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TRAUMATO ORTOPÉDICO FUNCIONAL I Lucimara Ferreira Magalhães Complexo do ombro Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir a propedêutica do osso, do músculo, da cartilagem, da bursa, do líquido sinovial e dos nervos periféricos relacionados ao complexo do ombro. Diferenciar os tratamentos fisioterapêuticos das lesões musculoes- queléticas de sobrecarga, traumáticas e compressivas relacionadas ao complexo do ombro. Elaborar fluxos para os tratamentos fisioterapêuticos das lesões muscu- loesqueléticas de sobrecarga, traumáticas e compressivas relacionadas ao complexo do ombro. Introdução O membro superior tem como característica uma das maiores ampli- tudes de movimento do corpo, assim como a funcionalidade para as atividades diárias de higiene, alimentação, laborais, entre outras. Por ser um segmento com muita demanda, é passível de lesões no decorrer da vida — o que é muito comum. Embora a conscientização e a prevenção divulgada por meios de saúde pública estejam em crescimento, ainda é preciso melhorá-las muito. Assim, neste capítulo, você vai ver conceitos básicos sobre as estru- turas do complexo do ombro (ossos, articulações, nervos e músculos), aprendendo a diferenciar os tipos de tratamentos para as lesões por sobrecarga, traumáticas e compressivas e vendo como planejar trata- mentos fisioterapêuticos para cada tipo de lesão. Propedêutica dos ossos, cartilagens, bursas, líquido sinovial, músculos e nervos periféricos Ossos O cíngulo escapular compreende o complexo do ombro e seus adjacentes. Nele, estão inseridos os seguintes ossos: clavículas, escápulas e esterno. Especialmente ligado à escápula está inserido o úmero, o osso mais extenso do membro superior. O cíngulo produz estabilidade similar à do quadril, mas ainda com maior mobilidade, visto que sua função difere da do quadril, que é de sustentação do corpo. O ombro está mais ligado à funcionalidade, ao alcance e à manipulação de objetos ou coisas. As estruturas e suas ligações podem ser observadas na Figura 1. Figura 1. Ossos do cíngulo e membro superior. Fonte: Adaptada de Studiovin/Shutterstock.com. Complexo do ombro2 O esterno (Figura 2) é o osso mais medial do cíngulo e constitui a parte que liga o cíngulo ao gradil costal. Esse osso possui três porções, o manúbrio, que se articula com as clavículas, o corpo, que se articula com as costelas, e o processo xifoide, parte inferior ao corpo. No esterno, insere-se o músculo peitoral maior (NEUMANN, 2011). Figura 2. Anatomia do esterno. Fonte: Adaptada de Sakurra/Shutterstock.com. A clavícula é um osso do tipo longo, em formato leve de “s”, isto é, curvado, que se articula com a porção do manúbrio no esterno na parte proximal e com o acrômio da escápula em sua parte distal. As funções da clavícula são: suporte, limitação óssea e transmissão de forças. Com isso, dá suporte ao cíngulo, mantendo a rigidez e o posicionamento dos membros superiores em relação ao tronco. Além disso, a clavícula age em conjunto com a musculatura respiratória — durante a elevação, facilita a inspiração profunda. A clavícula é composta por estruturas mais sensíveis, feixes neurovasculares responsáveis por manter o suprimento neurovascular do membro superior, e possui uma angulação de posicionamento com a escápula, “fechando” o cíngulo do membro superior. O interior da clavícula é constituído por osso esponjoso e suas proemi- nências dão suporte a ligamentos e músculos locais. O osso e algumas dessas proeminências podem ser observados na Figura 3. 