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Jean-Plerre Rey/Gamma Introdução ao ensino de Sociologia Nelson Dacio Tomazi A Sociologia, no contexto do conhecimento científico, surge como um cor- po de idéias voltadas para a discussão do processo de constituição e conso- lidação da sociedade moderna. A Sociologia propriamente dita é fruto da Revolução Industrial, e por essa razão é chamada de "ciência da crise" crise que essa revo- lução gerou em toda a sociedade européia. A Sociologia como a da sociedade" não surgiu de repente, nem re- sultou das idéias de um único autor; ela é fruto de toda uma forma de conhe- 1 cer e de pensar a natureza e a sociedade, que se desenvolveu a partir do século XV, quando ocorreram transformações significativas que desagregaram a sociedade feudal, dando origem à sociedade capitalista. As grandes transformações no Ocidente As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas vinculadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. Desse modo, a expansão marítima, as reformas protestantes, a formação dos Estados nacionais, as gran- des navegações e o comércio ultramarino, bem como o desenvolvimento cien- tífico e tecnológico, são o pano de fundo para uma visão melhor desse movimento intelectual de grande envergadura que irá alterar profundamente as formas de explicar a natureza e a sociedade daí para a frente. A expansão marítima, ou as grandes navegações, tem um papel importan- te nesse processo, pois, com a circunavegação da África, o descobrimento da rota para as e para a América, foi consideravelmente ampliada a concepção de mundo dos povos europeus. A definição de um mundo territorialmente muito mais amplo, com novos povos, novas culturas, novos modos de explicar as coisas, vai exigir a reformulação do modo de ver e de pensar dos europeus. Ao mesmo tempo que se conheciam novos povos e novas culturas, insta- lavam-se colônias na África Negra, na Ásia e na América, ocorrendo com isso a expansão do comércio de novas mercadorias (sedas, especiarias, produtos tro- picais como açúcar, milho, tabaco e café) entre as metrópoles e as colônias, bem como entre os países europeus. Nascia então a possibilidade de um mercado muito mais amplo e com características mundiais.Introdução ao ensino de Sociologia Introdução ao ensino de Sociologia A exploração de metais preciosos, principalmente na América, e o tráfico de escravos para suprir a mão-de-obra nas colônias, com altíssimos lucros para mercadores estivessem eles na Holanda, na França ou na Inglaterra deram grande impulso ao comércio, que não mais ficou restrito aos mercadores das ci- dades-repúblicas (Veneza, Florença ou Flandres), passando também para as mãos de grandes comerciantes e muitas vezes de soberanos dos grandes Estados na- cionais em formação na Europa. Toda essa expansão territorial e comercial acelerou desenvolvimento da economia monetária, com a acumulação de capitais pela burguesia comercial, que, mais tarde, terá uma importância decisiva na gestação do processo de industrialização da Europa. As mudanças que se operavam nas formas de se produzir a riqueza só poderiam Protestantes funcionar se ocorressem modificações na estruturação política, pois sistema político franceses queimam feudal tinha restringido as tarefas administrativas e fiscais, bem como as legais e Reprodução livros e destroem militares, aos diferentes estamentos privilegiados (da nobreza e do clero) e a algu- símbolos da Igreja Católica. mas cidades, criando, desse modo, um grande entrave para as novas atividades econômicas que estavam surgindo. sociedade, na qual a experimentação e a observação são fundamentais, apare- Pouco a pouco vai se desenvolvendo uma estruturação estatal que tem por ce, nesse momento, representada pelas idéias e pelas obras de diversos pensa- base a centralização da justiça, com um novo sistema jurídico baseado no Direito dores, entre quais Nicolau Maquiavel (1469-1527), Galileu Galilei (1564-1642), romano, a centralização