Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância Individualismo e Globalização Nesta Unidade trataremos das influências do processo de globalização na cultura, nas socie- dades, na economia que, de maneira integrada, interferem nas condições humanas. Figura 1 Eric Hobsbawm Fonte: Reprodução Eric Hobsbawn. Fotografia em preto e branco de um homem, ele usa óculos e tem cabelos grisalhos, a imagem é frontal de cabeça e ombro. Fim da descrição. O historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012) afirmava que, com a globalização, surgiu uma espécie de dissolidarização de classes, constituída pelo que classificou como "valores de um individualismo associal absoluto". Com isso, Hobsbawm (1995) problematizou um novo ciclo sistêmico do capitalismo, caracterizado pelo fenômeno da circulação global de capital, de modo a lançar luzes em seus sintomas sociais, na forma de indivíduos egocentrados. As novas necessidades de manutenção do frágil e já consolidado modo de produção molda- ram inéditas relações sociais, em uma espécie de isolamento em que os indivíduos se alienam da condição de classe, ou seja, de pertencerem a grupos de interesses comuns. O movimento trabalhista teve força quando havia condições de desenvolvi- mento, quando sindicatos e partidos podiam levar suas reivindicações a Es- tados capazes de fazer concessões. Tudo isso terminou por conta da transfor- mação nos modelos de produção. Como foram reduzidos em número, também passou a ser menor a sua ação política. Há uma diferença também no tipo da população trabalhadora, por causa, especialmente, dos progressos da educação em massa. Uma das coisas que eram características do movimento operário no passado era a boa qualidade de seus líderes, que eram cultivados e mantidos pelos sindicatos. Hoje, os mais inteligentes vão para a universidade sem com- promisso de voltar, e viram outras coisas. Podem continuar a ser de esquerda, mas já não são mais operários. Isso faz diferença. (HOBSBAWM, 1995) Como, então, poderíamos definir globalização sem nos prendermos somente aos aspectos econômicos superestruturais e à frágil ideia de "aldeia global", buscando como paradigma o exercício de Hobsbawm em aproximar a distante retórica sobre globalização do cotidiano de 4UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância uma sociedade que privilegia o consumo de massa de tudo o que é amoedável pelo capital, in- cluindo desejos, pessoas, ideias e sentimentos? Figura 2 Fredric Jameson Fonte: Wikimedia Commons #ParaTodosVerem. Eric Fredric Jameson. Fotografia colorida de um homem, ele usa óculos, camisa roxa, terno e gravata marrons, tem cabelos grisalhos, é um pouco calvo. A imagem é frontal de cabeça e ombro. Fim da descrição. Definiremos globalização a partir dos estudos do crítico literário e político marxista Fredric Jameson (1934-), tratando dos cinco níveis que a caracterizariam para demonstrar a coesão e articular políticas de resistência à globalização e seus efeitos negativos. São os níveis tecnológi- co, político, cultural, econômico e social. Globalização Tecnológica Sintetizando a metodologia de Fredric Jameson no estudo Globalização e estratégia polí- tica, o autor elege, como dissemos, cinco níveis a partir dos quais discorre sobre os resultados de sua análise. primeiro nível é o tecnológico e, logo de início, o termo já evidencia um dos principais antagonismos do conceito de globalização, que supõe a totalidade de algo. A Revolução da Informática e as novas tecnologias de informação, apesar de terem se cons- tituído de forma irreversível na produção e organização industriais e comercialização de pro- dutos, não atingem a totalidade da população mundial, em sua grande maioria excluída não apenas do dialeto digital, mas do próprio mercado de consumo para esses produtos. A exclusão digital produzida no bojo de um sistema que se pretende totalizante, assiste ainda à formação de um exército de analfabetos digitais, cada vez mais excluídos das relações de pro- dução mecanizadas e de acesso restrito à mão de obra extremamente especializada. Globalização e Política Da tecnologia para a política, Jameson dedica parte de seu estudo ao papel desempenhado pelo Estado-nação que, segundo alguns teóricos, teria dado lugar às corporações transnacionais conhecidas na década de 1970 apenas como multinacionais. 5UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância neoliberalismo ou a doutrina de livre mercado defendido para que referidas corpora- ções pudessem operar circulando capitais em âmbito global, ilusoriamente faz pensar em um distanciamento do Estado nas medidas econômicas para a autorregulação do mercado. Por outro lado, o Estado passou a ser um agente fundamental nesse sistema, a partir da ins- tituição de mecanismos legais e medidas intervencionistas que contraditoriamente garantem a "autogestão" das economias, requerendo, para tanto, uma efetiva intervenção governamental e um Estado centralizador. Outro antagonismo é o papel nacionalista visivelmente exercido pelos povos e governos europeus e o estadunidense. Ao passo do frágil discurso de "aldeia global", temos a ascensão de partidos políticos de extrema direita, ligados muitas vezes a grupos religiosos intolerantes, políticas racistas e na maior parte da Europa e também no Novo Mundo. Figura 3 Fonte: Acervo do Conteudista Durante discurso pronunciado no campo histórico do Rütli, durante feriado na- cional, Samuel Schmid, atual presidente da Confederação Helvética e ministro da Defesa, é vaiado e insultado por setecentos neonazistas. #ParaTodosVerem. Fotografia colorida de cinco jovens brancos, três com camisetas pretas e dois com camisetas vermelhas, todos têm 0 cabelo raspado, os dois jovens da frente estão com os braços levantados e parecem gritar algo. Ao redor dos jovens, estão bandeiras vermelhas. Fim da descrição. Há um evidente descompasso entre o discurso de aceitação da diversidade cultural em um mundo "cada vez menor" e o comportamento de povos europeus, notadamente cultos, tais como franceses, ingleses e alemães, repudiando publicamente africanos, hindus e latino-ame- ricanos; ou estadunidenses, que levantam barreiras físicas e legais para impedir a imigração de mexicanos, os quais comumente morrem nas fronteiras. Na Alemanha, os neonazistas do Nationaldemokratische Partei Deutschlands (NPD), lide- rados por Peter Marx jurista e secretário geral do grupo parlamentar do NPD -, conquistaram doze cadeiras no Parlamento Regional do Estado da Saxônia, o Landtag, em Dresden, denun- ciando a assustadora aceitação de 9,2% dos eleitores, ou seja, 19.087 almas, aos preceitos da causa nazista que se pensava adormecidos. No discurso político do partido inclui-se a atribuição do desemprego que atinge boa par- te dos jovens alemães aos imigrantes, ao contrário do que qualquer estatística racional possa concluir em relação à proporção entre a força de trabalho estrangeira e a alemã naquele Estado. 6UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância Figura 4 Jean Marie Le Pen Fonte: Reprodução #ParaTodosVerem. Jean Marie Le Pen. Fotografia colorida de um idoso branco, calvo e usando óculos, terno e gravata. Na imagem é frontal de cabeça e Fim da descrição. Em 2002, quando foram divulgados os resultados do primeiro turno da eleição presidencial francesa, o mundo "prendeu a respiração" com o sucesso de Jean-Marie Le Pen, da Frente Na- cional francesa, grupo político de extrema direita com intrínsecas relações com a NPD. mes- mo ocorreu na Áustria, com a eleição de um primeiro-ministro neonazista. Na Inglaterra, basta que jogadores latino-americanos ou africanos toquem na bola, em par- tidas de futebol, para que hooligans imitem grunhidos aludidos a macacos o mesmo fenôme- no ocorre na Espanha. Globalização e Diversidade Cultural O discurso pró-globalização nos Estados Unidos constitui-se cuidadosamente sobre uma base "politicamente correta", fundamentalmente em relação às diferenças étnicas, pregando uma aceitação que, de início, sabe-se frágil em um país que tem profundas tradições racistas. Outro ponto central no discurso pró-globalização é o papel das unidades caracterizadas como Estados-nações e seu ficcional desaparecimento. Para Eric Hobsbawm (1995) as economias nacionais seriam "unidades mais velhas", defini- das por políticas territoriais de Estado, que estariam reduzidas às complicações decorrentes de atividades transnacionais. Nos argumentos de Fredric Jameson (2001) percebemos que