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O TEXTO E SUA TIPOLOGIA Fundamentos e aplicações Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:581 Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:582 CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA: ENSINO DE LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Belo Horizonte Faculdade de Letras / UFMG 2012 Janice Helena Chaves Marinho Geruza Corrêa Daconti Gustavo Ximenes Cunha O TEXTO E SUA TIPOLOGIA Fundamentos e aplicações Livro-05-Janice-Marinho.p65 11/11/2012, 09:593 Copyright © 2012 dos Autores Projeto Gráfico e Editoração: Marco Antônio e Alda Lopes Durães Capa: Francisco Chaves Marinho UNIVERS IDADE FEDERAL DE MINAS GERA IS Reitor: Clélio Campolina Diniz Vice-Reitora: Rocksane de Carvalho Norton FACULDADE DE LETRAS Diretor: Luiz Francisco Dias Vice-Diretora: Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS Coordenadora: Célia Maria Magalhães Subcoordenador: Rui Rothe-Neves CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LINGUA PORTUGUESA Coordenadora: Janice Helena de Resende Chaves Marinho CÂMARA DE PESQUISA DA FACULDADE DE LETRAS DA UFMG Coordenador: José Américo de Miranda Barros Ficha catalográfica elaborada pelos Bibliotecários da Biblioteca FALE/UFMG Marinho, Janice Helena Silva de Resende Chaves. O texto e sua tipologia : fundamentos e aplicações / Janice Helena Chaves Marinho, Geruza Corrêa Daconti, Gustavo Ximenes Cunha. – Belo Horizonte : Faculdade de Letras da UFMG, 2012. 85 p. : il. (Coleção Proleitura ; v. 5). Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-7758-150-4 1. Língua portuguesa – Estudo e ensino. 2. Gêneros textuais. 3. Produção de textos. I. Daconti, Geruza Corrêa. II. Cunha, Gustavo Ximenes. III. Universidade Federal de Minas Gerais. Faculdade de Letras. IV. Título. CDD : 469.8 M338t Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:584 S u m á r i oS u m á r i oS u m á r i oS u m á r i oS u m á r i o Para ensinar leitura e produção de textos Maria da Graça Costa Val . . . . . . . . . . . . 7 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . 9 1 Texto e sua tipologia . . . . . . . . . . . 16 1.1 Tipos textuais . . . . . . . . . . . . 17 1.1.1 Tipo narrativo . . . . . . . . . . . 21 1.1.2 Tipo descritivo . . . . . . . . . . . 25 1.1.3 Tipo explicativo . . . . . . . . . . . 29 1.1.4 Tipo argumentativo . . . . . . . . . . 32 1.1.5 Tipo dialogal . . . . . . . . . . . . 36 1.1.6 Heterogeneidade textual . . . . . . . . 39 1.2 Gêneros textuais . . . . . . . . . . . 45 1.2.1 Gêneros: apresentação . . . . . . . . . 46 1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários . . . 48 1.2.3 Índices de identificação dos gêneros . . . . . 51 2 Gêneros textuais e ensino . . . . . . . . . . 61 2.1 Trabalhando com a notícia e o artigo de opinião . . 62 2.2 Trabalhando com sequências didáticas . . . . . 71 Palavras finais . . . . . . . . . . . . . . . 83 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . 83 Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:585 Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:586 PPPPPara ensinar leituraara ensinar leituraara ensinar leituraara ensinar leituraara ensinar leitura e produção de textose produção de textose produção de textose produção de textose produção de textos O que é ensinar Português hoje? O que fazer para assumir o texto como unidade básica do ensino, conforme postulam as propostas curriculares oficiais? Como se ensina leitura e produção de textos? Aliás, o que é texto? o que é leitura? o que é produção de textos? Que conhecimentos e habilidades estão envolvidos nesses processos? Esta coleção se destina a buscar respostas para essas questões. Resultado do empenho dos professores do Curso de Especialização em Língua Portuguesa: ensino de leitura e produção de textos, que vem sendo desenvolvido pela FALE/ UFMG, este conjunto de livros representa um investimento na formação de professores da Educação Básica como “sujeitos leitores e escritores tão competentes que sejam capazes de formar outros sujeitos leitores e escritores igualmente hábeis e críticos”, como prevê a proposta do Curso. O objetivo é oferecer aos professores uma fundamentação teórica sólida na área da leitura e da escrita, abrindo-lhes um leque diversificado de perspectivas, que inclui as teorias da enunciação, a análise do discurso, a linguística textual, a psicolinguística, a semiótica discursiva. Os textos analisados situam-se na esfera literária, no domínio jornalístico, no circuito cotidiano, nas transmissões do rádio e da TV, na produção acadêmica, na mídia eletrônica. De acordo com a proposta do Curso, “essa realidade complexa, que já invadiu as salas de aula, as residências e todos os tipos de serviços de nossa sociedade, precisa ser pensada, criticada, ampliada e dominada por aqueles que formam sujeitos leitores e escritores e cidadãos do século XXI”. Não se trata, no entanto, de massudos calhamaços difíceis de digerir. Pelo contrário. O material é produzido numa linguagem acessível, em tom coloquial, em alguns casos. A exposição teórica vêm entremeada de exemplos interessantes e esclarecedores. Há atividades que possibilitam ao professor refletir sobre seus conhecimentos e suas práticas, transitar pelo quadro teórico em estudo, operar com os conceitos que ele propõe. Esse exercício de olhar de nova perspectiva e de pensar com novas ferramentas se estende, ainda, à analise de textos de alunos e à elaboração de atividades de ensino. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:587 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 8 Os livros, em relação de complementaridade, além de buscarem ampliar e aprofundar os conhecimentos dos professores, sugerem diferentes maneiras de atuar em sala de aula tomando o texto – lido ou escrito – como objeto de ensino. A coleção contempla reflexões sobre os PCNs e instiga discussões sobre a configuração e o funcionamento da sala da aula – a sala de aula dialógica, dinâmica e democrática que estão a exigir os alunos do século XXI. Assim, ganham corpo as intenções definidas na proposta do Curso: “implementar a formação de especialistas cuja prática esteja adequada ao mundo contemporâneo” e “contribuir para a ampliação das possibilidades dos professores de formular autonomamente alternativas de trabalho referentes às práticas escolares de ensino de leitura e produção de textos, no âmbito dos estudos da Língua Portuguesa e da Literatura Brasileira”, de modo a “transformar a posição de enunciação dos professores – de transmissores a produtores do conhecimento”. O Curso e a coleção de livros respondem ao necessário cumprimento da função social da universidade pública. É por meio deles que os docentes integrantes desse projeto buscam partilhar com professores da Educação Básica conhecimentos construídos em sua trajetória de ensino, estudos e pesquisa. Maria da Graça Costa Val Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:588 IntroduçãoIntroduçãoIntroduçãoIntroduçãoIntrodução Para tratar do texto e de sua tipologia, este livro discute os conceitos de tipo e gênero textuais, que estão bastante presentes nos estudos sobre o texto atualmente. Nosso objetivo é promover reflexões sobre os gêneros e tipos textuais e buscar melhor compreensão da forma como se pode trabalhar na escola a materialidade linguística e textual considerando-se as instâncias sociais de que emergem os textos. Essa proposta tem relevância na formação do professor, de quem se espera um domínio de teorias que lhe permitam pôr em prática o trabalho com o texto em sala de aula, possibilitando o desenvolvimento das habilidades dos alunos de interagir por meio de textos que interpretam e produzem nas diversas situações comunicativas por eles vivenciadas. O texto coloca-se como ponto de partida e de chegada do processo de ensino-aprendizagem da língua: No texto (é) que a língua – objeto de estudos – se revela em sua totalidade quer enquanto conjunto de formas e de seu reaparecimento quer enquanto discurso que remete a uma relação intersubjetiva constituída no próprio processo de enunciação marcada pela temporalidadenúmeros. Já na segunda sequência, o autor explicita seu ponto de vista, na tentativa de modificar a visão de mundo do leitor. Para isso, ele faz uma crítica aos responsáveis pelo programa Fome Zero, comparando-os de forma irônica com os índios piraãs. Nesse início de artigo de opinião, o autor emprega duas sequências: uma explicativa (A) e uma argumentativa (B). Vejamos um último exemplo, que é parte de um conto. (A) As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro. (B) – Você gosta de estrelas? – Gosto. Você também? – Também. Você está olhando a lua? – Quase cheia. Em Virgem. – Amanhã faz conjunção com Júpiter. – Com Saturno também. – Isso é bom? – Eu não sei. Deve ser. – É sim. Bom encontrar você. – Também acho. (A) (Silêncio) (ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados, 9. ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. p. 126) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5841 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 42 Na sequência que se inicia pela letra A, o narrador narra o encontro de duas personagens. A partir da letra B, inicia-se um diálogo entre elas. Ao final do diálogo, o narrador retoma a narrativa, para informar que, após a última fala (“Também acho”), as personagens ficaram em “silêncio”. Nesse texto, verifica-se um encaixamento de sequências. A sequência dialogal (B) está encaixada na sequência narrativa (A). Atividade 8 – Reúna-se com seus colegas de grupo. Leiam o texto abaixo e identifiquem os tipos textuais nele presentes. Uma revolução sem gramática Professor honorário de linguística da Universidade do País de Gales, em Bangor, David Crystal, de 66 anos, é uma das maiores autoridades mundiais em linguagem. Autor de A Revolução da Linguagem, ele falou a VEJA sobre as mudanças que a internet trouxe ao uso da língua e sobre as línguas em extinção. A INTERNET ESTÁ MUDANDO O CARÁTER DAS LÍNGUAS? Em cinquenta ou 100 anos, todas as línguas que utilizam a internet serão diferentes. Está surgindo o que chamo de netspeak, “fala da rede”, ou comunicação mediada pelo computador, em jargão acadêmico. Ainda é impossível prever, no entanto, quais serão a forma e a extensão dessa mudança. Leva muito tempo para que uma transformação efetiva se manifeste numa língua. No inglês, por exemplo, notamos uma grande diferença entre a linguagem de Chaucer e a de Shakespeare. Duzentos anos separam o nascimento de um e de outro. Pergunte às pessoas quando foi a primeira vez em que elas mandaram um e-mail. Foi há dez, talvez cinco anos. É algo recente demais. Existem curiosos fenômenos de ortografia, o uso de sinais tipográficos e dos chamados emoticons. Mas, se procurarmos por novas palavras ou uma nova gramática na internet, não encontraremos muita coisa. O inglês é uma língua com mais de um milhão de palavras, e somente umas poucas centenas foram incorporadas a ela por causa da internet. Isso não altera o seu caráter. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5842 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 43 A INFORMALIDADE É UMA CARACTERÍSTICA CENTRAL DO NETSPEAK? Sim, até o momento. Isso tudo começou com os nerds da internet, há vinte, trinta anos. E eles eram rebeldes. Viam a rede como uma revolução, uma alternativa democrática às formas de comunicação mais formais. Esses pioneiros não pontuavam, não se preocupavam com ortografia, criavam formas estranhas de grafar as palavras. Quando a internet se espalhou, a informalidade se popularizou também. Nos anos 80 e 90, e-mails se tornaram muito informais. Mas a idade média do usuário de internet vem subindo, e com isso a comunicação está ficando mais formal novamente. Acredito que os estudos sobre netspeak que virão daqui por diante vão documentar um aumento da formalidade. O SENHOR AFIRMA QUE, NO ATUAL RITMO DE EXTINÇÃO, EM UM SÉCULO TEREMOS SÓ METADE DAS LÍNGUAS QUE SÃO FALADAS NO PLANETA HOJE. POR QUE TANTAS LÍNGUAS ESTÃO DESAPARECENDO? O principal motivo é a assimilação cultural por causa da globalização. O crescimento das grandes línguas do mundo funciona como um trator, esmagando os idiomas que se põem no caminho. Isso não é um fenômeno restrito a duas ou três línguas. Não é apenas o inglês que ameaça línguas nativas na Austrália, ou o português que põe em perigo idiomas indígenas no norte do Brasil. O chinês, o russo, o hindi, o suahili – todas as línguas majoritárias – ameaçam idiomas de comunidades pequenas. O futuro dessas línguas minoritárias está vinculado a políticas regionais. Nos lugares onde elas sobrevivem, há uma série de práticas políticas e econômicas que valorizam a diversidade. O QUE SE PERDE QUANDO UMA LÍNGUA MORRE? Quando me fazem essa pergunta, costumo rebater com outra: como seria o mundo se a sua língua não houvesse existido? O que você teria perdido, o que todos teríamos perdido se não existisse o português? Se não houvesse o inglês, não teríamos Chaucer, Shakespeare, Dickens. Quando colocamos as coisas nesses termos, as pessoas veem. Uma língua expressa uma visão peculiar do mundo. Não importa se a comunidade que utiliza essa língua vive em uma selva, em um iceberg Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5843 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 44 ou na cidade, sua história, seu ambiente e seu modo de pensar não têm igual. O único meio de comunicarmos a percepção do que é ser humano em determinado ambiente é através da linguagem. NO BRASIL, JÁ HOUVE TENTATIVAS DE RESTRINGIR LEGALMENTE O USO DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS, ESPECIALMENTE DO INGLÊS. O INGLÊS PODE SER CONSIDERADO EM ALGUMA MEDIDA UMA AMEAÇA AO PORTUGUÊS? Não, de forma alguma. Esses movimentos puristas aparecem no mundo todo. E o fato básico é que todas as línguas tomam empréstimos das outras. Ao longo dos últimos 1.000 anos, o inglês incorporou palavras de mais de 350 línguas. Só 20% das palavras do inglês atual remontam às origens anglo-saxônicas e germânicas da língua. Essa incorporação de palavras tornou o inglês uma língua expressiva e rica. Shakespeare não poderia escrever o que escreveu se não contasse com um vocabulário que era germânico, francês e latino. Palavras se incorporam a uma língua não para destruí-la, mas para permitir novas oportunidades de expressão. Se cada palavra que entra no português apagasse uma palavra anterior, isso seria de fato um fenômeno estranho e indesejável. Mas não é assim que funciona. A nova palavra não substitui palavras preexistentes, ela passa a vigorar ao lado delas. A língua evolui desse modo e alcança uma gama expressiva mais ampla. (Disponível em: . Acesso em: 1 nov. 2010. Adaptado.) Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais:Sugestões de leitura sobre tipos textuais: ADAM, Jean Michel. Les textes: types et prototypes. Paris: Nathan, 1992. ADAM, Jean Michel. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2008. BENVENISTE, Émile. As relações de tempo no verbo francês. In: ______. Problemas de linguística geral. São Paulo: Ed. Nacional; Ed. da Universidade de São Paulo, 1976. p. 260-276. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5844 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 45 BONINI, Adair. A noção de sequência textual na análise pragmático-textual de Jean Michel Adam. In: MEURER, José Luiz; BONINI, Adair; MOTTA- ROTH, Désirée (Org.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. p. 208-236. BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: Educ, 1999. KOCH, I. V. Os tempos verbais no discurso. In: ______. Argumentação e linguagem. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2008. p. 35-46. MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de linguística para o texto literário. São Paulo: Martins Fontes,1996. SILVA, Jane Quintiliano. Gênero discursivo e tipo textual. Scripta. Belo Horizonte: POSLETRAS/PUC-MG, v. 2, n. 4, p. 87-106, 1. sem. 1999. 1.2 1.2 1.2 1.2 1.2 Gêneros textuaisGêneros textuaisGêneros textuaisGêneros textuaisGêneros textuais Neste item, fazemos uma caracterização dos gêneros textuais,6 seguindo a proposta de Bakhtin (2003).7 Dada a complexidade do conceito de gêneros, essa caracterização se faz em três momentos. Inicialmente, apresentamos uma definição geral do conceito. Em seguida, abordamos a distinção que Bakhtin propõe entre gêneros primários e gêneros secundários. Por fim, procedemos a um rápido estudo de alguns gêneros, para tratar de índices que auxiliam no reconhecimento do gênero a que pertence um texto específico. 6 Rojo (2005) esclarece que, em relação às Teorias de Gênero (de textos/do discurso) – que, no Brasil, têm ganhado destaque desde a publicação dos novos referenciais nacionais de ensino de línguas (PCN de Língua Portuguesa, de Línguas Estrangeiras), os quais indicam os gêneros como objeto de ensino ou destacam a importância da consideração de suas características na leitura e na produção dos textos –, há duas vertentes enraizadas em diferentes leituras da obra de Bakhtin: (1) a que denomina Teoria dos Gêneros do Discurso, dos gêneros discursivos, centrada principalmente no estudo das situações de produção dos enunciados ou textos e em seus aspectos sócio-históricos; e (2) a que a autora denomina Teoria dos Gêneros de Textos, dos gêneros textuais, mais centrada na descrição da materialidade textual. Em todas as duas vertentes, a noção de gênero é contemplada como ação social. 7 A primeira edição dessa obra é de 1992. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5845 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 46 1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação1.2.1 Gêneros: apresentação Os gêneros textuais são formas linguísticas realizadas, que usamos para a comunicação verbal. Falamos apenas através dos gêneros. Como afirmado por Bakhtin (2003), os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da língua, que se efetua em forma de enunciados (orais e escritos) proferidos pelos integrantes de um ou outro campo da atividade humana. Esses enunciados (ou textos) refletem as condições específicas e as finalidades de cada um desses campos por seu conteúdo temático (esfera de sentido, conteúdo que se torna dizível através do gênero), pelo estilo da linguagem (seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais) e por sua construção composicional (estrutura). Esses enunciados são organizações relativamente estáveis, denominadas de gêneros, que só podem ser compreendidos, produzidos ou conhecidos se relacionados aos elementos de sua situação de produção. Segundo Bakhtin (1997, p. 112), “qualquer que seja o aspecto da expressão-enunciação considerado, ele será determinado pelas condições reais da enunciação em questão, isto é, antes de tudo pela situação social mais imediata”. Os sujeitos dispõem de um rico repertório de gêneros orais e escritos, como mostra Bakhtin (2003). Em termos práticos, eles são empregados de forma segura e habilidosa, embora em termos teóricos possamos desconhecer inteiramente sua existência. Ou seja, os gêneros são referenciáveis e referenciados cotidianamente nas nossas interações por meio da linguagem. Eles podem ser nomeados e reconhecidos pelos sujeitos em suas comunicações. Assim usualmente nos referimos a uma conversa, um telefonema, um aviso, uma carta, um artigo de opinião, uma notícia, etc. Mas como os gêneros são diversos e heterogêneos e como são inesgotáveis as possibilidades de atividade de linguagem humana, desconhecemos todas as formas de enunciado. Os sujeitos dominam os gêneros como dominam a língua materna. Como afirma Bakhtin (2003), quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade [...], realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso. (2003, p. 285) Nós, sujeitos, aprendemos a moldar o nosso discurso em forma de gênero e, quando ouvimos o discurso de nosso interlocutor, já supomos o seu gênero pelas primeiras palavras enunciadas, adivinhamos uma extensão, Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5846 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 47 uma determinada construção composicional e somos ainda capazes de prever o seu fim (BAKHTIN, 2003, p. 283). Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir livremente e pela primeira vez cada enunciado, a comunicação discursiva seria quase impossível. (BAKHTIN, 2003, p. 283). O processo de socialização dos sujeitos implica a apropriação dos gêneros, que não são modelos estanques nem estruturas rígidas, mas formas culturais e cognitivas de ação social corporificadas na linguagem. Eles podem mudar de uma sociedade para outra, de uma época para outra, diferentemente dos tipos textuais, os quais são matrizes linguísticas que podem ser usadas nos diferentes gêneros. É importante, então, perceber que as noções de gênero e de tipo textual, embora mantenham relações muito próximas, são distintas. Enquanto os gêneros são formas relativamente estáveis de enunciados, formas constituídas historicamente nas atividades humanas, os tipos, como estudamos na seção anterior, são um conjunto de características referenciais e linguísticas típicas, que permitem interpretar uma sequência textual como sendo narrativa, descritiva, explicativa, argumentativa ou dialogal. Como afirma Bronckart (1999), Enquanto, devido a sua relação de interdependência com as atividades humanas, os gêneros são múltiplos, e até mesmo em número infinito, os segmentos que entram em sua composição (segmentos de relato, de argumentação, de diálogo, etc.) são em número finito, podendo, ao menos parcialmente, ser identificados por suas características lingüísticas específicas. (1999, p. 75) Os gêneros respondem às necessidades sociointerlocutivas dos sujeitos que se interrelacionam. Dada a diversidade de esferas da atividade e da comunicação humana, que refletem a diversidade das relações socioculturais dos grupos sociais, os gêneros são múltiplos, heterogêneos e se situam em um sistema continuum de situações discursivas.8 Somente nas situações sociais de interação é que se pode apreender a constituição e o funcionamento dos gêneros. 8 “Os gêneros distribuem-se pelas duas modalidades [oralidade e escrita] num contínuo, desde os mais informais aos mais formais e em todos os contextos e situações da vida cotidiana.” (Marcuschi, 2002, p. 33) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5847 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 48 Cada gênero tem seu campo predominante de existência, sendo insubstituível e, ao mesmo tempo, não suprimindo gêneros já existentes. O surgimento e a popularização do e-mail pessoal, por exemplo, não eliminou a existência da carta. As formas dos gêneros se atualizam, sendo plásticas e ágeis às mudanças sociais. No acontecimento da interação comunicativa, o gênero é construído, com conteúdo temático, estilo e construção composicional, atendendo aos propósitos dos participantes da interação. 1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários1.2.2 Gêneros primários e gêneros secundários Bakhtin (2003) afirma que não se deve minimizar a extrema heterogeneidade dos gêneros e a dificuldade daí advinda de definir a natureza geral do enunciado. Atentar para a diferença entre os gêneros discursivos primários (ou simples) e os secundários (ou complexos) torna-se importante para o estudo da natureza do enunciado em geral e das particularidades dos diversos gêneros.A distinção que Bakhtin estabelece entre gêneros primários e secundários está profundamente ligada às “esferas de uso da língua”, que dizem respeito às esferas da atividade e da comunicação humanas (esfera do trabalho, esfera cotidiana, esfera religiosa, esfera artística, esfera jornalística, etc). Assim, cada esfera, em virtude de suas especificidades (organização socioeconômica, vínculos sociais entre os interlocutores, recursos tecnológicos), desenvolve, ao longo de um processo histórico, gêneros textuais /discursivos, ou formas típicas de comunicação, que são próprios de cada esfera (RODRIGUES, 2005). Nesse sentido, os gêneros primários são aqueles “que se formaram nas condições da comunicação discursiva imediata” (BAKHTIN, 2003, p. 263) e que têm um vínculo estreito com a realidade concreta. Esses gêneros são, sobretudo, aqueles da modalidade oral da linguagem e das esferas cotidiana e familiar, tais como: o relato do dia a dia, a carta íntima, a conversa espontânea, etc. Já os gêneros secundários são aqueles que “surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente mais desenvolvido e organizado” (2003, p. 263). No processo de formação dos gêneros secundários, estes incorporam os primários, que ganham um novo estatuto ao perderem o vínculo imediato com a realidade. Os gêneros secundários são típicos de esferas como a jornalística, a artística e a científica, e compreendem gêneros como o romance, aqueles destinados à apresentação de pesquisas científicas (relatórios, teses, dissertações), a reportagem, etc. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5848 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 49 Como exemplo da incorporação de gêneros primários pelos secundários, Bakhtin cita a conversa espontânea e a carta íntima. Gêneros primários e típicos da esfera cotidiana, a conversa e a carta perdem qualquer vínculo imediato com a realidade concreta, quando são “absorvidos” pelo romance, que é um gênero secundário, e passam a integrar a sua estrutura. Ressalta o autor que a forma desses gêneros primários e o seu caráter cotidiano passam a fazer parte de um acontecimento artístico-literário e do plano do conteúdo romanesco. Atividade 9 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam: a) Qual o gênero a que o texto pertence? b) O texto pertence a qual esfera de uso da língua? c) Qual gênero primário o texto incorpora? Carta de amor Encontrada no carro do metrô, e dizia assim: “Estou pensando seriamente em declarar greve de mim a você, por tempo indeterminado. Não me pergunte os motivos. Você sabe. Ou é melhor que não fique sabendo, porque assim a greve é mais completa, e eu quero justamente ser um grevista mais total do que os outros grevistas que brigam por salário decente e condições decentes de trabalho. Quero que você fique perturbada e confusa, sem saber o que eu estou fazendo ou deixando de fazer, e a todo instante a se perguntar: ‘Que greve é esta? Em que consiste? Quando vai acabar? Que coisa mais idiota.’ É isso mesmo: você achará idiota a minha greve, porque não a entenderá. Então, o menor gesto que eu fizer, a palavra mais sem significação, tudo se transformará para você em enigma, você me sentirá o cara mais misterioso do mundo, por que não dizer: o mais tenebroso. [...] Você se irritará comigo e, perdendo a paciência, me dirá duas ou três coisas ácidas. Jogará um copo na minha direção. Ou uma xícara, dessas do trivial do café. Eu desviarei o corpo do copo ou da xícara, e se você me jogasse em cima um samovar seria a mesma coisa: não desistiria da greve. Aí você adotava em princípio a idéia de enlouquecer. Só em princípio. Eu é que estou pinel – concluiria você. Conclusão Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5849 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 50 provisória, a ser confirmada pelo psiquiatra, mas o psiquiatra, que é meu amigo, lhe responderia: Ele é assim mesmo, isso passa. Não vai passar não, talvez minha greve seja eterna, e nunca mais seremos aqueles namorados que conquistaram o Oscar de melhor idílio no Festival de Angra dos Reis. Continuaremos, sim, dois namorados unidos por esse laço invisível da greve, como o empresário está cada vez mais preso ao assalariado, ou este àquele, quando entram em conflito de interesses, mas esta nossa categoria não dá prêmio. [...] Tem uma coisa. Não deduza de tudo isto que estou declarando guerra. Guerra é guerra, greve é outra coisa, e a minha então é outríssima. Sem quebra, atenuação ou extinção de amor. Pois você não vê, boba, bobíssima, que isto ainda é amor, é mais amor do que amor, é minha forma de amar você, de um jeito só meu, que nem você mesma é capaz de apreender em sua mineral abismalidade? ‘Dio, como te amo! Até.’” (ANDRADE, Carlos Drummond de. Carta de amor. In: Boca de luar. Rio de Janeiro: Record, 1984, p. 147-149.) Atividade 10 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam: a) O texto abaixo é um artigo de opinião, cuja estrutura incorpora um texto que pertence a um gênero primário. Identifique esse gênero. b) No artigo de opinião, qual tipo de sequência predomina? c) No texto que pertence ao gênero primário, qual tipo de sequência predomina? A era do body scanner [...] Na França, onde sou residente e pago impostos, e na Itália, país pelo qual tenho nacionalidade na Europa, jamais sou parado na alfândega. No Reino Unido, onde vivi mais de dez anos, trabalhei para a BBC e outros meios de comunicação britânicos, tenho dificuldade em lidar com a prepotência dos senhores da alfândega, estes não signatários do Tratado de Schaengen, de livre acesso no mercado europeu. São senhores (e senhoras) bastante sisudos. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5850 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 51 Vejamos. Numa viagem para Londres, de Paris, no trem Eurostar, em 2008, um oficial britânico da alfândega na capital francesa me disse, vistoriando meu passaporte italiano: “Buon giorno”. Em seguida, ao ver minha cidade de nascença, São Paulo, completou: “Boa tarde”. Eu lhe disse, visto que eram 19 horas, que o certo seria dizer “Good evening”, em italiano, em português ou em inglês. “Are you sure?”, indagou o oficial. “Yes, I am sure.” “You got me confused now” (“O senhor me confundiu, agora”), retrucou ele, sorriso nos lábios. “É o senhor que quer me confundir”, retruquei. Os britânicos têm, de forma geral, essa qualidade supostamente “elegante”, para não dizer sutil, de ser hipócritas com seus contemporâneos. Tudo não passa de uma forma condescendente de lidar com as pessoas. É caricatural essa relação. (...) (Revista Carta Capital, 13 jan. 2010, p. 26) 1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros1.2.3 Índices de identificação dos gêneros No dia a dia, é comum as pessoas identificarem o gênero a que pertence o texto que produzem ou interpretam. Um paciente que diz ao médico “Essa bula não informa com que frequência devo tomar o remédio” demonstra um conhecimento complexo sobre o texto que tem nas mãos. Ele demonstra conhecer o seu propósito comunicativo principal (apresentar informações sobre um medicamento), o seu conteúdo (modo de usar, reações adversas, etc), a sua estrutura composicional (predominância de sequências descritivas e explicativas), os papéis dos interlocutores (de um lado, o fabricante do medicamento; do outro, o médico e o paciente) e outras propriedades do gênero “bula de remédio”. É esse conhecimento do gênero que faz o paciente estranhar a ausência da informação sobre o horário de ingestão do medicamento na bula. O conhecimento das propriedades típicas de um gênero é parte importante da competência comunicativa dos membros de uma sociedade, que, ao participarem de práticas sociais nas mais diversas esferas de uso da língua, são levados o tempo todo a produzir ou interpretar diferentes gêneros. Por isso, neste subitem, vamos tratarde alguns elementos de fundamental Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5851 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 52 importância no reconhecimento dos gêneros: o suporte, a estrutura composicional e os elementos linguísticos típicos. Todos os textos que produzimos são manifestações de um gênero e chegam até nós por meio de um suporte, isto é, “um locus físico ou virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero materializado como texto” (MARCUSCHI, 2008, p. 174). Exemplos de suportes são: livro, jornal, revista, rádio, televisão, telefone etc. Mas, ao contrário do que pode parecer, o suporte não é um elemento neutro, e os significados de um texto podem se alterar com a mudança do suporte. Fiorin (2005, p. 101) apresenta um exemplo (reproduzido abaixo) em que a mudança do suporte produz uma mudança de sentido tão profunda dos elementos do texto que a definição do gênero a que esse texto pertence também se modifica. Se esse texto tiver como suporte uma placa instalada numa via pública, ele será compreendido como uma indicação de que a avenida Liberdade está interditada e de que a seta indica a direção que deve ser tomada pelo motorista para chegar ao bairro Paraíso, à Vila Mariana e ao Detran. Em outras palavras, esse texto será compreendido como um sinal de trânsito. Mas se ele for publicado num livro de poesia, seus elementos ganharão outras significações. Quem o ler interpretará que o texto diz que a liberdade está proibida, o que obriga os indivíduos a adotar uma direção única para realizar o que precisarem ou quiserem. No livro, esse texto será interpretado como um exemplar do gênero “poema”. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5852 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 53 Outro exemplo em que uma sequência textual ganha novo significado, quando se modifica o suporte, é dado por Marcuschi (2008, p. 174). O autor apresenta o seguinte texto: “Paulo, te amo, me ligue o mais rápido que puder. Te espero no fone 55 44 33 22. Verônica.” Em seguida, observa que Se isto estiver escrito num papel colocado sobre a mesa da pessoa indicada (Paulo), pode ser um bilhete; se for passado pela secretária eletrônica é um recado; remetido pelos correios num formulário próprio, pode ser um telegrama. (2008, p. 174) Em ambos os exemplos, fica claro que o suporte ou a superfície material que fixa e mostra um texto não é neutra e pode interferir profundamente na definição do gênero a que o texto pertence. Mas o suporte não é o único responsável pelo reconhecimento de um gênero. A estrutura composicional e os elementos linguísticos também desempenham papel importante nessa identificação, uma vez que o gênero tem impacto sobre a seleção do material linguístico que vai compor um texto. Afinal, a linguagem que se usa em uma conversa informal é diferente da que se usa em uma apresentação de trabalho na faculdade. Para mostrar o impacto do gênero sobre a construção de textos individuais, serão feitas análises breves de gêneros bem diferentes: a entrevista oral e a tese de doutorado. O texto abaixo é um representante do gênero entrevista oral. Vou entrevistar uma pessoa qui vai mi contar um pouquinho da sua história. Então vamos começar lá da infância qui é o início de tudo, mi conta um pouquinho da sua infância. Ó, a minha infância foi muito boa purque:: nós éramos im dez intão onde se tem muita criança tudu é tudu di bom né intão a infância foi eu fui criada comm nove irmãos diferença tudu di praticamente di um anu di idade, intão na infância agenti tinha todas as brincaderas, inclusive a genti num num distinguia brincadera nem qual qui era pra menina nem qual qui era pra menino porque di repente a genti bolava uma brincadera us meninos entravam na nossa, quando eles bolavam a genti entrava tamém i era mesmo jogá bolinha de gude na Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5853 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 54 rua, andá di bicicleta, jogá bola mesmo, bola di futebol, brincá di di pega pega, escondi escondi tinha issu tudu, agenti brincava. [...] (Disponível em: . Acesso em: 22 ago.2010.) Uma das principais características da entrevista oral é a interlocução direta entre os parceiros da interação, o que, como vimos no item anterior, se traduz pela predominância da sequência dialogal na formação de sua estrutura composicional. As sequências de outros tipos aparecem no interior dos turnos produzidos pelos falantes. No exemplo, o texto é formado por uma sequência dialogal, mas o turno do entrevistador é formado por uma sequência que pode ser classificada como explicativa, enquanto o turno do entrevistado é formado por uma sequência predominantemente narrativa. No gênero entrevista, ao contrário de outros gêneros em que predomina a sequência dialogal, como a conversação espontânea, os interlocutores têm papéis claramente diferenciados: um dos interlocutores, o entrevistador, procura motivar a fala do outro, o entrevistado. Por esse motivo, a extensão dos turnos de cada interlocutor costuma ser bem diferente, como mostra o exemplo acima. Enquanto os turnos do entrevistador são curtos e, geralmente, mas nem sempre, formados por perguntas, os turnos do entrevistado são longos, podendo ser formados por sequências de vários tipos. O que explica essa diferença no tamanho dos turnos é que a razão de ser da entrevista é justamente a fala do entrevistado, suas opiniões, suas histórias etc. Quanto ao grau de formalidade desse gênero, a entrevista é mais formal do que outros gêneros orais, como a conversação espontânea, por dois motivos. O primeiro é que na entrevista a fala é gravada ou será transcrita, o que pode levar o entrevistado a manifestar uma preocupação maior em empregar uma linguagem que se aproxime da prescrita pela gramática tradicional. No exemplo, essa preocupação se verifica pela presença de todas as marcas de plural (todas as brincaderas / us meninos entravam na nossa eles bolavam) e pela ausência de desestruturação sintática. O segundo motivo que explica a relativa formalidade da linguagem empregada na entrevista é o fato de que os interlocutores podem não ter intimidade por não se conhecerem. Nesse gênero, é costume o entrevistado não ter acesso às perguntas que serão feitas durante a entrevista. Por isso, na entrevista oral, o momento de produção do texto pelo locutor é simultâneo ao momento de consumo desse texto pelo ouvinte. Essa particularidade do gênero, em que o entrevistado “fala de improviso”, explica fenômenos linguísticos, como a repetição de Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5854 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 55 palavras (a genti num num distinguia), a redução morfológica de palavras (andá di bicicleta, jogá bola / brincadera / tamém), o alongamento de fonemas (eu fui criada comm nove irmãos), interrupção e reformulação de partes do texto (intão a infância foi? eu fui criada comm nove irmãos), predominância da coordenação sobre a subordinação, etc. Além disso, nesse gênero, a interlocução direta leva o locutor a buscar o envolvimento do ouvinte, sinalizando as informações de que os enunciados tratam, atraindo a atenção do ouvinte para partes de seu texto ou examinando se este aprova ou desaprova as informações expressas. Para sinalizar as informações de que os enunciados tratam, um recurso típico é dar destaque a um elemento do enunciado, colocando-o em posição de tópico (na infância agenti tinha todas as brincaderas). Para realizar as outras duas ações (atrair a atenção do ouvinte e verificar o seu grau de comprometimento com as informações), um recurso tipicamente utilizado são os marcadores conversacionais (Ó, a minha infância / intão na infância / onde se tem muita criança tudu é tudu di bom né). Como nesse gênero o entrevistado fala de si, é comum a presença de elementos dêiticos, fazendo referência a interlocutores (eu fui criada commnove irmãos, agenti tinha todas as brincaderas), a lugar e tempo da interação (o texto-exemplo não apresenta), bem como de verbos flexionados na 1ª e na 2ª pessoas (eu fui criada comm nove irmãos; nós éramos im dez). As propriedades do gênero entrevista oral, como a interlocução direta, a diferença nos papéis dos interlocutores e o grau de formalidade, criam expectativas sobre a sua estrutura composicional, bem como sobre os elementos linguísticos que serão empregados nos textos pertencentes a esse gênero. Por esse motivo, as características típicas dessa linguagem formam um conjunto de traços que têm papel importante no reconhecimento de uma entrevista oral. O texto abaixo é um fragmento de uma tese de doutorado. Na área de Linguística Aplicada, há um interesse crescente por investigações centradas na compreensão dos modelos mentais implícitos no uso da linguagem no contexto da sala de aula. Há também um empenho em envolver o professor em um processo de reflexão crítica em pesquisas sobre a própria prática. Esta investigação, de natureza qualitativa, tem o objetivo de investigar e compreender como uma professora, na prática coletiva, discute o processo Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5855 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 56 interacional promovido por ela em sala de aula. A pesquisa foi desenvolvida em três fases com objetivos específicos. Na fase preliminar, buscamos verificar como a professora compreende o processo interacional que ela promove em sala de aula antes da fase colaborativa da pesquisa. Na fase colaborativa, buscamos analisar a forma como ela discute sobre o que é interação, baseando-se nos textos sugeridos pelo grupo e pelos instrumentos geradores de reflexão. E na fase da coleta tardia, nosso objetivo é verificar em que medida a pesquisa influenciou ou promoveu movimentos de mudança no uso da linguagem em sala de aula e nas ações da professora para promover diferentes padrões interacionais. [...] (OLIVEIRA, Shirlene Bemfica de. Construindo e transformando os processos conceituais: ações para o desenvolvimento do professor. 