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Título da disciplinaFilosofia Democracia Ateniense Ao final deste módulo, você será capaz de identificar a originalidade da democracia ateniense e sua influência no florescimento do pensamento filosófico. 1 História da Filosofia Antiga Noções de Políticas na Grécia Clássica Crise econômica mundial iniciada em 2008 pressionou a Grécia a pagar dívidas aos bancos da União Europeia. • Surgiu na internet a piada sobre pagar royalties por palavras importadas dos gregos e seus conceitos derivados. • O mundo ocidental deve mais aos gregos do que o valor das dívidas da Grécia. • Exemplo disso é a palavra política, derivada de polis (cidades-Estados gregas) e tékhnē (a técnica ou arte de fazer algo). Condições históricas A importância de um Sócrates político. Contexto histórico da região do Peloponeso no século V a.C. Atenas, uma cidade-Estado com uma forma única de governo: a democracia (dêmos = povo + kratía = poder). Outros possíveis criadores da democracia, incluindo Clístenes, Sólon, Efialtes e Teseu. A democracia ateniense atingiu seu auge no século IV A.E.C. durante o tempo de Platão. Fatores que alimentaram o desenvolvimento da democracia, incluindo reformas de Sólon, modificações de Clístenes, revoltas populares, transformações de Efialtes e liderança de Péricles. Condições históricas Parte dos homens adultos e livres de Atenas se reunia cerca de quarenta vezes ao ano na ekklesia para discutir os problemas e soluções da cidade. Apenas 20% da população de Atenas participava do conselho, levando alguns críticos a questionar se era uma verdadeira democracia ou uma forma atenuada de oligarquia. A democracia ateniense influenciou os modelos atuais de organização comunitária, mas diferenças significativas, como representação direta, gênero e classe, enfraquecem as equivalências. Apesar de imperfeita, a democracia ateniense tornou a vida pública constante para todos os cidadãos e a política parte do cotidiano. Condições históricas • Distribuição de poder. • Participação popular. • Representação de todos os estratos populacionais. • Direitos e deveres civis. • Divisão dos recursos econômicos. O exemplo grego nos leva a questionar as estruturas de nossa própria sociedade, incluindo: Sofistas × Filósofos Diferentemente dos filósofos (philo = amigo + sophia = saber), os sofistas não se preocupavam com o mundo supralunar, como Aristóteles chamaria o espaço sideral. Na democracia ateniense, as habilidades de oratória e retórica eram altamente valorizadas. Sofistas alcançaram sucesso ao ensinar a arte da persuasão através do uso das palavras. O teatro, com seus debates e encenações públicas, floresceu na época da democracia ateniense, incluindo a audácia de questionar fundamentos tradicionais da sociedade. Proposta de normas mais acessíveis e democráticas, baseadas em uma visão mais próxima do humano. Sofistas × Filósofos Sofistas • Tinham um enfoque mais concreto e pragmático, • Preocupavam-se mais com a vida cotidiana e a influência direta na sociedade. • Tendiam a mirar o mundo imediato, o próximo, e focavam em questões humanas, éticas e políticas. • Valorizavam o papel do ser humano, enfatizando que o homem é a medida de todas as coisas e defendendo a busca por regras pessoais para a tomada de decisões e orientação na vida. Filósofos • Tinham um enfoque mais abstrato e teórico. • Buscavam explicações gerais e causais para a origem das coisas. • Tendiam a olhar para o universo supralunar e divagar sobre questões cosmológicas e metafísicas. • Não necessariamente desvalorizavam o papel humano, mas suas preocupações eram mais amplas e voltadas para o cosmos como um todo. Sócrates: o ignorante mais sábio dos homens Segundo os escritos deixados por Platão, Sócrates destacou-se por tentar criar parâmetros ideais que não dependessem apenas do homem. • Era uma figura conhecida em Atenas, veterano de guerra e defensor da lei. • O fato que mais marcou sua vida foi a declaração do oráculo de Apolo de que ele seria o homem mais sábio. • A frase “Só sei que nada sei” era indicativo de sua sabedoria, pois reconhecia sua própria ignorância. • Sua missão era revelar a ignorância das pessoas e fazê-las buscar a verdade. • Não cobrava por seus ensinamentos e conversava até com escravos, demonstrando certo desprezo pelas regras sociais da época. Sócrates: o ignorante mais sábio dos homens Filosofia socrática • Ênfase na integridade moral. • Busca pela verdade e conhecimento. • Ênfase na autorreflexão e autoconhecimento. Retórica dos sofistas • Foco na persuasão e argumentação. • Relativismo moral. • Ênfase na educação prática. Obras Platônicas Ao final deste módulo, você será capaz de descrever o investimento político das obras platônicas. 