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Análise Econômica do Direito Análise Econômica do Direito, fundamentos e aplicação nos diversos ramos jurídicos e no Poder Judiciário brasileiro. Profª Bianca Bez Goulart 1. Itens iniciais Propósito A importância de compreender a Análise Econômica do Direito reside em perceber que leis, normas e todo e qualquer ato legal não constituem um fim em si mesmos. Em muitas situações, os profissionais da área jurídica e estudantes de Direito podem (e devem) se valer da Análise Econômica do Direito para compreender como o jurisdicionado – ou o ser humano, inclusive você – toma as decisões diárias e se comporta em um mundo de recursos escassos. Objetivos Definir os fundamentos da Análise Econômica do Direito. Aplicar a Análise Econômica nos diversos ramos do Direito. Reconhecer a aplicação da Análise Econômica do Direito no Poder Judiciário brasileiro. Introdução O Poder Judiciário concentra, segundo o relatório de 2020 Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 77 milhões de processos judiciais. Imagine que cada ação judicial que você já viu, seja em estágios durante a faculdade no Poder Judiciário, seja no Ministério Público ou em escritório de advocacia, representa apenas uma ínfima parte de todo esse universo de processos. E, em cada ação judicial, há pessoas envolvidas, partes que querem ver sua pretensão satisfeita pelo Judiciário o mais rápido e da forma "mais justa" possível. Qual a relação dessas questões com a Análise Econômica do Direito? Compreender o comportamento humano e como as pessoas tomam suas decisões diárias, em um mundo em que os recursos são escassos ou finitos, é a principal tarefa da Análise Econômica. Perguntas como "Por que a maioria das partes propõe recurso de apelação após a sentença de primeiro grau?"; "O que leva as pessoas a preferirem propor uma ação no Judiciário em vez de celebrar acordo, mesmo sabendo que o Judiciário é demorado?"; "Por que uma lei que obriga supermercados a contratarem empacotadores de produtos pode não ser benéfica aos consumidores?" são tão econômicas quanto as questões atinentes ao mercado, à inflação, aos juros, ao emprego etc. No primeiro módulo, portanto, aprenderemos os conceitos, os pressupostos e os fundamentos da Análise Econômica do Direito. Com efeito, seremos capazes de entender que tudo o que envolve escolhas ou decisões são condutas passíveis de análise pelo método econômico. E o Direito, cuja finalidade última é estruturar formalmente as interações sociais, tornando possível a vida em sociedade, pode constituir a base de estudo da análise econômica. Assim, veremos, em um primeiro momento, o que é a Análise Econômica do Direito e suas premissas – como escassez, racionalidade e maximização de utilidade. Além disso, vamos diferenciar a Análise Econômica do Direito positiva e normativa, bem como trabalhar com alguns conceitos relativos ao método econômico comportamental (vieses e heurísticas cognitivas), sempre trazendo exemplos práticos de aplicação do assunto. Nos segundo e terceiro módulos, trataremos, respectivamente, da aplicação da Análise Econômica nos mais diversos ramos do Direito e no Poder Judiciário. • • • 1. Fundamentos da Análise Econômica do Direito A Análise Econômica do Direito Para começar, vamos conhecer os principais fundamentos da Análise Econômica do Direito com a professora Bianca Bez Goulart: Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. O que é a Analise Econômica do Direito? As sociedades complexas giram em torno de regras preestabelecidas. Normas sobre contratos, responsabilidade civil, herança, posse, responsabilidade criminal, direito consumerista, imobiliário, administrativo, entre outras. A maneira como as pessoas irão se comportar perante seus pares e a própria sociedade, ou seja, como serão realizadas suas decisões e as consequências dessas condutas depende do que está posto como regra e qual a sua interpretação, seja legal ou aquela preconizada pelos tribunais. Podemos questionar quais são os efeitos das regras sobre o comportamento das pessoas. Como nós deixamos ou realizamos alguma conduta por conta de uma norma legal ou da sua interpretação. E, ainda, se essas escolhas, tomadas a partir de tais entendimentos normativos, são socialmente desejáveis. De acordo com Gico Jr., o objetivo da Análise Econômica do Direito é – a partir dos ferramentais teóricos e empíricos econômicos e das ciências afins: expandir a compreensão e o alcance do direito e aperfeiçoar o desenvolvimento, a aplicação e a avaliação de normas jurídicas, principalmente com relação às suas consequências. (GICO JR., 2020, p. 8) A Análise Econômica do Direito pode ser compreendida como sendo a aplicação dos ferramentais da economia, nos mais diversos e amplos ramos do Direito – Constitucional, Civil, Penal, Contratual, Administrativo, entre outros –, com a finalidade de entendermos como ocorre o Direito em seu sentido fático, no mundo, e como as pessoas que vivem nesse mundo se comportam perante as normas jurídicas, suas interpretações e quais as possíveis consequências de suas decisões. A partir da compreensão dos pressupostos e das premissas da Análise Econômica do Direito, poderemos entender, por exemplo, várias questões, como: Leis Por quais razões algumas leis dão certo e outras nunca são aplicadas. Divórcios Por que o número de divórcios tem aumentado com o passar do tempo. Ações judiciais Como seria possível diminuir o número de ações judiciais propostas ou o número de recursos protelatórios. Sem ação judicial Por que, às vezes, basta um pedido de desculpas para que as partes façam as pazes e deixem de prosseguir com a ação judicial. Comentário Observe que a Análise Econômica do Direito é muito mais prática, realista e, sobretudo, consequencialista do que se imagina. Análise Econômica do Direito Positiva e Normativa Antes de explicarmos a diferença entre a Análise Econômica do Direito positiva e normativa, observe os seguintes exemplos: Criação de lei Imagine que o legislador está pensando em criar uma lei para impedir a totalidade da população brasileira de comprar um carro novo durante o período de dois anos, pois, assim, acredita que reduzirá a quantidade de carros em circulação e, por consequência, a poluição nas cidades. Investigação Suponha que você é promotor de justiça e está investigando um assassino em série, cujo foco, aparentemente, são mulheres entre 22 e 30 anos. Agora, compreenda os conceitos das duas análises para, em seguida, situarmos os dois exemplos citados. Análise Econômica do Direito Positiva Quando alguém está analisando um fato, e esse fato pode ser investigado por métodos científicos cujos resultados produzidos podem ser falseados, estaremos diante da Análise Econômica do Direito Positiva. Nesse caso, não se está investigando ou examinando aquilo que "deve ser". O objeto da Análise Econômica do Direito Positiva é aquilo que "é", ou seja, um fato, que pode ser descrito e cuja veracidade ou falseabilidade são passíveis de averiguação. Análise Econômica do Direito Normativa Está atrelada a questões valorativas, subjetivas, prescritivas e do "dever ser". Não há um fato propriamente dito a ser investigado. A análise sobre a adoção de uma política pública X em detrimento da política pública Y, como, por exemplo, qual seria a melhor punição para os crimes cibernéticos e quais os procedimentos processuais que a ação penal deverá seguir para ser mais eficiente, correspondem à Análise Econômica do Direito Normativa. Diante desses conceitos, é possível perceber que a análise sobre a racionalidade da criação de uma lei cujo objeto seja proibir a compra de carros novos pelo período de dois anos está relacionada com a Análise Econômica do Direito Normativa. A partir dessa hipótese legislativa, aquele que busca compreender se essa lei será ou não eficiente ao fim proposto – reduzir a quantidade de carros em circulação e a poluição nas cidades – e quais seriam outras possíveis alternativas para essa questãoambiental está