Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

VIOLÊNCIA ESTRUTURAL 
E INTRAFAMILIAR
W
BA
06
68
_v
1.
0
22 
Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Londrina 
Editora e Distribuidora Educacional S.A. 
2019
Violência estrutural e intrafamiliar
1ª edição
33 3
© 2019 POR EDITORA E DISTRIBUIDORA EDUCACIONAL S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida 
de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou 
qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, 
por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Presidente
Rodrigo Galindo
Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada
Paulo de Tarso Pires de Moraes
Conselho Acadêmico
Carlos Roberto Pagani Junior
Camila Braga de Oliveira Higa
Carolina Yaly
Giani Vendramel de Oliveira
Juliana Caramigo Gennarini
Nirse Ruscheinsky Breternitz
Priscila Pereira Silva
Tayra Carolina Nascimento Aleixo
Coordenador
Giani Vendramel de Oliveira
Revisor
Juscilene Galdino da Silva
Editorial
Alessandra Cristina Fahl
Beatriz Meloni Montefusco
Daniella Fernandes Haruze Manta
Hâmila Samai Franco dos Santos
Mariana de Campos Barroso
Paola Andressa Machado Leal
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Ricotta, Luiza Cristina de Azevedo 
R541v Violência estrutural e intrafamiliar / Luiza Cristina de 
Azevedo Ricotta, – Londrina: Editora e Distribuidora 
Educacional S.A. 2019.
 112 p.
ISBN 978-85-522-1569-1
1. Famílias (aspectos psicológicos). 2. Violência. 
I. Ricotta, Luiza Cristina de Azevedo. II. Título.
 CDD 370
Thamiris Mantovani CRB: 8/9491
2019
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
44 
VIOLÊNCIA ESTRUTURAL E INTRAFAMILIAR
SUMÁRIO
Apresentação da disciplina 5
Conceito e tipos de violência 7
Fatores de risco e proteção 33
Influências ambientais nos determinantes da violência 55
Contextualização da violência 82
Reprodução de violência como meio de comunicação 101
Naturalização da violência doméstica 125
Ressignificação do papel profissional na ruptura de ciclos de violência 145
55 5
Apresentação da disciplina
A disciplina aqui proposta refletirá sobre um dos temas mais atuais da 
contemporaneidade, a escalada da violência decorrente de deformações 
estruturais na condução dos afetos, sentimentos, emoções associados 
à vida em sociedade, de relevância para os profissionais atentos aos 
fenômenos que envolvem problemáticas de grande repercussões 
sociais e que têm sua nascente nos padrões de relações sociais nos 
seus vários âmbitos, e especificamente nas relações intrafamiliares 
– cercadas pelas paredes do lar, local que deveria oferecer proteção, 
abrigo, desenvolvimento da afetividade, aprendizado, reforço para 
estrutura do caráter. Causa-nos perplexidade que os estudos do 
Instituto de Pesquisas e Estudos Aplicados – IPEA apontem que as 
maiores incidências de casos de violências registradas, sejam a física, a 
psicológica, a sexual, o que é pior, é que sejam cometidos por pessoas 
conhecidas e/ou por familiares, sendo as mulheres, as crianças e os 
jovens os maiores alvos da deformação do convívio, estando expostas a 
novas situações violentas, pois os contextos sociais de suas realidades, 
na maioria das vezes, não se modificam. 
Com os problemas socioeconômicos agravados pela falta de 
oportunidade a todos, a competitividade desenfreada, o desemprego, 
a miséria, a pobreza, as drogas, a imigração e migração e o abandono 
nas drogas, que agravam ainda mais, tornando-os mais vulneráveis 
socialmente e economicamente, tais circunstâncias geram tais 
problemas em face das desigualdades sociais marcadas entre cidadãos 
pertencentes à sociedade e que por isso carecem de uma vida 
humanizada e a preservação da dignidade humana. A violência é um 
fenômeno democrático, multifatorial, advindas daí sua complexidade 
e erradicação. Surgindo de forma avassaladora em todas as camadas 
sociais e econômicas, diferindo em graus ou níveis, mas em suma pela 
sofisticação que vai adquirindo, à medida que ela sai do contexto da 
violência física para entrar em domínios abstratos, tão danosos ou mais 
que a conduta violenta aparente. Nossa sociedade também lida com 
66 
a violência simbólica, que delineia a forma de conduzir o pensamento 
com relação a tudo o que faz parte do seu funcionamento e dinâmica 
social, tornando-se problemas estruturais, imprimindo modelos de 
interação que discriminam e estabelecem diferenças pautadas em 
ideias pré-concebidas e nada condizentes com os valores humanos 
universais; sendo, portanto, desumanos. Os fatores aqui esclarecidos 
poderão afetar diretamente nas relações sociais com desencadeamento 
de homicídios, estupros, espancamentos, relações de domínios e 
subjugo, relacionamentos abusivos e que se desdobram em novas 
outras doenças, como o isolamento social e familiar, depressão, baixa 
autoestima, alienação, vícios e direcionamento para uma vida criminosa.
Milhares de pessoas vivem oprimidas e com seus direitos sendo violados 
de algum modo, tornam-se achatados nessa realidade, desconhecendo 
outra realidade que não seja essa, além desta que vivenciam, 
acreditando que viver é isso!
É fundamental que possamos refletir acerca desse tema que é a 
violência, no entanto ressaltamos que nosso enfoque caminhará 
para a violência intrafamiliar (microssocial) e a violência estrutural 
(macrossocial).
Visamos, por fim, a conscientização dos profissionais, que na condição 
de agentes e facilitadores desse processo de mudança de mentalidade 
social e das próprias vítimas e agressores, atuam como multiplicadores 
dessa visão ressignificada da violência, para uma atuação diferente, em 
que podem explorar daquela que atua nos fatos para uma que atua 
em prevenção, conscientização, esclarecimentos à sociedade, grupos 
de reflexão entre profissionais que atuam nessa realidade. E por essa 
consciência compartilhada, pela ação de movimentos nessa linha, 
venham estimular a sociedade civil e os órgãos governamentais, como já 
vem ocorrendo como resposta, pela promoção de mudança de conduta 
e intervenção a fim de que as influências ambientais e sociais possam 
ser menos determinantes da ação nociva da violência estrutural e a 
violência intrafamiliar.
77 7
Conceito e tipos de violência
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• Conceituar o fenômeno da violência estrutural 
e intrafamiliar.
• Apresentar os tipos de violência intrafamiliar.
• Caracterizar a dinâmica entre agressor e vítima.
88 
1. Contextualização
Olá! Sejam muito bem-vindos ao nosso primeiro tema, que abordará 
os conceitos e tipos de violência aos quais boa parte da população 
está sujeita a enfrentar. Identificamos que é um problema tanto 
social, estrutural da sociedade, bem como da formação dos grupos 
familiares. E a primeira constatação difícil de se conceber é que tais 
práticas sejam cometidas por outras pessoas e, em grande parte 
dos casos, por pessoas conhecidas e/ou familiares. Daí a reflexão 
que irá permear este estudo, em que o ser humano é capaz de gerar 
sofrimento a outro ser humano. 
O assunto é de total relevância na atualidade pela sua alta incidência. 
E pela apresentação de dados que apontam para o fato de que, 
entre pessoas que mantêm convivência, o índice de casos é alto em 
comparação com os casos entre pessoas desconhecidas. Ou seja, no 
âmbito intrafamiliar, a incidência é maior, o que seria impensável crer; 
porém, é o que ocorre. Pai, mãe, padrasto, irmãos, avós e demais 
pessoas de convivência e intimidade familiar são seus principais agentes.
O estudo deste tema é necessário para mobilizar profissionais 
de diversas áreas, para que possam identificar casos de violência 
intrafamiliar e contribuir para um novo modelo de ação que resulte 
em algo que envolvalhe	atenção	a	forma	como	a	menina	se	comporta,	com	
extrema	timidez,	atitudes	sedutoras	e	roupas	provocantes.	
A	abordagem	de	dr.	Sérgio	investiga	os	amigos	de	Marina	
na	escola,	vizinhança,	etc.	Marina	é	muito	tímida,	fala	
pouco	e	suas	respostas	são	monossilábicas.	Dr.	Sérgio	
convida	Marina	e	Manuela	para	participarem	do	grupo	de	
bate-papo,	formado	por	adolescentes,	que	se	reúne	uma	
vez	por	semana	na	unidade	de	saúde,	sob	a	coordenação	
da	enfermeira	Kátia. Marina	e	Manuela,	depois	de	
frequentarem	o	grupo	algumas	vezes,	de	repente	deixaram	
de	comparecer.	A	enfermeira	Kátia,	em	visita	domiciliar,	
encontra	Marina	e	pergunta	por	que	ela	não	mais	estava	
indo	às	reuniões.	Acaba	descobrindo	que	o	tio	não	permitiu	
que	continuassem	no	grupo.	Marina	conta	que	o	tio	é	muito	
bom,	mas	também	muito	brabo	(sic).	Não	tendo	para	onde	
ir,	não	podem	desagradá-lo.	Aos	poucos,	Marina	conta	para	
Kátia	que	foram	abandonadas	pela	mãe,	prostituta,	que	vive	
com	outro	companheiro.	O	pai,	alcoolista,	mora	no	interior	
com	outra	companheira,	que	também	tem	dois	filhos,	e	não	
permitiu	que	elas	morassem	com	eles.	Marina	e	Manuela	
conheceram	José,	de	67	anos,	quando	ele	era	vigia	de	uma	
obra	e,	nas	vezes	em	que	a	mãe	ia	visitá-lo,	elas	também	
iam.	Ficaram	amigas	de	José	e,	mesmo	depois	que	ele	
rompeu	com	a	mãe	delas,	o	vigia	convidava	as	meninas	
5151 51
para	almoçar	e	dava-lhes	abrigo	quando	o	padrasto	não	
permitia	sua	entrada	em	casa.	José	prometeu	que	quando	
se	aposentasse	iria	adotá-las	como	filhas	e	as	meninas	
acreditavam	que	ele	estava	cumprindo	a	promessa.	Ele	é	
muito	bom,	compra	muitas	roupas	bonitas	(sic).	Marina	
comentou	que	ele	é	muito	carinhoso,	mais	que	o	próprio	
pai,	mas	às	vezes	seu	abraço	apertado	e	seus	elogios	ao	seu	
corpo	a	incomodavam	um	pouco	(sic).	Também	não	gostava	
quando	ele	dormia	com	ela	e	a	irmã	na	cama.	
Analise	a	situação	relatada	acima	e	reflita	sobre	qual	deveria	
ser	a	conduta	da	enfermeira	Kátia	para	este	caso.	
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1.	Os	fatores	de	risco	e	de	proteção	em	casos	de	
violência	são	uma	questão	de	saúde	pública,	sendo,	
portanto,	de	causa	multifatorial,	requisitadas	dos	
profissionais	certas	ações	que	os	auxiliem	a	lidar	com	
a	problemática.	Assinale	a	alternativa	que	representa	
esse	encaminhamento	do	caso.	
a. Os	profissionais	de	saúde	sempre	devem	encaminhar	
os	casos	para	a	Delegacia	de	Polícia.
b.	Os	profissionais	não	têm	meios	de	intervir	em	
razão	do	fato	violento	já	ter	ocorrido,	devendo	
apenas oferecer sua escuta diante da realidade do 
paciente	ou	cidadão.	
5252 
c. Os	profissionais	precisam	de	orientação	e	
esclarecimentos,	bem	como	informações	para	poder	
diagnosticar	tais	casos	ou	a	sua	suspeita.	Muitos	deles	
surgem	mascarados	por	outras	queixas.
d. Os	profissionais	de	todas	as	áreas	têm	limites	para	
atuar,	pois,	em	se	tratando	de	casos	que	envolvem	a	
tipificação	em	crime,	em	nada	podem	contribuir	a	não	
ser	conduzir	para	órgãos	competentes.
e. Os	profissionais	ficam	impactados	com	os	casos	
e	precisam	também	de	cuidados	para	poder	dar	
suporte	adequado.	Com	isso,	é	aconselhável	buscar	
cuidar	da	sua	própria	saúde,	pois,	também	são,	
muitas	vezes,	vítimas	de	violência.
2.	Sobre	a	conduta	negligente	com	crianças	e	adolescentes,	
aponte	a	alternativa	que	corresponde	ao	que	ela	
representa	na	prática	do	dia	a	dia:	
a. Tapas,	empurrão,	beliscões.
b.	Ofensas,	desqualificação	da	pessoa,	rebaixamento	
constante,	críticas.
c. Surras	frequentes,	cerceamento	da	autonomia,	
expressão	de	reprovação.	
d. Deixar	de	oferecer	alimento,	vestimenta,	uma	rotina	
em	que	possa	desenvolver	hábitos	saudáveis.	
e. Práticas	libidinosas	e	de	molestação	sexual.
5353 53
3.	A	violência	institucional	ocorre,	com	certa	frequência,	
em	detrimento	da	falta	de	capacitação	e	treinamento	e	
pelo	abuso	de	poder	dos	profissionais	com	os	usuários	
do	serviço.	Aponte	a	afirmativa	correta	de	uma	conduta	
praticada nessa modalidade. 
a. Frieza,	rispidez,	falta	de	atenção,	negligência.
b.	Escutar	as	queixas	dos	pacientes.
c. Dar	assistência	às	crianças	e	aos	acompanhantes	dela,	
no	caso,	os	pais.
d. Submeter	a	exames	clínicos.
e. Propor	que	venha	em	outro	dia	quando	não	houver	
meios	de	atendê-la	por	alguma	razão	informada.
Referências bibliográficas 
BRASIL.	Lei	n.	8.842,	de	4	de	janeiro	de	1994.	Dispõe	sobre	a	Política	Nacional	do	
Idoso.	Brasília,	1997.	
______.	Lei	10.741,	de	10	de	outubro	de	2003.	Estatuto	do	Idoso.	Brasília,	2003.
______.	Ministério	da	Saúde.	Secretaria	de	Políticas	de	Saúde.	Violência 
intrafamiliar:	orientações	para	prática	em	serviço.	Série	Cadernos	de	Atenção	
Básica;	n.	8.	Brasília:	Ministério	da	Saúde,	2001.	
______.	Ministério	da	Saúde.	Secretaria	de	Vigilância	em	Saúde.	Impacto da 
violência na saúde dos brasileiros.	Série	B.	Textos	Básicos	de	Saúde.	Brasília:	
Ministério	da	Saúde,	2005.	
______.	Presidência	da	República.	Secretaria	Especial	dos	Direitos	Humanos.	
Conselho	Nacional	dos	Direitos	da	Criança	e	do	Adolescente.	Plano	Nacional	de	
Promoção,	Proteção	e	Defesa	do	Direito	de	Crianças	e	Adolescentes	à	Convivência	
Familiar	e	Comunitária.	Brasília:	Conanda,	2006.	
______. Plano integrado de ação governamental para o desenvolvimento da 
Política Nacional do Idoso.	Brasília,	1997.
______.	Portaria	SAS-073,	de	10	de	maio	de	2001.	Normas	de	Funcionamento	de	
Serviços	de	Atenção	ao	Idoso	no	Brasil.	Brasília,	2001.	
5454 
COELHO,	R.	Péssimo atendimento na saúde municipal faz sobrecarregar 
hospital de Barra de São Francisco.	2015.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	25	jul.	2019.
DE	ANTONI,	C.	et	al.	Abuso	sexual	extrafamiliar:	percepções	das	mães	de	vítimas.	
Estud. Psicol.,	Campinas,	v.	28,	n.	1,	p.	97-106,	mar.	2011.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	25	jul.	2019.	
FREITAS,	A.	V.	S.;	NORONHA,	C.	V.	Idosos	em	instituições	de	longa	permanência:	
falando de cuidado. Interface,	Botucatu,	v.	14,	n.	33,	p.	359-369,	jun.	2010.	
Disponível	em:	.	Acesso	em:	25	jul.	2019.	
WAISELFISZ,	J.	J.	O mapa da violência 2011:	jovens	no	Brasil.	São	Paulo:	2011.	 
São	Paulo:	Instituto	Sangari	;	Brasília,	DF	:	Ministério	da	Justiça,	2011.
Gabarito 
Questão 1	–	Resposta	C
Resolução:	os	profissionais	precisam	de	orientação	e	
esclarecimentos,	bem	como	informações	para	poder	diagnosticar	
tais	casos	ou	a	sua	suspeita.	Muitos	deles	surgem	mascarados	por	
outras	queixas.
Questão 2	–	Resposta	D
Resolução:	deixar	de	oferecer	alimento,	vestimenta,	apresentar	uma	
rotina	em	que	possam	desenvolver	hábitos	saudáveis.	A	negligência	
é	faltar	a	alguém	em	momento	que	ela	mais	precisa	de	apoio,	auxílio	
e	tutoria	para	a	evolução	de	outros	em	etapa	da	vida	diferente.
Questão 3	–	Resposta	A
Resolução:	de	acordo	com	a	Leitura	Fundamental,	você	pode	
constatar	que	a	violência	institucional	é	acirrada	com	serviços	
precários,	que	deveriam	oferecer	proteção	em	vez	de	negligência	e	
com	a	postura	de	muitos	profissionais	que	discriminam	a	própria	
condição	de	seu	trabalho	por	estarem	lidando	com	população	
que	carece	de	maior	atenção,	e	agem	com	frieza,	rispidez,	falta	de	
atenção,	negligência,	atuando	como	desserviço.
https://sitebarra.com.br/arquivo/2015/04/pessimo-atendimento-medico-na-prefeitura-faz-sobrecarregar-hospital-de-barra-de-sao-francisco.html
https://sitebarra.com.br/arquivo/2015/04/pessimo-atendimento-medico-na-prefeitura-faz-sobrecarregar-hospital-de-barra-de-sao-francisco.html
https://sitebarra.com.br/arquivo/2015/04/pessimo-atendimento-medico-na-prefeitura-faz-sobrecarregar-hospital-de-barra-de-sao-francisco.html
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2011000100010&lng=en&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2011000100010&lng=en&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2011000100010&lng=en&nrm=isohttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832010000200010&lng=pt&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832010000200010&lng=pt&nrm=iso
5555 55
Influências ambientais nos 
determinantes da violência
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• Apresentar os fatores ambientais que 
estimulam a perpetuação da violência.
• Apresentar alguns determinantes da conduta 
delinquencial. 
• Apontar fatores promotores de desagregação 
humana e a relação com a criminalidade. 
5656 
1. Introdução
Vamos abordar nesta Leitura Fundamental as influências ambientais 
que contribuem para a ocorrência de condutas violentas e aumento 
desses índices. Entendemos por ambiente tudo o que for externo à 
pessoa e for passível de influência em sua vida.
A precariedade com que boa parte da população vive, em razão das 
disparidades tão acentuadas de falta de recursos, emprego, moradia, 
saúde, educação, políticas públicas que atendam a todos, que são os 
fatores geradores da insatisfação, frustração, sentimentos de raiva, 
ódio, sentimentos de descaso e abandono com relação às suas vidas 
e condições desfavoráveis. Sentem-se preteridos, e esse sentimento 
social funciona como se não pudesse ou tivesse condições de ascensão, 
melhoria, face à perpetuação dos mecanismos de exclusão presentes na 
sociedade. E muitos confrontos são gerados e/ou violências de diversas 
ordens, para além da violência física.
Compreendemos que a violência pode ocorrer de várias formas, que são 
manifestações carregadas de incongruências decorrentes dos contrastes 
socioeconômicos, da pobreza, da exclusão de formação educacional, 
saúde, cultura, saúde psicológica e mental, e outros fatores que 
desencadeiam a conduta delinquencial numa sociedade desigual que 
atua e se manifesta de forma violenta como forma de alternância nas 
relações de poder. Nesse contexto, a atitude delinquencial e criminosa é 
uma forma distorcida de recuperar o poder em situações cujos agentes 
se sentem reduzidos e inferiorizados, ou até mesmo desprovidos. 
Fatores como desemprego, superpopulação, avanço tecnológico em 
alguns segmentos, crescimento desenfreado em alguns cenários, bem 
como a falta de desenvolvimento e evolução, entre outros fatores, 
produzem uma série de problemas sociais, de proporções elevadas. 
A desigualdade social, advinda do modo de produção capitalista, gera 
a falta de oportunidades para todos os sujeitos, principalmente para 
5757 57
as pessoas vulneráveis socialmente. Assim, o déficit na estrutura social 
acirra disputas, conflitos e novos problemas como delinquência, crimes, 
alto nível de agressividade, intolerância, impaciência, resistência, 
tensão, entre outros. 
Portanto, compreender esses fatores como causadores da violência se 
faz necessário, para que sejam adotadas medidas eficientes por parte 
do Estado.
1.1. A compreensão sociológica de tais influências 
 O sociólogo Pierre Bourdiex (2003) se posiciona de forma crítica contra 
o social das instituições, pois elas trazem em si, na própria cultura, um 
modelo desigual que impede e dificulta a inexistência do parâmetro de 
dominação e subjugo, perpetuando a desigualdade social e deixando 
de ser neutras para atuar na desagregação e na produção da violência 
presente na sociedade. O autor conceitua a violência simbólica como 
sendo uma violência suave, insensível e quase invisível às suas vítimas, 
exercidas pelas vias da comunicação e do desconhecimento enquanto 
ignorância, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento.
PARA SABER MAIS
Assista ao vídeo intitulado Violência e criminalidade 
produzido pelo canal Se Liga Nessa História (disponível 
em: . 
Acesso em: 25 jul. 2019). O vídeo aborda a distinção entre 
a violência e a criminalidade, que nos oferece elementos 
para uma análise e compreensão de tais condutas quando 
estas são configuradas crimes. E naturalmente apontar 
para o fato de quando estamos diante de atos violentos, 
eles carregam um potencial devastador que geralmente se 
direciona para a sua escalada.
https://www.youtube.com/watch?v=K1oq0bekHhs
5858 
O fenômeno da violência, seja ela cometida na vida intrafamiliar ou 
na extrafamiliar, se expressa na vida coletiva em razão dos contrastes 
sociais, nas diferenças pessoais, econômicas, fisiológicas, psíquicas, 
inclusive em decorrência da consciência individual que cada ser humano 
possui – fator que contribui para um sentido social coletivo expressado 
na forma de exercer a cidadania. 
Constatou-se que as constatações são um dos alicerces da sociologia 
criminal, tendo em vista que, se boa parte dos valores coletivos não são 
cumpridos, os espaços para surgimento de atos criminosos tornam-se 
ainda mais férteis, as desigualdades sociais existentes em decorrência 
do antagonismo de classes. A violência está relacionada diretamente 
à moral e aos atos do comportamento humano, a seus valores e à 
expressão dos seus sentimentos mais íntimos, que, ao serem destinados 
ao grupo social, repercutem e identificam aspectos da precariedade da 
sua vivência como pessoa em sociedade e em seu grupo familiar. 
A Sociologia é um importante campo para a compreensão dos aspectos 
agressores presentes na vida em sociedade, no âmbito familiar e no 
âmbito profissional. Ter possibilidade de fazer uma leitura macro 
dessas questões permite compreender que as tensões presentes no 
jogo social também são influências ambientais que contribuem para o 
aumento das tensões da vida cotidiana, reforçando o desalinhamento 
do poder entre pessoas, cujo resultado favorece a desagregação das 
relações sociais. Há uma inter-relação entre as condições sociais na 
produção da microviolência e, nesse aspecto, a forte presença da 
violência intrafamiliar como exemplo, que figura nos índices mais 
altos de práticas violentas cometidas entre pessoas conhecidas e 
familiares, fazendo-nos observar quais variáveis estão presentes na sua 
manifestação: a convivência, o estabelecimento de poder na interação 
humana, o preconceito e discriminação como forma de manter a 
posição de alteridade. E também recebendo influências externas, que 
tendem a aumentar a pressão interna do indivíduo, como desemprego 
e falta de recursos para poder expandir seus talentos, de educação, 
conscientização, cultura, política, entre outros. Tudo isso deságua na 
interação familiar, sendo uma ação da microviolência.
5959 59
Soa ingênuo acreditar que a sociedade possa estar isenta de 
violência e da ocorrência de crimes. Pela Teoria da Anomia, de 
Émile Durkheim (1897), pai da sociologia moderna, aqueles a quem 
a sociedade não oferece oportunidades nem caminhos legais para 
alcançar o bem-estar acabam praticando atos reprováveis para atingir 
seus fins antes dos demais, geralmente contra a propriedade, já que têm 
como objetivo a sobrevivência.
ASSIMILE
No vídeo intitulado Anomia – Conceito, disponibilizado no 
site Cultura Livre (disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019), você 
pode entender mais sobre o conceito de Anomia na visão 
teórica de Durkheim (1897). Essa visão permanece atual 
para o entendimento dos comportamentos humanos 
que incomodam e atordoam a vida das pessoas. Outros 
conceitos serão aqui encontrados, dando sustentação 
para compreender a relação existente entre as influências 
ambientais na manifestação da violência. São eles: 
a. Anomia social.
b. Coesão social.
c. Consciência afetiva.
d. Coerção social.
1.2. As condições ambientais que influenciam a violência 
Ao refletirmos sobre que condições contribuem para a ocorrência da 
violência, temos um universo amplo e que nem sempre é compreendido 
pela própria pessoa. Muitos fatores estão submersos, como nos mostra 
https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/
https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/
6060 
a Figura 6, onde o iceberg tem uma pequena parte que é identificada; 
que nos faz supor conhecer a realidade e seus desdobramentos na 
vida das pessoas em sociedade. No entanto há muito desse contexto, 
onde as influências ambientais são diluídas tendo em vista não serem 
identificadas. Sentidas sim, mas não compreendidas. Muitos desses 
aspectos passam desapercebidos, são inconscientes e estão envolvidos 
no contexto social mais amplo. 
Figura 6 – Iceberg
Fonte: RomoloTavani/Istock.com.
As circunstâncias ambientais vão permear a ocasião do crime e são 
aquelas que permitiram o desencadeamento do próprio ato, bem 
como aquelas inibidoras do crime, isto é, que foram reprimidas. 
Caso tivessem sido fortes o suficiente, o crime não ocorreria. 
Elas caminham juntas nessa esfera dos acontecimentos. Assim, a 
miséria – aspecto responsável pela maior parte dos delitos, como 
preponderante sobre outras influências, inclusive – nem sempre 
prevalecerá. Isso ocorre, por exemplo, se no último instante o 
indivíduo deixar de praticar a violência, em razão de ter tomado 
consciência a respeito da penalidade a que estará submetido caso 
efetive algum crime, ou se, caso sua autoria fosse descoberta, não 
teria mais como esconder sua identidade. Tal consciência funciona 
como freio, inibindo a ação antes pensada, mas ainda não praticada. 
6161 61
Outra causa da prática criminosa está na personalidade do indivíduo 
por ocasião do momento em que comete o crime. Dessa forma, pode-
se pensar: o que teria determinado tal ato? Um indivíduo pode agir de 
determinada forma ou de outra, conforme sua personalidade, e, sendo 
assim, temos elementos para prever o que é esperado de sua conduta. 
Cada um reage de determinada forma em situações que o levariam a 
um grau de estresse alto. No entanto, com o conhecimento do caráter 
desse individuo, é possível predizer e esperar como tal pessoa agirá em 
determinado momento, principalmente se nesse momento a iminência 
de risco e de perigo estiverem presentes. Ela pode não oferecer risco 
algum por não conter a passionalidade – visão exagerada e apaixonada, 
determinante para a ausência de consciência e de ações por impulsos. 
Prova disso ocorre quando aqueles que agem como tal relatam “não 
ter imaginado que agiriam de tal forma”, “que não esperavam que isso 
ocorresse”. O indivíduo é tomado por lapsos ou rompantes que lhe 
tiram do equilíbrio emocional costumeiro, podendo cometer atos que o 
envolvam em complicações de âmbito criminoso. 
Se os comportamentos são uma composição do histórico de vida da 
pessoa, há de se considerar que essas predisposições ou tendências 
fazem parte também de disposições individuais. Se houver tal 
disposição por parte daquele que optou pelo crime, esse fato revelará 
potencial para a prática de outros delitos, sendo necessário verificar o 
nível ou grau de periculosidade deste, o que teria implicações quanto 
à sua convivência em sociedade. Se houver grande abalo moral em 
razão do fato criminoso, dificilmente esse indivíduo incorrerá em outro 
crime dessa natureza, está demasiadamente envolvido nesse fato e 
com as implicações punitivas. Já não podemos dizer o mesmo daquele 
que pratica atos criminosos em menor escala, daqueles que saem 
ilesos de uma situação delituosa, daqueles que não foram punidos 
e muito menos descobertos. Nesse caso, a prática delinquencial 
passa a ser uma característica da sua personalidade e fatalmente 
incorrerá a esse expediente em suas relações com pessoas, situações 
6262 
e circunstâncias. A eles, o risco da continuidade na vida criminosa 
será expressivo e certo, pois se trata de uma característica particular 
adotada pelos infratores e cuja prática não gera arrependimento ou 
culpa. Ao contrário, vivem de atos infracionais, enganando pessoas, 
gerando mal-estar e sendo verdadeiros estrategistas nas manobras 
que os retirem dos flagrantes. Portanto, tornam-se profissionais do 
crime. Pensam e agem de tal forma. 
