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SOBRE O PROF. ADALBERTO BARRETO Adalberto Barreto é professor de graduação e pós-graduação do Departamento de Saúde Comunitária - Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceará - UFC. Doutor em Psiquiatria pela Universidade René Descartes Paris V (1982). Doutor em Antropologia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris (EHESS) Universidade de Lyon II - França (1985). Licenciado em Teologia pela Pontifícia Universidade Santo Thomaz de Aquino in Urbis, em Roma (1976), e pela Universidade Católica de Lyon, França (1980). Coordena, há quinze anos, um Projeto de Pesquisa e Extensão na área de Saúde Mental Comunitária, na Favela de Pirambu, Comunidade de Quatro Varas - Fortaleza - CE, cujo objetivo é articular o saber científico com o saber popular, na perspectiva do desenvolvimento das dinâmicas individuais e comunitárias. É o criador da Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa, um programa de atenção primária na área de saúde mental que utiliza a competência das pessoas e promove a construção de redes sociais. É diretor do Centro de Estudos da Família e Coordenador do Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária - MISMEC - Fortaleza - CE. Publicou diversas obras no Brasil e no exterior, entre as quais se destacam: Un Psychiatre dans la Favela (1995), L’indien qui est en Moi (1996), Do sertão à favela: da exclusão à inserção social Prefácio: “Só Reconheço no outro aquilo que conheço em mim” 5 Carta de OMS Nasci em Canindé, cidade de romarias no sertão nordestino, que recebe cerca de um milhão de peregrinos por ano. Vivi toda a minha infância nesta cidade sagrada. Cada peregrino tinha uma história para contar, na qual São Francisco aparecia como protetor, o médico, o amigo da família que todos acolhiam. De todas as histórias ouvidas a que mais me impressionou foi a de uma criança de sete anos perdida na Floresta Amazônica durante três dias a família a procurou, desesperadamente, sem nenhum resultado. Foi somente, quando, de joelhos, invocou os poderes de São Francisco do Canindé que ela foi encontrada e levada ao encontro de sua família, por um homem idoso. Mais tarde, quando pagavam promessa na Basílica de São Francisco, em Canindé, a criança reconheceu, nos afrescos que ornamentam a basílica, aquele que a havia protegido na floresta e a levada a seus pais, como sendo São Francisco. Esta história de uma criança salva na Floresta Amazônica, graças à invocação da fé, em uma demonstração de fidelidade aos valores religiosos, permitindo à família superar esse drama, sempre me fascinou. Minha identidade ameaçada: Quando cursava Medicina, na Universidade Federal do Ceará, estranhamente, sentia-me como essa criança perdida na floresta. Durante toda a minha infância, vivi num mundo mágico-religioso, marcado por uma maneira de viver que se caracterizava pela cura dos doentes e dos infelizes. Nesse universo, São Francisco era o grande protetor dos sertanejos. Ele curava as doenças do abandono, oferecendo ao peregrino a possibilidade de pertencer a uma grande família espiritual. Os ex- votos, representando as feridas e sofrimentos dos peregrinos, eram depositados na casa dos milagres, ao lado da basílica. Eles eram o testemunho do poder de cura do santo protetor. Havia, também, os curandeiros: homens e mulheres que devotavam suas vidas a cuidar dos pobres doentes. Cada um dos personagens possuía seu arsenal terapêutico para combater a doença e o sofrimento. As rezadeiras tinham as suas rezas mágicas; os raizeiros, suas raízes e cascas de árvores; os médiuns espíritas, os seus rituais de invocação dos espíritos desencarnados; os umbandistas, seus rituais sonoros, danças e cânticos, bem como, seus transes terapêuticos. Apesar das diferenças, eles estavam unidos pela mesma fé pelo mesmo desejo: o de servir aos que sofriam e ajudá-los a sair de um verdadeiro labirinto imposto pela vida. Como meus estudos universitários, eu entrava em um novo universo, uma verdadeira floresta que me angustiava à medida que eu descobria suas riquezas. A percepção da doença e do sofrimento humano estava em oposição àquela de minha própria cultura nordestina. Progressivamente eu percebia que o novo mundo acadêmico exigia de mim a renúncia às minhas crenças anteriores. Parecia que, para tornar-se um 5 Carta de OMS homem da ciência, eu teria que renegar a minha própria cultura. Eu não poderia mais exprimir as minhas crenças, sem me expor ás criticas dos meus colegas. Havia aqueles que já estavam descrentes, e por esta razão, consideravam-se superiores aos outros que ainda acreditavam. Eu me sentia desarmado: como responder às exigências de uma ciência, baseada na materialidade das coisas, se aquilo que me estimulava, pertencia ao mundo invisível, ao qual a ciência não permitia ter acesso? Muitas vezes, eu me questionava: o que fica de um homem se lhe são retirados suas crenças, seus valores, suas convicções que fazem dele um nordestino, um sertanejo. Tal qual a criança perdida na Floresta Amazônica, eu temia ser devorado pelas “certezas científicas”. Passei, então, a desconfiar das grandes certezas. Muitas vezes, eles são uma arma mortal para aqueles que desejam dominar o espírito das pessoas perdidas em suas dúvidas e seus processos libertadores. Entretanto, esses dois universos me seduziam. Cada um tinha o seu lado apaixonante. Meu primeiro universo cultural nutria em mim o gosto pelas coisas maravilhosas, mágicas, em que o homem, para sobreviver, deve levar em consideração o lado invisível das coisas. Nele, eu aprendi que o essencial é invisível, e que nós devemos viver com os pés no chão, mas com o olhar para o infinito. Porém, algo me inquietava: este universo era prisioneiro dos deuses de um passado distante, em que todo progresso distanciava o homem do paraíso, e todo o prazer carnal era uma ofensa ao Criador. Nesse mundo, havia pouco espaço para a contestação, para a liberdade e para o direito de ousar. O homem era uma pessoa submissa e privada de sua capacidade transformadora. Não lhe era permitido construir e/ou transformar as coisas, bem como questionar as normas padronizadas. Por outro lado, o novo mundo da ciência, através de suas experiências e explicações científicas palpáveis, permitia-me aprender a fazer certo número de coisas que eu concebia como possíveis no meu universo mágico-religioso. Através de minha formação universitária, eu tinha acesso aos segredos do funcionamento do mundo e da perpetuação da vida na terra. Era como se, sendo médico, eu me tornasse o senhor da vida e da morte. Esse aspecto da ciência me fascinava, mas, por outro lado, dava-me medo, pelo seu caráter excludente, que rejeitava os outros sistemas explicativos. Havia algo da ordem do domínio da verdade. O discurso científico exprimia que, ao mesmo tempo, que detinha a verdade, possuía uma vontade colonizadora e dominadora do pensamento do homem e de todas as suas ações. Nesse ponto, meu segundo universo não diferia muito do primeiro. Em ambos, o homem torna-se prisioneiro de mitos. A única verdade era a científica. As outras nada mais eram do que a expressão do mundo dos ignorantes, dos incultos e, por esta razão, tornavam-se obstáculos a todo o progresso. Eu sentia que esse mundo exigia que eu me tornasse um apostolo da ciência para converter os “incrédulos” e os “ignorantes” a esta nova religião médica. O primeiro mundo nutria uma verdade mítica, onde o imaginário tinha um papel primordial e reduzia a realidade material a uma espécie de miragem sem importância; já o mundo científico privilegiado a realidade material, ignorando e, até mesmo,5 Carta de OMS combatendo o imaginário, o irracional. Esse novo mundo exigia a morte de meu universo cultural para poder reinar como senhor absoluto. Ele desejava ser sua única medida. Essa foi, sem dúvida, umas das minhas primeiras batalhas interiores. Eu estava convencido de que manipulava um verdadeiro arsenal atômico, o qual o menor equívoco poderia reduzir, em pedaços, uma existência desejosa da plenitude da vida. Eu sabia que tinha que lutar e que a única saída possível passava por um diálogo entre aquele que eu era e aquele que eu me tornava. Nesse clima de guerra interior, aprendi a nada eliminar, sem antes ter examinado, questionado. O grande temor que me habitava era de encontrar-me esvaziado dos elementos que constituíam a base de minha existência, de pessoa membro de uma cultura. Para mim, era inconcebível uma vida sem autonomia criativa. Todas essas questões tocavam o cerne da minha vida. Era minha própria identidade que estava em jogo. Perguntava-me: quem sou eu? Quer ser me tornarei? Um desafio e uma ambição: Diante desses questionamentos, geradores de inquietações, eu me propus um desafio e uma ambição: fazer co-habitar em mim esses dois universos, aparentemente contraditórios, mas que eu os sentia complementar. Cada um era rico naquilo que o outro era pobre. No meu universo de origem, eu me sentia chamado a tornar-me um “São Francisco” _ “Salvador dos Pobres”. Eu queria, verdadeiramente, seguir essa via. Daí porque tanto insisti com meus pais para salvar as almas ameaçadas pelos prazeres materiais da vida. Havia algo a ser feito por aqueles que, já ameaçados de morte pelos acidentes da vida e das doenças, poderiam perder suas almas. Mais tarde, quando fazia Medicina, eu descobri outro aspecto da vida: a importância do corpo físico. Corpos de homens, mulheres e crianças, mutilados, em busca da saúde do corpo material. Com a descoberta da materialidade do corpo, eu me sentia chamado a salvar este corpo doente e sofrido. O fato de, ao mesmo tempo, estudar Medicina, Filosofia e Teologia ajudou-me a evitar a tentação que consiste em substituir uma descoberta por outra, ou seja, substituir meu interesse pela dimensão invisível do homem por outra mais palpável, real, visível. A Filosofia ensinava-se que curar as partes dos corpos não era a mesma coisa que curar o homem. Reduzir o homem a um de seus aspectos era o mesmo que mutilá-lo ainda mais, e dificultar sua busca de saúde e salvação. A relação entre meus estudos de Teologia e Medicina permitia-me unir o meu desejo e a minha preocupação e combater o mal, salvar e curar o homem ameaçado. A Medicina e a Filosofia me permitiram mergulhar no universo biológico, existencial e religioso do homem. Tais ciências me possibilitaram compreender que toda verdade sobre o homem não pode vir senão de um diálogo sério e respeitoso da diversidade dos elementos que a constituem. 5 Carta de OMS Em busca de uma nova identidade: Essa vontade de compreender o homem na sua totalidade levou-me, mais tarde, a seguir os estudos de Psiquiatria e a Antropologia na Europa. O contato com outros povos, outras culturas, permitiu-me tomar um pouco de distância de meu próprio universo cultural. Pude, então, perceber que essa guerra que me consumia não era unicamente minha, mas vivida por toda a humanidade. A Psiquiatria e a Psicanálise permitiram-me compreender os mecanismos inconscientes que regem os comportamentos e atitudes humanas, sobretudo os meus em particular , além de, também, compreender os mecanismos inconscientes de dominação e exclusão. A Antropologia trouxe-me uma visão do universo cultural do homem. Eu compreendi que toda cultura, todo indivíduo, tem direito à diferença, e que a cultura, todo indivíduo, tem direito à diferença, e que a cultura responde a um desejo maior do ser humano: o de nutri a sua identidade. Ser diferente é a razão maior de ser homem. Combater a diferença é um ato de dominação e de empobrecimento da humanidade. Minha estada de cinco anos na Europa possibilitou-me reforçar minha identidade de brasileiro. Filho de uma família modesta e de uma das regiões mais pobres do mundo, o Nordeste brasileiro, eu tive a grande sorte de passar a viver numa das regiões mais desenvolvidas do planeta. Confesso que, técnica e economicamente, a Europa era bem mais desenvolvida. Nunca encontrei favelas, nem pobreza como no meu país. No entanto, a Europa decepcionou-me no que se refere às relações humanas, à afetividade e ao calor humano. Os europeus parecem ter perdido aquilo que, no Brasil, ainda é muito vivo e muito importante: o acolhimento, a disponibilidade, a alegria de viver, o senso de humor e o gosto pela festa e pelo sagrado. Indo à Europa em busca de “saber e conhecimento”, eu descobri belíssimos monumentos históricos, bem conservados, visitados, estudados, fotografados e, cuidadosamente, guardados. Tive, então, a impressão de que todas aquelas pessoas estavam, também, em busca de suas identidades, fossilizadas com o passar do tempos. Vendo-as agirem assim, eu me dizia que elas, talvez, esperassem reencontrar, nesses contatos, a sua humanidade perdida! Descobri, então, que o europeu também tem suas “florestas de concreto”, e que também estavam desejosos de se libertar do peso de uma história, que parecia exigir dos vivos, que eles se tornassem meros guardiões de troféus, símbolos de um passado glorioso. Aos poucos, fui compreendendo que nossa cultura tem algo a levar a esse velho continente. A verdade é que um abismo separa os países ricos dos países pobres. Os contrastes eram evidentes. Mas uma coisa era igualmente verdadeira: nós éramos ricos naquilo que eles eram pobres, e eles eram ricos naquilo em que éramos pobres. Esta descoberta permitiu que eu me sentisse à vontade diante de todo aquele progresso que, de longe, nós vemos como perfeito, mas que, de perto, descobrimos seus limites e frustrações. A partir, de então, passei a não me sentir como aquele que vinha, apenas, buscar conhecimento, mas como alguém que também poderia 5 Carta de OMS dar a sua contribuição nesse intercâmbio intercultural. Foi assim que eu tentei fazer da minha estada na Europa uma ocasião para mútuas trocas. Os anos de estudo trouxeram-me muitos elementos que me proporcionaram uma maior clareza sobre o meu dilema inicial. Aos poucos, eu descobri que todos os estereótipos relativos à cultura popular eram expressões de uma ideologia dominadora e/ou colonizadora, que, para manter sua hegemonia, precisavam destruir os outros. Descobri que ser diferente é um direito, um valor e, jamais, a expressão de subdesenvolvimento de um povo. Descobri que cada cultura é única, é rica naquilo que constitui a pobreza do outro. Descobri, também, que o grande desafio para um homem da ciência é o de aproveitar o calor gerado pelo choque das diferentes percepções. É este calor que torna o aço mole e flexível, torna flácidos os sólidos duros e produz a energia necessária para fazer o fogo e a luz que nos permitem ver com clareza. Reapropriação da minha identidade: De volta ao Brasil, escolhi como terreno de pesquisa, a cidade de minha infância, Canindé, e, como tema de estudo, as medicinas populares do sertão e seus sistemas de crenças. Minhas pesquisas colocaram em evidência o importante papel dos curandeiros no processo de cura das pessoas. Eles eram os primeiros recursos para as crianças vitimadas pelas diarréias. Muitas vezes quando os curandeiros não encontravam respostas satisfatórias para a doença, essas crianças, somente depois de três dias de tentativas, eram levadas ao hospital mais próximo, já em estado avançado de desidratação. Para mim, ficavaevidente que o combate à grande mortalidade (uma taxa de 125 para cada 1000) deveria passar pelo trabalho de integração dos curandeiros com o circuito médico oficial. Deveríamos organizar, em conjunto, um projeto de cooperação, em que cada parceiro pudesse guardar sua especificidade: o médico continuaria com suas preces e rituais. Não se tratava de “converter” uns aos valores dos outros, mas de colocar juntos os arsenais terapêuticos no combate à mortalidade infantil. A partir de 1983, os curandeiros de Canindé foram sensibilizados quanto ao valor terapêutico da reidratarão por via oral e passaram a cooperar, de forma recíproca, com o hospital de Canindé. Assim, a Universidade, o Hospital de Canindé e os curandeiros locais puderam somar suas competências no combate à desidratação e na promoção da vida. Essa pesquisa-ação em Canindé, cidade da minha infância, foi bem mais do que uma simples pesquisa acadêmica. Ela inscrevia-se num processo de reapropriação de minha própria identidade. Completava-se doze anos que eu havia deixado Canindé, e sentia um grande desejo de retornar para compreender meu universo de outrora e fazer um balanço daquilo que ainda permanecia em mim de meu Canindé. Hoje, Canindé tornou-se para mim um espaço de reencontro com meu primeiro universo, minha cultura, com os elementos que constituem minha identidade cultura. Ir a Canindé faz parte de um ritual de vida tão importante quanto me dirigir aos congressos internacionais em Paris ou Washington. Tanto em um como em outro, eu 5 Carta de OMS encontro interlocutores que me interpelam e me fazem refletir sobre a prática cotidiana em minha existência. Eles me permitem progredir em minhas idéias e anseios. As duas experiências me enriquecem, tanto no aspecto pessoal quanto profissional. Elas nutrem em mim um vínculo vital. Oferecem-me referências de percepção do mundo, do homem, de uma maneira de viver. A primeira me ajuda a salvaguardar minha identidade cultural, a outra reforça a coerência de minha identidade profissional. Canindé tornou-se um desses espaços onde o afluxo das pessoas me (re)envia a mim mesmo, à minha história. É lá que onde me sinto em harmonia com meu povo, com a qual partilho tanta coisa. Em Canindé, tenho completado minha formação universitária, e é lá que se processa minha cura de desintoxicação, liberando meu espírito de suas ambições cosmopolitas. É lá que fortaleço minha esperança, minhas crenças, juntos aos homens que ainda crêem naquilo que nos salva. Em Canindé, eu descubro que São Francisco, que salvou a criança perdida no Amazonas, é o mesmo que continua salvando milhares de crianças, homens e mulheres que se acham perdidos na floresta humana, produzida por um sistema econômico e político que exclui os valores culturais e humanos. São Francisco é, portanto, aquele que salva, orienta, acolhe, cura e dá ao homem perdido o sentido do caminho a ser seguido. Formação para o diálogo: Quando decidi ser professor da Faculdade de Medicina, o fiz com o intuito de dar a contribuição de toda a minha reflexão e de minhas descobertas. Não queria ser o único nessa reflexão e nesse processo. Era necessário sensibilizar os futuros médicos, por um lado, quanto aos aspectos culturais da Medicina, fazê-lo conhecer o universo cultural das pessoas que, mais tarde, seriam recebidas em seus consultórios e nos hospitais, e, por outro lado, permitiu-lhes refletir sobre a riqueza de uma cultura não- acadêmica e os perigos de uma Medicina que exclui, não somente o universo do paciente, mas também o do próprio médico. Criamos a disciplina Antropologia da Saúde, ministrada na favela. Tal disciplina permite aos estudantes de Medicina vivenciar, sob o mesmo terreno, os diversos aspectos culturais da doença e do processo de cura. E dessa forma, desde 1983, nós desenvolvemos um programa de pesquisa e educação comunitária, voltado para os romeiros que se dirigem a Canindé. Essa experiência constitui um espaço, por excelência, para se estabelecer um diálogo entre os universitários e os peregrinos, permitindo-lhes se encontrarem e se descobrirem mutuamente. Essa mesma vontade de ir em direção aos “excluídos” e “perdidos”, nos levou a desenvolver um trabalho na favela do Pirambu, em Fortaleza: e o Projeto Quatro Varas. Inicialmente, recebiam, no Hospital Universitário, pacientes vítimas de conflitos de abandono e miséria humana, que os levavam a ter episódios de depressão e crises psicóticas, em que era evidente a questão da perda da identidade. Eles eram enviados por meu irmão, Airton Barreto, advogado e coordenador do Centro dos Direitos Humanos do Pirambu, também sensibilizado pela situação de abandono de pessoas que ainda não ascenderam aos direitos ligados à cidadania. 5 Carta de OMS Diante da demanda progressiva, um dia, decidi, com meus alunos do curso de Psiquiatria, deixar o conforto e a segurança do consultório do Hospital Universitário para ver as pessoas em seu próprio contexto. Foi assim que fui à comunidade de Quatro Varas realizarem, com meus alunos, um trabalho de prevenção e de cuidados psicológicos para os excluídos de nossa sociedade, os que vivem na favela. Ao ir ajudar meu irmão na favela, encontrei crianças, homens e mulheres que também estavam em busca de suas identidades ameaçadas e perdidas. Foi aí, então, que decidi criar o Movimento Integrado de saúde Mental Comunitária, e, conseqüentemente, a Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa, que é o objeto deste livro. Desde então, todos esses homens, mulheres e crianças tornaram-se meus amigos, meus irmãos e minha família. Descobri que eu não era o único a desejar sobreviver neste mundo conturbado, e que o grande desejo que me habitava e me levava a desejar, na minha infância, salvar a alma dos outros e, na minha juventude, de salvar os corpos sofridos, era, ao final das contas, o mesmo que me possibilitava salvar a mim mesmo. É graças aos outros que eu me redescubro e me alegro por pertencera a uma comunidade dos que crêem numa vida em que tudo pode ser partilhado. O Choque Criativo: Recém-chegados da Europa, após cinco anos ausentes do Brasil, com uma bagagem teórica centrada no hospital, me depararam com o contexto caótico da favela. No início foi um grande desafio. Esse novo contexto exigia a criação de novos paradigmas para estimular uma ação terapêutica criativa e efetiva capaz de: 1-perceber o homem e seu sofrimento em rede relacional; 2-ver além do sintoma: “Quem olha para o dedo que aponta a estrela, jamais verá a beleza da estrela” 3-identificar, não só a extensão da patologia, mas, também, o potencial daquele que sofre; 4-fazer da prevenção uma preocupação constante e uma tarefa de todos. Todo o arsenal terapêutico com seus psicotrópicos, pleiteado pelo modelo biomédico, concentra suas ações no combate ao patológico. Não se trata de negar sua contribuição, mas não podemos,também, negligenciar a participação do contexto na gênese de sofrimentos e doenças. Não podemos plantar uma árvore na floresta da mesma maneira que plantamos uma árvore em ambientes hostis, que sofre a ação de vendavais, tempestades de areia, animais soltos, vandalismos. Esses contextos hostis exigem uma intervenção sistêmica. Temos que dar à árvore seu alimento para crescer, mas também do meio ambiente, prevenindo erosões, investindo no equilíbrio do homem com a natureza. Trata-se de uma ação bem mais completa, na qual devem participar todas as forças vivas da comunidade. 5 Carta de OMS A resposta a esses desafios contextuais nos levou a levantar uma série de questões: *Como sair de um modelo que gera dependência para um modelo que nutra a autonomia? *Como rompercom a concentração da formação da informação pelo técnico e fazê-lo circular, para que todos possam dela se beneficiar. *Como resgatar o saber dos antepassados indígenas e africanos e a competência adquirida pela própria experiência de vida? *Como transformar uma prática especializada e limitada numa abordagem eficiente para atingir um sistema mais amplo. Foram necessários vários anos de prática para me dar conta de que o desafio crucial era desencadear uma ação transformadora significativa. Como fazer o grupo acreditar em si, em sua competência? Eu diria que a palavra-chave que pode desencadear uma transformação significativa é a palavra FÉ. Porém, tudo depende de como ela é utilizada. As igrejas estão sempre pedindo para seus fiéis acreditarem em seu Deus e seguirem seus preceitos; os governos estão sempre pedindo para a s pessoas acreditarem em seus programas; os técnicos estão sempre pedindo para as pessoas acreditarem em suas teorias; nós, médicos, estamos sempre pedindo para que os pacientes acreditarem em nossos remédios. Exige-se das pessoas a fé em nossos modelos, a fé em nossas verdades e convicções. Tudo isso desencadeia conflitos, competições, exclusões... Criam-se feudos de poder, intolerância e isso dificulta a criação de redes solidárias e transformadoras de indivíduos e realidades. Parece-me que os cultos das diversas igrejas agregam os sofridos e excluídos e tornam-se UTI‟S existenciais, que permitem ao homem sofrido reanimar a anima desanimada pela dureza da vida. Estes centros religiosos tornam-se fonte de esperança. Pede-se aos santos aquilo que não se recebe das instituições sociais. As diversas religiões ou doutrinas (católica, evangélica, afro-brasileira, espírita) oferecem uma carteira de identidade que lhes é negada pela sociedade. Neste sentido, ser devoto de um santo, filho de um orixá, incorporar uma entidade de luz permite aos desvinculados, aos abandonados, fazer parte de uma nação de luz, na qual os governantes os acolhem com respeito e afeição. Os cultos tornam-se espaço de reflexão para tomada de consciência das implicações históricas e humanas na gênese do mal e do sofrimento. A submissão sectária reforça o sentimento de dependência. Alguns cultos neo- evangélicos agridem as crenças culturais, destruindo o referencial identitário interiorizado há gerações, substituídas por um falso Ego, construídas sobre uma religião da qual se deve esperar tudo e que se afirma pela negação da alteridade. A origem do mal é atribuída aos maus espíritos que devem ser exorcizados. Sob o pretexto de exorcizar o mal, exorciza-se o homem de si mesmo, de suas crenças de seus valores ancestrais, do senso crítico. O que resta de um homem se o impedirem de 5 Carta de OMS ter acesso aos recursos de sua cultura? Estes cultos catárticos não estariam esvaziando o homem de sua identidade cultural? Já outros cultos, como a Umbanda, são mais respeitosos quanto à diversidade cultural e já oferecem a possibilidade de inserção em uma nova família, na qual co-habitam múltiplas imagens identificadoras e facilitam a apropriação de um modelo mais comunitário e mais tolerante. Geralmente, nos esquecemos de que, sejam quais forem os programas governamentais, as religiões praticadas e as técnicas e teorias elaboradas, todas elas, sem nenhuma exceção, devem ser instrumentos, meios de ajudar indivíduos, famílias e comunidades a acreditarem naquilo que Deus já lhes deu e que está adormecido em cada um de nós. No dia em que todo conhecimento científico, toda a prática política e toda profissão de fé caminhar no sentido de ajudar as pessoas a acreditar nelas, em seus recursos culturais, o mundo será diferente, porque ajudaremos o ser humano a sair de toda a forma de dependência e submissão, para atingir a liberdade e a autonomia que nos tornam cidadãos do mundo. Somente assim, passaremos a exorcizar tudo aquilo que impede a tomada de consciência das implicações humanas na gênese da miséria e do sofrimento humano para, enfim, poder nascer o desejo de ser solidário ao outro. Introdução: Os Alicerces Teóricos da Terapia comunitária: Apresentamos uma síntese da proposta da Terapia Comunitária como instrumento de construção de redes solidárias. 1-Métodos e fundamentos: A Terapia Comunitária tem construído sua identidade alicerçada em cinco grandes eixos teóricos: 1.1. O pensamento Sistêmico 1.2. A Teoria da Comunicação 1.3. A Antropologia Cultural 1.4. A Pedagogia de Paulo Freire 1.5. A Resiliência 1.1. Pensamento Sistêmico: O pensamento sistêmico nos diz que as crises e os problemas só podem ser entendidos e resolvidos se o percebemos como partes integradas de uma rede complexam, cheia de ramificações, que ligam e relacionam as pessoas num todo que envolve o biológico (corpo), o psicológico (a mente e as emoções) e a sociedade. Tudo está ligado, cada parte depende da outra. Somos um todo, em que cada parte influencia e 5 Carta de OMS interfere na outra parte. Para enfrentar a vida com prazer e buscar a solução para os nossos problemas pessoais, familiares, comunitários e sócias precisamos estar conscientes de que fazemos parte desse todo. Precisamos estar conscientes da globalidade em que estamos inseridos, sem perder de vista a relação entre várias partes do conjunto a que pertencemos. Só assim, poderemos compreender os mecanismos de auto-regulação, proteção e crescimento dos sistemas sociais, e passaremos a vivenciar a noção de co-responsabilidade. 1.2. A Teoria da Comunicação: Essa Teoria nos aponta para o fato de que a comunicação entre as pessoas é o elemento que une os indivíduos, a família e a sociedade. Ela nos permite compreender que todo o comportamento, todo ato, verbal ou não, individual ou grupal tem valor de comunicação num processo, sempre desafiante, e de entendimento das múltiplas possibilidades de significados e sentidos que podem estar ligados ao comportamento humano. A riqueza e a variedade das possibilidades de significados e sentidos que podem estar ligados ao comportamento humano. A riqueza e a variedade das possibilidades de comunicação entre as pessoas nos convidam a ir além das palavras, para entender a busca desesperada de cada ser humano pela consciência de existir e pertencer, de ser confirmado e reconhecido como sujeito e cidadão. Além disso, nos alertam para os riscos e efeitos nocivos de uma comunicação usada de forma ambígua, ensinando-nos, assim, a valorizar a clareza e a sinceridade ao nos comunicar, ato que pode ser um verdadeiro instrumento de crescimento e transformação pessoal e coletiva. 1.3. A Antropologia Cultural: Os Conhecimentos dessa ciência chamam a nossa atenção para a importância da cultura, esse grande conjunto de realizações de um povo ou de grupos sociais, como o referencial a partir do qual cada membro de um grupo se baseia, retira sua habilidade para pensar, avaliar e discernir valores, e fazer suas opções no cotidiano. Vista dessa maneira, a cultura é um elemento de referência fundamental na construção de nossa identidade de pessoal e grupal, interferindo, de forma direta, na definição do quem sou eu, quem somos nós. E é, a partir dessa referencia, que podemos nos afirmar, nos aceitar e nos amar, para então podermos amar os outros e assumir nossa identidade como pessoa e cidadão. E é a partir dessa referência, que podemos nos afirmar, nos aceitar e nos amar, para então podermos amar os outros e assumir nossa identidade como pessoa e cidadão. Dessa forma, podemos romper com a dominação e com a exclusão social que, muitas vezes, nos impõem uma identidade negativa ou baseada nos valores de outra cultura que nãorespeita a nossa. Quando reconhecemos que, mesmo num único país, convivem várias culturas e aprendemos a respeitá-las, descobrimos que a diversidade cultural é 5 Carta de OMS boa para todos e verdadeira fonte de riqueza de um povo e de uma nação. Se a cultura for vista como um valor, um recurso que deve ser reconhecido, valorizado, mobilizado e articulado de forma complementar com outros conhecimentos, poderá ver que este recurso nos permitirá somar, multiplicar nossos potenciais de crescimento e de resolução de nossos problemas sociais e construir uma sociedade mais fraterna e mais justa. 1.4. A Pedagogia de Paulo Freire Paulo freire nos lembra que ensinar não é apenas uma transferências de conhecimentos acumulados por um educador (a) experiente e que sabe tudo pra um educando(a) inexperiente que não sabe nada. Ensinar é o exercício do diálogo, da troca, da reciprocidade, ou seja, de um tempo para falar e de um tempo para escutar, de um tempo para aprender e de um tempo para ensinar. Freire (1983:95), nesse sentido, afirma que: “A auto-suficiência com o diálogo. Os homens que não têm humildade, ou a perdem, não podem se aproximar do povo. Não podem ser companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e souber-se-se tão homem quanto aos outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar ao lugar de encontro com eles. Nesse lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que em comunhão buscam saber mais.” Outro aspecto fundamental na teoria de Paulo é a associação entre teoria e realidade, mostrando que no ato de aprender é preciso se ter um espaço de expressão dos problemas vivenciados pelos educando nos seus diferentes contextos (família, comunidade, igreja, escola, clube) vinculado ao conteúdo programático, pois a história de vida também é fonte de saber e funciona como estímulo para que, tantos os professores quanto os alunos, assumam-se como sujeitos sócio-histórico-culturais. A prática educativa que não possibilita ao educador, nem ao educando, assumirem-se como seres sociais, ou seja, seres que pensam, criam, têm emoções, transformam com humildade, maturidade e respeito mútuo é um ato de dominação, controle. Para Paulo Freire o conhecimento não está separado do contexto de vida. O respeito e a aceitação da adversidade sem discriminação e preconceitos também se fazem presentes na teoria de Paulo Freire. E para lidar e aceitar a pluralidade cultural, o educador precisa estar aberto ao novo, ao diferente, entendendo o ser humano numa perspectiva de inacabamento ou inclusão. A consciência de que o ser humano é inacabado possibilita ao educador e ao educando o exercício de indagar, comparar, duvidar, do despertar da curiosidade sem invadir a privacidade dos outros, da busca de novos conhecimentos, não para constatar os erros, mas, a ajudar a encontrar soluções (o que podemos fazer por está realidade?) promovendo transformações no universo em que vivem, (Freire “2001: 79) afirma: “ninguém nasce feito. “Vamos aos fazendo aos poucos, na prática social de que tomamos parte”. 5 Carta de OMS Outro ponto a mencionar sobre o método de Paulo Freire é que nenhum educador pode assumir a prática de sua missão se não tiver por ela um mínimo de carinho, apreço, identificação. Isso é válido também no trabalho do terapeuta comunitário. Se não houver envolvimento e identificação nosso trabalho fica prejudicado. Para educar não basta ter tempo livre fazendo da missão um bico ou um passatempo enquanto não chegar outro “trabalho” mais rentável. Da mesma forma que o educador não pode jamais esquecer que a sua missão é com a formação dos seres humanos – crianças, adolescentes e adultos que têm sonhos, ideais, indagações, interrogações, acerca de si próprio e do mundo que os cerca, o terapeuta comunitário deve sempre ter uma visão contextual e compreender que não está lá somente para realizar uma tarefa para os outros, mas, sobretudo, para si mesmo. Portanto, nesse sentido, a natureza do trabalho pedagógico é política, pois envolve valores acerca da cidadania. E para ser cidadão não basta não basta saber reconhecer o mundo das palavras mas, perceber-se como o ser humano histórico que produz cultura. Enfim, o método de Paulo Freire é um chamado coletivo a todos os membros da raça humana para criar e recriar, fazer e refazer através da ação e reflexão. Descobrindo novos conhecimentos e, conseqüentemente, novas formas de intervir na realidade, os indivíduos tornam-se sujeitos da história e não meros objetos. O perfil indicado para o terapeuta comunitário é semelhante ao papel do educador que está muito bem definido na pedagogia de Paulo Freire. 1.6. A Resiliência Outra fonte importante do conhecimento, que contribui para a construção de nossa proposta de trabalho, nasce da própria história pessoal e familiar de cada participante. As crises, os sofrimentos e as vitórias de cada um, expostos ao grupo, são utilizados como matéria-prima em um trabalho de criação gradual de consciência social, para que os indivíduos descubram as implicações sociais da Gênese da miséria e do sofrimento humano. O enfrentamento das dificuldades produz um saber que tem permitido aos pobres e oprimidos sobreviverem através dos tempos. Tudo isso revela um espírito criativo e construtivo, construindo historicamente, através de uma interação entre o indivíduo e o seu meio ambiente. Precisamos encorajá-los e estimulá-los. É evidente que esse esforço coletivo não deve substituir as políticas sociais, mas inspirá- las e até mesmo reorientá-las. Não buscamos identificar as fraquezas e as carências. Não tentamos diagnosticar os problemas, nem os meios de compensá-los, pelo contrário, a meta fundamental da Terapia Comunitária e identificar e suscitar as forças e as capacidades dos indivíduos, das famílias e das comunidades para que, através desses recursos, possam encontrar as suas próprias soluções e superar as dificuldades impostas pelo meio e pela sociedade. A formação proposta, baseada nas linhas teóricas acima descritas e na valorização das vivências, permite aos terapeutas comunitários sentirem-se mais confiantes em suas competências e menos dependentes de teorias gerais e especializadas. Eles são orientados para assumirem as ações básicas em saúde mental 5 Carta de OMS comunitária, voltadas para a prevenção, mediação das crises e promoção da inserção social dos indivíduos. Em nossa proposta de trabalho, procuramos adaptar conceitos teóricos a uma linguagem coerente com as necessidades e realidades culturais de nossas comunidades, tornando-se acessíveis às lideranças comunitárias que recebem a formação para se tornarem terapeutas comunitários. Esses elementos teóricos que fundamentam nossa proposta definem o espaço de intervenção em que cada terapeuta comunitário poderá, também, desenvolver sua criatividade, descobrir novas técnicas e produzir novos conhecimentos. 2. Princípios, Conceitos e Metodologia A Terapia Comunitária é um espaço de promoção de encontros interpessoais e inter comunitários, objetivando a valorização das histórias de vida dos participantes, o resgate da identidade, a restauração da auto-estima e da confiança em si, a ampliação da percepção dos problemas e possibilidades de resolução a partir das competências locais. Tem como base de sustentação o estímulo para a construção de vínculos solidários e promoção de vida. Esta forma de trabalho permite que se avance do modelo centrado na patologia ao modelo da promoção da saúde, das redes de solidariedade e da inclusão social. A Terapia Comunitária não se define como um processo psicoterapêutico, mas, sim, comoum ato terapêutico de grupo que pode ser realizado com qualquer número de pessoas e de qualquer nível socioeconômico. É uma prática de intervenção simples, mas não simplista, requerendo uma capacitação. Ela é dirigida por facilitadores, devidamente treinados, sem nenhuma exigência de formação acadêmica anterior. A intervenção se dá nas diversas redes que compõem o sistema de relações humanas, incluindo a família, os vizinhos, os amigos e a coletividade para apoiar os indivíduos e as famílias mais vulneráveis da comunidade que estão vivendo uma situação de crise. No campo da sua intervenção, o terapeuta comunitário tenta articular a dimensão biológica, social e política dos problemas. Ele tem, como ponto de partida, uma situação- problema (alcoolismo, insônia...), apresenta por alguém da comunidade e escolhida pelo grupo. É a partir dessa situação que a equipe terapêutica passa a estimular e favorecer o crescimento do indivíduo e das pessoas mais próximas a ele, para adquirir um maior grau de autonomia, consciência e co-responsabilidade. Tudo isso acontece através de um processo de questionamentos em todos os níveis: biológico, psicológico, social e político. Nós nos apoiamos na competência dos indivíduos e das famílias e, jamais, nas carências que são prerrogativas dos especialistas. 3.A comunidade: 5 Carta de OMS São pessoas ou grupo de pessoas em relação que tem alguém comum como exclusão, desemprego, sofrimento, migração... 4.População-alvo: São os grupos de pessoas que vivem em contextos de desagregação e exclusão social, muitas vezes, agravado pelas migrações forçadas. Nesses contextos, encontramos não somente a pobreza econômica, mas a pobreza cultural, a fragilidade de laços sociais, a incapacidade de se organizar de forma mais democrática e, sobretudo, a auto- imagem desvalorizada, a baixa auto-estima que, muitas vezes, culmina na perda da própria identidade e dignidade. Embora esta proposta terapêutica esteja mais voltada para grupos que vivem em condição social vulnerável, em termos de sua saúde mental e autonomia individual e comunitária, nossa experiência tem mostrado que ela pode ser aplicada em qualquer grupo de pessoas, pertencentes às mais diferentes classes sociais, idades, situações socioeconômicas e profissionais. 5.Orientação: A Terapia Comunitária parte do pressuposto de que o sofrimento humano, decorrente do macro-contexto socioeconômico e social, fere a dignidade da pessoa, atinge seus direitos como cidadão, gerando extremos de patologia social e adoecimento. Estamos convencidos de que toda a sociedade humana dispõe de mecanismos terapêuticos válidos e culturalmente relevantes, que reforçam e valorizam a trajetória de vida e a identidade de seus membros. As possibilidades de prevenção das doenças mentais, bem como as formas de cura são tantas quantas são as distintas realidades, sociedades e culturas presentes na humanidade. As sessões de Terapia Comunitária se propõem a: a) Reforçar os vínculos entre as pessoas, respeitando a cultura de cada um; mobilizar os recursos e competências culturais locais, para promover a saúde mental comunitária; e construir uma rede social de proteção e inserção, promovendo uma cultura de paz. A comunidade deve funcionar como agente terapêutico no processo de inserção social, evitando a alienação da própria cultura, a perda da identidade, ajudando os indivíduos a se sentirem membros efetivos de sua comunidade. b) Criar, gradualmente, uma nova consciência social, para que os indivíduos tomem consciência da origem e das implicações sociais sobretudo, para que, em meio a tantas dificuldades, descubram suas potencialidades terapêuticas e capacidades transformadoras. Nossa proposta rompe, portanto, com o pensamento dominante que considera que: 5 Carta de OMS - o povo é ignorante, e nós precisamos educá-lo; - a tradição é um obstáculo ao progresso e não é possível colaborar; - só existe um modelo de intervenção válido – o científico. Trata-se, pois, de uma terapia para a prevenção, uma vez que permite ao excluído e marginalizado enfrentar a realidade que ameaça distanciá-lo de sua cultura e destruir sua identidade. Integrado em sua cultura e em sua comunidade, ele se torna consciente de seus direitos e deveres individuais e sociais, o que lhe permite uma existência cidadã, digna e plena. Nesse sentido, prevenir é, sobretudo, estimular o grupo a usar a sua criatividade e construir o seu presente e o seu futuro a partir de seus próprios recursos. 6. Ética: A ética que orienta a proposta da Terapia Comunitária busca: a) Romper o isolamento entre o saber científico e o saber popular, fazendo um esforço no sentido do exigir um respeito mútuo entre as duas formas de saber, em uma perspectiva de complementaridade, sem rupturas com a tradição, e sem negar as contribuições da ciência moderna; b) Alcançar a solidariedade e o respeito ao processo de libertação do homem que sofre, centrando sua ação no encontro com outras pessoas que vivem na mesma situação, para que vivencie juntos, na comunidade, o acolhimento, a partilha de suas descobertas, a cura e a libertação. c) Considerar a ecologia do espírito que se manifesta em respeito à diversidade cultural e a seus sistemas de representação. CAP I A Terapia Comunitária Sistêmica Integrativa: definição, objetivos e pressupostos. 1- Por que Terapia Comunitária? Terapia (do grego: therapeia) é uma palavra de origem grega que significa acolher, ser caloroso, servir, atender. Portanto, o terapeuta é aquele que acolhe e cuida dos outros de forma calorosa. 5 Carta de OMS Comunidade: a palavra comunidade é composta de duas outras palavras: COMUM + UNIDADE, ou seja, o que as pessoas têm em comum. Entre outras afinidades têm sofrimentos, exclusão, buscam soluções e superação das dificuldades. Porque Sistêmica? O pensamento sistêmico nos diz que as crises e problemas só podem ser entendidos e resolvidos se os percebemos como partes integradas de uma rede complexam que ligam e interligam as pessoas num todo. Somos um todo, em que cada parte influencia e interfere na outra parte. Portanto, o sofrimento humano é decorrente do macro-contexto socioeconômico político e social, as respostas devem ser também sistêmica, mobilizando recursos da multicultura brasileira. Porque Integrativa? Na promoção da saúde, todas as forças vivas fda comunidade devem ter um papel ativo, integrando saberes oriundos dos mais diferentes contextos socioculturais e ampliando as redes solidárias de promoção da saúde e da cidadania. Neste sentido, a cultura é vista como um recurso que deve ser reconhecido, valorizado, mobilizado e articulado de forma complementar com outros conhecimentos. Somente assim podemos somar, multiplicar nossos potenciais de crescimento e resolução de nossos problemas sociais e construir uma sociedade mais justa e democrática. 1.1- Terapias Comunitárias É um espaço comunitário onde se procura partilhar experiências de vida e sabedorias de forma horizontal e circular. Cada um torna-se terapeuta de si mesmo, a partir da escuta das histórias de vida que ali são relatadas. Todos se tornam co- responsáveis na busca de soluções e superação dos desafios do cotidiano, em um ambiente acolhedor e caloroso. É um momento de transformação, transmutação do KAOS, da crise, do sofrimento para o KYROS, espaço sagrado onde cada um reorganiza seu discurso e resignifica seu sofrimento dando origem a uma nova leitura dos elementos que o faziam sofrer. É esta dimensão sagrada de transformar o sofrimento em crescimento, a carênciaem competência que faz da Terapia Comunitária um espaço sagrado. 1.2- A ação terapêutica da comunidade Assim como a etapa da história do universo é marcada pela invenção do homem de criar uma nova forma, de lutar contra o esfriamento devido a sua expansão, a Terapia 5 Carta de OMS Comunitária se propõe ser um instrumento de aquecimento e fortalecimento das relações humanas na construção de rede de apoio social, em um mundo cada vez mais individualista, privatizado e conflitivo. A comunidade age onde a família e as políticas sociais falham. Nós afirmamos que a solução está no coletivo e em suas interações, no compartilhar, nas identificações com o outro e no respeito às diferenças. Os profissionais devem ser parte dessa construção. Ambos se beneficiam: a comunidade gerando autonomia e inserção social e os profissionais se curando de seu autismo institucional e profissional, bem como de sua alienação universitária. 