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Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 1 DISCIPLINA Educação Infantil na Contemporaneidade Educação Infantil na Contemporaneidade | Sumário www.cenes.com.br | 2 Sumário Sumário ------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 2 1 Modernidade e Pós-modernidade -------------------------------------------------------------------- 3 1.1 Infância e Educação Infantil na Modernidade ------------------------------------------------------------------- 6 1.2 Caminhos no mundo atual ------------------------------------------------------------------------------------------ 10 1.3 Alguns apontamentos sobre a infância contemporânea ---------------------------------------------------- 13 2 O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo ---------------------------------- 16 2.1 Reflexão da infância e da docência ------------------------------------------------------------------------------- 21 3 As mídias no cotidiano infantil------------------------------------------------------------------------ 24 3.1 O uso das mídias no processo de socialização na educação infantil ------------------------------------- 25 3.2 O uso das mídias na organização do trabalho pedagógico da educação infantil --------------------- 26 3.3 As mídias na educação ----------------------------------------------------------------------------------------------- 29 3.4 A educação infantil no contexto midiático ---------------------------------------------------------------------- 30 3.5 As novas aprendizagens no cenário pedagógico -------------------------------------------------------------- 31 3.6 As contribuições e desafios das mídias na educação infantil ---------------------------------------------- 33 Este documento possui recursos de interatividade através da navegação por marcadores. Acesse a barra de marcadores do seu leitor de PDF e navegue de maneira RÁPIDA e DESCOMPLICADA pelo conteúdo. Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 3 1 Modernidade e Pós-modernidade Podemos afirmar que os princípios vigentes na Modernidade apontam para o projeto de emancipação do homem, abrindo espaço a ideais como liberdade individual e autonomia. Antes, no período medieval, a submissão a Deus e à realidade mítica subjugavam o humano. No discurso moderno hegemônico, a valorização da faculdade racional coloca o homem como centro do universo, aquele que explica e organiza a natureza e a vida, vistas como algo separado do humano. Então, identificamos a preocupação com a verdade única, a constituição objetiva do mundo e, como fruto da separação sujeito-objeto, o ideal de purificação e previsibilidade. A razão sedimenta-se como faculdade humana organizadora da realidade, concretizando-se no terreno social com a incorporação de perspectivas tais como o progresso linear (onde o passado explica o presente), as classificações, hierarquizações, certezas lógicas e a estabilização como meta (seja no desenvolvimento subjetivo ou coletivo). Neste contexto, a identidade é algo que será alcançado no futuro. Consequentemente, a Educação é entendida num movimento de dar completude e acabamento ao outro, à criança. " as utopias modernas (...) concordavam em que o ́ mundo perfeito´ seria um que permanecesse sempre idêntico a si mesmo (...) um mundo transparente – em que nada de obscuro se colocava no caminho do olhar (...) nada fora do lugar..." (Bauman, 1998, p.21) A crise dos pressupostos modernos, seja no terreno da Ciência, seja no terreno sócio-político, estabelece um movimento de incertização, tal como descreve Bauman (1998). As ideias estruturalistas, as organizações previsíveis e predeterminadas, próprias dos pressupostos modernos, encarceram as possibilidades críticas e criativas do humano. Então, de dentro da Modernidade, surgem críticas às territorializações estanques, conduzindo às possibilidades de abertura e deslocamentos. Hoje, a distância da atualidade em relação à Modernidade já é marcada com certa precisão, mas até que ponto podemos falar de uma pós-modernidade? Essa é uma questão enfrentada de forma polêmica por vários autores. Inclusive, poderíamos dizer que o prefixo "pós" provoca certa imprecisão, fazendo-nos crer que há uma linha cronológica em um enredo que se desenvolve sequencialmente e que já estamos de outro lado de uma linha reta e ascendente, onde as questões modernas foram superadas. Enquanto alguns falam de pós-modernidade, outros autores identificam no momento atual muito mais um acirramento da crise da modernidade, e, outros ainda, preferem tratar o atual sem dar a ele um nome, indicando continuidades e rupturas com o panorama moderno. Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 4 É com essa última perspectiva que nos alinhamos aqui. No presente, vivemos um momento de ambiguidade. A crise da Modernidade já está mais do que diagnosticada; por outro lado, ainda é necessário refletir sobre suas práticas e saberes, num movimento de marcar o distanciamento. Não se trata de considerar a Modernidade em termos de superação (um período já ultrapassado). Mas, interessa-nos marcar, no mundo contemporâneo, o que é novo em relação aos pressupostos modernos, definindo as marcas daquilo que alguns autores chamam de Pós-modernidade. Pence, Dahlberg e Moss (2003) fazem um mapeamento dos princípios modernos e pós-modernos, explicitando como organizadoras da Modernidade as visões de mundo ordenado, e do indivíduo como sujeito autônomo, estável e centralizado. Já o projeto da pós-modernidade indica fissuras no movimento de superar as contradições em busca de uma ordem sempre igual, fundamentando-se em princípios tais como a complexidade, a diversidade e a não linearidade. No entanto, de acordo com esses autores, é fundamental considerar os imbricamentos dos princípios modernos e pós- modernos em nossa História. Não há um desdobramento linear de um período em outro. Tanto o movimento de valorização da diversidade e complexidade subjetiva e social nasceram em solo moderno, quanto a busca de certeza, rigor e a valorização da identidade são princípios que se infiltram em práticas sócio-culturais atuais. No diálogo com Bauman (1998), evidenciam-se nuances que parecem fundamentais no entendimento das relações entre Modernidade e o que se denomina Pós-modernidade. O autor não considera a Pós-modernidade como momento de superação das crises da Modernidade, ou como uma conquista onde reina a tranquilidade; mas, identifica também o mal-estar do presente. Afirma que num terreno concentrado na segurança e em pré-determinações (como o do mundo moderno), sob os princípios da ordem, pureza e beleza, é vigente um incômodo que provém da falta de liberdade e, consequentemente, sua busca é gerada já naquele contexto. Mas, as tensões eclodem quando "os contornos dos lugares são lavados junto com os seus deslocamentos" (idem, p.98). Ou seja, no bojo da crítica às identidades fixas, a busca pelas resistências e fluxos pode acabar por deixar o humano à deriva. Num contexto onde a liberdade é o princípio organizador (como na situação atual), o mal-estar é proveniente da falta de segurança. Na cena pós-moderna emerge o risco do desencaixe e da fragmentação, à medida que são assumidos como eixos na construção identitária, a pluralidade e a ambiguidade. Na atualidade, cabe a questão: deixamos de ser modernos? Por um lado, sim. Por outro lado, de acordo com Bauman, a Modernidade está conosco na esperança de tornar as coisas melhores, "apenas deixamos cair as ferramentas que eram Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 5 consideradas inúteis – objetividade, universalidade, padronização,uso pedagógico apropriado das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), pode levar as crianças a desenvolverem comportamentos colaborativos e autônomos de aprendizagem, benéficos para o seu desenvolvimento intelectual e sócio afetivo. Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 30 Sendo assim, fica reconhecida a importância das mídias e dos recursos tecnológicos na educação, tendo em vista os benefícios que podem proporcionar e contribuir para o desenvolvimento da criança integralmente. 3.4 A educação infantil no contexto midiático No contexto educacional infantil, a integração das mídias às práticas pedagógicas tem sido fomentada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, que compõem em sua proposta pedagógica curricular para a Educação Infantil eixos norteadores como brincadeiras e interações que garantem experiências que “[...] possibilitem a utilização de gravadores, projetores, computadores, máquinas fotográficas, e outros recursos tecnológicos e midiáticos.” (BRASIL, 2010, p.27). Essa visibilidade dada pela Secretaria de Educação Básica (SEB/MEC) ao cenário da Educação Infantil quanto à necessidade da abordagem das mídias e as tecnologias torna-se importante, tendo em vista que atualmente o público infantil já se encontra manipulando os aparelhos digitais já desde muito cedo. Essa iniciativa da SEB/MEC sugere o reconhecimento da apropriação e interação já existentes, em grande parte, no universo infantil quanto ao uso dos recursos midiáticos e tecnológicos, como televisão, celular, rádio, e etc. Pois, como ser social e integrado com o meio em que vivem, as crianças absorvem e apropriam-se dos mais variados conteúdos através desses recursos. Destarte, o uso da internet, televisão e vídeo na educação infantil também pode proporcionar momentos de lazer e aprendizagem. As cores dos desenhos animados e as músicas igualmente infantis, remetem a criança para o seu imaginário e a ensina a refletir. Nessa possibilidade, a sala de aula ganha rumores tecnológicos e as crianças ganham asas imaginárias. Contudo, o público infantil necessita de atenção pedagógica especial quanto ao uso das tecnologias em sala de aula. Todos os sujeitos da escola devem se envolver nessa tarefa de conhecer melhor as novas linguagens oriundas dos recursos midiáticos para atuarem de forma adequada e enriquecedora para o processo de ensino e aprendizagem do aluno. Em geral, os alunos da Educação Infantil, apesar de compreenderem uma faixa-etária bastante tenra e inicial da vida, já manuseiam com muita destreza os aparelhos tecnológicos, demonstrando habilidades digitais diversas, e adentram aos âmbitos escolares já trazendo consigo as suas experiências vividas nos seus ambientes sociais de convívio. Nesse sentido, para melhor atender a esses alunos Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 31 midiatizados da Educação Infantil, os sujeitos escolares e mediadores precisam estar atentos em buscar aprender, se atualizar e se preparar para atuarem de forma mais adequada junto ao público infantil. A educação escolar precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis manipulações. É importante educar para usos democráticos, mais progressivos e participativos das tecnologias, que facilitem a evolução dos indivíduos. (MORAN, 2013, p.53) Entendemos, entretanto, que a Educação Infantil no contexto midiático ainda está caminhando de forma tímida, afinal, acompanhar o crescimento e o avanço tecnológico e a diversidade midiática na fluência de informações, necessita muito mais do que equipamentos disponíveis, mas também de profissionais qualificados para atuarem com esses equipamentos de forma a atenderem as expectativas da Educação Infantil para os seus alunos. 