As tendências hereditárias são parte desse quadro, compondo 
o histórico de vida como resultado dessa evolução distorcida, e 
não meramente um desenvolvimento saudável. A vivência desses 
indivíduos está marcada por histórias difíceis desde o seu nascimento, 
do abandono, da negligência, da miséria, da falta de estrutura 
familiar, da ausência de afeto e de outras sequelas como abusos 
infantis, estupros e violência física. Desse modo, o indivíduo apresenta 
tendências à criminalidade pela carga hereditária e até mesmo pelo 
histórico de outros membros da família e, ainda, por influência das 
amizades que o influenciam à facilidade de obter satisfação imediata 
em razão de um impulso. Com a diferença de que estas são desviantes, 
abusivas, violentas, agressivas. Revelam a distorção do entendimento 
das condições pessoais e sociais como quem devolve o “mal” presente e 
internalizado em sua pessoa respondendo aos meios e ambientes dos 
quais participa, não como integrante e membro dessa sociedade, e sim 
como alguém que retira, toma, rouba, fere, mata. Deságua em tal carga 
explosiva a expressão de constantes impulsos internos que revelam o 
seu modo de ser internamente, com conflitos, distorções e percepções 
equivocadas; e como quem se livra de parte de sua pressão interna. 
Na realidade, não há prova de que exista o “criminoso nato”. Ninguém 
tem uma hereditariedade tal que deva ser inevitavelmente um 
criminoso, independentemente das situações nas quais é colocado ou 
das influências que sobre ele exercem. Certo tipo de temperamento, que 
se supõe ser herdado, poderá preveni-lo de ser criminoso num ambiente 
e, em outro, se tornar, seja em razão das condições pessoais (traços 
6363 63
de personalidade), seja em razão do envolvimento com a situação, 
considerando este um indivíduo de média inteligência ou um estúpido. 
Toda pessoa poderia ser um criminoso em potencial, de acordo com o 
encaminhamento de suas tendências. O caráter de fenômeno coletivo 
da delinquência nas cidades está associado ao grande número de casos 
dos crimes individuais, sendo uma expressão da vida em sociedade, 
apesar de estarmos nos referindo a respostas que o indivíduo encontrou 
para lidar com a situação e o contexto específico em que se encontra. 
Esse indivíduo é, por sua vez, membro do grupo maior, social, não se 
tratando unicamente da sua marca individual, bem como a de pertencer 
à coletividade. Dessa maneira, se outras razões não forem consideradas 
na incidência de determinado tipo de crime, a própria justificativa está 
por se tratar de um fenômeno coletivo. 
1.3. A alienação como promotora de violência 
O indivíduo alienado está à margem, tanto dele mesmo como em 
relação ao mundo que o cerca. Entre estar alienado ou ser alienado 
haveria uma diferença em relação às formas de atuar. Se a alienação for 
circunstancial, isso representa que, para determinada situação, a pessoa 
se colocará distante, sem se propor a uma reflexão e a uma tomada de 
consciência. Seria o caso de fechar os olhos para algo em específico. 
Torna-se indiferente moralmente, socialmente, politicamente e 
intelectualmente. Já a alienação enquanto uma constante, uma conduta 
alienada, envolve a marginalização do próprio indivíduo diante da vida e 
de condições que o conectem com a realidade social mais ampla, como 
a de sua história particular, envolvendo aí sua família, seus amigos, 
colegas de trabalho, etc. Estabelece para si uma condição e postura 
de vida que abre precedentes para outros fatores entrarem em ação e 
tornarem-se influência na sua história pessoal.
Quando o indivíduo abre mão do pensar, não desenvolve a crítica 
necessária para sua interlocução, o que ativaria a qualidade da sua 
reflexão (diálogo mental instituído, ponderando aspectos de um lado 
6464 
e de outro, que, por fim, levam a uma conclusão ou constatação sobre 
algo ou fato). Como poderia se aprimorar e se desenvolver? 
A alienação é contráriaao processo de aquisição do conhecimento e da 
expansão da própria consciência, que é o que amplia a visão de mundo 
do homem. Indivíduos propensos à agressividade são restritos na sua 
atuação, têm um modo de pensar estabelecido, pois daí justificam 
suas ações. Sua tendência para a prática criminosa revela isso, a 
ausência de ocupar-se com atividades integradoras e que o coloquem 
em atividade. Esse indivíduo é assim porque é do modo como é, e 
não tem atrativo nenhum para modificar-se, aperfeiçoar-se enquanto 
melhoria pessoal. Vê e entende o mundo a partir dessa ótica própria, 
que o coloca reduzido diante das situações, associando, inclusive, que 
tudo teria a ver com ele. Esse indivíduo sente-se à margem de todos, 
sem as oportunidades que somente outros possuem. Desse modo, não 
consegue gerar o seu próprio processo de inclusão. 
Se tivermos noção da distinção entre conduta normal e conduta 
patológica, muitas situações poderão facilmente ser entendidas. 
Todo tipo de comportamento atípico, fora do normal, provoca alterações 
na vida social, na interação do indivíduo com o seu meio. E se ele oferece 
um grau de risco maior, cabe procurarmos diagnosticar e nos proteger. 
A ocorrência de crimes, quando não resultante dos contrastes sociais, 
está também associada ao grau patológico mental do criminoso, que, 
na manifestação doentia, quando em crise e em situação de cometer 
práticas delituosas ou criminosas, entra num estado tal de alienação que 
tende a desconhecer as implicações de seu ato, como se não soubesse o 
que está fazendo. Assim, chega muitas vezes a desconhecer a gravidade 
ou mesmo o risco a que se expõe e aos demais. E com o agravante de 
estarem acompanhados de delírios e alucinações, situação na qual a 
associação entre alienação e crime é existente. Em que, quanto maior 
for o comprometimento da normalidade, maior será o nível de alienação 
e, consequentemente, maior propensão à prática criminosa. 
6565 65
São frequentes os crimes cometidos por esquizofrênicos, com marcas 
de violência e imotivados (sem qualquer motivação específica para tal), 
e as pessoas mais próximas, geralmente as envolvidas com a família, 
são as que correm mais riscos, assim também como um desconhecido, 
até mesmo profissionais que cuidam dele, doente. Como não precisa ter 
um motivo forte para cometer um crime, ele é um potencial agressor. 
E todos os esforços em prevenção são necessários. Não se percebe com 
razões de ódio, ciúmes, revolta. O homicídio é cometido friamente, não 
sendo passional, sem qualquer noção da lógica. Logo, torna-se difícil 
prever quando este irá eclodir numa prática criminosa. O esquizofrênico 
tem alterações do pensamento, regredindo a estágios primitivos do seu 
desenvolvimento psicológico – pensamento mágico infantil. Ele é muito 
propenso à automutilação, sendo um risco para ele mesmo, porque 
pode atentar contra a própria vida. 
Já os crimes provocados por epiléticos são cometidos pela 
imprevisibilidade, sem motivo aparente, extraordinariamente violento, 
sem qualquer lembrança por parte do criminoso. A vítima poderá 
ser um desconhecido qualquer, que esteja presente no momento do 
surto. Nessa situação não há remorso, podem ter impulsos ao furto 
(cleptomania), ao incêndio (piromania) e ao álcool (dipsomania), ao 
exibicionismo das partes sexuais, muitas vezes acompanhado pela 
incompreensão das pessoas que desconhecem tratar-se de pessoa 
com comprometimento mental. Em muitos acessos epiléticos, as 
manifestações podem vagar sem destino, fazendo desenhos e 
escrevendo cartas, sem recordações do ocorrido após sair dessa crise. 
A agressão epilética é do tipo sadomasoquista e associada com a libido 
homossexual (libido destrutiva). São crimes sem motivo, sem remorso 
e sem premeditação, ferozes na ação, a ocorrência de muitos golpes e 
seguido de amnésia. Todavia, há alguns casos em que a premeditação 
poderá ocorrer, acompanhada da não ocorrência de amnésia. 
Nos intervalos de crises, muitos epiléticos têm humor instável, ora são 
dóceis e afáveis e ora são sombrios. Mas o comportamento habitual é 
ser explosivo e agressivo. 
6666 
Os casos de paranoia também podem eclodir em práticas criminosas, 
caracterizada pelo desenvolvimento de delírios de natureza não 
alucinatória, de causas internas, sem qualquer prejuízo do uso 
da inteligência. O indivíduo paranoide acredita na realidade que 
conclui ser de seu inimigo apesar dessa constatação existir tão 
somente em sua própria mente. O crime, quando cometido, é uma 
ação acompanhada de lógica, em que se apresentam as seguintes 
modalidades, conforme Dourado (1969): 
• No delírio de interpretação, o paranoide deforma a realidade, 
obedecendo às suas emoções, aos seus sentimentos, percepção 
e impulsos inconscientes. Os sofrimentos morais são produto de 
projeção advinda da maquinação alheia de inimigos ocultos que 
pretendem aniquilá-lo. Surgem deduções falsas que ampliam, 
modificam, adulteram e mistificam a realidade objetiva. Surge 
a ideia do crime, como expressão de ter que acabar com o seu 
inimigo, pois, ao considerar-se perseguido, tende ao desejo de 
vingança. Tais delírios de interpretação desdobram-se em delírios 
de grandeza, ciúme erótico, de hipocondríaco e autoacusatório. 
Dificilmente se apresentam de forma mista. Suas reações podem 
se apresentar de duas formas: 
a. Ou se tornam agressivos (perseguidos – perseguidores), 
podendo cometer suicídio.
b. Ou são resignados, sem oferecer qualquer tipo de 
ameaça social. O estado mental do paranoide caracteriza-se pela 
ausência de confusão de ideias, com boa memória e inteligência. 
• No delírio de reivindicação, há a presença de ideias obsessivas 
com alta carga emocional, em que qualquer tipo de frustração 
passará a ser o centro de atenção do delirante, sendo discrepante 
a reação diante do fato. A causa costuma ser insignificante, o 
prejuízo menor ainda, entretanto a preocupação é extrema e vai 
alimentando aos poucos a ideia criminosa. São reivindicadores e 
6767 67
friamente impulsionados por delírios de cunho político e religioso 
maníaco. Portanto, é válida a seguinte formulação: 
• Exaltação emocional + ideia obsessiva + intelectualização 
delirante do ato = crime paranoide. 
Sua conduta é caracterizada pelo egocentrismo, ou seja, 
profunda hostilidade contra todos, acreditando que todos 
estão contra ele e, por isso, alimenta sentimento de rejeição, 
de infelicidade ao se considerar vítima das situações. 
Costuma ser orgulhoso, desconfiado e vaidoso, valendo-se 
de um grau de agressividade elevado. Poderá desenvolver 
um quadro psicótico. 
• No delírio de imaginação, desenvolve-se a mitomania ou 
a alteração da verdade, passando a acreditar nas próprias 
mentiras. Caracterizado por indivíduos sem crítica, com falso 
juízo da realidade e grande capacidade imaginativa. Como 
forma de aumentar sua autoestima, poderá chegar ao ato 
criminoso, como compensação. Assim, projetam no mundo 
exterior suas criações imaginativas, como se fossem realmente 
reais. O sentimento de rejeição determina o comportamento 
antissocial, sendo a falta de afeto e de rejeição no período da 
infância marcas do seu desenvolvimento, promovendo inúmeros 
ressentimentos e hostilidade com o meio social. 
A falta de higiene é também uma das características presentes entre 
pobres e miseráveis, e também presente na promiscuidade dos 
cortiços, das favelas onde falta tudo: espaço físico, luz, instalações 
sanitárias, oxigenação ambiental. A marca da injustiça social é severa e 
determinante na vida das pessoas excluídas materialmente, advindas de 
tamanho contraste socioeconômico. 
A carência de recursos é determinante na criminalidade, seja contra 
a pessoa, contra o patrimônio e contra os costumes. Em contextos de 
moradias promíscuas, as crianças assistem a cenas de violência e de 
6868 
sexo com consequências para o seu desenvolvimento saudável, pois são 
precoces e expostas a uma crua realidade sem compreensão qualquer. 
Sem contar as doenças infectocontagiosasentre as pessoas que vivem 
nessas condições precárias. Esses aspectos também estão associados 
aos cuidados com o corpo e sua higiene, pois quando há falta de asseio 
na habitação, há também precariedade com o corpo, e esses aspectos 
têm ou podem ter influência na psique da pessoa. 
A nutrição e a criminalidade, de forma indireta, também estariam 
associadas. Nesse caso, o indivíduo com privação alimentar poderá ser 
induzido ao furto, como forma de driblar tal problema emergencial. 
A subalimentação e o estado crônico de privação alimentar levam 
indivíduos a comportamentos e sentimentos associais (avessos à 
socialização), como o ressentimento, a irritabilidade, a revolta, o ódio e a 
predisposição ao ato delinquencial. A ingestão abusiva do álcool e o uso 
de drogas geram o desequilíbrio orgânico e psíquico, funcionando como 
fatores predisponentes ao crime. 
A geografia da criminalidade faz parte da estatística criminal diante 
da ocorrência e da frequência associadas a determinadas regiões, 
bairros e estados de um país. É possível observar mudanças, diferenças 
que promovem reflexões pertinentes ao que estaria promovendo 
a delinquência. O meio geográfico influencia diretamente sobre o 
comportamento dos grupos (DOURADO, 1969). 
Temos, a partir dessa análise, os elementos que constituem o quadro 
natural da vida dos grupos. São os seguintes: 
a. Fatores físicos e antropofísicos: relevo, clima, tempestades, a linha 
litorânea, a combinação da natureza e a atividade humana. 
b. Fatores imediatos e mediatos: atuam diretamente sobre a vida 
humana coletiva e outros que atuam sobre a natureza. Estes, por 
sua vez, afetarão coletivamente os grupos. 
6969 69
c. Fatores agentes e condicionantes: atuam de forma direta ou 
indireta no social, enquanto outros oferecem possibilidades para 
surtir determinado efeito social. 
Os mais variados fenômenos socioculturais advindos do fator 
ambiental, a distribuição e densidade das populações, as etnias 
distribuídas em determinadas regiões, o tipo de organização econômica, 
social e política, juntamente com o progresso das nações, as crenças 
religiosas, as diferentes estruturas de composição familiar, os números 
da violência nas cidades e os meios pelos quais o indivíduo encontra a 
delinquência são relacionados também às influências geográficas. Isso 
nos mostra que regiões periféricas, com menor acesso às possibilidades 
de que outros gozam, por estarem em outro local, permanecem 
desproporcionais, mantendo uma estrutura social desigual. 
1.4. A violência quando se torna crime 
A violência associa-se ao crime, à conduta delinquente e transgressora 
que fere princípios da vida, dos elementos humanos essenciais para 
se viver. É expressão antissocial nos seus efeitos, demonstrando a 
ignorância total das pessoas, a ausência do exercício da ética, com plena 
ausência de percepção social, no quesito de não se lastimar por lesar ou 
provocar o mal na vida em sociedade. E as suas repercussões são cruéis, 
muitas delas definitivas, em consequência de crimes hediondos, tais 
como homicídios, estupros de menor ou incapaz (como judicialmente se 
nomeia), em que o valor da vida não é qualificado e nem mensurado na 
sua proporção devida. Isso é o resultado da incongruência da interação 
de dois fatores fundamentais: o indivíduo refém dessa realidade e seu 
contato com a sociedade.  
Ricotta (2016), no livro A psicologia do comportamento criminoso, reflete 
que, na sociedade moderna e globalizada, temos uma minoria 
dominante que vive o dilema de vencer a qualquer custo os seus 
semelhantes, com o intuito de obter uma espécie de poder especial 
7070 
sobre a própria vida e até sobre a morte. Afinal, a violência é pratica 
que visa o poder, resigna o outro de algum modo, a fim de promover 
o seu sofrimento. Mas a grande maioria das pessoas alimenta a 
perspectiva de se realizar como ser humano e ter acesso ao que precisa 
para viver com qualidade: moradia, trabalho, ambiente social, saúde, 
educação. Esse grupo social maior aspira tal posição e luta para que se 
mantenha na condição de não excluído, nem mesmo desprivilegiado. 
Lutam, portanto, para vencer os obstáculos do dia a dia e da sua 
superação, pois, na sua convivência social, o indivíduo habitualmente 
tem conflitos nas suas relações interpessoais, sociais e coletivas. Muitos 
não conseguem tal superação e posição, buscando formas ilegítimas ou 
violentas para vencer, ainda que atentem contra a vida de outros ou que 
isso venha a prejudicá-los de algum modo. 
O aspecto ético passa a ser muito discutido nesse âmbito, pois 
representa a estrutura do caráter e da formação da personalidade do 
indivíduo que, ao não estar preparado para emancipar-se em sociedade 
e buscar galgar posição de respeito, poderá ser acometido de distúrbios 
de toda ordem, vivenciar conflitos que lhe coloquem em estresse e em 
crises profundas, modificando seu comportamento diante das pessoas. 
Para aqueles predispostos a condutas delinquenciais, por questões 
de caráter, personalidade, deformações adquiridas por vivências 
desastrosas, vencer pode representar algo a qualquer preço, com total 
quebra dos modelos éticos.
1.5. O fator delinquencial como influência dos casos violentos 
Lombroso (2007) ocupou-se de estudar o homem diante da sua 
história de vida, de seu comportamento e o que teria determinado 
a delinquência desse ser e o que é considerado delinquente nesse 
homem. Em sua publicação O homem delinquente, dedicou-se, inclusive, 
a aspectos morfológicos, baseando-se na sua anatomia, criando o que 
se denominou de Antropologia Criminal. Sendo assim, tais estudos 
influenciaram o Direito Penal, partindo para uma linha de critérios 
7171 71
objetivos e menos abstratos sobre o delito e o criminoso em si. 
O estudioso chegou a conclusões interessantes que vieram colaborar 
com a Política Criminal. Conforme essas conclusões, o criminoso nato 
está sujeito ao seu impulso criminal, sem qualquer impedimento moral 
para tal ação, e que a sociedade tem o direito de proteger-se e prevenir-
se de tais pessoas que oferecem risco e perigo iminente, confiando na 
prisão perpétua e, para alguns casos excepcionais, a pena de morte – 
procedimentos que entendeu ser necessário. 
A adaptação do indivíduo em seu grupo social se inicia na puberdade, 
que, mediante seu desenvolvimento, aprende a fazer a diferenciação 
entre o normal e o criminoso, sendo capaz de reprimir componentes e 
impulsos instintivos, tipicamente criminosos. De acordo com a resposta 
do jovem frente a isso, se tal aprendizado não ocorrer, poderão 
existir três classes de criminosos, não estando associadas à condição 
socioeconômica exclusivamente. A violência é democrática, atingindo 
todos os grupos sociais, assim como o crime. 
São três modelos: 
• O neurótico: quando os conflitos psíquicos entre os aspectos 
sociais e antissociais da personalidade têm origem na infância e na 
vivência posterior, sendo, portanto, legitimados. 
• O normal: quando a causa da criminalidade é sociológica. 
• O criminoso: cuja etiologia é biológica e orgânica. 
Naturalmente, não podemos afastar a possibilidade de indivíduos 
normais tornarem-se criminosos sob a influência de determinadas 
circunstâncias específicas, como privações de toda ordem: afetiva, 
moral, social, cultural, intelectual. 
Para entendimento da Psicologia Criminal, de acordo 
com pesquisas feitas na divisão entre as ciências criminologia e 
psicologia, Ricotta (2016) ressalta que é importante que essa porta 
7272 
tenha se aberto no estudo dos fatores predisponentes da conduta 
criminosa, com repercussões severas na sociedade. O estudo dessas 
mentes criminosas é fonte de interesses em razão do perigo que 
oferecem, dos delitos que são capazes de cometer e as consequências 
desses atos nas demais pessoas e na coletividade, de acordo com 
a abrangência. Desse modo, utiliza-se o exame psicológico do 
comportamento antissocial, realizado de forma científica, a fim de 
desvendar o caráter e astendências do delinquente. Os motivos desse 
tipo de comportamento serão verificados na avaliação de periculosidade, 
na avaliação da reincidência e na extinção da periculosidade. Ao estudar 
o criminoso em si, a criminalidade e os fatores endógenos e exógenos 
que a influenciam diretamente, a Psicologia Criminal passou a integrar a 
ciência da Criminologia.
Sobre o efeito da ação dos fatores endógenos, muitas, transitórios ou 
permanentes, e de onde se extrai a explicação dos mecanismos de 
vários crimes e a indicação dos meios de combate à periculosidade 
que estes indivíduos oferecem no convívio social, tendo aí o estudo 
da psicologia e da psiquiatria como recursos para o resgate da 
saúde psíquica.
1.5.1. Tipos de criminosos
Os estudos de Lombroso (2007) são referenciais até o presente, com 
a contribuição de novos pesquisadores do assunto, classificando os 
criminosos na seguinte categorização: 
• Criminoso nato.
• Falso delinquente, pseudodelinquente ou delinquente ocasional.
• Criminaloide (entende-se como sendo o “fronteiriço”), aquele que 
é “meio louco”, “meio delinquente”. 
Na observação da Antropologia Criminal, há a presença dos fatores 
individuais do crime, abrangendo os aspectos endógenos (somáticos e 
psíquicos da vida do homem) nos quais a psicologia criminal se insere 
na Biologia Criminal, por meio de um estudo morfo-psico-moral do 
7373 73
delinquente, compreendendo a anatomia, a psicologia e a psicopatologia 
do criminoso. Os aspectos sociais que conduziram o indivíduo à ação 
criminosa são também considerados, bem como o núcleo familiar 
e social na gênese do delito e na qualificação da sua estrutura e 
formação pessoal. 
Cândido Motta (1925, apud FERNANDES; FERNANDES, 2002) criou uma 
classificação composta por cinco tipos de criminosos: 
• Criminosos ocasionais  (mesocriminosos: do tipo “a ocasião 
faz o ladrão”) – Têm o senso moral fraco, mas têm uma vida 
normal. Sucumbem diante de algum fato externo a ele próprio, 
principalmente de ordem social. Os delitos mais comuns são o 
furto e o estelionato. Arrependem-se, confessam o crime e são 
até comportados na prisão, por isso estão dispostos a não mais 
cometerem nenhuma prática criminosa. 
• Criminosos habituais (mesobiocriminosos: o biológico é 
predisponente e o mesológico é desencadeante) – Começam, 
desde a infância, a praticar atos delinquentes, unindo-se a 
gangues e quadrilhas. São propensos ao uso do álcool e das 
drogas, deteriorando-se tanto fisicamente como moralmente. 
Fazem parte da escória dos prisioneiros e raramente se corrigem, 
pois são incapazes de levar a vida honestamente. Cometem 
qualquer tipo de delito, até os homicídios em série. São 
geralmente pobres e permanecem pobres, pois não conseguem 
se estruturar na vida. Empregam o uso da violência nos seus 
ataques como forma de assustar suas vítimas e facilitar a sua 
ação. Raramente são astutos e com alguma instrução, e nesses 
casos, por meio de sequestros, assaltos a bancos e estelionato, 
conseguem arrecadar algum valor financeiro. 
• Criminosos impetuosos (mesocriminosos preponderantes: 
apresentam potencial interior para a prática criminosa e se 
manifestam se houver estímulo externo) – Não premeditam, 
agem estimulados pela honra. Apesar do psiquismo bem 
7474 
estruturado, uma falha do senso crítico desencadeia uma 
reação em curto-circuito, não havendo, nesse momento, juízo 
de valor, pois, caso houvesse, sua conduta cessaria. São aqueles 
tipos de crime estimulados pela passionalidade, por discussões 
imprevistas no trânsito e bares. Geralmente se arrependem, pois 
costumam ser honestos. Observa-se neles que a agressividade e o 
superaquecimento das emoções inibiram o senso crítico. 
• Fronteiriços criminosos (biocriminosos preponderantes: 
biologicamente anormais e esperam a oportunidade exterior para 
a prática ou a conduta criminosa insurgir) – Estão na fronteira 
entre a normalidade e a doença mental. Têm deformidade 
do senso ético-moral, ausência de afetividade, insensibilidade 
e frieza, tendo como característica básica a ausência de 
arrependimentos. São os criminosos mais perversos de todos, 
incorrigíveis e de alta periculosidade, iniciando-se na ação 
delituosa desde a infância ou adolescência. A morte costuma 
ser precoce, em confrontos com a polícia ou mesmo com outros 
criminosos. Aparentam normalidade, confundindo juízes e 
promotores, mas a reincidência é certa, tendo como guia uma 
ideia e um planejamento mórbido que recomeça após cada 
execução. Seguem determinado ritual, como atear fogo ao 
corpo da vítima ou de criminosos específicos, em determinadas 
modalidades de crimes, como aqueles que envolvem somente 
homossexuais ou prostitutas. Têm deformações de cunho sexual 
(sadismo, masoquismo, homossexualidade ativa e passiva) 
ligando a crimes dessa ordem. São chamados de loucos morais, 
psicopatas e sociopatas, idiotas morais ou condutopatas. 
• Loucos criminosos – (biocriminosos puros: é o fator biológico que 
o leva ao crime) – Indivíduos com alterações mentais permanentes 
e que cometem crimes. Podendo ser divididos em dois grupos: 
• Em decorrência de uma ideia mórbida: que brota do nada 
e se torna obsessiva, doentia, dominando o livre arbítrio. 
O crime surge envolvido a muita reflexão (paranoides e 
esquizofrênicos paranoides). 
7575 75
• Impulso momentâneo: desencadeia reação imediata 
em curto-circuito, sem motivação plausível. Agindo sem 
pensar, com ferocidade e múltiplos golpes – convulsão 
comportamental (epilépticos ou oligofrênicos).
Nos dois grupos, os delinquentes comentam suas intenções, 
ameaçam, atacam abertamente as vítimas, sendo elas conhecidas 
ou não. Confessam o crime sem arrependimentos e tornam-se 
indiferentes ao processo penal (frios e insensíveis). 
O médico alemão Baer (apud FERNANDES; FERNANDES, 2002) 
formulou estudos diferentes daquele citado por Lombroso (2007). 
Ao trabalhar nas prisões de Berlim, ele observou, em diversos casos, 
que tais criminosos não se distinguiam das pessoas fora dela, dos não 
criminosos, por meio de algum sinal específico que os identificasse. 
Confrontando Lombroso (2007), segundo o qual, o criminoso tem uma 
morfologia específica que lhe determina tal condição. 
E mesmo com as novas visões que surgiram a partir da criação da 
Antropologia Criminal, o grande mérito reside em esta ser a marca 
inicial de todos os estudos criminológicos e o surgimento da teoria 
da disposição, “a teoria do atavismo”, que é o aparecimento, em 
um descendente, de um caráter não presente em seus ascendentes 
imediatos, porém remotos, tidos como malformações atávicas. 
Decorre daí duas linhas de atavismo: 
• Os defensores do atavismo físico.
• Os defensores do atavismo moral.
7676 
2. Conclusão
Figura 7 – Massacre do Carandiru
Fonte: capa de Carandiru – O filme. Direção de Hector Babenco. 
Rio de Janeiro: Globo Filmes, 2003, 97 min. 
Temos um aspecto característico nas ocorrências violentas que 
é a sua recorrência, ou seja, a sua frequência. E isso ocorre em 
decorrência de influências ambientais, psíquicas e intrafamiliares, 
as quais permanecem atuando sob a ação das mesmas condições 
precárias. Enquanto não forem tratadas, o estímulo deformador 
e de aniquilamento do ser humano permanecerão presentes e se 
expressando na sociedade. 
Podemos observar também que a progressão da violência, quando 
não mediada, resulta em sua escalada, gera expressões violentas de 
maior intensidade, chegando potencialmente à prática criminosa. 
Esta assume, em consequência, proporções maiores: judiciais, 
policiais, psiquiátricas e punitivas, do modo como o sistema prisional 
e carcerário atua, havendo a perda de sintonia com ações de 
parâmetros saudáveis. Com isso, é decretada a passagem para uma 
condição criminosa, comprometendo, de uma vez por todas, os laços que 
até então existiam, no caso das famílias, e entre pessoas conhecidas. 
7777 77
Os delinquentes sabem o que é ter uma boa conduta, mas preferem 
infringir a lei porque sua estrutura moral,já formada desde o período 
da infância, é deficiente. Contamos, em nossa análise, com influências 
outras, além das ambientais, como as relativas à sanidade, ao uso 
e estímulo de drogas, à miséria, à alienação social, à delinquência, 
aspectos que diminuem a força moral que trabalha de forma contrária à 
existência de comportamentos antissociais e instintivos. 
O risco e o perigo são presentes na sociedade e acusam a permanência 
desses efeitos, o que gera a cultura do medo. O sentido de perigo é 
iminente e pode ser variável e previsto em alguns casos, controlados 
por profissionais especializados. Poderemos prever a ocorrência 
desses estados e situações de risco e de perigo com pessoas que já 
tenham cometido algum tipo de delito, cuja probabilidade de incidir 
novamente, em outro fato criminoso, é real. Diante desse cenário, 
deve-se aumentar a vigilância e o acompanhamento desses casos, nos 
cuidados relativos às recaídas, algo comum no caso daqueles que estão 
em algum tipo de tratamento ou assistência. 
TEORIA EM PRÁTICA 
O segredo envolvendo um caso de violência 
Zélia, de 35 anos, com duas filhas menores, procura o 
atendimento psicológico do serviço de atendimento de 
uma unidade do CRAS. Relata ao psicólogo que se sente 
com dificuldade para aplicar limites nas filhas, que não 
a obedecem e agem com descaso para com tudo o que 
ela pede e diz. Afirma que elas têm tido comportamento 
agressivo na escola, que a coordenadora pedagógica pediu 
que procurasse atendimento psicológico para desenvolver 
maneiras de se relacionar com as filhas com mais 
autoridade. Houve uma sequência de três atendimentos e 
Zélia relata que é considerada como “burra” pelo marido, e 
7878 
que também suas filhas têm dito isso a ela. Foi verificado, 
no contexto terapêutico, que ela passou a acreditar nisso, 
entendendo, por fim, que não sabia ser boa mãe e talvez 
nem boa esposa, pois era burra e devia fazer tudo errado.