2- A Terapia: A Terapia Comunitária apresenta três características básicas: Primeira. A discussão e a realização de um trabalho de saúde mental, preventiva e curativa, procurando engajar todos os elementos culturais e sociais ativos da comunidade: agentes de saúde, educadores, artistas populares, curandeiros, entre outros. Segunda: A ênfase no trabalho de grupo, promovendo a formação de grupos de mulheres, jovens, pessoas de terceira idade, para que, juntos, busquem soluções para os problemas cotidianos e possam funcionar como escudo protetor para os mais frágeis, sendo instrumentos de agregação social. Terceira: A criação gradual da consciência social, para que os indivíduos tomem consciência da origem e das implicações sociais da miséria e do sofrimento humano e, sobretudo, para que descubram suas potencialidades terapêuticas transformadoras. 3- Os objetivos: A Terapia Comunitária tem os seguintes objetivos: 1- Reforçar a dinâmica interna de cada indivíduo, para que este possa descobrir seus valores, suas potencialidades e tornar-se mais autônomo e menos dependente. 2- Reforçar a auto-estima individual e coletiva. 3- Redescobrir e reforçar a confiança em cada indivíduo, diante de sua capacidade de evoluir e de se desenvolver como pessoas. 5 Carta de OMS 4- valorizar o papel da família e da rede de relações que ela estabelece com o seu meio. 5- Suscitar, em cada pessoa, família e grupo social, seu sentimento de união e identificação com seus valores culturais. 6- Favorecer o desenvolvimento comunitário, prevenindo e combatendo as situações de desintegração dos indivíduos e das famílias, através da restauração e fortalecimento dos laços sociais. 7- Promover e valorizar as instituições e práticas culturais tradicionais que são detentoras do saber fazer e guardiãs da identidade cultural. 8- Tornar possível a comunicação entre as diferentes formas do saber popular e saber científico. 9- Estimular a participação como requisito fundamental para dinamizar as relações sociais, promovendo a conscientização e estimulando o grupo, através do diálogo e da reflexão, a tomar iniciativas e ser agente de sua própria transformação. A construção das teias: A teia de aranha é um símbolo. Os Índios Tremembé que habitam o Nordeste brasileiro dançam o torem, uma dança em ritmo de xote, através da qual invocam e imitam os animais com os quais, no passado, aprenderam uma lição. Dentre os animais revenreciados temos a aranha. Com a dança das aranhas os índios nos lembram que ela sem a teia é como o índio sem a terra. A aranha sem teia é como uma comunidade sem vínculos. As terapias comunitárias são semelhantes ao trabalho da aranha que tece teias invisíveis, porém, fortíssimas. Esse tipo de trabalho terapêutico tem se tornado referência para os excluídos da sociedade, tem permitido agregar os sem-rumo e perdidos, tem aberto um espaço de expressão para os que sofrem, tem sido suporte e apoio que permite, a muitos, nutrirem-se do que ali se constrói. A Terapia Comunitária (abreviada TC) resgata, também, a participação dos valores culturais de um grupo social e dos vínculos interpessoais e sociais que unem, fortalecem e fazem o homem desse grupo descobrir o sentido de pertencimento à humanidade. A cultura é como uma teia invisível que integra e une os indivíduos. Portanto, podemos acreditar qual a melhor prevenção é manter o indivíduo ligado a seu universo cultural e relacional, a sua teia, pois é através de sua identificação com os valores 5 Carta de OMS culturais de seu grupo que ele se nutre e constrói a sua identidade. A cultura para o indivíduo é como a teia para a aranha. 5- A escolha do terapeuta: Para selecionar os candidatos, sugerimos uma palestra se sensibilização aberta ao publico para apresentar a TC, seus objetivos, referencial teórico e o papel do terapeuta comunitário. Esta palestra de sensibilização permite esclarecer dúvidas e uma melhor escolha de quem deseja fazer formação evitando, assim, desistências posteriores e mal entendidas. Sugerimos convidar representantes de ONG, lideranças civis e religiosas, profissionais da saúde, do serviço social, da educação... É muito importante a etapa da escolha do terapeuta comunitário. A comunidade deve seguir alguns parâmetros que garantam a realização de um bom trabalho. Se já existe comunidade organizada e consciente da importância da Terapia Comunitária, torna-se mais fácil a escolha do terapeuta. Aqui, apresentamos alguns critérios que devem nortear a escolha do terapeuta comunitário: 1- Ser escolhido pela comunidade e que haja uma explicação sobre o trabalho do terapeuta comunitário. Esse trabalho deve ser discutido com as pessoas da comunidade, para que elas sugiram nomes que correspondem ao perfil exigido. O ideal seria promover uma votação, ou seja, uma indicação pelo voto dos futuros terapeutas comunitária. Esse processo democrático consolida o papel do terapeuta comunitário e nos garante que o eleito seja alguém que tem o respeito e a confiança da comunidade. 2-Ser alguém já engajado em trabalho comunitário, pois a experiência como líder que organiza reuniões será muito útil ao trabalho. 3-Estar consciente de que o trabalho realizado não traz nenhuma renumeração financeira, já que se inscreve dentro de um voluntariado e exige disponibilidade de, no mínimo, três horas de trabalho semanal, a menos que se trate de alguém já vinculado a um trabalho institucional, por exemplo, um Agente Comunitário de Saúde, ou outros profissionais inseridos em programas como PSF (Programa de Saúde da Família). 4- Ter mente aberta para participar das práticas vivenciadas durante o curso. É preciso querer se conhecer, aceitar rever seus esquemas mentais, para que, haja crescimento humano e profissional. 5- Não ser adolescente, nem pessoa imatura, super-rígida ou preconceituosa. 6-Não ser pessoa com situação-problema mal resolvida, uma vez que lidará com a formação de pessoas para atuarem como mediadores sociais do sofrimento humano. O 5 Carta de OMS curso para formação do terapeuta comunitário não é para tratar pessoas complicadas. Exige-se, portanto, um mínimo de equilíbrio emocional. 7-não ser pessoa que não possa se dedicar, por já estar envolvida com outras atividades. 8-Saber que esta formação exige afastar-se de sua família e de suas atividades, por período de quatro dias, em intervalos de dois à três meses. (O curso ocorre em quatro módulos, dos quais, dois são de quatro dias e dois, de três dias). 9- Conhecer as diversas atividades que seu município desenvolve, para a Terapia Comunitária venha dar apoio àsoutras atividades, e não funcione de forma isolada das outras ações. 10- Ter disponibilidade de duas horas semanais para realizar as rodas de Terapia Comunitária. Caso a pessoa faça parte de uma instituição, solicita-se que, no ato da inscrição, apresente declaração confirmando sua liberação para realizar as TC, conforme planejado. Essa providência evita contratempos e desistências por falta de condições mínimas que compreendem as práticas. 11- Em locais onde já existe a TC, propor aos candidatos que participem de, pelo menos, três rodas de Terapia Comunitária. Isso lhes permitirá entender melhor a proposta e observar se identificam com ela. 12- Realizar entrevistas individuais com os candidatos, para melhor compreender a sua motivação para a formação proposta, bem como analisar se o(s) interessado(s) atende(m) aos critérios exigidos. Entrevistar os candidatos é a melhor maneira de garantir a permanência do grupo de formação e evitar altos índices de desistência. Devem ainda ser escolhidas duas ou três pessoas por comunidade ou instituição, a fim de que seja constituída uma equipe para coordenar a Terapia Comunitária. Não é exigida nenhuma capacitação anterior: O mais importante é que o escolhido deseje adquirir novos conhecimentos que lhe permitam fazer melhor o trabalho que já desenvolvem na comunidade. O escolhido deve estar a serviço da dinâmica do grupo, e não o contrário: colocar o grupo a serviço da sua dinâmica individual, de seu projeto pessoal, querer crescer sozinho ou sozinho realizar, empreender. Esta é a diferença entre o terapeuta comunitário e outras lideranças político-partidárias e cooperativas. 6- A Capacitação: 5 Carta de OMS Depois da seleção, feita com base nos critérios apontados, os escolhidos devem fazer a formação. Trata-se de um curso de capacitação profissional com 360 h/a, assim distribuídas: 80 h/a são dedicadas aos aspectos teóricos; 80h/a às vivências terapêuticas, quando serão utilizadas técnicas de relaxamento e autoconhecimento, e 120 h/a dedicadas à realização de práticas em Terapia Comunitária, equivalentes à condução de quarenta e oito terapias como terapeuta ou co-terapeuta realizadas em sua comunidade e ou instituição, com 80h?a de intervenção. Este curso, geralmente, ocorre em quatro módulos de 40h/a cada, sendo dois de quatro dias, com intervalo de dois meses e outros dois módulos de três dias, com intervalo de três meses. Sugere-se que, durante os dias de curso, os participantes fiquem em regime de internato, pois a convivência com o grupo, nesses dias é fundamental para a formação, sobretudo para consolidar a rede interpessoal. Durante toda a formação, os terapeutas comunitários serão acompanhados, de perto, por uma equipe de formadores reconhecidos pela ABRATECOM (WWW.abratecom.org.br). Após o primeiro módulo, os participantes já devem iniciar o estágio em equipes de duas ou três pessoas. Até o segundo módulo, cada equipe deverá ter realizado pelo menos dez rodas terapêuticas. No final do curso é conferido um certificado, desde que o participante tenha cumprido as exigências do curso que ocorre, no máximo, dentro de dois anos. 7- Os Terapeutas Comunitários: 7.1- O perfil do terapeuta. O Terapeuta Comunitário é uma pessoa que pode proporcionar às mães e aos pais de família alívio as suas ansiedades, as suas angústias, as suas frustrações, aos seus estresses e aos seus sofrimentos, e também possibilita partilharem seus recursos e suas descobertas, através da troca de experiências na Terapia Comunitária. Embora o sofrimento passe pelo corpo, não é uma dor só do corpo. Não diz respeito somente à Medicina. Trata-se da dor de pessoas humanas que estão vivendo um drama, uma dificuldade e precisam de apoio e suporte da comunidade. São mães e pais que precisam ser escutados e apoiados. A essas pessoas são impostas obrigações e mais obrigações , desafios e mais desafios e, muitas vezes, não sabem mais o que fazer ou para quem apelar. Falta-lhes espaço de escuta e de apoio. Tanto precisam ser amadas, como precisam compreender o comportamento de filhos, familiares e vizinhos. Antes não existiam as ameaças que existem hoje, a violência urbana e as drogas. Nossas famílias precisam entender esse quadro social e a forma como ele altera suas 5 Carta de OMS vidas. Como elas podem compreender, senão refletindo e aprofundando suas observações sobre a realidade? Se quisermos transformar as comunidades de excluídos, fazendo com que se integre que descubram seus valores como pessoas, os valores que a cultura oferece como recursos que foram destruídos pelo colonizador e continuam sendo por outras formas de colonização, temos que ajudá-las nesta descoberta; temos que ajudá-las a verbalizar suas sensações e suas emoções, transformando-as em pensamento transformador. A partir daí, os excluídos poderão ser sujeitos da história e, não mais, meras vítimas e espectadores. Tomemos, para melhor compreensão, o exemplo evangélico da multiplicação dos pães: A grande preocupação dos discípulos era não confiar em suas capacidades para resolver aquela situação-problema. Jesus, contudo, mandou que eles acreditassem neles mesmos, que acreditassem na capacidade do povo. Quando cada um colocou em comum a sua “espiga de milho”, o seu “tomate”, o seu “peixe”, a sua “farinha”, a sua “tapioca”, a sua “rapadura”, todos comeram, e ainda sobrou foi muito!!! O verdadeiro milagre da multiplicação acontece quando cada um coloca em comum a sua contribuição, mesmo que seja a única migalha que lhe reste. Esse esforço conjunto vai resultar em algo que é maior do que a soma das partes. É aqui que De lá, voltou Jesus, à margem do lago da Galiléia, e, subindo a montanha, sentou-se. Muita gente aproximou-se dele, trazendo consigo coxos, estropiados, cegos, mudos e muitos outros. E colocaram-nos aos seus pés. Chamou Jesus a seus discípulos e lhes disse: “Tenho compaixão deste povo, pois há três dias que está comigo e não tem o que comer. Não quero despedi-los com fome; poderiam desfalecer no caminho”. Disseram-lhe os discípulos: “Onde podemos conseguir, num deserto, pães suficientes para alimentar tanta gente”? Disse-lhes Jesus: “ Quantos pães tendes?” Responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Então, ordenou ao povo que se acomodasse no chão; depois, tomou os pães e os peixes, deu graças, partiu-os e pôs-se a distribuí-los aos discípulos ao povo. Todos comeram que mataram a fome,e encheram doze cestas com as sobras. Os que haviam comido eram cerca de quatro mil homens, sem contar mulheres e as crianças. Despedido o povo, entrou na barca e foi para o território de Magadan. ( Mateus 15: 32-39) 5 Carta de OMS ultrapassamos a lógica cartesiana que faz com que 2+2 sejam sempre quatro. Nesses casos, 2+2 resultam em 12. É aí onde está o milagre da transformação. O terapeuta comunitário deve ter esta crença no outro. É como disse Jesus, em outra ocasião: “Homem, tua fé te salvou!” Jesus Cristo foi Aquele que veio suscitar a capacidade de auto cura. O terapeuta é um instrumento a serviço do crescimento humano e comunitário; não precisa ser sabido, letrado, estudado. Não precisa, para ajudar o povo, andar com livro debaixo do braço, ou de óculos querendo mostrar que é intelectual. Basta que seja uma pessoa verdadeira e comprometida. O terapeuta comunitário não pode ser aquele que vê em cada falha um pecado; em cada erro, a presença de um espírito do outro mundo. E, sim, ser aquele que enxergaem cada falha um apelo, um sinal de necessidade, de carência e de ajuda. Ele precisa ter a sensibilidade bastante aguçada, para poder compreender o outro. É importante que o terapeuta comunitário tenha aprendido na escola da vida; que saiba amar o próxima, que saiba situar os problemas, escutar o outro com paciência, que não queira se promover ou se auto-afirmar apoiando na carência do outro. 7.2 O papel do terapeuta: O terapeuta comunitário deve estar bem consciente dos objetivos da terapia e dos limites de sua intervenção para não extrapolar sua função. A função da Terapia Comunitária não é resolver os problemas das pessoas e, sim, suscitar uma dinâmica que possibilite a partilha das experiências e criar uma rede de apoio aos que sofrem. O terapeuta comunitário não deve assumir o papel de especialistas (psicólogos, psiquiatra), fazendo interpretações ou análises. Os especialistas desenvolvem habilidades e sabem lidar com os traumas profundos, com as doenças. O terapeuta comunitário vai trabalhar o sofrimento das pessoas, estimularem a partilha e possibilitar a construção de uma rede de apoio. O terapeuta deve trabalhar a competência das pessoas, procurando, sempre através de perguntas, garimparem o saber produzido pela vivência do outro. Deve, pois, resgatar e valorizar o saber produzido pela experiência, pela vivência de cada um. O terapeuta não deve colocar suas idéias na terapia, mas suscitar idéias do próprio grupo, como por exemplo: “Quem já vivenciou algo parecido e o que fez para superá-lo. O terapeuta deve provocar perguntas para ser “ como um parteiro que facilita o nascimento da criança”, que faz suscitar a vida que está ali. Ajudar o outro a nascer é conhecê-lo capaz de fazer opções, de ser livre, para continuar o seu caminho de vida. Através das perguntas, da qualidade da escuta, o terapeuta vai ajudando a pessoa a tornar mais claras suas questões, no sentido de fazer suas próprias descobertas. 5 Carta de OMS O terapeuta comunitário deve agir como o maestro de uma orquestra, fazendo com que todos os músicos usem bem seus instrumentos. Precisa saber que a riqueza do grupo não está fora, mas dentro dele. O terapeuta deve provocar, nas pessoas e no grupo, a vontade de sempre construir vínculos que confiram segurança e pertença. A legitimidade do terapeuta comunitário vem do compromisso dele com os outros: da sua capacidade de estar atento ao sofrimento e ao potencial do indivíduo, família e comunidade. O terapeuta deve criar e estimular uma dinâmica interativa, marcada pela verbalização e pela escuta, através dos motes (temas, palavra-chave). Deve estimular os laços afetivos entre as pessoas e procurar intervir como um comunicador, preocupado em clarear as mensagens, explicitar os “não-ditos”. O terapeuta deve interagir em igualdade e falar de seus sentimentos. A terapia é uma ocasião para o terapeuta crescer com o grupo, já que todo processo educativo tem mão dupla: ensinamos me aprendemos. O terapeuta é, desse modo, um com o grupo e não um para o grupo. O terapeuta comunitário deve estar convencido de que existe uma dinâmica social, na qual ele pense e afirme: “Eu vou colocar a minha competência, da mesma maneira que cada participante colocará a sua a serviço dessa dinâmica. Sei que o produto é do grupo, e não meu”. É importante estar motivado, animado. Muitas vezes, o desânimo do grupo é reflexo da desmotivação do terapeuta. O papel central do terapeuta é, pois, ajudar na descoberta dos recursos individuais e comunitários e mobilizar o possível em cada um, evitando a busca do consenso, pois ele desencadeia a luta pelo poder. 8- A intervenção terapêutica: Podemos exemplificar a intervenção do terapeuta comunitário da seguinte forma: Em um grupo terapêutico, uma mãe chega e diz que está com insônia. Tem cinco filhos e o marido morreu. O desespero não a deixa dormir. Além disso, tem medo de perder o emprego, única fonte de alimento para sua família. Teme enlouquecer se não voltar a dormir. Pensa: “ o que vou fazer da minha vida, agora que perdi meu marido?” E acrescenta: “ Doutor, me dê um remédio, mas vou logo lhe dizendo, não me dê receita que eu não tenho dinheiro nem para comprar comida, quanto mais para comprar remédio” e começa a chorar. Nesse momento, o terapeuta, ou qualquer outra pessoa, propõe fazer uma corrente em que todos dêem as mãos e então começam a cantar uma música, que pode 5 Carta de OMS ser: “Encosta tua cabecinha no meu ombro e chora,/ e conta logo tuas mágoas todas para mim,/ quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora,/ que não vai embora/ porque gosta de mim...” ( Paulo Borges) Essa música, ao mesmo tempo em que permite às pessoas trabalharem o conteúdo do sofrimento, (re)significar sua dor, uma vez que a letra traduz o sentimento de quem já passou por aquela situação, permite também trabalhar o continente humano, formando simbolicamente pela corrente de mãos dadas. Esta tem sido uma forma exitosa de consolidar o grupo na hora em que as emoções fortes emergem as histórias contadas. Quando se canta, toca-se o coração, mexe-se com a sensibilidade, cria-se um movimento, uma energia que circula, dirige-se a emoção. A música cria-se um espaço medi ativo e permite ao indivíduo entrar em contato consigo mesmo, com suas emoções. A música permite a eclosão da emoção subjacente que permeia o grupo ao ouvir a história de dor do outro. A corrente criada com as mãos dadas, a música e o movimento de balanço criam um movimento solidário, partilhando, dando confiança, apoio e servindo de suporte para eliminar a ansiedade. Assim, o recurso musical facilita a construção da comunidade. Não podemos esquecer que o ponto de partida da terapia é fazer um apelo ao saber que cada pessoa tem: a herança dos índios, a herança dos africanos ou o saber produzido durante a sua vida. Nós fazemos apelo a este saber produzido pela vivência pessoal e herança ancestral. O terapeuta, então pergunta ao grupo: “Quem de vocês já vivenciou uma situação parecida e o que fez para superá-la?” E poderá ouvir respostas, como: E assim vão surgindo do grupo pistas, idéias, soluções possíveis. Uma senhora com insônia chegam com uma demanda específica -quer um remédio – e sai com várias possibilidades. A história dela permite a cada um falar também da sua dor, do seu sofrimento e socializar toda a produção de saber elaborado ao longo da vida. A senhora que pede o remédio ao doutor comporta-se como a maioria dos presentes: vai à terapia em busca de um remédio “material”. Como se só o doutor fosse “Ah, eu já passei por isso, eu só faltei ficar doida, mas eu fiquei boa da minha insônia, tomando o suco do capim santo” (e passa a dar a receita de como preparar), ou “ O meu caso foi terrível. Eu sei o que é isso, fiquei várias noites sem dormir. Para mim os chás não resolveram, o que resolveu foi umas massagens que tomei com um senhor que mora na rua Santa Elisa. Ele tem umas mãos abençoadas,” ou “Eu resolvi minha insônia foi rezando na igreja, entregando a Jesus. Depois que entreguei minha vida a Jesus, não sei mais o que é insônia.”, ou ainda “Eu curei minha insônia cansando o meu corpo. Todo dia depois de cuidar da casa eu saio, dou uma voltinha e quando chego tomo um banho e o sono é uma beleza.” 5 Carta de OMS capaz de trazer soluções. Na Terapia Comunitária é a comunidade quem oferece alternativas de soluções e cura. Isso não impede que, no final da terapia, as pessoas que precisam de uma consulta especializada sejam encaminhadas aos especialistas. À medida que a terapia avança, vão se aprofundando a situação-problematrazida. O problema não será mais visto de forma isolada, mas fazendo parte de um todo. Alguém pode alertar: O que fazer então? A comunidade deve se organizar para reivindicar luz elétrica, mais segurança, mais ruas pavimentadas. A Terapia Comunitária, que se orienta pela abordagem sistêmica, busca soluções a partir do próprio grupo. Portanto, a Terapia Comunitária, permite construção de diálogos, não se trata de querer convencer as pessoas, mas apenas de comunicar, oferecendo a chance de se fazer uma opção e de se construir laços de afetividade entre as pessoas que reforçam a trajetória identitária de seus membros. É preciso, pois, que o terapeuta apóie o dinamismo interno do grupo, para que este descubra seus valores, suas potencialidades, e se torne mais autônomo e menos dependente. O modelo que nós experimentamos é construído no cruzamento dos caminhos do tradicional e do moderno. Na terapia tradicional (popular), a cura passa pela pertença aos valores culturais. O processo de cura não implica prescrever medicamentos, mas, sobretudo, estabelecer laços, não necessariamente com o grupo, mas com os valores de sua própria cultura. Toda a sociedade humana dispõe de seus mecanismos terapêuticos. Quando falamos em cura, entendemos que o curar passa pelo suscitar o sentimento de adesão e de pertença aos valores culturais. Não somos nós, terapeutas, que definimos o que é cura, e, sim, o indivíduo integrado no seu tecido cultural e social. A cura recobre tantas realidades, quantas sociedades, culturas e subculturas. O terapeuta é catalisador que acelera, modera e orquestra o trabalho terapêutico do grupo. Sua função terapêutica compreende, apenas, suscitar questionamentos, provocar discussões, trazer elementos clarificadores, para que o gripo desenvolva a sua vocação terapêutica. Trata-se, sobretudo, de uma terapia com vocação preventiva que permite ao homem da favela enfrentar a nova realidade que o ameaça, uma terapia que o leva a não se alienar de sua própria cultura e perder-se de sua própria identidade; que o ajuda a sentir-se membro de uma comunidade que tenha reconhecido o seu jeito de existir. “Nós dormimos mal nas favelas porque nos falta segurança, luz elétrica...”. 5 Carta de OMS A Terapia Comunitária é muito mais centralizada nos “laços” do que nos “espaços”. Laço é, sobretudo, a relação estável e dinâmica com a terra, a religião, os sistemas simbólicos e os vizinhos. Com a migração, os favelados perdem suas raízes, perdem seus laços e suas referências identitárias. Com a noção de laços, define-se uma outra visão do sofrimento e do processo terapêutico. A Terapia favorece uma tomada de consciência das implicações humanas, na gênese das crises e conflitos, para que a própria comunidade possa sentir-se implicada e co-participe dos acontecimentos. Na Terapia Comunitária não existe a diferença provocada pela verticalidade de uma instituição terapêutica entre pacientes e terapeutas, mas, sim, uma horizontalidade. Assim, o poder fica diluído e é circulante, pois ninguém paga a ninguém e não se marca consulta. Na Terapia Comunitária ocorre uma partilha de experiências de vida e saberes de forma horizontal e circular. Cada um torna-se terapeuta de si mesmo, a partir da escuta das histórias de vida. Todos são co-responsáveis na busca de soluções e superação dos desafios do cotidiano em um ambiente caloroso. A comunidade torna-se espaço de acolhimento e cuidado, sempre atentos às regras: fazer silêncio, não dar conselhos, não julgar, falar de si, propor músicas, poemas ou histórias apropriadas. Essa proposta terapêutica busca intervir no sentido de criar condições para transformar um grupo impessoal em uma comunidade dinâmica, solidária, onde o indivíduo não sofra apenas as injunções punitivas ou discriminativas do grupo, mas que receba, também, seu apoio, seu suporte e sua força. Busca, ainda, aumentar o grau de coesão do grupo, para que ele sirva de escudo, de apoio emocional, e permita, também, avaliar, com os pés no chão, as projeções e intrujices de cada um. O grupo terapêutico permite, a cada um, reconstruir uma nova identidade, sem perder a solução de continuidade de sua história. Ele passa a ser visto como uma pessoa, participando de uma comunidade, que se interessa e se preocupa consigo. Dessa forma, a comunidade passa a servir de escudo contra as ameaças fragmentárias da nova sociedade. 9- A importância da diversidade: É bom que o terapeuta comunitário não somente tenha visão sistêmica da sociedade, como também a noção de que para ser bem sucedido no seu trabalho precisa entender que a diversidade é outro elemento importante. Ele deve defender a idéia de que SER diferente não quer dizer ser doente e poder afirmar que, na cultura, não existe hierarquia, pois todo indivíduo tem seu lugar e sua contribuição, e que não existe um centro do saber – o saber de tal ou qual país – por exemplo, o saber dos Estados Unidos, o saber da Europa – uma vez que toda a cultura, todas as pessoas têm sua forma de conhecer, fazer e celebrar. O terapeuta comunitário precisa entender que nem toda a cultura, nem todo o saber têm sido valorizados como deveriam. Ele só será um bom terapeuta se conseguir 5 Carta de OMS lidar com a diferença sem querer “colonizá-la”. É preciso admitir que a riqueza esteja na diferença. Cada um é rico naquilo que o outro é pobre. A Terapia Comunitária, nesta perspectiva, injeta pensamentos positivos sobre a pessoa e sobre a sua relação com o mundo, revitalizando a sua capacidade de reação e mobilização das energias vitais, em função de uma transformação integral ( física, mental, emocional, espiritual e social), nos aspectos pessoal e social. A Ecologia do Espírito permite entender as diversas expressões da cultura brasileira, com sua diversidade de crenças e religiões. A pessoa pode ser católica, umbandista, ateu, espírita, curandeiro, não importa. A ela não deve ser imposta nenhuma hierarquia nessa diversidade, nenhuma exclusão. Daí porque o terapeuta comunitário precisa ser uma pessoa aberta. O próprio nome já está dizendo: terapeuta comunitário, uma pessoa aberta para a comunidade, para acolher diferenças, como valores dignos de serem levados em consideração. Faz parte de o crescimento aprender a ver a pessoa humana como filho de Deus, como irmão, e não de acordo com uma religião, uma raça, cor ou classe social. Tudo isso só será possível se o terapeuta tiver fé na comunidade, acreditar na comunidade como um sistema, com possibilidades próprias de superação e de resolução dos problemas. A conduta do terapeuta deve seguir uma ética que se baseia no respeito ao outro e na importância de uma escuta que permite ao outro explicitar suas motivações profundas, suas dúvidas e verdades. A condição de dirigente da terapia o impede de “fazer média” ou de condenar atitudes contrárias aos seus valores pessoais. O conhecimento de que ele dispõe deve estar a serviço do crescimento do grupo, e não em benefício de um poder pessoal. É importante que fique claro que o que nos une na terapia é o forte desejo de juntos, buscarmos soluções pára nossos problemas, consolidarmos os vínculos interpessoais, resgatarmos a capacidade terapêutica do grupo e mobilizá-lo na construção da cidadania. 10- O reconhecimento do valor de cada participante: Na Terapia Comunitária, em que se fazem presentes vários indivíduos, o cimento da relação grupal é a socialização da informação. O indivíduo que se expõe, quando fala de seu sofrimento, revela suas fantasias e expressa suas emoções, ao mesmo tempo em que se libera daquilo que o oprime. Este indivíduo permite aogrupo refletir sobre as raízes do sofrimento humano e esboçar soluções práticas, curativas e preventivas. Daí porque toda terapia deve, na fase da conclusão, fazer conotação positiva, ou seja, agradecer a contribuição do indivíduo que se expôs, ao falar de seu sofrimento. É preciso entender que nas comunidades de baixo poder aquisitivo é difícil guardar segredo sobre o que acontece no dia-a-dia de uma família e de uma 5 Carta de OMS comunidade. É exatamente, quando a informação é escamoteada, maquiada, negada, escondida que ela vira fofoca e passa a ser fonte de sofrimento para pessoas. A informação, nas mãos de algumas pessoas, é usada para dominar, impor, denegrir e destruir famílias, alimentar intrigas e dificultar o crescimento coletivo. Quando uma pessoa decide falar de seu sofrimento, de suas angústias, não expressa apenas uma queixa ou informação verbal. Ela comunica, através de suas lágrimas, de sua voz embargada, de seu silêncio, o sofrimento que aniquila a fragilidade que a habita, o temor que domina. Por sua vez, o grupo que a escuta termina por fazer eco do que ouviu. Aqueles que se identificam podem, enfim, falar daquilo que os habitava em silêncio. A escuta suscita o desejo de solidariedade, desperta a compaixão e, assim, esboçam-se os primeiros passos da construção de uma comunidade solidária. A partir daquele momento, o indivíduo não se sente só. Já tem com quem compartilhar. Com a conotação positiva no final, o terapeuta valoriza a pessoa e sua intervenção e permite situar o que foi falado, dentro de uma leitura valorizadora daquele que se expressou. É aconselhável que, já no acolhimento, o terapeuta possa lembrar o grupo que a terapia é um espaço para se falar de preocupações cotidianas e de tudo aquilo que pode ser discutido em grupo. Pode lembrar que ninguém ali está interessado em grandes segredos, ainda que todos os tenham. Uma pessoa que não tem segredo é uma pessoa desinteressante, pobre. Em vinte um ano de nossa experiência, nunca um tema discutido virou fofoca. Ao contrário, no momento e que é verbalizado faz desaparecer o clima de desconfiança e intriga que reinava quando esta informação era veiculada, sob a lei do segredo e em clima de desarmonia. É evidente que existem pessoas que preferem falar de seus problemas na segurança de uma relação a dois. Nesses casos, é aconselhável encaminhá-la a um psicólogo ou psicoterapeuta e pedir para falar ao grupo apenas aquilo que pode ser falado, sem riscos e constrangimentos. 11- As abordagens terapêuticas: Nossa conduta é determinada por nossa percepção. É a nossa percepção de mundo que define nossa conduta, justifica nossas atitudes e determina uma política de ação. Identificamos, pelo menos, duas grandes linhas de ação, dois grandes modelos vigentes que norteiam as ações de cuida dores: Modelo salvador da pátria X modelo co-participativo: I) O modelo salvador da pátria 5 Carta de OMS Este modelo privilegia as carências e baseia-se num só aspecto da tradição cristã, que adverte: “E tenho Deus descoberto que Adão e Eva haviam provado do fruto proibido os expulsou do paraíso”. (Gn. 3,24) Todo o mundo ocidental está impregnado dessa visão que privilegia o que não funciona, o negativo, as falhas e os erros. Um exemplo marcante é a educação dos nossos filhos. Quando a criança age corretamente, nós, raramente, elogiamos. Mas basta que ele faça algo errado para logo nós repreendermos. Outro exemplo são os prontuários dos médicos e dos psicólogos que contêm toda uma informação minuciosa que está errado e do que não funciona e quase nunca assinalam o potencial pessoal e familiar do paciente. Ainda sofremos influência da herança judaico-cristã que tem marcado, profundamente, o nosso inconsciente, fonte de sensações e sentimentos, pela separação original e pela expulsão do paraíso celeste. A humanidade e o indivíduo tomam consciência de sua existência pelo pecado e pela punição. O Cristo ressuscitado e glorificado do Novo Testamento, que celebra a vitória da vida sobre o pecado e a morte, muitas vezes, é eclipsado pelo Deus do Antigo Testamento. Nesse sentido, temos que ter cuidado, na Terapia Comunitária, de não explorarmos os aspectos negativos, campo reservado aos especialistas. A valorização de tais aspectos desperta no indivíduo um sentimento de incapacidade e culpabilidade e de grande insegurança. Uma vez inseguro e culpabilizado, o indivíduo tende a buscar apoio e salvação em um indivíduo considerado especialista, iluminado e poderoso o suficiente para libertá-lo daquele sentimento negativo, esquece que ele porta em si suas soluções. “Na Terapia Comunitária, precisamos romper com esse modelo que valoriza o negativo, a falha, o pecado, pois ele nutre o salvador da pátria”. Ele gera dependência, uma vez que o indivíduo está sempre à procura de um iluminado, de um “guru”, de um doutor, enfim, de um “salvador da pátria” para resolver seu problema. Muitas pessoas, no intuito de se identificarem com Cristo, querem imitá-lo, acreditam ser o salvador da humanidade. Esse sacrifício já foi feito por Ele. Ele morreu para nos dar a vida, e vida em abundância. Se desejarmos imitar a Jesus Cristo, o façamos sendo solidários, caridosos, amorosos, disponíveis e companheiros. As Conseqüências desse tipo de conduta, que privilegia a atenção no que vai mal, são verdadeiras entraves ao crescimento e à autonomia humana e comunitária. Desencadeiam uma tendência de cada querer ser o “Salvador” do outro, e então 5 Carta de OMS começam os conselhos, os sermões, os discursos, em que cada um quer mudar o outro: esposa quer que o marido mude; pais querem que os filhos mudem. Há sempre um querendo mudar o outro, embora saibamos que ninguém muda ninguém. Nessa perspectiva, há uma nova concentração de informação na mão de uma pessoa considerada iluminada, sábia, e a geração de uma ilusão que se estabelece na dominação. Por isso, esse tipo de abordagem tende a fazer exortações, agindo como se de fato, detivesse as resposta e as soluções para os problemas dos indivíduos. A pessoa que age segundo essa perspectiva termina por viver uma ilusão – acreditar que, de fato, ela tem o poder de comandar os outros. O mais dramático dessa visão negativista é que a solução é vista como vinda de fora, de longe, e é centrada no unitário, deixando indivíduos, famílias e comunidades na dependência total dos outro indivíduo – políticos, religiosos, cientistas – na tentativa de superar seus problemas e dificuldades. Se as respostas para nosso problema dependem de alguém, o que o indivíduo, sua família e a comunidade podem fazer? Será sempre objeto, e, jamais, sujeito de sua história. II) O modelo co-participativo de terapia comunitária: Esse modelo se apóia na competência das pessoas. Quem tem problemas tem, também, soluções. O fato de estarmos todos vivos e termos superado as dificuldades, ao longo da vida, nos mostra que temos uma grande bagagem de experiências e sabedoria. Cada pessoa tem uma experiência de vida e deve ser suscitada a ser co- responsável diante do sofrimento do outro. Não como um “salvador da pátria”, dando conselhos e fazendo exortações, mas partilhando sua dor, suas dificuldades, suas descobertas, de forma simples, abrindo seu coração, sendo solidário aos apelos dos outros. Nesse tipo de abordagem, é sabido que se alguém vive hoje uma depressão, outra pessoa já pode ter passado por situação semelhante e convivido com esse mesmo tipo de sofrimento, e, assim, pode falar de suas dificuldades e, sobretudo, de como as superou. Ouainda, se alguém nunca viveu algo parecido, pode informar-se prevenir-se caso algum dia, conviva com este problema. Ao agir dessa forma, promove-se uma circulação de informação, pois cada pessoa sempre tem algo a dizer sobre o problema debatido, como o superou, quais as descobertas que fez. Na Terapia Comunitária, cada pessoa é chamada a participar, falando da sua experiência, sem querer colocar-se como “salvador”, sem querer ser “doutor-sabe-tudo”. Permitindo que as informações circulem, a Terapia Comunitária rompe com o modelo que privilegia a informação concentrada num único indivíduo, portador de soluções, pois reconhece as competências individuais, evidenciando que se o grupo tem problemas, tem, também, suas próprias soluções. Nesse caso, o terapeuta comunitário 5 Carta de OMS tem apenas a função de suscitar essa capacidade terapêutica que emerge do próprio grupo. Em nossa experiência de cerca de vinte e um anos, temos testemunhado o surgimento de auto-soluções e auto-inovações. Nesse sentido, a Terapia Comunitária torna-se um espaço privilegiado para se resgatar e partilhar o conhecimento e a sabedoria produzidos ao longo de uma vida de sofrimentos e vitórias. Valorizando as experiências individuais, estamos reconhecendo a contribuição de cada pessoa e reforçando a auto-estima dos que partilham suas competências. A consciência que se tem de que cada um é parte do problema e parte da solução. Mudando o olhar: De Para Salvador da Pátria Soluções Participativas Carência/ Deficiência Competências/Potenciais Unitário (Técnico) Comunitário Concentração na Informação Circulação da Informação O outro é um objeto passivo O outro é um parceiro A solução vem de fora As soluções vêm das famílias Gera dependência Suscita co-responsabilidade Descrença no outro Crença na capacidade do outro Clientelismo Cidadania Síntese: Terapia Comunitária: Entre nessa roda A TC é um instrumento que nos permite construir redes sociais solidárias de promoção da vida e mobilizar os recursos e as competências dos indivíduos, das 5 Carta de OMS famílias e das comunidades. Procuram-se suscitar a dimensão terapêutica do próprio grupo valorizando a herança cultural dos nossos antepassados indígenas, africanos, orientais e europeus, bem como o saber produzido pela experiência de vida de cada um. É essa diversidade cultural que faz a grandeza deste país. Possibilitar cada um agregar novos valores é uma riqueza inestimável no processo de empoderamento e na construção da cidadania. Enquanto muitos modelos centram suas atenções na patologia, nas relações individuais, privadas, a TC nos convida a uma mudança de olhar, de enfoque, sem querer desqualificar as contribuições de outras abordagens, mas ampliar seu ângulo de ação. Vejamos: 1-Ir além do unitário para atingir o comunitário: Com a globalização, se avolumaram os desafios: drogas, estresse, violência, conflitos e insegurança. A superação desses problemas já não pode mais ser obra exclusiva de um indivíduo, de um especialista, de um líder e, sim, de uma coletividade. A própria comunidade de quem tem problemas, dispõe também de soluções e, por conseqüência, torna-se instância terapêutica no tratamento e prevenção de seus males. 2-Sair da dependência para a autonomia e a co-responsabilidade. Modelos que geram dependência são através de todo desenvolvimento são entraves a todo desenvolvimento pessoal e comunitário. Estimular a autonomia é uma forma de estimular o crescimento pessoal e o desenvolvimento familiar e comunitário. A consciência de que as soluções para os problemas provêm da própria comunidade reforça a autoconfiança. 3-Ver além da carência para ressaltar a competência. O sofrimento vivenciado é uma grande fonte geradora de competência que precisa ser valorizado e resgatado no seio da própria comunidade, como uma forma de reconhecer o saber construído pela vida. Poder mobilizá-la no sentido da promoção de vínculos solidários é uma forma de consolidar a rede de apoio aos que vivem em situações de conflitos e sofrimento psíquico. 4-Sair da verticalidade das relações para horizontalidade: Essa circularidade deve permitir acolher, reconhecer e dar o suporte necessário a quem vive situações de sofrimento. Isso proporciona maior humanização nas relações. 5-Da descrença na capacidade do outro, passar a acreditar no potencial de cada um. 5 Carta de OMS Aprender coletivamente gera uma dinâmica de inclusão e empoderamento. Precisamos deixar de apenas pedir a adesão do outro às nossas propostas, para podermos estar a serviço das competências dos outros, sem negarmos a contribuição da ciência. 6- Ir além do privativo para o público. A reflexão dos problemas sociais que atingem os indivíduos sai do campo privado para a partilha pública, coletiva, comunitária. A ênfase no trabalho de grupo, para que juntos partilhem problemas e soluções e possam funcionar como escudo protetor para os mais vulneráveis, sendo instrumentos de agregações e inserção social. Nós afirmamos que a solução está no coletivo e em suas interações, no compartilhar, nas identificações com o outro, no respeito às diferenças. Os profissionais devem ser parte desta construção. Ambos se beneficiam – a comunidade gerando autonomia e inserção social e os profissionais se curando do “autismo institucional e profissional”, bem como de sua alienação universitária. 7- Romper com o clientelismo para chegarmos à cidadania: O indivíduo deixa de ser objeto passivo de intervenção para se tornar um parceiro ativo e sujeito de sua história. 8- Romper com o modelo que concentra informação para fazê-la circular: Resgatar o capital sócio-cultural do grupo e torná-lo autor das decisões e das políticas públicas. CAP 2 Desenvolvendo a Terapia Comunitária: Preparando o terreno: A Terapia Comunitária pode ser aplicada em qualquer espaço comunitário: igreja, sindicato, escola, pátio e salão de espera de posto ou centro de saúde, hospital, em outros espaços institucionais e, até mesmo, à sombra de uma árvore. Esses espaços devem ser definidos com a própria comunidade. Para tanto, é necessário visitar as lideranças comunitárias e pedir apoio às pessoas-chave da comunidade. Uma vez escolhido o local, deve-se divulgar local e hora utilizando os meios de comunicação: rádio, painéis e avisos. O terapeuta deve ainda estar atento para ações importantes na mobilização da comunidade. São as seguintes: 5 Carta de OMS 1-Cada terapeuta deve procurar envolver a comunidade. A participação da comunidade é decisiva para a implantação deste programa. 2- É importante identificar e convidar pessoas para formar uma equipe de animação, com violeiros, tocadores de violão, sanfoneiros e/ou grupos musicais e folclóricos, além de catequistas que podem enriquecer a terapia com música, alegria e momentos de espiritualidade. 3- A consolidação da participação comunitária feita através de uma equipe de apoio encarregada de divulgar o trabalho, convidar novas pessoas, responsabilizar-se pela merenda que será servida na terapia, arrumar o local para torná-lo agradável e funcional, e homenagear os aniversariantes da semana. 4-Os agentes de saúde, em visita às famílias que acompanham, podem falar sobre o assunto, convidar as pessoas e animá-las a participarem da terapia. A Terapia Comunitária, com local e horário definidos, desenvolve-se em seis etapas, a saber: 1-Acolhimento 2-Escolha do tema 3-Contextualização 4-Problematização 5-Rituais de agregação e conotação positiva 6- Avaliação1- O acolhimento: dirigido pelo co-terapeuta O co-terapeuta deve ambientar o grupo, deixar os participantes à vontade, contribuir para que estejam, confortavelmente, acomodados. De preferência, em um grande círculo para que todos possam olhar para a pessoa que está falando. A terapia deve ser iniciada com uma música conhecida da comunidade, pois contribui para criar um clima de amor, companheirismo e amizade no grupo. É importante que seja uma música interativa, dinâmica, para “quebrar o gelo” e criar um clima de grupo. O co-terapeuta acolhe o grupo, dá as boas-vindas, pergunta quem está aniversariando naquele mês, e canta os parabéns. É um gesto de valorização e celebração da vida da pessoa. Depois dá as seguintes informações de vital importância para o sucesso da terapia. Estamos reunidos aqui para participarmos da nossa terapia comunitária. A terapia 5 Carta de OMS comunitária é um espaço onde a comunidade se reúne para falar suas soluções, desde que nós nos reunamos para escutarmos uns aos outros. Cada um tem um saber, seja construído com sua experiência de vida ou vindo dos antepassados. É disto que a Terapia Comunitária se constitui. A qualidade da escuta. Mas, para que a terapia possa acontecer, é necessário seguirmos algumas regras. 1-A regra principal é fazer silêncio, isto é, enquanto o outro fala, devemos ficar calados para não intimidar quem está falando e respeitar sua fala. 2-Nós devemos falar da própria experiência, daquilo que vivenciamos, do que nos faz sofrer, bem como daquilo que nos ajudou a superar as dificuldades. Por isto, todos, quando forem falar, devem usar o verbo na primeira pessoa do singular: “eu fiquei abalado”, “eu sinto assim”, “eu sempre sou muito impulsivo”, e, nunca: “nós devemos lutar pelo que queremos”, “você deve fazer assim”. 3-Não devemos nos esquecer de que não estamos no grupo para dar conselhos, fazer discursos ou sermões, ou ainda julgar, mas, sim, para falarmos de nossas vivências e aprendermos com as experiências dos outros. 4-Entre uma fala e outra, qualquer participante do grupo pode interromper a reunião para sugerir uma música, seja de alguma religião ou popular, que tenha alguma ligação com o tema em discussão, ou lembrar um provérbio que ilustre a situação, ou até mesmo, contar uma piada que esteja no contexto. 5-Devemos respeitar a história de cada pessoa, pois o lugar da Terapia Comunitária é um espaço de escuta, de compreensão do sofrimento do outro. Ao participarmos da terapia temos a chance de criar amizades, melhorar nossos laços afetivos e nossa auto-estima. O co-terapeuta deverá propor uma dinâmica interativa. É sempre aconselhável finalizar o acolhimento propondo uma atividade recreativa com música, gestos e movimentos que possibilitem as pessoas se falarem, se abraçarem. É interessante incluir e adaptar elementos da cultura local. Esta atividade é para deixar o grupo bem à vontade, descontraído. Procurar sempre recorrer ao próprio GRUPO para sugerir esta dinâmica. Após a dinâmica, o co-terapeuta passa a palavra para o terapeuta que vai dirigir a Terapia Comunitária. O co-terapeuta deve dar apoio ao colega e, jamais, intrometer-se discordando ou propondo outros temas, motes, gerando um clima de competição e desqualificação. Caso haja alguma discordância, esta deve ser falada na avaliação. É importante lembrar que quem está dirigindo pode ficar um pouco inseguro, por isso precisa sentir que não está só, que tem um colega ao lado para ajudá-lo, quando ele solicitar. Ao receber esta incumbência, o terapeuta pode complementar alguma regra que foi esquecida pelo colega que fez o acolhimento. 