Prévia do material em texto
558 • • • • ■ ■ ■ ■ D E TODOS OS COMPORTAMENTOS SOCIAIS QUE DISCUTIMOS NESTE LIVRO, O PRECONCEITO ESTÁ ENTRE OS MAIS COMUNS E MAIS PERIGOSOS. Considere estes exemplos, que apareceram no noticiário mais ou menos ao mesmo tempo: O estudante da Universidade Rutgers, Tyler Clementi, cometeu suicídio pulando de uma ponte logo após seu colega de quarto maliciosamente postar um vídeo na Internet de Clementi fazendo sexo com outro homem. Sua morte foi um dos cinco suicídios cometidos por adolescentes homossexuais em 3 semanas, incluindo também o de Seth Walsh, de 13 anos, que se enforcou depois de sofrer bullying por ser gay. Nenhuma acusação foi feita aos agressores de Seth. Porém, o colega de quarto de Clementi, Dharin Ravi, foi considerado culpado em 15 acusações por cometer um crime motivado por preconceito, invasão de privacidade e outras. Possivelmente provocados pelo debate a respeito da construção de uma mesquita perto do Marco Zero na cidade de Nova York, um estudante universitário esfaqueou um taxista que disse ser muçulmano e outro homem foi preso por entrar numa mesquita e urinar nos tapetes de oração, o tempo todo gritando calúnias antimuçulmanas. Na Flórida, o ministro de uma igreja cristã marginal incitou a queima do Corão. No Tennessee, dois imames muçulmanos foram expulsos de um avião após o piloto se recusar a voar com eles. Eles estavam indo para um congresso sobre o preconceito antimuçulmano. O estilista John Galliano foi demitido da marca Christian Dior sob a alegação de ter assediado um casal — uma judia e um asiático — e usado de calúnias antissemitas e racistas. Testemunhas relataram que Galliano disse “cara de judia suja, você devia morrer”, e então gritou para seu companheiro “asiático desgraçado da p****, vou te matar”. Um vídeo anterior postado no YouTube mostra o estilista gritando a outro casal “eu amo Hitler… pessoas como vocês estariam mortas. Suas mães, seus antepassados, teriam sido todos mortos por gás” (Galliano, que é gay, aparentemente não se deu conta de que ele mesmo seria morto por gás pelos nazistas). Um levantamento de 2009 a respeito de afro-americanos graduados à procura de emprego em Chicago, constatou que muitos disseram ter “esbranquiçado” o currículo. Uma jovem mudou o primeiro nome (Tahani) para “T.S.” e outros contaram como disfarçaram partes da identidade que consideravam ser sinais de sua negritude, como ser membro da Associação dos Estudantes de Negócios Afro-americanos (African American Business Students Association). Os candidatos não estavam exagerando. A despeito da percepção difundida de que as ações afirmativas tenham dado vantagem aos candidatos negros, especialmente aos formados na faculdade, as estatísticas mostram que eles continuam em desvantagem em épocas de crise econômica (Luo, 2009). Nenhum de nós escapa completamente ileso do preconceito. É um problema comum de toda a humanidade. Quando o preconceito chega ao extremo do ódio, pode levar à brutalidade, ao assassinato, à guerra e mesmo ao genocídio. Durante metade do século passado, os psicólogos sociais contribuíram muito para a compreensão dos processos psicológicos subjacentes ao preconceito e conseguiram identificar algumas possíveis soluções. O que é preconceito? Como ele vem à tona? Como pode ser reduzido? PERGUNTAS-FOCO Quais são os três componentes do preconceito? Como podemos mensurar o preconceito implícito e quais são os efeitos que pode ter sobre suas vítimas? Quais são os quatro aspectos da vida social que podem causar o preconceito? Conhece algumas condições que podem reduzir o preconceito? 559 O preconceito existe em todo o mundo, aumentando e diminuindo conforme mudam os tempos e os acontecimentos. O que É Preconceito? O preconceito é uma atitude — uma atitude emocionalmente poderosa. Conforme discutimos no Capítulo 7, as atitudes são constituídas por três elementos: o componente afetivo, ou emocional, que representa tanto o tipo de emoção ligada à atitude (por exemplo, raiva, calor humano) como a sua intensidade (por exemplo, ligeiro desconforto, hostilidade declarada); o componente cognitivo, que envolve as crenças ou pensamentos (cognições) que formam a atitude; e o componente comportamental, relacionado às ações do indivíduo. As pessoas não mantêm simplesmente as atitudes. Habitualmente, agem inspiradas por elas. Nesse contexto, o preconceito é uma atitude hostil ou negativa, direcionada a pessoas de um grupo específico, baseada apenas no pertencimento a esse grupo. Assim, quando dizemos que alguém é