da força armada, com a formação de um exército perma- Thomas Hobbes (1588-1679), Francis Bacon (1561-1626), René Descartes (1596- nente, e a centralização administrativa, com um aparato burocrático ordenado 1650). Juntamente com esses, há dois outros pensadores que farão a ponte entre hierarquicamente, com um sistema de cobrança de impostos que irá permitir uma arrecadação constante para manter todo esse aparato esses novos conhecimentos e os que se desenvolverão no século seguinte: John tar sob um único comando. Nascia, dessa forma, o Estado moderno, que veio Locke (1632-1704) e Isaac Newton (1642-1727). 2 3 favorecer a expansão das atividades vinculadas ao desenvolvimento da produção têxtil, à mineração e à siderurgia, bem como ao comércio interno e externo. No século XVI, desenvolve-se um outro movimento, o da Reforma Protes- século XVIII e as transformações tante, que, ao entrar em conflito com a autoridade papal e a estrutura da Igre- ja, vai propiciar uma tendência que contribuiu de modo significativo para a políticas e econômicas valorização do conhecimento racional, em contraposição à revelação, ao per- mitir a livre leitura das Escrituras Sagradas e, dessa forma, o confronto com o mo- nopólio do clero na interpretação baseada na fé e nos dogmas. Os homens podem, No final do século XVII, na maioria dos países europeus, a burguesia comercial, a partir daí, não só interpretar as Escrituras Sagradas como também se relacio- formada basicamente por comerciantes e banqueiros, tornou-se uma classe com nar com Deus individualmente, sem a intermediação dos ministros da Igreja. muito poder, devido, na maior parte das vezes, às ligações econômicas que man- Se há uma nova maneira de se relacionar com as coisas sagradas, há tam- tinha com os monarcas. Essa classe, além de sustentar ativo o comércio entre os bém um outro movimento no sentido de se analisar o universo de outra forma. países europeus, estendia a todos pontos do mundo, até onde pudesse che- A razão passa a ser soberana e é colocada como elemento essencial para se co- gar, seus tentáculos, comprando e vendendo mercadorias, tornando o mundo nhecer o mundo; isto é, os homens devem ser livres para julgar, avaliar, pensar cada dia mais europeizado. e emitir opiniões sem se submeter a nenhuma autoridade transcendente ou divina, O capital mercantil se estendia também a outro ramo de atividade: que tinha na Igreja a sua maior defensora e guardiã. gradativamente se organizava a produção manufatureira. A compra de maté- Não obstante conhecimento racional do universo e da vida dos homens rias-primas e a organização da produção, seja através do trabalho domiciliar, em sociedade começar a ser uma regra seguida, há sempre a possibilidade de reação, seja do trabalho em oficinas, levavam ao desenvolvimento de um novo pro- principalmente por parte da Igreja, a exemplo do Concílio de Trento e dos cesso produtivo em contraposição ao das corporações de ofício. processos da Inquisição, que procuraram impedir toda e qualquer manifestação Ao se desenvolver a manufatura, os organizadores da produção passaram que pudesse pôr em dúvida a autoridade eclesiástica, seja no campo da fé, seja a se interessar cada vez mais pelo aperfeiçoamento das técnicas de produção, vi- no das explicações que se propunham para a sociedade e a natureza. sando produzir mais com menos gente, aumentando significativamente os lucros. A razão, ou a capacidade racional do homem de conhecer, é definida como Para tanto, procuraram investir nos "inventos", isto é, financiar a criação de má- o elemento essencial que se colocaria frontalmente contra o dogmatismo e a au- quinas que pudessem ter aplicação no processo produtivo. Apareceram, desse toridade eclesial, criando-se, pois, uma nova atitude diante das possibilidades modo, as máquinas de tecer, a máquina de descaroçar algodão, bem como ini- de explicar os fatos sociais. Essa nova forma de conhecimento da natureza e da ciou-se a aplicação industrial da