3Complexo do ombro Figura 3. Clavícula. Fonte: Adaptada de Studiovin/Shutterstock.com. A clavícula possui um canal para o ramo do nervo supraclavicular, e suas curvaturas podem variar de indivíduo para indivíduo. Em indivíduos que desenvolvem trabalhos manuais, elas podem ser mais espessas e mais marcadas nas inserções. O desenvolvimento da habilidade motora afeta o seu comprimento, sendo comum encontrar o lado esquerdo mais curto em destros. A fratura que acomete a clavícula costuma ser por força externa indi- reta, normalmente, resultante de quedas com a mão espalmada ao chão. O trauma ocorre de forma indireta, a depender do vetor de força resultante. Sua região menos resistente é entre o terço médio e lateral (Figura 4), sendo que em crianças a fratura é mais comum devido ao processo de formação do osso. Complexo do ombro4 Figura 4. Fratura de clavícula. Fonte: Alila Medical Media/Shutterstock.com. Como a função desse osso também é transmitir forças do esqueleto apen- dicular para o axial, sempre que a força for maior que sua capacidade, haverá risco de fratura. Em função de o manúbrio ser uma estrutura mais fixa, a clavícula é responsável por dissipar a força externa recebida. É comum que após a fratura o osso seja tracionado em duas direções devido às forças exercidas pelo músculo esternocleidomastoideo — elevação da porção medial —, e a inabilidade do trapézio em manter a porção lateral na posição faz com que ela se desloque para baixo (MOORE; DALLEY; AGUR, 2014). A escápula é um osso considerado plano, com formato triangular; a base do triângulo se situa na região superior e o ápice na inferior. Trata-se de um osso da superfície posterior do tronco que não está inserido no gradil costal por articulações, mas possui sua junção por meio de músculos. Essa condição é extremamente importante devido às funções que a escápula está designada a realizar, auxiliando o úmero em diversos movimentos. Além disso, a escápula é delimitada por suas bordas e ápice, borda superior, lateral, medial e ápice para visualização e/ou palpação (NEUMANN, 2011). A escápula é um osso complexo, visto suas proeminências dedicadas ao acomodamento de músculos, origens e inserções (Figura 5). 5Complexo do ombro Figura 5. Acidentes ósseos da escápula. Fonte: Adaptada de Tefi/Shutterstock.com. Margem superior Incisura da escápula Ângulo superior Acrômio Face articular do acrômio Colo da escápula Cavidade glenoidal Ângulo lateral Margem lateral Ângulo inferior Face costal Linhas musculares Fossa subescapular Ângulo superior Fossa supraespinal Espinha da escápula Margem medial Ângulo inferior Margem lateral Fossa infraespinal Colo da escápula Tubérculo infraglenoidal Ângulo lateral Acrômio Processo coracoide Incisura da escápulaMargem superior Complexo do ombro6 A escápula se articula com o úmero na cavidade glenoide e com a clavícula no acrômio. O processo coracoide serve de inserção para ligamentos e músculos. A escápula é menos passível de lesões, visto que fica envolvida por músculos; a parte mais proeminente e suscetível de lesões é o acrômio (Figura 6) nos casos em que ele é mais protruso (NEUMANN, 2011). Figura 6. Tipos de acrômio. Fonte: Adaptada de ellepigrafica/Shutterstock.com. O úmero é o osso mais longo do membro superior e possui uma cabeça esferoide em sua extremidade superior que se articula com a cavidade gle- noide. Essa superfície articular, do tipo esferoide, concede uma gama de movimentos nos três eixos, além de permitir que ocorram os movimentos combinados. Esses movimentos são os funcionais, ligados ao alcance, visto que o osso, haste, promove um alcance para que as mãos possam chegar a pontos mais altos, baixos, profundos e estreitos. Como o quadril, a cabeça do úmero possui uma inclinação em relação ao seu corpo e à sua articulação. A cabeça é posicionada medialmente e superiormente e forma um ângulo de 135° com o corpo; a posição do úmero em relação à cavidade glenoide possui em média 30° de retroversão. Além disso, o úmero também possui diversos acidentes e proeminências que residem origens e inserções musculares e ligamentos (Figura 7). 