5 Carta de OMS 2-Escolha do tema: Estando todos os participantes à vontade, o terapeuta pergunta ao grupo se alguém gostaria de começar a falar sobre o que está fazendo-lhe sofrer. Por que falar? O terapeuta pode iniciar esta etapa fazendo apelo ao provérbio: “Quando a boca cala, Os órgãos falam, Quando a boca fala, “Os órgãos saram”. Ou ainda a este outro: “Quem guarda azeda, Quando azeda, estoura, “E quando estoura, fede”. O que falar? Muitas vezes, precisamos desabafar dividir uma preocupação e terminamos por escolher a pessoa errada, e aquele desabafo vira fofoca e ficamos ainda mais sofridos e bloqueados. Portanto, se alguém quiser, pode falar de algo que o atormenta, que lhe tira o sono. O terapeuta poderá, no momento, encorajá-lo, dizendo: Você pode confiar nesta comunidade que, aqui, você não será julgado, e tenha certeza de que irá receber ajuda e apoio de todos. O momento é de falarmos do que nos angustia, falarmos com nossa boca, para não termos que falar com nosso corpo. Na TC as pessoas devem falar de suas preocupações do cotidiano e não trazer seus segredos. Tudo se torna mais fácil quando a terapia é feita numa comunidade que já tem o hábito de se reunir. Por isso, é importante que a terapia aconteça em espaços públicos. A comunidade precisa, ou melhor, exige mais do que uma presença na terapia: ela exige um envolvimento da equipe de terapeutas em todas as atividades necessárias a sua realização. Dessa forma, o terapeuta precisa estar comprometido com o processo de crescimento das pessoas e da comunidade e, por isso, deve fazer alianças com as pessoas envolvidas com as diversas atividades. 5 Carta de OMS O terapeuta, então, solicita às pessoas que fiquem atentas aos temas apresentados, pois será o grupo que irá escolher o tema para ser compartilhado. Enquanto cada pessoa vai falando de seus problemas, o terapeuta deve anotar o nome e qual o problema que ela traz para, quando as pessoas terminarem de apresentar seus temas, pode fazer uma síntese de cada um antes de perguntar ao grupo qual daqueles temas deverá ser o escolhido. Para melhor compreensão, tomemos um exemplo de síntese de um participante: “Esta senhora foi a primeira a se colocar. Como vimos, esta mulher trouxe seu filho na esperança de encontrar alguma luz que a ajuda a exercer seu papel de mãe de uma criança de risco”. Muitas vezes, várias pessoas sugerem muitos temas. Será preciso escolher apenas um deles para ser trabalhado por Roda de Terapia Comunitária. Nesse caso, o terapeuta submete ao grupo a escolha do problema que pareça de maior gravidade, perguntando: “Qual destes casos você acha que é mais urgente, com qual você mais se identifica e poderia ser escolhido para nossa terapia de hoje?” Após as pessoas se pronunciarem, o terapeuta comunitário pode propor uma votação. Precisamos estar atentos para deixar o grupo escolher o tema, evitando influenciar o grupo a escolher aquilo que o terapeuta acha importante. Na realidade não se trata de uma escolha objetiva em função de temas considerados como urgentes ou mais relevantes do que os outros. Considerando que só se reconhece no outro aquilo que se conhece de si, na realidade as pessoas se escolhem ao escolherem o tema. O voto da maioria é a garantia de que o tema escolhido já começou a mobilizar as pessoas para a partilha. Caso o terapeuta influencie na escolha de um determinado tema, ele corre o risco de, na hora da problematização , da partilha da experiência, encontrar-se diante de um grande silêncio. É importante valorizar aqueles que não tiveram seus temas escolhidos pelo grupo, pedindo sua opinião e perguntando se eles concordam com a escolha de outro tema que não o seu; se eles não vão ficar chateados e sugerir que, nas próximas sessões de terapia comunitária, esses temas possam ser representados, ou ainda colocar-se à disposição deles, após a Terapia Comunitária, para algum encaminhamento ou orientação individual. Quando houver sugestões,o terapeuta deve pedir para as pessoas enunciarem seu tema, de forma sucinta (por exemplo: alcoolismo de meu marido ou problema com meu filho) e, em seguida, acrescentarem, em poucas palavras, seu sofrimento evitando longas apresentações, o que deixaria pouco tempo para aprofundar o tema escolhido. Após ter sido escolhido o tema, o terapeuta passa a palavra à pessoa cujo problema foi o escolhido para ela falar sobre seu sofrimento e solicita ao grupo fazer 5 Carta de OMS perguntas, a fim de que se compreenda melhor a dificuldade apresentada. A discussão para a escolha do tema do dia é muito importante, pois oferece uma oportunidade de cunho educativo: aprender a estabelecer critérios para priorizar aquilo que é mais urgentes, mais graves. Lembrete O terapeuta deverá seguir sempre a decisão do grupo, mesmo que julgue outro caso mais interessante. A escolha pelo grupo é feita porque os participantes se identificam com o problema. Isso será garantia da participação. Na realidade, as pessoas se escolhem ao escolher o tema que as toca, pois só reconhecemos no outro aquilo que conhecemos em nós mesmos. Passemos para o terceiro momento que é a contextualização. 3-Contextualização “Um fenômeno torna-se incompreensível, enquanto o campo de observação não for, suficientemente, amplo para que, nele, esteja incluído o contexto.” Watzlawick (1967) Contextualizar é pedir mais informações sobre o assunto, para que se possa compreender o problema no seu contexto. É ver além do dedo que aponta a estrela. Para ilustrar a etapa da contextualização, vamos partir da seguinte história. Certo dia, durante uma sessão de Terapia Comunitária, uma mãe trouxe o seu filho e disse: “Eu trouxe o meu filho hoje, aqui, para vocês fazerem alguma coisa por ele. Ontem, eu dei nele uma surra muito grande (mostra as costas La peadas da criança). Eu não sei mais o que fazer. Estou desesperada. Ontem, meu filho foi chegando, e dizendo: “_Mamãe, vai ser a última vez que eu vou dormir sem jantar e acordar sem tomar o café da manhã. Eu vou fazer como os outros. Vou roubar!”Nessa hora, eu me desesperei, bati, açoitei, porque eu não admito que se roube que se mexa naquilo que é dos outros.” 5 Carta de OMS O terapeuta e a comunidade escutam, então, a mãe aflita, e, em seguida, contextualizam o problema, isto é, lançam questões para compreender o sofrimento da mãe, bem como o sentido do comportamento do filho. Nesta hora, são colocadas questões que ajudam a esclarecer o ocorrido, a situar melhor os acontecimentos, permitindo, assim, que se compreenda o problema em seu contexto global e, ao mesmo tempo, possibilitem à pessoa que fala organizar melhor suas idéias, sentimentos e emoções. A contextualização se dá em duas perspectivas: na da mãe e na do filho. Na perspectiva da mãe, podem ser levantadas as seguintes questões: Quantos filhos a senhora têm? A senhora sempre morou aqui ou veio do interior? Por que a senhora deixou a sua terra? De onde vêm essa força e energia que a senhora transmite? Por que a senhora bateu no seu filho? Como a senhora está se sentindo? O que mais dói? A senhora recebe apoio do seu marido? Ao tentar responder a essas perguntas, a mulher apresenta os elementos que permitem conhecer melhor a sua história, a sua força, os seus valores, os seus sonhos e as suas dificuldades. Para desencadear uma reflexão é necessário estimular a mãe a falar. As perguntas vão ajudando na reordenação da idéias e na possibilidade de dar sentido às atitudes de seu filho e à forma de agir de sua família. Uma pergunta que enseja, então, a reflexão é: A senhora se sente culpada pelo fato de seu filho demonstrar vontade de entrar numa gangue?” Na hora em que a mãe capta do grupo a mensagem de que os pais seriam culpados pelo fato de as crianças e adolescentes entrarem em gangues, ela, como mãe que cuida do filho, reage e posiciona-se: “Mas eu cuido. Olha! Eu trabalho. Eu faço as coisas. Eu sou sozinha. Eu não posso fazer mais do que faço. Não tenho marido. Não tenho emprego.” 5 Carta de OMS Cada pessoa vem participar da Roda de Terapia Comunitária com uma certeza, com uma visão de mundo, e sai enriquecida porque se confronta com outras visões de mundo. Por isso, é importante que haja uma atitude de escuta e respeito. O terapeuta comunitário deve estar atento para ver se todos estão escutando o que o outro diz, evitando conversas paralelas. Havendo conversas paralelas, o terapeuta comunitário interrompe, dizendo: “Como é que nós podemos ajudar uma pessoa, se nós não a estamos escutando? Nós temos que ouvi-la e respeitá-la.” Na perspectiva da criança, a contextualização parte da seguinte questão: O que levou você a dizer isso? “É porque lá em casa tem dia que a gente não janta, tem dia que a gente não come!... Eu vejo aí os meus colegas na rua, tudo com dinheiro, comprando as coisas... Aí eu fico triste quando vejo isso. Por que os outros têm e eu não tenho? E quando eu vejo a mamãe só rezando, só pedindo a Deus pra resolver, ou trabalhando, eu tenho vontade de fazer alguma coisa. Eu sou pequeno, eu não trabalho, ninguém me dá emprego... Dizem que menino não trabalha. E eu quero ajudar minha mãe. Uma forma de ajudar é tirar de quem tem. Eu não estou pensando em matar ninguém. Eu vou tirar é de quem tem, porque o que eu quero mesmo é ajudar a mamãe”. Vejamos. A própria criança dá sua justificativa. É ela quem vai devolvendo e ampliando a discussão para todo o grupo. Nem sempre é preciso que o terapeuta comunitário se manifeste. Às vezes, ele até fica calado. O grupo vai interagindo, vai se colocando, vai fazendo perguntas: “Meu filho, você fez um negócio desses?! Você não sabe que isto é pecado?” A criança responde: “Sim. E a gente que não tem nada pra comer em casa!? Como é que fica? E aí ? (Dirige-se à mãe) “ A senhora vai morrer de fome?” O terapeuta comunitário vai confrontando todas as leituras possíveis, mesmo que não se chegue a um consenso, aliás, é bom que não se chegue mesmo a um consenso. O importante é que as perguntas façam as pessoas refletirem, pensarem, colocarem dúvidas nas suas certezas e nas suas convicções (verdadeiras prisões). É a dúvida que abre os indivíduos ao diálogo. Pedagogicamente, é importante aprofundar a dúvida, pois toda convicção é uma prisão. 5 Carta de OMS Aquela pessoa que chegou à sessão convicta da maldade em cada menino de gangue pode perceber que aquele menino é alguém que, de alguma maneira, queria ajudar sua mãe, mas não estava encontrando outro caminho para fazê-lo. Faz parte de a Terapia Comunitária tentar ver o que há de positivo em cada gesto ou atitude, tanto da parte da mãe, quanto da parte do filho, pois é gestos que indicam uma busca desesperada, uma vontade, uma tentativa de o sistema familiar encontrar soluções. Não é só este menino, nesta comunidade, que pensa em roubar porque vê que o dinheiro que entra em casa não dá para sustentar o sistema da familiar. Os meninos escolhem este caminho por falta de opções, assim como outro poderia escolher a droga. Escolhem este caminho não porque haja maldade em seu coração, mas, sim, porque não conseguem ver outra forma de resolver seus problemas, para satisfazer suas necessidades. A intenção é boa, embora possa trazer conseqüências graves para ele, para o sistema familiar e para a sociedade como, por exemplo, sua prisão e os mais variados tipos de violência a que poderá estar submetido. Para o grupo, o terapeuta aponta para o fato de este caso não ser único na comunidade, e ser preocupante o descansodas autoridades para com essa situação. O terapeuta comunitário deve estar preparado para ouvir mil e uma respostas, e para evitar que seu discurso seja uma condenação moral. Cada um deve falar de sua vivência, de seus sentimentos e, não, simplesmente, do que pensa, sem avaliar o impacto que suas expressões poderão causar. Ao colocar a sua situação-problema, a família ou o indivíduo oferece a todo o grupo a possibilidade de uma reflexão mais ampla, em que estão incluídos os diversos fatores e os diversos elementos do contexto do sistema econômico e social brasileiro, como o desemprego, a migração etc. Daí ser impossível eleger uma só resposta, um só lado da questão, quando a questão tem inúmeras possibilidades. A criança foi valorizada na sua sensibilidade de perceber que a sua família precisava de ajuda e de querer ajudá-la. Com o acolhimento demonstrado, ela ficou mais à vontade para falar, ouvir e para buscar novas estratégias de sobrevivência. Enfim, ambos, mãe e filho, se reanimam ao descobrir que a sua problemática é comum, e a solução passa, sobretudo, pelas transformações sociais. Isso põe fim ao preconceito e aos estereótipos (rótulos) que impedem a reflexão, a criatividade, o restabelecimento dos vínculos que geram a compreensão, necessária à mudança. As pessoas saem da sessão com elementos novos, por isso não são mais as mesmas. A química nos lembra que a água (H²O), ao receber um novo elemento, uma nova informação, uma nova partícula, transforma-se em água oxigenada (H²O²). Deixou de ser simplesmente água, como vinha sendo. Ocorreu o SALTO QUALITATIVO. 5 Carta de OMS Com o que se ouve na TC algo muda na vida dessas pessoas. E essa mudança é tão significativa que permite ver o mundo de uma forma nova. Assim, depois dessa terapia, ninguém é mais o mesmo ou a mesma. A comunidade também mudou. A terapia não cria caminhos novos, mas ensina uma maneira nova de ver as coisas e de caminhar juntos. São Paulo diz que os homens só condenam quando não compreendem (Romanos 14,23). Então, o que buscamos é a compreensão. O terapeuta comunitário não é juiz, ele não está nessa posição para julgar, condenar ou dar conselhos. Ele não vai ao grupo para dizer o que está certo, nem o que está errado. Ele está lá para despertar questões, abrir essas questões para o entendimento para que as pessoas compreendam a situação. A preocupação central não é classificar como certo ou errado, mas lançar perguntas que tragam uma luz de entendimento. Relembramos que só há mudança e crescimento quando as pessoas são capazes de transformar as sensações (gastura, aflição, dor de barriga...) em emoções (medo, raiva, alegria, tristeza...). Essas emoções podem ser pensadas. O pensamento gera consciência e a consciência permite a transformação. No caso específico, quem é essa mãe? É uma mulher sofrida, largada, pobre, vinda do interior, que mora em um bairro pobre e discriminado. Quando chegou à cidade grande, o marido a abandonou e ela ficou sozinho com os quatro filhos. Tinha que sair para trabalhar. Trabalhava o dia todo para conseguir comida. Não tinha quem ficasse com os filhos. Muitas vezes, chegava ao final do mês, e o patrão não lhe pagava. Inventava qualquer desculpa e não dava dinheiro. Ela era obrigada a voltar pra casa sem nada. É este o contexto familiar: uma mulher que lava roupas, que faz tudo, mas que o patrão não paga; ou paga, porém, quando vinha para casa, o ladrão roubou seu dinheiro. Ficou sem dinheiro... Não se trata, portanto, de uma mãe malvada que espanca seus filhos, ou de uma mãe irresponsável. Esta mãe tem o direito de dizer: “Mais responsável do que eu?! Eu trabalho, eu acordo de madrugada, eu lavo roupa, eu lavo tudo! Faço tudo pro meu filho não roubar, e o meu filho dizer um negócio desses...!” Trata-se de uma mãe responsável e comprometida que se preocupa com os filhos. Pesam sobre ela inúmeras pressões e exigências: sozinha, tem o encargo de prover a família de “um tudo”, do alimento ao vestir, além da árdua tarefa de promover a educação de todos os membros. Sabe-se que, para uma família pobre, a esperança de dias melhores está na possibilidade de educar os filhos, principalmente na “escola da vida”. De um lado, vê-se uma família tradicional. Uma mãe cheia dos valores cristãos, como “não roubar”, “respeitar os outros”, “respeitar os mais velhos”, “viver a 5 Carta de OMS obediência”, enfim, com todos os tradicionais valores e familiares. Do outro lado, observa-se uma família em transição. Uma vez vivendo na favela, na periferia, surge desta família uma nova geração, uma geração que não acredita mais nos velhos valores, que está comprometida com o “aqui e agora”, com a sobrevivência, com o “eu quero comer, eu quero dormir, eu quero isso, eu quero aquilo!” Toda essa situação revela, ainda, o que significa, para as famílias pobres terem que enfrentar as conseqüências do desemprego, da falta de escola, de vida, de espaços de lazer para os filhos. Entregues à própria sorte, ao total desamparo, fragmentam-se como famílias e como seres humanos. Santo Thomas de Aquino (1995) advertia: “Não se pode exigir as virtudes de uma pessoa quando as necessidades básicas não são preenchidas.” O terapeuta comunitário está diante de um problema de família que não somente afeta seus membros, mas afeta também a vizinhança, os amigos, os parentes, enfim, toda a comunidade. Como nada está isolado, mas, ao contrário, tudo está ligado, a família não pode viver sozinha como se fosse uma ilha. Nada ou ninguém é uma ilha. Se sua família não é uma ilha, ela é um continente, um sistema. É o que chamamos de Sistema familiar. Se nós entendermos bem como funciona o Sistema Familiar (ver capítulo 6), teremos muito mais condições de ajudar àquela família, e outras tantas, a encontrar luzes para seus problemas. Após a pessoa ter exposto seu problema, geralmente, em torno de 15 minutos, o terapeuta agradece: „Eu queria agradecer a senhora (ou o senhor) pela confiança depositada no grupo, por ter aberto o seu coração, o que nos permitiu perceber o seu sofrimento, a sua dificuldade que, com certeza, mexeu com os nossos sentimentos. Agora eu pediria que a senhora (ou o senhor) ficasse observando e escutando o que o grupo vai falar, pois, com certeza, alguma idéia pode trazer uma pista a superação de suas dificuldades.” Dito isto, o terapeuta passa para a próxima etapa, que é a problematização. Lembretes: 1-Durante a contextualização, o terapeuta deve estar atento à fala e às respostas, e ir anotando as palavras-chave, pois elas irão ajudar a construir os motes (ver explicação a seguir). Só quando o terapeuta houver formulado o mote, é que poderá passar para a quarta etapa. 2-Muitas pessoas, por não serem escutadas, nem valorizadas, têm uma tendência a não 5 Carta de OMS escutar. Por isso, temos que estar atentos para a qualidade da escuta. Às vezes, vale a pena ressaltar uma fala importante, dita por alguém lançando ao grupo uma pergunta: “Vocês ouviram o que ela disse? Quem poderia dizer para o grupo o que entendeu dessa fala? Ou vocês preferem que ela diga de novo?” 3-Antes de o terapeuta sugerir o mote para a reflexão do grupo, deve, primeiro, agradecer à pessoa que falou de sua dificuldade. Se possível, fazer uma pequena síntese, como: “Sr. Raimundo, permita-me, interrompê-lo para agradecer pela riqueza de sua história. Ela traz à tona uma série de temas, tão comuns a cada um de nós, como a questão das perdas, da traição, da intriga etc. obrigado, pelo que o senhor nos contou. Agora, graças à história do Sr Raimundo, eu gostaria de propor ao grupo que escolhamos um destes temas para refletirmosjuntos, cada um, a partir de sua própria experiência, ok?” 4-uma vez escolhido o tema pelo grupo, o terapeuta lança o mote. É importante sempre repetir o mote, para que as pessoas possam se fixar no tema proposto. É importante, também, trabalhar os dois pólos do mote. Por exemplo: se o tema é infidelidade destrói, como também trabalhar a fidelidade ( o que eu tenho feito para me manter fiel0. Se o tema for a perda, a morte, trabalhar também a vida ( o que a perda traz como ganho) ou ainda o que a morte não destruiu, naquele que partiu? 5-deve-se trabalhar, também, a questão simbólica para não se restringir a ficar apenas olhando para o dedo que aponta a estrela. É preciso olhar para além do dedo. Por exemplo, se o tema for aborto, suas dificuldades e perigos, deve-se procurar elaborar um mote que permita refletir, também, sobre os perigos do aborto social, sobre o valor da vida, sobre a co-responsabilidade social pelo dom da vida. Das sensações às emoções... Mudança O primeiro impacto diante de um acontecimento trágico gera SENSAÇÕES como agonia, mal-estar, tontura, farnesi, crises de choro, entre outras. Precisamos ultrapassar este estágio de sofrimento que, muitas vezes, se atenua com a catarse, com o choro ou lamentações. Nossos questionamentos devem ajudar a pessoa a sair desse estado de sensações para identificar EMOÇÕES como medo, culpa, raiva... As emoções podem ser pensadas: Por que o medo? Culpa de quê? Já as sensações só podem ser gemidas, lamentadas. O PENSAMENTO possibilita a tomada de consciência do real problema ou conflito e a consciência nos permite fazer MUDANÇAS. 5 Carta de OMS MUDANÇA: CONSCIÊNCIA Racionalização: EMOÇÕES (medo culpa raiva) SENSAÇÕES (agonia, mal-estar, falta de ar) Adição Somatização Dramatização A respeito das emoções: No imaginário popular nordestino, quando a pessoa sofre um grande susto, uma forte agressão a alma, o corpo emocional se desloca do corpo físico e o indivíduo fica descentralizado. Fica desconectado, perde o seu eixo central formado pelo corpo e pela mente. Estabelece-se um divórcio entre o corpo emocional físico, material e o corpo mental, emocional. O corpo emocional (a alma) fica ao lado, encostada no corpo físico, dando a falsa sensação que existe outro ser, um “encosto” que paralisa, influencia e dificulta a caminhada. Ora, quem seria este “encosto” senão este outro eu assustado e que saiu do corpo para evitar o sofrimento? Há até quem diga que este “encosto” é um espírito de outro mundo. Em nossa experiência, trata-se do “Espírito de Vivências Traumáticas” que nos acompanha, esperando ser exorcizado ou reintegrado como parte legítima do nosso ser. Se com o centra mento corpo/mente o indivíduo dispunha de 100% de sua atenção, com a saída, o deslocamento do corpo emocional, o corpo físico dispõe de no máximo 50% de energia para enfrentar dificuldades do cotidiano. Estas pessoas tendem a acumular fracassos e guardar um sentimento de não ser capaz de obter sucesso. Muitas pessoas temem assumir suas emoções. Entrar em contato com elas seria revisitar uma antiga dor traumática insuportável. Essas condutas são muito freqüentes PENSAMENTO 5 Carta de OMS nas pessoas resistentes a toda e qualquer abordagem psicoterapêutica. Surgem, então, inúmeras estratégias de evita mento. Vejamos: 1-Racionalização do Sofrimento: as pessoas tentam justificar suas emoções, seu mal-estar através de explicações teóricas, leituras explicativas, sem passar pela emoção. Sabem tudo de sua problemática, mas não mudam nada. 2-Dramatização do Sofrimento: Ao ter início uma dinâmica em que se trabalhem as emoções, as pessoas começam a chorar gritar de forma histérica, exagerada. Uma maneira de ajudá-la seria lembrar que dramatizar é uma maneira de fugir das emoções e pedir para que tenham confiança, continuem respirando. Esta é a única forma de superação do sofrimento. 3-Somatização do sofrimento: as pessoas, para evitar o surgimento da emoção, desmaiam no corpo... 4-Condutas de Adicção: as pessoas se refugiam nas drogas licitas e ilícitas, muitas vezes, como uma forma de anestesiar um grande sofrimento. 4-Problematização: Nesta etapa, a pessoa que expôs seu problema fica em silêncio. O terapeuta deixa de lado sua história, não faz perguntas a ela e apresenta, então, um MOTE que vai permitir a reflexão do grupo. A partir da situação apresentada, o terapeuta então se dirige ao grupo dizendo: “Ouvimos a história dessa mãe que, com certeza, nos fez lembrar nossas histórias e mexeu com as nossas emoções. Vamos agora falar de nós, daquilo que nos tocou e que nos chamou a atenção.” 4.1-A escolha do mote: O mote é uma pergunta-chave que vai permitir a reflexão do grupo durante a terapia. O terapeuta comunitário, ao identificar e definir a situação-problema, cria um ou mais notes para promover a reflexão coletiva sobre um tema, trazido por quem citou o problema. Os motes vão permitir ao grupo refletir sobre o sentido do comportamento da pessoa que apresentou o problema, no caso, a criança e a mãe. 4.2-A construção do mote: 5 Carta de OMS O mote, ou seja, o tema que será discutido é a alma da terapia. Ele promoverá a reflexão coletiva capaz de trazer à tona os elementos fundamentais que permitem a cada um rever os seus esquemas mentais, seus preconceitos e reconstruir a realidade. É a qualidade da escuta que vai determinar a escolha de um bom mote. E para isso não podemos ter muita pressa. Vejamos outro exemplo: em outra sessão de terapia, foi escolhida a situação trazida por um homem de 63 anos: “Sinto-me arrasado. Acabo de perder meu único filho. Ele estava doente, o médico queria operá-lo, mas eu era contra essa operação, porque tinha medo que ele morresse. O que mais me dói é que minha nora me enganou, levou ele escondido de mim, e ele não resistiu à operação. Se eu soubesse que ele ia se operar, eu não tinha deixado. Oh, meu deus! Perdi meu filho e fui trado pela nora que me enganou e, agora, estamos intrigados.” Ao ouvir, o relato o terapeuta tem duas opções a seguir: 1-Mote coringa: Consiste em lançar um questionamento que possibilite a identificação de outras pessoas com o problema apresentado, como em: Quem já viveu uma situação parecida com a do Sr Raimundo e o que fez para resolvê-la? Ou conviveu com melhor com ela? Várias pessoas vão se manifestar, cada uma pode ter se identificado com um aspecto do problema trazido. Esse tipo de mote é chamado de coringa. Aconselhamos que ele seja aplicado durante as dez primeiras sessões realizadas pelo terapeuta comunitário em formação, por ser de mais fácil elaboração. 2-Mote simbólico ou específico: Durante o relato do Sr. Raimundo, o terapeuta vai anotando as palavras- chave que servem de temas para serem refletidos, através de motes mais específicos. Cada palavra-chave sugere um tema. 5 Carta de OMS Vejamos uma relação entre palavras-chave e motes possíveis; Palavras-Chave Motes Possíveis: 1-Culpa Quem já se sentiu culpado? O que fez parasuperar a culpa? 2-Engano Quem já se sentiu enganado? Que lições tirou para sua vida depois de ter sido enganado? O que fez para não ser enganado outra vez? 3-Depressão/perda Qual a sua maior perda? Como a superou? 4-Traição O que mais dói em uma traição? O que fez para não ser traído? 5-Relações familiares Qual a sua dificuldade no seu relacionamento com a sua sogra (sogro,nora, genro, cunhado)? 6-Intriga O que a intriga destrói em você? O que tem feito para superá-la? 7-Desamparo Quem já se sentiu desamparado na vida? Como superou o desamparo? Durante a problematização, o terapeuta deve ir anotando as possibilidades de mote para escolher um. O quadro da página anterior apresenta muitos temas que podem ser passíveis de reflexão com a comunidade. No entanto, seria impossível refletir sobre tudo isso. Para melhor proceder, uma vez identificados todos os temas, o terapeuta, comentando as diversas palavras-chave, propõe ao grupo a escolha de um deles, para ser objeto de reflexão. 5 Carta de OMS Enquanto as pessoas vão partilhando as experiências, alguém da equipe vai anotando as falas que julga significativas para poder finalizar a terapia, isto é, fazer o fechamento. Quando o terapeuta percebe que a problematização atingiu seu objetivo (geralmente ela dura 45 minutos), pede então para que todos fiquem de pé, formando um círculo com as mãos nos ombros uns dos outros e passa para a etapa seguinte: o encerramento. 5-Encerramento: rituais de agregação e conotação positiva: O término da terapia caracteriza-se pela conotação positiva que o terapeuta comunitário deve dar ao caso que foi trabalhado na reunião. Trata-se de reconhecer, valorizar e agradecer o esforço, a coragem, a determinação e a sensibilidade de cada um que, em muitas outras circunstâncias, tenta ofuscar a dor e o sofrimento. Não se trata de valorizar o sofrimento em si,, mas reconhecer o esforço e a vontade de superar as dificuldades. A conotação positiva permite, igualmente, que os indivíduos repensem seu sofrimento de forma mais ampla, ultrapassando os efeitos imediatos da dor e da tristeza, para dar um sentido mais profundo à crise, e poder melhor identificar os recursos pessoais e, portanto, reforçar sua auto-estima. O terapeuta deve proporcionar um ambiente de intimidade, procurando criar um clima afetivo, onde as pessoas se sintam próximas umas das outras e apoiadas pelo grupo. Ele pede para as pessoas se levantarem, fazerem um círculo (teia), que cada um se apóie no ombro do outro e fique se balançando. Isso ajuda o grupo a sentir-se coeso e unido, em um mesmo movimento, em busca de equilíbrio. Criado o clima, o terapeuta sugere uma música e, depois, procura dar uma conotação positiva, isto é, ressaltar o que foi de positivo na história contada no grupo. Assim, a fala do terapeuta deve sempre valorizar a pessoa, como ser humano que é. Vejamos um exemplo para ilustrar a etapa de encerramento. O terapeuta diz: “Eu queria parabenizar a senhora, pelo seu senso de responsabilidade como mãe. Só uma mãe consciente de seu dever, e que, de fato, ama seu filho, é capaz deste gesto, de se expor, diante da comunidade...” 5 Carta de OMS Ou ainda: “Graças à história de vocês, nós podemos refletir e compreender melhor o comportamento de nossos filhos e, assim, nos prevenir. Obrigado pela confiança que vocês depositaram na comunidade e pelas lições de vida que nos deram.” O terapeuta pede aos participantes que digam à senhora que fez o depoimento algo que os tenha colocado, ou algo que tenham admirado na senhora. O mesmo procedimento deve ser feito com a criança. O terapeuta, então, pode dizer: “Joãozinho, eu queria lhe dizer que fiquei admirado com a sua sensibilidade e com a sua vontade de querer ajudar a sua mãe, e lhe dizer que eu tenho certeza de que você vai saber encontrar uma maneira de ajudar a sua família, sem se arriscar tanto...” O encerramento é sempre um momento muito especial. As pessoas sugerem músicas, recitam poemas, falam do que aprenderam. É um momento espiritual emocionante, quando as pessoas referem-se aos seus valores, às crenças, entoam seus cânticos religiosos. 5.1 A importância dos rituais de agregação: É importante que os indivíduos, ao regressarem às suas casas, sintam-se parte de um grupo, de uma comunidade. Muitos vieram pela primeira vez, outros se sentem deslocados de suas famílias e comunidades. A Terapia Comunitária devem também suscitar a consciência e o sentimento de pertencer a uma comunidade. Fazer os indivíduos descobrirem e se beneficiarem do valor de estar juntos. É nesse contexto que devemos utilizar os rituais de agregação, ou seja, sugerir técnicas (cânticos, fazer correntes, entre outras) que permitem suscitar e reforçar a dimensão coletiva. É importante, ainda, descobrir e sentir que a comunidade é um recurso indispensável nos momentos difíceis. É neste momento final que a dimensão espiritual se manifesta de maneira significativa. Muitos expressam seus valores, suas crenças, recorrem a Deus, seja em forma de orações e cânticos. São, pois, os valores espirituais que reforçam a identidade de cada um. Esse clima de introspecção, interiorização, pode estimular as pessoas a quererem manifestar seu ato de fé. Aquele que dirige em terapia deve estar aberto e ser tolerante à diversidade. No entanto, deve coibir todo proselitismo, evitando que alguém use seu credo para humilhar os outros ou fazer sermões. Uma coisa é falar da fé, do que ela significa para a vida; outra, é querer impor às pessoas valores e uma visão de mundo. È preciso ter cuidado com aqueles que costumam falar como “senhores da verdade” e aparecem como alguém que nada tem para aprender. 5 Carta de OMS A espiritualidade só é fator de crescimento pessoal e comunitário quando vem reforçar a solidariedade e permitir sentir o pertencimento a uma família, na qual se é valorizado, aceito. Uma família que se constitui espaço onde se vê nutridos os laços de reciprocidade, onde se aprende e se ensina se escuta e se é escutado, se respeita e se é respeitado. Apresentamos a seguir um exemplo de um ritual de agregação. O terapeuta pede às pessoas que falaram de seus sofrimentos, que se acham cansadas e necessitando de apoio para formarem um círculo central, com as mãos abertas, as palmas para cima, enquanto o restante do grupo forma outro círculo maior, com as mãos levantadas para cima, às palmas voltadas para baixo, em um gesto de transmissão de energia para o grupo central. Depois, sugere que todos juntos cantem: “nossos amigos serão abençoados porque o senhor vai derramar o seu amor...” Após o canto, o terapeuta pede, para aqueles que receberam a energia, a benção de Deus através do apelo e do gesto comunitário, e sugere que troquem de posição com os outros. Assim, quem estava com as mãos postas para receber, agora as coloca na posição para dar energia, invertendo a situação para gerar a reciprocidade. Em seguida, pede para que todos formem uma teia, uma corrente de apoio, ombro a ombro e fiquem se balançando lentamente com os olhos fechados para que cada pessoa sinta-se ligada ao grupo. O terapeuta pode comentar: “A vida é uma eterna tentativa deequilíbrio, mas, quando pensamos que vamos cair, um vizinho nos apóia nos segura. Vamos, agora, cantar uma música e tocar nosso vizinho, para que ele se sinta membro, como você, desta comunidade.” Lembretes: 1-O terapeuta deve sempre repetir a pergunta, após cada fala, para evitar que as pessoas recomecem a contar novas histórias de vida. Um exemplo de pergunta seria: “O que aprendi hoje nesta terapia? ou ainda: “O que vou levando de aprendizado?” 2-No final, o terapeuta lembra ao grupo a data da próxima sessão. Pode-se dirigir o grupo e dizer: “Existem várias maneiras de se apoiar alguém. Uma delas é falando, outra é dando um abraço fraterno. Por isso, eu faço um convite à fraternidade. Vamos todos nos abraçarem.” E encerra a terapia. 5 Carta de OMS 6-Apreciação da condução da terapia: É o momento em que se procura avaliar a condução da Terapia e o impacto da sessão sobre cada um, a fim de se verificar o processo de formação do terapeuta e o reconhecimento do grupo como fonte de conhecimentos. Pode ser conduzida através de perguntas referentes às diversas etapas de condução da Terapia. Acolhimento Escolha do tema Contextualização Problematização Encerramento Tira-Dúvidas sobre a prática da TC: 1-Como lidar com os fanáticos? R. Às vezes, acontece de cada pessoa dizer o que fez para superar seu problema: um chá, uma massagem, um esporte etc. e logo em seguida alguém, geralmente “bitolado” por uma visão religiosa, faz uma observação do tipo. “Tudo isso que foi dito até agora é besteira. O verdadeiro remédio para superarmos nossos problemas é Jesus. É ele que é o nosso médico, nosso Salvador”. Ao dizer isso, esta pessoa está desqualificando o esforço do grupo, esquecendo-se que o próprio Cristo diz que onde estiver mais de duas pessoas reunidas em seu nome, ele estará no meio delas. Esse tipo de conduta visa abafar todo esforço comunitário para a superação de suas dificuldades. É como se ninguém pudesse fazer nada , como se tudo dependesse de um pastor, de um líder. Nestes casos, o terapeuta pode interromper e dizer o seguinte: 5 Carta de OMS Ouvindo a senhora (ou senhor), eu me lembrei de outra história, que eu vou contar para vocês. Havia um homem que era devoto de São Francisco. Tudo que ele queria era São Francisco quem dava. Certo dia, houve uma grande enchente por conta das chuvas torrenciais, e cada pessoa tentou fazer um esforço para se salvar. O devoto subiu num coqueiro e ficou esperando por São Francisco. Mais, tarde, chegou uma canoeira e disse: “Aqui tem um lugar para o senhor. Pode descer”. Ele respondeu: “Pode ir embora, quem vai me salvar é São Francisco”. “Mais, “tarde, chegou um senhor, com um barco a motor e insistiu:” Desça que vem muita água por aí”. O homem recusou o auxílio e disse: “Só tenho confiança em São Francisco”. Já bem tarde, quando a água já estava quase sufocando o homem, apareceu um helicóptero. Logo depois, o homem foi arrastado pelas águas e morreu. Indignado, quando chegou ao céu , foi tomar satisfação com São Francisco e disse: “mas, meu são Francisco, eu tinha tanta confiança no senhor e o senhor me deixou morrer? São Francisco respondeu: “Eu mandei a canoeira, e você não quis. Providenciei um barco a motor, e até um helicóptero mandei para você. O que você queria que eu fizesse que eu descesse daqui do céu para te salvar? “Eu tenho muito que fazer e do que me ocupar”. Moral da história: DEUS AJUDA O HOMEM, ATRAVÉS DO HOMEM. Quem garante que não foi Jesus que mandou a senhora vir hoje, aqui na terapia, exatamente, para que a senhora ouvisse o que cada um tem para lhe dizer? Pense nisso. E continua a terapia. O terapeuta pode contar outras histórias parecidas com esta. É melhor contar uma história do que interpelar a pessoa, gerando conflito e mal-estar. 2-O que fazer com os que falam demais? R. Muitas vezes, a sede de expressão é tão grande que, se o terapeuta não tiver cuidado, a terapia fica restrita a uma ou duas pessoas falando, desestimulando outras pessoas que terminam por se retirar. Nesses casos, vale refletir. O tamanho da sede se mede pelos copos d‟água bebidos. A conversa longa e repetitiva reflete uma angústia e um medo de não ser ouvido, além de um desejo de ser compreendido. É importante, então, intervir, de um lado, para assegurarmos ao interlocutor que estamos ouvindo sua história e de outro, para salvaguardar a contribuição de todos. A intervenção poderia ser esta: “Desculpe-me interrompê-lo, deixe-me ver se entendi o que o Sr. (ou a sra) está querendo nos dizer. Por favor, corrija-me se eu estiver enganado.” O terapeuta faz, então, um pequeno resumo e 5 Carta de OMS pergunta: “É isto?” E retoma em seguida: “Ok! Foi registrado, entendemos seu sofrimento.” Às vezes, acontece que a pessoa confirma que você entendeu, mas assinala logo: “Esta é apenas uma parte do problema”. Nesse caso, o terapeuta pode dizer: “ até agora o que o senhor ( ou a senhora) falou já é muito rico de elementos que nós vamos refletir. O restante da história o(a) senhor(a) poderá colocar, em outra ocasião.” Caso a pessoa tente, mais tarde, retornar ao mesmo problema, o terapeuta pode, educadamente, dizer-lhe: “Não se preocupe, nós anotamos o que o(a) senhor(a) disse.” Geralmente, a pessoa se satisfaz. Por trás de um discurso tem sempre uma vivência. Portanto, quando alguém começar a falar de forma impessoal, o terapeuta deve dirigir-se à pessoa e perguntar: “O (a) senhor (a), então, já viveu algo parecido? Então, fale-nos do que aconteceu.” Habitualmente, a pessoa deixa o discurso e as admoestações e passa a falar de si. Caso a pessoa diga que nunca passou por aquela situação, gentilmente, o terapeuta deverá lembrar a essa pessoa uma das regras da terapia: nós só devemos falar de nossas experiências. Mas, se a pessoa desejar dar sua contribuição, poderá, por exemplo, disser o que tem feito para se prevenir da situação apresentada. Se o tema discutido for o ciúme, o terapeuta poderia perguntar: “O que o (a) senhor (a) tem feito para evitar situações de ciúme com sua (seu) esposa (o)?” Dessa forma, com certeza, a resposta trará uma grande contribuição para o grupo. 3-Como proceder com os participantes que chegam atrasados? R. Precisamos entender que a TC é um meio de inclusão. Precisamos estar atentos a acolhida de todos independente de raça, credo, religião ou do momento em que a pessoa chega. Não podemos impedir que as pessoas se retirem quando desejarem ou cheguem quando puderem. É sempre desejável, quando possível, aproveitar a chegada dos atrasados para acolhê-los e fazer uma síntese do que está sendo discutido e em que fase da terapia está. 4-Para o mesmo grupo temos que seguir todas as etapas da TC? R. Com certeza. Precisamos lembrar que o espaço em que estamos em etapas a seguir e regras a cumprir. A repetição faz parte da interiorização de um modelo de conversar. 5-Existe alta em TC? R. “dar alta” é uma terminologia do campo dos que lidam com a patologia. A TC tenta resgatar o saber produzido pela experiência. Ela se situa no campo do suporte, do apoio aos que sofrem. Sendo a TC um espaço de partilha de experiências e uma aprendizagem coletiva, ninguém é tão sadio que não possa aprender e nem tão sofrido que não possa superar a dor. Nossa experiência tem demonstrado que não possa superar sua dor. Nossa experiência tem demonstrado que aqueles que já superaram seu 5 Carta de OMS sofrimento são os mais assíduos e terminam tornando-se futuros terapeutas comunitários e nossoscolaboradores mais fiéis. 6- O terapeuta comunitário e o co-terapeuta podem colocar seus problemas para serem votados? R. Conduzir uma sessão de TC exige estar centrado sobre si e atento ao conjunto dos que participam. Ele não pode ao mesmo tempo conduzir uma sessão enquanto está emocionalmente envolvido com sua própria história. Ele deve pedir ajuda à supervisão para expor seu sofrimento. Já o co-terapeuta, se desejar, pode apresentar também seu problema. Caso o terapeuta esteja vivendo algo de muito sofrido e precise partilhar seu sofrimento que, neste dia, ele passe para o co-terapeuta a direção da sessão. 7- o que os terapeutas podem ou não podem fazer? R. Os que conduzem a TC não podem agir como se estivessem diante de uma receita de bolo que devem milimetricamente misturar os ingredientes. Eles devem ser criativos, inovadores e seguir um pouco sua intuição. Santo Agostinho diz: “Ama e tudo podes”. Nossa conduta deve ser conduzida pelo amor, pela compaixão e pelo contexto, jamais pelo julgamento, condenação, culpabilização ou padronização de comportamentos. Uma vez seguida as regras que estruturaram a TC, devemos estar abertos, sermos criativos e guardar o bom senso. Se achar que participando da votação pode dar a impressão de estar a favor de um e contra os outros, seria melhor se abster e apenas conduzir o processo. O que o terapeuta nunca deve fazer é tentar influenciar para que um tema específico seja escolhido. A escolha bem conduzida vai proporcionar uma boa participação na problematização. Nunca esqueçamos que os participantes se escolhem através da história do outro. Quando há um empate é melhor repetir a votação (com os dois casos empatados) e pedir para que o grupo escolha um dos dois. 8-o que dizer do terapeuta comunitário que demonstra sua emoção na condução da TC? R. O terapeuta comunitário é um com outros e não um para os outros. Ninguém está ali para ser o terapeuta do outro e sim para garantir que o grupo seja acolhedor, cuidador e respeitador. A TC que conduzimos é também nossa terapia. A gente se emociona, ri com os que riem, chora com os que choram, canta com os que cantam e se cura com a escuta dos outros. Quando certos temas escolhidos mexem muito com nossas emoções, é interessante falar nas supervisões para o terapeuta poder trabalhar melhor aquelas situações mal resolvidas. 9-Como realizar a prática quando a instituição não libera o profissional? R: as resistências são males necessários, já que nos possibilitam rever constantemente nossos valores e nossos métodos. É muito importante não querer convencer os outros de que a TC é o remédio para todos os males. Nem todos têm vocação para trabalhar com a coletividade. Alguns se sentem tão inseguros e mal em 5 Carta de OMS uma reunião, quantos outros se sentiriam presos a uma cadeira atrás de um birô. Muitas pessoas não aceitam porque não conhecem a proposta da TC, ou porque não acreditam que alguém, que não passou pela academia, seja capaz de ter uma ação eficiente em um trabalho comunitário. O terapeuta deve estar atento para que a resistência ao método não se torne um complô contra ele, ou em rejeição por parte de alguém que não o aceito, ou “mais um doutor que não o aceito só porque o terapeuta não tem um diploma também”. 11-Após o primeiro módulo, o participante já é um terapeuta comunitário? R. Ele é um terapeuta comunitário em formação. Será a prática supervisionada que vai lhe dar a competência necessária para ser um bom terapeuta comunitário. O que ele não pode é, antes de terminar sua formação, ser um multiplicador. 12-o que é ser um bom terapeuta comunitário? R. o bom terapeuta comunitário não é aquele que nunca comete erros ou falhas e sim, aquele que é capaz de admitir suas fraquezas, insuficiências e tenta superá- las. 13-quando na sessão de TC ninguém afirma ter superado o problema, a TC fracassou? R. Não, pois permitiu abordar um problema comum e perceber o quanto tem sido difícil superá-lo. A exposição do problema já permitiu um grupo de pessoas criarem vínculos de identificação e, após a sessão, com certeza, retomarão a discussão. Quando ocorrer situações como essa o terapeuta poderá partir para outros motes para tentar trazer a reflexão sobre o porquê de ter sido tão difícil superar este problema. Por exemplo: “Parece que este problema é realmente difícil de superá-lo. Talvez agora juntos pudéssemos refletir o porquê dessa dificuldade. Por que é tão difícil encontrar uma solução?” Ou ainda inverter a discussão saindo do negativo para o positivo. Por exemplo: “O que eu tenho feito para evitar situações como esta?” Se a discussão for em torno do que fazer para superar o ciúme, o novo mote seria: “O que você tem feito para não deixar que em sua relação conjugal ocorram situações de ciúme?” 14- O que fazer com o silêncio do grupo? R. Quando o acolhimento é muito formal é sempre mais difícil as pessoas falarem. Mas quando o acolhimento é bem feito, com músicas de boas-vindas, dinâmicas interativas, as pessoas vão quebrando o gelo e se preparando para abrir seu coração. O terapeuta não deve temer o silêncio. Este, muitas vezes, é um momento de introspecção e reflexão. Caso ele seja de mais de três minutos, o terapeuta poderá interrompê-lo e dizer para o grupo: “Para começar esta terapia de hoje, eu perguntaria a cada um de vocês: o que passou pela minha cabeça durante estes momentos de silêncio?” 5 Carta de OMS Com certeza, algumas pessoas vão trazer temas interessantes (Até o terapeuta poderá expor o que passou em sua cabeça nestes momentos). Eu lembro que, na escolha do tema, é muito importante o terapeuta falar um pouco do por que é importante falar com a boca, lembrando o já citado ditado popular. Síntese: Essa síntese é de grande utilidade para o terapeuta que vai conduzir as primeiras terapias. A) Acolhimento: (co-terapeuta, + ou – 7 min.) é composto de seis procedimentos: 1-Dar as boas-vindas O co-terapeuta cumprimenta ou convida o grupo para cantar uma música conhecida da comunidade. 