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Como criar verdades, quando se sabe que ela nada mais é do que aquilo que um sujeito faz dela?
A construção do pensamento contemporâneo exige um olhar crítico sobre as concepções filosóficas e científicas que moldam nossa visão de mundo. Ailton Krenak, Deleuze, Nietzsche e Derrida questionam os paradigmas hegemônicos que fundamentam a relação entre humanidade e natureza. O pensamento ocidental, estruturado sobre dicotomias como sujeito-objeto e natureza-cultura, limitou a percepção da complexidade da vida, impondo uma visão antropocêntrica que resultou na exploração desenfreada dos recursos naturais. O impacto ambiental e social dessa mentalidade se manifesta em tragédias como Mariana e na crise climática global, apontando para a necessidade urgente de uma nova relação com o mundo.
Krenak denuncia o afastamento da humanidade da natureza, evidenciado na forma como tratamos os rios, florestas e seres vivos como meros recursos para o desenvolvimento econômico. Sua crítica se intensifica quando, ao ouvir de engenheiros que a recuperação do Rio Doce seria “impossível”, ele rebate com a constatação de que o mundo parou diante da pandemia da COVID-19. Essa interrupção forçada expôs a fragilidade do sistema e a ilusão de uma humanidade soberana sobre a Terra. Em suas palavras, a civilização moderna naturalizou desigualdades e devastação ambiental, acreditando-se independente da teia da vida.
Deleuze e Guattari, em Mil Platôs, propõem uma visão rizomática da realidade, na qual os saberes não devem ser estruturados em hierarquias fixas, mas sim em multiplicidades interconectadas. Essa abordagem desconstrói a ideia de uma única verdade universal, permitindo a coexistência de múltiplos modos de existência e de pensamento. Nietzsche, por sua vez, critica a busca pela verdade absoluta, defendendo que o conhecimento é sempre uma construção interpretativa. A verdade, nesse sentido, não é um dado fixo, mas algo que o sujeito cria a partir de sua experiência e perspectiva.
A tragédia de Mariana e a destruição de Pompéia, embora distintas em suas causas – uma resultante da irresponsabilidade humana, outra de um fenômeno natural –, compartilham um aspecto comum: ambas deixam marcas na memória coletiva, tornando-se símbolos da relação entre humanidade e seu ambiente. A fotografia de Christian Cravo, ao capturar o que restou de Mariana, provoca uma reflexão sobre a permanência e a transitoriedade, o impacto humano e a resiliência da natureza. A imagem, assim como a filosofia, nos obriga a ver além do óbvio, desautomatizando a percepção e questionando as verdades impostas.
Diante dessas reflexões, percebe-se que criar verdades é um ato de subjetivação e resistência. A humanidade construiu verdades que legitimaram a exploração e a desigualdade, mas pode também criar formas de existência, baseadas na interdependência e no respeito à vida. Como Krenak nos lembra, não somos o centro do universo – e talvez seja hora de repensarmos nosso lugar na Terra.
Referências
· AGAMBEN, G. A potência do pensamento: ensaios e conferências. Tradução de Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
· DELEUZE, G; GUATTARI, F. O Que é filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010.
· DELEUZE, G. Nietzsche e a filosofia. São Paulo: N-1, 2018.
· JASPERS, K. Introdução à filosofia de Friedrich Nietzsche. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense, 2015. Minha Biblioteca.
· MACHADO, R. O professor e o filósofo. In: Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015. 
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