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DISCIPLINA: TUTORIA PROFESSOR (A): KARINA ALUNA: FRANCIELLE RATIS DE FREITAS TEIXEIRA RA: 80124000321 PROBLEMA 10- ESSA LABIRINTITE QUE NÃO PASSA! CASO CLÍNICO – ANÁLISE DA PACIENTE DONA MARIA INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objetivo analisar um caso clínico de vertigem em uma paciente idosa, com base em fundamentos anatômicos, fisiológicos e semiológicos, a fim de elucidar a origem dos sintomas apresentados e propor um raciocínio clínico embasado. A paciente em questão, Dona Maria, 72 anos, relata episódios de tontura e desequilíbrio, desencadeados por movimentos da cabeça. O exame físico revelou nistagmo torsional à direita com manobra de Dix-Hallpike positiva, sugerindo Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB). ANATOMIA E FISIOLOGIA DO NERVO VESTIBULOCOCLEAR (VIII PAR CRANIANO) O nervo vestibulococlear (VIII par craniano) é exclusivamente sensitivo e subdivide-se em dois componentes principais: o ramo coclear, responsável pela audição, e o ramo vestibular, responsável pela manutenção do equilíbrio corporal. Esse nervo origina-se na junção pontocerebelar e segue para o ouvido interno através do meato acústico interno. Suas fibras fazem sinapse nos núcleos cocleares e vestibulares no tronco encefálico. O sistema vestibular está localizado no labirinto do ouvido interno e é formado pelos canais semicirculares (anterior, posterior e lateral), além do sáculo e do utrículo. Cada uma dessas estruturas contém células sensoriais ciliadas que respondem à movimentação da endolinfa, ativando o nervo vestibular. Os canais semicirculares são especializados em detectar acelerações angulares (movimentos de rotação da cabeça), enquanto o sáculo e o utrículo detectam acelerações lineares e a orientação em relação à gravidade. As informações captadas por essas estruturas são integradas nos núcleos vestibulares e enviadas ao cerebelo, córtex cerebral, medula espinhal e núcleos motores dos nervos oculomotores. Isso permite ajustes posturais, coordenação dos movimentos oculares (reflexo vestíbulo-ocular) e consciência espacial. Anatomia do sistema vestibular O labirinto ósseo está contido na parte petrosa do osso temporal, de ambos os lados da cabeça, medindo cerca de 20 mm de comprimento no seu eixo maior, paralelo à face posterior da porção petrosa, e constitui o estojo que aloja o labirinto membranáceo , é constituído por três partes: a cóclea, o vestíbulo e os canais semicirculares sendo revestido por uma membrana fibrosa excessivamente fina, com sua superfície de inserção áspera, fibrosa e muito aderente ao osso, a sua superfície livre é lisa, pálida, revestida por uma camada de epitélio e secreta a perilinfa, um fluido pouco denso . Importante ressaltar que o labirinto ósseo ocupa a parte lateral da parte petrosa do osso temporal, sendo que suas paredes são feitas de osso mais denso do que o restante da parte petrosa do osso temporal e constitui a cápsula ótica, que é frequentemente ilustrada e identificada como sendo o labirinto ósseo, contudo, o labirinto ósseo é o espaço que contém líquido, que é evolvido pela cápsula ótica. Sendo assim, como descrito, o vestíbulo, a cóclea e os canais semicirculares constituem o labirinto ósseo, onde essas formações são cavidades escavadas na substancia do osso e revestidos por periósteo, contém um líquido claro (perilinfa), no qual o labirinto membranáceo está suspenso. O labirinto membranáceo contendo endolinfa está suspenso dentro do labirinto ósseo pela perilinfa e ambos os líquidos transportam ondas sonoras para os órgãos terminais para audição e equilíbrio. O vestíbulo, parte do labirinto ósseo, é uma câmara central de forma ovóide medindo cerca de 4 mm de diâmetro, sendo a parte mais volumosa do labirinto ósseo. Situa-se entre a cóclea e os canais semicirculares e apresenta duas vesículas membranosas: o sáculo e o utrículo - que são partes do labirinto membranáceo. A cóclea tem o aspecto de uma concha de caracol, consiste em um canal espiralado com cerca de 32 mm de extensão com duas voltas (giros) e meia ou duas voltas e três quartos, é a parte anterior do labirinto ósseo, perfurada por numerosas aberturas para a passagem de filetes da porção coclear do nervo vestíbulococlear . A cóclea contém o ducto coclear (parte relacionada com