2 História da Filosofia Antiga A produção político-filosófica de Platão • Platão viveu no auge da democracia em Atenas, mas não acreditava ser a melhor forma de governo. • Sua má vontade com a democracia se devia à condenação à morte de seu mestre Sócrates por esse sistema. • Seus escritos refletem um posicionamento político, influenciados por sua experiência pessoal e tentativa de carreira política. • Sua produção filosófica pode ser lida como um pensamento político em constante amadurecimento, preocupado com a criação de um homem correto e livre, interessado no belo, verdadeiro e bem. A construção da cidade e seus habitantes Platão busca criar uma cidade perfeita como ideal para todas as cidades. A proposta é abstrata e não necessariamente defende todas as ideias extravagantes presentes no diálogo "A República." A especialização é fundamental para a produtividade individual e a defesa da justiça. A cidade ideal exclui a arte e valoriza profissões "úteis" para o bem de todos. Sócrates sugere a criação de uma classe de guardiões para proteger a cidade e produzir leis. O filósofo propõe mentiras nobres para moldar a sociedade e criar um profundo sentimento de pertencimento. A justiça é vista como uma consequência do cuidado mútuo e da harmonia social. A unidade, o conservadorismo e o rei filósofo Desde que Platão colocou seu mestre Sócrates para imaginar uma cidade utópica, diversos autores se incumbiram da tarefa de conceber uma organização social que fosse perfeita. A Politeia platônica recebeu interpretações políticas opostas, sendo considerada conservadora e até totalitária. A proposta de especialização e eugenia na cidade utópica gerou comparações desconfortáveis com ideologias totalitárias, como o nazifascismo. A crítica de Aristóteles questiona a obsessão por unidade na cidade perfeita e sua importância para o pensamento político é inegável. Sócrates propõe uma nova forma de organizar agrupamentos populacionais, com um poder especializado entregue a uma única pessoa. O Mito Da Caverna Sócrates diz que a cidade pode ser “um modelo no céu, para quem quiser contemplá-la e, contemplando-a, fundar uma para si mesmo” (PLATÃO, 2001). A cidade ideal não necessariamente é possível – talvez nem se queira que seja. • A condição moral e intelectual da humanidade é representada pela condição ultrajante da caverna. • Sócrates defende que uma sociedade ideal deve ser governada por filósofos ou tornar seus governantes filósofos através de educação adequada. • A ética interna forte de um governante ideal levaria a uma cidade politicamente estável, unida e harmoniosa. • Há uma interligação entre a esfera privada e pública, e a harmonia psíquica é vista como o ordenamento político do espírito. Político A principal sugestão da obra Político é a ideia da tecedura, relacionando a política com a habilidade de tecer elementos sociais. O político-estadista modelo é alguém capaz de entrelaçar as leis e os cuidados com todos os aspectos da cidade. Esse político teria respostas infalíveis para questões de legislação e estaria adaptado às questões cotidianas.Platão apresenta o político ideal como um paradigma, algo difícil de ser alcançado, mas que deve ser buscado. Platão critica a distribuição do poder de comando entre várias pessoas e sugere que o político ideal pode até ignorar leis pouco flexíveis. Na ausência do político ideal, Platão defende a conservação das leis como “imitações da verdade” executadas por aqueles que sabem. Aristóteles – Ética e o alcance do bem viver Ao final deste módulo, você será capaz de Reconhecer a preocupação de Aristóteles quanto à associação entre a ética e a melhor forma de organização social em prol do alcance do bem viver. 