No quarto atendimento, foi solicitado que ela viesse 
sozinha, sem a presença das filhas. Então, o psicólogo teve 
acesso a um relato inesperado. Zélia estava sendo vítima 
de violência psicológica e também física, mantendo esse 
segredo e sentindo-se uma mulher com poucas habilidades, 
pois além de se considerar burra, ela recebia maus 
tratos de Saulo, com quem vivia e que a desqualificava 
constantemente. Este, a cada dia, a criticava na frente das 
crianças, apontava defeitos em tudo na casa e também 
era frequente jogar o prato de comida na parede. Saulo 
afirmava que Zélia não prestava nem para fazer comida 
boa. A mulher, na tentativa de poupar as filhas, as retirava 
do ambiente sempre que o clima era nocivo. No entanto, a 
marca de Saulo era de torturar sua então esposa, fazendo 
ela permanecer ao seu lado todo o tempo. As filhas se 
acostumaram a sair de casa a todo momento em que o pai 
chegava, deixando o que estavam fazendo para que ele não 
brigasse com elas. Zélia ainda tentava poupar suas filhas, 
mas não tinha o respeito delas. 
Zélia finalmente chora muito e diz que seu marido tem 
uma arma e toda vez que ela se esquiva de ter intimidade 
com ele, sua atitude é forçá-la sexualmente, estuprando-a 
com a arma na cabeça. Por sua vez, ela tem que ficar 
quieta, em silêncio. 
Como sugere que possa ser o direcionamento desse 
caso em se tratando da alegação de violência? 
Como deflagrar o segredo familiar? 
7979 79
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1. A relação do crime, do ponto de vista do indivíduo e da 
sociedade, tem enfoques diferentes. O que basicamente 
diferencia um do outro? 
a. Tanto o indivíduo quanto a sociedade estão 
interligados, não sendo, portanto, diferentes. 
b. No primeiro, o enfoque está no histórico de vida e, no 
segundo, no seu comportamento social. 
c. A personalidade do indivíduo, somado aos 
seus aspectos hereditários, é que propiciará 
comportamentos e condutas delinquenciais em seu 
meio (sociedade). 
d. As influências ambientais são determinantes tanto no 
indivíduo quanto na sociedade. 
e. A complexidade do tema nos aponta que 
é multifatorial e nem sempre o ambiente é 
determinante na promoção dos casos de violência. 
2. A delinquência somente existe na população de 
baixa renda? 
a. Sim, tal conduta está associada aos índices de pobreza. 
b. Não, está associada à má formação de personalidade. 
c. Não, é democrática, atingindo todas as classes sociais 
e faixas etárias. 
8080 
d. Sim, faz parte do maior problema relacionado à 
criminalidade. 
e. Tende a surgir por não haver condições 
igualitárias a todos. 
3. Por que há a associação da violência com o uso 
de drogas? 
a. O uso de drogas favorece a ocorrência de violência: do 
roubo ao tráfico, de uma agressão física ao homicídio. 
b. O uso de drogas está associado à toxicomania grave, 
devendo o usuário ser tratado em vez de considerado 
um criminoso. 
c. O crime e a conduta violenta predispõem o sujeito ao 
uso das drogas. 
d. O uso frequente de drogas deteriora o indivíduo, 
predispondo a condutas antissociais, elevando seu 
potencial violento. 
e. A alienação o torna um elemento sem qualquer 
sensibilidade. 
 
Referências bibliográficas
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: 
Zahar, 2006. 
BORDIEU, P. O poder simbólico. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. 
CULTURA LIVRE. Anomia – Conceito. 2018. Disponível em: . Acesso em: 
25 jul. 2019.
https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/
https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/
8181 81
DIAS, J. F.; ANDRADE, M. C. Criminologia: o homem delinquente e a 
sociedade criminógena. Coimbra: Coimbra Editora, 1997. 
DOURADO, L. A. Ensaio de Psicologia Criminal. Rio de Janeiro: 
Zahar Editores, 1969. 
FERNANDES, N.; FERNANDES, V. Criminologia integrada. São Paulo: Ed. Revista dos 
Tribunais, 2002. 
LOMBROSO, C. O homem delinquente. São Paulo: Ícone Ed., 2007. 
MOTTA, C. Classificação dos criminosos: introdução ao estudo do direito penal. 
São Paulo: Estabelecimento Gráphico J. Rossetti, 1925 
RICOTTA, L. C. A. Psicologia do comportamento criminoso. Curitiba: Juruá 
Ed., 2016. 
SE LIGA NESSA HISTÓRIA. Violência e criminalidade. 2018. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019.
Gabarito
Questão 1 – Resposta C 
Resolução: os fatores endógenos e exógenos são determinantes na 
produção de condutas delinquenciais, afetando tanto o indivíduo 
como a sociedade.
Questão 2 – Resposta C
Resolução: a expressão violenta é democrática, ocorrendo em todas 
as áreas da vida, em idades variadas, gêneros, ferindo a integridade 
moral, psíquica, moral e praticada de diversos modos.
Questão 3 – Resposta D
Resolução: a alternativa D reflete que o uso de drogas é estímulo 
para condutas antissociais, propiciando alterações de condutas fora 
do controle emocional e desproporcionais. Afora que as drogas 
repercutem em tendências que o indivíduo já possui. Ou seja, se 
tiver predisposição para a agressividade, seu potencial violento se 
eleva pelo estímulo da droga.
https://www.youtube.com/watch?v=K1oq0bekHhs
https://www.youtube.com/watch?v=K1oq0bekHhs
8282 
Contextualização da violência
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• Contextualizar a violência estrutural. 
• Contextualizar a violência intrafamiliar. 
• 	Propor	reflexões	pertinentes	às	modalidades	
de violência. 
8383 83
1. Introdução
Olá! Trataremos, neste tema, o contexto em que a violência se dá 
e como ela é desencadeada. Podemos observar a contundência e 
o impacto que condutas violentas desencadeiam na vida de uma 
pessoa, da sua família e do contexto social em que ela vive. 
Por vezes, o ato violento culminará no ambiente escolar, em outras 
situações,	nas	ruas.	A	violência	se	alastra	na	vida	em	sociedade,	
na	família	e	nos	demais	ambientes,	deteriorando	relações	e	
promovendoa desagregação dos pontos de contato, de apoio, de 
segurança,	de	afetividade,	de	proteção	e	de	sensibilidade,	afinal,	
todas	essas	instâncias	ficam	abaladas.	A	complexidade	humana	nos	
faz enxergar, por meio de um prisma amplo, os fatores envolvidos na 
contextualização da violência como elemento de impacto, abalando o 
que o indivíduo necessita para viver de forma saudável.
Alguns	fatores	funcionam	como	gatilho,	quando	associamos	as	
condições	socioeconômicas,	os	contrastes	e	desigualdades	presentes	
na sociedade em que vivemos, além de existir uma ausência de 
mentalidade	crítica	e	humanizada	frente	aos	problemas	que	boa	
parte da população vivencia, tal como se tornassem vítimas da 
violência. Nesse jogo de forças, o que até então costuma-se fazer 
é	não	pretender	se	identificar	com	essa	realidade,	pois,	na	corrida	
para	obter	uma	melhor	condição	de	vida,	muita	competitividade	
desenfreada é cultivada de modo a excluir uns em detrimento da 
inclusão	de	outros.	Seja	por	despreparo,	ignorância,	dificuldade	de	
acesso	à	escolarização	para	que	possam	fazer	boas	escolhas,	bem	
como falta de estrutura psíquica por parte dos pilares da família. 
Então	vamos	lá	percorrer	esse	trajeto	que	nos	permita	boas	reflexões	
sobre	o	assunto	e,	de	algum	modo,	mobilizar	algumas	ações	que	
possam	surgir	dessa	formação	–	que	é	nosso	intuito. 
8484 
ASSIMILE
Assista ao vídeo A violência no Brasil explicada por Sérgio 
Adorno. Trata-se de uma entrevista concedida pelo 
sociólogo ao Jornal Nexo (NEXO JORNAL, 2017).
Nessa riquíssima apresentação, o sociólogo Sergio Adorno 
expõe	o	seu	ponto	de	vista	acerca	da	realidade	brasileira,	
explica as consequências da disseminação da violência 
na sociedade e enfatiza de que maneira ela reforça 
as desigualdades sociais no Brasil, fornecendo, ainda, 
elementos para a compreensão num contexto abrangente, 
indo para além da instância privada e alcançando contornos 
e	proporções	grandiosas,	devido	ao	seu	enraizamento	na	
vida coletiva e institucional, percebida pela repercussão 
da diminuição dos fatores de segurança e de proteção 
que a sociedade precisa para viver. E o que temos como 
realidade é a repercussão direta na vida das pessoas, pelo 
medo,	pela	intolerância,	ganância,	pelas	tensões	e	pelos	
conflitos	de	alta	intensidade,	pela	insatisfação,	brutalidade,	
competitividade, só para citar alguns.
Tudo	isso	ocorre	em	razão	de	desconhecermos	maneiras	
de convivência social que sejam menos agressoras. A falta 
de oportunidade e a proporção dos problemas é o que vêm 
tornando	a	violência	algo	trabalhoso	de	se	erradicar.	 
Vale a pena conferir!
1.1. O contexto social em que vivemos
Bourdieu (2007) é um renomado sociólogo que aborda o aspecto 
da desigualdade social como elemento de promoção da violência, e 
principalmente	quando	ela	é	perpetuada	pelas	instituições.	 
8585 85
Ele	é	um	ferrenho	crítico	da	globalização	e	entende	que	a	violência	
se perpetua por causa da desigualdade de recursos e pela falta de 
oportunidade para todos.
Desse	modo,	o	estudioso	sustenta	que	são	as	relações	econômicas,	
culturais e simbólicas as responsáveis por guiarem as pessoas no 
contexto	da	hierarquia	social	vigente.	Elas	são	reforçadas	pelo	habitus 
(hábito),	na	reprodução	e	na	legitimação	reiterada	pela	consciência	
desse entendimento da estrutura social, e isso ocorre também de 
forma inconsciente. Desse modo, é transmitida e reproduzida pelas 
relações	humanas.
Bourdieu (2007) contribui com três conceitos:
a. Habitus: que é a incorporação dos recursos do indivíduo.
b. Campo: o espaço onde os indivíduos atuam e onde surgem os 
choques	e	conflitos	sociais.
c. Capital:	oferece	a	compreensão	simbólica	de	que	há	um	capital	
social,	cultural,	econômico	e	simbólico,	havendo,	portanto,	uma	
aquisição que passa a fazer parte do sujeito.
Sobre o gosto cultural, Bourdieu (2007) compreende que ele é adquirido 
na	história	de	vida	pessoal	orientada	pelo	aprendizado	familiar,	por	isso	
não está acessível a todos. Por outro lado, o autor constata a existência 
de uma violência simbólica como uma manifestação decorrente do 
poder simbólico.
Bordieu	ressalta	que	há	uma	visão	de	sujeito	subordinada	à	sua	
própria condição imposta socialmente como alguém condenado ao 
exercício	do	jogo	social.	Ele	aponta	que	há	uma	relação	de	dominação	
– subordinação presente na violência simbólica, não expondo o sujeito 
como agente dessa relação, mas como alguém que se resigna de forma 
estabelecida,	não	havendo	o	que	pensar	ou	refletir.	Ela	é	exercida	pelo	
grupo social, no qual não se vislumbra a viabilidade de uma mudança 
8686 
concreta do mundo social. Nele, a subordinação é entendida como 
natural e a opressão social são entendidas como naturais e legítimas, 
e	não	como	fruto	da	injustiça	e	da	inferiorização.	Mesmo	havendo	uma	
mudança de status, esta acaba sendo ofuscada pela ordem reproduzida 
na sociedade. Uma visão que preconiza a restrição de um ponto de 
vista macro, na abrangência de grupos e de classes, sem referendar 
a violência simbólica que marca a convivência afetiva e cotidiana dos 
indivíduos num contorno íntimo, na esfera microssocial.
PARA SABER MAIS
Temos aqui uma cronologia da obra de Pierre Bourdieu 
desenvolvendo um sistema de explicação sociológica 
a respeito da dominação social. A escola, a cultura e 
a economia foram, entre outros, estudadas aplicando 
conceitos novos na sociologia, tais como habitus, violência 
simbólica ou campo social. Propondo uma nova leitura 
das	relações	sociais,	Bourdieu	criou	um	modo	de	pensar	
suscitando críticas severas, mas também produziu uma 
obra profícua, utilizada nos mais variados setores sociais. 
VASCONCELOS,	M.	D.	Pierre	Bourdieu:	A	herança	
sociológica. Educ. Soc., Campinas, v. 23, n. 78, 
p. 77-87, abr. 2002.
1.2. O contexto da violência intrafamiliar
Vimos que a violência intrafamiliar é um caso de saúde pública, pois 
assim aponta o manual Violência intrafamiliar, organizado pelo Ministério 
da	Saúde	(BRASIL,	2001).	E	o	grande	desafio	está	na	manutenção	da	
sensibilidade	em	não	compreender	que	tais	casos	que	chegam	em	
seu	dia	a	dia	profissional	são	atrocidades,	e	que,	portanto,	devem	ser	
conduzidos	e	acompanhados,	visando-se	o	devido	ajuste	e	a	correção.	
8787 87
Assim, é preciso conscientizar a sociedade civil para que esta diminuía a 
cegueira existente no modo de tratar os desvalidos e desprotegidos, as 
vítimas e os agressores. 
Da mesma forma, é preciso compreender o papel e a função 
profissional,	na	medida	em	que	fazem	parte	do	atendimento	primário,	
e,	com	isso,	ter	a	oportunidade	de	conhecer	os	históricos	de	vida	
que	demandam	instruções	técnicas.	Alguns	pontos	são	relevantes	
destacar,	como	prática	do	serviço,	a	fim	de	cumprir	e	dar	vazão	ao	
que é dimensionado nos atendimentos, ainda que o usuário do 
serviço	de	saúde	não	tenha	condições	de	estabelecer	uma	crítica.	
Tais	orientações,	propostas	pelo	manual	referenciado	anteriormente,	
apontam para os seguintes aspectos:
a. Que	o	Ministério	da	Saúde	apoie	estados	e	municípios	em	ações	
que promovam a diminuição da desigualdade social, cultural, de 
acesso	à	saúde	e	o	pleno	exercício	dos	direitos	humanos.
b. Relacionar	com	as	questões	de	gênero.
c. Observar os ciclos da vida que colocam pessoas mais vulneráveis.
d. Alertar	para	casos	envolvendo	pessoas	com	deficiências.
e. Atenção aos idosos, também vulneráveis.
f. Cuidados com crianças e adolescentes, vítimas constantes.
Observamos que se iniciam através da distorção dos sentimentos, 
interferindo	no	modo	de	enxergar	as	situações	e	julgando	pessoas	–	
membros do grupo familiar – estabelecendo com isso “uma espécie de 
verdade	vigente”	–	que	ocorre	aos	seus	olhos	–	daquele	que	vê	o	contexto	
com parâmetros muito particulares, que estão distantes dos seus interesses, 
não	aceitando	que	haja	uma	dinâmica	própria	nas	interações	grupais.	E	
com	isso	a	instalação	de	padrões	agressivos	e	violentos	no	universo	da	
convivência	com	especificidades,	tipo:	“Ana	não	fala	com	Carlos”,	o	pai	só	
repreende	seufilho,	sem	ter	para	com	ele	outra	forma	de	relação,	a	mãe	
8888 
sempre	dá	preferência	para	determinada	filha	e	com	isso	a	outra	filha	
sente-se	rejeitada	com	relação	a	outra.	Ou	seja,	quando	há	um	desequilíbrio	
na dosagem de distribuição do afeto, da compreensão, justiça e divisão 
dos	benefícios.	As	relações	ficam	desequilibradas,	portanto,	desniveladas,	
dando	condições	de	existir	terreno	fértil	para	o	desenvolvimento	de	
relações	disfuncionais	–	sem	equilíbrio.	Como	consequência,	o	surgimento	
de comportamentos agressivos e que com determinada constância 
e	frequência	acabarão	por	configurar	condutas	violentas	–	que	ficam	
evidenciadas como condutas violentas. (RICOTTA, 2012)
A relação existente entre a violência estrutural, com todos aqueles 
fatores	que	influenciam	e	contribuem	para	a	ocorrência	de	mais	
violência,	ou	seja,	são	geradoras	de	novas	ações	que	perpetuam	a	
conduta violenta, pela postura de superioridade e abuso de poder 
vivido na convivência diária e sobre aqueles que consideramos 
vulneráveis a esses riscos. 
O contexto é de interesse social e coletivo e a permanência dessa 
incidência	depende	de	ações	que	envolvam	a	conscientização	por	parte	
da	sociedade	e	das	instituições,	para	que	se	tornem	vias	de	acesso.	
Desse	modo,	as	vítimas	podem	recorrer,	ter	o	devido	acolhimento,	
respeito diante da sua realidade e receberem orientação adequada 
para	garantir-lhe	alguma	lucidez	de	como	conduzir-se	nesse	processo.	
Sendo que o primeiro ato importante a ocorrer é a quebra do segredo 
– o vínculo que a mantém ligada ao agressor. Quando a informação 
é	compartilhada,	é	uma	resposta	saudável	ir	em	busca	de	ajuda,	
pois muitas vítimas, devido ao seu enfraquecimento emocional, têm 
pouca noção de que podem buscar ajuda, pois sentem-se acuadas, 
“emparedadas”, sem saída. Por isso que, durante um bom tempo vivido 
sobre	agressões,	a	vítima	não	se	conscientiza	de	que	a	sua	vida	seja	um	
caso que necessita de apoio. Ainda acredita que sua realidade pode ser 
diferente,	que	o	agressor	vai	mudar,	que	ela	se	modificará	para	não	
mais	ocorrerem	tais	agressões.	A	vítima	acredita	na	sua	força	vã,	que	
tem	condições	de	alterar	aquela	realidade,	pois	vive	num	contexto	onde	
8989 89
a	presença	da	contradição	é	muito	forte.	As	emoções	são	boas	e	ruins.	
E geralmente entende que denunciar vai prejudicar sua vida, pois, como 
apontamos antes, até mesmo passa a acreditar que pode ter algum 
defeito pelo qual mereça ser agredida. O fato é que a vítima, antes de 
despertar para sua realidade, vive na fantasia de que o que ocorre em 
sua vida é em razão de não ser perfeita, adequada ou que poderia ser 
melhor	pessoa	e	finalmente	agradar	ao	seu	agressor.	Ledo	engano,	
ela	está	no	caminho	de	permanência	na	dura	realidade	de	exposição	
reiterada da violência doméstica, psicológica e intrafamiliar.
Estranhamente,	algumas	pessoas	mantêm-se	expostas	à	perda	de	sua	
saúde e até da própria vida em razão de sua falta de compreensão diante 
do	problema	no	qual	estão	inseridas,	desconhecendo,	muitas	vezes,	que	
a	violência	relacional	e	psicológica	não	seja	tão	nociva	assim,	ou	venham	
gerar a escalada da violência, ou seja, o aumento do potencial agressor, 
adotando uma postura de tolerância e até se embrutecendo, frustrando-
se	e	se	desencantando	com	a	vida.	Acreditando	que	há	algo	errado	
consigo,	tamanho	é	o	achatamento	que	vivenciam.	
O	segredo,	nos	casos	de	violência,	é	um	elemento-chave	que	tem	muita	
relação com o registro de ocorrências que já são registradas dentro 
do ambiente familiar. Isso deixa claro, na análise das estatísticas dos 
casos praticados no lar, que a incidência é maior, pois tais condutas já 
se manifestam muito antes da vítima decidir fazer queixa ou denúncia. 
Isso também ocorre, essa defasagem e ausência de denúncia, diante 
das ameaças a que as vítimas estão submetidas. Tudo isso mantendo 
o	segredo	familiar:	por	medo,	vergonha,	perda	de	autoestima	e	
sentimento de opressão.
De	acordo	com	Saffioti	(apud	RICOTTA,	2012,	p.	36):
Não é difícil compreender a conspiração do silêncio que se estabelece 
em	casos	de	violência,	mesmo	quando	feitos	por	um	agressor	externo	à	
família e/ou ao casal. A divulgação do ato violento compromete a imagem 
da vítima negativamente. Tendem a ser ocultos, seja porque são passíveis 
9090 
de punição criminal, seja porque a descoberta do agressor provocaria o 
desmoronamento	de	instituições,	cuja	gigantesca	forma	deriva	do	caráter	
sagrado, como no caso da família. Dada a sacralidade da instituição familiar, 
a sociedade marginaliza e estigmatiza aqueles que apontam suas mazelas.
1.3. Violência praticada contra crianças
De acordo com o manual Violência intrafamiliar (BRASIL, 2001), as 
consequências da violência para a vida das crianças são traumáticas. 
É comum as crianças sofrerem algum tipo de violência doméstica e 
desenvolverem	os	seguintes	sintomas:	hiperatividade	ou	retraimento;	
baixa	autoestima,	dificuldades	de	relacionamento,	agressividade	(ciclo	
de	violência),	fobia,	reações	de	medo,	vergonha,	culpa,	depressão,	
ansiedade, transtornos afetivos, distorção da imagem corporal, enurese 
e/ou encoprese,	amadurecimento	sexual	precoce,	masturbação	
compulsiva,	tentativa	de	suicídio,	entre	outros.	 
Como	denunciar:		 
• Conselho	Tutelar.
• Programas de proteção e atendimento.
• Promotoria da Infância e Juventude.
• Delegacias	(da	Mulher,	Civil).	 
Ação	da	orientação:	 
• Apresentação das Leis.
• Orientação	às	vítimas.
• Criação de programas que promovem a autonomia, 
gerando renda.
• Qualificação	das	forças	policiais.
• Acompanhamento	dos	dados	estatísticos	e	sua	incidência.
9191 91
1.4. Violência praticada contra idosos 
No	contexto	de vulnerabilidade a	que	estão	submetidos os	idosos	
e pessoas	com	deficiências (PCD), há	muita	falta	de	humanidade	e	de	
sensibilidade	com	relação	a	essa	etapa	da	vida,	pois	já	trabalharam	
muito pelos outros membros da família e também para a sociedade. 
Quando se encontram em situação de dependência, o inverso nem 
sempre ocorre, sendo negligenciados e tidos com’o fardos. Eles 
certamente têm utilidade, dentro das capacidades físicas e mentais 
ainda	conservadas,	contudo	também	apresentam	limitações	de	variadas	
ordens. Dessa maneira, o abuso contra os idosos surge em decorrência 
da fragilidade que ambos vivenciam, caracterizando uma relação de 
abuso contra o elemento tido como “frágil” ou “mais fraco”. 
Essa fragilidade aguça, no agressor, o desejo de impor-se e de 
estabelecer uma relação de domínio por não conseguir desenvolver 
afeto,	respeito,	cuidados,	generosidade	e	demais	valores	humanos	
que representam caráter bem formado e estruturado. Pessoas nessas 
condições	geralmente	despertam,	em	pessoas	saudáveis,	a	atitude	de	
zelo, cuidado, proteção, assim como se faz a um recém-nascido que 
desperta, na mãe, a necessidade de ser cuidado. 
O fator desagregador internalizado, resultado de conteúdos mal 
elaborados	e	de	vivências	de	cenários	também	drásticas, fazem do	
agressor	a	figura	que	é.	Falta	inteligência	emocional,	incapacidade	
de	oferecer	respostas	melhores	diante	das	situações	da	vida	com	
qualidade,	e	que	estejam	alinhadas	com	os	valores	humanos	–	que	
garantem	a	integridade	da	vida.	 
Como já mencionamos anteriormente, esses casos, além de propiciar 
reflexões	do	quanto	pessoas	podem	ser	capazes	de	gerar	tamanha	
atrocidade	e destrutividade,	são	contabilizados	como	um	problema	de	
saúde	pública, além	das	inúmeras	repercussões	nocivas	à	saúde	física,	
psicológica, social, cultural assim com a própria ignorância. 
9292 
De acordo com os manuais produzidos pelo Ministério da Saúde, para 
fins	de	estruturar	condutas	dos	profissionais,	é	restrito	o	conhecimento	
acerca da violência cometida contra os idosos brasileiros, quer em 
instituições,	abrigos,	hospitais	e/ou domicílios,	e	dos	seus	efeitos	sobre	
a	saúde. Desse	modo,	eles	apontam para	a	vulnerabilidade	desse	grupo	
às	diversas	formas	de	violência	praticadas,	as	quais comprometem	
tanto a sua qualidade de vida,com ocorrência de depressão, angústia, 
fobias,	traumas, como	abalos	na	saúde	física,	transtornos	psicológicos,	
psiquiátricos e até	a	sua	morte	prematuramente,	como	menciona	
o manual Violência intrafamiliar	(BRASIL,	2001).	E	a	dificuldade	das	
famílias	em	cuidar	de	seus	idosos	revela	uma	estranha	relação	de	
distanciamento, descompromisso e sequelas dolorosas no tocante a 
abandono, negligência, maus-tratos físicos e psicológicos, num período 
sensível	da	vida.	Naturalmente	que,	dadas	as	proporções	daqueles	
casos	em	que	a	interação	já	se	apresentava	doentia,	é	comum	que	haja	
a reprodução do mesmo comportamento quando o agente agressor 
envelhece	e	adquire	o	estágio	da	velhice.	Com	isso,	ele	recebe	os	maus-
tratos, a mesma forma de tratamento que ele usou no passado, sendo, 
portanto,	relações	de	vingança	e	desforra.	Com	exceção	desses	casos,	a	
fase	desse	período	da	vida	requer	estudos	e	formas	de	acolhermos	tais	
casos quando isso não pode ocorrer dentro da família.
De acordo com o manual Violência intrafamiliar (BRASIL, 2001), para 
aqueles casos em que o idoso esteja sem vínculo familiar, sem 
condições	de	subsistência,	em	abandono	ou	solidão,	que	não	tenham	
condições	de permanecer	em	seu	próprio	domicílio	ou	viver	com	
familiares, há	a	Instituição	de	Longa	Permanência	para	Idosos	(ILPI).	
Os ILPIs abraçam	os	casos	que	envolvem	fatores	de	proteção.	Temos	
como referência a adoção e previsão em legislação, como: A Política 
Nacional do Idoso, O Estatuto do Idoso. E mesmo aqueles que se 
encontram	institucionalizados	passam	por	situações	de	vulnerabilidade,	
como aqueles que não se adaptam a certos lares comunitários, sendo 
excluídos,	e	tendo	que	ficar	mudando de um	abrigo	para	outro.	 
9393 93
O abandono cria rispidez por parte do idoso, que passa a etapa da 
velhice	com	amargura,	não	sabendo	como	despertar	cuidados	e	afeto.	
O	mesmo acontece	para os	casos de pessoas	com	deficiência	que,	
quando maltratadas de forma reiterada, podem passar a ter condutas 
bizarras	ou	estranhas	diante	do	isolamento	a	que	são	submetidas.	
Ainda que tenhamos legislação	específica	prevendo	tais casos,	com	a	
tutela do Estado, no caso de total abandono ou de pessoa ou de familiar 
vinculado	ao	idoso	e	à	pessoa	com	deficiência,	essa	não	é	suficiente	para	
o processo educativo da sociedade. 
A	vulnerabilidade	à	exclusão,	à	separação	entre	a	instituição	e	o	meio	
ainda	é	identificada. Entendê-los como	membros	da	comunidade	é	
um aspecto difícil, tanto para a Instituição de Longa Permanência para 
Idosos	ILPI	quanto	para	a	sociedade,	pois	o	desafio	é	protegê-los	da	
tamanha	violência	a	que	são	submetidos.	A	visão	diante	do	problema	
é periférica: se a família exclui o idoso e não dá conta de protegê-lo, 
isso	constitui	um	desafio	cuja	responsabilidade	cabe	à	sociedade.  
E	se,	dentro	da	instituição,	ele	for	rechaçado	ou	excluído,	passará	a	
ter uma ciranda de mudanças entre casas de apoio, o que repercute 
muito em seu estado emocional e físico.
1.5. Violência praticada contra mulheres
Em	relação	à	violência	praticada	contra	mulheres,	os	dados	
apresentados no Atlas da violência 2019,	elaborado	pelo	IPEA/FBSP,	são	
alarmantes. Esse mapa tem por objetivo apresentar os dados sobre a 
violência anualmente e compará-los com estatísticas anteriores. Desse 
estudo, destacamos:
• 536	mulheres	foram	vítimas	de	agressão	física,	a	cada	hora,	no	
último	ano,	(representando	4,7	milhões	de	mulheres).
• 27,4%	das	mulheres	brasileiras	com	16	anos	ou	mais	sofreram	
algum tipo de violência nos últimos 12 meses.
9494 
• 21,8%	das	mulheres	(12,5	milhões)	foram	vítimas	de	ofensa	verbal,	
como	insulto,	humilhação	ou	xingamento.
• 9,0%	(4,7	milhões)	sofreram	empurrão,	chute	ou	batida;	 
536	a	cada	hora.
• 8,9%	(4,6	milhões)	foram	tocadas	ou	agredidas	fisicamente	por	
motivos	sexuais;	9	por	minuto.
• 3,9%	(1,7	milhão)	foram	ameaçadas	com	faca	ou	arma	de	fogo.
• 3,6%	(1,6	milhão)	sofreram	espancamento	ou	tentativa	de	
estrangulamento;	3	por	minuto.
• Mulheres	jovens	relatam	maiores	níveis	de	vitimização.