a audição) e o canal espiral da cóclea começa no vestíbulo e contorna o modíolo, que é um núcleo de osso esponjoso em forma de cone que contém canais para vasos sangüíneos e para a distribuição do nervo coclear . Outra estrutura que constitui o labirinto ósseo são os três canais semicirculares ósseos que contém três ductos semicirculares menbranáceos. Os canais semicirculares estão arranjados em ângulos retos entre si, formando um canal semicircular anterior, um lateral e um posterior. Os canais semicirculares anterior e posterior são verticais e o canal semicircular lateral é horizontal, cada ducto semicircular menbranáceo apresenta uma dilatação chamada ampola membranácea contendo células receptoras que detectam as movimentações da cabeça captando informações referentes ao equilíbrio. Como os canais semicirculares ocupam os três eixos ortogonais do espaço, formando ângulos retos uns com os outros, permite a captação de informações referentes a movimentos da cabeça em todos os planos. O canal semicircular anterior é vertical, descreve quase dois terços de um círculo e a sua extremidade lateral é dilatada formando a ampola. Em relação ao canal semicircular posterior, dizem que é vertical (assim como o anterior), mede ente 18 e 22 mm de comprimento e seu ramo ampular abre-se na parte inferior do vestíbulo. Afirma também que o canal semicircular lateral é o mais curto dos três, medindo cerce de 12 a 15 mm, com seu arco dirigido horizontal e lateralmente. Como já descrito anteriormente, o labirinto membranáceo consiste em um composto de vesículas e ductos comunicantes que estão suspensos no labirinto ósseo, contém um líquido aquoso chamado endolinfa, diferente da perilinfa que é o líquido que preenche o restante do labirinto ósseo, que classificam o labirinto membranáceo em duas partes: o labirinto vestibular constituído pelo utrículo, sáculo (duas pequenas vesículas comunicantes situados no vestíbulo do labirinto ósseo) e três ductos semicirculares (situados nos canais semicirculares) e a segunda parte do labirinto membranáceo que é o labirinto coclear, constituído pelo ducto coclear, situado na cóclea. O labirinto membranáceo, constituído pelo sáculo, utrículo e ductos semicirculares está diretamente relacionado com o equilíbrio, por esse motivo à direção do presente estudo. O utrículo é a maior das duas vesículas que ocupam o vestíbulo, sua porção sensorial é denominada mácula. Na porção ântero-medial do utrículo nasce um fino tubo, o ducto utrículo-sacular, que se interliga com o sáculo e com o ducto endolinfático . O sáculo é a menor das duas vesículas vestibulares, é esférico e sua cavidade não se comunica diretamente com a do utrículo, sua parede anterior apresenta um expessamento oval, que é a mácula (recepção sensorial) do sáculo, à qual os filamentos saculares do nervo vestíbulococlear são distribuídos. Os ductos semicirculares se localizam dentro dos canais semicirculares e se abrem no utrículo, a extremidade que se abre no utrículo apresenta uma dilatação chamada ampola, nesta situa-se um órgão sensorial específico que é denominado crista ampular. Um dos canais semicirculares está disposto num plano horizontal, onde seus receptores captam variações posturais na rotação da cabeça, outro canal semicircular se dispõe no plano frontal e que seu receptor capta deslocamentos para direita ou para a esquerda e o terceiro canal, no plano sagital que tem seus receptores sensíveis à inclinação da cabeça para frente e para trás. Fisiologia do sistemavestibular Como descrito anteriormente, os três canais semicirculares, o utrículo e o sáculo formam o sistema vestibular que é o sistema de equilíbrio. O sistema vestibular, também chamado de labirinto, é a parte não acústica do ouvido interno, sendo responsável, em parte, da origem de atividades reflexas em relação à orientação do corpo no espaço durante o repouso e o movimento. Existem células receptoras do sistema vestibular que estão localizadas no sáculo, no utrículo e no interior das ampolas dos ductos semicirculares, onde mudanças na posição da cabeça afetam o equilíbrio estático e os movimentos da cabeça afetam o equilíbrio dinâmico. O utrículo e o sáculo são chamados também de órgão otolíticos, ambos contêm receptores que suprem informações sobre a posição da cabeça relativamente à direção das forças