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O TEXTO E SUA TIPOLOGIA
Fundamentos e aplicações
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CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA:
ENSINO DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS
Belo Horizonte
Faculdade de Letras / UFMG
2012
Janice Helena Chaves Marinho
Geruza Corrêa Daconti
Gustavo Ximenes Cunha
O TEXTO E SUA TIPOLOGIA
Fundamentos e aplicações
Livro-05-Janice-Marinho.p65 11/11/2012, 09:593
Copyright © 2012 dos Autores
Projeto Gráfico e Editoração: Marco Antônio e Alda Lopes Durães
Capa: Francisco Chaves Marinho
UNIVERS IDADE FEDERAL DE MINAS GERA IS
Reitor: Clélio Campolina Diniz
Vice-Reitora: Rocksane de Carvalho Norton
FACULDADE DE LETRAS
Diretor: Luiz Francisco Dias
Vice-Diretora: Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS
Coordenadora: Célia Maria Magalhães
Subcoordenador: Rui Rothe-Neves
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LINGUA PORTUGUESA
Coordenadora: Janice Helena de Resende Chaves Marinho
CÂMARA DE PESQUISA DA FACULDADE DE LETRAS DA UFMG
Coordenador: José Américo de Miranda Barros
Ficha catalográfica elaborada pelos Bibliotecários da Biblioteca FALE/UFMG
Marinho, Janice Helena Silva de Resende Chaves.
O texto e sua tipologia : fundamentos e aplicações / Janice Helena
Chaves Marinho, Geruza Corrêa Daconti, Gustavo Ximenes Cunha. –
Belo Horizonte : Faculdade de Letras da UFMG, 2012.
85 p. : il. (Coleção Proleitura ; v. 5).
Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-7758-150-4
1. Língua portuguesa – Estudo e ensino. 2. Gêneros textuais. 3.
Produção de textos. I. Daconti, Geruza Corrêa. II. Cunha, Gustavo Ximenes.
III. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Letras. IV. Título.
CDD : 469.8
M338t
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S u m á r i oS u m á r i oS u m á r i oS u m á r i oS u m á r i o
Para ensinar leitura e produção de textos
Maria da Graça Costa Val . . . . . . . . . . . . 7
Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . 9
1 Texto e sua tipologia . . . . . . . . . . . 16
1.1 Tipos textuais . . . . . . . . . . . . 17
1.1.1 Tipo narrativo . . . . . . . . . . . 21
1.1.2 Tipo descritivo . . . . . . . . . . . 25
1.1.3 Tipo explicativo . . . . . . . . . . . 29
1.1.4 Tipo argumentativo . . . . . . . . . . 32
1.1.5 Tipo dialogal . . . . . . . . . . . . 36
1.1.6 Heterogeneidade textual . . . . . . . . 39
1.2 Gêneros textuais . . . . . . . . . . . 45
1.2.1 Gêneros: apresentação . . . . . . . . . 46
1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários . . . 48
1.2.3 Índices de identificação dos gêneros . . . . . 51
2 Gêneros textuais e ensino . . . . . . . . . . 61
2.1 Trabalhando com a notícia e o artigo de opinião . . 62
2.2 Trabalhando com sequências didáticas . . . . . 71
Palavras finais . . . . . . . . . . . . . . . 83
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . 83
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PPPPPara ensinar leituraara ensinar leituraara ensinar leituraara ensinar leituraara ensinar leitura
e produção de textose produção de textose produção de textose produção de textose produção de textos
O que é ensinar Português hoje? O que fazer para assumir o texto
como unidade básica do ensino, conforme postulam as propostas curriculares
oficiais? Como se ensina leitura e produção de textos? Aliás, o que é texto? o
que é leitura? o que é produção de textos? Que conhecimentos e habilidades
estão envolvidos nesses processos?
Esta coleção se destina a buscar respostas para essas questões. Resultado
do empenho dos professores do Curso de Especialização em Língua Portuguesa:
ensino de leitura e produção de textos, que vem sendo desenvolvido pela FALE/
UFMG, este conjunto de livros representa um investimento na formação de
professores da Educação Básica como “sujeitos leitores e escritores tão
competentes que sejam capazes de formar outros sujeitos leitores e escritores
igualmente hábeis e críticos”, como prevê a proposta do Curso.
O objetivo é oferecer aos professores uma fundamentação teórica sólida
na área da leitura e da escrita, abrindo-lhes um leque diversificado de perspectivas,
que inclui as teorias da enunciação, a análise do discurso, a linguística textual, a
psicolinguística, a semiótica discursiva. Os textos analisados situam-se na esfera
literária, no domínio jornalístico, no circuito cotidiano, nas transmissões do
rádio e da TV, na produção acadêmica, na mídia eletrônica. De acordo com a
proposta do Curso, “essa realidade complexa, que já invadiu as salas de aula, as
residências e todos os tipos de serviços de nossa sociedade, precisa ser pensada,
criticada, ampliada e dominada por aqueles que formam sujeitos leitores e
escritores e cidadãos do século XXI”.
Não se trata, no entanto, de massudos calhamaços difíceis de digerir.
Pelo contrário. O material é produzido numa linguagem acessível, em tom
coloquial, em alguns casos. A exposição teórica vêm entremeada de exemplos
interessantes e esclarecedores. Há atividades que possibilitam ao professor
refletir sobre seus conhecimentos e suas práticas, transitar pelo quadro teórico
em estudo, operar com os conceitos que ele propõe. Esse exercício de olhar
de nova perspectiva e de pensar com novas ferramentas se estende, ainda, à
analise de textos de alunos e à elaboração de atividades de ensino.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
8
Os livros, em relação de complementaridade, além de buscarem
ampliar e aprofundar os conhecimentos dos professores, sugerem diferentes
maneiras de atuar em sala de aula tomando o texto – lido ou escrito – como
objeto de ensino. A coleção contempla reflexões sobre os PCNs e instiga
discussões sobre a configuração e o funcionamento da sala da aula – a sala de
aula dialógica, dinâmica e democrática que estão a exigir os alunos do século
XXI.
Assim, ganham corpo as intenções definidas na proposta do Curso:
“implementar a formação de especialistas cuja prática esteja adequada ao
mundo contemporâneo” e “contribuir para a ampliação das possibilidades
dos professores de formular autonomamente alternativas de trabalho referentes
às práticas escolares de ensino de leitura e produção de textos, no âmbito dos
estudos da Língua Portuguesa e da Literatura Brasileira”, de modo a
“transformar a posição de enunciação dos professores – de transmissores a
produtores do conhecimento”.
O Curso e a coleção de livros respondem ao necessário cumprimento
da função social da universidade pública. É por meio deles que os docentes
integrantes desse projeto buscam partilhar com professores da Educação Básica
conhecimentos construídos em sua trajetória de ensino, estudos e pesquisa.
Maria da Graça Costa Val
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IntroduçãoIntroduçãoIntroduçãoIntroduçãoIntrodução
Para tratar do texto e de sua tipologia, este livro discute os conceitos
de tipo e gênero textuais, que estão bastante presentes nos estudos sobre o
texto atualmente.
Nosso objetivo é promover reflexões sobre os gêneros e tipos textuais
e buscar melhor compreensão da forma como se pode trabalhar na escola a
materialidade linguística e textual considerando-se as instâncias sociais de que
emergem os textos.
Essa proposta tem relevância na formação do professor, de quem se
espera um domínio de teorias que lhe permitam pôr em prática o trabalho
com o texto em sala de aula, possibilitando o desenvolvimento das habilidades
dos alunos de interagir por meio de textos que interpretam e produzem nas
diversas situações comunicativas por eles vivenciadas.
O texto coloca-se como ponto de partida e de chegada do processo
de ensino-aprendizagem da língua:
No texto (é) que a língua – objeto de estudos – se revela em sua totalidade
quer enquanto conjunto de formas e de seu reaparecimento quer enquanto
discurso que remete a uma relação intersubjetiva constituída no próprio
processo de enunciação marcada pela temporalidadenúmeros. Já na segunda sequência, o autor
explicita seu ponto de vista, na tentativa de modificar a visão de mundo do
leitor. Para isso, ele faz uma crítica aos responsáveis pelo programa Fome
Zero, comparando-os de forma irônica com os índios piraãs.
Nesse início de artigo de opinião, o autor emprega duas sequências:
uma explicativa (A) e uma argumentativa (B).
Vejamos um último exemplo, que é parte de um conto.
(A) As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram
tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando
ele a tocou no ombro.
(B) – Você gosta de estrelas?
– Gosto. Você também?
– Também. Você está olhando a lua?
– Quase cheia. Em Virgem.
– Amanhã faz conjunção com Júpiter.
– Com Saturno também. – Isso é bom?
– Eu não sei. Deve ser.
– É sim. Bom encontrar você.
– Também acho. (A) (Silêncio)
(ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados, 9. ed. São Paulo,
Companhia das Letras, 1995. p. 126)
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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Na sequência que se inicia pela letra A, o narrador narra o encontro
de duas personagens. A partir da letra B, inicia-se um diálogo entre elas. Ao
final do diálogo, o narrador retoma a narrativa, para informar que, após a
última fala (“Também acho”), as personagens ficaram em “silêncio”. Nesse
texto, verifica-se um encaixamento de sequências. A sequência dialogal (B)
está encaixada na sequência narrativa (A).
Atividade 8 – Reúna-se com seus colegas de grupo. Leiam o texto abaixo e
identifiquem os tipos textuais nele presentes.
Uma revolução sem gramática
Professor honorário de linguística da Universidade do País de Gales,
em Bangor, David Crystal, de 66 anos, é uma das maiores autoridades
mundiais em linguagem. Autor de A Revolução da Linguagem, ele
falou a VEJA sobre as mudanças que a internet trouxe ao uso da
língua e sobre as línguas em extinção.  
A INTERNET ESTÁ MUDANDO O CARÁTER DAS LÍNGUAS?
Em cinquenta ou 100 anos, todas as línguas que utilizam a internet
serão diferentes. Está surgindo o que chamo de netspeak, “fala da
rede”, ou comunicação mediada pelo computador, em jargão
acadêmico. Ainda é impossível prever, no entanto, quais serão a forma
e a extensão dessa mudança. Leva muito tempo para que uma
transformação efetiva se manifeste numa língua. No inglês, por
exemplo, notamos uma grande diferença entre a linguagem de Chaucer
e a de Shakespeare. Duzentos anos separam o nascimento de um e de
outro. Pergunte às pessoas quando foi a primeira vez em que elas
mandaram um e-mail. Foi há dez, talvez cinco anos. É algo recente
demais. Existem curiosos fenômenos de ortografia, o uso de sinais
tipográficos e dos chamados emoticons. Mas, se procurarmos por novas
palavras ou uma nova gramática na internet, não encontraremos muita
coisa. O inglês é uma língua com mais de um milhão de palavras, e
somente umas poucas centenas foram incorporadas a ela por causa da
internet. Isso não altera o seu caráter.  
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
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A INFORMALIDADE É UMA CARACTERÍSTICA CENTRAL
DO NETSPEAK?
Sim, até o momento. Isso tudo começou com os nerds da internet,
há vinte, trinta anos. E eles eram rebeldes. Viam a rede como uma
revolução, uma alternativa democrática às formas de comunicação
mais formais. Esses pioneiros não pontuavam, não se preocupavam
com ortografia, criavam formas estranhas de grafar as palavras. Quando
a internet se espalhou, a informalidade se popularizou também. Nos
anos 80 e 90, e-mails se tornaram muito informais. Mas a idade média
do usuário de internet vem subindo, e com isso a comunicação está ficando
mais formal novamente. Acredito que os estudos sobre netspeak que
virão daqui por diante vão documentar um aumento da formalidade.
O SENHOR AFIRMA QUE, NO ATUAL RITMO DE
EXTINÇÃO, EM UM SÉCULO TEREMOS SÓ METADE DAS
LÍNGUAS QUE SÃO FALADAS NO PLANETA HOJE. POR
QUE TANTAS LÍNGUAS ESTÃO DESAPARECENDO?
O principal motivo é a assimilação cultural por causa da globalização.
O crescimento das grandes línguas do mundo funciona como um
trator, esmagando os idiomas que se põem no caminho. Isso não é
um fenômeno restrito a duas ou três línguas. Não é apenas o inglês
que ameaça línguas nativas na Austrália, ou o português que põe em
perigo idiomas indígenas no norte do Brasil. O chinês, o russo, o
hindi, o suahili – todas as línguas majoritárias – ameaçam idiomas de
comunidades pequenas. O futuro dessas línguas minoritárias está
vinculado a políticas regionais. Nos lugares onde elas sobrevivem, há
uma série de práticas políticas e econômicas que valorizam a diversidade.
O QUE SE PERDE QUANDO UMA LÍNGUA MORRE?
Quando me fazem essa pergunta, costumo rebater com outra: como
seria o mundo se a sua língua não houvesse existido? O que você teria
perdido, o que todos teríamos perdido se não existisse o português?
Se não houvesse o inglês, não teríamos Chaucer, Shakespeare, Dickens.
Quando colocamos as coisas nesses termos, as pessoas veem. Uma
língua expressa uma visão peculiar do mundo. Não importa se a
comunidade que utiliza essa língua vive em uma selva, em um iceberg
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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ou na cidade, sua história, seu ambiente e seu modo de pensar não
têm igual. O único meio de comunicarmos a percepção do que é ser
humano em determinado ambiente é através da linguagem.  
NO BRASIL, JÁ HOUVE TENTATIVAS DE RESTRINGIR
LEGALMENTE O USO DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS,
ESPECIALMENTE DO INGLÊS. O INGLÊS PODE SER
CONSIDERADO EM ALGUMA MEDIDA UMA AMEAÇA AO
PORTUGUÊS?
Não, de forma alguma. Esses movimentos puristas aparecem no
mundo todo. E o fato básico é que todas as línguas tomam
empréstimos das outras. Ao longo dos últimos 1.000 anos, o inglês
incorporou palavras de mais de 350 línguas. Só 20% das palavras do
inglês atual remontam às origens anglo-saxônicas e germânicas da
língua. Essa incorporação de palavras tornou o inglês uma língua
expressiva e rica. Shakespeare não poderia escrever o que escreveu se
não contasse com um vocabulário que era germânico, francês e latino.
Palavras se incorporam a uma língua não para destruí-la, mas para
permitir novas oportunidades de expressão. Se cada palavra que entra
no português apagasse uma palavra anterior, isso seria de fato um
fenômeno estranho e indesejável. Mas não é assim que funciona. A
nova palavra não substitui palavras preexistentes, ela passa a vigorar
ao lado delas. A língua evolui desse modo e alcança uma gama
expressiva mais ampla.  
(Disponível em: .
Acesso em: 1 nov. 2010. Adaptado.)
Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:
ADAM, Jean Michel. Les textes: types et prototypes. Paris: Nathan, 1992.
ADAM, Jean Michel. A linguística textual: introdução à análise textual dos
discursos. São Paulo: Cortez, 2008.
BENVENISTE, Émile. As relações de tempo no verbo francês. In: ______.
Problemas de linguística geral. São Paulo: Ed. Nacional; Ed. da Universidade
de São Paulo, 1976. p. 260-276.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
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BONINI, Adair. A noção de sequência textual na análise pragmático-textual
de Jean Michel Adam. In: MEURER, José Luiz; BONINI, Adair; MOTTA-
ROTH, Désirée (Org.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo:
Parábola Editorial, 2005. p. 208-236.
BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por
um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: Educ, 1999.
KOCH, I. V. Os tempos verbais no discurso. In: ______. Argumentação e
linguagem. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2008. p. 35-46.
MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de linguística para o texto
literário. São Paulo: Martins Fontes,1996.
SILVA, Jane Quintiliano. Gênero discursivo e tipo textual. Scripta. Belo
Horizonte: POSLETRAS/PUC-MG, v. 2, n. 4, p. 87-106, 1. sem. 1999.
1.2 1.2 1.2 1.2 1.2 Gêneros textuaisGêneros textuaisGêneros textuaisGêneros textuaisGêneros textuais
Neste item, fazemos uma caracterização dos gêneros textuais,6
seguindo a proposta de Bakhtin (2003).7 Dada a complexidade do conceito
de gêneros, essa caracterização se faz em três momentos. Inicialmente, apresentamos
uma definição geral do conceito. Em seguida, abordamos a distinção que Bakhtin
propõe entre gêneros primários e gêneros secundários. Por fim, procedemos a
um rápido estudo de alguns gêneros, para tratar de índices que auxiliam no
reconhecimento do gênero a que pertence um texto específico.
6
 Rojo (2005) esclarece que, em relação às Teorias de Gênero (de textos/do discurso) – que, no
Brasil, têm ganhado destaque desde a publicação dos novos referenciais nacionais de ensino de
línguas (PCN de Língua Portuguesa, de Línguas Estrangeiras), os quais indicam os gêneros
como objeto de ensino ou destacam a importância da consideração de suas características na
leitura e na produção dos textos –, há duas vertentes enraizadas em diferentes leituras da obra
de Bakhtin: (1) a que denomina Teoria dos Gêneros do Discurso, dos gêneros discursivos,
centrada principalmente no estudo das situações de produção dos enunciados ou textos e em
seus aspectos sócio-históricos; e (2) a que a autora denomina Teoria dos Gêneros de Textos, dos
gêneros textuais, mais centrada na descrição da materialidade textual. Em todas as duas vertentes,
a noção de gênero é contemplada como ação social.
7
 A primeira edição dessa obra é de 1992.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação
Os gêneros textuais são formas linguísticas realizadas, que usamos
para a comunicação verbal. Falamos apenas através dos gêneros. Como
afirmado por Bakhtin (2003), os diversos campos da atividade humana estão
ligados ao uso da língua, que se efetua em forma de enunciados (orais e
escritos) proferidos pelos integrantes de um ou outro campo da atividade
humana. Esses enunciados (ou textos) refletem as condições específicas e as
finalidades de cada um desses campos por seu conteúdo temático (esfera de
sentido, conteúdo que se torna dizível através do gênero), pelo estilo da
linguagem (seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais) e por
sua construção composicional (estrutura). Esses enunciados são organizações
relativamente estáveis, denominadas de gêneros, que só podem ser
compreendidos, produzidos ou conhecidos se relacionados aos elementos de
sua situação de produção. Segundo Bakhtin (1997, p. 112), “qualquer que
seja o aspecto da expressão-enunciação considerado, ele será determinado pelas
condições reais da enunciação em questão, isto é, antes de tudo pela situação
social mais imediata”.
Os sujeitos dispõem de um rico repertório de gêneros orais e escritos,
como mostra Bakhtin (2003). Em termos práticos, eles são empregados de
forma segura e habilidosa, embora em termos teóricos possamos desconhecer
inteiramente sua existência. Ou seja, os gêneros são referenciáveis e
referenciados cotidianamente nas nossas interações por meio da linguagem.