3.5 As novas aprendizagens no cenário pedagógico O ambiente escolar interpretado virtualmente por seus alunos possibilita trazer para a sala de aula a realidade deles, promove uma maior integridade e intensidade na relação aluno/docente/escola, além de proporcionar um desenvolvimento significativo no processo de ensino e aprendizagem. Sobre esse aspecto, Moran (2013, p.31) afirma que com as tecnologias atuais, a escola pode transformar-se em um conjunto de espaços ricos de aprendizagem significativas, presenciais e digitais, que motivem os alunos a aprender ativamente, a pesquisar o tempo todo, a serem proativos, a saber tomar iniciativas e interagir. (MORAN, 2013, p.31) As novas aprendizagens adquiridas pelo público infantil atual através das diversas interações com o mundo midiático no seu cotidiano, diferencia-o das crianças de outrora, quando o ensino tradicional era protagonizado mais pelo docente do que pelo aluno. Há alguns anos, as ferramentas de aprendizagem utilizadas pelos docentes na Educação Infantil eram apenas massas, lápis coloridos, brinquedos e brincadeiras, atualmente, entretanto, somados a essas ferramentas estão os recursos tecnológicos e midiáticos, que podem propiciar um ambiente de aprendizagem mais virtual e conectado à realidade das crianças atuais. No âmbito pedagógico, as mídias podem contribuir massivamente para a Educação, afinal, como principais veiculadoras dos mais diversos tipos de informações, Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 32 integram um vasto universo de conteúdos multidisciplinares a serem trabalhados nas salas de aulas. Nas suas múltiplas linguagens, as mídias trabalham também como agentes transformadores, tendo em vista que, como mediadores de informações num âmbito globalizado, trabalham com as emoções, valores e opiniões de seus receptores, e isso é ainda mais processado nas crianças por sua rápida e instantânea absorção do que está ao seu redor e agindo nele. As especificidades pedagógicas dos recursos midiáticos e tecnológicos impactam diretamente nos resultados de aprendizagem dos alunos da Educação Infantil. Numa transmissão enriquecedora, estimulante e colorida, as mídias são utilizadas para ensinar através das mais diversas formas: por imagens, sons, filmes, e falas educativas. Nessa possibilidade, é relevante dizer que, esse processo acontece na sala de aula como numa grande brincadeira. Enquanto as crianças olham atentas para o seu interlocutor colorido, um mundo novo se abre e descortina na sua imaginação. Essa sincronia proporciona ao público da Educação Infantil momentos únicos de aprendizagem, em que a sua autonomia poderá se fortalecer e o cidadão crítico e consciente começa a ser gerado dentro dele. Logo, essa relação das mídias nas escolas deve acontecer de forma a propiciar e fomentar a construção de novas ideias aos alunos. Contudo, não se deve esquecer os mediadores, os docentes, que nesse processo, tanto ensinam quanto aprendem, e ousamos dizer que aprendem mais do que ensinam. Sendo assim: [..] as mídias apresentam-se, pedagogicamente, sob três formas: como conteúdo escolar integrante das várias disciplinas do currículo, portanto, portadoras de informação, ideias, emoções, valores; como competências e atitudes profissionais; e como meios tecnológicos de comunicação humana (visuais, cênicos, verbais, sonoros, audiovisuais) dirigidos para ensinar a pensar, ensinar a aprender a aprender, implicando, portanto, efeitos didáticos como: desenvolvimento de pensamento autônomo, estratégias cognitivas, autonomia para organizar e dirigir seu próprio processo de aprendizagem, facilidade de análise e resolução de problemas, etc. (LIBÂNEO, 2011, p.70) Nesse contexto, os docentes da Educação infantil precisam começar a compreender mais amplamente o seu papel como mediador da educação e da formação de seus alunos nos dias atuais. As novasaprendizagens trazidas nos históricos de vida dos alunos contemporâneos requerem ainda mais preparo e disponibilidade do docente para o acesso ao mundo da aprendizagem virtual. Entretanto, esse apelo tem sido inegável e cotidiano no mundo da Educação Infantil. O docente atual deve, portanto, preocupar- Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 33 se quanto ao seu preparo e a sua formação, pois as crianças contemporâneas tendem a absorver um sem número de informações e acabam por dominarem mais as máquinas do que os próprios mestres e professores. Nesse sentido, Muitos professores já sentiram que precisam mudar sua maneira de ensinar – querem se adaptar ao ritmo e às exigências educacionais dos novos tempos e anseiam por oferecer um ensino de qualidade, adequado às novas exigências sociais e profissionais. Colocam-se como mestres e aprendizes, com expectativas de que por meio da interação didática com os alunos, a aprendizagem aconteça para ambos. (BOELTER, 2006, p. 19) Todavia, apesar da perspectiva do docente na aprendizagem por meio da interação didática com seus alunos em sala de aula, essa interação só se tornará possível se a linguagem aluno/professor for semelhante. Sendo assim, importa acrescentar que o docente atual precisa aprender a trabalhar com as diferentes linguagens geradas pelas mídias, de forma a criar práticas pedagógicas e metodologias midiatizadas que permitam a geração de novos saberes atrelados à realidade de seus alunos. Nesse aspecto, vale ressaltar a importância da criatividade docente na utilização das novas tecnologias para a obtenção de resultados satisfatórios junto ao corpo discente. 3.6 As contribuições e desafios das mídias na educação infantil Depreendemos que o universo midiático, tão abrangente, pode contribuir de forma bastante intensa para a Educação Infantil, oportunizando um mundo novo de interação, colaboração, democracia e autonomia para o público infantil, disponibilizando múltiplas frentes de aprendizagens nas mais diversas linguagens. A influência das mídias na socialização e na projeção das mais diversas culturas têm contribuído num âmbito global para a integração mundial e para um compartilhamento gigante de informações em tempo real. O público infantil representa uma parte desse todo global, e é igualmente influenciada. Nessa perspectiva, “muitos estudos têm mostrado a importância crescente das mídias na criação dos mundos sociais e culturais das crianças, onde ocorrem os processos de socialização”. (BELLONI &GOMES, 2008, p. 722). Entretanto, apesar da grande relevância e importância das mídias já ser reconhecida em todos os setores e âmbitos sociais, culturais, econômicos e políticos, Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 34 no âmbito educacional infantil, um dos grandes desafios está na desigualdade que esses setores emergem e que afetam a realidade das crianças brasileiras. O uso das TIC’s nas unidades escolares de Educação Infantil tem sido adotado de maneira ainda tímida, contudo, parte significativa das Escolas tem oportunizado esse acesso aos seus alunos em sala de aula. Em contrapartida, existem ainda alunos que, por suas condições socioeconômicas, não têm acesso a esses recursos, gerando um quadro desigual em todos os sentidos nos âmbitos escolares. Com essa perspectiva, Belloni (2005, p.10) destaca que A escola deve integrar as tecnologias de informação e comunicação porque elas já estão presentes e influentes em todas as esferas da vida social, cabendo a escola, especialmente a escola pública, atuar no sentido de compensar as terríveis desigualdades sociais e regionais que o acesso desigual a essas máquinas está gerando. Mediante os estudos dos autores referenciados, acreditamos que as crianças são constantemente confrontadas com o quadro cultural escolar e as suas práticas culturais midiáticas, sendo lidas como desvinculadas do contexto sociocultural e, portanto, marginalizadas. Os docentes fazem, em muitos casos, uma leitura adulta do alto de suas concepções e se esquecem da necessidade que essas crianças possuem de um intermediador que o aproxime e o insira na cultura escolar de forma igualitária. 4 Referências Bibliográficas ALVES. Nilda. Nós somos o que contamos: a narrativa de si como prática de formação. Salto para o futuro, Histórias de Vida e Formação de Professores: boletim n. 01 mar. 2007. ARIÉS, Philippe. História social da criança e da família. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1973. BARROS, Manoel. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003. _______________. Três momentos de um gênio. Caros amigos, São Paulo, n. 117. P. 29‐ 33. Dez. 2006. Entrevista concedida a Bosco Martins, Claudia Trimarco e Douglas Diegues. BUJES, Maria Isabel Edelweiss. Infância e maquinarias. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 35 FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade. 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O desaparecimento da infância. Rio de Janeiro, Graphia, 1999. Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 37 Sumário 1 Modernidade e Pós-modernidade 1.1 Infância e Educação Infantil na Modernidade 1.2 Caminhos no mundo atual 1.3 Alguns apontamentos sobre a infância contemporânea 2 O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo 2.1 Reflexão da infância e da docência 3 As mídias no cotidiano infantil 3.1 O uso das mídias no processo de socialização na educação infantil 3.2 O uso das mídias na organização do trabalho pedagógico da educação infantil 3.3 As mídias na educação 3.4 A educação infantil no contexto midiático 3.5 As novas aprendizagens no cenário pedagógico 3.6 As contribuições e desafios das mídias na educação infantilespaços coordenados" (p.101). A realidade contemporânea conduz a novas formas de submissão do homem (agora espalhadas e dispersas no corpo social, concretizadas na proliferação dos meios de comunicação, na subjetividade moldada pelos recursos midiáticos, por exemplo). E, ao mesmo tempo, convoca-nos à produção de novas "ferramentas", no sentido de garantir segurança no campo das escolhas e liberdades atuais. Em outra direção, Deleuze (1992) aponta como estamos saindo do território das sociedades de disciplina, vigentes no contexto moderno, onde o poder se exercia por alguém que podia ser visto e localizado nas instituições fechadas (tendo como objetivo distribuir o sujeito no espaço e ordená-lo no tempo), para as sociedades de controle, onde o poder espalha-se nos terrenos abertos, invisível e errático. Na forma disciplinar, o indivíduo passa de uma instituição a outra de forma bem definida e, por exemplo, a instituição educativa assume a sua formação, que se concluiria no futuro, como um projeto bem definido. Na forma do controle, a ideia de formação permanente (pela TV, também em casa, etc) e a ideia de inacabamento do humano acabam por promover a sensação de que nunca se conclui nada, enredando o homem numa nova forma de poder que se assemelha à serpente, numa configuração ondulatória, funcionando em órbita, num feixe contínuo. Esta interpretação do presente é fortalecida à medida que o poder do Estado cede lugar à valorização às iniciativas particulares. No campo disciplinar, a normatização emana de princípios institucionais, regulamentados pelos especialistas; no campo do controle, a conformação de cada um acontece no espaço aberto, pelo acesso à informação, concretizada nos meios de comunicação; trata-se de certo excesso de liberdade que torna cada um como que "desencaixado" e desconectado de si mesmo. No sentido de compreendermos alguns princípios que nos afetam atualmente, buscamos organizar os desafios que circunscrevem as relações com as crianças em nossa realidade atual. Como as marcas do mundo moderno presentificam-se e como outros princípios emergem? Como o movimento errático contemporâneo afeta a consideração da criança como outro do adulto no contexto atual? Como nos afastarmos de uma perspectiva que captura a criança a partir de princípios universais, própria das construções teóricas modernas, sem cairmos num relativismo absoluto, ao valorizarmos a diferença, a pluralidade em sua incomensurabilidade? Quais os desafios da Educação, especialmente da Educação Infantil, no cerne das sociedades do controle, à medida que sua educação ainda acontece no seio institucional, afetada Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 6 também pela informação, pela TV, pelos princípios que se produzem no mundo exterior e devem ser interiorizados? 1.1 Infância e Educação Infantil na Modernidade Ao refletirmos sobre os relacionamentos com as crianças no contexto das preocupações modernas, é importante recorrermos à representação que se faz da heterogeneidade no plano da Modernidade. Na verdade, é uma conquista moderna a consideração da especificidade da criança, a demarcação de suas diferenças em relação ao adulto. No entanto, a mentalidade moderna faz a representação da heterogeneidade como série ascendente de períodos de tempo que têm um "na frente" e um "atrás". Tal como afirma Bauman (1998), tempo e espaço eram considerados como estrutura, isto é, "duros recipientes em que os atos humanos encontravam-se sensíveis e seguros" (p.110), antecedendo toda a realização humana e tornando-a possível. Assim, a periodização encarcera a diferença em etapas pré- estabelecidas, transformando a qualidade da heterogeneidade da criança (suas maneiras próprias de pensar, sentir e agir) em quantidade, ou seja, incompletude, déficit, algo menos do que o adulto. Consequentemente, as práticas nos terrenos da Educação, especialmente na Educação Infantil, tornam-se "práticas divisórias", através das quais as crianças são colocadas em hierarquias, olhadas de cima para baixo, normatizadas e classificadas (como normais/anormais; maduras/imaturas; aquelas que já estão prontas para algo/ as que não estão prontas, etc). As teorias que descrevem o desenvolvimento das crianças (oriundas da Psicologia), emergentes no contexto moderno, acabaram por atuar como se fossem modelos verdadeiros da realidade, do ser criança, produzindo a infância. São regimes de verdade em relação às crianças, estabelecendo como elas devem ser, discorrendo sobre elas, acabam por obscurecer as experiências com elas. A partir das considerações acima, pode-se afirmar que a Educação no contexto da Modernidade tem como perspectiva formar os adultos de amanhã, os artífices da futura sociedade. Tal como afirma Kohan (2004), no contexto moderno ocidental: " a infância, entendida em primeira instância como potencialidade, é a matéria prima das utopias (...) O ser humano está pensando como ser em desenvolvimento, numa relação de continuidade entre o passado, o presente e o futuro (...) assim, a educação terá a marca Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 7 de uma normativa estética, ética e política instaurada pelos legisladores, para o bem dos que atualmente habitam a infância... (p.53) No diálogo com Pence, Dahlberg e Moss (2003), percebemos outra perspectiva acerca da criança, possibilitada pelo discurso moderno. Trata-se da emergência de uma prática "centrada na criança", com vistas a transformá-la em adultos. A criança é encarada como um "sujeito unificado, reificado e essencializado " (p.63). De acordo com os mesmos autores citados acima, a incorporação do ideário moderno traz diversas implicações na produção de instituições dedicadas à educação das crianças pequenas. Em primeiro lugar, destaca-se a concretização da instituição como uma espécie de "programadora" do desenvolvimento da criança (pré-ordenado nas etapas previstas na Psicologia, preparado e garantido nas atividades educacionais). A instituição é um "produtor de cuidados e resultados padronizados e pré-determinados" (p.88). A ênfase nos resultados marca a prática instrumental nestes cenários. Muitas vezes, liga-se a essa visão a perspectiva da instituição como um negócio, destinada a vender seus produtos (resultados desenvolvimentais, prontidão para a escola, prevenção de delinquência posterior). Em segundo lugar, destaca-se a ideia da instituição como forma de intervenção na realidade de crianças economicamente menos favorecidas no sentido de adequá- las à cultura dominante (no Brasil, esta perspectiva teve força no contexto das ideias da privação cultural e da educação compensatória, vigentes nos anos 70 do sec XX7). Trata-se também de considerar a instituição como reprodutora dos valores culturais vigentes. Todas essas perspectivas baseiam-se numa visão da criança como "vaso vazio" a ser completado pelas iniciativas adultas, dominantes. Outro viés das implicações do pensamento moderno à Educação (especialmente à Educação Infantil) emerge quando problematizamos o perfil que as instituições dedicadas à primeira infância assumem em alguns países europeus (de modo particular a Grã-Bretanha) e nos Estados Unidos. Trata-se da ideia da instituição como lar substituto, numa abordagem individualista da criança, a partir de uma construção ainda dominante da maternidade que assume o cuidado materno exclusivo como a melhor maneira de criar as crianças bem pequenas. Fundamentadas neste ponto de vista, as instituições visam reproduzir o mais fielmente possível o modelo materno de cuidado, promovendo sempre relacionamentos muito próximos e íntimos entre profissionais e crianças. Tanto os profissionais como as crianças são convidados mais a pensarem-se como indivíduos do que como parte deuma coletividade. Consequentemente, é enfraquecida a percepção das crianças sobre si mesmas como Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 8 pertencentes a um grupo, uma sendo capaz de influenciar a outra. Ao invés disso, o objetivo costuma ser a vigilância e o controle das crianças individuais, a preservação da integridade pessoal, a formação de hábitos, etc Também no Brasil essa ideia se dissemina, à medida que o conceito de instituição educacional como substituta da família ainda prevalece. É comum pensar-se na creche ou escola de Educação Infantil como um "mal necessário" para a mãe trabalhar; ou para o desenvolvimento "da criança", com o objetivo de preservá-la de qualquer problema até que a família possa estar com ela. Outra perspectiva poderia ser delineada se levássemos até as últimas consequências a ideia da instituição como complementar à família, encarando-a como espaço dos relacionamentos entre a crianças, famílias e profissionais; encontro entre diferentes famílias com crianças pequenas, espaços relacionais. Isso envolveria repensar rotinas, espaços físicos, papéis, etc. No trabalho etnográfico de Guimarães (2004) podemos perceber como determinadas práticas - a organização dos berços, a atenção aos banhos individuais, a vigilância em relação às mochilas, o olhar para cada criança como indivíduo - obscurecem a potência do grupo, o que cada criança aprende e cresce com o outro. Poucas iniciativas potencializam a comunicação entre as crianças (que acontecem – nas imitações, trocas de objeto, olhares, etc- mas não se tornam visíveis para os adultos). A preocupação adulta em deixar a criança limpa e cheirosa, em botar nome nas roupas de cada uma para a mãe não reclamar das possíveis trocas, oblitera tempo e espaço de perceber a sociabilidade e afetividade das crianças. Mudando de prisma, podemos dizer que no cenário contemporâneo a incorporação da ideia de criança ativa, capaz, construtora de conhecimento já é assumida no contexto educacional e social mais amplo. Esta ideia convive com a valorização das sensações particulares, o prazer individual, a satisfação de curta duração. É exatamente a apropriação desses conceitos, a exacerbação do valor dado a criança como indivíduo, e a individualidade como centro, que se torna uma questão no mundo atual. Na TV, a propaganda apropria-se da imagem da infância potente em prol do consumo de mercadorias; as crianças são colocadas como protagonistas (na relação com os meios de comunicação, nas famílias, etc), quase como mini-adultos de novo. É como se não houvesse mais fases de desenvolvimento que pré-organizam o futuro, mas também não houvesse construção de significado possível sobre "ser criança" na interlocução adulto/criança, criança/criança, à medida que as escolhas e palavras infantis são colocadas num lugar absoluto. Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 9 De fato, quando pensamos na perspectiva de uma história da infância, é fundamental a conquista moderna, no sentido da aquisição pela criança do lugar de sujeito, materializada na consideração da autonomia, autoestima e autoridade das crianças, tanto nos discursos pedagógicos, como nas práticas educacionais e também nas famílias. No entanto, a exacerbação desta visão tem contribuído para um certo isolamento da experiência das crianças e um distanciamento das relações com os adultos. De acordo com Pereira & Jobim e Souza (1998), crianças e adultos já não se misturam. Uma das principais consequências do movimento moderno de diferenciar crianças e adultos foi afastar os adultos das crianças, isolando-as em espaços próprios. "Transformadas por nós (...) em mercadoria de uma época, a criança contemporânea tem como destino flutuar erraticamente entre adultos que já não sabem o que fazer com ela" (Pereira & Jobim e Souza, 1998, p.38) Ainda segundo as autoras citadas, se a partir do discurso moderno, a criança passa a ser reconhecida como sujeito, sendo valorizada como alguém que fala e produz diálogo, a ausência do interlocutor adulto acaba por aprisioná-la num monólogo sem fim, sem projeto. Esta fórmula contemporânea onde reconhecemos crianças autônomas e adultos ausentes é mobilizadora do enfraquecimento das relações alteritárias. Talvez, o desafio do presente seja a possibilidade de potencializar a autonomia e autoridade da criança no sentido do diálogo com o adulto, que também reconhece sua própria autoridade. Trata-se da possibilidade de "deixar emergir a diferença no seu caráter extensivo de alteridade e abertura para novos acordos intersubjetivos..." (idem,, p. 40). De acordo com Amorim (2001), a alteridade implica numa forma radical de considerar a diferença, levando em conta o estranhamento que produz obstáculo ao reconhecimento. Trata-se de um outro tão outro, que é difícil compará-lo: "a diferença traz sempre uma associação entre diferenciando e diferenciado; já, na alteridade, trata-se de dissociação – o outro é irredutível a mim e a ele mesmo"(p.73). Consequentemente, não se trata de compreender o outro-criança com o objetivo de trazê-la para os referenciais adultos, analisando o que a distância e o que a aproxima do ser adulto, mas de possibilitar contato, troca, sem diluição das fronteiras. Atualmente, a alteridade da criança ou é apaziguada pela identificação de suas expressões com alguma fase e comportamento pré-determinado que precisa ser Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 10 levado a avançar, sendo "educado" pelo adulto; ou é supervalorizada a potência infantil, assemelhando-se a criança ao adulto. Parece que o desafio colocado na relação entre adultos e crianças diz respeito a possibilitar a experimentação da alteridade de cada um, enfrentando a questão: o quê na criança me altera, surpreende, desinstala? Como essa relação me empurra para outro lugar? Por outro lado, não é possível fechar os olhos para a possibilidade da tradução, a passagem de um sentido para o outro, do sentido da criança ao do adulto, sem que os limites sejam apagados. Ao refletirmos sobre as relações com as crianças, podemos perguntar: até que ponto deixamos emergir o que delas nos altera, ou "forçamos" para que só nós possamos alterá-las? Até que ponto conseguimos constituir práticas e relacionamentos onde os sentido produzidos pelos adultos e pelas crianças emerjam, sem diluir as fronteiras e deixando emergir as diferenças? Quais relações com as crianças podemos construir como projetos no mundo contemporâneo, reinventando a utopia e a relação alteritária? 1.2 Caminhos no mundo atual Algumas importantes questões se colocam, quando pensamos o lugar da criança na sociedade e nas instituições de Educação Infantil: no discurso acerca do desenvolvimento humano, como escapar da seta ascendente da modernidade (que coloca a criança como outro a completar-se somente no futuro) e, ao mesmo tempo, como fugir do discurso presente que supervaloriza a potência da criança, desqualificando, portanto, as relações alteritária com o adulto? Bauman (1998) localiza uma genuína capacidade emancipadora nos pós modernidade, que se coloca na possibilidade de realizar a obra do desencaixe das identidades fixas (forjadas na modernidade), a partir do "direito de escolher a identidade como única universalidade do cidadão e ser humano, na suprema e inalienável responsabildiade individual pela escolha" (p.46). No entanto, quando nos referimos particularmente às crianças pequenas (mas também a qualquer pessoa), a ideia da reconfiguração a cada nova situação, a identidade modulada, produz um desafio a ser enfrentado: a insegurança e uma espécie de sensação de fragmentação, à medida que cada atividade fica isolada, não se sustentando nas outras. É o próprioBauman (2000) que nos auxilia neste desafio quando sugere a importância de considerarmos a inclusão, no sentido da sensação de pertencermos a um lugar ou grupo. Nosso desafio se coloca na construção de práticas Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 11 que ancorem essa ideia um tanto difusa no padrão pós-moderno de vida, onde a modulação da identidade produz incerteza, instabilidade, risco; e onde as coletividades são vivenciadas como aglomeração de sujeitos, cada um voltado para si mesmo. As redes de segurança coletivas estão ameaçadas pelas exigências de competitividade, flexibilidade e eficiência, próprias do mundo atual; as redes que ligavam as pessoas entre si foram sendo esgarçadas, dando lugar a um individualismo sem precedentes. Hoje, a segurança constituída no mundo moderno gerou o ônus do enclausuramento, das identidades rígidas, das padronizações (afetando a consideração do "ser criança", inclusive). Mas, a soltura das identidades modulares contemporâneas gera mal-estar e, consequentemente, busca de novas formas de conquistar confiança, reconhecimento e inteligibilidade, num contexto marcado pelo elogio à diversidade. Neste sentido é que Bauman (2000) defende uma reconstrução da universalidade, não como homogeneidade ou pureza, mas como "capacidade da espécie se comunicar e alcançar entendimento mútuo – no sentido de ´saber como prosseguir´ (...) diante de outros que podem prosseguir por caminhos diferentes" (p. 204). É exatamente essa possibilidade de construção de significados nas relações, ao contrário da consideração de significados que regem os relacionamentos de antemão, que pode ser aproximada das considerações de Bakhtin a respeito das relações eu/outro na constituição do mundo da vida. Desde seus primeiros trabalhos, Bakhtin mostrou a preocupação em evidenciar o ser humano como evento único, impossível de ser contemplado por uma razão teórica, ou por perspectivas universalizantes, obscurecedoras da singularidade. É exatamente o irrepetível, o ser como acontecimento, constituindo-se no mundo da vida, que mobiliza seu trabalho (Faraco, 2003). Bakhtin (1993) afirma a impossibilidade do ser, em sua unicidade, ficar indiferente ao outro, pois a posição de "ser único" exige um posicionamento e responsabilidade. Responsabilidade não no sentido do aprisionamento às leis universais, mas no sentido de "dar respostas" congruentes, a partir do lugar único que cada um ocupa. O ser é evento único, mas sua ação se coloca em relação ao outro. O eu não vive só para si e é na contraposição com o outro que o mundo dos sentidos possíveis se constitui. Na relação eu/outro está em jogo sempre a constituição mútua, dos dois sujeitos em interação, através de uma responsividade axiológica. Toda fala/enunciação responde a algo. É uma tomada de posição em um curso de acontecimentos. Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 12 "A vida conhece dois centros de valor que são fundamentais e essencialmente diferentes, embora correlacionados: eu e o outro; e é em torno desses centros que todos os momentos concretos do ser se distribuem e se arranjam" (Bakhtin, 1993, p.91) De acordo com Bakhtin (2003), o ser da expressão é bilateral. Trata-se sempre da penetração mútua de duas consciências com manutenção da distância, o que envolve empatia (certa "mistura" com o outro) e objetivação, não definitiva. Consequentemente, a construção de significados acontece não como algo pronto num esquema teórico anterior à ação, mas a interpretação dos sentidos do mundo está ligado às ações no mundo, e às inter-relações com os outros, indicando que interpretação e ação estão juntas. É agindo e movendo-me no mundo, imerso em relacionamentos, que o sujeito interpreta-o, conhece e cresce. Bakhtin (1993) postula que a ética formal não aborda o ato vivo, mas somente a ação que já foi realizada, ou seja, pressupõe a generalização de atos já realizados. O autor afirma que "é apenas de dentro do ato realmente executado, único, integral em sua responsabilidade, que nós podemos encontrar uma abordagem ao ser único e unitário em sua realidade concreta" (p.45). Percebemos uma articulação possível com as ideias acima, quando Pence, Dahlberg e Moss (2003) citam o posicionamento de Bauman a respeito dos desafios colocados na construção de uma ética pós-moderna. A infinitude do processo de autocriação pode gerar insegurança, mas também possibilidade de criar regras contextuais, construção de significados nas relações, ao invés do funcionamento por regras. É possível tomar decisões e constituir-se sem códigos universais homogeneizantes, a partir da consideração da ação e da responsabilidade. Bauman (1998) afirma que "a liberdade individual precisa de proteção coletiva"(p.253). Trata-se também de considerar que o sujeito que assume responsabilidades, vive a liberdade no contexto da variedade e não em relação a uma una e única verdade, monológica, centrada em Deus ou num sujeito esssencializado e idealizado. Lembrando Bauman (1998), largamos as armas da Modernidade na busca por segurança (a saber, objetividade, universalidade, etc). Então, cabe perguntar: quais as armas que é preciso buscar hoje? Considerando que o projeto é garantir a liberdade, a autocriação permanente, sem produzir desencaixe, precisamos criar dispositivos que sejam coletivos e criativos. Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 13 Cabe aproximar essa visão da posição de Deleuze, que afirma possibilidades de resistência e produção do novo, no contraponto das estratégias sempre inusitadas do poder encapsular o que se produz como singular. Trata-se de compreender no homem a possibilidade de recriar si mesmo e ao mundo, comprometido com planos coletivos de sentido ou significados compartilhados. "Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo que pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos (...) É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo" (Deleuze, 1992, p.218) Concluímos, então, apontando como desafio contemporâneo na relação com as crianças pequenas, primeiramente, a necessidade de pensar a formação da identidade como criação de si na relação com o mundo, e não como repetição de padrões previamente estabelecidos. Trata-se de considerarmos a criança como acontecimento, ou seja, algo que nos surpreende e desinstala em relação ao que pensamos dela conhecer. Também, a necessidade de pensarmos a criação de si enredada num coletivo, ou seja, em relacionamentos que configurem contextualmente as identidades em formação. 1.3 Alguns apontamentos sobre a infância contemporânea A infância e a criança sempre existiram, porém o olhar sobre elas e a preocupação com suas aprendizagens que gradativamente foi modificado com a evolução histórica da sociedade. Contudo, toda a evolução perante o olhar infantil ainda é algo insuficiente para o desenvolvimento da criança no ambiente escolar da Educação Infantil atual. Por isso, destacamos a importância de conhecer mais a infância e a criança, a importância da memória infantil, sem esquecer a grande relevância do trabalho do educador que atua neste ambiente de ensino juntamente com seu olhar infante, cauteloso, astuto, pedagógico e metodológico para com a infância contemporânea. A criança é o sujeito cultural e social, inserida na infância. Assim, Sarmento (2005) ao se reportar sobre esta afirmação salienta que [...] a infância é independente das crianças; estas são os atores sociais concretos que em cada momento integram a categoria geracional; ora,por efeito da variação etária desses atores, a "geração" está Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 14 continuamente a ser "preenchida" e "esvaziada" dos seus elementos constitutivos concretos. (SARMENTO, 2005, p. 364) Ao recorrer a este conceito contemporâneo sobre infância destaca‐se que está intimamente implicada numa construção social e cultural, ela é compreendida como uma categoria social em que as crianças a constituem. Nesta perspectiva, destacamos algumas contribuições da sociologia da infância, campo de estudo e investigação em que se oportuniza a pesquisar e interrogar a sociedade a partir de um ponto de vista que acolhe e toma as crianças como sujeitas de investigação sociológica, ampliando assim o conhecimento não apenas sobre a infância, mas como as crianças aprendem e se desenvolvem em seus contextos e suas relações com a sociedade como um todo. Até pouco tempo atrás a criança era compreendida como sujeito que não possuía história e cultura em separado dos adultos, era conhecida como “adulto em miniatura”. Nesta perspectiva, Ariés (1973) destaca a análise da produção existente sobre a história da infância permite afirmar que a preocupação com a criança fez‐se presente somente a partir do século 19. Apesar disso, mesmo a infância constituindo‐ se em um problema social desde o século 19, ainda não foi suficiente para torná-la um objeto de investigação científica. Estudos mostram que até o início da década de 60 do século 20 a história da infância e a história da educação pareciam ser dois campos distintos e inconciliáveis de pesquisa. (ARIÉS, 1973, p.279) Com o passar dos anos este quadro foi se modificando. Com a contemporaneidade, a chegada da globalização e com os avanços tecnológicos a compreensão de infância, de sua imagem e a linguagem da criança passaram a ter outro reconhecimento. As crianças começaram a serem compreendidas como sujeitos históricos e sociais, assim, estimadas por algumas áreas do conhecimento, tais como a psicologia, filosofia, sociologia, antropologia, medicina (em especial a pediatria), pedagogia, psicopedagogia, dentre outras. A pergunta instigante que Walter Kohan nos apresenta no início do texto, “O que é a infância?”, em determinados momentos tão difícil de responder, pois, a infância possui muitas dimensões e sentidos, a interrogação faz‐se necessária para refletir sobre as potencialidades dos sujeitos que estão inseridos neste período da vida. Assim, ainda sobre o assunto Larrosa (2006) interpela: [...] a infância é um outro: aquilo que, sempre além de qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos saberes, questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio em que se abisma o edifício bem construído de nossas instituições de acolhimento. Pensar a infância como Educação Infantil na Contemporaneidade | Modernidade e Pós-modernidade www.cenes.com.br | 15 um outro é, justamente, pensar essa inquietação, esse questionamento e esse vazio. (Larrosa, 2006, p. 184) Em muitos momentos não conseguimos imaginar todas as potencialidades da criança, já que em determinados períodos acabamos subestimando a inteligência e a criatividade delas. Muitas vezes não paramos para ouvir e ver o que estão fazendo e como estão se desenvolvendo, deixando nossa experiência adulta atravessar a cultura da infância, e desta forma, os adultos não permitem que o sujeito que encontra‐se na infância por si só mostre sua expressividade e linguagem. Assim, nas palavras de Quinteiro (2002, p. 21), [...] pouco se conhece sobre as culturas infantis porque pouco se ouve e pouco se pergunta às crianças e, ainda assim, quando isto acontece, a ‘fala’ apresenta‐se solta no texto, intacta, à margem das interpretações e análises dos pesquisadores. Destarte, é imprescindível nos reportarmos ao ambiente escolar de Educação Infantil, já que a infância é a primeira etapa da vida, o início de tudo e por isso Kohan (2004, p.53) salienta que “a intervenção educacional tem um papel preponderante nessa linha contínua. [...] A infância é o material dos sonhos políticos a realizar. A educação é o instrumento para realizar tais sonhos”. A respeito de memórias da infância, Manoel de Barros (2003) nos remete descrevendo sabiamente em suas poesias ao abordar que hoje é um caçador de achadouros da infância. Talvez, tenhamo‐nos nós, educadoras, educadores, mães e pais que se tornar escavadores e investigadores dos nossos quintais imaginários, para podermos “encontrar as nossas preciosidades”, as infâncias e as crianças, que estão próximas sejam em nossos espaços profissionais ou pessoais. Neste sentido Manoel de Barros (2003) nos apresenta: Achadouros Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 16 pensar em achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. (BARROS, 2003, XIX) A infância e à docência nos possibilitam tantos achadouros como bem destaca Manoel de Barros em suas escritas poetizadas. Entretanto, “achar” exige muita sabedoria e o exercício constante de uma escuta atenta e um olhar sensível do educador diante das realidades, diversidades, culturas e narrativas das crianças. Assim como o poeta, o educador que trabalha na Educação Infantil precisa desenvolver a sensibilidade perante a infância, juntamente com o exercício de docência, para que possa adquirir sabedoria para se tornar “caçador de achadouros de infâncias” e assim desenvolver habilidades de “ver, ouvir e encontrar” as crianças neste espaço inquietante que é o contexto escolar. Observamos que diferentes espaços escolares destinados à Educação Infantil necessitam rever suas concepções e propostas pedagógicas sobre a infância, ainda apresentam rotinas rígidas e currículos prescritivos, sem flexibilidade. A criança neste contexto educativo quase sempre é neutra, portanto, não tem a oportunidade de participar dos planejamentos, tão pouco externar seus desejos e experiências de vida, de infância. Contrapondo‐se a está lógica excludente, faz‐se necessário repensar as concepções e ações pedagógicas do cotidiano infantil, abordando um currículo narrativo, para dar voz à criança e a infância que frequenta o espaço educativo, oportunizando‐as a uma educação pautada na solidariedade, cooperação, valorização humana, resgate cultural, na mútua ajuda e nas relações humanas. O desafio está posto, por conseguinte é preciso como nos apresenta Barros (2003), como educadores nos tornarmos também “caçadores”, ousamos ainda em dizer “descobridores”. Descobridores de infâncias, de docências e de nós mesmos, para garantir às crianças que se encontram na infância contemporânea, um futuro maisinclusivo e humano. 