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A medula óssea, é um tecido de aspecto gelatinoso, encontrado no interior dos ossos, disperso por todo o esqueleto. Parte da medula está relacionada com a produção de células sanguíneas (é um “órgão hematopoiético”). 2.1.1. A medula é um derivado mesodérmico, que no desenvolvimento embriológico vai mudando de lugar por migração das suas células: Origina-se (2º mês) no próprio endotélio vascular. Migram (3º mês) para o fígado e baço, que serão os principais órgãos hematopoiéticos fetais. Na última fase fetal (8º-9º mês), as células acabam por se estabelecer na medula óssea. No nascimento, a actividade hematopoiética desenvolve-se já exclusivamente na medula óssea de todos os ossos (longos, curtos e planos), embora o fígado e o baço mantenham a potencialidade de se tornar activos de novo. Até em adultos, em casos de destruição total da medula óssea, estes órgãos assumem parcialmente a formação de células do sangue (“hematopoiese extramedular”). 2.2. A medula óssea é formada por dois tipos de tecidos diferentes, que supõem a evolução um do outro nas diferentes etapas da vida: 2.2.1. Medula vermelha ou activa, composta principalmente por células sanguíneas não maturas (em diferentes níveis de diferenciação). Esta medula, gradualmente é substituída pela medula óssea inactiva conforme avança a idade do indivíduo. No fim da época fetal, quase todos os ossos estão cheios de medula vermelha. No adulto, a medula diafisária dos ossos longos já está completamente substituída por medula inactiva, ficando a medula hematopoiética restrita ao osso esponjoso (ossos curtos e planos e epífise de ossos longos). 2.2.2. Medula branca, amarela ou inactiva, presente principalmente no canal diafisário dos ossos longos nos adultos. É um tecido adiposo, já sem células precursoras das células sanguíneas, resultante da substituição da medula vermelha por tecido adiposo (inactivo). Com o avanço da idade, a medula amarela acaba por ocupar quase todas as partes ósseas, pelo que em pessoas idosas está limitada a produção de células sanguíneas. BLOCO 3: HEMATOPOIESE 3.1. Hematopoiese é o processo de formação, desenvolvimento e maturação das células do sangue (eritrócitos, leucócitos e plaquetas) a partir de um precursor comum, o “hemocitoblasto” ou “célula mãe”, que é uma célula não diferenciada e pluripotencial. Diariamente, a medula óssea produz milhões de células. No processo da diferenciação para a produção de células sanguíneas, as células mãe diferenciam se inicialmente em dois tipos de células: Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 169 Mielóide, dá origem a todas as células sanguíneas com excepção dos linfócitos. Resultam desta célula: eritrócitos, plaquetas, leucócitos granulares (neutrófilos, basófilos e eosinófilos) e monócitos-macrófagos. Linfóide, produzem somente os linfócitos, nomeadamente os linfócitos B e T. 3.2. Regulação da hematopoiese. A diferenciação das células mãe ocorre como resultado dos estímulos periféricos (factores químicos externos e locais denominados “microambiente hematopoiético”) que determinam o tipo de células a ser produzida. 3.2.1. A maioria destas moléculas reguladoras são produzidas localmente na medula, mas também existem as produzidas sistemicamente (como a “eritropoietina”, que estimula a diferenciação dos eritrócitos quando produzida no rim e transportada pelo sangue à medula). 3.2.2. Estas moléculas reguladoras são produzidas perante diferentes estímulos intrínsecos (próprios do organismo) e ambientais (próprios do meio externo), que indicam que o organismo precisa maior quantidade de algum dos tipos celulares sanguíneos. Assim ocorre que: A falta de oxigénio nos tecidos (hipoxia, como nas pessoas que vivem a grandes altitudes ou em doentes respiratórios) estimula a secreção de “eritropoietina”, proteína estimuladora da diferenciação celular dos eritrócitos. As infecções bacterianas (como as anginas ou a apendicite) e inflamações agudas, estimulam a formação de neutrófilos e monócitos. Certos tipos de infecções (parasitoses intestinais, por exemplo) e alergias, estimulam a formação de eosinófilos e mastócitos Perdas sanguíneas (hemorragias como em mulheres com menstruações exageradas) produzem deficiência de ferro e estimulam a formação de plaquetas e dos eritrócitos. Antígenos (moléculas estranhas ao organismo), como por exemplo, bactérias ou vírus, estimulam a formação de linfócitos. 3.3. A linha de diferenciação mielóide parte das “células progenitoras mielocíticas” (derivadas directas das células mãe), que por estímulo diferencial de moléculas específicas, seguirão um dos seguintes caminhos de divisão e diferenciação: 3.3.1. “Mielopoiese”, para formar algum dos três tipos de leucócitos granulares (neutrófilo, eosinófilo e basófilo) 3.3.2. “Monopoiese”, para formar monócitos, que depois passarão ao sangue para se localizar como células fixas de órgãos (baço, pulmão, fígado) ou como células móveis, que permanecerão no sangue. Nestes lugares, sofrerão o último passo de maturação funcional, para se converter em macrófagos (activos). 3.3.3. “Trombopoiese”, para formar “megacariócitos”, células multinucleares, que se fragmentam para dar lugar às plaquetas. 3.3.4. “Eritropoiese”, para formar “reticulócitos” que são liberados ao sangue, onde acabam de maturar como eritrócitos Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 170 Figura 1. Hematopoiese. Imagens cortesia de André, http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hematopoiese_humana_pt.jpg . 3.4. A linha de diferenciação linfóide parte do “precursor linfocítico medular” (célula derivada directamente das células mãe), que por estímulo de moléculas específicas, seguirá um caminho (“linfopoiese”) de divisão e diferenciação em: 3.4.1. “Linfócitos B”, responsáveis pela “imunidade humoral”, são formados na própria medula, de onde são liberados para o sangue para chegarem aos órgãos linfóides secundários (gânglios, baço,…), onde completarão a sua diferenciarão só quando encontrar um antígeno (substância estranha) que estimule sua especialização. 3.4.2. “Linfócitos T”, são formados no “timo” (órgão linfóide primário situado no mediastino anterior) a partir de células precursoras que migram desde a medula. Acabam por produzir os diferentes tipos de células T, responsáveis pela “imunidade celular”, que passam aos órgãos linfóides secundários, onde serão activados perante estímulos antigénicos. Pode ocorrer uma produção exagerada de algum tipo celular sanguíneo, geralmente por estímulos fora de controlo em relação à alterações genéticas ou ambientais, como na “leucemia”, cancro do sangue que induz uma produção enorme de algum tipo de célula branca, diminuindo a produção dos outros tipos. Ao contrário, diferentes estímulos (tóxicos, doenças, medicamentos,…) podem provocar uma deficiência da produção de todos ou alguns dos tipos celulares, como acontece na “aplasia medular” (falta de actividade da medula óssea).