máquina a vapor e de outros tantos inventosIntrodução ao ensino de Sociologia Introdução ao ensino de Sociologia destinados a aumentar a produtividade do trabalho. Surge aí o fenômeno que veio a ser chamado de maquinofatura. O trabalho que os homens realizavam com A consolidação do capitalismo e a as mãos ou com ferramentas passava, a partir de então, a ser feito por meio de "ciência da sociedade" máquinas, elevando muito volume da produção de mercadorias. A presença da máquina a vapor, que podia mover outras tantas máquinas, incentivou o surgimento da indústria construtora de máquinas, que, por sua No século XIX, a consolidação do sistema capitalista na Europa irá forne- vez, incentivou toda a indústria voltada para a produção de ferro e, posterior- cer elementos que servirão de base para o surgimento da Sociologia como ciência mente, de aço. É interessante lembrar que já no final do século XVIII produ- particular. No início desse século, pensamento de Saint-Simon (1760-1830), ziam-se ferro e aço, com a utilização do carvão mineral. de G. W.E. Hegel (1770-1830) e de David Ricardo (1772-1823), entre outros, será Nesse mesmo contexto de profundas alterações no processo produtivo o elo para que Auguste Comte (1798-1857) e Karl Marx (1818-1883) desenvol- encontra-se também a utilização cada vez mais crescente do trabalho mecâni- vam suas reflexões sobre a sociedade de maneiras radicalmente divergentes. convivendo com o trabalho artesanal. A maquinofatura se completava com Auguste Comte desde cedo rompe com a tradição familiar, monarquista e trabalho assalariado, aí se incluindo a utilização, numa éscala crescente, da mão- católica, torna-se um republicano com idéias liberais e passa a desenvolver uma de-obra feminina e da infantil. No nível externo europeu há a exploração do ouro atividade política e literária que lhe permitirá elaborar uma proposta para resolver no Brasil, da prata no México e do algodão na América e na Índia. Toda essa os problemas da sociedade de sua época. Toda a sua obra está permeada pelos atividade era desenvolvida com a utilização do trabalho escravo ou servil. Es- acontecimentos da França pós-revolucionária. Defendendo sempre o espírito de ses elementos, conjugados, asseguravam as bases do processo de acumulação ne- 1789 e criticando a restauração da monarquia, Comte se preocupou fundamen- cessária para a expansão da indústria. talmente em como organizar a nova sociedade que estava em ebulição e em total Todas essas mudanças, somadas à herança cultural e intelectual do século caos. Essa foi uma preocupação constante, já que a desordem e a anarquia im- XVII, irão definir século XVIII como um século explosivo. Se no século ante- peravam em conseqüência da confusão de princípios (metafísicos e teológicos), rior a Revolução Inglesa determina novas formas de organização política, é no que não mais se adequavam à sociedade industrial em expansão. século, XVIII que se vê tanto a Revolução Americana como a Francesa alteran- Sob forte influência do pensamento de Saint-Simon, de quem foi amigo e do todo o quadro político mundial, bem como servindo de exemplo e parâmetro secretário, mas também inspirando-se nas idéias de Francis Bacon, de Galileu 4 para as revoluções políticas posteriores. Galilei e de René Descartes, Auguste Comte propôs uma completa reforma da 5 As transformações na esfera da produção, a emergência de novas formas de sociedade em que vivia, cujo ponto de partida seria a reforma intelectual ple- organização política e a exigência da representação popular dão características muito na do homem. Assim, ao se modificar a forma de pensar dos homens por meio específicas a esse século, em que pensadores como Montesquieu (1689-1755), David dos métodos das ciências de seu tempo que ele chamou de filosofia posi- Hume (1711-1776), Jean-Jaques Rousseau (1712-1778), Adam Smith (1723-1790) tiva haveria posteriormente, como a reforma das instituições. e Immanuel Kant (1724-1804), entre outros, procurarão, por