• 42,6%	das	mulheres	de	16	a	24	anos	afirmam	ter	sofrido	violência	
nos últimos 12 meses.
• 33,5%	das	mulheres	de	25	a	34	anos.
• 27,1%	das	mulheres	de	35	a	44	anos.
• 17,8%	das	mulheres	de	45	a	59	anos.	
• 13,6%	das	mulheres	de	60	anos	ou	mais.
• A	vitimização	ocorre	com	maior	frequência	em	mulheres	negras.
• 24,7%	mulheres	brancas.
• 27,5%	mulheres	pardas.
• 28,4%	mulheres	pretas.
Do ponto de vista da relação com o agressor:
• 76,4%	das	mulheres	que	sofreram	violência	afirmam	que	
o	agressor	era	alguém	conhecido.	Um	crescimento	de	25%	
em	relação	a	2016,	quando	61,2%	das	mulheres	afirmaram	
conhecer	o	agressor.
9595 95
O	contexto	da	violência	contra	a	mulher	nos	faz	refletir	sobre	a	
relação	de	gênero	envolvida.	Nesse	caso,	o	homem	surge	como	
agressor principal	e	direto	da	vítima,	a	mulher,	conforme	mostram	
as	estatísticas.	Prova	disso	é	que,	em	tempos	atuais,	há	uma	política	
voltada	para	o	clareamento	do	feminicídio	e	para	os	riscos	que	a	mulher	
assume quando vive relacionamentos abusivos e violentos dentro de 
casa.	É	preciso	pensar	em	estratégias	modificadoras	desse	modelo	
que	transmite	a	crença	da	supremacia	do	homem	sobre	a	mulher,	ou	
segundo o qual o gênero feminino necessita resignar-se para poder 
manter-se vivo. Os altos índices de ataque ao gênero feminino tendem 
a	atingir	autonomia	da	mulher	e	faz	o	homem	sentir-se	ameaçado	
quando	está	numa	situação	em	que	a	mulher	sabe	e	pode	opinar,	
escolhe	e	decide,	trabalha	e	contribui.	Para	a	mulher,	o	sentimento	é	de	
insegurança	ou	de	que	essa	condição	lhe	faz	insegura.	Do	outro	lado,	
perder	em	poder,	na	relação	conjugal,	faz	com	que	muitos	homens	
se utilizem de subterfúgios para dominar o sexo oposto e, com isso, 
passam a ter a falsa pretensão de estancar seus problemas emocionais 
por meio do uso de sua força e de seu poder.
Desse modo, torna-se urgente a superação da violência contra a 
mulher,	pois	desse	pilar	é	que	temos	a	formação	de famílias.	 
Estas,	por	sua	vez,	vêm	sendo	aniquiladas	pela	ação	do feminicídio –	
prática criminosa que abrange os casos decorrentes do fato 
simples	de	a	vítima	ser	uma	mulher. Este é	um fator	de	risco	
gravíssimo, pois aponta,	ainda, que os	números	de	casos	são	
praticados	pelos	ex-maridos,	companheiros	e	maridos. Grande	
também	é	o	número	de	mulheres que	são	mortas	diariamente	
quando	tentam romper o	vínculo	com	o	agressor,	em	vista	da	
violência sofrida por elas dentro dos lares. Quando tomam a 
iniciativa	pela	ruptura	do	vínculo	conjugal,	reafirmam, na	visão	
do homem misógino,	sua	percepção	distorcida	a	respeito da	figura	
da	mulher. Conforme	essa	percepção, a	mulher está	abusando	
da	autoridade	dele	sobre	ela,	tirando-lhe	sua	força.	Isso	o	irrita	e	
9696 
o	constrange.	Com	isso,	as	orientações	de	incentivo	à	autonomia	
da	mulher, visando	à	garantia	de	sua	subsistência	e a	criação	dos	
filhos, têm sido	parte	do empoderamento feminino	que	tanto	se	
aborda na atualidade. Romper o ciclo da violência é uma parte desse 
enfrentamento, a outra parte é a oferta de uma educação voltada 
para	o	fortalecimento	da	autonomia	da	mulher.	Isso,	portanto,	
torna-se	um	fator	de	proteção	à	vida	da	mulher	e	dos	filhos,	à	vida	
das crianças e dos adolescentes – eixo estrutural da família que 
precisa ser resguardado. 
Esse núcleo, inclusive, quando desagregado, leva a desdobramentos 
negativos, como o abandono, o acesso a drogas, miséria, exclusão, 
falta	de	acesso	à	educação	e	à	saúde.	A	luta	entre	gêneros	parece-nos	
uma	das	maiores	ignorâncias	existentes, pois,	nesse	cenário, cessam	os	
canais	de	estrutura	pacífica	e	saudável	que	oferecem	sustentação	à	vida	
das	famílias.	Quando associamos aos	fatores	causadores	da	violência	
estrutural,	temos	que	trabalhar	na	base	da	estrutura	familiar	com	o	
incentivo	da	autonomia	da mulher – que é	de	onde	se	parte	para	se	
obter	a	sua	subsistência	e	a	dos	filhos. Isso,	portanto,	gera	uma	visão	
que congrega os fatores de proteção. 
Concluímos, neste tema, que o simbolismouma pedagogia, que venha interferir diretamente 
com o cessar da expressão violenta na dinâmica familiar e sociedade. 
Seja por intermédio de informação, esclarecimentos, apoio emocional, 
tratamentos, propondo aos aperfeiçoamentos desses modelos de 
relação com padrão agressivo-violento para outro que envolva o resgate 
de valores humanos. E que as intervenções propostas pelos profissionais 
possibilitem frear, diminuir, conscientizar, prevenir e direcionar a outra 
prática de convivência, para então podermos assistir a alguns avanços 
e melhorias na qualidade dessas relações familiares por meio de ações 
dos profissionais sensibilizados com o tema, de instituições voltadas 
para o bem-estar social, saúde pública, saúde coletiva, e da promoção de 
99 9
políticas públicas que deem respaldo de forma constante e frequente. 
Que faça a interrupção desse ciclo violento entre agressor e vítima.
Podemos ressaltar que o trabalho dos profissionais em atenção às 
famílias em situações de violência é direcionar o aspecto do tratamento 
e de ações voltadas para ambos, tanto para a vítima como para o 
agressor. Bem como desenvolver ações que proporcionem informações, 
em mecanismos de atenção às vítimas, e que possam recorrer e buscar 
tratamento psicológico, apoio efetivo e, principalmente, proteção à vida.
De acordo com estatísticas do Atlas da Violência 2018, com dados de 
pesquisa feitos pela DIEST – Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, 
das Instituições e da Democracia do IPEA – Instituto de Pesquisa 
Econômica Aplicada e FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e 
Ministério da Saúde em diversas regiões do Brasil.
Os dados são estarrecedores, pois percebe-se que, na violência 
estrutural, os fatores sociais que influenciam são as desigualdades 
sociais. Esse fenômeno, que é a violência, provoca sérios sofrimentos 
para as vítimas. Violências que poderiam ser evitadas com políticas 
sociais por parte do Estado, políticas que promovessem a inclusão 
social, econômica, cultural e intelectual dos sujeitos. Percebe-se pelos 
resultados dessas pesquisas que as famílias, principalmente as vítimas 
da violência, são afetadas emocionalmente pelo mecanismo da estrutura 
social vigente e passam a ser um foco de promoção de violência, tanto 
quanto se sentem vitimadas dos jogos de poder aos quais vivenciam de 
uma sociedade desigual. 
Como explicar esse fenômeno? Como admitir que o locus dessas 
ocorrências venham a ser o próprio ambiente familiar – a residência 
das próprias vítimas? Bem como de seus agressores. O que embasa 
a reincidência dos fatos violentos, ou seja, eles se tornam repetitivos, 
frequentes. Caracterizando, por fim, casos de violência doméstica, 
estupros, assédio a menores e outras agressões. Outro ponto alarmante 
1010 
a refletirmos acerca do local onde ocorrem tais práticas é que este 
deveria ser de proteção, tornando-se um ambiente onde as distorções e 
a doença relacional imperam.
Compreender os aspectos que vão influenciar os agentes protagonistas 
dos casos de violência será um dos pontos, acompanhado do 
entendimento dos mecanismos agressores que contribuem para tais 
expressões desagregadoras. 
1.1 Violência estrutural 
Para que ocorra um aprofundamento na questão da violência, é 
fundamental observar diversos fatores que impactam negativamente 
as famílias. Estudar formas de ações e prevenções que visem reduzir 
danos na vida de milhares de pessoas que compõem a sociedade e 
que passam por situações de violência. Não é possível dissociar de 
nossa análise acerca do fenômeno da violência. Da compreensão dos 
fatores que influenciam tais ocorrências violentas; que inclui o cenário 
da violência intrafamiliar e o seu contexto social. E ao mesmo tempo, 
identificar a cultura e o padrão relacional aprendido da família. De uma 
construção emocional precária geralmente. As condutas frequentes 
tornam-se um padrão repetitivo, associando a isso um aprendizado. 
Experiências que tenham um sentido negativo como as positivas, 
criam modelos de relação entre pessoas que convivem. E em casos 
de vivência negativa, dor, ofensa, mau trato, negligência, tom de voz 
alterado; as cenas aterrorizantes tornam-se o pano de fundo dessa 
convivência que ocorre com regularidade, criando-se, assim, o que 
conceituamos de padrão relacional. As pessoas vítimas de violência 
coadunam com o silêncio, o segredo, por estarem envolvidas e confusas 
o suficiente para considerar o fato como algo pertinente ou não. Pois a 
dubiedade faz parte desses casos para aqueles que a vivenciam, ficam 
sem saber como se comportar, pois são controlados e impelidos a 
guardar segredo para não terem mais represálias. 
1111 11
As discrepâncias dos fatores sociais, econômicos, culturais, raciais, de 
gênero e psicológicos tornam as oportunidades diferentes entre as 
pessoas. Fatores que podem apontar discriminação, preconceitos e 
dividem sujeitos em grupo mais favorecidos, e outros, desfavorecidos; 
que podem contribuir para a elevação da criminalidade – parceira da 
violência em suas diferentes expressões. As estatísticas da violência no 
Brasil em todas as esferas são alarmantes, apontando-nos a grande 
miséria humana das condições precárias e de risco pelos quais a 
sociedade está exposta. Veja a imagem abaixo (Barriadas Caraqueñas) 
que nos situa nas precárias condições de parte da população abaixo da 
linha da pobreza, vivendo em encostas, lugares periféricos, sem acesso 
a cultura, trabalho, saúde, condições de vida adequadas. Tal contraste 
é uma violência desferida a esse grupo, bem como a outros que são 
negligenciados pela estrutura social vigente.
Figura 1 – Caracas, América do Sul
Fonte: Photofxs68 /iStock.com.
PARA SABER MAIS
O conceito violência estrutural foi definido por Johan 
Galtung, sociólogo norueguês, no ano de 1969, quando 
escreve o artigo “Violence, peace and peace research”, 
que discute como o poder negativo da organização 
https://www.istockphoto.com/br/portfolio/photofxs68?mediatype=photography
1212 
social vigente e das instituições sociais afetam a 
população mais empobrecida. E que estes teriam um 
potencial real para se desenvolver, pelo contrário, ficam 
restringidos mediante as circunstâncias que lhes tiram 
as expectativas em decorrência de racismo, sexismo, 
desigualdades econômicas.
1.2. Tipos de violência 
Galtung (1969) amplia o conceito de violência, estabelecendo três tipos: 
• Violência direta: aquela que é extremamente visível e, 
consequentemente, a mais conhecida. Caracteriza-se por causar 
dano físico a alguém ou alguma coisa. É expressa de forma clara, 
portanto, identificável, seja pelos seus agentes – agressor e vítima 
– como aqueles expressos na coletividade, em que diversas 
pessoas vivem o prejuízo da ação violenta.
• Violência estrutural: ocorre de forma indireta, não havendo a 
responsabilidade propriamente do autor da prática violenta. 
É multifatorial, não há um único autor do comportamento 
violento e é geradora de muitos prejuízos emocionais, tanto 
quanto de enorme sofrimento físico e mortes em escala maior. 
Decorrem do sistema socioeconômico, das desigualdades e do 
estabelecimento dessas condições precárias de vida expressas 
na falta de oportunidades que milhares de pessoas poderiam ter 
e não tem. Apresenta-se de forma sutil, não tão expressa como 
a violência direta, em que é identificada a autoria da conduta 
violenta. Gerada pela falta de um modelo de inclusão social, 
cultural, econômico, intelectuais, em que muitos são excluídos. 
Por isso associa-se a esse pensamento, a imagem de um iceberg, 
sendo o tipo de violência submersa, silenciosa, que achata boa 
parte da sociedade tendo em vista uma má distribuição de poder.
1313 13
• Violência cultural: expressa de forma indireta, mais sutil 
que a anterior e é estabelecida no tempo. Faz parte das 
diferenças existentes entre as pessoas no tocante ao seu padrão 
transacional – conjunto de crenças, valores, cultura familiar e 
religiosa, que são as diferenças raciais, deda violência tem seu 
enfoque na dominação do sujeito, na supremacia de uma pessoa 
sobre a outra, na tentativa frequente de estabelecer poder. 
O	estabelecimento	desse	poder	se	configura	de	modo	pontual	ou	
constante, carregando uma manifestação decorrente do poder 
simbólico,	inconsciente,	presente	nas	relações	que	se	concretizam	
pela conduta violenta. Essa violência é relacional, pois entremeia as 
interações	humanas	de	forma	doentia,	cujo	vínculo,	que	deveria	ser	
de respeito aos limites (tolerância, controle dos instintos agressivos, 
dialogo,	convivência	na	adversidade),	tem	sua	finalidade	desvirtuada	
da relação de convivência, apoio, proteção e afetividade para uma 
instância de abuso de poder.
9797 97
TEORIA EM PRÁTICA 
Vamos propor a seguinte atividade, com base em dados 
apurados por diversos pesquisadores pelo Atlas da 
Violência 2019.	Verifique	no	infográfico	Visível e Invisível: 
a vitimização de mulheres no Brasil (2019). Eleja duas 
estatísticas apresentadas, que se associam diretamente ao 
preconceito	e	à	discriminação.	
Que parâmetros de análise podem ser traduzidos a partir 
desses	marcadores?	Reflita.
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1. A equipe multidisciplinar tende a ser útil em quais casos? 
Assinale a alternativa correta. 
a. Quando	é	realizada	fora	do	contexto	de	trabalho	será	
útil,	pois	garante	a	isenção	de	todos	os	profissionais	
envolvidos.
b. Quando	é	direcionada	aos	profissionais	do	serviço	
e tem como propósito discutir os casos, passando 
informações	e	verificando	melhores	condutas.	
c. Quando ela é feita com determinada classe de 
profissionais,	no	caso	de	grupos	de	médicos	ou	grupo	
de enfermeiros.
d. Quando é autorizado pela direção do CRAS ou CREAS 
daquela região.
e. Quando	é	criado	um	horário	fora	do	expediente	
profissional	e	é	útil	quando	o	profissional	deseja	
participar, do contrário, não é positivo.
9898 
2. O segredo entre vítima e agressor, em casos de violência, 
se dá em função de quê? 
a. Precisam manter segredo para garantir a privacidade 
da sua vida pessoal e familiar.
b. Em função de quais assuntos familiares são tratados 
internamente, não devendo envolver pessoas de fora 
da família.
c. Trata-se da manutenção do ciclo de violência por 
medo,	vergonha	e	ameaças,	e	de	que	terão	condições	
de	solucionar	as	situações.	
d. Tanto vítima quanto agressor possuem uma relação 
próxima e estabelecem o conluio de proteger a 
imagem um do outro.
e. O agressor ameaça a vítima, acusando-a de que tudo 
é sua culpa, paralisando-a diante de qualquer tipo de 
denúncia, pois será culpada de tudo.
3. A compreensão sociológica da violência é relevante 
devido a quê? 
a. São estudos diferentes com embasamentos e 
explicações	próprias	quanto	aos	fenômenos	da	
sociedade em geral e aqueles em que a violência 
é presente.
b. A sociologia ocupa-se de observar, compreender 
e	conceituar	os	fenômenos	sociais	que	envolvem	
grupos maiores de pessoas, enquanto que a violência 
relacionada ao tema em estudo aqui está presente no 
contexto íntimo, familiar.
9999 99
c. A desigualdade social é a maior preocupação do 
campo sociológico enquanto que a violência está 
relacionada	à	disputa	de	poder	entre	pessoas.
d. A sociologia e a violência apresentam uma 
interligação	importante	ao	explicar	como	fenômenos	
violentos	da	interação	humana,	seja	de	contexto	
privado ou social, são reproduzidos tanto na vida 
íntima e familiar como na sociedade.
e. A	violência	é	algo	que	degrada	e	deturpa	as	relações	
enquanto que a sociologia procura explicar os 
fenômenos	sociais	em	todas	as	questões	humanas.
Referências bibliográficas
NEXO JORNAL. A violência no Brasil explicada por Sergio Adorno. 2017. 
Disponível em: . 
Acesso em: 25 jul. 2019.
ATLAS	DA	VIOLÊNCIA	2019.	/	Organizadores:	Instituto	de	Pesquisa	Econômica	
Aplicada;	Fórum	Brasileiro	de	Segurança	Pública.	Brasília:	Rio	de	Janeiro:	São	Paulo:	
Instituto	de	Pesquisa	Econômica	Aplicada;	Fórum	Brasileiro	de	Segurança	Pública.	
ISBN	978-85-67450-14-X
BOURDIEU. Pierre. O poder simbólico. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Violência 
intrafamiliar: orientações	para	prática	em	serviço.	Série	Cadernos	de	Atenção	
Básica;	n.	8.	Série	A.	Normas	e	Manuais	Técnicos;	n.	131.	Brasília:	Ministério	da	
Saúde, 2001. 
RICOTTA, L. Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência 
também. 4. ed. São Paulo: Ágora Ed., 2012.
VASCONCELOS,	M.	D.	Pierre	Bourdieu:	a	herança	sociológica.	Educ. Soc., Campinas, 
v. 23, n. 78, p. 77-87, abr. 2002. Disponível em: . 
Acesso em: 25 jul. 2019.
Visível	e	invisível:	a	vitimização	de	mulheres	no	Brasil.	2.	ed.	Disponível	em:	. Acesso em: 25 jul. 2019.
https://www.youtube.com/watch?v=Gj2odAHhPA4&t=10s
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302002000200006&lng=pt&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302002000200006&lng=pt&nrm=iso
http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/02/Infogra%CC%81fico-vis%C3%ADvel-e-invis%C3%ADvel-2.pdf
http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/02/Infogra%CC%81fico-vis%C3%ADvel-e-invis%C3%ADvel-2.pdf
http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/02/Infogra%CC%81fico-vis%C3%ADvel-e-invis%C3%ADvel-2.pdf
100100 
Gabarito
Questão 1 – Resposta B
Resolução:	quando	é	direcionada	aos	profissionais	do	serviço	social	
e	tem	como	propósito	discutir	os	casos,	passando	informações	e	
verificando	as	melhores	condutas.	
Questão 2 – Resposta C
Resolução: aponta que a manutenção do ciclo de violência é 
alimentada	pelo	medo,	pela	vergonha	e	pelas	ameaças	contra	a	
vítima	e	de	que	terão	condições	de	solucionar	as	situações.	A	vítima	
tem a noção de que se prejudicará em perder seu agressor, por 
isso age como se estivesse defendendo interesses, distanciando-
se por completo de quem mantém, assim, a recorrência de novos 
acontecimentos e de que prejudica a si próprio. Não compreende 
que a denúncia está a seu favor.
Questão 3 – Resposta D
Resolução: a sociologia e a violência apresentam, de fato, uma 
interligação	importante	ao	explicar	como	fenômenos	violentos	
da	interação	humana,	seja	de	contexto	privado,	seja	de	contexto	
social, são reproduzidos tanto na vida íntima e familiar como na 
sociedade. O comportamento é reproduzido, pois se a violência 
advém	do	ambiente,	ela	se	reflete	nos	agentes	causadores	da	
violência intrafamiliar e vice-versa.
101101 101
Reprodução de violência 
como meio de comunicação
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• Pontuar elementos da força da interação 
humana como reprodutor da violência. 
• Apresentar os pontos fundamentais da 
comunicação não violenta.
• 	Abordar	as	influências	da	mídia	na	
reprodução de modelos violentos.
102102 
1. A força da interação humana
Olá! Falaremos sobre um tema que aborda a violência no viés da 
comunicação,	ou	seja,	como	ela	é	apresentada	pela	mídia,	pelos	
meios simbólicos, abstratos e concretos que possibilitam propagarem 
a comunicação. A comunicação se dá via interação humana e está 
presente na relação familiar, social, bem como no âmbito da cultura e 
das instituições como um todo.
Talvez o elemento mais preponderante para nosso estudo seja 
conceber que é a mentalidade, ou a forma de pensar, ou o modo de 
compreender e se dispor às situações que venham a ser elementos 
que	influenciam	antes	mesmo	de	qualquer	ato	violento	desencadeado	
intrinsecamente.	Refiro-me	ao	modo	como	os	sujeitos	pensam	sobre	a	
vida, sobre as pessoas, aos que são diferentes por alguma opção e que 
isso faça gerar a formação de subgrupos e de divisões que contribuem 
para uma interação agressiva, distante do elemento humano. Talvez 
sejam os valores que aspessoas adotam em seu modo de viver 
que contribuam para a consolidação de ambientes agressivos e 
violentos, tais como atitudes como a intolerância, a imprudência, 
a impulsividade, o negativismo, a disputa, a contenda constante, o 
desequilíbrio,	a	competitividade.
O	que	pretendemos	apontar	é	que,	com	a	consciência	crítica	e	a	forma	
de	pensar	humanizada	e	baseada	em	valores	éticos	e	morais,	é	possível	
modificarmos	condutas	e	meios	de	comunicação	da	violência	que	se	
propagariam. Pois é a falta de amor e de cuidados uns dos outros, bem 
como de uma forma de pensar excludente e que retira qualidades de 
outros, que torna o homem muito distante da sua humanidade. 
A vida em sociedade nos traz complexidades e ao mesmo tempo em que 
repercute modelos positivos de convivência também reproduz modelos 
violentos,	desagregadores	e	contrários	ao	princípio	democrático	
de direitos. A reprodução da violência como meio de comunicação 
103103 103
nos direciona ao modo que ela vem sendo divulgada, propagada e 
reproduzida, trazendo para perto de nossas vidas os elementos nocivos 
desse aprendizado.
Ao	sermos	expostos	às	notícias	cujo	enfoque	tenha	teor	violento	
de	forma	explícita	ou	implícita,	recebemos	influências	na	forma	de	
pensar e agir. Ter a dimensão e o conhecimento de que uma boa 
comunicação, clara, positiva, pautada em valores humanos, oferece 
condições de produzir uma ambientação saudável e um destino 
extremamente importante se faz necessário. A maior conexão que 
temos é a relacional, o modo como apresentamos as nossas ideias, 
nossos	símbolos	e	referências	de	mundo	que	temos	e	que	trocamos	
com as demais pessoas. São trocas de códigos comunicacionais que 
tendem a direcionar a relação para um caminho ou outro. São padrões 
transacionais	que	envolvem	a	cultura	da	pessoa	aprendida	em	família,	
seu conjunto de hábitos, valores cultivados, crenças, formas de 
expressão que envolvam os códigos que interagem e transmitem algo, 
como informação e cultura.
De	forma	natural,	percebe-se	que	a	qualidade	da	interação	humana	
é capaz de oferecer elementos para que se torne menos violenta 
ou mais violenta. Com isso, e por meio da produção do conteúdo 
que	vai	sendo	criado,	é	possível	direcionar	para	entendimento	e/ou	
para	o	desentendimento.	Nesse	viés	de	pensamento,	pretendem-se	
fomentar	reflexões	sobre	a	importância	dessa	temática,	isso	é,	do	modo	
como pensamos, pois esse aspecto irá determinar a forma de nossa 
comunicação	e	impulsionará	em	sua	grande	maioria	para	os	conflitos.	
Os	conflitos,	portanto,	podem	ocorrer	seja	por	ter	sido	mal	interpretado,	
pela comunicação interpessoal estar doente ou falha, quando o emissor 
da comunicação não se faz claro ou quando o receptor da informação 
não tem a compreensão do que foi emitido, tendo em vista seus 
sentimentos e crenças pessoais que não são conhecidos ou tidos como 
parâmetro na relação. O fato é que, quando a comunicação não é 
efetiva	por	alguma	razão,	poderá	ser	causadora	de	inúmeros	conflitos,	
104104 
como	vamos	identificar	com	a	reflexão	poética	Palavras são janelas (ou 
paredes), de Ruth Berermeyer no livro Comunicação Não Violenta (apud 
ROSENBERG, 2006, p. 17):
Sinto-me tão condenada por suas palavras, tão julgada e dispensada. 
Antes de ir, preciso saber: foi isso que você quis dizer? 
Antes que eu me levante em minha defesa, 
Antes que eu fale com mágoa ou medo, 
Antes que eu erga aquela muralha de palavras, 
Responda: eu realmente ouvi isso? 
Palavras são janelas ou são paredes. 
Elas nos condenam ou nos libertam. 
Quando eu falar e quando eu ouvir,
Que a luz do amor brilhe através de mim. 
Há coisas que preciso dizer, 
Coisas que significam muito para mim. 
Se minhas palavras não forem claras, 
Você me ajudará a me libertar? 
Se pareci menosprezar você, 
Se você sentiu que não me importei, 
Tente escutar por entre as minhas palavras 
Os sentimentos que compartilhamos.
1.1 A comunicação não violenta
A	definição	de	comunicação	não	violenta	(CNV)	nos	diz	que:	
A CNV se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que 
fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo em condições 
adversas. Ela não tem nada de novo: tudo que foi integrado à CNV já era 
conhecido havia séculos. O objetivo é nos lembrar do que já sabemos – 
de	como	nós,	humanos,	deveríamos	nos	relacionar	uns	com	os	outros	
– e nos ajudar a viver de modo que se manifeste concretamente esse 
105105 105
conhecimento. A CNV nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos 
expressamos e ouvimos os outros. Nossas palavras, em vez de serem 
reações	repetitivas	e	automáticas,	tornam-se	respostas	conscientes,	
firmemente	baseadas	na	consciência	do	que	estamos	percebendo,	
sentindo e desejando. Somos levados a nos expressar com honestidade e 
clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros uma atenção respeitosa 
e empática. Em toda troca, acabamos escutando nossas necessidades 
mais profundas e as dos outros. A CNV nos ensina a observarmos 
cuidadosamente	(e	sermos	capazes	de	identificar)	os	comportamentos	e	as	
condições	que	estão	nos	afetando.	Aprendemos	a	identificar	e	a	articular	
claramente o que de fato desejamos em determinada situação. A forma é 
simples,	mas	profundamente	transformadora.	(Rosenberg,	2006,	p.	21-22)
Conforme apreendido na explanação do autor acima, o sentido da 
comunicação não violenta (CNV) não caracteriza que nos tornamos 
pessoas	frágeis,	influenciáveis,	que	são	facilmente	dominadas	e	que	
vão concordar com tudo. Não se trata de ser omisso, passivo e fazer 
de conta que algo exista para ser resolvido. Nesse sentido, podemos 
exemplificar	com	alguns	fatos:	existem	algumas	pessoas	que	se	
comportam no mundo como aquelas aves que enterram a cabeça 
na terra ou aquelas que se recolhem em si mesmas. Adotar uma 
comunicação não violenta tem um sentido de treino, prática que o 
direciona	para	a	pacificação	das	relações	humanas.	A	contribuição	do	
autor	está	em	tornar	concreto	um	modo	de	agir	que	fique	claro	para	
as pessoas que suas ações são geradoras de uma repercussão. Você, 
aluno(a), que neste momento está tendo contato com este material 
para	seu	estudo,	poderá	se	perguntar	se	o	seu	objetivo	é	tornar-se	uma	
pessoa melhor. Isso é agir de forma não violenta ou menos violenta e 
que	isso	lhe	proporcione	seguir,	fluir	sem	criar	problemas	com	pessoas	
em múltiplas situações.
Marshall	Rosenberg,	professor,	pacifista,	criou	na	década	de	1960	a	
teoria da comunicação não violenta, com base em sua experiência de 
vida,	de	forma	a	substituir	a	violência	e	os	conflitos	entre	as	pessoas	
pelo emprego de uma comunicação compassiva.
106106 
À medida que a CNV substitui nossos velhos padrões de defesa, recuo 
ou	ataque	diante	de	julgamentos	e	críticas,	vamos	percebendo	a	nós	e	
aos outros, assim como nossas intenções e relacionamentos, por um 
enfoque novo. A resistência, a postura defensiva e as reações violentas 
são minimizadas. (Rosenberg, 2006, p. 22).
Com elementos fortes associados a uma comunicação pautada em 
valores humanos e universais, a comunicação não violenta ganhou 
expressão no mundo, pois a proposta dessa comunicação em nada 
interfere nas diferenças culturais, raciais ou sociais. São, portanto, 
humanas	e	universais.	Comprova	que	é	possível	fazer	a	desescaladas	de	
tons agressivos para outro mais próximo da compreensão, o respeito 
mútuo,	a	compaixão	e	o	colocar-se	no	lugar	do	outro.
A obra Comunicação não violenta (2006) obteve grande aceitação, sendo 
traduzida em muitos idiomas. O professor e psicólogo Rosenberg (2006) 
cresceu em um bairro turbulento de Detroit, nos Estados Unidos, onde 
se interessou por novas formas de comunicação para criar alternativas 
pacíficas	de	diálogo	que	amenizassem	o	clima	de	violência.	Foi	o	
resultado de sua especialização em psicologia social, de seus estudos de 
religião comparada e de suas vivências pessoais. 