3 História da Filosofia Antiga Aristóteles × Platão • Aristóteles estudou por cerca de vinte anos com Platão na Academia de Atenas. • Ele buscou se afastar do idealismo platônico em sua vasta produção intelectual. • A obra de Aristóteles é uma mistura de continuação e variação dos textos platônicos. • Sua influência sobre o pensamento ocidental é significativa, comparável à de Platão. • Em alguns períodos, como a Idade Média, a influência de Aristóteles foi ainda maior, sendo conhecido como "O filósofo". A Ética da felicidade e da Filosofia Existe uma conexão entre ética e política, presente tanto nas obras de Platão como em Aristóteles. Aristóteles argumenta que a felicidade virtuosa está relacionada a viver bem como ser humano, dentro de uma comunidade. A virtude não é algo aleatório ou inato, mas sim um traço de personalidade que nos permite alcançar o "bem" humano. Sua influência sobre o pensamento ocidental é significativa, comparável à de Platão. O objetivo de toda vida humana é alcançar esse "bem" humano, e sem ele, a vida seria vazia e sem sentido. Para começar, o que seria o bem humano? Aristóteles busca desvendar o conceito de "bem" proposto por Platão, que considera abstrato. O "bem" é um problema social e varia conforme a comunidade em que se está inserido. Aristóteles investiga as virtudes humanas, como coragem, generosidade e justiça, para entender o conceito de "bem". Conclui que a razão é a melhor coisa em nós e o caminho para alcançar a finalidade da vida e a felicidade. Aristóteles afirma que a atividade intelectual é o objetivo último da vida humana, e a sabedoria filosófica é a atividade virtuosa mais aprazível. As diferentes constituições • Aristóteles criticava a democracia (de Atenas) alegando que era um mau governo da maioria, beneficiando apenas alguns em vez do bem comum. • Alguns estudiosos acreditam que Aristóteles escreveu um livro chamado "A Constituição dos Atenienses" que examinava 158 constituições diferentes da cidade e trazia uma abordagem histórica do governo ateniense. • Em "A Política", Aristóteles criticou fortemente a democracia ateniense e defendeu a predominância masculina no poder, além de justificar a escravidão. • Suas ideias políticas foram duramente criticadas ao longo da história devido a seu racismo, xenofobia e outros pontos de vista controversos. As diferentes constituições Aristóteles faz, em geral, uma defesa de uma constituição que beneficie o bem comum, em vez de priorizar apenas algumas pessoas, como os próprios governantes. Para tanto, lista seis possibilidades de governo assim organizadas: O governo de apenas um. Monarquia e tirania O governo de poucos. Aristocracia e oligarquia O governo de muitos. Politeia e democracia Cidade e Justiça em Santo Agostinho Ao final deste módulo, você será capaz de definir os conceitos de cidade e justiça em Santo Agostinho. 1 História da filosofia Medieval Conceito de Filosofia Medieval A Filosofia medieval não foi apenas aquela pensada pelos intelectuais cristãos! Também houve Filosofia medieval entre os pensadores judeus e muçulmanos. A Bíblia, no caso dos cristãos. A Tanak ou Antigo Testamento, no caso dos judeus. O Alcorão, no caso dos muçulmanos. As três correntes, contudo, tiveram a mesma estrutura intelectual: a de um diálogo entre a respectiva escritura sagrada e o pensamento grego platônico, neoplatônico e aristotélico. Conceito de Filosofia Medieval A corrente cristã conectou o pensamento antigo à filosofia moderna. A literatura patrística engloba obras cristãs da idade dos padres da Igreja, mas nem todas são de autores padres da Igreja. A Filosofia cristã não era uma ciência independente da teologia, mas um instrumental para auxiliar a razão iluminada pela fé. Alguns intelectuais cristãos desenvolveram reflexões filosóficas originais a partir de temas presentes na Bíblia, mas não exatamente relacionados a mistérios de fé. Conceito de Filosofia Medieval A perspectiva da fé ajudou a vislumbrar melhor as realidades do mundo e do homem que do que a razão grega havia feito. São exemplos desses temas: • O fato de o mundo ter um início. • A valorização do mundo visível, da matéria