam de modo incipiente a reinserção social e a retomada de cidadania, e pouco contribuíram para a concepção de práticas inovadoras (Luzio & Sinibaldi, 2012). Isso pode ocorrer devido à formação centrada nos moldes de clínica (Cantele & Arpini, 2017; Dias & Silva, 2016; Macedo & Dimenstein, 2016), que não prioriza o contexto sociocultural do usuário. Essa perspectiva restritiva pode levar à confusão acerca da principal proposta dos serviços substitutivos, que é a visão desinstitucionalizadora, propondo a atenção em saúde por meio de ações interventivas que vão além dos muros do CAPS. Infelizmente, existe uma confusão sobre o que seja essa proposta, a qual comumente é comparada ou entendida como sinônimo de desospitalização ou pela concepção de trocar um espaço de reclusão por outro tipo de espaço. Apesar disso, as abordagens terapêuticas comumente utilizadas pelos psicólogos para realizarem estes atendimentos individuais consistem em psicoterapia breve (Correia, 2007; Macedo & Dimenstein, 2016), Psicanálise (Correia, 2007; Figueiredo & Rodrigues, 2004; Jucá et al., 2010; Lara & Monteiro, 2014; Macedo & Dimenstein, 2016), Psicologia Analítica (Jucá et al., 2010), Biossíntese (Jucá et al., 2010), Gestalt-terapia (Jucá et al., 2010; Lara & Monteiro, 2014), Psicodrama (Jucá et al., 2010), Terapia Cognitivo-Comportamental (Lara & Monteiro, 2014; Macedo & Dimenstein, 2016), Sistêmica (Lara & Monteiro, 2014), corporais (Macedo & Dimenstein, 2016), e as de base humanistas e fenomenológicas (Macedo & Dimenstein, 2016). A maioria dos psicólogos referenciam o uso destas teorias como ações preferenciais no seu cotidiano (Macedo & Dimenstein, 2016). Outras vertentes teóricas, voltadas especificamente para as práticas psicossociais, foram mencionadas como sendo importante na atuação do psicólogo, como: Reforma Psiquiátrica, desinstitucionalização, substâncias psicoativas, atenção psicossocial, saúde 57 coletiva, protagonismo dos usuários e dos familiares, continuidade do cuidado pós-alta (Correia, 2007; Macedo & Dimenstein, 2016) e interconsulta, por meio do apoio matricial (CFP, 2011; 2013; Dias & Silva, 2016). Vertentes que, apesar de conhecidas pelos psicólogos, não são utilizadas, pois se sentem despreparados e receosos de atuar no campo da saúde mental, existindo uma adesão insuficiente em relação à proposta de atuação psicossocial em detrimento do atuar clínico clássico, como apontam Macedo e Dimenstein (2016). Além dos atendimentos individuais, os psicólogos reconhecem a importância que os trabalhos grupais têm na atenção ao usuário do CAPS; desta maneira, os realizam a fim de atender a grande demanda presente no serviço (Jucá et al., 2010). Esses trabalhos grupais normalmente são realizados por meio de oficinas, as quais podem ser entendidas como espaço para expressão da subjetividade, de escuta e para interpretação do conteúdo dos sintomas (Mota & Costa, 2017; Nunes et al., 2015), grupos terapêuticos (Cantele & Arpini, 2017; Jucá et al., 2010; Martinhago & Oliveira, 2012; Oliveira & Caldana, 2016; Paulon et al., 2011), sendo ainda ofertados grupos de familiares e multifamiliar (atendimento grupal às famílias dos usuários), grupos operativos, de avaliação e de fim de semana, com objetivos diversos (Bichaff, 2006; Cantele et al., 2012; Cunha & Galera, 2016; Figueiredo & Rodrigues, 2004; Jucá et al., 2010; Lara & Monteiro, 2014; Macedo & Dimenstein, 2013, 2016; Oliveira & Caldana, 2016; Ramminger & Brito, 2011). Por mais que estes grupos venham com uma proposta que se mostre viável para o CAPS, existe ainda uma não-adesão ou evasão nos grupos pela falta de vínculo adequada com a proposta ou a impossibilidade de fazê-los por conta de pacientes em crise, porque as estruturas dos grupos e oficinas não permitem ou facilitam a atenção especializada ao nível de desorganização do sujeito (Bichaff, 2006; Jucá et al., 2010). 58 Além das já mencionadas, a literatura mostra que outras atividades são realizadas nos CAPSs consistindo em: acolhimento, triagem, visita domiciliar, visita escolar, atividades socioculturais, oficinas terapêuticas, de atividades laborais, atividades recreativas e físicas com ou sem torneio esportivo, passeios e/ou caminhadas, confraternizações, atividades de comemoração da luta antimanicomial (Cantele et al., 2012; Macedo & Dimenstein, 2016; Nunes et al., 2015), prescrição de medicamentos (Bichaff, 2006), dentre outras. Destas, destaca-se que as festividades configuram uma aproximação do serviço com a comunidade e com a família, uma vez que fomentam a participação de todos os envolvidos no preparo das atividades (Mota & Costa, 2017).As práticas acima mencionadas constituem-se como práticas inovadoras, com exceção da prescrição de medicamentos, que, muitas vezes, geram insegurança entre os profissionais, quanto aos objetivos e resultados desejados, e que seriam melhor utilizadas se dentro dos serviços de saúde mental existissem momentos de supervisão clínico-institucional, que dessem suporte e orientação adequada, levando em conta os aspectos inerentes ao perfil do serviço e do contexto institucional (Borges et al., 2018; Cantele et al., 2012; Cantele & Arpini, 2017). As supervisões de equipe (do CAPS) e de território (dos equipamentos) passam a ser um dispositivo crucial de intervenção e de acompanhamento que facilita a operacionalização de uma rede transversal no território, uma vez que realmente é difícil administrar e criticar os problemas que aparecem no serviço, que se confundem ou requerem soluções, as quais exigem uma supervisão técnica e institucional sistemática para os profissionais envolvidos (Oliveira & Passos, 2012; Sampaio et al., 1998). Compreende-se a necessidade de capacitar psicólogos para atuarem na saúde pública, inclusive preparando-os e dando suporte para assumirem outras práticas numa perspectiva de atenção psicossocial, de forma a mitigar as angústias e inquietudes em relação à procura de 59 formação complementar e uma reflexão teórica mais apropriada em relação à prática (Jucá et al., 2010). Enfatiza-se, também, a reflexão permanente acerca do papel do psicólogo, tendo acima de tudo um senso de responsabilidade frente às inovações, aderindo às práticas inovadoras de atuação, as quais não deixam de vir com uma certa angústia e questionamentos por parte dos profissionais que seguem esse percurso individualmente. A transição do modelo tradicional para o psicossocial acontece de forma gradual e individual (Oliveira & Caldana, 2016), a partir das demandas e possibilidades de cada um dos territórios em que está inserido o CAPS. Reforça-se que o psicólogo, juntamente com toda a equipe multiprofissional, participa ativamente de ações com a rede assistencial, no matriciamento e contato com a Atenção Básica, no Núcleo de Atenção à Saúde da Família (NASF) e RAPS (Silva & Lima, 2017). Entende-se ainda que inserido nestes outros contextos, que não o consultório, o psicólogo necessita ampliar a visão de clínica. A clínica em saúde pública não pode se restringir à um modelo pronto e acabado, apresenta-se, na verdade, como um modelo com características variadas e sempre em construção. A idealização de um setting terapêutico deve estar pautada na noção de que deve ser uma construção de todos os sujeitos do CAPS (a equipe, os usuários e a instituição). Esse espaço terapêutico deve levar em consideração a singularidade do sujeito, que é importante no tratamento, e não desconsiderar os fatores coletivos em que o indivíduo está inserido. Propõe-se o cuidado de não cair na armadilha do radicalismo, oferecendo uma terapêutica obsoleta para os moldes de uma Clínica do CAPS, e nem de salvação ou resolubilidade dos problemas mentais do sujeito, numa lógica de eficácia, ou do poderio dos especialismos, mas sim o quanto as atividades fazem parte de um contexto clínico, sendo mediadora do tratamento do usuário do CAPS, fortalecendo sua autonomia frente ao cuidado 60 de si e a formulação de um setting terapêutico que ultrapasse as singularidades apenas, mas que leve em consideração os espaços de vivência do usuário. E isso independe da abordagem teórica utilizada (não necessariamente clínica), as quais proporcionam uma visão de homem, que possibilita dialogar com a realidade na qual o indivíduo está inserido, seu cotidiano e o próprio indivíduo. Isto é, dialogar com a complexidade dos transtornos, que significa ir muito além do que apenas o diagnóstico e os sintomas dizem, mas como é o “funcionamento” do sujeito, que se espera ser produtivo em sociedade. Outra concepção a ser discutida aqui, volta-se para a classificação dos sujeitos e de suas doenças na atenção estabelecida, consistindo em um questionamento que se faz acerca da necessidade da conceituação e da normatização absoluta e estatística do sujeito que sofre (Pereira, 2007). Mas esse é um fator que, mesmo que contraditório, sofre prerrogativas institucionais, que regem as atuações e que precisa, de certa maneira, “rotular” o paciente que fica agregado a um código de um manual, e que seu tratamento, seu acompanhamento e sua atenção devem estar vinculadas a isso. Questiona-se, portanto, em que medida essa atenção visa de fato, ou tem de fato, um caráter psicossocial, de ver o sujeito sob os seus mais diversos aspectos, valorizando o contexto que o usuário está inserido e não priorizar um modelo único de ver e entender o sujeito. É o que Rohrbacher (2014) questiona, o motivo dos Centros de Atenção Psicossocial terem essa nomenclatura, se o usuário é restrito, em seu Projeto Terapêutico Singular, ao “transtorno mental”, levando a crer que o tratamento psicossocial girará em torno de uma visão chamada mental. A medicação, nesse sentido e no sentido do CAPS, assume um fator preponderante, não deixando de ter importância no tratamento, mas não atende única e exclusivamente os outros fatores envolvidos nesse mal-estar da subjetividade. Mesmo a medicalização, quando prescrita, tem um mínimo de sentido e significado para o paciente, porque assim poderá 61 compreender em que contexto maior sua problemática está inserida. Isso dá subsídios ao usuário de compreender a significância de um tratamento medicamentoso, que pode estar alinhado às outras terapêuticas, que são fundamentais na superação ou ressignificação do seu sofrimento. Nessa lógica, as outras terapêuticas utilizadas pelos CAPSs são importantes, à medida que realmente assumem sua função terapêutica, e não apenas como preenchimento do tempo “ocioso” do usuário no CAPS. Essas terapêuticas devem ser pensadas em conjunto com o usuário e sua família, a fim de se tornar palpável e significativo para ambos, para que possa haver uma maior adesão e aceitação do acompanhamento e tratamento do usuário. Como espaço criativo, o CAPS deveria assumir um papel inovador de adequação às necessidades da comunidade, do território e do usuário, reafirmando-se como espaço de acolhimento, ressocialização e de respeito às intersubjetividades. Ao CAPS exige-se que assuma posturas que transcendam a visão das patologias reais e do modelo biomédico. Deve assumir uma atitude potencializadora na sociedade e delinear suas práticas em consonância com os princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica. Isso se estende para as práticas dos profissionais, aos quais se exige um grande esforço para ressignificar sua atuação muito além daquelas que fragmentam o sujeito, buscando formas inovadoras que superem as autenticações tradicionais de atuação. Essa mudança de postura deve ser constantemente avaliada para dar um feedback para os principais beneficiados e os indiretamente beneficiados por ele. Essa avaliação permite uma melhor compreensão se as práticas estão em consonância com o que se apregoa na Reforma Psiquiátrica, principalmente, quando se exige que CAPS e profissionais mudem sua forma de atuação. 62 3. OBJETIVOS: 3.1 Geral: Verificar se a atuação dos psicólogos no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) está em consonância com os ideais da Reforma Psiquiátrica. 3.2 Específicos: Elaborar um perfil técnico-profissional do psicólogo no CAPS. Identificar as práticas realizadas pelos psicólogos nos CAPSs. Discutir as práticas realizadas com as propostas da Reforma Psiquiátrica. Caracterizar possíveis práxis inovadoras dos psicólogos nos CAPS. 63 4. MÉTODO 4.1. Delineamento do estudo Trata-se de uma pesquisa de levantamento, do tipo descritiva, de abordagem multimétodoquantitativa e qualitativa. 4.2. Amostra No Brasil existem cadastrados pelo CFP um total de 341.233 psicólogos (as) e como não existe uma estatística sobre a quantidade de profissionais que trabalham em CAPS, optou- se por realizar um cálculo amostral na probabilístico por conveniência. A partir dessa informação, realizou-se um cálculo amostral, com margem de erro 5% e nível de confiabilidade de 95%, resultando numa possível mostra de 181 profissionais que poderiam participar da pesquisa. A pesquisa foi composta por 104 psicólogos que atuam ou atuaram em Centros de Atenção Psicossocial, de todas as modalidades (CAPS Geral, CAPS Álcool e outras drogas e CAPS Infantil), nas diferentes regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste), de ambos os sexos, identificados no decorrer da parte discursiva, na análise de dados, pela letra “A” seguida de um número, utilizado a partir da ordem de resposta dos questionários (Ex.: A3, A12, A65). 4.3. Instrumentos Utilizou-se um questionário (Apêndice A) com questões fechadas e algumas abertas sobre os mesmos tempos abordados nas questões fechadas. Baseou-se em uma pesquisa realizada pelo CFP (2009), com adaptações feitas a partir de indicações de uma comissão de sete juízes experts, composta por psicólogos com experiência em CAPS (n = 5) e estudiosos sobre a Reforma Psiquiátrica (n = 2). Os juízes foram contatados por e-mail, por meio do qual foi enviado o questionário, que foi avaliado quanto à importância e contribuições dos itens, 64 suas dualidades e repetições, e sua conformidade com a realidade do CAPS e da Reforma Psiquiátrica. Avaliaram ainda a compreensão das expressões e das perguntas, fizeram atualização dos termos e inseriram práticas que não estavam contempladas no questionário. Após devolutiva, o questionário foi atualizado conforme orientação dos juízes, e abordou os seguintes temas: (1) dados pessoais (aspectos do perfil sociodemográfico); (2) formação complementar; (3) caracterização do trabalho; (4) modos de atuação profissional; e (5) avaliação da atuação profissional. Mais especificamente, descreveu-se os tipos de CAPS onde os participantes atuam, sua formação, vínculo contratual, teoria e abordagens utilizadas, qualificações teóricas e técnicas, forma de realização atividades - isoladas ou em equipe, adequação da composição da equipe que compõe o CAPS, realização de trabalho interdisciplinar, operacionalização do Projeto Terapêutico Singular, instrumentos e recursos produzidos e utilizados, avaliação da estrutura física e da supervisão clínico-institucional, e avaliação dos desafios e questões voltadas para os princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica (desinstitucionalização, território e comunidade, família, matriciamento, empoderamento, autonomia, etc). 4.4. Procedimentos de coleta de dados Após a elaboração do instrumento de pesquisa, ele foi inserido na plataforma Google Drive. Após isso, realizou-se a divulgação durante os meses de janeiro a abril de 2018 por meio de perfis criados em redes sociais on-line Facebook, Whatsapp e E-mail. As mensagens eram enviadas diariamente, alternando as redes sociais. Além disso, foram enviados, uma única vez, e-mails de solicitação de parceria junto aos CRPs do Brasil, com o parecer do comitê de ética e o projeto de pesquisa, a fim de divulgar a pesquisa nos respectivos sites. 65 Contou-se com o apoio e divulgação dos Conselhos Regionais de Psicologia e profissionais do CAPS, que participaram ativamente da pesquisa. 4.5. Análise dos dados Os dados qualitativos (questões abertas) foram compreendidos por meio de Análise de Conteúdo de Bardin (Bardin, 1977; Silva & Fossá, 2015), os quais passaram pelo crivo de três juízes, compostos pela pesquisadora, orientadora da pesquisa e pesquisador de iniciação científica, que alimentou o banco de dados e realizou a análise inicial. Após isso, os dados qualitativos foram analisados pela pesquisadora com base nas questões fechadas e na literatura relacionada. Já os dados quantitativos foram analisados por meio de estatística descritiva e bivariada, com apoio do software estatístico SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 22. 4.6. Aspectos éticos O projeto seguiu as diretrizes éticas propostas para pesquisa com seres humanos pelas resoluções 466/2012 e 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde. Foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, sob parecer Nº 2.383.242 (Anexo A), em 16 de novembro de 2017. 5 RESULTADOS E DISCUSSÕES Apresenta-se neste tópico os resultados da pesquisa, abordando dados de seis aspectos: sociodemográfico, formação complementar, caracterização do trabalho no CAPS, atuação profissional, contexto de trabalho e avaliação da atuação profissional. 66 5.1 – Dados Sociodemográficos A pesquisa contou com 104 participantes, que atuam em 19 estados brasileiros, sendo a maioria do Ceará (f = 26; 25,00%) e de São Paulo (f = 20; 19,20%). A maioria é do sexo feminino (f = 89; 85,60%). Possuem em média 35,58 anos (DP = 9,90), com idades variando entre 24 e 63 anos. Um maior número significativo de participantes apontou ter trabalhado em outros locais além do CAPS (f = 87; 83,70%), como clínica (f = 24; 15,50%), hospital (f = 19; 12,30%), Centro de Referência de Assistência Social – CRAS (f = 14; 90,00%) e Centro de Referência Especializado em Assistência Social – CREAS (f = 10; 6,50%). Atuam predominantemente no interior (f = 61; 58,70%) e trabalham em CAPS em média há 5,05 anos (DP = 5,34) (ver Tabela 2). Frequência Porcentagem Sexo Homem f = 15 14,40% Mulher f = 89 85,60% Já trabalhou em outros locais além do CAPS? Sim f = 87 83,70% Não f = 17 16,30% Estado onde trabalha Ceará f = 26 25,00% São Paulo f = 20 9,20%. Outros f = 58 44,20% Localização da cidade onde trabalha Capital f = 24 23,10% Interior f = 61 58,70% Região f = 19 18,30% 67 Metropolitana Tabela 2. Dados sociodemográficos da amostra Tais dados são congruentes com a literatura. Uma pesquisa semelhante realizada pelo CFP (2009) sobre o perfil dos psicólogos do CAPS contou com 382 psicólogos, destes 82,70% eram mulheres. Igualmente, uma pesquisa realizada pelo CFP (2013) acerca de “Quem são as psicólogas brasileiras?” também sinalizou a predominância de mulheres (89%) na profissão de Psicologia, destas 45% na área da saúde. Outras pesquisas realizadas sobre as atividades nos CAPSs também tiveram a preponderância de mulheres participantes (Borges et. al., 2018; Lara & Monteiro, 2013; Macedo & Dimenstein, 2012; 2013; 2016; Nunes, Torres, & Zanotti, 2015; Oliveira & Caldana, 2014, 2016; Ribeiro & Bezerra, 2015). A literatura justifica ainda a predominância de psicólogos respondentes atuando em CAPS do interior. Essa primazia pode estar relacionada à possibilidade do crescimento do número de profissionais em cidades metropolitanas e no interior. Isso porque acontece no Brasil um forte movimento de interiorização da profissão, viabilizando a contratação dos psicólogos por dispositivos da área da saúde, inclusive dos CAPSs (Macedo & Dimenstein, 2011). Práticas essas que tendem a ser relativamente duradouras. Quanto ao tempo de atuação nos CAPSs, pesquisas já realizadas apontam que o tempo de permanência dos profissionais de Psicologia tem um média de dois a 15 anos (Macedo & Dimenstein, 2012). A investigação realizada pelo CFP (2009) mostra que 38,10% dos psicólogos do Brasil que atuavam em CAPS trabalhavam há pelo menos dois anos no serviço, e que 61,90% trabalhavam acima desta média. De modo semelhante, a pesquisa feita por Lara e Monteiro (2014) encontrou uma média de 3,38 anos de permanência (DP=3,07), e Oliveira e 68 Caldana (2014; 2016) detectaram três meses a 12 anos de continuação dos psicólogos nos CAPSs. 