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1. Conhecer os mecanismos fisiopatológicos que levam ao choque hipovolêmico. O choque hipovolêmico é causado por uma redução do volume sanguíneo (hipovolemia). É o tipo mais frequente de choque. Essa redução do volume pode ser devida a uma hemorragia (causa mais frequente) em que há perda tanto de eritrócitos quanto de plasma, ou a uma perda isolada de plasma, que ocorre em casos mais específicos. De uma forma ou de outra, o que ocorre é uma queda na pressão de enchimento capilar (PEC) ou pressão hidrostática. A hemorragia pode ser externa (traumas etc.) ou interna (úlcera perfurada etc.). A fim de recuperar a perfusão tecidual o organismo lança mão de estratégias fisiológicas como a ativação simpática. Essa ativação desencadeia três respostas principais. A primeira é a contração das arteríolas, que aumenta a resistência vascular periférica (RVP). A segunda é a contração das veias, que aumenta o retorno venoso e, consequentemente a pré-carga. E a terceira são os efeitos cardíacos diretos: o aumento da frequência cardíaca (efeito cronotrópico positivo) e o aumento da força de contração do coração (efeito inotrópico positivo) (PORTH; MATFIN, 2010). Tais efeitos atuam em conjunto contribuindo para o aumento da pressão arterial (PA). Isso por que: PA= DC X RVP, ou seja, a PA é diretamente proporcional ao débito cardíaco (DC) e a resistência vascular periférica (RVP). Essa última foi aumentada com a contração arteriolar mediada pelo simpático. O débito cardíaco, por sua vez; é dado por: DC = DS X FC, ou seja, o débito cardíaco é diretamente proporcional ao débito sistólico (DS), que consiste no volume de sangue ejetado pelo coração a cada batimento cardíaco, e à frequência cardíaca (FC). Esta última foi alterada pela ativação simpática (efeito cronotrópico positivo). O débito sistólico, por sua vez, sofre influência tanto da contratilidade cardíaca (efeito inotrópico positivo, resultado da ativação simpática) quanto do retorno venoso (aumentado pela vasoconstrição venosa). O choque hipovolêmico pode ser facilmente diagnosticado caso haja sinais clínicos claros de instabilidade hemodinâmica ou se a fonte de perda de volume sanguíneo for evidente. Caso contrário, pode ser facilmente confundido com outro tipo de choque ou até mesmo, nem diagnosticado como tal. 2. Identificar e descrever as alterações hemodinâmicas e laboratoriais típicas de uma hemorragia aguda associadas ao politrauma. A hemorragia aguda associada ao politrauma desencadeia uma série de alterações hemodinâmicas e laboratoriais que refletem a perda volumétrica e a resposta compensatória do organismo. Alterações Hemodinâmicas A hemorragia aguda reduz o volume sanguíneo circulante, levando a um quadro de choque hipovolêmico, caracterizado por: 1. Hipotensão arterial (PA baixa) → devido à diminuição do retorno venoso e do débito cardíaco. 2. Taquicardia (FC elevada) → mecanismo compensatório para manter o débito cardíaco. 3. Taquipneia (FR elevada) → resposta do sistema simpático e tentativa de compensação metabólica. 4. Pele fria e sudorese → vasoconstrição periférica para manter a perfusão de órgãos nobres. 5. Rebaixamento do nível de consciência (se houver progressão do choque) → hipoperfusão cerebral. Choque Problema 5 – Alterações do Sangue OBJETIVOS 6. Diminuição do débito urinário → resposta renal ao baixo fluxo sanguíneo. No caso clínico: • PA: 80/50 mmHg → hipotensão indicativa de choque hipovolêmico. • FC: 120 bpm → taquicardia compensatória. • FR: 28 rpm → taquipneia associada à resposta ao estresse e possível acidose metabólica. Alterações Laboratoriais A perda sanguínea gera alterações nos exames laboratoriais, incluindo: • Hemoglobina (Hb) e Hematócrito (Ht) reduzidos → indicam anemia aguda devido à perda de eritrócitos. o Caso clínico: Hb: 7 g/dL e Ht: 21% (valores reduzidos). • Plaquetopenia (baixa contagem de plaquetas) → pode ser decorrente do consumo plaquetário no contexto de coagulação intravascular disseminada (CID) ou da diluição pela reposição volêmica. o Caso clínico: 100.000/mm³ (plaquetas reduzidas). • Alterações na coagulação → ativação da cascata de coagulação pelo sangramento pode levar a coagulopatia. o TP prolongado (18s, controle 12s) e TTPa prolongado (50s, controle 30s) sugerem coagulopatia associada ao trauma e possível CID. • Distúrbios metabólicos (não fornecidos no caso, mas esperados): o Lactato elevado → indica hipoperfusão tecidual. o Base excess negativo / bicarbonato baixo → sugere acidose metabólica compensatória. Essas alterações refletem a gravidade da hemorragia e a necessidade de reposição volêmica, transfusão sanguínea e correção da coagulopatia para estabilizar o paciente. 