praticando a Análise Econômica do Direito Normativa. Comentário É evidente que o exemplo dado beira o absurdo e causaria catastróficas consequências para o mercado de automóveis, além do que não garantiria a redução de circulação de veículos automotores – ou as pessoas esperariam dois anos para comprar novos carros ou adquiririam veículos usados. Esse rápido raciocínio representa justamente a adoção da Análise Econômica do Direito Normativa. No que tange ao exemplo do assassino em série, perceba que você está investigando, como promotor de justiça, um fato, ou melhor, vários crimes de homicídio e, aparentemente, a preferência do criminoso é por mulheres entre 22 e 30 anos. Diante desse cenário, você, como promotor de justiça, busca compreender o que é o crime de homicídio, qual a racionalidade da sua punição, se, nesse caso, a pena aplicada ao criminoso seria suficiente ou não à prevenção ou à ocorrência de novos delitos, e quais as consequências da adoção dessa ou de outra regra jurídica no caso concreto. Observe que a análise realizada é descritiva ou explicativa e não está pautada em valores subjetivos. Aqui, estamos diante da Análise Econômica do Direito Positiva. A AED positiva nos auxiliará a compreender o que é a norma jurídica, qual a racionalidade e as diferentes consequências prováveis decorrentes da adoção dessa ou daquela regra, ou seja, a abordagem é descritiva/explicativa com resultado preditivos. [...] a AED normativa nos auxiliará a escolher, dentre as alternativas possíveis, a mais eficiente, i.e., escolher o melhor arranjo institucional dado um valor (vetor normativo) previamente definido. (GICO JR., 2020, p. 13-14) Pressupostos da análise econômica do direito Nossas interações e relações com outras pessoas e nossa própria individualidade são pautadas continuamente por inúmeras decisões – e de toda natureza. Desde o momento em que acordamos, passamos a deliberar em vários tipos de situação e em momentos diferentes. Primeiro, temos que decidir se vamos levantar ou se vamos deixar a função soneca do celular agir por mais dez minutos, depois decidimos se e o que vamos tomar de café da manhã, o que vamos fazer no trabalho, se vamos estudar para aquela prova sobre as ações diretas de inconstitucionalidade, se vamos namorar, casar, ter filhos, alugar ou comprar uma casa, entre outros. Como características da racionalidade humana, temos a capacidade de considerar ou de analisar a ocorrência de eventos futuros. As ilações acerca do tempo futuro são fundamentais para a tomada de decisões, pois nos permitem escolher as ações, considerando as informações disponíveis em determinado momento, que nos trarão mais benefícios ou recompensas, em tese. Queremos evitar, o máximo possível, resultados negativos, ruins ou que nos tragam prejuízo. Tendo em vista que a economia é a ciência que estuda o comportamento, ou seja, como realizamos as decisões e analisamos suas consequências, é necessário partir de alguns pressupostos: escassez, racionalidade e preferências. Vamos analisar cada um deles. Escassez O primeiro pressuposto da Análise Econômica do Direito, a escassez, remete ao fato de os recursos do mundo serem finitos. Sim, como sabemos, os recursos que estão à nossa disposição são limitados – e é essa limitação de recursos que impõe a necessidade de realizarmos escolhas. Pense: se todas as coisas do mundo fossem infinitas e abundantes, não haveria necessidade de escolher entre a alternativa A ou B, poderíamos ter ambas sem analisar questões de custo e benefício. Para Bruno Meyerhof Salama (2010, p. 22), “a escassez é o ponto de partida da análise econômica”, pois, “se os recursos fossem infinitos, não haveria o problema de se ter que equacionar sua alocação; todos poderiam ter tudo o que quisessem e nas quantidades que quisessem”. Quando aceitamos a noção de que as coisas não são ilimitadas, no sentido de que a existência das coisas é determinada em termos temporais e quantitativos, torna-se clara a concepção de que “a escassez força os indivíduos a realizarem escolhas e incorrerem em trade offs, os quais [...] são, na verdade, ‘sacrifícios’: para se ter qualquer coisa é preciso abrir mão de alguma outra coisa – nem que seja somente o tempo”. trade offs Uma expressão inglesa que designa uma situação em que há conflito de escolhas. Como as pessoas almejam mais do que os recursos disponíveis podem prover ou gerar, não é possível que todos os nossos desejos sejam satisfeitos. Sob a perspectiva do Direito, a noção de escassez se encontra justamente na base ou na partícula mínima de existência de um conflito. Se existem duas pessoas que "brigam" judicialmente por alguma coisa, isso significa que essa coisa não pode estar com ambas ao mesmo tempo e que é necessária uma intervenção do Estado para decidir qual pretensão deve ser atendida. Ao fim e ao cabo, sem escassez, não precisaríamos do Judiciário, pois não haveria pretensão resistida, nem lide, nem processo a serem resolvidos. A satisfação de uma pessoa leva à não satisfação da outra – e isso impõe uma escolha, seja sua, do juiz ou da outra parte. Portanto, como dito anteriormente, é a escassez que leva à necessidade de tomada de decisão. Veja o esquema a seguir: A escassez leva à tomada de decisão. Racionalidade O segundo pressuposto da Análise Econômica do Direito é que toda e qualquer decisão, oriunda da escassez, é racional. Ou seja, nós, pessoas, agiríamos como se fôssemos racionais em todas as nossas decisões. À essa forma de pensamento convencionou-se chamar de teoria ou modelo da escolha racional – como somos motivados por nossos desejos e preferências, em tese, deveríamos tomar o curso de ação que mais próximo nos deixasse do nosso objetivo, considerando as informações disponíveis neste exato momento. Para a teoria ou modelo da escolha racional, agiríamos como se ponderássemos os custos e os benefícios de cada alternativa possível e decidiríamos seguir o caminho que mais utilidade nos trouxesse – ou seja, mais bem-estar, alegria, prazer, sucesso, dinheiro, entre outras. A utilidade reflete aquilo que estamos buscando durante a realização de uma escolha (maximização da utilidade). A intenção dessa forma de abordagem – isto é, da pressuposição de que em nossas decisões e ações escolheríamos o melhor caminho possível de acordo com nossas preferências – busca possibilitar ou permitir a generalização do comportamento humano. Ou seja, a intenção é encontrar padrões de conduta. O pressuposto da racionalidade não se traduz em admitir que o indivíduo é efetivamente racional e que realiza conscientemente e a todo momento cálculos de custos e benefícios antes de tomar uma decisão, mas de que, "na média, ele se comporta como se estivesse" (GICO JR., 2020, p. 18). Diante dessa premissa, é possível concluir que as pessoas respondem a incentivos e que qualquer modificação na estrutura de incentivos poderá levá-las a uma escolha ou caminhos diferentes. Por exemplo: Majorar Se o legislador decidir majorar a pena do crime de furto, que, atualmente, é de um a quatro anos de reclusão, para, respectivamente, cinco e dez anos de reclusão, será que haveria uma diminuição do número de casos de delitos de furto? Previsão Será que a previsão legal de que os juízes são obrigados a fundamentar suas decisões, com a análise de todas as alegações de ambas as partes de uma ação judicial, os levaria a ser mais cautelosos em suas sentenças? Conduta Se a sua namorada ou seu namorado ignorar você por dois dias seguidos, será que a sua conduta será de dar mais ou menos atenção a ela(e)? Explicar o comportamento de pessoas, de agentes, requer a compreensão de que todos, em maior ou menor grau, respondem a incentivos. Para tanto, devemos ser capazes de entender como funciona a estrutura de incentivos de cada pessoa – o que leva um juiz, um promotor, um advogado, uma parte ou a sua namorada, por exemplo, a agir da maneira X ou Y? Essa tarefa requer uma verdadeira investigação de como essas pessoas realmenteagem e não meras suposições de que deveriam