5.2 – FormaçãoComplementar A maioria dos psicólogos respondentes referiu ter cursado o nível superior em instituição privada (f = 75; 72,10%), estando formados em média há 10,26 anos (DP = 8,49) (ver Tabela 3). Dados esses bastante variáveis na literatura: dois a cinco anos (Lara & Monteiro, 2014), 10 anos (Macedo & Dimenstein, 2016) e cinco a 25 anos (Oliveira & Caldana, 2014, 2016). Afirmam possuir pós-graduação (f = 79; 76,00%), entre especialização, mestrado ou doutorado. Uma parcela minoritária deles tem algum título de especialista concedido pelo CFP (f = 17; 16,30%), em temas como Psicologia Clínica (f = 08; 42,10%), Psicologia Social (f = 01; 0,90%), de Trânsito (f = 01; 0,90%), Hospitalar (f = 01; 0,90%), em Saúde (f = 01; 0,90%). Foram mencionados ainda outros títulos que não constam na lista do CFP, tais como de saúde mental (f = 2; 10,50%), dependência química (f = 1; 5,30%) e educação especial em deficiência física (f = 1; 5,30%) e Psicoterapia na Análise do Comportamento (f = 1; 5,30%). Contempla-se, todavia, que muitos dos entrevistados relataram não possuir formação específica em saúde mental e/ou saúde coletiva (f = 60; 56,60%) (ver Tabela 3). Frequência Porcentagem Instituição de ensino superior de formação Pública f = 75 72,10% Privada f = 29 27,90% Possui título profissional de especialista concedido pelo CFP Sim f = 17 16,30% Não f = 87 83,70% 69 Possui pós- graduação Sim f = 79 76,00% Não f = 25 24,00% Nível de escolaridade Graduação f = 23 22,10% Especialização f = 65 62,50% Mestrado f = 14 13,50% Doutorado f = 2 1,90% Possui formação específica em saúde mental e/ou saúde coletiva Sim f = 43 40,60% Não f = 60 56,60% Tabela 3. Formação complementar da amostra No geral, avaliam sua formação acadêmica para atuar em CAPS de forma satisfatória (f = 48; 46,20%) ou muito satisfatória (f = 19; 18,30%). A exemplo, o participante A12 relatou que sua graduação contribuiu de maneira parcial para sua formação em saúde mental, com algumas disciplinas teóricas e práticas que o aproximaram mais da realidade vivenciada hoje por ele, conforme relata: Mediana, contudo, durante a graduação havia uma disciplina de prática integrativa em que o aluno poderia optar pelo campo de pesquisa. Escolhi um CAPS AD, pois sentia necessidade de me apropriar nesse campo, já que na graduação não é dado um enfoque à questão da saúde mental em si, mas algumas disciplinas foram importantes como políticas públicas, Psicologia da saúde, Psicologia institucional, Psicopatologia psicanalítica (A12). Apenas uma pequena parcela afirma ter tido uma formação insatisfatória (f = 28; 26,90%) ou muito insatisfatória (f = 2; 1,90%) E uma pequena parcela não respondeu (f = 07; 70 6,70%). Para alguns desses participantes a formação acadêmica, mesmo incipiente, não impediu a procura de uma formação em prol de uma melhor atuação profissional, conforme observa-se no participante A65. Na minha formação acadêmica, tive conhecimentos básicos na área de psicopatologia. Houve na faculdade falta de conhecimentos e habilidades específicas para a atuação na política de saúde mental, por ser uma atuação nova do psicólogo. Porém os cursos, encontros, leitura de livros, artigos, reunião com a equipe interdisciplinar e a identificação com as práticas e políticas de saúde mental me ajudaram a construir a minha atuação profissional (A65). Observa-se, portanto, que, apesar dos participantes terem um tempo médio de atuação de 10 anos e possuírem em sua maioria pós-graduação ou algum título de especialista pelo CFP, há uma parcela de profissionais sem formação específica para o CAPS, em saúde mental ou saúde coletiva; e ainda assim apresentam satisfação quanto a sua formação na faculdade. Tais dados divergem de pesquisas disponíveis na literatura que denunciam uma problemática na formação acadêmica de Psicologia, considerada defasada, com constantes relatos de insatisfação de egressos com o que aprenderam na faculdade (Cantele & Arpini, 2017; Cantele et al., 2012; CFP, 2009; 2013; Larentis & Maggi, 2012; Macedo & Dimenstein, 2013; 2016; Mota & Costa, 2017; Pinho et al., 2018). Acredita-se, portanto, que a presente pesquisa pode ser resultado de um movimento de mudanças nos currículos acadêmicos. Presencia-se hoje a obrigação de inclusão de ênfases curriculares e atividades práticas, o que facilita a aproximação dos estudantes com os diversos campos de atuação do psicólogo, dentre eles o CAPS (Macedo & Dimenstein, 2011; Mota & Costa, 2017; Oliveira & Caldana, 2016). 71 Mudanças defendidas por Cantele et al. (2012), que retratam a necessidade de mudar a atual formação profissional voltada primordialmente para as práticas clínicas tradicionais, não os preparando para atuações comunitárias, e Cantele e Arpini (2017), que reafirmam que a Psicologia, enquanto formação, precisa repensar o seu lugar. De modo complementar, a pesquisa do CFP (2009; 2013) reforça que há a necessidade dos cursos prepararem melhor o profissional para atuarem em CAPS, oferecendo cursos de formação continuada, treinamentos, espaços para discussão, estágios, supervisões, entre outras formas que ampliem suas práticas. Reforça-se ainda a necessidade de formações adequadas no que concerne à atenção às crises, indicando caminhos (Lara & Monteiro, 2014; Pinho et al., 2018), e voltada para a reabilitação psicossocial (Mota & Costa, 2017), transcendendo uma perspectiva curativista e tradicional. Isso porque existe uma limitação dos currículos, e mesmo assim, aqueles que atendem aos requisitos de ensino em saúde mental, a despontencializam como um campo político-reinvidicatório, e desconsideram temas como Reforma Psiquiátrica, Luta Antimanicomial e a Atenção Psicossocial, abordando apenas uma perspectiva de psicopatologia tradicional (clínica, psicoterápica e medicalizadora) (Macedo & Dimenstein, 2016) e classificatória. Mesmo aqueles que possam ter tido uma formação em saúde mental, as práticas adotadas costumam ser voltadas para o molde tradicional (Macedo & Dimenstein, 2013). A graduação é um espaço de desenvolvimento de habilidades e atitudes para atuação político social do psicólogo, considerando temas que abordem a realidade da saúde mental do país tal como ela é e como ela pode melhorar. Assim sendo, a graduação consiste em um espaço de promoção de atuações prováveis para os psicólogos, adequando o que se ensina à realidade vivenciada nos serviços, além dos fatores culturais e regionais, facilitando a compreensão dos processos coletivos e o saber-fazer-agir numa perspectiva social e da saúde. 72 Esse ensino teórico e metodológico visa a necessidade real percebida pelo profissional da situação vivenciada pelo usuário, e formar profissionais para lidar com essas dinâmicas do cotidiano exigido pelo serviço de saúde. É daqui que se entende que há a necessidade de uma formação complementar, uma vez que permite ao profissional uma atenção mais eficaz e uma promoção da reinserção social aos usuários e dentro dos princípios da Reforma Psiquiátrica (Larentis & Maggi, 2012). 5.3 – Caracterização do Trabalho no CAPS Dentre os tipos de CAPS que os participantes relataram trabalhar, há uma predominância de atuação no CAPS do tipo I (f = 33; 31,70%), seguido pela atuação em CAPS do tipo II (f = 30; 28,80%) e em terceiro lugar o CAPS AD II (f = 16; 15,40%). A maioria trabalha 40 horas (f = 37; 35,60%). Quanto ao vínculo contratual dos psicólogos respondentes, a maioria atua em regime estatutário (lei 8112) (f = 29; 27,90%), seguidos de vínculo celetista (f = 28; 26,90%) e por meio de contrato (f = 24; 23,10%) (ver Tabela 4). Frequência Porcentagem Em qual tipo de CAPS você trabalha CAPS I f = 33 31,70% CAPS II f = 30 28,80% CAPS III f = 11 10,60% CAPS i II f = 09 8,70% CAPSi III f = 02 1,90% CAPS AD II f = 16 15,40% 73 CAPS AD III f = 03 2,90% Qual o seu principal vínculo contratual no CAPS CELETISTA f = 28 26,90% CONTRATO f = 24 23,10% ESTATUTÁRIO f = 29 27,90% RESIDÊNCIA f = 02 1,90% TEMPORÁRIO f = 15 14,40% VOLUNTÁRIO f = 02 1,90% OUTRO f =0 4 3,80% Tabela 4. Caracterização do Trabalho no CAPS Os elementos apresentados na Tabela 4 ratificam os dados sobre a crescente presença dos psicólogos nos CAPSs, já que desde o período do final da década de 1970 e início de 1980 aumentou a inserção dos psicólogos na área da saúde, nos três níveis de atenção, com uma porcentagem acima da mediana em relação aos outros profissionais de saúde, apresentando uma taxa de crescimento de 21,47% por todo o Brasil (Dias & Silva, 2016). A predominância de psicólogos trabalhando em CAPS do tipo I - indicado para locais com população acima de 20 mil habitantes (Mota & Costa, 2017), e do tipo II - para população acima de 50 mil habitantes (MS, 2005), reafirmam a interiorização dos CAPSs e dos profissionais de saúde. A literatura sinaliza igualmente que a carga horária de trabalho mais comum entre os psicólogos do CAPS é de 40h, com vínculo de contrato via regime estatutário – servidores 74 públicos (Macedo & Dimenstein, 2012, 2016), sendo esse formato a realidade de 39,40% dos psicólogos do Brasil (CFP 2009; 2013). Contempla-se, todavia, que o regime celetista ficou em segundo lugar na porcentagem de respostas da presente pesquisa, caracterizando uma realidade existente em muitos lugares, onde a contratação acontece por outros meios que não via concurso público. Falta de vínculo estável presente em muitos serviços públicos de saúde, que gera um alto nível de rotatividade dos profissionais, consequente deficiência na formação continuada e é um dos fatores intervenientes nos processos e relações de trabalho no CAPS (Lara & Monteiro, 2013; Pinho et al., 2015). 5.4 – Modus de Atuação Profissional Quanto ao modus de atuação profissional, os psicólogos respondentes puderam responder duas questões relacionadas ao uso de teorias na prática do CAPS: uma discursiva sobre “Que teoria utiliza para embasar o trabalho?”; e uma questão objetiva com “Marque as principais teorias que dão suporte ao seu trabalho no CAPS”. Observou-se, na pergunta discursiva, que algumas das bases teóricas mais comumente utilizadas pelos profissionais psicólogos do CAPS são voltadas para as escolas/abordagens clássicas da Psicologia, estando as teorias mais gerais sobre saúde mental e coletiva em segundo plano: Psicanálise (f = 32; 23,70%), Terapia Cognitivo Comportamental (f = 19; 14,10%), Psicologia Social (f = 10; 7,40%), Gestalt-Terapia (f = 08; 5,90%), Saúde Mental (f = 07; 5,20%), Teoria Comportamental (f = 06; 4,40%), Humanista (f = 05; 3,70%), Saúde Coletiva (f = 05; 3,70%), Fenomenológica-Existencial (f = 05; 3,70%), seguido de outras abordagens mencionadas com menor frequência (ver Figura 3). Na pergunta objetiva4, observou-se que o resultado 4 Ressalta-se que neste tópico os participantes tiveram a oportunidade de marcar mais de uma opção de resposta e, devido a isso, a porcentagem somatória não equivale a 100%. 75 apresenta-se controverso ao da primeira, em que as teorias em Saúde Mental (f = 85; 81,73%), Políticas Públicas de Saúde (f = 68; 65,38%), teorias em Saúde Pública (f = 56; 53,84%), teorias em Saúde Coletiva (f = 50; 48,07%), abordagem a partir do referencial da Psicologia Social (f = 49; 47,11%), apresentam-se em maior frequência, seguidas das teorias clássicas da Psicologia como abordagem de base psicanalítica (f = 47; 45,19%), abordagem de base humanista e de base comportamental (f = 36; 34,61% cada), abordagem de base cognitivista (f = 30; 28,84%), entre outras mencionadas em menor frequência. 23,70 14,1 7,4 5,95,2 4,4 3,7 3,7 3,7 28,2 TEORIA MAIS UTILIZADA Psicanálise Terapia Cognitivo Comportamental Psicologia Social Gestalt-Terapia Saúde Mental Teoria Comportamental Humanista Saúde Coletiva Fenomenológica-Existencial outras Figura 3. Teorias utilizadas pelos psicólogos do CAPS 76 Em um item discursivo no qual foi pedido aos profissionais que descrevessem as atividades realizadas nos CAPSs, observou-se a prevalência de atendimentos individuais, grupais ou com familiares (f = 87; 83,65%), acolhimento (f = 49; 47,11%), visitas domiciliares ou institucionais (f = 45; 43,26%), oficinas (f = 34; 32,69%), coordenação de grupos terapêuticos (f = 33; 31,73%), matriciamento (f = 28; 26,92%), psicoterapia individual (f = 24; 23,07%), entre outros. Posteriormente, eles responderam essa mesma pergunta com 53 opções de respostas5, surgindo predominante a seleção do acolhimento (f = 98; 94,23%), assistência individual ou grupal a familiares (f = 93; 89,42%), escuta (f = 92; 88,46%), discussão de casos com a equipe (f = 91; 87,50%), atendimento a pessoas em crise (f = 90; 86,53%), orientação à familiar/cuidador de pessoa com transtorno mental (f = 89; 85,57%), visitas domiciliares (f = 86; 82,69%), atividades ligadas à promoção de saúde, elaboração do Projeto Terapêutico Singular e preenchimento/evolução de prontuários (f = 82; 78,84%), discussão de casos com profissionais e grupos terapêuticos (f = 81; 77,88%), psicoterapia individual com usuário (f = 80; 76,90%), elaboração de laudos/relatórios (f = 77; 74,03%), avaliação inicial (f = 74; 71,15%), apoio matricial (f = 72; 69,23%), festas (f = 70; 67,30%), reuniões com profissionais da rede de atendimento do município/estado (f = 67; 64,42%), grupos (f = 65; 62,50%), avaliação psicossocial (f = 64; 61,53%), trabalho interdisciplinar (f = 61; 58,65%), passeios, redução de danos – avaliação de riscos e/ou vulnerabilidade (f = 59; 56,73%), oficinas terapêuticas, de trabalhos manuais ou outras (f = 58; 55,76%), atividades/ações comunitárias (f = 55; 52,88%), psicoterapia de grupo e redução de danos – atividade de orientação de uso de substância (f = 54; 51,92%), palestras em oficinas de capacitação de profissionais de saúde/agentes multiplicadores (f = 53; 50,96%), palestras 5 Ressalta-se que neste tópico os participantes tiveram a oportunidade de marcar mais de uma opção de resposta e, devido a isso, a porcentagem somatória não equivale a 100%. 77 sobre saúde mental na comunidade (f = 51; 49,03%), dentre outros mencionados em menor frequência. Entre os objetivos de suas atividades diárias, os psicólogos respondentes destacaram a reinserção social (f = 36; 17,80%), o tratamento psicoterapêutico e a melhora das condições de vida (f = 35; 17,30%), e o desenvolvimento de autonomia e empoderamento (f = 20; 9,90%). Além disso, as ações estão voltadas para atividades grupais, psicoterapêuticas, operativas, lúdicas (f = 91; 16,60%), assistência/tratamento psicológico individual (f = 84; 15,40%) e promoção da saúde (f = 83; 15,20%). A literatura revela que o uso das abordagens teóricas que foram apresentadas pelos participantes, desde escolas de linha tradicional até abordagens contemporâneas voltadas aos princípios da Reforma Psiquiátrica, tais como as de saúde mental e de saúde coletiva, corrobora com pesquisa feita pelo CFP (2009), que também não teve consenso exclusivo de uso de abordagem teórica, mostrando que havia uma pluralidade de abordagens, com maior incidência de referenciais psicanalistas, social e de base comportamental. Em outras pesquisas, também, ressaltaram a preferência para teorias de base psicanalítica e comportamental (Larentis & Maggi, 2012; Lara & Monteiro, 2014), bem como as de base humanista-fenomenológica (Macedo & Dimenstein. 2016). Pode ser que essas perspectivas teóricas e técnicas de atuação mencionadas estejam relacionadas com as atividades comumenterealizadas nos CAPSs, tais como os atendimentos individuais, grupais e familiares, destaques na presente pesquisa e na literatura (Lara & Monteiro, 2014; Larentis & Maggi, 2012; Mota & Costa, 2017). Observa-se que há uma articulação entre as teorias, pois aparecem de forma combinada nos atendimentos e nas propostas de atividades. A realização destas atividades como foco principal de atuação aparece como uma divergência entre o discurso dos 78 profissionais e suas práticas, que relataram se sentir mais à vontade no molde de atendimento individual, com alguns pacientes (Macedo & Dimensteis, 2013). O que leva à discussão de que há a necessidade da superação da prática de atendimento individual como forma principal de atuação, ressignificando a prática psicológica, fazendo uma reflexão permanente sobre o papel profissional e o senso de responsabilidade para criar outras possibilidades de atuação (Cantele & Arpini, 2017; Larentis & Maggi, 2012; Oliveira & Caldana, 2016), visando um trabalho de corresponsabilização, para evitar a prática do cuidado de maneira fragmentada, estigmatizada ou disfuncionalidades na dinâmica familiar (Lara & Monteiro, 2014). Os resultados, também, mostram que a maioria dos trabalhos realizados dentro dos CAPSs é realizado em equipe (f = 83; 79,80%) (ver Tabela 5), consistindo em um ponto positivo para melhor atender aos usuários (Lara & Monteiro, 2014). Há a presença de equipe técnica mínima no serviço da maioria dos CAPSs dos entrevistados (f = 78; 75,00%) (ver Tabela 5). Além disso, 25 participantes (24,00%) afirmaram que existem outros profissionais atuando, além da equipe mínima de referência, tais como: farmacêutico (f = 08; 14,80%), fonoaudiólogo (f = 05; 9,30%), enfermeiro (f = 02; 3,70%), nutricionista (f = 01; 1,90%), educador físico (f = 01; 1,90%), acompanhante comunitário (f = 01; 1,90%), agente territorial (f = 01; 1,90%), massoterapeuta (f = 01; 1,90%), musicoterapeuta (f = 01; 1,90%), monitor (f = 01; 1,90%) e prescritor (f = 01; 1,90%). Frequência Porcentagem O CAPS em que você trabalha possui equipe técnica Sim f = 78 75,00% Não f = 26 25,00% 79 mínima No CAPS que você trabalha, a maioria dos trabalhos que você realiza são Em equipe f = 83 79,80% Isolado f = 21 20,20% No CAPS que você atua, há um trabalho com as outras Redes Assistenciais em Saúde Sim f = 87 83,70% Não f = 17 16,30% O CAPS em que você atua possui ações voltadas para a expansão e consolidação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) Sim f = 63 60,60% Não f = 41 39,40% No CAPS, você Sim f = 80 76,90% 80 utiliza o Projeto Terapêutico Singular na Prática Não f = 24 23,10% Você produz ou já produziu algum instrumento, recurso ou material para sua atuação no CAPS Sim f = 60 57,70% Não f = 44 42,30% Tabela 5. Modus de Atuação Profissional Observou-se que existem profissionais além daqueles previstos na equipe mínima proposta pelo Ministério da Saúde, mostrando a necessidade de reformulação das diretrizes, bem como a ampliação das equipes de saúde. Essa necessidade está atrelada às peculiaridades do território, do cotidiano dos usuários e de seus familiares. Há a necessidade de aprimorar a qualidade dos serviços (Silva & Lima, 2017), com profissionais preparados para o tipo de demanda (Feitosa et al., 2012), sendo fundamental que a organização destas equipes de referência seja realizada de forma multiprofissional e interdisciplinar. Estas equipes são responsáveis por um determinado território, com projetos que abarquem o usuário e sua família, levando em consideração aspectos inerentes ao estabelecimento do PTS, tais como: a singularidade, recursos, apoio matricial e a participação de outros profissionais que se façam necessários (Santos et al., 2018). Da participação de outros profissionais no acompanhamento dos usuários, observa-se nos resultados aqui apresentados que os profissionais realizam trabalhos intersetoriais em 81 conjunto com outras redes assistenciais em saúde (f = 87; 83,70%) (ver Tabela 5), tais como Unidades Básicas de Saúde (f = 22; 10,60%), Atenção Básica (f = 16; 7,70%), CRAS (f = 13; 6,30%), Estratégia Saúde da Família (f = 12; 5,80%), CREAS e NASF (f = 10; 4,80% cada), hospital (f = 09, 4,30%), rede de urgência e emergência (f = 08; 3,90%), entre outros mencionados com menor frequência. Percebe-se que estes dados corroboram com pesquisa realizada por Leal e Antoni (2013), que mostra que as parcerias dos CAPSs são realizadas, na maioria das vezes, com as Unidades de Saúde, realizando articulação com estes serviços. Os participantes possuem ações voltadas para a expansão e a consolidação da Rede de Atenção Psicossocial (f = 63; 60,60%) (ver Tabela 5), tais como: matriciamento (f = 17; 24,30%); articulação e reuniões intersetoriais (f = 16; 22,90%); eventos de comunicações e discussões científicas sobre saúde mental (f = 06; 8,60%); articulação com a atenção básica (f = 04; 5,70%); atendimentos em parceria; PTS compartilhado e reuniões com organizações privadas e filantrópicas fora da RAPS (f = 03; 4,30%) (ver Figura 4). Os dados apresentados não corroboram, por exemplo, com pesquisa realizada por Lara e Monteiro (2013), em que pesou a dificuldade dos profissionais em se articular com a rede intersetorial. 