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NÃO PODE FALTAR
CRÍTICA E REFLEXÃO
Bruno Gomes Pereira
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PRATICAR PARA APRENDER
É provável que você já tenha ouvido alguém dizer o seguinte: “eu sou
uma pessoa crítica, tenho a personalidade forte”. Trata-se de uma frase
muito marcada no discurso de pessoas que tentam justificar seu
temperamento, atribuindo a ele sua dificuldade de convivência com
outras pessoas em contextos sociais diversos.
Existe uma ideia equivocada de que uma pessoa crítica é alguém
temperamental, intolerante, com excessiva sinceridade, que sabe
elencar diversos defeitos em tudo aquilo que é construído pelos outros.
Mas não seria interessante pensar que ser crítico pode ter outros
significados, sobretudo no contexto literário e poético? 
Imagine que você seja o professor de Língua Portuguesa de uma
determinada instituição de ensino. Seus alunos, de uma faixa etária
entre 15 anos e 20 anos de idade, certamente viveram experiências de
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vida diferentes da sua, o que, por sua vez, justifica muito a maneira de
pensar que eles têm. Diante disso, considere que você vá trabalhar com
estes alunos a análise e interpretação do texto Agosto 1964, de Ferreira
Gullar, escrito no contexto da Ditadura Militar no Brasil. Partindo da
suposição de que seus alunos não têm muitas informações a respeito
desse contexto histórico nacional, como você acha que o referido texto
pode incentivar o desenvolvimento crítico dos educandos? Quais
artifícios didáticos você usaria para que os alunos apresentassem
interesse sobre o texto de Ferreira Gullar? Como este texto,
entendendo-o como manifestação literária e artística a partir de uma
escrita criativa, poderia colaborar para a formação de um aluno crítico?
Estes questionamentos podem nortear sua prática pedagógica e,
também, desenvolver em você a percepção de criticidade que queremos
abordar aqui.
A princípio, você deve entender que o ato de refletir sobre algo está
diretamente relacionado à maneira como concebemos o mundo, bem
como à maneira de concebermos a nós mesmos, em um contexto maior
de relação com pessoas e coisas. Assim, refletir e criticar devem
constituir pilares no processo educacional, de maneira a induzir os
alunos a refletirem para, depois, criticarem, partindo do princípio de
que buscaremos cultivar atitudes que sejam as mais conscientes
possíveis. Em outros termos, refletir e criticar devem ser habilidades
parceiras no processo de formação dos alunos, considerando que só
pode criticar aquele que reflete antes, durante e depois do ato do
colaborar com algo, de modo que a crítica não possa ser considerada
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como a mesma coisa que o ato de opinar, uma confusão que acontece
popularmente.
No decorrer dessa seção, a partir das indagações apresentadas,
convidamos você a entender a escrita criativa como um mecanismo de
incentivo à reflexão e ao desenvolvimento do senso crítico.
CONCEITO-CHAVE
INTERPRETAÇÃO
A prática de interpretação é essencial à nossa vida em sociedade. Você
sabe por que utilizamos a palavra “prática” quando nos referimos ao ato
de interpretar? Você já reparou que tudo o que fazemos dentro e fora
de casa depende da interpretação para que possamos conseguir o que
desejamos?
De maneira breve, entendemos a intepretação como prática porque se
trata de uma competência diretamente ligada aos nossos atos,
localizados dentro de uma determinada situação interativa. Em outras
palavras, dizemos que a interpretação é uma prática social, pois é por
seu intermédio que conseguimos nos comunicar e construir sentidos a
partir do que vemos, vivemos e praticamos. Nesse caso, partimos do
princípio de que a interpretação é, na verdade, uma maneira de
exercitar nossas capacidades de leitura, não sendo possível separar
prática de interpretação de prática de leitura, sobretudo quando
estamos nos referindo à sociedade como um todo, que consiste,
justamente, em extrapolar os muros da escola para se fazer existir.
Assim, é pertinente refletirmos que:
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Ao considerarmos os dizeres de Pereira (2017), é válido colocarmos que
a interpretação age concomitantemente à leitura, a qual, aqui, não pode
ser entendida apenas como o simples ato de decodificação, estando
mais associada à perspectiva de construção de sentidos a partir de
dados concretos e da vida dos alunos. Nesse contexto, podemos afirmar
que a interpretação está associada ao ato de (des)construir o mundo em
que estamos inseridos para, assim, dar margem à criação de um
processo de interação social.