essas unidades políticas são desestruturadas pela ideia e políticas neoliberais em virtude das neces- sidades do grande capital para a promoção de um estágio de comercialização mundial, com a formação de gigantescos blocos econômicos. Na prática, o que vemos é o enfraquecimento desses governos, alimentando a hegemonia de Estados centrais nessa nova ordem econômica, estabelecida por meio de comércios agressivos. Ao invés de desaparecerem os limites nacionais, os Estados-nações são paulatinamente subor- dinados a Estados centrais. Como explicar o desaparecimento da ideia de nação com o ressurgimento do nacionalismo politicamente à direita dos movimentos sociais? Como coexistir a concepção de aceitação das diversidades étnicas e culturais com as graves condutas de intolerância religiosa, perseguição a homossexuais, negros e latino-americanos em diversas realidades nacionais. Enquanto o discurso neoliberal, na periferia do sistema capitalista, defende a abertura de suas fronteiras fiscais e de seus mercados para a penetração de seus produtos e tecnologias, no centro do sistema vigora o nacionalismo econômico. 7UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância A hegemonia política de Estados centrais no sistema capitalista caminha ao passo do chamado imperialismo cultural, ascendente principalmente após o término da Segunda Guerra Mundial, com os tratados de concessão para emissoras televisivas norte-americanas e de garantia de merca- do para produções cinematográficas hollywoodianas, em acordos firmados com diversos países. As indústrias culturais locais de entretenimento dificilmente irão suplantar Hollywood com uma forma global bem-sucedida no mundo inteiro, em espe- cial devido ao fato de que o próprio sistema americano sempre incorpora ele- mentos exóticos do estrangeiro, um pouco de cultura samurai, outro de música sul-africana, o cinema de John Woo, comida tailandesa, e assim por diante (JAMESON, 2001) A globalização cultural, lê-se no discurso de Jameson (2001), atua como tentativa de unifor- mizar o mundo a um modelo de cultura de massa, no campo televisivo, musical, comportamen- tal, gastronômico, da indumentária e em todos os outros. Não se trataria de uma tentativa ingênua de tomada de mercados, evidenciando que a cul- tura, na Era do capital, constitui produto, é amoedável e, portanto, caminha ao passo da eco- nomia; mas a destruição de culturas locais onde se estabelece. Implica no desaparecimento de restaurantes típicos onde se fixam os fast foods; no desestímulo à produção cinematográfica de países antes tradicionais nesse ramo. Dimensão Econômica da Globalização Para tratarmos da dimensão econômica da globalização, segundo Fredric Jameson (2001), temos que retomar o princípio de que não houve o desaparecimento dos Estados-nações diante das corporações transnacionais, afinal: o autor nos mostra que há uma notória cumplicidade entre ambos e os discursos em torno de sua inexistência mascaram seus interesses individuais, com o uso da fantasia criada pela ideia da globalização que, grosso modo, pode ser definida como um novo ciclo sistêmico no modo de produção vigente, no qual há necessidades de circu- lação global de capital, cuja acumulação primitiva tem novo lugar nas megacorporações. O Estado tem o papel de garantir a quebra de barreiras para seu livre fluxo. Não se trata de um movimento natural: há um grande interesse das corporações em se estabelecer em países pobres, alimentando-se de miseráveis e desesperados como mão de obra barata e semiescrava, de isenções fiscais e concessões de governos corruptos e de multidões de desempregados nos locais de onde migraram. O mesmo ciclo se desencadearia novamente quando as mesmas cor- porações abandonassem esses novos locais, já não mais tão pobres com a criação de um merca- do consumidor a partir da instituição de mão de obra assalariada, seguindo em busca de novos miseráveis que aceitassem uma espécie de "escravidão voluntária". Para Fredric Jameson (2001), da mesma forma que, em nível cultural, o estabelecimento econômico em áreas de exploração e a transferência de operações para locais mais baratos mi- nariam as economias e destruiriam os mercados nacionais, evidenciando um dos vários as- pectos