2009. Tese (Doutorado em Linguística) - Faculdade de Letras, UFMG, 2009.) Uma das características do gênero tese de doutorado é a distância espacial e temporal entre os parceiros da interação. Ou seja, ao contrário da entrevista oral, o momento de produção do texto pelo autor não é simultâneo ao momento de consumo desse texto pelo leitor. Por essa razão, os exemplares desse gênero apresentam-se na modalidade escrita, não possuem sequências dialogais na sua estrutura composicional e não exibem elementos dêiticos fazendo referência ao lugar e ao momento da produção do texto. Na tese de doutorado, o objetivo comunicativo principal (apresentar os resultados de uma pesquisa) leva a uma predominância de sequências explicativas e descritivas na formação de sua estrutura composicional. O texto- exemplo começa com uma sequência de natureza explicativa sobre o interesse em estudos que tratem da linguagem no contexto da sala de aula (“Na área de Linguística Aplicada, há um interesse crescente [...] em um processo de reflexão crítica em pesquisas sobre a própria prática.”). Em seguida, é introduzida uma longa sequência descritiva, por meio da qual se descreve a pesquisa que a tese apresenta, detalhando, inicialmente, seu objetivo geral (“Esta investigação, de natureza qualitativa, [...] discute o processo interacional promovido por ela em sala de aula.”) e, depois, o objetivo específico de cada etapa (“A pesquisa foi desenvolvida em três fases com objetivos específicos.”) Além disso, como os gêneros acadêmicos têm por função ordenar as atividades comunicativas que ocorrem na esfera acadêmica, eles se caracterizam por uma maior estabilidade formal. É mais fácil enumerar as características formais de um projeto de pesquisa do que de um e-mail ou de uma conversa. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5856 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 57 Isso porque o alto grau de formalidade da esfera acadêmica fez com que os gêneros desse domínio ganhassem, ao longo de um processo histórico, uma forma mais fixa. São vários os manuais de metodologia científica e de redação que apresentam para o gênero tese uma forma macrotextual semelhante a esta: ELEMENTOS PRÉ-TEXTUAIS: capa, folha de rosto, folha de aprovação, resumo na língua vernácula, resumo em língua estrangeira, sumário. ELEMENTOS TEXTUAIS: introdução (justificativa, objetivos), revisão de literatura, metodologia (material e métodos), resultados e discussão, conclusão. ELEMENTOS PÓS-TEXTUAIS: referências bibliográficas, apêndice(s) e/ou anexo(s). Isso não significa, porém, que essa forma seja congelada. Isto é, os gêneros acadêmicos não são “uma camisa de força”. Uma tese de doutorado pode alterar a forma considerada canônica desse gênero, dependendo da pesquisa que relata, do método empregado, do percurso de análise adotado, etc. Nesse gênero, a relação entre os interlocutores é assimétrica, uma vez que a tese e outros gêneros da esfera acadêmica (monografia, dissertação, projeto de pesquisa) constituem não só um instrumento de divulgação científica, mas também um instrumento de avaliação. Isso porque o público- alvo imediato desses gêneros é uma banca que julga o mérito do trabalho, a fim de decidir se o autor merece ou não o título (bacharel, especialista, mestre, doutor) que pleiteia. Dado o alto grau de formalidade dessa prática social, o uso de uma linguagem obediente às regras prescritas pela gramática tradicional é uma expectativa do gênero tese, bem como dos outros gêneros do domínio acadêmico. Por esse motivo, repetições, uso de marcadores conversacionais, redução morfológica de palavras e interrupções são fenômenos linguísticos menos comumente encontrados nesses gêneros do que nos escritos e orais mais informais. No texto-exemplo, não há nenhum desses fenômenos, os quais estão presentes na entrevista oral analisada anteriormente. As propriedades do gênero tese de doutorado, como a ausência de interlocução direta, a assimetria entre os papéis dos interlocutores e o grau de formalidade, criam expectativas sobre a linguagem que será empregada e sobre a sua estrutura composicional. Essas expectativas ajudam a identificar o gênero tese e a diferenciar um texto pertencente a esse gênero de um texto pertencente a outro. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5857 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 58 Esse conhecimento que os sujeitos têm dos gêneros, da sua linguagem e do seu funcionamento na sociedade permite que eles os produzam e os interpretem para que se comuniquem. Dessa forma, torna-se importante abordar os gêneros na escola. No trabalho com a produção e a leitura de textos, tomam-se os gêneros como objeto de ensino. Atividade 11 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam: a) O suporte desse texto ajuda a reconhecer o gênero a que ele pertence? b) Quais propriedades linguísticas desse texto ajudam a reconhecer o gênero a que ele pertence? Um condomínio muito exclusivo Interessantes soluções habitacionais têm surgido nas capitais brasileiras. Em Porto Alegre, sete garotos compartilham um novo tipo de condomínio. Aparentemente exclusivo: até agora, não se sabe de outros similares. E nem de outros candidatos a esta espécie de morada. Diferente de outros condomínios do gênero, este é central; está a um passo de bancos, lojas, escritórios. Na verdade, até recebe produtos desses estabelecimentos, embora não sejam os mesmos produtos oferecidos nas vitrinas ou nos balcões. Mas a localização é, como costumam dizer os anúncios, privilegiada. A segurança é total. Não há guardas nem muros, mas isto não é necessário; é impossível penetrar no condomínio, porque a passagem só dá acesso a garotos muito pequenos e muito magros – ou seja, desnutridos. Um adulto teria de passar muito tempo num spa (um campo de concentração seria melhor) até adelgaçaro suficiente para poder se introduzir pela estreita abertura. A vista não é das melhores – não se pode ter tudo no mundo! – mas a fauna é das mais abundantes. Constituem-na principalmente roedores e aqueles insetos que não são muito bem-vistos pelas senhoras, mas que inspiram a Franz Kafka o conto “A Metamorfose”. Não há estacionamento, porque nenhum dos sete moradores têm carro. Também não há tevê a cabo; na verdade, não há luz elétrica. Reina ali uma semi-obscuridade permanente, que convida a sonhar. Os sete moradores usam cola para induzir os sonhos; e são unânimes em dizer que, no transe, vêem-se como criaturas maravilhosas, míticas: Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5858 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 59 As Tartarugas Ninja, personagens famosas de filmes e histórias em quadrinhos. E, como as Tartarugas Ninja, vivem mil aventuras – mas nunca esquecem de voltar ao condomínio. As pessoas comodistas estranharão a falta de certos confortos no condomínio. Não apenas não há living, como também não existe quarto de dormir. Nem móveis: não há mesa, por exemplo. E por falar nisto, também não existem pratos nem talheres – nem nada para comer, o que dispensa geladeira e freezer (que de qualquer modo não funcionariam; ver a menção à falta de energia elétrica, acima). Não há camas, nem sofás, nem armários, nem nada o que guardar nos armários. Tudo o que os moradores possuem é a roupa do corpo; não é que tenham feito voto de pobreza, eles são pobres. E este condomínio é o único lugar onde podem viver: não tiveram de fazer financiamento, não pagam aluguel, nem taxa de condomínio; aliás, nem taxa de água. Água não existe. Mas o serviço de esgoto é perfeito. Porque é no esgoto que eles vivem. No esgoto de Porto Alegre, vivem sete garotos. Sete: como os anões da Branca de Neve. De comum com os anões eles só têm a baixa estatura. Branca de Neve nenhuma se aproximaria deles. O cheiro, vocês sabem; o cheiro do condomínio onde eles vivem. O odor que se impregna neles e que não os abandona. Sobre os esgotos de Nova York há uma lenda. Dizem que as crianças da cidade passavam férias na Flórida, voltavam com filhotes de crocodilo que depois jogavam no vaso sanitário, dando descarga. Estes pequenos crocodilos, continua a história, cresceram, e hoje são uma ameaça sombria e permanente. Um pesadelo. Nos esgotos de Porto Alegre não há crocodilos lendários. Há crianças de verdade. O pesadelo é muito maior. (SCLIAR, Moacyr. Um condomínio muito exclusivo. Folha de S. Paulo, Mundo. 09 mai. 1993, p. 4.) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5859 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 60 Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros:Sugestões de leitura sobre gêneros: BAKHTIN, Mikhail (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. 8. ed. São Paulo: Hucitec, 1997. Cap. 2, 5 e 6. BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 261-306. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros Textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, Ângela P.; MACHADO, Anna R.; BEZERRA, Maria A. (Org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 19-36. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: configuração, dinamicidade e circulação. In: KARWOSKI, Acir Mário; GAYDECZKA, Beatriz; BRITO, Karim Siebeneicher (Org.). Gêneros textuais: reflexões e ensino. 3. ed. revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 15-28. RODRIGUES, Rosângela Hammes. Os gêneros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: a abordagem de Bakhtin. In: MEURER, José Luiz; BONINI, Adair; MOTTA-ROTH, Désirée (Org.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. p. 152-183. ROJO, Roxane. Gêneros do discurso e gêneros textuais: questões teóricas e aplicadas. In: MEURER, J.L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. (Org.). Gêneros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola, 2005. p. 184-207. SOBRAL, Adair. Do dialogismo ao gênero: as bases do pensamento do círculo de Bakhtin. Campinas: Mercado de Letras, 2009. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5860 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 61 22222 Gêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensinoGêneros textuais e ensino Porque são formas naturais de uso da língua para a comunicação, os gêneros se apresentam como excelentes ferramentas de ensino. Alguns deles, por serem mais complexos e exigirem planejamento, precisam ser ensinados na escola. É o caso dos chamados gêneros secundários, como textos científicos, artigos de opinião, cartas comerciais, projetos de lei, conferências, por exemplo. Como já visto, o que constitui os gêneros é a sua ligação com a situação interacional e não apenas as suas propriedades formais. Cada situação social de interação influencia a constituição do gênero que lhe é próprio. A grande variedade de gêneros, assim, atende às diversas possibilidades de interações verbais. Os gêneros mais praticados na comunicação atuam como modelos, que servem muitas vezes para facilitar o processo de produção e compreensão dos textos. Apesar disso, o que se deve enfatizar no ensino por meio dos gêneros é que eles são sensíveis às mudanças sociais, são dinâmicos, plásticos, situacionais, históricos, cognitivos (MARCUSCHI, 2005). Todo gênero, como visto, tem um conteúdo temático, que consiste em sua orientação de sentido. De acordo com seus propósitos discursivos e com suas necessidades comunicativas, os gêneros se caracterizam pela temática. Assim, numa notícia, a temática é o fato recentemente ocorrido que é noticiado; numa conversa familiar, a temática gira em torno dos acontecimentos vividos pelos membros da família; numa reunião de trabalho de uma empresa, a temática é relacionada às atividades desenvolvidas na empresa ou aos produtos por ela produzidos, por exemplo. No ensino da língua por meio dos gêneros, deve-se dar atenção à elaboração do tema dos textos que serão produzidos. Nesse momento, é importante um trabalho de pesquisa ou de reflexão sobre a esfera de sentido de que tratará cada texto. Outra dimensão caracterizadora dos gêneros é a forma composicional ou composição. Os gêneros possuem grande diversidade e heterogeneidade de composição, mas, de modo geral, pode-se falar na recorrência de estruturas em textos de um mesmo gênero. A carta, por exemplo, apresenta, em sua forma composicional, o lugar e a data em que é produzida, o vocativo, que remete ao seu destinatário, cumprimentos, saudações e assinatura do remetente. Essa organização desempenha a função de modelar esse gênero. Também as sequências textuais costumam ser associadas à composição dos gêneros, embora muitos deles, que compartilham o mesmo tipo textual, possam apresentar formas composicionais diferentes, como uma notícia e um conto, por exemplo. Isso mostra que a forma composicional não deve Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5861 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 62 ser associada apenas à organização textual. No ensino, deve-se considerar a diversidade e a heterogeneidade da atividade humana e trabalhar a composição dos gêneros de forma articulada às condições de produção dos textos. 2.1 T2.1 T2.1 T2.1 T2.1 Trabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opiniãorabalhando com a notícia e o artigo de opinião Os gêneros textuais notícia e artigo de opinião serão aqui priorizados como propostas de trabalho de leitura e escrita. A descrição de seu uso em instâncias sociais específicas bem como de suas características linguístico- textuais e discursivas pode ser assumida pelaescola interessada em levar o aluno a refletir sobre o ato de ler e escrever como uma forma de interlocução. Cunha (2002) afirma que, nos últimos anos, a escola passou a trabalhar os gêneros da mídia com o fim de “formar leitores críticos e construtores dos diversos textos que circulam na sociedade” (p. 166). Para isso, no entanto, é necessário que ela esteja, de fato, empregando e desenvolvendo concepções de língua, linguagem, texto, discurso, gênero e tipo textual, entre outras, em uma perspectiva atualmente incompatível com uma tradição reducionista e classificatória ainda comum nesse domínio. polo de distanciamento – informação Enquete Reportagem Notícia Entrevista Resenha Análise Editorial Cartas dos leitores Artigo de opinião Crônica polo de engajamento – comentário Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5862 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 63 Entre as categorias dos gêneros, como já foi dito, não há fronteiras claramente definidas. Assim, é possível considerar os gêneros textuais notícia e artigo de opinião como gêneros redacionais do domínio jornalístico situados em dois polos num continuum, conforme representado no quadro abaixo, inspirado no quadro apresentado em Adam (1997). Esses dois gêneros se diferenciam quanto ao tema (um fato vs uma ideia), à intenção argumentativa (reportar vs opinar) e à posição enunciativa (distanciamento vs engajamento) (MARINHO, 2008). A notícia encontra-se mais próxima do polo da informação. Isso porque ela se centra em um fato ou acontecimento, procurando informar, dar esclarecimento sobre esse fato. Seu conteúdo costuma ser mais um relato do fato do que a expressão de uma opinião e seu autor, que muitas vezes permanece desconhecido do leitor, parece pretender mais um fazer conhecer, sem assumir posições ou julgamentos. Ao apresentar uma notícia, o jornalista tende a focalizar um assunto principal, relacionado a um fato acontecido, e a apresentá-lo com apoio comprobatório e objetividade, sem expressão ostensiva de seu ponto de vista. Já o artigo de opinião se encontra mais próximo do polo do comentário, uma vez que ele constitui um texto que se centra numa ideia e o seu autor tem por objetivo expressar uma opinião sobre essa ideia. Seu conteúdo é, então, mais a exposição e a discussão de uma ideia do que o relato de um fato, e o seu autor pretende mais fazer valer uma opinião, tomar uma posição, do que reportar, informar. Seguindo a definição dos tipos textuais indicada no item 1 deste livro, sabemos que a heterogeneidade textual é constitutiva de qualquer gênero, não sendo diferente em relação à estrutura da notícia e do artigo de opinião. Neste, em princípio, evidencia-se o predomínio de sequências do tipo argumentativo; naquela, predominam outras do tipo narrativo, por exemplo. Por essa razão – em função do “predomínio de” –, não devemos considerar “puros” os textos autênticos, mesmo nos casos em que sua curta extensão possa camuflar esse princípio devido à predominância de um tipo textual, como em (A): (A) Novo protocolo limita plásticas “combinadas” A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica prepara novas normas de segurança para o paciente. Entre as novas recomendações estão a limitação do número de Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5863 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 64 procedimentos a serem feitos em uma só cirurgia, a definição de exames exigidos antes da operação, as restrições para procedimentos em adolescentes e a definição do tipo de anestesia para cada caso. Segundo a sociedade, a revisão é necessária em função dos avanços tecnológicos e do aumento no número de plásticas, além dos casos de mortes. A finalização do protocolo deve acontecer até o final do ano, quando será realizado o congresso brasileiro de cirurgia plástica, em novembro. (Folha de S. Paulo. Cotidiano. 17 out. 2010.) Quando analisamos um conjunto extenso de textos publicados e considerados pela grande mídia como notícias, é possível verificarmos um número significativo de traços comuns entre eles: objetivam “fazer saber”; apresentam, geralmente, tipos textuais explicativo e narrativo, verbos no passado e em terceira pessoa; buscam respostas às questões o quê? quem? quando? onde? como? por quê?; as quais costumam ser contempladas no lide,9 e, por meio de expressões indicativas do distanciamento do autor, procuram mostrar a objetividade/autenticidade de um fato. A despeito disso, uma leitura atenta de (A) permite detectar marcas linguísticas que estariam em desacordo com uma definição apriorística e rígida do gênero notícia. Atividade 12– Reúna-se com seus colegas e respondam: • O texto (A) pode ser considerado uma notícia? Justifique sua resposta. • O texto (A) apresenta, em sua composição, mais de um tipo textual? Justifique sua resposta. Entendemos que à escola cabe conduzir o estudo dos gêneros de modo a reforçar, prioritariamente, sua evidente relação com práticas sociais efetivas realizadas pelos sujeitos. Devem ser criadas situações em que o aluno tenha oportunidade de interagir com o objeto que pretendemos que ele desenvolva (e amplie) com o fim de orientarmos o caminho da prática para a teoria, do concreto para o abstrato, enfim, do conhecido para o desconhecido. 9 Lide (ingl. lead) é a abertura de um texto jornalístico, que apresenta sucintamente as questões básicas da informação, que são: o quê, quem, onde, quando, como e por quê. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5864 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 65 Atividade 13 – Reúna-se com seus colegas. Leiam os textos (B) e (C) transcritos nas páginas seguintes e, para cada um deles, respondam: a) Quem escreve o texto? b) Qual é o propósito comunicativo do texto? c) Onde e quando ele circula? d) Quem é o seu leitor? e) Por que o leitor o lê? Qual a possível influência exercida por essa leitura? f ) Qual a sua estrutura usual? g) Que mecanismos linguístico-textuais e discursivos podem ser nele destacados? h) Qual é o gênero a que ele pertence? (B) Família pula do terceiro andar para fugir do ‘diabo’ 10 Uma família de origem africana que estava assistindo a TV pulou pela janela de um apartamento no terceiro andar de prédio da cidade de La Verrière (França) com medo do “diabo”. Na inusitada fuga, um bebê morreu. Horas depois, a polícia esclareceu parcialmente o caso: o incidente começou quando um grupo de 13 pessoas estava assistindo a TV na sala. Um homem que estava nu no apartamento ouviu um bebê chorando e foi preparar a mamadeira. A esposa, ao ver o marido pelado, começou a gritar: “É o diabo, é o diabo!”