Acredito que é de nossa natureza gostar de dar e receber de forma 
compassiva. Assim, durante a maior parte da vida, tenho me preocupado 
com duas questões:o que acontece que nos desliga de nossa natureza 
compassiva,	levando-nos	a	nos	comportarmos	de	maneira	violenta	e	
baseada na exploração das outras pessoas? E, inversamente, o que permite 
que algumas pessoas permaneçam ligadas à sua natureza compassiva 
mesmo	nas	circunstâncias	mais	penosas?	(Rosenberg,	2006,	p.	19)
Observemos quão autênticas são as impressões do autor que partiu da 
sua	sensibilidade	e	vivência	pessoal	para	refletir	elementos	significativos	
da comunicação e vivências que lhe proporcionaram as ideias e a 
filosofia	que	emprega	na	concepção	de	seu	trabalho,	de	propor	uma	
comunicação que seja cuidada para gerar compreensão e aceitação, 
compaixão e revelar elementos do coração.
107107 107
Minha preocupação com essas questões começou na infância, por volta do 
verão	de	1943,	quando	nossa	família	se	mudou	para	Detroit.	Na	segunda	
semana	após	nossa	chegada,	eclodiu	um	conflito	racial,	que	começou	com	
um incidente num parque público. Nos dias seguintes, mais de quarenta 
pessoas	foram	mortas.	Nosso	bairro	ficava	no	centro	da	violência,	e	
passamos três dias trancados em casa. Quando terminaram os tumultos 
raciais e começaram as aulas, descobri que o nome pode ser tão perigoso 
quanto qualquer cor de pele. Quando o professor disse meu nome 
durante a chamada, dois meninos me encararam e perguntaram, com 
veneno: “Você é kike?” Eu nunca tinha ouvido aquela palavra e não sabia 
que algumas pessoas a utilizavam de maneira depreciativa para se referir 
aos judeus. Depois da aula, os dois já estavam me esperando: eles me 
jogaram no chão, me chutaram e me bateram. (Rosenberg, 2006, p. 20)
ASSIMILE
Assista	ao	vídeo	“Comunicação não violenta na prática” 
com Giovana Camargo – Minas que manjam #17 (COMUM, 
2016).	O	vídeo	aborda	a	comunicação	não	violenta	na	
prática,	apresentando-nos	de	forma	concreta	quatro	passos	
propostos pelo autor Marshall Rosenberg (2006) para que 
as pessoas possam aplicar no cotidiano. Os passos são: 
1. Observar sem julgar.
2. Identificar	sentimentos.
3.	 Assumir responsabilidades.
4.	 Fazer pedidos.
1.2. A violência simbólica e sutil presente nas interações
É de costume que se tenha noção da violência quando ela é expressa 
de	forma	contundente,	inclusive	pela	mídia.	Somos	informados	de	
108108 
umas enormidades de casos que nos fazem entrar em contato com 
as suas sequelas, bem como com as suas consequências advindas de 
agressões, violências e crimes.
Sabe-se	que	nem	toda	violência	caracteriza	um	crime.	No	entanto,	todo	
crime contém muita violência. E esse teor nocivo não se iniciou naquele 
ato.	Ele	teve	seu	início	muito	antes	de	eclodir	no	comportamento.	
Quando	saímos	às	ruas,	é	possível	identificar	alguns	desses	sinais	ou	
pistas presentes na sociedade. De certo modo, a sociedade vem sendo 
carregada de informações sobre ataques, casos reais e de muita perda 
de	controle	entre	os	sujeitos,	falta	de	equilíbrio	e	desarmonia	em	todos	
os	níveis,	desarmonia	afetiva,	moral,	social,	cultural	e	institucional.
A violência em todos os âmbitos abala todas as estruturas da vida de 
alguém ou de uma sociedade; a violência simbólica e psicológica surge 
de	forma	“sofisticada”	na	presença	da	sua	“sutileza”	e	simbolismos	
presentes	no	momento	da	interação.	A	partir	daí,	entende-se	que	ela	
possa	ser,	muitas	vezes,	invisível	a	outros	sujeitos	ao	redor,	pois,	aos	
olhos externos, nada ocorre de grave, visto que a violência também 
vem travestida de forma passiva, como resistência, como ardil, vingança 
calculada e premeditada, escondida e escamoteada, não declarada 
e	feita	nos	bastidores.	Portanto,	se	ela	for	visível,	declarada,	pelo	
comportamento	expresso	de	agressão	física,	por	exemplo,	ou	de	uma	
briga em que se possam ter testemunhas do fato, não se caracteriza 
como violência simbólica. Persistimos em dizer que a violência não 
declarada	é	aquela	invisível,	que	afeta	o	psicológico,	que	atua	no	mundo	
interno do outro, abalando sua estrutura de segurança afetiva e pessoal 
até se transformar em perda de autoestima gradativa por permanecer 
refém de uma armadilha comunicacional que o enreda nessa teia de 
raiva, inveja, ciúmes doentios, abuso de poder, misoginia, sentimentos 
e emoções mal elaboradas, vivenciados no seu universo particular e 
não	partilhados.	O	outro	que	se	torna	a	vítima	desse	enredo,	ainda	
que tente sair, vivenciará a estranheza, pois não será compreendido 
em	sua	essência,	pois	ora	o	outro	o	estimula	ao	vínculo	e	ora	o	faz	
109109 109
cair em decepção. Cria mecanismos de adesão, e quando estes estão 
sólidos, inicia uma derrocada escalada para colocar o outro refém 
numa vinculação de poder, desnecessária e equivocada para aquelas 
relações	pessoais,	familiares,	sociais	e	de	convívio.	Em	conformidade	
com essa linha de pensamento, Bourdieu (2007) descreve que é 
violência quando esta é exercida pelas vias simbólicas da comunicação 
e do conhecimento, ou mais precisamente, do desconhecimento, do 
reconhecimento, ou, em última instância, do sentimento. 
Pode-se	considerar	também	pelo	aspecto	da	ignorância,	de	
que existem pessoas rudes e com poucos desenvolvimentos 
emocionais que vivem e reproduzem a violência por meio da relação 
interpessoal, tendo em vista seu modelo apreendido de vivências 
de situações traumáticas, seja por ser uma pessoa, em termos de 
personalidade, que age desconectada de valores humanos, ou que 
atua	contrariamente	aos	princípios	morais	que	respeitam	as	condições	
humanas.	Isso	significa	que,	onde	há	segregações,	discriminações,	
críticas	constantes,	controles	constantes,	deformações	das	realidades,	
más interpretações das intenções das pessoas, maledicências, invejas, 
despeitos, ironias, desprezos, bem como falta de trato com o outro 
de	maneira	educada,	significa	que	já	está	ocorrendo	a	violência.	Sua	
tonalidade	é	diferente	da	violência	física	e,	no	entanto,	tão	perniciosa	
quanto, pois também bate e machuca, e podem se tornar feridas 
emocionais no universo pessoal, desencadeando tristeza, depressão, 
sensação de que faz tudo errado, de que não consegue compreender 
a pessoa, de que seja alguém de insucesso, sentimentos de frustrações 
constantes, decepções, amarguras, desencantos da vida e falta de 
motivação. Como podem perceber, os sentimentos emocionais são 
aqueles que retiram as forças pessoais, a autoestima e a própria 
energia vital. As pessoas em comunicação violenta se desgastam e 
permanecem com sequelas desagradáveis, pois essa seria a principal 
intenção.	Pode-se	dizer	que,	quando	o	resultado	for	contrário	ao	bem-
estar, está diante de uma condição violenta e agressiva.
110110 
A violência simbólica é parte de uma realidade que avilta e 
constrange	a	pessoa,	ainda	que	seja	imperceptível,	de	forma	
silenciosa, escarrada, podendo então ser percebida pelas fronteiras 
existentes nas disparidades sociais, das identidades e referências 
pessoais econômicas e culturais.
Bourdieu (2007) abarca também o entendimento da violência simbólica 
sob	a	ótica	grupal	das	classes	sociais	e	não	especificamente	das	
interações próximas aos sujeitos. Tratando o tema do ponto de vista 
da abrangência maior e ampliada, motivados pela conquista de uma 
posição ou manutenção da dominância sobre o outro, atuando de 
forma	violenta	para	manter-se.	
Ainda na percepção do autor Bourdieu (2007), que defende a ideia de 
que	as	classes	sociais	almejam	ascensões	na	hierarquia	social,	engajam-
se nesse tipo de luta no intuito de superarem suas condições de 
subjugadas	e	se	tornam	definidoras	dos	preceitos	que	balizam	o	mundo	
social, obtendo, assim, poder para impor e demonstrar instrumentos 
de conhecimentos e de expressões da realidade. O sociólogo explica 
que há um entendimento da assimetria nas relações para que o poder 
simbólico possa se manifestar e se estabelecer, e não aponta como a 
violência se processa e como o sujeito se relaciona com ela. Podemos 
observar isso quanto ao aspecto da sutileza presente e inconsciente. 
Existem algumas crenças que são promotoras desse pensamento, 
cuja visão estádeterminada a uma compreensão da realidade e não 
a algo a ser desvendado pela interação. Por exemplo: uma mulher 
negra	acaba	de	mudar-se	para	seu	luxuoso	e	lindo	apartamento	e	
entra no elevador com a sua cunhada, que é branca e que veio lhe 
auxiliar com a mudança, e quando se encontraram com uma vizinha 
no	elevador,	a	vizinha	dirigiu	a	palavra	à	sua	cunhada:	“Seja	bem-vinda,	
você é a moradora nova do nosso prédio”? Ela sorri diante daquela 
cena e nada diz; será que em nenhum momento passou pela cabeça 
da vizinha perguntar: qual de vocês é a nova moradora? Entende? Em 
muitas situações, não associam a determinadas pessoas a capacidade 
111111 111
de obter sinais de sucesso, como se pudessem ser apenas de pessoas 
brancas. Essa mesma mulher relata vivenciar isso inúmeras vezes 
em situações cotidianas, por exemplo, quando foi comprar um carro, 
vivenciou a sutil violência presente e na loja em que ela entrou foi 
tratada com desinteresse pelo vendedor, ela estava decidida a comprar 
o	carro,	mas	o	vendedor,	certamente	imagina-se	que	estava	imbuído	
em suas crenças de que uma mulher negra não possa ter condições 
financeiras	para	comprar	um	carro	e/ou	ter	poder	de	compra	para	tal,	
deixou-a	e	foi	se	sentar.	Ela	relata	que	pacientemente	procurou	outro	
vendedor e que efetuou a compra de seu carro com detalhes especiais, 
inclusive conforme o seu gosto e a sua necessidade. E percebeu que 
isso	trouxe	certa	surpresa	para	aquele	profissional	que	a	desconsiderou	
inicialmente, que, em sua opinião, se deu em razão de sua etnia, 
caracterizando,	portanto,	um	preconceito.	São	impressões	instituídas	
na mentalidade de muitos cidadãos que, por exemplos de convivências 
negativas, propagam o sentido agressivo e violento. Fatos como esses 
apresentados não ocorreriam se, pois, suas crenças não tivessem sido 
preestabelecidas	culturalmente	no	seu	íntimo	por	meio	do	cotidiano	
presenciado. O fato aqui em discussão é que elementos que respaldam 
a	visão	do	indivíduo,	sendo	eles	munidos	de	preconceitos,	distorções,	
discriminações e conceitos mal formulados, levam a um distanciamento 
da interação em que o outro pode estar dentro do crivo daqueles que 
consciente ou inconscientemente reproduz na comunicação social e 
interpessoal. É preciso ir além, ter uma visão ampla realmente para 
evitar distorções desse tipo que conduzam as pessoas a uma visão 
que perpetua a violência na modelagem de padrões repetidos, ou seja, 
agindo somente de acordo com suas crenças, ou que aquilo que difere 
do que pensa simplesmente não exista!
Bourdieu	(2007)	marca	um	aspecto	das	influências	externas	de	campo,	
por exemplo, na sociedade, temos a expressão generalizada da 
opressão, da dominância, com o propósito de subjugar com a forte 
intenção de combater o poder, mas nem por isso estabelecer um outro 
112112 
no lugar. Que os atos violentos não são revolucionários em si só como 
ato	de	contestação,	ou	seja,	é	o	domínio	e	a	busca	de	romper	e	quebrar	
com essa preponderância. Mas sem qualquer sentido de colocar outra 
instância e manter a opressão. Quem entra em colisão não terá o efeito 
de ganhar o poder. A opressão permanece, pois o objetivo não é a 
mudança de realidade.
Figura 8 – O iceberg da raiva
Fonte:	RomoloTavani/Istock.com.
Como vimos, portanto, há uma perda de referência do que é a 
pauta essencial da relação humana para dar lugar a outra, isso é, a 
necessidade de poder é recorrente como forma de opressão do outro. 
Para	esse	fim,	todos	serão	personagens	desse	viés.	Não	há	liberdade	
e nem possibilidade de estabelecer uma relação com a sociedade em 
bases saudáveis, pois a visão já está predeterminada. Assim como 
aqueles radicais que contestam a ordem vigente, pois creditam toda a 
responsabilidade	ao	status	vigente,	seja	a	política	ou	a	classe	dominante,	
agredindo de forma contumaz tudo. São aqueles poliqueixosos, visto 
que nada está bom. Tendem a enxergar a vida como aquela que os 
coloca	na	condição	de	vítimas	sem	despertar	elementos	internos	e	
113113 113
psíquicos,	tais	como	a	resiliência,	a	persistência,	a	persuasão,	o	foco,	
o	direcionamento,	a	ação	correta	e	a	força	de	vontade,	posicionando-
se como reféns do sistema vigente. Essa também é uma perda que 
muitos cidadãos adotam e estabelecem para si, uma ótica de vida que 
recai	nesse	prisma	onde	não	é	possível	construir	ou	reconstruir	ou	dá	
um	novo	significado.	Temos	como	exemplo	radicais	que	depredam	o	
patrimônio público e privado, caracterizando por alguns como ataques 
terroristas, atuam pelas condutas do psicoterror (situações traumáticas, 
geradoras de estresse).
Fundamental compreender que boa parte da produção violenta 
expressa de forma subjetiva, sutil e psicológica está associada 
a entendimentos desvirtuados da realidade contextualizada na 
interação, do que ambos comunicam, com uma visão impregnada de 
conteúdo mal elaborado, doentio ou traumatizado que carregam e são 
transferidos	para	o	outro.	Isso	se	refere	ao	indivíduo	com	conteúdo	
interno pessoal mal elaborado que tende a responsabilizar o outro 
pelo	seu	estado	emocional,	culpando-o	daquilo	que	ele	entende	ser	
estimulado pelo outro. Por isso passa a controlar e cercear o outro 
como forma de não permitir que seja tratado do mesmo modo como 
o trata. Constrói realidades que somente têm sentido para si e que 
não são compartilhadas para os demais, vive no estranhamento e sem 
compreender a fonte dessa constatação. O portador de violência faz 
exatamente	aquilo	que	não	gostaria	que	fizessem	com	ele.	E	quando	não	
assume as responsabilidades, indica o desconhecimento, a imaturidade 
emocional e o desvio de percepção que tendem a nos projetar outros 
conteúdos	mal	elaborados.	O	fato	é	que	um	indivíduo	inseguro,	por	
vezes	mal	estruturado	psiquicamente,	refere-se	àquele	que	comunica	a	
violência	sutil,	insensível	e	invisível	a	suas	vítimas	de	forma	reiterada.
1.3.	 A	influência	da	mídia	na	propagação	da	violência
A	definição	de	mídia	pelo	Dicionário eletrônico Houaiss de Língua 
Portuguesa, é: “tudo o que oferece suporte de difusão da informação, 
114114 
que se constitui um meio intermediário de expressão capaz de 
transmitir	mensagens”.	Caracterizam-se	também	como	meios	de	
comunicação social de massas não diretamente interpessoais: as 
conversas, os diálogos públicos e privados. Com os instrumentos 
como o rádio, o cinema, a televisão, a escrita impressa ou 
manuscrita, a internet, a telefonia, os cartazes e outras formas de 
apresentações de mensagens.
Os	veículos	de	comunicação	se	propõem	a	quatro	missões:
a. Informativas.
b. Transmissões de culturas.
c. Promover entretenimento.
d. Pesquisas diversas e de que forma elas vêm sendo 
recebidas	pelo	seu	público-alvo.
Pode-se	refletir,	portanto	acerca	da	condução	da	comunicação.	 
Ao compreendermos o seu propósito, baseado na sua missão, 
pode-se	imaginar	que,	se	sua	condução	não	for	bem	direcionada,	
poderá	perpetuar	culturas	dominantes.	Considera-se,	assim,	que	
elas são entendidas como a violência sutil e a violência simbólica 
– o que pode fazer com que a sociedade crie uma compreensão 
rasa ou falsa daquela realidade, resultando em transmissão de 
preconceitos	e/ou	de	condutas	discriminatórias,	mesmo	que	quase	
invisível.	É	pela	sensação	de	ausência,	de	falta	de	significado	interno	
sobre a realidade que se viver é que podemos constatar que 
muitos destes fatos e acontecimentos são desconhecidos por uma 
mera	visão	míope	da	sociedade,	do	tipo	aquilo que não conheço, 
não existe. Sugerindo, dessa forma, que o mundo real é somente o 
divulgado e propagado pelas forças dos meios de comunicações.
115115 115
PARA SABER MAIS
Sugerimos	a	leitura	do	artigo	“Mídia	e	violência:	um	olhar	
sobre o Brasil” (CARVALHO; FREIRE; VILAR, 2012). Este artigo 
aborda temáticas relevantes, tais como a utilização da 
violência na captura de audiência, a espetacularização da 
violência,	as	responsabilidades	da	mídia	no	enfrentamento	
da violência, entre outros. Vale a pena conferir!
A	mídia	é	caracterizada	como	um	veículoforte	e	importante,	capaz	de	
causar impactos e induzir determinados comportamentos na vida do 
homem. Alguns comportamentos reproduzidos por alguns sujeitos 
talvez	nem	sejam	legítimos	à	pessoa,	por	não	fazerem	parte	do	seu	
contexto	de	vida	e	acervo.	A	mídia	tem	o	poder	de	convidar	o	público	a	
despertar	em	direção	a	uma	curiosidade	específica,	de	igual	modo,	pode	
esclarecer algo ou gerar polêmica, opinar ou formar opinião pelo poder 
da	influência	ou	de	tendências,	bem	como	corrobora	para	promover	
uma determinada conduta, ou em copiar ou imitar essas condutas. 
A	mídia	não	é,	em	sua	integralidade,	um	mal	ou	um	elemento	
perturbador.	Trata-se	de	veículos	transmissores	de	mensagens	
que	ocupam	e	promovem	estímulos,	informações	e	incentivos	a	
comportamentos. Alguns desses comportamentos podem gerar 
angústias e um descompasso entre um mundo desconectado da 
essência humana ou dos valores associados às suas necessidades. 
Ora,	precisamos	pensar	na	estruturação	da	identidade	do	indivíduo,	
que perpetue em um processo de maturação em que as crianças e os 
adolescentes e os jovens e os adultos possam vivenciar experiências 
emocionais que são elaborações necessárias para a vida humana – 
pois promove o crescimento interno e sua interação com o mundo 
externo. E é por meio de atitudes seguras resultantes de um universo 
interno bem trabalhado ou bem desenvolvido, e consequentemente 
bem estruturado, que podemos concluir que o que mais precisamos é 
116116 
criar	condições	para	que	jovens	possam	ter	visões	críticas	daquilo	que	
assimilam	ou	de	adquirirem	maturidade	suficiente	para,	se	quiserem,	
manter certo distanciamento que seja necessário para essa análise, ou 
para	refletir	e/ou	ponderar,	em	vez	de	engolirem	o	que	veem	e	ouvem.
Moreno	(1997),	criador	da	metodologia	psicodramática,	elucida	bem	
quando	nos	fala	acerca	da	aquisição	de	papéis.	E	os	define	como	
sendo expressões do Eu em diversas áreas da vida. Tem a ver com 
desenvolver papéis como forma de desenvolvimento pessoal, um modo 
de funcionar, ser e existir. Acaba desenvolvendo hábitos, interesses que 
revelam a qualidade e saúde emocional. E que quanto mais papéis um 
indivíduo	desenvolve	e	pratica	na	vida,	mais	saudável	e	pleno	se	torna.	
E quando se retrai, deixando de praticar determinadas habilidades e 
competências, perde em qualidade do viver. 
O	autor	explica	o	desenvolvimento	de	papéis	que	um	indivíduo	
pode adotar em seu repertório de respostas e na estruturação de 
personalidade, e elabora três etapas no processo de aquisição de um 
novo papel (forma de expressão ou resposta no cotidiano), veja:
1. Role-taking	(aluno)	–	Tomar	o	papel,	assumi-lo	e	imitá-lo.
2. Role-playing	–	Jogar	e	treinar	o	papel.
3.	 Role-creating	(professor)	–	Criar	o	papel.
Conjectura-se	que	a	formação	de	um	novo	papel	precisa	do	contrapapel	
para,	assim,	consolidar-se	com	o	envolvimento	de	outra	pessoa,	com	
situações e contextos.
De forma natural, o processamento das informações pode ser 
feito pelos pais, pelo professor, por psicólogos, assistentes sociais, 
representantes ou outros que se proponham a formarem grupos, por 
exemplo, grupos que possam promover discussões de temas de canais 
midiáticos e que possam percutir negativamente, e, dependendo da 
117117 117
apresentação, possam ser reprodutores da violência, o que é um modelo 
de	conduta	quando	não	pensados	de	forma	crítica	e	reflexiva.	Com	a	
adesão	de	caráter	moral,	que	reflete	em	consequências	para	a	vida	
prática, no âmbito familiar e social ou no âmbito do entretenimento, por 
exemplo,	há	muito	estímulo	para	luta,	embates,	confrontos,	vinganças	e	
crueldade como elemento de poder sobre outros. E certamente não são 
absorvidos como elementos desagregadores, precisando ser pensado a 
respeito das alternativas que crianças e jovens podem ter quando suas 
condições socioeconômicas estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, 
pessoas vulneráveis socialmente e economicamente.
Na atualidade, questões precisam ser apresentadas de forma coerente, 
atentando-se	para	o	fato	das	repercussões	de	influências	negativas	
venham	a	refletir	na	vida	dos	filhos(as),	dos	alunos(as).	Quais	conceitos	
estão sendo formulados entre esse público? Conceitos esses, que 
possam ir de encontro à violência simbólica a qual estão expostos. 
Quando	não	há	critérios	e	nem	seleção	do	que	é	plausível	de	ser	
assimilado	pelas	crianças	e	pelos	jovens,	principalmente	pelo	período	
e	pela	etapa	da	vida	que	falta	de	maturidade,	colocam-nas	em	maiores	
probabilidades de internalizar conceitos.
Direcionando	melhor	os	reflexos	da	comunicação	diante	da	formação	
de	indivíduos,	podemos	entender	que	o	esporte	e	os	espaços	de	lazer	
são locais que agregam jovens e por isso diminuem a contaminação 
da violência social na vida deles. Quanto mais os jovens e as crianças 
se inserirem em espaços de lazer e esporte, maior a probabilidade 
de se manterem distantes dessas deformações que a violência 
promove.	O	bem-estar	gerado	pelo	esporte,	como	a	dança,	a	arte,	a	
cultura, o lazer em parques, que os colocam em contato com outras 
possibilidades. Dessa forma, é apresentado nas práticas vivenciadas 
que há entretenimentos diferentes daquelas realidades que 
conhecem. Portanto, o aumento e a melhoria desses espaços e centros 
comunitários	podem	agregar	beneficamente	e	integrando	as	crianças	e	
os jovens de modo que as estruturas contribuam para não perdermos 
118118 
para	o	tráfico	de	drogas,	por	exemplo.	Portanto,	considera-se	de	
grande relevância aproximar os pais e os professores, agentes sociais 
transformadores	ou	mediadores,	profissionais	inseridos	na	Política	de	
Assistente Social de forma geral, ou grupos informais com propósitos 
sociais de interesse nessas demandas reais e que sejam interlocutores 
natos para essa tarefa.
Os órgãos tanto governamentais como privados, institutos de pesquisas 
e os meios de comunicação fazem suas pesquisas de percepção, no 
entanto, são, na maioria das vezes, para seu próprio interesse e foco, 
ou para a sua própria audiência, e tendem a aumentar a frequência 
da	exposição	de	certas	notícias,	pois	isso	aumenta	os	índices	de	
telespectadores	sem	se	preocupar	com	o	modo	como	essas	notícias	
podem impactar a vida das pessoas em uma sociedade. Mesmo que 
isso repercuta negativamente. Por exemplo, as novelas procuram 
vender-se	pelas	cenas	que	apresentam,	pelo	nível	de	tramas,	de	
armadilhas que são ali apontadas, apresentam tendências de moda, 
modos de linguagem que podem ser questionados, pois não seriam de 
acordo	com	a	norma	culta	da	língua	portuguesa,	o	modo	de	linguagem	
correto	e	adequado.	Reproduzem	a	fala	erroneamente,	adotam	vícios	
de linguagens, pois isso é produzido nos canais de comunicação sem 
fazer	quaisquer	críticas,	apenas	por	imitação.	
De forma estratégica, o uso de uma linguagem simplista e facilitada 
ao máximo serviria para que os sujeitos não precisem pensar 
racionalmente	e	nem	desenvolverem	pensamentos	críticos.	A	grande	
massa da população, na maioria das vezes, apenas absorve as 
informações e não as questionam, uma vez que não há espaços que 
debatam	ou	que	colaborem	para	uma	reflexão,	ou	aprofundem	temas	
da vida social com tendência na diminuição das condutas violentas. 
É indispensável que se incentive a propagação das informações que 
remetam	a	uma	cultura	pacificada,	com	valores	humanos	universais	
divulgados o que certamente se reverte em prevenção nos cuidados 
com as crianças e com os jovens.
119119 119
A questão não se refere ao fato de que a TV, os jogos de celular, a 
internet e outros sejam perniciosos, mas sim de ressaltarmos que, sem 
um	interlocutor	que	promova	a	crítica,	possivelmente	resultará	em	um	
processo	alienante,	de	vícios,	de	contextos	indisciplinares,	como	a	rotina,	
a formação escolar ou com as tarefas em casa. 
Temos	tido	acesso	à	informação	pela	mídia	televisiva	e	impressa	
de	vídeos	que	foram	disseminados	entre	jovens	que	conduziam	ao	
autossufocamento, conhecido como “baleia azul”, um tipo de jogo 
entre internautas,de efeitos nocivos, em que um tem de obedecer 
a	outro.	Nesses	casos,	temos	uma	mídia	que	auxilia	na	informação	
como meio de prevenção – sendo este um papel positivo quando a 
informação	é	imbuída	na	função	de	educar	e/ou	alertar.	Muitos	jovens	
são	conduzidos	ou	influenciados	para	não	pensar	ou	para	não	elaborar	
seus próprios conteúdos, e por consequência disso, agem reproduzindo 
ou	imitando	o	que	veem,	como	apontado	acima.	Com	uma	mídia	
responsável e educativa, temos o aspecto inverso. Nesse caso, ela se 
torna promotora de vários fatores positivos, por exemplo, da saúde 
coletiva, quando um grupo de mães assumiu e conduziu as informações 
visando o esclarecimento da população com relação ao sufocamento 
que estava sendo divulgado entre jovens como um jogo, e que eram 
ameaçados	pelos	agentes	agressores	(anônimos).	Pois	a	prova	incluía	
a obediência. Certa vez, assisti ao programa Sem Fronteiras, pelo canal 
de assinantes Globo News, que apresentou que, na França, foram 
detectados inúmeros casos de terroristas que buscam conversar com 
os	jovens	que	ficam	em	casa	quando	os	pais	estão	trabalhando,	e	assim,	
de forma estratégica e manipuladora, vão envolvendo meninas que se 
apaixonam por rapazes que as conquistam dia a dia sem que os pais 
saibam até que fogem, somem. As jovens foram cooptadas por agentes 
que	têm	a	intenção	de	prendê-las	psicologicamente	a	uma	fantasia	de	
amor	até	ocorrer	o	casamento	para	justificarem	sua	presença	ilegal	
no	país,	ao	envolver	as	jovens	que	ficam	enfraquecidas	diante	desse	
assédio manipulatório. Em proporções distintas, por serem realidades 
de	países	distintos,	no	Brasil,	temos	divulgado	pela	mídia	jornalística	
120120 
que um número expressivo de meninos das periferias, sem idade 
penal,	são	escalados	pelo	tráfico	de	drogas,	para	uma	vida	alienante,	
ganhando salários muitas vezes maiores do que de seus pais, diante 
da miséria e do desemprego. Sendo estes mortos precocemente, pela 
própria vida no crime, haja vista que foram cooptados e não tiveram 
chances à educação.
2.	Considerações	finais
Conclui-se,	neste	tema,	a	importância	de	desenvolvermos	ações	que	
possam possibilitar ampliações da consciência de determinadas 
pessoas que viabilizem a sua boa convivência em sociedade. Que com 
a	mentalidade	voltada	para	a	pacificação,	compreensão,	compaixão,	
com	o	ato	de	colocar-se	no	lugar	do	outro	e	desenvolver	a	empatia,	
possamos ter elementos concretos para diminuir a escalada da 
violência que cresce a cada minuto. Apreendemos que mediar é 
melhor	que	encerrar	o	diálogo,	que	reverter	situações	difíceis	em	
posições que possam dar conta das necessidades de ambas as partes 
é sinal de civilidade. Que as crenças limitantes reduzem a capacidade 
das pessoas encontrarem outras formas de estabelecer contato que 
envolva a compreensão mútua.