2-Celebração da vida dos aniversariantes do mês Parabeniza os aniversariantes que estão presentes na terapia, bem como parentes, amigos e vizinhos dos participantes que não estão presentes no momento, ou ainda, uma data significativa como o dia das mães, do trabalhador... Por exemplo: “Tem alguém aqui hoje que está aniversariando este mês? Levante o braço. Diga seu nome e o dia do mês.” Em seguida, pergunta: “Tem alguém que tem um parente, um vizinho ou amigo que também está aniversariando este mês/ Levante o braço. Diga o nome e o dia.” Convida o grupo para se levantar e cantar parabéns para o José, a Francisca, o João, que é amigo da D. Maria... 3-Objetivo da Terapia Comunitária A Terapia é um espaço de partilha de sofrimento e preocupações daquilo que está tirando o sono, trazendo tristeza e inquietação com a certeza de que o grupo que está presente vai ouvir as pessoas, e acolher a sua dor. Porém, para que isto aconteça algumas regras são necessárias. 4- Regras: Fazer silêncio para poder ouvir quem está falando. Falar da própria experiência utilizando a primeira pessoa do singular: EU Evitar dar conselhos, como também fazer discursos ou sermões. Cantar músicas conhecidas, contar piadas, histórias ou citar provérbios relacionados ao tema em discussão. 5-Aquecer o grupo para trabalhar 5 Carta de OMS O co-terapeuta convida o grupo para fazer algum exercício ou brincadeira. Neste momento, ele pode recorrer aos participantes perguntando: “Alguém conhece algum exercício ou brincadeira e gostaria de propor?” Após a dinâmica interativaapresenta o terapeuta. 6-Apresentar o terapeuta Passar a condução do trabalho para que o terapeuta possa dar continuidade à Terapia Comunitária. Por exemplo: “Então, agora eu passo a palavra ao terapeuta comunitário, Sr Zequinha, que dará continuidade à Terapia Comunitária.” B) Escolha do tema: (terapeuta, + ou – 10min) 1-Palavra do terapeuta comunitário Inicia cumprimentando o grupo (bom dia, boa tarde ou boa noite) e anuncia que chegou a hora de falar do que está tirando o sono, trazendo inquietação, preocupação enquanto pai/mãe de família ou na vida profissional, amorosa. O terapeuta diz: “Lembramos que quando a boca cala, os órgãos falam (a cabeça, o estômago doem, por exemplo), mas quando a boca fala os órgãos saram. Muitas vezes, abrimos o nosso coração na hora errada com a pessoa errada e ficamos arrependidos, porque não houve acolhimento nem compreensão. Mas aqui você pode falar sem medo que o grupo não vai julgar. Nós estamos aqui para compreendê-lo. Também lembramos que a Terapia Comunitária não é um lugar para se contar grandes segredos, mas um lugar para se falar das inquietações do cotidiano. Como nós somos muitos, pediria a quem quisesse falar que levante a mão, diga o seu nome e qual é seu problema, em poucas palavras, depois o grupo vai escolher apenas um problema para ser trabalhado hoje.” 2-Apresentação dos temas Após estas explicações, o terapeuta comunitário pergunta aos participantes. “Quem gostaria de falar?” E à medida que estes vão se manifestando, o terapeuta comunitário anota o nome e o problema apresentado e, antes de dar a palavra ao próximo, faz a restituição: „Deixe-me ver se compreendi o seu problema. “Se não estiver correto, por favor, me corrija.” 3-Identificação do grupo com os temas apresentados Neste momento, o terapeuta comunitário pergunta aos participantes: “Quem gostaria de falar?” E à medida que estes vão se manifestando, o terapeuta comunitário anota o nome e o problema apresentado e, antes de dar a palavra ao próximo, faz a restituição: “Deixe-me ver se compreendi o seu problema. Se não estiver correto, por favor, me corrija.” 5 Carta de OMS 4-Votação É sempre bom começar a votação por aquele problema que não apresentou muita identificação com o grupo, bem como lembrar às pessoas que só podem votar uma vez. Vejamos um exemplo: “Chegou o momento da votação e cada um só pode votar uma vez. Então, hoje, nós temos o problema da dona Maria que está se separando, mas fica muita preocupada com o filho de três anos que gosta muito do pai. Quem vota no tema da Dona Maria, levante o braço. “ O terapeuta conta com os votos e repete o procedimento com todos os temas apresentados. Caso ocorra empate entre dois temas, o terapeuta comunitário repete o procedimento de votação somente com os mais votados. 5- Agradecimento Após o resultado da votação, o terapeuta comunitário agradece a todos que apresentam o seu problema e se coloca à disposição para recebê-los no final da terapia. Por exemplo: “Agradeço a todos que falaram dos seus problemas e espero que vocês compreendam e respeitem a decisão do grupo. Sintam-se à vontade para apresentarem novamente seus problemas nas próximas terapias. No final da terapia se alguém quiser conversar, estarei à disposição.” C) Contextualização: (terapeuta, +ou- 15min) é composto de dois procedimentos: 1- Informações: É o momento do participante que teve o seu tema escolhido dar mais informações sobre o seu problema. O terapeuta e os demais participantes, neste momento, vão poder fazer perguntas para compreender o problema apresentado. Por exemplo: “ o tema escolhido foi o da dona Maria que está se separando, mas fica muito preocupada com o filho de três anos que gosta muito do pai. Dona Maria, a senhora poderia falar um pouco mais sobre o que está acontecendo? Quem no grupo quiser fazer alguma pergunta para a dona Maria para compreender melhor o que está acontecendo, pode fazer.” 2- Mote Enquanto o procedimento da coleta de informações estiver sendo desenvolvido, o terapeuta comunitário deve estar atento à fala e às respostas e anotar as palavras-chave, pois elas irão ajudar a construir o mote (pergunta-chave que vai permitir a reflexão coletiva). Só quando o terapeuta houver formulado o mote, é que poderá passar para a próxima etapa. Mas antes o terapeuta comunitário agradece ao participante: por exemplo: „Gostaria de agradecer à senhora por ter confiado no grupo e ter aberto o seu coração. “Agora, pediria para a senhora ficar atenta à fala do grupo.” D) Problematização (terapeuta, + ou – 45min) é composto de um procedimento: 5 Carta de OMS 1-Lançar o mote Pode ser o coringa: Quem já viveu algo parecido... Ou simbólico/ específico: Quem já sofreu uma grande perda... Mote coringa: “Quem já vivenciou algo parecido com o problema da dona Maria, e o que fez para superar ou conviver melhor?” Mote simbólico/específico: “ O que você tem feito para não viver preocupado(a)?” E) Conclusão: (co-terapeuta, + ou – 10 min.) é composto de dois procedimentos: 1-Formação da roda Convida o grupo para se levantar e formar uma grande roda fazendo um movimento suave de um lado para o outro. 2- Conotação positiva O terapeuta comunitário verbaliza o que mais lhe tocou no tema escolhido e abre para o grupo verbalizar o que aprendeu com as histórias de vida verbalizadas. Por exemplo: “O que aprendi hoje nesta Terapia?” Ou: “ o que mais admirei nas histórias contadas aqui?” F) apreciação: O grupo reflete sobre o seu desempenho na condução da terapia, considerando as diferentes etapas que visam ao aprimoramento da prática: aprende-se a nadar, nadando, (apreciação interna) CAP. 3 Resiliência: Quando a Carência Gera Competência O conceito de resiliência ultrapassa uma visão de mundo que exclui outras fontes produtoras de SABER. Não podemos negar que os indivíduos e grupos sociais dispõem de mecanismos próprios para superar as adversidades contextuais. Mas, antes, vamos entende o que é, de fato, a resiliência com o exemplo a seguir. 5 Carta de OMS Várias crianças tomavam banho em um rio. De repente, uma delas foi levada por uma correnteza na direção de uma grande cachoeira. A criança, desesperada, com medo da, morte, na luta contra a força da água, procurou lembrar do seu pai tinha-lhe ensinando sobre como fugir das grandes correntezas. Apegando-se a deus e a São Francisco, ficou atenta procurando se agarrar a algum galho. De repente, um pescador joga uma bóia e ala consegue escapar da queda d‟água fatal. Vemos nesse que o que salvou a criança foi o fato de ela fazer apelo a sua memória, procurando seguir tudo aquilo que tinha aprendido com seus pais e de ter recebido um apoio externo: a bóia lançada pelo pescador. Essa bóia representa todo tipo de apoio externo: uma instituição, um grupo de jovens, uma escola, um amigo. Portanto, a resiliência é um processo, é um caminho a seguir, o qual o indivíduo, levado pelas torrentes da vida, pode vencer, graças ao seu esforço resiliente. As pessoas resilientes valorizam muito os vínculos de apoio e estímulo, o que lhes permitem alimentar sua autoconfiança e auto-estima. A Terapia comunitária é um espaço de promoção da resiliência, pois pela partilha de experiências de vida, os indivíduos reforçam a auto-estima, fortalecem os vínculos interpessoais, bem como estimulam a autonomia. Muitas pessoas que partilharam seus sofrimentos em terapias comunitárias nunca esqueceram a bóia que lhes foi jogada. Ela nos deixa inúmeros depoimentos. “meus pais me abandonaram e eu fiquei sozinha commeus dois irmãos. A gente vivia triste. No dia em que eu encontrei o Aírton e ele me disse: “ a partir de hoje eu vou cuidar de vocês. “Vocês serão parte de minha família, esse sentimento de abandono desapareceu da minha vida”. “No dia em que o Dr. Adalberto olhou para mim e me disse: “Dona Francisca, a senhora não está só, a senhora pode contar comigo”, eu me senti acolhida e segura. E hoje, quando a situação fica preta, eu me lembro daquelas palavras e tudo fica tranqüilo novamente”. O que queremos ressaltar é uma palavra, um gesto de apoio pode fazer diferença entre os que fracassam e os que vencem. Temos observado que à medida que a pessoa vai partilhando seu sofrimento na Terapia Comunitária, vai transformando os seus sentimentos e possibilitando uma (re) significação dos fatos traumáticos, vai tecendo laços sociais e gerando um sentimento de pertença ao grupo. O encontro com o outro se torna a bóia que permite escapar da morte trágica, sobretudo se o gesto, a palavra de hoje encontram vestígios de outros gestos e atitudes positivas que no passado nos confortou, nos apoiou, nos valorizou. Desta forma, relativa- se elementos importantes do processo resiliente. 1- Os vários caminhos da produção de conhecimento Vários são os caminhos que conduzem ao conhecimento e confere competência a quem por eles caminha. A grande estrada da capacitação profissional tem sido as 5 Carta de OMS escolas, as universidades e as academias: instituições detentoras de saber, formadoras de profissionais, com seus rituais de iniciação, seus títulos, suas teses, suas teorias. Outra fonte de produção do saber é a vivência pessoal ao longo da vida de indivíduos e de grupos sociais. “Os obstáculos, os traumas, as carências e os sofrimentos superados transformam-se em sensibilidade e competência essas habilidades construídas a duras penas são transmitidas, de geração a geração, pela tradição oral do “ouvi dizer” e” vi fazer”. Por isso afirmamos, “minha primeira escola foi minha família e meu primeiro mestre foi a criança que fui”. Geralmente atribuímos nossas competências a livros que lemos, cursos que fizemos e jamais a algo que vivenciamos. Como poderemos nos empoderar- se deixarmos de lado o saber produzido no contexto familiar, na escola da vida? Seremos meros marionetes prontos para sermos manipulados, colonizados e, portanto, alienados de nosso potencial criativo. Só nos empoderamos, quando compreendermos e aceitamos ser sujeito ativo, aprender com nossa história e não ter vergonha de nossas origens étnicas e dos nossos valores culturais, construídos por nossos ancestrais. Na academia, nós incorporamos o saber científico que nos confere um diploma que legitima uma identidade profissional e nos garante um salário financeiro. No entanto, muitas vezes, esta incorporação é feita em detrimento da identidade cultural. Ela exige a morte do índio, do negro que vive em cada um de nós. Dessa forma, reproduzimos o drama vivido no filme Robocop, onde a dimensão humana fica eclipsada, reprimida por uma parafernália tecnológica. Tudo se passa como se a condição para sermos um profissional eficiente, científico fosse combater a dimensão afetiva, cultural própria do ser humano. Na experiência de vida, as carências e os sofrimentos, quando superados, transformam-se em sensibilidade e competência, levando-nos as ações reparadoras de outros sofrimentos, nos conferindo um salário afetivo. O sofrimento que vivi me anima a restaurar aquilo que já conheço. É, portanto, minha antiga dor que se torna fonte de competência saneadora. Dessa forma, cuidando do outro, ou restauro a minha própria história pessoal e familiar. Podemos, assim, afirmar que a carência gera competência. Geralmente ensinamos melhor aquilo que mais precisamos aprender e damos melhor aquilo que não recebemos. Por exemplo: se fui rejeitado... Torno-me acolhedor. Nós necessitamos destas duas formas de conhecimento: o técnico-científico e o conhecimento produzido pela experiência de vida. Usando uma metáfora para melhor compreendermos estes dois saberes, são como duas mãos que se chocam, produzindo inicialmente barulho e sofrimento, e aos poucos, se dá conta que podem produzir: música, ritmos, batucada, que demonstram a 5 Carta de OMS alegria de viver. Portanto, são saberes que chocam se interpelam, num choque criativo e jamais destrutivo, no qual um novo saber quer eliminar o outro, seguindo a lei do mercado que faz com que o surgimento de um novo produto, sempre provoca a destruição do outro. Seria uma perda inestimável se a diversidade dos souber não permitisse a co-habitação, de forma respeitosa, desta diversidade. Ora, a sociedade é composta de contextos os mais diversos e, por isso, precisamos compreender que um modelo único, uma leitura única será sempre parcial. Um ponto de VISTA, é sempre a VISTA de um ponto. A compreensão da realidade social exige leituras, abordagens as mais variadas e plurais possíveis para atender a complexidade dos diversos contextos. Um modelo é uma construção sempre provisória. Um modelo aplicado para fazer para fazer essa leitura num determinado contexto. A realidade é uma universidade. Ela nos ensina a cada momento a relativizarmos o nosso saber, para podermos incluir, articular outros saberes construídos em outros contextos. A TC, como toda abordagem integradora ou holística, sabe que é possível transformar o choque e a dor deste confronto em ritmo, em batucada, em algo criativo que não negue, mas integre. Na Terapia Comunitária, aprendemos a construir juntos. A Terapia Comunitária apóia-se nas competências dos indivíduos e nos saberes produzidos pela experiência. Seus participantes são considerados verdadeiros especialistas na superação do sofrimento. Suas histórias de vida os têm tornado especialistas na superação de obstáculos e na produção de um saber, geralmente, ignorado pela academia. Não se trata de rejeitar o saber acadêmico, mas, sim, resgatar esta outra fonte geradora de competências. Trata-se de permitir que um método de cunho científico possibilite ao outro método de cunho mais intuitivo e cultural tomar corpo, consciência, consistência e reconhecimento de habilidades adquiridas por outras vias que não as convencionadas. Trata-se de reconhecer que a cultura tem também seus processos e métodos geradores de habilidades e competências. 2- A ostra e a pérola “Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas...” Nestes 21 anos de trabalho com a Terapia Comunitária, tendo treinado mais de 12.500 pessoas, nos mais diversos contextos da multicultura brasileira, ficou evidenciado para mim, que lá onde houve um sofrimento, um trauma, uma carência, a pessoa a transforma em uma habilidade uma competência. Damos melhor aquilo que não recebemos e ensinamos melhor aquilo que mais precisamos aprender. Para melhor entendermos, basta compreender o processo em que a ostra transforma uma agressão em uma pérola: 5 Carta de OMS “ As pérolas são produtos da dor; resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia. Na parte interna da concha é encontrada uma substância lustrosa chamada nácar. Quando um grão de areia a penetra, as células do nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia em camadas e mais camadas, para proteger o corpo indefeso da ostra. Como resultado, uma linda pérola vai se formando. Uma ostra que não foi ferida, de algum modo, não produz pérola, pois a pérola é uma ferida cicatrizada. Você já se sentiu ferido pelas palavras rudes de alguém? Já foi acusado de ter dito coisa que não disse? Suas idéias foram rejeitadas ou mal interpretadas?Você já sofreu os duros golpes do preconceito? Já recebeu o troco da indiferença? Então, produza uma pérola! Cubra suas mágoas com várias camadas de amor. Infelizmente, são poucas as pessoas que se interessam por esse tipo de movimento- atitude. A maioria aprende apenas a cultivar ressentimentos, deixando as feridas abertas, alimentando-as com vários tipos de sentimentos mesquinhos e, portanto, não permitindo que cicatrizem. Assim, na prática, o que vemos são muitas. “Ostras Vazias”, não porque não tenham sido feridas, mas, porque não souberam perdoar, compreender e transformar a dor em amor. “Um sorriso, um olhar, um gesto, na maioria das vezes, falam mais do que mil palavras” As Feridas e as pérolas Se as feridas nos trazem dores, é compreensível que se tente fugir deste lugar, desta lembrança e passemos para seu lado oposto. Nestes 21 anos de trabalho, de ajuda às pessoas a garimparem suas pérolas temos observado que: Quem foi problema... Tende a querer ser a solução. Quem se sentiu preso... Tende a valorizar a liberdade. Quem foi planejado... Tende a valorizar o planejamento. Quem foi rejeitado... Tende a valorizar o acolhimento. Quem fez sofrer... Procura ser bonzinho. Quem nasceu após abortos... Procura trazer vida. Pois bem, se as pérolas são as respostas às agressões, precisamos estar atentos para não apenas reagir saindo deste lugar desconfortável para outro que pode ser ainda mais desconfortável, pois estaríamos apenas reagindo e não agindo. Neste caso, estaríamos apenas reagindo e não agindo. Neste caso, estaríamos apenas reagindo à dor e não burilando nossa pérola. Temos que construir nossa própria síntese. Todo problema gera e trás, dentro de si, sua própria solução, não de forma espontânea, mas com esforço e coragem para superá-lo. 5 Carta de OMS Do contrário, o sofrimento sem crescimento, sem transformação em competência, transforma-se num fatalismo aniquilador de esperanças, gerando comodismo. Não adianta fazer nada. “Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”. E, aos poucos, vamos perdendo a confiança em nós mesmos, em nosso potencial e vamos alimentando atitudes de fracasso, de auto desvalorização e dependências as mais diversas, provocando o que chamo de a “síndrome da miséria psíquica”. Se, por um lado, este adágio popular sugere conformismo, nos convida a deixar as coisas como estão. Por outro lado, neste mesmo provérbio, podemos descobrir outra mensagem oculta, transformadora, mobiliza Dora desde que acrescentamos uma frase. Ou seja, se a gente se juntar, o bicho é quem corre a gente pega e mata o bicho da corrupção, da violência, dos preconceitos... O sofrimento é a matéria prima da TC, na medida em que podemos transformá- lo em crescimento. Para compreendermos melhor, me permitam outra metáfora: o sofrimento é como o “excremento”, a “merda” que pode ser transformada em estrume, em alimento para as plantas crescerem e produzirem flores e frutos. O foco de nossa reflexão é centrado no “sofrimento” e a pergunta chave é: O que tenho feito de meus “excrementos” de minhas “merdas” de meus traumas? Já aprendi a transformá-los em adubo ou apenas a exalar odores insalubres e poluentes de vidas? Na escola da vida, os grandes especialistas do cuidado souberam lidar com esta alquimia. Transformar sofrimento em sensibilidade, em energia reparadora, possibilitando a construção de uma nova ordem social, o renascer das cinzas. Por isso são cuidadores (cuida-dor). Portanto, se as pérolas são respostas às agressões, temos que ter cuidado para não apenas reagir, mas, sim, procurar a síntese, lapidar nossa pérola. Para refletir: O poeta e dramaturgo Antonio Carlos Vieira com sua poesia sobre A PEDRA, nos convida a reflexão sobre todos os obstáculos da vida: 5 Carta de OMS “A pedra, o distraído nela tropeçou... O bruto a usou como projétil. O empreendedor, usando-a construiu. O camponês, cansado da lida, dela fez assento. Para meninos, foi brinquedo. Drumond a poetizou Já David matou Golias, e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura... E em todos os casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem. Não existe pedra no seu caminho que você não possa aproveitá-la para o seu próprio crescimento. “Das oportunidades saiba tirar o melhor proveito, talvez não tenhamos outra chance.” Considerando que o que eu faço hoje se insere na minha história de vida, ficam duas perguntas para reflexão: 1- Qual é a minha pérola? 2- Qual foi a minha ferida? 3- “Só reconheço no outro aquilo que conheço em mim” Essa lei da Psicologia permite compreender que o sofrimento que se vive é o que anima a restaurar aquilo que já é conhecido. Como posso identificar o sofrimento do abandono se desconheço esse cenário? Como posso identificar e combater a injustiça se essa problemática não fazia parte da minha convivência? O trabalho com lideranças comunitárias, constituídas de pessoas humildes que desenvolvem uma ação voluntária com muita habilidade e dedicação, permite observar que é justamente o gemido de outrora que se torna voz interior que vocaciona para uma prática solidária voltada, sobretudo, para amenizar aquilo que já foi vivenciado. Um exemplo é o de uma líder da Pastoral da Criança que seguia a formação em Terapia Comunitária. Certa vez, em uma vivência que possibilita um diálogo interior em contato com a sua criança interior para consolidar o vínculo do adulto de hoje com a criança de ontem, nos fez o relato seguinte: 5 Carta de OMS “Durante essa dinâmica que fiz, eu revivi uma cena de minha infância. Eu tinha nada para comer em minha casa. Minha mãe me disse: „Minha filha, fique brincando com suas irmãzinhas menores que eu vou ver se consigo alguma coisa para nós comermos‟. E eu me via com um prato vazio na mão e uma colher, tentando fazer uma música para fazer meus irmãos esquecerem a fome, enquanto minha mãe chegava.” Em lágrimas, ela confidenciou que era a primeira vez que ousava partilhar aquele sofrimento. Foi, então, perguntado a ela: “Qual seu trabalho hoje?” Ela respondeu com vigor e força na voz: “Eu trabalho com a multimistura, alimentando as crianças famintas de minha cidade do Piauí”. Mais outra pergunta foi dirigida a ela: “De onde vem esta habilidade, esta sensibilidade para reconhecer que a fome precisa ser combatida”? Ela não respondeu: “Foi a fome que eu passei na minha infância que me fez ver a dor do outro. Quando vejo a dor do outro, ela reflete na minha própria dor, só que desta vez eu consigo superá-la com alegria.” Portanto, fica claro que o antigo sofrimento dessa pessoa tornou-se fonte de competência saneadora. O cuidador com sua ação resgata a sua própria história. Cada vez que essa senhora alimenta uma criança faminta, é a ela que está alimentando. Sua ação lhe permite resgatar sua história. Nesse sentido, dizemos que a primeira escola é a família, e o primeiro mestre que tivemos foi a criança que fomos. Permitir que cada futuro terapeuta comunitário possa trabalhar os vínculos entre aquilo que faz hoje com aquilo que vivenciou na sua história familiar e social, tem trazido maior consciência do papel do cuidador. Nunca é demais enfatizar: Eu não nasci para sofrer, mas o sofrer me faz crescer... Desde que eu tenha a humildade necessária para aprender com ele. Esse trabalho reflexivo sobre o papel do cuidador é fundamental para as pessoas que 5 Carta de OMS pretendem cuidar de outras pessoas. Ele tem permitido, sobretudo, romper com falsos conceitos de que são pessoas caridosas e bondosas. Ninguémtrabalha para ninguém. Nós trabalhamos para nós mesmos. O que fazemos aos outros estamos fazendo a nós mesmos. Nesse sentido, ajudar o outro é prazeroso e nos permite ser solidários, sem assistencialismos. Do contrário, iremos valorizar a carência, nos tornar salvadores da pátria, gerando dependência. Não podemos esquecer que aquele que é objeto de nossa ação, na realidade, é um parceiro que nos ajuda a nos conhecer e crescer. A clareza daquilo que nos motiva a fazer o que fazemos é a bússola de nossa ação. Desconhecer estas motivações profundas pode ser um grande risco para quem se aventura numa ação cuidadora do outro. Sob o pretexto de ajudar os outros, acabam por agravar o sofrimento, gerando culpabilidades e dando a falsa impressão de que estão sendo bons e caridosos, quando, na realidade, estão provocando desastres e agravando os problemas. Nesse sentido, faz-se necessária uma reflexão sobre a arte do cuidar para que possamos compreender melhor o sentido do sofrimento que nos empurra para uma ação transformadora. 4-A arte do cuidar A arte do cuidar é a arte de promover os valores da vida que transcendem a toda e qualquer limitação humana. É a arte de levar a esperança e nutrir a fé em nossa capacidade de resistir e superar as adversidades da vida. A arte de cuidar é divina, porque permite a quem faz, superar a escuridão do túmulo para alcançar a alegria da ressurreição. Ao exercermos a arte de cuidar, devemos ter a consciência de que o que faço hoje se inscreve na minha história de vida. Caso contrário, nos tornamos membros meros tarefeiros e perdemos a chance de nos beneficiar, de nos alimentar de nossa ação. Logo, nossa agir torna-se cansativo, desgastante. Um fardo duro para se carregar. Para saber se o que você está fazendo hoje tem a ver com a sua história de vida, proponho que você reflita sobre estas duas indagações: 1-Já descobri minha competência, minha pérola? 2-Sou capaz de identificar as vivências que me credenciam para fazer o que faço? Ou seja, qual foi a minha ferida? Não se trata de fazer uma correlação linear de causa e efeito entre o passado e o presente e, sim, procurar identificar minhas motivações profundas, inconscientes que me mobilizam para fazer o que faço. Conhecê-las é uma forma de me apropriar de minha história de vida e de minha ação. As Bem-Aventuranças (Mt 5:2-6) 5 Carta de OMS Na minha juventude, a leitura que eu fazia das bem-aventuranças me deixava indignado, pois parecia um hino ao conformismo. Como se o sofrimento vivido na Terra fosse necessário para o gozo no paraíso fora da Terra. Hoje, vejo nas bem-aventuranças um apelo dinâmico, dialético que nos impulsiona para uma ação transformadora da própria realidade. Nesta perspectiva, vejamos a sutileza do convite das bem-aventuranças: “Bem-Aventurados os que choram serão consolados.” De que forma? Quando morrerem será consolado pelos anjos? Isso é pura alienação. Seremos saciados na medida em que nos tornarmos consoladores dos que choram aqui e agora, na minha cidade, no meu país. “Bem-Aventurados os que têm fome porque serão saciados” De que maneira? Após a morte comeremos do manjar celeste? Com certeza seria uma alienação. Seremos saciados na medida em que nos tornarmos saci adores dos famintos de nosso país. “Bem- Aventurados os humildes porque a eles será revelado e serão sábios” Como assim? Na medida em que nos tornarmos educadores e valorizadores dos humildes. Portanto, as bem-aventuranças, longe de ser um hino ao conformismo, são apelos dinâmicos, mobilizadores de energia, investimento e ações transformadoras. Se, por um lado, o fato de termos sofrido em nossas vidas a dor da discriminação, a dor da rejeição e do abandono pode produzir fatalismo, comodismo, perda da confiança em nós mesmos, atitude de fracasso, auto desvalorização e dependência, e, por fim, provocar a síndrome da pobreza psíquica. Por outro lado, pode se transformar em sensibilidade e energia reparadora. Pode possibilitar construir uma nova ordem social. Para muitos, todos esses sofrimentos lhes permitem renascer das cinzas e transformarem em habilidosos cuidadores de seus “coleguinhas‟. Nesse sentido, podemos compreender o que diz o adágio popular: Deus não escolhe os capacitados, e sim, capacita os escolhidos. Nas rodas de Terapia Comunitária, procuramos resgatar esse saber produzido pela vivência, geralmente dolorosa e silenciada. Procuramos permitir que ela fosse socializada, verbalizada, não com o intuito de identificar carências, mas, sobretudo, procurando ressaltar o que foi feito para superá-las. Ou, de outra forma: qual foi o pulo do gato? Qual o segredo do caminho das pedras? O terapeuta comunitário deve sempre procurar valorizar o esforço, a descoberta que cada um faz quando der o salto qualitativo. Geralmente, as próprias pessoas desconhecem esse valor. Ignoram que foram hábeis, inteligentes, criativas. Ressaltar essas virtudes, esses valores no grupo é uma maneira de reconhecer o esforço do 5 Carta de OMS processo resiliente. Por isso é que, à medida que as pessoas falam de seus sofrimentos e dizem o que têm feito para resolvê-los, procura-se ressaltar as estratégias utilizadas para cada indivíduo e cada família. Descobre-se então, que lá onde houve um sofrimento, uma dor, se construiu um conhecimento que permitiu sua superação. A socialização desse saber gera um movimento dinâmico entre a leitura vertical de si mesmo e a leitura horizontal com o outro. Ou seja, ao ouvir a experiência do outro, cada um se reporta a sua própria experiência, permitindo a cada um fazer descobertas, tomar consciência e descobrir que cada um tem sua trajetória, produz seu saber. A Terapia Comunitária oferece a chance de partilhar soluções e mobilizar os recursos socioculturais na resolução dos problemas em um clima de confiança, a pessoa é valorizada e sua auto-estima é reforçada. Dessa forma, procura-se favorecer o desenvolvimento comunitário, prevenir e combater as situações de desintegração dos indivíduos e famílias, através da restauração dos laços de identificação que permite a construção dos laços de identificação que permite a construção de uma teia solidária. Partimos, pois, do pressuposto de que toda a comunidade constitui um sistema de inter-relações, é auto-regulável e dispõe de mecanismos reguladores de seus conflitos. Na Terapia Comunitária, esses mecanismos são relativos pela partilha das diversas experiências. O homem que sofre não pode ser visto como alguém que tem uma fragilidade ou uma carência. Tal percepção desencadearia um tratamento voltado para repor o que falta, além de desqualificar as relações humanas, afetivas e culturais, muito eficientes quando mobilizadas. Precisamos compreender que um homem só pode sobreviver se puder contar com uma teia de apoio e suporte. Nesse sentido, procuremos tanto ajudá-lo a descobrir os seus recursos internos, quanto os recursos externos presentes em seu contexto familiar e comunitário. Enfim, nossa ação consiste em reativar as potencialidades da comunidade capazes de enfrentar a fragmentação do que provoca a vida na rua, relacionadas a certos contextos conjunturais, da mesma forma que construímos espaços de reconstituição pessoal e de reforço dos laços sociais. A Terapia Comunitária se apóia, pois, nas competências dos indivíduos e nos saberes produzidos pela experiência. Seus participantes são verdadeiros especialistas do sofrimento, cujas histórias de vida têm permitido se tornarem especialistas na superação de obstáculos e na produção de um saber, geralmente, ignorado pela academia. Em contextos de precariedade, ignorar os recursos internos pessoais eos externos torna toda a ação um paliativo, que serve bem mais para aliviar nossa consciência do que para responder a uma demanda de forma eficaz. 5 Carta de OMS 5-A arte de dar “Pois é dando que se recebe.”(Oração de São Francisco) Quando dou, eu reconheço e valorizo as necessidades do outro como sendo algo que me concerne. Sinto-me chamado (a) para um olhar, uma ação que me permite a descoberta da alteridade. E o que recebo? Recebo o reconhecimento do meu ato de existir como co-existência. “Caim, onde está seu irmão?” (Gn 4:9). Esta frase bíblica nos lembra que somos responsáveis por tudo aquilo que nos cerca: o outro e a natureza, por exemplo, e que viver é conviver. Perceber a existência do outro me possibilita aplicar minhas habilidades, minhas competências, descobrir a alteridade, não como uma ameaça ao meu existir, mas como parte essencial do meu existir. É esta consciência do outro, meu semelhante que me permite: 1. Perceber o valor de uma convivência respeitosa na diversidade. 2. Reconhecer a importância de ações solidárias, colaborativas. 3. Indignar-me com as injustiças e desigualdades. 4. Participar da construção de um mundo mais solidário. “ Onde todos tenham em abundância.” (Jô 10-10). O dar que nos aprisiona Quando damos sem a consciência de que somos beneficiários de nosso doar, o gesto de dar torna a quem faz um CREDOR e a quem recebe DEVEDOR. Dar, cria, então, uma relação de dependência, torna-se fonte de futuros desentendimentos. Como provedor me equivoquei. Com a ajuda criei uma ilusão inconsciente de que o beneficiado me deve algo. Duas frases revelam este equívoco: Gosto de fulano porque ele reconhece o que faço por ele (tem consciência da dívida) Quanta ingratidão! Fiz isto por ele e ele foi ingrato, (não reconhece a dívida) Neste caso, ao devedor restam duas opções: 1)Ser prisioneiro do credor Nesta fase, o provedor torna-se um “anjo da guarda”. Ele é santificado e passa a ser visto como o salvador, o provedor de todas as suas carências. A expectativa é imensa! Foi plantada a semente da revolta que logo eclodirá. É compreensível o indivíduo reconhecer que sua vida depende de que alguém gere um sentimento de aniquilamento, reduza a auto-estima e o faça sentir-se um objeto passivo... Depressivo. 5 Carta de OMS 2)Rebelar-se contra o credor Uma vez que meu “salvador” não pode corresponder as minhas expectativas, preencher minhas carências, ele é diabolizado. Invertem-se os papéis. O “devedor” passa a acusar negar todo o benefício recebido. Uma maneira de fugir do sentimento de aniquilação e dependência fruta de um relacionamento baseado no equívoco de que alguém vai salvá-lo, e o faz sentir-se sujeito livre. William Shakespeare nos alerta que: “existe uma diferença, uma sutil diferença entre dar a mão e acorrentar a alma.” O dar que nos liberta Quando somos muito elogiados e agradecidos de forma quase compulsiva por algo que tenhamos feito por alguém, já é o ruído da faca sendo amolada para a próxima apunhalada nas costas. Não nos iludamos com este som anestesiante. Chegou à hora de nos posicionar de forma firme e clarificarmos nosso relacionamento. A fim de evitar que todo gesto de doação se transforme em conflito de relação, urge preventivamente ao gesto de dar, associar uma carta de alforria. Por exemplo: “Você não me deve nada. O que faço por você é o que fizeram por mim. Espero que você faça o mesmo, quando encontrar alguém nas mesmas condições. Esta é uma das leis da vida. Faça o bem sem olhar a quem...” Somente assim poderemos libertar as pessoas beneficiados por nossas ações, para que se tornem sujeitos livres de forma natural e não pela força da agressão, da traição. Este gesto também liberta o cuidador. Deixa-o livre para recomeçar outras ações solidárias, sem gerar dependências e constrangimentos. 6- A arte de perdoar A palavra perdoar engloba duas outras palavras: perder e doar. Vejamos: perder o quê? Perder o ódio que alimenta a violência, a mágoa que envenena a vida, perder o sofrimento, perder a possibilidade de vingar-se e, assim, alimentar o ciclo da violência. Doar o quê? Dá-nos a possibilidade de nos libertar do sofrimento e das doenças decorrentes de sofrimentos indigestos como úlcera, gastrite, de ser livre no agir e no caminhar sem o peso do ressentimento e sem a amargura do vitimizado. Guardar mágoa é como quem toma veneno e espera que o inimigo morra. Perdoar não é esquecer e, sim compreender que não se pode crescer ficando preso ao sofrimento. 5 Carta de OMS Muitas vezes a dificuldade de perdoar está relacionada ao medo de perder a única coisa concreta que se tem: o sofrimento. Para sorrir precisamos ter a boca vazia. Lembra-nos o adágio popular: “O cachorro que não abandona seu osso, não se nutrir”. Quando dou liberdade ao outro de seguir seu caminho sem ressentimentos, me dou também à possibilidade de ser livre de emoções que me paralisam, me sufocam e tornam o caminhar ofegante sofrido e doloroso. E o que recebo? Recebo a chance de prosseguir o meu caminho de vida sem o peso do fardo incômodo da mágoa que torna a vida amarga. Se a mágoa nos paralisa, torna o fardo da vida pesado, o perdão abre a possibilidade de nos libertar de tudo que nos desvia do caminho de uma vida mais fraterna e serena. Só se condena o que não se compreende. E o que não é compreendido? Que o outro não é culpado pela nossa infelicidade e, sim, a imagem que trazemos do outro dentro de nós. Quando o outro se torna tela de projeção de nossas fantasias, ele não existe mais enquanto ser distinto de mim, enquanto alteridade, mas como depositário de minhas expectativas. E ai dele (a) se não corresponder! A mágoa e a vingança são a expressão da inconsciência desse equívoco. Eu te perdôo por descobrir que você não poderia corresponder às minhas expectativas. Não foi você que me decepcionou, frustrou e, sim, eu que me equivoquei. Quando desfaço o equívoco o outro emerge como sujeito livre e não mais como objeto prisioneiro de projeção de minhas carências e fantasias. O perdão torna-se bússola do meu caminhar consciente, atento aos equívocos tão presentes em nossos relacionamentos. Perdoar o outro abre também a possibilidade de ser perdoado pelo outro que participou desse equívoco. “Eu te perdôo porque compreendi que todo conflito foi gerado inconscientemente pelos “personagens que representamos” e que impossibilitou um relacionamento verdadeiro de sujeito a sujeito”. “Eu não fui eu e você não foi você”. Fomos interlocutores possuídos por personagens e expectativas geradas por nossas carências. Nesse sentido, entendemos a célebre frase que Cristo proferiu quando estava sendo pregado na cruz: “Pai, perdoai porque não sabem o que fazem”. (Lc. 22,34) Cristo percebeu, na sua infinita sensibilidade de terapeuta, que todas as agressões dirigidas a ele, não era pelo que ele era em si, mas pelo que ele representava. Cristo era objeto de projeção de todos os pecados da humanidade e, por ter compreendido isso, aceitou a morte para poder libertar o homem dos seus pecados. Somente quando o conflito surge, é que aparecem estas projeções e podemos, então, corrigir o equívoco. Somente assim, um novo relacionamento diferente, verdadeiro, poderá nascer (ou não). Dicas para lidá-lo com o sofrimento e o sofredor 5 Carta de OMS A arte do cuidar é prazerosa para o cuidador, pois cuidando do outro ele tem a grande chance de cuidar de si, de crescer juntos. Mas vale lembrar as armadilhas que podem transformar este prazer em grandes sofrimentos e confusões. Daí porque precisamos permanecer atentos às dimensões inconscientespresentes numa relação de escuta, acolhimento e cuidado com o outro. A seguir, oferecemos algumas pistas para a arte de cuidar de si e do outro. Trata- se de conceitos retirados da Psicanálise e adaptadas para uma linguagem simples que permita a compreensão de pessoas que tentam compreender o que uma relação implica. Quando a reação é desproporcional ao acontecimento, (hoje) eu não estou reagindo ao fato e sim aquilo que o fato me reenvia (ontem). O diálogo popular nos diz a mesma coisa: Em casa de enforcado não se fala em corda. Se em minha história familiar houve algum suicídio com corda, cada vez que ouço a palavra corda, ela me reporta ao passado, à cena do suicídio. Por exemplo: vejo-me criança, apavorada, indefesa, precisando de cuidado. E minha reação de desespero denuncia que estou ritualizando um antigo sofrimento. Uma maneira de lidar com estas pessoas é, neste momento de dor, chamar por seu nome e pedir para abrir os olhos e continuar a falar do que esta sentindo. Com os olhos abertos poderá perceber que o hoje real é diferente do ontem traumático. Permite a pessoa a perceber que a é sua criança que esta sofrendo, gritando, e que esta criança do passado preciso ser consolada pelo adulto que a pessoa é hoje. Para que um trauma se estabeleça, é necessário pelo menos duas pedradas na mesma vidraça. Freud, o pai da Psicanálise nos lembra que a primeira martelada fixa o prego na madeira e que é a partir da segunda pancada que o prego penetra na madeira. Lembro-me de um caso que ilustra esta observação. Um casal desejava ter um menino e uma menina. Compraram seu apartamento com dois quartos para cada um dos filhos. O primogênito nasceu menina e foi festejada como a chegada de uma rainha. O segundo esperado homem nasceu mulher. A frustração, mesmo silenciosa, foi grande. A criança não correspondeu às expectativas familiares. Foi uma chegada sem festejos, sem celebrações. Assim que a criança nasceu perguntaram logo “é menino?” E a resposta foi clara: “não, foi mais uma menina”. Foi a primeira vidraça ou o prego foi fixado na madeira. Depois de muita elaboração, os pais decidiram fazer uma última tentativa para gerar um menino. Dois anos depois nasceu o varão, o príncipe. As celebrações de nascimento duraram dias. Estas três crianças tinham características marcantes desta família. Todas tinham orelhas salientes, grandes. Pois bem, na época de irem para a escola, vejamos como cada uma reagiu às primeiras dificuldades da convivência: a primeira, nascida princesa, muito amada e acolhida, chega na escola e logo uma amiguinha diz em tom de humilhação: “olha, e 5 Carta de OMS você tem orelho nas de elefante “e logo a garota responde” e você tem o dedão”. E a interlocução parou por ali. Quando chegou a vez do menino freqüentar a escola, aconteceu o mesmo com ele. Um coleguinha chama a atenção para as orelhas de elefante que ele tinha e logo, sem demora, o menino nascido príncipe, bem acolhido e amado responde “e você tem um cabeçona”. A confusão acabou por ali. Mas quando a segunda menina, nascida sem festejos, e que seu nascimento gerou certa frustração de seus pais, chega à escola e uma coleguinha assinala que ela tem orelhas de elefante, ela começa a chorar e se isola da classe. Foi a segunda pedrada na vidraça ou a segunda martelada. A primeira foi quando não correspondeu às expectativas de seus pais. Doeu, feriu, mas não sangrou. Agora, ela pode, enfim, começar a elaborar um sentimento de ser rejeitada, de ser inadequada. Quando o outro se torna mero espelho mandamos cartas certas para pessoas erradas. Eu não vejo a pessoa, mas através dela. Há algo nela que me lembra personagens conhecidos e fatos vivenciados. Um fato muito comum acontece em casais que se separam de forma traumática. O filho que ficou com a mãe, muitas vezes, é tratado como se fosse o retrato do pai. A mãe tende a ver o filho à presença insuportável do esposo agressivo. Muitas vezes, a frase é dita de forma anedótica: “O diabo foi embora, mas deixou seu secretário”. Quando o outro se torna espelho, meu interlocutor deixa de existir enquanto pessoa. Ele não se reconhece em minhas palavras e atitudes. É negado em sua existência, fica confuso. A criança fica refém de seus pais. É compreensível que a criança pense: “Se a mamãe expulsou meu pai de casa, foi porque ele não fazia o que ela queria. O mesmo pode expulsar e eu vou morrer de fome e de frio...” Nós podemos imaginar o sofrimento desta criança. Existem algumas situações ainda mais dramáticas. É comum quando a criança nasce o pai é quem vai ao cartório para registrar o filho. Já conheci casos em que o pai deu a sua filha o nome de uma ex-noiva, frustrando sua esposa que desejava outro nome. Quando a esposa descobriu, o conflito eclodiu. Imaginem o sofrimento desta criança. Quando o pai olhava para ela, lembrava da ex- noiva e quando a mãe a olhava via a ex-concorrente. E fica a grande pergunta: quem olha para esta criança pelo que ela é? Quando o outro se torna mero espelho, estamos mandando a carta certa (emoções legítimas) para a pessoa errada (o outro não tem nada a ver). Por trás de uma provação tem sempre uma dúvida Quando duas pessoas - mãe-filho; esposo-esposa, amigos - estão em conflito, em que um parece estar sempre provocando o outro, vale à pena perguntar a um e ao outro, se por trás da provocação tem uma dúvida. “Qual é a sua dúvida com esta pessoa? E qual seria a dúvida dela para com você?” Geralmente, a grande dúvida é: “Será que minha mãe, meu pai ou meu companheiro (a) me amam?” a provocação seria uma forma de tirar o outro do sério, seria uma forma de fazer raiva ao outro para ver se na 5 Carta de OMS hora da raiva a pessoa diz o que outro já imaginava: “ Você quer saber a verdade? Eu te detesto, maldita a hora que eu te gerei...” Toda super - proteção é um ato de descrença na capacidade do outro. Quando duas pessoas – mãe –filho; esposo-esposa, amigos - estão em conflito, em que um parece estar sempre provocando o outro, vale à pena perguntar a um e ao outro, se por trás da provocação tem uma dúvida. “Qual é a sua dúvida para com esta pessoa? E qual seria a dúvida dela para com você?” Geralmente, a grande dúvida é: “Será que minha mãe, meu pai ou meu companheiro (a) me amam?” A provocação seria uma forma de fazer raiva ao outro para ver se na hora da raiva a pessoa diz o que outro já imaginava: “Você quer saber a Verdade? Eu te detesto, maldita a hora que eu te gerei...” Toda super-proteção é um ato de descrença na capacidade do outro. Muitos pais procuram, a todo preço, evitar que seus filhos passem pelo sofrimento que passaram e tendem a superproteger seus filhos. Quando superprotejo alguém, na realidade, estou dando um atestado de incapacidade ao outro. Esta é a mensagem que passamos quando superprotegemos alguém. O beneficiado vai confiar mais no outro do que em si mesmo, vai ficando inseguro dependente e imaturo. Terá dificuldades de concluir suas tarefas e de consolidar sua autonomia como adulto. Certa vez, uma senhora, mãe de uma criança de 7 anos, me procurou com uma situação familiar bem típica. Ela dizia. “Estou muito preocupada com minha filha de 7 anos. Não deixa ela sair só nem na calçada do prédio. Sei que estou prejudicando minha filha pelo excesso de proteção”. Quando perguntei a ela sobre sua infância ela me disse: “Eu era a caçula de uma grande família e me sentia meio deixada de lado. Quando completei meus 7 anos, minha mãe me mandava comprar pão na padaria e, certa vez, eu fui abusada pelo padeiro. Nunca contei isso para ninguém. Me sentia desprotegida por minha mãe”. Perguntei então a ela: Quando a senhoraolha para a sua filha quem a senhora vê, ou seja, a senhora vê a você, ontem, uma criança desprotegida ou vê sua filha hoje como ela é?” Nesta hora caiu a ficha: “Ah! Quando eu olho para a minha filha de 7 anos eu estou vendo é a mim mesma, eu estou revivendo o meu passado. Estou querendo dar a proteção a minha filha que eu não recebi de minha família. “Por isso que estou dando em dose dupla.” Esta descoberta abre a possibilidade de desfazer o equívoco e uma nova relação mãe – filha poderá, enfim, começar. Muitas vezes a super - proteção mascara um medo da solidão, do abandono. 