julgar a causa W primeiro por ser a que está há 15 anos em trâmite no Judiciário ou de que o advogado não deveria cobrar honorários de êxito em tal caso por simplesmente não dever agir dessa maneira. Preferências O terceiro pressuposto da Análise Econômica do Direito é o de que as pessoas possuem preferências. Ou seja, para a Análise Econômica do Direito, somos capazes de, entre alternativas e opções diferentes, ordenar quais desses caminhos são mais interessantes, trazem-nos mais valor ou utilidade, ou se somos indiferentes em relação a eles. Desse modo, o pressuposto da preferência pode ser resumido da seguinte maneira: 1 Entre duas opções, A e B, A será considerada preferível se for justamente a escolha realizada pela pessoa, em detrimento de B. 2 Entre essas mesmas opções, se B é o caminho escolhido, pode-se afirmar que a pessoa prefere a opção B em detrimento de A. 3 A será indiferente a B e vice-versa se, para a pessoa que está realizando a escolha, não fizer diferença optar por uma ou por outra alternativa. Além disso, a Análise Econômica do Direito considera que as nossas preferências são completas, transitivas e estáveis. Preferências completas Referem-se ao fato de que somos capazes de decidir, não importando quais opções de escolhas estão disponíveis naquele momento deliberativo. Assim, podemos presumir que, feita uma proposta de acordo no bojo de uma ação judicial, por exemplo, em que se oferece à parte contrária a indenização pedida (R$100.000,00) com desconto de 20%, a parte contrária será capaz de decidir se aceita a oferta ou se prossegue com a demanda. Preferências transitivas A característica de as preferências serem transitivas diz respeito à seguinte proposição: se a pessoa prefere A a B e B a C, necessariamente ela irá preferir A a C – é uma questão de lógica. Preferências estáveis A Análise Econômica do Direito considera as preferências estáveis para cumprir sua finalidade de encontrar padrões de conduta por determinado período. Então, é necessária certa estabilidade na análise das preferências das pessoas, as quais podem mudar a partir do momento em que algo ao redor do indivíduo também muda. Verificando o aprendizado Questão 1 Aprendemos que a Análise Econômica do Direito pode ser conceituada como sendo a aplicação dos ferramentais da economia visando à compreensão de como ocorre o Direito no mundo fático e como as pessoas se comportam perante as normas jurídicas, as interpretações a elas concernentes e as possíveis consequências de suas decisões. No entanto, a Análise Econômica do Direito pode ser dividida em positiva e normativa. Assinale a alternativa que contém as principais características de cada uma das abordagens: A Positiva: explica os fatos, é subjetiva. Normativa: analisa o "dever ser" e é prescritiva. done B Positiva: é valorativa. Normativa: é subjetiva. C Positiva: retrata aquilo que "é" e investiga um fato. Normativa: ajuda a compreender, entre as alternativas possíveis, qual pode ser a mais eficiente (por exemplo, em adoção de políticas públicas). D Positiva: investiga se uma conduta deveria ou não ser punida (postura valorativa). Normativa: auxilia na identificação da melhor política de punição. E Positiva: refere-se ao direito posto, ao "dever ser". Normativa: diz respeito à análise subjetiva de normas e regras jurídicas. Responder A alternativa C está correta. A Análise Econômica Positiva é que investiga os fatos, é objetiva e descritiva. Já a Análise Econômica do Direito Normativa corresponde ao "dever ser" e, de fato, ajuda na compreensão de adoção de políticas públicas mais eficientes. Questão 2 Sobre os pressupostos da Análise Econômica do Direito, assinale a alternativa incorreta. A A escassez, que significa que os recursos do mundo não são finitos, reflete a necessidade de tomada de decisão pelos indivíduos. B A questão da escassez não pode ser relacionada com a existência de conflitos no âmbito do Poder Judiciário. Os conflitos judiciais ocorrem quando existe uma pretensão resistida por uma das partes e, pela Análise Econômica do Direito, esse fato não pode ser relacionado com o pressuposto da escassez. C O pressuposto da racionalidade significa que as pessoas efetivamente agem, faticamente e em todos os dias da sua vida, de forma a maximizar a utilidade das suas decisões, sopesando apenas e sempre custos e benefícios. D A Análise Econômica do Direito parte do pressuposto de que as preferências dos indivíduos são completas, transitivas e instáveis. E O pressuposto da racionalidade ou da teoria do modelo da escolha racional reflete a premissa de que as pessoas agiriam como se ponderassem os custos e os benefícios de cada alternativa de escolha possível. A intenção desse modelo é encontrar padrões de conduta dos seres humanos. A alternativa E está correta. A racionalidade, como fundamento da Análise Econômica do Direito, é uma pressuposição no sentido de que nós, seres humanos, agiríamos como agentes maximizadores da utilidade das nossas decisões. Ou seja, agiríamos como se sopesássemos os custos e benefícios de cada alternativa de escolha, visando a extrair ou maximizar os benefícios de cada decisão. 2. Análise Econômica dos diversos ramos do Direito Quando devemos propor uma ação judicial? A Análise Econômica pode ser aplicada em inúmeros ramos do Direito: Direito Constitucional, Civil, Contratual, Penal, Processual Civil, Previdenciário, Imobiliário, entre outros. Qualquer área do Direito que concentre a aplicação e interpretação de regras jurídicas e que, portanto, possa influenciar no comportamento e nas decisões humanas é passível de análise pelo método econômico. Ou seja, podemos utilizar a Análise Econômica em praticamente todas as áreas do Direito. Como nosso espaço, aqui, é limitado, vamos estudar, a partir dos fundamentos da Análise Econômica do Direito que acabamos de aprender – escassez, racionalidade e preferências –, a aplicação desses pressupostos no âmbito Processual Civil: O que leva as pessoas a proporem ações judiciais ou a celebrarem acordos? Algumas heurísticas e vieses cognitivos (economia comportamental). Quando devemos propor uma ação judicial? Com base na Análise Econômica do Direito, do modelo da escolha racional e pela economia comportamental, é possível entender o que leva as pessoas a proporem ações judiciais ou a celebrarem acordos. Vamos entender os critérios objetivos e subjetivos dessa decisão com a professora Bianca Bez Goulart: Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Análise Econômica do processo civil O que leva as pessoas a proporem ações judiciais ou a celebrarem acordos? Diante dos inúmeros processos que tramitam no Poder Judiciário, é necessária a reflexão sobre o que ou quais fatores levam alguém a propor uma ação judicial. Atualmente, podemos dizer que escolher ou optar pela propositura de uma ação judicial é como decidir, por vontade própria, entrar em um engarrafamento, em pleno horário de pico, com chuva, na principal avenida de São Paulo, e esperar chegar logo em casa. Isso não vai acontecer. Em vez de minutos, provavelmente, você demorará horas até a sua residência. Com o Poder Judiciário é a mesma coisa, mas em outra dimensão – a resolução da questão posta em juízo não demorará apenas algumas horas: tende a levar anos e, talvez, décadas. É preciso, portanto, questionarmo-nos: Quando devo propor uma ação judicial ou o que leva alguém a seguir esse caminho? Como ou quais critérios devo levar em consideração para a celebração de um acordo? A Análise Econômica do Direito pode nos ajudar a refletir sobre essas questões. Partindo do modelo ou da teoria da escolha racional, visto no primeiro módulo, a decisão a ser tomada pelo potencial litigante – ou seja, pela pessoa que está pensando em propor uma ação judicial – levaria em conta os seguintes critérios ou variáveis: • • • • 1 Os custos do ajuizamento da ação judicial, a exemplo das taxas e custasiniciais e dos eventuais honorários de sucumbência. 2 Os benefícios esperados com essa escolha, como, por exemplo, uma indenização de R$100.000,00 (cem mil reais). 