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Caso Clínico: Joana, Plantões Noturnos e Distúrbios do Sono Joana, 42 anos, enfermeira, relata diversos sintomas físicos e emocionais (cansaço intenso, irritabilidade, tristeza, lapsos de memória, ganho de peso, sonolência diurna), relacionados à privação crônica de sono devido a plantões noturnos durante a pandemia. O médico solicita uma polissonografia, indicando suspeita de distúrbios no ciclo sono-vigília e má qualidade do sono. 🧠 Fisiologia do Sono: Conceitos Fundamentais O sono é um estado fisiológico ativo, necessário para a homeostase do organismo. Ele é controlado por duas forças principais: · Ritmo circadiano (relógio biológico regulado pelo núcleo supraquiasmático do hipotálamo) · Pressão homeostática do sono (necessidade acumulada de dormir ao longo do tempo acordado) Como funciona o ritmo circadiano? Esse relógio interno é mantido pela exposição a estímulos externos, padrões e hábitos de vida e funções naturais do corpo. A luz desempenha um papel fundamental durante a regulação do ritmo circadiano. Uma vez que os olhos captam a luz do sol, um sinal é enviado ao hipotálamo de que é hora de ficar alerta. Se os olhos não forem expostos à luz por um longo período de tempo, o cérebro interpreta que é para desencadear a liberação de melatonina. Isso faz com que você se sinta cansado quando o sol se põe. Horários e rotinas consistentes também são importantes para o corpo manter o ritmo. Portanto, é importante ir para a cama no mesmo horário todas as noites, mesmo nos fins de semana. Ter uma rotina de sono inconsistente torna difícil para o corpo manter um ciclo regular, fazendo com que a pessoa se sinta privada do sono durante o dia ou com dificuldade em adormecer à noite. Fisiologia do ritmo circadiano O “marcapasso” do ritmo circadiano é o núcleo supraquiasmático (SCN) do hipotálamo. Conforme o corpo faz a transição da luz para a escuridão, o corpo envia informações para a via pineal retino-hipotalâmica. Durante o ciclo de luz, os axônios das células ganglionares da retina emitem sinais que ativam o núcleo supraquiasmático via nervo craniano II, o nervo óptico. O SCN então entrega um sinal através do neurotransmissor inibitório GABA (ácido gama-aminobutírico) que inibe o núcleo paraventricular. Os axônios subsequentemente enviam impulsos através da coluna lateral intermediária para inibir o gânglio cervical superior, inibindo assim o sistema nervoso simpático. Como resultado, a melatonina não é liberada da glândula pineal para a circulação. Conforme a noite se aproxima, a saída de luz sinaliza às células ganglionares da retina para inibir o núcleo supraquiasmático ativando o núcleo paraventricular que então envia axônios, por meio do núcleo intermediolateral (IML), em direção ao gânglio cervical superior. Esse processo estimula o sistema nervoso simpático, induzindo um estado de mais sono. Desse modo, a glândula pineal passa a ser mobilizada e secretar o hormônio melatonina na circulação. Imagem 2: Fisiologia da produção de melatonina Fonte: http://biologicalexceptions.blogspot.com/2016_01_01_archive.html. O que mais pode afetar seu ritmo circadiano? Embora seja um processo natural, muitos fatores externos podem confundir o relógio do seu corpo. Mudanças de fuso-horário, trabalhar a noite, alguns distúrbios e até exposição à luz não natural são alguns dos culpados mais comuns. Melatonina: o hormônio do sono Conhecida como “hormônio do sono”, a Melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano. Basicamente sua função mais importante é induzir a pessoa a dormir, contribuindo para o bom funcionamento do metabolismo e a regulação do ritmo circadiano. Produzida pela glândula pineal, a melatonina possui função neurotransmissora, regulando algumas funções cerebrais. Os níveis desse hormônio no corpo aumentam conforme a noite cai e tendem a diminuir assim que o amanhece. Ao fazer isso, facilita a transição para o sono e promove um descanso consistente e de qualidade. Quando produzida pelo organismo para sua utilização, a melatonina passa a ser conhecida como melatonina endógena, mas o hormônio também pode ser produzido por outras vias. A melatonina exógena é normalmente produzida sinteticamente em um laboratório e, como suplemento dietético, é mais frequentemente vendida como pílula ou cápsula para mastigar ou líquido. Em adultos, as pesquisas descobriram que os benefícios