e do corpo. • A supervalorização do ser humano. • A valorização da mulher, da infância, dos que sofrem, dos que padecem de escravidão. • A valorização do tempo e da história. • O incremento da noção de “memória”. • O incremento da investigação sobre o problema do “mal”. • O incremento das noções de “lei” e de “consciência”. Contexto histórico e breve biografia A patrística é o período do pensamento teológico e filosófico dos "padres da Igreja" (séculos II a VIII). Os "padres" são os "pais" dos dogmas católicos, que uniram a revelação de Cristo e dos apóstolos ao pensamento grego racional, estabelecendo os artigos fundamentais da fé católica. • Santo Agostinho é uma figura proeminente entre os padres da Igreja no Ocidente. • Agostinho teve uma vida intelectualmente inquieta, estudou filosofia e literatura latina, aderiu ao maniqueísmo, mas abandonou essa seita após estudar o neoplatonismo de Plotino. • Ele se converteu ao catolicismo após ouvir os sermões do bispo Ambrósio em Milão e experimentar alegria espiritual ao ouvir seus cânticos. • Agostinho fundou uma comunidade de monges para se dedicar à filosofia, mas acabou tornando-se padre católico e, posteriormente, bispo da cidade de Hipona. Santo Agostinho. A cidade de Deus e a Justiça “Cidade” é o conjunto de homens unidos pelo amor comum a certo objeto. E haveria fundamentalmente duas cidades: É por isso que Agostinho preocupou-se com a arte de governar, pois para ele, a política deve contemplar o homem em sua plenitude construída de corpo e alma. Portanto não haverá política verdadeira se esta não estiver ligada a Deus. Cidade de Deus Unida pelo amor divino e que dirige sua existência à glória de Deus Cidade dos homens Unida pelo amor às coisas temporais, de costas para Deus A cidade de Deus e a Justiça A condição fundamental para que a paz seja permanente é a ordem. Para que um conjunto de partes concorde na busca de um mesmo fim, é preciso que cada qual esteja em seu lugar e desempenhe sua própria função corretamente. Assim: A paz do corpo é o equilíbrio bem ordenado dos apetites ou das paixões. A paz da alma racional é o acordo entre o conhecimento e a vontade. A paz doméstica é a concórdia dos moradores da mesma habitação quanto ao comando e à obediência. A paz da cidade é a concórdia da família estendida a todos os cidadãos. A paz da cidade cristã é uma sociedade ordenada de homens que amam a Deus e se amam mutuamente em Deus. A cidade de Deus e a Justiça A justiça é a virtude que realiza a ordem, que dá a cada um o que é devido: Ela deriva da lei eterna, que ordena conservar a ordem e impedir perturbações. A lei eterna é como a luz interior de Cristo, que ilumina nossa consciência moral. Existe em nós a "lei natural", uma transcrição da lei eterna em nossa alma. A exigência fundamental da lei natural é que tudo esteja ordenado. A justiça estabelece a ordem no homem, com o corpo submetendo-se à alma e esta a Deus. Virtudes Morais - Santo Tomás de Aquino Ao final deste módulo, você será capaz de reconhecer as característicasdas virtudes morais cardeais segundo Santo Tomás de Aquino. 2 História da filosofia Medieval Contexto histórico Santo Tomás de Aquino é o maior expoente do período escolástico da teologia e Filosofia católica, cujo nome deriva das “escolas” monásticas ou catedralícias, nas quais eram ensinadas a teologia e as “artes liberais”: Trivium Artes da linguagem (gramática, retórica e lógica). Quadrivium Artes das relações numéricas (aritmética, geometria, astronomia, música). Contexto histórico O período escolástico começou no século IX, após a chamada "Idade das Trevas" causada pelas invasões bárbaras e queda do Império Romano. O método da escolástica madura era a disputatio, um embate dialético para discutir teses. As "sumas" buscavam compendiar todo o saber teológico e filosófico, confrontando as teses dos padres da Igreja e dos filósofos com a Bíblia. Surgiram as ordens "mendicantes" dos franciscanos e dos dominicanos, pregando a pobreza como ideal de vida cristã. Frederico II, líder do Sacro Império, mostrou as primeiras aspirações absolutistas. Tomás de Aquino ensinava em Paris e começou a comentar Aristóteles, buscando conciliar o pensamento grego