3 A probabilidade de sucesso da demanda, isto é, quais as chances de ganhar a ação, por exemplo, 20%, 50% ou 80%. Com essas três variáveis, conseguiremos encontrar: Oferta mínima do potencial litigante O valor correspondente ao mínimo que ele aceitaria para celebrar um acordo e deixar de lado a ação judicial. Oferta máxima do eventual demandado Equivale ao máximo que ele está disposto a pagar ao primeiro para efetivar o acordo. Vale ressaltar que o demandado é aquele que poderá ser colocado no polo passivo da ação. Portanto, é possível estabelecer entre as partes – potencial litigante e eventual demandado – um delta ou um campo de negociação. Veja um exemplo a seguir: Exemplo Beatriz deve a Conrado a quantia de R$100.000,00 (cem mil reais), decorrente de um inadimplemento contratual. Beatriz não nega que Conrado tenha direito ao referido valor, porém, não possui condições de, no momento, arcar com o pagamento. Por outro lado, Beatriz está disposta a tentar celebrar um acordo, pois não gostaria de ser ré em uma ação de execução. Já Conrado tem ciência de que, caso proponha a ação judicial contra Beatriz, poderá enfrentar alguns entendimentos jurisprudenciais contrários ao seu caso. Diante desse cenário, ambas as partes foram consultar seus advogados. Conrado descobriu que poderá gastar com a propositura da ação judicial (somadas as despesas do processo com os honorários de seu advogado) o montante aproximado de R$10.000,00 (dez mil reais). Além disso, segundo o advogado de Conrado, por conta de alguns entendimentos jurisprudenciais contrários ao seu caso, a probabilidade de êxito da ação gira em torno de 80%. Por sua vez, o advogado de Beatriz, ao analisar a história contada por sua cliente, dimensionou que a probabilidade de êxito da ação a ser proposta por Conrado é de 60%. Outrossim, as despesas relativas ao processo foram avaliadas em torno de R$15.000,00 (quinze mil reais). E agora? Como encontramos as ofertas mínima e máxima e verificamos se há campo de negociação entre as partes para a celebração de um acordo? Pois bem, no caso relatado, observamos a existência das três variáveis mencionadas: 1 Custos com o processo 2 Benefício/prejuízo esperado 3 Probabilidade de êxito da ação Basicamente, sob a perspectiva do potencial litigante, aplicamos a seguinte fórmula, utilizando os referidos critérios: Em relação ao eventual demandado, a fórmula é a mesma, porém, em vez de diminuirmos os custos com o processo, vamos somá-los. Seguindo o exemplo de Beatriz e Conrado, chegamos na hipótese: Para Conrado R$100.000,00 (benefício esperado) X 80% (probabilidade de êxito da ação) - R$10.000,00 = R$70.000,00 (setenta mil reais). É justamente esse valor que representa a oferta mínima do potencial litigante, ou seja, o mínimo que ele aceita receber para não propor a ação judicial. Para Beatriz R$100.000,00 (prejuízo esperado) X 60% (probabilidade de êxito da ação) + R$15.000,00 (despesas totais) = R$75.000,00 (setenta e cinco mil reais) – essa é a oferta máxima que Beatriz, como eventual demandada, aceita pagar ou propor ao potencial litigante (Conrado) visando à celebração de acordo. Perceba que, ainda que pequeno, existe um campo de negociação entre as partes que gira entre R$70.000,00 e R$75.000,00. Em tese, se a eventual demandada (Beatriz) oferecer para o potencial litigante a quantia de, por exemplo, R$73.000,00, Conrado deveria aceitar o acordo e se afastar do caminho que leva ao Poder Judiciário. Agora, se Beatriz propuser ao potencial litigante (Conrado) um valor aquém do mínimo esperado, ou seja, abaixo dos R$70.000,00, não seria razoável – sob a perspectiva do modelo da escolha racional – que houvesse a aceitação dessa proposta, de modo que a opção racional seria a propositura da ação judicial. Imagem: Exemplo da análise de negociação de acordo É claro que, no dia a dia do mundo dos conflitos e da negociação, existem outros vetores que levam ao acordo ou à ação judicial. Exemplo Podemos citar o tempo médio que o processo demora para ser julgado, se existem emoções envolvidas no conflito, como mágoa, desprezo, raiva etc. (especialmente em questões familiares), se há interesse em postergar uma responsabilidade (usando o tempo do processo), se as partes são beneficiárias do acesso gratuito ao Poder Judiciário (justiça gratuita), entre outros. Nesse sentido, vale lembrar que a intenção do modelo ou da teoria da escolha racional é encontrar padrões de conduta e não impor a afirmação de que outros critérios ou valores subjetivos não podem influenciar a decisão humana. Ponto que deve ser objeto de reflexão, ainda, diz respeito à variável da previsibilidade de êxito da ação judicial. Atualmente, é senso comum (fato verificável na prática) no universo jurídico brasileiro que o resultado da demanda proposta depende, entre outros fatores, de "onde a ação vai cair", ou seja, se na Vara X, Y ou Z. De igual forma, em havendo recurso de apelação, o seu julgamento favorável ou desfavorável é vinculado, muitas vezes, à Câmara julgadora do caso concreto, que pode ter um posicionamento mais ou menos benéfico ao objeto da lide. Resumindo É fato observável que existe atualmente uma incerteza, insegurança jurídica ou imprevisibilidade das decisões judiciais. Para analisarmos como esse fator influencia o comportamento das pessoas envolvidas em um conflito, desde o jurisdicionado (partes) ao advogado, promotor de justiça e o próprio magistrado, é necessário tratarmos de outro "braço" da Análise Econômica do Direito, chamado de economia comportamental ou behavioral law &; economics (em uma tradução livre e literal: direito comportamental e economia). Análise econômica comportamental Como a imprevisibilidade das decisões judiciais fomenta a propositura de ações judiciais As premissas clássicas da Análise Econômica do Direito – escassez, preferências e racionalidade – privilegiam a simplificação, a generalidade ou a elegância analítica acerca das decisões ou escolhas realizadas pelas pessoas. A economia comportamental trabalha com a Psicologia e com a Neurociência para tentar entender como as preferências dos indivíduos são formadas, quais incentivos subjetivos e psicológicos são levados em consideração na tomada de decisão. A maneira como nós, seres humanos, realizaríamos as nossas decisões não seria sempre condizente com o modelo da escolha racional, no sentido de que sopesaríamos apenas os custos e os benefícios das nossas escolhas. Atenção A economia comportamental não objetiva, de forma alguma, invalidar ou refutar os fundamentos da teoria do modelo da escolha racional, mas refinar a análise da estrutura decisória inserindo aspectos psicológicos e verificáveis em experimentos práticos – daí a necessidade de estudarmos as heurísticas e os vieses cognitivos. O que são heurísticas e vieses cognitivos? Heurísticas São atalhos mentais, cognitivos, regras práticas ou de "ouro" que as pessoas utilizam para resolver de forma satisfatória um problema ou para realizar escolhas, baseando-se em um conjunto limitado de informações. Heurísticas são, basicamente, atalhos mentais que nós usamos para simplificar o modo como realizamos nossas decisões ou resolvemos nossos problemas, em cenários de incerteza ou diante de situações complexas. Esses atalhos mentais existem justamente para fazer com que a tomada de decisão aconteça mais rápido e de maneira satisfatória, reduzindo nossos esforços durante o processamento de escolhas. Vieses cognitivos Correspondem à ocorrência de desvios sistemáticos no processo de tomada de decisão por causa da utilização de atalhos mentais. Quando o nosso cérebro tenta diminuir o caminho para a realização de uma escolha, pode acontecer de esse atalho levar a um comportamento enviesado ou marcado por vieses cognitivos. Nesses casos, não significa que a decisão tomada necessariamenteestará incorreta ou será considerada errada, apenas que as chances de diversas informações terem sido ignoradas ou passadas despercebidas aumenta