2 O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo O Homem de Orelhas Verdes Um dia num campo de ovelhas Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 17 Vi um homem de verdes orelhas Ele era bem velho, bastante idade tinha só sua orelha ficara verdinha Sentei‐me então ao seu lado a fim de ver melhor, com cuidado Senhor, desculpe minha ousadia, mas na sua idade De uma orelha tão verde qual é a utilidade? Ele me disse, já sou velho, mas veja que coisa linda De um menininho tenho a orelha ainda É uma orelha‐criança que me ajuda a compreender O que os grandes não querem mais entender Ouço a voz de pedras e passarinhos Nuvens passando, cascatas e riachinhos Das conversas de crianças, obscuras ao adulto Compreendo sem dificuldade o sentido oculto Foi o que o homem de verdes orelhas Me disse no campo de ovelhas. (Rodari, 1997, p. 13) Esta poesia apresenta um velho homem que apesar da idade, permite ainda que suas orelhas continuem infantis, atentas as vozes, barulhos, brincares e perspectivas que só as crianças possuem. A partir desta poesia, é possível nos questionamos às vezes pelas quais deixamos de ter orelhas verdinhas substituindo‐as pela impaciência, intolerância, negando o exercício da escuta e observação das crianças nos espaços escolares. Partindo de tal premissa, poderíamos refletir o motivo pelo qual ainda existem currículos prescritivos, que não preveem a voz da criança que participa desta infância que frequenta a Educação Infantil na atualidade. Muitos educadores e educadoras apresentam ainda os mesmos discursos corriqueiros da falta de tempo, pois se fazer a escuta das crianças não é possível “dar conta” dos planejamentos e das exigências Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 18 curriculares que o sistema impõe, e até mesmo, “da falta de importância da fala infantil” para os planejamentos e tantas outras desculpas dadas. Ao trazer a reflexão sobre currículo, Goodson (2008, p. 143) nos convoca a refletir sobre o currículo escolar, ao abordar que este “foi inventado basicamente como um conceito para direcionar e controlar a autonomia do professor e sua liberdade potencial na sala de aula”. Entretanto, entendemos que se faz necessário (re)pensar a questão curricular, se inicialmente este foi trazido com o objetivo de prescrever e controlar, agora ele precisa narrar. O mesmo autor (2008, p. 142) referenda que é necessário saímos do currículo como prescrição e partirmos para “o currículo como narração de identidade, do ensino cognitivo prescrito apara o ensino narrativo do gerenciamento da vida”. A criança por séculos foi silenciada, considerada sem importância, “sem lugar” social. Neste sentido, Bujes (2002) salienta que a infância que conhecemos atualmente não é um dado atemporal, mas sim uma invenção da modernidade. Foi em meados do século XVI, no ocidente, que as crianças começaram a se tornar objetos de uma maior investigação, relevância social e política, passando há pouco tempo fazer parte da história. Com os avanços da globalização e evolução sócio‐histórica a infância foi tomando corpo, legitimando‐se e as crianças que fazem parte integrante deste grupo social foram se tornando agentes e atores sociais, como bem Sarmento nos lembra. A escola em meio a esta trama passou a assumir o papel da escolarização das crianças, exercendo fortes influências nos desenvolvimentos cognitivos, afetivos e sociais destas, contribuindo para os processos de aprendizagem. Por conseguinte, apenas a institucionalização da infância pela escola não é suficiente, o educador mediador destes processos também necessita de formação contínua, pois a escola que atende crianças de zero a seis anos de idade, intitulada nacionalmente como Educação Infantil deve assumir caráter político, transformador, pedagógico e não assistencialista. Para tanto, os debates acerca da formação pedagógica do educador da Educação Infantil tem sido amplamente discutida ao longo dos anos, surgindo propostas de cursos de formação e tendências de desenvolvimento de formações permanentes. Conforme Alves (2007), a formação pedagógica dos educadores se dá em rede, em cooperação e tem como finalidade possibilitar e efetivar a participação do educador na organização dos processos de formação, através do movimento prática‐teoria‐ Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 19 prática que também é atravessado pelas experiências, compreensões e aprendizagens que devem ser desenvolvidos ao longo de sua trajetória. A autora ainda destaca que: [...] fomos compondo sentidos sobre: a relação professor‐aluno; o papel do professor/professora na escola e na sociedade; como conduzir uma aula, bem como as tão diferentes aulas que precisamos fazer acontecer em toda a nossa vida profissional; onde procurar o melhor apoio para conduzir uma aula e todas elas; como encontrar, em um momento inesperado, uma resposta que não sabíamos que sabíamos. (ALVES, 2007, p.64) Diálogos sobre a formação dos educadores de Educação Infantil vêm tomando proporções significativas, tanto no âmbito nacional, quanto internacional e nestes destacam‐se as questões dos currículos, as práticas pedagógicas, quem são os sujeitos que frequentam o espaço da Educação Infantil, quem é este educador e os contextos educativos apropriados para a infância. Nessa perspectiva, vem sendo apontados os desafios e necessidades a serem superadas, levando em consideração as culturas infantis, as histórias de vida destes que compõem este espaço infantil que tecem seus significados e suas realidades sociais. Nos diálogos tecidos das compreensões sobre o grande desafio referente à formação pedagógica do educador de Educação Infantil, busca‐se desenvolver uma proposta política pedagógica coletiva de trabalho que articule as experiências, vivências e realidades sociais e culturais do educador e educando com os conhecimentos culturalmente construídos. Atualmente, ainda é possível observar nos interiores de escolas infantis, que alguns educadores ao desenvolverem suas práticas pedagógicas diárias em sala de aula, não conseguem romper com as concepções tradicionais pré-estabelecidas desde as experiências de suas formações iniciais e acabam assumindo o currículo prescritivo, rígido, sem flexibilidade, uma vez que, necessitam “cumprir com os planos de estudos e com a tradicional matriz curricular, que é exigência do sistema de ensino”. A partir do exposto, amparados por Paulo Freire, propomos alguns aspectos para o debate. O autor considera que a formação de educadores deve abordar: [...] a fisionomia da escola que se quer, enquanto horizonte da nova proposta pedagógica; a necessidade de suprir elementos de formação básica aos educadores nas diferentes áreas do conhecimento humano; a apropriação, pelos educadores, de avanços científicos do conhecimento humano que possam contribuir para a qualidade da escola que se quer. (FREIRE, 1991, p.80) Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 20 Para pensar a nova dimensão pedagógica que tanto se deseja no espaço da Educação Infantil, faz‐se necessário reconhecer a importância da intervenção pedagógica que o educador desenvolve neste contexto e que necessita em determinados momentos reviver suas lembranças de infância, pois estas muito têm a contribuir com suas práticas pedagógicas. Neste sentido, sugere‐se que o profissional que atua nesta modalidade de ensino deva exercer um papel ativo, dinâmico e afetivo, iniciando pelas consolidações dos espaços e ações pedagógicas.Destarte, o educador que atua com a Educação Infantil precisa ser mediador, com olhar atento e reflexivo, que possua orelhas verdinhas como apontou Rodari (1997), para poder ouvir as mais diversas formas de linguagens e expressões que a criança venha a apresentar. Para tanto, como autoras desta escrita, salientamos a necessidade do educador estar sempre questionando seu papel, na perspectiva do um trabalho suficiente para a formação das crianças, para isso é necessário refletirmos e questionarmo‐nos a todos os momentos. Assim, propomos algumas indagações para o educador no momento em que estiver realizando seu planejamento de aula e até mesmo que esses questionamentos pudessem estar mais presentes também na universidade, local onde o educador vai formar seu perfil enquanto profissional atuante na infância. Assim sendo, seguem algumas questões norteadoras que poderão auxiliar no desenvolvimento de uma prática pedagógica reflexiva: • Quais as histórias de vida das crianças que se inserem no contexto em que atuo? • Como conseguirei sensibilizar as crianças para que possam expor suas dificuldades, desejos, esperanças? • Onde e como meu planejamento de aula se insere na vida destas? • Como e em que sentido posso abordar questões necessárias para a vida destas crianças? • Qual é o sentido da escola para estes/ estas educandos (as)? • Que currículo esta sendo proposto e construído no espaço de educação em que atuo? • Como é o currículo do meu cotidiano de ensino e aprendizagem? • Como posso trabalhar o brincar/ lúdico em conjunto com meu planejamento de aula? • Como posso ensinar algo que seja realmente importante para o cotidiano de meus educandos (as)? • De que forma posso auxiliar na modificação da realidade atual do espaço Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 21 de ensino que atuo, transformando‐o em uma educação para e na infância? • Como minhas memórias infantis podem auxiliar na construção do meu planejamento de aula e na minha relação com as crianças? Enfim, não queremos aqui ter a pretensão de que os educadores consigam responder a todas as indagações, mas que com elas, possam refletir sobre sua prática de ensino, para que assim consigam “alargar” os olhares perante os currículos e práticas pedagógicas, e que de certa forma, estas possam ser de fato práticas inclusivas para a infância contemporânea nos espaços de Educação Infantil. 2.1 Reflexão da infância e da docência O Apanhador de Desperdícios Uso a palavra para compor meus silêncios. Não gosto das palavras fatigadas de informar Dou mais respeito as que vivem de barriga no chão Tipo água pedra sapo Entendo bem o sotaque das águas. Dou respeito às coisas desimportantes E aos seres desimportantes. Prezo os insetos mais que aviões. Prezo a velocidade Das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atrás de nascença. Eu fui aparelhado Para gostar de passarinhos. Tenho a abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo Sou um apanhador de desperdícios: Amo os restos Como as boas moscas. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 22 Porque não sou da informática: Eu sou da invencionática. Só uso as palavras para compor meus silêncios. Manoel de Barros (2003, IX) Manoel nos apresenta em sua poesia a possibilidade de buscar em nossas infâncias as experiências das coisas “desimportantes e desinteressantes” que muitas vezes são deletadas de nossas memórias ou até mesmo silenciadas. Entretanto, subjetivamente estes “desimportantes ou desperdícios” são os elementos que nos compõem enquanto sujeitos. A infância é a etapa primordial da vida, o início de tudo. Por isso, por ser o início do desenvolvimento da vida humana, requer uma atenção especial, principalmente no que tange os aspectos educacionais. Conforme Sarmento (2005), a infância é historicamente e culturalmente construída a partir de um processo de longa duração, que lhe atribuiu um estatuto social e que desenvolveu as bases ideológicas, normativas e referenciais do seu espaço e lugar na sociedade. Neste processo, a infância se desenvolve através das relações que as crianças vão estabelecendo entre pares e com os adultos, nos diferentes contextos sociais. A Educação Infantil deve ser espaço de ensino e aprendizagem onde as crianças tenham o direito à participação e acesso a um currículo narrativo, que se evidenciem suas identidades culturais e sociais, de maneira que possam utilizar as relações sociais e pessoais para a construção das aprendizagens significativas e conhecimento cognitivo. O educador exerce função preponderante no espaço de Educação Infantil, assume o papel de mediador pedagógico em um processo de ensino e aprendizagem, que estão em contato educando e educador para que através do mundo possam mediatizar a educação. Desta forma, Marques (1993), indica que se deve renovar a educação, já que o mundo está em constantes modificações, caso contrário de nada adiantaria o acesso facilitado das crianças, adolescentes, jovens e adultos a educação se não se busca por parte dos educadores a adequação desta as demandas impostas pelas novas formas da vida cultural, social e cidadania. É possível sonhar com uma educação para e na infância, que seja inclusiva e mais humana, onde apresente currículos que valorizem as crianças e que sejam construídos Educação Infantil na Contemporaneidade | O educador de escolarização inicial: um processo reflexivo www.cenes.com.br | 23 coletivamente nos cotidianos escolares. Nesta mesma perspectiva, trazemos Freire (1994) para nos falar que: Não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperança. Por isso, venho insistindo [...] que não há utopia verdadeira fora da tensão entre a denúncia de um presente tornando‐se cada vez mais intolerável e o anúncio de um futuro a ser criado [...]. A utopia implica essa denúncia e esse anúncio. (FREIRE, 1994, p. 91) Compartilhamos enquanto educadoras dos mesmos sonhos, e ainda acrescentamos que trazemos em nossas singelas escritas a esperança de termos escolas com currículos que valorizem as crianças e educadores em suas singularidades, diversidades sociais e culturais. Sonhamos e temos a esperança de podermos desenvolver práticas pedagógicas que possam escutar, observar, dialogar, compreender, oportunizar e incluir nossas crianças e que de fato possamos utilizar nossas memórias infantis para melhorarmos as práticas de ensino e aprendizagem. Por fim, estes sonhos de uma forma ou de outra podem alimentar com esperança de que a criança em sua infância será escutada e observada com outras lentes, ouvidas com orelhas verdes e enxergadas como preciosidades de extremo valor, através de um olhar sensível e humano. Como educadores possamos temos em mãos o desafio de ter sempre orelhas verdinhas para com a infância, que nos atravessa cotidianamente sem desperdiçar as coisas que ‘julgamos’ ser desimportantes, mas para a criança são de grande valia. A inquietação nos constitui enquanto sujeitos reflexivos e pesquisadores. É através da inquietação e da indagação que podemos pensar as práticas pedagógicas que valorizem e evidenciem as crianças que vivem o período da infância. Para tanto, é importante não nos esquecermos da criança que um dia fomos para que assim possamos interferir menos na cultura da infância com a qual trabalhamos em nossos cotidianos escolares. Para que assim, consigamos deixar a prescrição para trabalhar com a narração para com a infância contemporânea, que esta discussão possa iniciar um processo reflexivo desde a academia, que o educador consiga sair desde a universidade com suas lentesampliadas em relação a educação destinada ao público infantil, e a partir disso, possa estar sempre em busca de novos olhares, novas formas de escuta e observação das crianças. Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 24 3 As mídias no cotidiano infantil O avanço tecnológico em ascensão e o processo instantâneo de propagação dos mais variados tipos de informações em trânsito global é uma constante na vida dos sujeitos contemporâneos. Atualmente, o uso das mídias e dos recursos tecnológicos configuram-se em importantes canais de integração cultural e social em todos os âmbitos políticos, econômicos, sociais, étnicos e culturais. Nesse contexto, o cotidiano da criança contemporânea é mediado por diversas informações transmitidas pelos mais variados tipos de mídias, a saber: TV, jornais, rádios, revistas, placas e outdoors nas ruas, sites, web, rede sociais, aplicativos online, escadas rolantes, elevadores, dentre outros agentes alternativos de comunicação, podendo propiciar na criança o desenvolvimento de habilidades múltiplas que não podem ser ignoradas nos âmbitos escolares. O diálogo que é estabelecido por meio das interações sociais entre a criança e, a família, o professor, as outras crianças, e também a mídia, é fundamental para o seu desenvolvimento e a sua formação integral. Sobre esse aspecto, Barbosa (2009, p.31) afirma que: Os avanços científicos nos mostram a importância das interações sociais para o desenvolvimento das crianças, desde a mais tenra idade, como também evidenciam a relevância da interlocução com as linguagens simbólicas da família, do professor e das demais crianças. A formação das crianças acontece em processos de interação, negociação com os outros ou por oposição a eles. As mídias e os recursos tecnológicos têm disponibilizado no cotidiano infantil os mais diversos modos de aprender e descobrir, e isso reflete nos aspectos educacionais. Nesse sentido, o estudo de Bourscheid e Noal, (2011, p.15), afirma que: [...] a mídia de maior acesso entre as crianças pesquisadas é a televisão. As demais tecnologias e mídias como: telefone celular, computador, rádios e os livros tem sua importância e sua utilização repercute no processo educacional. Mediante o explicitado, compreendemos que os conteúdos infantis transmitidos pelas mídias eletrônicas são os mais variados e atuam diretamente no processo de construção e formação da criança, conferindo a ela autonomia frente as tecnologias. Atualmente existem aplicativos educativos online que disponibilizam programas apropriados para a utilização em smartphones, tablets e smarts tvs, e que ensinam as crianças a falar e a escrever em Português e Inglês; além disso, já existem Jogos educativos de alfabetização; jogos com enunciados em inglês e um certo grau de complexidade na sua execução; programas infantis e educativos de televisão que desvelam cenários culturais politicamente organizados, e seriados infantis com Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 25 episódios sequenciais que apresentam polêmicas da atualidade, como por exemplo, a ideologia de gêneros, que tornam as novas gerações de alunos da Educação Infantil sujeitos altamente desafiadores para o corpo pedagógico na escola, quanto à socialização e ao processo de ensino e aprendizagem. Contudo, consideramos que, para que o uso das mídias e tecnologias venham contribuir de forma benéfica na aprendizagem da criança é necessário o acompanhamento de um adulto que a direcione de forma construtiva e funcione como um filtro para as informações. Sobre esse aspecto, Bourscheid e Noal (2011, p.12) afirmam que: Para que os programas televisivos e o uso das diferentes tecnologias contribuam para a construção da aprendizagem é importante que os pais, além de acompanhar estimule o senso crítico dos programas e propagandas para que a criança não assista passivamente, mas que ao assistir aos programas com os filhos, aproveite a ocasião para discutir o conteúdo do que é visto, bem como daquilo que é veiculado em comerciais. Nesse sentido, a convivência das crianças com as mídias pode ser bastante benéfica ou prejudicial, isso vai depender da maneira como é estabelecida essa relação e qual conteúdo está sendo absorvido e processado pela criança. A observação dos conteúdos pelos pais e responsáveis pode funcionar como um filtro das informações midiáticas veiculadas no cotidiano da criança. 