24,30% 22,90% 8,60% 5,70% 4,30% 4,30% 4,30% 25,60% MATRICIAMENTO ARTICULAÇÃO E REUNIÕES INTERSETORIAIS EVENTOS SAÚDE MENTAL ARTICULAÇÃO COM A ATENÇÃO BÁSICA ATENDIMENTOS EM PARCERIA PTS COMPARTILHADO REUNIÕES COM ORGANIZAÇÕES FORA DA RAPS OUTRAS AÇÕES PARA EXPANSÃO E CONSOLIDAÇÃO DA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL Figura 4. Ações para expansão e consolidação da rede de atenção psicossocial. 82 No que concerne à formulação do Projeto Terapêutico Singular (PTS), os profissionais relataram fazer uso deste instrumento (f = 80; 76,90%) (ver Tabela 5). Os que afirmaram não poderem o utilizar (f = 24; 23,10%), justificam a inadequação das condições de trabalho proporcionadas pela gestão (f = 09; 32,10%), a indisponibilidade de carga horária para a execução do trabalho (f = 06; 21,40%), a insuficiência da articulação interna ou em rede (f = 05; 17,90%), a insuficiência do orçamento (f = 03; 10,70%), a insuficiência da capacitação e outras limitações técnicas (f = 02; 7,10%) e o desinteresse da equipe (f = 01; 3,60%). Entende-se que com todas estas dificuldades apresentadas, o PTS consiste em uma disposição de propostas que produzam reflexão, exigindo construção coletiva e ativando os recursos da comunidade e da rede socioassistencial, a fim de desfragmentar as ações de atenção e fortalecer a participação do usuário e da família. A inobservância deste tipo de proposta terapêutica, denunciada na literatura (Miranda et al., 2014) afeta o estabelecimento do vínculo do usuário com o serviço e com a equipe de saúde, uma vez que esse acontece no cotidiano dos encontros e é facilitado por esta relação entre usuário e equipe, além de se constituir como um processo que demanda tempo (Ferro et al., 2018; Leal & Antoni, 2013; Santos et al., 2018). Além do PTS, outras atividades de acompanhamento são realizadas pelos profissionais, fazendo uso de diferentes recursos e instrumentos de ação (ver Figura 5): material para entrevista e avaliação psicológica (f = 27; 14,40%); brinquedos e jogos (f = 23; 12,20%); equipamentos de reprodução de mídia digital e audiovisual (f = 16; 8,50%); escuta, atendimento individual ou dinâmicas de grupo (f = 15; 8,00%); material para atividades artísticas (f = 11; 5,90%); protocolos de atendimento e encaminhamento (f = 08; 4,30%) e recursos literários (f = 08; 4,30%), como igualmente referenciam Nunes, Torres e Zanotti (2015). Tais instrumentos são oriundos, em sua maioria, de doações ou aquisiçõesdos 83 próprios funcionários (f = 23; 27,10%); prefeitura ou outros recursos públicos (f = 19; 22,40%); e do próprio CAPS (f = 15; 17,60%). Além disso, a maioria dos psicólogos afirmaram produzir instrumentos, recursos ou materiais para atuarem no CAPS que trabalham (f = 60; 57,70%) (ver Tabela 5), sendo os mais produzidos: material de entrevista e avaliação e material pedagógico (f = 08; 11,60%); protocolos de atendimento e encaminhamento (f = 07; 10,10%); e brinquedos e jogos (f = 06; 8,70%), sendo esse último também produzido pelos participantes da pesquisa realizada por Larentis e Maggi (2012). A produção deste material pode estar atrelada à dificuldade de acesso aos recursos e instrumentos para atuação, exigindo, dos profissionais, estratégias que melhor favoreçam o dia a dia de trabalho. Pesquisas anteriormente realizadas denotavam essa dificuldade de os profissionais trabalharem devido à falta de recursos para atuação (CFP, 2009, 2013; Lara & Monteiro, 2013; Nunes et al., 2015). 84 14,40% 12,20% 8,50% 8,00% 8,00%5,90% 4,30% 4,30% 34,40% USO DE INSTRUMENTOS E RECURSOS MATERIAL PARA ENTREVISTA E AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA BRINQUEDOS E JOGOS EQUIPAMENTOS DE REPRODUÇÃO DE MÍDIA DIGITAL E AUDIOVISUAL MATERIAL BÁSICO DE ESCRITÓRIO E PAPELARIA ESCUTA, ATENDIMENTO INDIVIDUAL OU DINÂMICAS DE GRUPO MATERIAL PARA ATIVIDADES ARTÍSTICAS RECURSOS LITERÁRIOS PROTOCOLOS DE ATENDIMENTO E ACOMPANHAMENTO OUTROS Figura 5. Instrumentos e recursos utilizados pelos psicólogos no CAPS. 5.5 – Contexto de Trabalho A maioria dos participantes relatou possuir um lugar exclusivo para realizarem seu trabalho (f = 63; 60,60%) (ver Tabela 6). Os demais afirmaram atuar em salas compartilhadas com outros profissionais (f = 20; 29,40%) ou em espaços diversos dentro do CAPS que estejam disponíveis (f = 14; 20,60%), sendo mencionados ainda como espaços de atuação externos: instituições, rua, território, domicílio, entre outros. 85 Frequência Porcentagem Lugar exclusivo para realização do trabalho Sim f = 63 60,60% Não f = 41 39,40% Estrutura Física Boa f = 58 55,80% Ruim f = 46 44,20% Gestão participativa Sim f = 64 61,50% Não f = 40 38,50% Supervisão clínico - institucional Sim f = 20 19,20% Não f = 84 80,80% Programa de formação permanente Sim f = 22 21,20% Não f = 82 78,80% Gostaria de obter maiores qualificações teóricas e técnicas Sim f = 99 95,20% Não f = 05 4,80% 86 Conhecimento de novas práticas no CAPS Sim f = 36 34,60% Não f = 68 65,40% Tabela 6. Contexto de Trabalho No geral, a estrutura física do CAPS foi avaliada positivamente pela maioria dos participantes (f = 58; 55,80%), e obteve nota média 6,28 (DP = 1,97), em uma escala de pontuação de 1 a 10 (ver Tabela 6), assim como Leal e Antoni (2013) observaram em sua pesquisa. Ao mesmo tempo, os profissionais afirmaram que atribuíram esta nota média devido à falta de espaço ou número insuficiente de salas (f = 45; 19,70%), inadequação do espaço para as atividades realizadas ou falta de privacidade (f = 34; 14,90%), estrutura deteriorada (f = 29; 12,70%) e baixa condição de conforto (f = 18; 7,90%), conforme corroboram Silva e Lima (2017), reconhecendo que há falta de estrutura mínima requerida nos CAPSs da região pesquisada assim como em todo Brasil. Quanto ao clima de trabalho, parte das respostas o relacionou como adequado/excelente/satisfatório/ agradável (f = 83; 52%), mas ao mesmo tempo foram expostos alguns entraves: desentendimento quanto ao objetivo do trabalho ou dificuldade de trabalho em equipe (f = 21; 15,70%), assim como acham o clima de trabalho mediano (f = 08; 6,00%), tenso (f = 07; 5,20%), cansativo ou difícil (f = 07; 5,20%), inadequado (f = 02; 1,50%) e a posição de outros profissionais é privilegiada em relação à do psicólogo (f = 01; 0,70%). Paralelo a isto, observou-se que quando perguntado sobre como se sente no seu trabalho, surgiram relatos de sentimento de satisfação em relação ao trabalho (f = 76; 51,70%), assim como também os profissionais referiram encontrar-se cansados ou desgastados (f = 23; 15,60%) ou insatisfeitos com o trabalho (f = 19; 12,90%), entre outras 87 menções apontadas em menor frequência, como: divergente do restante da equipe (f = 08; 5,40%), impotente (f = 06; 4,10%), angustiado (f = 05; 3,40%), frustrado (f = 04; 2,70%), pressionada e desafiado (f = 02; 1,40% cada) e desvalorizado (f = 01, 0,70%). Os respondentes afirmaram ainda existir uma predominância de gestão participativa (f = 64; 61,50%), explicando que a equipe participa de reuniões para planejamento e execução de atividades (ver Tabela 6). Observou-se que não existe um apoio ao profissional por meio de supervisão clínico- institucional (f = 84; 80,40%) (ver Tabela 6). Frente esta realidade apresentada, é importante ressaltar que a Portaria GM nº 1174, de 07.07.05, no art. 2º, estabelece a supervisão clínica como uma das ações do Programa Qualificação dos CAPSs, mostrando a necessidade de os profissionais serem assistidos por um profissional que não trabalha no CAPS adscrito, em relação às atividades cotidianas do serviço e de atenção ao usuário. Diversas pesquisas têm sinalizado a importância da supervisão clínico-institucional como um suporte fundamental para que as ações sejam efetivadas de forma mais coerente com a realidade que se apresenta no território em que o CAPS se apresenta (Cantele & Arpini, 2017; CFP, 2013; Borges et al., 2018; Ferro et al., 2018; Nunes et al., 2015; Oliveira & Passos, 2012). Oliveira e Passos (2012) resolveram fazer uma análise por meio de dois dispositivos de supervisão clínico-institucional, levando em conta a equipe e o território, e constataram que a supervisão se apresenta como um dispositivo para a promoção de uma rede transversal que conectividade e de coletividade entre eles. Isso mostra que é necessário haver uma supervisão que aconteça de modo eficiente, facilitando uma discussão e uma reflexão acerca dos processos clínicos e institucionais (Borges et al., 2018). Esses processos acontecem na concretização dos atendimentos, em que pesa a necessidade de um respaldo estrutural para que os profissionais possam melhor articular o acompanhamento terapêutico de seus usuários 88 (Ferro et al., 2018). Todavia, a operacionalização dessas supervisões apresenta-se como um desafio, devido à falta de profissionais experientes (CFP, 2009, 2013; Mota & Costa, 2017). Também foi detectado inexistência de programa de formação permanente dos profissionais que trabalham nos CAPSs (f = 82; 78,80%) (Tabela 6). Deste modo, os profissionais alegam que procuram uma formação por iniciativa própria (f = 06; 24,00%) ou o fazem por intermédio dos cursos ofertados pela prefeitura ou pelo estado (f = 04; 16,00%). Por isso a maioria dos participantes afirma que gostaria de obter maiores qualificações teóricas e técnicas para o seu desempenho profissional (f = 99; 95,20%) (ver Tabela 6), sobre temas voltados para saúde mental, políticas públicas e atenção psicossocial (f = 15; 9,40%), redução de danos (f = 13; 8,20%), psicofarmacologia e sobre álcool e outras drogas (f = 12; 7,50% cada), psicopatologia (f = 10; 6,30%), sobre trabalhos com grupos (f = 09; 5,70%), atenção em contexto de crise ou urgência e emergência (f = 08; 5,00%), entre outros mencionados em menor frequência ou em apenas uma ocorrência (ver Figura 6). Essa necessidade apresentada pelos participantes mostra uma maturidade no sentido de entender que a falta de qualificação adequada é responsável por interferir na implantação da rede de saúde e saúde mental, e a Educação Permanente desenvolve o profissional para que atue de forma efetiva e eficaz (CFP, 2013); sendo a supervisão e a qualificação requisitosque visem uma lógica diferenciada de operacionalização. Palavras-chave: Centros de Atenção Psicossocial, Reforma Psiquiátrica, Saúde Mental, Atuação Profissional, Psicologia. 7 ABSTRACT From the Psychiatric Reform movement, services such as the Psychosocial Care Centers (CAPSs) have emerged, which constitute mechanisms for the construction of human dignity, based on actions and interventions that favor the process of social reintegration and autonomy of the individual with mental disorder in their territory, accompanied by a reference team, composed of different professional categories, among them the psychologist, who have a primary role in strengthening this process. Professionals who should have their praxis consistent with this model of mental health care. In view of the above, the present research aimed to verify if the actions of the psychologists of the CAPS are in harmony with the ideals of the Psychiatric Reform. For that, a quantitative, descriptive and survey approach was carried out at the national level. We counted on a non-probabilistic sample for convenience composed by 104 psychologists working in CAPS, in 19 Brazilian states. A questionnaire was used, with open and closed questions, addressing the subjects: personal data, complementary training, work characterization, professional work modes and evaluation of professional performance, disseminated via social networks. In the end, quantitative data were analyzed using descriptive statistics, with support from the Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) software, and the qualitative data were analyzed by Bardin's Content Analysis. As a result, it was observed that the majority were females, with a mean age of 35.58 years, formed 10.26 years ago and that predominantly work in the interior. The majority do not have specific training in mental health or collective health, work under statutory, clerk or contract. The most used theories are Psychoanalysis and Cognitive Behavioral Therapy, with less representation of contemporary theories directed towards Psychiatric Reform. They carry out individual attendance, group or family visits, reception and home visits or institutional visits. The objectives of daily activities in the CAPS are social reintegration, psychotherapeutic treatment and improvement of the living conditions and autonomy and empowerment. They work primarily as teams and together with other assistance networks, performing RAPS expansion and consolidation actions, such as: matrix support, articulation and intersectoral meetings. They perform the Singular Therapeutic Project, in addition to using other resources and instruments. They do not have clinical-institutional supervision, nor permanent training program. They do not know of innovative practices, but they affirm that their work is in convergence with the Psychiatric Reform. They perform actions in the territory, matrix support and mental health in Primary Care, and empowerment and autonomy. They mention difficulties and challenges in their practice. It is concluded that the psychologist can play an important role in the attention to users in the CAPS, by facilitating the transformation and re- signification of mental health care in order to achieve positive results and to pass on experiences that strengthen the work of your pairs. Keywords: Centers of Psychosocial Attention, Psychiatric Reform, Mental Health, Professional Work, Psychology. 8 LISTA DE ABREVIAÇÕES ACS AT Agente Comunitário de Saúde Acompanhamento Terapêutico CAPS Centro de Atenção Psicossocial CAPS AD Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas CAPS I Centro de Atenção Psicossocial Infantil (para crianças e adolescentes) CFP CRAS CREAS DP ESF GAM Conselho Federal de Psicologia Centro de Referência de Assistência Social Centro de Referência Especializado em Assistência Social Desvio Padrão Equipe Saúde da Família Gestão Autônoma da Medicação LEPP-Saúde Laboratório de Estudos e Práticas em Psicologia e Saúde MTSM Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental NAPS Núcleo de Atenção Psicossocial NASF Núcleo de Atenção à Saúde da Família PTS Projeto Terapêutico Singular PT RAS Partido dos Trabalhadores Rede de Atenção à Saúde RAPS Rede de Atenção Psicossocial RUE SENAD Rede de Atenção às Urgências e Emergências Secretaria Nacional de Política sobre Drogas SP SPSS São Paulo Statistical Package for the Social Sciences 9 SUS Sistema Único de Saúde TR Técnico de Referência UBS UNIFOR Unidade Básica de Saúde Universidade de Fortaleza MS Ministério da Saúde 10 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Profissionais integrantes da equipe do CAPS 34 Tabela 2 - Dados sociodemográficos da amostra 64 Tabela 3 - Formação complementar da amostra 66 Tabela 4 - Caracterização do trabalho no CAPS 70 Tabela 5 - Modus de atuação profissional 76 Tabela 6 - Contexto de trabalho 81 Tabela 7 - Avaliação da atuação profissional 88 11 LISTA DE FIGURAS Figura 1. Rede de Atenção Psicossocial 32 Figura 2. Rede de Atenção à Saúde Mental 36 Figura 3. Teorias utilizadas pelos psicólogos do CAPS 72 Figura 4. Ações para expansão e consolidação da rede de atenção psicossocial 78 Figura 5. Instrumentos e recursos utilizados pelos psicólogos no CAPS 80 Figura 6. Temas que os psicólogos carecem de qualificações teóricas e técnicas 85 12 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .............................................................................................................................. 14 1. REFORMA PSIQUIÁTRICA E POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE MENTAL: UM PARALELO DA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL E NACIONAL .................................. 20 1.1 Os movimentos internacionais de Reforma Psiquiátrica ................................................. 21 1.2 Reforma Psiquiátrica nacional ........................................................................................... 26 1.3 O Centro de Atenção Psicossocial no Brasil ......................................................................... 33 2 O PSICÓLOGO NOS CENTROS DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL – CAPS GERAL: INSERÇÃO E PRÁTICAS ........................................................................................................... 45 3. OBJETIVOS: ............................................................................................................................. 62 3.1 Geral: ..................................................................................................................................... 62 3.2 Específicos: ........................................................................................................................... 62 4. MÉTODO ................................................................................................................................... 63 4.1. Delineamento do estudo ............................................................................................................ 63 4.2. Amostra ..................................................................................................................................... 63 4.3. Instrumentos .............................................................................................................................. 63 4.4. Procedimentos de coleta de dados ............................................................................................. 64 4.5. Análise dos dados ...................................................................................................................... 65 4.6. Aspectos éticos ..........................................................................................................................para a construção de ações pautadas na transposição das práticas tradicionais em direção à uma ressignificação do fazer da Psicologia em saúde mental (Cantele & Arpini, 2017). 89 Figura 6. Temas que os psicólogos carecem de qualificações teóricas e técnicas Tais déficits apresentados acima podem justificar o fato de a maioria dos participantes afirmar não conhecer práticas inovadoras/novas práticas no CAPS (f = 68; 65,40%) (ver Tabela 6). Entre as práticas inovadoras conhecidas, foram citadas grupos ouvidores de vozes (f = 05; 10,40%), grupo de Gestão Autônoma da Medicação (GAM), matriciamento, mildfuness6, práticas de economia solidária e geração de renda (f = 02; 4,20%), entre outras mencionadas por apenas uma única vez na pesquisa (f = 01; 2,10%) como: ações com população em situação de rua, comunitárias e culturais; de promoção de cidadania; território; intersetoriais de educação popular em saúde; as ações elaboradas pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (SENAD); arte terapia; auriculoterapia; blocos carnavalescos; clínica ampliada; consultório de rua; dança circular; geoterapia; grupos terapêuticos; musicoterapia; práticas de ensino de cinema, fotografia, pintura e stop motion7; práticas integrativas; 6 Mindfulness consiste em maneira de exercitar a atenção plena no momento atual, sem julgamentos. 7 Stop Motion consiste em uma forma artesanal de produção de filmes, feita quadro a quadro. 