consideravelmente. Observe alguns tipos de heurísticas e vieses cognitivos a seguir. Heurística Vieses cognitivos Heurística da representatividade Viés confirmatório Viés do otimismo Quadro: Resumo heurísticas e vieses cognitivos. Elaborado por Bianca Goulart, adaptado por JP Gonçalves. Heurística da representatividade Com a finalidade de entender e de determinar como as pessoas avaliam a probabilidade de ocorrência de um evento incerto e preveem valores também incertos, Amos Tversky e Daniel Kahneman (1974) denominaram a primeira heurística de representatividade (representativeness heuristic), cuja natureza revela que os indivíduos analisam a probabilidade de realização de uma situação, a partir do grau em que o elemento A representa ou se assemelha ao elemento B. Vamos entender melhor. Em um dos exemplos relatados pelos mencionados autores, no qual as pessoas deveriam, em tese, a partir das características de um indivíduo, determinar qual seria a sua profissão, a seguinte situação foi criada: Steve é muito tímido e retirado, invariavelmente útil, mas com pouco interesse em pessoas, ou no mundo da realidade. Um dócil e de alma arrumada, ele precisa de ordem e estrutura e tem paixão por detalhes. (TVERSKY; KAHNEMAN, 1974) A partir dessa hipótese, os autores perguntaram: Steve seria um bibliotecário ou um vendedor de carros? Certamente, a maioria dos leitores respondeu mentalmente “um bibliotecário”. Com base nas experiências realizadas por Amos Tversky e Daniel Kahneman, foi constatado que as pessoas tendem a determinar a profissão de Steve considerando o grau em que ele representa ou se assemelha ao estereótipo de, por exemplo, um bibliotecário, um físico, um piloto, um agricultor ou um vendedor. Sob a perspectiva jurídica, podemos imaginar algumas hipóteses de atuação da heurística da representatividade: Qual a probabilidade de a doença apresentada pelo colaborador Z ter ocorrido em decorrência de seu trabalho? Qual a probabilidade de o réu X ter cometido o crime Y? Qual a probabilidade de o dano causado no carro da vítima A ter decorrido da conduta do réu B? Mesmo durante a análise de conflitos judiciais, em que há mais incertezas ou dúvidas e diversas teses contrapostas, estimamos a probabilidade de ocorrência de um evento a partir de características ou arquétipos que já existam em nossa mente. Viés confirmatório O conceito de viés confirmatório corresponde aos casos em que a seguinte afirmação pode ser aplicada: primeiro você decide e depois busca justificativas, argumentos, elementos, indícios ou provas que corroborem essa sua escolha. Além de buscarmos informações que confirmem a nossa decisão ou a nossa crença anterior, outro fator desfavorável decorrente do viés confirmatório é a provocação de uma visão afunilada: ou seja, como focamos • • • ou pinçamos os elementos que nos ajudam a confirmar a nossa decisão, tendemos a ignorar ou derrogar informações contrárias relevantes. É como se o nosso processo decisório fosse um túnel: enxergamos no final apenas a luz, isto é, aquilo que confirma a nossa decisão – e todos os elementos ou informações que poderiam ser relevantes passam ao nosso lado, despercebidos. No meio jurídico, existem diversas possibilidades de ocorrência do viés confirmatório. Veja alguns exemplos a seguir: Exemplo Sendo uma situação potencialmente problemática, podemos citar o julgamento de ações judiciais. Durante o transcurso do procedimento processual cível comum (petição inicial, citação, audiência de conciliação, contestação, saneamento etc.), é normal, humano, que o julgador comece a tomar empatia ou antipatia por uma ou outra parte ou pelas teses por elas alegadas em suas manifestações. Em um mundo perfeito, o julgador deveria analisar todas as teses jurídicas e argumentos antes de decidir. No entanto, não é incomum a inversão desse silogismo em decorrência do viés confirmatório: primeiro o magistrado tomou a decisão por ter, por exemplo, gostado mais do autor que do réu em uma das audiências, ou por ter focado apenas um argumento jurídico em detrimento de todos os outros. Poderíamos pensar em outros exemplos potencialmente caracterizadores do viés confirmatório. Porém, o que nos interessa é buscar formas de mitigar a atuação desse atalho cognitivo, ou seja: Como fazer para minimizar seus efeitos, em nossas esferas pessoal e profissional? Pois bem, a principal forma é fazermos o papel do “advogado do diabo”, isto é, agir como se estivéssemos do outro lado, na posição inversa, tentando antever e antecipar os pontos relevantes da outra parte, aqueles em que ela tem razão e nos quais poderemos encontrar mais resistência em eventual negociação ou ação judicial. Viés do otimismo O viés do otimismo diz respeito à nossa capacidade de contestar pensamentos catastróficos ou a probabilidade de ocorrência de situações negativas ou ruins de forma eficaz. Embora não seja uma panaceia, conforme destacado por Martin E. P. Seligman, ser otimista traz inúmeros benefícios, como proteção contra a depressão, elevação do nível de conquista do indivíduo, melhoria do seu bem-estar físico e, além de tudo, “[...] é um estado mental muito mais agradável de se estar” (SELIGMAN, 2016, p. 16). Caso 1 O advogado é contratado para resolver um problema específico de um cliente. A tendência é que esse advogado foque elementos ou informações que confirmem a história contada por quem o contratou. E isso não está errado. Caso 2 Em uma negociação, por ter focado apenas aquilo que o seu cliente lhe confidenciou, o advogado deixa de ter condições de saber em qual cláusula contratual pode ceder – por que motivo, nesse caso, a outra parte tem razão – ou em qual momento deve insistir para defender seu posicionamento. Para Daniel Kahneman, “o principal benefício do otimismo é a resiliência em face dos reveses” e, “em essência, o estilo otimista envolve receber o crédito pelos triunfos, mas pouca culpa pelos fracassos” (KAHNEMAN, 2012, p. 329). Nesse sentido, Shelley E. Taylor e Jonathon D. Brown (1988, p. 193-210) assinalam que o viés otimista pode fazer com que a pessoa realize avaliações positivas irreais sobre si e acerca dos planos e eventos futuros, além de ser responsável pela ilusão de estar no controle dos acontecimentos da vida. Por essa razão, as pessoas tendem a acreditar que o presente é melhor do que o passado e que o futuro certamente será melhor. Em exemplos práticos, podemos dizer que o indivíduo possui a tendência de acreditar que gostará do primeiro emprego, receberá uma boa remuneração e que, sem dúvida, terá um filho talentoso – mas, nem sempre ou poucas vezes, isso se concretizará. Na esfera jurisdicional, o viés do otimismo pode atuar em diversas frentes, seja nas decisões e no modo de atuar e de agir dos advogados, das partes ou, ainda, nas escolhas e na forma de julgamento feitas pelos magistrados. No contexto do Poder Judiciário brasileiro, as regras legais, a sua forma de aplicação e as consequências advindas – sobretudo a imprevisibilidade das decisões judiciais e a ausência ou existência de custas e despesas processuais reduzidas – causam um ambiente propício à atuação do viés otimista. A relação entre a insuficiência ou a ausência de certeza e o viés otimista é direta: “quanto mais incerteza, mais otimismo" (WOLKART, 2019, p. 411) e, quanto mais otimismo, maior a propensão em aceitar riscos. Desse modo, a despeito de a previsibilidade jurídica constituir um fator de extrema importância para a atuação dos profissionais do Direito – que, se existente em um nível considerável, poderão antecipar estratégias, deixar de propor ações frívolas (com baixa probabilidade de êxito) e negociar com mais acurácia, infelizmente percebemos que os tribunais continuam variando seus entendimentos de maneira recorrente (sem contar a mudança legislativa). E qual a consequência disso, ou seja,da perpetuação da imprevisibilidade jurídica? Quanto mais incerteza, quanto mais imprevisível for um acontecimento, maior a tendência de as pessoas acreditarem que conseguirão obter um resultado