da gravidade e sobre qualquer aceleração linear da cabeça, esses receptores são determinados mácula, compostas por grupos de células pilosas cujos pelos estão mergulhados numa substância gelatinosa. No interior desta estão minúsculas partículas de carbonato de cálcio denominadas otólitos, que tornam a substancia gelatinosa mais pesada que a endolinfa que preenche o labirinto membranáceo, permitindo conforme a mudança de posição da cabeça, a mudança da direção da força da substancia gelatinosa sobre as células pilosas, determinando a saída dos pelos de sua posição normal. Sendo assim, o utrículo está orientado de modo que, com qualquer inclinação da cabeça aciona a excitação de uma população de células ciliadas, ao mesmo tempo em que inibe outra, gerando um padrão específico de atividade aferente. O utrículo é importante para o reconhecimento da direção e orientação do movimento da cabeça no espaço,os estímulos para o utrículo são as acelerações gravitacionais e outros tipos de acelerações lineares. Utrículo - nesse caso - é o órgão receptor principal e o papel do sáculo no homem ainda é desconhecido, mas existem argumentos de que o sáculo poderia participar na manutenção do equilíbrio em condições de ausência da força gravitacional, como nas viagens de cosmonautas, para os quais, faltando gravidade, mantêm-se flutuando, mas conservando a cabeça em certa posição elevada, que talvez poderia ser determinada por reflexos posturais iniciados presumivelmente na mácula sacular. Sáculo seria um órgão destinado à percepção de vibrações, funcionalmente mais relacionado com a audição do que ao equilíbrio corporal e que se sabe que sons explosivos muito intensos podem disparar um reflexo de sensação súbita de deslocamento no espaço, por excitação sacular. Os canais semicirculares contêm os ductos semicirculares que apresentam uma certa dilatação chamada de ampola, que em cada uma existe as células receptoras ciliadas que juntamente com as células de sustentação formam a crista ampular, A cúpula gelatinosa é uma estrutura acessória que faz saliência no líquido e enche o interior da ampola e como a cúpula preenche a ampola, a endolinfa não flui ao redor dela e os esterocílios e os quinocílios das células da crista estão mergulhados na ampola. Em relação a essas estruturas, cita que os cílios das células ampulares se orientam de forma paralela, estruturando uma disposição em paliçada, correspondendo a dois tipos distintos: o quinocílio, que é uma estrutura única, mais alongada e com maior rigidez, e os esterocílios, são múltiplos, menores, paralelos na sua disposição quanto ao quinocílio e mais flexíveis. Toda vez que a cabeça é movida, a parede óssea do canal semicircular, o saco membranoso nele incluído e os corpos a eles ligados das células ciliadas, naturalmente movem-se junto, a endolinfa que não está unida ao crânio, devido à inércia, tende a manter sua posição original, pressionando contra a massa gelatinosa, incluindo os cílios no seu interior, estimulando as células ciliadas, sendo assim a velocidade e a magnitude do movimento da cabeça determina a direção na qual os cílios serão inclinados e como e quanto às células ciliadas serão estimuladas. Com todo esse processo descrito, como o quinocílio é pouco deformável, são os esterocílios que se deslocam junto com a cúpula, nesse fato, se aproximam ou se afastam do quinocílio, que se mantém como um poste rígido de referência. Caso os esterocílios se aproximem do quinocílio correspondente, ocorre um potencial gerador e posteriormente um potencial de ação, produzindo despolarização da célula receptora, determinando-se descarga de impulsos pelas células aferentes, já no caso de afastamento dos esterocílios em relação aos quinocílios produz-se uma hiperpolarização, diminuindo a freqüência de descargas de impulsos – inibição, citam que o deslocamento dos esterocílios na direção do quinocílio estimula a célula e o deslocamento na direção contrária inibe a célula. Na crista ampular dos canais semicirculares laterais, todos os quinocílios estão localizados do lado do utrículo e na crista ampular dos canais superior e posterior os quinocílios estão localizados do lado oposto ao utrículo. As células ciliadas são semelhantes tanto nas cristas das ampolas dos ductos semicirculares, na mácula utricular e na mácula sacular, todas