caminhos às vezes Nesse ponto é que aparece a Sociologia, ou a "física social", ciência que, ao estudar divergentes, refletir sobre a realidade, na tentativa de explicá-la. a sociedade através da análise de seus processos e de suas estruturas, proporia a reforma prática das instituições. A Sociologia representava, para Comte, coroamento da evolução do conhe- Gravura de Helman (Musée Carnavalet) cimento, apesar de métodos serem os mesmos das outras ciências, pois todas elas buscavam conhecer os acontecimentos constantes e repetitivos da natureza. A Sociologia, como as outras ciências, deveria sempre procurar a reconciliação entre os aspectos estáticos e dinâmicos do mundo natural, ou, em relação à sociedade, entre a ordem e o progresso, devendo este estar subordinado àquela. A obra de Comte se desenvolve a partir dos seus 19 anos e se estende até o ano anterior à sua morte. Entre os muitos escritos, podem-se destacar: Curso de filosofia positiva, 6 tomos, 1830-1842; Discurso sobre espírito positivo, 1844; Sistema de política positiva, 4 tomos, 1851-1854 (aqui se inclui o Catecismo positivista, 1852); Síntese subjetiva, 1856. A influência de Auguste Comte se estende principalmente a toda a tra- dição republicana, seja na Europa, seja na América Latina. No Brasil, é muito clara, como se pode ver no lema que se estampa na Bandeira Nacional: "Ordem A Revolução Francesa é ponto culminante do longo processo de transformação que ocorria na Europa. e Progresso".Introdução ao ensino de Sociologia Introdução ao ensino de Sociologia Na Sociologia, a influência desse pensador é marcante na escola francesa, através Para compreender os elementos fundamentais do pensamento de Marx e de de Émile Durkheim e de todos os seus contemporâneos e seguidores. Faz-se no- Engels, torna-se necessário fazer a conexão entre os interesses da classe trabalha- tar, portanto, em todas as tentativas de se criarem determinadas tipologias para dora, suas aspirações e as idéias revolucionárias correntes na Europa do século XIX. explicar a sociedade. Assim, o conhecimento científico da realidade só tem sentido se tiver como meta a transformação dessa mesma realidade. A separação entre teoria e prática é algo que não se coloca, uma vez que a verdade histórica não é uma abstração, possí- vel de se definir apenas teoricamente; a sua verificação está na ação, isto é, na prática. A produção desses dois autores é muito vasta, mas destacamos algumas de suas obras. De Marx, podem-se citar: Manuscritos econômico-filosóficos, 1844; VINS 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, 1852; Contribuição à crítica da economia política, 1857; O capital, 1867. La mort de Baudin, Méjanel (Cabinet des Estampes) De Engels: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, 1845. Dos dois autores, juntos: manifesto comunista, 1848. A ideologia alemã, 1852; No século XIX, movimentos socialistas agitavam todo o Como vimos, toda a obra de Marx e Engels tem uma relação direta com 6 continente europeu. acontecimentos que envolvem trabalhadores de seu tempo, e por isso a preo- 7 cupação fundamental de ambos foi, através de seus livros, analisar mais profun- A tradição socialista damente a sociedade capitalista, procurando assim colocar nas mãos dos traba- lhadores uma arma eficaz para as suas lutas contra o capital. A partir dessa pro- As transformações que ocorrem no século XIX, que passam pela emergência dução, que tinha como princípio explicativo a contradição, muitos autores desen- de novas fontes energéticas (eletricidade e petróleo), de novos ramos industriais, volveram trabalhos em vários campos do conhecimento. Entre esses autores bem como pela alteração profunda nos processos produtivos, com a introdução podemos citar Lênin (1870-1924), Trotski (1879-1940), Rosa Luxemburgo (1871- de novas máquinas e equipamentos, a organização dos trabalhadores 1919), George Lukács (1885-1971) e Antonio Gramsci (1891-1937). em associações e sindicatos, com a eclosão de