positivo na sua escolha. Resumindo Em outros termos: a imprevisibilidade jurídica fomenta o viés otimista que, por sua vez, tem o condão de fazer com que as pessoas arrisquem na sua tomada de decisão sobre a propositura de uma ação judicial – nesse sentido, a ação judicial é um empreendimento de risco. Portanto, podemos dizer que a incerteza jurídica fomenta a litigância (ainda mais quando aliada a outros fatores, como as custas judiciais reduzidas ou a concessão do acesso gratuito ao Poder Judiciário). Sistemas cognitivos 1 e 2: duas formas de pensar A tomada de decisão pode ocorrer de duas maneiras: Sistema cognitivo 1 O primeiro é o que nos permite realizar escolhas rápidas, automáticas e intuitivas – e é onde estão alocados os vieses e as heurísticas cognitivas que estudamos. Vale salientar que, além da heurística da representatividade e dos vieses cognitivos confirmatório e do otimismo, existem diversos outros atalhos mentais que utilizamos no dia a dia (como a heurística do excesso de confiança, do afeto, o viés egocêntrico, do algoritmo, entre outros). Sistema cognitivo 2 O sistema cognitivo 2 é o que proporciona a tomada de decisão racional, baseada em custo e benefício. Por ser meticuloso, o sistema 2 é devagar e preguiçoso. Daniel Kahneman (2012) afirma que em apenas 5% das vezes que realizamos alguma escolha, fazemos uso do sistema 2, ou seja, nas outras 95% das vezes que tomamos uma decisão, usamos o sistema 1. Somos, assim, muito mais intuitivos do que pensamos. Por ser mais rápido e seguir pelos atalhos mentais de que já tratamos, o sistema cognitivo 1 é mais propenso a erros. Nos dias atuais, como estamos quase sempre correndo contra o relógio, tornamo-nos mais imediatistas e almejamos resolver tudo rápido, a tendência de atuação do sistema 1 é ainda maior. Na esfera jurídica, existem as metas do CNJ a serem alcançadas pelos magistrados, a pressão dos clientes para que os advogados resolvam os problemas com rapidez, o número mínimo de processos por assessor, e assim por diante. Nesse contexto, acabamos privilegiando, ainda que de forma inconsciente, a intuição à razão. Quadro resumo dos sistemas cognitivos 1 e 2 SISTEMA 1 Verificando o aprendizado Questão 1 Vimos que o modelo da escolha racional parte do pressuposto de que os indivíduos agiriam como se sopesassem todos os custos e benefícios de suas decisões. Sob a perspectiva jurídica, tendo como origem os fundamentos da Análise Econômica do Direito – racionalidade, escassez e preferências –, assinale a alternativa que representa os critérios a serem levados por alguém que deseja decidir entre um acordo e a propositura de uma ação judicial. A Apenas custas iniciais e honorários advocatícios. B Eventuais honorários de sucumbência e benefício esperado com a propositura da ação judicial. C Benefício esperado com a propositura da demanda e os honorários advocatícios. D Custas iniciais e imediatas, benefício esperado e probabilidade de êxito da demanda (chances de ganho). E Despesas totais do processo (desde custas iniciais e honorários de sucumbência entre outras), probabilidade de êxito da ação judicial a ser proposta (chances de ganho) e benefício esperado. A alternativa E está correta. Para determinar quando devemos propor uma ação judicial ou celebrar um acordo, a Análise Econômica do Direito, levando em conta o modelo da escolha racional, propõe a utilização de três critérios: custos totais do processo, benefício esperado com a propositura da ação e probabilidade de êxito. Questão 2 Segundo Daniel Kahneman, existem duas formas de pensar: pelo sistema cognitivo 1 e pelo sistema cognitivo 2. As heurísticas e os vieses cognitivos consistem em atalhos mentais que nós utilizamos para a tomada de decisões diárias, inclusive no meio jurisdicional. Nesse contexto, assinale a alternativa correta: A O sistema cognitivo 1 é o racional, funciona rápido e é extremamente confiável. B O viés do otimismo, embora traga resiliência, disciplina e, até mesmo, melhores condições físicas e de saúde, quando atua em um ambiente de incerteza ou de imprevisibilidade jurídica, tende a fomentar decisões arriscadas, como a propositura de uma ação judicial. C A heurística da representatividade revela que os indivíduos analisam a probabilidade de ocorrência de uma situação a partir do grau em que o elemento A se diferencia do elemento B. D O viés confirmatório pode ser entendido como a tendência das pessoas de analisarem todos os elementos de um fato ou de uma escolha a ser realizada antes da tomada de decisão propriamente dita. E O sistema cognitivo 2 é o racional, funciona rápido, é mais confiável e é o que utilizamos em 5% das decisões. A alternativa B está correta. De fato, quanto mais incerteza existir, maior o grau de otimismo do indivíduo. Incerteza e otimismo são grandezas diretamente proporcionais. Assim, enquanto existir imprevisibilidade jurídica, ser otimista pode significar maiores chances de propositura da ação judicial, muitas vezes em detrimento de acordos eficientes. 3. Análise Econômica do Direito no Poder Judiciário Análise Econômica do Direito e as decisões jurisprudenciais Ao analisar as decisões proferidas pelos tribunais brasileiros, observamos uma crescente utilização da Análise Econômica do Direito em suas fundamentações. Cada vez mais, a Análise Econômica do Direito tem ganhado força nos Tribunais Superiores (Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal) e, por consequência, tem passado a ser utilizada, também, pelos órgãos inferiores. Entretanto, como e de que maneira os tribunais têm utilizado a Análise Econômica do Direito em suas deliberações? Neste módulo, vamos analisar, de forma prática e pormenorizada, três decisões judiciais em que a Análise Econômica do Direito serviu de fundamento à resolução dos respectivos casos. Primeira decisão judicial STJ - Recurso Especial n. 1.838.837/SP. Terceira Turma. Relatora Ministra Nancy Andrighi. Recorrente: Itaú Unibanco S.A. Recorrida: Eliana Cristina Farinacci. Julgado em 12.05.2020. A recorrida Eliana Cristina Farinacci propôs ação judicial contra o Banco Itaú S.A., visando à securitização de contratos de crédito rural. Na fase de conhecimento, os pedidos da autora foram julgados procedentes e o Banco Itaú deveria ter procedido ao alongamento das dívidas, no prazo de 30 (trinta) dias, sob pena de multa diária de R$2.000,00. Transitada em julgado a sentença de primeiro grau, o Banco não cumpriu a obrigação e, quase dez anos depois, Eliana requereu, em cumprimento de sentença, o pagamento da multa diária, calculada, à época, em mais de R$5.000.000,00 (cinco milhões de reais). Ao ser intimado para efetuar o pagamento no prazo de 15 (quinze) dias, o Banco Itaú apresentou seguro-garantia (espécie de seguro de danos em que o contratante ou tomador paga um prêmio para que a seguradora assegure o cumprimento da obrigação). O juízo da execução aceitou a forma de pagamento oferecida pelo Banco. Inconformada, Eliana interpôs agravo de instrumento ao Tribunal de Justiça buscando a rejeição do seguro-garantia, pedido que foi acolhido pela respectiva Câmara sob o entendimento de que não haveria comprovação de que a penhora de dinheiro pudesse comprometer a situação financeira ou inviabilizar as atividades de um banco do porte do Itaú. O Banco Itaú interpôs Recurso Especial, sustentando que o seguro-garantia seria equiparado à penhora em dinheiro e representaria o modo menos gravoso ao executado para realizar o adimplemento da dívida, sem colocar o risco do credor. Realizado o julgamento do Recurso Especial em comento, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça acolheu os pedidos formulados pelo Banco Itaú, ou seja, entendeu que seria possível, como forma de pagamento em execução, a oferta de seguro-garantia, poisele seria equiparado a dinheiro e produziria os mesmos efeitos jurídicos. Como fundamentos do acórdão, o referido órgão judiciário, além de citar o artigo 835, parágrafo 2º, do Código de Processo Civil de 2015 (“para fins de substituição da