5 Carta de OMS CAP. 4 A IMPORTANCIA DO CONTEXTO NA CRISE Quando a crise surge, ela está sempre querendo dizer alguma coisa, comunicar algo que tem a ver com o seu contexto. Se não a contextualizamos, tudo parece sem sentido. Lembre-se sempre do ditado que diz: “Quem olha para o dedo que aponta a estrela, jamais verá a estrela.” No caso, os dedos são sintomas que apontam para uma realidade oculta. O Terapeuta é aquele que não se contenta em olhar para os dedos; ele olha para onde os dedos estão apontando. Através de perguntas, ele será capaz de desvendar o que está por trás das queixas. Por exemplo, por trás da violência praticada por uma criança pode estar um apelo por atenção, um pedido de amor; por traz de uma depressão, pode haver um sofrimento, alguém pedindo uma força. O Terapeuta é capaz de ler nos gestos de um drogado um forte pedido de ajuda. Ele é capaz de ver, na agressividade do homem em relação à mulher, a raiva por ter perdido o emprego, por ter sido desmoralizado no ambiente de trabalho. Esse homem, desempregado, quer ser rei da casa, afirmando-se diante de sua mulher e de seus filhos. Acha que ser rei em casa é maltratar na mulher e bater nos filhos. O terapeuta é capaz de entender que aquele marido encontrou, na forma de ser rei em casa, uma válvula de escape, como se quisesse bradar com todos os pulmões: “Aqui, mando eu! Aqui, o rei sou eu!!! Daqui, ninguém me tira!!! Daqui, ninguém me bota pra fora!!!” O terapeuta deve possibilitar o casal e à comunidade refletir sobre essa forma insana de se auto- afirmar, a fim de prevenir futuros atos violentos, e possibilitar, ainda, uma compreensão acerca dos mecanismos inconscientes geradores de atos violentos. Para tentar tratar a doença, muitas vezes a pessoa precisa do apoio de um especialista (psiquiatra ou psicólogo). Na Terapia Comunitária, não se quer “dar uma de especialista”, querendo explicar, analisar os fatos, ou concentrar a atenção na doença, ou ainda, desvendar traumas secretos. Pretende-se, sim, trabalhar o sofrimento. Permitir que a pessoa verbalizasse seu sofrimento. Não se pode esquecer o que diz a sabedoria popular: “Quando a boca cala, os órgãos falam, e quando a boca fala, os órgãos saram”. Poder falar num clima de confiança já é uma grande ajuda e permite a todos refletirem sobre o sofrimento em questão, resgatando a sabedoria dos que já passaram por aquele sofrimento e possibilitando a outros se prevenirem. 1. _ _ Modelo Crise Contexto 5 Carta de OMS Modelo-Crise- Contexto: três palavras que costumam sempre estar juntas. A crise é a exaustão de um modelo de interação, de um modelo de comunicação, quer seja afetivo, econômico, político ou religioso, em função de um contexto, sempre em mudança. Em outras palavras, a crise vem assinalar que um modelo interativo, pifou, se exauriu, precisa ser reconstruído. Toda crise é como um sinal vermelho no trânsito. Por que ele acende? O que ele está sinalizando? Sinaliza que é preciso parar para esperar que outros passem. Parar para não sermos atropelados, esmagados pelos que transitam em sentido contrário. Ou ainda, pode ser um sinal pedindo para avançarmos. Quem estiver atento e fizer uma boa interpretação do sinal da crise é capaz de compreender seu real significado e conduzir- me na estrada da vida. A crise é como o canto da rã que, pressentindo a chuva, der repente, sai do seu silêncio e começa a coaxar, alertando-nos para a chegada das chuvas. A Natureza está cheia de sinais: No sertão nordestino, por exemplo, quando o homem olha para o chão rachado da secura, ele vê os sinais da seca. Mas, se olha mais para cima e vê uma flor no mandacaru, ele sabe que a chuva está perto de chegar: Através dos sinais, podemos entender a natureza e sua ligação com as pessoas. Na sabedoria popular, que vem do índio, do negro e do colono, existem muitos desses sinais. Vejamos alguns: - Círculo em volta da lua cheia: sinal de chuva. - Círculo com as cores do arco-íris, em torno do sol: sinal de verão forte. - O canto do “vem-vem”: anúncio da chegada de visita. - O sino muda o tom: sinal de chuva certa, sinal de inverno - Urubus circulando a área: sinal de carniça. - O coaxar das rãs: prenúncio de chuva. - Formigas saindo da toca: sinal de chuva. - Formigas de asa (tanajuras) aparecendo: sinal de chuva. - Muita ventania: sinal de que o tempo de chuva ainda vai demorar a chegar. Como entender e valorizar os sinais que a vida nos aponta? 5 Carta de OMS Todo o terapeuta deve estar atento aos sinais que a natureza (os animais, as pessoas e os grupos) oferece à nossa leitura e compreensão. Ler os sinais ajuda a compreender melhor o ambiente, o contexto, o sistema onde vivem as pessoas, as famílias e suas comunidades. Ler de diversas maneiras: ler para baixo, para cima, para os lados. Ler o todo, esforçando-se para não ficar somente na leitura de uma parte. Cada região do Brasil apresenta diferenças nas formas como se constroem os sinais. Por isso é importante que o terapeuta comunitário anote no seu caderno o que é próprio da sabedoria popular local. Como o Nordeste sofre o problema da seca (escassez de chuva), e a seca determina muito a vida das pessoas, muitos dos sinais aqui apresentados referem-se a esse problema. Se na região Sul existe o problema das geadas, por exemplo, o povo deve ter os seus próprios sinais e esquemas de leitura para poder enfrentar seus principais problemas. Os ditados populares e os provérbios ajudam o indivíduo a entender melhor o contexto em que as pessoas estão inseridas ou situadas. A maneira como as pessoas recorrem aos ditados e os explicam facilita muito a compreensão do problema discutido, já que eles comunicam uma sabedoria. É oportuno esclarecer que o valor dos ditados ou provérbios não está no uso terapêutico que se pode fazer deles. Está, principalmente, no que eles representam em si: a cultura, a história, a memória, enfim, a sabedoria de um povo fruta de sua longa experiência de vida. Os ditados ou provérbios também são ditos e entendidos de acordo com cada região do país. Vamos aqui apresentar alguns exemplos que devem ser enriquecidos no dia-a-dia do trabalho. Deus ajuda quem cedo madruga. Quem disso usa, disso cuida. O pouco com Deus são muitos; o muito sem Deus é nada. A cuia de farinha do pobre só cai emborcada. Quem corre atrás de dois, perde um, ou todos dois. Costume de casa vai à praça. A justiça pra ser boa começa em casa. 5 Carta de OMS Quem cala, consente. Em velório de pobre, a família chora; em velório de rico, a família briga. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come; mas se agente se juntar o bicho corre, a gente pega, mata e come. Esses dizeres são típicos da cultura nordestina, mais especificamente do Ceará. Há outros exemplos de ditados populares, próprios de outras regiões do país, que devem ser utilizados nas sessões de Terapia Comunitária, como o exemplo seguinte: “Em rio que tem piranha jacaré nadade costas”. Exemplos como esses os ajudam a entender que a nossa cultura é rica de significados; ajudam-nos, também, a não nos enganar com as aparências e acharmos que tudo o que o povo simples diz é besteira ou é por acaso. Pelo contrário, o povo, através dos ditados e de outros sinais, ensina-nos que é preciso procurar enxergar além das aparências. 2.Compreendendo a crise Toda a crise é como um dedo apontando para uma estrela perdida no céu. Quem olha só para o dedo, jamais verá a estrela. Crise e Transformação “Antes de um ato de criação existe um ato de destruição” Pablo Picasso. 5 Carta de OMS O caos é a matéria-prima de toda construção. “No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas. No sétimo dia, fez o homem a sua imagem e semelhança: “E Deus criou o homem à sua imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher”. “No sétimo dia, Deus terminou todo o seu trabalho; e no sétimo dia, ele descansou de todo o seu trabalho.” (Gn. 1,2) O que essas passagens bíblicas nos mostram? No início era a crise, o caos, e Deus pôs em ordem no caos pelo trabalho e criou o mundo. Da lama, da argila construiu o homem. O caos foi, portanto, a matéria-prima da construção do universo. E o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus. Em que somos semelhantes à Deus? Somos semelhantes, porque como ser pode transformar o caos pelo esforço, pelo trabalho, e não pelo milagre. Hoje, cada um de nós é chamado a transformar o caos familiar, social, econômico pelo esforço coletivo. Muitas são as coisas da natureza que, para serem criadas, passam por um processo de destruição e transformação. Para se produzir uma obra de arte, ou escrever um poema, muitos atos de destruição foram precedentes à criação. Para se fabricar papéis precisa-se sacrificar árvores. Para se obter tintas é preciso triturar minérios ( como o lápis-lazúli e a azurita para se conseguir o azul; ou moer frutinhas como o sanguinheiro, para se obter a laca amarela; ou insetos como a cochonilha, para obter o carmim) Para se fazer tijolos é preciso bater e amassar muito barro e depois levá-lo ao fogo intenso. Para se produzir um medicamento é preciso arrancar a planta da terra, triturar, moer, ferver, fazer surgir uma nova fórmula. A crise será sempre eterna companheira no nosso processo evolutivo. Ela é um mal necessário, pois nos possibilita deixar para trás aquilo de que não necessitamos mais. Muitas crises podem ser superadas sozinhas. Quando as pessoas não conseguem por si mesmas, em meio à tempestade, encontrar uma saída, o apoio de um amigo ou da comunidade pode ser de grande valia. A Terapia Comunitária é um instrumento transformador do sofrimento, das dores da alma. Partilhando nossos sofrimentos e descobertas, estamos coletivamente possibilitando trazer a clareza para nossos sentimentos e a luz para nossa caminhada solidária. Poder falar da dor pode ser um fator importante para a reconstrução da vida. Uma crise bem aproveitada pode transformar o caos em matéria-prima para o crescimento humano, para o crescimento do próprio grupo e de toda a comunidade. 5 Carta de OMS As crises não acontecem por acaso. Elas sempre fazem parte de um cenário, de um contexto familiar, comunitário me social. As crises vividas por um indivíduo, de uma forma ou de outra, vão ter eco, vão repercutir entre seus familiares, entre seus amigos e colegas e em sua comunidade. Por isso, é importante considerar a crise não como um fato isolado, mas como parte de um determinado contexto. A crise se nos manifesta diversos sistemas de relações. Quadro 1: As crises em seus contextos diversos – adaptado de Slaifeu(1988) SISTEMAS RELACIONAIS: Variáveis (aspectos que devem ser considerados ou para mais ou para menos, de acordo com cada caso). Pessoa Aspectos de conduta, do afeto, dos relacionamentos corporais e intelectuais. Família e grupo social Família, amigos, vizinhos e natureza das relações com pessoa em crise (coesão, padrões de comunicação, papéis e responsabilidades, flexibilidades e franqueza, valores). Comunidade Localização geográfica, recursos econômicos e materiais; estruturas e políticas governamentais; local de trabalho do indivíduo, negócios, escolas, serviços de saúde, indústrias, igrejas, movimentos pastorais e associação de moradores. Cultura ou sociedade Valores predominantes, tradicionais, normas e costumes Quando a crise chega: As crises são transtornos e desorganizações que acontecem em determinados períodos da vida de pessoas, famílias, grupos sociais, instituições e da sociedade. Podem apresentar os seguintes sinais: - Incapacidade do indivíduo, família ou grupo social em resolver seus problemas. A verdade é que as velhas formas não servem mais, pois o contexto é outro. Veja quanta mudança: uma sociedade que começou o século andando a cavalo terminou fazendo viagens interplanetárias. 5 Carta de OMS - Falta de criatividade. Quando este presente nas crises, a falta de criatividade faz com que as pessoas tentem resolver seus problemas utilizando as mesmas soluções de sempre. - Tendência a apelar para as atitudes extremistas: tudo ou nada, ou é oito ou oitenta. Parece que não existe nunca um caminho intermediário, uma disposição para negociar, ceder para ganhar. A situação é vista em branco e preto. Esquece-se de que existem a cor e os tons cinza. - Perda da direção. Na crise, geralmente a pessoa fica como se estivesse cega, tonta, sem uma direção a tomar. Não sabe o que fazer. É que quando a emoção é grande nosso raciocínio fica comprometido. Há uma tendência maior a reagir, fugir. Por isso, dizemos que em época de crises não se tomam decisões. Se um fato nos atinge, causando desequilíbrio e tensão, logo imaginamos que estamos diante de algo sem solução, que não adianta insistir, que não adianta nem tentar. Naquele momento, o problema parece não ter solução porque as maneiras que sempre usávamos antes serviam, mas agora não servem mais. Nossos pais as usavam e dava certo; nós as usamos e não dá mais certo. Ou então: já usamos certa vez e deu certo, mas agora não dá mais. Quando sentimos que está tudo escuro mesmo, que já tentamos tudo e nada funcionou, estamos permitindo que a tensão, causada por uma necessidade não satisfeita, tome conta de todo o nosso organismo, sem nunca parar e sempre aumentando, sempre aumentando... Tanto a crise quanto a sua solução dependerão de vários esforços combinados: a)da força e da intensidade da reação desencadeada. Existe crises que deixam os indivíduos desnorteados, incapazes de poder refletir. As grandes perdas podem desencadear muito sofrimento e dor. Já outras crises não abalam tanto; b) das condições pessoais e do grupo (saúde, auto-estima, flexibilidade). Muitas vezes, as crises nos pegam de surpresa e nos atacam quando ainda estamos caídos ou fragilizados por alguma perda, doença ou baixa auto-estima. A falta de flexibilidade e aceitação pode tornar seus efeitos mais dramáticos; c) (do vigor do sistema de crenças e valores espiritualidade, fé). A espiritualidade pode ser um grande recurso para nos confortar nos momentos de crise. É sempre mais fácil atravessarmos os precipícios quando estamos confortados pela fé em Deus; d) da variedade e diversidade dos recursos sociais e culturais É muito importanteter em quem se apoiar nos momentos difíceis. Poder contar com os amigos e vizinhos atenciosos e solidários. Receber visitas de membros da igreja ou sindicato, sentir que não se está só na dor em si já é um grande conforto. Nesse ponto, os massoterapeutas têm uma grande importância para a comunidade. Poder receber uma massagem nos momentos de muito estresse é um recurso valioso. 5 Carta de OMS O perigo ou risco surgem quando a crise paralisa as pessoas, as famílias e as comunidades, fazendo com que se perca a confiança uns nos outros. Quando se chega a esse ponto todos se isolam e ninguém mais assume responsabilidade por causa alguma, nem por si mesmo, nem pelos outros. Por outro lado, a grande oportunidade que a crise nos traz é poder refletir sobre o que erramos. Ela nos possibilita rever nossos relacionamentos, buscar novas formas de agir e de nos relacionar. As crises nos forçam as mudanças, rompem nossa acomodação e nos fazem avançar na caminhada. Para tento, temos que ter humildade e reconhecer nossas falhas, nossos equívocos. É a queda da água de uma cachoeira que dá forças ao rio. A OPORTUNIDADE DO SALTO QUALITATIVO NUMA CRISE “É NAS QUEDAS QUE O RIO CRIA ENERGIAS.” GANDHI Tudo que se manifestam todos os sinais que surgem, por exemplo, o choro de uma criança, a depressão que chega e fica são formas de comunicar, de dizer que alguma coisa não vai bem, que a situação não está mais dando pé. São sinais de uma crise e apontam para uma oportunidade de mudar para melhor. Mudar para melhor é o que chamamos de salto qualitativo! Como a vida é dinâmica, sempre vamos passar por várias crises. Daí a necessidade de descobrirmos maneiras criativas de lidarmos com elas, de criarmos uma pedagogia para a crise. Os tempos mudaram e o que antes levar muitos anos para se transformar, hoje muda em um piscar de olhos. Como o contexto social e cultural é mais dinâmico, nossos modelos têm que ter rodas, isto é, têm que ter mecanismos que nos permitam acompanhar as mudanças. Precisamos desenvolver nossa capacidade de adaptação às mudanças e às crises. Quando nossos modelos de tratamento das crises e das mudanças não correspondem às novas exigências do contexto, nos perdemos diante das crises. A crise sempre nasce em uma situação em que um modelo, ou uma forma de lidar com a vida, pifou, se esgotou. É como um sapato que ficou encharcado com a água da chuva. No dia seguinte, ele não entra mais no pé. Ora, o sapato é um modelo, eu tento calçar e ele não cabem mais no pé. A crise foi gerada. A situação não se encaixa mais no velho modelo. E logo surgem as perguntas e os questionamentos: “mas por que este sapato não entra mais no meu pé? O que aconteceu? Encolheu! Mas esse sapato me foi dado pelo Papa! Foi-me dado pelo Santo! Foi-me dado pelo Freud!” 5 Carta de OMS Mesmo assim, que tristeza! Não serve mais para o pé... As pessoas que insistem em manter no pé o sapato que encolheu vão andar mancando e com o pé cheio de calos. Vão ficar irritadas consigo mesmas e com os outros. Vão agredir a todos porque seu pé está doendo. Se continuarem insistindo: “Ah! Jamais jogarei meu sapato fora!, terão que perceber que só há uma maneira de continuar usando o sapato: cortando os dedos para que o pé caiba no sapato! O jeito, então, é partir para a multiplicação. Mas como o pé é mais importante que o sapato, o que a gente deveria fazer? Jogar o sapato fora e comprar um que nos deixe confortáveis. O meu pé é como se fosse o contexto. O sapato é como se fosse o modelo. A crise veio demonstrar que o meu modelo de sapato não se ajusta mais ao contexto que é o meu pé. No momento em que aparecem os calos, não adianta querer ficar tomando decisões precipitadas, impensadas. Primeiro, precisamos refletir, pensar, avaliar, entender o que está produzindo o calo, o que está produzindo incômodo e dor. E aí provamos,, mais uma vez, que as crises sinalizadas pelo incômodo, pela dor, pela insatisfação são positivas e férteis. Temos a oportunidade de perceber que o que está pifando, o que não está funcionando é o modelo. Precisamos de um modelo novo. Já imaginou o transtorno se tentássemos usar o mesmo sapato de criança na adolescência, na idade adulta e na velhice? A consciência da passagem de um modelo que não funciona mais para um novo modelo é o ponto crítico de todo o processo. Vamos lembrar mais uma vez: o que determina o contexto é o processo histórico, um processo que envolve a economia, a política, a educação, as relações humanas. Enfim, toda a realidade. No caso da mudança de moeda, por exemplo, do cruzeiro para o real, tivemos a mudança de um elemento do contexto e não de todo o contexto. Para que fosse possível uma mudança global, seria necessário que ocorressem mudanças nas estruturas sociais e econômicas que hoje geram tantas desigualdades e injustiças. A mudança da moeda não é suficiente para que haja alteração na qualidade de vida das pessoas. Se Paulo está ganhando pouco, não vai comprar o alimento suficiente. Então, os filhos começam a reclamar em casa. Eles não percebem que, para os pais ganharem mais e poder comprar mais alimentos, não basta substituir o cruzeiro pelo real, porque o contexto é mais amplo e mais complexo. Para que haja melhoria na qualidade de vida, políticas públicas deveriam ser implementadas como a da reforma agrária e outras que possam aumentar a renda da família e combater o desemprego. Os filhos precisam entender o contexto porque, caso não entendam, vão culpar os pais pela falta de alimentos. 5 Carta de OMS Um novo contexto pode ser imposto de cima para baixo, junto com o modelo correspondente, sem levar em conta a cultura e as referências importantes para a identidade das pessoas. O que somos passa pelo que acreditamos pelo que gostamos de comer, pelo que gostamos de ouvir, pelo que gostamos de vestir, pelo que admiramos e amamos. O modelo único destrói aquilo que é fundamental: a diversidade cultural, e traz uma grave repercussão nas estruturas sociais e mentais de indivíduos e grupos sociais. O modelo único da globalização tecnológica e econômica destrói os valores existentes nas várias culturas. Onde antes havia partilha, hoje existe exclusão. Onde antes havia orgulho do modo de ser, no sentido de fazer sobressair a dignidade humana, hoje existe vergonha. Toda cultura possui seus próprios sistemas de controle. A virgindade feminina, como valor, poderia ser vista como uma forma de controle para preservar o respeito, a dignidade e a responsabilidade pessoal. Se um valor é destruído e não surge outro em seu lugar capaz de preservar o mesmo respeito, a mesma dignidade, a mesma responsabilidade pessoal, tendo uma referência ética, as relações humanas caem na banalização. Um exemplo da destruição dos valores culturais pode ser verificado em nossa relação com o meio ambiente. Baseado nos mitos herdados das culturas indígena e negra ouvia dos mais velhos a lição: “Olhe, meu filho, quando você for andando na mata, não quebre os galhos, não destrua as árvores, não mate os animais com filhotes e as fêmeas, se não o Saci Pererê ou a Caipora vêm te pegar e te dar uma surra!” Os mais novos escutavam e todo mundo respeitava a mata e seus animais, e assim se preservava o futuro. Hoje, a tecnologia diz que o Saci Pererê e a Caipora, ou qualquer outro mito da floresta, não existem mais. O respeito à sabedoria dos mais velhos, à tradição desapareceu ou foi desvalorizado. Isso tem sido o sinal verde para a depredação e a destruição. Mesmo que se diga que a florestaé o pulmão da humanidade, não se deu uma explicação que tivesse uma relação com a cultura. Se os poderosos não respeitam e exploram a natureza para dela extrair todo o lucro possível, qual a resposta a esperar dos excluídos e marginalização? Não faz muito tempo, as casas dos pobres eram cheias de santos de madeira, de baús velhos, de ferros de engomar a carvão. As casas dos ricos eram todas modernas: os santos eram de gesso, pintados recentemente e tudo era elétrico. E, der repente, houve uma intervisão de valores: tudo que era pobre e velho foi parar na casa do rico. Hoje em dia, você chega na casa do rico e encontra o oratório de madeira e seus santinhos, o velho ferro de engomar de carvão agora é peça de decoração! O que dizer da antiga máquina de costura de pés de ferro bordados que o pobre jogou no lixo porque achava 5 Carta de OMS feia, ultrapassava e sentia vergonha de possuir? Como explicar o lugar de honra que agora ocupa na nobre sala de estar da burguesia? Símbolos da cultura popular foram transformados em objetos de valor estético e promovem o status econômico e social dos mais ricos. O pobre só se dará conta dessa situação se um dia ele for visitar a casa do rico e descobrir que fizeram com que ele sentisse vergonha daquilo que um dia fez parte de sua cultura. É muito prático e cômodo, em uma crise, nos sentirmos vítimas, achando que o satanás é o responsável pelo nosso sofrimento, ou ainda, que tem alguém nos perseguindo. Se formos vítima sempre pode esperar pelo surgimento do Salvador. 3.No final do túnel uma luz Nós só enxergamos a luz porque existe a escuridão. Só desejamos aprender, porque existe a ignorância. Só temos coragem, porque existe medo. Só existe a resposta, porque existiu a pergunta. Tomemos a imagem dos apóstolos no Cenáculo. O Espírito Santo surge aos apóstolos na forma de uma língua de fogo, o simbolismo que revela o banimento da escuridão e o domínio de uma fé corajosa para aqueles que crêem. Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. (At.2, 1-4) 3.1 O simbolismo do fogo Vamos refletir sobre o simbolismo do fogo. O que é o fogo? Primeiramente, o fogo é a luz e o calor. Como ele pode ser produzido? Pode ser produzido pela ficção, pelo atrito entre dois corpos que se batem como acontece quando batemos pedra com pedra. Então, conseguimos produzir a luz. Sem luz, não, podemos ver o mundo. Sem calor, morremos de frio. Antes da luz era a escuridão. O frio eterno. Da insatisfação com a escuridão e com o frio, ou seja, desta crise nasceram a luz e o calor. Crise é atrito, é conflito, é fricção entre dois corpos, entre duas vontades. A luz e o calor, em um momento de crise, de dúvida, de desespero, de incerteza. A luz ilumina e aquece nosso caminho e nos traz a resposta. O Evangelho nos diz que, como conseqüência da ação do Espírito Santo, os apóstolos falaram línguas diferentes. Isto não quer dizer que, se um apóstolo não sabia grego, falou grego; que se outro não sabia latim, ou hebraico ou outra língua como identidade, como personalidade, como cultura, como história, memória, compromisso. 5 Carta de OMS Se forem doze idiomas porque eram doze apóstolos, não importa. O que importa é que, mesmo falando línguas diferentes, falavam sobre a mesma coisa, o mesmo conteúdo, a mesma referência, que é o amor libertador de Deus. A noção da diversidade, da divergência como valor necessário é fundamental para se ter a luz, o esclarecimento. Nesse sentido, a crise é sempre algo positivo. Por isso dizemos: “Há males que vêm para o bem”, “Bendita cruz que carregamos”. Dizemos isso, porque, apesar do peso e do mal, a cruz nos protege e nos impulsiona para a frente. 4.A mediação dos conflitos: evitando a triangulação vitimizadora; É aqui que ressaltamos a importância de uma atitude clara e firme do terapeuta comunitário. Ele nunca deverá assumir o papel de salvador, aquele que, procurando pela suposta vítima, responde: “Ah! Deixa comigo que eu resolvo”. Por que devemos evitar a atitude de salvador, de herói? Porque se o terapeuta entrar no jogo de vítima-perseguidora, ele terá que destinar seu trabalho e sua energia na busca desse perseguidor: Ora, ao agir assim, ele se transformará, por sua vez, em um perseguidor e estará criando outra vítima. Ou seja, criando um triângulo que repete sem fim as situações e desvia o grupo da verdadeira superação do problema. E, assim, a relação triangular se multiplica da seguinte forma: Hoje sou salvador; amanhã serei vítima e acabo por me tornar o perseguidor. Como já vimos no decorrer deste manual, para nós não existe uma relação causa-efeito entre o fator precipitante - gota d‟água - e a crise. Diante de uma mesma situação – problema, algumas pessoas ou famílias se sentem emocionalmente ameaçadas e entram em crise, outras não. O educador é aquele que transforma criativamente o caos em ordem, a desesperança em esperança. É aquele que respeita os valores e a autonomia do outro e tem consciência do valor de escutar mais do que falar; já que ele sabe que quem mais fala é quem mais domina. O educador acompanha de perto as mudanças mentais que ocorrem impulsionadas pela própria dinâmica da vida e ajuda as pessoas a atualizarem suas fichas mentais. As pessoas mudam e, se não se atualizarem, o descaso desencadeará conflitos e alimentará crises intermináveis. 5.Aprendendo a lidar com a crise: exercício prático em duas etapas: 5 Carta de OMS 1º etapa: Cada pessoa escolhe um problema e segue as orientações a seguir. 2º etapa: Cada pessoa apresenta sua ficha para o grupo. O grupo ajudará lançando perguntas (motes) e completando informações que irão facilitar na resolução da crise. Quadro 1: Quadro 6: Qual é o sofrimento? Procure explicar o problema de forma sintética, seguindo as perguntas: Qual é o problema? O que aconteceu de fato? Quando aconteceu? Lições que tirei? Pergunte: o que aprendi com a crise? De que forma os erros cometidos se transformaram em conteúdo de aprendizagem? Ampliei minhas relações sociais? Aperfeiçoei minha capacidade de superação? Que limitações me alertaram? Quadro 2 Quadro 5 Repercussão em mim? O que eu senti? Raiva? Medo? Decepção? Tristeza? É importante identificar as emoções. Minha participação inconsciente? Este quadro é o mais difícil. Pergunte: Sem dar-me conta, alimentei ou contribui para desenrolá-lo do problema? Geralmente, as pessoas se colocam como meras vítimas. Quadro 3 Quadro 4 Repercussões externas? Enumere a repercussão na sua família, na sua comunidade, na sua instituição. Estratégias pessoais Busque na sua própria experiência: Quais as estratégias que utilizei para superar a crise? Isolei-me? Agi com indiferença? Adoeci? Agredi? 5 Carta de OMS Síntese: 1. A crise e o caos são a matéria-prima de todo o crescimento e transformação. 2. A crise só pode ser entendida quando entendemos o contexto em que ela se insere. O contexto é fruto de um processo histórico e cultural que envolve a economia, a política, a educação, as relações sociais, enfim, toda a realidade que nos circunda. 3. A crise surge depois de várias tentativasfrustradas de resolução do problema. Contudo, é, portanto observar que nem o organismo da pessoa, nem o sistema familiar, ao que parece, toleram níveis altos de desorganização por longos períodos de tempo. 4. A crise, geralmente, obedece a padrões contínuos em seu desenvolvimento. Por isso, as crises se parecem muito umas com outras, sejam quais forem às tensões que as provoquem. 5. As crises provocam questionamentos sobre os valores pessoais e sociais. As pessoas em crise se perguntam: que sentido tem a vida? Por que isso acontece logo comigo? Por que Deus permite que isso aconteça? Vale à pena continuar vivendo? 6. Durante as crises não devemos tomar decisões. É importante perceber que sempre podemos sair fortalecidos após as crises. Para que isso ocorra, vamos procurar problematizar o contexto. Vamos questionar nossos modelos, identificar os sinais, tentar entender nossas atitudes. Vamos tentar decifrar os símbolos, os sentidos e os pensamentos que estão presentes em nossa forma de nos comunicar com os outros. Lembre-se de que toda convicção pode ser uma prisão. As emoções fortes, as paixões podem diminuir nossa capacidade de reflexão. Transformar sensações em emoções e estas em pensamentos pode ser o fator determinante para as transformações. Como uma ocasião única para avaliarmos certezas e hábitos, a crise transforma o caos em matéria-prima de criação, crescimento e desenvolvimento humano e social. No entanto, devemos estar atentos para o fato de que os estereótipos e preconceitos impedem a reflexão sobre a responsabilidade de cada um e a descoberta dos valores pessoais e éticos. 5 Carta de OMS CAP. 5 A Força da comunidade: 1-O Conceito de Comunidade: Quando falamos em comunidade, estamos nos referindo a pessoas ou grupos de pessoas que partilham condições semelhantes de vida- econômica, social, cultural, política, religiosa e espiritual – mesmo percebendo que na comunidade existem diferentes níveis e formas de viver essas condições. A comunidade não é, pois, um todo homogêneo, uma vez que existe diversidade em seu seio. Mas existe um aspecto fundamental na formação de uma comunidade: para que uma comunidade se constitua é muito importante que as pessoas e grupos estejam em permanente interação, isto é, que exista um fluxo de relações entre as pessoas, podendo haver reciprocidade entre elas. Devido à forma como a nossa está organizada, raramente, os grupos agem como um todo. Mas uma parte consegue defender interesses comuns, amplos, complexos, abrangentes, buscando o bem-estar social. As comunidades partilham, também, um mesmo espaço geográfico. Vamos, então, compreender o conceito de comunidade. Comunidade é um grupo de pessoas que vivem, não deste ou daquele interesse em particular, mas de um complexo conjunto de interesses, de modo a viabilizar suas vidas, dando-lhes um significado de pertencimento e identificação. A comunidade, ou melhor, dizendo, as pequenas comunidades são um espaço de construção e reconstrução social. Elas conseguem integrar, numa dinâmica de esperança, vidas desesperadas e desvinculadas. Podem, até, assumir o caráter de “família substituta”, conforme já vimos. Vivendo em comunidade, as pessoas descobrem e redescobrem sua identidade social, cultural e histórica. A comunidade só é consciente quando ela consegue estabelecer uma base concreta de relações entre pessoas. Sem isso, ela não passará de um simples esboço de comunidade. As relações entre as pessoas podem ser comparadas a um bordado em que as linhas de vida de cada uma se cruzam e entrecruzam formando um desenho. Podem ser comparadas às teias que se cruzam para dar sustentação à aranha. Essas teias, linhas ou relações, ora se ampliam, se sobressaem, ora se fundem, se ligam ou se separam. O fio, com o qual se tecem as relações sociais, vem do que somos, do que pensamos da forma como agimos. Vem da nossa identidade construída a partir de toda nossa bagagem de vivências, sejam elas afetivas, sociais, profissionais ou espirituais. Como as aranhas, em comunidade, somos capazes de construir novas teias, novas 5 Carta de OMS relações, tecendo os fios do nada, ou, aparentemente, do nada. Porque tecemos a partir de algo invisível que existe dentro de nós. Algo que, mesmo não sendo palpável, constrói e dá forma ao nosso viver. Tecendo as teias usando nossas linhas da vida como um ato de amor ao próximo. 1.1Conhecer para atuar: Precisamos conhecer alguns aspectos importantes da vida comunitária. Somente conhecendo nossa comunidade, seremos capazes de construir nossa teia e atuar com maior segurança. Para que possamos ir resgatando a história da nossa comunidade, devemos procurar puxar em cada um, inclusive em nós mesmos, os fios que tecem a nossa trama comunitária, sob vários aspectos. I. (Re) construindo a história da comunidade: _Você conhece a história de sua comunidade? _Quais os acontecimentos que contribuíram para a construção de sua comunidade? _Quais as pessoas que participaram dessa construção? _Atualmente, essas pessoas continuam participando? _Que opinião elas guardam sobre o trabalho comunitário? _Somente conhecendo a comunidade é que seremos capazes de construir esta teia e atuar com maior segurança. II- Levantando os recursos/ serviços disponíveis: _Posto Médico e Agentes de Saúde. _Centro Social e Pastoral da Criança _Grupos Esportivos. _Grupos de Mães, de Jovens, de Crianças, de Pais, de Idosos. _Grupos Religiosos (católicos, protestantes, espíritas, umbandistas, rezadeiras, curandeiras, benzedeiras) e/ou Igrejas. _Áreas de Lazer _Escolinhas e Creches Comunitárias. _Hortas Comunitárias _Delegacias 5 Carta de OMS _Organização Sindical. _Movimentos Populares Organizados. _Partidos Políticos. _Liderança (incluindo parteiras). _Transportes coletivos. _Infra-Estrutura de água, luz, telefone, saneamento etc. É importante que seja observada a forma como os equipamentos são conservados e mantidos, e, ainda, quem participou de conquistas e vitórias ligadas à comunidade, pois tudo isso faz parte da história. III- Conhecendo a situação profissional e financeira: _De que vivem as pessoas? _Quais as profissões de seus moradores? _Qual a renda familiar? _Quais as fontes de renda possíveis? _O que é produzido? IV- Conhecendo os problemas mais recorrentes: _Quais as doenças mais comuns na população? Verminose? Desidratação? Doença de nervos? Outras? Quais? _As pessoas são bem atendidas nos postos de saúde? _O atendimento de saúde e hospitalar é de boa qualidade? _Quais os conflitos mais freqüentes? _De que o povo mais se queixa? V- Verificando a escolaridade e a cultura popular: _Quantas pessoas sabem ler e escrever? _Quantas crianças freqüentam a escola? _Há abandono escolar? Por quê? _Existe motivação e interesse dos pais para mandarem os filhos à escola? _Existe biblioteca nas escolas? 5 Carta de OMS _As pessoas lêem jornais ou outro material de leitura? _Quais os programas de TV preferidos? _Como é visto o conhecimento dos mais velhos? _De que forma é utilizada a sabedoria que não é adquirida na escola, mas na tradição e na experiência de vida? VI- Informando-se sobre oportunidades e criatividades: _Quando as instituições formais /oficiais como hospitais, escolas, creches, indústrias, órgãos de Governo etc., não atendem às necessidades da população, existem formas alternativas para a solução dos problemas? _A comunidade tem refletido sobre novas maneiras de exigir melhorias do Poder Público? _Como a comunidade lida com o resgate de seus valores?Esses questionamentos são importantes porque, todos sabem, em muitos lugares, as mães voltaram a amamentar seus filhos. A própria comunidade preparou lideranças comunidades e agentes de saúde, junto às rezadeiras, para estimular as pessoas, sobretudo as mães, para prepararem o soro caseiro e reidratar as crianças, curando várias doenças. Sabemos, também, que já existe um bom número de comunidades organizadas trabalhando em convênio com Universidade e Serviços de Saúde para desenvolver as Farmácias Vivas (farmácias de remédios caseiros, utilizando-se as plantas medicinais) Já são muitos os exemplos de comunidades que formaram grupos de pintura, desenho, artesanato, bordado. Nesses trabalhos são retratadas as belezas e as riquezas regionais, demonstrando, para a sociedade, que são conscientes de seu valor e capacidade. Grande parte das pessoas que mora nas favelas e bairros periféricos veio (ou é descendente) do interior, do sertão, da roça e teve que deixar sua terra por necessidade de sobrevivência. Essas pessoas foram forçadas a romper, bruscamente, com seu quadro de valores, com sua forma de vida, sonhos e aspirações. A vida em comunidade pode resgatar essas origens como referência de novas ações transformadoras. 2- A força da participação: Participação é um processo dinâmico que envolve as pessoas na conquista de um objetivo. A participação dá-se em diversos níveis: em nível de subsistema, de sistema e de supra- sistema. Esse processo começa com a pessoa tomando decisões sobre a sua própria vida. 5 Carta de OMS Um espaço apropriado para iniciar a prática da participação, junto com outras pessoas, é a família. Da família para a comunidade é um salto. Participar das grandes decisões da sociedade é uma exigência posta para nós, cidadãos, todos os dias. Assim como o carro não anda sem gasolina, não existe comunidade sem participação. A participação é a alma do trabalho comunitário e de toda a transformação social. O insucesso de muitas atividades comunitárias deve-se ao fato de que as decisões estão limitadas ao poder de um líder ou de um pequeno grupo que, algumas vezes, é o único a planejar e decidir. Quanto isso acontece, os colaboradores tornam-se incapazes de “levar o barco adiante” no momento em que o líder se ausenta. Somente a participação efetiva pode garantir o sucesso de um trabalho e o assumir das conquistas. Muitas vezes, a participação é confundida com mão-de-obra disponível, pronta a seguir e obedecer às decisões de um líder ou de um técnico. Não se trata de utilizar pessoas dinâmicas e disponíveis da comunidade para executar decisões que são tomadas por um grupo de iluminados. A dinâmica comunitária exige muito mais do que uma simples aceitação de realização de tarefas. É preciso considerar que a participação não cai do céu. Ela precisa ser construída. Conseguir motivar um grupo a agir junto não é uma tarefa tão fácil e exige habilidade. Não se pode agir apressadamente. Quem não conhece a expressão que diz ser a pressa inimiga da perfeição?! Só se aprende a nadar, nadando; só se vai para frente, andando, seguindo todo um caminho com seus altos e baixos. Da mesma forma, aprende-se a participar, participando. Esse processo exige muita determinação e a participação ativa de todos. Devemos motivar a comunidade a envolverem-se, a organizar-se, sempre, no sentido de dinamizar as ações existentes e suscitar outras. As pessoas só permanecerão juntas se perceberem que suas idéias, seus gestos e sua presença foram respeitados e levados em consideração. Qualquer que seja nossa luta (por moradia, saúde, educação etc.), deveu buscar o desenvolvimento global, sistêmico, da família e da comunidade. O que nos dirá se tal desenvolvimento está acontecendo é o estado em que se encontra a pessoa humana. O seu desenvolvimento integral é a medida de todas as coisas. Uma parada para reflexão: O trabalho comunitário é envolvente e apaixonante. Mas, atenção: sem percebermos, podemos estar criando, com esse trabalho, novos tipos de dependência. Caso isto ocorra, com certeza, estaremos retardando toda a transformação social. Vamos examinar esse ponto? 5 Carta de OMS De que maneira o trabalho comunitário pode correr o risco de criar novas dependências? Se estiver acontecendo, que medidas precisam ser tomadas com a participação de todos? Vejamos as oito razões, elencadas por Alastair (1982), que justificam a importância da participação. 1. “A participação permite a adoção de métodos de organização e de técnicas mais simples e eficientes, além de mais apropriadas à cultura e ao meio ambiente local”. Vejamos o exemplo: Na tentativa de dinamizar o sistema de saúde de uma comunidade, será mais interessante trabalhar com os recursos da própria comunidade, lançando mão de ações, tais como; *criação de hortas de plantas medicinais; *envolvimento do raizeiros; *capacitação de pessoas que já trabalham na área de saúde, habilitando-as a preparar remédio caseiro, inclusive o soro caseiro, em um trabalho conjunto com as rezadeiras; *produção de alimentação enriquecida na base da multimistura. 2- “O fato de agirmos juntos, com participação, fará de nós uma comunidade mais unida”. O agir comunitário possibilita maior convivência e proximidade entre as pessoas. A convivência na ação nos permite descobrir as qualidades de cada um, suas aptidões e valores, para ressaltá-los, sempre que for oportuno. O agir comunitário nos torna ainda mais atentos, dando-nos condições de olhar o contexto, as relações humanas de forma mais questionadora, mais crítica. Quando formos capazes de sentir que sozinhos não realizaremos grandes coisas, perceberemos a importância que tem a nossa participação. 3- “A participação é ponto de partida e é estímulo para novos esforços de desenvolvimento”. Como exemplo pode citar o que ocorreu na comunidade de Bonito, município de Canindé, no Ceará. O próprio povo conta que foi a vontade de participar, de decidir em conjunto, que o levou a proteger a água do açude com a construção de uma grande cerca. Essa ação logo desencadeou outra, que foi a construção de uma grande cerca. Essa ação logo desencadeou outra, que foi a construção de um cemitério, e, em seguida, a construção de cisternas (recipientes fechados que colhem a água da chuva do telhado, por meio de uma bica, durante o inverno. 5 Carta de OMS 4- “A participação desperta o senso de responsabilidade pelo projeto”. Com a participação, a comunidade faz o seu projeto e dele se apropria. Os jovens engajados no Projeto Arte Terapia na Favela, pertence à comunidade de Quatro Varas, em Fortaleza (CE) decidiram construir uma oficina de pintura. São eles os dirigentes da oficina. Quando surgem problemas, o que é natural são eles mesmos que tomam a iniciativa de solucioná-los. Na dinâmica da participação, a presença do terapeuta comunitário, assim como a do líder comunitário, significa apoio, incentivo, reforço, transmitindo o sentimento de que eles não estão sozinhos nas dificuldades. 5- “A participação garante uma ação que atende a necessidades reais” Muitos projetos fracassam porque a comunidade está ausente nas horas em que as decisões são tomadas. Nesse caso, ela sofre muito mais as conseqüências das ações dos técnicos ou lideranças do que se beneficia de seus resultados. A participação nos mantém com os pés no chão e evita que troquemos a realidade por nossos desejos e fantasias. 6- “A participação permite valorizar os conhecimentos e as competências locais: Participando, a comunidade sente-se estimulada a fazer uso de seus conhecimentos, procurando adaptá-los às novas exigências. A uniãodo saber técnico com o saber popular engrandece a vida comunitária. Um dos exemplos dessa união é a atuação do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), que, em conjunto com o Hospital de Canindé, desenvolveu, na década de 1980, um trabalho de saúde comunitária, envolvendo as rezadeiras locais no combate à desidratação infantil. Elas trabalham em parceria com os médicos do hospital. A comunidade é a grande beneficiada com esse tipo de articulação, pois, além de ter o reconhecimento profissional, recebe um atendimento mais qualificado. Há um provérbio árabe que bem ilustra a necessidade de tornarmos consciência de nossas limitações e buscarmos a união: “Existem pessoas que sabem, e sabem, e sabem que sabem. Existem outras que sabem, e não sabem que sabem. E existem aquelas que não sabem, e não sabem que não sabem.” 7- “A participação torna as pessoas mais confiantes e menos dependentes da ação dos técnicos.” As pessoas tornam-se mais confiantes e menos dependentes da ação dos técnicos se forem co-responsáveis, assumindo cada uma das suas responsabilidades. Afinal, são 5 Carta de OMS elas que vivem os problemas e as soluções. Por essa razão, precisam dispor de autonomia para tomar decisões. 8- “A participação é fator de conscientização” O grande desafio para as lideranças e técnicos, em todo o programa de participação comunitária, é saber como envolver as pessoas, com seus problemas, suas contradições e adversidades, para agirem, juntas, na tentativa de melhorar o quadro de vida da comunidade. Numa sociedade, onde os conflitos se multiplicam e seus valores são questionados, é comum surgirem os salvadores da pátria, como se eles fossem resolver todos os problemas. Esses salvadores dão a falsa impressão de que são amigos do homem. É nesse contexto que as manipulações assumem um papel central. Diante de uma situação dessas, como evitar que a organização comunitária sirva de trampolim aos pára-quedistas em busca de autopromoção? Como demarcar este tipo de atitude? De que forma a comunidade pode libertar- se de um líder ávido de poder pessoal? Como desarmar esses mecanismos de manipulação do outro? As Terapias Comunitárias são um importante espaço de participação, pois oferecem ao indivíduo a oportunidade de ouvir e ser ouvido, de refletir e de agir. É um momento em que se pode examinar, em profundidade, a vida e as motivações; em que se pode aprender com as experiências do outro e, assim, encontrar soluções para os próprios problemas. Por vezes, esses espaços de integração são ocupados com discurso de chefes, que têm facilidade de falar e manipular pessoas que ficam impressionadas com o que ouvem. Se isto acontece, o espaço terapêutico, criado para ser espaço de palavra e escuta, vai reproduzir o ambiente das fábricas, onde o barulho das máquinas e a dominação dos chefes anulam a vez e a voz do humilde e do operário. Esta é uma ótima oportunidade de reconhecer o líder manipulador e o chefe opressor que agem como máquina barulhenta e que reduzem ao silêncio a voz dos que são por eles desvalorizados e que, na maioria das vezes, são os que mais necessitam falar. As lideranças, isto é, o conjunto de líderes e o terapeuta comunitário devem se preocupar com o desenvolvimento de sua comunidade, procurando favorecer a expressão dos sem vez e sem voz da sociedade. O terapeuta comunitário deve silenciar. Ele silencia para que outros possam exprimir suas inquietações, frustrações, realizações e descobertas. Aquele que conduz uma Terapia Comunitária precisa ter consciência da dificuldade dos outros. Deve, ainda, estar sempre atento ao seu papel de facilitador de expressões, pois ele assume, permanentemente, a figura do parteiro de soluções, parteiro de um parto coletivo que desperta o desejo e a oportunidade de participar. 