preconceituoso em relação aos negros, queremos dizer que essa pessoa está, por antecipação (primed), inclinada a se comportar friamente ou com hostilidade em relação a eles e que os considera todos praticamente iguais. As características por ela atribuídas aos negros são negativas e aplicadas ao grupo como um todo. Traços ou comportamentos individuais do alvo do preconceito passarão despercebidos ou serão desprezados. O preconceito tem um elemento 560 cognitivo (o estereótipo) e pode influenciar o comportamento (na forma de discriminação). Preconceito Uma atitude hostil ou negativa direcionada a pessoas de determinado grupo, baseada apenas no pertencimento a esse grupo. Todos somos vítimas ou potenciais vítimas do preconceito, apenas por pertencermos a um grupo identificável, com base na etnia, cor da pele, religião, gênero, nacionalidade, orientação sexual, tamanho do corpo, ou deficiência física, só para listar algumas. E não são apenas os grupos minoritários que sofrem preconceito por parte da maioria dominante. É uma via de mão dupla: o preconceito frequentemente flui do grupo minoritário para o majoritário, assim como age na direção oposta também. Com certeza, enormes progressos têm sido alcançados. O número de pessoas que admitem acreditar que negros são inferiores a brancos, mulheres inferiores a homens e gays inferiores a heterossexuais, tem caído constantemente (Weaver, 2008). Cinquenta anos atrás, os norte-americanos, em sua maioria esmagadora, eram contra a integração racial e nunca poderiam imaginar-se votando num candidato negro, muito menos para presidente dos Estados Unidos, como o fizeram com Barack Obama em 2008. Muitas outras mudanças varreram este país. Cinquenta anos atrás, poucos podiam imaginar que um dia faria parte da rotina ver mulheres advogadas, doutoras, donas de bar, Juízas da Suprema Corte, astronautas, ou biólogas marinhas. Gays e lésbicas viviam com medo de alguém descobrir sua orientação sexual e poucos poderiam imaginar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seria uma possibilidade, muito menos que seria realmente legal em alguns estados da América do Norte e em outras nações. Inspirados pelo movimento dos direitos civis, a Associação Nacional para Promover a Aceitação da Gordura (National Association to Advance Fat Acceptance) foi constituída em 1969, “dedicada a acabar com a discriminação de tamanho em todas as suas formas”, e o grupo dos Defensores dos Direitos dos Deficientes (Disability Rights Advocates) foi organizado para combater a discriminação contra qualquer pessoa portadora de deficiência. E, ainda assim, é muito evidente que o preconceito continua a existir. Levantamentos constatam que alguns norte-americanos brancos consideram o racismo um jogo de soma zero, em que as ações para melhorar o bem- estar dos grupos minoritários têm sido realizadas às suas custas. Eles consideram que a redução do preconceito contra os negros tem sido acompanhada pelo aumento do preconceito contra os brancos (Norton e Sommers, 2011). Algumas vezes, o preconceito irrompe abertamente, como aconteceu nas histórias acima, juntamente com crimes de ódio, vandalismo, piadas preconceituosas ou comentários irrefletidos de alguma celebridade, figura do esporte, ator, político. Muitas de suas expressões são mais sutis, no entanto, e ficam subjacentes, como veremos. Todos vituperamos o preconceito, mas todos somos preconceituosos. —HERBERT SPENCER, 1873 Estereótipos: O Componente Cognitivo Feche os olhos por um momentoe imagine a aparência e as características das seguintes pessoas: líder de torcida do ensino médio, sensível profissional de enfermagem, cientista da computação de descendência judaica, músico negro. Nosso palpite é de que essa tarefa não foi difícil. Todos nós andamos por aí com imagens de vários tipos de pessoas em nossas mentes. Walter Lippmann (1922), um notável jornalista, que foi o primeiro a introduzir o termo estereótipo, descreveu a diferença entre o mundo “lá fora” e os estereótipos — “pequenas imagens que carregamos dentro de nossas cabeças”. Em uma dada cultura, essas imagens tendem a ser notavelmente similares. Ficaríamos surpresos se sua imagem de líder de torcida fosse diferente de uma menina saltitante, bonita e não intelectual. Também nos surpreenderia se o profissional de enfermagem fosse homem e o cientista da 561 computação fosse mulher, ou se o músico negro estivesse tocando música clássica. Lá no fundo, sabemos que existem líderes de torcida e enfermeiros do sexo masculino, mulheres judias programadoras