7Complexo do ombro Figura 7. Acidentes ósseos do úmero. Fonte: Adaptada de Achiichii/Shutterstock.com. Cartilagens, bursas e líquido sinovial O complexo do ombro possui quatro articulações: a esternoclavicular,a acro- mioclavicular, a glenoumeral e a escapulotorácica, sendo que a última é consi- derada falsa por não possuir faces articulares. A articulação esternoclavicular é a junção entre a clavícula e o esterno e está posicionada medial bilateralmente. Ela faz a ligação entre o membro superior e o esqueleto axial e promove os movimentos de elevação, depressão, protração, retração e rotação posterior, já que sua superfície articular em formato irregular e de sela só permite rotação posterior. Essa articulação possui cápsula articular reforçada por ligamentos e músculos. Os ligamentos que reforçam a cápsula são os esternoclaviculares anterior e posterior, costoclavicular, sendo que o interclavicular liga uma clavícula à outra, formando a incisura jugular. Os músculos que estabilizam a articulação são o esternocleidomastoideo, o esternotireoideo e o subclávio (HALL, 2016). Complexo do ombro8 A articulação acromioclavicular é a junção entre o acrômio da escápula com a clavícula; é irregular e do tipo sinovial. Possui líquido sinovial, mas não oferece tanta liberdade de movimento nos três planos. A estabilidade da articulação é dada pelos ligamentos coracoclaviculares e pode haver variações anatômicas entre os indivíduos. A articulação coracoclavicular é a junção do processo coracoide com a clavícula, é estabilizada pelo ligamento coracoclavicular e não produz grande amplitude de movimento. A articulação glenoumeral é a mais complexa do cíngulo do membro superior e é também a que possui maior grau de liberdade, promovendo movimentos nos três planos e sendo auxiliada pelas outras articulações adjacentes, em especial a escapulotorácica. A fossa da cavidade glenoide é rasa em relação à outra face articular, permitindo maior grau de liberdade, mas oferece certa instabilidade para o membro superior. A anatomia pro- move a estabilidade da articulação por meio de tecidos moles, ligamentos e músculos. O lábio glenoidal envolve a cabeça do úmero, promovendo uma pressão negativa para o acoplamento biomecânico da articulação. Além disso, os ligamentos glenoumerais superior, médio e inferior e o coracou- meral fazem a estabilização passiva. Os tendões dos músculos do manguito rotador também estão envolvendo a articulação e fazem a estabilização ativa; são eles: o supraespinal, o infraespinal, o redondo menor e o subescapular (HALL, 2016). A articulação escapulotorácica promove movimentos do cíngulo e auxilia nos movimentos da articulação glenoumeral. Essa articulação não possui face articular, sendo ligada por meio dos músculos que agem nos dois segmentos. As funções desses músculos são estabilizar o membro superior quando ele sustenta alguma carga e auxiliar os movimentos do membro superior, promovendo o posicionamento adequado da articulação glenoumeral. As bursas são pequenas bolsas de líquido sinovial que promovem amorte- cimento e impedem o estresse articular entre ossos e músculos. As três bursas mais importantes do ombro são a subescapular, a subacromial e a subcoracoide. As duas primeiras são responsáveis por impedir o estresse entre o músculo subescapular e o colo da escápula, a cabeça do úmero e o processo coracoide. Elas são, na verdade, uma única bursa que é dividida nominalmente por suas regiões em contato (Figura 8). 9Complexo do ombro No espaço subacromial, encontra-se a sua respectiva bursa. O papel da bursa subacromial é amortecer o manguito rotador, mantendo o supraespinal fora de contato com o acrômio. Em caso de compressão, essa bursa pode tornar-se facilmente irritável e entrar em processo inflamatório. Figura 8. Bursas do ombro. Fonte: Carvalho et al. (2019, documento on-line). Músculos Os músculos que agem sobre a escápula movimentado-a ou estabilizando-a são o levantador da escápula, os romboides, o serrátil anterior, o peitoral menor, o subclávio e o trapézio. Cada um deles exibe uma ou mais funções na escápula. Os músculos trapézio superior, peitoral menor, subclávio e levantador da escápula promovem elevação. Os romboides realizam a adução entre as escápulas, além de facilitar a rotação lateral de úmero. O músculo trapézio inferior promove a depressão escapular e sua posição correta no gradil costal (Figura 9) (HALL, 2016). Complexo do ombro10 Figura 9. Músculos escapulares. Fonte: Carvalho et al. (2019, documento on-line). Os MÚSCULOS deltoide, bíceps, peitoral maior, grande dorsal e músculos do manguito rotador promovem movimentos do úmero em relação ao cín- gulo. Os deltoides realizam elevação lateral em sua porção média, rotação lateral e extensão em sua porção posterior e flexão e rotação interna de ombro em sua porção anterior. O músculo grande dorsal promove rotação externa, extensão e depressão do ombro. Os músculos do manguito (Figura 10), além de estabilizarem a articulação, promovem rotação lateral pelo infraespinhoso e pelo redondo menor, rotação medial pelo subescapular e início da abdução de ombro pelo supraespinhoso. A combinação da ativação muscular promove movimentos combinados de acordo com suas funções primárias (HALL, 2016). 