Eles podem ser nomeados e reconhecidos pelos sujeitos em suas comunicações.
Assim usualmente nos referimos a uma conversa, um telefonema, um aviso,
uma carta, um artigo de opinião, uma notícia, etc. Mas como os gêneros são
diversos e heterogêneos e como são inesgotáveis as possibilidades de atividade
de linguagem humana, desconhecemos todas as formas de enunciado.
Os sujeitos dominam os gêneros como dominam a língua materna.
Como afirma Bakhtin (2003),
quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos,
tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade
[...], realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso.
(2003, p. 285)
Nós, sujeitos, aprendemos a moldar o nosso discurso em forma de
gênero e, quando ouvimos o discurso de nosso interlocutor, já supomos o
seu gênero pelas primeiras palavras enunciadas, adivinhamos uma extensão,
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
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uma determinada construção composicional e somos ainda capazes de prever
o seu fim (BAKHTIN, 2003, p. 283).
Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos, se
tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir
livremente e pela primeira vez cada enunciado, a comunicação discursiva
seria quase impossível. (BAKHTIN, 2003, p. 283).
O processo de socialização dos sujeitos implica a apropriação dos
gêneros, que não são modelos estanques nem estruturas rígidas, mas formas
culturais e cognitivas de ação social corporificadas na linguagem. Eles podem
mudar de uma sociedade para outra, de uma época para outra, diferentemente
dos tipos textuais, os quais são matrizes linguísticas que podem ser usadas
nos diferentes gêneros.
É importante, então, perceber que as noções de gênero e de tipo textual,
embora mantenham relações muito próximas, são distintas. Enquanto os
gêneros são formas relativamente estáveis de enunciados, formas constituídas
historicamente nas atividades humanas, os tipos, como estudamos na seção
anterior, são um conjunto de características referenciais e linguísticas típicas,
que permitem interpretar uma sequência textual como sendo narrativa,
descritiva, explicativa, argumentativa ou dialogal.
Como afirma Bronckart (1999),
Enquanto, devido a sua relação de interdependência com as atividades
humanas, os gêneros são múltiplos, e até mesmo em número infinito, os
segmentos que entram em sua composição (segmentos de relato, de
argumentação, de diálogo, etc.) são em número finito, podendo, ao menos
parcialmente, ser identificados por suas características lingüísticas específicas.
(1999, p. 75)
Os gêneros respondem às necessidades sociointerlocutivas dos sujeitos
que se interrelacionam. Dada a diversidade de esferas da atividade e da
comunicação humana, que refletem a diversidade das relações socioculturais
dos grupos sociais, os gêneros são múltiplos, heterogêneos e se situam em
um sistema continuum de situações discursivas.8 Somente nas situações sociais de
interação é que se pode apreender a constituição e o funcionamento dos gêneros.
8
 “Os gêneros distribuem-se pelas duas modalidades [oralidade e escrita] num contínuo, desde
os mais informais aos mais formais e em todos os contextos e situações da vida cotidiana.”
(Marcuschi, 2002, p. 33)
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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Cada gênero tem seu campo predominante de existência, sendo
insubstituível e, ao mesmo tempo, não suprimindo gêneros já existentes. O
surgimento e a popularização do e-mail pessoal, por exemplo, não eliminou
a existência da carta. As formas dos gêneros se atualizam, sendo plásticas e
ágeis às mudanças sociais. No acontecimento da interação comunicativa, o
gênero é construído, com conteúdo temático, estilo e construção
composicional, atendendo aos propósitos dos participantes da interação.
1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários
Bakhtin (2003) afirma que não se deve minimizar a extrema
heterogeneidade dos gêneros e a dificuldade daí advinda de definir a natureza
geral do enunciado. Atentar para a diferença entre os gêneros discursivos
primários (ou simples) e os secundários (ou complexos) torna-se importante
para o estudo da natureza do enunciado em geral e das particularidades dos
diversos gêneros.A distinção que Bakhtin estabelece entre gêneros primários e
secundários está profundamente ligada às “esferas de uso da língua”, que dizem
respeito às esferas da atividade e da comunicação humanas (esfera do trabalho,
esfera cotidiana, esfera religiosa, esfera artística, esfera jornalística, etc). Assim,
cada esfera, em virtude de suas especificidades (organização socioeconômica,
vínculos sociais entre os interlocutores, recursos tecnológicos), desenvolve, ao
longo de um processo histórico, gêneros textuais /discursivos, ou formas típicas
de comunicação, que são próprios de cada esfera (RODRIGUES, 2005).
Nesse sentido, os gêneros primários são aqueles “que se formaram nas
condições da comunicação discursiva imediata” (BAKHTIN, 2003, p. 263) e
que têm um vínculo estreito com a realidade concreta. Esses gêneros são, sobretudo,
aqueles da modalidade oral da linguagem e das esferas cotidiana e familiar, tais
como: o relato do dia a dia, a carta íntima, a conversa espontânea, etc.
Já os gêneros secundários são aqueles que “surgem nas condições de
um convívio cultural mais complexo e relativamente mais desenvolvido e
organizado” (2003, p. 263). No processo de formação dos gêneros
secundários, estes incorporam os primários, que ganham um novo estatuto
ao perderem o vínculo imediato com a realidade. Os gêneros secundários são
típicos de esferas como a jornalística, a artística e a científica, e compreendem
gêneros como o romance, aqueles destinados à apresentação de pesquisas
científicas (relatórios, teses, dissertações), a reportagem, etc.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
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Como exemplo da incorporação de gêneros primários pelos
secundários, Bakhtin cita a conversa espontânea e a carta íntima. Gêneros
primários e típicos da esfera cotidiana, a conversa e a carta perdem qualquer
vínculo imediato com a realidade concreta, quando são “absorvidos” pelo
romance, que é um gênero secundário, e passam a integrar a sua estrutura.
Ressalta o autor que a forma desses gêneros primários e o seu caráter cotidiano
passam a fazer parte de um acontecimento artístico-literário e do plano do
conteúdo romanesco.
Atividade 9 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam:
a) Qual o gênero a que o texto pertence?
b) O texto pertence a qual esfera de uso da língua?
c) Qual gênero primário o texto incorpora?
Carta de amor
Encontrada no carro do metrô, e dizia assim:
“Estou pensando seriamente em declarar greve de mim a você,
por tempo indeterminado. Não me pergunte os motivos. Você sabe.
Ou é melhor que não fique sabendo, porque assim a greve é mais
completa, e eu quero justamente ser um grevista mais total do que os
outros grevistas que brigam por salário decente e condições decentes
de trabalho.
Quero que você fique perturbada e confusa, sem saber o que eu
estou fazendo ou deixando de fazer, e a todo instante a se perguntar:
‘Que greve é esta? Em que consiste? Quando vai acabar? Que coisa
mais idiota.’ É isso mesmo: você achará idiota a minha greve, porque
não a entenderá. Então, o menor gesto que eu fizer, a palavra mais
sem significação, tudo se transformará para você em enigma, você
me sentirá o cara mais misterioso do mundo, por que não dizer: o
mais tenebroso. [...]
Você se irritará comigo e, perdendo a paciência, me dirá duas ou
três coisas ácidas. Jogará um copo na minha direção. Ou uma xícara,
dessas do trivial do café. Eu desviarei o corpo do copo ou da xícara, e
se você me jogasse em cima um samovar seria a mesma coisa: não
desistiria da greve. Aí você adotava em princípio a idéia de enlouquecer.
Só em princípio. Eu é que estou pinel – concluiria você. Conclusão
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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provisória, a ser confirmada pelo psiquiatra, mas o psiquiatra, que é
meu amigo, lhe responderia: Ele é assim mesmo, isso passa.
Não vai passar não, talvez minha greve seja eterna, e nunca mais
seremos aqueles namorados que conquistaram o Oscar de melhor
idílio no Festival de Angra dos Reis. Continuaremos, sim, dois
namorados unidos por esse laço invisível da greve, como o empresário
está cada vez mais preso ao assalariado, ou este àquele, quando entram
em conflito de interesses, mas esta nossa categoria não dá prêmio.
[...]
Tem uma coisa. Não deduza de tudo isto que estou declarando
guerra. Guerra é guerra, greve é outra coisa, e a minha então é
outríssima. Sem quebra, atenuação ou extinção de amor. Pois você
não vê, boba, bobíssima, que isto ainda é amor, é mais amor do que
amor, é minha forma de amar você, de um jeito só meu, que nem
você mesma é capaz de apreender em sua mineral abismalidade? ‘Dio,
como te amo! Até.’”
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Carta de amor. In: Boca de
luar. Rio de Janeiro: Record, 1984, p. 147-149.)
Atividade 10 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam:
a) O texto abaixo é um artigo de opinião, cuja estrutura incorpora um
texto que pertence a um gênero primário. Identifique esse gênero.
b) No artigo de opinião, qual tipo de sequência predomina?
c) No texto que pertence ao gênero primário, qual tipo de sequência
predomina?
A era do body scanner
[...] Na França, onde sou residente e pago impostos, e na Itália, país
pelo qual tenho nacionalidade na Europa, jamais sou parado na
alfândega. No Reino Unido, onde vivi mais de dez anos, trabalhei para
a BBC e outros meios de comunicação britânicos, tenho dificuldade
em lidar com a prepotência dos senhores da alfândega, estes não signatários
do Tratado de Schaengen, de livre acesso no mercado europeu. São
senhores (e senhoras) bastante sisudos.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5850
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
51
Vejamos. Numa viagem para Londres, de Paris, no trem Eurostar, em
2008, um oficial britânico da alfândega na capital francesa me disse,
vistoriando meu passaporte italiano: “Buon giorno”. Em seguida, ao
ver minha cidade de nascença, São Paulo, completou: “Boa tarde”.
Eu lhe disse, visto que eram 19 horas, que o certo seria dizer “Good
evening”, em italiano, em português ou em inglês.
“Are you sure?”, indagou o oficial.
“Yes, I am sure.”
“You got me confused now” (“O senhor me confundiu, agora”), retrucou
ele, sorriso nos lábios.
“É o senhor que quer me confundir”, retruquei.
Os britânicos têm, de forma geral, essa qualidade supostamente
“elegante”, para não dizer sutil, de ser hipócritas com seus
contemporâneos. Tudo não passa de uma forma condescendente de
lidar com as pessoas. É caricatural essa relação. (...)
(Revista Carta Capital, 13 jan. 2010, p. 26)
1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros
No dia a dia, é comum as pessoas identificarem o gênero a que pertence
o texto que produzem ou interpretam. Um paciente que diz ao médico “Essa
bula não informa com que frequência devo tomar o remédio” demonstra
um conhecimento complexo sobre o texto que tem nas mãos. Ele demonstra
conhecer o seu propósito comunicativo principal (apresentar informações
sobre um medicamento), o seu conteúdo (modo de usar, reações adversas,
etc), a sua estrutura composicional (predominância de sequências descritivas
e explicativas), os papéis dos interlocutores (de um lado, o fabricante do
medicamento; do outro, o médico e o paciente) e outras propriedades do
gênero “bula de remédio”. É esse conhecimento do gênero que faz o paciente
estranhar a ausência da informação sobre o horário de ingestão do
medicamento na bula.
O conhecimento das propriedades típicas de um gênero é parte
importante da competência comunicativa dos membros de uma sociedade,
que, ao participarem de práticas sociais nas mais diversas esferas de uso da
língua, são levados o tempo todo a produzir ou interpretar diferentes gêneros.
Por isso, neste subitem, vamos tratarde alguns elementos de fundamental
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
52
importância no reconhecimento dos gêneros: o suporte, a estrutura
composicional e os elementos linguísticos típicos.
Todos os textos que produzimos são manifestações de um gênero e
chegam até nós por meio de um suporte, isto é, “um locus físico ou virtual
com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero
materializado como texto” (MARCUSCHI, 2008, p. 174). Exemplos de
suportes são: livro, jornal, revista, rádio, televisão, telefone etc. Mas, ao
contrário do que pode parecer, o suporte não é um elemento neutro, e os
significados de um texto podem se alterar com a mudança do suporte. Fiorin
(2005, p. 101) apresenta um exemplo (reproduzido abaixo) em que a mudança
do suporte produz uma mudança de sentido tão profunda dos elementos do
texto que a definição do gênero a que esse texto pertence também se modifica.
Se esse texto tiver como suporte uma placa instalada numa via pública,
ele será compreendido como uma indicação de que a avenida Liberdade está
interditada e de que a seta indica a direção que deve ser tomada pelo motorista
para chegar ao bairro Paraíso, à Vila Mariana e ao Detran. Em outras palavras,
esse texto será compreendido como um sinal de trânsito. Mas se ele for
publicado num livro de poesia, seus elementos ganharão outras significações.
Quem o ler interpretará que o texto diz que a liberdade está proibida, o que
obriga os indivíduos a adotar uma direção única para realizar o que precisarem
ou quiserem. No livro, esse texto será interpretado como um exemplar do
gênero “poema”.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
53
Outro exemplo em que uma sequência textual ganha novo significado,
quando se modifica o suporte, é dado por Marcuschi (2008, p. 174). O
autor apresenta o seguinte texto:
“Paulo, te amo, me ligue o mais rápido que puder.
Te espero no fone 55 44 33 22. Verônica.”
Em seguida, observa que
Se isto estiver escrito num papel colocado sobre a mesa da pessoa
indicada (Paulo), pode ser um bilhete; se for passado pela secretária
eletrônica é um recado; remetido pelos correios num formulário
próprio, pode ser um telegrama. (2008, p. 174)
Em ambos os exemplos, fica claro que o suporte ou a superfície
material que fixa e mostra um texto não é neutra e pode interferir
profundamente na definição do gênero a que o texto pertence.
Mas o suporte não é o único responsável pelo reconhecimento de um
gênero. A estrutura composicional e os elementos linguísticos também
desempenham papel importante nessa identificação, uma vez que o gênero
tem impacto sobre a seleção do material linguístico que vai compor um
texto. Afinal, a linguagem que se usa em uma conversa informal é diferente
da que se usa em uma apresentação de trabalho na faculdade.
Para mostrar o impacto do gênero sobre a construção de textos
individuais, serão feitas análises breves de gêneros bem diferentes: a entrevista
oral e a tese de doutorado.
O texto abaixo é um representante do gênero entrevista oral.
Vou entrevistar uma pessoa qui vai mi contar um pouquinho da
sua história. Então vamos começar lá da infância qui é o início de
tudo, mi conta um pouquinho da sua infância.
Ó, a minha infância foi muito boa purque:: nós éramos im dez intão
onde se tem muita criança tudu é tudu di bom né intão a infância foi
eu fui criada comm nove irmãos diferença tudu di praticamente di
um anu di idade, intão na infância agenti tinha todas as brincaderas,
inclusive a genti num num distinguia brincadera nem qual qui era
pra menina nem qual qui era pra menino porque di repente a genti
bolava uma brincadera us meninos entravam na nossa, quando eles
bolavam a genti entrava tamém i era mesmo jogá bolinha de gude na
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
54
rua, andá di bicicleta, jogá bola mesmo, bola di futebol, brincá di di
pega pega, escondi escondi tinha issu tudu, agenti brincava. [...]
(Disponível em: . Acesso em:
22 ago.2010.)
Uma das principais características da entrevista oral é a interlocução
direta entre os parceiros da interação, o que, como vimos no item anterior, se
traduz pela predominância da sequência dialogal na formação de sua estrutura
composicional. As sequências de outros tipos aparecem no interior dos turnos
produzidos pelos falantes. No exemplo, o texto é formado por uma sequência
dialogal, mas o turno do entrevistador é formado por uma sequência que
pode ser classificada como explicativa, enquanto o turno do entrevistado é
formado por uma sequência predominantemente narrativa.
No gênero entrevista, ao contrário de outros gêneros em que
predomina a sequência dialogal, como a conversação espontânea, os
interlocutores têm papéis claramente diferenciados: um dos interlocutores, o
entrevistador, procura motivar a fala do outro, o entrevistado. Por esse
motivo, a extensão dos turnos de cada interlocutor costuma ser bem diferente,
como mostra o exemplo acima. Enquanto os turnos do entrevistador são curtos
e, geralmente, mas nem sempre, formados por perguntas, os turnos do
entrevistado são longos, podendo ser formados por sequências de vários tipos.
O que explica essa diferença no tamanho dos turnos é que a razão de ser da
entrevista é justamente a fala do entrevistado, suas opiniões, suas histórias etc.
Quanto ao grau de formalidade desse gênero, a entrevista é mais formal
do que outros gêneros orais, como a conversação espontânea, por dois motivos.
O primeiro é que na entrevista a fala é gravada ou será transcrita, o que pode
levar o entrevistado a manifestar uma preocupação maior em empregar uma
linguagem que se aproxime da prescrita pela gramática tradicional. No exemplo,
essa preocupação se verifica pela presença de todas as marcas de plural (todas
as brincaderas / us meninos entravam na nossa eles bolavam) e pela ausência
de desestruturação sintática. O segundo motivo que explica a relativa
formalidade da linguagem empregada na entrevista é o fato de que os
interlocutores podem não ter intimidade por não se conhecerem.
Nesse gênero, é costume o entrevistado não ter acesso às perguntas
que serão feitas durante a entrevista. Por isso, na entrevista oral, o momento
de produção do texto pelo locutor é simultâneo ao momento de consumo
desse texto pelo ouvinte. Essa particularidade do gênero, em que o entrevistado
“fala de improviso”, explica fenômenos linguísticos, como a repetição de
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
55
palavras (a genti num num distinguia), a redução morfológica de palavras
(andá di bicicleta, jogá bola / brincadera / tamém), o alongamento de
fonemas (eu fui criada comm nove irmãos), interrupção e reformulação de
partes do texto (intão a infância foi? eu fui criada comm nove irmãos),
predominância da coordenação sobre a subordinação, etc.
Além disso, nesse gênero, a interlocução direta leva o locutor a buscar
o envolvimento do ouvinte, sinalizando as informações de que os enunciados
tratam, atraindo a atenção do ouvinte para partes de seu texto ou examinando
se este aprova ou desaprova as informações expressas. Para sinalizar as
informações de que os enunciados tratam, um recurso típico é dar destaque
a um elemento do enunciado, colocando-o em posição de tópico (na infância
agenti tinha todas as brincaderas). Para realizar as outras duas ações (atrair a
atenção do ouvinte e verificar o seu grau de comprometimento com as
informações), um recurso tipicamente utilizado são os marcadores
conversacionais (Ó, a minha infância / intão na infância / onde se tem muita
criança tudu é tudu di bom né).
Como nesse gênero o entrevistado fala de si, é comum a presença de
elementos dêiticos, fazendo referência a interlocutores (eu fui criada commnove irmãos, agenti tinha todas as brincaderas), a lugar e tempo da interação
(o texto-exemplo não apresenta), bem como de verbos flexionados na 1ª e
na 2ª pessoas (eu fui criada comm nove irmãos; nós éramos im dez).