de computador e negros músicos eruditos. Porém, tendemos a categorizar de acordo com o que consideramos ser a norma. E, dentro de uma dada cultura, o que as pessoas consideram como norma é muito semelhante, em parte porque essas imagens são perpetuadas e amplamente difundidas pela mídia. Estereotipar, no entanto, vai além da simples categorização. O estereótipo é a generalização de um grupo de pessoas, em que características idênticas são atribuídas a praticamente todos os membros, sem se considerar a real variação entre eles. A qualidade do estereótipo pode ser física, mental, ou ocupacional: as loiras são bonitas e burras, os atletas são estúpidos, os engenheiros são geeks. Os operários e os banqueiros de Wall Street têm estereótipos negativos uns dos outros. Estereótipo A generalização de um grupo de pessoas, em que certos traços são atribuídos a praticamente todos os membros, sem se considerar a real variação entre os membros. Estereotipar é um processo cognitivo e os estereótipos podem ser positivos ou negativos. Se você gosta de um grupo, seu estereótipo será positivo. Mas se você não gosta dele, seu estereótipo do mesmo comportamento será negativo. Afinal, é possível enxergar um mesmo comportamento como mesquinho ou frugal, dedicado à família ou fechado no clã, comunicativo ou intrometido (Peabody, 1985). Frequentemente, estereotipar é meramente uma técnica que todos usamos para simplificar nossa percepção de mundo — um instrumento bastante útil de nossa caixa de ferramentas mental. Gordon Allport (1954) descreveu esse ato como a “lei do mínimo esforço”: dado que o mundo é complicado demais para que tenhamos uma atitude altamente diferenciada de tudo, maximizamos nosso tempo e energia cognitivos desenvolvendo atitudes elegantes e precisas para alguns tópicos, enquanto, para outros, confiamos em simples esboços de crenças (veja o Capítulo 3). Considerando nossa capacidade limitada de processar informações, é razoável que os seres humanos se comportem como “sovinas cognitivos” — pegando atalhos e adotando certas regras simples na tentativa de entender outras pessoas (Fiske e Depret, 1996; Jones, 1990; Macrae e Bodenhausen, 2000; Taylor, 1981). As informações compatíveis com nossas noções de determinado grupo terão maior atenção, serão repetidas (ou lembradas) com mais frequência e serão, portanto, mais bem memorizadas do que aquelas que as contradigam (Bodenhausen, 1988; Dovidio, Evans e Tyler, 1986; Macrae e Bodenhausen, 2000). Portanto, sempre que um membro de um grupo se comporta da maneira que esperamos, nosso estereótipo sairá confirmado e fortalecido. Por outro lado, não estamos inclinados a procurar, notar ou lembrar as “exceções”. Qualquer pessoa que não se encaixe no estereótipo pode ser considerada uma exceção e, assim, não temos necessidade de mudá-lo. Na medida em que é baseado na experiência e, no geral, funciona, o estereótipo pode servir de atalho adaptativo para lidar com situações complexas. Porém, se nos impede de enxergar as diferenças individuais dentro de uma classe de pessoas, ele pode se tornar desajustado, injusto e nocivo tanto para a pessoa que o mantém como para as pessoas que estão sendo amontoadas numa categoria (veja o Tente Fazer!). A Correlação Ilusória O processo cognitivo humano perpetua o pensamento estereotípico através do fenômeno da correlação ilusória (Fiedler, 2000; Garcia-Marques e Hamilton, 1996; Shavitt et al., 1999). Quando esperamos que duas coisas estejam relacionadas, nos convencemos de que elas o estão de fato, mesmo quando são completamente não relacionadas. Muitas correlações ilusórias existem nas sociedades, como a crença comum de que os casais que não conseguem ter filhos conceberão uma criança depois de adotar uma (aparentemente porque, depois da adoção, eles se sentiriam menos ansiosos e estressados). Veja só: essa correlação é inteiramente ilusória. Esse fato pode acontecer. Porém, ele não ocorre com mais frequência do que quando os casais 562 “inférteis” não adotam uma criança e mesmo assim concebem um filho. O evento anterior, como é mais encantadoramente vívido, causa maior impacto em nós quando acontece, criando a correlação ilusória (Gilovich, 1991). O que isso tem a ver com preconceito e estereótipo? As correlações ilusórias têm maior probabilidade de ocorrer quando os eventos ou as pessoas são distintos ou notáveis, diferentes das cenas sociais tipicamente feijão com arroz a que estamos acostumados (Hamilton, 1981; Hamilton, Stroessner e Mackie, 1993). Os membros dos grupos minoritários — devido a raça, etnia, deficiência física e assim por diante — se distinguem, por definição, quando comparados à maioria. No entanto, outros grupos que não se distinguem em termos de número — como as mulheres (que somam um pouco mais da metade da espécie humana), podem se tornar diferenciados ou visíveis porque raros numa dada ocupação — por exemplo, quando as mulheres são encanadoras, mergulhadoras de scuba diving, ou pilotos. Diferenciações como essas levam à criação e crença numa correlação ilusória — uma relação entre a pessoa-alvo diferenciada e o comportamento que ela desempenha (Hamilton e Gifford, 1976). Essa correlação ilusória é então aplicada a todos os membros do grupo-alvo. Examinarei cada evidência adicional para confirmar a opinião a que eu já tinha chegado. —LORDE MOLSON , POLÍTICO BRITÅNICO Como isso funciona na vida cotidiana? Vamos dizer que você não conheça muitos muçulmanos. Então, para você, a interação com eles é um evento diferenciado e os muçulmanos em geral são pessoas diferenciadas. Você sabe, é claro, dos atos de terrorismo que alguns muçulmanos do Oriente Médio cometeram contra os norte- americanos, nos Estados Unidos e em outros países. Logo, uma correlação ilusória entre muçulmanos e a violência é criada. Se você agora ouve falar de um jovem muçulmano que tentou explodir um avião, sua correlação ilusória é confirmada ainda mais. O resultado é que, no futuro, você terá maior probabilidade de notar as situações em que os muçulmanos estão se comportando com violência, e menor probabilidade de notar as situações em que estão vivendo pacificamente (todos os outros 2 bilhões de muçulmanos!) nos Estados Unidos e em muitos outros países pelo mundo. Terá também menor probabilidade de notar todos os não muçulmanos, incluindo cristãos e judeus, que cometem atos de violência em nome de sua religião ou de seus objetivos políticos. Você processará novas informações guiado por sua correlação ilusória, enxergando o que esperava ver e confirmando em sua mente que seu estereótipo é preciso (Hamilton e Sherman, 1989; Mullen e Johnson, 1988). Correlação Ilusória A tendência a ver relações ou correlações entre eventos que na verdade são não relacionados. TENTE FAZER! Estereótipos e Agressão Feche os olhos. Imagine um peão de obra agressivo. Como está vestido, onde se encontra e o que especificamente está fazendo para expressar sua agressão? Anote tudo isso e eja específico em relação às ações dessapessoa. Agora imagine um advogado agressivo. Como está vestido, onde se encontra e o que especificamente está fazendo para expressar sua agressão? Anote tudo isso e seja específico em relação às ações dessa pessoa. Se você é parecido com os participantes de uma pesquisa experimental, seu estereótipo do peão de obra e do advogado terá influenciado a maneira como você construiu o termo agressão: a maior parte dos participantes do estudo imaginou o peão de obra usando agressão física e o advogado usando agressão verbal (Kunda, Sinclair e Griffin, 1997). 563 O que Há de Errado com os Estereótipos Positivos? O abuso dos atalhos mentais do estereótipo pode ser flagrante e óbvio, como quando um grupo étnico é considerado preguiçoso e outro é considerado violento. Porém, o potencial abuso pode ser mais sutil e até mesmo envolver um estereótipo de atributo positivo. Por exemplo, os asiáticos norte-americanos têm sido sempre rotulados como “minoria modelo”, uma cultura de pessoas trabalhadoras, ambiciosas e inteligentes. Porém, muitos deles têm objeção a essa caracterização generalizada. Isso porque as mesmas expectativas são criadas em relação àqueles que não estão interessados em realizações acadêmicas, não gostam e não se dão bem com ciências ou matemática, e às pessoas que, em geral, não querem ser tratadas como categoria, mas como indivíduos (Thompson e Kiang, 2010). Além disso, o estereótipo amontoa juntos todos os asiáticos norte-americanos, ignorando as diferenças entre as culturas asiáticas (um pouco como se referir aos suecos, alemães, irlandeses, franceses e gregos, todos dentro de um mesmo saco chamado “euroamericanos”). Um estudo sobre estudantes de Camboja, China, Coreia, Laos e Vietnã nos Estados Unidos descobriu muitas diferenças médias nos valores, motivações e objetivos entre esses grupos (Lee, 2009). Ou considere o estereótipo que diz “os brancos não sabem enterrar” e seu corolário implícito de que os negros sabem enterrar. Atualmente, mais de 80% dos jogadores da NBA são negros, ainda que os afro-americanos constituam apenas 13% da população dos