11Complexo do ombro Figura 10. Músculos do manguito rotador. Fonte: Adaptada de Alila Medical Media/Shutterstock.com. Nervos periféricos Os nervos periféricos (Figura 11) que inervam os músculos do complexo do ombro são ramifi cações do plexo braquial derivados da coluna cervical. O músculo deltoide é inervado em todas suas porções pelo nervo axilar (C5-6). O músculo peitoral maior possui seus ventres com irrigações dis- tintas; a parte clavicular é inervada pelo nervo peitoral lateral (C5-T1) e a parte esternal pelo nervo peitoral medial (C5-T1). O músculo supraespinal é inervado pelo nervo supraescapular (C5-6). O músculo latíssimo do dorso ou grande dorsal é inervado pelo toracodorsal (C6-8). Os músculos redondo maior, subescapular e infraespinal são inervados pelo nervo subescapular (C5-6). O redondo menor é inervado pelo axilar (C5-6) e o bíceps braquial é inervado pelo musculocutâneo (C5-7). Logo, se um desses nervos periféricos for lesado, os músculos inervados por eles terão suas funções comprometidas — esse tipo de lesão se dá devido a traumas, esmagamento ou compressão (HALL, 2016). Complexo do ombro12 Figura 11. Nervo do ombro. Fonte: Adaptada de VectorMine/Shutterstock.com. Lesões musculoesqueléticas do ombro Lesões traumáticas O ombro está muito propenso a luxações devido a fatores biomecânicos e anatômicos. Essa é a articulação que mais sofre luxação — sua incidência se dá em 23 a cada 100.000 habitantes (KWON; KULWICKI; ZUCKERMAN, 2013; SZYLUK et al., 2016), pode estar ligada à instabilidade articular e a recidiva é comum devido a causas traumáticas (LECH, 2003; BASTA et al., 2017). São mais comuns a luxação anterior e a posterior (Figura 12), nem sempre ligadas à fratura. O tipo de fratura mais comum é a do terço proximal e a sua causa normalmente é por queda (COOKE; HACKNEY, 2005; MONTEIRO et al., 2011). 13Complexo do ombro Figura 12. Luxação de ombro. Fonte: Adaptada de Alila Medical Media/Shutterstock.com. A luxação é citada na literatura como uma desarticulação ou semide- sarticulação, a subluxação. Ela pode ocorrer devido a um trauma direto, após um trauma, por redução da sua estabilidade ou por forças aplicadas aos movimentos articulares do ombro, como abdução, extensão e rotação lateral de ombro (LECH, 2003; MATSEN et al., 1998). Antes, o tratamento fisioterapêutico para luxação era realizado tardiamente, apenas após a cicatrização tecidual, e esse “atraso” gerava impactos negativos para o prognóstico, como atrofia muscular e compensação de outros músculos para as tarefas (PARDINI; FREITAS, 2003). A lesão da coifa dos rotadores é pouco comum em crianças; quando há, são comuns pequenas avulsões das turberosidades. O público mais comum é o dos atletas, nos quais ocorrem pequenos traumatismos repetitivos associados a esportes que utilizam movimento acima do nível da cabeça. Entre os músculosmais comu- mente acometidos, estão o supraespinhoso e o subescapular (WEISS et al., 2013). As lesões do manguito rotador podem ser causadas por traumas diretos devido a choques nos tendões musculares ou contra o ligamento coracoacromial e o terço anterior do acrômio. Esses choques (impactos) podem gerar tendinites e ruptura do manguito rotador que apresenta quadros álgicos persistentes. Esse tipo de lesão é comum em atividades laborais que exigem atividades acima do nível da cabeça ou em atletas que fazem esse movimento. Os sinais e sintomas são quadro álgico, inflamação e, se não tratado, pode gerar processos degenerativos. Outros sinais facilmente observados na fisioterapia são redução da amplitude de