As propriedades do gênero entrevista oral, como a interlocução direta,
a diferença nos papéis dos interlocutores e o grau de formalidade, criam
expectativas sobre a sua estrutura composicional, bem como sobre os
elementos linguísticos que serão empregados nos textos pertencentes a esse
gênero. Por esse motivo, as características típicas dessa linguagem formam
um conjunto de traços que têm papel importante no reconhecimento de
uma entrevista oral.
O texto abaixo é um fragmento de uma tese de doutorado.
Na área de Linguística Aplicada, há um interesse crescente por
investigações centradas na compreensão dos modelos mentais
implícitos no uso da linguagem no contexto da sala de aula. Há
também um empenho em envolver o professor em um processo de
reflexão crítica em pesquisas sobre a própria prática. Esta investigação,
de natureza qualitativa, tem o objetivo de investigar e compreender
como uma professora, na prática coletiva, discute o processo
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
56
interacional promovido por ela em sala de aula. A pesquisa foi
desenvolvida em três fases com objetivos específicos. Na fase
preliminar, buscamos verificar como a professora compreende o
processo interacional que ela promove em sala de aula antes da fase
colaborativa da pesquisa. Na fase colaborativa, buscamos analisar a
forma como ela discute sobre o que é interação, baseando-se nos textos
sugeridos pelo grupo e pelos instrumentos geradores de reflexão. E
na fase da coleta tardia, nosso objetivo é verificar em que medida a
pesquisa influenciou ou promoveu movimentos de mudança no uso
da linguagem em sala de aula e nas ações da professora para promover
diferentes padrões interacionais. [...]
(OLIVEIRA, Shirlene Bemfica de. Construindo e transformando os
processos conceituais: ações para o desenvolvimento do professor. 2009.
Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Letras, UFMG, 2009.)
Uma das características do gênero tese de doutorado é a distância
espacial e temporal entre os parceiros da interação. Ou seja, ao contrário da
entrevista oral, o momento de produção do texto pelo autor não é simultâneo
ao momento de consumo desse texto pelo leitor. Por essa razão, os exemplares
desse gênero apresentam-se na modalidade escrita, não possuem sequências
dialogais na sua estrutura composicional e não exibem elementos dêiticos
fazendo referência ao lugar e ao momento da produção do texto.
Na tese de doutorado, o objetivo comunicativo principal (apresentar
os resultados de uma pesquisa) leva a uma predominância de sequências
explicativas e descritivas na formação de sua estrutura composicional. O texto-
exemplo começa com uma sequência de natureza explicativa sobre o interesse
em estudos que tratem da linguagem no contexto da sala de aula (“Na área
de Linguística Aplicada, há um interesse crescente [...] em um processo de
reflexão crítica em pesquisas sobre a própria prática.”). Em seguida, é
introduzida uma longa sequência descritiva, por meio da qual se descreve a
pesquisa que a tese apresenta, detalhando, inicialmente, seu objetivo geral
(“Esta investigação, de natureza qualitativa, [...] discute o processo interacional
promovido por ela em sala de aula.”) e, depois, o objetivo específico de cada
etapa (“A pesquisa foi desenvolvida em três fases com objetivos específicos.”)
Além disso, como os gêneros acadêmicos têm por função ordenar as
atividades comunicativas que ocorrem na esfera acadêmica, eles se caracterizam
por uma maior estabilidade formal. É mais fácil enumerar as características
formais de um projeto de pesquisa do que de um e-mail ou de uma conversa.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
57
Isso porque o alto grau de formalidade da esfera acadêmica fez com que os
gêneros desse domínio ganhassem, ao longo de um processo histórico, uma
forma mais fixa. São vários os manuais de metodologia científica e de redação
que apresentam para o gênero tese uma forma macrotextual semelhante a esta:
ELEMENTOS PRÉ-TEXTUAIS: capa, folha de rosto, folha de
aprovação, resumo na língua vernácula, resumo em língua estrangeira,
sumário. ELEMENTOS TEXTUAIS: introdução (justificativa,
objetivos), revisão de literatura, metodologia (material e métodos),
resultados e discussão, conclusão.
ELEMENTOS PÓS-TEXTUAIS: referências bibliográficas, apêndice(s)
e/ou anexo(s).
Isso não significa, porém, que essa forma seja congelada. Isto é, os gêneros
acadêmicos não são “uma camisa de força”. Uma tese de doutorado pode alterar
a forma considerada canônica desse gênero, dependendo da pesquisa que relata,
do método empregado, do percurso de análise adotado, etc.
Nesse gênero, a relação entre os interlocutores é assimétrica, uma vez
que a tese e outros gêneros da esfera acadêmica (monografia, dissertação,
projeto de pesquisa) constituem não só um instrumento de divulgação
científica, mas também um instrumento de avaliação. Isso porque o público-
alvo imediato desses gêneros é uma banca que julga o mérito do trabalho, a
fim de decidir se o autor merece ou não o título (bacharel, especialista, mestre,
doutor) que pleiteia. Dado o alto grau de formalidade dessa prática social, o uso
de uma linguagem obediente às regras prescritas pela gramática tradicional é uma
expectativa do gênero tese, bem como dos outros gêneros do domínio acadêmico.
Por esse motivo, repetições, uso de marcadores conversacionais, redução
morfológica de palavras e interrupções são fenômenos linguísticos menos
comumente encontrados nesses gêneros do que nos escritos e orais mais
informais. No texto-exemplo, não há nenhum desses fenômenos, os quais
estão presentes na entrevista oral analisada anteriormente.
As propriedades do gênero tese de doutorado, como a ausência de
interlocução direta, a assimetria entre os papéis dos interlocutores e o grau de
formalidade, criam expectativas sobre a linguagem que será empregada e sobre
a sua estrutura composicional. Essas expectativas ajudam a identificar o gênero
tese e a diferenciar um texto pertencente a esse gênero de um texto pertencente
a outro.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
58
Esse conhecimento que os sujeitos têm dos gêneros, da sua linguagem
e do seu funcionamento na sociedade permite que eles os produzam e os
interpretem para que se comuniquem. Dessa forma, torna-se importante
abordar os gêneros na escola. No trabalho com a produção e a leitura de
textos, tomam-se os gêneros como objeto de ensino.
Atividade 11 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam:
a) O suporte desse texto ajuda a reconhecer o gênero a que ele pertence?
b) Quais propriedades linguísticas desse texto ajudam a reconhecer o
gênero a que ele pertence?
Um condomínio muito exclusivo
Interessantes soluções habitacionais têm surgido nas capitais brasileiras.
Em Porto Alegre, sete garotos compartilham um novo tipo de
condomínio. Aparentemente exclusivo: até agora, não se sabe de
outros similares. E nem de outros candidatos a esta espécie de morada.
Diferente de outros condomínios do gênero, este é central; está a um
passo de bancos, lojas, escritórios. Na verdade, até recebe produtos
desses estabelecimentos, embora não sejam os mesmos produtos
oferecidos nas vitrinas ou nos balcões. Mas a localização é, como
costumam dizer os anúncios, privilegiada.
A segurança é total. Não há guardas nem muros, mas isto não é
necessário; é impossível penetrar no condomínio, porque a passagem
só dá acesso a garotos muito pequenos e muito magros – ou seja,
desnutridos. Um adulto teria de passar muito tempo num spa (um
campo de concentração seria melhor) até adelgaçaro suficiente para
poder se introduzir pela estreita abertura.
A vista não é das melhores – não se pode ter tudo no mundo! – mas
a fauna é das mais abundantes. Constituem-na principalmente roedores
e aqueles insetos que não são muito bem-vistos pelas senhoras, mas
que inspiram a Franz Kafka o conto “A Metamorfose”.
Não há estacionamento, porque nenhum dos sete moradores têm
carro. Também não há tevê a cabo; na verdade, não há luz elétrica.
Reina ali uma semi-obscuridade permanente, que convida a sonhar.
Os sete moradores usam cola para induzir os sonhos; e são unânimes
em dizer que, no transe, vêem-se como criaturas maravilhosas, míticas:
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
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As Tartarugas Ninja, personagens famosas de filmes e histórias em
quadrinhos. E, como as Tartarugas Ninja, vivem mil aventuras – mas
nunca esquecem de voltar ao condomínio.
As pessoas comodistas estranharão a falta de certos confortos no
condomínio. Não apenas não há living, como também não existe
quarto de dormir. Nem móveis: não há mesa, por exemplo. E por
falar nisto, também não existem pratos nem talheres – nem nada
para comer, o que dispensa geladeira e freezer (que de qualquer modo
não funcionariam; ver a menção à falta de energia elétrica, acima).
Não há camas, nem sofás, nem armários, nem nada o que guardar
nos armários. Tudo o que os moradores possuem é a roupa do corpo;
não é que tenham feito voto de pobreza, eles são pobres. E este
condomínio é o único lugar onde podem viver: não tiveram de fazer
financiamento, não pagam aluguel, nem taxa de condomínio; aliás,
nem taxa de água. Água não existe. Mas o serviço de esgoto é perfeito.
Porque é no esgoto que eles vivem. No esgoto de Porto Alegre, vivem
sete garotos. Sete: como os anões da Branca de Neve. De comum
com os anões eles só têm a baixa estatura. Branca de Neve nenhuma
se aproximaria deles. O cheiro, vocês sabem; o cheiro do condomínio
onde eles vivem. O odor que se impregna neles e que não os abandona.
Sobre os esgotos de Nova York há uma lenda. Dizem que as crianças
da cidade passavam férias na Flórida, voltavam com filhotes de
crocodilo que depois jogavam no vaso sanitário, dando descarga. Estes
pequenos crocodilos, continua a história, cresceram, e hoje são uma
ameaça sombria e permanente. Um pesadelo. Nos esgotos de Porto
Alegre não há crocodilos lendários. Há crianças de verdade. O pesadelo
é muito maior.
(SCLIAR, Moacyr. Um condomínio muito exclusivo. Folha de S.
Paulo, Mundo. 09 mai. 1993, p. 4.)
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:
BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. 8. ed.
São Paulo: Hucitec, 1997. Cap. 2, 5 e 6.
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da
criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 261-306.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão.
São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros Textuais: definição e funcionalidade.
In: DIONÍSIO, Ângela P.; MACHADO, Anna R.; BEZERRA, Maria A.
(Org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 19-36.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade
e circulação. In: KARWOSKI, Acir Mário; GAYDECZKA, Beatriz; BRITO,
Karim Siebeneicher (Org.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. 3. ed. revista.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 15-28.
RODRIGUES, Rosângela Hammes. Os gêneros do discurso na perspectiva
dialógica da linguagem: a abordagem de Bakhtin. In: MEURER, José Luiz;
BONINI, Adair; MOTTA-ROTH, Désirée (Org.). Gêneros: teorias,
métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. p. 152-183.
ROJO, Roxane. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e
aplicadas. In: MEURER, J.L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Org.).
Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005. p. 184-207.
SOBRAL, Adair. Do dialogismo ao gênero: as bases do pensamento do círculo
de Bakhtin. Campinas: Mercado de Letras, 2009.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
61
22222 Gêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensino
Porque são formas naturais de uso da língua para a comunicação, os
gêneros se apresentam como excelentes ferramentas de ensino. Alguns deles,
por serem mais complexos e exigirem planejamento, precisam ser ensinados
na escola. É o caso dos chamados gêneros secundários, como textos científicos,
artigos de opinião, cartas comerciais, projetos de lei, conferências, por exemplo.
Como já visto, o que constitui os gêneros é a sua ligação com a situação
interacional e não apenas as suas propriedades formais. Cada situação social de
interação influencia a constituição do gênero que lhe é próprio. A grande variedade
de gêneros, assim, atende às diversas possibilidades de interações verbais.
Os gêneros mais praticados na comunicação atuam como modelos,
que servem muitas vezes para facilitar o processo de produção e compreensão
dos textos. Apesar disso, o que se deve enfatizar no ensino por meio dos
gêneros é que eles são sensíveis às mudanças sociais, são dinâmicos, plásticos,
situacionais, históricos, cognitivos (MARCUSCHI, 2005).
Todo gênero, como visto, tem um conteúdo temático, que consiste
em sua orientação de sentido. De acordo com seus propósitos discursivos e
com suas necessidades comunicativas, os gêneros se caracterizam pela temática.
Assim, numa notícia, a temática é o fato recentemente ocorrido que é
noticiado; numa conversa familiar, a temática gira em torno dos
acontecimentos vividos pelos membros da família; numa reunião de trabalho
de uma empresa, a temática é relacionada às atividades desenvolvidas na
empresa ou aos produtos por ela produzidos, por exemplo. No ensino da
língua por meio dos gêneros, deve-se dar atenção à elaboração do tema dos
textos que serão produzidos. Nesse momento, é importante um trabalho de
pesquisa ou de reflexão sobre a esfera de sentido de que tratará cada texto.
Outra dimensão caracterizadora dos gêneros é a forma composicional
ou composição. Os gêneros possuem grande diversidade e heterogeneidade
de composição, mas, de modo geral, pode-se falar na recorrência de estruturas
em textos de um mesmo gênero. A carta, por exemplo, apresenta, em sua
forma composicional, o lugar e a data em que é produzida, o vocativo, que
remete ao seu destinatário, cumprimentos, saudações e assinatura do
remetente. Essa organização desempenha a função de modelar esse gênero.
Também as sequências textuais costumam ser associadas à composição dos
gêneros, embora muitos deles, que compartilham o mesmo tipo textual,
possam apresentar formas composicionais diferentes, como uma notícia e
um conto, por exemplo. Isso mostra que a forma composicional não deve
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
62
ser associada apenas à organização textual. No ensino, deve-se considerar a
diversidade e a heterogeneidade da atividade humana e trabalhar a composição
dos gêneros de forma articulada às condições de produção dos textos.
2.1 T2.1 T2.1 T2.1 T2.1 Trabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opinião
Os gêneros textuais notícia e artigo de opinião serão aqui priorizados
como propostas de trabalho de leitura e escrita. A descrição de seu uso em
instâncias sociais específicas bem como de suas características linguístico-
textuais e discursivas pode ser assumida pelaescola interessada em levar o
aluno a refletir sobre o ato de ler e escrever como uma forma de interlocução.
Cunha (2002) afirma que, nos últimos anos, a escola passou a trabalhar os
gêneros da mídia com o fim de “formar leitores críticos e construtores dos
diversos textos que circulam na sociedade” (p. 166). Para isso, no entanto, é
necessário que ela esteja, de fato, empregando e desenvolvendo concepções
de língua, linguagem, texto, discurso, gênero e tipo textual, entre outras, em
uma perspectiva atualmente incompatível com uma tradição reducionista e
classificatória ainda comum nesse domínio.
polo de distanciamento – informação
Enquete
Reportagem
Notícia
Entrevista
Resenha
Análise
Editorial
Cartas dos leitores
Artigo de opinião
Crônica
polo de engajamento – comentário
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
63
Entre as categorias dos gêneros, como já foi dito, não há fronteiras
claramente definidas. Assim, é possível considerar os gêneros textuais notícia
e artigo de opinião como gêneros redacionais do domínio jornalístico situados
em dois polos num continuum, conforme representado no quadro abaixo,
inspirado no quadro apresentado em Adam (1997).
Esses dois gêneros se diferenciam quanto ao tema (um fato vs uma
ideia), à intenção argumentativa (reportar vs opinar) e à posição enunciativa
(distanciamento vs engajamento) (MARINHO, 2008).
A notícia encontra-se mais próxima do polo da informação. Isso
porque ela se centra em um fato ou acontecimento, procurando informar,
dar esclarecimento sobre esse fato. Seu conteúdo costuma ser mais um relato
do fato do que a expressão de uma opinião e seu autor, que muitas vezes
permanece desconhecido do leitor, parece pretender mais um fazer conhecer,
sem assumir posições ou julgamentos. Ao apresentar uma notícia, o jornalista
tende a focalizar um assunto principal, relacionado a um fato acontecido, e a
apresentá-lo com apoio comprobatório e objetividade, sem expressão
ostensiva de seu ponto de vista.
Já o artigo de opinião se encontra mais próximo do polo do
comentário, uma vez que ele constitui um texto que se centra numa ideia e o
seu autor tem por objetivo expressar uma opinião sobre essa ideia. Seu
conteúdo é, então, mais a exposição e a discussão de uma ideia do que o
relato de um fato, e o seu autor pretende mais fazer valer uma opinião, tomar
uma posição, do que reportar, informar.
Seguindo a definição dos tipos textuais indicada no item 1 deste livro,
sabemos que a heterogeneidade textual é constitutiva de qualquer gênero,
não sendo diferente em relação à estrutura da notícia e do artigo de opinião.
Neste, em princípio, evidencia-se o predomínio de sequências do tipo
argumentativo; naquela, predominam outras do tipo narrativo, por exemplo.
Por essa razão – em função do “predomínio de” –, não devemos considerar
“puros” os textos autênticos, mesmo nos casos em que sua curta extensão
possa camuflar esse princípio devido à predominância de um tipo textual,
como em (A):
(A) Novo protocolo limita plásticas “combinadas”
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica prepara novas normas de
segurança para o paciente.
Entre as novas recomendações estão a limitação do número de
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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procedimentos a serem feitos em uma só cirurgia, a definição de exames
exigidos antes da operação, as restrições para procedimentos em
adolescentes e a definição do tipo de anestesia para cada caso.
Segundo a sociedade, a revisão é necessária em função dos avanços
tecnológicos e do aumento no número de plásticas, além dos casos
de mortes.
A finalização do protocolo deve acontecer até o final do ano, quando
será realizado o congresso brasileiro de cirurgia plástica, em novembro.
(Folha de S. Paulo. Cotidiano. 17 out. 2010.)
Quando analisamos um conjunto extenso de textos publicados e
considerados pela grande mídia como notícias, é possível verificarmos um
número significativo de traços comuns entre eles: objetivam “fazer saber”;
apresentam, geralmente, tipos textuais explicativo e narrativo, verbos no
passado e em terceira pessoa; buscam respostas às questões o quê? quem?
quando? onde? como? por quê?; as quais costumam ser contempladas no lide,9
e, por meio de expressões indicativas do distanciamento do autor, procuram
mostrar a objetividade/autenticidade de um fato. A despeito disso, uma leitura
atenta de (A) permite detectar marcas linguísticas que estariam em desacordo
com uma definição apriorística e rígida do gênero notícia.
Atividade 12– Reúna-se com seus colegas e respondam:
• O texto (A) pode ser considerado uma notícia? Justifique sua resposta.
• O texto (A) apresenta, em sua composição, mais de um tipo textual?
Justifique sua resposta.