penhora equiparam-se a dinheiro a fiança bancária e o seguro-garantia judicial”), utilizou a Análise Econômica do Direito para acolher o pedido do recorrente, afirmando que "a fiança bancária e o seguro-garantia judicial são as opções mais eficientes sob o prisma da Análise Econômica do Direito, visto que reduzem os efeitos prejudiciais da penhora ao desonerar os ativos de sociedades empresárias submetidas ao processo de execução, além de assegurar, com eficiência equiparada ao dinheiro, que o exequente receberá a soma pretendida quando obtiver êxito ao final da demanda". Comentário Perceba que o Superior Tribunal de Justiça abordou uma ótica consequencialista na sua decisão: de um lado, poderia afirmar que o seguro-garantia não serviria ao cumprimento da obrigação executada, já que poderia, no caso em comento, ocorrer diretamente a penhora em dinheiro, via Bacen-Jud, por exemplo. Caso seguisse esse rumo, a empresa continuaria com seus ativos onerados, mesmo podendo realizar o pagamento de outra forma, ou seja, por meio da sua seguradora. Sob a perspectiva da exequente (Eliane), fosse por meio de Bacen-Jud ou do seguro-garantia, acabaria recebendo os valores executados.Por outro lado, ao admitir a possibilidade de cumprimento da obrigação executada diretamente por meio de seguro-garantia, em razão de considerar essa hipótese equiparada à oferta em dinheiro, o Superior Tribunal Justiça percebeu que não haveria nenhum prejuízo, no caso concreto, à exequente Eliane e, de igual maneira, seria a forma menos onerosa à empresa. Segunda decisão judicial STJ - Recurso Especial n. 1163283/RS. Quarta Turma. Relator Luis Felipe Salomão. Recorrente: Banco Banrisul. Recorrida: Ignez Ivone Alovisi Galo. Julgado em 07.04.2015. Por meio de ação de conhecimento, a recorrida Ignez Ivone Alovisi Galo buscou a revisão de cláusulas contratuais supostamente abusivas e o restabelecimento do equilíbrio de contrato de financiamento habitacional, instrumento que havia firmado com o Banco Banrisul. Depois de passar pelo juízo de primeiro grau e pelo Tribunal de Justiça respectivo, ocasiões em que a autora teve seus pedidos parcialmente acolhidos, ocasionando a modificação de algumas cláusulas contratuais, o Banco Banrisul interpôs Recurso Especial para discutir especialmente as regras do artigo 50 da lei n. 10.931/2004. Esse artigo prevê que, "nas ações judiciais que tenham por objeto obrigação decorrente de empréstimo, financiamento ou alienação imobiliários, o autor deverá discriminar na petição inicial, dentre outras obrigações contratuais, aquelas que pretende controverter, quantificando o valor incontroverso, sob pena de inépcia". O parágrafo 2º do citado dispositivo prevê que "a exigibilidade do valor controvertido poderá ser suspensa mediante depósito do montante correspondente, no tempo e modo contratados". Veja os desdobramentos a seguir: Ao fundamentar o acórdão, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça utilizou vastos e profundos argumentos tendo como pano de fundo a Análise Econômica do Direito. Primeiro, afirmou que todo contrato de financiamento imobiliário, mesmo aqueles oriundos do Sistema Financeiro de Habitação, é "negócio jurídico de cunho eminentemente patrimonial e, por isso, solo fértil para aplicação da Análise Econômica do Direito". Além disso, o acórdão discorreu sobre a função social do contrato sob a ótica da Análise Econômica do Direito, com o intuito de reconhecer o papel institucional e social que o direito contratual oferece ao mercado, notadamente a segurança e a previsibilidade na realização das operações econômicas e sociais. Ou seja, a Análise Econômica do Direito permitiria medir as externalidades dos contratos, seus impactos econômicos, positivos ou negativos, orientando o intérprete e o julgador para o caminho que gerasse menos prejuízos à coletividade. Nesse sentido (consta no acórdão), garantir, por exemplo, que as partes cumpram com o pactuado seria requisito para própria evolução do sistema de habitação, de modo a assegurar que outras pessoas pudessem se beneficiar dos programas. Com efeito, entendeu o Superior Tribunal de Justiça que o artigo 50 da lei n. 10.931/2004 teria a clara intenção de garantir o cumprimento dos contratos de financiamento da forma como foram pactuados, gerando segurança para os contratantes atuais e futuros. Terceira decisão judicial TJSP - Embargos de Declaração n. 1163283 / Transporte aéreo. 22ª Câmara de Direito Privado. Relator Roberto Mac Cracken. Julgado em 29.05.2017. Embargante: Air Canada. Embargados: José Maria Cabello Campos Neto e Vagner Santoro. Os embargos de declaração opostos pela Air Canada foram acolhidos apenas para aclarar a decisão embargada, sem alterar o seu resultado. Segundo a empresa embargante, o acórdão embargado teria deixado de analisar uma série de dispositivos legais, previstos na Constituição Federal, no Código Civil e no Código de Defesa do Consumidor, alegando, assim, a ocorrência de omissão nesses pontos. Podemos depreender do acórdão em comento que a controvérsia diz respeito à responsabilização da companhia aérea pela perda ou extravio de bagagem, especificamente se essa responsabilidade estaria limitada pela Convenção de Varsóvia, da qual o Brasil é signatário, ou se ilimitada, aplicando-se, nesse caso, o Código de Defesa do Consumidor. Ou seja, em voos internacionais, quanto a companhia aérea deve pagar pela ocorrência de sinistro? Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, estaríamos diante de uma antinomia de normas jurídicas, pois teríamos em polos opostos: Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul Durante o julgamento do recurso de apelação, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul afirmou que o referido dispositivo legal não poderia ser utilizado no caso em comento, pois entendeu que a lei n. 10.931/2004 não se aplicaria aos contratos do Sistema Financeiro de Habitação (por exemplo, entre outros, o antigo programa Minha Casa, Minha Vida fazia parte do Sistema Financeiro de Habitação). Superior Tribunal de Justiça Em sentido oposto, o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o Recurso Especial sob análise, entendeu que as regras processuais inscritas na lei n. 10.931/2004 deveriam, sim, ser aplicadas aos contratos do Sistema Financeiro de Habitação e, no caso, anulou todos os atos processuais até então praticados, inclusive a sentença e o acórdão, determinando a abertura de prazo legal para emenda à inicial (visando dar cumprimento à regra do artigo 50 da lei n. 10.931/2004). A fundamentação que aclarou o acórdão foi baseada nas premissas da Análise Econômica do Direito. De início, há a menção de que o instituto da responsabilidade civil pode ser visto como uma forma de "incentivar as pessoas a tomarem o nível ótimo de cuidado consigo e para com o próximo", no sentido de que tanto a empresa aérea quanto o consumidor podem tomar cuidados para evitar o dano ou para que sua extensão seja mitigada. Em continuidade, afirmou o acórdão que, se a companhia aérea for responsabilizada de forma ilimitada, o consumidor não terá nenhum incentivo para ter condutas de cuidado, a exemplo de evitar o despacho de bens de alto valor ou declarar a sua existência. Por outro lado, se apenas o consumidor for o responsável pelo dano ou se o valor da indenização a ser arcado pela companhia for muito baixo, apenas o consumidor é que terá incentivos para tomar precauções. Alerta o acórdão, ainda, para o contexto em que há a chamada assimetria de informações, isto é, quando as partes possuem informações conflitantes ou informações privilegiadas a respeito da situação. No caso em comento, destacou o Tribunal que, muitas vezes, é impossível à companhia aérea demonstrar o que efetivamente estava na bagagem, ou seja, o consumidor possui uma posição de superioridade,de vantagem em relação a essa informação unilateral. Com efeito, considerando a assimetria informacional e o risco de ser responsabilizada sem um teto ou um limite de valor, "a conduta racional