Estados Unidos. Logo, nesse caso, o que é insulto à minoria? O errado é que essa suposição confunde a sobreposição nas distribuições — isto é, ela embaça o fato de que muitas crianças afro-americanas não se interessam por basquete e muitas crianças brancas se interessam. Dizer que 80% dos jogadores da NBA são negros não significa que 80% de todos os negros são capazes de se tornar jogadores da NBA! Portanto, uma pessoa branca que encontra um jovem afro-americano e fica abismada com a inaptidão dele na quadra de basquete está, num sentido bastante real, negando a ele sua individualidade. Além disso, é um insulto relegá-lo à categoria de “bom atleta”, em vez de, por exemplo, “profissional competente”. Há muitas evidências de que esse tipo de estereótipo rebaixador ocorre (Brinson e Robinson, 1991). Em um experimento, estudantes universitários ouviram uma gravação de 20 minutos de um jogo de basquete universitário. Eles foram solicitados focar sua atenção em um dos jogadores, “Mark Flick”, e ver um folder que continha informações dele, inclusive uma fotografia. Metade dos participantes viram a foto de um afro-americano e metade viu a foto de um branco. Depois de ouvir o jogo, os estudantes classificaram o desempenho de Flick. A classificação que deram refletiu os estereótipos predominantes: os que acreditavam que Flick era afro-americano acharam que ele tinha mais habilidade atlética e jogava melhor do que os participantes que pensavam que ele era branco. Estes últimos qualificaram-no como tendo mais “raça” e maior noção de basquete (Stone, Perry e Darley, 1997). Estereótipos de Gênero Quase todo mundo tem um estereótipo de mulheres e homens — alguns positivos, outros negativos: as mulheres são mais empáticas e falantes, os homens são mais competentes e agressivos (Kite, Deaux e Haines, 2008; Matlin, 2012). Porém, como sempre, os estereótipos exageram as diferenças entre os sexos, ignoram os diferentes traços de personalidade e as habilidades dentro de cada gênero e simplificam demais (Fine, 2010). Por exemplo, as mulheres são realmente “mais empáticas” do que os homens? Quais mulheres? Empáticas em relação a quem? Quando o comportamento real das mulheres e dos homens é observado sistematicamente sob uma variedade de condições, os sexos não se diferenciam em relação a ter sentimentos de empatia ou em sua expressão (Fine, 2010). Algumas supostas diferenças somem quando são analisadas de perto. Considere o estereótipo psicopop de que as mulheres são “mais falantes” que os homens. Para testar essa hipótese, os psicólogos equiparam uma amostra de homens e mulheres com microfones que gravavam as conversas enquanto viviam suas vidas cotidianas. Não houve diferença significativa no número de palavras faladas: ambos os sexos usaram cerca de 16.000 palavras por dia em média, com grandes diferenças individuais entre os participantes 564 (Mehl et al., 2007). Contrastar os estereótipos de mulheres e homens pode ser apenas um jogo divertido se isso não se transformar em preconceito. Porém, com bastante frequência, essa transformação acontece. Por mais de uma década, em uma pesquisa que envolveu 15.000 homens e mulheres em 19 nações, Peter Glick e Susan Fiske (2001) descobriram que, ao redor do mundo, o sexismo toma duas formas básicas, as quais são chamadas de sexismo hostil e sexismo benevolente. Os sexistas hostis mantêm estereótipos negativos das mulheres: elas são inferiores aos homens porque são inerentemente menos inteligentes, menos competentes, menos corajosas, menos capazes em matemática e ciências e assim por diante. Os sexistas benevolentes mantêm um estereótipo positivo das mulheres: elas são mais amáveis que os homens, mais empáticas, mais caridosas, e assim por diante. De acordo com Glick e Fiske, ambos os estereótipos rebaixam as mulheres porque os sexistas benevolentes, assim como os hostis, supõem que as mulheres são um sexo mais frágil. Os sexistas benevolentes tendem a idealizar as mulheres romanticamente, podem admirá-las como maravilhosas cozinheiras ou mães e querem protegê-las quando não é necessário. Esse tipo de sexismo é afetuoso, mas também paternalista, transmitindo a atitude de que as mulheres são tão maravilhosas, boas, amáveis e morais que elas deveriam ficar em casa, longe da agressividade e corrupção (e do poder e da renda) da vida pública (Glick, 2006). Como o sexismo benevolente não tem tom de hostilidade, para muitas pessoas ele não é visto como preconceito e diversas mulheres acham encantador pensar que são melhores que os homens. Porém, ambas