com a verdade revelada do cristianismo. Aquino defendeu que, sem o conhecimento revelado do início temporal do mundo, poderíamos considerar o mundo como eterno de forma ontológica, mas não cronológica. Ética da lei natural e das virtudes Para Thomás de Aquino Significa uma boa qualidade da mente pela que se vive retamente, da qual ninguém usa mal, produzida por Deus em nós sem intervenção nossa Em sentido lato São aquelas humanas, que destinam-se aos fins da razão humana e que podem ser obtidas pela reiteração dos atos. A virtude pode ser vista das seguintes formas: Vejamos um pouco sobre cada virtude cardeal, pois esse é um conhecimento filosófico de grande densidade existencial: Ética da lei natural e das virtudes É a virtude que aplica os princípios da sindérese à realidade, permitindo agir com justiça ao conhecer a verdade dos princípios e da situação. Ela não define a felicidade, mas orienta como alcançá-la. Prudência É a vontade constante de dar a cada um o seu direito, sendo a operação exterior a matéria dessa virtude. Justiça Entrega-se ao verdadeiro valor do real de forma razoável, pois a verdadeira fortaleza não se expõe desnecessariamente ao risco. Ela supõe uma avaliação justa das coisas a serem arriscadas ou protegidas. Fortaleza Busca realizar a ordem interna do homem, sem egoísmo, gerando tranquilidade. Ela lida com as forças naturais que promovem o prazer sensível na comida, bebida e prazer sexual, mas exige abstinência e castidade para evitar a desordem interna. Temperança Política • Aquino considera o homem como um ser naturalmente sociável e político, buscando meios para sua existência por meio da vida social. • Por outro lado, a filosofia política de Thomas Hobbes enfatiza o "estado de natureza" onde o homem é visto como o "lobo do homem", e o Estado é necessário para impor a paz através do Leviatã. • A política é definida como a arte de direcionar a multidão para o bem comum, com um governante que harmoniza interesses individuais aos interesses mais gerais da sociedade. Triunfo de Santo Tomás de Aquino sobre Averroes, Benozzo Gozzoli, século XV. Política Quando o governante busca: Seu bem privado, é injusto e perverso • Tirania – Governo injusto de um só. • Oligarquia – Governo injusto de alguns poucos ricos. • Democracia – Governo injusto de muitos. Bem público comum e é justo • Politia – Governo da multidão. • Aristocracia – Governo de poucos, porém virtuosos (os “melhores”). • Realeza ou monarquia – o governo de um só (o rei). Política O governo deve se orientar ao bem comum, mas o governante não decide sobre ele, apenas sobre os meios para alcançá-lo. A democracia é mais aceitável entre os regimes injustos, minimizando danos, enquanto a tirania busca apenas o bem de um. Tomás de Aquino reconhece o direito da sociedade de destituir governantes tirânicos. O fim último da sociedade é chegar à fruição divina, e os governantes devem estar sujeitos à Igreja na busca pela bem- aventurança eterna. As três condições para uma boa vida da multidão são a unidade da paz, o procedimento virtuoso dos cidadãos e a abundância do necessário para o viver bem. Lei no Nominalismo e na Escola Ibérica Ao final deste módulo, você será capaz de distinguir a novidade na concepção de lei no nominalismo e na Escola Ibérica em relação aos pensamentos agostiniano e tomista. 3 História da Filosofia Medieval Nominalismo metafísico-teolófico e epistemológico • Considerou que a razão não poderia conhecer com certeza Deus, a alma e os deveres morais, que seriam assuntos exclusivos da Revelação. • Separou teologia e Filosofia/ciência. Essa foi a base da Reforma Protestante e do pensamento racionalista de Descartes. • O fideísmo coloca Deus acima da razão humana, enquanto o racionalismo minimiza o poder da razão para alcançar o espiritual e divino. • O nominalismo resolve o problema do conhecimento, considerando os conceitos como meros nomes ou símbolos para realidades similares, o que abriu espaço para o desenvolvimento da Ciência moderna. Guilherme de Ockham representado em vitral de uma igreja na Grã-Bretanha. Com sua Filosofia “nominalista”, Guilherme (ou William) de Ockham quebrou a harmonia buscada por Agostinho e Tomás de