Entendemos que à escola cabe conduzir o estudo dos gêneros de modo
a reforçar, prioritariamente, sua evidente relação com práticas sociais efetivas
realizadas pelos sujeitos. Devem ser criadas situações em que o aluno tenha
oportunidade de interagir com o objeto que pretendemos que ele desenvolva
(e amplie) com o fim de orientarmos o caminho da prática para a teoria, do
concreto para o abstrato, enfim, do conhecido para o desconhecido.
9
 Lide (ingl. lead) é a abertura de um texto jornalístico, que apresenta sucintamente as questões
básicas da informação, que são: o quê, quem, onde, quando, como e por quê.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
65
Atividade 13 – Reúna-se com seus colegas. Leiam os textos (B) e (C)
transcritos nas páginas seguintes e, para cada um deles, respondam:
a) Quem escreve o texto?
b) Qual é o propósito comunicativo do texto?
c) Onde e quando ele circula?
d) Quem é o seu leitor?
e) Por que o leitor o lê? Qual a possível influência exercida por essa
leitura?
f ) Qual a sua estrutura usual?
g) Que mecanismos linguístico-textuais e discursivos podem ser nele
destacados?
h) Qual é o gênero a que ele pertence?
(B) Família pula do terceiro andar para fugir do ‘diabo’ 10
Uma família de origem africana que estava assistindo a TV pulou
pela janela de um apartamento no terceiro andar de prédio da cidade
de La Verrière (França) com medo do “diabo”. Na inusitada fuga, um
bebê morreu.
Horas depois, a polícia esclareceu parcialmente o caso: o incidente
começou quando um grupo de 13 pessoas estava assistindo a TV na
sala. Um homem que estava nu no apartamento ouviu um bebê
chorando e foi preparar a mamadeira. A esposa, ao ver o marido pelado,
começou a gritar: “É o diabo, é o diabo!”.
Em socorro aos gritos, a cunhada do “diabo” o esfaqueou em uma
das mãos. Ele saiu pela porta da frente, e, quando retornou, os demais
moradores, desesperados com a presença do “maligno” na residência,
então decidiram sair pela janela.
O “diabo” pulou também, carregando uma criança de dois anos no
colo. Ao chegar ao chão, ele correu e se escondeu atrás de um arbusto.
A criança, o “capeta” e outros familiares ficaram feridos. O bebê chegou
a ser levado a um hospital, mas não resistiu à queda.
10
 Com exceção do (A), os textos transcritos na seção 2 deste livro foram extraídos de sites de
revistas e jornais brasileiros considerados de grande circulação.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
66
Investigadores não encontraram qualquer sinal de alucinógenos ou
ritual macabro no apartamento, segundo reportagem da BFM TV. A
polícia ainda espera esclarecer muitos detalhes da história.
(Disponível em:. Acesso em: 25 out. 2010.)
(C) A leitura como agente do conhecimento
Ricardo Azevedo
É lendo que desenvolvemos nosso pensamento crítico. Sem ele, os
jovens serão sempre presa fácil da propaganda enganosa e da alienação.
Recentemente, no rádio, umlocutor falava em liberdades individuais,
no direito de cada cidadão ser o agente de suas próprias decisões e na
importância da diversidade de opiniões. Imaginei que fosse alguma
ONG em defesa da democracia. Nada disso. O texto era patrocinado
por um fabricante de cigarros! A liberdade a que se referia, no fundo,
era uma só: a de optar por ser fumante, contrariando todas as
informações médicas disponíveis. 
São complexos os desafios da educação nos dias de hoje. Creio que
alguns deles nem sempre são lembrados. É preciso formar nossas crianças
e jovens de maneira que sejam capazes de perceber que discursos válidos
e civilizadores podem ser utilizados como ações de marketing e
propaganda (e também por políticos corruptos e regimes autoritários).
Fazer com que compreendam o funcionamento das sociedades
fundadas em economias de mercado, para que saibam, por exemplo,
separar consumo de consumismo ou propaganda de propaganda
enganosa. Que discutam o que é autoridade (a confiança conquistada
legitimamente), autoritarismo (a obediência obtida à força) e omissão
(a desresponsabilização diante, por exemplo, de pessoas inexperientes
ou dependentes e, num outro patamar, diante da sociedade). 
Que tenham claro que a liberdade é muito boa, mas tem limites: ninguém
tem direito de desrespeitar o direito dos outros. Que compreendam que
são responsáveis também pela sociedade em que vivem.
Que aprendam a estudar (poucas escolas ensinam isso) e tenham o
melhor preparo técnico possível sem esquecer de certas características
de qualquer ser humano: somos incapazes de viver sem uma sociedade;
somos capazes de construir linguagens e símbolos; temos dificuldade
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
67
de distinguir a subjetividade da objetividade; somos efêmeros
(morremos), corporais e passíveis de prazer e sofrimento; podemos
pensar em assuntos abstratos como justiça, moral, política e estética;
transformar a natureza e a sociedade e, ainda, fazer projetos para, com
sorte e competência, construir um futuro melhor.
É importante que saibam respeitar, conviver e ser capazes de se identificar
com hábitos, valores e crenças diferentes dos seus. Que discutam sobre
por que têm sido levados a escolher suas profissões sem um mínimo de
autoconhecimento (considerando apenas salários e a profissão da moda
em detrimento de vocações). Que debatam formas alienantes e sub-
reptícias de exclusão, como o “culto da celebridade” (que valoriza a
pessoa “descolada” e sua “imagem”, desprezando a pessoa “comum”). E
também os hábitos culturais que misturam o público e o privado, para
que possam analisar as práticas que transformam vidas e relações
humanas em ações de marketing e pessoas em produtos de consumo. 
Que conheçam os extraordinários avanços da modernidade, mas
também suas inúmeras contradições. Que tenham acesso à
multifacetada cultura de nosso país. Que estejam conscientes das
desigualdades de nossa sociedade (por serem imorais e injustificáveis,
elas costumam deixar nossas crianças e jovens confusos e céticos). 
E ainda que sejam levados a compreender que não são a plateia, mas
sim os protagonistas do futuro e que, na escola, estão se preparando
para construí-lo e ressignificá-lo. 
Não sou pedagogo e conheço pouco os diferentes métodos
educacionais. Sejam quais forem, a meu ver, deveriam ter por base
assuntos como esses. Eis por que a leitura sempre terá um papel
fundamental: desenvolvemos nosso pensamento crítico,
principalmente, por meio dela. Sem ele, nossas crianças e jovens, tanto
faz de que classe social, serão presa fácil da propaganda enganosa, da
alienação e do niilismo.
(Disponível em: . Acesso em: 14 out.2010.)
Em importante trabalho acerca de questões teóricas e aplicadas sobre
gêneros, Rojo enfatiza:
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
68
[...] nossos alunos não precisam ser gramáticos de texto e nem mesmo
conhecer uma metalinguagem sofisticada. Ao contrário, no Brasil, com seus
acentuados problemas de iletrismo, a necessidade dos alunos é de terem
acesso letrado a textos (de opinião, literários, científicos, jornalísticos,
informativos etc.) e de poderem fazer uma leitura crítica e cidadã desses
textos. (2005, p. 207).
Compartilhando propósito e preocupação semelhantes ao destacado
pela pesquisadora, acrescentamos serem inócuos o ensino e a aprendizagem
de um conteúdo novo revestido de métodos classificatórios e formalistas. A
orientação teórica indicada na introdução deste livro evidencia princípios e
concepções amplamente ignorados (ou desprezados) pelo ensino de português,
no Brasil, ainda hoje. Se, por um lado, sabemos que adotar mudanças não é
um projeto simples, executável da noite para o dia, por outro, destacamos
que proporcionar aos alunos o “acesso letrado” a textos impõe, já de início e
no mínimo, duas exigências prementes ao professor: (1) – interesse contínuo
por pesquisas e/ou ações (institucionais ou não) relacionadas a sua área de
ensino; (2) – atividades de preparação, desenvolvimento, aprofundamento e
repercussão de produção escrita própria em sintonia com a evolução dos
estudos linguísticos.
De modo geral, quando observamos o cenário educacional brasileiro,
percebemos que o esforço empreendido pelo professor em participar de
diferentes cursos de capacitação, pós-graduação e afins não é devidamente
reconhecido, em termos de planos de carreira, nem seus resultados são
divulgados, por exemplo, em forma de entrevistas, artigos científicos, textos
informativos ou mesmo artigos de opinião elaborados pelo corpo docente
envolvido. Tornar visíveis atitudes como essas seria, por certo, contribuir
para a construção de uma prática didática eficaz no aprimoramento da
competência sociodiscursiva dos sujeitos aprendizes.
Partindo do pressuposto de que leitura e escrita são processos
indissociáveis, a “leitura crítica e cidadã” de gêneros secundários é implicada e
implica a escrita crítica e cidadã desses mesmos gêneros. Não é novidade que,
ao lado da notícia, o artigo de opinião também ocupa grande espaço na
mídia, como podemos constatar nos muitos e variados veículos de
comunicação que os divulgam. De uma forma ou de outra, portanto, leitores
de jornais e revistas (re)conhecem tais textos.
O artigo de opinião, como visto, objetiva “fazer valer o ponto de
vista” de quem o escreve; por isso, o tipo textual argumentativo costuma
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
69
predominar nesses textos, bem como o uso do presente do indicativo e dos
dêiticos. Considerado um gênero aparentemente monofônico, uma vez que
a representação de outros discursos não acontece de forma explícita, o artigo
de opinião comenta sempre algo já dito, expressa uma convicção, um
julgamento, um sentimento etc, exigindo do seu autor um posicionamento
e a defesa desse posicionamento.
Atividade 14 – Reúna-se com seus colegas. Leiam os textos (D) e (E) abaixo
e identifiquem o tipo textual predominante em cada um deles. Em seguida,
indiquem as marcas linguístico-textuais e discursivas que os auxiliaram na
identificação do tipo e, por consequência, do(s) gênero(s) textual(ais) lido(s).
(D) Ecochato é a mãe! Chatos são os outros!
Por Reinaldo Canto
Para aqueles que estão acostumados a defender suas ideias em prol da
sustentabilidade é bastante comum sermos chamados de ecochatos e
contrários ao desenvolvimento e ao progresso.  O até mesmo ofensivo
título deste artigo, que de antemão peço desculpas aos mais sensíveis,
é um desabafo, mas também deve-se ao fato de estarmos vivendo um
momento muito sensível e preocupante da história da humanidade e
difícil de ser contestado. É claro que na democracia todos tem o
legítimo direito à discordância, e como não existem verdades humanas
absolutas, o contraditório é sempre muito bem-vindo.Nem por isso
devemos de ter em conta que o descaso com o nosso meio ambiente
vem provocando situações absurdas provocadas pela irresponsabilidade
de alguns ou melhor de muitos.
Casos emblemáticos como os do vazamento de petróleo no Golfo
do México e a lama tóxica que atingiu recentemente a Bulgária, a
Croácia e outros países banhados pelo Rio Danúbio e  afluentes, além
das queimadas no Brasil que atingiram recordes, isso para citar apenas
os mais graves, deveriam ser mais que suficientes para resultarem em
análises aprofundadas e a mobilização de toda a sociedade mundial
para identificar e tomar as providências necessárias que busquem evitar
tais barbaridades cometidas contra o nosso planeta.
A adoção de critérios de sustentabilidade em todos os setores da
atividade humana é uma questão de sobrevivência e ponto! Assim
como não é possível flexibilizar a segurança em obras de engenharia,
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
70
como na construção de um prédio ou de uma ponte, não deveríamos
aceitar que autoridades públicas e privadas cogitassem, sequer por
um minuto, afrouxar os cuidados com a preservação ambiental em
nome de alguma coisa que leve o nome de desenvolvimento. Aliás,
deveríamos eliminar a denominação desenvolvimento para qualquer
obra ou ação humana com claros sinais insustentáveis.
Não é mais possível aceitar que sejam questionados por A ou B a realização
dos relatórios de impacto ambiental, ainda mais se vierem acompanhados
de expressões como: “obstáculos ao progresso” e “prejuízos à economia”.
Diante disso pergunto: qual progresso? Que tipo de economia?
O Relatório Planeta Vivo 2010 publicado em outubro deste ano
pela organização não governamental WWF constatou que o planeta
já perdeu 30% de recursos naturais e só nos países tropicais, num
período de cerca de 40 anos, foram extintas 60% da biodiversidade.
A própria ONU, durante a realização da Conferência sobre
Biodiversidade, a COP-10 no mês passado no Japão alertou governos
e empresas  que a destruição do meio ambiente precisará ser computada
como prejuízo em orçamentos e PIBs, realidade que até agora foi
olimpicamente ignorada.
O aquecimento global está aí para não sermos desmentidos. Segundo
previsões, 1/3 das áreas cultiváveis do planeta poderão deixar de existir
até 2050 em razão das mudanças climáticas. Além é claro de outras
conseqüências nefastas como migrações forçadas e mortes de milhões
de pessoas por falta de alimentos e água potável.
O consumo desenfreado, a fome insaciável por energia e um
desperdício sem precedentes precisam estar com os dias contados,
caso contrário nós é que estaremos.  Portanto, caso você defenda uma
nova visão e uma nova postura diante de tantos fatos óbvios, não
aceite naturalmente ser chamado de ecochato.  Sem dúvida, chatos
são os que acham que bonito é deixar tudo como está.
(Disponível em: . Acesso em: 18/11/2010)
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
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(E) Pio Barbosa Neto | CE / Fortaleza
Refletindo sobre o ato de trair
A imprevisibilidade do ser humano e sua potencialidade para o bem ou
para o mal, é um ponto positivo, ora negativo. É muito difícil lidar
com a traição. Quando somos traídos, claro. O que acontece para que
a pessoa se entregue aos seus desejos mais secretos e traia alguém
importante na sua vida? Será que é porque a outra pessoa é melhor ou
mais bonita? Será que é porque seu casamento já não anda as mil
maravilhas? Mas e o que explicar sobre aqueles que estão no auge do
amor e ainda assim cedem aos encantos das tentações? Sim, muitas
vezes no auge de uma relação, rola traição, mesmo que exista carinho,
admiração, respeito e etc. Estranho né? Mas é bem por aí. Mais estranho
é tentar compreender isso, quando sentimos na própria pele. É o tal
ditado, pimenta nos olhos dos outros, é refresco. O ser humano trai e
não há um que não tenha traído alguém. E não trai só porque ‘quer
trair’. Estudiosos classificam a infidelidade conjugal em três tipos básicos:
a traição como desejo de novidade para vencer o tédio do casamento; a
traição como afirmação da feminilidade ou da masculinidade – é o
caso dos traidores compulsivos que precisam de nova conquista para
descartá-la em seguida; e a síndrome de Madame Bovary (personagem
do romance de Flaubert sobre a infidelidade feminina), em que a
insatisfação afetiva leva à busca de um amor romântico que não existe.
Em todos os casos, homens e mulheres encaram a traição de maneira
diferente. Quem ama, sinceramente, não trai. O amor é fiel.
(Disponível em: . Acesso em: 29/07/
2010. Adaptado)
2.2 T2.2 T2.2 T2.2 T2.2 Trabalhando com rabalhando com rabalhando com rabalhando com rabalhando com sequências didáticassequências didáticassequências didáticassequências didáticassequências didáticas
Para planejar o ensino de um gênero, Schneuwly & Dolz (2004)
propõem a adoção do procedimento chamado sequências didáticas, que
consiste num conjunto de atividades organizadas em torno de um gênero, as
quais serão desenvolvidas na escola. A ideia dos autores é a de que é possível
ensinar os gêneros textuais públicos da oralidade e da escrita e de maneira
ordenada, ou seja, adotando-se procedimentos de caráter modular. Assim,
eles desenvolveram um modelo de trabalho que consiste num conjunto
sistematizado de atividades ligadas entre si, planejadas para ensinar um
conteúdo etapa por etapa.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
72
Segundo os autores, a finalidade da sequência didática é ajudar os
alunos a dominar melhor um gênero de texto. Em outros termos, os módulos
que compõem uma sequência didática buscam levar os alunos, por meio de
exercícios, a adquirir as capacidades necessárias à produção de um texto
pertencente a um dado gênero. Nesse sentido, os módulos que compõem uma
sequência didática permitem-lhes dominar de forma paulatina e cada vez mais
aprofundada as especificidades de um gênero: suas condições de produção, sua
estruturação interna e seus mecanismos linguístico-discursivos. Com esse
procedimento, o que se espera é que os alunos possam ter acesso a práticas de
linguagem11 novas, incomuns para eles ou que eles ainda não dominam.
Uma questão que se coloca diz respeito à escolha dos gêneros
secundários que serão ensinados. Que gêneros trabalhar?
Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) sugerem que a escola trabalhe os
gêneros que os alunos ainda não praticam, os que lhes trazem dificuldades ou
ainda os que são espontaneamente pouco acessíveis à maioria deles.
Escolhemos, neste livro, tratar dos gêneros notícia e artigo de opinião.
Eles pertencem a grupos de gêneros que apresentam características distintas,
já discutidas, como nos mostra o quadro abaixo.
CAPACIDADES DE LINGUAGEM
DOMINANTES
ARGUMENTAR
Sustentação, refutação e negociação de
tomadas de posição
Questões polêmicas discutidas em sociedade,
que exigem um posicionamento e a sua
defesa
RELATAR
Representação pelo discurso de experiências
vividas, situadas no tempo
Necessidade de contar algo que realmente
ocorreu
EXEMPLOS DE GÊNEROS
Artigos de opinião, cartas de reclamação,
cartas do leitor, debates, editoriais, diálogos
argumentativos
Notícias, reportagens, relatos de experiência
vivida, relatos históricos, biografias, crônicas
esportivas
11
 O conceito práticas de linguagem refere-se às dimensões particulares do funcionamento da
linguagem em relação às práticas sociais em geral.
(Quadro baseado no apresentado por Dolz, Noverraz e Schneuwly, 2004, p. 121)
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
73
Para organizar uma sequência didática, é preciso preparar detalhadamente
cada etapa de trabalho.
Uma sequência didática pode ser assim estruturada:
Passo1. Apresentação da situação – Será elaborado o projeto de ensino.
Serão definidos:
• o gênero proposto aos alunos para a produção inicial – oral ou escrito;
• o destinatário da produção;
• a forma que a produção vai assumir: gravação, apresentação oral,
representação, carta, conto, artigo de opinião;
• quem participará da produção;
• os conteúdos dos textos que serão produzidos.
Passo 2. A produção inicial – Revelará as capacidades dos alunos e permitirá
a elaboração de atividades e exercícios adequados às suas possibilidades e
dificuldades reais.
Passo 3. Os módulos de atividades – Trabalharão os problemas que
apareceram na primeira produção:
Módulo 1 Módulo 2 Módulo 3 ..... Módulo n
Seu movimento é do complexo ao simples (cada uma das capacidades
necessárias ao domínio do gênero pelo aluno vai sendo trabalhada).
Passo 4. A produção final – O movimento chega novamente ao complexo.
É o momento para a avaliação somativa.
Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004, p. 83) representam esses passos
por meio do seguinte esquema da sequência didática:
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
74
Com esse procedimento, espera-se que os alunos aprendam em que
situação um determinado gênero é útil ou necessário, ou seja, em que contexto
social de uso o gênero circula, qual a sua função, como ele se compõe e que
estilo o caracteriza. Com esse procedimento, espera-se que os alunos aprendam
como ler e redigir os diversos gêneros textuais.
A seguir, apresentamos duas sequências didáticas, uma voltada para o
ensino da notícia e a outra voltada para o ensino do artigo de opinião. É
importante frisar que a elaboração de uma sequência didática não é um
procedimento mecânico de aplicação de uma ordem fixa de exercícios. Ao
contrário, a elaboração de uma sequência deve sempre ser pensada em função
das necessidades de um grupo específico de alunos. Por essa razão, as sequências
que seguem não devem ser vistas como modelos rígidos a serem aplicados
em sala de aula, mas somente como sugestões ou indicações de como os
gêneros notícia e artigo de opinião podem ser trabalhados por meio do
método das sequências didáticas.
Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)
Passo 1. Apresentação da situação – Projeto de ensino
Nesse primeiro momento, o objetivo é apresentar o gênero notícia
aos alunos. Dada a pouca familiaridade de muitos alunos com textos noticiosos
escritos, essa apresentação envolve o contato com um grande número de
notícias veiculadas em diferentes suportes, como jornais e revistas. É importante
que algumas questões guiem a leitura dos alunos. Assim, o professor pode
pedir aos alunos que leiam os textos, observando:
ü quem escreve a notícia?
Com essa questão, o aluno deve ser levado a perceber que as notícias
não costumam identificar a autoria, o que não nos impede de inferir
que quem escreveu o texto foi um jornalista. Assim, o aluno deve
perceber quem está institucionalmente autorizado a escrever uma
notícia. Em outros termos, ele poderá perceber o papel social de
jornalista que assume o autor de uma notícia veiculada em um jornal
ou em uma revista.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
75
ü quem lê a notícia?
Para quem a notícia é escrita? A resposta a essa pergunta pode variar,
dependendo dos cadernos ou das rubricas de onde as notícias foram
retiradas (esporte, turismo, cotidiano, política, etc). Por isso, diferentes
respostas podem surgir, a partir do material que os alunos terão em
mãos. Entretanto, como as notícias costumam veicular fatos que se
produziram no espaço público, elas costumam se destinar àqueles
que, de modo geral, se interessam pelos problemas que afetam a
coletividade. A percepção de que as notícias costumam tratar de fatos
que envolvem parcelas da população pode ajudar os alunos a
perceberem que o leitor de uma notícia, de modo geral, assume o
papel social de cidadão.
ü a notícia apresenta apenas linguagem verbal ou se vale de imagens?
Essa questão deve levar os alunos a perceber que, no gênero notícia, as
linguagens verbal e visual estão profundamente relacionadas.
ü qual é o papel que as imagens exercem?
Ao mostrar o que aconteceu por meio de imagens, o autor/jornalista
consegue fazer parecer ao leitor/cidadão que o que este vê é a própria
realidade. É como se o jornalista, usando imagens, mostrasse o mundo
sem interferência da sua subjetividade e de suas opiniões, contribuindo
para aumentar o efeito de imparcialidade em seu texto.
ü quais temas são tratados?
As notícias tratam de fatos atuais, recentemente ocorridos no espaço
público, que interessam a um conjunto significativo da população,
ainda que focalizem fatos aparentemente locais. Assim, uma notícia
que aborde o problema na coleta de lixo em uma rua afeta a
coletividade, não só porque informa um problema vivenciado por
um conjunto reduzido da população, mas também porque dá
informações sobre a atuação do poder público municipal, o que é do
interesse amplo dos habitantes de uma cidade.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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Passo 2. A produção inicial – Produção de texto
Na proposta de produção inicial, o professor pode solicitar aos alunos
que produzam uma notícia para ser publicada no jornal de maior circulação
da sua cidade, informando um fato recente ocorrido na rua ou no bairro em
que vivem.
Essa produção tem como finalidade oferecer ao professor uma espécie
de “diagnóstico” sobre os conhecimentos dos alunos sobre o gênero notícia.
Nesse sentido, ela não deve ser objeto de avaliação. A função dessa produção
inicial é, portanto, mostrar ao professor quais pontos ele deve contemplar no
ensino da notícia, ou seja, ela é uma referência para a elaboração dos módulos
componentes do próximo passo. Assim, por exemplo, se os alunos evidenciam
dificuldade no emprego dos tempos verbais característicos do tipo textual
predominante na notícia, é importante o professor elaborar um módulo com
exercícios que permitam aos alunos desenvolver essa habilidade.
Passo 3. Os módulos de atividades – Trabalho com os problemas apresentados
na primeira produção
A título de ilustração, vamos apresentar aqui um módulo apenas,
supondo que os alunos, após a produção inicial, tenham evidenciado
dificuldades, em especial, no emprego dos tempos verbais. O módulo se
compõe de três atividades.
Módulo 1 – O emprego dos tempos verbais
• Atividade 1.
Leia a seguinte notícia.
Novo protocolo limita plásticas “combinadas”
A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (1. _________) novas normas de
segurança para o paciente.
Entre as novas recomendações (2. _________) a limitação do número de
procedimentos a serem feitos em uma só cirurgia, a definição de exames
exigidos antes da operação, as restrições para procedimentos em adolescentes
e a definição do tipo de anestesia para cada caso.
Segundo a sociedade, a revisão (3. _________) necessária em função dos
avanços tecnológicos e do aumento no número de plásticas, além dos casos
de mortes.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
77
A finalização do protocolo (4. _________) até o final do ano, quando (5.
_________) o congresso brasileiro de cirurgia plástica, em novembro.
Empregue os verbos abaixo nos espaços numerados, fazendo as flexões
necessárias.
1. preparar. 2. estar. 3. ser. 4. acontecer. 5. realizar.12
• Atividade 2.
O trecho abaixo é o parágrafo inicial de uma notícia.
“Uma família de origem africana que estava assistindo a TV pulou pela janela
de um apartamento no terceiro andar de prédio da cidade de La Verrière
(França) com medo do ‘diabo’. Na inusitada fuga, um bebê morreu.”
a) Circule os verbos que expressame suas dimensões
(GERALDI, 1993, p. 135).
A prática de produção de textos, no entanto, não pode ser confundida
com o exercício de fazer redação, que consiste numa atividade de escrita feita
na escola, para o professor, no momento por ele proposto, sobre temas
propostos também por ele, para ser corrigida e receber uma nota. Esse exercício
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
10
de fazer redação, que se dava numa situação artificial e forçada de emprego da
língua, constituindo-se numa atividade para a escola, para o professor, tinha
como alvo um produto cujo aspecto formal recebia tratamento privilegiado.
A atenção do professor voltava-se sobretudo para a ortografia, a pontuação e
a sintaxe.
A prática de produção de textos, ao contrário, é entendida como uma
atividade em que se produzem discursos: “O sujeito articula, aqui e agora, um
ponto de vista sobre o mundo que, vinculado a uma certa formação discursiva,
dela não é decorrência mecânica, seu trabalho sendo mais do que mera reprodução
[...]” (GERALDI, 1993, p. 136).
Para produzir um texto, é preciso que se tenha o que dizer, que se
tenha uma finalidade para dizer o que se tem a dizer, que se tenha para quem
dizer o que se tem a dizer e, ainda, que o produtor do texto se assuma como
locutor, numa situação interlocutiva, que diz o que diz para quem diz. Ou
seja, para a produção de quaisquer textos, é preciso que o aluno tenha algo
para dizer, um motivo para fazê-lo, um destinatário para seu texto, e ainda
que o faça colocando-se como sujeito de suas palavras (MARINHO, 1997).
Na atividade de produção textual, consideram-se as formas
linguísticas, mas relacionadas ao contexto de uso da língua e às condições de
produção do texto. Ao produzir um texto, o aluno realiza um ato de interação
verbal, na medida em que seu texto traz o que ele tem a dizer efetivamente a
seu interlocutor. Nesse processo, o aluno realiza várias atividades linguísticas,
cognitivas e sociais. É preciso que ele dê conta do contexto comunicativo
que se instaura com seu texto, e considere quem escreve para quem (qual é a
posição social dos interlocutores e o grau de formalidade do texto), o contexto
sócio-histórico-cultural em que sua produção está inserida (conhecimentos,
crenças e valores compartilhados), o meio de circulação do texto (o modo de
publicação). Além disso, e em função disso, o aluno deve ser capaz de decidir
o ato de fala que quer ou pretende realizar, o gênero textual adequado para
realizar esse ato, bem como a variedade linguística que se mostra mais adequada
para ser usada em seu texto.
O professor, por sua vez, deve criar situações que estimulem a
produção textual pelo aluno e que contemplem também a diversidade de
textos e de gêneros, de tal forma que poderá levar o aprendiz a desenvolver
sua habilidade de escrita e a saber lidar com textos pertencentes aos diferentes
gêneros de circulação social.
Os PCNs de língua portuguesa chamam a atenção para o gênero
textual como objeto de ensino da nossa língua materna, pois consideram que
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
11
“a noção de gênero, constitutiva do texto, precisa ser tomada como objeto de
ensino.” (PCNs 3º e 4º ciclos do ensino fundamental, p. 23). E ainda:
Nessa perspectiva, é necessário contemplar, nas atividades de ensino, a
diversidade de textos e gêneros, e não apenas em função de sua relevância
social, mas também pelo fato de que textos pertencentes a diferentes gêneros
são organizados de diferentes formas. (PCNs 3º e 4º ciclos do ensino
fundamental, p. 23-24)
Na prática de produção de textos, torna-se importante possibilitar a
apropriação dos diferentes gêneros pelo aluno. Para tanto, devem-se apresentar
ao aprendiz propostas que vão bem além da indicação de um tema ou de um
tipo textual. É importante que elas tragam contribuição para que o aluno
perceba o ato de escrever como uma forma de interlocução. Assim, as
atividades devem considerar o tema, o objetivo para o texto, o destinatário,
o gênero do texto adequado à situação comunicativa que se vai instaurar (sua
função, forma composicional, seu estilo), e os modos de circulação do texto
(seu suporte, em que contexto vai circular).
As propostas de trabalho de escrita devem ainda discutir as
características discursivas e textuais dos diferentes gêneros que podem ser
trabalhados na escola. O aluno deve ser levado a refletir sobre como pode
escrever seu texto. Ele não precisa ser conduzido a seguir uma norma linguística
(a padrão), como se fosse a única possibilidade de expressão, e um modelo
formal de texto, como se os gêneros fossem formas rígidas. Mas o importante
é levá-lo a perceber a função social de seu texto – o que pretende com ele, que
sentido espera que seja construído pelo destinatário, enfim, que ação de
linguagem realiza com o texto. Igualmente importante é levá-lo a perceber
que, a partir daí, pode fazer escolhas microestruturais: escolha da norma –
que pode ser outro uso da língua que não o padrão –, dos tipos textuais e dos
recursos linguísticos que estarão a serviço do sentido global do texto, que
espera produzir.
Nesse processo, o aluno deverá se ater à ortografia, à pontuação e à
sintaxe, bem como à seleção lexical e aos mecanismos de textualização
(articulados à construção do sentido do texto).
Nos próximos itens, trataremos do conceito de tipo textual e, em
seguida, do conceito de gênero. Antes, porém, faça uma atividade para avaliar
o que você tem a dizer de produções escritas por estudantes do 2º ciclo do
ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
12
Atividade 1 – A produção escrita como forma de interlocução
Reúna-se com seus colegas. Leiam os textos produzidos por estudantes
brasileiros do 2º ciclo do ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio
e respondam:
a) Quanto à proposta de produção dos textos, o que você tem a dizer? Ela
considera o contexto de produção (suporte, função social, gênero, destinatário)
e o objetivo para a escrita? Ela contribui para a construção temática?
b) Quanto à produção do aluno, ele atende à proposta? Ele de fato faz uso
da escrita como forma de interlocução?
c) Como agir sobre os textos dos estudantes, para quem o escrever deve ser
visto como busca de interlocução e de expressão pessoal, mas que também
devem seguir convenções que regem a construção de textos nos diferentes
gêneros? Que atividades poderiam ser propostas para os estudantes visando
sanar os problemas e dificuldades que apresentam em seus textos?
A – A – A – A – A – Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:
O aniversário de seu município está chegando, e a prefeitura irá comemorá-
lo com a publicação de um livro de histórias interessantes que aconteceram
na sua cidade. Colabore, contando uma história que tenha ocorrido com
você ou com sua família ou ainda com pessoas da sua comunidade. Se você
não se lembrar de qualquer fato que ocorreu realmente, poderá inventá-lo.
Dê um título a seu texto.
TTTTTexto 1:exto 1:exto 1:exto 1:exto 1:
O aniversário da cidade
Era uma bela manhã de sábado e os cidadãos estavam anciosos para
poder comemorar o aniversário de sua cidade com uma grande festa, e como
de costume, as festas eram as melhores.
O prefeito da cidade, estava organizando uma festa no parque
municipal, e ele queria que cada barraquinha, tivesse um bolo, mais ninguém
do governo concordou com ele.
No dia do aniversário da cidade, o prefeito chegou e começou a
organizar a grande festa. Quando ja ia dar 10:00 da manhã, o prefeito ligou
para a fábrica de bolo e pidiu um carrinho com muitos tipos de bolo e sabores.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
13
O parque municipalos fatos principais da notícia.13
b) Os verbos circulados expressam fatos
( ) futuros.
( ) passados.
( ) presentes.14
• Atividade 3.
Reescreva a sua produção inicial, verificando a adequação dos tempos verbais
empregados.
Passo 4. A produção final – Avaliação somativa
Para a produção final, o professor pode propor a elaboração de um
jornal da sala de aula, solicitando aos alunos que redijam notícias sobre fatos
recentes ocorridos na escola.
A produção final tem como objetivo possibilitar ao professor verificar
os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos alunos ao fim da sequência
didática. Assim, ela é importante porque funciona como um instrumento de
12
 Resposta possível: 1. prepara 2. estão 3. é 4. deve acontecer 5. será realizado
13
 Resposta possível: pulou e morreu.
14
 Resposta: passados.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
78
verificação para o professor e os alunos perceberem o que não foi bem
assimilado ou em qual aspecto eles ainda demonstram dificuldades. A
produção final é importante ainda, porque possibilita aprofundar aspectos
tratados na sequência de que faz parte, permitindo aos alunos a aquisição de
conhecimentos mais complexos sobre o uso da língua. Por exemplo, após
explorar o uso dos tempos verbais na notícia, o professor pode elaborar uma
sequência didática em que seja contemplada a função modalizadora de tempos
verbais, como o futuro do pretérito, no gênero reportagem, ou aprofundar o
estudo da notícia, elaborando uma sequência que explore a relação entre os
tipos textuais e os tempos verbais.
Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)
Passo 1. Apresentação da situação – Projeto de ensino
Como vimos na sequência anterior, nesse primeiro momento, o
objetivo é apresentar o gênero artigo de opinião aos alunos. Aqui também,
essa apresentação envolve o contato com um grande número de artigos
veiculados em diferentes suportes, como jornais e revistas. Para guiar a leitura
dos alunos, o professor pode pedir a eles que leiam os textos, observando:
ü quem escreve o artigo?
Na situação que se materializa por meio do artigo de opinião, verifica-
se o diálogo entre dois agentes, autor e leitor, os quais, no entanto,
assumem papéis sociais diferentes e assimétricos. É importante os
alunos perceberem que, nessa interação, o autor assume o status de
autoridade em dado assunto, de figura de prestígio no espaço social,
cujo saber é endossado e validado pela instituição (política, jornalística,
industrial, acadêmica) que representa. Esse prestígio se manifesta no
destaque dado ao nome do autor/articulista, na parte superior do
texto. Como observa Rodrigues (2005, p. 172), “O reconhecimento
social e profissional do articulista outorga credibilidade a sua fala,
alçando-o à posição de ‘articulador’ de um ponto de vista autorizado,
de formador de opinião”.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5878
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
79
ü quem lê o artigo?
Para quem o artigo é escrito? No diálogo com o articulista, o papel
que se reserva para o leitor é o de cidadão, que busca no interlocutor
a interpretação, a análise de um fato ocorrido no espaço social. Por
esse motivo, o gênero artigo de opinião apresenta uma relação dialógica
assimétrica entre alguém que está institucionalmente autorizado a
emitir o seu ponto de vista, o autor, e alguém que busca um
conhecimento, uma análise supostamente mais esclarecida, o leitor.
ü quais temas são tratados?
No artigo, o universo temático é preenchido por fatos recentemente
ocorridos na esfera social, os quais, dada essa atualidade, interferem
na vida do cidadão de modo geral e colocam parcelas da população
em posições divergentes e antagônicas. Em outros termos, o universo
temático do gênero artigo de opinião é povoado por fatos atuais e
polêmicos. Por essa razão, autor e leitor dialogam sobre um “já-dito”
(RODRIGUES, 2005), sobre um fato que, após ter sido abordado
pelo noticiário, mobilizou a atenção da opinião pública e agora pede
que os veículos de comunicação apresentem as análises “esclarecidas”
de especialistas da área em que o fato se deu.
ü como os temas são tratados?
Dada a natureza polêmica do fato a comentar no artigo, propiciando
a manifestação de opiniões divergentes, mas igualmente esclarecidas
em diferentes veículos, a relação assimétrica entre autor e leitor não
garante a adesão deste às proposições defendidas no texto. A incerteza
quanto ao efeito alcançado junto ao leitor explica por que os temas
são tratados de forma a convencê-lo de um dado ponto de vista, o
que revela a dimensão argumentativa do gênero artigo de opinião.
Embora a credibilidade do autor esteja pressuposta e não precise ser
construída pela sua performance discursiva, o autor não pode se limitar
a simplesmente explicitar o seu ponto de vista. Mais do que isso, o
autor precisa buscar modificar a visão de mundo do leitor,
convencendo-o da consistência de suas opiniões, dado o diálogo
implícito ou explícito que mantém com opiniões adversárias.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
80
Passo 2. A produção inicial – Produção de texto
Na produção inicial, o professor pode, em primeiro lugar, propor uma
discussão sobre os fatos que mais chamaram a atenção dos alunos no noticiário
dos últimos dias. Em seguida, pode solicitar a eles que produzam um artigo
sobre o fato mais polêmico ou sobre aquele que os deixou mais indignados.
Como dissemos, a produção inicial tem como finalidade oferecer ao
professor uma espécie de “diagnóstico” sobre os conhecimentos dos alunos
sobre o gênero artigo. Portanto, ela indica ao professor quais pontos devem
ser contemplados nos módulos da sequência e quais pontos não precisam ser
trabalhos agora, podendo ser reservados para sequências didáticas futuras.