perigosos da globalização, como a especulação destrutiva de moedas estrangeiras e a dependência econômica de países subdesenvolvidos, submissos às políticas econômicas dos países do Primeiro Mundo, em troca de empréstimos e investimentos. No mundo economica- mente globalizado, nesses termos, transferências instantâneas de capital poderiam empobrecer, da noite para o dia, regiões inteiras. Globalização e Sociedade O último nível caracterizado por Fredric Jameson em sua análise sobre a globalização é o so- cial e, neste aspecto, a destruição do que se convencionou como tecido cotidiano faz-se evidente 8UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância com o distanciamento do indivíduo do conceito de grupo e classe. Os padrões de unidades nucleares de família e cederam à sociedade moderna impessoal de consumo que, em seus próprios dizeres, "individualiza e atomiza", negando o de Aristóteles. Figura 5 Fonte: Getty Images Fotografia colorida de um homem empurrando um carrinho de supermercado na rua de uma cidade. Ele representa um homem brasileiro durante a coleta de lixo reciclável, principalmente latas. Fim da descrição. Para Fredric Jameson trata-se do elemento-chave que desencadearia toda a configuração de nossa sociedade, explicando-a melhor do que os conceitos de base moralista de "individualismo corrosivo" ou "materialismo consumista". A Mais Dura Crítica à Globalização John Peter Berger (1926-), crítico de arte, romancista, pintor e escritor inglês, prefaciando a obra Fahrenheit 11 de setembro, do cineasta estadunidense Michael Francis Moore (1954-), caracterizou o papel dos Estados Unidos sob o governo George W. Bush (1946-), em relação à globalização e às megacorporações, como uma "quadrilha" que teria tomado de assalto - pela fraude eleitoral denunciada no filme - a Casa Branca e o Pentágono "[...] para que o poder dos Estados Unidos dali em diante estivesse a serviço, prioritariamente, dos interesses globais das grandes empresas" (MOORE, 2004). A afirmação parece dura pelas adjetivações que traz; porém, sintetiza os interesses que le- varam à formação de um grupo político a serviço das megacorporações, que teria conduzido oUNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância poder da nação economicamente mais desenvolvida e que se pretenderia a "polícia do mundo", nos dizeres de Jameson, dando o tom de uma globalização extremadamente violenta, na defesa de um modelo de mundo, o que possibilitaria dizer de uma espécie de Sua percepção é a de que a globalização se caracterizaria como um embuste que mascararia uma nova fase do capital, no interesse das megacorporações aliadas aos Estados-nações mais ricos e industrializados do sistema capitalista, subordinados aos Estados Unidos que, de for- ma predatória, alimentar-se-ia das economias dos países pobres, da mão de obra semiescrava, aculturando povos inteiros no escopo de aliciar o consentimento unânime a todo e qualquer intervencionismo para o estabelecimento e manutenção de um modelo de hegemonia político- -econômica, que prescindiria da dominação cultural. Intolerância em Sociedades Globais Como vimos até aqui, o que nos constitui essencialmente são as diferenças. O imperativo, para a construção de uma sociedade tolerante é, portanto, a aceitação do outro, do diverso. É impensável, nesses termos, que sociedades plurais, como a brasileira, convivam com gra- ves problemas de intolerância exatamente ao diverso. Nos grandes centros urbanos, em cidades consideradas como globais, grupos religiosos profanam imagens e símbolos rituais de outras religiões, o racismo velado ou desvelado circulando como "enlatados culturais", condutas de violência contra homossexuais dos espancamentos ao assassínio -, o trato dos estrangeiros como inferiores e uma série de outros exemplos revelam que as sociedades que se dizem plane- tárias convivem mal com a diversidade. Figura 6 Erich Fromm (1900-1980) foi um Psicólogo Alemão Fonte: Reprodução #ParaTodosVerem. Ericj Fromn (1900 1980) foi um psicólogo alemão. Fotografia em branco e preto de um homem sentado e escrevendo. No fundo da imagem tem vários livros. 