Aquino. Nominalismo moral O conceito de "essência" ou "natureza" universal desapareceu, levando ao fim do conceito de "lei natural" e à emergência da "liberdade de indiferença". A moralidade foi separada do desejo de felicidade e dos 10 Mandamentos, tornando-se uma obrigação. A Inquisição e a estatolatria moderna contribuíram para essa mudança na moral. A moral nominalista permitia atos desconexos, sujeitos à mudança de ideia de Deus. A teologia moral católica afastou-se do Novo Testamento e adotou uma abordagem "jurídica" influenciada por Ockham. Nominalismo político A obra Breviloquium é a síntese da Filosofia política de Ockham, dividida em seis livros. No quinto livro, discute-se a interpretação mística da passagem bíblica das "duas espadas" como os dois poderes: temporal e espiritual. No sexto livro, analisa-se a Donatio Constantini e questiona sua legitimidade, afirmando que só o povo romano poderia transferir autoridade ao papa. Ockham defende que a autoridade papal é puramente espiritual e religiosa, com algum poder temporal sobre bens materiais necessários para o cumprimento de sua missão de salvação. Ele preconiza a coordenação e cooperação entre as potestades temporal e espiritual. Escolas de Salamanca e Coimbra Assim as identificamos: Universidade de Salamanca • Foi fundada em 1243 por Fernando III, o Santo (1201- 1252), rei de Leão e Castela. • Foi uma das quatro grandes universidades da cristandade medieval, junto com Paris, Bolonha e Oxford. Universidade de Coimbra • Foi fundada em 1290. • Manteve-se como uma das instituições mais antigas do mundo. • Ofereceu os cursos de Artes, Direito Canônico, Direito Civil e Medicina desde sua origem. Escolas de Salamanca e Coimbra Francisco de Vitória (1483-1546) Estudou Antropologia tomista em Paris e criou uma escola filosófico- teológica influente na Espanha e América. • Suas obras De potestate civili, De indis e De iure belli abordam a origem da autoridade civil, os títulos legítimos e ilegítimos dos espanhóis para conquistar a América e o direito à guerra contra os nativos do novo continente. • Defende que todos os povos têm o direito de escolher sua forma de governo. • Aplica os critérios do "mal menor" e do "bem possível" para justificar a guerra, considerando que nenhuma guerra é justa se causar mais mal do que bem. • Criou o direito das gentes (ius gentium), precursor do Direito internacional,baseado na solidariedade internacional dos povos. Monumento a Francisco de Vitória, obra de Francisco de Toledo (1975), em Salamanca, na Espanha. Escolas de Salamanca e Coimbra Sobre a conquista espanhola na América, Vitória estabeleceu sua conhecida relação de sete títulos ilegítimos e de oito títulos legítimos. Os sete títulos ilegítimos são: O imperador é senhor do mundo. A autoridade é do Romano Pontífice, que doou as Índias aos espanhóis. O direito provém do descobrimento. Os índios se obstinam em não receber a fé de Cristo, apesar de lhes ter sido proposta e os terem exortado com insistência. Os pecados são dos próprios bárbaros — alguns contra natura (contra a natureza). A escolha é voluntária por parte dos nativos. Há uma especial doação por parte de Deus — como ocorreu no caso dos israelitas quanto à sua Terra prometida. Escolas de Salamanca e Coimbra Os oito títulos legítimos são: Os espanhóis têm direito a percorrer as terras americanas sem serem molestados e sem receber dano. A religião cristã pode ser propagada naquelas terras — no caso de os índios aceitarem espontaneamente a fé católica, não haveria o direito a declarar guerra contra eles nem de ocupar suas terras. Os nativos que se converteram à fé católica devem ser protegidos contra as perseguições de seus próprios reis, ainda pagãos. Se boa parte dos nativos tivesse se convertido à fé católica, o papa poderia, com causa justa, impor-lhes um príncipe cristão e destituir o príncipe infiel. Cabe à tirania de seus próprios senhores ou às leis desumanas que estes promulgam. A escolha por parte dos nativos deve ser verdadeira e voluntária. Essa escolha vale por razão de amizade ou aliança. Pela pouca “civilização e polícia” dos nativos, poderia ser imposto a eles um príncipe cristão — este lhe parece um título duvidoso.