Nesse	sentido,	é	possível	criarmos	espaços	de	discussão	onde	essas	
influências	possam	ser	percebidas	e	amplamente	discutidas	em	
ambiente escolar, fazendo com que aprendam a fazer escolhas e a 
desenvolverem maturidade para pensarem criticamente. Poderemos 
conhecer a partir das novas atividades que poderão ser feitas nos 
espaços escolares, usando positivamente os recursos midiáticos em 
prol da educação e da formação de pessoas, como programas já 
implantados nas escolas com as atividades de pesquisas qualitativas que 
consideram o ponto de vista da criança, do adolescente e dos jovens 
estudantes. Somos capazes de mudar o padrão de consumo e capazes 
de mudar a linguagem que interfere na conduta humana, pensar então 
121121 121
a	família	na	figura	dos	pais	ou	seus	responsáveis,	que	eles	possam	
também ocupar essas posições, de interlocutores, juntamente com 
os	seus	filhos,	digerindo	e	promovendo	reflexões	e	transformações	
pessoais	significativas.	E	certamente	isso	nos	traz	indagações.	Quem	
poderá preparar esses pais ou responsáveis? Quem são os condutores 
possíveis	para	agregar	ou	desagregar	a	estrutura	familiar?	Podemos,	
então, deixar para os sujeitos que realizam pesquisas por meio dos 
seus estudos possam criar ações para intervir com preparações de 
pais	ou	responsáveis	para	direcionar,	quem	sabe,	suas	famílias	de	
forma saudável, ainda que tenham adversidades oriundas de falta de 
oportunidades, que possam lidar com os aspectos pertinentes, como 
treinar,	desenvolver	a	resiliência,	pois	essas	famílias,	em	grande	parte,	
têm	sido	as	maiores	vítimas	da	sociedade	violenta	em	que	vivemos.
Que quanto mais estivermos expostos às informações que apontam 
os casos reais, validando a sua incidência, poderemos nos mobilizar 
a solucionar problemas que interferem na vida coletiva, pois já 
estamos lidando com as repercussões danosas que tais condutas 
promovem. E que com a conscientização e sensibilização da 
população,	é	possível	reeducá-las	para	uma	sociedade	com	 
o	futuro	mais	humanizado	e	pacífico. 
TEORIA EM PRÁTICA 
Leia a matéria publicada pelo Jornal Folha de S.Paulo: 
“Casos	de	agressão	a	professores	crescem	189%	no	estado	
de São Paulo: em média, pelo menos três docentes são 
atacados a cada dois dias no estado” (CAVALCANTI, 2018).
Após a realização da leitura do caso envolvendo violência, 
faça uma análise considerando sob o ponto de vista da 
comunicação não violenta e da violência simbólica e 
psicológica. Considerando quais são os elementos que 
estão presentes. 
122122 
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1. Aponte qual das alternativas apresenta dois passos 
propostos por Rosebenrg (2006) para a prática da 
comunicação não violenta – CNV: 
a. Identificar	sentimentos	e	compreensão	mútua.
b. Ser feliz e respeitar as pessoas.
c. Assumir responsabilidades e observar sem julgar.
d. Ter empatia e ter simpatia.
e. Fazer	pedidos	e	colocar-se	no	lugar	do	outro.
2. A comunicação interpessoal pode ser positiva, 
dependendo de alguns fatores presentes na relação. 
Para ser uma comunicação não violenta (CNV), é 
fundamental que contenha quais atributos? 
a. Que seja clara, simples e fácil de entender.
b. Que seja objetiva e direta e que traduza o que quer 
expressar.
c. Que seja uma linguagem subjetiva baseada em 
sentimentos e em emoções.
d. Que	seja	pacifica,	diminuindo	qualquer	intenção	
mútua de agressividade.
e. Que seja alegre, motivada por algo ou 
interesse comum.
123123 123
3.	Quais as formações acadêmicas dos estudiosos 
Bourdieu e Rosenberg? 
a. Antropólogo – Antropólogo.
b. Vitimólogo – Professor pedagogo.
c. Sociólogo – Sociólogo.
d. Sociólogo – Pesquisador da educação.
e. Sociólogo – Psicólogo.
Referências	bibliográficas
BOURDIEU,	P. O poder simbólico.	10.	ed.	Rio	de	Janeiro:	Bertrand	Brasil,	2007. 
CARVALHO,	D.	W.;	FREIRE,	M.	T.;	VILAR,	G.	Mídia	e	violência:	um	olhar	sobre	o	
Brasil. Rev Panam Salud Publica,	v.	31,	n.	5,	p.	435-438,	mai.	2012.	Disponível	
em: .	Acesso	em:	29	jul.	2019.
Cavalcanti,	T.	Casos	de	agressão	a	professores	crescem	189%	no	estado	de	São	
Paulo. Folha de S.Paulo.	Publicado	em:	2	ago.	2018.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	29	jul.	2019.
COMUM. “Comunicação não violenta na prática” com Giovana Camargo – 
Minas	que	manjam	#17.	2016.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	29	jul.	2019.
MORENO,	J.	Psicodrama.	São	Paulo:	Editora	Cultrix,	1997.
ROSENBERG, M. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar 
relacionamentos	pessoais	e	profissionais.	São	Paulo:	Ágora	Ed.,	2006.
https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1020-49892012000500012&lang=pt
https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1020-49892012000500012&lang=pt
https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/08/casos-de-agressao-a-professores-crescem-189-no-estado-de-sao-paulo.shtml
https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/08/casos-de-agressao-a-professores-crescem-189-no-estado-de-sao-paulo.shtml
https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/08/casos-de-agressao-a-professores-crescem-189-no-estado-de-sao-paulo.shtmlhttps://www.youtube.com/watch?v=7LulOMOMI7A
https://www.youtube.com/watch?v=7LulOMOMI7A
124124 
Gabarito
Questão 1 – Resposta C
Resolução: assumir responsabilidades e observar sem julgar. 
Questão 2 – Resposta D
Resolução:	que	seja	pacífica,	diminuindo	qualquer	intenção	
agressiva. 
Questão 3 – Resposta E
Resolução: sociólogo e psicólogo.
125125 125
Naturalização da 
violência doméstica
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• Apontar aspectos relativos à naturalização 
da violência doméstica 
• Apresentar o contexto da violência 
doméstica no Brasil no momento atual. 
• Apresentar os fatores envolvidos que 
favorecem a ocorrência da violência doméstica.
126126 
1. Perda de sensibilidade e alto índice de casos
Iniciaremos aqui a introdução ao tema “A naturalização da violência 
doméstica”, que vem sendo muito difundida devido ao alto número de 
casos registrados. Essa constatação denota uma aberração do que vem 
se tornando muitos relacionamentos familiares.
Escondem situações críticas, abusos, falta de respeito, opressão, 
bem como aviltam condições humanas. Os homens tornam-se 
transgressores dos seus limites, desvirtuando, portanto, a finalidade de 
suas funções na família. Dentro desse contexto, crianças são violadas na 
sua infância, seja em seus sonhos, seja fisicamente ou psiquicamente 
tolhidas. No caso das mulheres, estas são espancadas, agredidas de 
diversas formas, controladas, abusadas física e psicologicamente. 
Da mesma forma, existem pais que são humilhados e odiados muitas 
vezes; mães que abandonam o lar, pais que não protegem e afundam 
todos num mar de tristeza, decepção, frustração. Assim, vamos entender 
o que está envolvido nessa trama perigosa que carrega a semente do 
crime e que, portanto, constrói relações doentes que somente podem 
gerar risco e flagelo aos seus membros.
A naturalização da violência envolve aqueles comentários e 
comportamentos que carregam julgamentos e relativizam as agressões, 
estimulando a criação de uma cultura na qual a violência doméstica 
é considerada aceitável. Por conseguinte, essa cultura tende a 
culpabilizar a vítima e não julga desproporcional a conduta do agressor, 
minimizando ou desfocando sua atitude violenta, enfatizando outra 
interpretação, do tipo: “Em algum momento, qualquer pessoa perde 
o controle”, “O que será que ela fez para ele ter batido nela?”, “Alguma 
coisa ela fez para provocar”, “Ele é um homem que trabalha, o que 
mais você quer?”, “Quando perceber que ele está nervoso, faz o que 
ele pede para não criar confusão”, “Nossa! Você não viu que ele era 
doente quando começou a namorar?” (induzindo a ideia de que o erro 
127127 127
é da mulher que escolheu mal), “Estranho, ele nos trata tão bem, você 
não está aumentando os fatos?”, “Se você contar para alguém que isso 
aconteceu aqui em casa, eu vou matar seus pais”, “Se você falar ou fugir 
daqui, eu vou atrás de você”, “Eu nunca vou te largar e você não vai ser 
de mais ninguém”, “Se você falar para a sua família que eu te bati, eu 
vou dizer para eles tudo o que você faz: não sabe lavar roupas, não sabe 
cuidar da casa, educa mal os filhos, é chata, está uma baranga e vou 
dizer para eles que descobri que você tem um amante! Você vai ver!”. 
Muitos casos de relacionamentos abusivos envolvem também atitudes 
da parte do agressor, cujo objetivo é martirizar a sua vítima, tal como o 
exemplo: “Eu fotografei a quilometragem do seu carro quando você foi 
e quando voltou. Aonde você foi além do trabalho? Vai, fala!” E coloca a 
foto do celular em seu rosto, induzindo a confessar algo que ela própria 
não sabe o que é. Assim, eles torturam a vítima psicologicamente, 
criando a atmosfera de terror para que ela se sinta culpada de algo 
que não sabe o que é. Com isso, levantam provas falsas, e-mails falsos, 
conversas estranhas, telefonemas anônimos, ligações no trabalho para 
saber se chegou, criando uma situação de desconfiança explícita para 
as demais pessoas, que passam a pensar e a concluir que a vítima deve 
dar motivos para o marido, noivo ou namorado permanecer inseguro. 
Aparentemente, fica a impressão de que são apenas ciúmes, coisas de 
casal, quando, na verdade, é uma doença. 
Na realidade, na raiz de tudo isso está a conduta patológica de uma 
afetividade deformada, por parte do agressor, a qual cria uma atmosfera 
de desconfiança sobre a idoneidade da sua vítima. “Ela dá motivos”, 
“Olha o que ela fez para mim, me deixou”, “Você que é culpada, você me 
deixa nervoso”. E por aí seguem as acusações, em sucessivas atitudes 
dessa natureza, as quais amarguram a vida de milhares de pessoas. 
Em consequência disso, isso é, da preponderância da força do discurso 
do agressor sobre a vítima, muitos casos de denúncias são arquivados, 
mulheres desistem do inquérito não levando adiante a denúncia, 
músicas com letras ofensivas e indignas à mulher e seu relacionamento, 
entre gêneros, são também formas expressas de passar a mensagem de 
que práticas violentas que aviltam direitos da mulher sejam aceitáveis.
128128 
PARA SABER MAIS
Acesse o podcast da Rádio Band News FM intitulado 
Feminicídio, vamos falar sobre: naturalização da violência 
(MAYER, 2018) e ouça um comentário da psicóloga Sabrina 
Mazo, pesquisadora do Laboratório de Análise e Prevenção 
de Violência da Universidade Federal de São Carlos, sobre 
a naturalização da violência doméstica. Nesse áudio, 
também podemos ouvir o relato de uma vítima que 
enfrentou esse problema.
Figura 9 – Diga não à violência, denuncie!
Fonte: petekarici/Istock.com.
Veja agora o relato de dois casos reais, acompanhados em defensoria 
pública do Tribunal de Justiça1 e com modificações de nomes, para 
1exemplificarmos situações que são conhecidas no cotidiano 
dos profissionais que trabalham com questões relacionadas 
à violência doméstica.
1 A autora desta aula, como psicóloga, acompanhou casos dessa natureza tanto em atendimentos psicológicos 
como em mediações que ocorreram na justiça. Assim, apontou os relatos para exemplificar questões que en-
volvem a violência estrutural e intrafamiliar.
129129 129
Joana, de 41 anos, relata que estava com seu marido no sítio da família 
e os filhos estavam em casa na cidade, pois, já maiores, com idade de 
23 e 20 anos, respectivamente, tinham outros programas e não queriam 
acompanhar o casal durante o final de semana. O marido sempre queria 
se retirar da cidade na quinta-feira ou sexta-feira à noite, porém, como 
os filhos tinham compromissos com faculdade e estágio, não poderiam 
acompanhá-lo. Assim, o marido fazia de tudo para viver separado de 
todos, com poucos e restritos amigos. Pretendia somente que o casal 
vivesse sozinho entre eles.
A mulher tinha que estar disponível e deixar o trabalho, pois ele 
sempre estava nervoso e, para acalmá-lo, dava sempre um jeito para 
que pudesse acompanhá-lo. Fazer a chantagem emocional já era parte 
da opressão, pois Francisco, seu marido, fazia-se de vítima, que não 
aguentava mais tanto trabalho, tantos compromissos, ficava tenso 
em casa, sem paciência. E queria sempre ir para esse local afastado. 
Assim os dois foram perdendo a conexão com as outras pessoas. 
Viviam somente para si mesmos. Joana relata que, num desses finais 
de semana, eles teriam discutido, pois a conversa teria ficado acalorada 
e ela recebeu do marido um tapa no rosto. Ficou aturdida com o 
fato, cambaleou e quase caiu no chão. Escondeu-se e ficou por horas 
chorando muito e chocada com o que tinha acontecido consigo. Ligou 
para o filho pedindo que ele fosse buscá-la, mas ele respondeu: “Mãe, 
isso é coisa de vocês!” E ela pediu: “Filho, as coisas não estão bem aqui, 
vem me buscar por favor, estou pedindo”. Porém o filho disse: “Não vou. 
Isso é coisa de casal e vocês se entendem”. Isso acontece em muitos 
lares quando alguém pede ajuda.
Marisol, 32 anos, casou-se com um homem tendo uma filha ainda 
criança. Foi mãe muito cedo e, quando iniciou o namoro com Ronaldo, 
deixou claro que jamais se separariada filha. Foram viver juntos e, depois 
de oito anos, a menina de Marisol, então na fase da pré-adolescência, 
passou a apresentar um comportamento estranho, não ia bem na escola 
e dizia para a mãe que queria ficar estudando na escola o dia todo. 
130130 
A mãe não entendia, pois a rotina exigia que ela fosse para casa, pois ali 
passaria a tarde, almoçaria e poderia muito bem estudar em casa com 
a funcionária que trabalhava na casa. Aline, a jovem menina, começou a 
contrariar a mãe e ficava na casa de uma colega a tarde toda, e somente 
ia para casa perto da mãe chegar. A mãe ordenou que ela fosse para 
casa, mas num determinado momento, Aline vai ao trabalho da mãe 
e lhe conta que não gosta do padrasto, pois ele costuma importuná-la 
antes da mãe chegar. Marisol não acredita na filha e fica muito brava, 
pois, afinal, ele aceitou casar-se com ela e, portanto, Aline deveria ser 
muito grata a ele, pois ele era o homem da casa. Decidiu, todavia, que 
não contaria nada a ele, pois sabia que isso iria chateá-lo. Aline chorou e 
pediu para que a mãe acreditasse nela, contudo Marisol dizia que a filha 
estava inventando aquilo para atrapalhar sua vida, que ela, a mãe, tinha 
que trabalhar muito para dar conta das despesas da família, logo, a filha 
deveria parar de trazer problemas. 
Passado um mês, Marisol chega em casa e sua filha não havia retornado, 
e não voltou no dia seguinte. Ligou para a amiga da filha e ela estava 
lá, dizendo que não queria voltar para casa. A família da amiga de 
Aline a estava apoiando. Marisol foi até a casa dessa família e eles lhe 
relataram o que a menina havia contado, e que era melhor a mãe tomar 
providências, pois, do contrário, eles tomariam. Iriam à polícia denunciar 
o padrasto da menina. Marisol ficou furiosa com a intromissão da 
família da amiga de Aline. Então, pegou sua filha e a levou para casa, 
brigando com a menina, acusando-a de criar toda aquela história. Como 
punição, Aline foi proibida de ir à casa da amiga e a mãe ameaçou tirá-la 
da escola, transferindo-a para outra caso insistisse naquilo. Advertiu a 
família que acolheu Aline a cuidar da vida deles e não estragar a família 
dela. Aline chorava muito e dizia para a mãe que não aguentava mais a 
situação com o padrasto, insistindo que ele a incomodava, molestava, 
descrevendo, inclusive, o que ele fazia. 
Marisol não se convenceu com os lamentos de sua filha, afinal, não 
queria que nada abalasse seu tão sonhado casamento. Queria que tudo 
desse certo e não deu crédito à filha, dizendo-lhe que ela estava com 
ciúmes do relacionamento da mãe.
131131 131
Dois dias depois, Marisol não se sentiu bem, estava estressada, nervosa 
e, como se sentia mal no trabalho, resolveu passar na enfermaria da 
empresa. Ela foi dispensada para descansar em casa. Assim, chegou 
bem mais cedo que o habitual e então encontrou seu marido no quarto 
da filha, deitado com ela. Aline estava com as mãos amarradas e a boca 
amordaçada, enquanto o padrasto a molestava. O choque foi muito 
grande para Marisol, que avançou sobre o marido, tirando-o do quarto 
da filha. Foi então que se deu conta de que tudo o que a filha passava 
era verdade. Tomou providências e separou-se do marido.
Portanto, como relatado acima, temos dois casos reais de vítimas de 
violência doméstica. No primeiro, a tônica é a mãe pedir auxílio para 
o filho e este não compreender que ela estava em risco. No segundo 
caso, há uma mãe que não queria enxergar nada que colocasse seu 
casamento em risco. 
PARA SABER MAIS
Leia a matéria Número de mulheres vítimas de abuso sexual 
e violência doméstica crescem no Brasil (REVISTA IHU ON-
LINE, 2017), que relata um caso de violência doméstica e 
suas implicações no tocante ao modo como funciona a 
degradação do relacionamento conjugal e o aumento dos 
casos de violência sexual e doméstica no Brasil. 
Em pesquisas e estudos sobre violência, o item relativo à percepção da 
população sobre determinado aspecto é um dos aspectos observados, 
em que se procura medir a percepção da população mediante os 
índices e incidências de tais casos registrados. Ainda que muitos nem 
percebam que mulheres são discriminadas, o fato a ser verificado é 
que as estatísticas das pesquisas e dos estudos feitos sobre registro 
de casos de violência não mentem. Existe, portanto, uma defasagem 
entre determinados grupos da sociedade que apresentam uma espécie 
132132 
de cegueira quando a visão está associada a algo que viola o direito de 
alguém. O preconceito e a visão discriminatória estão tão enraizados 
na formação das pessoas que elas fazem leituras da realidade de 
acordo com a sua percepção impregnada desse olhar tendencioso e 
parcial. Portanto, não veem, não se dão conta e não irão ter compaixão 
por algo que faz outras pessoas sofrerem. Ao abordarmos a violência 
doméstica, estamos diante de um cenário muito cruel e de crime. 
E parece inverídico se refletirmos a respeito de que os autores da 
violência são seres humanos e de relação próxima com a vítima, e 
ainda assim são capazes de fazerem outros seres humanos sofrerem, e 
essa relação próxima é geradora de muita dor e causadora de dramas. 
Entretanto, temos que ir além de um pensamento, refletindo quais 
motivações estão associadas a isso.
Ainda que estejamos num momento da sociedade que carece de 
muita educação, inclusive neste chamamento de humanidade, temos 
assistido a campanhas pelas mídias que abordam o lema “Em briga 
de homem e mulher, se mete a colher, sim”. Culturalmente, sempre 
fomos direcionados a não expressar sororidade, compaixão ou empatia 
quando ouvimos uma briga estrondosa na casa vizinha, no apartamento 
ao lado do seu, ou mesmo na rua, em algum local. Sempre fomos 
induzidos a não nos envolvermos em discussões alheias, pois o fato 
se restringe àquelas pessoas. E temos notícias e comprovações pelo 
número de casos, os quais demonstraram as consequências dessas 
situações nas quais não houve uma intervenção e, em decorrência disso, 
não tiveram um desfecho satisfatório. Com o enorme número de casos 
de violência doméstica, essa tônica vem se modificando e apontando 
para o fato de que nem mesmo aquele que é vítima tem força suficiente 
e voz para fazer parar aquela situação violenta. Afinal, ele é parte 
envolvida naquele conflito, porém a interferência de fora, obviamente 
bem conduzida, são meios de intervenções que podem estancar aquela 
situação. Então, a conduta social se modificou. 
Na atualidade, recomenda-se que nos metamos em assuntos alheios 
se temos a noção de que isso pode não acabar bem, chamar a polícia 
133133 133
quando se escuta uma briga de tonalidade forte e brutal é uma atitude 
de civilidade que pode interromper aquela situação, bem como auxiliar 
aqueles que estão totalmente perdidos em suas funções desvirtuadas 
de viver ou até salvar a vida da vítima, surtindo penalidades para o autor 
da violência doméstica.
PARA SABER MAIS
Leia a matéria “Eu não vou te matar”: um retrato da 
violência doméstica (REVISTA IHU ON-LINE, 2016). 
Este artigo ilustra situações constrangedoras pela qual 
uma vítima passa, inclusive na delegacia. É possível 
notar, por meio dessa leitura, a naturalização da violência 
doméstica, reforçando padrões de banalização. 
ASSIMILE
Em 7 de agosto de 2019, a  Lei nº 11.340 – Lei Maria 
da Penha, promulgada em 7 de agosto de 2006, 
completou 13 anos. 
Apesar de ser considerada pelas organizações 
internacionais e pela ONU uma das melhores leis do 
mundo para o combate à violência contra as mulheres, 
os registros de casos brasileiros não acompanham 
essa conquista, sendo desanimadores. Criamos uma 
lei específica para tais casos, a Lei Maria da Penha, que 
tipifica o crime, mas precisamos ir para o passo seguinte, 
que é a mudança de comportamento, até mesmo no 
aspecto cultural, aquele que reforça modelos patriarcais e 
machistas, cujo domínio é do homem. 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Maria_da_Penha
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Maria_da_Penha
134134 
Com a emancipaçãoe a autonomia das mulheres com relação aos 
desejos, às escolhas e às decisões para suas vidas, esses aspectos de sua 
liberdade se chocam à regra vigente até então, pautada na supremacia 
masculina, tendo como decorrência o enorme índice de casos de 
violência contra as mulheres. 
A “sombra” da liberdade feminina faz muitos homens se sentirem 
agredidos à medida que suas mulheres se emancipam, pensam, 
opinam, trabalham e conquistam espaços na sociedade. Os registros 
das múltiplas violências contra as mulheres crescem exponencialmente, 
ao longo desses anos, principalmente devido ao maior acesso das 
mulheres aos c2anais de denúncias já conhecidos. Isso pôde ser 
comprovado pelo serviço ligue 180, mas, principalmente, desde a criação 
e a regulamentação de leis e das primeiras delegacias especiais de 
atendimento à mulher, DDM2 ou DEAM3, por volta dos anos 1980.
1.1. O impacto da conduta violenta
A conduta violenta nos provoca horror, medos e por isso talvez 
façamos tantas barreiras ao refletir sobre isso, por ela ultrapassar por 
completo a compreensão humana, numa posição defensiva de não 
olhar para o lado humano destrutivo.
O homem é capaz de submeter outro ser humano ao sofrimento, ao 
desamor, à humilhação, às surras, à vantagem da corrupção, que nada 
mais é que doença de caráter. Isso se configura pelo fato de considerar-
se tão esperto e merecedor de benefícios (as “vantagens” dão o toque 
ilusório de sentirem-se especiais), que podem ter o que outros levariam 
uma vida inteira para obter, representando a superioridade que 
o criminoso precisa ter sobre o outro. Dessa maneira, complementa a 
fantasia de ser invejado, adulado, envaidecido, sente-se assim: superior, 
e gosta da posição de fazer outros resignarem-se ao seu domínio. Assim 
também ocorre com a mulher que sofre a violência doméstica, com 
2 DDM: Delegacia de Defesa da Mulher. 
3 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.
135135 135
o funcionário que é humilhado pelo chefe, quando um ex-namorado 
mata a ex-namorada se ela encontra outro para amar, com aqueles que 
têm desfigurada a beleza por outro que dele sente raiva ou inveja, pela 
ação daqueles que se sentem poderosos no trânsito, pela corrupção 
silenciosa feita para muitos sentirem que não têm o sucesso que o outro 
conseguiu, desconhecendo a forma nada honrosa. 
Considera-se o fenômeno social da violência doméstica contra as 
mulheres como crime! O tema é extremamente sério, tendo em vista 
que se trata da escalada da violência, sendo este um dos marcos 
iniciais que evoluem para novas sequências violentas e de alta 
pressão, acompanhadas de muita tensão, reprovação, assombro, 
medo, instabilidade e desequilíbrio. Com isso, os envolvidos nessa 
relação ficam doentes e alterados psicologicamente. O agressor, na 
sua expressão, tem, na intimidade da relação, o ambiente para exercer 
sua dominação sem necessariamente ser reconhecido socialmente 
como tal. Vamos encontrar agressores que não demonstrar seu teor 
de risco e perigo, pois fazem parte da sua dinâmica de personalidade, 
não ser reconhecido como tal. Ou seja, tentam esconder sua forma 
extremamente exigente e agressiva, ou pensam que camuflam, porém a 
conduta de violência psicológica acaba sendo percebida pelos controles 
constantes, pelo sentimento de posse, pela reprovação e agressividade 
permanente no trato pessoal, na desqualificação e nos comentários 
ofensivos, podendo, em alguns casos, haver a ridicularização da 
pessoa na frente de outras pessoas, familiares, filhos. O que reforça, 
muitas vezes na visão de quem assiste, que a pessoa é imperfeita, 
inadequada, que faz tudo errado, que falha. Pois é essa a imagem 
criada pelo agressor, que sua vítima não age e não é pessoa qualificada, 
desmerecendo por completo sua pessoa numa inversão total de que 
tem dificuldades em viver com alguém assim, que lhe dá tanto trabalho. 
A violência doméstica, como o próprio nome retrata, faz referência ao 
ambiente familiar, à casa onde as pessoas convivem e por isso ficam 
mais expostas aos ataques, pois são reiterados e frequentes, ou seja, 
136136 
a expressão da violência doméstica é caracterizada pelas relações 
interpessoais dos sujeitos, o autor da violência e a vítima (mulher). Além 
disso, o fenômeno da violência doméstica, ou qualquer outra, corrompe 
pessoas, destrói relacionamentos, gera medo e horror e causa temor 
social, pois o limiar do potencial violento é desconhecido, não se sabe 
quando irá explodir novamente e com qual carga de destrutividade. 
É assim com a aquela explosão ocorrida numa discussão que se torna 
acalorada, em que a medida do razoável é perdida e as ações revelam 
o desproporcional. O ponto a refletir é se é possível a quem está 
envolvido no problema, sair de situações que lhe coloquem nesse ciclo 
destruidor. É na violência que o criminoso encontra justificativa para 
destilar sua forma distorcida de ver sua realidade numa conotação 
única e extremamente peculiar pelo seu viés desviante e fora de 
proporção. A prova disso é que as maiores partes dos crimes são 
por motivos torpes. Logo, é na forma violenta de se relacionar 
que o agressor encontra sentido para punir, pois é esta a sua 
marca: responsabilizar as pessoas pelo mal que existe dentro de 
si mesmo. Assim, ele entende que as pessoas próximas a ele são 
responsáveis de algum modo. Desse modo, se entenderem que os filhos 
atrapalham a vida, irá certamente tratá-los com essa visão, e tudo o que 
fizerem irá justificar o fato de permanecerem pensando desse modo. 
Naturalmente, a conduta violenta é uma resposta dissociada do 
comportamento saudável, por isso é necessária a compreensão do 
ciclo agressor e a condição da vítima como características desse dilema 
social. Somente assim mais pessoas poderão aprender a ler tais 
comportamentos quando eles ocorrerem e a aprender a sair dessas 
situações, bem como estabelecerem distância com racionalidade. Assim, 
a vítima saberá como se afastar de tais relacionamentos tóxicos, que a 
colocam na condição de subjugada e de perda do controle pessoal, pois o 
agressor não medirá esforços para mostrar-lhe quem está no comando. 
A Lei do Feminicídio foi sancionada em 9 de março de 2015, como 
resultado de um desdobramento da Comissão Parlamentar Mista de 
137137 137
Inquérito (CPMI) da Violência Contra a Mulher no Brasil, Projeto de 
Lei 292, do Senado Federal, de 2013, sendo, portanto, tipificado como 
crime, a forma qualificada de homicídio, conforme o Código Penal. 
Segundo os dados do Mapa da Violência de 2012, em sua atualização de 
dados específicos sobre homicídio de mulheres no Brasil, há registro de 
assassinato de 92.100 mulheres no país entre 1980 e 2010. Em 2010, 
esse registro foi de 4.465 mulheres assassinadas. Outro estudo mais 
recente, do Instituto de Pesquisas Aplicadas – IPEA, mostra 5,82 mortes a 
cada 100 mil mulheres entre 2009 e 2011. Reproduzindo o destaque do 
relatório, tem-se uma média de 5.664 mortes por ano, 472 a cada mês, 
15,52 a cada dia, uma a cada hora e meia. 