Vamos considerar que você seja o professor de Linguagem e Literatura
de uma determinada escola. Durante suas aulas, você percebe que a
maior parte dos alunos não apresentam melhora nas habilidades que
você pretendia desenvolver. Diante disso, você se coloca a pensar: o que
está dando errado? Quais estratégias eu devo procurar para que minhas
aulas possam se tornar mais positivas? Tais questionamentos vão
direcioná-lo a interpretar o que, provavelmente, estaria afetando o
desenvolvimento das habilidades e competências dos seus alunos.
Nesse caso, o ato de interpretar está sendo usado com o objetivo de
melhorar sua prática profissional, a partir de uma realidade já
a importância da leitura [ou interpretação] para o aluno não se encontra apenas dentro dos
muros da escola, mas está fora deste quotidiano escolar, ou seja, a materialização da leitura
crítica é feita além do espaço físico escolar. Na entrevista para o emprego; no exame de
vestibular; no concurso público; na hora de pagar contas; assinar um contrato; exercer a
democracia ou questioná-la etc. É através das relações de diálogo com o texto que o aluno
incorpora um processo dialético, permitindo a re-elaboração criativa do pensamento. Leitura é
a produção de sentidos. Mas ela deve interessar ao leitor. Cabe à escola proporcionar ao aluno
condições de se tornar um leitor crítico. Pois existe uma relação dialética entre leitura e
produção de textos. 
— (PEREIRA, 2017, p. 23)
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diagnosticada. 
No âmbito dos estudos literários, assim como no dos estudos
linguísticos, interpretar algo requer autonomia por parte de quem está
na condição de interlocutor, ou seja, a interpretação consiste em uma
(re)construção de sentidos do texto partilhado, com o objetivo de
promover uma comunicação e, ao mesmo tempo, ajudar no
desenvolvimento das capacidades cognitivas. 
ASSIMILE 
Reflexão e crítica são dois processos de suma importância à
criação literária, sobretudo quando entendemos que a escrita
criativa é o início desse processo. Dessa forma, podemos
dizer que a reflexão do texto literário é, na verdade, o
caminho para a construção dos múltiplos sentidos advindos
da criatividade da sua escrita, enquanto a crítica literária é,
assim, a avaliação que podemos fazer desses sentidos
construídos, analisando como todo esse processo pode
colaborar para o desenvolvimento das nossas habilidades e
competências no meio social.
Por fim, interpretar uma obra literária significa ir muito além do que
está aparente na superfície do texto. Consiste, com isso, no ato de
resgatar valores históricos, sociais e culturais que colaboram para a
reelaboração de sentidos, em uma espécie de retextualização. Assim
sendo, a inferência torna-se uma prática de elaboração de significados
com possíveis desdobramentos de verossimilhança.
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CRÍTICA
Como vimos, no conhecimento popular, é comum as pessoas
relacionarem o fato de ser crítico a ser uma pessoa de “difícil
convivência”. Na rua, na escola ou mesmo em casa, muitos dos nossos
colegas alegam isso, com o intuito de nos convencer a aceitar eventuais
destemperos. Entretanto, é necessário reconsiderarmos essa visão. No
contexto das Ciências Humanas, o ato ou efeito de ser crítico está mais
associado ao fato de termos condições mentais de discordar, mas, ao
mesmo tempo, sabendo o porquê dessa discordância, bem como os
possíveis efeitos que isso pode causar no nosso contexto de vivência.
Em outros termos, para se autoafirmar crítico, é necessário analisar
um contexto maior em que uma determinada situação surgiu, ponderar
sobre todos os argumentos e, disso, fazer um acréscimo real ao
ocorrido.
Para compreendermos a crítica dentro das diferentes áreas do
conhecimento, os saberes sociológicos consideram que:
Você deve ter percebido que, de acordo com Sanches, Ferreira e Alencar
(2016), a ideia de criticidade bebe da mesma fonte do racionalismo, ou
seja, ser crítico é usar a razão para argumentar sobre aquilo que se
deseja. Ter razão nem sempre é estar certo. Nesse caso, ter razão está
mais associado ao fato de sabermos mobilizar argumentos que sejam
Não será o encontro com o marxismo que o fará pensar em uma teoria crítica, é sua teoria
crítica que o leva ao encontro com o materialismo-histórico. Assim, o que torna a Sociologia
crítica não é o método do qual nos apropriamos, mas antes é o uso que deles fazemos. 