3.1 O uso das mídias no processo de socialização na educação infantil As mídias, nos dias atuais são fontes imprescindíveis de socialização. Nos ambientes educacionais, em especial, onde a socialização faz parte do processo de ensino e aprendizagem, consideramos que as mídias e os recursos tecnológicos podem desempenhar papéis importantes, uma vez que propiciam a interatividade entre os sujeitos que ali se encontram. A socialização é o processo de integração entre as pessoas e permite a troca de conhecimentos, de valores culturais e sociais, e favorece a aprendizagem, a construção de saberes, e o desenvolvimento através da interação. De acordo com estudos realizados, Gheller (2012, p. 23), afirma que “antes das crianças chegarem à escola já passaram por processos de educação importantes: elo familiar e pela mídia eletrônica”. Desse modo, em geral, a criança que compõem a Educação Infantil espera que a Escola dê continuidade ao seu processo de socialização que começou em casa, e por Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 26 meio do uso das mídias e tecnologias que já fazem parte do seu cotidiano. Sobre esse aspecto, Moraes e Teruya (2010, p.5) afirmam que “ao assumir uma metodologia colaborativa, o professor deve incorporar o uso da internet como ferramenta auxiliar no processo de ensino e aprendizagem”. Dentre as mídias e recursos tecnológicos que podem ser utilizados nos trabalhos pedagógicos na Educação Infantil destacam-se a televisão, o vídeo, o rádio, a filmadora, o gravador, a câmera fotográfica, o computador, e a internet. Diante dessas muitas possibilidades, o acesso da criança às mídias no ambiente escolar pode ser bastante enriquecedor, uma vez que essa alternativa permite a interação do aluno com um mundo vasto de situações de aprendizagens. Logo, o professor da Educação Infantil deve propiciar aos alunos experiências que os conduzam às várias formas de expressão e produção. Além disso, como veículo cultural e social, as mídias favorecem experiências aos alunos que os ajudam a se apropriarem de sua sociedade e identidade. Ao encontro do explicitado, Barbosa (2009, p.48) destaca que: O objetivo da Educação Infantil, do ponto de vista do conhecimento e da aprendizagem, é o de favorecer experiências que permitam às crianças a apropriação e a imersão em sua sociedade, através das práticas sociais de sua cultura, das linguagens que essa cultura produz, e produziu, para construir, expressar e comunicar significados e sentidos. É evidente que se torna imprescindível oferecer às crianças situações práticas e vivências que possam ser processadas e sistematizadas por um corpo que sente e pensa, desde o nascimento. Por esse motivo, é preciso escolher outras formas de priorizar, selecionar, classificar e organizar conhecimentos, mais próximos das experiências dinâmicas das crianças e não da visão fragmentada da especialização disciplinar, problematizada pela própria ciência. Sendo assim, o uso das mídias no processo de socialização na Educação Infantil pode tornar-se bastante relevante nos dias atuais, pois como agentes poderosos de difusão cultural, social, econômica e política, as mídias podem oportunizar aos alunos socialização, criticidade e a construção de conhecimentos globais que o ajudarão na sua formação enquanto cidadão crítico.3.2 O uso das mídias na organização do trabalho pedagógico da educação infantil Diante da nova configuração dos padrões culturais, políticos e sociais, em resposta ao avanço tecnológico globalizado e integrado a toda a sociedade, a Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 27 Educação e seus sujeitos precisam estar atualizados sobre as questões midiáticas e tecnológicas, a fim de introduzi-las em seus cotidianos educacionais. Sendo assim, no caso específico da atuação docente, fica claro que, em tempos cibernéticos é fundamental que o professor dispense uma atenção especial ao seu preparo e formação quanto ao uso das tecnologias. Para atender à demanda tecnológica que tem adentrado às escolas de Educação Infantil através dos alunos, os profissionais docentes necessitam estar devidamente capacitados para manusearem e acessarem conteúdos propícios à aprendizagem de seus alunos através de computadores e outros aparelhos eletrônicos. Sobre esse aspecto, Bülow (2006, p.5) revela em seus estudos que: O computador deve ser entendido como meio de apoio e de interação entre os elementos do processo educativo e do contexto social, trazendo benefícios no processo de ensino-aprendizagem desde que a formação docente também contemple o uso da tecnologia em seus currículos, preparando o professor para o trabalho com a Informática Educativa. Nesse sentido, a organização do trabalho pedagógico docente precisa estar interligada à realidade social de seus alunos de maneira a contribuir no seu processo de ensino e aprendizagem. Essa reflexão revela-se no fato de que o momento histórico precisa ser respeitado na relação professor/aluno. Tendo em vista que a Escola visa contribuir para o processo de transformação da sociedade, as transformações ocorridas através dos tempos precisam ser configuradas pelos profissionais docentes no sentido de buscar atualizações para a sua formação que os conduzam a uma organização pedagógica mais eficiente. Segundo Bülow (2006, p.13), “o processo acelerado das mudanças tecnológicas constituiu um desafio constante e crescente na formação dos professores”. Nesse sentido, em parte, as entidades educacionais já têm disponibilizado aos professores o acesso aos vários cursos formativos que envolvem a área tecnológica no intuito de capacitá-los no manuseio das ferramentas tecnológicas. Entretanto, consideramos que a relação professor/tecnologia/aluno exige muito mais do professor do que apenas saber utilizar os recursos, exige também que o docente desempenhe um papel reflexivo e crítico sobre as formas de aprender e ensinar, e a sua organização diante desse processo educativo. Nesse aspecto, Moraes e Teruya (2010, p.2), em seus estudos afirmam que: As competências para utilizar as novas tecnologias pressupõem novas formas de se relacionar com o conhecimento, com os outros e com o mundo, em uma perspectiva colaborativa. Essas alternativas propõem ir além dos cursos de Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 28 formação que contemplam apenas aspectos técnicos e operacionais. Isso exigirá do professor para alcançar uma concepção teórica da aplicação das tecnologias na educação escolar. Para utilizar os computadores, os professores precisam criar situações em que o conteúdo da aula faça sentido para o aluno, para que as produções escolares sejam significativas. A integralização das mídias na organização do trabalho pedagógico na Educação Infantil exige do professor atual uma maior flexibilidade e reflexão sobre suas práticas pedagógicas em contraposição à visão tradicionalista que enxerga a Educação Infantil como lugar apenas de acolhimento infantil em suas necessidades básicas. A conscientização do profissional quanto a sua função como educador e aos objetivos a serem alcançados precisam estar patentes nas suas práticas pedagógicas com o auxílio das mídias e recursos tecnológicos. Dentro do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (2012), divulgado pelo Ministério da Educação (MEC), encontramos registrados os diversos benefícios das mídias para o desenvolvimento integral da criança: Maior integração entre os alunos e professores, pelo acréscimo dos elementos sócio afetivos, e desenvolvimento de muita interação positiva com a escola e com a aprendizagem; redimensionamento do conceito de conteúdos escolares para além do que é tradicionalmente considerado e inclusão do desenvolvimento de habilidades, atitudes e a incorporação de valores; interação ativa das crianças com as atividades estimulando a habilidade de formar e emitir opiniões; preparação dos alunos ao uso inteligente desses recursos, destacando a importância de trabalhar a relação escola/criança/Tv/vídeo/computador numa perspectiva crítica, reflexiva, lúdica e harmonizadora, desde que se considerem concepções emancipatórias de educação e estratégias metodológicas coerentes com os objetivos de aprendizagens direcionados ao desenvolvimento da cidadania conscientes. (BRASIL,2012, s/p online) Tendo em vista as pesquisas apresentadas, compreendemos que, para atender as expectativas da educação utilizando o auxílio midiático dentro de sala de aula, o professor precisa criar muitos ambientes de aprendizagem que estimulem os alunos. Para tanto, o professor precisa ser criativo, criar métodos lúdicos que remetam seus alunos à colaboração, lançar desafios, e criar meios pelos quais a mídia possa ser canal cultural e identitário para que seus alunos se reconheçam numa sociedade enquanto cidadão críticos. Sobre esse aspecto, como é bem definido por Moraes e Teruya (2010, p.7) em seu estudo, “substituindo a pedagogia rígida tradicional por uma pedagogia virtual colaborativa.” Educação Infantil na Contemporaneidade | As mídias no cotidiano infantil www.cenes.com.br | 29 3.3 As mídias na educação O universo midiático possui variados meios que atuam na transmissão dos mais diversos tipos de informação e linguagem. Conforme explicitado em capítulo anterior, como exemplo de recursos midiáticos encontramos a televisão, o rádio, os jornais, a internet, revistas, vídeos, dentre outros, que funcionam como veículos de informação e conhecimento. As mídias interligam-se e complementam-se, cada uma com sua particularidade e, nessa perspectiva, cada mídia tem uma linguagem e um objetivo na disseminação das informações. Podemos afirmar que as mídias e as tecnologias de informação e comunicação vêm promovendo uma forte integração e socialização entre as pessoas em geral, de forma que esse processo midiático também tem impactado, ou causado mudanças na educação. Nesse sentido, depreendemos que as mídias conseguem atuar expressamente no cotidiano da vida social e cultural do indivíduo, transformando conhecimento, oportunizando novas aprendizagens, capacitando-o para se tornar um cidadão crítico. Logo, esse processo midiático pode expressar-se também como cultural, social e educativo, e de suma importância para as crianças que estão em formação e ao mesmo tempo absorvendo e aprendendo nessa escola midiática que a globalização oferece. Sobre esse aspecto, Belloni (2009, p.1083) afirma que, a mídia- educação é parte essencial dos processos de socialização das novas gerações, mas não apenas, pois deve incluir também populações adultas, numa concepção de educação ao longo da vida. Nesse contexto, o uso das mídias na educação pode oportunizar aos docentes práticas pedagógicas inovadoras, permitindo que a criatividade seja uma forte aliada nesse processo de interatividade. As novas tecnologias podem ampliar em muito o acesso da criança a sua própria autonomia de aprendizagem. Sobre essa perspectiva, Belloni e Gomes (2008, p.717) afirmam que A interação entre pares e com adultos, em situações favoráveis e inovadoras de aprendizagem e com