movimento, que pode ser ligada a dor, redução da força muscular e redução da capacidade de realizar as atividades de vida diária (LIN; WEINTRAUB; ARA- GAKI, 2008; METZKER, 2010; TANGTRAKULWANICH; KAPKIRD, 2012). Complexo do ombro14 Além disso, essa área tem sido observada com vascularização reduzida quando compressões de estruturas entre tubérculo maior e acrômio permane- cem hipovascularizadas. O cigarro influencia nos efeitos negativos do prog- nóstico, principalmente no cirúrgico, reduzindo o fornecimento de oxigênio local para a cicatrização tecidual. O uso do tabaco também está associado a danos no manguito rotador devido ao mecanismo que ele promove, reduzindo o oxigênio disponível nos tecidos e fazendo com que os tendões sejam mais propensos a lesões (BAUMGARTEN et al., 2010; MICHELON, ROTHER- NBUHLER, [2011]; CARBONE et al., 2012). Lesões por sobrecarga Os músculos são estruturas importantes na manutenção da estabilidade da articulação do ombro, mantendo-a íntegra e com movimentos preservados. Porém, o uso contínuo e em movimentos repetitivos faz com que haja desgaste miotendíneo e gera dor e fraqueza muscular, que, por sua vez, também pode reduzir a amplitude de movimento. Lesões do manguito rotador (Figura 13) têm as chances aumentadas de acordo com a idade — em alguns casos, são tratadas conservadoramente e, em outros, é necessária a realização de cirurgia (PRASAD et al., 2005; MORRIS et al., 2015). Figura 13. Lesões do manguito rotador. Fonte: Adaptada de Alila Medical Media/Shutterstock.com. 15Complexo do ombro Lesões compressivas A capsulite adesiva (Figura 14) primária é idiopática e a secundária pode ser causada por trauma, fratura, cirurgia ou doenças sistêmicas, como diabetes mellitus, problemas de tireoide, entre outros. Essa lesão acomete indivíduos na faixa de 40 a 60 anos e é mais comum em mulheres, podendo ser bilateral até 5 anos após terminar no primeiro ombro (DIAS; CUTTS; MASSOUD, 2005; BRUE et al., 2007; MANSKE; PROHASKA, 2008; NEVIASER; HANNAFIN, 2010; HSU et al., 2011). Figura 14. Capsulite adesiva. Fonte: Adaptada de ellepigrafica/Shutterstock.com. A síndrome do impacto do ombro é a condição em que os tecidos moles ao redor do ombro se apresentam dolorosos. Essa dor é referida em elevação de braço, no carregamento de pesos ou quando se dorme sobre o braço. A causa é de origem mecânica, basicamente por estresse ou compressão local (MÄKELÄ et al., 1999; GARVING et al., 2017). A dor é ocasionada entre 70 e 120° de abdução de ombro e movimentos forçados acima da cabeça ou sob pressão local, como deitar em cima do ombro acometido (HAERMEYER, 2010). A patologia acomete cada vez mais pessoas em idades mais avançadas, sendo mais comum a partir dos 40 anos de idade (GARVING et al., 2017). Complexo do ombro16 A síndrome pode ser causada pelos impactos subacromial, subcoracoide, interno posterossuperior e anterossuperior, sendo que o mais comum é o su- bacromial. A síndrome subacromial acontece devido ao contato anormal entre manguito rotador e teto do ombro, que pode ocorrer devido ao estreitamento do espaço, por mudanças estruturais, má-posição óssea após lesão traumática no tubérculo maior ou aumento do volume de tecidos subacromiais, como uma tendinite ou bursite subacromial. Processos degenerativos dos tendões podem ocorrer como causas da síndrome, e a patologia é mais comum em sedentários ou pessoas que não possuem uma força adequada para desenvolver as atividades laborais ou esportivas (GARVING et al., 2017). Tratamentos para as lesões musculoesqueléticas O fi sioterapeuta é a peça-chave no tratamento de reabilitação e, por isso, deve possuir um raciocínio clínico muito bom, desenvolver uma prática baseada em evidências e acompanhar o desenvolvimento e a adaptação de cada paciente de acordo com o tratamento proposto. É importante ressaltar que não será uma ou outra técnica que trará o resultado, e, sim, o conjunto de condutas adotadas em sua totalidade. Assim, o profi ssional deve manter-se atualizado e aplicar os melhores métodos de acordo com cada caso. Lesões traumáticas As lesões traumáticas podem ser tratadas conservadoramente