90 psicanálise aplicada, reiki8, residência assistida; rodas e samba; suporte e ajuda mútua; terapia comunitária; trabalho em micro equipes. Entre as práticas inovadoras desenvolvidas com bons resultados, foram citadas: grupos terapêuticos, mindfulness e oficina de artes (f = 03; 4,20%), oficina de culinária, reiki (f = 02; 2,80%), e outras práticas mencionadas apenas uma única vez (f = 01; 2,10%) como: horta, implantação da estratificação de risco em saúde mental junto à Unidade Básica de Saúde (UBS), implantação do programa de volta para casa, inserção na escola e no mercado de trabalho, musicoterapia, objetividade nas informações e desburocratização do serviço e do atendimento, palestras em escolas, passeio no território e promoção de identidade cultural, práticas de geração de renda, práticas do SENAD, programa junto aos usuários de crack em situação de rua, projeto de prevenção ao uso abusivo de álcool e outras drogas, psicanálise aplicada, PTS, redução de danos, residência terapêutica, trabalho de prevenção com adolescentes, utilização da teoria da complexidade. Entende-se que o novo modelo de assistência em saúde mental exige dos profissionais de saúde, dentre eles o psicólogo, uma postura ampliada de atuação, própria da exigência do serviço a que presta, uma vez que o que está em evidência é a necessidade humana de saúde entrelaçada com as demandas do território e da coletividade em que o usuário está inserido. Observa-se, com isso, que várias foram as atividades mencionadas com bons resultados de aplicação, e citadas a partir de temáticas específicas. Desenha-se na atuação dos profissionais a aplicação de novas tecnologias de cuidado, redesenhando as práticas já desenvolvidas e reconstruindo o seu significado e a sua finalidade (Barros et al., 2007; Mota & Costa, 2017). Além disso, as práticas que visam ser inovadoras terão mais êxito caso se preocupem em 8 “Reiki é uma terapia complementar, caracterizado pela imposição das mãos no ser humano com objetivo de reestabelecer o equilíbrio, físico, mental e espiritual” (Freitag, Andrade, & Badke, 2015, p. 346). 91 responder as exigências e desafios diante das necessidades de intervenções individualizadas e do território adscrito (CFP, 2013). 5.6 – Avaliação da Atuação Profissional Quanto à avaliação da atuação dos psicólogos no CAPS, os participantes afirmaram que há mais convergência (f = 70; 67,30%) que divergência (f = 34; 32,70%) entre as práticas dos psicólogos e os princípios da Reforma Psiquiátrica (ver Tabela 7). Essas convergências estão intimamente relacionadas ao objetivo de ressocialização do sujeito e reabilitação psicossocial, buscando minimizar a frequência das internações e o uso de medicamentos. Para tanto, tenta promover a convivência social, por meio de um trabalho humanizado e voltado para as necessidades do usuário, envolvendo a participação desse no cuidado em saúde, em uma clínica ampliada e com acolhida extra-muros, em respeito aos direitos humanos. Frequência Porcentagem Há mais convergência ou mais divergência entre as práticas dos psicólogos do CAPS e os princípios da Reforma Psiquiátrica Sim. Há mais convergência. f = 70 67,30% Não. Há mais divergência f = 34 32,70% Sua prática no CAPS está voltada para as diretrizes da Reforma Psiquiátrica Sim f = 95 91,30% Não f = 09 8,70% Você realiza ações no Sim f = 76 73,10% 92 território da comunidade Não f = 28 26,90% Você realiza ações junto à família dos usuários Sim f = 97 93,30% Não f = 07 6,70% Você realiza ações de Matriciamento com a Atenção Primária em Saúde Sim f = 67 64,40% Não f = 37 35,60% Você realiza ações de saúde mental na Atenção Primária em Saúde Sim f = 57 54,80% Não f = 47 45,20% Você realiza ações de desinstitucionalização/inserção social do usuário Sim f = 73 70,20% Não f = 31 29,80% Você realiza ações de estímulo de empoderamento e autonomia do usuário Sim f = 93 89,40% Não f = 11 10,60% O CAPS que você atua contribui para a reorientação do modelo assistencial, de acordo com os princípios da Reforma Psiquiátrica Sim f = 88 84,60% Não f = 16 15,40% Tabela 7. Avaliação da Atuação Profissional No que concerne à divergência (f = 34; 32,70%) (ver Tabela 7), esta ocorre devido às concepções de alguns profissionais com visão biomédica, voltada para perspectivas 93 curativistas, com práticas clínicas tradicionais ou focadas em apenas uma perspectiva teórico- metodológico, conforme observa-se na resposta a seguir: Em razão de muitas práticas serem pedagógicas e voltadas para a readequação do sujeito dentro de uma perspectiva de cura e com foco na doença e no discurso médico psiquiátrico dos transtornos mentais e na valorização da medicalização como centro do tratamento. Ademais, prevalece dentro dessa super propagação da terapia cognitivo comportamental, que atualmente vem sendo valorizada pela Psiquiatria como única modalidade terapêutica, que apresenta resultados em que a singularidade, a história de vida e o funcionamento próprio do sujeito são desconsiderados, focando na mudança de crenças, em tarefas que estão fora do alcance de muitos usuários, o que pode ser desastroso para muitos casos (A5). Ao avaliar sua própria atuação, os psicólogos apontaram que suas práticas estão voltadas para as diretrizes da Reforma Psiquiátrica (f = 95; 91,30%) (ver Tabela 7), especialmente porque visam desconstruir a visão biomédica, trabalhar com o protagonismo do usuário e da família, ver a pessoa além do diagnóstico, ressocializar o indivíduo, respeitar o desejo e a liberdade do outro, vendo o sujeito como um ser biopsicossocial. Discussão semelhante observa-se em Oliveira e Caldana (2016), que discutem sobre a ampliação de práticas de cunho psicossocial em detrimento ao tradicional, demandando esforço por parte dos profissionais para exercê-las, mesmo que esta mudança aconteça aos poucos. Ainda assim, existem muitas dificuldades de sustentar e/ou operacionalizar a perspectiva psicossocial (Macedo & Dimenstein, 2016), embora os participantes dessa pesquisa afirmem 94 que suas práticas cotidianas atendam as diretrizes da Reforma Psiquiátrica, como observa-se a seguir: Visamos trabalhar com o protagonismo do usuárioe de sua família para amenizar o sofrimento, olhando as pessoas além de seus diagnósticos (A3). Porque é embasada nos princípios da reforma, autonomia, corresponsabilização, territorialização, trabalho em rede, etc (A6). Acredito muito que sim, tendo em vista que o poder público, representado pelo CAPS AD, e consequentemente por mim, olha para x usuárix (sic.) como alguém capaz, autônomo, com os mesmos direitos que qualquer outro, como o de liberdade de fazer suas escolhas na vida. Preconizo no meu dia a dia a ideia de que a pessoa que se apresenta a mim no CAPSs AD é mais uma pessoa com características únicas, como o de ter relação com substâncias psicoativas, da mesma forma que gosta de jogar bola. O que quero dizer é que o CAPS AD como dispositivo de apoio interdisciplinar tem plena condição de colaborar para a vida das pessoas que lá se vinculam, posto que podemos juntos desenvolver mudanças na própria sociedade, sendo esta, o próprio território (A12). “São práticas com ênfase na produção da subjetividade” (A15). Quando perguntados sobre as diretrizes e princípios da Reforma Psiquiátrica que os psicólogos mais trabalham, pode-se observar que existe uma predominância de citações sobre 95 uma atuação permeada pela autonomia (f = 16; 14,00%), reabilitação e reinserção social (f = 15; 13,20%) e desinstitucionalização (f = 12; 10,50%). Foram sinalizados ainda, com menor frequência, desmedicalização (Iglesias & Avelar, 2016) e território (f = 04; 3,50% cada), liberdade (f = 03; 2,60%), consolidação da rede, defesa dos direitos humanos, envolvimento da família no tratamento, integralidade, intersetorialidade, redução de danos, universalização e vínculo (f = 02; 1,80% cada), entre outros. Ribeiro e Bezerra (2015) observaram que o processo de reabilitação psicossocial pode ter como marca o resgate da autonomia, bem como a possibilidade de trocas sociais, recursos e afetos, facilitando a inserção social e o desenvolvimento de potencialidades, embora exista uma necessidade dos profissionais adquirirem uma maior apropriação do real significado de reabilitação psicossocial, e esta exige que saiam de uma posição confortável para uma terapêutica mais ativa, tendo um olhar ampliado ao valorizar os aspectos relevantes, como a dimensão social, subjetiva e a palavra (Ribeiro & Bezerra, 2015). Com a estruturação do modelo de cuidado, as estratégias de desinstitucionalização passaram a ser realizadas de modo articulado com outros equipamentos (Moreira & Campos, 2017), visando a atenção de forma mais integral e efetivando, inclusive, os outros princípios e diretrizes mencionados do parágrafo anterior. Desta maneira, espera-se que o psicólogo possa mudar a perspectiva de atenção à doença para atenção ao sujeito, visando uma reabilitação psicossocial e a promoção de autonomia (Iglesias & Avelar, 2016). Diante disso, os psicólogos apontaram que no CAPS onde atuam há a contribuição para a reorientação do modelo assistencial, conforme os princípios da Reforma Psiquiátrica (f = 88; 84,60%) (ver Tabela 7). Afirmam, pois, que realizam ações de desenvolvimento de autonomia e empoderamento e prestação de orientações (f = 04; 7,70% cada), além de outras ações mencionadas, a saber: acolhimento em crise, atendimento psicossocial, 96 desinstitucionalização, encaminhamento, estratégia de internação como última opção, promoção da participação de usuários e familiares nas atividades terapêuticas, promoção de debates e discussões, promoção de um espaço aberto a propostas de mudança no serviço, reabilitação e reinserção social e trabalho a partir do PTS (f = 02; 3,80% cada). Os psicólogos afirmaram realizar ações no território (f = 76; 73,10%) e junto às famílias dos usuários (f = 97; 93,30%) (ver Tabela 7). Estas ações no território da comunidade realizadas pelos psicólogos são: palestras (f = 16; 17,40%), ações em rede com outros serviços (f = 11; 12,00%), visita domiciliar (f = 10; 10,90%), ações em organizações e na comunidade (f = 08; 8,70%), apoio matricial (f = 06; 6,50%), ações de promoções de saúde mental (f = 05; 5,40%), ações culturais e passeios com os usuários (f = 04; 4,30% cada) e ações de psicoeducação (f = 03; 3,30%). Os trabalhos na comunidade, em sua maioria, são realizados com as famílias dos usuários, por meio de atividades grupais (f = 35; 22,00%), atendimentos individuais ou familiares (f = 30; 18,90%), prestação de orientações (f = 25; 15,70%) e visita domiciliar (f = 19; 11,90%). Nota-se que os participantes da pesquisa realizam ações territoriais, as quais são entendidas pela literatura, como necessária para atentar-se às necessidades da população adscrita (Iglesias & Avellar, 2016), e que se dão em espaços físicos com características singulares, de relação, de vínculos e organização própria, onde se desenvolve a vida cotidiana dos usuários e seus familiares (CFP, 2013). Dessa maneira, faz-se necessário uma articulação de ações técnicas como propostas e movimentos de reinserção dos usuários ao seu espaço territorial (Ribeiro & Bezerra, 2015), assim como as ações devem ser delineadas com base nas dificuldades e nos desafios enfrentados pela comunidade diariamente, em prol da busca e garantia de cidadania das pessoas envolvidas (CFP, 2013). Este trabalho no território constitui um desafio, causando, muitas vezes, desconfortos aos profissionais, uma vez que se deparam 97 com sofrimentos e condições sociais que extrapolam a forma de administrar as ações, que estão ao seu alcance (Iglesias & Avellar, 2016). Para sustentar estas ações territoriais, o psicólogo realiza um trabalho conjunto com outros profissionais, como o matriciamento com a Atenção Primária em Saúde realizada pelos participantes desta pesquisa (f = 67; 64,40%) (ver Tabela 7). Os tipos de ações de matriciamento mencionadas estão voltadas para discussões de casos (f = 20; 23,30%), reuniões de equipes (f = 18; 20,90%), visitas domiciliares (f = 08; 9,30%), entre outras que podem vir a ser realizadas em menor frequência. Enfatiza-se a importância deste tipo de ação como fator preponderante de atenção integral ao sujeito e como tecnologia de cuidado, mas ser proposta de modo adequado, para não cair na armadilha de empurrar o usuário de um lugar para outro, ocasionando uma fragmentação da assistência ao usuário e dos serviços (Iglesias & Avellar, 2016). Além das ações de matriciamento, os participantes afirmaram realizar atividades de saúde mental na Atenção Primária em Saúde (f = 57; 54,80%) (ver Tabela 7), como palestras (f = 09; 20,50%), matriciamento, discussão de casos e atividades em grupo (f = 04; 9,10% cada), encaminhamentos (f = 03; 6,80%) e ações de atendimentos compartilhados, promoção e prevenção, reuniões, roda de conversa e visita domiciliar (f = 02; 4,50% cada) e outras menos citadas pelos psicólogos. Quanto às ações de desinstitucionalização/inserção social do usuário (f = 73, 70,20%) (ver Tabela 7), citou-se que são realizados passeios (f = 07; 9,50%), acompanhamento no mercado de trabalho, cursos e oficinas (f = 06; 8,10%), ações voltadas para o desenvolvimento de autonomia e empoderamento (f = 05; 6,80%), ações culturais, acompanhamento familiar, acompanhamento terapêutico e inclusão de projetos além do CAPS (f = 04; 5,40%), entre outras ações. Os dados apontam que existem várias possibilidades de atuação nessa perspectiva, mostrando que o usuário não é um sujeito de 98 periculosidade ou visto apenas como “doente”, mas ser visto como um ser em “existência- sofrimento”, facilitando o processo de reconstrução do modo de viver de cada um deles (CFP, 2013). Observa-se que estas atividades mencionadas na pesquisa proporcionam a ressignificação e um novo olhar para o corpo social, assim como estimulam o empoderamento e a autonomia. As ações de estímulo de empoderamento e de autonomia realizadas pelosprofissionais (f = 93, 89,40%) (ver Tabela 7) são: oficina (f = 10; 13,50%), atividade em grupo (f = 08; 10,80%), atividade individual ou em grupo (f = 07; 9,50%), atividades voltadas para estimulação, motivação ou esclarecimento (f = 06; 8,10%), atividade de geração de renda e PTS direcionada para o desenvolvimento de autonomia e empoderamento (f = 05; 6,80%), entre outras referências de atividades realizadas pelos profissionais. Entre as dificuldades encontradas no trabalho foram sinalizados problemas como o estigma social, as deficiências da estrutura da RAPS (f = 16; 14,80% cada), a atuação do governo, a incompatibilidade da forma de atuação de outros profissionais da equipe (f = 14; 13,00%) e o apoio insuficiente da gestão (f = 13; 12,00%). Além disso, outras dificuldades foram mencionadas, tais como: falta de equipamentos e materiais (f = 05; 4,60%), formação da equipe inadequada (f = 05; 4,60%) e recursos humanos insuficientes (f = 04; 3,70%). Estas dificuldades encontradas no serviço podem ser ilustradas a partir dos relatos: Profissionais e sociedade como um todo ainda têm preconceito com a pessoa em sofrimento psíquico/ com transtorno mental, o que dificulta o fortalecimento da RAPS e as relações intersetoriais. Ou seja, a organização da Rede (na saúde e intersetorial) e a participação da comunidade (e até mesmo dos familiares) no tratamento, no serviço, na busca do bem-estar do usuário são dificuldades que encontramos com frequência. 99 Acolhimento e estabelecimento/ fortalecimento de vínculo são fundamentais no atendimento e acompanhamento ao usuário do serviço, e isso minha equipe faz muito bem! (A47). Os maiores desafios encontrados pelos participantes da pesquisa estão relacionados à quantidade de recursos humanos (f = 12; 7,60%), capacitação dos profissionais (f = 10; 6,30%), diferenças na forma de pensar e atuar dos membros da equipe e administração do gestor (f = 09; 5,70% cada), excesso de trabalho (f = 08; 5,10%), condições de contratação e trabalho (f = 07; 4,40%), motivação da equipe (f = 06; 3,80%), estigma social e estruturação da rede (f = 05; 3,20% cada), salário (f = 04; 2,50%), além de outras dificuldades mencionadas em menor frequência. Estes desafios podem ser melhor visualizados conforme observa-se abaixo: Equipe muito reduzida com muitas demandas, o que pesa ainda mais quando há situações de agressividade (auto e hétero); desconhecimento da Rede por parte dos profissionais (encaminham todas as demandas ao CAPS, sem o conhecimento da Rede), gerando duplicidade do trabalho e mais dificuldade ao usuário e familiar; RAPS e Rede intersetorial fragilizada; não administração de conflitos entre profissionais por parte do gestor; falta de materiais para realização de oficinas; pouco envolvimento de familiares, e até mesmo de usuários, nas atividades ofertadas; pouco envolvimento de familiares, e até mesmo de usuários, nas atividades ofertadas; pouco envolvimento dos médicos no serviço como um todo; dentre outros (A45). 100 Na passagem a seguir, o colaborador da pesquisa aponta algumas dificuldades diárias como aspectos que fazem parte dos desafios do cotidiano. Assim sendo, observa-se que: São muitos os desafios. Entre eles, a dificuldade de manter usuários com poucos recursos, poucas opções de oficinas, etc. Dificuldade em trabalhar dentro da equipe, com outros profissionais com pontos de vista diferentes. Dificuldade em orientar outros profissionais da equipe sobre o PTS, por exemplo, visto que se cumpre pouco o plano no olhar de outros profissionais. Falta de recurso financeiro para promover melhores espaços. Dificuldade em "filtrar" os usuários para passar pelo psiquiatra. Tenho muita resistência a medicação, embora saiba da importância em certos casos. Dificuldade em manter e trabalhar com os casos graves no CAPS, pois os casos graves dificilmente vão até a instituição, acabando que, o CAPS lota de casos (leves e moderados) que os ESFs poderiam dar conta. Dificuldade em estabelecer matriciamento com os ESFs, e dificuldade em realmente achar que está sendo eficaz a melhora do usuário grave, pois quando não vemos outra saída para um usuário, ele sendo internado. Enfim, há dificuldade, também, para organizar melhor o tempo para fazer os atendimentos, grupos, etc e preencher prontuários e outros registros que demandam muito tempo, acaba sendo desgastante por não termos um sistema para isso, muitas vezes (A 32). Conforme apresenta o CFP (2009; 2013), os desafios estão associados às dificuldades vividas no dia a dia dos serviços. Observa-se nos relatos dos participantes, que essas dificuldades estão atreladas a como os profissionais se deparam com situações inusitadas, que inviabilizam os trabalhos cotidianos, incluindo aqueles que afetam diretamente a 101 operacionalização do serviço, como a falta de recursos humanos, financeiros e materiais. Estes recursos, na prática, viabilizariam a disponibilidade e a mobilização de profissionais no próprio CAPS assim como em atividades externas, em visitas domiciliares e em trabalho territorial. Esta parece ser uma realidade dos CAPSs do Brasil, como mostram pesquisas anteriores (CFP, 2009; Lara & Monteiro, 2014). Outra situação observada, inclusive na descrição da fala de A3, é a dificuldade acerca da orientação do PTS, que seria pouco eficiente a partir da visão dos profissionais. Do mesmo modo, Ferro et al. (2018) mostram que há uma dificuldade dos profissionais e estagiários no estabelecimento do PTS, o que repercute negativamente nas ações e no processo terapêutico do usuário, exigindo uma reformulação por parte da equipe da lógica de funcionamento deste recurso. 