elas são os receptores sensoriais do sistema vestibular. As células sensoriais ciliadas se diferenciam em dois tipos: tipo I e tipo II. As células de tipo I são piriformes, são rodeadas por terminação nervosa essencialmente aferente, em forma de cálice, envolvendo a maior parte da célula, existem botões sinápticos microvesiculosos encontrados no terminal em cálice que correspondem às fibras aferente. As células do tipo II, que são cilíndricas, com seu núcleo colocado a vários níveis, porém em geral, mais centralmente do que na célula do tipo I. Esse tipo de célula contém botões sinápticos, que podem ser granulados ou não-granulados, os granulados são considerados como derivados de fibras eferentes e os não-granulados são aqueles de fibras aferentes que conduzem informações sensoriais para o sistema nervoso central . 3. DIFERENÇA ENTRE LABIRINTITE, TONTURA E DESEQUILÍBRIO A compreensão clínica dos termos labirintite, tontura e desequilíbrio é fundamental para o diagnóstico diferencial de queixas vestibulares. Diferenças entre Tontura, Vertigem, Desequilíbrio e Labirintite. Embora os termos de maneira coloquial sejam usados de forma intercambiável, é importante distinguir entre eles. Tontura é um sintoma que a pessoa tem alteração da percepção do ambiente, enquanto a vertigem é uma sensação específica de ilusão de movimento. O desequilíbrio refere-se mais à sensação de instabilidade ao ficar de pé ou caminhar. Já a labirintite é uma condição específica, é uma doença e não um sintoma, que envolve a inflamação do labirinto, uma estrutura no ouvido interno responsável pelo equilíbrio. Os sintomas da labirintite incluem vertigem intensa, náusea e perda de audição temporária. Embora a labirintite possa causar tontura, vertigem e desequilíbrio, esses sintomas também podem ser causados por outras condições. Em suma, enquanto a tontura, a vertigem e o desequilíbrio são sintomas comuns que podem estar relacionados a uma variedade de condições de saúde, a labirintite é uma condição específica que envolve inflamação do ouvido interno. É essencial consultar um médico para um diagnóstico preciso e um plano de tratamento adequado, especialmente se esses sintomas interferirem nas atividades diárias e na qualidade de vida. Labirintite refere-se a uma inflamação do labirinto do ouvido interno, geralmente de origem viral ou bacteriana, que afeta tanto o sistema vestibular quanto o auditivo. Seus sintomas incluem vertigem contínua, náuseas, perda auditiva e zumbido. Não é um quadro episódico e geralmente tem início agudo, com necessidade de tratamento medicamentoso. Tontura é um termo inespecífico, subjetivo, que podeincluir vertigem, sensação de flutuação, desmaio iminente ou instabilidade. Pode estar associada a diversas etiologias, como disfunções vestibulares, hipotensão, hipoglicemia, distúrbios psíquicos ou efeitos colaterais de medicamentos. Desequilíbrio é a sensação objetiva de instabilidade postural, com dificuldade de se manter em pé ou caminhar. Está frequentemente associada à falha na integração entre os sistemas vestibular, visual e proprioceptivo. Pode ocorrer isoladamente ou em conjunto com tontura e vertigem. ACHADOS NO EXAME FÍSICO Durante o exame físico da paciente Dona Maria, observou-se nistagmo torsional para a direita, desencadeado pela manobra de Dix-Hallpike. O nistagmo torsional é um achado típico da VPPB, indicando uma resposta vestibular anômala ao movimento da cabeça. Além disso, a paciente não apresenta déficits neurológicos focais, o que exclui causas centrais como AVC ou lesões tumorais na fossa posterior. A pressão arterial aferida (135/85 mmHg em repouso) encontra-se dentro dos limites aceitáveis para sua faixa etária. A ausência de perda auditiva ou zumbido reforça a hipótese de vertigem periférica pura. MANOBRA DE DIX-HALLPIKE A manobra de Dix-Hallpike é o teste diagnóstico padrão-ouro para a identificação da VPPB. Consiste em posicionar o paciente de forma que a cabeça seja girada 45° para o lado a ser testado, e em seguida, deitá-lo rapidamente em decúbito dorsal com a cabeça pendente para trás. O examinador observa os olhos do paciente em busca de nistagmo e questiona sobre a presença de vertigem. Um teste positivo é caracterizado por: Nistagmo torsional com breve latência (2–10 segundos). Duração curta do nistagmo (menos de 1 