movimentos voltados para a trans- formação radical da sociedade capitalista. Esse conjunto de mudanças exigirá que se desenvolva um pensamento capaz não só de explicar o que está ocorrendo, mas A Sociologia acadêmica também de definir as possibilidades de intervenção nessa realidade. A tradição socialista, nascida da luta dos trabalhadores em vários momen- tos, tem como expressão intelectual de maior peso o pensador alemão Karl Marx A Sociologia propriamente dita origina-se das idéias de alguns pensa- (1818-1883), que, juntamente com Friedrich Engels (1820-1895), procurará estudar dores que procuraram discutir a sociedade de seu tempo, principalmente fran- a sociedade capitalista a partir de seus princípios constitutivos e de seu desen- ceses e alemães. Entre os franceses, a maior expressão é Émile Durkheim (1858- volvimento, tendo como objetivo dotar a classe trabalhadora de uma análise da 1917), que procurou, de modo permanente, outorgar um caráter científi- sociedade de seu tempo. à Sociologia, tendo como fonte tanto o pensamento de Montesquieu e Marx e Engels não têm nenhuma preocupação em definir uma ciência específica Saint-Simon como de Auguste Comte. para estudar a sociedade (como a Sociologia, para Comte). A sociedade para eles Émile Durkheim desenvolveu sua obra num período de grande crise na deve ser analisada na sua totalidade, não havendo separação entre os aspectos sociais, França. A derrota na Guerra Franco-Prussiana e aniquilamento da Comuna econômicos, políticos, ideológicos, religiosos, etc. Também não se preocupam em de Paris (1870-1871) haviam deixado marcas profundas na sociedade fran- situar o seu trabalho em uma ciência determinada. Se assim se quisesse fazer, ele cesa, o que exigia uma reformulação de toda a sua estrutura. Por outro lado, poderia ser situado na ciência da história, não no sentido de que a história é uma como já vimos, esse foi um período em que a miséria e o desemprego an- ciência separada das outras ciências humanas, mas naquele em que se entende a daram lado a lado com o grande progresso tecnológico e a elevação da pro- história como a única ciência social. dução industrial na Europa, fato que ocasionou o fortalecimento das asso-Introdução ao ensino de Sociologia Introdução ao ensino de Sociologia ciações e organizações de trabalhadores, bem como a eclosão de greves e A Sociologia alemã, nesse mesmo momento, é também representada por ou- aguçamento das lutas sociais terreno propício ao desenvolvimento das tros sociólogos, entre os quais podemos citar George Simmel (1858-1918) e teorias socialistas. Ferdinand Tonnies (1855-1936). Assim, a preocupação de Émile Durkheim será com a ordem social. Afirma A Sociologia, com esses princípios explicativos e baseada, portanto, na pro- que a raiz de todos os males sociais de seu tempo se encontra numa fragilidade dução desses autores, vai inspirar outros tantos pensadores, que, refletindo sobre da moral contemporânea. Em busca de uma solução para isso, propunha a for- a realidade em que vivem, mesclando ou não contribuições de diferentes linhas mulação de novas idéias morais capazes de guiar a conduta dos indivíduos, cujos teóricas, demonstrarão as possibilidades e a diversidade do pensamento socioló- caminhos poderiam ser encontrados com a ajuda da ciência, por meio de suas gico no mundo contemporâneo. Desse modo, George Gurvitch (1894- ), Karl investigações, pois valores morais constituíam um dos elementos mais efi- Manheim (1893-1947), Alain Touraine (1925- ), Pierre Bourdieu (1930- ), Pitirin cazes para neutralizar as crises econômicas e políticas. A partir deles poderiam Sorokin (1889-1968), C. Wright Mills (1916-1962), Jurgen Habermas (1929- ) são se criar relações estáveis entre os homens. conhecidos pensadores, entre outros, que produziram ou estão produzindo uma Entre trabalhos que fazem parte da obra de Durkheim, podemos citar explicação sociológica depois da Segunda Guerra Mundial. os de maior expressão: A divisão do trabalho