102 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente tese assume um papel descritivo frente a como o psicólogo vem exercendo sua prática no CAPS, principalmente em relação às novas conjunturas políticas e sociais, que enfrentam cotidianamente no seu trabalho de assistência em saúde mental. Quando se fala nessas conjunturas, essas são as que subsidiam a filosofia estrutural das políticas públicas, incluindo aí os fatores econômicos, os quais apresentam-se como condicionantes de saúde. É a partir dessa realidade que as Políticas Públicas de Saúde Mental se constituem e definem suas estratégias e diretrizes, organizando as formas de tratamento e a assistência a ser implementada aos seus usuários. Essas políticas, inclusive, dão orientações sobre como os profissionais de saúde são dispostos/postos e como exercem sua prática cotidiana. A Psicologia faz parte e acompanha todo este percurso político, econômico e social do país, sofrendo influências direta e indiretamente de mudanças na forma de assistência, corroborando ou procurando melhores formas de atuação, a partir das necessidades dos usuários, devido à responsabilização e à função social do seu papel. Esse agir assume um papel crítico-reflexivo, que fomenta a mudança de práticas que alienem o sujeito, proporcionando emancipação, autonomia, reinserção e participação social àquele que outrora era excluído de seu processo de cuidado. A era, agora, consiste na superação da técnica, ampliando essa visão para uma perspectiva ética, que assume um caráter social comunitário. Este caráter visa a promoção da cidadania, compreendendo um sentido mais transversal nas ações, que respeitem os projetos singulares dos sujeitos, o âmbito territorial e as possibilidades que cada um deles têm de ser criativos. Diante disso, fez-se uma pesquisa em algumas regiões geográficas do Brasil com o objetivo de verificar se a atuação dos psicólogos dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) está em consonância com os ideais da Reforma Psiquiátrica, traçando o perfil técnico- 103 profissional, identificando as práticas realizadas e comparando essas às propostas da ReformaPsiquiátrica. Assim, os resultados observados nesta tese mostram que mesmo após décadas do estopim da Reforma Psiquiátrica, do delineamento de diretrizes de atuação e progressos nas mudanças estruturais e de atenção, existem muitos desafios e dificuldades ainda a serem superados. A maioria dos resultados mostram que as práticas se encontram em consonância com a Reforma Psiquiátrica, mas existem dados que mesmo que sejam em menor porcentagem tem sua expressividade, e são importantes devido à gravidade de existirem práticas em dissonância com a Reforma. A dificuldade disso, é que não foi possível mensurar o que levou os participantes da pesquisa a não realizarem suas práticas em harmonia com a Reforma Psiquiátrica, seja pela falta de estrutura, falta de uma formação adequada, falta de escuta ou não realização de PTS, dentre outras possíveis situações. Observou-se que há uma realidade de interiorização (em cidades do interior e da região metropolitana) dos profissionais e dos CAPSs, porém por meio de regimes de trabalho sem estabilidade, que afetam o vínculo dos psicólogos com os usuários e com o equipamento, gerando uma alta rotatividade. Mostram ainda que, apesar de a maioria dos profissionais ter pós-graduação e estarem satisfeitos com sua formação, eles não possuem formação específica em Saúde Mental ou Saúde Coletiva, questionando-se a capacitação deles para esse campo de atuação, e uma problemática enfrentada por muitos profissionais. Existem desafios principalmente no que concerne à formação específica dos psicólogos para trabalharem em contextos de saúde mental e/ou saúde coletiva, pois não possuem uma base adequada para atuarem com estas demandas, em equipamentos como o CAPS, por exemplo. Esta formação específica estaria relacionada àquelas em extensão ou de aprimoramento à formação acadêmica, que proporcionem maiores qualificações teóricas e técnicas (as quais 95,20% dos participantes gostariam de obter). Além do que, a falta de apoio 104 por supervisão clínico-institucional e a falta de programa de formação permanente podem justificar a porcentagem expressiva de psicólogos que não conhecem práticas inovadoras. Além disso, os profissionais que as conhecem mencionam exemplos de práticas que parecem ser isoladas da realidade, uma vez que a maioria é citada uma única vez no resultado geral da presente pesquisa. Esse dado corrobora a hipótese inicial desta pesquisa, que os psicólogos que trabalham em CAPS não conhecem ou não usam práticas inovadoras. Muito embora, apontem que suas práticas estejam em convergência/consonância com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica. Observa-se uma controvérsia nestes dados, pois, por mais que estejam satisfeitos com sua formação na graduação, apresentam a necessidade de uma formação específica, que qualifica o profissional para outras formas de pôr em prática seu modus operandi, fortalecendo as práticas inovadoras, e ao mesmo tempo, ainda exercem práticas nos moldes tradicionais e não numa perspectiva de Clínica do CAPS ou Ampliada. Uma clínica que supera práticas segregadoras, as quais inutilizam o indivíduo ou o colocam numa posição de passividade frente à sociedade, aprisionando-o a um diagnóstico que o aniquila socialmente, tornando-o inimputável frente às possibilidades. Isso mostra que, mesmo as práticas de atuação estando em consonância com a Reforma Psiquiátrica, ainda há no resultado desta pesquisa, um destaque para a realização de atendimentos individuais, embora seja uma prática necessária, levando em conta seus benefícios e particularidades, mas que não se demonstra suficiente, uma vez que não é objetivo do CAPS um atendimento focado apenas no indivíduo, mas trabalhar com este indivíduo dentro de um contexto coletivo e social. Isso porque o CAPS surge com a proposta de um trabalho coletivo, com as maiorias, com as comunidades, concretizando-se por meio de ações e intervenções grupais intra e extra-muros. 105 Os resultados encontrados corroboram a ideia de que, mesmo com a realidade acima, mudanças e inovações estão acontecendo, ao salientar que há uma gama de atividades sendo feitas, independentemente, de seu resultado, inclusive em outros espaços que não seja apenas o intra-muros, reconhecendo que aqueles podem ser escolhidos para atuação, como instituições, ruas, territórios, domicílio e outros, denotando a possibilidade de inovação em suas práticas. A tentativa de se implicar no processo de cuidado é louvável neste aspecto. Mas isso só pode ser, minimamente, alcançado se os profissionais trabalharem em equipe, delineando um PTS de forma a atender as reais necessidades e dentro das possibilidades e singularidades de todos os envolvidos, mesmo existindo alguns percalços em fazê-lo. A pesquisa mostrou que a própria dinâmica do CAPS vem se reorientando para um modelo de assistência conforme os princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica, o que pode ser um reflexo da postura dos profissionais envolvidos em ações e consolidações da RAPS. A maioria dos psicólogos respondentes possui práticas que visam este objetivo, e não apenas pelo fato de afirmarem que suas práticas estão voltadas para a Reforma Psiquiátrica, mas pelo que sinalizam realizar cotidianamente no serviço e pelos objetivos que suas atividades se propõem, mesmo tendo alguns resultados que mostrem o contrário e ainda existirem profissionais que não realizam suas atividades conforme as propostas de Reforma. Trabalham em equipe e com a rede intersetorial, enfatizando novas tecnologias de atuação, que se correspondem ou se aproximam das diretrizes da Reforma Psiquiátrica, e realizam atividades objetivando a reabilitação e reinserção social, desinstitucionalização, autonomia, empoderamento, melhora nas condições de vida, além de realizar ações com famílias, de matriciamento, território, articulações e reuniões intersetoriais, PTS compartilhado, entre outras ações pertinentes, como utilização e produção de recursos e instrumentos de atuação no 106 acompanhamento dos usuários, o que corrobora com as práticas em conformidade com o que apregoa a Reforma Psiquiátrica. Ressalta-se que, mesmo que haja essa consonância, isso não ocorre em sua totalidade, o que justifica não conhecerem práticas inovadoras, e não se configura no âmbito do ideal, mas sim do real, pelo fato que 32,70% não agem de forma consonante com a Reforma Psiquiátrica. Mesmo sendo em porcentagem inferior, é um dado significativo e que não se descarta, levando à discussão sobre o que foi levantado anteriormente, de que muitos não conhecem práticas inovadoras, bem como o déficit na formação específica para atuar em âmbitos de saúde mental, e que não possuem formação permanente, a fim de se aprimorarem para o cotidiano do CAPS. Frente a essa discussão, é importante mencionar que a presente pesquisa possui limitação, pois, apesar de fazer um levantamento nacional, os resultados da presente tese não representam o retrato fiel de toda a realidade brasileira, pois possui uma amostra enviesada, na qual predominam participantes do Ceará (25,00%) e São Paulo (19,20%), sendo os outros 44,20% distribuídos em mais 17 estados, e havendo ainda 8 estados não contemplados na pesquisa, os quais podem ter práticas diferenciadas da maioria dos resultados, mostrando assim uma limitação na pesquisa. Isto ocorreu por diversos motivos, inclusive pela não colaboração de alguns CRPs, que não apoiaram a divulgação da pesquisa entre seus profissionais inscritos, via e-mail ou página na internet. O que leva a reforçar a ideia de que se faz necessária uma continuidade de avaliação sistemática destes serviços e do trabalho realizado pelos profissionais, inclusive, da prática do psicólogo tanto em âmbito nacional como em âmbito local, para que sejam divulgados na literatura ou em outros meios pertinentes. Como consequência disso, reforça-se a necessidadede pesquisas de mesmo perfil, de forma quantitativa ou qualitativa, e de avaliações 107 recorrentes, que proporcionem feedbacks sobre se estão sendo efetivados e operacionalizadas no que se propõe a Reforma Psiquiátrica, ou se está apenas no papel. Isso proporciona informação e transmite conhecimento para outros psicólogos e/ou sujeitos interessados (gestores, profissionais, população e defensores da Reforma Psiquiátrica e dos Direitos Humanos) em saber como funcionam as práticas, os serviços, os lugares em que estão sendo efetivados com sucesso e as que ainda não estão pondo em prática, servindo de modelo para ser replicado e/ou re(avaliado). Isso aponta para a discussão acerca do tempo entre a última pesquisa realizada pelo CREPOP em 2007 (CFP, 2009), e passados mais de 10 anos, ainda não foi realizada uma nova pesquisa para verificar como estão sendo as práticas dos psicólogos nos CAPS. As quais deveriam ser constantemente avaliadas, inclusive para respaldar a importância do papel político-social do psicólogo em espaços de cuidado de saúde mental, ou pelo fato de que sempre surgem normas técnicas, portarias e outros com novas diretrizes e preceitos para atuação, de um modo geral, nestes espaços, visando mudar, modificar ou até mesmo regredir as propostas da Reforma Psiquiátrica e das Políticas Públicas de Saúde Mental. Como referência a essas mudanças e modificações, tem-se mais recentemente a Nota Técnica nº 11/2019, do Ministério da Saúde, que traz esclarecimentos acerca das mudanças na Política Nacional de Saúde Mental e nas diretrizes da Política Nacional sobre Drogas, que trouxe muita repercussão, debates e discussões da população e movimentos relacionados acerca da ampliação dos leitos psiquiátricos especializados em Hospitais Gerais, bem como em Unidades Psiquiátricas Especializadas, em que os Hospitais Psiquiátricos passam a ser incluídos na RAPS. Propõe-se a partir dela, a atualização do valor pago pelas internações, modernização dos hospitais e dos protocolos e padrões vigentes, e enfatiza que o processo de desinstitucionalização continua sendo uma prerrogativa do Governo Federal, e que esta não 108 será mais sinônimo de fechamento dos leitos e de Hospitais Psiquiátricos, uma vez que no Brasil esta oferta é deficitária. Conforme anuncia a Nota, “todas as medidas atendem a anseios de movimentos sociais, aos desafios enfrentados diariamente por profissionais da RAPS e às necessidades apontadas em um diagnóstico inédito feito pelo Ministério da Saúde” (MS, 2019, p. 5). Na direção dessa proposta de uma reformulação da Política de Saúde Mental ou não, percebe-se que os psicólogos desta pesquisa colocam suas práticas em consonância com a proposta de Reforma Psiquiátrica, e esta vem sendo uma conquista paulatina, que pode ser desestruturada a qualquer momento, com possíveis retrocessos de uma má implementação ou falta de entendimento da nova proposta. Esse avanço dos profissionais em busca de atuarem dentro de princípios da Reforma consiste em um avanço, já que no campo da saúde mental ainda existe um foco de atuação muito voltado, quase que exclusivamente, para práticas higienistas ou curativistas. Há uma preocupação constante em diagnosticar, medicar, tratar ou curar e/ou institucionalizar, por vezes numa espécie de manicômio velado, sempre num fundamento terapeutizante ou medicalizante. Mas o movimento de Reforma Psiquiátrica propõe uma forma de cuidado que supere essa visão, propondo uma nova forma de cuidado, e tem lutado constantemente para mudar uma cultura social de percepção sobre o louco. Proposta que visa um tratamento, acompanhamento e reinserção a partir das peculiaridades do envolvidos, transcendendo a lógica da medicalização e o silenciamento da dor. Desta maneira, sugere-se políticas de saúde que partam para ações e serviços mais potencializadores, que usufruam de métodos e técnicas que busquem a coparticipação de todos autores envolvidos no processo de saúde-doença-cuidado, dando responsabilidades ao usuário do serviço de saúde frente a sua queixa. Políticas que rompam com a lógica de que doença é sinônimo de mercado ou uma maneira de controlar a massa. Políticas em sentido 109 transversais, que não fragmentem o sujeito, vendo-o e observando-o de forma mais integral, efetivando os princípios doutrinários do SUS, o quais devem também ser praticados na rede de atenção psicossocial. Pois parece que o princípio da equidade não está sendo respeitado ao ignorar as singularidades dos sujeitos envolvidos, impondo uma terapêutica única e tradicional sem levar em consideração as especificidades de cada um. Parece que o princípio da integralidade não está sendo respeitado, ao ignorar que o sujeito não é apenas biológico, mas que os âmbitos sociais, psicológicos e espirituais estão envolvidos no processo; e que a integralidade proposta aos serviços seja efetivada para um melhor acompanhamento deste sujeito dentro de seu território, promovendo a reinserção social e na comunidade do usuário. Parece que o princípio da universalização está longe de ser uma garantia, uma vez que ao negar a possibilidade do direito de escolha de seu tratamento em quaisquer níveis de atenção, fica desassistido, pois seu problema fica à mercê apenas de uma atenção especializada; o que exige o reforço das equipes de matriciamento e de agentes de saúde em seu território. Propõe-se o fortalecimento e a continuidade das políticas de saúde mental que visem uma lógica diferenciada de operacionalização, uma vez que os programas e as políticas ao serem lançadas não são devidamente avaliadas enquanto potenciais no processo de cuidado em saúde mental. Políticas quando são delineadas para a sociedade, devem atender a uma necessidade, mas no sentido de fazer a diferença na vida das pessoas que dela usufruem. Espera-se que as políticas de saúde mental sejam constantemente avaliadas e repensadas de modo significativo, a fim de atender as demandas da população que dela necessita. Essa avaliação permite visualizar e analisar se os serviços estão consoantes com a proposta a que foram traçados, inicialmente. No caso da saúde mental, observar se estão em consonância, constantemente, com os princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica. 110 Aos psicólogos, cabe a necessidade de superar a concepção de autenticar a prática atrelada a uma visão teórica, que surja para reformular ou respaldar os modelos ou inovar as práticas de cuidado em saúde mental. Estas práticas que surgem no cotidiano dos CAPSs precisam ser compartilhadas e autenticadas como formas de cuidado legítimas, independentemente de terem sido traçadas em livros ou normatizações. Estas práticas, que chamadas de inovadoras, surgem no dia-a-dia e na experiência de sucesso ou fracasso, por meio de metodologias ativas ou não. Ressalta-se que a discussão trazida, não é de idealizar o papel que o psicólogo deveria ter no CAPS, mas trazer à tona a diferença que ele pode ter na atenção aos usuários, na transformação e re(significação) do cuidado em saúde mental, a fim de alcançar resultados positivos, e passar adiante experiências que fortaleçam os trabalhos de seus pares. Além de contribuir para que os defensores de Direitos Humanos e da Reforma Psiquiátrica possam ver a realidade dos CAPSs e divulgar situações de implementação adequadas, e aos que não se encontram no processo/movimento da Reforma, proporcionar conhecimento sobre esta realidade. Entende-se que é primordial uma formação específica e pessoal para atuar de forma mais criativa e potencializadora, mas compreende-se que as habilidades e atitudes também se constroem no dia-a-dia do CAPS. É no saber-fazer-agir que elas vão se constituindo, cabendo ao profissional inová-las a partir das reais necessidades de seus usuários, famílias e comunidade. 111 REFERÊNCIAS Abreu,M. A., Azevedo, K. A. M. L., Oliveira, M. A. C. A., Coelho, F. A., Costa, J.A., Silva, M. L. F. L., & Ribeiro, V. S. S. (2017). Avaliação da estrutura e processo de trabalho de um centro de atenção psicossocial no município de UBÁ-MG. Revista Científica Fagoc Saúde, II, 27-34. ISSN 2448-282X. Recuperado de http://revista.fagoc.br/index.php/saude/article/view/288/244. Alverga, A. R. & Dimenstein, M. (2006). A reforma psiquiátrica e os desafios na desinstitucionalização da loucura. Interface (Botucatu), 10 (20), 299-316. doi:10.1590/S1414-32832006000200003. Amaddeo, F. & Barbui, C. (2018). Celebrating the 40th anniversary of the Italian Mental Health reform. Epidemiology and Psychiatric Sciences, Cambridge University Press, 1-3. doi:10.1017/S2045796018000112. Amarante, P. (1995/2016). 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Região metropolitana II. FORMAÇÃO COMPLEMENTAR 1. Ano de conclusão do curso de graduação em Psicologia? ______ 2. Nome da instituição onde cursou? _______ 3. Se formou em uma instituição de ensino superior: …. Particular/Privada …. Pública 4. Possui título profissional de especialista concedido pelo Conselho Federal de Psicologia? …. Sim. Qual? ________________________ …. Não 124 5. Possui pós-graduação? …. Sim. Qual(is)? ________________________ …. Não 6. Possui formação específica em saúde mental e/ou saúde coletiva? …. Sim. Qual(is)? ________________________ …. Não 7. Como você avalia a sua formação acadêmica para atuar no CAPS? _________________________ III. CARACTERIZAÇÃO DO TRABALHO 1. Em qual tipo de CAPS você trabalha? …. CAPS I …. CAPS II …. CAPS III …. CAPS I II …. CAPS I III …. CAPS AD II …. CAPS AD III 2. Quantas horas semanais você trabalha no CAPS?___________________________ 3. Qual o seu principal vínculo contratual no CAPS? …. Estatutário (Lei 8.112) …. Celetista (CLT) …. Contrato temporário (RPA, licitação de pessoal, convênio com cooperativa, etc) …. Convênio Interinstitucional (parceria entre instituições) …. Residência Multidisciplinar …. Voluntário …. Trabalho público temporário (função gratificada, cargo de confiança, nomeação para cargo temporário) …. Outro_________________ IV. MODOS DE ATUAÇÃO PROFISSIONAL 1. Você embasa seu trabalho em que tipo de teoria? ________________ 2. Quais atividades você realiza no CAPS? ________________ 3. Qual é o objetivo destas atividades? _________________ 4. Marque as principais teorias que dão suporte ao seu trabalho no CAPS: (se necessário, pode marcar mais de uma opção) …. Abordagem de base psicanalítica 125 …. Abordagem de base comportamental …. Abordagem de base humanista …. Abordagem de base existencialista …. Abordagem de base cognitivista …. Abordagem de base sócio histórica …. Abordagem de base psicodramática …. Abordagem de base analítica …. Abordagem sistêmica …. Abordagem a partir do referencial da Psicologia social …. Abordagem a partir do referencial da Psicologia institucional e/ou análise institucional …. Teorias em saúde coletiva …. Teorias em saúde pública …. Teorias em saúde mental …. Políticas públicas de saúde Outra: _________________________ 5. As atividades que você desenvolve estão voltadas para: …. Prevenção …. Assistência/Tratamento psicológico individual …. Promoção …. Atividades comunitárias …. Articulações interinstitucionais e intersetoriais. …. Formação permanente de RH …. Inclusão Social …. Supervisão clínica/institucional, …. Atividades grupais: psicoterapêutico, operativo, lúdico, etc Outra:________________________________ 6. Marque as atividades que você realiza no CAPS? (se necessário, pode marcar mais de uma opção) 1. Acolhimento 2. Apoio Matricial 3. Arteterapia 4. Assistência individual ou grupal a familiares 5. Atividades ligadas à Promoção da saúde 6. Atividades/Ações Comunitárias 7. Atende pessoas em crise – Plantão Psicológico 8. Atividades dirigidas diretamente a reinserção social. 