. Em socorro aos gritos, a cunhada do “diabo” o esfaqueou em uma das mãos. Ele saiu pela porta da frente, e, quando retornou, os demais moradores, desesperados com a presença do “maligno” na residência, então decidiram sair pela janela. O “diabo” pulou também, carregando uma criança de dois anos no colo. Ao chegar ao chão, ele correu e se escondeu atrás de um arbusto. A criança, o “capeta” e outros familiares ficaram feridos. O bebê chegou a ser levado a um hospital, mas não resistiu à queda. 10 Com exceção do (A), os textos transcritos na seção 2 deste livro foram extraídos de sites de revistas e jornais brasileiros considerados de grande circulação. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5865 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 66 Investigadores não encontraram qualquer sinal de alucinógenos ou ritual macabro no apartamento, segundo reportagem da BFM TV. A polícia ainda espera esclarecer muitos detalhes da história. (Disponível em:. Acesso em: 25 out. 2010.) (C) A leitura como agente do conhecimento Ricardo Azevedo É lendo que desenvolvemos nosso pensamento crítico. Sem ele, os jovens serão sempre presa fácil da propaganda enganosa e da alienação. Recentemente, no rádio, umlocutor falava em liberdades individuais, no direito de cada cidadão ser o agente de suas próprias decisões e na importância da diversidade de opiniões. Imaginei que fosse alguma ONG em defesa da democracia. Nada disso. O texto era patrocinado por um fabricante de cigarros! A liberdade a que se referia, no fundo, era uma só: a de optar por ser fumante, contrariando todas as informações médicas disponíveis. São complexos os desafios da educação nos dias de hoje. Creio que alguns deles nem sempre são lembrados. É preciso formar nossas crianças e jovens de maneira que sejam capazes de perceber que discursos válidos e civilizadores podem ser utilizados como ações de marketing e propaganda (e também por políticos corruptos e regimes autoritários). Fazer com que compreendam o funcionamento das sociedades fundadas em economias de mercado, para que saibam, por exemplo, separar consumo de consumismo ou propaganda de propaganda enganosa. Que discutam o que é autoridade (a confiança conquistada legitimamente), autoritarismo (a obediência obtida à força) e omissão (a desresponsabilização diante, por exemplo, de pessoas inexperientes ou dependentes e, num outro patamar, diante da sociedade). Que tenham claro que a liberdade é muito boa, mas tem limites: ninguém tem direito de desrespeitar o direito dos outros. Que compreendam que são responsáveis também pela sociedade em que vivem. Que aprendam a estudar (poucas escolas ensinam isso) e tenham o melhor preparo técnico possível sem esquecer de certas características de qualquer ser humano: somos incapazes de viver sem uma sociedade; somos capazes de construir linguagens e símbolos; temos dificuldade Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5866 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 67 de distinguir a subjetividade da objetividade; somos efêmeros (morremos), corporais e passíveis de prazer e sofrimento; podemos pensar em assuntos abstratos como justiça, moral, política e estética; transformar a natureza e a sociedade e, ainda, fazer projetos para, com sorte e competência, construir um futuro melhor. É importante que saibam respeitar, conviver e ser capazes de se identificar com hábitos, valores e crenças diferentes dos seus. Que discutam sobre por que têm sido levados a escolher suas profissões sem um mínimo de autoconhecimento (considerando apenas salários e a profissão da moda em detrimento de vocações). Que debatam formas alienantes e sub- reptícias de exclusão, como o “culto da celebridade” (que valoriza a pessoa “descolada” e sua “imagem”, desprezando a pessoa “comum”). E também os hábitos culturais que misturam o público e o privado, para que possam analisar as práticas que transformam vidas e relações humanas em ações de marketing e pessoas em produtos de consumo. Que conheçam os extraordinários avanços da modernidade, mas também suas inúmeras contradições. Que tenham acesso à multifacetada cultura de nosso país. Que estejam conscientes das desigualdades de nossa sociedade (por serem imorais e injustificáveis, elas costumam deixar nossas crianças e jovens confusos e céticos). E ainda que sejam levados a compreender que não são a plateia, mas sim os protagonistas do futuro e que, na escola, estão se preparando para construí-lo e ressignificá-lo. Não sou pedagogo e conheço pouco os diferentes métodos educacionais. Sejam quais forem, a meu ver, deveriam ter por base assuntos como esses. Eis por que a leitura sempre terá um papel fundamental: desenvolvemos nosso pensamento crítico, principalmente, por meio dela. Sem ele, nossas crianças e jovens, tanto faz de que classe social, serão presa fácil da propaganda enganosa, da alienação e do niilismo. (Disponível em: . Acesso em: 14 out.2010.) Em importante trabalho acerca de questões teóricas e aplicadas sobre gêneros, Rojo enfatiza: Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5867 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 68 [...] nossos alunos não precisam ser gramáticos de texto e nem mesmo conhecer uma metalinguagem sofisticada. Ao contrário, no Brasil, com seus acentuados problemas de iletrismo, a necessidade dos alunos é de terem acesso letrado a textos (de opinião, literários, científicos, jornalísticos, informativos etc.) e de poderem fazer uma leitura crítica e cidadã desses textos. (2005, p. 207). Compartilhando propósito e preocupação semelhantes ao destacado pela pesquisadora, acrescentamos serem inócuos o ensino e a aprendizagem de um conteúdo novo revestido de métodos classificatórios e formalistas. A orientação teórica indicada na introdução deste livro evidencia princípios e concepções amplamente ignorados (ou desprezados) pelo ensino de português, no Brasil, ainda hoje. Se, por um lado, sabemos que adotar mudanças não é um projeto simples, executável da noite para o dia, por outro, destacamos que proporcionar aos alunos o “acesso letrado” a textos impõe, já de início e no mínimo, duas exigências prementes ao professor: (1) – interesse contínuo por pesquisas e/ou ações (institucionais ou não) relacionadas a sua área de ensino; (2) – atividades de preparação, desenvolvimento, aprofundamento e repercussão de produção escrita própria em sintonia com a evolução dos estudos linguísticos. De modo geral, quando observamos o cenário educacional brasileiro, percebemos que o esforço empreendido pelo professor em participar de diferentes cursos de capacitação, pós-graduação e afins não é devidamente reconhecido, em termos de planos de carreira, nem seus resultados são divulgados, por exemplo, em forma de entrevistas, artigos científicos, textos informativos ou mesmo artigos de opinião elaborados pelo corpo docente envolvido. Tornar visíveis atitudes como essas seria, por certo, contribuir para a construção de uma prática didática eficaz no aprimoramento da competência sociodiscursiva dos sujeitos aprendizes. Partindo do pressuposto de que leitura e escrita são processos indissociáveis, a “leitura crítica e cidadã” de gêneros secundários é implicada e implica a escrita crítica e cidadã desses mesmos gêneros. Não é novidade que, ao lado da notícia, o artigo de opinião também ocupa grande espaço na mídia, como podemos constatar nos muitos e variados veículos de comunicação que os divulgam. De uma forma ou de outra, portanto, leitores de jornais e revistas (re)conhecem tais textos. O artigo de opinião, como visto, objetiva “fazer valer o ponto de vista” de quem o escreve; por isso, o tipo textual argumentativo costuma Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5868 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 69 predominar nesses textos, bem como o uso do presente do indicativo e dos dêiticos. Considerado um gênero aparentemente monofônico, uma vez que a representação de outros discursos não acontece de forma explícita, o artigo de opinião comenta sempre algo já dito, expressa uma convicção, um julgamento, um sentimento etc, exigindo do seu autor um posicionamento e a defesa desse posicionamento. Atividade 14 – Reúna-se com seus colegas. Leiam os textos (D) e (E) abaixo e identifiquem o tipo textual predominante em cada um deles. Em seguida, indiquem as marcas linguístico-textuais e discursivas que os auxiliaram na identificação do tipo e, por consequência, do(s) gênero(s) textual(ais) lido(s). (D) Ecochato é a mãe! Chatos são os outros! Por Reinaldo Canto Para aqueles que estão acostumados a defender suas ideias em prol da sustentabilidade é bastante comum sermos chamados de ecochatos e contrários ao desenvolvimento e ao progresso. O até mesmo ofensivo título deste artigo, que de antemão peço desculpas aos mais sensíveis, é um desabafo, mas também deve-se ao fato de estarmos vivendo um momento muito sensível e preocupante da história da humanidade e difícil de ser contestado. É claro que na democracia todos tem o legítimo direito à discordância, e como não existem verdades humanas absolutas, o contraditório é sempre muito bem-vindo.Nem por isso devemos de ter em conta que o descaso com o nosso meio ambiente vem provocando situações absurdas provocadas pela irresponsabilidade de alguns ou melhor de muitos. Casos emblemáticos como os do vazamento de petróleo no Golfo do México e a lama tóxica que atingiu recentemente a Bulgária, a Croácia e outros países banhados pelo Rio Danúbio e afluentes, além das queimadas no Brasil que atingiram recordes, isso para citar apenas os mais graves, deveriam ser mais que suficientes para resultarem em análises aprofundadas e a mobilização de toda a sociedade mundial para identificar e tomar as providências necessárias que busquem evitar tais barbaridades cometidas contra o nosso planeta. A adoção de critérios de sustentabilidade em todos os setores da atividade humana é uma questão de sobrevivência e ponto! Assim como não é possível flexibilizar a segurança em obras de engenharia, Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5869 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 70 como na construção de um prédio ou de uma ponte, não deveríamos aceitar que autoridades públicas e privadas cogitassem, sequer por um minuto, afrouxar os cuidados com a preservação ambiental em nome de alguma coisa que leve o nome de desenvolvimento. Aliás, deveríamos eliminar a denominação desenvolvimento para qualquer obra ou ação humana com claros sinais insustentáveis. Não é mais possível aceitar que sejam questionados por A ou B a realização dos relatórios de impacto ambiental, ainda mais se vierem acompanhados de expressões como: “obstáculos ao progresso” e “prejuízos à economia”. Diante disso pergunto: qual progresso? Que tipo de economia? O Relatório Planeta Vivo 2010 publicado em outubro deste ano pela organização não governamental WWF constatou que o planeta já perdeu 30% de recursos naturais e só nos países tropicais, num período de cerca de 40 anos, foram extintas 60% da biodiversidade. A própria ONU, durante a realização da Conferência sobre Biodiversidade, a COP-10 no mês passado no Japão alertou governos e empresas que a destruição do meio ambiente precisará ser computada como prejuízo em orçamentos e PIBs, realidade que até agora foi olimpicamente ignorada. O aquecimento global está aí para não sermos desmentidos. Segundo previsões, 1/3 das áreas cultiváveis do planeta poderão deixar de existir até 2050 em razão das mudanças climáticas. Além é claro de outras conseqüências nefastas como migrações forçadas e mortes de milhões de pessoas por falta de alimentos e água potável. O consumo desenfreado, a fome insaciável por energia e um desperdício sem precedentes precisam estar com os dias contados, caso contrário nós é que estaremos. Portanto, caso você defenda uma nova visão e uma nova postura diante de tantos fatos óbvios, não aceite naturalmente ser chamado de ecochato. Sem dúvida, chatos são os que acham que bonito é deixar tudo como está. (Disponível em: . Acesso em: 18/11/2010) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5870 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 71 (E) Pio Barbosa Neto | CE / Fortaleza Refletindo sobre o ato de trair A imprevisibilidade do ser humano e sua potencialidade para o bem ou para o mal, é um ponto positivo, ora negativo. É muito difícil lidar com a traição. Quando somos traídos, claro. O que acontece para que a pessoa se entregue aos seus desejos mais secretos e traia alguém importante na sua vida? Será que é porque a outra pessoa é melhor ou mais bonita? Será que é porque seu casamento já não anda as mil maravilhas? Mas e o que explicar sobre aqueles que estão no auge do amor e ainda assim cedem aos encantos das tentações? Sim, muitas vezes no auge de uma relação, rola traição, mesmo que exista carinho, admiração, respeito e etc. Estranho né? Mas é bem por aí. Mais estranho é tentar compreender isso, quando sentimos na própria pele. É o tal ditado, pimenta nos olhos dos outros, é refresco. O ser humano trai e não há um que não tenha traído alguém. E não trai só porque ‘quer trair’. Estudiosos classificam a infidelidade conjugal em três tipos básicos: a traição como desejo de novidade para vencer o tédio do casamento; a traição como afirmação da feminilidade ou da masculinidade – é o caso dos traidores compulsivos que precisam de nova conquista para descartá-la em seguida; e a síndrome de Madame Bovary (personagem do romance de Flaubert sobre a infidelidade feminina), em que a insatisfação afetiva leva à busca de um amor romântico que não existe. Em todos os casos, homens e mulheres encaram a traição de maneira diferente. Quem ama, sinceramente, não trai. O amor é fiel. (Disponível em: . Acesso em: 29/07/ 2010. Adaptado) 2.2 T2.2 T2.2 T2.2 T2.2 Trabalhando com rabalhando com rabalhando com rabalhando com rabalhando com sequências didáticassequências didáticassequências didáticassequências didáticassequências didáticas Para planejar o ensino de um gênero, Schneuwly & Dolz (2004) propõem a adoção do procedimento chamado sequências didáticas, que consiste num conjunto de atividades organizadas em torno de um gênero, as quais serão desenvolvidas na escola. A ideia dos autores é a de que é possível ensinar os gêneros textuais públicos da oralidade e da escrita e de maneira ordenada, ou seja, adotando-se procedimentos de caráter modular. Assim, eles desenvolveram um modelo de trabalho que consiste num conjunto sistematizado de atividades ligadas entre si, planejadas para ensinar um conteúdo etapa por etapa. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5871 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 72 Segundo os autores, a finalidade da sequência didática é ajudar os alunos a dominar melhor um gênero de texto. Em outros termos, os módulos que compõem uma sequência didática buscam levar os alunos, por meio de exercícios, a adquirir as capacidades necessárias à produção de um texto pertencente a um dado gênero. Nesse sentido, os módulos que compõem uma sequência didática permitem-lhes dominar de forma paulatina e cada vez mais aprofundada as especificidades de um gênero: suas condições de produção, sua estruturação interna e seus mecanismos linguístico-discursivos. Com esse procedimento, o que se espera é que os alunos possam ter acesso a práticas de linguagem11 novas, incomuns para eles ou que eles ainda não dominam. Uma questão que se coloca diz respeito à escolha dos gêneros secundários que serão ensinados. Que gêneros trabalhar? Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004) sugerem que a escola trabalhe os gêneros que os alunos ainda não praticam, os que lhes trazem dificuldades ou ainda os que são espontaneamente pouco acessíveis à maioria deles. Escolhemos, neste livro, tratar dos gêneros notícia e artigo de opinião. Eles pertencem a grupos de gêneros que apresentam características distintas, já discutidas, como nos mostra o quadro abaixo. CAPACIDADES DE LINGUAGEM DOMINANTES ARGUMENTAR Sustentação, refutação e negociação de tomadas de posição Questões polêmicas discutidas em sociedade, que exigem um posicionamento e a sua defesa RELATAR Representação pelo discurso de experiências vividas, situadas no tempo Necessidade de contar algo que realmente ocorreu EXEMPLOS DE GÊNEROS Artigos de opinião, cartas de reclamação, cartas do leitor, debates, editoriais, diálogos argumentativos Notícias, reportagens, relatos de experiência vivida, relatos históricos, biografias, crônicas esportivas 11 O conceito práticas de linguagem refere-se às dimensões particulares do funcionamento da linguagem em relação às práticas sociais em geral. (Quadro baseado no apresentado por Dolz, Noverraz e Schneuwly, 2004, p. 121) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5872 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 73 Para organizar uma sequência didática, é preciso preparar detalhadamente cada etapa de trabalho. Uma sequência didática pode ser assim estruturada: Passo1. Apresentação da situação – Será elaborado o projeto de ensino. Serão definidos: • o gênero proposto aos alunos para a produção inicial – oral ou escrito; • o destinatário da produção; • a forma que a produção vai assumir: gravação, apresentação oral, representação, carta, conto, artigo de opinião; • quem participará da produção; • os conteúdos dos textos que serão produzidos. Passo 2. A produção inicial – Revelará as capacidades dos alunos e permitirá a elaboração de atividades e exercícios adequados às suas possibilidades e dificuldades reais. Passo 3. Os módulos de atividades – Trabalharão os problemas que apareceram na primeira produção: Módulo 1 Módulo 2 Módulo 3 ..... Módulo n Seu movimento é do complexo ao simples (cada uma das capacidades necessárias ao domínio do gênero pelo aluno vai sendo trabalhada). Passo 4. A produção final – O movimento chega novamente ao complexo. É o momento para a avaliação somativa. Dolz, Noverraz e Schneuwly (2004, p. 83) representam esses passos por meio do seguinte esquema da sequência didática: Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5873 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 74 Com esse procedimento, espera-se que os alunos aprendam em que situação um determinado gênero é útil ou necessário, ou seja, em que contexto social de uso o gênero circula, qual a sua função, como ele se compõe e que estilo o caracteriza. Com esse procedimento, espera-se que os alunos aprendam como ler e redigir os diversos gêneros textuais. A seguir, apresentamos duas sequências didáticas, uma voltada para o ensino da notícia e a outra voltada para o ensino do artigo de opinião. É importante frisar que a elaboração de uma sequência didática não é um procedimento mecânico de aplicação de uma ordem fixa de exercícios. Ao contrário, a elaboração de uma sequência deve sempre ser pensada em função das necessidades de um grupo específico de alunos. Por essa razão, as sequências que seguem não devem ser vistas como modelos rígidos a serem aplicados em sala de aula, mas somente como sugestões ou indicações de como os gêneros notícia e artigo de opinião podem ser trabalhados por meio do método das sequências didáticas. Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita)Sequência didática 1 (notícia escrita) Passo 1. Apresentação da situação – Projeto de ensino Nesse primeiro momento, o objetivo é apresentar o gênero notícia aos alunos. Dada a pouca familiaridade de muitos alunos com textos noticiosos escritos, essa apresentação envolve o contato com um grande número de notícias veiculadas em diferentes suportes, como jornais e revistas. É importante que algumas questões guiem a leitura dos alunos. Assim, o professor pode pedir aos alunos que leiam os textos, observando: ü quem escreve a notícia? Com essa questão, o aluno deve ser levado a perceber que as notícias não costumam identificar a autoria, o que não nos impede de inferir que quem escreveu o texto foi um jornalista. Assim, o aluno deve perceber quem está institucionalmente autorizado a escrever uma notícia. Em outros termos, ele poderá perceber o papel social de jornalista que assume o autor de uma notícia veiculada em um jornal ou em uma revista. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5874 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 75 ü quem lê a notícia? Para quem a notícia é escrita? A resposta a essa pergunta pode variar, dependendo dos cadernos ou das rubricas de onde as notícias foram retiradas (esporte, turismo, cotidiano, política, etc). Por isso, diferentes respostas podem surgir, a partir do material que os alunos terão em mãos. Entretanto, como as notícias costumam veicular fatos que se produziram no espaço público, elas costumam se destinar àqueles que, de modo geral, se interessam pelos problemas que afetam a coletividade. A percepção de que as notícias costumam tratar de fatos que envolvem parcelas da população pode ajudar os alunos a perceberem que o leitor de uma notícia, de modo geral, assume o papel social de cidadão. ü a notícia apresenta apenas linguagem verbal ou se vale de imagens? Essa questão deve levar os alunos a perceber que, no gênero notícia, as linguagens verbal e visual estão profundamente relacionadas. ü qual é o papel que as imagens exercem? Ao mostrar o que aconteceu por meio de imagens, o autor/jornalista consegue fazer parecer ao leitor/cidadão que o que este vê é a própria realidade. É como se o jornalista, usando imagens, mostrasse o mundo sem interferência da sua subjetividade e de suas opiniões, contribuindo para aumentar o efeito de imparcialidade em seu texto. ü quais temas são tratados? As notícias tratam de fatos atuais, recentemente ocorridos no espaço público, que interessam a um conjunto significativo da população, ainda que focalizem fatos aparentemente locais. Assim, uma notícia que aborde o problema na coleta de lixo em uma rua afeta a coletividade, não só porque informa um problema vivenciado por um conjunto reduzido da população, mas também porque dá informações sobre a atuação do poder público municipal, o que é do interesse amplo dos habitantes de uma cidade. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5875 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 76 Passo 2. A produção inicial – Produção de texto Na proposta de produção inicial, o professor pode solicitar aos alunos que produzam uma notícia para ser publicada no jornal de maior circulação da sua cidade, informando um fato recente ocorrido na rua ou no bairro em que vivem. Essa produção tem como finalidade oferecer ao professor uma espécie de “diagnóstico” sobre os conhecimentos dos alunos sobre o gênero notícia. Nesse sentido, ela não deve ser objeto de avaliação. A função dessa produção inicial é, portanto, mostrar ao professor quais pontos ele deve contemplar no ensino da notícia, ou seja, ela é uma referência para a elaboração dos módulos componentes do próximo passo. Assim, por exemplo, se os alunos evidenciam dificuldade no emprego dos tempos verbais característicos do tipo textual predominante na notícia, é importante o professor elaborar um módulo com exercícios que permitam aos alunos desenvolver essa habilidade. Passo 3. Os módulos de atividades – Trabalho com os problemas apresentados na primeira produção A título de ilustração, vamos apresentar aqui um módulo apenas, supondo que os alunos, após a produção inicial, tenham evidenciado dificuldades, em especial, no emprego dos tempos verbais. O módulo se compõe de três atividades. Módulo 1 – O emprego dos tempos verbais • Atividade 1. Leia a seguinte notícia. Novo protocolo limita plásticas “combinadas” A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (1. _________) novas normas de segurança para o paciente. Entre as novas recomendações (2. _________) a limitação do número de procedimentos a serem feitos em uma só cirurgia, a definição de exames exigidos antes da operação, as restrições para procedimentos em adolescentes e a definição do tipo de anestesia para cada caso. Segundo a sociedade, a revisão (3. _________) necessária em função dos avanços tecnológicos e do aumento no número de plásticas, além dos casos de mortes. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5876 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 77 A finalização do protocolo (4. _________) até o final do ano, quando (5. _________) o congresso brasileiro de cirurgia plástica, em novembro. Empregue os verbos abaixo nos espaços numerados, fazendo as flexões necessárias. 1. preparar. 2. estar. 3. ser. 4. acontecer. 5. realizar.12 • Atividade 2. O trecho abaixo é o parágrafo inicial de uma notícia. “Uma família de origem africana que estava assistindo a TV pulou pela janela de um apartamento no terceiro andar de prédio da cidade de La Verrière (França) com medo do ‘diabo’. Na inusitada fuga, um bebê morreu.” a) Circule os verbos que expressame suas dimensões (GERALDI, 1993, p. 135). A prática de produção de textos, no entanto, não pode ser confundida com o exercício de fazer redação, que consiste numa atividade de escrita feita na escola, para o professor, no momento por ele proposto, sobre temas propostos também por ele, para ser corrigida e receber uma nota. Esse exercício Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:589 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 10 de fazer redação, que se dava numa situação artificial e forçada de emprego da língua, constituindo-se numa atividade para a escola, para o professor, tinha como alvo um produto cujo aspecto formal recebia tratamento privilegiado. A atenção do professor voltava-se sobretudo para a ortografia, a pontuação e a sintaxe. A prática de produção de textos, ao contrário, é entendida como uma atividade em que se produzem discursos: “O sujeito articula, aqui e agora, um ponto de vista sobre o mundo que, vinculado a uma certa formação discursiva, dela não é decorrência mecânica, seu trabalho sendo mais do que mera reprodução [...]” (GERALDI, 1993, p. 136). Para produzir um texto, é preciso que se tenha o que dizer, que se tenha uma finalidade para dizer o que se tem a dizer, que se tenha para quem dizer o que se tem a dizer e, ainda, que o produtor do texto se assuma como locutor, numa situação interlocutiva, que diz o que diz para quem diz. Ou seja, para a produção de quaisquer textos, é preciso que o aluno tenha algo para dizer, um motivo para fazê-lo, um destinatário para seu texto, e ainda que o faça colocando-se como sujeito de suas palavras (MARINHO, 1997). Na atividade de produção textual, consideram-se as formas linguísticas, mas relacionadas ao contexto de uso da língua e às condições de produção do texto. Ao produzir um texto, o aluno realiza um ato de interação verbal, na medida em que seu texto traz o que ele tem a dizer efetivamente a seu interlocutor. Nesse processo, o aluno realiza várias atividades linguísticas, cognitivas e sociais. É preciso que ele dê conta do contexto comunicativo que se instaura com seu texto, e considere quem escreve para quem (qual é a posição social dos interlocutores e o grau de formalidade do texto), o contexto sócio-histórico-cultural em que sua produção está inserida (conhecimentos, crenças e valores compartilhados), o meio de circulação do texto (o modo de publicação). Além disso, e em função disso, o aluno deve ser capaz de decidir o ato de fala que quer ou pretende realizar, o gênero textual adequado para realizar esse ato, bem como a variedade linguística que se mostra mais adequada para ser usada em seu texto. O professor, por sua vez, deve criar situações que estimulem a produção textual pelo aluno e que contemplem também a diversidade de textos e de gêneros, de tal forma que poderá levar o aprendiz a desenvolver sua habilidade de escrita e a saber lidar com textos pertencentes aos diferentes gêneros de circulação social. Os PCNs de língua portuguesa chamam a atenção para o gênero textual como objeto de ensino da nossa língua materna, pois consideram que Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5810 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 11 “a noção de gênero, constitutiva do texto, precisa ser tomada como objeto de ensino.” (PCNs 3º e 4º ciclos do ensino fundamental, p. 23). E ainda: Nessa perspectiva, é necessário contemplar, nas atividades de ensino, a diversidade de textos e gêneros, e não apenas em função de sua relevância social, mas também pelo fato de que textos pertencentes a diferentes gêneros são organizados de diferentes formas. (PCNs 3º e 4º ciclos do ensino fundamental, p. 23-24) Na prática de produção de textos, torna-se importante possibilitar a apropriação dos diferentes gêneros pelo aluno. Para tanto, devem-se apresentar ao aprendiz propostas que vão bem além da indicação de um tema ou de um tipo textual. É importante que elas tragam contribuição para que o aluno perceba o ato de escrever como uma forma de interlocução. Assim, as atividades devem considerar o tema, o objetivo para o texto, o destinatário, o gênero do texto adequado à situação comunicativa que se vai instaurar (sua função, forma composicional, seu estilo), e os modos de circulação do texto (seu suporte, em que contexto vai circular). As propostas de trabalho de escrita devem ainda discutir as características discursivas e textuais dos diferentes gêneros que podem ser trabalhados na escola. O aluno deve ser levado a refletir sobre como pode escrever seu texto. Ele não precisa ser conduzido a seguir uma norma linguística (a padrão), como se fosse a única possibilidade de expressão, e um modelo formal de texto, como se os gêneros fossem formas rígidas. Mas o importante é levá-lo a perceber a função social de seu texto – o que pretende com ele, que sentido espera que seja construído pelo destinatário, enfim, que ação de linguagem realiza com o texto. Igualmente importante é levá-lo a perceber que, a partir daí, pode fazer escolhas microestruturais: escolha da norma – que pode ser outro uso da língua que não o padrão –, dos tipos textuais e dos recursos linguísticos que estarão a serviço do sentido global do texto, que espera produzir. Nesse processo, o aluno deverá se ater à ortografia, à pontuação e à sintaxe, bem como à seleção lexical e aos mecanismos de textualização (articulados à construção do sentido do texto). Nos próximos itens, trataremos do conceito de tipo textual e, em seguida, do conceito de gênero. Antes, porém, faça uma atividade para avaliar o que você tem a dizer de produções escritas por estudantes do 2º ciclo do ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5811 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 12 Atividade 1 – A produção escrita como forma de interlocução Reúna-se com seus colegas. Leiam os textos produzidos por estudantes brasileiros do 2º ciclo do ensino fundamental e da 1ª série do ensino médio e respondam: a) Quanto à proposta de produção dos textos, o que você tem a dizer? Ela considera o contexto de produção (suporte, função social, gênero, destinatário) e o objetivo para a escrita? Ela contribui para a construção temática? b) Quanto à produção do aluno, ele atende à proposta? Ele de fato faz uso da escrita como forma de interlocução? c) Como agir sobre os textos dos estudantes, para quem o escrever deve ser visto como busca de interlocução e de expressão pessoal, mas que também devem seguir convenções que regem a construção de textos nos diferentes gêneros? Que atividades poderiam ser propostas para os estudantes visando sanar os problemas e dificuldades que apresentam em seus textos? A – A – A – A – A – Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:Proposta de produção 1:Proposta de produção 1: O aniversário de seu município está chegando, e a prefeitura irá comemorá- lo com a publicação de um livro de histórias interessantes que aconteceram na sua cidade. Colabore, contando uma história que tenha ocorrido com você ou com sua família ou ainda com pessoas da sua comunidade. Se você não se lembrar de qualquer fato que ocorreu realmente, poderá inventá-lo. Dê um título a seu texto. TTTTTexto 1:exto 1:exto 1:exto 1:exto 1: O aniversário da cidade Era uma bela manhã de sábado e os cidadãos estavam anciosos para poder comemorar o aniversário de sua cidade com uma grande festa, e como de costume, as festas eram as melhores. O prefeito da cidade, estava organizando uma festa no parque municipal, e ele queria que cada barraquinha, tivesse um bolo, mais ninguém do governo concordou com ele. No dia do aniversário da cidade, o prefeito chegou e começou a organizar a grande festa. Quando ja ia dar 10:00 da manhã, o prefeito ligou para a fábrica de bolo e pidiu um carrinho com muitos tipos de bolo e sabores. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5812 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 13 O parque municipalos fatos principais da notícia.13 b) Os verbos circulados expressam fatos ( ) futuros. ( ) passados. ( ) presentes.14 • Atividade 3. Reescreva a sua produção inicial, verificando a adequação dos tempos verbais empregados. Passo 4. A produção final – Avaliação somativa Para a produção final, o professor pode propor a elaboração de um jornal da sala de aula, solicitando aos alunos que redijam notícias sobre fatos recentes ocorridos na escola. A produção final tem como objetivo possibilitar ao professor verificar os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos alunos ao fim da sequência didática. Assim, ela é importante porque funciona como um instrumento de 12 Resposta possível: 1. prepara 2. estão 3. é 4. deve acontecer 5. será realizado 13 Resposta possível: pulou e morreu. 14 Resposta: passados. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5877 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 78 verificação para o professor e os alunos perceberem o que não foi bem assimilado ou em qual aspecto eles ainda demonstram dificuldades. A produção final é importante ainda, porque possibilita aprofundar aspectos tratados na sequência de que faz parte, permitindo aos alunos a aquisição de conhecimentos mais complexos sobre o uso da língua. Por exemplo, após explorar o uso dos tempos verbais na notícia, o professor pode elaborar uma sequência didática em que seja contemplada a função modalizadora de tempos verbais, como o futuro do pretérito, no gênero reportagem, ou aprofundar o estudo da notícia, elaborando uma sequência que explore a relação entre os tipos textuais e os tempos verbais. Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião)Sequência didática 2 (artigo de opinião) Passo 1. Apresentação da situação – Projeto de ensino Como vimos na sequência anterior, nesse primeiro momento, o objetivo é apresentar o gênero artigo de opinião aos alunos. Aqui também, essa apresentação envolve o contato com um grande número de artigos veiculados em diferentes suportes, como jornais e revistas. Para guiar a leitura dos alunos, o professor pode pedir a eles que leiam os textos, observando: ü quem escreve o artigo? Na situação que se materializa por meio do artigo de opinião, verifica- se o diálogo entre dois agentes, autor e leitor, os quais, no entanto, assumem papéis sociais diferentes e assimétricos. É importante os alunos perceberem que, nessa interação, o autor assume o status de autoridade em dado assunto, de figura de prestígio no espaço social, cujo saber é endossado e validado pela instituição (política, jornalística, industrial, acadêmica) que representa. Esse prestígio se manifesta no destaque dado ao nome do autor/articulista, na parte superior do texto. Como observa Rodrigues (2005, p. 172), “O reconhecimento social e profissional do articulista outorga credibilidade a sua fala, alçando-o à posição de ‘articulador’ de um ponto de vista autorizado, de formador de opinião”. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5878 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 79 ü quem lê o artigo? Para quem o artigo é escrito? No diálogo com o articulista, o papel que se reserva para o leitor é o de cidadão, que busca no interlocutor a interpretação, a análise de um fato ocorrido no espaço social. Por esse motivo, o gênero artigo de opinião apresenta uma relação dialógica assimétrica entre alguém que está institucionalmente autorizado a emitir o seu ponto de vista, o autor, e alguém que busca um conhecimento, uma análise supostamente mais esclarecida, o leitor. ü quais temas são tratados? No artigo, o universo temático é preenchido por fatos recentemente ocorridos na esfera social, os quais, dada essa atualidade, interferem na vida do cidadão de modo geral e colocam parcelas da população em posições divergentes e antagônicas. Em outros termos, o universo temático do gênero artigo de opinião é povoado por fatos atuais e polêmicos. Por essa razão, autor e leitor dialogam sobre um “já-dito” (RODRIGUES, 2005), sobre um fato que, após ter sido abordado pelo noticiário, mobilizou a atenção da opinião pública e agora pede que os veículos de comunicação apresentem as análises “esclarecidas” de especialistas da área em que o fato se deu. ü como os temas são tratados? Dada a natureza polêmica do fato a comentar no artigo, propiciando a manifestação de opiniões divergentes, mas igualmente esclarecidas em diferentes veículos, a relação assimétrica entre autor e leitor não garante a adesão deste às proposições defendidas no texto. A incerteza quanto ao efeito alcançado junto ao leitor explica por que os temas são tratados de forma a convencê-lo de um dado ponto de vista, o que revela a dimensão argumentativa do gênero artigo de opinião. Embora a credibilidade do autor esteja pressuposta e não precise ser construída pela sua performance discursiva, o autor não pode se limitar a simplesmente explicitar o seu ponto de vista. Mais do que isso, o autor precisa buscar modificar a visão de mundo do leitor, convencendo-o da consistência de suas opiniões, dado o diálogo implícito ou explícito que mantém com opiniões adversárias. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5879 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 80 Passo 2. A produção inicial – Produção de texto Na produção inicial, o professor pode, em primeiro lugar, propor uma discussão sobre os fatos que mais chamaram a atenção dos alunos no noticiário dos últimos dias. Em seguida, pode solicitar a eles que produzam um artigo sobre o fato mais polêmico ou sobre aquele que os deixou mais indignados. Como dissemos, a produção inicial tem como finalidade oferecer ao professor uma espécie de “diagnóstico” sobre os conhecimentos dos alunos sobre o gênero artigo. Portanto, ela indica ao professor quais pontos devem ser contemplados nos módulos da sequência e quais pontos não precisam ser trabalhos agora, podendo ser reservados para sequências didáticas futuras. Passo 3. Os módulos de atividades – Trabalho com os problemas apresentados na primeira produção A título de ilustração, apresentamos aqui somente um módulo, supondo que os alunos, após a produção inicial, tenham evidenciado dificuldades, em especial, na elaboração e na defesa de argumentos. O módulo se compõe de duas atividades. Módulo 1 – a utilização de argumentos • Atividade 1. Leia o trecho do artigo “O vírus ‘endógeno’ da corrupção” “A corrupção é o tema central do debate político contemporâneo no Brasil. O contexto no Brasil nos remete aos seguintes questionamentos: Por que a corrupção está tão profundamente arraigada no Brasil? [...] No Brasil [a corrupção] se associa a esse contexto histórico a assim chamada ‘Lei de Gérson’, ou seja, o comportamento de querer ‘tirar vantagem em tudo’, pressupondo que os sujeitos aguardam o máximo possível de benefícios, visando exclusivamente o benefício próprio. [...]” a) Sublinhe o trecho em que o autor expressa sua opinião.15 b) Você concorda com a opinião do autor? Por quê? 15 Resposta possível: “No Brasil [a corrupção] se associa a esse contexto histórico a assim chamada ‘Lei de Gérson’, ou seja, o comportamento de querer ‘tirar vantagem em tudo’, pressupondo que os sujeitos aguardam o máximo possível de benefícios, visando exclusivamente o benefício próprio.” Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5880 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 81 • Atividade 2. Leia o trecho do artigo “Ecochato é a mãe! Chatos são os outros!” “Para aqueles que estão acostumados a defender suas ideias em prol da sustentabilidade é bastante comum sermos chamados de ecochatos e contrários ao desenvolvimento e ao progresso. [...]” a) O que significa o termo “ecochato”?16 b) O autor se coloca na categoria dos “ecochatos”? Justifique.17 c) Como o autor poderia continuar o texto, defendendo-se das acusações que costuma receber?18Passo 4. A produção final – Avaliação somativa. Na produção final, o professor e os alunos podem fazer uma lista de fatos polêmicos ocorridos recentemente. Em seguida, o professor pode solicitar aos alunos que escolham um desses fatos e escrevam individualmente artigos de opinião. Escritos os artigos, cada aluno pode, finalmente, trocar o seu artigo com o de um colega, para que este, na posição de leitor de artigo de opinião, verifique a consistência e pertinência dos argumentos defendidos. Como dissemos no passo 4 (quatro) da sequência anterior, a produção final tem o objetivo de possibilitar ao professor verificar os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos alunos ao fim da sequência didática. Assim, ela permite saber com segurança o que não foi bem assimilado ou em qual aspecto eles ainda demonstram dificuldades. A produção final também possibilita ao professor planejar as suas futuras ações em sala de aula. Com base no que os alunos já sabem, como continuar? Quais aspectos devem ser aprofundados? Quais pontos já estão bem assimilados? 16 Resposta possível com base no texto: pessoas acostumadas a defender suas ideias em prol da sustentabilidade. 17 Resposta possível: Sim. Ao dizer “é bastante comum sermos chamados de ecochatos”, ele se inclui na categoria. 18 Resposta possível: Mas existem muitas evidências de que é possível conciliar sustentabilidade e desenvolvimento econômico... Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5881 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 82 Atividade 15 Releia um dos textos apresentados na atividade 1 deste livro. Considere-o como uma produção inicial de seu aluno, por meio da qual suas capacidades se revelam. Visando sanar os problemas que ele apresentou em sua produção textual inicial, elabore uma sequência didática, nos moldes das duas apresentadas anteriormente, que possa auxiliá-lo de tal forma que esses problemas não mais apareçam em uma produção final. Sugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensinoSugestões de leitura sobre gêneros e ensino DOLZ, Joaquim; NOVERRAZ, Michèle; SCHNEUWLY, Bernard. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: SCHNEUWLY, Bernard; DOLZ, Joaquim. Trad. e org. Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Gêneros orais e escritos na escola. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2004. p. 95-128. COSTA VAL, Maria da Graça et al. Avaliação do texto escolar: professor- leitor/aluno-autor. Belo Horizonte: Autêntica Editora/Ceale, 2009. CUNHA, Dóris de Arruda Carneiro da. O funcionamento dialógico em notícias e artigos de opinião. In: DIONÍSIO, Ângela P.; MACHADO, Anna R.; BEZERRA, Maria A. (Org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 166-179. LOPES-ROSSI, Maria Aparecida Garcia. Gêneros discursivos no ensino de leitura e produção de textos. 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Inicialmente, buscamos discutir algumas conceituações recentes sobre os gêneros e os tipos textuais. Em seguida, mostramos como as noções de gênero e tipo, por serem formas naturais de uso da língua, podem ter um papel relevante na aula de Língua Portuguesa. Afinal, funcionando como instrumentos de ensino, essas noções podem permitir ao aluno desenvolver uma melhor compreensão da linguagem e de como a materialidade linguística e textual reflete a complexidade e o dinamismo das interações sociais. Por fim, com base no estudo dos gêneros notícia e artigo de opinião, apresentamos as sequências didáticas como um método possível para o ensino dos gêneros. Esperamos que este livro possa contribuir com a formação do professor, de quem se espera o conhecimento de teorias pertinentes para o trabalho com o texto em sala de aula, possibilitando o desenvolvimento das habilidades dos alunos de interagir por meio de textos que interpretam e produzem nas várias situações comunicativas que vivenciam. 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Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5883 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 84 BEAUGRANDE, Robert de. New foundations for a science of text and discourse: cognition, communication and freedom of access to knowledge and society. Norwood, New Jersey: Ablex Publishing Corporation, 1997. BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de linguagem, textos e discursos. Por um interacionismo sócio-discursivo. São Paulo: Educ, 1999. COSTA VAL, Maria da Graça. Texto, textualidade e textualização. In: CECCANTINI, J. L. Tápias; PEREIRA, Rony F.; ZANCHETTA JR., Juvenal. Pedagogia Cidadã: cadernos de formação: Língua Portuguesa. v. 1. São Paulo: UNESP, Pró-Reitoria de Graduação, 2004. p. 113-128. CUNHA, Dóris de Arruda Carneiro da. O funcionamento dialógico em notícias e artigos de opinião. In: DIONÍSIO, Ângela P.; MACHADO, Anna R.; BEZERRA, Maria A. (Org.). Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 166-179. DELL’ISOLA, Regina L. P. 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São Paulo: Martins Fontes, 2004. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5884 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 85 KOCH, Ingedore G. V. Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez, 2002.MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros Textuais: Definição e funcionalidade. In: DINÍSIO, Ângela Paiva; MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora. Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 22-24. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola editorial, 2008. MARINHO, Janice Helena Chaves. A produção de textos escritos. In: DELL’ISOLA, Regina L. P.; MENDES, Eliana A. M. (Org.). Reflexões sobre a língua portuguesa: ensino e pesquisa. Campinas, SP: Pontes, 1997. p. 87-95. MARINHO, Janice Helena Chaves. Organização relacional de textos de gêneros jornalísticos. In: LARA, Glaucia Muniz Proença; MACHADO, Ida Lúcia; EMEDIATO, Wander (Org.). Análises do discurso hoje, vol. 2. 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Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5885estava começando a ficar cheio de pessoas, e nada dos caminhãos de bolo chegarem. O prefeito começou a fícar aflito, e ao mesmo tempo preocupado. Todos estavam se divertindo menos o prefeito. De repente, uns 3 caminhões enormes chegaram na porta do parque e abriram a porta de trás, todas as pessoas correram para a porta do parque, e receberam pedaços e mais pedaços de bolo. E o prefeito abriu um sorriso no rosto e foi comer o bolo. E assim foi o aniversário da minha cidade imaginária. TTTTTexto 2:exto 2:exto 2:exto 2:exto 2: A Corrida Na cidade o prefeito disse: – Quem trazer a idéia de fazer uma corrida mais engraçada, ganhara um fusca! Todos começaram a dizer ao prefeito: – Corrida de bicicleta – corrida de patinete, etc, Um dia um rapaz disse: – Corrida de motoca! e o prefeito respondeu: – Boa idéia você foi o vencedor. TTTTTexto 3:exto 3:exto 3:exto 3:exto 3: Eu conheço umas pessoas que salvou sua vida saindo de uma aréa de risco e indo para um lugar mais seguro. E quem está fornecendo essa grande maravilha para o povo é Ribeirão das Neves tirando-os das areas de riscos e desabamentos deixando o povo seguro sem riscos de vida fornecendo a maior pocibilidade de estarem vivendo uma vida sem riscos, de morte fazendo eles ficarem seguros e protegidos de qualquer riscos. E o povo está tão agradecido, que resolveram fazer uma festa pra comemorar essa marailhosa atitude de Ribeirão das Neves que os possibilitou de terem uma vida tranquila sem riscos trasendo paz para os moradores de Ribeirão das Neves e com isso todo povo deixa uma frase: Obrigada Ribeirão das Neves por estar fornecendo tudo isso para a gente trazendo paz e tranquilidade. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5813 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 14 B – B – B – B – B – Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:Proposta de produção 2:Proposta de produção 2: Sua escola vai publicar um jornal e você ficou responsável por escrever um artigo a respeito do tema sugerido a seguir. Apresente argumentos que sustentem o ponto de vista defendido por você. Dê um título a seu texto. O que é ensinado pela escola prepara para o mundo do trabalho? TTTTTexto 1:exto 1:exto 1:exto 1:exto 1: Experiência Colegial O estudo visado nas escolas preparam os alunos para uma vida social e profissional mas, como não so de pão vivera o homem, não so da escola vivera a humanidade. A escola da uma grande base para carreira profissional, aplicando matérias variadas com conhecimentos múltiplos. Portanto a experiência profissional não é aplicada. Nos tornando conhecedores sem experiência. O mercado de trabalho procura jovens experientes e com boa formação acadêmica. O preparo para o mundo do trabalho é ensinado no dia-a-dia, pelas pessoas tal qual nos rodeiam, e não por que dizer a escola? Boa parte do dia passamos na escola, interagindo com os alunos, os professores por terem um conhecimento maior e possuirem idade elevada, ao se comparar com a dos alunos, obtemos conhecimentos relacionados a vida. Concluindo, penso que o colégio nos prepara de uma forma acadêmica para o mundo do trabalho, deixando a experiência e o contato direto com o trabalho, de lado impossibilitando a concorrência com os experiêntes. TTTTTexto 2:exto 2:exto 2:exto 2:exto 2: Agora é com você! Várias pessoas se questionam sobre a importancia da escola na formação de um profisional apto a atender as exigências do mercado de trabalho. Acima disso, o dever da escola é ensinar para a vida, formar cidadões, pregar informações e conhecimento, trabalhar a sensibilidade e o humanismo do ser humano. O que importa não é só o diploma de formação acadêmica, mais como a pessoa age e reage no ambiente em que vive, levando em conta, seu poder argumentativo, seu modo de expressão e como auxilia a tarefa de conviver em grupo. O que nos diferencia uns dos outros, é simplesmente o modo de como cada um vê a vida. Tudo depende de nós. A escola é apenas um instrumento Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5814 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 15 para levar a você conhecimento e a informação. Somos nós que nos induzimos ao sucesso. O homem mal informado automaticamente se exclui da sociedade, então procure sempre se informar, leitura, nunca é demais. Sucesso!!!!! TTTTTexto 3:exto 3:exto 3:exto 3:exto 3: Escola uma base para o trabalho Para mim a escola é uma base para o mercado de trabalho. Pois é nela que aprendemos a ler, a escrever, fazer cálculos, entre outras coisas. Ajuda-nos a si integrarmos em um grupo e até mesmo na nossa sociedade! Ensinando o que é bom para o nosso futuro. No meu ponto de vista as escolas estão precisando de mais projetos, para melhorar o ensino. Um dos projetos é ter informática básica, pois em toda empresa pede pelo menos um curso de computação básico. E como sabemos não são todas as pessoas que tem condições para pagar um curso de computação. Acho que deveria ter nas escolas pelo menos uma aula de computação por semana, para ajudar-nos no conhecimentos do mercado de trabalho. Mas tirando isso, a escola nos dá uma boa preparação para o mercado de trabalho! Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5815 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 16 11111 TTTTTexto e sua tipologiaexto e sua tipologiaexto e sua tipologiaexto e sua tipologiaexto e sua tipologia Como esclarece Koch (1997, p. 21), “é sabido que, conforme a perspectiva teórica que se adote, o mesmo objeto pode ser concebido de maneiras diversas. O conceito de texto não foge à regra.” Até mesmo nos quadros da Linguística Textual, o texto já foi concebido de maneiras diferentes. Ele já foi visto como frase complexa a partir da qual se pensava na construção de gramáticas do texto. Foi visto como discurso “congelado”, ou seja, como um “produto acabado de uma ação discursiva” (KOCH, 2002, p. 149), um produto que possuía a propriedade de ser coeso e coerente. Mais recentemente, a partir da década de 1990, o texto tem sido concebido como “verbalização de operações e processos cognitivos”, quando o interesse dos estudiosos volta-se para questões relativas ao processamento do texto, em termos de produção e de compreensão, às formas de representação do conhecimento na memória, à ativação de conhecimentos prévios no processamento do texto, às estratégias sociocognitivas e interacionais nele envolvidas etc. Mais recentemente ainda, dando-se ênfase a questões de ordem sociocognitiva, que envolvem os processos de referenciação, inferenciação, organização textual-interativa, construção dos gêneros textuais, entre outros, o texto tem sido compreendido como “fruto de um processo extremamente complexo de interação e construção social de conhecimento e de linguagem.” (KOCH, 2002, p. 157). Hoje o texto é entendido como uma produção linguística que possa fazer sentido numa situação de interlocução. Texto é uma produção verbal por meio da qual se comunica uma mensagem e se age linguisticamente. Para Beaugrande (1997), “É essencial ver o texto como um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais”. (BEAUGRANDE, 1997, item IC, parágrafo 34). Como afirma Costa Val, “Falando apenas de texto verbal, pode-se definir texto, hoje, como qualquer produção lingüística, falada ou escrita, de qualquer tamanho, que possa fazer sentido numa situação de comunicação humana, isto é, numa situação de interlocução. Por exemplo: uma enciclopédia é um texto, uma aula é um texto, um e-mail é um texto, uma conversa por telefone é um texto, é também texto a fala de uma criança que, dirigindo-se à mãe, aponta um brinquedo e diz ‘té’.” (COSTA VAL, 2004, p. 63) Defende-se hoje que o que possibilita a construção de sentido de uma produção são os conhecimentos e intenções de quem a produziu, falando Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5816 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 17 ou escrevendo, assim como os conhecimentos disponíveise habilidades interpretativas de quem a ouviu ou leu. Então, interferem no processo de construção de sentido conhecimentos partilhados pelos interlocutores, tais como: saberes, crenças e valores pertencentes ao mundo em que estão inseridos, conhecimento da língua utilizada – sua gramática e seu léxico –, conhecimento das ações de linguagem empreendidas no processo interacional, e também conhecimento dos tipos e gêneros dos textos construídos. Assim, para lidar com textos, é importante considerar os gêneros e tipos textuais. Em função das necessidades socioculturais dos sujeitos interlocutores, o texto é elaborado dentro de um gênero. Assim, os textos são produzidos levando-se em consideração as características relativamente estáveis do gênero em questão. Os gêneros, como veremos à frente, são organizações de enunciados caracterizadas por um conteúdo temático, uma forma composicional e um estilo. Como são inúmeros, e bastante heterogêneos, é impossível classificá- los para abordá-los como se faz com os tipos textuais. Assim, as tipologias do texto foram, durante muito tempo, usadas para a classificação dos textos. Nos próximos itens, vamos refletir sobre as noções de tipos e de gêneros textuais. 1.11.11.11.11.1 Tipos textuaisTipos textuaisTipos textuaisTipos textuaisTipos textuais Até pouco tempo atrás, o termo “tipo” era usado com diferentes valores. Elaboravam-se tipologias textuais com base em múltiplos e heterogêneos princípios. Assim, falava-se em tipos de texto de acordo com sua forma de estruturação – narração, descrição, dissertação. Falava-se também em tipos de acordo com a finalidade dos textos – texto didático (ensinar), jornalístico (informar), filosófico (discutir ideias), jurídico (esclarecer leis), político (convencer), literário (valorizar a palavra), etc. – ou com a construção da argumentação – texto crítico (que visa ao acordo ou à contestação), deliberativo (que busca o aconselhamento), judiciário (que visa à acusação ou à defesa), epidítico (que visa à censura), por exemplo. Além disso, a noção de tipo de texto às vezes se referia à sua forma de constituição, às vezes à sua finalidade ou, ainda, à sua configuração. Essa imprecisão com relação ao que seria o tipo textual tornava possível a composição problemática de corpora de análise. Silva (1999) cita exemplos de propostas tipológicas que apresentavam diário, narrativa e injunção ou carta, dissertação e narração, como tipos de texto. Propostas como essas Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5817 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 18 parecem se orientar por uma noção de tipo como texto concreto em uso nas práticas sociais de linguagem. Nos estudos desenvolvidos no âmbito da Linguística Textual, a noção de tipo textual vem sendo concebida, de modo geral, como um conjunto de traços que formam uma sequência linguística. A expressão tipo textual é, nesse caso, usada para designar cada tipo de sequência de enunciados que compõem o texto. Para Werlich (1973 apud Marcuschi, 2002), são cinco os tipos textuais: narrativo, descritivo, dissertativo (expositivo), argumentativo, injuntivo. Sua classificação baseia- se nas estruturas dos enunciados que compõem o texto, ou seja, na composição ou estruturação interna do texto. Como expõe Silva (1999), os vários tipos textuais confeccionam a tessitura do texto, ou constituem a sua estrutura composicional. Eles podem ser tratados como modos enunciativos de organização do discurso no texto realizados por operações textual-discursivas que ocorrem nos níveis micro e macroestruturais, operações que acontecem no processo de produção do texto. Segundo Marcuschi (2002), os tipos textuais constituem o que Bakhtin denomina a estrutura composicional do texto segundo os padrões do gênero. Por exemplo, num romance, podem aparecer em sua estrutura composicional vários tipos textuais: a narração, para relatar os acontecimentos, os fatos, a progressão das ações dos personagens; a descrição, para caracterizar os personagens, as ações, o cenário; a dissertação/argumentação, para comentar ou avaliar as ações dos personagens, seus sentimentos e atitudes. As abordagens que estudam os tipos textuais podem ser divididas basicamente entre abordagens linguísticas e abordagens referenciais. Entre as primeiras (Benveniste, Weinrich), os tipos caracterizam-se pelas marcas linguísticas, tais como tempos verbais, pronomes pessoais, advérbios de lugar, organizadores textuais etc. Benveniste (1976), por exemplo, distingue dois tipos ou, em sua terminologia, dois planos de enunciação: a história e o discurso. Na história, os acontecimentos não têm qualquer relação com o presente e “parecem narrar- se a si mesmos” (p. 267). Por isso, esse plano de enunciação exclui os elementos dêiticos, que são as marcas que fazem referência aos interlocutores (eu, tu), ao lugar (aqui, lá) e ao tempo (agora) da interação. Exclui ainda outras marcas de subjetividade, tais como reflexões ou julgamentos do narrador. Pelo mesmo motivo, as formas verbais são sempre de 3ª pessoa. Como exemplos de enunciação histórica, o autor cita obras historiográficas e romances tradicionais, cujo narrador seja onisciente. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5818 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 19 Um exemplo de história é: As colunas de Hércules Entre os doze trabalhos impostos a Hércules, estava a captura dos bois de Gerião, um gigante de três cabeças e três torsos. Esses bois pastavam numa misteriosa ilha vermelha, chamada Erítia, situada além dos limites do mundo, muito longe, para o lado oeste. Hélio, o sol, emprestou sua carruagem de ouro a Hércules, que assim cruzou o oceano. Depois de chegar a Erítia, Hércules se livrou de um cão monstruoso, Ortos, e, depois, do próprio Gerião, desferindo nele golpes terríveis com sua enorme clava. Então, Hércules embarcou o rebanho no carro de Hélio e, na volta, para comemorar sua façanha, separou uma montanha em duas e ergueu assim duas colunas gigantescas: Calpéia e Abila. Desde essa época longínqua, as colunas de Hércules, transformadas em imensos rochedos, guardam a entrada do Mediterrâneo e marcam a fronteira entre a Europa e a África – uma em Gibraltar, a outra em Ceuta. (RAGACHE, G. A Europa: mitos e lendas. São Paulo: Ática, 1996.) Já o discurso diz respeito a “toda enunciação que supõe um locutor e um ouvinte e, no primeiro, a intenção de influenciar de algum modo o outro” (p. 267) e engloba “todos os gêneros nos quais alguém se dirige a alguém” (p. 267): correspondências, obras didáticas, entrevistas, etc. No plano do discurso, o texto é marcado por todos os elementos linguísticos excluídos da história: elementos dêiticos, formas verbais de 1ª e 2ª pessoas, bem como reflexões e julgamentos que denunciem um ponto de vista. Um exemplo de discurso pode ser: Bia, Acabei de acordar. A minha mãe diz que eu devo estar com o vírus do sono. Acho que ainda não inventaram um antivírus pra isso, mas se depender da minha mãe, já, já descobrem um e ela vai querer instalar em mim. Vou aproveitar enquanto eu posso. Dormir está na lista das dez melhores coisas do mundo. Em primeiro eu acho que está o chocolate. Em segundo ficar em casa sem fazer nada Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5819 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 20 comendo chocolate. Em terceiro é ficar em casa, sem fazer nada comendo chocolate e falando no telefone ou na internet. Em quarto, e só pra combinar, é ficar no quarto dormindo até alguém chamar para almoçar. Como é bom dormir! Beijinhos Lili (FALCÃO, Adriana. P.S. beijei. São Paulo: Salamandra, 2004, p. 23) Uma das críticas que se faz às abordagens linguísticas é a de que elas são muito gerais e não permitem criar uma tipologia de textos (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001). Na proposta de Benveniste, a categoria discurso caracteriza uma quantidade muito grande de gêneros, os quais são bastante heterogêneos. Como distinguir, por exemplo,uma correspondência e uma obra didática se ambas pertencem ao plano do discurso? Esse e outros problemas levaram à proposição de abordagens referenciais.1 Nessas abordagens, as marcas linguísticas dos textos são levadas em conta na definição dos tipos, mas estes são definidos, principalmente, pela natureza das informações que podem mobilizar. Por exemplo: enquanto o relato de acontecimentos define a narração, a caracterização de lugares e personagens define a descrição. Dentre essas abordagens, uma das que mais exerceram e exercem influência nos estudos do texto é a de Adam (1992). Para esse autor, os tipos são esquemas sequenciais prototípicos, que foram “progressivamente elaborados pelos sujeitos, ao curso de seu desenvolvimento cognitivo” (p. 28). Uma sequência descritiva, por exemplo, tem características em comum com outras sequências descritivas, características que permitem identificá-las como pertencentes ao tipo descritivo. O mesmo vale para os tipos narrativo, argumentativo, explicativo e dialogal, que são as categorias propostas por Adam (1992). Assim, cada tipo se define por características típicas, que vão aparecer com maior ou em menor intensidade nas sequências textuais. A 1 Essas abordagens buscam definir os tipos a partir de entidades pré-linguageiras, por meio de uma estrutura cognitiva como frames, esquemas ou scripts, ou por meio de recursos psicológicos de que os locutores dispõem para interpretar e produzir sequências textuais. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5820 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 21 seguir, será feita uma breve apresentação de cada tipo, segundo a proposta desse autor. 1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo1.1.1 Tipo narrativo Adam (1992) define a narrativa com base em seis critérios: (A) Sucessão de acontecimentos: Para que exista narrativa, os acontecimentos devem ser ordenados segundo uma ordem cronológica. (B) Unidade temática: A narrativa caracteriza-se pela unidade temática, a qual pode ser garantida pela presença de pelo menos um personagem antropomórfico. (C) Predicados transformados: Do começo ao final da narrativa, o personagem deve sofrer uma transformação dos predicados de ser, de ter e de fazer que o caracterizem. (D) Um processo: Para que a narrativa tenha unidade temática, é preciso que a transformação de predicados ocorra ao longo de um processo com começo, meio e fim. (E) A causalidade narrativa de uma intriga: Para haver narrativa, é preciso que, entre os acontecimentos representados, haja, além da relação de natureza temporal, uma relação de natureza causal. Assim, acontecimentos anteriores devem funcionar como a causa de acontecimentos posteriores, dando à narrativa a tensão própria de uma intriga. (F) Uma avaliação final (explícita ou implícita): A narrativa deve sempre ser motivada pelo objetivo do narrador de produzir um determinado efeito sobre o narratário (fazer crer, fazer saber). Esse objetivo, que dá sentido à história e justifica a sua própria narração, pode ser explicitado por meio de uma avaliação final (moral) ou pode permanecer implícito. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5821 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 22 Com base nesses seis critérios, Adam (1992, p. 57) propõe o protótipo da sequência narrativa, o qual se representa da seguinte forma:2 Conforme esse protótipo, o tipo narrativo organiza-se em situação inicial, complicação, (re)ações, resolução, situação final e moral. Basicamente, a situação inicial indica os personagens, o local e a época da história. Na complicação, ocorre um fato que perturba o equilíbrio da situação inicial. As (re)ações são formadas pelos acontecimentos decorrentes da complicação ou pelo comentário do narrador acerca dos acontecimentos principais da história. Na resolução, ocorre um fato que soluciona o desequilíbrio instaurado na complicação. Na situação final, apresenta-se uma nova fase de equilíbrio. A moral, típica apenas de alguns gêneros literários, como a fábula, apresenta o ensinamento que se deve tirar da história. No tipo narrativo, a relação temporal de anterioridade ou posterioridade entre episódios relatados pode ser evidenciada pelo uso dos verbos predominantemente no passado, bem como dos articuladores denominados organizadores textuais, os quais sinalizam as relações de tempo no texto, dando suporte à sequenciação e à progressão dos eventos relatados. A atitude enunciativa representada nesse tipo é a de contar um fato ou uma história e o locutor-narrador pode representar-se como narrador- personagem, que escreve em primeira pessoa, ou como locutor, escrevendo na terceira pessoa. Enfim, as sequências que compõem o tipo narrativo caracterizam-se pela presença de enunciados que indicam ações e eventos passados, marcados muitas vezes por elementos indicadores de tempo e espaço. O texto abaixo é formado por uma sequência narrativa: 2 Cada um dos episódios é formado por proposições narrativas (Pn). Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5822 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 23 MAR DE LAMA Em 1998, mineiros e capixabas se animaram com o início da construção da BR-342, que ligaria o norte do Espírito Santo a Minas Gerais. Para pavimentar os 106 quilômetros da rodovia, foram celebrados três contratos com duas empreiteiras. Nos três o TCU encontrou sobrepreço – sempre na casa de 50% do valor global. Além disso, parte dos serviços que as empreiteiras alegam ter executado não foi fiscalizada pelo governo. Por fim, o valor dos contratos aumentou sem nenhuma justificativa técnica. Uma estranheza atrás da outra. Como a obra se tornou um sorvedouro de dinheiro público, o TCU pediu sua paralisação. Hoje, há apenas 33 quilômetros asfaltados. Outros 27 quilômetros são transitáveis, mas ainda não receberam uma gota de asfalto. Nos 46 quilômetros restantes, a obra nem sequer foi iniciada. (Disponível em: . Acesso em: 18 nov. 2010.) Veja como esse texto pode ser analisado: Em 1998, mineiros e capixabas se animaram com o início da construção da BR-342, que ligaria o norte do Espírito Santo a Minas Gerais. Para pavimentar os 106 quilômetros da rodovia, foram celebrados três contratos com duas empreiteiras. Nos três o TCU encontrou sobrepreço – sempre na casa de 50% do valor global. Além disso, parte dos serviços que as empreiteiras alegam ter executado não foi fiscalizada pelo governo. Por fim, o valor dos contratos aumentou sem nenhuma justificativa técnica. Uma estranheza atrás da outra. Como a obra se tornou um sorvedouro de dinheiro público, o TCU pediu sua paralisação. Hoje, há apenas 33 quilômetros asfaltados. Outros 27 quilômetros são transitáveis, mas ainda não receberam uma gota de asfalto. Nos 46 quilômetros restantes, a obra nem sequer foi iniciada. Situação inicial Complicação (Re)ação Resolução Situação final Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5823 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 24 Atividade 2 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o trecho abaixo e identifiquem as partes em que se organiza esta narrativa. Em seguida, levantem seus elementos característicos. A disciplina do amor Foi na França, durante a segunda grande guerra: um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta à casa. A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos. Para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe. Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo?Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem-amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera. O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando aquela hora, ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias. Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina. As pessoas estranhavam, mas quem esse cachorro está esperando?... Uma tarde (era inverno) ele lá ficou, o focinho voltado para aquela direção. (TELLES, Lygia Fagundes. A confissão de Leontina e fragmentos. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p. 81-82.) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5824 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 25 1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo1.1.2 Tipo descritivo O tipo descritivo marca-se pela apresentação das características de uma pessoa, um objeto ou uma situação, fixos como numa fotografia. Essas características podem ser suas qualidades ou as partes de que se compõem. As propriedades dos elementos descritos apresentam-se num determinado momento, sem mudança ou progressão temporal, e, por isso, a disposição dos enunciados descritivos pode ser alterada. Para Adam (1992), o protótipo da sequência descritiva pode ser definido com base em um número restrito de operações, que são a ancoragem (a), a aspectualização (b), a relação (c) e a tematização (d). (A) Ancoragem: Toda descrição se refere a uma entidade referencial determinada. Por isso, ela se ancora em um “tema-título”. (B) Aspectualização: Na descrição, apresentam-se as características do tema-título, evocando as partes de que ele se compõe ou suas propriedades. (C) Relação: Na descrição, o “tema-título” pode ser assimilado, relacionado com outras entidades referenciais por comparação ou por metáfora. Essa operação diz respeito ao procedimento de relação. (D) Tematização: Essa operação garante ao discurso descritivo uma expansão potencialmente infinita. Com base nessas operações, Adam (1992, p. 84) propõe o protótipo da sequência descritiva, o qual se representa da seguinte forma: Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5825 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 26 Nas sequências que compõem o tipo descritivo, os enunciados trazem verbos estáticos, no presente ou no pretérito imperfeito, além de elementos que indicam caracterização de um objeto e circunstância de lugar. O texto abaixo é formado por uma sequência descritiva. Seu trajo era um primor do gênero, pelo mimoso e delicado. Trazia o vestido de alvas escumilhas, com a saia toda rofada de largos folhos. Pequenos ramos de urze, com um só botão cor-de-rosa, apanhavam os fofos transparentes, que o menor sopro fazia arfar. O forro de seda do corpinho, ligeiramente decotado, apenas debuxava entre a fina gaza os contornos nascentes do gárceo colo; e dentre as nuvens de rendas das mangas só escapava a parte inferior do mais lindo braço. Era o toque severo do pudor corrigindo a túnica da vestal imolada à admiração ardente das turbas. Quando Emília sentava-se, abatendo com a mão afilada os rofos da Escócia, parecia-me um cisne colhendo as asas à margem do lago, e arrufando as níveas penas. Quando erguia-se e coleava o talhe flexível fazendo tremular as brancas roupagens, lembrava o gracioso mito da beleza, que surgiu mulher da espuma das ondas. (ALENCAR, José de. Diva. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. [s.d.]. p. 48-49) Nesse texto, a entidade referencial que é descrita (ou o tema-título) é a roupa de Emília. Pela operação de aspectualização, são descritas as partes da roupa (escumilhas, saia, forro de seda, mangas etc), bem como suas Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5826 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 27 propriedades (um primor do gênero, ligeiramente decotado etc). Pela operação de relação, a roupa e a personagem são comparadas com outras entidades referenciais (“Quando Emília sentava-se, [...] parecia-me um cisne colhendo as asas à margem do lago” e “Quando erguia-se [...], lembrava o gracioso mito da beleza”). Por fim, a operação de tematização permite que partes da roupa funcionem como tema-título de descrições locais, encaixadas na descrição global (“Pequenos ramos de urze, com um só botão cor-de-rosa, apanhavam os fofos transparentes...”). Adam (1992) considera também descritivas as sequências em que se prescrevem ações a serem realizadas com vistas a um resultado. Nessas sequências, que, em versão anterior do modelo de Adam, eram chamadas de injuntivo-instrucionais (ADAM, 1987), predominam enunciados com formas verbais imperativas, que incitam ações a serem realizadas pelo destinatário. São também característicos dessas sequências os elementos indicadores de modalização deôntica, que indicam obrigatoriedade ou necessidade da ação, bem como os atos de aconselhamento, que oferecem a ideia de possibilidade e capacidade de ação. Para Adam, essas sequências são descritivas porque apresentam uma descrição de ações. Exemplos de gêneros cujas sequências predominantes têm essas características são as receitas culinárias e os manuais de instruções. Atividade 3 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e respondam: a) O que está sendo descrito? b) Que recursos linguísticos são usados nesta descrição? O ovo de galinha Ao olho mostra a integridade De uma coisa num bloco, um ovo. Numa só matéria, unitária, Maciçamente ovo, num todo. Sem possuir um dentro e um fora, Tal como as pedras, sem miolo: E só miolo: o dentro e o fora Integralmente no contorno. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5827 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 28 No entanto, se ao olho se mostra Unânime em si mesmo, um ovo, A mão que o sopesa3 descobre Que nele há algo suspeitoso: Que seu peso não é o das pedras, Inanimado, frio, goro; Que o seu é um peso morno, túmido,4 Um peso que é vivo e não morto. (NETO, João Cabral de M. Os melhores poemas de João Cabral de Melo Neto. São Paulo: Global, 1998, p. 64) Atividade 4 – Leia, com seus colegas, o seguinte trecho descritivo. Identifiquem os elementos que caracterizem seu caráter injuntivo. Bela & Nude O look nude veio pra ficar. Aprenda a fazer esse make que tem tudo a ver com o verão. 1. Prepare a pele com corretivo, base e pó. Aplique uma sombra perolada do canto interno dos olhos até a metade da pálpebra móvel, e perto da sobrancelha. 2. Passe pó compacto (num tom mais escuro que o da sua pele) em toda a pálpebra móvel, marcando bem o côncavo dos olhos. 3. Com ajuda de um pincel chanfrado,5 passe uma sombra marrom- terra acima da linha dos cílios superiores, para delinear. 4. Repita o processo abaixo da linha dos cílios inferiores. Complete com rímel, blush na cor pêssego e batom cor de boca. (Disponível em: . Acesso em: 18 nov. 2010.) 3 Sopesar: considerar; fazer avaliação de. 4 Túmido: que se encontra inchado, intumescido; que se apresenta proeminente, saliente. 5 Chanfrado: que apresenta cortes oblíquos, na borda. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5828 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 29 1.1.31.1.31.1.31.1.31.1.3 Tipo explicativoTipo explicativoTipo explicativoTipo explicativoTipo explicativo No tipo explicativo, as sequências compõem-se de enunciados de identificação defenômenos que são encadeados por relações lógicas. O locutor, que identifica e relaciona os fenômenos, procura apresentar uma ideia da forma mais clara possível, porque seu objetivo é transformar uma convicção (estado de conhecimento) e não modificar uma crença (visão de mundo), o que é próprio das sequências argumentativas. Segundo Adam (1992, p. 134), “o recurso à explicação permite ao locutor se apresentar como uma simples testemunha, observador objetivo dos fatos.” O protótipo da sequência explicativa representa-se da seguinte forma (ADAM, 1992, p. 132): 0. Macroproposição explicativa 0: esquematização inicial. 1. Por que X? Macroproposição explicativa 1:problema (questão). (ou Como?) 2. Porque Macroproposição explicativa 2: explicação (resposta). 3. Macroproposição explicativa 3: conclusão-avaliação. Nesse tipo textual, o tempo verbal predominante é o presente atemporal, já que, em princípio, não há progressão temporal entre os enunciados. Além disso, o locutor, ao se apresentar como observador imparcial dos fatos, tende a excluir de seu texto marcas de subjetividade, como pronomes de 1ª pessoa do singular, verbos conjugados na 1ª pessoa do singular e outros elementos dêiticos. Evita também evidenciar seu ponto de vista, o que se poderia fazer por meio de comentários ou julgamentos. O texto a seguir é formado por uma sequência explicativa. A grande novidade da vacina feita pelos pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Pensilvânia, cujos resultados são publicados na revista “Nature Medicine”, é que ela foi feita com genes enfraquecidos de HIV tipo 1. Genes são os trechos do material genético (DNA) que produzem uma proteína. Dentro do corpo de um chimpanzé, esses genes irão produzir proteínas do vírus. As vacinas, em geral, usam o próprio vírus ou uma bactéria atenuados (enfraquecidos). Os cientistas colocaram esses genes em um plasmídio, um DNA circular que tem a capacidade de se duplicar. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5829 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 30 O objetivo desse tipo de terapia, conhecido como terapia genética, é que esse plasmídio, o qual age como um táxi, carregando os genes, se insira no material genético do próprio chimpanzé, fazendo com que as células do animal passem a produzir as proteínas do HIV. Embora isso não tenha ocorrido, os plasmídios permaneceram no corpo do macaco tempo suficiente para estimular o sistema de defesa do animal contra as proteínas do vírus da Aids. Quando o HIV-1 foi injetado, o sistema de defesa já estava preparado para lutar contra ele. (ASSUMPÇÃO, João Carlos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 abr. 1997. Caderno 1, p. 20. Adaptado) Com base no protótipo explicativo, esse texto pode ser analisado da seguinte forma: A grande novidade da vacina feita pelos pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Pensilvânia, cujos resultados são publicados na revista “Nature Medicine”, é que ela foi feita com genes enfraquecidos de HIV tipo 1. Genes são os trechos do material genético (DNA) que produzem uma proteína. Dentro do corpo de um chimpanzé, esses genes irão produzir proteínas do vírus. As vacinas, em geral, usam o próprio vírus ou uma bactéria atenuados (enfraquecidos). Os cientistas colocaram esses genes em um plasmídio, um DNA circular que tem a capacidade de se duplicar. O objetivo desse tipo de terapia, conhecido como terapia genética, é que esse plasmídio, o qual age como um táxi, carregando os genes, se insira no material genético do próprio chimpanzé, fazendo com que as células do animal passem a produzir as proteínas do HIV. Esquematização inicial (O que será explicado?) Problema (questão) (Como, dentro do corpo de um chimpanzé, esses genes irão produzir proteínas do vírus?) Explicação (resposta) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5830 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 31 Atividade 5 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o trecho abaixo, que é predominantemente explicativo, e apontem as características desse tipo textual nele presentes. Globalização: estado nacional e espaço mundial A revolução da informação assenta-se na emergência de um conjunto de indústrias que participam da onda contemporânea de inovação tecnológica. Ela movimenta uma gama crescente de mercadorias, que envolvem computadores pessoais, softwares, satélites espaciais, aparelhos de telefonia celular e videotexto, centrais e cabos telefônicos de fibras óticas e muitas outras que estão por vir. As suas ramificações abrangem setores tão distintos quanto a indústria de armamentos, a de telecomunicações e a de eletrodomésticos. Contudo, provavelmente as suas maiores repercussões são as indiretas. A revolução da informação possibilita um salto na unificação do mercado mundial. A globalização dos mercados financeiros, deflagrada nos anos oitenta, não poderia ter sido fruto exclusivamente das idéias econômicas liberais. Para se tornar realidade, o supermercado mundial das finanças necessitou de uma base tecnológica, fornecida pela revolução da informação. Os satélites de comunicações e as redes de computadores tornaram possível a realização de operações entre os mercados de moedas, títulos e ações ao redor do planeta 24 horas ao dia, em tempo real. A etapa crucial dessa revolução foi alcançada com a configuração de uma autopista global da informação: a Internet. A rede nasceu nos Estados Unidos, no longínquo ano de 1969, sob a denominação de Arpanet, a partir da interligação de pequenas redes locais operadas Embora isso não tenha ocorrido, os plasmídios permaneceram no corpo do macaco tempo suficiente para estimular o sistema de defesa do animal contra as proteínas do vírus da Aids. Quando o HIV-1 foi injetado, o sistema de defesa já estava preparado para lutar contra ele. Conclusão-avaliação Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5831 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 32 por centros de pesquisa e universidades. Entretanto, a sua expansão explosiva ocorreu apenas no início da década de 90, com a difusão dos computadores pessoais, dos cabos telefônicos de fibra ótica e das empresas de serviço on-line. (MAGNOLI, Demétrio. Globalização: estado nacional e espaço mundial. São Paulo: Moderna, 1997. p. 30-31. Adaptado.) 1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo1.1.4 Tipo argumentativo O tipo argumentativo ocorre no texto cujo objetivo predominante é discutir ideias, estabelecendo polêmicas entre pontos de vista. A sequência argumentativa típica se organiza em (1) tese anterior, parte na qual se apresenta e se delimita o tema sobre o qual se formula o ponto de vista, (2) dados (ou premissas), parte em que se apresentam informações que serão usadas na defesa do ponto de vista, (3) escoramento de inferências (ou desenvolvimento), parte em que ocorre a defesa do ponto de vista, com base nas premissas, e (4) conclusão, parte a que se chega por dedução lógica e que traz uma nova tese. Nesse tipo, a finalidade é comentar e/ou avaliar ideias, opiniões, na tentativa de mudar a visão do outro sobre essas ideias e opiniões. Adam (1992, p. 118) representa o protótipo da sequência argumentativa da seguinte forma: Esse tipo textual, assim como o tipo explicativo, é organizado no tempo presente. Neles ainda são usados articuladores textuais ou marcadores de relações lógicas, que indicam relações de causa, consequência, finalidade, condição etc. Mas, diferentemente do explicativo, o tipo argumentativo pode apresentar, em sua organização, citações, exemplificações, conceituações, comparações, bem como elementos dêiticos, já que, na busca por convencer o outro, o locutor pode dirigir-se a ele por meio de pronomes. O texto a seguir é formado por uma sequência argumentativa. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5832 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 33 MUNIQUE – Ségolène Royal já era uma estrela em ascensão na política francesahá algum tempo. Agora, ganhou farto espaço em jornais globais. Tudo porque, como pré-candidata à Presidência nas eleições de 2007, apresentou propostas para enfrentar o problema da criminalidade juvenil consideradas bastante duras, em se tratando de uma dirigente do Partido Socialista, tido historicamente como brando demais nessa matéria. No seu próprio partido, as idéias causaram inquietação porque há uma inércia intelectual pela qual se delega à direita a dureza nessa questão. Como o Brasil tem problemas de criminalidade (juvenil e adulta) bem mais sérios do que a França, convém dar pelo menos uma olhadinha nas propostas concretas dessa guinada – ou início de guinada – da esquerda. Primeiro, ela quer que os jovens delinqüentes prestem algum tipo de serviço civil, com o Exército, para lhes ensinar “disciplina”. Quer também que os pais desses jovens freqüentem uma escola de pais, no pressuposto de que cabe também a eles pôr os filhos na linha. Por fim, sugere que os jovens que cometem crimes tenham congeladas as verbas que o Estado aloca para as famílias, verbas que, no caso francês, são razoavelmente generosas. Boas ou ruins, as propostas fogem do padrão de achar que os jovens que cometem delitos o fazem só por falta de oportunidades. No Brasil, o enfoque dos “coitadinhos” se justifica mais que na França porque o país há muito deixou de ser a terra das oportunidades. Seja como for, o crescimento da violência pede, a gritos, idéias novas. As de Ségolène podem até ser ruins, mas são melhores que a inércia que se vê no Brasil, como se o problema fosse desaparecer se a gente não falar dele. (ROSSI, Clóvis. Violência e inércia. Folha de S.Paulo. Opinião. Jun.07, 2006.A2.) Com o protótipo argumentativo, é possível analisar o texto desta maneira: Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5833 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 34 Escoramento de inferências (Defesa do ponto de vista do autor, com base nas premissas) Sequência narrativa com função de preparação para a sequência argumentativa Sequência argumentativa Tese anterior (O que pensa o autor sobre o problema da criminalidade no Brasil) MUNIQUE – Ségolène Royal já era uma estrela em ascensão na política francesa há algum tempo. Agora, ganhou farto espaço em jornais globais. Tudo porque, como pré- candidata à Presidência nas eleições de 2007, apresentou propostas para enfrentar o problema da criminalidade juvenil consideradas bastante duras, em se tratando de uma dirigente do Partido Socialista, tido historicamente como brando demais nessa matéria. No seu próprio partido, as idéias causaram inquietação porque há uma inércia intelectual pela qual se delega à direita a dureza nessa questão. Como o Brasil tem problemas de criminalidade (juvenil e adulta) bem mais sérios do que a França, convém dar pelo menos uma olhadinha nas propostas concretas dessa guinada – ou início de guinada – da esquerda. Primeiro, ela quer que os jovens delinquentes prestem algum tipo de serviço civil, com o Exército, para lhes ensinar “disciplina”. Quer também que os pais desses jovens frequentem uma escola de pais, no pressuposto de que cabe também a eles pôr os filhos na linha. Por fim, sugere que os jovens que cometem crimes tenham congeladas as verbas que o Estado aloca para as famílias, verbas que, no caso francês, são razoavelmente generosas. Boas ou ruins, as propostas fogem do padrão de achar que os jovens que cometem delitos o fazem só por falta de oportunidades. No Brasil, o enfoque dos “coitadinhos” se justifica mais que na França porque o país há muito deixou de ser a terra das oportunidades. (Dados) Premissas (Informações sobre as ideias de Ségolène, as quais o autor vai usar para defender seu ponto de vista) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5834 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 35 Seja como for, o crescimento da violência pede, a gritos, idéias novas. As de Ségolène podem até ser ruins, mas são melhores que a inércia que se vê no Brasil, como se o problema fosse desaparecer se a gente não falar dele. Atividade 6 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o trecho abaixo, que é predominantemente argumentativo, e apontem as características desse tipo textual nele presentes. Estatuto legaliza o racismo O Senado já aprovou e a Câmara ainda vai analisar a mais desastrosa idéia sobre as questões raciais no Brasil A nobilíssima idéia de combater o racismo no Brasil, uma prática detestável que ficou sufocada por anos a fio sob o mito da democracia racial, acabou produzindo uma das peças mais desastrosas – e racistas – de que se tem notícia. É o Estatuto da Igualdade Racial, que tem 85 artigos e já foi aprovado pelo Senado, em novembro do ano passado, sem passar sequer pelo crivo do plenário. Desde então, o estatuto está na Câmara. Até agora, no entanto, ninguém se deu ao trabalho de examiná-lo a fundo. Quem o fizer verá que se trata de um conjunto de artigos que legalizam a discriminação racial, trazendo em seu bojo tudo o que isso representa: preconceito, retrocesso e ilegalidade. O estatuto, tal como está, fere a Constituição, pois trata brancos e negros de forma desigual e ainda faz uma enorme contribuição para incitar o ódio racial. O Estatuto da Igualdade Racial começa com uma monstruosidade: exige que os brasileiros assumam uma “raça” – o critério é o declaratório –, pois obriga que todos os documentos oficiais contenham a informação sobre a cor do cidadão: prontuários médicos, certidão de nascimento, censo escolar, pedidos de aposentadoria. A medida força a criação de uma divisão racial na população brasileira, excrescência que tem origem no racismo científico do fim do século XIX e resultou na noção de raças inferiores e superiores, servindo de inspiração para a criação do regime do apartheid na África do Sul e para o triunfo do racismo na Alemanha nazista. “O estatuto não contribui em nada para reduzir a discriminação, pelo contrário”, afirma o geógrafo Demétrio Magnoli. “A nação, como um contrato entre cidadãos iguais em direitos, será Conclusão (Nova tese: “As [ideias] de Ségolène podem até ser ruins, mas são melhores que a inércia que se vê no Brasil”) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5835 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 36 substituída por uma confederação de ‘raças’. Evidentemente estão sendo plantadas as sementes dos conflitos étnicos no futuro.” [...] (Disponível em: . Acesso em: 18 nov. 2010) 1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal1.1.5 Tipo dialogal O tipo dialogal compõe os gêneros em que há interlocução direta entre os parceiros da comunicação: bate-papo, entrevista, debate, conversação telefônica, etc. O diálogo tem como característica principal ser produzido por mais de um interlocutor ou por mais de um personagem, quando o diálogo está inserido em uma sequência de outro tipo. Como pode acontecer em romances, por exemplo, o diálogo entre personagens se insere em uma sequência narrativa. O tipo dialogal tem como forte característica a presença de elementos dêiticos, fazendo referência ao contexto físico da interação (aqui, agora) e aos interlocutores (eu, você, a gente), bem como de marcadores conversacionais (olha, bem, bom, né). Segundo Adam (1992), um diálogo é formado por sequências fáticas e sequências transacionais. As sequências fáticas têm por função abrir e fechar uma interação: A: Bom dia! B: Bom dia! A: Até logo. B: Até logo. Já as transacionais formam a parte central do diálogo e têm como forma típica o par pergunta e resposta: A: Que horas são? B: São nove horas. Mas, geralmente, as sequências transacionais assumem formas mais complexas, por causa de ajustes, acordos e desacordos que os interlocutores podem estabelecer ao longo da interação. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5836 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 37 O protótipo da sequência dialogalse representa desta forma (ADAM, 1992, p. 159): O texto abaixo é formado por uma sequência dialogal. A vaguidão específica – Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte. – Junto com as outras? – Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer qualquer coisa com elas. Ponha no lugar do outro dia. – Sim senhora. Olha, o homem está aí. – Aquele de quando choveu? – Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. – Que é que você disse a ele? – Eu disse pra ele continuar. – Ele já começou? – Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse. – É bom? – Mais ou menos. O outro parece mais capaz. – Você trouxe tudo pra cima? – Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar até a véspera. – Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama como na outra noite. – Está bem, vou ver como. (FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. Rio de Janeiro: Nórdica, 1974. p. 88.) Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5837 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 38 Nesse texto, as personagens não realizam as sequências de abertura (cumprimentos) e de encerramento (despedidas), mas apenas sequências transacionais. As personagens produzem duas sequências transacionais, sendo a segunda encaixada na primeira. A primeira sequência aborda o tópico “onde colocar os objetos/as coisas”. Em sua parte inicial, essa sequência traz uma ordem (“Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte”), um pedido de esclarecimento (“Junto com as outras?”) e o esclarecimento (“Não ponha junto com as outras, não. [...]”). Em seguida, essa sequência é interrompida por uma outra que trata do tópico “o trabalhador”. Essa segunda sequência traz diferentes pedidos de esclarecimento (“Aquele de quando choveu?”) e esclarecimentos sobre o trabalhador (“Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo”). Terminada essa segunda sequência, um pedido de esclarecimento (“Você trouxe tudo pra cima?”) indica que as personagens retomam a primeira sequência sobre “onde colocar os objetos/as coisas”. O esquema abaixo representa essa análise. Atividade 7 – Reúna-se com seus colegas. Leiam o texto abaixo e analisem as passagens em que prevalecem as sequências dialogais, apontando suas características típicas. A Dança da Maçã Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento, mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram secamente. – Oi. – Oi. Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com ele. Um senhor e um mais moço. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5838 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 39 – Este e o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo? – Arlei disse o mais moco. – Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudanca. – Bom dia – disse Luiza. – Ja está tudo mais ou menos separado. Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada articulada de mesa de desenho, a mesa de desenho desmontada, uma taça de metal. Tudo junto perto da porta. – Eu resolvi levar a poltrona – disse Antonio. – Tudo bem – disse Luiza. – E isso aí, pessoal ? disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali. [...] – Album de fotografia. Vai também? – Vai – disse Luiza. Tudo que esta nas sacolas vai embora. Arlei estava olhando o álbum. Mostrou para o seu Molina: – Olha os dois na praia. E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas para baixo, querendo dizer “Sim senhora, hein?”, e que a Luiza de biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando para Luiza. – Voce não quer ficar com o álbum? Luiza perdeu a paciência. – Nao quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e nos sacos, é para ir embora. São dele. [...] (Disponível em: . Acesso em: 13 out. 2010.) 1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual1.1.6 Heterogeneidade textual Quando se caracteriza um tipo de texto como narrativo, descritivo, explicativo, argumentativo ou dialogal, o que se faz é apontar sua forma predominante de organização, pois os textos dificilmente se apresentam puros. Normalmente, encontram-se nos textos autênticos mais de um tipo de organização. Numa carta pessoal, por exemplo, como mostra Marcuschi (2002), nota-se uma variedade de sequências tipológicas. Nos gêneros textuais, há grande heterogeneidade de tipos textuais. Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5839 Curso de Especialização em Língua Portuguesa: Ensino de Leitura e Produção de Textos 40 O texto abaixo é o início de uma reportagem. (A) Em julho do ano passado, Luís Cláudio, filho do presidente Lula, e um grupo de catorze amigos paulistas passaram as férias em Brasília. Hospedaram-se no Palácio da Alvorada, fizeram churrasco na Granja do Torto, passearam de lancha no Lago Paranoá e conheceram os principais gabinetes do Palácio do Planalto. O episódio veio à tona na semana passada, em fotos divulgadas na internet pelos próprios garotos, e causou polêmica. A oposição prometeu abrir uma investigação e pedir a devolução de todo o dinheiro oficial gasto na estada brasiliense dos jovens. (B) Há uma boa dose de exagero nessa reação. Durante o mandato, o Palácio da Alvorada é a casa do presidente. É seu “lar”, para usar uma palavra de conotações mais fortes. Não existem impedimentos legais para ele receber as visitas que desejar ali, ainda que sejam amigos do filho. [...] (Disponível em: . Acesso em: 18 nov.2010) Nesse trecho, há pelo menos dois tipos distintos de sequências textuais. Na sequência que se inicia com a letra A, o jornalista conta que um dos filhos do presidente e amigos passaram as férias em Brasília e passearam por residências e lugares oficiais, o que deu origem a uma polêmica no mundo político. Mas, na sequência que se inicia com a letra B, o jornalista traz argumentos para defender que há exagero na reação da oposição. Nessa sequência, o jornalista argumenta que o presidente pode receber as visitas que quiser no Palácio da Alvorada, já que esse local é a sua casa. Como se vê, o início dessa reportagem não é homogêneo do ponto de vista dos tipos que o compõem, porque é formado por pelo menos duas sequências: uma narrativa e uma argumentativa. Vejamos outro exemplo, que constitui o início de um artigo de opinião. (A) Artigo no O Estado de S. Paulo mostra que os índios piraãs, da Amazônia, só têm três palavras para os números. O número um é “hói”. O número dois, “hoí”. A terceira palavra usada pelos piraãs é “aíbaagi”, que significa muitos. Se você desenhar dois riscos no chão, eles conseguirão repetir o desenho. Mas ficarão confusos, se você fizer seis riscos. (B) Em Brasília, os sábios que cuidam ou cuidaram do programa Fome Zero têm um problema parecido com o dos piraãs, Livro-05-Janice-Marinho.p65 10/11/2012, 17:5840 O texto e sua tipologia: fundamentos e aplicações 41 só que em sentido contrário. Eles só se sentem confortáveis com cifras altas. Para quantificar o contingente de famintos do Brasil, não aceitam nada inferior a 50 milhões de pessoas. [...] (Disponível em: . Acesso em 18 nov.2010) Na sequência que se inicia com a letra A, o articulista explica que os índios piraãs têm apenas três palavras para os números. Em seguida, na sequência que se inicia com a letra B, ele compara os índios piraãs com “os sábios que cuidam ou cuidaram do Fome Zero”: enquanto os índios ficam confusos com muitos números, os “sábios do Fome Zero” só se sentem confortáveis com cifras altas. Na primeira sequência, o autor tem por objetivo transformar o estado de conhecimento do leitor, explicando, como se fosse uma testemunha, a forma como os índios lidam com