0 homem está usando uma camisa clara e um paletó escuro, utiliza óculos, está um pouco calvo e 0 cabelo é preto. Fim da descrição. Podemos afirmar, sob vários aspectos, que ao invés de valores de tolerância à diversidade, estamos na vigência de uma cultura de ódio expresso, vazado nos mais variados âmbitos da vida social, o que nos impõe uma imensa e urgente tarefa a fazer: construir uma contracultura da to- lerância para reafirmar o homem, os próprios valores humanísticos, no seio de uma sociedade planetária que desumaniza, valorando o "ser" pelo "ter", como nos disse o psicanalista e escritor alemão Erich Fromm.UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância Nos casos de guerras ideológicas, religiosas e étnicas, a intolerância chega a ultrapassar os limites da irracionalidade com relação a indivíduos ou grupos específicos. Apesar de as guerras serem extremamente racionalizadas, de os morticínios na modernida- de serem perpetrados com o recurso fundamental da técnica e de a intolerância ter se desenvol- vido, como nos disse o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Humberto Eco (1932-), de tipo selvagem para categórico, não podemos deixar de verificar que os argumentos sobre os quais tentam se ancorar condutas de intolerância em alguma base de cientificidade, fa- zem-no construindo ou se reapropriando de pseudociências, criadas em essência para legitimar seculares preconceitos ou ideias de superioridade civilizacional. Infelizmente, os exemplos de intolerância concreta em sociedades que se apresentam como glo- bais são vários. A modernidade pode ser caracterizada, primordialmente, por essas ocorrências. Figura 7 Fonte: Wikimedia Commons Fotografia em preto e branco que representa pessoas sendo execu- tadas, as quais caem mortas em uma vala comum. Um homem magro em destaque sentado próximo da vala aguarda a sua execução, atrás dele está um soltado em pé apontando a arma para sua cabeça. No fundo da imagem vários soldados observando a cena. Fim da descrição. Os nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, ao perpetrarem o abominável: o Holocaus- to; os conflitos étnico-nacionalistas na África; as sistemáticas tentativas de "limpeza étnica" nos e o "barril de pólvora" que se tornou o Oriente Médio, entre tantos outros exemplos. Temos graves questões humanitárias em jogo, que não devem ser preteridas em relação às ideologias, religiosas ou pertenças étnicas. homem universal e seus direitos ina- lienáveis devem ser o cerne das reflexões sobre a política, não apenas um dos elementos com- ponentes de um sistema Nesse contexto conturbado por ocorrências de ódio expresso em uma sociedade que propa- gandeia valores universais e totalizantes, seria possível estabelecer uma cultura de paz em favor da tolerância? Sociedades fragmentadas por diferentes grupos sociais, como é o caso, por exem- plo, dos países que constituem a América Latina, experimentariam qual tipo de globalização? 11UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância O modelo de desenvolvimento, ou de progresso que adotou a civilização ocidental, entende tal progresso como puramente técnico, como o meio capaz de promover o progresso humano. Em verdade, a própria ideia de progresso deve ser repensada para incorporar uma gama muito mais variada de relações, para além dos processos produtivos. É preciso, então, pensar o progresso em termos totalizantes e meios para sua consecução, que abarque o homem e suas aspirações, não meras modernizações abstratas: é preciso repensar o homem para repensar a própria ideia de civilização, tendo como horizonte o mundo que queremos. Figura 8 Fonte: freepalestinemovement.org #ParaTodosVerem. Gravura colorida que representa uma situação de ataque. Homem correndo com um tanque de guerra logo atrás. Fim da descrição. Atualmente, os exemplos mais latentes de intolerância no mundo globalizado são as cons- tantes epidemias de fome em países periféricos do sistema capitalista; o reinventado imperialis- mo e o velho discurso civilizador dos países ricos; a ascensão de uma direita ultrarreacionária como força política na Europa; o conflito sraelense-palestino; a retórica de negação iraniana em relação ao Holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial; a ascensão do terrorismo como ameaça global; os novos/velhos terrorismos de Estado; os conflitos