9. Atividades Educativas com instituições e grupos 10. Avaliação inicial 11. Avaliação psicológica 12. Avaliação psicossocial 13. Bazar 14. Consulta interprofissional 15. Dança 16. Discussão de casos com a equipe 17. Discussão de casos com outros profissionais 18. Elaboração de laudos/relatórios 126 19. Elaboração de material educativo/informativo 20. Elaboração de Projeto Terapêutico Singular (PTS) 21. Elaboração de Projeto Terapêutico Institucional 22. Escuta 23. Festas 24. Grupos 25. Grupos terapêuticos 26. Grupos operativos 27. Grupos de avaliação de tratamento 28. Grupo de fim de semana 29. Interconsulta 30. Oficinas (terapêuticas, de trabalhos manuais, e/ou outras) 31. Orientação à familiar/cuidador de pessoa com transtorno mental 32. Palestras em oficinas de Capacitação de profissionais de saúde/agentes multiplicadores 33. Palestras sobre saúde mental na comunidade 34. Participação em comissões de Reforma Psiquiátrica no âmbito Municipal / Estadual / Distrital 35. Psicoeducação 36. Passeios 37. Planejamentos comunitários 38. Preenchimento /evolução de Prontuários 39. Psicoterapia de casal 40. Psicoterapia de grupo 41. Psicoterapia familiar 42. Psicoterapia individual com usuário(a) 43. Redução de Danos - Avaliação de riscos e/ou vulnerabilidades 44. Redução de Danos - Atividade de orientação de uso de substância 45. Redução de Danos - Acompanhamento terapêutico 46. Redução de Danos - Atenção ao leito (desintoxicação) 47.65 5 RESULTADOS E DISCUSSÕES .......................................................................................... 65 5.1 – Dados Sociodemográficos .................................................................................................. 66 5.2 – Formação Complementar ........................................................................................................ 68 5.3 – Caracterização do Trabalho no CAPS ................................................................................ 72 5.4 – Modus de Atuação Profissional .............................................................................................. 74 5.5 – Contexto de Trabalho .............................................................................................................. 84 5.6 – Avaliação da Atuação Profissional ......................................................................................... 91 13 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 102 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................... 111 APÊNDICE A ............................................................................................................................... 123 ANEXO A ..................................................................................................................................... 130 14 INTRODUÇÃO O interesse em pesquisar sobre como os psicólogos vêm atuando dentro dos dispositivos de saúde mental, mais especificamente os Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs), surgiu após inserção no Laboratório de Estudos e Práticas em Psicologia e Saúde (LEPP-Saúde), a partir de uma preocupação de seus pesquisadores acerca de como esses profissionais tem aproveitado esse dispositivo como cenário propício para a construção de práticas inovadoras1 em saúde mental, após a reestruturação das políticas de saúde mental no Brasil. Práticas estas que tendem e podem ser consideradas inovadoras, a partir de um referencial de mudança para um modelo que rompe com práticas tradicionais de tratamento, que não atendem às novas propostas de cuidado em saúde mental. Tal interesse surge a partir de uma preocupação atual de estudiosos, pesquisadores e da população diretamente envolvida com a Luta Antimanicomial, acerca do possível retrocesso ao modelo hospitalocêntrico da loucura, que tanto foi combatido pelo movimento de Reforma Psiquiátrica. Isso porque ainda existem profissionais de saúde mental que não acreditam na operacionalização da proposta de Reforma Psiquiátrica e que mantém práticas há anos combatidas, como a centralização da figura do médico, o paradigma asilar, a clínica tradicional como alternativa de prestação de serviço à comunidade usuária dos equipamentos de saúde mental e a medicalização da doença para silenciamento do sintoma e do sujeito, reforçadas inclusive pelos usuários, em busca de alívio imediato (Dantas, 2015; Dantas & 1 Prática inovadora, termo assumido na presente tese, também referenciado na literatura como práticas emergentes, novas práticas ou práticas inventivas, refere-se ao conjunto de práticas, pensadas e repensadas, que constituem um painel multifacetado e em construção, que se conectam às necessidades e às demandas concretas da população adscrita, no território onde estão instalados os equipamentos de atenção em saúde mental, e que consideram o contexto histórico-social, político e cultural do sujeito. 15 Ewald, 2010; Dias & Silva, 2016; Henriques, 2012; Pelegrini, 2003; Quinderé, 2008; Scliar, 1997). Atitudes que inviabilizam a construção de uma perspectiva de cuidado que atenda às reais necessidades dos usuários e que afasta cada vez mais os profissionais de um diálogo com o modelo psicossocial de atenção e de desinstitucionalização, nutrindo-se de uma visão curativista (Macedo & Dimenstein, 2016). Práticas também presentes entre os psicólogos, quando se vê alguns profissionais engajados em exercer um modelo tradicional de atuação, clínica individual, que não atende, em sua completude, as necessidades de atenção à pessoa com transtorno mental, em serviços substitutivos2 ao hospital psiquiátrico, como os CAPSs (Dimenstein, 1998; Dimenstein, 2001; Ferreira Neto, 2008; 2010). Por isso, as inquietações que instigam a pesquisar sobre a atuação do psicólogo no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e suas formas de cuidado e atenção especializada ao sujeito, levam a problematizar inicialmente sobre o seu papel nesse dispositivo, no processo de tratamento em saúde mental, a partir de uma perspectiva da Reforma Psiquiátrica. Dentro desse aspecto, põem-se em questão as articulações entre o saber da Psicologia, as políticas públicas de saúde mental, a utilização de suas práticas tradicionais ou inovadoras na atenção às pessoas com transtorno mental e, principalmente, como foco da presente tese, se estes psicólogos estão exercendo sua prática a partir do que apregoa a Reforma Psiquiátrica, se as práticas estão voltadas para o coletivo ou apenas para o aspecto individual, e se estão de acordo com o que se apregoa no CAPS. 2 O termo “Serviços ou Dispositivos Substitutivos” aqui utilizado corresponde àquele amplamente citado na literatura e que se propõe a ser uma prerrogativa da Reforma Psiquiátrica, ao propor o CAPS como um serviço substitutivo à rede hospitalar. Ressalta-se isto, uma vez que recentemente foi lançada a Nota Técnica nº 11/2019, do Ministério da Saúde, em que não considera mais este termo, afirmando que nenhum serviço substitui o outro, e não se devem fechar mais unidades de qualquer natureza, pois a rede deve ser harmônica e complementar (Ministério da Saúde [MS], 2019). 16 Faz-se necessário entender que a inserção do psicólogo, e de outros profissionais da saúde, na assistência à saúde (mental) pública deu-se devido a um conjunto de fatores, nos quais se destacam as mudanças ocorridas nas políticas de saúde (mental) do Brasil entre as décadas de 1970 e 1980 (Amarante, 1995/2006; Arouca, 2003; Dias & Silva, 2016; Polignano, 2001; Yamamoto, Trindade, & Oliveira, 2002). Como consequência da entrada nesse novo campo, a Psicologia passou por duas crises: uma voltada para as discussões acerca da prática clínica tradicional e sua adequação a esse novo campo, e outra que se focava no questionamento às instituições psiquiátricas e à desumanidade na forma de lidar com a loucura; dando visibilidade aos problemas da práxis do psicólogo na saúde mental e à necessidade de mudança sobre a forma de lidar com o louco (Cantele & Arpini, 2017; Cantele, Arpini, & Roso, 2012; Dimenstein, 1998; 2001; Ferreira Neto, 2008). Isso se deu em decorrência dessa inserção da Psicologia na saúde pública não ter sido acompanhada por uma preparação de seus profissionais para atuar com as demandas em saúde mental em espaços de contexto diferente dos moldes tradicionais de clínica: atendimento individual em consultório. O psicólogo não estava capacitado conceitualmente e metodologicamente para trabalhar com demandas relacionadas à Reforma Psiquiátrica que vinha se estabelecendo na saúde do Brasil, com propostas voltadas para a desinstitucionalização da loucura e a criação dos serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos (Cantele et al., 2012; Macedo & Dimenstein, 2016; Quinderé, 2008), assim como não estavam, e ainda não estão, familiarizados com conceitos, diretrizes e princípios intimamente relacionados ao deslanchar da Reforma Psiquiátrica, tais como: compromisso social, empoderamento, autonomia do sujeito, território e comunidade, atenção e cuidadoReuniões com a direção do serviço em que atua 48. Reuniões com profissionais da rede de atendimento do Município/Estado 49. Roda de história 50. Trabalho Interdisciplinar 51. Visitas domiciliares 52. Outras ____________________ 7. O CAPS em que você trabalha possui equipe técnica mínima? [1 médico psiquiatra ou com formação em saúde mental; 1 enfermeiro; 3 a 5 profissionais de nível superior (psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou educador físico); 4 a 8 profissionais de nível médio (técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão)] . Sim . Não. Quem falta? ___________ Se tiver outros profissionais, além do prescrito nas diretrizes do Ministério da Saúde, sinalize quem são___________ 8. No CAPS que você trabalha, os trabalhos que você realiza são...: . Em Equipe? __________________________ 127 . Isolado? _____________________________ 9. No CAPS que você atua, há um trabalho com as outras Redes Assistenciais em Saúde? Sim. Quais? _________ Não. 10. O seu CAPS possui ações voltadas para a expansão e consolidação da Rede Assistencial? Sim. Quais? _________ Não. 11. No CAPS, você utiliza o Projeto Terapêutico Singular na prática? Sim Não. Por que? ___________ 12. Quais os tipos de instrumentos e recursos você usa no CAPS? ______________ 13. Qual a origem destes instrumentos e recursos? _____________ 14. Você produz ou já produziu algum instrumento, recurso ou material para sua atuação no CAPS? Sim. Quais? _________ Não. 15. Marque abaixo quais os recursos e os instrumentos que você utiliza em seu trabalho no CAPS? (se necessário, pode marcar mais de uma opção) 1. Testes psicológicos 2. Instrumentos de avaliação geral: Fichas de anamnese, etc.. 3. Instrumentos de gestão (ex. BPA) 1. Instrumentos comunitários (ex. PES - planejamento Estratégico Situacional) 2. Entrevistas 3. Dinâmicas de grupos 4. Audiovisuais (filmes, CDs, fotografias) 5. Lúdicos (jogos, brinquedos) 6. Artísticos (obras de arte, literatura, poesia) 7. Tecnológicos (computadores, filmadoras, máquinas fotográficas) 8. Outros _________________ V. CONTEXTO DE TRABALHO 1. No CAPS, você possui um lugar exclusivo de trabalho do psicólogo? Sim. Não. Se não, onde atua normalmente? _______________. Como? ___________ 2. A estrutura física do seu CAPS é: Boa Ruim. Por que? ________ 128 3. Que nota você atribui para a infraestrutura física do CAPS? 1 - - - 2 - - - 3 - - - 4 - - - 5 - - - 6 - - - 7 - - - 8 - - - 9 - - - 10 4. Como é o clima de trabalho com os outros profissionais? ____________ 5. Como você se sente no seu trabalho? ________________ 6. No CAPS que trabalha existe gestão participativa? Sim. Não. Por que? ________ 7. O seu serviço dispõe de supervisão clínico-institucional? Sim. Quais? ________ Não. 8. O seu serviço dispõe de um Programa de formação permanente de profissionais? Sim. Quais? ________ Não. 9. Gostaria de obter maiores qualificações teóricas e técnicas para o seu desempenho profissional? Sim. Quais temas? ________ Não. Possuo informações suficientes. 10. Descreva o que você faz em uma semana típica de trabalho no CAPS?_______________ 11. Você conhece novas práticas nos CAPS? Sim. Quais? ________ Não. 12. Quais novas práticas você e/ou seus colegas têm desenvolvido ou conhecem que estão produzindo bons resultados que podem ser consideradas uma inovação neste campo? ______________________________________________ VI. AVALIAÇÃO DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL 1. Você acredita que haja mais convergência ou mais divergência entre as práticas dos psicólogos do CAPS e os princípios da Reforma Psiquiátrica? Sim. Há mais convergência. Por que? _____________________ Não. Há mais divergência. Por que?_______________________ 2. Sua prática no CAPS está voltada para as diretrizes da Reforma Psiquiátrica? Sim. Não. 129 Por que? ______________ 3. Você realiza ações no território da comunidade? Sim. Quais? ________ Não. 4. Como é o seu trabalho com a comunidade? _________________ 5. Você realiza ações junto à família dos usuários? Sim. Quais? ________ Não. 6. Você realiza ações de Matriciamento com a Atenção Primária em Saúde? Sim. Quais? ________ Não. 7. Você realiza ações de saúde mental na Atenção Básica? Sim. Quais? ________ Não. 8. Você realiza ações de desinstitucionalização/ inserção social do usuário? Sim. Quais? ________ Não. 9. Você realiza ações de estímulo de empoderamento e autonomia do usuário? Sim. Quais/Como? ________ Não. 10. No cotidiano de atuação, o CAPS que você atua contribui para a reorientação do modelo assistencial, de acordo com os princípios da Reforma Psiquiátrica? Sim. Quais/Como? ________ Não. 11. No cotidiano de atuação, o CAPS que você atua contribui para uma mudança no cuidado e na forma de ver o território, de acordo com os princípios da Reforma Psiquiátrica? Sim. Quais/Como? ________ Não. 12. A partir de quais diretrizes e princípios da Reforma Psiquiátrica você mais trabalha? __________________________________________________. 13. Quais as dificuldades para atuar de acordo com os princípios da Reforma Psiquiátrica? _________________. 14. Quais são os desafios específicos que você enfrenta no cotidiano de seu trabalho e como você lida com estes? ___________________________. 130 ANEXO A 131integral ao usuário, matriciamento, formação permanente e continuada, inclusão social, reorientação do modelo assistencial, Clínica do CAPS ou Clínica Ampliada, gestão participativa, cidadania, vínculo, trabalho em equipe e em rede, dentre outros, 17 incluindo o próprio funcionamento do Sistema Único de Saúde – SUS (Borges et al., 2018; Cézar & Melo, 2018; Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2013; Dias & Silva, 2016; Feitosa, Silva, Silveira, & Junior, 2012; Iglesias & Avelar, 2016; Mota & Costa, 2017; Schneider, Cerutti, Martins, & Nieweglowski, 2014; Pinho, Souza, & Esperidião, 2018; Santos et al., 2018; Silva et al., 2016; Silva & Lima, 2017). Identifica-se a necessidade dos psicólogos presentes em diferentes dispositivos que integram a complexa rede de saúde mental, cujo CAPS possui papel organizador, de reformular sua prática. Novos saberes começaram a se constituir na atuação em saúde mental, para subsidiar a forma de acolhimento e tratamento do sujeito em sofrimento psíquico e o apoio e orientação aos seus familiares (Maciel, 2012). Esse novo espaço exigiu que os profissionais passassem a ressignificar seu modus operandi e a sua finalidade, propondo práticas que deveriam ocorrer para além do CAPS, diluindo o processo de tratamento em outros serviços da rede assistencial (Mota & Costa, 2017). Os usuários passaram a ter papel ativo nesse processo, participando, juntamente a uma equipe interdisciplinar, do delineamento das intervenções e das atividades, por meio do Projeto Terapêutico Singular (PTS) (Alverga & Dimenstein, 2006; Borges et al., 2018, CFP, 2013; Grigolo & Pappiani, 2014; Leão & Barros, 2011; Pinho et al., 2018; Santos et al., 2018), que deve ser constantemente reavaliado. Assim, deve-se fortalecer a autonomia dos usuários, instigando-lhes a buscar outros espaços dentro do seu território, na sua comunidade que viabilize e agregue ao seu tratamento apoio, vinculação e ampliação das suas relações, evitando com que se tornem sujeitos institucionalizados, e que sejam responsáveis pelo seu protagonismo social (Anjos Filho & Souza, 2017; Mota & Costa, 2017; Silva et al., 2016; Vasconcelos, Jorge, Catrib, Bezerra, & Franco, 2016; Pinho et al., 2018; Santos et al., 2018). 18 Na atenção aos usuários do CAPSs e na elaboração dos PTSs, os psicólogos são considerados profissionais de referência, por meio da importância da sua atuação junto aos pacientes com doença mental, fazendo-se importante uma constante revisão e reformulação de sua forma de atuação, suas práticas e desafios cotidianos. Isso exige uma qualificação do profissional, por meio de formação permanente e continuada, além de uma sistemática supervisão clínico-institucional (Borges et al., 2018; Cantele & Arpini, 2017), que deem suporte ao psicólogo em sua prática e atividades cotidianas no CAPS, para a operacionalização da Reforma Psiquiátrica. Esta operacionalização deverá se dar por meio de uma atenção psicossocial em detrimento a uma atenção curativista, focando-se primordialmente em fatores sociais, políticos, econômicos, culturais, psicológicos e, também, biológico. Diante dessa demanda de mudança, em 20073 (quando os CAPSs tinham 5 anos de regulamentação), o Conselho Federal de Psicologia (CFP) realizou uma primeira pesquisa nacional para levantamento das práticas dos psicólogos nesse dispositivo, detectando diferentes ações, muitas em dissonância com a proposta de Reforma Psiquiátrica. Desde então, com mais de 15 anos de CAPS, ocorreram várias mudanças na sua estruturação e nas possibilidades de trabalho desses profissionais (CFP, 2009), demandando uma reavaliação das práxis dos profissionais de Psicologia. É a partir da proposição de novos fazeres ou, simplesmente, de ampliação e reformulação do modelo dominante, que a presente pesquisa objetiva verificar se a atuação dos psicólogos que atuam no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) está em consonância 3 A pesquisa realizada pelo CREPOP/CFP foi realizada no ano de 2007, entre os meses de setembro e novembro, sendo o relatório de pesquisa divulgado no ano de 2009 (Prática profissionais dos(as) psicólogos(as) nos centros de atenção psicossocial), que também subsidiou a formulação das Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPSs, no ano de 2013. Por isso, existem dois documentos publicados oriundos desta pesquisa. 19 com os ideais da Reforma Psiquiátrica. Para tanto, a tese está estruturada em seis capítulos. No capítulo 1 é discutido o processo da Reforma Psiquiátrica no Brasil, e suas influências – os modelos internacionais anteriores e o contexto social, econômico e político brasileiro, que teve como marco inicial a década de 1970 no Brasil; a formulação da política brasileira de saúde mental, seus conceitos e diretrizes; a construção dos serviços substitutivos, dentre eles o CAPS, e as práticas realizadas nesse contexto como facilitadoras da atenção em saúde mental. No capítulo 2 é apresentado o sujeito alvo da presente tese (o psicólogo que trabalha no CAPS), e como este se insere nas políticas de saúde mental do país, seus desafios, práticas realizadas – tradicionais e inovadoras, e as pesquisas realizadas sobre a atuação do psicólogo no CAPS. No capítulo 3 são explanados o objetivo geral e objetivos específicos da tese. Em seguida, no capítulo 4, é apresentado o delineamento dos procedimentos de método de pesquisa da presente tese. No capítulo 5 são apresentados os resultados e as discussões da pesquisa sobre o perfil e a prática dos psicólogos dos CAPSs em nível nacional, abordando a formação, a caracterização do trabalho, os modos de atuação profissional, o contexto do trabalho e a avaliação da atuação profissional. Por fim, no capítulo 6, são apresentadas as considerações finais da tese, por meio de triangulação dos resultados principais do estudo, reflexão de suas limitações e direcionamentos futuros. 