Passo 3. Os módulos de atividades – Trabalho com os problemas apresentados
na primeira produção
A título de ilustração, apresentamos aqui somente um módulo,
supondo que os alunos, após a produção inicial, tenham evidenciado
dificuldades, em especial, na elaboração e na defesa de argumentos. O módulo
se compõe de duas atividades.
Módulo 1 – a utilização de argumentos
• Atividade 1.
Leia o trecho do artigo “O vírus ‘endógeno’ da corrupção”
“A corrupção é o tema central do debate político contemporâneo no Brasil.
O contexto no Brasil nos remete aos seguintes questionamentos: Por que a
corrupção está tão profundamente arraigada no Brasil? [...] No Brasil [a
corrupção] se associa a esse contexto histórico a assim chamada ‘Lei de Gérson’,
ou seja, o comportamento de querer ‘tirar vantagem em tudo’, pressupondo
que os sujeitos aguardam o máximo possível de benefícios, visando
exclusivamente o benefício próprio. [...]”
a) Sublinhe o trecho em que o autor expressa sua opinião.15
b) Você concorda com a opinião do autor? Por quê?
15
 Resposta possível: “No Brasil [a corrupção] se associa a esse contexto histórico a assim chamada
‘Lei de Gérson’, ou seja, o comportamento de querer ‘tirar vantagem em tudo’, pressupondo que
os sujeitos aguardam o máximo possível de benefícios, visando exclusivamente o benefício próprio.”
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
81
• Atividade 2.
Leia o trecho do artigo “Ecochato é a mãe! Chatos são os outros!”
“Para aqueles que estão acostumados a defender suas ideias em prol da
sustentabilidade é bastante comum sermos chamados de ecochatos e contrários
ao desenvolvimento e ao progresso. [...]”
a) O que significa o termo “ecochato”?16
b) O autor se coloca na categoria dos “ecochatos”? Justifique.17
c) Como o autor poderia continuar o texto, defendendo-se das acusações
que costuma receber?18Passo 4. A produção final – Avaliação somativa.
Na produção final, o professor e os alunos podem fazer uma lista de
fatos polêmicos ocorridos recentemente. Em seguida, o professor pode solicitar
aos alunos que escolham um desses fatos e escrevam individualmente artigos
de opinião. Escritos os artigos, cada aluno pode, finalmente, trocar o seu
artigo com o de um colega, para que este, na posição de leitor de artigo de
opinião, verifique a consistência e pertinência dos argumentos defendidos.
Como dissemos no passo 4 (quatro) da sequência anterior, a produção
final tem o objetivo de possibilitar ao professor verificar os conhecimentos e
habilidades adquiridos pelos alunos ao fim da sequência didática. Assim, ela
permite saber com segurança o que não foi bem assimilado ou em qual aspecto
eles ainda demonstram dificuldades. A produção final também possibilita ao
professor planejar as suas futuras ações em sala de aula. Com base no que os
alunos já sabem, como continuar? Quais aspectos devem ser aprofundados?
Quais pontos já estão bem assimilados?
16
 Resposta possível com base no texto: pessoas acostumadas a defender suas ideias em prol da
sustentabilidade.
17
 Resposta possível: Sim. Ao dizer “é bastante comum sermos chamados de ecochatos”, ele se
inclui na categoria.
18
 Resposta possível: Mas existem muitas evidências de que é possível conciliar sustentabilidade
e desenvolvimento econômico...
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
82
Atividade 15
Releia um dos textos apresentados na atividade 1 deste livro. Considere-o
como uma produção inicial de seu aluno, por meio da qual suas capacidades
se revelam. Visando sanar os problemas que ele apresentou em sua produção
textual inicial, elabore uma sequência didática, nos moldes das duas
apresentadas anteriormente, que possa auxiliá-lo de tal forma que esses
problemas não mais apareçam em uma produção final.
Sugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensino
DOLZ, Joaquim; NOVERRAZ, Michèle; SCHNEUWLY, Bernard.
Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento.
In: SCHNEUWLY, Bernard; DOLZ, Joaquim. Trad. e org. Roxane Rojo e
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SOUZA, Lusinete Vasconcelos de. Gêneros jornalísticos no letramento escolar
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Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5882
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
83
PPPPPalavras finaisalavras finaisalavras finaisalavras finaisalavras finais
Neste livro, procuramos oferecer ao leitor subsídios, ao mesmo
tempo, teóricos e práticos que possam nortear suas atividades em sala de
aula. Inicialmente, buscamos discutir algumas conceituações recentes sobre
os gêneros e os tipos textuais. Em seguida, mostramos como as noções de
gênero e tipo, por serem formas naturais de uso da língua, podem ter um
papel relevante na aula de Língua Portuguesa. Afinal, funcionando como
instrumentos de ensino, essas noções podem permitir ao aluno desenvolver
uma melhor compreensão da linguagem e de como a materialidade linguística
e textual reflete a complexidade e o dinamismo das interações sociais. Por
fim, com base no estudo dos gêneros notícia e artigo de opinião, apresentamos
as sequências didáticas como um método possível para o ensino dos gêneros.
Esperamos que este livro possa contribuir com a formação do
professor, de quem se espera o conhecimento de teorias pertinentes para o
trabalho com o texto em sala de aula, possibilitando o desenvolvimento das
habilidades dos alunos de interagir por meio de textos que interpretam e
produzem nas várias situações comunicativas que vivenciam.
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Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5885estava começando a ficar cheio de pessoas, e
nada dos caminhãos de bolo chegarem. O prefeito começou a fícar aflito, e
ao mesmo tempo preocupado.
Todos estavam se divertindo menos o prefeito. De repente, uns 3
caminhões enormes chegaram na porta do parque e abriram a porta de trás,
todas as pessoas correram para a porta do parque, e receberam pedaços e
mais pedaços de bolo.
E o prefeito abriu um sorriso no rosto e foi comer o bolo.
E assim foi o aniversário da minha cidade imaginária.
TTTTTexto 2:exto 2:exto 2:exto 2:exto 2:
A Corrida
Na cidade o prefeito disse:
– Quem trazer a idéia de fazer uma corrida mais engraçada, ganhara
um fusca!
Todos começaram a dizer ao prefeito:
– Corrida de bicicleta – corrida de patinete, etc,
Um dia um rapaz disse:
– Corrida de motoca! e o prefeito respondeu:
– Boa idéia você foi o vencedor.
TTTTTexto 3:exto 3:exto 3:exto 3:exto 3:
Eu conheço umas pessoas que salvou sua vida saindo de uma aréa de
risco e indo para um lugar mais seguro.
E quem está fornecendo essa grande maravilha para o povo é Ribeirão
das Neves tirando-os das areas de riscos e desabamentos deixando o povo
seguro sem riscos de vida fornecendo a maior pocibilidade de estarem vivendo
uma vida sem riscos, de morte fazendo eles ficarem seguros e protegidos de
qualquer riscos.
E o povo está tão agradecido, que resolveram fazer uma festa pra
comemorar essa marailhosa atitude de Ribeirão das Neves que os possibilitou
de terem uma vida tranquila sem riscos trasendo paz para os moradores de
Ribeirão das Neves e com isso todo povo deixa uma frase:
Obrigada Ribeirão das Neves por estar fornecendo tudo isso para a
gente trazendo paz e tranquilidade.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5813
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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B – B – B – B – B – Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:
Sua escola vai publicar um jornal e você ficou responsável por escrever um
artigo a respeito do tema sugerido a seguir. Apresente argumentos que
sustentem o ponto de vista defendido por você. Dê um título a seu texto.
O que é ensinado pela escola prepara para o mundo do trabalho?
TTTTTexto 1:exto 1:exto 1:exto 1:exto 1:
Experiência Colegial
O estudo visado nas escolas preparam os alunos para uma vida social
e profissional mas, como não so de pão vivera o homem, não so da escola
vivera a humanidade. A escola da uma grande base para carreira profissional,
aplicando matérias variadas com conhecimentos múltiplos. Portanto a
experiência profissional não é aplicada. Nos tornando conhecedores sem
experiência.
O mercado de trabalho procura jovens experientes e com boa formação
acadêmica. O preparo para o mundo do trabalho é ensinado no dia-a-dia,
pelas pessoas tal qual nos rodeiam, e não por que dizer a escola? Boa parte
do dia passamos na escola, interagindo com os alunos, os professores por
terem um conhecimento maior e possuirem idade elevada, ao se comparar com
a dos alunos, obtemos conhecimentos relacionados a vida.
Concluindo, penso que o colégio nos prepara de uma forma acadêmica
para o mundo do trabalho, deixando a experiência e o contato direto com o
trabalho, de lado impossibilitando a concorrência com os experiêntes.
TTTTTexto 2:exto 2:exto 2:exto 2:exto 2:
Agora é com você!
Várias pessoas se questionam sobre a importancia da escola na
formação de um profisional apto a atender as exigências do mercado de
trabalho. Acima disso, o dever da escola é ensinar para a vida, formar
cidadões, pregar informações e conhecimento, trabalhar a sensibilidade e o
humanismo do ser humano.
O que importa não é só o diploma de formação acadêmica, mais como
a pessoa age e reage no ambiente em que vive, levando em conta, seu poder
argumentativo, seu modo de expressão e como auxilia a tarefa de conviver
em grupo.
O que nos diferencia uns dos outros, é simplesmente o modo de como
cada um vê a vida. Tudo depende de nós. A escola é apenas um instrumento
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5814
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
15
para levar a você conhecimento e a informação. Somos nós que nos induzimos
ao sucesso. O homem mal informado automaticamente se exclui da sociedade,
então procure sempre se informar, leitura, nunca é demais. Sucesso!!!!!
TTTTTexto 3:exto 3:exto 3:exto 3:exto 3:
Escola uma base para o trabalho
Para mim a escola é uma base para o mercado de trabalho. Pois é nela
que aprendemos a ler, a escrever, fazer cálculos, entre outras coisas.
Ajuda-nos a si integrarmos em um grupo e até mesmo na nossa
sociedade! Ensinando o que é bom para o nosso futuro.
No meu ponto de vista as escolas estão precisando de mais projetos,
para melhorar o ensino. Um dos projetos é ter informática básica, pois em
toda empresa pede pelo menos um curso de computação básico. E como
sabemos não são todas as pessoas que tem condições para pagar um curso de
computação.
Acho que deveria ter nas escolas pelo menos uma aula de computação
por semana, para ajudar-nos no conhecimentos do mercado de trabalho.
Mas tirando isso, a escola nos dá uma boa preparação para o mercado
de trabalho!
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5815
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
16
11111 TTTTTexto e sua tipologiaexto e sua tipologiaexto e sua tipologiaexto e sua tipologiaexto e sua tipologia
Como esclarece Koch (1997, p. 21), “é sabido que, conforme a
perspectiva teórica que se adote, o mesmo objeto pode ser concebido de
maneiras diversas. O conceito de texto não foge à regra.”
Até mesmo nos quadros da Linguística Textual, o texto já foi concebido
de maneiras diferentes. Ele já foi visto como frase complexa a partir da qual se
pensava na construção de gramáticas do texto. Foi visto como discurso “congelado”,
ou seja, como um “produto acabado de uma ação discursiva” (KOCH, 2002,
p. 149), um produto que possuía a propriedade de ser coeso e coerente.
Mais recentemente, a partir da década de 1990, o texto tem sido
concebido como “verbalização de operações e processos cognitivos”, quando
o interesse dos estudiosos volta-se para questões relativas ao processamento
do texto, em termos de produção e de compreensão, às formas de
representação do conhecimento na memória, à ativação de conhecimentos
prévios no processamento do texto, às estratégias sociocognitivas e
interacionais nele envolvidas etc.
Mais recentemente ainda, dando-se ênfase a questões de ordem
sociocognitiva, que envolvem os processos de referenciação, inferenciação,
organização textual-interativa, construção dos gêneros textuais, entre outros,
o texto tem sido compreendido como “fruto de um processo extremamente
complexo de interação e construção social de conhecimento e de linguagem.”
(KOCH, 2002, p. 157).
Hoje o texto é entendido como uma produção linguística que possa
fazer sentido numa situação de interlocução. Texto é uma produção verbal
por meio da qual se comunica uma mensagem e se age linguisticamente. Para
Beaugrande (1997), “É essencial ver o texto como um evento comunicativo
em que convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais”. (BEAUGRANDE,
1997, item IC, parágrafo 34). Como afirma Costa Val,
“Falando apenas de texto verbal, pode-se definir texto, hoje, como qualquer
produção lingüística, falada ou escrita, de qualquer tamanho, que possa
fazer sentido numa situação de comunicação humana, isto é, numa situação
de interlocução. Por exemplo: uma enciclopédia é um texto, uma aula é um
texto, um e-mail é um texto, uma conversa por telefone é um texto, é
também texto a fala de uma criança que, dirigindo-se à mãe, aponta um
brinquedo e diz ‘té’.” (COSTA VAL, 2004, p. 63)
Defende-se hoje que o que possibilita a construção de sentido de
uma produção são os conhecimentos e intenções de quem a produziu, falando
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5816
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
17
ou escrevendo, assim como os conhecimentos disponíveise habilidades
interpretativas de quem a ouviu ou leu. Então, interferem no processo de
construção de sentido conhecimentos partilhados pelos interlocutores, tais
como: saberes, crenças e valores pertencentes ao mundo em que estão
inseridos, conhecimento da língua utilizada – sua gramática e seu léxico –,
conhecimento das ações de linguagem empreendidas no processo interacional,
e também conhecimento dos tipos e gêneros dos textos construídos.
Assim, para lidar com textos, é importante considerar os gêneros e
tipos textuais. Em função das necessidades socioculturais dos sujeitos
interlocutores, o texto é elaborado dentro de um gênero. Assim, os textos
são produzidos levando-se em consideração as características relativamente
estáveis do gênero em questão.
Os gêneros, como veremos à frente, são organizações de enunciados
caracterizadas por um conteúdo temático, uma forma composicional e um
estilo. Como são inúmeros, e bastante heterogêneos, é impossível classificá-
los para abordá-los como se faz com os tipos textuais. Assim, as tipologias
do texto foram, durante muito tempo, usadas para a classificação dos textos.
Nos próximos itens, vamos refletir sobre as noções de tipos e de
gêneros textuais.
1.11.11.11.11.1 Tipos textuaisTipos textuaisTipos textuaisTipos textuaisTipos textuais
Até pouco tempo atrás, o termo “tipo” era usado com diferentes
valores. Elaboravam-se tipologias textuais com base em múltiplos e
heterogêneos princípios.
Assim, falava-se em tipos de texto de acordo com sua forma de
estruturação – narração, descrição, dissertação. Falava-se também em tipos
de acordo com a finalidade dos textos – texto didático (ensinar), jornalístico
(informar), filosófico (discutir ideias), jurídico (esclarecer leis), político
(convencer), literário (valorizar a palavra), etc. – ou com a construção da
argumentação – texto crítico (que visa ao acordo ou à contestação), deliberativo
(que busca o aconselhamento), judiciário (que visa à acusação ou à defesa),
epidítico (que visa à censura), por exemplo.
Além disso, a noção de tipo de texto às vezes se referia à sua forma de
constituição, às vezes à sua finalidade ou, ainda, à sua configuração. Essa
imprecisão com relação ao que seria o tipo textual tornava possível a
composição problemática de corpora de análise. Silva (1999) cita exemplos
de propostas tipológicas que apresentavam diário, narrativa e injunção ou
carta, dissertação e narração, como tipos de texto. Propostas como essas
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5817
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
18
parecem se orientar por uma noção de tipo como texto concreto em uso nas
práticas sociais de linguagem.
Nos estudos desenvolvidos no âmbito da Linguística Textual, a noção
de tipo textual vem sendo concebida, de modo geral, como um conjunto de
traços que formam uma sequência linguística.
A expressão tipo textual é, nesse caso, usada para designar cada tipo de
sequência de enunciados que compõem o texto. Para Werlich (1973 apud
Marcuschi, 2002), são cinco os tipos textuais: narrativo, descritivo,
dissertativo (expositivo), argumentativo, injuntivo. Sua classificação baseia-
se nas estruturas dos enunciados que compõem o texto, ou seja, na
composição ou estruturação interna do texto.
Como expõe Silva (1999), os vários tipos textuais confeccionam a
tessitura do texto, ou constituem a sua estrutura composicional. Eles podem
ser tratados como modos enunciativos de organização do discurso no texto
realizados por operações textual-discursivas que ocorrem nos níveis micro e
macroestruturais, operações que acontecem no processo de produção do texto.
Segundo Marcuschi (2002), os tipos textuais constituem o que
Bakhtin denomina a estrutura composicional do texto segundo os padrões
do gênero. Por exemplo, num romance, podem aparecer em sua estrutura
composicional vários tipos textuais: a narração, para relatar os acontecimentos,
os fatos, a progressão das ações dos personagens; a descrição, para caracterizar
os personagens, as ações, o cenário; a dissertação/argumentação, para comentar
ou avaliar as ações dos personagens, seus sentimentos e atitudes.
As abordagens que estudam os tipos textuais podem ser divididas
basicamente entre abordagens linguísticas e abordagens referenciais. Entre as
primeiras (Benveniste, Weinrich), os tipos caracterizam-se pelas marcas
linguísticas, tais como tempos verbais, pronomes pessoais, advérbios de lugar,
organizadores textuais etc.
Benveniste (1976), por exemplo, distingue dois tipos ou, em sua
terminologia, dois planos de enunciação: a história e o discurso. Na história,
os acontecimentos não têm qualquer relação com o presente e “parecem narrar-
se a si mesmos” (p. 267). Por isso, esse plano de enunciação exclui os elementos
dêiticos, que são as marcas que fazem referência aos interlocutores (eu, tu),
ao lugar (aqui, lá) e ao tempo (agora) da interação. Exclui ainda outras marcas
de subjetividade, tais como reflexões ou julgamentos do narrador. Pelo
mesmo motivo, as formas verbais são sempre de 3ª pessoa. Como exemplos
de enunciação histórica, o autor cita obras historiográficas e romances
tradicionais, cujo narrador seja onisciente.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5818
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
19
Um exemplo de história é:
As colunas de Hércules
Entre os doze trabalhos impostos a Hércules, estava a captura
dos bois de Gerião, um gigante de três cabeças e três torsos. Esses bois
pastavam numa misteriosa ilha vermelha, chamada Erítia, situada além
dos limites do mundo, muito longe, para o lado oeste. Hélio, o sol,
emprestou sua carruagem de ouro a Hércules, que assim cruzou o oceano.
Depois de chegar a Erítia, Hércules se livrou de um cão
monstruoso, Ortos, e, depois, do próprio Gerião, desferindo nele
golpes terríveis com sua enorme clava. Então, Hércules embarcou o
rebanho no carro de Hélio e, na volta, para comemorar sua façanha,
separou uma montanha em duas e ergueu assim duas colunas
gigantescas: Calpéia e Abila. Desde essa época longínqua, as colunas
de Hércules, transformadas em imensos rochedos, guardam a entrada
do Mediterrâneo e marcam a fronteira entre a Europa e a África –
uma em Gibraltar, a outra em Ceuta.