3. Compreender os princípios da coagulopatia e dos dos mecanismos compensatórios do sistema circulatório em traumas severos. Coagulopatia Induzida pelo Trauma (CIT) A coagulopatia no trauma é um fenômeno multifatorial que ocorre devido à interação entre hipovolemia, hipotermia, acidose, inflamação sistêmica e ativação desregulada da cascata de coagulação. Esse quadro favorece a hemorragia progressiva, elevando a morbimortalidade. Fisiopatologia da Coagulopatia no Trauma: 1. Consumo excessivo de fatores da coagulação e plaquetas o O trauma grave desencadeia ativação descontrolada da cascata de coagulação, resultando em consumo excessivo de fatores e plaquetas, caracterizando um estado de coagulopatia de consumo. 2. Dilucional o A reposição volêmica agressiva com cristaloides e hemoderivados desprovidos de plaquetas e fatores de coagulação pode levar à coagulopatia dilucional, exacerbando o sangramento. 3. Hipotermia o A exposição ao ambiente hospitalar, a administração de fluidos frios e o trauma extenso favorecem a redução da temperatura corporal, inibindo a atividade enzimática da cascata de coagulação e prejudicando a função plaquetária. 4. Acidose Metabólica o A hipoperfusão tecidual leva ao metabolismo anaeróbico e produção excessiva de lactato, gerando acidose metabólica. A redução do pH compromete a ativação das proteínas da coagulação, agravando o sangramento. 5. Ativação Fibrinolítica Exacerbada o O trauma desencadeia uma ativação exacerbada do plasma resultando em degradação da fibrina e hiperfibrinolise, o que reduz a estabilidade do coágulo e perpetua a hemorragia. 📌 Marcadores laboratoriais da coagulopatia induzida pelo trauma: • Tempo de Protrombina (TP) prolongado → disfunção na via extrínseca da coagulação. • Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPa) prolongado → disfunção na via intrínseca. • Plaquetopenia → consumo plaquetário ou diluição. • Hipofibrinogenemia → redução da formação de fibrina. • Elevação do D-dímero → indicativo de fibrinólise exacerbada. Mecanismos Compensatórios Cardiovasculares no Trauma Severo A resposta fisiológica ao trauma e à hemorragia envolve múltiplos sistemas visando manter a perfusão tecidual e a homeostase circulatória. 1. Ativação do Sistema Nervoso Simpático (SNS) • A hipovolemia gera queda da pressão arterial (PA) e redução da perfusão renal e cerebral, ativando barorreceptores arteriais e resultando em liberação de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina). Isso leva a: o Aumento da frequência cardíaca (FC) e da contratilidade miocárdica → para compensar a redução do volume sistólico. o Vasoconstrição periférica intensa → redistribui o fluxo sanguíneo para órgãos nobres (cérebro, coração e rins). 2. Ativação do Sistema Renina- Angiotensina-Aldosterona (SRAA) • A hipoperfusão renal desencadeia a liberação de renina, levando à formação de angiotensina II, um potente vasoconstritor, que: o Aumenta a resistência vascular sistêmica para manter a pressão arterial. o Estimula a secreção de aldosterona, promovendoretenção de sódio e água nos túbulos renais para expandir a volemia. 3. Resposta Respiratória e Metabólica • Taquipneia compensatória ocorre para reduzir a acidose metabólica por meio da eliminação de CO₂ (compensação respiratória). • A acidose e a hipóxia levam à liberação de mediadores inflamatórios e óxido nítrico (NO), que podem causar vasodilatação paradoxal, agravando a instabilidade hemodinâmica. 