20 1. REFORMA PSIQUIÁTRICA E POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE MENTAL: UM PARALELO DA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL E NACIONAL A Reforma Psiquiátrica consiste em um movimento histórico processual, marcado por várias tentativas de reformular a concepção que se tinha dos hospitais psiquiátricos enquanto local de depósito de loucos e marginais. Constituiu-se em vários países do mundo, por meio de múltiplas facetas, considerando aspectos sociais, econômicos e culturais de cada realidade, que subsidiaram a sua filosofia estrutural (Maciel, 2012). Um processo de reforma que surge junto com a própria Psiquiatria, a partir da reformulação hospitalar proposta por Pinel, em 1793, quando preocupou-se com a introdução da humanização dentro das instituições hospitalares (Tenório, 2002). Um movimento mantido e alimentado por diversos outros nomes ao longo da história e que ainda está em andamento, em um processo de desconstrução da naturalização do isolamento como tratamento do sujeito em sofrimento psíquico. Para compreensão desse contexto, este capítulo abordará sobre a constituição histórica e as principais inspirações teóricas e metodológicas da Reforma Psiquiátrica no mundo e no Brasil, como ponto de partida para entender a inserção do psicólogo na saúde mental brasileira. Isso porque, da mesma maneira que o homem se constitui ao influenciar e ao ser influenciado pelo meio em que vive (Rodrigues, Assmar, & Jablonski, 1999), a saúde (e a saúde mental) sofreu influências dos movimentos de reforma que se deram em nível internacional e do contexto político e social em que se insere (Finkelman, 2002; Polignano, 2001). Concebe-se que a atuação do psicólogo nos serviços de saúde mental, atualmente, deve ser perpassada por todas as diretrizes e os princípios delineados na construção de um novo modelo de atenção psicossocial às pessoas quesofrem com algum tipo de transtorno 21 mental. Assim, depreende-se que os pontos criticados presentes no modelo tradicional psiquiátrico e as novas propostas da reforma podem subsidiar a discussão dos resultados encontrados na presente pesquisa, no diálogo comparativo entre o ideal e o real encontrado no cotidiano desses serviços. 1.1 Os movimentos internacionais de Reforma Psiquiátrica Na época clássica, salvo exceções de toda generalização, a loucura era entendida como uma ausência ou não de razão. Tinha a conotação de enclausuramento e recolhimento de toda a ordem de pessoas que viviam à margem da sociedade, baseado numa concepção de “proteção” ou guarda, contra as que eram ante a ordem social. Na Idade Média, a loucura era entendida como algo da ordem mística ou cósmica, em que o louco era visto como um vidente (Amarante, 2016). No século XVIII, durante o Iluminismo, mais precisamente no Racionalismo, aqueles que não tinham razão eram considerados perigosos, sendo reforçada a imagem do louco como um personagem que representa a periculosidade para a sociedade. Os loucos se disseminavam indiferentemente entre os hospitais gerais, as casas de detenção, as casas de caridade, os depósitos de mendigos e as prisões domiciliares (Amarante, 2016). Paralelamente, essa época também foi marcada por uma reestruturação dos hospitais. Essa instituição, originalmente criada em uma perspectiva filantrópica, destinada àqueles que outrora haviam sido abandonados ou excluídos da sociedade, agora nessa lógica disciplinar, tornou-se espaço de inserção da Medicina e de classificação de sintomas e tratamento das doenças (Hothersall, 2006). Como consequência dessa associação entre periculosidade e loucura, e agora da união entre a Medicina e a Justiça, estruturou-se o enclausuramento e institucionalização da loucura em instituições hospitalares. Processo marcado por uma mistura 22 de punição e tratamento, de forma desumana, baseado em torturas, com pessoas acorrentadas, surradas, agredidas com chicotes, servindo como entretenimento aos visitantes (Amarante, 2016; Hothersall, 2006). As primeiras expressões de mudança sobre o tratamento do louco institucionalizado foram representadas por Pinel, em 1973, considerado o pai da psiquiatria científica. Ele propôs algumas reformulações no atendimento e tratamento das pessoas com doenças mentais, tornando esse um marco simultâneo da fundação da Psiquiatria e do hospital psiquiátrico e da primeira reforma hospitalar (Amarante, 2016; Silva, 2001). Entre os feitos de Pinel, foi amplamente divulgado o ato heroico e idealizado de libertar as correntes dos alienados de Bicêtre (na França), cujo esforços iniciais foram, na verdade, mérito de seu ajudante, Pussin, que buscou criar uma técnica hospitalar de manejo da relação com os pacientes que permitisse libertar os doentes de suas correntes, atitude que viria a constituir a base do "tratamento moral". Reforça-se, no entanto, que o legado de Pinel, de fato, se referiu à introdução da loucura no campo médico (hoje questionada) e à constituição de uma postura mais humana de relação com os loucos (Pereira, 2004). Pinel propôs o tratamento moral, que se fundamentava na crença de que seria possível introduzir mudanças significativas no comportamento dos doentes por meio de atitudes mais humanas, porém firmes e rígidas, encaminhando o paciente para uma recuperação de sua racionalidade. Para tanto, fazia uso do isolamento (afastando o louco das causas de sua loucura para poder trata-lo), de repressão enérgica e de vigilância rigorosa em relação aos internos (Batista, 2014; Caponi, 2012). Por vezes desacorrentava as correntes e grilhões (ou algemas dos pés); não para dar liberdade, mas para fazer observações sistemáticas para estudos de alienação mental (Amarante, 2016; Batista, 2014; Pereira, 2004). Assim, a loucura 23 passa a ser reconhecida como doença, torna-se objeto da ciência e de tratamento. Um primeiro movimento de mudança, pequeno, porém percussor de vários outros. Após a Segunda Guerra Mundial, reforçados pelas preocupações com a impotência terapêutica da Psiquiatria e os altos índices de cronificação das doenças mentais, ocorreu um redimensionamento do campo teórico assistencial da Psiquiatria, configurando-se dois grandes períodos de crítica e proposições reformistas pelo mundo: a crítica à estrutura asilar e a “extensão da Psiquiatria ao espaço público”. O primeiro período teve como objetivo uma reforma da instituição hospitalar como um instrumento de cura, tendo como movimentos representantes as comunidades terapêuticas, que surgiram na Inglaterra e nos Estados Unidos, e a Análise Institucional, na França. O segundo possui uma perspectiva mais comunitária, expandindo o cuidado para o espaço público, cujo objetivo consistia em promover saúde mental, representados pelos movimentos da Psiquiatria de Setor, surgida na França e psiquiatria comunitária ou preventiva, que surgiu nos Estados Unidos. Além dos movimentos mencionados, outras Reformas se desenvolveram pelo mundo como a Antipsiquiatria, na Inglaterra, e Psiquiatria Democrática, na Itália (Amaddeo & Barbui, 2018; Amarante, 2016; Batista, 2014; Fioritti, 2018). Diferentes movimentos, sobre os quais não devem ser realizadas comparações sobre qualidade e influências, pois elas surgiram a partir de perspectivas diferentes e assumiram seu rumo na história da Psiquiatria (Amarante, 2016). A seguir discutir-se-á cada uma destas propostas em sua ordem cronológica. A Psiquiatria de Setor ocorreu na França, nos fins da década de 1940, e tinha como visão o foco na saúde mental, e não na doença mental, em que o paciente passaria a ser tratado com (e em) seu meio social. O hospital passaria a ser apenas uma passagem no tratamento, um auxílio, sendo a internação uma etapa do processo. Essa proposta foi muito benéfica para o Estado, uma vez que reduzia os gastos com internações e a manutenção dos 24 hospitais, principalmente, em um período de pós-guerra, em que os países vinham sofrendo com falta de recursos (Amarante, 2016; Batista, 2014; Cardoso, Trino, Pedra, & Medeiros, 2014). Outro ponto marcante na história da Reforma consistiu em duas propostas que aconteceram na década de 1950, e que visavam uma modificação do espaço asilar: a Comunidade Terapêutica e a Análise Institucional. A Comunidade Terapêutica, na Inglaterra e nos Estados Unidos, foi importante para a transformação da instituição psiquiátrica no âmbito interno, sem se dirigir para os cuidados extramuros, por ser uma ideia que estivesse voltada para a reformulação da instituição propriamente dita, uma vez que o asilo estava em estado de extrema precariedade e não cumpria a função de recuperar o doente mental. Estas instituições tinham o objetivo de transformar o ambiente dos hospitais e os tratamentos dispendidos aos internos, por meio de uma terapêutica ativa (Amarante, 1995/2016; Batista, 2014). A Análise Institucional, na França, visava a manutenção da instituição asilar como um espaço especial de acolhimento e um autêntico lugar de tratamento. Ou seja, acreditava-se que um hospital reformado e que se dedicasse à cura da doença mental proporcionaria ao doente a possibilidade de ser inserido novamente em sociedade. A ideia do movimento era que o tratamento deveria estar voltado para o coletivo, em que participassem tanto os pacientes como os técnicos envolvidos, além do uso de várias terapêuticas. Alguns institucionalistas sofreram influências da Psicanálise, dentre eles Tosquelles, embora continuassem a trabalhar numa perspectiva curativa dos doentes mentais (Passos, 2012). A Antipsiquiatria foi um termo pensado por David Cooper, em 1967, em forma de crítica às práticas psiquiátricas tradicionais na Inglaterra e contrária aos interesses políticos e econômicos que estavam por trás dela.Ele criticava a Psiquiatria clássica pela manutenção 25 dos hospitais psiquiátricos e tudo o que ela apregoava sobre doença mental. A ideia desse pensamento, na verdade, não era para se nomear enquanto antipsiquiatra, mas criticar os psiquiatras que abusavam do poder e por meio da brutalidade e crueldade sujavam o nome da Psiquiatria (Oliveira, 2011; Puchivailo, Silva, & Holanda, 2013). Por muito tempo, a construção da loucura esteve voltada para o não-convencional, pode-se dizer à margem da verdadeira alienação, aquela tanto enfatizada e exigida pelos sistemas autoritários, que possuem seus resquícios até hoje, perseguindo aqueles que em algum momento podem e querem romper com essa lógica alienante. Por isso que, o dito louco, na verdade, poderia ser aquele que contestava a ordem instalada. Numa perspectiva da Antipsiquiatria, esse louco deveria ser compreendido, não de forma isolada, mas a partir da pessoa em relação, da pessoa e suas relações interpessoais. O que deve ser levado em consideração não são as características, por ex., individuais do sujeito com transtorno mental, mas como elas surgem a partir desses relacionamentos e os aspectos singulares do sujeito (Oliveira, 2011). Na sequência, a Psiquiatria Preventiva Comunitária, que surgiu na década de 1970, nos Estados Unidos, e foi herdeira das propostas da Psiquiatria de Setor e da Comunidade Terapêutica, propunha a mudança da atenção em relação à doença para o foco na saúde mental. A ideia era evitar situações que pudessem afetar o bem-estar dos cidadãos (Ribeiro, 2004). A proposta consistia em realizar intervenções precoces no meio social, no intuito de evitar o desenvolvimento de doenças e condutas patológicas, e para isso era necessário sair às ruas e conhecer as pessoas potencialmente candidatas ao tratamento psiquiátrico (Amarante, 1995/2016). Já a Psiquiatria Democrática Italiana, no início da década de 1970, bastante defendida por Franco Basaglia, visava combater o manicômio e a revisão do estatuto jurídico do doente 26 mental (Passos, 2009). Baseava-se na ideia que a ciência deveria se ocupar com o sujeito doente, com o seu sofrimento, e não coisificar o doente mental, nem o excluir da sociedade. Expunham que o aprisionamento e o isolamento, representados pelos muros do manicômio, no qual o doente mental era colocado em situação de passividade e de objeto, tornou o doente um ser sem objetivos e sem perspectivas de futuro. Defendia-se a necessidade de ouvir o sujeito acerca de suas patologias, superando os julgamentos tradicionais e todos os estigmas envolvidos nas representações acerca da doença (Batista, 2014; Puchivailo et al., 2013). Como consequência do movimento da Psiquiatria Democrática, o governo italiano aprovou a Lei 180 (13 de maio de 1978), com a finalidade de entender a doença mental no âmbito sanitário e não mais em uma perspectiva de periculosidade para a sociedade. Pode-se considerar que com o advento desta lei passou a existir tratamento obrigatório, que poderia ser realizado no próprio território do indivíduo e não necessariamente nos hospitais. Além desta conquista, a lei propôs, também, que os doentes mentais possuíam a capacidade de ter o direito ao voto restituído, sua custódia e seus bens (Amaddeo & Barbui, 2018; Batista, 2014; Fioritti, 2018). A partir dessa síntese, observa-se que no decorrer da história existiram algumas tentativas de melhoria na assistência psiquiátrica, que objetivavam uma reformulação das instituições psiquiátricas e o deslocamento do cuidado para o território do próprio indivíduo. Movimentos simultâneos, em diferentes países, que influenciaram um processo de mudança brasileiro. 1.2 Reforma Psiquiátrica nacional No Brasil, a loucura passou a receber atenção no início do século XIX, quando os loucos passaram a ser encaminhados às Santas Casas de Misericórdia. Embora os ditos 27 hospícios tivessem como objetivo ser um espaço terapêutico, os loucos eram enclausurados, uma vez que eram considerados uma ameaça à sociedade, onde viviam em péssimas condições de cuidado e de higiene, continuando nessa perspectiva por muito tempo (Fonte, 2012). No decorrer da história da saúde mental no Brasil, existem indícios de algumas tentativas de mudanças na concepção de atenção aos loucos e de paradigmas relacionados ao espaço asilar. É possível citar cinco Reformas que ocorreram desde o período do século XIX: Reforma Clemente Pereira (déc. 1850); Reforma Teixeira Brandão (déc. 1890); Reforma Adauto Botelho (déc. 1940); Reforma Leonel Miranda (déc. 1960) e o Movimento Brasileiro de Reforma Psiquiátrica (déc. 1970 e 1980). A primeira indicação de reforma, que levou o nome de José Clemente Pereira, teve como referência a criação do Hospício de Pedro II, que fora fundado em 1852 (Amarante, 1995/2016; Batista, 2014). Neste período, os médicos e o provedor José Clemente começaram a reivindicar a criação dos hospícios, como espaço terapêutico para loucos (Batista, 2014). Nessa época, o Brasil imperial passou a ordenar os espaços de isolamento e enclausuramento de quaisquer perturbadores da ordem ou improdutivos (Quinderé, 2008). Foi um momento de criação de senzalas, cemitérios, sanatórios e a era de ouro dos asilos (Sampaio, Santos, & Andrade, 1998). A segunda Reforma, chamada de Teixeira Brandão teve como marco referencial a abolição da escravatura e a Proclamação da República. Essa Reforma iniciou-se em 1881, quando o Dr. Nuno de Andrade e o médico Teixeira Brandão propuseram a separação da Santa Casa e do Hospício, pois este último assemelhava-se mais a um convento e sofria muitas interferências das irmãs. Desta forma, houve uma separação da Psiquiatria e da 28 Filantropia. Como consequência, em 1890, as irmãs saíram dos hospitais e entraram as enfermeiras (Diaz, 2008). Em 1903, Teixeira Brandão conseguiu se tornar deputado e aprovou a “lei dos alienados”, dando poderes aos psiquiatras sobre a loucura. Ocorreram as estatizações dos hospícios e a criação dos campos de trabalho agrícolas, que posteriormente tornaram-se as grandes colônias de internação dos alienados mentais, uma vez que o governo entendia que os excluídos deveriam ser produtivos, com a finalidade de uma saúde individual e coletiva (Diaz, 2008; Quinderé, 2008; Sampaio et al., 1998). A terceira Reforma, a Adauto Botelho, ocorreu por volta da década de 1940, no período de governança de Getúlio Vargas. Neste período havia a grande expansão de uma ordem pública e o governo descobriu que a assistência médica seria uma estratégia de ludibriar as massas urbanas. Passou, portanto, a estabelecer campanhas estratégicas com a finalidade de atender aos abandonados sociais, criando-se hospitais psiquiátricos estatais em todas as unidades federativas (Quinderé, 2008; Sampaio et al., 1998). Uma quarta Reforma, a Leonel Miranda, aconteceu por volta da década de 1960, na época do Golpe Militar. Até o momento os hospitais eram, quase totalmente, estatais ou filantrópicos. Ocorreu, porém, uma expansão da rede hospitalar psiquiátrica privada, seguindo a lógica privatista da assistência à saúde no país, principalmente, na década de 1970, com a finalidade de terceirizar as funções do Estado voltadas para o campo da Saúde Mental (Jorge & França, 2001; Quinderé, 2008; Sampaio et al., 1998). A quinta Reforma, a conhecida Reforma Psiquiátrica Brasileira, com marco inicial na década de 1970, constituiu-se a partir de influências de todo o percurso histórico de lutas e movimentos brasileiros e internacionais em prol de uma mudança de paradigma na atenção dispendida à saúde mental. Constituindo-se por uma crítica ao subsistema nacional de saúde 29 mental privatista e ao modelo de serviço das instituições psiquiátricas. É compreendida como uma transformação em vários níveis, que passaram por conflitos, impasses e, principalmente,desafios, em busca de práticas inovadoras e saberes, perpassando as instituições, os serviços e as relações interpessoais (Ministério da Saúde [MS], 2005). No Brasil, a Reforma Psiquiátrica constituiu-se em um momento de mudança maior sobre a saúde e teve influência do movimento de Reforma Sanitária, que trazia a proposta de uma reformulação do conceito de saúde, do fazer em saúde, do cuidado, da atenção em saúde, da equidade, do protagonismo dos trabalhadores e dos usuários, entre outros. Como resultante da Reforma Sanitária e da 8ª Conferência Nacional de Saúde, de 1986, a Constituição Federal/1988 apregoou a conquista do direito à saúde e criou o Sistema Único de Saúde (SUS), em prol de uma redemocratização da sociedade civil (Dimenstein, 2007). Em busca de uma superação ao modelo psiquiátrico clássico de gerir os serviços, a Reforma Psiquiátrica em concomitância às propostas da Reforma Sanitária e da concepção de SUS, também aderiu essas mudanças, vendo a loucura em sua relação com a cultura, numa outra perspectiva, diferente da normatização estabelecida até o período das Reformas. Focava- se na garantia de um atendimento equitativo, integral e mais humanizado, e no respeito ao direito de ir e vir, garantido pela Constituição Federal. Com a Reforma Psiquiátrica devolveu- se ao “louco” e ao “alienado” o seu protagonismo social, a garantia de reinserção na sociedade, no trabalho e o direito e o respeito à cidadania (Alverga & Dimenstein, 2006; CFP, 2013; Figueiredo & Rodrigues, 2004; Leão & Barros, 2011). Desta maneira, a Reforma Psiquiátrica surgiu a partir da crítica ao modelo hospitalocêntrico (os hospitais como espaços de resolução de todas as doenças e mazelas sociais), e foi reforçado pelo movimento posterior de Luta Antimanicomial, que almejava a desinstitucionalização do sujeito em sofrimento psíquico. Buscava a desconstrução da visão 30 de louco e alienado, para a transformação da sociedade e sua relação com a loucura, combatendo a exclusão social e o preconceito. Também trouxe uma reformulação acerca do devido tratamento a ser prestado aos sujeitos em sofrimento psíquico, desenvolvendo e devolvendo a essas pessoas autonomia, para que pudessem se tornar protagonistas de sua história (Alverga & Dimenstein, 2006; Lara & Monteiro, 2013, 2014; Leão & Barros, 2011; Sá, Barros, & Costa, 2007; Tenório, 2002). Para efetivação dessas mudanças, ocorreu a implantação de novos dispositivos, substitutivos aos locais e modelos anteriores, orientados por práticas terapêuticas inovadoras. Nas práticas terapêuticas anteriores à proposta de Reforma, a assistência psiquiátrica não possuía como pressuposto terapêutico o olhar para os fatores ao entorno do paciente e de seu território, ou que permitisse um tipo de tratamento que inserisse o paciente na sociedade ou em suas atividades diárias, além disso, as práticas não valorizavam a autonomia e a emancipação do sujeito. Tal processo de fortalecimento do movimento em prol de uma mudança na assistência à saúde mental brasileira foi marcado por dois momentos críticos, complementares, que repercutiram na crítica ao modelo atual de assistência e na criação da rede substitutiva. O primeiro foi no período entre 1978 a 1991, quando ocorreu a crítica ao modelo hospitalocêntrico, pois se iniciou o movimento pelos direitos dos pacientes psiquiátricos. Como consequência, nesse período passou a tramitar no Congresso Nacional o Projeto de Lei do deputado Paulo Delgado, do Partido dos Trabalhadores – PT/MG, que propunha o fim dos manicômios no país e a regulamentação dos direitos de quem sofria de transtorno mental (MS, 2005), que só veio a ser sancionada em 6 de abril de 2001, conhecida como a Lei da Reforma Psiquiátrica (lei nº 10.216) (MS, 2001). 