(RAGACHE, G. A Europa: mitos e lendas. São Paulo: Ática, 1996.)
Já o discurso diz respeito a “toda enunciação que supõe um locutor e um
ouvinte e, no primeiro, a intenção de influenciar de algum modo o outro” (p.
267) e engloba “todos os gêneros nos quais alguém se dirige a alguém” (p. 267):
correspondências, obras didáticas, entrevistas, etc. No plano do discurso, o texto
é marcado por todos os elementos linguísticos excluídos da história: elementos
dêiticos, formas verbais de 1ª e 2ª pessoas, bem como reflexões e julgamentos
que denunciem um ponto de vista. Um exemplo de discurso pode ser:
Bia,
Acabei de acordar.
A minha mãe diz que eu devo estar com o vírus do sono.
Acho que ainda não inventaram um antivírus pra isso,
mas se depender da minha mãe, já, já descobrem um
e ela vai querer instalar em mim.
Vou aproveitar enquanto eu posso.
Dormir está na lista das dez melhores coisas do mundo.
Em primeiro eu acho que está o chocolate.
Em segundo ficar em casa sem fazer nada
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
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comendo chocolate.
Em terceiro é ficar em casa, sem fazer nada
comendo chocolate e falando no telefone ou na internet.
Em quarto, e só pra combinar, é ficar no quarto
dormindo até alguém chamar para almoçar.
Como é bom dormir!
Beijinhos
Lili
(FALCÃO, Adriana. P.S. beijei. São Paulo: Salamandra, 2004, p. 23)
Uma das críticas que se faz às abordagens linguísticas é a de que elas
são muito gerais e não permitem criar uma tipologia de textos (ROULET;
FILLIETTAZ; GROBET, 2001). Na proposta de Benveniste, a categoria
discurso caracteriza uma quantidade muito grande de gêneros, os quais são
bastante heterogêneos. Como distinguir, por exemplo,uma correspondência
e uma obra didática se ambas pertencem ao plano do discurso?
Esse e outros problemas levaram à proposição de abordagens
referenciais.1 Nessas abordagens, as marcas linguísticas dos textos são levadas
em conta na definição dos tipos, mas estes são definidos, principalmente,
pela natureza das informações que podem mobilizar. Por exemplo: enquanto
o relato de acontecimentos define a narração, a caracterização de lugares e
personagens define a descrição.
Dentre essas abordagens, uma das que mais exerceram e exercem
influência nos estudos do texto é a de Adam (1992). Para esse autor, os tipos
são esquemas sequenciais prototípicos, que foram “progressivamente
elaborados pelos sujeitos, ao curso de seu desenvolvimento cognitivo”
(p. 28). Uma sequência descritiva, por exemplo, tem características em comum
com outras sequências descritivas, características que permitem identificá-las
como pertencentes ao tipo descritivo. O mesmo vale para os tipos narrativo,
argumentativo, explicativo e dialogal, que são as categorias propostas por
Adam (1992). Assim, cada tipo se define por características típicas, que vão
aparecer com maior ou em menor intensidade nas sequências textuais. A
1
 Essas abordagens buscam definir os tipos a partir de entidades pré-linguageiras, por meio de
uma estrutura cognitiva como frames, esquemas ou scripts, ou por meio de recursos psicológicos
de que os locutores dispõem para interpretar e produzir sequências textuais.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
21
seguir, será feita uma breve apresentação de cada tipo, segundo a proposta
desse autor.
1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo
Adam (1992) define a narrativa com base em seis critérios:
(A) Sucessão de acontecimentos:
Para que exista narrativa, os acontecimentos devem ser ordenados segundo
uma ordem cronológica.
(B) Unidade temática:
A narrativa caracteriza-se pela unidade temática, a qual pode ser garantida
pela presença de pelo menos um personagem antropomórfico.
(C) Predicados transformados:
Do começo ao final da narrativa, o personagem deve sofrer uma transformação
dos predicados de ser, de ter e de fazer que o caracterizem.
(D) Um processo:
Para que a narrativa tenha unidade temática, é preciso que a transformação de
predicados ocorra ao longo de um processo com começo, meio e fim.
(E) A causalidade narrativa de uma intriga:
Para haver narrativa, é preciso que, entre os acontecimentos representados,
haja, além da relação de natureza temporal, uma relação de natureza causal.
Assim, acontecimentos anteriores devem funcionar como a causa de
acontecimentos posteriores, dando à narrativa a tensão própria de uma intriga.
(F) Uma avaliação final (explícita ou implícita):
A narrativa deve sempre ser motivada pelo objetivo do narrador de produzir
um determinado efeito sobre o narratário (fazer crer, fazer saber). Esse objetivo,
que dá sentido à história e justifica a sua própria narração, pode ser explicitado
por meio de uma avaliação final (moral) ou pode permanecer implícito.
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
22
Com base nesses seis critérios, Adam (1992, p. 57) propõe o protótipo
da sequência narrativa, o qual se representa da seguinte forma:2
Conforme esse protótipo, o tipo narrativo organiza-se em situação
inicial, complicação, (re)ações, resolução, situação final e moral. Basicamente, a
situação inicial indica os personagens, o local e a época da história. Na
complicação, ocorre um fato que perturba o equilíbrio da situação inicial. As
(re)ações são formadas pelos acontecimentos decorrentes da complicação ou
pelo comentário do narrador acerca dos acontecimentos principais da história.
Na resolução, ocorre um fato que soluciona o desequilíbrio instaurado na
complicação. Na situação final, apresenta-se uma nova fase de equilíbrio. A
moral, típica apenas de alguns gêneros literários, como a fábula, apresenta o
ensinamento que se deve tirar da história.
No tipo narrativo, a relação temporal de anterioridade ou posterioridade
entre episódios relatados pode ser evidenciada pelo uso dos verbos
predominantemente no passado, bem como dos articuladores denominados
organizadores textuais, os quais sinalizam as relações de tempo no texto, dando
suporte à sequenciação e à progressão dos eventos relatados.
A atitude enunciativa representada nesse tipo é a de contar um fato
ou uma história e o locutor-narrador pode representar-se como narrador-
personagem, que escreve em primeira pessoa, ou como locutor, escrevendo
na terceira pessoa.
Enfim, as sequências que compõem o tipo narrativo caracterizam-se
pela presença de enunciados que indicam ações e eventos passados, marcados
muitas vezes por elementos indicadores de tempo e espaço. O texto abaixo é
formado por uma sequência narrativa:
2
 Cada um dos episódios é formado por proposições narrativas (Pn).
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
23
MAR DE LAMA
Em 1998, mineiros e capixabas se animaram com o início da
construção da BR-342, que ligaria o norte do Espírito Santo a Minas
Gerais. Para pavimentar os 106 quilômetros da rodovia, foram
celebrados três contratos com duas empreiteiras. Nos três o TCU
encontrou sobrepreço – sempre na casa de 50% do valor global. Além
disso, parte dos serviços que as empreiteiras alegam ter executado não
foi fiscalizada pelo governo. Por fim, o valor dos contratos aumentou
sem nenhuma justificativa técnica. Uma estranheza atrás da outra. Como
a obra se tornou um sorvedouro de dinheiro público, o TCU pediu
sua paralisação. Hoje, há apenas 33 quilômetros asfaltados. Outros 27
quilômetros são transitáveis, mas ainda não receberam uma gota de
asfalto. Nos 46 quilômetros restantes, a obra nem sequer foi iniciada.
(Disponível em: . Acesso em: 18 nov. 2010.)
Veja como esse texto pode ser analisado:
Em 1998, mineiros e capixabas se animaram com o
início da construção da BR-342, que ligaria o norte
do Espírito Santo a Minas Gerais. Para pavimentar os
106 quilômetros da rodovia, foram celebrados três
contratos com duas empreiteiras.
Nos três o TCU encontrou sobrepreço – sempre na
casa de 50% do valor global. Além disso, parte dos
serviços que as empreiteiras alegam ter executado não
foi fiscalizada pelo governo. Por fim, o valor dos
contratos aumentou sem nenhuma justificativa técnica.
Uma estranheza atrás da outra.
Como a obra se tornou um sorvedouro de dinheiro
público, o TCU pediu sua paralisação.
Hoje, há apenas 33 quilômetros asfaltados. Outros
27 quilômetros são transitáveis, mas ainda não
receberam uma gota de asfalto. Nos 46 quilômetros
restantes, a obra nem sequer foi iniciada.
Situação inicial
Complicação
(Re)ação
Resolução
Situação final
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Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
24
Atividade 2 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o trecho abaixo e
identifiquem as partes em que se organiza esta narrativa. Em seguida, levantem
seus elementos característicos.
A disciplina do amor
Foi na França, durante a segunda grande guerra: um jovem tinha um
cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do
trabalho. Postava-se na esquina, pouco antes das seis da tarde. Assim
que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria
acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila
inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe
festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos
mais íntimos. Para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado
até o momento em que seu dono apontava lá longe. Mas eu avisei
que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o
cachorro deixou de esperá-lo?Continuou a ir diariamente até a esquina,
fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao
menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem-amado.
Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de
cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como
se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera. O
jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do
cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo.
Tudo em vão. Quando ia chegando aquela hora, ele disparava para o
compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias. Com o passar
dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo
do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo.
Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para
outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o
jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina. As pessoas
estranhavam, mas quem esse cachorro está esperando?... Uma tarde
(era inverno) ele lá ficou, o focinho voltado para aquela direção.
(TELLES, Lygia Fagundes. A confissão de Leontina e fragmentos. Rio
de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 81-82.)
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5824
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
25
1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo
O tipo descritivo marca-se pela apresentação das características de uma
pessoa, um objeto ou uma situação, fixos como numa fotografia. Essas
características podem ser suas qualidades ou as partes de que se compõem. As
propriedades dos elementos descritos apresentam-se num determinado
momento, sem mudança ou progressão temporal, e, por isso, a disposição
dos enunciados descritivos pode ser alterada.
Para Adam (1992), o protótipo da sequência descritiva pode ser
definido com base em um número restrito de operações, que são a ancoragem
(a), a aspectualização (b), a relação (c) e a tematização (d).
(A) Ancoragem:
Toda descrição se refere a uma entidade referencial determinada. Por isso, ela
se ancora em um “tema-título”.
(B) Aspectualização:
Na descrição, apresentam-se as características do tema-título, evocando as
partes de que ele se compõe ou suas propriedades.
(C) Relação:
Na descrição, o “tema-título” pode ser assimilado, relacionado com outras
entidades referenciais por comparação ou por metáfora. Essa operação diz
respeito ao procedimento de relação.
(D) Tematização:
Essa operação garante ao discurso descritivo uma expansão potencialmente
infinita.
Com base nessas operações, Adam (1992, p. 84) propõe o protótipo
da sequência descritiva, o qual se representa da seguinte forma:
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5825
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
26
Nas sequências que compõem o tipo descritivo, os enunciados trazem
verbos estáticos, no presente ou no pretérito imperfeito, além de elementos
que indicam caracterização de um objeto e circunstância de lugar. O texto
abaixo é formado por uma sequência descritiva.
Seu trajo era um primor do gênero, pelo mimoso e delicado. Trazia o
vestido de alvas escumilhas, com a saia toda rofada de largos folhos. Pequenos
ramos de urze, com um só botão cor-de-rosa, apanhavam os fofos
transparentes, que o menor sopro fazia arfar. O forro de seda do corpinho,
ligeiramente decotado, apenas debuxava entre a fina gaza os contornos
nascentes do gárceo colo; e dentre as nuvens de rendas das mangas só escapava
a parte inferior do mais lindo braço.
Era o toque severo do pudor corrigindo a túnica da vestal imolada à
admiração ardente das turbas.
Quando Emília sentava-se, abatendo com a mão afilada os rofos da
Escócia, parecia-me um cisne colhendo as asas à margem do lago, e arrufando
as níveas penas. Quando erguia-se e coleava o talhe flexível fazendo tremular
as brancas roupagens, lembrava o gracioso mito da beleza, que surgiu mulher
da espuma das ondas.
(ALENCAR, José de. Diva. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. [s.d.]. p. 48-49)
Nesse texto, a entidade referencial que é descrita (ou o tema-título) é
a roupa de Emília. Pela operação de aspectualização, são descritas as partes da
roupa (escumilhas, saia, forro de seda, mangas etc), bem como suas
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5826
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
27
propriedades (um primor do gênero, ligeiramente decotado etc). Pela operação
de relação, a roupa e a personagem são comparadas com outras entidades
referenciais (“Quando Emília sentava-se, [...] parecia-me um cisne colhendo
as asas à margem do lago” e “Quando erguia-se [...], lembrava o gracioso
mito da beleza”). Por fim, a operação de tematização permite que partes da
roupa funcionem como tema-título de descrições locais, encaixadas na
descrição global (“Pequenos ramos de urze, com um só botão cor-de-rosa,
apanhavam os fofos transparentes...”).
Adam (1992) considera também descritivas as sequências em que se
prescrevem ações a serem realizadas com vistas a um resultado. Nessas
sequências, que, em versão anterior do modelo de Adam, eram chamadas de
injuntivo-instrucionais (ADAM, 1987), predominam enunciados com formas
verbais imperativas, que incitam ações a serem realizadas pelo destinatário.
São também característicos dessas sequências os elementos indicadores de
modalização deôntica, que indicam obrigatoriedade ou necessidade da ação,
bem como os atos de aconselhamento, que oferecem a ideia de possibilidade
e capacidade de ação.
Para Adam, essas sequências são descritivas porque apresentam uma
descrição de ações. Exemplos de gêneros cujas sequências predominantes têm
essas características são as receitas culinárias e os manuais de instruções.
Atividade 3 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam:
a) O que está sendo descrito?
b) Que recursos linguísticos são usados nesta descrição?
O ovo de galinha
Ao olho mostra a integridade
De uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
Maciçamente ovo, num todo.
Sem possuir um dentro e um fora,
Tal como as pedras, sem miolo:
E só miolo: o dentro e o fora
Integralmente no contorno.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5827
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
28
No entanto, se ao olho se mostra
Unânime em si mesmo, um ovo,
A mão que o sopesa3 descobre
Que nele há algo suspeitoso:
Que seu peso não é o das pedras,
Inanimado, frio, goro;
Que o seu é um peso morno, túmido,4
Um peso que é vivo e não morto.
(NETO, João Cabral de M. Os melhores poemas de João Cabral de
Melo Neto. São Paulo: Global, 1998, p. 64)
Atividade 4 – Leia, com seus colegas, o seguinte trecho descritivo. Identifiquem
os elementos que caracterizem seu caráter injuntivo.
Bela & Nude
O look nude veio pra ficar. Aprenda a fazer esse make que tem tudo
a ver com o verão.
1. Prepare a pele com corretivo, base e pó. Aplique uma sombra
perolada do canto interno dos olhos até a metade da pálpebra
móvel, e perto da sobrancelha.
2. Passe pó compacto (num tom mais escuro que o da sua pele) em
toda a pálpebra móvel, marcando bem o côncavo dos olhos.
3. Com ajuda de um pincel chanfrado,5 passe uma sombra marrom-
terra acima da linha dos cílios superiores, para delinear.
4. Repita o processo abaixo da linha dos cílios inferiores. Complete
com rímel, blush na cor pêssego e batom cor de boca.
(Disponível em: . Acesso em: 18 nov. 2010.)
3
 Sopesar: considerar; fazer avaliação de.
4
 Túmido: que se encontra inchado, intumescido; que se apresenta proeminente, saliente.
5
 Chanfrado: que apresenta cortes oblíquos, na borda.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5828
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
29
1.1.31.1.31.1.31.1.31.1.3 Tipo explicativoTipo explicativoTipo explicativoTipo explicativoTipo explicativo
No tipo explicativo, as sequências compõem-se de enunciados de
identificação defenômenos que são encadeados por relações lógicas. O locutor,
que identifica e relaciona os fenômenos, procura apresentar uma ideia da
forma mais clara possível, porque seu objetivo é transformar uma convicção
(estado de conhecimento) e não modificar uma crença (visão de mundo), o
que é próprio das sequências argumentativas. Segundo Adam (1992, p. 134),
“o recurso à explicação permite ao locutor se apresentar como uma simples
testemunha, observador objetivo dos fatos.” O protótipo da sequência
explicativa representa-se da seguinte forma (ADAM, 1992, p. 132):
0. Macroproposição explicativa 0: esquematização inicial.
1. Por que X? Macroproposição explicativa 1:problema (questão).
(ou Como?)
2. Porque Macroproposição explicativa 2: explicação (resposta).
3. Macroproposição explicativa 3: conclusão-avaliação.
Nesse tipo textual, o tempo verbal predominante é o presente
atemporal, já que, em princípio, não há progressão temporal entre os
enunciados. Além disso, o locutor, ao se apresentar como observador imparcial
dos fatos, tende a excluir de seu texto marcas de subjetividade, como pronomes
de 1ª pessoa do singular, verbos conjugados na 1ª pessoa do singular e outros
elementos dêiticos. Evita também evidenciar seu ponto de vista, o que se
poderia fazer por meio de comentários ou julgamentos.
O texto a seguir é formado por uma sequência explicativa.
A grande novidade da vacina feita pelos pesquisadores do Centro
Médico da Universidade de Pensilvânia, cujos resultados são publicados
na revista “Nature Medicine”, é que ela foi feita com genes
enfraquecidos de HIV tipo 1.
Genes são os trechos do material genético (DNA) que produzem
uma proteína. Dentro do corpo de um chimpanzé, esses genes irão
produzir proteínas do vírus.
As vacinas, em geral, usam o próprio vírus ou uma bactéria
atenuados (enfraquecidos).
Os cientistas colocaram esses genes em um plasmídio, um DNA
circular que tem a capacidade de se duplicar.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5829
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
30
O objetivo desse tipo de terapia, conhecido como terapia genética,
é que esse plasmídio, o qual age como um táxi, carregando os genes,
se insira no material genético do próprio chimpanzé, fazendo com
que as células do animal passem a produzir as proteínas do HIV.
Embora isso não tenha ocorrido, os plasmídios permaneceram
no corpo do macaco tempo suficiente para estimular o sistema de
defesa do animal contra as proteínas do vírus da Aids.
Quando o HIV-1 foi injetado, o sistema de defesa já estava
preparado para lutar contra ele.
(ASSUMPÇÃO, João Carlos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 abr.
1997. Caderno 1, p. 20. Adaptado)
Com base no protótipo explicativo, esse texto pode ser analisado da seguinte
forma:
A grande novidade da vacina feita pelos
pesquisadores do Centro Médico da
Universidade de Pensilvânia, cujos
resultados são publicados na revista
“Nature Medicine”, é que ela foi feita com
genes enfraquecidos de HIV tipo 1.