ou cirurgicamente dependendo da dimensão e do acometimento; nos dois casos, a fi sioterapia pode ser acionada, mas as condutas deverão ser individualizadas respeitando o tempo de cada caso. O fi sioterapeuta deverá observar os sinais e sintomas, além dos resultados para testes específi cos, a fi m de entender a evolução do caso e o prognóstico. Em lesões traumáticas, é comum a redução da amplitude de movimento, acompanhada de dor, atrofi a muscular dependendo do tempo de repouso ou engessamento do membro, entre outros. A fi sioterapia terá sempre o objetivo de retornar a função para o mais normal possível, sempre tomando como base o membro sadio em caso de comprometimento unilateral (KISNER; COLBY, 1998). O estudo de Basta et al. (2018) indica que, no caso de luxação com interven- ção cirúrgica, o início do tratamento deve ser no primeiro dia pós-operatório dependendo da lesão. Inicialmente, a conduta deve ser analgesia, posiciona- 17Complexo do ombro mento no leito e orientações quanto à imobilização. As fases do tratamento evoluem de movimentos passivos, com angulação de segurança, até que por volta da 16ª semana se possa dar início ao treino de força muscular. Quando a cirurgia é do tipo artroscópica, que é menos agressiva, é possível iniciar o trabalho de ganho de força por volta da 12ª semana. De acordo com o estudo de Basta et al. (2018), o tratamento fisioterapêutico deve ser iniciado no pós-operatório imediato para pacientes com luxação trau- mática anterior que tiveram que ser submetidos a procedimentos cirúrgicos. Essa intervenção imediata mostrou resultado eficaz e satisfação dos pacientes com o tratamento (BASTA et al., 2018). Técnicas de termoterapia, como bolsas de água fria, complementam o tratamento a fim de reduzir a dor e dar uma melhor qualidade para que o paciente execute os movimentos necessários com menor grau de dor. Técnicas da eletroterapia também podem ser utilizadas com essa mesma finalidade. O ultrassom, por sua vez, pode ajudar a acelerar a regeneração cicatricial — mas é preciso cuidar para não aplicá-lo em cima de próteses metálicas, marca-passo ou útero gravídico (KISNER; COLBY, 1998). Para o ganho de amplitude de movimento, o fisioterapeuta realizará a terapia de forma ativa, ativa-assistida ou, em casos mais graves, passiva, na qual o fisioterapeuta consegue controlar melhor a amplitude a ser respeitada ou mesmo forçá-la a ganhar um maior arco de movimento. O ganho de amplitude de movimento pode se dar por mobilizações e ocorre de forma mais completa em formas de alongamentos que preparam as fibras musculares para o tra- balho de contração (KISNER; COLBY, 1998). Nesse sentido, o alongamento é tão importante quanto o treino de força muscular, visto que a capacidade de contratibilidade do músculo está relacionada com seu comprimento e capacidade de contração. O treino de força muscular pode se dar de forma isométrica, concêntrica e excêntrica. A forma isométrica é mais indicada para segmentos que ainda não podem ser movimentados ou para ganho de resistência. A técnica con- cêntrica é indicadaem arco completo nas fases finais da reabilitação — os limites até chegar a essa fase devem ser respeitados. Os movimentos com os quais mais se tem precaução são os de rotação lateral, extensão e flexão de ombro a mais de 90°. Já os exercícios excêntricos são indicados para ganho de força, melhora da consciência e do controle muscular (Figura 15) (KISNER; COLBY, 1998). Complexo do ombro18 Figura 15. Treino de força com amplitude de movimento controlada. Fonte: Lopolo/Shutterstock.com. Lesões por estresse, sobrecarga e compressiva De acordo com Basta et al. (2018), o exame físico e a anamnese devem clas- sifi car o grau do acometimento e são essenciais para direcionar o tratamento corretamente. É importante determinar a etiologia, a direção da luxação, a recorrência, a duração e a imobilização utilizada, os sinais e sintomas ligados ao aparelho neuromusculoesquelético e instabilidades. Exames complementares e testes especiais auxiliam no fechamento do diagnóstico e todos somados facilitam a conduta durante o tratamento. As