as formas de sexismo — quer uma pessoa ache que as mulheres são boas demais para a igualdade, quer ache que não são boas o suficiente — legitimam a discriminação contra as mulheres e podem ser usadas como justificativa para relegá-las aos papéis tradicionais estereotipados (Christopher e Wojda, 2008). Talvez você esteja pensando: “ei, e quanto aos homens? Há muitos estereótipos negativos sobre eles também: são predadores sexuais, sem coração, dominantes e arrogantes.” De fato, quando o mesmo time de pesquisadores completou um estudo, que envolvia 16 nações, tratando das atitudes em relação aos homens, descobriram que muitas pessoas acreditavam que eles são agressivos e predatórios e, de modo geral, menos calorosos e amáveis que as mulheres (Glick et al., 2004). Essa atitude parece hostil aos homens, constataram os pesquisadores, porém ela também reflete e dá suporte à desigualdade de gênero e ao preconceito contra as mulheres quando caracteriza os homens como “naturalmente” feitos para serem líderes e dominantes. Emoções: O Componente Afetivo Se você alguma vez já discutiu com alguém cujo preconceito é profundamente enraizado, deve saber como é difícil fazer essa pessoa mudar de ideia. Mesmo quem é geralmente sensato em relação à maioria das questões se torna imune a argumentos racionais e lógicos quando se trata da questão de seu preconceito. Por que isso acontece?É principalmente o aspecto emocional das atitudes que torna tão difícil argumentar com a pessoa preconceituosa. Argumentos lógicos não são eficazes para enfrentar emoções. Se você tem um estereótipo de um grupo que você não conhece muito bem e não investiu emocionalmente tanto nele, é provável que haja abertura para informações que o contestem: Você: Não, eu não quero ir para a Noruega. Ouvi dizer que todo mundo lá é frio e indiferente. Eu me sentiria bem mais confortável com os expressivos italianos. Seu bom amigo: Ah, aí é que você se engana! Morei na Noruega por 6 anos e foi maravilhoso. As pessoas são prestativas, amigáveis e dão grandes festas. Você: Verdade? É melhor eu rever meus conceitos a respeito dos noruegueses! Quando você vai para lá? 565 Em contraste, a dificuldade de se usar a razão para mudar o preconceito foi lindamente ilustrada por Gordon Allport (1954) em seu livro mais famoso, The Nature of Prejudice. Ele relata um diálogo entre o Sr. X e o Sr. Y: Sr. X: O problema dos judeus é que eles cuidam apenas do próprio grupo. Sr. Y: Mas o registro das campanhas de caridade mostram que eles foram mais generosos, proporcionalmente a seu número, nas doações à caridade do que os não judeus. Sr. X: Isso mostra como estão sempre tentando comprar favores e se intrometer nas questões cristãs. Eles não pensam em nada além do dinheiro, é por isso que há tantos banqueiros judeus. Sr. Y: Mas um estudo recente mostra que o percentual de judeus no ramo dos bancos é desprezível, bem menor que o percentual de não judeus. Sr. X: Esse é o ponto, eles não vão para os trabalhos respeitáveis. Estão apenas nos negócios de filmes ou administram clubes noturnos. (pp. 13–14) Em razão de o Sr. X estar emocionalmente preso em suas crenças a respeito dos judeus, as reações dele não são lógicas. Na realidade, o preconceituoso Sr. X está dizendo “não me venha perturbar com fatos, minha cabeça está feita”. Em vez de discutir os dados apresentados pelo Sr. Y, ele os distorce para que deem suporte a seu ódio pelos judeus, ou simplesmente os ignora e inicia uma nova linha de ataque. A atitude preconceituosa mantém-se intacta, apesar do fato de os argumentos iniciais do Sr. X estarem agora jogados em frangalhos a seus pés. Esse é o sinal de que o raciocínio emocional está trabalhando: ele é impenetrável à lógica ou à evidência. De fato, muitos estereótipos subjacentes ao antissemitismo são mutuamente contraditórios e constantemente mudam entre as gerações e nações. Os judeus foram atacados por serem comunistas na Alemanha nazista e na Argentina, e por serem gananciosos capitalistas na comunista União Soviética. Foram criticados por serem seculares demais e por serem místicos demais. Por serem fracos e ineficazes e por serem poderosos o suficiente para dominar o mundo (Cohen et al., 2009). A mente do fanático é como a pupila do olho. Quanto mais luz recebe, mais se contrai. —OLIVER WENDELL HOLMES, JR., 1901 Nas discussões anteriores sobre a dissonância cognitiva (Capítulo 6), atitudes (Capítulo 7) e estereótipos (capítulo atual), vimos que nenhum de nós é 100% confiável quando se trata de processar informações