étnico-nacionalistas na África; golpes militares; a hiperexploração de trabalhadores pobres em vários lugares do mundo; o trabalho infantil e a pedofilia; a pena de morte nos Estados Unidos e em tantos outros países; o estupro legalizado no matrimônio afegão; o fundamentalismo em qualquer religião; a ideia de que matar pode ter um propósito divino, entre tantos outros exemplos possíveis. SCANDAL SEX TAPES ERIC DROOKER Figura 9 Fonte: memoriasdaditadura.org.br #ParaTodosVerem. Imagem em preto em branco de um homem com os olhos e boca tampados por mãos que saem do desenho, assim ele não vê nada e não fala nada. Fim da descrição. 12UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância Obviamente, pensar a tolerância em sociedades duais, em formações sociais eivadas de contra- dições e com gravíssimos problemas de subdesenvolvimento e dependência, é uma tarefa muito mais difícil, mas que faz muito mais sentido. Isso porque temos, na América Latina, uma das mais violentas histórias de conflitos civilizacionais, desde a colonização; a hecatombe que vitimou civi- lizações antiquíssimas; a escravidão; as guerras de independência excluindo-se a experiência lusófona -; o ciclo de civilização e barbárie; o caudilhismo; o populismo; as ditaduras; as revolu- ções sociais; a organização dos setores subalternos, oprimidos, como forças políticas etc. A América Latina é complexa, apaixonante e pode ter ainda muito que ensinar aos povos da Terra em termos de multiculturalismo, hibridismo, aceitação das diferenças e consecutivas su- perações operadas pelos "de baixo" que tantas vezes "assaltaram o céu", termo muito adequado, embora originalmente utilizado em outro contexto, do filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), referindo-se ao efêmero mas significativo sucesso da Comuna de Paris, em 1871. Seria preciso, portanto, para os novos tempos de circulação mundializada do capital, ou como queira, de globalização, repensar o homem na adversidade e frente os desafios a serem superados pelas novas/velhas sociedades. Entendendo a intolerância como um dos maiores desafios a serem superados em um con- texto de multiculturalismo, devemos observar sua ocorrência também no plano político, como o recurso a meios excessivamente coercitivos para a garantia, pela força ou ameaça do uso da força, de apenas uma interpretação de mundo, o que leva à ideia de civilidade ou cidadania como a adoção de comportamentos de obediência plena e irreflexiva. Seria preciso repensar o indivíduo de forma plena, exatamente como aquele que deve tomar as rédeas do destino em suas mãos, o agente de sua própria história e não aquele que anula a si, as suas particularidades, aquilo que o constitui como único, em nome de uma ideologia que uniformize corações e mentes e que o torne estupidamente obediente, como gado. Figura 10 Milton Santos Fonte: memoriasdaditadura.org.br #ParaTodosVerem. Fotografia do rosto de um homem negro olhando para 0 lado es- querdo. Ele sorri com a mão fechada próxima da boca. Usa óculos, camiseta de cor neutra. Fim da descrição. Essa obediência não se manifesta apenas em relação aos Estados; mas à própria sociedade de con- sumo de massa na difusão de seus valores. Podemos utilizar, para a análise desse aspecto, o concei- to de globalitarismo, cunhado pelo geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001), quem entendia o consumo de massa como o "fundamentalismo" dos novos tempos. Não seriam as ideologias políticas 13UNIDADE Cruzeiro do Sul Virtual Condição Humana e Diversidade das Culturas em Tempos de Globalização Educação distância os controladores desse "não admirável mundo novo": o que nos uniformiza, padroniza e nos torna subservientes seriam os valores partilhados por essa sociedade materialista, difundidos pelas megacor- porações, que nos submeteriam à ditadura da aparência, que entenderiam indivíduos, valorizando-os e lhes atribuindo a própria existência social em relação ao repertório de bens tridimensionais que con- seguissem concentrar no tempo efêmero de sua existência. A ideologia vigente não seria política, totalitarista; mas do consumo acrítico, sem sentido e nocivo ao próprio Planeta, igualmente fundamentalista. 14

Mais conteúdos dessa disciplina