potenciais mais claros da melatonina são para pessoas que têm problemas de sono relacionados ao Transtorno da Fase Vigília-Sono Retardado (TVSR), ou simplesmente Transtorno do ciclo circadiano. O TVSR é um distúrbio do ritmo circadiano em que o horário de sono de uma pessoa é reduzido, muitas vezes por uma questão de horas. Em indivíduos que possuem a tendência de levar uma vida mais noturna, torna-se difícil dormir o suficiente se houver obrigações que os forcem a acordar cedo pela manhã. Estudos indicaram que baixas doses de melatonina tomadas antes da hora de dormir desejada podem ajudar as pessoas com esse distúrbio a ajustar seu ciclo de sono. Suplementação de melatonina O corpo produz melatonina naturalmente, mas os pesquisadores e o público cada vez mais se interessam por fontes externas, como líquidos ou cápsulas, como forma de lidar com as dificuldades de sono. Nos Estados Unidos, a melatonina é vendida como suplemento dietético, e uma pesquisa de 2012 do National Institutes of Health descobriu que é um dos suplementos mais comumente usados entre adultos e crianças. Na maioria das pessoas, a melatonina apresenta poucos efeitos colaterais notáveis. Sendo assim, mesmo quando seus benefícios podem não estar claramente estabelecidos, algumas pessoas com problemas de sono podem se inclinar a experimentá-la. Buscar um médico e ter uma conversa aprofundada sobre os benefícios e riscos da reposição de melatonina ainda é o melhor passo a se tomar nessa situação. As fases do sono Você já deve ter ouvido falar que, enquanto dorme, passa por diversas fases do sono. Mas, o que será que isso realmente significa? Sono é dormir, certo? De fato, existe muita coisa acontecendo com o seu corpo durante o sono, e é a atividade cerebral que determina os diferentes estágios que evoluem durante o repouso. Graças à descoberta do eletroencefalograma (EEG) foi possível estudar o sono de uma forma que até então não era possível. Durante a década de 1950, um estudante de graduação chamado Eugene Aserinsky usou essa ferramenta para descobrir o que hoje é conhecido como sono REM. Estudos adicionais do sono humano demonstraram que o sono progride por meio de uma série de estágios, nos quais diferentes padrões de ondas cerebrais são exibidos. Entrando no Sono Durante as primeiras fases do sono, o corpo ainda está relativamente acordado e alerta. O cérebro produz o que é conhecido como ondas beta, que são pequenas e rápidas. Uma vez que o cérebro começa a diminuir sua velocidade, ondas lentas, conhecidas como alfa, passam a ser produzidas. Durante esse período, quando você não está totalmente adormecido, pode experimentar sensações estranhas e extremamente vívidas conhecidas como alucinações hipnagógicas, como ocorre com a sensação de queda ao deitar-se. Recentemente, no entanto, os estágios 3 e 4 foram combinados de forma que agora existem três estágios NREM, onde não há movimento rápido dos olhos, e um estágio REM do sono, onde existe esse movimento. NREM Estágio 1 O estágio 1 é o início do ciclo do sono e é um estágio relativamente leve do sono. O estágio 1 pode ser considerado um período de transição entre a vigília e o sono. É nesse período em que se produz as ondas Teta de grande amplitude, ou seja, ondas cerebrais de baixo ciclo. Esse período de sono dura apenas um breve período (cerca de 5 a 10 minutos). Se você acordar alguém durante esse estágio, ela pode relatar que não estava realmente dormindo. NREM Estágio 2 O estágio 2 do sono dura aproximadamente 20 minutos. Durante a fase 2 do sono: · Você se torna menos consciente do que está ao seu redor. · A temperatura corporalcai. · A respiração e a frequência cardíaca tornam-se mais regulares. O cérebro começa a produzir picos de atividade de ondas cerebrais rítmicas e rápidas, conhecidas como “fusos do sono”. A temperatura corporal começa a diminuir e a frequência cardíaca começa a diminuir. Conforme a American Sleep Foundation, o ser humano médio passa 50% de seu sono total na fase NREM 2. NREM Estágio 3 Durante o estágio 3 do sono: · Os músculos relaxam. · A pressão arterial e a frequência respiratória caem. · O sono mais profundo ocorre. Este estágio previamente era dividido nos estágios 3 e 4. Ondas profundas e de baixa velocidade, chamadas de Delta, começam a aparecer. Este estágio também é conhecido como sono delta. Nesse estágio, o cérebro fica menos reativo a estímulos e algumas atividades próximas