sociais importantes para nós. A mente humana não registra objetivamente os eventos; nossas emoções, necessidades e autoconceito entram no caminho (Fine, 2008; Gilovich, 1991; Westen et al., 2006). Essa é a razão por que o preconceito — um misto de estereótipo e de “calor” emocional dirigido a um grupo particular — é tão difícil de mudar. Apenas enxergamos as informações que confirmam o quanto estamos certos a respeito “daquelas pessoas” e, assim como o Sr. X, não levamos em conta o que poderia nos fazer mudar de ideia. O resultado, como Gordon Allport observou há muito tempo, é que “derrotado intelectualmente, o preconceito perdura emocionalmente”. Ele quis dizer que o componente emocional — os sentimentos negativos profundamente enraizados — pode persistir mesmo quando a pessoa tem consciência de que o preconceito está errado. Assim, alguns psicólogos sociais, embora acolhendo a evidência de que os preconceitos explícitos, conscientes declinaram, passaram a usar medidas mais sofisticadas para verificar se os sentimentos negativos implícitos, inconscientes, entre os grupos também diminuíram. Eles sustentam que as atitudes implícitas, sendo automáticas e não intencionais, refletem a permanência dos sentimentos negativos que mantêm o preconceito vivo 566 abaixo da superfície (Dovidio e Gaertner, 2008). Em breve discutiremos o fenômeno do preconceito implícito e as condições sob as quais ele é ativado. Discriminação: O Componente Comportamental O preconceito muitas vezes leva ao tratamento injusto de um grupo-alvo. Chamamos isso de discriminação: uma ação negativa injustificada ou prejudicial voltada aos membros de um grupo apenas por pertencerem a ele. Qualquer grupo estigmatizado dentro de uma sociedade sofrerá discriminação, a oficial e a sutil. Em uma cultura que implacavelmente enfatiza “a beleza da magreza”, por exemplo, pessoas gordas frequentemente são alvo de piadas, assédio e humilhação, e têm menor probabilidade de serem contratadas e promovidas, quando comparadas às pessoas esbeltas (Finkelstein, DeMuth e Sweeney, 2007; King et al., 2006). Discriminação Ação negativa injustificada ou prejudicial dirigida a um membro de um grupo apenas por pertencer a ele. A maioria das formas explícitas de discriminação nas escolas e no mercado de trabalho são agora ilegais nos Estados Unidos. Porém os estereótipos e preconceitos podem “vazar” e ser expressos pelo comportamento de forma poderosa. Por exemplo, negros e brancos não são tratados igualmente na “luta nacional contra as drogas” (Fellner, 2009). Nos Estados Unidos, considerando-se as estatísticas da população em geral e dos infratores da legislação antidrogas, os afro-americanos são desproporcionalmente mais presos, condenados e encarcerados por acusações de envolvimento com drogas (Blow, 2011). Uma ilustração disso é dada por um estudo realizado em Seattle, cuja população é composta por 70% de brancos. A grande maioria daqueles que usam ou vendem drogas pesadas são brancos, mas quase dois terços dos indivíduos presos são negros. Os brancos constituem a maioria daqueles que usam ou vendem metanfetamina, ecstasy, cocaína em pó e heroína, e os negros são a maioria que usam ou vendem crack. Porém a polícia praticamente ignora o mercado dos brancos e se concentra nas apreensões de crack. Os pesquisadores disseram que eles não conseguiram encontrar uma explicação “racialmente neutra” para essa diferença. O foco nos infratores de crack não se mostrou relacionado à frequência das transações de crack comparadas às de outras drogas, a segurança pública, preocupação com a saúde, taxa de criminalidade ou reclamação dos cidadãos. Os pesquisadores concluíram que os esforços do departamento de combate às drogas da polícia refletem a discriminação racial — o impacto inconsciente da raça na percepção oficial de quem causa os problemas de droga da cidade (Beckett, Nyrop e Pfingst, 2006). O preconceito também pode levar à discriminação através das “microagressões”: os “desprezos, indignidades e humilhações” que muitas minorias e pessoas com deficiências físicas experimentam (Dovidio, Pagotto e Hebl, 2011; Nadal et al., 2011; Sue, 2010). Derald Sue (2010) dá estes exemplos: um professor universitário branco elogia um aluno asiático norte-americano da graduação por seu “excelente inglês”, embora o estudante tenha vivido nos Estados Unidos sua vida toda. Uma mulher branca saindo do trabalho começa a entrar no elevador, vê um homem negro do lado de dentro, cobre o colar com a mão e “se lembra” de que esqueceu algo em sua mesa — desse