— (SANCHES; FERREIRA; ALENCAR, 2016, p. 60)
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mais próximos do real, para defendermos um ponto de vista. Isso, por
sua vez, está diretamente associado às competências e habilidades que
devemos desenvolver no aluno. É necessário que o aluno seja levado a
pensar algo, e, aqui, não nos interessa se este pensar converge com o
nosso, na condição de professores, o importante é que exercitemos no
aluno o poder de argumentar e de contra-argumentar em todas as
esferas da vida humana.
REFLITA 
Resumidamente, é válido pensarmos que a crítica, a qual
pode ser construída a partir do processo de reflexão, é, na
verdade, resultado de um conjunto de valores subjetivos. Em
outras palavras, a crítica é uma habilidade que vai variar aos
olhos do leitor, dependendo também da maneira como este
tende a se comportar diante dos fatos no mundo. Nesse
sentido, convidamos você a pensar nos seguintes
questionamentos: enquanto professores de Literatura e de
linguagens, como nós devemos incentivar o desenvolvimento
da reflexão e da crítica sobre a construção do processo
poético e artístico da escrita criativa? Quais estratégias
adotar?
No contexto da literatura, a crítica está associada à capacidade de
misturarmos a teoria literária e a escrita criativa do texto em si. Em
outros termos, é necessário que o aluno entenda as entrelinhas do
texto poético e literário, para, assim, construir valores a partir do que
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consegue captar dessas entrelinhas. 
Assim, a crítica da escrita artística da literatura tem poder
transformador para o aluno, que tende a compreender melhor as
temáticas sociais abordadas na ficção literária.
VALORAÇÃO
Você, enquanto leitor, certamente já se deparou com obras literárias de
que gostou muito ou de que gostou pouco, havendo, evidentemente,
aquelas de que não gostou. Entretanto, você já se perguntou por que
fazemos estes filtros apreciativos inconscientemente? Já prestou
atenção nos critérios que adotamos para afirmar se gostamos ou não
de uma determinada obra literária?
Mesmo em um contexto social mais amplo, é normal ocorrerem
determinados tipos de preferências. Na escola e na faculdade, há
sempre um amigo com o qual nos identificamos mais. Em casa, ao
abrirmos o guarda-roupa, há sempre uma peça de nossa preferência.
Em outras palavras, estamos sempre imersos em situações que nos
levam a construir julgamentos de valores e, com isso, nos fazem preferir
algo em detrimento de outra coisa similar. 
A estas construções de avaliação, que resultam em uma decisão,
chamamos de “valoração”. A valoração, por sua vez, implica uma
avaliação crítica a respeito de determinada coisa ou pessoa, de modo a
lhe conferir propriedade naquilo que julga como bom, ruim, certo,
errado, bonito, feio, etc. 
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Revisitando a teoria da literatura para nos ajudar a pensar sobre os
princípios de valoração a partir da escrita criativa, é possível pensarmos
o seguinte:
A partir desta citação, entendemos que, do ponto de vista literário, o
estético e o poético são fatores decisivos ao processo de valoração e
construção de juízos a partir do contexto com o artístico. Assim como
Stainle (2017), entendemos que os valores externos são de grande
importância para se entender a composição do texto literário, bem
como a sua escrita específica. Nesse caso, lembre-se sempre das
seguintes indagações antes de construir um processo de valoração
consistente: para que serve isso? Como isso aconteceu? Quais são as
forças que incentivaram essa criação? Quais valores históricos estão
embasando a criação desta obra?
EXEMPLIFICANDO 
É interessante pensar que a crítica e a reflexão, a partir do
contato com o texto literário, são, na verdade, projeções do
pensamento poético de cada um, o qual se molda a partir de
parâmetros individuais. Assim, poderia render bons
A estrutura e o tema da literatura são permeados por todos esses fatores e seu valor estético e
artístico não pode se dissociar dos fatores tanto externos (mundo) quanto internos (autor)
envolvidos em sua composição. Como último comentário sobre a literatura e retomando o que
já foi dito, não podemos deixar de buscar as origens de todas as relações sociais, religiosas,
filosóficas, reflexivas, científicas e artísticas das quais nós, civilizações ocidentais, herdamos a
maioria das nossas características. Quando pensamos em possíveis origens de nosso modo de
vida e visão de mundo, a busca deve sempre remeter à cultura da antiguidade greco-romana.