lesões causadas por sobrecarga, estresse e compressão estão aqui descritas pela similaridade de condutas durante o tratamento. De acordo com a intensidade e o acometimento, devem ser também individualizadas. Os tratamentos conservadores baseados em fisioterapia são indicados nas fases agudas entre 3 e 6 meses e também nos casos em que não há indicação cirúrgica, como paciente idosos, com doenças complementares (GARVING et al., 2017). O ganho de amplitude de movimento será quase sempre necessário, considerando-se que essas lesões têm como sinal e queixa principal a dor, fator que modula o andamento do tratamento, de modo que, por isso, o fisioterapeuta deve utilizar de recursos para controlá-la (KISNER; COLBY, 1998). 19Complexo do ombro A termoterapia é indicada para alívio da dor e relaxamento muscular, que, por vezes, também impede o ganho de amplitude ou mesmo a exe- cução dos movimentos. A subtração de calor normalmente é indicada em processos inflamatórios agudos em que há necessidade de paralisar ou impedir a inflamação tecidual local. A adição normalmente é dada para relaxamento muscular ou em processos crônicos, quando o calor tem a capacidade de reduzir a intensidade da dor (KISNER; COLBY, 1998; GARVING et al., 2017). Recursos fisioterapêuticos elétricos são citados na literatura pelo efeito analgésico e em especial pelo efeito ultrassônico, que promove a recupera- ção de tecidos profundos em sua técnica (DONG et al., 2015; GARVING et al., 2017). Recursos manuais podem ser aplicados no sentido de relaxar a muscula- tura, reposicionar faces articulares e promover tração, o que pode resultar no alívio temporário da dor e facilitar o tratamento com a mobilização (DONG et al., 2015; GARVING et al., 2017). Os exercícios terapêuticos devem ser ministrados de acordo com os objetivos dos casos clínicos; por exemplo, se for observada uma atrofia somada a redução de força muscular em músculos deltoides, deverá ser iniciado um treino de força que contemple essa musculatura (DONG et al., 2015). Os treinos podem ser realizados com movimentos para as funções primárias dos músculos e em movimentos em que eles sejam antagonistas, a fim de trabalhar sua excentricidade. Dentre as técnicas, a cinesioterapia e a crioterapia são apontadas como as mais simples, de fácil acesso e melhor custo-benefício (BATISTA; BELLASCO; PESTANA, [2019]). É importante lembrar que as técnicas devem ser adotadas de acordo com as avaliações realizadas, já que uma única técnica não direcionada para um objetivo específico provavelmente não trará benefícios para o prognóstico. Técnicas complementares, como bandagem elástica (Figura 16), dry needling (Figura 17), quiropraxia, osteopatia, reeducação postural global, entre outras, poderão ser empregadas, desde que atendam algum dos objetivos traçados. Complexo do ombro20 Figura 16. Bandagem elástica. Fonte: Microgen/Shutterstock.com. Figura 17. Dry needling. Fonte: MOMOTaRO/Shutterstock.com. Os fluxos de tratamentos devem ser individualizados e específicos para cada caso. O fisioterapeuta deve ter domínio sobre as técnicas disponíveis para saber direcioná-las para promover o melhor tratamento para cada paciente. Sabendo que os tratamentos devem ser individualizados, veja, a seguir, na Figura 18, um fluxo de tratamento para a síndrome do impacto do ombro, em que o paciente poderá chegar para o fisioterapeuta na fase aguda, compreendendo de 3 a 6 meses. Ele deverá agir conforme os sinais e sintomas referidos e confirmar 21Complexo do ombro por testes ortopédicos específicos cada grupo muscular. O fluxograma ilustra um exemplo de fluxo de tratamento que poderia ser tomado a partir de uma situação hipotética. Figura 18. Fluxo de tratamento para a síndrome do impacto. Complexo do ombro22 BASTA, A. et al. Protocolo de reabilitação em pacientes no pós-operatório de luxação traumática anterior do ombro. Fisioterapia Brasil, v. 8, n. 2, p. 112-119, 2007. BATISTA, A. N.; BELLASCO, F. R. R.; PESTANA, V. S. B. Benefícios da fisioterapia nas le- sões do manguito rotador: revisão de literatura. [2019]. 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