5 Carta de OMS Não é difícil perceber que nosso modelo social é baseado em uma hierarquia de valores. Essa hierarquia determina uma escala, onde estão por cima os que sabem os que devem falar ensinar, mandar. Embaixo ficam aqueles que “sabem, ou muito pouco sabem”, e por isso deve limitar-se a ouvir, a seguir os ensinamentos e as ordens. O líder educador ou técnico educador que queira romper com esse modelo e libertar as pessoas precisa submeter-se a uma verdadeira reeducação e redescoberta do seu papel, de sua função, bem como, do valor do outro. É de fundamental importância reconhecer que mesmo o calado possui experiências e vivências, também importantes, para o seu aprendizado e libertação. É preciso ter humildade e consciência para verificar que o poder não está naqueles que sabem manipular as palavras e as pessoas, mas nas mãos dos que sabem escutar, dividir, estimular, integrar e que querem participar. 2.1. Trabalhando com a participação: A fim de se trabalhar a participação, costuma-se recorrer ao que chamamos de pretexto pedagógico. Pretexto é um instrumento utilizado para fazer passar uma mensagem educativa. Por exemplo: no programa Cabra de Corda, da Universidade Federal do Ceará, aproveitou-se a distribuição de cabras leiteiras para promover a participação das famílias pobres. A partir dessa base, desenvolveu-se um trabalho no qual as pessoas iam aprender a criar laços comunitários criando cabras. Elas se valeram de critérios de participação e de partilha criadores de vínculos entre as pessoas. Como, na prática, utilizou-se o Pretexto Pedagógico? Durante os treinamentos, cursos e reuniões nas comunidades, estas foram as questões mais refletidas: _O que fazer se o Programa só dispõe de vinte cabras e a comunidade, estas foram as questões mais refletidas: _O que fazer se o Programa só dispõe de vinte cabras e a comunidade é formada por duzentas famílias? As respostas que surgiram foram às seguintes: Devem-se levar em conta os seguintes critérios: o tamanho das famílias, o nível socioeconômico, a constituição familiar, a participação nas reuniões, o espaço físico suficiente para os animais, a disposição para repassar as primeiras crias para outras famílias e, assim, aumentar a rede de relacionamentos social. A prioridade era estabelecida em função da existência de um maior número de crianças na família, a presença de doentes, de idosos etc. Na condução de todo esse processo, os erros cometidos também foram utilizados como Pretexto Pedagógico. Isso significou aproveitar o erro para a construção do saber. 5 Carta de OMS Significou, também, fazer de uma experiência que não alcançou o objetivo desejado numa oportunidade de aprendizado. Sabe-se que a aprendizagem é um evento pessoal. Cada pessoa tem a sua forma própria de aprender, seu ritmo, sua percepção e a sua forma própria de dar retorno daquilo que foi aprendido. A noção de erro ganha, assim, uma nova conotação nesse contexto de valorização das experiências. Todas as ações e atitudes podem ser aproveitadas com o objetivo de enriquecimento pessoal e coletivo. 3- A avaliação: Sem avaliação a participação fica comprometida. O trabalho comunitário exige mais do que boa vontade e dedicação. É preciso estar atento para não perder de vista os objetivos, as metas. Do contrário, corre-se o risco de se trabalhar muito, sem chegar a resultados satisfatórios. A avaliação está intimamente ligada à participação, porque permite corrigir erros, superar obstáculos, tirar lições e, sobretudo, nortear futuras ações. A avaliação é um dos momentos mais importantes do trabalho. É necessário parar, de vez em quanto, e preparar novas retomadas. É compreensível que as tarefas do dia-a-dia conduzam a um ativismo que impeça muitas e muitas vezes, visualizar, com clareza, o queestá realmente fazendo e para onde se está indo. Nesse momento, é importante que cada um se interrogue: *Será que os objetivos, propostas inicialmente, estão sendo atingidos? *Há pontos de estrangulamento em minhas ações? *Que fatores internos e/ou externos estão impedindo ou facilitando o desenrolar das atividades? *O que fazer para corrigir possíveis distorções? “O homem que não tem presente sua história na memória, arrisca repeti-la várias vezes”. 4- A Comunidade da favela: o contexto dos excluídos: As primeiras favelas apareceram no Rio de janeiro logo depois de Lei Áurea. Libertos da escravidão e sem saber para onde ir, nem o que fazer, os negros acharam melhor ir em direção à capital do Império, onde estaria sob a proteção da Redentora, a Princesa Isabel. Frustrados com a indiferença da Redentora, os ex-escravos foram acampando nos morros em torno da cidade. Esses morros possuíam uma vegetação espinhosa chamada favela. O nome, então, tornou-se a referência, a carteira de identidade daqueles excluídos. Esses processos migratórios foram intensificados com final da guerra de 5 Carta de OMS Canudos. O mesmo fenômeno de ocupação desordenada, miséria e abandono se nos repetiu outros dois centros fornecedores de escravos: Bahia e Minas Gerais. Com o passar do tempo, desastres naturais, como as secas intermitentes, as inconstantes políticas agrícolas, a inexistência de políticas sociais adequadas, à falta de escolas e de perspectivas de futuro em cada região obrigaram muitos agricultores a abandonar sua terra natal, em busca desesperada pela sobrevivência. Outros fugiam das dívidas, da falência e da seca crônica do sertão. Nas últimas décadas, as condições socioeconômicas e políticas obrigaram milhares de brasileiros do interior (campo, sertão) a migrar para as grandes cidades, formando um enorme contingente de homens, mulheres e crianças que constituem a população das favelas e dos bairros de periferia, consolidando uma população paralela. Como conseqüência dessa política, a sociedade brasileira se divide entre o capitalismo selvagem, cuja característica é a acumulação de riquezas e cujo poder social é medido por conta dos diferentes bens supérfluos a que cada um venha possuir, formando, assim, uma população sedentária e outra população nômade. Nômade porque nada tem e perambula de lá para cá, na periferia do espaço, movendo-se de acordo com a fome, com as necessidades de abrigo e as urgências do sobreviver. Estas duas populações coexistem no mesmo espaço e quase nunca se encontram. As sucessivas crises econômicas no país agravaram as condições de vida dos habitantes das favelas e bairros de periferia. Fortaleza, por exemplo, a quinta cidade brasileira em termos de população (mais de dois milhões de habitantes), possui mais de 300 núcleos de pobreza e miséria, contando com mais de 700.000 pessoas, ou seja, 1/3 da população total da cidade. A favela do Pirambu, a mais importante de Fortaleza, é considerada uma área de risco devido ao seu quadro social, que é de miséria e êxodo. A População, na sua quase totalidade, foi transplantada do interior para a metrópole, devido ao castigo das secas periódicas, agravadas por uma política econômica excludente. Essa triste configuração urbana e social se repete na maior parte das cidades de grande, médio e pequeno porte, de todo o país. As favelas e os bairros pobres têm uma população constituída por indivíduos arrancados de sua terra natal, desvinculados da sociedade e, por isso, sem laços que permitam que eles se fixem em algo que lhes dê segurança e sentimento de pertença. O lote que ocupam não é deles. Eles ocupam, procurando algo em que se fixar. Seu desejo e sonho é o da integração à sociedade. Sua primeira tentativa, nesse sentido, é fixar-se na terra, construir um barraco. Começa, então, uma verdadeira via crucis. Aqueles que possuem algum laço de amizade são recebidos, provisoriamente, na casa de amigos. Por isso é comum, em favelas e bairros pobres, num espaço de 12 m², viverem cerca de 17pessoas, pertencentes a mais de três famílias. A casa é pequena, mas de três 5 Carta de OMS famílias. A casa é pequena, mas o coração e a necessidade são grandes. A grande maioria, contudo, ocupa terrenos destinados à especulação imobiliária. A configuração espacial das favelas e bairros pobres é basicamente a mesma em qualquer região ou estado brasileiro. As ruelas são estreitas, com habitações grudadas umas na outras; os esgotos correm a céu aberto; as casas são construídas inicialmente com pedaços de madeira, papelões, retalhos de construções. As casas, feitas com pedaços de tudo, são a representação material, a exteriorização dos pedaços de vidas individuais e familiares. Tal como os pedaços de que são feitas as moradias, as favelas constituem construções aglomeradas e desconexas, nas quais sobrevivem punhados de indivíduos sofridos e aflitos, sem perspectivas em suas regiões de origem, pois chegaram à cidade grande carregando suas últimas esperanças. Essa população de indivíduos, cortados de suas raízes, repete de maneira mais civilizada, e de outra forma, o processo histórico da captura e escravização de negros e índios. Vamos examinar alguns dos maiores dramas dessas populações periféricas. 4.1- Habitação A primeira preocupação dos que vivem nas cidades é conseguir um lugar para morar, um pedacinho de terra, um lote mínimo, mas que permita a construção de um barraco. Mas a terra, como vimos, está reservada à especulação imobiliária. Mesmo quando se consegue levantar o sonhado barraco, surge uma nova ameaça: a chuva, que na roça era motivo de alegria e esperança, na cidade, torna-se um inferno, podendo inundar e destruir a precária construção. Soma-se a tudo isso a violência dos desejos e expulsões, e seus moradores acabam descobrindo que na cidade não existe espaço para a vida, resta, somente, a opção de resistir, recomeçar, talvez, em outra favela, sempre perseguidos pelo fantasma do medo, da repressão e da expulsão. Nesse clima de expectativa e medo, o sono, longe de proporcionar a recuperação das energias, torna-se momento de insônia ou pesadelo insuportável. Dessa forma, esses indivíduos compreendem logo que o novo contexto tem suas regras e exigências. Tentam improvisar tudo: casas, respostas, relacionamentos, tudo na expectativa de superação desse novo desafio. 4.2- Emprego Num contexto de sobrevivência, a busca por um emprego torna-se, pois, imperativa. Ninguém vive sem um meio de sobrevivência. É preciso colocar comida na mesa todos os dias. As portas das fábricas e das empresas raramente aceitam os excluídos, nem os recebem: nunca há vagas. E a razão para isso é simples: eles não possuem qualificação profissional. 5 Carta de OMS A cada dia, eles seguem o mesmo ritual: acordar cedo, com as esperança no coração; caminhar pela cidade, em busca de uma oportunidade; bater em portas fechadas e voltar, à noite, com fome, cansaço e sem trabalho. Mas a barriga não pode esperar, ela precisa de alimento. A prioridade passa a ser “procurar o que comer”. O que resta de energia e força é gasto à procura de comida. Os pais são capazes de se submeter a tudo para conseguir comida para seus filhos. Na busca de ocupação para conseguir o pão, pai e mãe deixam, diariamente, sua casa. Cada um, seguindo um caminho diferente. E os filhos? Estes, quando não ficam sob cuidados de uma irmã mais velha, são deixados na casa de vizinhos, em creches, quando há vagas, ou então, também vão à luta, à procura do que comer, seja mendigando ou limpando pára-brisas de carros nos sinais e esquinas da cidade. Às vezes, nem vale a pena voltar para casa.Meninos e meninas acabam dormindo pelas ruas, cada um procurando “se virar”, sobreviver. As crianças abandonam muito cedo a infância. Assim, nascem os meninos de (na) rua. É a família que agoniza, é a família que se despedaça, com cada um indo para um lado. E a sociedade assiste indiferente, à desagregação daquilo que considera sua célula mãe. 4.3- Saúde A fome tem pressa e a barriga não pode esperar. Viver nas piores condições de moradia, falta de saneamento das comunidades, tensão emocional provocada pela insegurança constante e violência urbana fragilizam a saúde do corpo e da mente. O alcoolismo e as outras drogas passam a ser um problema de saúde pública. Homens e mulheres, jovens e adultos, sem esperança, entregam-se ao consumo das drogas. Através do vício, inserisse na economia globalizada, gerando renda aos empresários do narcotráfico. Completa-se outro ciclo: o da violência urbana. Hoje, a principal causa de morte de jovens e adultos, em toda parte, são as chamadas causas externas: assassinatos e acidentes de trânsito. Os relatos de crimes, nas periferias urbanas, estão associados ao consumo do álcool e outras drogas. 4.4- Violência: As favelas e os bairros pobres são palcos de constante violência. Na falta de outras formas e instrumentos para resolução dos problemas, mas, a tendência é resolver os conflitos e diferenças pela força, pela ação violenta, pela ação violenta, pela coerção. Pequenos conflitos evoluem, rapidamente, para a violência verbal e física: os conflitos com os vizinhos transformam-se em um inferno, com brigas corporais e, algumas vezes, com mortes. Como o diálogo não é valorizado, as disputas logo provocam a violência, a única linguagem disponível e compreendida em certos contextos. 5 Carta de OMS Nos conflitos conjugais, a violência física entre homens e mulheres (apesar de não ser um privilégio dos pobres e excluídos) é muito freqüente. Além de vítimas freqüentes da violência, as crianças sofrem por estarem imersas nessas situações de conflitos e tensões. 4.5- Frustrações: Muitos deixam suas casas, suas terras, em busca da cidade grande sonhando com grandes oportunidades. Pouco a pouco, descobrem que os seus sonhos, as suas ilusões, transformaram-se em miragens, no grande deserto das grandes cidades. E, assim, as expectativas não correspondidas desencadeiam um sentimento de frustração que conduz, facilmente, o homem para a violência, para as tentativas de suicídio ou, ainda, para a busca de compensações no álcool e nas drogas. Os jovens também são vítimas da falta de oportunidades, pois a eles é negado um futuro digno. O mercado de trabalho mal dá conta de receber alguns escolhidos. Sem emprego, sem estudo, sem habilitação profissional e sem oportunidades de lazer, restam-lhe as gangues, a violência e o tráfico de drogas. Em cada família uma história, uma seqüência de sofrimentos, um sentimento de exploração, de abandono e de justiça. Cada um parece prisioneiro dos acontecimentos e, na maioria das vezes, emprega toda energia disponível para defender-se da impressão de estar sendo possuído por forças ocultas, por espíritos. Talvez o encosto. Essa forma de possessão popular, fale-nos do sentimento de perda de liberdade e de autonomia, bem como, do estado de dominação pelo outro, de imposição social. 5- O mundo dos excluídos O que é mais dramático é o sofrimento da família dos excluídos em seu cotidiano, um sofrimento que atinge violentamente, as almas destas pessoas. A guerra pela sobrevivência, neste mundo hostil e ameaçador, desperta uma guerra interior entre duas identidades: aquela que tem como referência os valores culturais de seu grupo e outra resultante da visão do dominador. Uma luta entre EU em que me reconheço como sendo portador de valores positivos e da capacidade de luta, e o outro EU que corresponde à forma como me vêem os de fora, os que têm o poder, os que me enxergam como marginais os que levantam os vidros de seus carros quando me aproximo deles nos cruzamentos e esquinas da cidade. É neste contexto que muitos se mobilizam para não perder esta guerra interior, para manter viva a esperança, a crença em seus valores, para poder salvaguardar uma identidade ameaçada. Neste contexto, profundamente diferente, a vida social e política e as atividades econômicas funcionam como elementos que agridem a identidade cultural e atingem a identidade pessoal, provocando desagregação, desajuste e desequilíbrio. Apesar disso, 5 Carta de OMS esta crise desperta um esforço criativo e um desejo de integração social muito grande sejam através de inúmeros cultos religiosos ou movimentos associativos. 5.1- Culturas dos excluídos Citaremos alguns elementos que permitem compreender determinada maneira de viver; com atitudes e comportamentos que diferem de outros contextos sociais. “1-Tua culpa, minha salvação”. Ao centralizar as emoções, os sentimentos na culpabilidade, algumas pessoas encontram uma forma de se relacionar. Por exemplo: uma pessoa distribui cinqüenta velhinhas, num gesto paternalista. Dias depois, uma velhinha veio falar com o tal doador e este, em vez de um agradecimento, recebeu o seguinte comentário: “Eu não deveria ter recebido aquela cesta. Só trouxe confusão lá em casa e você é o culpado disso. Depois da cesta entrar lá, minha filha vive brigando comigo porque ela não recebeu também”. Na realidade, esse exemplo ilustra uma forma de lucrar com a miséria. Fazer da carência um meio de conseguir mais, culpado a pessoa que deu e obrigando-a a dar mais para não sentir culpada. No campo da saúde, nas doenças de crianças, surge o “quebranto”. Alguém botou. Foi o “mal olhado”, alguém olhou com inveja e má intenção. O “susto” foi provocado por alguém com o objetivo de causar o malefício. A explicação dada a essas situações insinua que a origem do sofrimento, da doença, está sempre no outro, no que ou quem provocou a suposta doença ou mal. Gerado o clima de cumplicidade, as pessoas se mobilizam na busca de uma reparação (solução). A própria busca dos remédios ditados pela cultura, um aqui, um ali, outro acolá, integra aquele problema, antes isolado e solitário, na problemática social. Esta estratégia de sobrevivência, baseada na culpabilidade, deve nos ensinar a refletir sobre nossas motivações quando realizamos um trabalho social. Se for verdade que a culpa mobiliza, ela também aprisiona e gera sofrimento. É importante situar nossa ação na perspectiva da solidariedade, no resgate da cidadania, na valorização da vida e dentro de uma opção baseada na liberdade e no desejo profundo de combater a injustiça, as ilegalidades e jamais para expiarmos culpas que nos habitam. 2- A internalizarão da miséria Se durante toda a vida uma criança ouviu que ela por ser cabocla, negra, pobre, favelada – é preguiçosa, vagabunda, feia, desajeitada, não serve pra nada – acaba acreditando em todos estes preconceitos produzidos por uma educação repressora e por uma sociedade preconceituosa. 5 Carta de OMS O resultado desse processo de desvalorização do outro pode ser visto quando encontramos pessoas sem auto-estima, pessoas que não acreditam em seu valor e em sua capacidade de ser gente e, assim, poder contribuir com as transformações sociais. Quando aparece uma chance dessa pessoa arrumar um emprego, por exemplo, ela inconscientemente, sofre com as inseguranças e as dúvidas sobre sua capacidade e desempenho. Gera-se, assim, a Síndrome da Pobreza Psíquica, resultado da perda de confiança em si, levando ao isolamento, a uma atitude de fracasso, à auto - desvalorização e à dependência. Não é pequeno o número de pessoasque, na mesma situação, tenta diminuir a angústia e insegurança tomando umas “biritas” a mais. Chegando ao novo emprego, por ter bebido, o indivíduo perde sua capacidade. Esse fato só reforça o sentimento de incapacidade e incompetência. Toda essa situação de crer-se incapaz, o “medo de ser feliz”, é de fato a verdadeira e única miséria, a verdadeira pobreza pessoal. É ela a responsável pela destruição de vidas que nasceram e logo depois foram abordadas pela sociedade. É impossível estimular o crescimento e a transformação de indivíduos e de grupos sociais enquanto não concentramos nossa ação sobre esta praga dizima Dora de vidas que é a interiorização da incapacidade reforçada pelos preconceitos e pela educação. Precisamos reforçar no outro tudo que ele tem de belo, de positivo e de admirável. Celebrar o aniversário, elogiar, dar presentes, realizar passeios, fazer fotos... São gestos tão simples, mas que tem um grande poder para reforçar a auto- estima e a autoconfiança de nosso irmão e semelhante. Não podemos esquecer que é a parte sadia que fica ao redor da ferida que vai ajudar na cicatrização. Temos que fortalecer o EU de nosso irmão para que ele volte a acreditar em si e em seu potencial. 3- A Violência Sabemos que a lei da violência impera em nossa sociedade: “Se bate, se quebra, se grita, se mata...” Faz-se valer a lei do mais forte: “Dente por dente. Olho por olho.” A violência ocupa os espaços da comunicação, abandona-se a expressão que permitiria o diálogo, a escuta e a reflexão. O argumento cede seu lugar ao porrete, à faca, ao revólver. Onde o diálogo falta, impera a violência. Trata-se de uma dinâmica baseada na relação: “Se baterem em mim, eu desconto!” Há, portanto, uma necessidade de agir mais e reagir menos. A violência, aparentemente corriqueira e banal, expressa o sentimento de frustração decorrente das expectativas não realizadas quando as pessoas se sentem esmagadas pelo poder do mais forte pela falta de oportunidades e pela injustiça. 5 Carta de OMS O combate à violência precisa ser feito em vários níveis: Na comunidade – criando esforços de expressão verbal, artística, cultural que envolva os grupos de jovens, grupos de mulheres, pais, pessoas da terceira idade, grupos de trabalhadores e artesãos. A promoção de jornadas sobre a violência pode ser boa ocasião para refletirmos sobre suas causas e soluções. Na instituição – denunciando todas as formas de violência, daquela que vai do mau atendimento nos serviços públicos àquela que é expressa pela inexistência de políticas públicas de apoio e assistência às necessidades individuais, familiares e coletivas. A fofoca A fofoca existe onde a informação é negada, apesar das evidências. A mulher deu um grito: “Ai”! Logo todo mundo diz: “Bateram nela! As pessoas vão até aquela mulher e perguntam: “Ele bateu em você? Ela responde: “Em mim, não!... Ele nem é doido pra bater em mim...” Então, surge a fofoca. Surge quando a informação é truncada, deformada, bloqueada, escondida para que ninguém saiba a verdade da qual “eu tenho vergonha”. Isto virá fofoca. No momento em que a pessoa que negou a informação resolve dizer a verdade, resolve dizer o que de fato aconteceu, acaba a fofoca. O fato passa a ser de domínio público e a mulher vai descobrir que não é a única que apanha do marido. A circulação da informação, nestas comunidades, é intensa e veloz. No momento em que a informação é um belo partilhado pela comunidade, como no caso da TC, quando ela passa a ser domínio de todos, suscita nas pessoas o sentimento de indignação, de piedade, de compaixão, amor e solidariedade. Até chegam a dizer: “Eu entendo o teu sofrimento... meu marido também é assim”. Dá uma vontade de abraçar, de dirigir uma palavra... De dizer uma frase... “De fazer alguma coisa por aquela pessoa.” Gera-se um sentimento de partilha que permite que a dor do outro nos lembre de nossas próprias dores, de nossas próprias chagas. Este sentimento partilhado vai criando um cimento que une o grupo, até que surja uma emoção positiva, uma emoção que tem valor de cura para o indivíduo e para o grupo. Quando um acontecimento deixa de ser fofoca, surgem as pessoas se abrindo e revelando suas feridas em busca de apoio, de ajuda. Se abrir, se revelar e confessar seus problemas são um preço que se tem a pagar: Quando a questão da fofoca ou da calúnia é lançada para reflexão do grupo, na hora em que a própria pessoa conta, com as suas lágrimas, com a sua emoção, ela revela muito mais do seu sofrimento. Desaparece, 5 Carta de OMS então, o suposto lado pitoresco e anedótico da fofoca. A graça e a piada desaparecem. Resta somente o lado humano. Quando fazemos ou participamos das fofocas, revelamos nosso lado solitário, nosso desejo de fazer parte do grupo, de construir vínculos. Só que devemos avaliar os danos que esse nosso desejo pode trazer para os outros. 5- quando se esperava nascer uma tragédia se viu nascer à solidariedade... Nas favelas e bairros pobres a noção de privado, de privacidade, é muito diferente da que nós, da classe média, vivenciamos. Como ter privacidade individual em uma casa sem divisórias e portas internas onde convivem 12 pessoas? Onde a proximidade com os vizinhos nos obriga a partilhar os sons, os cheiros e as visões? Onde, sem que queira, sabemos tudo o que se passa na casa ao lado/ Os vizinhos está tão próximo que ouvem os gemidos uns dos outros; sabem se brigaram se deixaram de brigar... Todo mundo sabe da vida dos outros. Quando um menino briga, ouvem-se logo os gritos: “Meu filho!”. Todo mundo logo entende o que esta se passando. Nas casas não existe o direito individual ao espaço, ele é comum e deve ser dividido de forma pacífica. O que nem sempre acaba ocorrendo. A proximidade física também implica numa proximidade emocional, não se podem esconder os sentimentos e as emoções. É tudo muito aberto e está ao alcance dos olhos e ouvidos. Isso não quer dizer que as pessoas de comunidades pobres não tenham seus momentos de privacidade e deles necessitem para recuperar o espírito. Per esse motivo é que a Terapia Comunitária utiliza a forma individual. A massagem individual integra a terapia corporal, juntamente com a conversa complementar. Apesar de tudo, é interessante observar que 80% dos problemas pessoais podem ser discutidos com o grupo. No grupo temos uma excelente ocasião para socializar as perguntas e as respostas. O problema trazido por alguém pode ajudar o grupo a se consolidar e a se transformar. Não se trata de ter uma terapia (individual) destinada ao rico e uma terapia pública (comunitária) destinada ao pobre. O que muda na Terapia Comunitária é a forma de ver o mundo e o processo de cura e de crescimento pessoal. Nossa forma de ver o mundo é comunitária e sistêmica. Se algumas pessoas precisam de um complemento e não como alternativa de terapia. Portanto, a TC é um instrumento que permite se trabalhar a saúde em espaços coletivos. 6- A imprevisibilidade: O tempo das pessoas excluídas é vivido um dia por vez. Não dá para se prever o dia de amanhã. Vive-se o dia-a-dia com aquilo que se tem. 5 Carta de OMS A preocupação maior é com o presente, com o aqui e agora: “O futuro? Esse a Deus pertence”. Talvez este investimento com o presente siga uma espécie de “lógica do agir cotidiano”. Se hoje se dispõe de dinheiro para comprar vinte tijolos para levantar uma casa, compram-se os tijolos. O cimento fica para quando aparecer mais dinheiro. Quem pode planejar e controlar o tempo pode achar insensato que se comprem os tijolos se não se tem com que comprar o cimento. É que a lógica do excluído está baseada nadificuldade de previsão do futuro, as conquista de cada dia se limitam àquele dia. Quem vive de biscate, de faxina, de lavagem de roupa como pode garantir que terá sustento garantido no dia seguinte? Se der esse passo é porque acredita, sonha que um dia irá construir seu barraco. Dar passos, no sentido de concretização de um desejo, é abrir-se e contar com o imprevisível que permite a realização do sonho, que transforma o desejo em realidade. Esta atitude contrasta com a noção de planejamento que nós, técnicos, assumimos e que só nos permitem iniciar um trabalho quando temos assegurado sua viabilidade, graças à confirmação de que os recursos necessários estão garantidos. Esquecemos o ditado: “Caminhante, o caminho se faz ao caminhar!” A noção de tempo para estas populações é bem diferente da noção de tempo para as classes médias e altas. Se pensarmos nos meses que virão, nos anos futuros, eles pensam no dia seguinte, na hora presente. 7- A capacidade de resistir sem perder o rumo – a resiliência: Resiliência é a capacidade de vencer apesar das dificuldades e circunstâncias difíceis. É a famosa capacidade de “sacudir, levantar a poeira e dar a volta por cima!” Muitos indivíduos, famílias e grupos sociais nos surpreendem por sua capacidade de resistir ao aniquilamento constante a que são submetidos. Eles conseguem proteger sua integridade, mesmo sob forte pressão e constroem uma vida digna apesar das circunstâncias difíceis. Chama a atenção, a capacidade que as pessoas humildes têm de se recuperar de um baque, de uma queda, de uma dificuldade e dar a volta por cima. É nessas situações que a espiritualidade emerge como escudo protetor da existência, dando um sentindo profundo e atribuindo um grande valor à vida. A alegria e o senso de humor também são um grande recurso diante das adversidades. Esta capacidade de transformar o trágico em cômico, a tristeza em alegria torna-se um bálsamo e um estimulante para suportar a carga dramática de certos acontecimentos. Estes valores se constituem em uma riqueza que precisa ser explorada pelo terapeuta comunitário. “Certos elementos da personalidade, em interação permanente com os elementos do meio ambiente, podem reforçar a dupla capacidade de resistência e de construção. 5 Carta de OMS Esta capacidade pode existir em estado latente. Mas, conforme a história de cada um, ela pode se transformar em um processo ativo de resistência à destruição e de construção de uma vida contra a diversidade.” (Vanistendael, 1995). 8- A história da comunidade de Quatro Varas: o fio de uma teia. A comunidade de Quatro Varas, uma das cem comunidades que compõe a imensa favela do Pirambu, em Fortaleza, já foi palco de violência e despejos. Os nomes das ruas evidenciavam as histórias dos excluídos e das lutas que condicionavam novas casas e lembrava que a luta deveria continuar, que a resistência não deveria ser destruída como as casas. “Rua Grito de Alerta”, de onde partiam os alertas: “Lá vem a polícia vamos resistir...” Quando fui convidado a intervir como psiquiatra nesta favela, me dei conta de que o arsenal de medicamentos da psiquiatria moderna não poderia ser a única arma na luta contra os efeitos de um contexto social e político desagregador e mutilador de indivíduos. O uso indiscriminado de medicamentos tornaria ainda mais caótico o estado psíquico de muitos usuários. O psicotrópico, conhecidos como remédios controlados eram usados indiscriminadamente para controlar o nervoso das mulheres, as insônias rebeldes, desequilíbrios emocionais e os choros das crianças famintas. Em meus primeiros contatos com a comunidade foi preciso explicar que eu não estava ali para passar remédios para os nervos, mas para, junto com as pessoas, refletir sobre seus sofrimentos, suas causas e possíveis soluções. Criamos o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária, nome jurídico da entidade que atua na comunidade de Quatro Varas e que se expandiu para todo o país, inicialmente, através da Pastoral da Criança. Em 2005, a Prefeitura de Fortaleza implantou como política pública a Terapia Comunitária e suas ações complementares que são a massoterapia, a oca de saúde comunitária e o cuidando dos cuidadores. Em 2006 e 2007 como apoio da SECRETARIA NACIONAL ANTE – DROGAS *SENAD- Universidade Federal do Ceará e o Movimento Integrado de Saúde Comunitária, realizamos um projeto de capacidade profissional em terapia Comunitária com ênfase em questões de álcool e outras drogas, para 900 terapeutas comunitários em 12 estados do Brasil. Os elementos que emergiram deste trabalho estão contemplados no capítulo sobre o impacto da TC. (Ver cap. 12). Em 2005, foi criada, a ASSOCIAÇÃO EUROPÉIA DE TERAPIA COMUNITÁRIA que organiza formações em vários países europeus dentre eles França, Suíça, Itália. (www.aect.romandie.ch). Em 2007, tivemos a grande satisfação de receber a visita da Dra. Margareth Chan, diretora da ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS), em vista ao 5 Carta de OMS Brasil. Foi um momento muito significativo para todos nos. Após 21 anos de trabalho, com muita dedicação e esforço, recebemos este reconhecimento inestimável. Foi um estímulo a continuarmos nesta perspectiva. Em 2008, a pedido do ministro da Saúde José Gomes Temporão e com apoio da Universidade Federal do Ceará, teve início uma capacitação cerca de 1.100 terapeutas comunitários na rede de Assistência a Saúde, contemplando todas as regiões do país. Atualmente, existem 29 pólos formadores em terapia comunitária atuante e motivada, capaz de atuar em todo o território nacional que está federado junto à ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE TERAPIA COMUNITÁRIA – ABRATECOM. (www.abratcom.org.br). Esta situação é semelhante ao trabalho da aranha que tece teias invisíveis, porém fortíssimas. Este trabalho tem se tornado referência para os deslocados da sociedade, porque permite agregar os sem - rumo e perdidos, abre um espaço de expressão para os que sofrem, é um suporte e apoio que permitem a muitos nutrirem-se do que ali se constrói. A minha ação e presença de médico e professor universitário tem se firmado na convicção de que o futuro da psiquiatria não será mais um investimento nos asilos e hospícios que isolam os que sofrem que colocam guetos os doentes mentais. Esse isolamento exclui os doentes mentais da participação nos valores culturais de seu grupo social, dos vínculos interpessoais e sociais que unem, fortalecem e fazem o homem descobrir o sentido de pertencimento à humanidade. A cultura é como uma teia invisível que integra e une os indivíduos. Se assim agi foi por acreditar que a melhor prevenção é manter o indivíduo ligado a seu universo cultural e relacional, pois é através da identificação com valores culturais e relacionais, pois é através da identificação com os valores culturais de seu grupo que o indivíduo nutre-se e constrói sua identidade. A cultura para o indivíduo é como a teia para a aranha. Síntese: Comunidade é um grupo de pessoas que partilham certas condições de vida: economia, cultura, religião, migração, exclusão, proximidade, e que mantém vínculos entre si, ou seja, interage em vários planos, como social, o familiar, o cultural, o religioso, entre outros. É importante conhecermos a comunidade em que vivemos e atuamos. Precisamos conhecer a sua história, a sua cultura, os recursos disponíveis, os problemas mais comuns, as alternativas construídas. Conhecendo a história da nossa comunidade estamos conhecendo a nossa própria história. 5 Carta de OMS A participação é a alma do trabalho comunitário e de toda transformação social. A participação: Permite a adoção de técnicas adaptadasculturalmente Estimula novos esforços Desperta o senso de responsabilidade Garante que as necessidades reais sejam atendidas Valoriza as competências locais Torna as pessoas mais confiantes e menos dependentes da ação externa É fator de conscientização 1. Agir juntos 2. Ponto de partida 3. Senso de responsabilidade 4. Garantia de atendimento às necessidades 5. Valorização de conhecimentos e competência 6. Mais confiança. Menos dependência 7. A consciência em participar Pretexto pedagógico - quando e como utilizar Quais os efeitos na comunidade de uma avaliação participativa? CAP 6 Pensamento Sistêmico: Este capítulo tem como ponto de partida as seguintes questões norteadoras: _ O que é um sistema? _Como um sistema é formado? _Quais são as partes de um sistema? _Como as partes de um sistema? _Como as partes estão unidas umas às outras? _Como o pensamento sistêmico pode ser um referencial teórico útil para fundamentar a Terapia Comunitária. 5 Carta de OMS 1-Uma pequena explicação: O pólen é uma espécie de um fino pó que existe nas flores. É trocado entre os órgãos genitais femininos e masculinos das plantas e permite sua reprodução. O Pólen tem a função de fecundar as flores e produzir os frutos. O vento, as abelhas e outros insetos, alem dos morcegos, são importantes veículos de pólen entre as flores de várias plantas. Existem muitos exemplos de sistemas. Vamos começar com um exemplo bem simples. Todas as pessoas já ouviram falar do mundo das abelhas. A vida das abelhas é um exemplo de sistema, pois elas trabalham, vivem em conjunto e dependem de várias coisas da natureza para viver. Mas a natureza também precisa delas, pois além de produzirem mel, as abelhas transportam o pólen dentro de uma mesma flor ou entre flores diferentes e, até para as plantas distantes umas das outras. Por isto, elas são chamadas de polinizadoras, ou seja, transportadoras de pólen. Assim, há uma íntima relação de interdependência entre as abelhas, as plantas e as condições climáticas. E o que dizer dos sistemas humanos? Os sistemas humanos são complexos, geradores de significados diversos e decorrentes de diferentes tradições lingüísticas, culturais, familiares, étnicas, sociais e econômicas. Portanto, pensarmos em uma comunidade sistemicamente, implica em pensar em uma teia de inter relações que tecem e se entretecem constantemente em um movimento dinâmico e constante. Sistemas humanos são sistemas abertos e transformações vindas de sua própria história e dos múltiplos contextos da vida. Temos diferentes organizações sociais e o pensamento sistêmico mostra que existe uma interdependência, não só entre os membros de uma mesma comunidade, como também entre comunidades diferentes. O pensamento sistêmico nos convida a olhar para as interações que se dão num contexto de vida pessoal, num processo que está sempre mudando. Então, pensar sistemicamente implica um exercício de substituir o verbo ser pelo estar, conforme nos propõe Cecchin (1992). Uma simples mudança como esta faz muita diferença, pois evidencia que sempre existe uma possibilidade de mudança. A partir de tudo isso, um sistema pode ser definido como um complexo de elementos em interações interdependentes que organiza um todo e que tem um funcionamento próprio. Uma família, uma comunidade pode ser pensada sistemicamente. Embora uma família possa ser vista como um sistema, as relações que seus membros mantém entre si e com outras organizações humanas favorecem outras configurações a que chamamos de subsistemas. Por exemplo, subsistemas parental, fraternal; subsistemas dos homens da família. Da mesma forma, uma família nuclear pode ser vista como um subsistema da família extensa, formada pelas avós, tios, tias e primos, por exemplo. As relações dos membros de um sistema e dos subsistemas que formam se dão dentro da comunidade e em um determinado contexto. E o contexto é tão 5 Carta de OMS importante que o comportamento de qualquer pessoa ou dos sistemas que ela forma só pode ser compreendido a partir dos contextos nos quais se dão. 1.1- Os subsistemas de um sistema A comunidade em que vivemos é formada por vários subsistemas. Por exemplo: a escola, a igreja, as associações de moradores. Cada sistema ou subsistema tem organização e funcionamento próprios, resultado das interações das pessoas envolvidas. Vimos que existem sistemas que são formados por vários subsistemas. Será que a explicação pára Por aí mesmo? Não! Além do subsistema e do sistema, temos o supra- sistema ou sistema de sistema. Como o exemplo a seguir, fica fácil entender o que seja supra- sistema. Mas, não podemos perder de vista a ligação entre uma coisa e outra, de acordo com o objetivo que queremos alcançar. Isto porque, na vida, nada está separado. Se quisermos compreender o indivíduo, ele deve ser visto como um sistema. Mas, se o nosso objetivo final não é só o indivíduo, mas, engloba a família, então, o indivíduo passa a ser um subsistema e a família passa a ser vista como um sistema. O mesmo vai acontecer com a família em relação à comunidade, a família deixa de ser o sistema, passa ser o subsistema da comunidade. Se quisermos chegar ao supra – sistema o raciocínio é o mesmo: a comunidade de moradores de uma favela, por exemplo, que em si pode ser compreendida como um sistema passa a ser subsistema do bairro. O bairro passa a ser o subsistema da cidade; a cidade passa a ser o subsistema do país; o país passa a ser o subsistema do mundo. Então, o mundo será o que consideramos como supra – sistemas ou sistema – mundo. Tudo vai depender do nosso objetivo ou enfoque. O importante é entender que qualquer que seja o problema, ele está inserido num contexto complexo do qual fazem parte todos os envolvidos na situação em questão. Será que isso é importante para o nosso trabalho? Claro que sim! Saber reconhecer, identificar cada nível vai ter repercussão na forma como vamos abordar o problema que queremos resolver. Por isto, devemos sempre perguntar: Em que contexto se dá o problema? Quem faz parte do sistema-problema? (a mãe, a criança, a família, a comunidade). No entanto, não podemos esquecer que toda organização humana pode ser considerada como um sistema. Se adotarmos essa forma de compreender o comportamento humano, toda situação-problema deve ser vista e tratada como inserida em um dado contexto. Se não percebemos a questão dessa forma, nosso trabalho dar-se- á de forma mecânica, uma vez que desconsiderará as três dimensões presentes em todo sistema: relações, contexto e processo. 5 Carta de OMS De que adianta cuidar dos filhos sem cuidar da mãe, do pai, da família, da comunidade, da sociedade, sem cuidar do mundo que partilhamos com o resto da humanidade? É importante observar que o nosso corpo é um sistema que tem quatro dimensões. Só podemos nos considerar saudáveis se essas quatro dimensões estiverem funcionando bem e de forma interligadas e harmônicas. Enquanto ser biológico, temos um corpo que necessita de cuidados, uma mente que precisa ter clareza para compreender nossas emoções, um espírito livre que precisa ser nutrido por uma espiritualidade libertadora de preconceitos e somos, também, um ser social que precisa aprender a conviver com a diversidade social. De que adianta cuidar só do corpo, sem cuidar da mente, do espírito e do ser social que todos nas somos? A supervalorização de apenas um desses aspectos, em detrimento dos outros, é uma mutilação da grandeza do ser humano e um empecilho à convivência em sociedade. 1.2- O contexto: Anteriormente, fizemosreferências à palavra contexto. Você está lembrado em que momento nos referiu a ela? Um deles foi quando falamos sobre as distintas organizações em volta do subsistema, sistema e supra-sistema. Fizemos até o desenho do nosso bairro como exemplo de um sistema e das coisas que nele se encontram. O que queremos dizer agora, é que, quando definimos o nível em que queremos intervir, em que queremos atuar, quando definimos o nosso campo de intervenção, ele passa a ser considerado um contexto. Assim, se escolhemos trabalhar no bairro, o bairro será o nosso contexto. Embora aqui o contexto se confunda com o território, nunca podemos esquecer que contexto refere-se, sobretudo, ao inter jogo das relações entre os membros de um sistema e a dinâmica das relações. Por exemplo, uma frase dita em um ambiente amistoso é uma brincadeira, porém, a mesma frase dita em um contexto com pessoas de pouca intimidade pode ser considerada ofensiva. Se, por outro lado, o nosso campo de trabalho é a família, o contexto será a família. Em nossas Terapias Comunitárias, seja qual for o contexto escolhido, ou surgido da própria realidade, e ele será sempre tratado como parte de um sistema. O contexto, seja ele qual for, deve sempre ser considerado se quisermos compreender o funcionamento de um sistema. Desta forma, o contexto compreende o conjunto das circunstâncias e sistemas que estão ligadas umas às outras e que dão sentido ao funcionamento do sistema. Toda situação-problema deve ser vista em seu contexto, caso contrário, nos perderemos, ficaremos desorientados. Por exemplo: no caso de alguém que fala de seu sofrimento, nós só seremos capazes de compreender sua dor, se formos capazes de visualizar o contexto em que esta pessoa se situa. 5 Carta de OMS Qual é o seu contexto? De uma comunidade rica ou de uma comunidade de excluídos de todos os direitos sociais? Quem faz parte dele? Como se relacionam? Como se organiza a sua comunicação? Em que momento de seu ciclo vital essas pessoas se encontram? Quais os significados dos seus sofrimentos? O texto das comunidades pobres é marcado pelas perdas. Esta é uma referência que nós temos para compreender a situação das pessoas (nossos companheiros) marginalizada. 1.3 – Abordagem Sistêmica: Compreendendo o que é contexto, podemos dizer que a abordagem sistêmica é uma maneira de abordar, de ver, de situar, de pensar um problema em relação ao seu contexto, como no exemplo da mulher e seu filho. Abordar quer dizer achegar-se, aproximar-se. Abordar um problema é chegar até ele, aproximar-se dele. É, também, adquirir intimidade com o problema, penetrar nele, estudá-lo em seus mínimos detalhes e ligações com seu contexto. Uma questão importante surge em nosso trabalho. De que forma devemos abordar uma situação-problema? Fazemos uma abordagem desvinculada do contexto, isolando os vários sistemas que a compõem? Isso não é possível de acordo com o pensamento sistêmico. Em nosso trabalho, três aspectos caminham sempre juntos. Ou até poderíamos dizer que existem três palavras que nunca se separam; abordagem – problema – contexto. O problema se dá em um contexto, envolvendo a inter- relação entre os que fazem parte de sua dinamicidade, e a maneira de compreendê-lo depende da abordagem do terapeuta. A abordagem sistêmica permite-nos visualizar uma situação problema de uma forma diferente da tradicional. A situação- problema é abordado de forma sistêmica a partir da visão e compreensão do contexto. Permite que a situação-problema seja refletida de baixo para cima, de cima para baixo, de lado, de frente, de costas, sob todos os ângulos e pontos de vista. Vejamos um exemplo: o de um padre em um confessionário. Um rapaz disse-lhe que havia roubado uma corda. Se o padre tivesse procurado saber em que contexto ocorreu o furto, ele não teria dito, simplesmente, que roubar uma corda “não é tão grave”. Na verdade, o rapaz havia roubado uma corda que tinha atrás um cavalo, e, atrás do cavalo, uma carroça com a mudança do Seu Manoel. Se tivesse abordado todo o contexto, teria percebido que não se tratava apenas de uma corda. A abordagem sistêmica nos ensina a perceber a pessoa humana imersa no conjunto de suas “relações” com a família, a comunidade, a sociedade e com seus valores e suas crenças. Mas, atenção: a abordagem sistêmica é sempre interativa. Não 5 Carta de OMS somos só nós que estamos atentos para compreender os contextos. O grupo que participa das terapias, também, precisa entender o contexto em que estamos inseridos e nossas motivações. 