social, 1893; As regras do método sociológico, 1895; A Sociologia no Brasil O suicídio, 1897; As formas elementares da vida religiosa, 1912. Desde 1865, a Sociologia começa a dar seus primeiros passos no Brasil. Sob elemento básico para Durkheim a integração social aparece na sua forte influência do positivismo comtiano, foi publicada a obra A escravatura Brasil, obra através do conceito de solidariedade, que permite a articulação funcio- de F.A. Brandão Júnior. Em seguida, um dos precursores da Sociologia no Brasil, nal de todos os elementos da realidade social. Tendo como princípio explicativo Sílvio Romero, publicou Etnologia selvagem, em 1872, e Etnografia brasileira, em a causação funcional, sua obra influenciará muitos outros pensadores voltados 1888. No início da década de 1920, a Sociologia inicia sua trajetória no ensino médio para a Sociologia, a antropologia e a história. Assim Marcel Mauss (1872-1950), através das escolas de São Paulo e Rio de Janeiro. 8 Maurice Halbwachs (1877-1945), Marc Bloch (1886-1944), Talcott Parsons Pode-se afirmar que é no período 1930/40 que a Sociologia coloca os seus 9 (1902 -1979), Robert Merton (1910 ), entre outros, trilharão caminhos su- alicerces no Brasil, pois procura, por um lado, definir mais claramente as fron- geridos por Émile Durkheim. teiras com outras áreas do conhecimento afins, como a literatura, a história e Na Alemanha, o representante mais expressivo será Max Weber (1864- a geografia. Por outro lado, institucionaliza-se com a criação de escolas e uni- 1920). Sua obra tem estreita ligação com a história alemã de seu tempo. A uni- versidades, nas quais a disciplina de Sociologia passa a ter um espaço e é promovida ficação alemã, o processo de industrialização tardia, o acordo entre a burguesia a formação de sociólogos. industrial e os grandes proprietários de terra, tendo em vista uma transição Assim, foi criada em 1933 a Escola Livre de Sociologia e Política (ELSP), em São mais adequada aos seus interesses, com a formação de uma forte burocracia Paulo. O objetivo dela era formar técnicos, assessores e consultores capazes de pro- estatal, vão dar uma configuração diferente à Alemanha no contexto euro- duzir conhecimento científico sobre a realidade brasileira e, principalmente, que peu. Além disso, a guerra de 1914-1918 afetará, de modo significativo, o pensa- aliassem esse conhecimento à tomada de decisões no interior do aparato estatal/go- mento de Max Weber. vernamental federal, estadual e municipal. A obra de Max Weber é muito vasta e percorre os variados caminhos da A seguir foram fundadas a Universidade de São Paulo (USP) e a Universi- história econômica, passando pelas questões religiosas, pelos processos bu- dade do Distrito Federal (UDF), respectivamente, em 1934 e 1935. Nelas, através rocráticos, pela análise da cidade, da música, passando enfim pela discussão das Faculdades de Filosofia, a preocupação maior era formar professores para metodológica das ciências humanas e dos conceitos sociológicos. Entre os seus ensino médio, principalmente para as escolas normais, formadoras de pro- escritos podemos destacar: fessores para o ensino fundamental. Definia-se, assim, o espaço profissional A ética protestante e o espírito do capitalismo, 1904; dos sociólogos: trabalhar nas estruturas governamentais ou ser professores. Ciência e política: duas vocações, 1919; Foram muitos professores estrangeiros que aqui vieram principalmente para História geral da economia, 1922; a implantação da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo; por isso, Economia e sociedade, 1923. pode-se afirmar que foram eles que deram o grande arranque inicial para desen- volvimento da Sociologia no Brasil. Entre eles podem ser citados: Donald Pierson, Para Max Weber, indivíduo deveria ser a unidade de análise, por ser Radcliff Brown, Claude Levi-Strauss, Georges Gurvitch, Roger Bastide, Charles ele o único que pode definir intenções e finalidades para seus atos. Desse