podem não provocar respostas. Este é o período que determina a mudança entre o sono leve e um sono muito profundo. O sono REM Durante o sono REM: · O cérebro fica mais ativo. · O corpo fica relaxado e imobilizado. · Sonhos ocorrem. · Os olhos se movem rapidamente. Grande parte dos sonhos se passa nesse estágio, conhecido como sono de movimento rápido dos olhos (REM). O sono REM é caracterizado pelo movimento dos olhos, aumento da frequência respiratória e aumento da atividade cerebral. Conforme determinou a American Sleep Foundation, cerca de 20% do sono total se passa neste estágio. A fase REM é conhecida como sono paradoxal porque, enquanto a hiperatividade do cérebro e sistemas adjacentes ocorre concomitantemente a um relaxamento da musculatura esquelética. O sonho ocorre devido ao aumento da atividade cerebral, mas os músculos voluntários ficam imobilizados. A sequência dos estágios do sono Vale pontuar que o sono não segue esses estágios em sequência. O estágio 1 é seguido pelos estágios 2 e 3. Após o sono do estágio 3, o sono do estágio 2 é repetido antes de entrar no sono REM. Após o término da fase REM, há uma tendência de regredir ao estágio 2 do sono. O sono percorre esse ciclo por quatro ou cinco vezes em uma única noite. O estágio REM começa cerca de 90 minutos após adormecer, apresentando uma variação de duração conforme os ciclos de sono progridem. O sono REM pode durar até 60 minutos, apresentando pequenas variações conforme o sono progride. Embora seja comumente considerado um processo passivo, vem se demonstrando que no sono, o cérebro está, na verdade, bastante ativo. O sono desempenha um papel importante em vários processos, incluindo a consolidação da memória e a limpeza do cérebro. Principais estruturas cerebrais envolvidas: · Hipotálamo: regula o ciclo sono-vigília · Tronco encefálico: ativa/desativa estados de vigília e sono · Córtex cerebral: onde ocorrem as funções cognitivas superiores · Glândula pineal: secreta melatonina, o “hormônio do sono” 🌀 Fases do Sono O sono é dividido em duas fases principais: 1. Sono NREM (Não REM) Subdividido em 3 estágios: · N1: transição da vigília para o sono (sono leve) · N2: início do sono profundo (ondas cerebrais mais lentas, redução do tônus muscular) · N3: sono profundo ou de ondas lentas (essencial para restauração física e imunológica) 2. Sono REM (Rapid Eye Movement) · Ocupa cerca de 20-25% do tempo de sono · Altamente relacionado à consolidação da memória, aprendizado e regulação emocional · Sonhos mais vívidos acontecem nessa fase · Há paralisia muscular (exceto nos músculos respiratórios e oculares) Em ciclos normais, o sono alterna entre NREM e REM a cada 90-110 minutos. 🧬 Hormônios Envolvidos no Sono 🌑 Melatonina · Produzida pela glândula pineal com o início da escuridão · Induz o sono, reduz a temperatura corporal e prepara o corpo para repouso · Inibida pela exposição à luz (uso excessivo de telas à noite atrapalha sua liberação) 🧠 Cortisol · Hormônio do estresse, produzido pelas glândulas adrenais · Apresenta pico ao amanhecer e queda à noite · Privação do sono causa elevação crônica do cortisol, gerando irritabilidade, ansiedade, ganho de peso e imunossupressão 🧬 Hormônio do Crescimento (GH) · Secretado durante o sono profundo (fase N3) · Essencial para regeneração celular, metabolismo, crescimento e reparo tecidual · Privação do sono prejudica sua liberação 🧠 Serotonina · Atua na regulação do humor e do sono · Precursor da melatonina · Sua deficiência pode causar depressão e insônia 🍽️ Leptina e Grelina · Leptina (produzida no tecido adiposo) inibe o apetite – aumenta no sono normal · Grelina (produzida no estômago) estimula o apetite – aumenta na privação de sono · Desequilíbrio leva à fome aumentada e ganho de peso, como no caso de Joana 💥 Consequências da Privação de Sono no Caso da Joana Sintomas relatados: · Cansaço intenso e sonolência diurna → Fase N3 reduzida · Ansiedade, irritabilidade, tristeza → Alterações na serotonina, cortisol elevado · Lapsos de memória → Sono REM comprometido · Ganho de peso → Aumento de grelina, redução de leptina, alterações do metabolismo · Períodos sem dormir e má alimentação → Disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal Fatores de risco no caso: · Plantões noturnos crônicos · Uso excessivo de telas à noite (inibe melatonina) · Alimentação desregulada e estresse ocupacional . 