da companhia, além de tomar precauções, é subir o preço de todas as passagens aéreas, como um seguro contra o risco da responsabilidade ilimitada no caso de extravio". Ou seja, a responsabilidade ilimitada teria o condão de aumentar o preço das passagens para todos os passageiros – socialização dos custos. Exemplos do uso da Análise Econômica do Direito Vamos analisar algumas decisões judiciais que utilizaram, em seu fundamento, a Análise Econômica do Direito com a professora Bianca Bez Goulart: Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 A jurisprudência pátria está, cada vez mais, abordando a Análise Econômica do Direito como fundamento nas decisões judiciais. A esse respeito, assinale a alternativa correta. A Fazer uso da Análise Econômica do Direito, na medida em que podem ser utilizadas diversas ferramentas da economia, não é algo bem visto no meio jurídico. B Tratado de Varsóvia (artigo 178 da Constituição Federal) Limita monetariamente o valor que a companhia aérea deve pagar quando ocorre a perda ou extravio da bagagem Código de Defesa do Consumidor Não limita monetariamente o valor que a companhia aérea deve pagar quando ocorre a perda ou extravio da bagagem A utilização da Análise Econômica do Direito nas decisões judiciais pode autorizar o juiz a julgar de maneira contra legem. C A Análise Econômica do Direito pode ajudar os órgãos judiciários a sopesar as consequências, positivas ou negativas, das suas decisões, não apenas para as partes, mas para toda a coletividade. D Não é cabível a utilização da Análise Econômica do Direito nas decisões judiciais que digam respeito a contratos, pois elas devem fazer efeito apenas entre as partes contratantes. E A utilização da Análise Econômica do Direito nas decisões judiciais atrapalha o entendimento das partes sobre os fundamentos invocados pelo juiz, na medida em que os profissionais do Direito não têm o costume ou não são obrigados a estudar suas premissas. A alternativa C está correta. A Análise Econômica do Direito pode ajudar as partes e os órgãos judiciários a raciocinarem para além do caso, pensando e sopesando as externalidades positivas ou negativas das escolhas realizadas no bojo do processo. Questão 2 O Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Recurso Especial n. 1.838.837, equiparou o seguro-garantia a dinheiro para fins de adimplemento de obrigação posta em ação de execução. A respeito do caso em comento, assinale a alternativa correta: A O Superior Tribunal de Justiça utilizou apenas o Código de Processo Civil como fundamento no acórdão. B O Superior Tribunal de Justiça rechaçou a aplicação da Análise Econômica do Direito no caso concreto. C O Superior Tribunal de Justiça afirmou que os julgadores não devem utilizar a Análise Econômica do Direito nas suas decisões. D O Superior Tribunal de Justiça, fazendo uso da Análise Econômica do Direito, afirmou que, no caso em comento, permitir a utilização de seguro-garantia tinha como incentivo a desoneração dos ativos do devedor, sem prejudicar o valor a ser recebido pelo credor. E O Superior Tribunal de Justiça, fazendo uso da Análise Econômica do Direito, afirmou que, no caso em comento, permitir a utilização de seguro-garantia tinha como incentivo a desoneração dos ativos do devedor, mas que, mesmo assim, o credor poderia ser prejudicado. A alternativa D está correta. Além de utilizar o Código de Processo Civil para a fundamentar sua decisão, o Superior Tribunal de Justiça fez uso da Análise Econômica do Direito, afirmando que equiparar o seguro-garantia a dinheiro era benéfico à empresa devedora e que, por outro lado, o credor, no caso concreto, não seria prejudicado. 4. Conclusão Considerações finais No primeiro módulo, abordamos os fundamentos da Análise Econômica do Direito, conceituamos suas premissas – escassez, racionalidade e preferências – e analisamos sob a ótica do Poder Judiciário brasileiro. Em um segundo momento, estudamos a Análise Econômica do Direito na perspectiva da negociação e do Processo Civil. Entendemos quais critérios devemos levar em consideração na propositura de ações judiciais – benefício esperado, probabilidade de êxito da ação judicial e despesas processuais. Além disso, abordamos algumas heurísticas e vieses cognitivos, bem como passamos a compreender as duas formas de pensar: sistema cognitivo 1 e 2 (intuitivo e racional). Por fim, analisamos algumas decisões judiciais que utilizaram como fundamento a Análise Econômica do Direito. Pudemos observar que o uso do método econômico é crescente na jurisprudência pátria e que a sua utilização é abrangente, indo desde a análise de relações contratuais, consumeristas à aplicação de artigo de lei. Podcast Agora, a professora Bianca Bez Goulart comenta alguns tópicos da Análise Econômica do Direito. Vamos ouvir! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Fala, Mestre! Mestres de diversas áreas do conhecimento compartilham as informações que tornaram suas trajetórias únicas e brilhantes, sempre em conexão com o tema que você acabou de estudar! Aqui você encontra entretenimento de qualidade conectado com a informação que te transforma. O Papel do Direito na Sociedade Sinopse: Ana Frazão, presidente da Comissão de Direito Econômico da OAB Federal, discorre sobre a relação do direito com a sociedade e sua função ao lado dos outros fatores regulatórios que a regulam. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Explore + Para mais dados sobre o sistema judiciário brasileiro, busque o relatório analítico Justiça em números 2020, no site da Comissão Nacional de Justiça (CNJ). Leia o livro Análise Econômica do Litígio: entre acordos e ações judiciais, de Bianca Bez Goulart, da editora Juspodivm, 2019. Assista aos vídeos: Entrevista com Daniel Kahenman, no canal Fronteiras do Pensamento; Análise Econômica do Processo Civil, com os professores Erik Navarro, Bianca Bez Goulart, Heitor Sica e Flávio Yarshell, no canal da ABDE; O futuro do Direito Processual Civil: Análise Econômica do Direito e o Processo Civil, com os professores Fernando Gajardoni, Bianca Bez, Sandro Parente e Bruno Bodart. Referências COOTER, R.; ULEN, T. Direito & Economia. Tradução: Luis Marcos Sander, Francisco Araújo da Costa. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. GICO JR., I. T. Análise Econômica do Processo Civil. São Paulo: Foco, 2020. KAHNEMAN, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. 1. ed. 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Fundamentos da Análise Econômica do Direito A Análise Econômica do Direito Conteúdo interativo O que é a Analise Econômica do Direito? Leis Divórcios Ações judiciais Sem ação judicial Comentário Análise Econômica do Direito Positiva e Normativa Criação de lei Investigação Análise Econômica do Direito Positiva Análise Econômica do DireitoNormativa Comentário Pressupostos da análise econômica do direito Escassez Racionalidade Majorar Previsão Conduta Preferências 1 2 3 Preferências completas Preferências transitivas Preferências estáveis Verificando o aprendizado Questão 1 2. Análise Econômica dos diversos ramos do Direito Quando devemos propor uma ação judicial? Quando devemos propor uma ação judicial? Conteúdo interativo Análise Econômica do processo civil 1 2 3 Oferta mínima do potencial litigante Oferta máxima do eventual demandado Exemplo 1 2 3 Para Conrado Para Beatriz Exemplo Resumindo Análise econômica comportamental Atenção Heurísticas Vieses cognitivos Heurística da representatividade Viés confirmatório Exemplo Viés do otimismo Resumindo Sistemas cognitivos 1 e 2: duas formas de pensar Sistema cognitivo 1 Sistema cognitivo 2 Verificando o aprendizado Questão 1 3. Análise Econômica do Direito no Poder Judiciário Análise Econômica do Direito e as decisões jurisprudenciais Primeira decisão judicial Comentário Segunda decisão judicial Terceira decisão judicial Exemplos do uso da Análise Econômica do Direito Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Fala, Mestre! Conteúdo interativo Explore + Referências