Morazé e Jacques Lambert, que estiveram tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro modo, ponto de partida da Sociologia é a compreensão da ação dos indi- e permitiram a formação e o desenvolvimento de inúmeros sociólogos no Brasil. víduos, atuando e vivenciando situações sociais com determinadas moti- Se com as obras de Gilberto Freire, Oliveira Vianna, Fernando Azevedo, Sér- vações e intenções. gio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior já se encontrava uma produção so-Introdução ao ensino de Sociologia ciológica significativa, com a presença dos professores estrangeiros essa produção aumenta e a Sociologia no Brasil se firma, surgindo uma nova geração que vai definir claramente os rumos dessa disciplina no Brasil. Os trabalhos de Egon Shaden, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Azis Simão, Rui Coelho, Maria Izaura de Queiroz, em São Paulo, e de A. Guerreiro Ramos, A. Costa Pinto e Hélio Jaguaribe, no Rio de Janeiro, terão seguidores em todo o território nacional. A partir das décadas de 1950/60 disseminam-se as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras no Brasil, em universidades ou fora delas, e a Sociologia vai fazer parte do currículo dos cursos de ciências sociais ou apresentar-se como indepen- dente em outros cursos. O objetivo dos cursos de ciências sociais era formar pessoas (técnicos e professores) capazes de produzir uma "solução racional", isto é, ba- seada na razão e na ciência, para as questões nacionais. Assim, a Sociologia, nessas décadas, tornou-se disciplina hegemônica no quadro das ciências sociais no Brasil, a primeira a formar uma "escola" ou uma "tradição", tendo em Florestan Fernandes um dos seus principais mentores. Como decorrência desse projeto surgem vários autores que, em diferentes áreas do pensamento sociológico, desenvolverão pesquisas e ensino. Apenas para citar alguns daqueles que a partir das décadas de 1960/70 passam a ter suas obras lidas e reconhecidas: Octavio Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Francisco de Oliveira, José de Souza Martins, Leôncio Martins Rodrigues, Juarez Brandão Lopes, Maurício Tragtenberg, entre outros. 10 A Sociologia no ensino médio no Brasil Pela primeira vez no Brasil, a disciplina de Sociologia foi apresentada como integrante do currículo do ensino fundamental e médio através da reforma pro- posta por Benjamin Constant, cuja morte não permitiu a continuidade de dis- cussão do projeto. Somente a partir de 1925 é que a disciplina passou a integrar o currículo do curso médio do colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, por ini- ciativa de Fernando Azevedo. A partir de então, a disciplina de Sociologia teve um percurso de difícil pre- sença no currículo do ensino médio no Brasil. A reforma Rocha Vaz (1928), que integrou os currículos dos cursos das Escolas Normais do Distrito Federal e de Recife, inseriu Sociologia no ensino dessa cidade, por iniciativa de Gilberto Freire, cuja obra marcaria a consolidação da pesquisa científica na área, no Brasil. A reforma Francisco Campos (1931) ampliou a inserção da disciplina nas escolas de nível médio, mas a reforma educacional de Gustavo Capanema (1942) restringiu seu ensino, determinando sua presença obrigatória apenas nas esco- las normais. No período de 1964 até 1982, quando foram promulgadas a Lei 7.044 e a Re- solução SE/236/83, que recomendavam, esta última explicitamente, a inserção da Sociologia na grade curricular optativa das escolas de grau médio, ela esteve fora do currículo. Atualmente, a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) recolocou a disciplina na estrutura curricular do ensino médio, afirmando que os alunos, ao final do período, devem deter conhecimentos sociológicos, deixando, entretanto, para os governos estaduais, núcleos regionais de ensino e até para as escolas a liber- dade da definição do modo como serão passados esses conhecimentos.

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