Genes são os trechos do material genético
(DNA) que produzem uma proteína.
Dentro do corpo de um chimpanzé, esses
genes irão produzir proteínas do vírus.
As vacinas, em geral, usam o próprio vírus
ou uma bactéria atenuados (enfraquecidos).
Os cientistas colocaram esses genes em um
plasmídio, um DNA circular que tem a
capacidade de se duplicar. O objetivo desse
tipo de terapia, conhecido como terapia
genética, é que esse plasmídio, o qual age
como um táxi, carregando os genes, se
insira no material genético do próprio
chimpanzé, fazendo com que as células
do animal passem a produzir as proteínas
do HIV.
Esquematização inicial
(O que será explicado?)
Problema (questão)
(Como, dentro do corpo de um
chimpanzé, esses genes irão
produzir proteínas do vírus?)
Explicação (resposta)
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5830
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
31
Atividade 5 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o trecho abaixo, que é
predominantemente explicativo, e apontem as características desse tipo textual
nele presentes.
Globalização: estado nacional e espaço mundial
A revolução da informação assenta-se na emergência de um conjunto
de indústrias que participam da onda contemporânea de inovação
tecnológica. Ela movimenta uma gama crescente de mercadorias, que
envolvem computadores pessoais, softwares, satélites espaciais,
aparelhos de telefonia celular e videotexto, centrais e cabos telefônicos
de fibras óticas e muitas outras que estão por vir. As suas ramificações
abrangem setores tão distintos quanto a indústria de armamentos, a
de telecomunicações e a de eletrodomésticos.
Contudo, provavelmente as suas maiores repercussões são as indiretas.
A revolução da informação possibilita um salto na unificação do
mercado mundial. A globalização dos mercados financeiros, deflagrada
nos anos oitenta, não poderia ter sido fruto exclusivamente das idéias
econômicas liberais. Para se tornar realidade, o supermercado mundial
das finanças necessitou de uma base tecnológica, fornecida pela
revolução da informação. Os satélites de comunicações e as redes de
computadores tornaram possível a realização de operações entre os
mercados de moedas, títulos e ações ao redor do planeta 24 horas ao
dia, em tempo real.
A etapa crucial dessa revolução foi alcançada com a configuração de
uma autopista global da informação: a Internet. A rede nasceu nos
Estados Unidos, no longínquo ano de 1969, sob a denominação de
Arpanet, a partir da interligação de pequenas redes locais operadas
Embora isso não tenha ocorrido, os
plasmídios permaneceram no corpo do
macaco tempo suficiente para estimular
o sistema de defesa do animal contra as
proteínas do vírus da Aids.
Quando o HIV-1 foi injetado, o sistema
de defesa já estava preparado para lutar
contra ele.
Conclusão-avaliação
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5831
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
32
por centros de pesquisa e universidades. Entretanto, a sua expansão
explosiva ocorreu apenas no início da década de 90, com a difusão
dos computadores pessoais, dos cabos telefônicos de fibra ótica e das
empresas de serviço on-line.
(MAGNOLI, Demétrio. Globalização: estado nacional e espaço
mundial. São Paulo: Moderna, 1997. p. 30-31. Adaptado.)
1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo
O tipo argumentativo ocorre no texto cujo objetivo predominante é
discutir ideias, estabelecendo polêmicas entre pontos de vista. A sequência
argumentativa típica se organiza em (1) tese anterior, parte na qual se apresenta
e se delimita o tema sobre o qual se formula o ponto de vista, (2) dados (ou
premissas), parte em que se apresentam informações que serão usadas na defesa
do ponto de vista, (3) escoramento de inferências (ou desenvolvimento), parte
em que ocorre a defesa do ponto de vista, com base nas premissas, e (4) conclusão,
parte a que se chega por dedução lógica e que traz uma nova tese.
Nesse tipo, a finalidade é comentar e/ou avaliar ideias, opiniões, na
tentativa de mudar a visão do outro sobre essas ideias e opiniões. Adam (1992,
p. 118) representa o protótipo da sequência argumentativa da seguinte forma:
Esse tipo textual, assim como o tipo explicativo, é organizado no
tempo presente. Neles ainda são usados articuladores textuais ou marcadores
de relações lógicas, que indicam relações de causa, consequência, finalidade,
condição etc. Mas, diferentemente do explicativo, o tipo argumentativo pode
apresentar, em sua organização, citações, exemplificações, conceituações,
comparações, bem como elementos dêiticos, já que, na busca por convencer
o outro, o locutor pode dirigir-se a ele por meio de pronomes.
O texto a seguir é formado por uma sequência argumentativa.
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O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
33
MUNIQUE – Ségolène Royal já era uma estrela em ascensão na
política francesahá algum tempo. Agora, ganhou farto espaço em
jornais globais. Tudo porque, como pré-candidata à Presidência nas
eleições de 2007, apresentou propostas para enfrentar o problema da
criminalidade juvenil consideradas bastante duras, em se tratando de
uma dirigente do Partido Socialista, tido historicamente como brando
demais nessa matéria. No seu próprio partido, as idéias causaram
inquietação porque há uma inércia intelectual pela qual se delega à
direita a dureza nessa questão.
Como o Brasil tem problemas de criminalidade (juvenil e adulta)
bem mais sérios do que a França, convém dar pelo menos uma
olhadinha nas propostas concretas dessa guinada – ou início de guinada
– da esquerda.
Primeiro, ela quer que os jovens delinqüentes prestem algum tipo de
serviço civil, com o Exército, para lhes ensinar “disciplina”. Quer
também que os pais desses jovens freqüentem uma escola de pais, no
pressuposto de que cabe também a eles pôr os filhos na linha. Por
fim, sugere que os jovens que cometem crimes tenham congeladas as
verbas que o Estado aloca para as famílias, verbas que, no caso francês,
são razoavelmente generosas.
Boas ou ruins, as propostas fogem do padrão de achar que os jovens
que cometem delitos o fazem só por falta de oportunidades. No
Brasil, o enfoque dos “coitadinhos” se justifica mais que na França porque
o país há muito deixou de ser a terra das oportunidades.
Seja como for, o crescimento da violência pede, a gritos, idéias novas. As
de Ségolène podem até ser ruins, mas são melhores que a inércia que se vê
no Brasil, como se o problema fosse desaparecer se a gente não falar dele.
(ROSSI, Clóvis. Violência e inércia. Folha de S.Paulo. Opinião.
Jun.07, 2006.A2.)
Com o protótipo argumentativo, é possível analisar o texto desta maneira:
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5833
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
34
Escoramento de inferências
(Defesa do ponto de vista do
autor, com base nas
premissas)
Sequência narrativa com
função de preparação para
a sequência argumentativa
Sequência argumentativa
Tese anterior
(O que pensa o autor sobre o
problema da criminalidade no
Brasil)
MUNIQUE – Ségolène Royal já era uma
estrela em ascensão na política francesa há
algum tempo. Agora, ganhou farto espaço em
jornais globais. Tudo porque, como pré-
candidata à Presidência nas eleições de 2007,
apresentou propostas para enfrentar o
problema da criminalidade juvenil
consideradas bastante duras, em se tratando
de uma dirigente do Partido Socialista, tido
historicamente como brando demais nessa
matéria. No seu próprio partido, as idéias
causaram inquietação porque há uma inércia
intelectual pela qual se delega à direita a
dureza nessa questão.
Como o Brasil tem problemas de
criminalidade (juvenil e adulta) bem mais
sérios do que a França, convém dar pelo menos
uma olhadinha nas propostas concretas dessa
guinada – ou início de guinada – da
esquerda.
Primeiro, ela quer que os jovens delinquentes
prestem algum tipo de serviço civil, com o
Exército, para lhes ensinar “disciplina”. Quer
também que os pais desses jovens frequentem
uma escola de pais, no pressuposto de que
cabe também a eles pôr os filhos na linha.
Por fim, sugere que os jovens que cometem
crimes tenham congeladas as verbas que o
Estado aloca para as famílias, verbas que, no
caso francês, são razoavelmente generosas.
Boas ou ruins, as propostas fogem do padrão
de achar que os jovens que cometem delitos
o fazem só por falta de oportunidades. No
Brasil, o enfoque dos “coitadinhos” se justifica
mais que na França porque o país há muito
deixou de ser a terra das oportunidades.
(Dados) Premissas
(Informações sobre as ideias
de Ségolène, as quais o autor
vai usar para defender seu
ponto de vista)
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5834
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
35
Seja como for, o crescimento da violência pede,
a gritos, idéias novas. As de Ségolène podem
até ser ruins, mas são melhores que a inércia
que se vê no Brasil, como se o problema fosse
desaparecer se a gente não falar dele.
Atividade 6 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o trecho abaixo, que é
predominantemente argumentativo, e apontem as características desse tipo
textual nele presentes.
Estatuto legaliza o racismo
O Senado já aprovou e a Câmara ainda vai analisar a mais
desastrosa idéia sobre as questões raciais no Brasil
A nobilíssima idéia de combater o racismo no Brasil, uma prática
detestável que ficou sufocada por anos a fio sob o mito da democracia
racial, acabou produzindo uma das peças mais desastrosas – e racistas –
de que se tem notícia. É o Estatuto da Igualdade Racial, que tem 85
artigos e já foi aprovado pelo Senado, em novembro do ano passado,
sem passar sequer pelo crivo do plenário. Desde então, o estatuto está
na Câmara. Até agora, no entanto, ninguém se deu ao trabalho de
examiná-lo a fundo. Quem o fizer verá que se trata de um conjunto de
artigos que legalizam a discriminação racial, trazendo em seu bojo tudo
o que isso representa: preconceito, retrocesso e ilegalidade. O estatuto,
tal como está, fere a Constituição, pois trata brancos e negros de forma
desigual e ainda faz uma enorme contribuição para incitar o ódio racial.
O Estatuto da Igualdade Racial começa com uma monstruosidade: exige
que os brasileiros assumam uma “raça” – o critério é o declaratório –, pois
obriga que todos os documentos oficiais contenham a informação
sobre a cor do cidadão: prontuários médicos, certidão de nascimento,
censo escolar, pedidos de aposentadoria. A medida força a criação de
uma divisão racial na população brasileira, excrescência que tem origem
no racismo científico do fim do século XIX e resultou na noção de
raças inferiores e superiores, servindo de inspiração para a criação do
regime do apartheid na África do Sul e para o triunfo do racismo na
Alemanha nazista. “O estatuto não contribui em nada para reduzir a
discriminação, pelo contrário”, afirma o geógrafo Demétrio Magnoli.
“A nação, como um contrato entre cidadãos iguais em direitos, será
Conclusão
(Nova tese: “As [ideias] de
Ségolène podem até ser
ruins, mas são melhores que
a inércia que se vê no Brasil”)
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5835
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
36
substituída por uma confederação de ‘raças’. Evidentemente estão
sendo plantadas as sementes dos conflitos étnicos no futuro.” [...]
(Disponível em: .
Acesso em: 18 nov. 2010)
1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal
O tipo dialogal compõe os gêneros em que há interlocução direta
entre os parceiros da comunicação: bate-papo, entrevista, debate, conversação
telefônica, etc. O diálogo tem como característica principal ser produzido
por mais de um interlocutor ou por mais de um personagem, quando o
diálogo está inserido em uma sequência de outro tipo. Como pode acontecer
em romances, por exemplo, o diálogo entre personagens se insere em uma
sequência narrativa.
O tipo dialogal tem como forte característica a presença de elementos
dêiticos, fazendo referência ao contexto físico da interação (aqui, agora) e aos
interlocutores (eu, você, a gente), bem como de marcadores conversacionais
(olha, bem, bom, né).
Segundo Adam (1992), um diálogo é formado por sequências fáticas
e sequências transacionais. As sequências fáticas têm por função abrir e fechar
uma interação:
A: Bom dia!
B: Bom dia!
A: Até logo.
B: Até logo.
Já as transacionais formam a parte central do diálogo e têm como
forma típica o par pergunta e resposta:
A: Que horas são?
B: São nove horas.
Mas, geralmente, as sequências transacionais assumem formas mais
complexas, por causa de ajustes, acordos e desacordos que os interlocutores
podem estabelecer ao longo da interação.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5836
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
37
O protótipo da sequência dialogalse representa desta forma (ADAM,
1992, p. 159):
O texto abaixo é formado por uma sequência dialogal.
A vaguidão específica
– Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.
– Junto com as outras?
– Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e
querer fazer qualquer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia.
– Sim senhora. Olha, o homem está aí.
– Aquele de quando choveu?
– Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
– Que é que você disse a ele?
– Eu disse pra ele continuar.
– Ele já começou?
– Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse.
– É bom?
– Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
– Você trouxe tudo pra cima?
– Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a
senhora recomendou para deixar até a véspera.
– Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor,
senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite.
– Está bem, vou ver como.
(FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. Rio de Janeiro:
Nórdica, 1974. p. 88.)
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5837
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
38
Nesse texto, as personagens não realizam as sequências de abertura
(cumprimentos) e de encerramento (despedidas), mas apenas sequências
transacionais. As personagens produzem duas sequências transacionais, sendo
a segunda encaixada na primeira. A primeira sequência aborda o tópico “onde
colocar os objetos/as coisas”. Em sua parte inicial, essa sequência traz uma
ordem (“Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte”), um pedido de
esclarecimento (“Junto com as outras?”) e o esclarecimento (“Não ponha
junto com as outras, não. [...]”). Em seguida, essa sequência é interrompida
por uma outra que trata do tópico “o trabalhador”. Essa segunda sequência
traz diferentes pedidos de esclarecimento (“Aquele de quando choveu?”) e
esclarecimentos sobre o trabalhador (“Não, o que a senhora foi lá e falou
com ele no domingo”). Terminada essa segunda sequência, um pedido de
esclarecimento (“Você trouxe tudo pra cima?”) indica que as personagens
retomam a primeira sequência sobre “onde colocar os objetos/as coisas”. O
esquema abaixo representa essa análise.
Atividade 7 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e analisem as
passagens em que prevalecem as sequências dialogais, apontando suas
características típicas.
A Dança da Maçã
Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento,
mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram
secamente.
– Oi.
– Oi.
Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com
ele. Um senhor e um mais moço.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5838
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
39
– Este e o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo?
– Arlei disse o mais moco.
– Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudanca.
– Bom dia – disse Luiza. – Ja está tudo mais ou menos separado.
Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada
articulada de mesa de desenho, a mesa de desenho desmontada, uma
taça de metal. Tudo junto perto da porta.
– Eu resolvi levar a poltrona – disse Antonio.
– Tudo bem – disse Luiza.
– E isso aí, pessoal ? disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o
que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali.
[...]
– Album de fotografia. Vai também?
– Vai – disse Luiza. Tudo que esta nas sacolas vai embora.
Arlei estava olhando o álbum. Mostrou para o seu Molina:
– Olha os dois na praia.
E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas
para baixo, querendo dizer “Sim senhora, hein?”, e que a Luiza de
biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando
para Luiza.
– Voce não quer ficar com o álbum?
Luiza perdeu a paciência.
– Nao quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e
nos sacos, é para ir embora. São dele.
[...]
(Disponível em: . Acesso
em: 13 out. 2010.)
1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual
Quando se caracteriza um tipo de texto como narrativo, descritivo,
explicativo, argumentativo ou dialogal, o que se faz é apontar sua forma
predominante de organização, pois os textos dificilmente se apresentam puros.
Normalmente, encontram-se nos textos autênticos mais de um tipo de
organização. Numa carta pessoal, por exemplo, como mostra Marcuschi
(2002), nota-se uma variedade de sequências tipológicas. Nos gêneros textuais,
há grande heterogeneidade de tipos textuais.
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5839
Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos
40
O texto abaixo é o início de uma reportagem.
(A) Em julho do ano passado, Luís Cláudio, filho do presidente Lula,
e um grupo de catorze amigos paulistas passaram as férias em Brasília.
Hospedaram-se no Palácio da Alvorada, fizeram churrasco na Granja
do Torto, passearam de lancha no Lago Paranoá e conheceram os
principais gabinetes do Palácio do Planalto. O episódio veio à tona
na semana passada, em fotos divulgadas na internet pelos próprios
garotos, e causou polêmica. A oposição prometeu abrir uma
investigação e pedir a devolução de todo o dinheiro oficial gasto na
estada brasiliense dos jovens. (B) Há uma boa dose de exagero nessa
reação. Durante o mandato, o Palácio da Alvorada é a casa do
presidente. É seu “lar”, para usar uma palavra de conotações mais
fortes. Não existem impedimentos legais para ele receber as visitas
que desejar ali, ainda que sejam amigos do filho. [...]
(Disponível em: .
Acesso em: 18 nov.2010)
Nesse trecho, há pelo menos dois tipos distintos de sequências textuais.
Na sequência que se inicia com a letra A, o jornalista conta que um dos filhos
do presidente e amigos passaram as férias em Brasília e passearam por residências
e lugares oficiais, o que deu origem a uma polêmica no mundo político.
Mas, na sequência que se inicia com a letra B, o jornalista traz
argumentos para defender que há exagero na reação da oposição. Nessa
sequência, o jornalista argumenta que o presidente pode receber as visitas que
quiser no Palácio da Alvorada, já que esse local é a sua casa.
Como se vê, o início dessa reportagem não é homogêneo do ponto
de vista dos tipos que o compõem, porque é formado por pelo menos duas
sequências: uma narrativa e uma argumentativa.
Vejamos outro exemplo, que constitui o início de um artigo de opinião.
(A) Artigo no O Estado de S. Paulo mostra que os índios piraãs, da
Amazônia, só têm três palavras para os números. O número um é
“hói”. O número dois, “hoí”. A terceira palavra usada pelos piraãs é
“aíbaagi”, que significa muitos. Se você desenhar dois riscos no chão,
eles conseguirão repetir o desenho. Mas ficarão confusos, se você fizer
seis riscos. (B) Em Brasília, os sábios que cuidam ou cuidaram do
programa Fome Zero têm um problema parecido com o dos piraãs,
Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5840
O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações
41
só que em sentido contrário. Eles só se sentem confortáveis com cifras
altas. Para quantificar o contingente de famintos do Brasil, não aceitam
nada inferior a 50 milhões de pessoas. [...]
(Disponível em: .
Acesso em 18 nov.2010)
Na sequência que se inicia com a letra A, o articulista explica que os
índios piraãs têm apenas três palavras para os números. Em seguida, na
sequência que se inicia com a letra B, ele compara os índios piraãs com “os
sábios que cuidam ou cuidaram do Fome Zero”: enquanto os índios ficam
confusos com muitos números, os “sábios do Fome Zero” só se sentem
confortáveis com cifras altas.
Na primeira sequência, o autor tem por objetivo transformar o estado
de conhecimento do leitor, explicando, como se fosse uma testemunha, a
forma como os índios lidam com

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