1- Características: De acordo co Bertalanffy (1975, [1968]), um dos primeiros teóricos que abordou o tema, podemos identificar no sistema algumas características básicas. 2.1- Os sistemas são totalizantes ou globalizantes Mesmo que o sistema seja composto de vários elementos ou de várias partes, ele funciona como um todo, com total independência. O comportamento de cada elemento ou de cada parte de um sistema tem influência no conjunto, no todo, e vice-versa: o comportamento de todo irá influenciar modificar e alterar cada parte componente deste todo. Como entender a situação de uma família, se não somos capazes de enxergar o problema de desemprego do pai, do subemprego da mãe, da desesperança dos filhos... Só podemos compreender um elemento do sistema, ou uma de suas partes, se olharmos e compreendermos o sistema como um todo. Por isto, é importante compreender como funciona a sociedade para entender o comportamento das pessoas e dos grupos sociais. 2.2- O todo é mais do que a soma das partes É muito importante saber que o sistema não se resume á soma das partes. Para se compreender um sistema, não basta conhecer as partes isoladamente. A sociedade brasileira não é a soma de suas favelas, bairros de periferia, vilas rurais, bairros chiques. O bairro não é a soma da escola, da creche, da associação, da igreja, da fábrica. Esses elementos não se somam. Do mesmo modo, o nosso corpo não é a soma do aparelho digestivo, do aparelho respiratório etc.; o sistema solar também não é a soma dos vários planetas, das várias estrelas. Por que o sistema não é a soma das partes? Seria a família a soma do pai, da mãe, dos filhos? Isto é um absurdo, não é? Mas, cada filho herdou características importantes de sua mãe e de seu pai e avós e mantém, com eles, a relação de vínculos de afeto. No entanto, a família é muito mais do que as relações de parentesco, ela é a toda a globalidade. Cada membro da família (pai, mãe irmãos) é um elemento, é parte desse sistema integrado e globalizante, cujas relações apresentam uma dinâmica própria. No sistema, tanto a parte faz parte do todo, como o todo faz parte de cada parte, ou melhor, o todo está presente nas partes. Parece até um jogo de palavras, mas não é. O que define um sistema é a relação das partes com o todo e de todo com as partes, por isto, dizemos que um sistema é mais do que a soma das partes. 5 Carta de OMS Vejamos três exemplos para melhor compreensão. O exemplo da água Qual a fórmula da água? A química expressa a composição da água através da seguinte fórmula: H²O. ou seja, a água é constituída por duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Mas, se entrar mais de uma molécula de oxigênio, terá água oxigenada – H²O². O que isto quer dizer? Que a entrada ou saída de um simples elemento modifica o todo, como, por exemplo, no caso humano, do nascimento de um filho ou da morte de um pai. A mesma água potável (H²O) quando recebe mais uma molécula d oxigênio (O) transforma-se em água que corre. O exemplo da multiplicação dos pães Na época de Cristo, quando aspessoas promoviam encontros, festas, tinham que alimentar as pessoas que vinham de muito longe. Certa vez, Jesus Cristo estava numa montanha e começou a falar das bem-aventuranças e logo se juntou muita gente para escutar suas palavras. Os apóstolos ficaram preocupados, pois não tinham preparado nada para o povo comer e pediram para Jesus fazer mais um milagre: alimentar toda aquela multidão. Jesus recusou-se a solucionar sozinho o problema e disse aos apóstolos: “Dêem comida vocês mesmos”. E eles disseram: “Senhor, não trouxemos nada para vocês mesmos”. E eles disseram: “Senhor, não trouxemos nada para alimentar o povo”. Jesus disse: “Perguntem a eles o que eles mesmos trouxeram”. E então, os apóstolos perguntaram ao povo: “O que vocês trouxeram”? E logo apareceram pães, peixes, maças, bananas, mandioca, tapioca e muitas outras coisas. E quando juntaram o alimento trazido por cada um Jesus o abençoou. O Evangelho diz que todos comeram muito bem e ainda sobrou muita comida. Eis aí o segredo da multiplicação: quando cada um coloca sua contribuição o resultado é surpreendente e todos se beneficiam. Cristo, com sua sabedoria, queriam que seus discípulos compreendessem que se o povo tem problemas, ele também tem soluções. Se o povo tem fome, ele também tem alimentos. Nós devemos confiar neste potencial adormecido dentro de cada um. Basta que cada um participe com o que tem que transporemos montanhas. O segredo da multiplicação vem da partilha. O exemplo do filho que tinha uma mãe perversa Numa das sessões de terapia comunitária que realizamos o tema escolhido foi sobre mães perversas. Um senhor falou de sua mãe nos seguintes termos: 5 Carta de OMS “Minha mãe foi à pior mãe do mundo. Ela batia na gente. Certa vez ela amarrou meu irmão mais novo pelos pés e deixou toda uma noite pendurado numa mangueira e no dia seguinte ainda deu uma paulada na cabeça dele que cortou, mais tarde a ferida virou uma bicheira. Hoje ela morreu e o inferno é pouco pra ela pelo que ela fez com a gente”. Nesse momento, levanta-se do grupo um homem médium que se intitula profeta, que sempre fala coisas desconexas e que é objeto de riso para muitas pessoas. Ele dirige-se para o senhor que acabara de falar de sua mãe e diz: “Eu sou sua mãe.” O grupo foi tomado de um silêncio e o senhor que falara de sua mãe começa a chorar. Uma semana depois, antes mesmo de a terapia ser iniciada, ele fala: “Eu queria agradecer a você, domingos, que todos consideram louco, você me disse uma coisa que eu nunca havia pensado. Que minha mãe não me deu amor porque ela nunca recebeu. Saí da terapia e fui pensar no sofrimento dela. Ela perdeu sua mãe com três meses de idade e teve várias madrastas muito duras com ela. Ela nunca teve colo nem carinho e cuidado da gente como ela foi cuidada. Eu queria hoje dizer para vocês que lamento que ela tenha morrido sem que eu tenha dito para ela que compreendia seu sofrimento e sua maneira de cuidar da gente. Eu não sou mais o mesmo desde a semana passada. Percebi que estou fazendo com meus filhos o mesmo que ela fez comigo. Vou reunir meus filhos casados e pedir perdão pela minha dureza na maneira de educá-la. Aqui podemos observar que esse senhor tinha uma convicção de que sua mãe era má a partir das informações que ela tinha. Quando ele acolheu outra leitura, “minha mãe não podia dar o que desconhecia” veio a dúvida que permitiu a mudança. Esta nova informação foi à molécula de oxigênio que a fez mudar da água para o vinho. Quando acolhemos uma nova informação, ela provoca uma mudança bem maior do que se espera. É por isso que, muitas vezes, uma só terapia pode desencadear um processo de descobertas e superações. Na Terapia Comunitária acontece muito isso. Cada pessoa chega com sua convicção, com uma visão do problema e sai com cinco, seis ou sete leituras possíveis. E essas visões ou opiniões, que nasceram da participação de cada um, podem resultar em uma nova forma de ver o problema, podem, até, apontar para uma nova solução. 5 Carta de OMS Mais do que a simples soma, ocorreu uma transformação, uma multiplicação, como se dois mais dois resultassem em dezoito. A Terapia Comunitária não pretende que as pessoas saiam com todas as questões resolvidas, com todas as perguntas respondidas, com tudo tranqüilo. A Terapia Comunitária oferece às pessoas a oportunidade de questionamento, de crescimento e de transformação permanentes. O segredo da abordagem sistêmica está no estabelecimento de relações. Tudo é relação. Tudo está relacionado entre si. Nada tem sentido ou significado visto isoladamente. 2.3- Os membros de um sistema se organizam em torno de significados comuns e das relações de interdependência. A união dos elementos de um sistema não é feita por acaso. Esta união segue uma lógica própria. No sistema, cada elemento se reconhece pertencente ao mesmo sistema. É como diz o ditado nordestino: “Um boi ronceiro conhece outro”. A escolha do parceiro, por exemplo, segue uma lógica quase sempre inconsciente. Não é por acaso que as pessoas escolhem seus namorados ou namoradas, esposos ou esposas. Há uma espécie de afinidade, de identificação. É isto que faz as pessoas se gostarem, se casarem. É , neste sentido, que se diz que um boi ronceiro conhece outro, isto é, existe algo que os identifica, os atrai entre si. Quem de nós já não experimentou repulsa na presença de uma pessoa que nos fez mal? Nosso corpo se contrai. E quem, também, não já experimentou o contrário? A presença de uma pessoa nos trazer a paz, serenidade, confiança. E por que tudo isso? É que nosso corpo e nossa mente estão impregnados de memórias inconscientes que provocam essas reações, seja de repulsa, atração, simpatia ou antipatia. 2.4- O sistema é dotado de uma capacidade de auto proteção, auto- equilíbrio, desenvolvimento próprio e auto transcendência. Todo sistema tem a capacidade de proteger-se, de reequilibrar-se e de crescer em uma ação interna que chamamos de auto proteção, de auto- equilíbrio e de desenvolvimento próprio. É próprio de o sistema lutar para manter sua organização e autonomia, protegendo-se de agressões internas e externas e buscando a auto preservação. Toda a sociedade cria seus meios para se manter protegida, equilibrada e em permanente crescimento. A comunidade é assim. A família e o indivíduo, também. 5 Carta de OMS Quando a situação esta “pegando fogo”, esta ruim mesmo, o sistema tenta, de imediato, auto - regular-se. Todo sistema tem vários atributos e, um deles é a capacidade de autocontrole, ou seja, de regular as interferências e de ajustar-se às demandas do meio, garantido a sua continuidade e homeostasia. Isto quer dizer que um sistema como, por exemplo, uma família, dadas as devidas condições, tem capacidade de gerar recursos para fazer frente aos desafios do cotidiano mantendo a sua integridade como família. Na prática, o que temos visto é que os desafios colocados pelas condições degradantes decorrentes da miséria, desigualdade e injustiça social requerem a geração de recursos, muitas vezes, tão além das suas possibilidades de auto- organização que a família sucumbe. Contudo, se o grupo for uma associação de bairro diante de um problema e se os seus membros fizerem circular as informações necessárias, certamente poderão gerar as suas soluções. No entanto, é preciso que uma condição esteja satisfeita: que seus membros se escutem, uns aos outros e reflitam em conjunto, trocando informações e energias. Como pedra com pedra, em atrito, produz, trazendo luz e calor, trazendo esclarecimento, permitindo enxergar longe, também,idéia com idéia traz claridade, traz iluminação e as pessoas começam a compreender seu contexto e as soluções para seus problemas. Toda comunidade, grupo, família ou pessoa é capaz de encontrar soluções para os seus problemas. Por quê? Porque nós temos certeza, pela abordagem sistêmica, que todo sistema tem essa capacidade de autocontrole, de auto- organização, de autoconhecimento, de auto crescimento, de autotransformação. Vejamos um exemplo. Quando o casal está brigando muito, o filho adoece e o casal pára de brigar para cuidar do filho. O filho, com sua doença, vieram proteger seu sistema familiar ameaçado de destruição. Quando a comunidade está brigando demais, alguém convoca uma reunião, faz uma avaliação, tudo volta a se ajustar e a vida continua. Cada membro da comunidade quer proteger-se e proteger a comunidade. Equilíbrio e proteção andam juntos. Os mecanismos de equilíbrio e de proteção são essenciais para a sobrevivência dos sistemas. A informação tem um papel muito importante no equilíbrio e na auto proteção dos sistemas. A mesma importância tem a energia, a disposição, a força que circula entre as pessoas. Por exemplo: numa família, toda vez que o marido chega a casa embriagado e ouve o rádio ligado, quer logo bater em todo mundo. Claro que a solução definitiva do problema não é, simplesmente, desligar o rádio. Mas, não custa nada que alguém sabendo disso, e vendo que o tal marido se aproxima de casa, bêbado, avise à mulher e os filhos da sua chegada, para que eles se protejam da agressão desligando o rádio. 5 Carta de OMS As informações recebidas do meio externo pelo sistema (no caso, o familiar), e conduzidas por toda uma energia que flui, permitem que a mulher prepare o ambiente, acalme os filhos, desligue o rádio, e, assim, mantenha o equilíbrio. Saber trabalhar a informação e, ao mesmo tempo, concentrar a energia presente nos elementos do sistema, como neste caso, desencadeará uma reação de proteção que fará o sistema voltar ao seu equilíbrio ou a um novo equilíbrio. É muito importante guardar essa informação para evitarmos ser o salvador da pátria, aquele que traz a solução dos problemas dos outros. É sempre bom lembrarmos que cada pessoa, família, comunidade têm seus próprios mecanismos para resolver os problemas. Nosso papel, como terapeuta comunitário, é apenas ajudar a despertar, a relembrar o que eles já sabem e a despertar o que já possuem. Nossas perguntas devem ajudá-los a clarificar os nós cegos, a compreender os enlinhamentos da convivência humana. Jamais devemos propor mudanças, trazer soluções prontas e construídas em outros contextos. “Não adianta colocar remendo novo em pano velho”. 2.5- A casualidade circular: A casualidade circular parece uma expressão difícil de compreender. Parece, mas não é. O pensamento sistêmico, à medida que postula as relações de interdependência entre seus membros, ao compreender um problema, considera- o também no contexto das inter-relações. Sendo assim, dada a existência de um problema, todos os envolvidos participam dele de alguma forma e, portanto, não se pode atribuir a sua existência a apenas um dos participantes. Veja bem: muitos de nós já ouvimos falar em círculo vicioso. E o que é isto? É relacionar, achando que todo problema tem uma causa, e que toda causa tem um efeito. Esta relação causa-efeito é, hoje, muito questionada na tentativa de compreender o comportamento humano. A relação causa-efeito é própria do pensamento linear. Este pensamento raciocina com a idéia de que o problema segue sempre uma linha reta, sem desvios, sem curvas, sem complicações, sem complexidade. É como se tudo na vida fosse simples, direto e superficial. O pensamento linear é fruto da relação causa-efeito que acha que para tudo existe uma explicação, uma resposta, uma solução, ali, na ponta da língua. O pensamento linear não questiona o contexto, os processos, as inter- relações. Não duvida de nada, porque já tem a resposta pronta. 5 Carta de OMS Ora, é muito fácil dizer: “Mauro é alcoólatra porque a mulher o traiu.” Qual a causa do alcoolismo de Mauro? De acordo com o pensamento linear, a causa foi a traição da mulher. O efeito seria o alcoolismo de Mauro e ponto final. O pensamento linear pára por aí. Não questiona, não apronta, não procura ver as relações de Mauro com a família, de sua família com a comunidade, da comunidade com a sociedade. O raciocínio linear vai e finda, voltando para o mesmo ponto de partida. Não transforma nada, não estabelece ligação entre os vários planos e sistemas. O que faz é isolar, delimitado a suposta causa. Na abordagem linear sistêmica a relação entre os efeitos e a causa é distinta. A casualidade circular, que está presente no pensamento sistêmico, transforma porque sua lógica é outra. A abordagem sistêmica não atribui, por exemplo, a queda de várias pedras morro abaixo a uma única pedra que rolou primeiro. A abordagem sistêmica não se preocupa em encontrar um culpado, “um bode expiatório”. Não se preocupa em identificar uma causa única e isolada para um fato ou problema. Na relação entre causas e efeitos, de acordo com um pensamento linear, poderíamos estar raciocinando a partir da seguinte situação: uma fileira de dominós, um atrás do outro, a queda do primeiro provoca a queda do segundo, que provoca a queda do terceiro, e assim por diante. Na abordagem sistêmica, substituímos a relação de causa-efeito linear pela “casualidade circular” ou circularidade. A casualidade é vista como um processo circular que tem mão dupla: uma vai e outra vem. Assim, se o comportamento de um marido ou de uma esposa afeta também o do marido, numa dinâmica de interdependência. Vejamos o exemplo. Exemplo 1: Mauro foi traído pela mulher: O alcoolismo de Mauro e a traição da mulher refletem dificuldades na vida do casal. Duas atitudes diferentes para expressar a mesma dificuldade relacional. Na visão sistêmica, não vamos nos deter, procurando uma causa específica, mas, sim, causas contextuais. Nós questionamos a função destes comportamentos. O que eles estão sinalizando? O que Mauro está querendo comunicar à sua esposa? Estaria ele querendo protegê-la. Teria Mauro perdido o interesse por sua esposa e encontrou, no álcool, uma justificativa para escapar do compromisso de esposo e pai? Até que ponto, sua fuga, no álcool deixa sua esposa solitária e, portanto, vulnerável à busca de novos relacionamentos? Quando sua esposa procura outro relacionamento, o que ela está comunicando a Mauro? Que precisa de um companheiro? Seria sua maneira de provocar o marido, para alertá-los dos perigos em que vive o casal? Seria uma forma de testar o nível de amizade e compromisso do marido para com ela? 5 Carta de OMS Exemplo 2: Conflito entre vizinhos Pesquisando a cura na umbanda, pude observar e acompanhar o seguinte caso: durante as consultas, em uma sessão de umbanda, chega uma moça de 18 anos e se dirige ao pai-de-santo nos seguintes termos: “Me pai, eu queria que o senhor botasse uma macumba bem forte numa vizinha minha. Ela é muito invejosa e já tomou mais de três namorados meus...” O pai-de-santo, em transe, escuta com atenção e pergunta à moça: “Minha filha, se sua vizinha estivesse aqui, o que ela diria de você?” A moça responde: “Ela não poderia dizer nada de mim, pois é ela que é ruim e anda tomando o namorado das outras.” O pai-de- santo tenta em vão fazer outras perguntas, tentando fazê-la perceber que ela também estava implicada naquela história, que ele estava sem se dar conta, alimentando aquela situação. E por fim o pai-de-santo, já meio aborrecido lhe diz: “Minha filha, eu voulhe fazer três vezes a mesma pergunta e você pense bem no que vai responder.” Pergunta a moça: “E por que, meu pai?” Ele responde: “Porque se ela não merecer tudo que você está pedindo para eu fazer, vai voltar dez vezes mais forte em cima de você”. E sem que o pai-de-santo ouse começar a fazer a pergunta, ela acrescenta: “Eu também não sou uma santa, eu ando muito nervosa e insegura...” Vendo sua cliente com muitas dúvidas, o pai-de-santo diz: “Minha filha, vamos parar nossa conversa por hoje, você vai pensar com calma e na próxima semana a gente volta a falar deste assunto.” Passados quinze dias, chega à sessão de umbanda a moça acompanhada de outra um pouco mais jovem e bem mais bonita e diz ao pai-de-santo: “Meu pai, eu vim hoje com minha vizinha que demonstrou muito interesse em conhecer o senhor e trouxe para o senhor dar uma benção para nós duas.” Graças às perguntas do pai-de-santo a moça pôde repensar o problema. Lá onde havia convicção de ser uma pobre vítima, surge uma nova dúvida: “Será que estou alimentando este problema?” Dando prosseguimento a minha pesquisa, pude compreender o mecanismo do conflito. A moça que pedia punição para sua vizinha era muito feia e fazia dos namorados que arranjava uma maneira de demonstrar a sua vizinha que esta poderia ser mais bonita do que ela, mas não arranjava nenhum “gato”. Namorando na janela de seu quarto, que dava para o quarto da vizinha, instigava-a a olhar para o casal barulhento. Isto permitia ao rapaz descobrir outra moça, bem mais bonita e simpática, e, logo mais, desinteressar-se da primeira e passar a namorar a segunda. Ao perder o namorado, a moça tinha a convicção de que sua vizinha o tomara e não percebia que ela de fato “oferecia”, montava, inconscientemente, um cenário onde ela sempre saía perdendo. Na realidade, ela arranjava os namorados muito mais para provar à vizinha que ela era mais capaz do que a outra, do que de fato para curtir os “gatos”, como ela falava. 5 Carta de OMS Nesse caso, nós vemos muito bem a noção de casualidade circular. Cada uma com seu comportamento reforçavam na outra a convicção de ser vítima. Enfim, a casualidade circular permite-nos refletir seguindo outra lógica. De frente para trás, e de trás para frente, de uma ponta para outra. Para cada ângulo, um questionamento e, assim, nossas perguntas circulam, procurando compreender a riqueza, a diversidade, do que aquele fato, aparentemente simples, está querendo comunicar por trás daquele sofrimento. Somente assim, poderemos oferecer tanto ao casal em conflito como às vizinhas, a oportunidade para repensar a maneira como eles vêm se relacionando e ajudá-los a descobrir que ambos são co-responsáveis pelo que está acontecendo em suas vidas. Tanto no conflito conjugal, como no conflito entre vizinhas, a título de exemplo, não há uma vítima. Todos são co-responsáveis. “É o sujo falando do mal lavado”. Ninguém está de mãos limpas nestes conflitos. A casualidade é baseada em acontecimentos do aqui e agora e em suas múltiplas relações. A casualidade alimenta-se de informações e energias que circulam com a noção de que tudo e todos, envolvidos num mesmo contexto, se relacionam e com o compromisso na mudança do conjunto dos elementos pela transformação do todo sistêmico. Na casualidade circular, o sintoma não tem uma causa e, sim, um significado co-construído pelos envolvidos em uma relação e dentro de um contexto, tendo, portanto, um valor de comunicação. O que não pode ser verbalizado é expresso em atitudes, em comportamentos, muitas vezes, inconsciente. Ao passo que, no pensamento linear, de causa e efeito, o sintoma é confundido como sendo a causa ou o efeito do problema. Um sábio já nos dizia: “Quem fixa o olhar no dedo que aponta a estrela, perde a chance de descobrir a grandeza da estrela”. 2.6- A finalidade Aí está talvez o ponto mais importante da abordagem sistêmica. Os elementos de um sistema interagem por um objetivo comum. O objetivo comum une os elementos. É a argamassa que garante a segurança do sistema. Sem um objetivo comum, a saúde do sistema está comprometida, seja o sistema do indivíduo, o familiar, o comunitário, o social ou qualquer outro. A complexidade do sistema humano é o grande desafio para o terapeuta comunitário, pois exige a compreensão dos significados que organizam as relações. Isso se explica quando lidamos com as competências. Qual os significou que organizam as relações de uma família em sofrimento? Da mesma 5 Carta de OMS forma, quais os significados presentes nas relações que definem as suas competências? Os elementos de um sistema interagem em torno de significados compartilhados. O significado dá sentindo às relações, construindo um mundo que só pode ser compreendido a partir dos contextos de vida dos envolvidos. 3-A família pode ser compreendida como um sistema. Já sabemos que a família pode ser pensada como um sistema, o chamado “sistema familiar”. A família, como organização social e sistema social, tem uma história. Ao longo dessa história, foram surgindo vários modelos e tipos de família. Independentemente de qual seja a configuração das famílias, podemos pensá-las em dois territórios mais comuns: a família extensa e a família nuclear. Vamos imaginar que estamos vivendo no Brasil - Colônia. Naquela época, quando as pessoas iam pedir emprego nas fazendas, o fazendeiro logo perguntava: “Quantas enxadas o senhor tem?” com essa pergunta, o fazendeiro queria saber quantas pessoas da família estavam preparadas para o trabalho. Para o fazendeiro, quanto mais filhos prontos para o trabalho uma família tivesse, melhor. A família extensa envolvia outras pessoas além dos pais e dos filhos. Envolvia as avós, tios, primos, afilhados e aderentes. As grandes famílias eram valorizadas porque representam mais mão-de-obra e mais eleitores. Com o passar do tempo, as condições de trabalho, principalmente no meio rural, foram sendo modificadas e as famílias não precisavam mais ser tão numerosas. Atualmente, a família extensa está cedendo lugar à família nuclear, ou seja, à família pequena, constituída somente pelos pais e poucos filhos. Isso prova que a família também se transforma, também muda. Embora pareça uma instituição estável, a família é uma instituição dinâmica que se modifica de acordo com as novas situações e exigências sociais, culturais e econômicas. Antigamente, nossos avôs já gostavam de falar dos velhos tempos, dos tempos das famílias numerosas. Davam trabalho, mas não tinham que enfrentar os problemas que as famílias enfrentam hoje em dia. Os problemas eram outros. Pelo menos de uma coisa eles dizem que sente falta: da obediência. Os filhos eram educados para respeitar e obedecer aos mais velhos. Hoje, a coisa está meio complicada! 3.1-Mudanças históricas X Mudanças dentro da família: O sistema família passa por alterações em vários momentos de sua existência, não apenas em relação ao seu tamanho, mas, também, em seu modo 5 Carta de OMS de funcionar, tendo que se adaptar, de acordo com as circunstâncias internas e externas. Entende-se por circunstâncias internas o nascimento de um filho, a morte do pai, da mãe, dos avôs, abandono, bem como o contexto específico em que se dão as relações entre seus membros. E por circunstâncias externas o desemprego, um acidente grave com um dos seus membros ou algum tipo de violência. As circunstâncias internas e externas interferem muito na vida familiar. Mexem tanto que a família pode ficar até desorientada. Entre a situação anterior e a nova situação, a família vive um momento de transição, até se adaptar novamente. Isto levaa um período de crise. Citemos o seguinte exemplo: o sistema familiar foi pego de surpresa, quando o pai, a única pessoa que trabalhava, foi demitido do emprego. Foi um “Deus nos acuda”. “E agora? As crianças vão parar de estudar? Como vamos pagar o aluguel, a água, a luz e o transporte? E se alguém adoecer?” A crise foi instalada. A crise é uma condição que está presente em todos os sistemas, inclusive, no sistema familiar. O conhecimento que a família tem de si própria facilita muito as coisas. Seus membros precisam saber que pertencem a um sistema. E que a família, por ser um sistema: _ é dinâmica; _ todos os seus membros se relacionam entre si; _ todos necessitam de ajuda, precisam ser ajudados; _ é dotada de finalidade, orientando-se por objetivos; _ protege-se das ameaças e de tudo que tenta desestruturá-la ou desorganizá-la; _ é capaz de criar, renovar, transformar-se e ser feliz. Observemos como duas crianças mostram a fotografia de suas respectivas famílias. Vimos que os retratos da família são como o corpo humano: com cabeça, tronco e membros. Mas, não é somente o aspecto físico que faz o ser humano. É, sobretudo, a energia vital, a alma que anima que o vivifica a partir das crenças, dos valores, da ética, da religião, da postura assumida no mundo. A alma dá vida ao corpo e o integra, como um todo ao infinito. 5 Carta de OMS A Terapia Comunitária tem como objetivo revitalizar a família. A crise da família, hoje, é o reflexo direto da crise da sociedade que concentra a renda, gera injustiças, condena à miséria e à exclusão populações inteiras. Os conflitos da família de classe média com o antigo modelo de família, provocados por esta não se enquadrar nas formas tradicionais de arranjo familiar, também se expressa nas famílias das camadas pobres que têm como referência estes padrões. Noção de reciprocidade: dar e receber ou receber e dar: Reciprocidade significa dar e receber e respeito, afeto e atenção. Trocar serviços, trocar energia, trocar informações. Participar, de forma igualitária, da circulação dos bens materiais e culturais do seu grupo. Se uma pessoa acumula saber, dinheiro e informações, e não faz nada disso circular, é como uma pessoa que fica com a perna inchada, dolorida, porque a circulação do sangue está parada. Todo o corpo sofre e a pessoa caminha com dificuldade. A falta de partilha gera doença, sofrimento para o indivíduo e seu grupo. A família é um sistema constituído, não somente por pessoas, mas, também, por algo muito importante que são as relações entre essas pessoas. Por isto, é necessário estar sempre atento para o que está acontecendo nas famílias: _ As pessoas gostam ou se detestam? _ há respeito entre elas ou não? _ todos colaboram nas tarefas da casa? - Existe muita briga muita discussão, muitos conflitos? _ Existe alguém que quer seu melhor? _ Quem não quer fazer nada? _ Quem quer controlar a situação? _ Quem contribui ou não com as despesas? _ Como cada um expressa aquilo que é? _ Como é que cada vê a maneira de ser do outro? _ Como as pessoas se comunicam? _ Como dividem as funções domésticas e afetivas? _ Como expressam os sentimentos? 5 Carta de OMS _ Como se distribui o poder dentro da família? A família é uma unidade social ou um sistema formado por um grupo de pessoas, não só com redes de parentesco, mas, fundamentalmente, com laços de afinidade, afeto e solidariedade, que vivem juntos e trabalham para satisfazer suas necessidades comuns e solucionar os seus problemas. A importância da família, para cada um dos seus membros, está, não só, nas funções que ela desempenha na sociedade, mas na intermediação entre o indivíduo e a sociedade. 3.2- Funções da família: Organizar a reprodução. Estabelecer relações de paternidades e maternidade, definição do papel de pai, mãe, irmãos, avós, outro e preservação do patrimônio biológico e social. Organizar a vida econômica. À procura de alimento mobiliza a maior parte da energia da família. A aprendizagem relativa ao planejamento econômico familiar dos gastos, em relação aos ganhos da família. Valorizar a vida profissional. Participação dos membros nas decisões econômicas. A relação de apoio e aprendizado acontece quando existem participação e divisão de papéis sociais, todos importantes. As tarefas distribuídas e vivências favorecem à formação de regras de comportamento, sendo, uma delas, o aprendizado dos limites e da importância dos valores. As ações conjuntas, os mutirões familiares são alternativos para potencializar as funções da família numa sociedade em transformação. Conferir uma identidade social. Dá um nome a seus membros. Na sociedade judaico-cristã, o nome dado a uma pessoa traz uma missão, expressa um desejo, um projeto, por isso é muito importante sabermos a origem de nosso nome. Sabermos quem foi esse personagem, qual sua condição socioeconômica. Enfim, também, o lugar que cada um ocupa nas relações sociais (status). Promover a socialização. Troca de aprendizagens e estímulos dos potenciais de cada um. Integração dos filhos no mundo e relacionamento afetivo e troca de carinho, tão necessários ao desenvolvimento de todo o ser humano. Aprendizagem de critérios de avaliação das relações sociais, bem como preparação para a vida em sociedade. Questões que surgem: O que você acha do ditado que diz: “Filho de peixe, peixinho é”? 5 Carta de OMS Esse ditado tanto pode ter uma conotação positiva, quanto negativa. Em ambos os casos, é preciso considerar que, em determinados ambientes sociais, o nome da família chega a ser mais importante do que as qualidades pessoais do indivíduo. Antigamente, isto era mais forte do que é hoje em dia. De qualquer maneira, até que ponto essa pré-condição imposta, dificulta a descoberta dos valores individuais? Veja este outro ditado: “Pau que nasce torto, morre torto”. Esse ditado abre uma expectativa negativa sobre a família e seus membros. É como se a „herança social‟ pré-determinasse o futuro das pessoas. Ora, a Terapia Comunitária, valorizando mais a herança cultural, serão capazes de transformar aquilo que parecia depender do destino, da sorte, da fatalidade, do nome em matéria-prima de mudanças. Aprofundemos mais: -De onde, portanto, deverá vir a força da família e de cada um dos seus membros? - qual deve ser o tipo de apoio que a família precisa receber da sociedade e do Estado? 3.3- A criança, a família e a sociedade: Desde o primeiro instante em que passamos a existir, passamos a depender dos outros. Nossa vida está ligada a outra, dela nos nutriu com ela nos movimentamos e, através dela, viemos ao mundo. O nosso primeiro universo é o útero materno. Um espaço pequeno, aconchegante, elástico. É neste órgão que a vida esboça seus primeiros movimentos e, lá, permanece o tempo necessário para desenvolver suas células, seus órgãos e sistemas, ou seja, tudo o que vai garantir a autonomia biológica do novo ser em gestação. Tudo é direcionado para que o novo for tenha sua autonomia. Uma autonomia que fará dele, em um futuro próximo, um ser independente e livre. O útero é um canteiro de vidas. Ele recebe, nutre, mas jamais, guarda a vida para si, jamais toma posse dela. No momento oportuno, quando a vida já dispõe de meios que garantam sua autonomia, em um trabalho de parto, o útero empurra-o para uma nova etapa. O parto é um dos momentos mais críticos da vida. É o momento de saída do mundo intra-uterino e de entrada no mundo das interações entre os seres. Nele, o recém-nascido deve ensaiar seus primeiros gestos de autonomia pela respiração, pelaamamentação e, desta forma, garantir sua própria vida. Algum 5 Carta de OMS tempo depois, procura caminhar com seus próprios pés e movimentar-se pelos seus próprios meios. É a nova vida que se ergue. Apoiando-se nos dois pés, procura o equilíbrio entre esses dois pontos móveis que buscam fixar o homem na terra e fazê-lo caminhar, em um constante movimento, oscilando entre o equilíbrio, e o desequilíbrio, e que se expressa na forma do caminhar humano. Mover-se com seus próprios pés é, sobretudo, um ato que expressa a natureza da nova vida que chega ao mundo. Caminhar para conviver, em um mundo de muitas relações, sem perder de vista seu desejo, suas aptidões e sua identidade. Com o nascimento, o indivíduo entra no mundo marcado pelas interações humanas, comandadas por exigências e regras de um sistema que garante a harmonia do conjunto, através da convivência, na diferença. Este universo é a família. Nela, a criança deve encontrar o que dispunha no seu mundo intra- uterino: a segurança para se desenvolver, a flexibilidade para se mover e exercitar sua liberdade. Tudo isso só pode ser viabilizado pela comunicação com os outros, no seu sentido amplo, em que cada um procura a confirmação de sua própria existência. Cada criança, no seio da sua família, necessita de oportunidades para descobrir-se como pessoa, pertencente a um grupo e, assim, poder desenvolver suas aptidões e potencialidades para nortear suas interações e participar da construção do mundo. A família, este útero social, é quem fornecerá ao indivíduo os primeiros elementos que podem contribuir para fazer dele um ser realizado ou frustrado. A família poderá ser um espaço de prazer ou de sofrimento. 3.4-Família espaço de prazer Nada mais gratificante do que sentir que a nossa chegada suscita um sentimento de alegria, expresso na forma como somos recebidos. Quando o indivíduo chega ao seu primeiro grupo social, que é a família, e descobre que sua chegada faz parte de um projeto mais amplo que envolve aqueles que o geraram e aqueles com quem vai viver, ele se sente objeto de prazer, alegria e realização. Desde então, começa a germinar em si um sentimento de estar no lugar certo, na sua casa, na sua família, e um desejo de retribuir, criando, assim, um clima de reciprocidade. A nossa maior alegria é descobrir que somos amados, aceitos, que fazemos parte de uma FAMÍLIA. E cada criança dispõe d inúmera mecanismos para perceber o clima emocional que a envolve. As crianças não falam, mas estão atentas a tudo: ao tom de voz, aos gestos, às cores e aos odores de seu ambiente físico e humano. Para elas, tudo é comunicação e tudo deve ser decodificado, descoberto e compreendido. 5 Carta de OMS Elas precisam explorar seu contexto para terem certeza de que, realmente, chegaram ao lugar certo, que são amadas pelo que são que podem expressar seus desejos e intenções, sem risco de serem rejeitadas ou excluídas. Logo, elas perceberão que as relações interpessoais seguem determinadas regras e normas. Se estas garantem a harmonia do conjunto, elas aprenderão a respeitá-las e a integrá-las, como a bússola que norteia seus passos nas relações pessoais e sociais. Se as crianças percebem que estas regras estão a serviço de convivência, ou não deixam espaço para o prazer e a alegria, elas as rejeitarão ou as verão com restrições. Estes princípios, regras e normas serão de fundamental importância, pois permitirão superar os conflitos inevitáveis para quem vive em sociedade. Daí, porque estas regras precisam ter coerência, precisam ser claras e evidentes para que todos as conheçam e possam se referir a elas, quando necessário. O grande desafio da família é receber um ser dependente, frágil, que necessita de proteção, e torná-lo um ser independente e autônomo, um ser capaz de dar forma a seus projetos, mesmo que sejam diferentes do que sonham aqueles que criam. Os pais precisam entender que sua família é, apenas, um espaço de nutrição, de formação da criança dependente e insegura, que, um dia, será um homem ou uma mulher adulto (a), capaz de amar e ser amado e de estabelecer uma comunicação satisfatória com seus parceiros. 3.5-Família espaço de sofrimento Algumas famílias, com a chegada de um filho, agem como se não entendessem que o ser vivo que acabam de receber, necessita de afeto e carinho para se sentir em segurança. Esta estrutura familiar não possui flexibilidade suficiente para aceitar e integrar o novo, o diferente, o filho que deseja fazer parte daquela família: a sua família. A estrutura destas relações familiares é baseada em funções fixas, em tarefas a serem aceitas, no dever a ser cumprido, nas obrigações a serem seguidas. Nela, não existe espaço para a criatividade, para a improvisação. Tudo funciona como se só existisse uma lógica eficiente que não deseja modificações. Toda modificação tentada pelo filho, logo é vista como uma ameaça ao equilíbrio familiar. Esta atitude é sentida pela criança como uma rejeição a sua existência, uma vez que não se levam em conta as suas opiniões. Ela começa, então, a sentir-se como um corpo estranho e o ambiente familiar passa a ser um espaço de asfixia, de muita frustração e sofrimento. 5 Carta de OMS Nestas famílias, não há espaço para desabrochá-lo de uma vida. O filho que chega não é visto como um ser diferente com seus próprios desejos e projetos. Ele deve se conformar com as regras da família, embora essas regras estejam a serviço do crescimento de cada um. As interações entre os membros desta família estão marcadas pelo: “Você está como somos bons para você, faça o mesmo conosco, faça o que nós estamos lhe pedindo e tudo funcionará muito bem”. Nestes sistemas, as regras passam a ser a prioridade número um. Os indivíduos estão a serviço delas, e não elas a serviço do conjunto. Todos se tornam prisioneiros de regras. O maior sofrimento de um indivíduo em uma família dominada pelas regras é não ser reconhecido como um ser diferente; é viver sem ser percebido como alguém original; é ter que se violentar para poder ser aceito. Estes sistemas familiares costumam viver na total dependência de fatos externos. Todo o problema é visto como sendo algo pessoal, como uma doença que precisa ser tratada. Ninguém quer se comprometer com a resolução dos problemas. As pessoas estão entregues à sua própria sorte, perdidas em sua solidão. Famílias assim, na dependência do mundo exterior, não ensinam a seus membros o caminho da autonomia, do crescimento que se conquista com o exercício da reciprocidade. Nelas, não há espaço para o prazer e a alegria. A alegria de um é a tristeza do outro e, assim, eles nunca conseguem ter prazer juntos. O sentimento que predomina nestas famílias é a tristeza e a frustração de não se poder ser livre para crescer e se desenvolver. Quando o outro deixa de ser nosso companheiro, nosso colaborador no processo de crescimento e torna-se o juiz, o tirano, o inimigo; quando o clima de desconfiança reina entre seus membros, nós ficamos com medo, nos sentimos desvalorizados e confusos, nos fechamos, nos tornamos indiferentes. O contrario do amor não é o ódio, mas a indiferença. Em um clima assim, não pode haver crescimento. Permanecemos imaturos, reagindo de forma passiva a todas as oportunidades de reflexão e estímulo, passamos, também, a rotular os outros, ficamos na defensiva. Nesta situação, muitas pessoas gastam sua energia para sobreviver e se proteger, o que gera uma sensação de incapacidade e frustração. Outras pessoas, mais sensíveis, estabelecem como objetivo de vida a solução dos problemas familiares. Para isto, sacrificam seus sonhos,seus ideais e destinam todas as energias para tentar corrigir os rumos das relações familiares 5 Carta de OMS fragmentadas. Convertem-se no pára-raios das tempestades afetivas que acometem o sistema familiar. Neste contexto de muita frustração e sofrimento, o indivíduo não consegue realizar a metamorfose de sua existência, não consegue passar da dependência que o aprisiona, à independência que o torna livre. Como resposta, faz a opção pelo uso das drogas, na esperança de chegar a um mundo onde ele passa sentir-se sujeito participante e ativo. Nas drogas, busca aquilo que não consegue receber de sua família, de seu grupo e, assim, a vida torna-se uma busca incessante do prazer e da ilusão passageira. Quando a educação é um desastre A sexualidade é parte de nossa vida, é através da expressão de nossa sexualidade que geramos novas vidas. Mas, é através da educação que os homens se tornam pessoas, seres sociais e políticos. A vida social se reproduz através da educação, ou melhor, das várias formas de educação em que estamos inseridos, ao longo de nossas vidas. Daí, sua importância como instrumento a serviço da transformação do animal homem em pessoa homem. Toda educação que não visa a esta transformação fundamental, que não capacite o indivíduo para que ele explore suas potencialidades, descubra seus valores, é anti-educação. Mas, por que existem tantos partidários desta anti- educação? Por que a verdadeira educação, aquela que transforma o homem em sujeito livre, consciente de seus direitos, participativo e questionador assusta e ameaça? Por que ameaça? E a quem ameaça? Aos que não se interessam pela liberdade e pela emancipação dos que estão à margem da vida. Isto porque a educação transformadora desperta a inteligência do homem, aguça seu senso crítico e torna o homem dependente e escravo, em um homem independente e livre. E, este homem transformado, torna-se ameaça para as instituições, baseadas na exploração do outro, na defesa de interesses privados ou de grupos minoritários que se enriquecem a custa do suor e do trabalho deste homem, amordaçado pela ignorância e por uma educação conformista. É sempre mais difícil manipular pessoas conscientes e inteligentes. Todo aquele que ensina, aprende. A transformação educativa é, portanto, ação de mão de dupla. A educação que não contempla esta dualidade é, sempre, um ato de dominação e de opressão das pessoas e grupos sociais. Ela não garante a transformação e o desenvolvimento das potencialidades do povo. Talvez, todos estes desmandos que existem no Brasil, a concentração de renda e de poder, por exemplo, aconteçam porque as elites não admitem críticas a seus erros e não permitem que o povo brasileiro seja educado. 5 Carta de OMS A família é o primeiro espaço educativo, local em que se desenvolve o que chamamos de EDUCAÇÃO ESSENCIAL. É na família que a criança experimenta as primeiras alegrias e frustrações da convivência humana. É na família que ela deve descobrir que não é o centro do mundo e que é parte de um grupo. É onde ela aprende que seus direitos terminam, onde começam os direitos do outro e, assim, pouco a pouco, ela aprende a viver em sociedade. No dia em que a família se tornar um espaço de solidariedade, um local onde cada um possa desenvolver suas potencialidades, o respeito ao outro e o sentido de respeito ao bem público; no dia em que nossas escolas tornarem-se espaço a serviço do desenvolvimento das inteligências e da transformação social, começaremos a construir uma sociedade nova no lugar do bicho-homem, teremos a pessoa-humana. Da dependência à autonomia O bebê é dependente de sua mãe. A educação deve dar-lhe autonomia, independência com responsabilidade para que ele adquira as bases necessárias ao seu equilíbrio pessoal e social. O fracasso escolar dos jovens, a fuga pelo vício das drogas, o apelo à violência, a depressão, o suicídio, assim como a incapacidade de inserção social deve nos levar a um questionamento profundo sobre a natureza e a qualidade da educação que está sendo dada aos nossos filhos. Mas, atenção! O caminho para mudar o contexto e os processos educativos dominantes, nos sistemas familiares e educacionais, não passa pelo autoritarismo, nem por seu extremo, a permissividade. Nós, pessoas com valores cristãos, não podemos deixar que os jovens e adultos tenham, como base de referência, apenas os valores da sociedade de consumo e competição, no lugar de cooperação. Ter no lugar do ser; individualismo, no lugar do coletivismo; egoísmo, no lugar de solidariedade e de partilha. Cabe-nos oferecer outros valores, outros princípios de vida que permitam romper com a falta de perspectivas, para que possamos ter outras opções e formas de vida social. A educação familiar e escolar deve estar nos valores humanos, estimulando princípios de vida, não mais orientados para a seleção, para a competição, mas para estimular o esforço de cada um em benefício de todos. Citaremos alguns princípios básicos que garantem o crescimento sem dependência nem de pessoas, nem de drogas. 