31 Foi nesse período que o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) surgiu, sendo composto por trabalhadores, familiares, membros de associações, sindicalistas e usuários (MS, 2005). Teve papel importante na construção de uma crítica ao saber psiquiátrico, que se encontrava defasado em relação às práticas de cuidado, e ao modelo hospitalocêntrico, como um lugar que tudo resolve sem um mínimo de assistência qualificada. Esse movimento assumiu papel extremamente importante, ao denunciar os inúmeros problemas e violências que aconteciam dentro das instituições manicomiais, além do combate às práticas mercantilistas em relação à loucura e à hegemonia privada nos atendimentos (MS, 2005). Configurou-se como uma conquista e libertação das pessoas que outrora encontravam- se marginalizadas do contexto social. Foi neste momento, que ocorreram os primeiros eventos, em especial a I Conferência Nacional de Saúde Mental e a VIII Conferência Nacional de Saúde. O segundo momento ocorreu com o começo da implantação da rede extra ao hospital (1992-2000), para a qual os movimentos sociais conseguiram aprovar a substituição paulatina dos leitos psiquiátricos pela rede integrada de atenção à saúde mental, influenciados pelo Projeto de Lei do deputado Paulo Delgado. Com ela, reestruturou-se a atenção em saúde mental, garantiu-se o direito das pessoas que precisavam de um tratamento especializado e criaram-se dispositivos substitutivos àqueles antes dispensados para o tratamento dos transtornos mentais, além de normas que fiscalizassem e classificassem os hospitais psiquiátricos (MS, 2005). Essa conquista se deu a partir da Declaração de Caracas, que foi um documento que marcou as reformas na atenção à saúde mental nas Américas, e da II Conferência Nacional de Saúde Mental, de 1992, que firmou o entendimento sobre a desinstitucionalização, passando a ser ponto fundamental na transformação da assistência psiquiátrica brasileira (Figueiredo & Rodrigues, 2004). 32 Entre os dispositivos criados nesse segundo momento, na década de 1980 ocorreu a disseminação dos ambulatórios de saúde mental, os quais surgiram para combater as constantes internações a que eram submetidas as pessoas que padeciam de algum tipo de transtorno. Os ambulatórios passaram a contar com a participação de uma equipe multidisciplinar, dissolvendo a figura do psiquiatra como o único responsável pela atenção em saúde mental. Além disso, a proposta consistia na participação do próprio usuário e de sua família no processo de cuidado (Jucá, Medrado, Safira, Gomes, & Nascimento, 2010). Na sequência, em 1986, surgiu o primeiro Centro de Atenção Psicossocial do Brasil, na cidade de São Paulo. Dois anos mais tarde, em 1989, houve a intervenção da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo na Casa de Saúde Anchieta, um local de violência, mortes e maus-tratos aos internos. A partir desse episódio, passou a existir um posicionamento frente à ideia de que deveriam existir outras formas de atenção ao paciente psiquiátrico, que substituíssem os hospitais psiquiátricos. Como estratégia resolutiva, inicialmente, foram criados na cidade de Santos – SP os Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS), bem como as cooperativas, as residências e associações que atendessem os egressos dos hospitais psiquiátricos. Esse foi um momento especial no processo de Reforma Psiquiátrica, sendo conhecido como o principal marco dessa luta (MS, 2005). A partir dessa retrospectiva, evidencia-se que a Reforma Psiquiátrica consistiu em um processo político e social, que envolveu vários atores, instituições e forças de origens diversas. A Reforma Psiquiátrica foi um resultado de constantes mobilizações tanto dos trabalhadores da saúde, quanto de usuários e familiares (MS, 2013a). A Reforma Psiquiátrica realizou uma grande modificação na atenção ao usuário, pois sua preocupação, desde a década de 1980, voltou-se para a desconstrução da ideia dos 33 manicômios como espaço de tratamento das pessoas com algum tipo de transtorno mental e reversão desse espaço para uma proposta de rede substitutivade cuidados. Por meio de novos dispositivos de atenção e de cuidado, a saúde mental passou a ser pensada preferencialmente na comunidade, em seus equipamentos territorializados, permitindo, assim, incluir o usuário atendido pelos serviços de saúde mental na sociedade, sendo o CAPS o ordenador da rede na construção do cuidado, a partir de práticas terapêuticas inovadoras (Berlinck, Magtaz, & Teixeira, 2008; MS, 2015; Puchivailo et al., 2013). 1.3 O Centro de Atenção Psicossocial no Brasil Com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), e a consequente descentralização e hierarquização da saúde, estabelecidas entre suas diretrizes organizativas, por meio da Lei N° 8080/90, tinha-se a finalidade de organizar o fluxo de usuários no sistema por meio de redes de atenção, que passaram a ser consideradas prerrogativas importantes no cuidado em saúde. Essas redes foram estruturadas numa lógica hierárquica, o que levou, no decorrer de suas ações, a uma disposição de serviços burocráticos e engessados, principalmente no que concerne à referência e contra referência entre eles (Quinderé, Jorge, & Franco, 2014). Por mais que tenham ocorrido avanços nas Políticas Públicas de Saúde, foi necessária a superação das fragmentações de ações e serviços de saúde, que outrora estavam em vigor no Brasil, e a qualificação da gestão do cuidado. O Brasil como um país rico em diversidade socioeconômica, cultural, regional e de necessidades da população, viu a necessidade de criação das Redes de Atenção à Saúde, a partir de vários fatores, que a subsidiaram numa perspectiva de tensionamento, articulação e movimento, funcionando de forma 34 horizontalizada, a partir das demandas apresentadas pelos usuários e da integração dos serviços (Borges et al., 2018; Quinderé et al., 2014). Estas Redes de Atenção à Saúde (RASs) consistem em “arranjos organizativos de ações e serviços de saúde, de diferentes densidades tecnológicas que, integradas por meio de sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade do cuidado” (MS, 2010, p. 4). Entre essas, pode-se mencionar, a saber: Rede Cegonha; Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE), Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador, Rede de Cuidado à Pessoa com Deficiência, Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas, e Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A partir da Reforma Psiquiátrica, da constituição das RASs e com a lei 10.216 (MS, 2001), reestruturou-se a atenção em saúde mental no Brasil, por meio da disposição de uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com sete níveis de especialidade: atenção básica, atenção psicossocial especializada, atenção de urgência e emergência, atenção residencial de caráter transitório, atenção hospitalar, estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial. Constitui-se em diversos dispositivos substitutivos (regulamentados pela Portaria/GM nº 336, de 19 de fevereiro de 2002) àqueles antes dispensados para o tratamento dos transtornos mentais, que visam a criação, ampliação e articulação de pontos de atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) (Portaria nº 3088/2011) (ver Figura 1) (MS, 2011a). 35 Figura 1. Rede de Atenção Psicossocial. Pertencente ao Sistema Único de Saúde (SUS), e situado dentro da RAPS, o CAPS constitui-se em um equipamento de referência, aberto à comunidade, recebendo pessoas com transtornos mentais severos e persistentes, neuroses graves e outros quadros relacionados. Esses usuários podem ser crianças, adolescentes e adultos, independentemente do uso ou não de substâncias psicoativas. Chegam por demanda espontânea e encaminhada pelas redes de atenção, seja da saúde, da assistência social, entre outras (MS, 2004). O que caracteriza o CAPS é sua visão de promoção de vida, de cuidado intensivo (atendimento diário para pessoas em grave sofrimento psíquico), semi-intensivo (o usuário 36 pode ser atendido até 12 dias no mês, inclusive domiciliar, se for necessário) e não-intensivo (quando o usuário não precisa de suporte contínuo para viver em sua comunidade ou realizando atividades pessoais), comunitário, personalizado e promotor de vida, objetivando um acompanhamento clínico, de reinserção social dos seus pacientes (Alverga & Dimenstein, 2006; Figueiredo & Rodrigues, 2004; Mangualde et al., 2013) e substitutivos às internações hospitalares (CFP, 2013; Leão & Barros, 2011; Ribeiro, 2004). Além disso, constituem-se como um serviço de caráter ambulatorial e de atenção diária (MS, 2002). Nesta perspectiva, os CAPSs foram criados a fim de se tornarem um local de atendimento intermediário, “entre o atendimento ambulatorial e a internação após a alta de pacientes de hospitais psiquiátricos” (Mangualde et al., 2013, p. 237). Os CAPSs diferenciam-se quanto ao porte, ao tipo de atendimento, a capacidade, a clientela e quanto ao serviço. Neste último caso, podem ser diferenciados em: CAPS I (para municípios com população entre 20.000 e 50.000 habitantes), CAPS II (para municípios com mais de 50.000 habitantes), CAPS III (grande complexidade; para municípios com mais de 500.000 habitantes; funcionam durante 24 horas em todos os dias da semana e em feriados), CAPSi (crianças e adolescentes; para municípios com mais de 200.000 habitantes) e CAPS AD (álcool e outras drogas; para municípios com mais de 200.000 habitantes) (MS, 2005). Acrescenta-se, recentemente, pelas Portaria nº 544, de 7 de maio de 2018 e Portaria nº 3588, de 21 de dezembro de 2017, o CAPS AD IV (álcool e outras drogas, 24h; para municípios com mais de 500.000 habitantes) (MS, 2017). Além do tipo de público a qual se destina e quantidade de demanda que comporta, os CAPSs se diferenciam também sobre os profissionais que compõem a equipe multiprofissional. Em todos os tipos de CAPSs está o psicólogo, entendido como um dos possíveis técnicos de referência a fazer parte da equipe (Silva & Lima, 2017) (ver Tabela 1). 37 Tipos de CAPS Profissionais pertencentes à equipe CAPS I • 1 médico psiquiatra ou médico com formação em saúde mental • 1 enfermeiro • 3 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 4 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS II • 1 médico psiquiatra • 1 enfermeiro com formação em saúde mental • 4 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo, professor de educação física ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS III • 2 médicos psiquiatras • 1 enfermeiro com formação em saúde mental • 5 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário de nível superior • 8 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS Infantil • 1 médico psiquiatra, ou neurologista ou pediatra com formação em saúde mental • 1 enfermeiro • 4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 5 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS ADCAPS AD IV • 1 médico psiquiatra • 1 enfermeiro com formação em saúde mental • 1 médico clínico, responsável pela triagem, avaliação e acompanhamento das intercorrências clínicas • 4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão • Profissional de nível médio para atividades administrativas (24h/dia); • Turno diurno: 1 médico clínico (diarista) • 2 médicos psiquiatras (um diarista e um plantonista) • 2 enfermeiros com experiência e/ou formação em saúde mental (plantonistas 12h) • 4 profissionais de nível médio • Turno noturno: 1 médico psiquiatra (plantonista 12h) • 1 enfermeiro com experiência e/ou formação em saúde mental (plantonista 12h) • 5 técnicos de enfermagem (plantonistas 12h). Tabela 1 Profissionais integrantes da equipe do CAPS Fonte: (MS, 2004, pp. 26-27; MS, 2017). 38 O CAPS possui papel estratégico de organização, regulação, articulação e ligação entre as redes de atenção à saúde, e constitui-se como um serviço que objetiva superar o modelo manicomial. Distingue-se pela interdisciplinaridade e pela acessibilidade local, além de possuir outras características, tais como: integração entre sistemas primários e secundários de atenção e de política social, redução de hierarquia entre assistido e assistente, multiplicidade de práticas, supervisão institucional e técnica, dinamicidade das políticas de saúde mental, extra-hospitalar, otimista e humanista (Borges et al., 2018; Sampaio et al., 1998). Os CAPSs são serviços comunitários, firmados em território definido, que possui suas próprias peculiaridades e potencialidades. São locais que possuem uma complexidade de aspectos individuais, familiares e sociais. Por estarem inseridos em locais estratégicos, destinam-se a articular as ações em rede, junto à atenção básica em saúde, aos hospitais com leitos de internação, aos ambulatórios e à reabilitação psicossocial. Podem atuar tanto em atendimento especializado, como em atenção primária, acompanhando e dando apoio matricial às Unidades Básicas de Saúde (UBS). É por meio desse apoio matricial que a equipe se envolve com os casos, mas também articula com outras redes em prol de um atendimento integral ao usuário. Isso permite aos serviços do sistema de saúde a facilitação no planejamento das ações e intervenções, evitando a fragmentação dos serviços (ver Figura 2) (Pinho et al., 2018; Quinderé et al., 2014). Um papel de articulador que confere ao CAPS o papel de elemento central, facilitando o direcionamento de demandas a ele, viabilizando o cuidado em saúde em conjunto com a rede, sem priorizar o CAPS como o único responsável pelas demandas em saúde mental (Moreira & Campos, 2017). 39 Figura 2. Rede de Atenção à Saúde Mental. Esta organização dos serviços em rede favorece o desenvolvimento mais eficaz de um Acompanhamento Terapêutico (AT) em saúde mental do usuário, principalmente quando o campo da saúde mental vem experimentando práticas inovadoras, além de novos equipamentos de atenção. O AT, nessa perspectiva, situa-se no espaço entre a clínica tradicional e as práticas inovadoras, visando proporcionar atenção devida às diversas 40 demandas apresentadas pelos sujeitos com transtorno mental e/ou de grupos atendidos, a fim de facilitar o resgate de sua subjetividade, além de atender às demandas dos familiares, se configurando num atravessamento de espaços intra e extra-muros dos serviços da rede e da comunidade, para proporcionar estratégias de enfrentamento criativas e condizentes com a realidade em que se encontram. Esse AT consiste em um espaço que se constitui como uma clínica da alteridade, que respeita o outro tal como ele é e assume um lugar de troca, em que os conhecimentos dos envolvidos estão na base dos atendimentos (Ferro, Mariotti, Holanda, & Nimtz, 2018). Dentro das propostas de AT, o acolhimento é, conforme Pinho, Souza e Esperidião (2018), um dos tópicos mais frequentes em publicações voltadas para as práticas realizadas nos CAPSs. Esse acolhimento é entendido como uma ferramenta de atuação e que pressupõe tanto a escuta qualificada como a construção de vínculo e os laços afetivos. O acolhimento se constrói na valorização do saber do outro, o que favorece uma compreensão mais profunda da necessidade do indivíduo. Os autores ressaltam que estas ferramentas que pressupõe uma a outra, são interdependentes e acontecem efetivamente caso haja o comprometimento da equipe em utilizá-las (Pinho et al., 2018). O acolhimento constitui-se como prática cotidiana dos CAPSs, sendo realizado pelos Técnicos de Referência (TR) do serviço, e é o momento em que pode se estabelecer o convite ao usuário para adesão às atividades do CAPS (Ferro et al., 2018; Santos et al., 2018). Entende-se na literatura, que o acolhimento pode ser presumido, também, por outra ordem de valor, no sentido de “internação” por um curto período de tempo em alguma instituição (Abreu et al., 2017). Todos os atendimentos dos CAPSs possuem finalidade terapêutica (Bichaff, 2006; CFP, 2009; 2013; Correia, 2007; Lara & Monteiro, 2014; MS, 2004). Para tanto, o profissional Técnico de Referência, junto com a equipe interdisciplinar, usuário e família, 41 realiza a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS). Um projeto único (singular) para o usuário ou grupo ao qual se destina, de acordo com suas necessidades e demandas (Borges et al., 2018; Miranda, Oliveira, & Santos, 2014; Carvalho, Moreira, Rézio, & Teixeira, 2012; Grigolo & Pappiani, 2014; Martinhago & Oliveira, 2012; Pinho et al., 2018; Santos et al., 2018), por meio do qual o TR ficará responsável por monitorar a frequência, as atividades, o contato familiar e a avaliação das metas traçadas, fortalecendo esse processo em um ambiente acolhedor, estruturado e facilitador (MS, 2004). A equipe de saúde mental, a partir do PTS, pode fortalecer a troca de saberes, levando em consideração seu contexto social, a fim de tornar os usuários, os familiares e a comunidade como coparticipes e provedores do cuidado. A construção do vínculo entre equipe-usuário-família facilita o fazer do matriciamento, o que contribui para delinear estratégias e propostas integradas com outros serviços da rede (Garcia et al., 2017; Iglesias & Avelar, 2016; Pinho et al., 2018; Santos et al., 2018; Silva et al., 2016). Este matriciamento ou apoio matricial pode ser considerado como algo inovador na produção de saúde e na construção compartilhada, pois duas ou mais equipes podem delinear uma proposta pedagógico-terapêutica dos e para os casos, proporcionando a integralidade da atenção e uma articulação das redes (Garcia et al., 2017). A operacionalização do PTS deve respeitar, como ele mesmo se propõe, a singularidade do sujeito, evitando situações em que o TR valorize apenas um ponto de vista, normalmente, dentro de uma perspectiva de atuação mais cômoda, e não no intuito de melhorar a qualidade de vida do usuário (Grigolo & Pappiani, 2014; Santos et al., 2018; Silva et al., 2016). Ou seja, a constituição do PTS deve se dar numa concepção para além da aplicação de conhecimentos biológicos ou de uma visão biomédica, mas abranger a atenção numa lógica igualmente psicossocial, levando em conta aspectos ideológicos, políticos e 42 éticos (Vasconcelos et al., 2016). A reflexão sobre estes moldes de atuação, faz-se necessário a fim de colaborar com mudanças nas práticas de saúde. Para Vasconcelos et al. (2016), é possível existir um PTS ideal e outro real, uma vez que estes se constroem a partir das práticas cotidianas dos serviços de saúde e em seus processos de trabalho,