modo transmitindo ao colega de trabalho negro que ela o considera um perigoso ladrão em potencial. Homens num grupo de discussão ignoram completamente as contribuições da única mulher presente, a ponto de sua fala passar despercebida, enquanto prestam atenção apenas a eles mesmos. As microagressões tomam várias formas (Franklin,2000; Herek e Capitanio, 1996; Sue, 2010). Em um experimento de campo, os pesquisadores fizeram 16 estudantes universitários (oito homens e oito mulheres), que eram na verdade seus cúmplices, candidatarem-se a vagas de emprego nas lojas locais (Hebl et al., 2002). Em algumas das entrevistas, os candidatos eram retratados como gays ou lésbicas, em outras, eles não o eram. Para padronizar as interações, os candidatos estavam todos igualmente bem-vestidos em jeans e suéteres. Os 567 pesquisadores observaram dois tipos de discriminação: a formal e a interpessoal. Para aferir a discriminação formal, procuraram determinar se havia diferenças no que o empregador dizia a respeito da disponibilidade das vagas, se ele permitia que preenchessem o formulário de pedido de emprego, se havia ou não uma ligação de retorno e a reação dele quando o candidato pedia para usar o banheiro. Não houve evidência de discriminação formal, os empregadores não poderiam ser acusados de tratar injustamente os candidatos “homossexuais”. No entanto, houve fortes indicações de discriminação interpessoal. Comparada à maneira como interagiram com os candidatos que pensavam ser heterossexuais, os empregadores eram verbalmente menos positivos, levavam menos tempo entrevistando, falavam menos e tiveram menos contato visual com aqueles que consideravam homossexuais. A partir de seu comportamento, estava claro que os potenciais empregadores ficavam desconfortáveis ou se sentiam mais distantes das pessoas que eles acreditavam ser homossexuais. 568 Uma medida disfarçada da distância social e das “microagressões” é notar como as pessoas reagem, não verbalmente, a pessoas com deficiências físicas. O comportamento dos empregadores reflete um tipo de discriminação avaliado pela distância social, a relutância de uma pessoa em ficar “perto demais” do outro grupo. As avaliações da distância social podem ser aplicadas em vários cenários: numa sala de aula, um heterossexual tem a mesma probabilidade de sentar perto de um estudante homossexual do que de outro heterossexual? Uma mulher não deficiente costuma se afastar de outra mulher numa cadeira de rodas? Quão perto você deixará “aquelas pessoas” chegarem a sua vida social — trabalhar com elas, morar perto… casar com elas? Uma revisão de décadas de levantamentos representativos da população norte-americana — com o foco em hispânicos, brancos, negros, judeus e asiáticos — constatou que, embora o preconceito manifesto em relação a todos eles tenha declinado, a maioria das pessoas dentro de cada grupo étnico ainda se opõe fortemente a praticamente todos os outros grupos étnicos no que diz respeito a morar no mesmo bairro ou casar-se com pessoas de sua família (Weaver, 2008). Porém, esse fato reflete um “preconceito” de verdade ou apenas o conforto e a preferência pelas pessoas da mesma religião e etnia? Você e seus colegas de classe acreditam que poderiam se casar com uma pessoa de qualquer etnia e que seus pais aceitariam isso? Alguma vez seus pais disseram que você poderia se casar com qualquer pessoa exceto…? O Racismo Moderno e Outros Preconceitos Implícitos Com a ilegalidade da maior parte das discriminações manifestas, muitas pessoas se tornaram mais cuidadosas, agindo exteriormente sem preconceitos embora internamente mantenham sentimentos preconceituosos. Esse fenômeno é conhecido como racismo moderno e ele inclui mais do que apenas preconceitos raciais. As pessoas escondem suas crenças para evitar serem rotuladas de racistas, sexistas, ou homofóbicas. Mas, quando a situação é “segura”, ou quando perdem suas inibições devido ao álcool ou estresse, o preconceito implícito é revelado (Dovidio e Gaertner, 1996; McConahay, 1986; Pettigrew, 1989; Vala, 2009). Racismo Moderno Externamente atuar sem preconceito embora mantendo, internamente, atitudes preconceituosas. 569 Capítulo 13 - Preconceito: Causas, Consequências e Curas O que É Preconceito? Estereótipos: O Componente Cognitivo A Correlação Ilusória Tente Fazer! Estereótipos e Agressão O que Há de Errado com os Estereótipos Positivos? Estereótipos de Gênero Emoções: O Componente Afetivo Discriminação: O Componente Comportamental O Racismo Moderno e Outros Preconceitos Implícitos