Segundo dados presentes no Mapa da Violência, um número estimado 
de 4,4 mulheres a cada 100 mil habitantes no ano de 2009 deu ao Brasil 
a quinta posição entre 84 países que tiveram seus índices de homicídios 
contra mulheres comparados pela Organização Mundial de Saúde 
(OMS). A maior parte dessas mulheres é jovem e tem baixa escolaridade. 
Segundo o estudo do IPEA, 61% delas são negras. Dados apresentados 
pelo Mapa da Violência mostram que em 71,8% dos registros de 
atendimento, a violência ocorreu na casa das mulheres. Trata-se de um 
padrão fundamental para o entendimento do feminicídio: mulheres 
de diferentes faixas etárias são agredidas no espaço doméstico, por 
pessoas que lhes são próximas – pais, tios, namorados, companheiros. 
E apesar da enorme importância da Lei Maria da Penha, promulgada em 
2006, as estatísticas apontam que houve pouco avanço na prevenção do 
homicídio de mulheres por homens que lhes são próximos e convivem 
com elas, o que asmantém sob o domínio do agressor e com mais 
obstáculos para sair da situação opressora.
A naturalização da violência doméstica direciona para que as atitudes do 
agressor sejam absorvidas pela mentalidade coletiva como algo do casal, 
a quem cabe, portanto, a resolução. Rebelar-se contra o agressor coloca 
em risco a permanência da união, do casamento. Na maioria dos casos, 
as próprias mulheres ficam receosas em fazer algo, pois sentem que 
138138 
têm mais a perder com a separação, seja pelos filhos ou pela questão 
financeira, seja pelo que construíram juntos, ou porque pretendem 
melhorar o relacionamento. Desse modo, a vítima passa a carregar 
sobre seus ombros a responsabilidade para fazer dar certo a união, 
flexibilizando seus limites para não contrariar o agressor. 
Esse comportamento das vítimas pode revelar que, geralmente, elas 
não estão prontas para colocar fim ou limite na relação. Elas estão 
achatadas, sem força para lutar, portanto agem de acordo com o que 
acreditam ser mais prudente: salvar a família e fazer com que o agressor 
compreenda que ele não precisa agir daquele modo. O segredo acaba 
fazendo parte da convivência familiar, e assim se mantém a relação 
de abuso, sofrimento e de exposição à violência, pois muitas outras 
coisas que fazem parte da vida familiar são avaliadas como boas, como 
a expectativa que as vítimas nutriram de que o casamento ofereceria 
a elas todo o respaldo necessário para viver. Com a decepção e a 
frustração vivenciadas, por vezes, compreendem que elas mesmas 
não estão agindo o suficiente para resolver, trazendo muitas vezes o 
problema para si, e tentando solucionar com insucessos reiterados, 
até que se percebam exaustas, com medo, ressentidas, magoadas, 
entristecidas e naturalizadas com aquele padrão de agressividade e 
violência. Com isso, se submetem ao domínio do agressor e chegam ao 
ponto desejado por ele, em que são totalmente aprisionadas e perdem a 
sua espontaneidade.
Portanto o esclarecimento pela ponderação de que, se em outras 
pessoas do seu convívio o agressor não bate, por exemplo, nos seus 
amigos e colegas de trabalho, por que haveria de admitir que batesse 
em sua esposa? Fazer as perguntas certas poderá levar a uma nova 
ótica em que as mulheres começam a perceber que podem aprender 
a sair dessa armadilha perigosa que é conviver num ambiente doentio. 
Pelas campanhas, cartazes e programas que abordam o tema, estamos 
fazendo com que as mulheres identifiquem em seus relacionamentos 
algo que seja nocivo e prejudicial a todos da família, pois, ao agredir a 
mulher, todos ali terão sequelas.
139139 139
Estudo realizado pelo IPEA em 2015 expôs a falta de Centros de 
Referência de Atendimento à Mulher3 (CRAM), que deveriam oferecer 
ajuda legal e psicossocial e proporcionar os cuidados adequados. Entre 
todas as 5.561 cidades brasileiras, apenas 191 desses centros são 
especializados e a maioria dos 214 centros estão localizados na região 
Sudeste. Esse estudo também mostrou que são escassos os abrigos que 
oferecem asilo a mulheres com ameaças mortíferas iminentes: apenas 
77 deles em todo o país, o que corresponde a 1,3% de todas as cidades.
Podemos concluir que a banalização da violência doméstica é 
proporcional à alta incidência de casos, apontando-nos, de forma 
dolorosa, o risco pelo qual muitas pessoas passam por conviverem em 
lares de famílias violentas, com possibilidades de se tornarem estatística 
criminal. Muitas situações são relevadas como atenuantes para a devida 
apuração de um conflito, bem como os limites que o judiciário tem 
para dar conta da questão. Por outro lado, tornando o assunto cada 
vez mais abordado, temos chances de instrumentalizar as pessoas a 
denunciarem o agressor e, com isso, equilibrarem o poder e a dignidade. 
Com a justa correção de certas condutas, é possível corrigir por meio da 
implicação judicial.
É preciso lembrar sempre que, como as vítimas correm risco, toda 
ação deve ser bem conduzida, por isso é fundamental a ajuda de 
profissionais. Para tanto, deve-se partir da quebra do segredo familiar, 
relatando os fatos nos locais de atendimento que estiverem disponíveis: 
centro de saúde, diretoria de escolas, delegacia de amparo à denúncia, 
além de contar a familiares de total confiança. O problema é que, 
quando muitas mulheres tomam a atitude de se afastar ou de se separar 
do companheiro violento, este se rebela e, geralmente, não aceita bem o 
desfecho, pois isso representa que a mulher, a vítima, está empoderada. 
3 CRAM: é um espaço destinado a prestar acolhimento e atendimento humanizado às mulheres em situação 
de violência, proporcionando atendimento psicológico e social e orientação, bem como encaminhamentos 
jurídicos necessários à superação da situação de violência, contribuindo para o fortalecimento da mulher por 
meio de uma atuação articulada com instituições governamentais e não governamentais que integram a Rede 
de Atendimento às Mulheres.
140140 
Em casos assim, os agressores ficam apequenados e com medo, sentem-
se acuados, mudam o comportamento de forma temporária, apenas 
para retomar o controle da situação. Quando o afastamento for total, 
temos a alta incidência de crimes praticados por ex-companheiros que 
não suportam o fato das suas presas ou vítimas estarem liberadas de 
seu domínio. A partir daí, então, decidem por algum plano que implica a 
morte da vítima, ou estruturam um acidente que marque a vingança.
A banalização da violência doméstica leva à invisibilidade do crime, 
pois quando os casos não implicam mortes, são causadores de danos 
que marcam boa parte da vida das vítimas. Como recuperar um jovem 
estuprado? E uma menina molestada por muitos anos pelo padrasto, 
sem poder contar para ninguém, por ter passado anos sendo ameaçada? 
Como recuperar pessoas traumatizadas? Certamente, muito trabalho 
focando a saúde mental e ajustes de outras ordens serão necessários. 
A violência cometida contra a mulher ainda é a prática violenta ou 
criminosa de maior incidência no mundo, sendo o percentual mais 
expressivo na quebra dos Direitos Humanos, conforme estatísticas. 
Isso também é um grande obstáculo para o alcance das metas inscritas 
na agenda 2030 para o desenvolvimento humano.
TEORIA EM PRÁTICA
Como um bom exercício, a fim de levantar as motivações 
que estão por trás das condutas violentas e criminosas, 
poderemos chegar a uma reflexão importante do que 
favorece a sua ocorrência. Convido-os a ler alguns artigos 
publicados pela mídia impressa, cujo objetivo é identificar 
a motivação torpe para a agressão. Com isso, a finalidade 
do exercício será refletirmos, mais a fundo, a respeito da 
observação dos aspectos presentes em tais condutas, ou 
seja, o contexto que deflagra o conflito.
141141 141
Após ler as matérias jornalísticas, encontre por qual razão 
houve a prática violenta ou o crime em cada um dos casos.
VIANA, G.; GUERRA, R. Jovem é preso após jogar ex-
namorada grávida contra ônibus: câmeras flagraram Lucas 
Florençano, de 25 anos, empurrando a ex, em Botafogo.  
O Globo Rio, Rio de Janeiro, 28 jul. 2017. Disponível em: 
. Acesso em: 19 jul. 2019
FRANCO, L. Violência contra a mulher: novos dados 
mostram que “não há lugar seguro no Brasil”. BBC News 
Brasil em São Paulo, São Paulo, 26 fev. 2019. Disponível 
em: . 
Acesso em: 19 jul. 2019.
PAIVA, R. Violência é a principal preocupação de crianças e 
adolescentes, diz pesquisa. Pesquisa foi feita em parceria 
entre a Rede Nossa SP e Ibope. Maioria dos jovens têm 
medo de assalto, roubo e violência. G1, Jornal Hoje, 
São Paulo, 23 jul. 2015. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019.
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1. Qual das alternativasgênero, expressões 
artísticas, ideológicas e formas de linguagens, que são os recursos 
utilizados para a luta e disputa. De impor sua posição como se 
demais expressões não pudessem existir. Como exemplo, o 
preconceito e a violência racial e de gênero que se utilizam das 
diferenças para justificar discrepâncias salariais, criminalização e 
até perseguições de grupos. Manifestações coletivas de oposição 
a determinados grupos, como se tivessem de ser erradicados, são 
exemplo dessa modalidade de violência.
Partiremos agora para apresentar o conceito de violência intrafamiliar, 
que nos dá outro enfoque da violência. Na sua dimensão mais 
íntima, que é o ambiente familiar, envolvendo convivência e condutas 
reiteradas, pois os seus agentes protagonistas da conduta violenta estão 
em convivência, expostos a essa permanência nada saudável. De onde 
se compreende as medidas protetivas que afastam os envolvidos para 
que cesse e ponha um fim à recorrência das condutas violentas.
1.3. Violência intrafamiliar 
Com tal cenário, a assistência às famílias tem se tornado um foco de 
pesquisas e interesse no campo da intervenção: de como podemos 
contribuir enquanto sociedade, de modo a oferecer contribuições 
por meio de estatísticas, análises, reflexões aprofundadas e ações 
que venham sanar, reduzir e criar ações interventivas de proteção, 
prevenção e esclarecimento.
Como sabemos, a violência é democrática, espalha-se por diversas 
populações em regiões distintas e públicos-alvo (que são as vítimas), 
tais como negros, crianças, jovens, mulheres e homens. Em 2016, 
1414 
pesquisas realizadas pela Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, 
das Instituições e da Democracia – DIEST do IPEA – Instituto de Pesquisa 
Econômica Aplicada e FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 
para apurar estatísticas dessa estranha relação entre agressor e vítima, 
apontam que a maioria dos casos de estupros contra crianças foram 
praticadas por pessoas conhecidas em 30,13% dos casos, como pai, 
padrasto, irmãos. Na fase adolescente e adulta, encontramos uma 
divisão em maior frequência cometido por desconhecidos, numa 
margem de 32,50% em adolescentes e 53,52% em adultos. No entanto, 
nesse ranking, encontramos registros, em segundo lugar, de 26,09% de 
casos de violência sexual contra adolescentes praticadas por familiares 
e/ou amigos, e 18,82% em vítimas na fase adulta. 
Acompanhe a estatística na tabela abaixo da incidência, no Brasil, do 
tipo de vínculo/grau de parentesco do agressor com a vítima de estupro, 
segundo faixa etária (2016).
Tabela 1 – Brasil: vínculo/grau de parentesco do agressor com a vítima 
de estupro, segundo faixa etária da vítima (2016)
Vínculo vítima 
e agressor
Criança 
(até 13 anos)
Adolescente 
(14 a 17 anos)
Adulto (18 
anos ou mais)
Desconhecido(a) 9,41% 32,50% 53,52%
Amigos/
conhecidos 30,13% 26,09% 18,82
Cônjuge 1,56% 3,39% 8,20%
Ex-cônjuge 0,27% 0,53% 5,44%
Outros 17,59% 7,58% 4,48%
Ex-namorado(a) 0,93% 2,14% 2,65%
Namorado(a) 7,78% 9,01% 1,66%
Padrasto 12,09% 7,38% 1,23%
Pai 12,03% 6,54% 1,30%
Irmão(ã) 3,26% 1,55% 0,72%
Pessoa com 
relação 
institucional
1,07% 0,94% 0,63%
1515 15
Filho(a) 0,26% 0,13% 0,28%
Policial/
agente da lei 0,08% 0,10% 0,32%
Cuidador(a) 0,99% 0,28% 0,18%
Patrão/chefe 0,09% 0,20% 0,40%
Mãe 2,48% 1,63% 0,18%
Fonte1: CERQUEIRA, 2018.
A proporção de recorrência nesses casos é grande, pois, na medida 
em que seus agressores são conhecidos, existe grande probabilidade 
de estarem sendo vítimas há mais tempo e de que o fato venha a 
ocorrer futuramente, pois está exposta ao mesmo ambiente. 
Em 54,9% dos casos, as vítimas, de acordo com o relatório, foram 
vítimas anteriormente mais de uma vez. Em contrapartida, com 
pessoas desconhecidas, essa margem cai para 13,9% da vítima não 
ter passado por tal violência antes. Quando a vítima e o autor se 
conhecem, 78,6% dos casos acontecem dentro da residência, e em 
um terço desses casos, há estímulo do álcool e a força física, ameaças 
foram a forma de coação da vítima.
Refletimos que as famílias estão nesse espectro de reprodução violenta. 
Sendo dilaceradas, abaladas e desviadas de sua função, que é proteger, 
cuidar, prover de amor, formar indivíduos para uma sociedade futura. 
E é na relação violenta intrafamiliar que tais deformações ocorrem, 
cuja nascente da violência parte do padrão relacional aprendido dessas 
interações humanas precárias. Passando de vítimas a um patamar de 
potenciais agressores de novos alvos, reproduzindo, assim, condutas 
a que foram submetidos, conforme estudos feitos em pesquisas 
realizadas para a produção do livro Quem grita perde a razão: a educação 
começa em casa e a violência também (RICOTTA, 2012).
Corroborando nesse sentido, existem dados que apontam que o local 
da ocorrência de casos de violência ocorre na residência, totalizando 
1 Segundo referência, as colunas não somam 100% pois, para um mesmo caso de estupro, pode haver mais de 
um agressor.
1616 
13.093 casos em 2018, de acordo com o “Atlas da Violência 2018”, 
com 78,6% dos casos ocorridos com pessoas conhecidas, ou seja, 
familiares (pai, mãe, padrasto, irmão, tia, tio, avós), em casos de estupro, 
espancamento, ameaças, ofensas, uso de produtos inflamáveis ou 
quentes, desqualificações, armas perfurantes e de fogo. Sendo que em 
5.038 casos foi suspeitado o consumo do álcool, em 29,8% com pessoas 
conhecidas da família.
Pensarmos na violência que ocorre nas interações familiares tem a ver 
com a primeira constatação delicada a se fazer: há muita agressividade 
e violência nas paredes protegidas do lar. Havendo o surgimento de 
um “padrão de relação”, em que os membros da família perdem o 
sentido verdadeiro que a relação pressupõe, passando a estabelecer 
o relacionamento em bases difíceis de seguir com naturalidade e 
fluidez no trato pessoal. Contrariando toda e qualquer forma saudável 
de convivência, muitos ambientes familiares são lugares difíceis e 
perigosos para viver. Contrariam os princípios fundamentais para 
uma vida harmoniosa e criam a desagregação que reverterá na perda 
qualitativa de muitos indivíduos na sua contribuição em sociedade. 
1.4 O ciclo da violência entre agressor e vítima 
Este assunto aborda a estranha relação entre agressor e vítima, 
que após estabelecerem uma conduta reiterada, dada a frequente 
exposição à agressão e violência, configura-se um ciclo vicioso, que 
tem um funcionamento peculiar para sua manutenção, ou seja, que 
não altere a posição de dominância. Precisamos compreender que a 
patologia das relações humanas é expressa na dinâmica relacional, no 
modo de ela se estabelecer. Quando se estabelece um ciclo repetitivo, 
reincidente, tal ação se propõe como forma de manutenção do poder 
– que é o aspecto de interesse maior do agressor: ser e permanecer o 
dominador da interação. Observem o esquema abaixo, um exemplo de 
um sistema que se retroalimenta pela conduta.
1717 17
Figura 2 – O Ciclo Agressor x Vítima
Fonte: adaptado de Ricotta (2012, p. 55). 
É importante esclarecer que práticas violentas são todas aquelas que 
desrespeitam o limite natural da interação entre uma pessoa e outra, 
na tentativa frequente do agressor forçar, por meio de diversas táticas, 
que a vítima faça aquilo que não é seu desejo. Tais como imposições, 
fazer pressão, abuso de autoridade, uso da força em alguns momentos, 
levantar a voz, suscitar o medo, expressão de desaprovação constante 
e palavras que desqualificam a pessoa – práticas que marcam o 
representante do poder – daquele que se coloca na posição de 
dominador, subjugando aquele que determina como sua vítima – o 
elemento dessa interação que tenderá a cumprir suas exigências e 
vontades – na posição de dominado.
Mas o que está envolvido no caso de uma pessoa que força uma criança 
de poucos meses de vida a comer com sua mão e que não derrube 
a comida? O que está em torno dessa cena? Que a faz gritar, fazer 
expressão feia para a criança, ser intolerante, falar palavras de teorexplica melhor o que é feminicídio? 
a. Homens que não gostam de mulheres.
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol
142142 
b. Quando mulheres são o alvo da agressão, exatamente 
por serem mulheres.
c. Dados baseados na sociedade apuram que mulheres 
são mais vítimas de violência.
d. A violência pode ser democrática, mas o fenômeno 
explica o conflito entre gêneros.
e. Quando as mulheres procuram se rebelar contra o 
autoritarismo masculino.
2. Qual legislação defende e criminaliza os casos contra 
a mulher? 
a. Lei do Feminicídio.
b. Lei do Abuso.
c. Lei Maria da Penha.
d. Lei do Estatuto da Família.
e. Direitos Humanos.
3. O que significa o termo “naturalização da violência 
doméstica”? 
a. Significa que a violência se tornou tão comum 
que todas as pessoas se acostumaram com a 
ocorrência dela.
b. Significa que a violência é democrática, ocorrendo em 
todas as camadas sociais e econômicas.
143143 143
c. Significa que a violência, como um problema social 
relevante, tornou-se natural e corriqueira, sendo 
necessária a intervenção do Estado para coibi-la. 
d. Significa que a violência é relativizada, dando margem 
a uma cultura permissiva a sua ocorrência, em que a 
vítima é culpabilizada. 
e. Significa que a violência aponta claramente quem 
ocupa a posição de agressor e de vítima, dando a cada 
um as razões de atuarem desse modo.
Referências bibliográficas
Atlas da violência 2019. / Organizadores: Instituto de Pesquisa Econômica 
Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Brasília: Rio de Janeiro: 
São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de 
Segurança Pública.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Secretaria de Documentação, Coordenadoria 
de Biblioteca. Lei Maria da Penha Bibliografia, Legislação e Jurisprudência 
Temáticas. Brasília (DF), 2010.
FRANCO, L. Violência contra a mulher: novos dados mostram que “não há lugar 
seguro no Brasil”. BBC News Brasil em São Paulo, São Paulo, 26 fev. 2019. 
Disponível em: . 
Acesso em: 19 jul. 2019.
MAYER, G. Feminicídio, vamos falar sobre: naturalização da violência. Publicado 
em: 18 set. 2018. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019.
PAIVA, R. Violência é a principal preocupação de crianças e adolescentes, diz 
pesquisa. Pesquisa foi feita em parceria entre a Rede Nossa SP e Ibope. Maioria dos 
jovens têm medo de assalto, roubo e violência. G1, São Paulo, 23 jul. 2015. Jornal 
Hoje. Disponível em: . Acesso em: 
19 jul. 2019.
REVISTA IHU ON-LINE. “Eu não vou te matar”: um retrato da violência 
doméstica. Publicado em: 8 jan. 2016. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019.
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503
http://www.bandnewsfm.com.br/2018/09/18/feminicidio-vamos-falar-sobre-naturalizacao-da-violencia/
http://www.bandnewsfm.com.br/2018/09/18/feminicidio-vamos-falar-sobre-naturalizacao-da-violencia/
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol
http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un
144144 
______. Número de mulheres vítimas de abuso sexual e violência doméstica 
crescem no Brasil. Publicado em: 28 nov. 2017. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019.
VIANA, G.; GUERRA, R. Jovem é preso após jogar ex-namorada grávida contra 
ônibus. Câmeras flagraram Lucas Florençano, de 25 anos, empurrando a ex, em 
Botafogo. O Globo Rio, Rio de Janeiro, 28 jul. 2017. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019.
WAISELFISZ, J.J. Mapa da Violência 2012: Os Novos Padrões das Violências Homicidas 
no Brasil.São Paulo: Instituto Sangari. 2011.
Gabarito
Questão 1 – Resposta B
Resolução: a alternativa B, tendo em vista que tais crimes ocorrem 
por serem mulheres.
Questão 2 – Resposta C
Resolução: é a Lei Maria da Penha, pois foi criada exatamente para 
amparar e qualificar como crime os casos de violência doméstica, 
além de punir o agressor. 
Questão 3 – Resposta D
Resolução: significa que a violência é relativizada, dando 
margem a uma cultura permissiva a sua ocorrência, 
em que a vítima é culpabilizada. 
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil
http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s
145145 145
Ressignificação do papel 
profissional na ruptura 
de ciclos de violência
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• 	Apresentar	o	conceito	de	ressignificação	e	sua	
relevância para o estudo. 
• Apontar a importância de um novo olhar sobre 
a violência, visando o tratamento das vítimas e 
dos	agressores	em	processo	de	recuperação.	
• 	Apontar	que	novos	modelos	mentais	são	
potenciais transformadores da sociedade.
146146 
1. Introdução
Nesta Leitura Fundamental, vamos apresentar elementos importantes 
que	traduzem	a	participação	dos	profissionais	como	facilitadores	do	
trabalho	com	pessoas	que	passam	por	situações	de	violência	e,	em	
especial destaque, com o propósito de interromper, criar consciência, 
educar para a vida, prevenir, orientar, tratar e transformar pessoas 
visando	cessar	o	ciclo	da	violência.	Isso	é	possível	por	meio	de	ações	
de	conscientização,	prevenção	e	respectiva	modificação	deconduta.	
Portanto,	é	de	vital	importância	a	cooperação	desses	agentes	que	
têm	contato	com	essa	realidade,	a	fim	de	respaldar	uma	atuação	
direcionada face a sua complexidade e carga destrutiva para com os 
elementos da sociedade. 
Lidar	com	a	violência	pressupõe	uma	jornada	árdua,	pois	se	refere	à	
necessidade	de	uma	mudança	de	conduta	que	somente	pode	ocorrer	
se	acompanhada	de	uma	sensibilização	para	os	efeitos	nocivos	que	ela	
em si repercute na vida das pessoas, das famílias e da sociedade. Para 
tanto,	é	fundamental	atribuir	um	novo	significado	a	tal	condição,	seja	em	
relação	às	pessoas	envolvidas	como	ao	contexto	violento.	Permanecer	
com	a	mesma	visão	da	realidade	faz	prevalecer	os	mesmos	códigos	
aplicados	em	vez	de	entender	a	necessidade	de	explorar	a	temática,	a	
fim	de	encontrar	novas	tentativas	que	contribuam	para	a	erradicação	
ou	diminuição.	Assim,	também	é	fundamental	uma	conduta	profissional	
que	contenha	um	novo	modelo	que	ressignifique	a	impotência	
vivenciada	por	tantas	vítimas	diante	das	situações	de	violência.
PARA SABER MAIS
Recomendamos	a	leitura	do	texto:	“É	necessário	
ressignificar	para	atingir	novos	resultados”	(POLAK,	2017),	
que trata da necessidade de alterarmos certos modelos 
mentais	a	fim	de	atingir	novos	resultados,	ou	seja,	fazer	
mudanças	de	comportamento	para	encontrar	possíveis	
soluções	de	problemas.
147147 147
2. A ressignificação
O	sentido	de	ressignificar	vem	de	uma	conceituação	formulada	pela	
neurolinguística e pela teoria sistêmica, sendo parte de um método 
para	fazer	com	que	pessoas	possam	atribuir	novos significados a	
acontecimentos	por	meio	da	mudança	de	visão	em	relação	a	algo	
ou alguém. 
A programação neurolinguística utiliza	várias técnicas para	fazer	com	
que	as	pessoas	percebam	o	mundo	de	uma	maneira	mais	agradável,	
proveitosa	e	eficiente.	Envolve	uma	atitude,	porém	acompanhada	de	
um	modelo	mental	–	expansão	de	conceitos	que	oportunizam	uma	nova	
cognição	para	uma	diferente	compreensão	da	relação	da	violência	com	
os diversos níveis da sociedade.
O	significado	de	todo	acontecimento	depende	do	filtro	pelo	qual	
o	vemos.	Quando	mudamos	o	filtro,	mudamos	o	significado	do	
acontecimento,	e	a	isso	se	chama	ressignificar,	ou	seja,	modificar	o	
filtro	pelo	qual	uma	pessoa	percebe	os	acontecimentos	a	fim	de	alterar	
o	significado	desse	acontecimento.	Quando	o	significado	se	modifica,	
as	respostas	e os	comportamentos da	pessoa	também	se	modificam,	
tornando-se um elemento-chave para o processo criativo inclusive.
Desse modo, podemos associar esse termo ao sentido de inovar sua 
visão	diante	de	um	fato,	contexto	ou	realidade.	Logo,	é	preciso	pensar	
algo,	uma	ideia	ou	solução	de	forma	diferente	de	antes,	podendo	
ser	vistos	de	forma	inovadora.	E	é	esse	olhar	inovador	que	contribui	
para	o	surgimento	de	soluções,	pois,	ao	dar	novos	significados	para	
os	acontecimentos,	a	percepção	se	modifica.	O	termo	é	comum	na	
psicologia, sendo este um recurso utilizado para fazer as pessoas 
compreenderem	que,	ao	modificarem	suas	percepções	com	relação	à	
própria	vida	e	a	fatos	que	estejam	sendo	vivenciados,	boa	parte	de	sua	
solução	será	melhor	encaminhada	se	houver	o	processo	da	criatividade	
e	de	espontaneidade	necessário	para	que	isso	ocorra.	E	eles	são	
fundamentais para a saúde mental das pessoas, como aponta Moreno 
(1987)	na	teoria	psicodramática.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Significado
https://pt.wikipedia.org/wiki/Programa%C3%A7%C3%A3o_neuroling%C3%BC%C3%ADstica
https://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9cnica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Comportamento
https://pt.wikipedia.org/wiki/Criatividade
148148 
Figura	10	–	Inovando	a	conduta	e	possibilitando	ressignificar	
velhos modelos
Fonte:	RapidEye/Istock.com.
2.1 Ressignificando a violência, é possível?
Sabemos	que	os	casos	que	envolvem	situação	de	violência	são	
marcados,	além	do	próprio	fato,	pela	ação	da	memória	que	enfatiza	
ainda mais a carga tensional existente em rememorar ou lembrar, 
por	meio	da	memória,	fatos	desagradáveis,	dolorosos	e	que	levam	ao	
sofrimento. Muito desse impacto repercute no que em psicologia se 
diz	trauma,	cujos	efeitos	vão	sendo	reproduzidos	mesmo	que	a	ação	
não	esteja	ocorrendo.	Vamos	explicar	melhor:	Maria,	de	32	anos,	sabe	
que	quando	seu	marido,	João,	33	anos,	chega	do	trabalho	bêbado,	
muita	coisa	ruim	pode	ocorrer	naquela	noite.	Ele	se	torna	agressivo,	
provoca-a,	interpreta	a	situação	de	forma	negativa	e	gera	mal-estar	
e medo. Muitas brigas surgiram desse contexto e Maria, por diversas 
vezes,	foi	agredida	com	objetos	pelo	marido,	que	a	surrou	várias	vezes	
e	a	forçou	a	ter	relações	sexuais	sem	que	houvesse	clima	e	ambiente	
ameno	para	isso.	O	convívio	não	se	tornou	mais	natural,	pois	o	trauma	
existe	e	se	faz	presente	toda	vez	que	João	chega	e	a	esposa	percebe	que	
ele	está	alcoolizado.	Sintomas	de	pânico,	tremor	das	mãos,	palpitação	
149149 149
de	frequência	cardíaca	acelerada,	dores	de	cabeça	são	indícios	da	ação	
traumática	que	atuam	mesmo	antes	de	novo	fato	violento	ocorrer,	pois	
o	indício	é	o	mesmo:	João,	alcoolizado,	gera	dissabores	se	essa	for	a	
compreensão	que	Maria	registrou.	Toda	vez	que	ele	chegar	em	casa	
bêbado,	a	reação	será	a	mesma,	tendo	briga	ou	não.	A	ação	traumática	
persiste	enquanto	padrão	mental,	pois	isso	se	dá	pela	ação	da	memória.	
O	padrão	mental,	registrado	por	Maria,	compreende	a	situação	de	uma	
determinada forma que tem sentido para ela de acordo com a vivência 
pessoal	passada.	E,	ainda	que	João	chegue	em	casa	alcoolizado	e	não	
seja	agressivo	com	ela,	e	vá	dormir,	por	exemplo,	os	sintomas	vão	agir,	
sejam	eles	físicos	ou	psíquicos.	