5 Carta de OMS A autoconfiança para responder às necessidades de segurança Cada criança precisa ser encorajada e estimulada a tomar suas próprias decisões. Somente um clima de confiança pode ajudar uma criança a desenvolver sua segurança interior, espontaneidade e capacidade de adaptação aos vários contextos, para que, assim, possa estabelecer relações positivas com outros. Um clima de desconfiança, mentira e falsidade gera medo, angústia e inquietação. Como a criança pode se livrar desse mal-estar? Não será este futuro adulto, um sério candidato a optar pelas fugas mais diversas, talvez a trilhar o caminho das drogas? O direito de ser diferente para responder às necessidades de identidade Toda criança tem uma necessidade profunda de ser reconhecida, compreendida no seu ritmo, na sua singularidade. Ela espera que as pessoas aceitem a sua forma única de ser e agir. Como poderão aceitar os outros com suas diferenças se ela mesma não for aceita? A aceitação da diferença, geralmente, favorece a confrontação sem violências, o autocontrole e a construção de uma identidade baseada na auto- estima e autoconfiança. Trata-se de buscar superar seus próprios limites e, não, superar, competir e destruir os outros. Caso contrário, predominarão a competição e a negação constante do valor do outro. Cada um tentará dominar o outro, como forma de se impor, de ser aceito. A necessidade de duvidar e questionar, para responder às necessidades de curiosidade e de saber Toda criança sente uma grande necessidade de questionar, de perguntar como forma de satisfazer sua curiosidade e seu desejo de aprender. Temos que estimular as crianças quando elas querem compreender o que passa em torno delas. É através de perguntas e respostas que cada uma começa a compreender o mundo em que vive a família com quem convive e, sobretudo, a se conhecer. Desenvolver a capacidade de perguntar e questionar é o principal estímulo que podemos oferecer a uma criança. Este estímulo desafia a criança a querer observar e escutar criticamente os outros. Devemos estimular o esforço da criança, e não apenas o resultado. O serviço como forma de responder às necessidades de ser útil Toda criança sente necessidade de prestar serviços, de ser útil como forma de dar um sentido a sua vida. Somente assim, descobre o outro e reconhece as regras da reciprocidade. Só com o sentido do serviço ela pode amar os mais fracos e apoiar os mais sensíveis. Este estímulo ao serviço favorece o 5 Carta de OMS altruísmo, a solidariedade, a abertura deespírito e a formação do sentido do público, do universal. Estes princípios são a melhor maneira de prevenir a intolerância, as fugas através das drogas e a violência. 3.6- Os sistemas familiares A família fechada: à troca de informações com o meio, fechada, portanto, a transformação está limitada por uma estrutura rígida, marcada pela indisponibilidade para fazer frente às demandas da vida que apresenta um desafio novo a cada dia. É autoritária nas formas de tomar decisões, de controlar o poder. Mantém-se assim, para não aceitar a diferença. As regras são inadequadas, exageradas e injustas. Alguns assuntos são proibidos de se abordar. Certas expressões não são permitidas. Uma determinada forma de se comportar é obrigatória ou proibida para todos, ou ainda, para certos membros da família (de acordo com a idade, sexo, etc.). As pessoas se reprimem, enganando a si mesma e aos outros, ou mantém relações somente entre certas pessoas, tornando- se incapazes de viver em comunidade. Esse tipo de família determina, com rigidez, os papéis dos filhos, impondo-lhes diretrizes e normas coercitivamente, principalmente no que se refere aos papéis sexuais, masculino e/ou feminino, nas relações sociais. Além disto, o indivíduo vive se protegendo das coisas do mundo, vendo-as como uma constante ameaça que pode destruir a família. Vejamos um exemplo: Maria, desde pequena, seguia as regras impostas pelos pais. Ela só podia brincar com os irmãos ou primos. Só saía acompanhada por alguém, mesmo depois de crescida. Suas roupas eram compradas pela mãe. Ela não tinha direito de se vestir como alguém da sua de sua idade e época. Toda desobediência era castigada, exemplarmente. Assistir TV, só a filmes e programas aprovados pelos pais. O mundo era visto como perigoso Hostil e ameaçador ao equilíbrio familiar. Aos 22 anos, Maria perde os pais em um acidente. Ela entrou em profunda crise quando descobriu os efeitos da rigidez obcecada, da educação recebida. Acostumada à só obedecer, sentia-se incapaz de tomar decisões, incapaz de ter uma visão crítica da realidade. Habituada a viver isolado dos “estranhos”, sentia-se só, desamparada, como uma criança imatura à procura do consolo dos pais. Família fechada demais favorece a geração de filhos imaturos e “bitolados”. 5 Carta de OMS A família aberta demais, por sua vez, pode gerar indivíduos frágeis, inseguros, sem raízes, o que os impede de desenvolver uma visão pessoal e, posteriormente, uma visão familiar e comunitária. Alguns de seus membros desenvolvem uma personalidade “anarquista”. Já outros, devido à carência de modelos de liderança e de noção de limites, caem, facilmente, nas garras das pessoas autoritárias. Só agem se receberem ordens específicas. Essas pessoas tornam-se presas fáceis dos sistemas políticos, sociais, econômicos e religiosos autoritários e, sem perceber, contribuem para que eles existam. Sem a condição para desenvolver o senso crítico, terminam se acostumando com o chicote. O indivíduo que está acostumado a obedecer a quem segura o chicote, quando o chicote muda de mão, continua obedecendo, cegamente, da mesma maneira. Por exemplo: Na família de Pedro ninguém obrigou a ninguém a fazer nada. Tudo era liberal, não tinha hora pra dormir, nem para comer e, muito menos, para brincar. Cada um vivia no seu mundo. O Pai viajava muito, e a mãe, sempre ocupada com os afazeres da casa, deixava Pedro muito inseguro e sem saber que rumo seguir. Certa vez, já na adolescência, ele passou três dias na casa de amigos e, quando voltou, ninguém tinha sentido sua falta. Tudo isso o revoltava, pois não se sentia amado. Pedro sentia necessidade de que alguém demonstrasse interesse e se se importa com ele. Aos 18 anos, ele ingressou em uma seita religiosa, que passou a ditar que atitudes e pensamentos Pedro teria que ter. Ele saíra de um sistema anárquico, escancarado sem estruturas, e entrou em outro sistema, agora autoritário, controlador e super-estruturante. Pedro, tal qual uma lesma, encontrou uma carapaça que o protegia, mas que, também, o aprisionava, tirando-lhe a liberdade de movimentos. Família aberta demais favorece à geração de Filhos inseguros e desestruturados. A família sadia é aquela que pode atender à dupla demanda de dar pertencimento e, ao mesmo tempo, favorecer a autonomia de seus membros. É aquela sabe preparar-se para enfrentar qualquer desafio. Enriquece-se com as contribuições positivas da sociedade, ao mesmo tempo em que desenvolve defesas no seu organismo (critérios, senso crítico), impedindo que os valores negativos possam ter influências decisivas. As pessoas formadas neste tipo de família aprendem a discutir qualquer assunto e qualquer problema, de forma clara e transparente. Isto, porque estão 5 Carta de OMS enraizadas em valores partilhados, não confusos, que permitem a expressão da identidade individual e grupal. Sabem, também, resolver situações críticas, sabem interagir com o mundo exterior. Seu senso de justiça é muito forte e todos os preocupam com a construção de um mundo mais justo e fraterno. Desde crianças, essas pessoas aprendem a exercitar a democracia, buscando construir normas justas e flexíveis (no lugar de normas rígidas) que sejam entendidas por todos e que tenham um sentido prático e libertador. Mantém um ambiente aberto, de diálogo constante, onde a reflexão é bastante valorizada, tornando-se o instrumento de avaliação. Todos estão dispostos a mudar, se for preciso, não ficando ninguém de fora. Os tabus são discutidos, avaliados e desmontados. As funções e os papéis dos membros de uma família equilibrada são flexíveis e compartilhados. Por exemplo: Jorge e Francisca foram criados com muito carinho. Desde pequenos, aprenderam a superar os conflitos através do diálogo. Seus pais, apesar dos afazeres, acompanhavam de perto os momentos importantes de suas vidas. Os aniversários eram comemorados com festa e com a participação dos amigos. Quando cometiam erros, eram repreendidos, mas também, eram elogiados quando faziam por merecer. Ninguém ficava indiferente ao sofrimento do outro. Toda família se unia, seja para apoiar os seus, seja para auxiliar os vizinhos e pessoas da comunidade. Hoje, Jorge é líder comunitário e, mesmo já tendo sua família, ainda encontra tempo para ajudar as famílias que precisam de solidariedade. Família acolhedora e nutritiva, filhos responsáveis e solidários. PONTOS PARA REFLEXÂO: Qual a sua opinião sobre a afirmação? “O maior sofrimento de um indivíduo é não ser reconhecido como um ser diferente, é viver, sem ser percebido como alguém original, é ter que se violentar, para poder ser notado”. (Buber, 1979) Vale salientar que mesmo nos modelos familiares mais rígidos e cruéis, surgem crianças que criaram defesas e alternativas para sua sobrevivência. Crianças que, apesar de terem vivido em meio às adversidades dos contextos, se desenvolveram como pessoas emocionalmente bem estruturadas, tendo conseguido transformar os sofrimentos em competência. Conhece, na pele, a dureza da vida e tentam sobreviver à sua maneira. No nosso dia-a-dia, nós as encontramos defendendo seus interesses, fazendo alianças com outros oprimidos, tentando superar as dificuldades, pedindo esmolas no cruzamento, 5 Carta de OMS lavando pára-brisas de carro nos sinais ou organizando gangues e arrastões. (Aprofundamos esse aspecto no capítulo 5). Você conhece casos semelhantes? O que permite a superação do sofrimento e a transformação da pessoa, apesar de tanto sofrimento e violência? Você conhece alguém que seja sensível a ponto de dar tudo de si, de sacrificara própria vida, de sacrificar seus sonhos, seus ideais, para tentar salvar o sistema familiar? Os filhos, desde cedo, participam de uma escola de vida, na qual vivenciam disputas conjugais, conflitos e dramas. De que forma isso vai repercutir na vida futura dessas crianças? Leia esta afirmação: Para muitos, o casamento parece deixar de ser um projeto de vida a dois, destinado a constituir uma família, para tornar-se uma garantia imediata de segurança, para ser a possibilidade de sobrevivência. É uma forma de se ter casa, comida, cama, roupa lavada e passada. Já não é família preparando os filhos para transformar a sociedade. É a sociedade impondo normas para a família seguir. Qual seu ponto de vista sobre esta situação? A comunidade age onde falham as famílias e as políticas sociais. A comunidade participativa não será a alternativa para as famílias? “Com vocês, encontrei a família que eu não tive! “Foi na comunidade que eu encontrei apoio, reconhecimento e estímulo para viver!” “Não consigo mais imaginar minha vida sem vocês. Aqui, eu encontrei uma família!” Algumas comunidades ou grupos que se formam reunindo pessoas com objetivos comuns podem ser vistos como uma família substituta (alternativa). É neste contexto que muitas pessoas vivenciam as normas e regras de uma família: experiências que só podem ser apreendidas nas relações familiares normais. Isto permite que, pela experiência de vida comunitária, sejam restabelecidos os vínculos afetivos e culturais, até mesmo, em novas bases. Já existem inúmeros casos de pessoas que readquiram, na vida comunitária, o sentido de pertencimento o seu grupo cultural. É no contexto substituto que muitas pessoas (crianças, jovens, adultos – mulheres ou homens) têm experiências comuns às vividas no seio familiar, enquanto lhes é conferida uma nova identidade. É aí que o exercício de parceria 5 Carta de OMS tem um papel de aprendizado fundamental: estas pessoas aprendem a repartir, a compartilhar a ser cooperativas. Na comunidade, quando a divisão de papéis e tarefas é realizada através de participação, planejamento e avaliação, há uma maior probabilidade da formação de regras de comportamento e de aprendizado dos limites, isto é: “Só posso chegar até aqui, porque, se eu for além, tanto me prejudico como posso prejudicar os outros.” É o senso de responsabilidade e de parceria que passa a guiar a vida das pessoas. Quando a comunidade se reúne para decidir, ela está, também, favorecendo a formação de uma consciência que valoriza as ações coletivas articuladas com as ações individuais, sabendo estabelecer a diferença e a complementaridade entre esses dois tipos de ação. Lembrete: As pessoas que vivem em grupos, mesmo as que passam ou já passaram por uma experiência familiar de desagregação e sofrimento, tendem a adaptar-se à vida em comunidade, para salvaguardar a sua própria existência. É o princípio da busca do equilíbrio. No seu trabalho de terapeuta comunitário, como você analisa essa questão? Em nossa sociedade, são inúmeros os exemplos de desestruturação familiar. Podemos observar que existem formas criativas de substituição da família, reforçando, assim, a necessidade que as pessoas têm de viver em comunhão com o seu semelhante. Síntese: Os sistemas humanos são formados por pessoas em interação intensa de modo tal que o comportamento de um membro afeta e é afetado pelo comportamento do outro. Todo sistema favorece outros arranjos, organizando o que chamamos de subsistemas. Por exemplo, os pais podem ser vistos como formando o subsistema parental e a família compreendida como um sistema. Toda situação-problema deve ser compreendida a partir do contexto em que acontece. Do ponto de vista sistêmico, fazem parte do problema todos àqueles que estão envolvidos na situação, não apenas o membro sintomático. A abordagem sistêmica é sempre interativa, enfatizando relação, processo e contexto. São características de um sistema: _Ser globalizante; 5 Carta de OMS _o todo é mais do que a soma das partes que o constituem; _ter a capacidade de se auto-proteger e transcender; _a relação entre a causa e seu efeito é circular. É sempre um caminho de mão dupla, constituído na interdependência; _os elementos de um sistema têm um objetivo em comum. Tendo uma família, necessito aprender coisas novas para responder a seus desafios. A família vive as mudanças históricas e sociais de seu tempo. Vive crises e busca soluções. *Reciprocidade é dar e receber. *Na família, existem diversos papéis e funções. A visão sistêmica coloca sob suspeita as afirmações categóricas e determinísticas que desconsideram os contextos do tipo: “Filho de peixe, peixinho é”? Ou, “Pau que nasce torto, morre torto...” *A criança, a família e a sociedade são entidades dinâmicas. *A família pode ser espaço de sofrimento, prisão e opressão. *A educação pode ser libertadora ou opressiva. *A educação pode favorecer à dependência ou à autonomia. *A confiança nutre a segurança e a auto-estima. *O direito de ser diferente ajuda a construir a identidade. * A curiosidade e o questionamento são o núcleo do aprender e do saber. *A atitude de servir integra as pessoas à comunidade. *Família fechada demais às demandas do meio podem gerar filhos despreparados para a complexidade dos contextos da vida. *Família aberta demais pode gerar filhos inseguros e sem referências para o enfrentamento dos desafios que a vida apresenta... * Família aberta às diferenças e consistente dos seus acordos de convivência favorece a criação de filhos emocionalmente seguros, responsáveis e solidários. * A comunidade participativa é uma alternativa nos contextos em que as famílias falham. 5 Carta de OMS Capitulo 7 A teoria da comunicação Muitas vezes, nós não nos saímos melhor na vida por problemas de comunicação, isto é, ou não soubemos nos comunicar, ou não soubemos entender bem a comunicação da outra pessoa, do grupo, da comunidade ou, até mesmo, da natureza. Para que possamos nos comunicar bem, precisamos observar algumas regras básicas. Aliás, estas regras nós já as conhecemos na pratica. Talvez, não as conheçamos de forma organizada. REGRAS BÁSICAS DA COMUNICAÇÃO Em seu livro intitulado Programática da Comunicação Humana, Watzlawick (1967) evidencia as regras básicas da comunicação. Regra 1. Todo comportamento é comunicação Regra 2. Toda comunicação tem dois componentes: a mensagem (ou conteúdo) e a relação entre os interlocutores Regra 3. Toda comunicação depende da pontuação Regra 4. Toda comunicação tem duas formas de expressão: a comunicação verbal (a linguagem falada e escrita) e a comunicação não-verbal (analógica ou gestual). Regra 5. A comunicação pode ser: simétrica, baseada na semelhança e complementar, baseada no que é diferente. 5 Carta de OMS Vamos agora especificar um pouco mais cada uma dessas regras. Regra 1. Todo comportamento é comunicação Na maioria das vezes, a comunicação feita por gestos e atitudes ocorre de forma inconsciente e não intencional.Acontece sem que percebamos.Com atitudes silenciosas, nós comunicamos mensagens sutis como, por exemplo, “não estou de acordo”, “eu te detesto”, “não agüento mais”, “se continuar assim, vou explodir”, e tantas outras.Como a mensagem não é confirmada com palavras firmes e claras, permitidos que o outro interprete como quiser.Então, perdemos a chance de expressar nossa opinião, de esclarecer mal-entendidos, pensamentos e sentimentos, indispensáveis á vida em grupo, á vida comunitária.Algumas pessoas não participam das reuniões, dos mutirões etc., alegando estar com dor de cabeça ou apelando para outra desculpa. Qualquer desculpa que seja dada significa que o individuo esta querendo livrar-se da responsabilidade, do engajamento, ou sinalizar outra coisa. Neste caso, a pessoa fez uso de um problema como a surdez, o sono a dor de cabeça para evitar a comunicação. É por isso que nós dizemos que todo sinal ou sintonia tem valor de comunicação e sempre esconde alguma coisa que é importante. O terapeuta comunitário pode criar condições para aprofundar uma situação parecida com as que exemplificamos, principalmente, quando acontece negação da comunicação. Essa ação pode ser decisiva para o desenvolvimento do processo terapêutico. Problemas familiares como alcoolismo, baixo rendimento escolar, atos de delinqüência, crises nervosas são sintomas ou sinais que comunicam algo, que dizem o que não esta sendo verbalizado. O ditado popular que diz: ”Quando a boca cala o corpo fala”, representa bem essa situação. Você já percebeu que muitos sintomas e sinais são formas de comunicação de algo inconsciente ou de que nos envergonhamos? Se todo comportamento tem valor de comunicação, o que estariam querendo comunicar a sociedade, as crianças que cheiram cola e que usam drogas? Como líder comunitário ou terapeuta, o que você costuma fazer quando se depara com certos problemas/sintomas?Dá uma explicação ou tenta decifrar a comunicação escondida nesse tipo de altitude, aparentemente, sem sentido? Muitas vezes, a família usa o sintoma como mecanismo para voltar ao equilíbrio. Vamos explicar de outra forma. Vejamos: Junior esta desinteressado nos estudos, mas esse desinteresse pode querer dizer algo mais: pode sinalizar um conflito entre seus pais. 5 Carta de OMS É como se ele tivesse dizendo: ”Professora, ajude meus pais!...” ou “Minha família precisa de apoio”. Junior esta sendo o paciente identificado, mas o problema é do sistema familiar que esta em conflito. Dai a importância de o terapeuta comunitário abordar as situações com uma visão de circularidade: das pessoas para a origem do sintoma e voltando á pessoa. É sempre bom lembrarmos que paciente identificado ou paciente designado é a mesma coisa que bode expiatório. REFLEXÃO No seu trabalho de liderança comunitária, você: Já se deparou com as reações que você já identificou no seu trabalho? Como pensa lidar com cada um dos casos que se apresentarão no seu trabalho, no trabalho da comunidade? Como é possível se valer de cada caso sugerido, das reações que se expressam na comunicação entre as pessoas, para proporcionar maior amadurecimento ao grupo e á própria comunidade? Regra 2. Toda comunicação tem dois elementos: o conteúdo e a relação entre as pessoas que se comunicam. Conteúdo ou mensagem é tudo aquilo que dizemos com palavras e gestos; é a informação que passamos para a outra pessoa, informação que deve ser confirmada com os nossos olhares, com o tom de voz e outras formas de expressão. Quando uma pessoa se comunica com outra, esta oferecendo uma definição de si mesma a interlocutor e espera uma resposta. Dai porque a resposta, seja ela verbal ou gestual, será como um espelho que permite á pessoa reconhecer- se. Vejamos: Quando o individuo A comunica-se com o individuo B, oferece uma definição de si, da seguinte maneira: O individuo A passa a seguinte mensagem: 5 Carta de OMS ”É assim que eu me vejo”. E quer saber: ”Como é que você me vê?” O individuo B com sua resposta indica: ”Eu te vejo assim”. Por isto é que se afirma: As pessoas não se comunicam somente para transmitir informações, mas, principalmente, para ganhar consciência do seu próprio eu. “A consciência que tenho de mim, nasce de mim, nasce de uma relação de comunicação com o outro.” (Watzlawick, 1967) O individuo B pode me responder de três maneiras possíveis: através da confirmação, da rejeição ou da renegação. Vejamos cada uma: 1. A confirmação equivale a dizer: ”você tem razão de se definir assim.” Por exemplo: quando a criança chega a casa diz: ”Mamãe, tirei dez na prova”, ela esta querendo comunicar: “É assim que eu me vejo uma criança inteligente e responsável”. Se a resposta da mãe for: ”Que ótimo! Parabéns! Vamos mostrar suas notas pro seu pai”, ela esta confirmando a imagem que o filho tem de si, ou seja, “Você esta certo, em se considerar inteligente e responsável”. 2. A rejeição equivale a dizer: “Você não tem razão de se definir como pensa que é.” Tomando o exemplo anterior, a mãe diria: “Você nada fez que seu dever”. “E “falando assim, a mãe esta querendo dizer:” Você não tem o direito de se considerar inteligente e responsável”. Esta atitude gera muito sofrimento na criança que fica confusa, não se sente aceita e passa a duvidar de si mesma. Ela não se sentira confiante e valorizada diante de si e dos outros. Em determinadas situações, a rejeição pode ser positiva. É, por exemplo, quando alguém se define como incapaz, e nós rejeitamos essa idéia de incapacidade, encarando a rejeição como um desafio. Por exemplo: quando alguém diz: “Eu não sou capaz de passar no concurso”. “E “a outra pessoa responde:” Eu sei que você é capaz, você sempre foi bom aluno, sempre tirou media alta”. Nesse caso, rejeitamos a definição negativa e assumimos uma postura de fé na capacidade do outro. Nós rejeitamos a definição negativa, permitindo ao outro corrigir sua auto-imagem. 3. A denegação equivale a dizer: “Você não existe” 5 Carta de OMS Nesse caso, nega-se a existência do próprio individuo. É como se ele não existisse. Onde impera a renegação, o individuo tem dificuldade de saber que ele é. Por exemplo: uma pessoa decide “dar um gelo no outro”, agindo como o outro não existisse. É por isso que se diz: O pior sofrimento é viver sem ser percebido pelos outros. REFLEXÃO Confirmar, rejeitar e denegar. Essas três atitudes fazem a diferença na qualidade de nossos relacionamentos. Vamos refletir um pouco sobre estas três opções em nossos relacionamentos familiares e profissionais. 1- Você tem confirmado a definição que seus familiares estão dando de você a cada momento? 2- Você se lembra da ultima vez m que foi confirmado? O que você sentiu? 3- Você já se sentiu renegado? O que sentiu? 4- O que você poderia fazer para estar mais atento ás pessoas que estão procurando ser confirmadas? Regra 3: Toda comunicação depende da pontuação Analisemos a seguinte situação: Claudio é casado com Joana. Claudio define-se como chefe de família, como aquele que manda. Joana, pelo contrario, aceita ser mandada. Ela simplesmente obedece. A comunicação entre os dois esta pontuada dessa forma. No dia em que Joana não estiver mais de acordo com a situação de dominação, instala-se o conflito entre os dois, pois passarão a agir em desacordo com a pontuação que vinha sendo dada na comunidade entre os dois. Claudio manda em Joana Joana obedece A indicação do ponto de partida da seqüência da comunicação é a seguinte: Claudio manda Joana obedece A seqüência é: mandar e obedecer. 5 Carta de OMS A comunicação entre eles esta sendo pontuada de tal forma que Claudio da as ordens e Joana as obedece.Até que certo dia há uma mudança. Joana manda em... Claudio não obedece, reclama Epâ! O que é isto? A pontuação esta mudando? Esta sendo, agora, ao contrario? É Joana quem esta querendo mandar em Claudio? A indicação do ponto de partida não era esta. O conflito esta instalado. A discordância na pontuação da seqüênciados fatos leva seus interlocutores (no caso, Claudio e Joana) a entrarem num verdadeiro impasse. Qual dos dois está provocando o impasse? Claudio ou Joana? Quem quebrou a pontuação da seqüência dos fatos? O que é característico desta seqüência (e é por isso que há um problema da pontuação) é que o interlocutor fica convencido de que ele (ou ela) nada mais se da conta de que, talvez, esteja provocando essa reação. Na raiz de conflitos de pontuação semelhantes a este existe a sólida convicção de que há somente uma visão correta do mundo: ou a do Claudio, ao a da Joana. Os dois precisam acertar-se na pontuação das seqüências de comunicação, do contrario... Instala-se a crise. Vejamos outro exemplo: a do labirinto. O labirinto é um tipo de bordado vai ter uma flor, uma rosa, ou ramos de flores, tudo isto tem que ficar assegurado, no inicio. Caso o ponto de partida não fique determinado, o resultado vai ser uma peça de bordado confusa e de difícil compreensão. O ponto de partida vai definir a seqüência do bordado. Os exemplos dados servem para mostrar que, no relacionamento entre as pessoas, é fundamental pontuar a comunicação para se evitar uma convivência confusa e cheia de conflitos. Vamos pensar um pouco: Os dois (Claudio e Joana) podem acertar uma nova pontuação nas seqüências de comunicação? Para que isto aconteça, o que os dois devem fazer? 5 Carta de OMS Na comunicação entre os dois, poderá haver um novo ponto de partido. Porém, para que haja conflitos, os dois precisam dialogar, previamente, estabelecendo um novo acordo. REFLEXÃO Você conhece casos parecidos, em que uma pessoa fica acusando a outra, e esta outra não entende o que esta acontecendo? O que poderia ser feito para superar o impasse do conflito de pontuação? Regra 4.Toda comunicação tem duas formas de expressão: a comunicação verbal (palavras) e a comunicação não-verbal (analógica ou gestual) Veja o encontro de duas pessoas: “Como eu gosto de você!” Pela cara do rapaz, da para ver que ele não é sincero. Será que a pessoa esta recebendo o abraço esta percebendo a falta de sinceridade? “Neste contexto, temos exemplo de duas formas de comunicação: a comunicação verbal, quando um diz ao outro:” Eu gosto de você!”e a comunicação não-verbal, expressa, neste exemplo, através da fisionomia da pessoa que da o braço, demonstrando, claramente, que suas palavras não são verdadeiras. Durante abraço, ele piscou o olho e mexeu com a cabeça, e alguém notou que o abraço não passava de fingimento. Algo foi comunicado, sem ser utilizada a linguagem verbal. Entretanto, a coisa pode ser mais seria e profunda. A pessoa que recebeu o abraço, também poderá ter sentido que o outro não era verdadeiro. As vezes, não é preciso que o outro se valha de sinais verbais para sentirmos que não esta sendo verdadeiro. A forma de comunicação não-verbal baseia-se na analogia, na comparação entre os quadros visuais, entre as imagens que captamos com nossos olhos. Baseia-se na analise e interpretação dos gestos e sentimentos que fluem entre as pessoas. Neste exemplo, a linguagem baseada na fala ou na escrita foi menos forte, não correspondeu a um sentimento verdadeiro. Se não fosse o aspecto analógico, comparativo, do sentir a relação, a frase dita, durante o abraço, “Como eu gosto de você”, poderia ter ser sido interpretada como sincera. 5 Carta de OMS Na comunicação entre s pessoas, o conteúdo é transmitido na forma de um enunciado, de uma fala, enquanto os sentimentos envolvidos na relação entre elas serão, sempre, transmitidos de forma analógica, não verbal. Todas as vezes que o sentir esta no centro da comunicação, a linguagem falada é menos forte, menos expressiva. É muito fácil dizer alguma coisa verdadeira oralmente, mas é difícil mentir no domínio do analógico. Uma comunicação, para ser completa, necessita, então, da combinação das duas linguagens; a verbal e a não-verbal. É muito importante que um modo de linguagem tenha correspondência com o outro. Por vezes, as palavras dizem, exatamente, o contrario do que exprime a comunicação não-verbal. Quando em uma família, o pai diz algo, mas sinaliza, exatamente, o oposto do que esta sendo dito, isto ocasiona o que chamamos de dupla comunicação. Na dupla comunicação, aparecem dois conteúdos ou duas mensagens, sendo que uma contradiz ou anula a outra: verbaliza-se algo, mas se expressa exatamente, o contrario. Como já vimos, só pode haver crescimento onde a comunicação é clara, sem duplicidade, sem contradição, sem duplo sentido. Para que haja crescimento, a comunicação precisa confirmar, sem ambigüidade, a identidade de cada um. O terapeuta comunitário, muitas vezes, precisa assinalar a existência da dupla comunicação e fazê-lo claramente. Para ilustrar, tomemos o exemplo de um momento de terapia, quando as pessoas falavam de perdas e uma senhora diz: “Meu marido morreu atropelado”, mas falou sorrindo. “Este foi o momento de o terapeuta assinalar:” Eu fiquei confuso ao vê-la falar. “Sua boca falou de um fato triste, uma perda, mas seu rosto, sorrindo, expressava alegria e alivio”. Afinal, perguntou o terapeuta: ”Qual foi seu sentimento com essa perda?”. Traída pelo sorriso, ela, então, confessou: ”Para mim foi mais um alivio, pois ele era muito violento em casa”. Regra 5.A comunicação pode ser simétrica – baseada na semelhança, ou complementar – baseada no que é diferente. Vejamos este exemplo. Uma mulher diz a outra: “Ora essa! Se ele arranjar uma mulher, eu arranjo um homem. Vai ser olho por olho, dente por dente! ”Temos ai um exemplo de comunicação simétrica. As duas partes envolvidas, no caso, o 5 Carta de OMS marido e a mulher, agem, imitando um ao outro. É como se ele olhasse no espelho, e ao invés de ver a si próprio, visse a imagem da sua mulher. É também como se ela se olhasse no espelho e o que visse fosse a imagem projetada do marido. O que um faz, o outro também faz, para se parecerem iguais. Vamos pensar um pouco sobre a comunicação? Na comunicação simétrica não ha risco de alimentar no sistema um clima de rivalidade? Sabemos que esta forma de relacionar-se, de comunicar-se, não acontece só entre marido e mulher. Acontece entre pessoas que convivem juntas. Dois irmãos podem comunicar-se simetricamente. Depois que se instala a relação simétrica, o processo não para mais. A rivalidade é crescente, em uma verdadeira escala simétrica. Ninguém se da por vencido. Quando os dois cansam, surge uma trégua. Mas, depois, recomeçam os conflitos. Uma comunicação simétrica não corre o risco de se tornar uma relação doentia, pelo fato de um rejeitar o outro sem parar? Essa forma de relação torna-se doentia, quando um rejeita o outro sem parar, impedindo o seu crescimento. Um fator importante, no crescimento das pessoas, chama-se confirmação. Isto quer dizer que todo individuo precisa ser confirmado, aceito pelo outro. Mas, no esquema da comunicação simétrica, não existe confirmação, apena, competição, rivalidade e sofrimento. Na comunicação complementar, o par cio, apesar de terem papéis diferentes, procura complementar o comportamento um do outro. Quando uma esta falando e esquece qualquer detalhe, o outro logo complementa o que ficou faltando no raciocínio do parceiro. O outro é meu I, eu sou o pingo do I do outro. Eu sou o pingo do I do outro, o outro é meu I. Já imaginou o que será do pingo do I, quando o I desaparecer? Quando não soubemos se somos pingo, vírgula, ou qualquer outra coisa, em uma relação, em processo comunicativo, pode atrapalharo outro ou a outra. 5 Carta de OMS Se o homem é o I, a mulher tem que ser outra letra complementar da relação, podendo ser, por exemplo, o R, formando o I + R = IR, isto é, IR juntos, para algum lugar, para construir uma vida juntos. Tanto a comunicação simétrica quanto a comunicação complementar constituem formas fundamentais de trocas na comunicação. As duas são importantes mecanismos para o equilíbrio dos parceiros. No entanto, as duas formas de comunicação podem apresentar problemas, como acabamos de ver. Portanto, não devemos qualificar essas formas de relação como sendo uma boa e a outra ruim.Não se trata de simples rotulação.Não devemos utilizar apenas umas das formas de comunicação, mas, sim, alternar as duas, a depender da ocasião. Síntese: A consciência que se tem de si é fruto de uma relação de comunicação com o outro. Teoria da comunicação – as cinco regras: Regra 1. Todo comportamento é comunicação Regra 2. Toda comunicação tem dois componentes: a mensagem (ou conteúdo) e a relação entre os interlocutores Regra 3. Toda comunicação depende da pontuação Regra 4. Toda comunicação tem duas formas de expressão: a comunicação verbal (a linguagem falada e escrita) e a comunicação não-verbal (analógica ou gestual). Regra 5. A comunicação pode ser: simétrica, baseada na semelhança e complementar, baseada no que é diferente. 5 Carta de OMS CAP 8 Nossas Raízes Culturais: Na Terapia Comunitária, a cura passa pelo resgate das raízes e dos valores culturais que despertam n o homem o valor e o sentido da pertença. 1- Raízes culturais comuns a toda humanidade Do ponto de vista cultural, existe uma diversidade de explicações sobre a origem da humanidade na Terra. Explicações sobre origem do homem, do seu aparecimento. São tantas quantas são as raças e culturas espalhadas pela Terra. Os judeus falam de Jaweh, o Deus que criou Adão e Eva. Os índios amazônicos da nação Dessana reverenciam a um Deus criador, cujo nome é Enela Pantamim. Entre os Tupis, a criação é obra de Tupã. Do ponto de vista histórico, porém, foi a África o berço da humanidade. Foram lá que se descobriram os vestígios dos primeiros humanos, os primatas. Sob a luz da história, portanto, o homem surgiu na África e, de lá, ao longo dos tempos, irradiou-se por outros espaços físicos. Com o crescimento da população humana e o esgotamento das fontes de alimento, o homem foi precisando de novos espaços para morar e viver: os grupos da Ásia e Europa procuraram a direção dos grandes rios. Assim, grandes civilizações e culturas cresceram e morreram ao longo dos rios: o Nilo, no Egito, o Ganges, na Índia e o Tibre na Europa. Esta descoberta histórica mostrou que a grandeza desta busca pela vida e pela preservação da espécie humana nunca se deixou limitar por nenhuma fronteira, seja ela geográfica, política, ideológica ou religiosa. Para sobreviver, o homem viu-se desafiado a ultrapassar fronteiras, a superar seus próprios limites, sempre. Esse homem foi sempre um peregrino que andou em busca de novas terras, de melhores climas e de novas alternativas de alimentação. Assim, foram-se espalhando pela Ásia, Europa, Américas. No começo, movido pela fome e pela escassez de alimentos, o homem foi à caça. Em seguida, descobriu o cultivo das plantas e, assim, criou a agricultura. Muito tempo depois, dedicou-se ao comércio e, mais recentemente, à indústria. Nesta caminhada que começou na África e espalhou-se pela Ásia, geração após geração, o homem descobriu e povoou novas terras, adaptou-se a diferentes climas, mesclou-se a outros povos, criou novos grupos sociais. Vencendo as distâncias, superando obstáculos naturais como o deserto, as altas montanhas, os rios e os mares, sobrevivendo à neve ou ao calor, resistindo ao ataque das feras, chegaram àquela parte do mundo que, mais tarde, seria a Europa. Por força do destino, movido por um incontrolável, movido desejo interior, o homem é um desbravador. Impelido pela necessidade do alimento, foi à caça, descobriu as artes do plantio, buscou a comunicação, desenhou nas paredes das cavernas, dominou o fogo, aprendeu a construir abrigos, criou as línguas, descobriu e inventou os objetos 5 Carta de OMS para seu uso pessoal. A adaptação às diferenças climáticas, os hábitos alimentares, as uniões matrimoniais e outros fatores foram decisivos nas transformações fizeram a diferença essencial entre sobreviver ou desaparecer. Nesta sua caminhada através dos tempos e dos continentes, as diferenças de clima, localização geográfica, alimentação e hábitos culturais fizeram surgir diferentes raças. Os povos que vivem em clima quente, como o da África tinha pele escura e grandes narinas, pois o ar da região em que viviam era quente e não precisava ser aquecido, podendo entrar, livremente, nos pulmões pelas narinas mais abertas. Já os povos em que viviam em clima frio, como os da Europa, com menos sol e calor, precisaram adaptar-se de forma diferente. Sua pele era branca e, para aquecer o ar que entraria nos pulmões, desenvolveram narinas finas, que dificultavam a entrada desse ar, aquecendo-o por fricção. Essas mudanças físicas, fundamentais para a preservação das espécies, manifestaram-se como diferenças na cor da pele, no tipo de cabelo, na formação dos traços do rosto. Diferenças físicas como mo cabelo loiro, ruivo, preto ou pixaim, a pele branca, preta, parda ou amarela foram a natural expressão da capacidade do homem para se adaptar ao meio, para assegurar sua sobrevivência. Desta maneira, surgiram os diferentes padrões raciais ou etnias, que costumamos chamar de raças. Assim é que, a raça dos negros, a raça dos de cor amarelada, a raça dos brancos, a raça dos pardos representam respostas da natureza a favor da perpetuação da vida. A prepotência, a arrogância e a ignorância quanto a estes fatores criaram a ilusão de que só os brancos são superiores. Por esta via de conhecimento, fica fácil compreender que não existe uma raça cuja forma física seja inferior ou decadente. O que há são apenas diferenças. A estas diferenças, quando se manifestam na natureza, damos o nome de beleza. Se todas as flores fossem como as rosas, se todas as borboletas fossem brancas, se todas as árvores, os rios, os pássaros e as cascatas fossem iguais, enfim, se tudo tivesse uma mesma cor, o mundo seria monótono. A beleza é o resultado do aprimoramento das leis naturais para fazer com que cada rosa, cada borboleta, árvore, rio, pássaro e cascata apresentem sua maneira própria e pessoal de ser. Na natureza humana esse aprimoramento tem um nome: raça 2-A vida em grupo A necessidade de sobreviver levou o homem a viver em grupo e propiciou o aparecimento das diferentes etnias. Somente junto ao outro, o ser humano foi capaz de controlar as forças da natureza, de superar as dificuldades, de armazenar água, de garantir o alimento, de trabalhar em comunidade, e de enfrentar seus inimigos. A procura por alimentos, por meios para se preservar das intempéries e para se defender dos inimigos, o desejo incessante de melhorar fez do homem um peregrino, um buscador, um caminhante fazendo o seu próprio caminho. As condições climáticas adversas obrigaram-no a usar a pele dos animais para se proteger, a descobrir o fogo para se aquecer. Dividiu tarefas na caça, no plantio, na guerra, no cuidado com os filhos, enfim, foi contado com a ajuda de outras pessoas que o homem tornou a vida mais fácil. 5 Carta de OMS Com a ajuda do outro, fabricou utensílios e objetos necessários à manutenção da vida. Aperfeiçoando o trabalho das mãos, criou ferramentase instrumentos próprios para o trabalho, fabricando bens e conseguindo, através da troca, aquilo que não possuía, iniciou o comércio e, mais tarde, muito mais tarde, criou a indústria. Em grupos, tornou- se mais forte. Em grupos, foi procurando novos lugares para morar. “Sem o indivíduo não há comunidade. “Sem a comunidade, mesmo um indivíduo livre e seguro de si, não pode prosperar ao longo do tempo.” 3-Como surgiram os índios Outros grupos, porém, preferiram ir em direção do sol nascente. Estes se fixaram na Américas há mais de dez mil anos antes de Cristo. Assim, surgiram as civilizações Maia, na América Central, Asteca, no atual México, e as culturas Incas, Aimara e Mapuche, ao longo da Cordilheira dos Andes, na América do Sul. Isto, sem falar das culturas que surgiram ao longo do rio Amazonas e em outras áreas do continente Sul- americano (Tupis –Guaranis, Gês, Caribes). As marcas da presença dessas civilizações, altamente desenvolvidas em técnicas agrícolas, matemática, astronomia e nas artes podem ser vistas, ainda hoje, em ruínas muito antigas que mostram que não foram os espanhóis ou portugueses os descobridores das Américas, como aprendemos na escola. As Américas já eram povoadas por estas etnias, que já estavam aqui muito antes da chegada do colonizador europeu. No Brasil, as pinturas gravadas nas cavernas de São Raimundo Nonato, no Estado do Piauí, provam a existência de grupos humanos na América do Sul, há mais de 30 mil anos. Na América do Sul, originários das planícies colombianas e venezuelanas, os índios, que ainda hoje, sobrevivem no Brasil, são descendentes das nações Aruk e Macro–Jê. Estes caminhantes chegaram ao lugar que um dia seria o Brasil, por duas vias de acesso. 1-Águas do rio negro no atual Estado do amazonas- provavelmente navegando pelas águas do rio Negro. Esta corrente migratória deu início aos povos Tupi. São da grande nação Tupi os índios terenas – no Mato Grosso do sul; Perecis-no Mato Grosso; Apurinãs – Acre e parte do Amazonas e Waipixonas – no Paraná. 2-Atravessando o Oceano Pacífico- penetrando nos cerrados e descampados do Brasil, chegaram os índios Macro-Jê. São eles: o Timbira – no Maranhão; os Kaingang – Sul do Brasil e o Cariri – no Nordeste. A mescla entre Cariri, Potiguara e Tremembé, no Nordeste, formou a etnia dos índios ta peba. 5 Carta de OMS Os índios do tronco Macro-Jê trouxeram como hábito, alimentação básica do milho e do feijão, hábitos que herdaram das nações ancestrais, andinas e mexicanas, com as quais conviveram. 4- As raízes culturais do Brasil Os naturais da terra à época do descobrimento Quando o Brasil foi descoberto, em meados do século dezesseis, os portugueses encontraram, aqui, centenas de nações indígenas, como os Tupinambá e Tupiniquim, na faixa litorânea da Bahia; os Caeté e os Tabajara, no litoral de Pernambuco; os Potiguara, no ceará do Rio Grande do Norte; os Tamoios, no Rio de Janeiro e São Vicente e os Guaranis, mais no Sul. Estas etnias viviam da caça, do plantio da mandioca, milho, inhame, banana e outras plantas. Dependendo da nação, viviam em pequenos grupos ou mesmo em enormes aldeias, com mais de 1.500 habitantes. Não viviam isolados uns dos outros, pois mantinham constante contato entre si para a troca de bens materiais e culturais. Cada uma destas nações já tinha sua cultura: língua, religião, mitos, rituais, sua maneira de trabalhar, de viver e de ser. Enfim, uma identidade própria, da qual se orgulhavam muito. A estes habitantes naturais do Brasil, os descobridores portugueses, que pensavam ter chegado às Índias, deram o nome de índios. No contato com tantos índios, com tantas etnias de hábitos e maneiras de serem tão diversos entre si, os portugueses precisaram aprender a língua para se comunicar. Duas eram as correntes lingüísticas faladas pelos indígenas – a língua Tupi e a língua Tapuia. A compreensão da língua Tapuia era tão difícil para os portugueses que eles a chamavam de “língua travam”. Tapuia era a denominação genérica dada a todos os índios que não falavam a língua Tupi eram muito numerosas, os recém- chegados – missionários religiosos, judeus novos, aventureiros, exploradores e colonizadores – aprenderam a língua dos nativos e com isso, muitas palavras de origem Tupi enriqueceram a língua portuguesa falada na Europa surgindo, assim, sotaques e maneiras de falar. Mandioca, tapera, maloca tatu, guaraná, jacaré, caatinga, tucano, cuia, guará, e muitas outras palavras e expressões da língua Tupi, hoje, fazem parte do nosso dialeto. Mescladas de palavras do Tupi e do Português, estas expressões deram origem a histórias muito interessantes sobre a vida brasileira, ou deram nome a regiões, cidades e estados. Embora o português seja a língua oficial do país, há pelo menos 200 outras línguas que são faladas regularmente. Quando os europeus chegaram ao Brasil, existiam mais de 1.300 línguas indígenas. Hoje, são pouco mais de 180. Apesar do violento processo de destruição por que passaram, ainda há, hoje, grupos inteiros que só falam sua língua materna – a indígena. Os índios da nação Tupi eram grandes nadadores e pescadores. Dormiam em redes e com troncos faziam jangadas. A jangada indígena era usada na pesca nos rios, e no 5 Carta de OMS mar, antes mesmo da chegada do europeu. Com as naus portuguesas, aprenderam o uso das velas que, acrescentadas à jangada indígena, deu origem às jangadas usadas até hoje pelos pescadores nordestinos. Tal espécie de integração entre as culturas deu-se também em vários outros contextos, o que foi muito útil para a humanidade. Para os Xavantes, a água, símbolo da vida, era guardado como o mais precioso dos tesouros. Dentro dela, realizam-se as lutas e a disputa de forças nas brincadeiras infantis, preparando-se, assim, os meninos para os rituais de iniciação à adolescência. Para eles, preservar os rios dentro de suas reservas é proteger a própria vida. Foram os índios os pioneiros na preservação ambiental em nosso país. Os índios Botocudos dormiam em estrados de madeira e usavam como coberta as cascas macias das árvores. Os Tucanos, da Amazônia, excelentes artesões na utilização de ossos de animais e sementes coloridas, faziam belos colares e pulseiras. A este aproveitamento de objeto da natureza hoje chamamos reciclagem. A riqueza dos usos e os costumes indígenas resistem até hoje. Mesclados á nossa cultura está os hábitos do banho diário, cultivado por todas as nações indígenas e que não fazia parte da cultura européia, a depilação das sobrancelhas e dos pêlos do rosto e do corpo, bem como, o parto de cócoras, são heranças da cultura indígena. Inúmeros foram os traços e complexos de culturas deixados pelos indígenas e incorporados à vida dos novos brasileiros, tais como: tipos de construção, hábitos alimentares, técnicas agrícolas, a caça e a pesca, a tecelagem, o fabrico de cestas, de canoas e de instrumentos musicais. A convivência acontecia em comum, pois, a maioria dos índios habitava em casas coletivas onde tudo era dividido. O mutirão ou muxirão, como era chamado o trabalho coletivo, era a forma que os índios utilizavam para construírem as casas, prepararem a terra, colherem, praticando uma lição de solidariedade e de ajuda a terra, colherem, praticando uma lição de solidariedade e de ajuda mútua. Havia a troca de experiências, serviços e curas, prática que persiste até hoje nas comunidades. Objetos como a rede de dormir e a de pescar; o alçapão, a arapuca, o badogue (na caça aos passarinhos), o puçá, a linha, o anzol (feito de ossos ou espinha de peixe), o arpão, o arco e a flecha são heranças da civilização indígena em nossa cultura.