🛌 Consequências da Privação de Sono para Profissionais de Plantão Hospitalar A privação crônica do sono é altamente prevalente entre profissionais da saúde, especialmente plantonistas, e afeta diversos sistemas do corpo. A seguir, listamos as principais consequências divididas por áreas, com enfoque médico e científico: 🧠 1. Déficits Cognitivos e de Atenção · Redução da atenção sustentada e aumento de erros durante procedimentos (ex: medicações, cálculo de doses, registros) · Comprometimento da memória recente e dificuldade de raciocínio clínico · Aumento do tempo de resposta a estímulos (semelhante ao de alguém alcoolizado) · Alucinações visuais, lapsos de consciência e confusão mental em privação extrema 💡 Erro médico é até 36% mais comum em profissionais privados de sono (Lockley et al., 2004) 😔 2. Alterações Emocionais e de Humor · Irritabilidade, ansiedade, tristeza, sensação de impotência · Síndrome de burnout (exaustão física e emocional) · Redução da empatia e da capacidade de lidar com o sofrimento alheio · Maior risco de depressão e ideação suicida, especialmente entre profissionais da linha de frente ❤️ 3. Problemas Cardiovasculares · Hipertensão arterial · Maior risco de infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC) · Alterações do ritmo cardíaco (arritmias) · Disfunção do sistema nervoso autônomo (hiperatividade simpática) 🍽️ 4. Distúrbios Metabólicos e Endócrinos · Aumento da grelina (fome) e redução da leptina (saciedade), levando à compulsão alimentar · Ganho de peso, especialmente gordura abdominal · Resistência à insulina, com risco de diabetes tipo 2 · Redução da secreção de GH e melatonina 🩺 Estudos mostram que enfermeiros de plantão noturno têm até 3x mais risco de obesidade e diabetes 🧬 5. Imunossupressão · Redução da produção de linfócitos T e de citocinas pró-inflamatórias reguladoras · Maior risco de infecções virais e bacterianas · Recuperação mais lenta em casos de doenças 🩹 6. Comprometimento da Regeneração Celular · O sono profundo (fase N3) é fundamental para a reparação tecidual · Lesões de pele, cicatrização de feridas e dores musculares demoram mais a melhorar · Exacerbação de doenças crônicas já existentes (ex: fibromialgia, artrite) 🚑 7. Impactos na Qualidade do Cuidado ao Paciente · Erros em prontuários, administração de medicamentos e falhas na comunicação · Falta de vigilância contínua em pacientes críticos · Redução da capacidade de tomada de decisão sob estresse 📉 Hospital com alta carga de plantões noturnos tem maior taxa de eventos adversos hospitalares 🔄 8. Desregulação do Ritmo Circadiano · Plantonistas frequentemente sofrem de jet lag social: seus ciclos de vigília e sono ficam desorganizados · Isso gera confusão metabólica e hormonal contínua · Sensação constante de estar "fora do fuso horário" 🧘♀️ 9.Efeitos a Longo Prazo · Risco aumentado de: · Demência/Alzheimer · Transtornos psiquiátricos · Câncer (ex: mama e cólon) – correlacionado ao trabalho noturno prolongado (IARC/OMS, 2019) · Envelhecimento precoce celular (encurtamento de telômeros) 📌 Estratégias de Proteção para Profissionais de Plantão · Treinamento em higiene do sono · Plantões mais curtos e com rodízio balanceado · Dormir antes do plantão (tirar cochilos estratégicos de 20-30 minutos) · Redução da exposição à luz azul e estímulos antes de dormir · Promoção de locais adequados para repouso nos hospitais 📊 Polissonografia: Diagnóstico Importante É um exame que registra: · Atividade cerebral (EEG) · Movimentos oculares e musculares · Frequência cardíaca e respiratória · Oxigenação do sangue · Identifica distúrbios como: apneia do sono, insônia, síndrome das pernas inquietas, entre outros 🔁 Técnicas e Medidas Recomendadas para Joana · Higiene do sono: manter horário fixo, evitar telas antes de dormir, escurecer o ambiente · Terapias comportamentais: terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) · Relaxamento e meditação · Evitar cafeína ou álcool antes de dormir · Mudanças no estilo de vida: ajustar escalas de plantão, buscar suporte psicológico 📚 Referências Bibliográficas · Guyton & Hall. Tratado de Fisiologia Médica, 14ª ed., Elsevier. · Tortora, G.J., Derrickson, B. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 15ª ed. LTC. · Gazzaniga, M.S. Neurociência Cognitiva – A Biologia da Mente. 5ª ed. Artmed. · Reimão, R. O Sono: Neurofisiologia, Diagnóstico e Terapêutica. 3ª ed. · Walker, M. Por que Nós Dormimos. Companhia das Letras, 2019.