4. Mobilização de Reservas Hematológicas • O baço libera hemácias armazenadas para tentar restaurar a volemia circulante. • Em fases tardias, a eritropoietina (EPO) é secretada para estimular a eritropoiese. ⚠ Se a hipoperfusão persistir, os mecanismos compensatórios falham, evoluindo para choque hipovolêmico irreversível e falência de múltiplos órgãos. Implicações Clínicas e Manejo da Coagulopatia e Hipovolemia no Trauma • Controle precoce da hemorragia é prioritário para evitar a tríade letal (hipotermia, acidose e coagulopatia). • Ressuscitação hemostática com transfusão balanceada (hemácias, plasma fresco congelado e plaquetas) para restaurar a homeostase coagulatória. • Correção da acidose e hipotermia para evitar a disfunção da cascata de coagulação. • Uso de antifibrinolíticos (ex: ácido tranexâmico) em pacientes com suspeita de hiperfibrinólise. • Monitorização hemodinâmica rigorosa, guiando a reposição volêmica com metas baseadas na pressão arterial permissiva e parâmetros de perfusão tecidual. A hemorragia maciça no trauma severo desencadeia uma resposta compensatória intensa e uma coagulopatia progressiva, que, se não abordadas precocemente, resultam em descompensação hemodinâmica e alta mortalidade. O manejo deve ser rápido, guiado por protocolos de transfusão maciça e estratégias de ressuscitação hemostática para interromper o ciclo de sangramento e estabilizar o paciente. 🚑 4. Princípios da reanimação volêmica e transfusional no manejo inicial no contexto do politrauma. Princípios da Reanimação Volêmica e Transfusional no Politrauma O manejo inicial do paciente politraumatizado com hemorragia significativa segue diretrizes baseadas na ressuscitação hemostática, evitando a tríade letal do trauma: coagulopatia, acidose e hipotermia. A abordagem deve ser individualizada, visando a restauração da perfusão tecidual sem exacerbar a hemorragia. 1. Reanimação Volêmica no Trauma • A reanimação volêmica no trauma tem como objetivo principal otimizar a perfusão dos órgãos vitais, minimizando a hemodiluição e a piora da coagulopatia. 1.1. Hipotensão Permissiva • Estratégia que mantém pressão arterial sistólica entre 80-90 mmHg até o controle definitivo da hemorragia. • Evita a reperfusão precoce, que poderia aumentar o sangramento devido à remoção dos coágulos frágeis formados no local da lesão. • Contraindicações: TCE grave (necessita PAS ≥ 90 mmHg para evitar isquemia cerebral). 1.2. Escolha dos Fluidos na Ressuscitação Inicial • Cristaloides (Ringer Lactato, SF 0,9%) o Devem ser usados com parcimônia para evitar a diluição dos fatores da coagulação e o agravamento da acidose metabólica. o A infusão excessiva pode induzir síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS) e edema intersticial. o Ringer Lactato é preferível ao SF 0,9%, pois minimiza o risco de acidose hiperclorêmica. o Dose recomendada: bolus inicial de 250-500 mL, seguido de reavaliação clínica. 2. Coloides (ex: Albumina, Gelatinas, Amido de Hidroxietila) • Pouco utilizados devido ao risco de nefrotoxicidade e coagulopatia. 2. Terapia Transfusional no Trauma • A transfusão no trauma segue protocolos baseados na reposição equilibrada dos componentes sanguíneos, prevenindo a coagulopatia induzida pelo trauma (CIT). 2.1. Protocolo de Transfusão Maciça (PTM) Indicada em pacientes com hemorragia grave ativa, definidos por critérios como: • Índice de choque (FC/PAS) > 1. • Necessidade de ≥ 4 CH em 1 hora. • Hemoglobina 4 mmol/L, TP alargado (>1,5x controle). Estratégia de Transfusão Balanceada (1:1:1) • 1 unidade de concentrado de hemácias (CH). • 1 unidade de plasma fresco congelado (PFC). • 1 unidade de plaquetas. Essa estratégia mantém hematócrito adequado, função da coagulação preservada e volume intravascular eficaz. 2.2. Hemocomponentes e suas Indicações Hemocomponente Indicação no Trauma Concentrado de Hemácias (CH) Hb 1,5x controle; necessidade de fatores de coagulação Concentrado de Plaquetas Contagem 200 mg/dL) 3. Suporte Adjuvante na Ressuscitação Hemostática 3.1. Ácido Tranexâmico (TXA) • Antifibrinolítico que reduz a degradação dos coágulos. • Dose recomendada: 1g EV em bolus + 1g em 8h. • Indicado nas primeiras três horas do trauma. 3.2. Controle da Hipotermia e Acidose • Hipotermia (