—  (STAINLE, 2017, p. 19)
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resultados o trabalho com textos literários de diversas
modalidades por um viés comparativo. Em outras palavras,
seria interessante que você, enquanto professor, trabalhasse
com textos literários verbais e não verbais, articulando-os a
uma temática transversal específica. Isso, provavelmente,
poderia induzir o aluno a estabelecer relações e inferências.
CÂNONE
Em algum momento, você já deve ter lido ou ouvido falar de obras
clássicas da literatura, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de
Machado de Assis, Iracema, de José de Alencar, Vidas Secas, de
Graciliano Ramos, dentre outras. Estas obras literárias são denominadas
cânones, pois constituem parte da cultura literária de um povo e, com
isso, tornaram-se clássicos do ramo poético e literário.
Nesse sentido, chamamos de “cânone” um conjunto de obras de um
determinado período da literatura, as quais se tornaram imortais pela
maneira como retrataram o cotidiano de um povo, ou mesmo pela
maneira artística com a qual trataram sobre problemas sociais,
econômicos e políticos.
Um dos maiores autores clássicos da literatura brasileira é Machado de
Assis. Certamente, você já teve contato com sua obra, seja de maneira
direta (lendo seus escritos) ou indireta (lendo obras influenciadas por
ele). Assim, Machado constitui uma parte do cânone literário,por
construir, de maneira profunda, personagens emblemáticas da nossa
literatura, como Capitu, de Dom Casmurro, Marcela, de Memórias
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Póstumas de Brás Cubas, e Helena, do romance homônimo. 
Sobre a criatividade e a profundidade da escrita machadiana, é possível
acrescentar:
No que concerne à escrita criativa dos cânones literários, é possível
perceber a recorrência a uma escrita psicologicamente densa,
plurissignificativa e, assim, aberta às interpretações e construções de
valores, seja pela sua própria capacidade de construir a estrutura
fabular, seja pela maneira singular de falar do trivial, do cotidiano, do
corriqueiro. 
Você, como professor de Literatura, tem a autonomia de escolher quais
obras trabalhar de maneira paralela ao que lhe é solicitado pelas
políticas públicas curriculares nacionais.
FOCO NA BNCC 
Os conteúdos trabalhados nessa seção podem ajudá-lo a
pensar em estratégias capazes de desenvolver habilidades e
competências voltadas à leitura e à interpretação de textos
literários, entendendo a escrita criativa como peça
fundamental para este percurso.
Machado não é mais aquele que imita, aquele que busca fontes para inspirar-se, mas o que
dialoga com a tradição ocidental, com o cânone cultural e com cânone que ia aos poucos se
formando. Eis aí um dos principais aspectos da intertextualidade. 
— (ROLIM; PAGNAN, 2018, p. 143)
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Entretanto, consideramos que a leitura dos cânones seja algo
fundamental à formação intelectual e cognitiva dos alunos, partindo do
pressuposto de que agregam obras ricas de sentido e de crítica social,
sendo, pois, um artefato incrível para nossos alunos desenvolverem
suas habilidades e competências. 
Você notou como refletir e criticar são ações essenciais à prática
humana? É por meio da crítica e da reflexão que nós, seres humanos,
nos fazemos racionais e, com isso, desenvolvemos nossa capacidade de
raciocinar e estabelecer sentidos frente às situações que vão
aparecendo. A literatura, nesse caso, é importante para isso, pois serve
como instrumento artístico e poético, capaz de incentivar o senso crítico
do leitor. No contexto literário, a reflexão e a crítica servem-se da teoria
para entender a prática das ações humanas e, assim, conferir caráter
social às obras de ficção.
REFERÊNCIAS
ARANTES, A. A. J. B.; COELHO, E. D.; GUERRA, B. T. Literatura
comparada. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2019.
PEREIRA, O. A. Leitura e produção de textos. Londrina: Editora e
Distribuidora Educacional S.A., 2017.
ROLIM, A. T.; PAGNAN, C. L. Literatura brasileira e portuguesa I.
Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2018.
SANCHES, W.; FERREIRA, L. A. S.; ALENCAR, M. G. Sociologia crítica.
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Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016.
STAINLE, S. Teoria da literatura. Londrina: Editora e Distribuidora
Educacional S.A., 2017.
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