minuto). Fadigabilidade (o sintoma diminui com repetição da manobra). O achado no caso clínico reforça o envolvimento do canal semicircular posterior direito, pois é o mais comumente afetado na VPPB. A Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB) é uma forma comum de tontura vertiginosa, sendo responsável por quase metade dos pacientes com disfunção vestibular periférica. É um problema recorrente nas unidades de pronto-atendimento, que gera muito incômodo aos pacientes, mas é benigno e de fácil diagnóstico e tratamento. Na tontura vertiginosa, o paciente irá relatar ilusão de movimento rotatório (sensação das coisas girando) em torno do ambiente ou vice-versa. Constantemente são confundidas com tontura inespecífica, desequilíbrio e pré-síncope. Epidemiologia Sua incidência varia entre 11 e 64 casos por 100 mil habitantes. A prevalência de VPPB em aumenta com a idade e é cerca de sete vezes maior naqueles com mais de 60 anos, em comparação com aqueles com 18 a 39 anos, sendo rara na infância. A VPPB foi mais comum em mulheres do que homens em todas as faixas etárias, com uma relação relatada de 2 a 3 mulheres para cada homem. A maioria dos casos de VPPB são idiopáticos, mas pode ser ocasionado por traumatismo crânio-encefálico, insuficiência vertebrobasilar, pós-cirurgia otológica, hidropisia endolinfática, neurite vestibular ou doença de orelha média. Fisiopatologia A VPPB ocorre devido ao deslocamento dos cristais de carbonato de cálcio (otólitos) do utrículo para o canal semicircular (CSC) posterior, superior ou lateral (canalitíase) ou, mais raramente, aderem à cúpula desses canais (cupulolitíase). O canal semicircular posterior é o local mais comum de canalitíase. Estrutura do labirinto com a demonstração das otoconias no utrículo e sáculo e soltas nos canais semicirculares, levando à vertigem posicional paroxística benigna (VPPB). Fonte: TADEU, I. Medicina de emergência: abordagem prática (2019). Na canalitíase, quando a cabeça é colocada na posição provocadora da vertigem, os detritos de carbonato de cálcio se movem com a endolinfa, movimentando a cúpula e aumentando o índice de disparo dos neurônios do CSC estimulado. O tempo necessário para que a cúpula seja defletida pela atração da endolinfa e ocorra a cessação da movimentação endolinfática é o período de latência. Durante esse período há redução dos sintomas à medida que a posição é mantida. Quadro clínico de VPPB Pacientes com VPPB apresentam episódios recorrentes de vertigem rotatória que duram um minuto ou menos, de curta duração e forte intensidade desencadeados por movimentos rápidos da cabeça, como olhar para cima em pé ou sentado, deitar ou levantar da cama e rolar na cama. Na posição ortostática, ataques desencadeados por movimentos bruscos podem levar a quedas, ou em casos menos intensos o paciente pode referir tendência à queda para trás. A vertigem pode estar associada a náuseas e vômitos. Diagnóstico da vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) O diagnóstico é estabelecido por anamnese e exame neurológico. O exame neurológico é normal, com exceção da manobra de Dix-Hallpike, que induz o nistagmo típico. Essa manobra é realizada da seguinte maneira: o paciente é colocado na posição sentada e sua cabeça é rodada em 45° para o lado comprometido. Em seguida, ele é rapidamente colocado em decúbito dorsal, e a cabeça fica levemente pendurada e rodada para o lado examinado. Em pacientes com vertigem posicional paroxística benigna, o nistagmo geralmente aparece com uma latência de alguns segundos e dura menos de 30 segundos. Tem uma trajetória típica, batendo para cima e torcionalmente, com os pólos superiores dos olhos batendo em direção ao solo. Depois de parar e o paciente se sentar, o nistagmo voltará a ocorrer, mas na direção oposta. Se o nistagmo não for provocado, a manobra é repetida com a cabeça voltada para o outro lado. a cada repetição, a intensidade e a duração do nistagmo diminuirão. Se o teste de Hallpike for negativo ou parecer positivo bilateralmente, pode-se usar o teste de rolamento em supino (supine roll test) para testar a variante de canal horizontal da VPPB. O paciente começa na posição supina e, ao contrário do teste de Hallpike, a cabeça não precisa pender sobre a borda da maca. A cabeça é girada em 90° para cada lado. Com um teste positivo, o paciente terá a reprodução dos sintomas e um nistagmo horizontal com a cabeça virada em qualquer direção. Tratamento da VPPB Para pacientes com VPPB de canal posterior, o tratamento consiste na realização de manobras de reposicionamento de partículas. As manobras de Epley e de Semont têm o objetivo de movimentar os cristais de carbonato de cálcio até que eles retornem ao utrículo com eficácia próxima a 80%. As manobras de tratamento estimulam os detritos a migrar em direção comum dos canais anterior e posterior e sair para a cavidade utricular. A manobra de Epley começa com o paciente sentado e a cabeça virada 45° para o lado que se deseja tratar. O paciente é então deitado rapidamente com a cabeça pendente. Vira-se 90° a cabeça para o outro lado e posteriormente mais 90°, deixando o paciente em decúbito lateral. Em cada posição, deve-se aguardar 30 segundos. Finalmente, o paciente é sentado. Na manobra de Semont, a cabeça é rodada 45° na direção oposta à orelha afetada. O paciente é então deitado sobre a orelha afetada e aguarda-se 1 minuto. Depois, joga-se rapidamente o corpo do paciente para o outro lado, mantendo-se a posição da cabeça. Aguardam-se 2 minutos e senta-se o paciente. Manobra de Semont. Fonte: TADEU, I. Medicina de emergência: abordagem prática (2019). Os medicamentos não são úteis para os episódios breves de vertigem associados à VPPB, exceto quando a frequência dos episódios for muito alta. No entanto, os supressores vestibulares podem ser usados como pré-medicação com manobras liberatórias e podem ajudar os pacientes que, de outra forma, não tolerarem essas manobras devido ao desconforto e náuseas. Três classes gerais de drogas podem ser usadas para suprimir o sistema vestibular e/ou reduzirnáuseas e vômitos associados: Anti-histamínicos – meclizina , dimenidrinato , difenidramina Benzodiazepínicos – diazepam , lorazepam , clonazepam , alprazolam Antieméticos – ondansetron , proclorperazina , prometazina , metoclopramida , domperidona. 6. DIAGNÓSTICO CLÍNICO E DIFERENCIAL Com base na história clínica, no exame físico e na resposta à manobra de Dix-Hallpike, o diagnóstico de Dona Maria é de Vertigem Posicional Paroxística Benigna. Trata-se de uma afecção vestibular periférica causada pelo deslocamento de otólitos da mácula do utrículo para os canais semicirculares. Esses otólitos movem-se com a rotação da cabeça, alterando a dinâmica da endolinfa e ativando indevidamente as células ciliadas, gerando uma sensação falsa de movimento. O diagnóstico diferencial inclui: Labirintite (descartada por ausência de sintomas auditivos). Neurite vestibular (vertigem contínua, sem perda auditiva, mas sem caráter posicional). Doença de Ménière (crises mais prolongadas, com perda auditiva e zumbido). AVE de fossa posterior (presença de sinais neurológicos focais). CONSIDERAÇÕES FINAIS E CONDUTA CLÍNICA A VPPB, apesar de benigna, pode impactar significativamente a qualidade de vida do paciente, sobretudo em idosos, devido ao risco de quedas. A identificação precoce e o tratamento com manobras de reposicionamento (como a manobra de Epley) são eficazes e promovem melhora rápida dos sintomas. O tratamento medicamentoso, como uso de antivertiginosos (dimedrinato, betahistina), deve ser restrito ao manejo agudo. O uso crônico pode atrapalhar a compensação vestibular. A reabilitação vestibular pode ser indicada em casos crônicos ou recorrentes. Por fim, o acompanhamento deve incluir orientações quanto à segurança domiciliar e prevenção de quedas, especialmente em pacientes idosos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GUYTON, Arthur C.; HALL, John E. Tratado de Fisiologia Médica. 14. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021. SILVEIRA, C. L. Neuroanatomia Funcional. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. GANANÇA, M. M.; CAOVILLA, H. H.; GANANÇA, F. F. Vertigem Posicional Paroxística Benigna. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, v. 77, n. 4, p. 500–508, 2011. BARRETO, S. M. Tontura e quedas em idosos: causas e prevenção. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 20, n. 3, p. 407–418, 2017. BITTAR, R. S. M.; PEDALINI, M. E. B. Tratamento da vertigem posicional com manobras de reposicionamento: revisão sistemática. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 79, n. 5, p. 618–626, 2013.