Ao	se	tratar	de	uma	rememoração,	tomam-se	como	perspectiva	as	
ideias	de	Vygotsky	(1998),	que	aponta	que	tais	lembranças	podem	
nos	ajudar	a	compreender	tal	posição	–	a	do	que	lembra	–,	o	que	nos	
coloca diante de novas aprendizagens, uma vez que o contato que 
estabelecemos	com	a	realidade	não	se	dá	de	forma	passiva,	mas	oferece	
ao pesquisador possibilidades de reestruturar suas experiências pela 
interação	com	o	seu	ambiente	social.
Nesse	contexto,	em	que	as	situações	lembradas	podem	também	ter	
um viés pedagógico de aprendizado, extraído da experiência, ainda que 
dolorosa,	podem	resultar	em	ações	de	prevenção,	ocasionadas	pelo	
medo,	pelo	temor	ou	receio	de	que	tal	situação	agressiva	ou	violenta	
volte a ocorrer.
Quando	Maria	percebe	João	alcoolizado,	para	ela,	é	o	início	de	uma	série	
de	sintomas	que	produz,	dando	vazão	ao	medo	e	ao	horror,	pois	sabe	
que	terá	que	passar	por	situação	difícil.	Por	outro	lado,	como	instinto	
de	sobrevivência,	desenvolverá	outras	atitudes	cujo	intuito	é	diminuir	
a	tensão	e	a	preservação	de	sua	vida.	O	fato	violento	tem	intensidade	
e	age	na	memória	da	vítima,	mesmo	que	esse	fato	violento	não	esteja	
ocorrendo	e	atuando	no	indivíduo	pela	ação	da	memória.	
150150 
A	perspectiva	defendida	por	Selligman-Silva	(2003)	aponta	a	
afetividade com que a memória se relaciona com o passado, 
intervindo	e	determinando	seus	caminhos,	ou	seja,	na	pluralidade	
do	social	é	que	se	dá	constantemente	um	embate	entre	diferentes	
leituras	do	passado,	entre	diferentes	formas	de	enquadrá-lo.	 
É	a	ressignificação	da	memória.
Para	Chauí	(1987),	filósofa	brasileira,	ao	discutir	o	papel	da	memória,	
enuncia-nos	que	o	ato	de	lembrar	não	é	reviver,	mas	refazer.	 
Ao	lembrar,	refletimos	a	partir	do	vivido,	revivendo,	refazendo,	
recriando,	construindo	no	tempo	atual	e	não	simplesmente	trazendo	
o	vivido,	tentando	dar	um	novo	significado	à	experiência	e	se	
tornando diferente com isso. 
Na	ressignificação	do	contexto	da	violência,	o	discurso	também	
se	modifica	e	podemos	identificá-lo	na	área	da	comunicação,	com	
campanhas	informativas	de	esclarecimento	à	sociedade,	como	alerta	e	
como ensinamento de que a violência é crime, degradante e desumano. 
O	Conselho	Nacional	de	Justiça	vem	promovendo	diversas	campanhas	
pela internet, pela mídia televisiva, por meio de cartazes informativos 
distribuídos	em	órgãos	públicos,	pela	realização	de	palestras	e	
treinamentos	aosprofissionais	para	que	possam	sensibilizar	cidadãos	
frente	ao	tema.	Tal	ação	é,	sem	dúvida,	fundamental	para	uma	ação	
efetiva	da	mudança	de	olhar	a	respeito	da	conscientização,	gravidade	e	
intervenção	da	violência.
O	ato	de	ressignificar	também	envolve	os	cidadãos,	que	também	são	
agentes	da	perpetuação	de	condutas	que	ferem	princípios	basilares	da	
constituição,	por	atos	discriminatórios	e	reforço	de	modelos	violentos	
e	agressivos	assistidos	em	novelas,	filmes,	internet,	jogos	ou	games,	
noticiários	que	a	todo	tempo	tendem	a	informar	tragédias,	crimes	
e outras mazelas nas quais o teor expresso é de que pessoas fazem 
outras pessoas sofrerem.
151151 151
PARA SABER MAIS
Recomendamos	a	leitura	do	seguinte	artigo:	“A	construção	
da	significação	da	experiência	do	abuso	sexual	infantil	
através	da	narrativa:	uma	perspectiva	interacional”	(SELL;	
OSTERMANN,	2015).	O	texto	aborda	a	construção	da	
significação	da	experiência	do	abuso	sexual	infantil	 
por meio da narrativa: uma perspectiva interacional. 
Aponta-nos	uma	experiência	prática	envolvendo	a	 
narrativa	de	crianças	e	jovens	que	passaram	por	situações	
de	violência,	destacando	as	repercussões	entre	iguais.
A	partir	de	um	processo	de	ressignificação	cultural,	por	exemplo,	
é	possível	atribuir	novas	funções	e	interpretações	a	obras	de	arte,	
músicas,	filmes,	etc.,	fazendo	refletir	sobre	as	suas	repercussões,	tais	
como	a	discriminação,	os	preconceitos	e	os	contextos	de	interação	que	
perpetuam	e	produzem	violência.	Assim,	o	objetivo	é	direcionar	pessoas	
a uma nova consciência.
A	dissimetria	de	gênero	como	uma	representação	social	vigente	
sinaliza	para	a	necessidade	de	criarmos	espaços	de	reflexão	para	
que	ocorram	esse	momento	propício	de	ressignificação	dos	gêneros	
homem	e	mulher.	Nas	escolas,	também	é	possível	criar	espaços	
importantes para romper com esse ciclo. Neles deve-se estimular 
a	equanimidade	entre	os	alunos,	desde	crianças,	passando	pela	
adolescência	e	pela	fase	do	adulto	jovem,	buscando	também	
desconstruir	a	ideia	da	agressão	física.	
É,	portanto,	fundamental	uma	educação	que	estimule	a	resolução	
pacífica	de	conflitos,	por	meio	da	metodologia	da	conciliação	e	da	
mediação	de	conflitos,	os	quais	podem	ser	utilizados	tanto	judicialmente	
como	extrajudicialmente.	Também	é	preciso	estimular	o	reforço	do	
152152 
diálogo	e	a	busca	pela	compreensão	mútua	como	elemento	de	ponto	
de	partida	para	mediar	situações	difíceis,	estimulando	a	visão	de	que	
o	revide	e	a	vingança	não	são	a	melhor	tática	de	defesa,	mas	sim	uma	
forma	de	perpetuação	de	violência	que	contribui	para	a	sua	escalada	
que é o fenômeno pelo qual se analisa o aceleramento das condutas 
que tendem a responder cada vez com maior intensidade para aquele 
nível	de	agressão	recebido.	
Digamos	que	Marcos,	18	anos,	levou	um	chute,	no	futebol,	de	
Frederico	de	17 anos.	Se	o	entendimento	de	Marcos	for	o	de	que	
se	trata	de	uma	agressão	proposital,	ele	se	sentirá	impelido	a	tirar	
satisfações	com	o	colega	de	futebol	e	mandar	outro	chute	ainda	mais	
forte.	Com	esse	impacto,	Frederico,	que	por	sua	vez	agiu	na	situação	
de	forma	natural,	com	os	riscos	que	o	esporte	possui,	não	sendo	
proposital,	não	compreenderá	o	contexto	daquele	impacto	e,	sentindo-
se	agredido,	tenderá	a	buscar	Marcos	em	campo	para	desferir-lhe	
um	murro	ainda	mais	forte	que	o	chute	–	onde	tudo	começou.	Se	o	
mesmo fato for compreendido e vivido de outra forma, isso é, Marcos 
recebe o tal chute, mas entende que foi uma cortada pela bola que 
acarretou	o	tal	chute	e	não	uma	ação	isolada	de	agressão,	assim,	não	
tenderá	a	seguir	Frederico	para	dar-lhe	outro	chute	maior.	A	escalada	
da	agressão	e	violência	tem	essa	característica,	de	gerar	um	novo	ato,	
como	revide	da	ação	primeira,	e	seguindo-se	para	novos	episódios	de	
violência sucessivamente, aquecendo o fato inicial com ingredientes 
fantasiosos,	de	proporção	extremamente	elevadas	do	que	seria	
necessário	para	lidar	com	a	situação.	Por	isso	que	a	educação	é	o	
ingrediente primordial para lidar com os temperamentos pessoais e 
para	possibilitar	um	clima	de	conciliação	de	interesses,	necessidades	e	
a	proporção	da	situação.
No	tocante	ao	preparo	dos	profissionais	em	âmbitos	social,	judicial,	
policial,	educacional	e	de	saúde,	faz-se	necessário	que	estes	também	
sejam	mais	preparados	para	compreender	esse	fenômeno	que	se 
153153 153
alastra.	Isso	é	possível	ao	serem	criadas	estratégias	para	reflexão	acerca	
das	práticas,	além	de	prever	tais	situações	com	uma	expectativa	prévia	
do	que	será	aceito	e	do	que	será	repudiado,	como	ações	que	contenham	
violência expressa. 
Empresas	modernas	atuam,	por	exemplo,	apresentando	seu	código	
de	ética,	com	condutas	que	não	são	admitidas	dentro	da	organização,	
como, por exemplo, o assédio sexual e moral. Quando estabelecem 
esse	pacto	com	o	funcionário,	este	se	torna	ciente	de	que	determinadas	
atitudes	serão	reprováveis	e	repercutirá	na	quebra	do	contrato.
PARA SABER MAIS
Recomendamos	a	leitura	do	artigo:	“Naturalização,	
reciprocidade	e	marcas	da	violência	conjugal:	percepções	 
de	homens	processados	criminalmente”	(PAIXAO,	2018).	 
O	artigo	científico	aborda	o	sentido	da	ressignificação	como	
um	passo	adiante	para	os	profissionais	seguirem	em	busca	
de	uma	ação	promotora	de	uma	mudança	social.
2.2 Os profissionais que têm contato com a violência
Os	profissionais	de	saúde	são	os	primeiros	a	tomar	contato	com	os	
casos	de	violência,	em	função	de	serem	procurados	para	tratar	sintomas	
que	estão	associados	ao	fato	gerador,	bem	como	as	adjacências,	não	
menos importantes, que envolvem um contexto de maior gravidade. 
Muitas	queixas,	tais	como	dor	de	cabeça,	disenteria,	dor	de	estômago,	
febre,	traumas,	úlceras,	manchas	na	pele,	taquicardia,	ferimentos	estão	
associadas	à	exposição	à	violência.
Mediante	a	identificação	do	caso	de	violência	intrafamiliar	numa	
consulta médica, psicológica ou num atendimento de assistência social, 
154154 
passaremos	para	outro	patamar	que	envolverá	uma	série	de	condutas	
que	são	previstas	em	códigos	de	conduta	ética	profissional.
O	que	fazer	diante	dessa	realidade?	Naturalmente,	diante	de	um	cenário	
de	impotência,	pois	as	agressões	e	os	traumas	da	violência	já	existem	
e	certamente	que,	nesses	casos,	temos	que	administrar	algo	que	já	
se	apresenta	como	um	problema.	É	que	nem	sempre	a	vítima	está	
totalmente	convencida	de	confiar	aos	equipamentos	públicos	a	solução	
para	o	seu	caso.	Isso	dito,	tendo	em	vista	a	vergonha	e	a	negação	
acompanhadas	nesses	casos,	há	uma	série	de	justificativas	em	torno	
do	agressor.	Uma	delas	sustenta	que	ele	somente	fica	violento	quando	
bebe;	outra	comum	é	que	está	nervoso,	pois	ficou	desempregado;	ou	
ainda, que o companheiro é cismado, mas é bom pai, que o parceiro 
oferece	condições	de	vida	à	vítima,	por	isso	ela	precisa	fazer	tudo	o	que	
ele	pede,	apesar	de	não	estar	mais	suportando	ser	tão	humilhada.
O	estado	de	confusão	é	característico.	A	dubiedade	de	sentimentos	
e	emoções	acompanham	esses	casos	e	até	mesmo	por	isso	é	difícil	
detectar	tal	circunstância,	pois,	além	do	segredo,	há	muita	confusão	
de sentimentos nos relatos. É preciso ter havido realmente um 
esgotamento	por	parte	das	vítimas	para	que	elas	peçam	socorro.	 
E	isso	pode	ser	feito	de	inúmeras	formas,	sem	que	necessariamente	
digam:	salve-me,	pois	não	aguento	mais!
O	contexto	da	violência	é	marcado	pela	escalada	da	tonalidade	de	
brutalidade	envolvida	nas	relações.	E	somente	quando	algo	maior	
ocorre	é	que	a	vítima	se	dá	conta	de	que	vive	sob	um	contexto	
totalmente aversivo.
Muitas	crianças	são	vítimas	de	adultos	agressores	que	a	aprisionam	pela	
ameaça	de	que,	se	contarem	para	alguém,	vão	matá-las,	ou	matar	a	mãe	
e/ou	algum	parente.	Há	também	crianças	que	vivem	no	medo	de	contar	
o	que	passam	por	estarem	totalmente	dominadas	pelo	subjugo	cruel	e	
mordaz de um agressor danoso, o qual elabora estratégias para manter 
155155 155
o segredo familiar. Muitas esposas sabem que seus companheiros 
molestam	suas	filhas	e	se	calam	por	medo.	Fingem	não	ver	e	nemouvir,	
pois	temem	por	suas	vidas	e	a	de	seus	filhos.	Desse	modo,	passam	a	
viver	sob	o	domínio	do	medo	até	que	criem	uma	força	excepcional	que	
as	libertem	e	a	suas	filhas,	vítimas	de	padrastos	ou	de	pais	que	têm	
conduta	equivocada	e	atuam	de	forma	a	estabelecer	posse	da	criança	
e do adolescente sem sequer desenvolver qualquer afetividade nessa 
relação.	Utilizam-nas	para	uso	próprio,	sem	considerar	o	trauma	que	
venham	a	sofrer,	pois	não	há	sensibilidade	de	sua	parte.
A	conduta	de	um	profissional	diante	desse	cenário	violento,	quando	
identificado,	é	fazer	a	intervenção	da	situação,	fazendo-a	cessar.	Essa	é	
a	primeira	condição	e,	para	isso,	precisará	lançar	mão	de	expedientes	
como	casas	de	abrigo,	orientar	para	ir	à	casa	de	algum	familiar,	
apresentar denúncia, procurar a delegacia e o ministério público.
Nesse	contexto,	que	tipo	de	intervenção	deve	ser	feita?
• Mapear os riscos que a vítima corre em permanecer no ambiente.
• Estabelecer	a	confiança	com	a	vítima.	
• Atuar	na	confidencialidade,	protegendo	as	informações	para	que	
não	sejam	mal	utilizadas.
• Informar	ao	Conselho	Tutelar,	quando	necessário,	para	
providências em casos que envolvam menores e adolescentes, 
em	situações	de	suspeita,	de	averiguação	e	de	comprovação.
• Buscar	formas	de	garantir	a	segurança	da	criança	e	do	
adolescente	quando	não	for	o	caso	de	abandono,	resgatar	figuras	
de	autoridade	que	venham	a	estabelecer	vínculo	de	proteção.
• Denunciar	a	órgãos	competentes	não	exclui	o	sigilo	da	
informação.
• Cuidar	para	que	a	intervenção	não	provoque	mais	traumas	que	
a própria violência vivida, por isso exige-se habilidade para atuar 
nesses contextos de violência.
156156 
• Manter	como	fundamental	a	qualificação	dos	profissionais	e	
a	capacitação	constante,	bem	como	o	incentivo	à	formação	
de	grupos	de	estudos	multidisciplinares	e	de	novas	ações	que	
promovam	o	esclarecimento	dos	cidadãos	na	detecção	dos	sinais	
que	não	devem	ser	toleráveis	na	convivência	com	as	pessoas.	
Figura	11	–	Juntos,	unidos	em	prol	da	saúde
Fonte:	Jacob	Wackerhausen/Istock.com.
Temos	a	união	de	uma	equipe	multidisciplinar,	símbolo	de	parceria	
em que diversos temas podem ser apresentados e dialogados dentro 
da	perspectiva	profissional	de	cada	área.	Isso,	além	de	enriquecer	o	
trabalho	de	todos,	poderá	suscitar	novas	ações	relativas	ao	trabalho,	
como, por exemplo: criar um grupo de estudos para interessados em 
temas	distintos	ou	discutir	casos,	a	fim	de	se	verificar	a	melhor	conduta	
a ser adotada.
2.3 Ações de conscientização para a transformação social
Tendo	contato	com	essa	realidade,	que	vai	para	além	da	sua	função	
profissional	em	saúde,	é	fundamental	garantir	isenção,	acolhimento	
para	questões	humanas	e	qualidade	do	atendimento,	potencializando	
157157 157
a	conduta	no	atendimento	e	treinando-os	para	a	destinação	correta	
daquele caso. Com isso, é possível orientar e direcionar as vítimas para 
serviços	de	atendimentos	social,	apoio	psicológico,	assistência	social,	
apoio especializado para dependentes químicos e familiares. Da mesma 
forma,	dar	suporte	a	soluções	de	casos	de	abusos	contra	crianças	e	
adolescentes, casos de abuso e violência contra adultos e, com todo 
tipo	de	mal-estar	presente	da	sociedade.	Contudo,	há	situações	em	 
que	o	sentimento	de	impotência	dos	profissionais	é	frequente,	
ocasionando-lhes	frustração,	estados	depressivos	decorrentes	do	
contato	com	tais	casos,	irritação,	estresse.	Tal	contexto	nos	mostra	
profissionais	acometidos	de	sintomas	comuns	em	qualquer	pessoa,	 
e	tal	condição,	por	si	só,	já	é	suficiente	para	receber	atenção.	
Karen	Michel	Esber,	pesquisadora	e	consultora	em	atenção	à	violência,	
de	Goiânia	(GO),	e	outros	profissionais	desenvolveram	o	Programa	
de	Atendimento	ao	Autor	de	Violência	Sexual,	como	parte	do	projeto	
Invertendo	a	Rota,	realizado	pela	Universidade	Católica	de	Goiás	entre	
2004	e	2007.	Segundo	ela,	o	acompanhamento	terapêutico	pode	
diminuir	os	casos	de	reincidência	entre	os	agressores	que	já	cumpriram	
sua	punição	legal.	“Esses	sujeitos	precisam	de	atendimento.	Não	adianta	
só	punir,	só	encarcerar,	mantê-los	atrás	das	grades”,	diz	ela.
Em	diálogo	recente	que	tive	com	a	delegada	da	Polícia	Civil	da	Delegacia	
dos	Direitos	da	Mulher	(DDM)	da	zona	oeste	da	cidade	de	São	Paulo,	
dra.	Monica	Gamboa,	falamos	sobre	um	projeto	envolvendo	alunos	do	
último	ano	da	graduação	em	psicologia.	O	intuito	do	projeto	é	fazer	
esses	alunos	atuarem	em	grupos	junto	a	agressores	e	abusadores	de	
mulheres.	A	atuação	se	dará	por	meio	de	dinâmicas	de	grupos,	a	fim	
de	propor	sensibilização	e	consciência	das	consequências	que	esses	
agressores geram na vida de tais mulheres e nas deles propriamente, 
a	fim	de	que	possam	observar	os	prejuízos	causados.	O	projeto	
também	atua	na	participação	profissional	nos	seminários	e	palestras	
aos	profissionais	da	delegacia,	aos	estudantes	e	aos	agressores	numa	
atuação	socioeducativa.	Essa	iniciativa,	certamente,	resultará	em	dados	
que publicaremos mais adiante.
158158 
O	atendimento	ao	abusador	focaliza	a	ressignificação	da	violência:	 
faz	com	que	o	indivíduo	compreenda	suas	próprias	motivações,	
reconheça	a	gravidade	de	seus	atos	e	saiba	lidar	com	seus	impulsos.	
“Elaboramos	uma	série	de	questionamentos,	tais	como:	será	que	esses	
meninos	gostavam	de	ser	abusados?	Como	você	se	sentiria	se	estivesse	
no	lugar	deles?	Não	é	estranho	que	um	menino	tenha	feito	sexo	com	o	
tio?	Levá-los	a	refletir	de	uma	forma	totalmente	diferente	sobre	o	fato	é	
colocá-los	em	contato	com	algo	que	jamais	tiveram	oportunidade	de	ver.
A	Secretaria	de	Direitos	Humanos	da	Presidência	da	República	(SDH)	e	o	
Conselho	Nacional	dos	Direitos	da	Criança	e	do	Adolescente	(Conanda),	
priorizando o fortalecimento do Sistema de Garantia dos Direitos da 
Criança	e	do	Adolescente	(SGD)	e	adotando	as	diretrizes	estabelecidas	
no	Plano	Nacional	de	Educação	em	Direitos	Humanos	–	PNEDH	(2003),	
no	Programa	Nacional	de	Direitos	Humanos	–	PNDH-3	(2003),	e	no	Plano	
Decenal	dos	Direitos	Humanos	da	Criança	e	do	Adolescente	(2011),	
definiram	um	conjunto	de	metas	para	promover	a	formação	continuada	
em	Direitos	Humanos	de	todos	os	atores	estratégicos	desse	sistema,	
entre	eles	os	conselheiros	dos	Direitos	da	Criança	e	do	Adolescente	e	
conselheiros tutelares.
As	Escolas	de	Conselhos	apresentam-se	com	relevantes	estratégias	para	
consolidação	de	núcleos	de	referência	para	a	formação	continuada	de	
conselheiros dos direitos e conselheiros tutelares, e proporcionam a 
tais	atores	as	condições	necessárias	para	superarem,	progressivamente,	
a	carência	de	preparo	para	o	exercício	de	suas	funções,	de	forma	a	
assegurar	uma	atuação	qualificada	dos	atores	na	promoção	e	defesa	
dos	direitos	de	crianças	e	adolescentes.
ASSIMILE
Ressignificando	a	violência:	ações	que	podem	ser	criadas	
com	base	na	realidade	dos	casos	são	fundamentais	na	
rede	de	apoio	a	vítimas	e	agressores.	Aqui	exemplificamos	
159159 159
com	o	projeto	Nenhuma	Mulher	Deve	Sofrer	Sozinha,	uma	
plataforma que conecta mulheres que sofrem violência a 
uma	rede	de	terapeutas	e	advogadas	dispostas	a	ajudá-las	
de	forma	voluntária.	Pesquise	pela	página	do	projeto	na	
internet: .
Temos	também	outro	projeto	de	sucesso	no	estado	de	
São	Paulo,	o	SOS	Violência	–	aplicativo	no	qual	mulheres,	
homens,	adolescentes	ou	crianças	podem	pedir	socorro	se	
estiverem	em	situação	de	risco	à	sua	integridade.	Conectado	
com a Polícia Militar, esse aplicativo tende a permitir uma 
prática	ágil,	tecnológica	e	acessível	a	todos,	mesmo	àqueles	
que	não	estão	cadastrados	e	precisam	pedir	socorro	por	
situação	de	exposição	à	violência.	Basta	um	clique.	
Confira	a	reportagem:	“Governo	lança	aplicativo	
‘SOS	Mulher’	para	vítimas	de	violência	em	SP”	
(NIEDERAUER,	2019).
3. Considerações finais 
Concluímos	ser	fundamental	e	necessário	que	os	profissionais	de	saúde	
possam ter respaldo para lidar com essa modalidade de trabalho, que 
envolve um contexto de sofrimento e dor – tais como treinamentos, 
capacitações,	supervisãomultidisciplinar,	grupos	de	estudos,	grupos	de	
terapia	para	lidar	com	as	tensões	e	pressões	do	próprio	trabalho.	
Defendo	“a	importância	de	cuidar	de	quem	cuida”	–	ação	tão	necessária	
que	visa	cumprir	esse	objetivo	exposto	na	citação.	Afinal,	é	desse	
raciocínio	que	parte	a	preocupação	com	a	saúde	desses	profissionais	
que	lidam,	nesse	contexto	de	doenças,	com	tamanha	disponibilidade	
interna	para	tal.	Isso	sem	considerar	que,	além	disso,	esses	profissionais	
acabam envolvidos no contexto social que os pacientes trazem, 
http://mapadoacolhimento.org
160160 
apresentando-lhes realidades esperadas e inesperadas quando se 
tratam	dos	casos	de	violência	e	de	condições	humanas	precárias.
Um	trabalho	voltado	para	a	saúde	desses	profissionais	também	atende	
ao	requisito	de	extravasar	suas	emoções	diante	da	exposição	a	que	
estão	sujeitos,	à	medida	que	são	informados	da	dura	realidade	que	seus	
pacientes	enfrentam.	As	demandas	sociais	surgem	em	meio	às	queixas	
de saúde e de cuidados físicos. Nelas podemos observar uma dupla 
função	implícita	na	realidade	desses	profissionais,	que	passam	a	ocupar	
uma	função	de	confiança	com	tais	vítimas	da	violência	e	das	precárias	
condições	sociais	e	econômicas	em	que	vivem.	Isso	ocorre	quando	as	
vítimas	lhes	contam	os	casos	nos	quais	estão	inseridos,	concernentes	à	
vida	privada	delas,	e	que	dificilmente	contariam	outras	pessoas.	Muitas	
vítimas	guardam	segredo	da	sua	condição	de	maus-tratos,	negligência	e	
abandono em que vivem, um comportamento característico desse tipo 
de	problemática	da	vida	privada	e	social.	
TEORIA EM PRÁTICA 
A	seguir,	temos	um	artigo	com	um	exemplo	prático	de	uma	
atuação	que	visa	ressignificar	os	conteúdos	internos	dos	
profissionais	que	têm	contato	com	casos	de	violência:	
BASTOS,	L.	C.	Diante	do	sofrimento	do	outro	–	narrativas	de	
profissionais	de	saúde	em	reuniões	de	trabalho.	Unisinos. 
Calidoscópio.	v.	6,	n.	2,	p.	76-85,	mai./ago.	2008.
Veremos,	neste	artigo	cientifico,	a	análise	da	
pesquisadora Liliana Cabral Bastos, resultado de uma 
experiência grupal de equipe multidisciplinar feita com a 
narrativa	de	profissionais.	
Pesquise pelo artigo na internet e, após sua leitura, registre 
num	papel	o	que	colheu	de	informação	relevante	que	
161161 161
aponte	os	benefícios	e	resultados	dessa	prática.	Observe	
também o que foi conquistado com a oportunidade da 
reunião	de	profissionais	multidisciplinares	diante	do	
sofrimento	e	acerca	das	reflexões	de	sua	atuação	e	do	
contato com a violência humana.
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1.	Qual o entendimento mais apropriado para o conceito 
de	ressignificação,	de	acordo	com	as	alternativas	abaixo?	
a. Trazer	novos	elementos	que	podem	ser	relevantes.
b. Compor a história de vida dos envolvidos com fatos 
marcantes.
c. Dar	um	novo	significado	para	obtenção	de	um	novo	
resultado.
d. Transformar	a	realidade	por	meio	de	ações	
preventivas.
e. Criar	métodos	de	ação	que	tragam	mais	
oportunidades de clareamento.
2.	Com	qual	objetivo	os	profissionais	do	Conselho	
Tutelar	participam	de	cursos	para	alinhar	sua	visão,	
direcionando-a	à	problemática	da	violência?	
a. Ampliar	os	conhecimentos	específicos	e	técnicos.
162162 
b. Assegurar	uma	atuação	qualificada	na	defesa	dos	
direitos	de	crianças	e	adolescentes.
c. Propor	conhecimento	relativo	à	função	e	aos	
prontuários	a	serem	preenchidos.
d. Desenvolver habilidades para agir nos processos 
junto	ao	judiciário.
e. Estabelecer	novos	parâmetros	de	atuação	dessa	
classe	profissional.
3.	A	rememoração	mencionada	por	Vygotsky	(1998)	tem	
como perspectiva evidenciar o que se lembra, propondo 
novas	aprendizagens.	Qual(is)	possibilidade(s)	essa	
proposta	oferece	ao	pesquisador/profissional?	
a. Aquela	em	que	o	ato	de	lembrar	não	significa	reviver,	
mas	refazer,	tornar	possível	uma	nova	concepção.
b. Viabiliza	a	lembrança	como	um	reviver	da	ação	 
vivida anteriormente.
c. Oferece	aprendizado	e	recursos	para	serem	 
adotados	por	outros	cidadãos.
d. Reestruturar	suas	experiências	pela	interação	 
com o seu ambiente social.
e. Aquela segundo a qual a memória se torna 
um	padrão	cognitivo	mental	registrado.
163163 163
Referências bibliográficas 
BASTOS,	L.	C.	Diante	do	sofrimento	do	outro	–	narrativas	de	profissionais	de	saúde	
em	reuniões	de	trabalho.	Unisinos. Calidoscópio,	v.	6,	n.	2,	p.	76-85,	mai./ago.	
2008.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	30	jul.	2019.
BRASIL.	Secretaria	Especial	dos	Direitos	Humanos	da	Presidência	da	República.	
Programa	Nacional	de	Direitos	Humanos,	2010.
CHAUÍ,	M.	Os	trabalhos	da	memória.	In:	BOSI,	A.	Memória e sociedade:	lembranças	
de	velhos.	2.	ed.	São	Paulo:	T.	A.	Queiroz/EDUSP,	1987.
FISCHER,	R.	M.;	LOPES,	M.	R.	M.	S.	Pesquisa conhecendo a realidade. Brasília: 
CONANDA,	Secretaria	Especial	de	Direitos	Humanos,	2007.	Acesso	em:	29	jun.	2019.
MINISTÉRIO	PÚBLICO	DA	UNIÃO.	Boletim Científico,	Brasília:	ESMPU,	ano	15,	n.	47,	
jan./jun.,	2016.	
MORENO,	J.	L.	Psicodrama.	São	Paulo:	Cultrix,	1987.
NIEDERAUER,	A.	P.	Governo	lança	aplicativo	“SOS	Mulher”	para	vítimas	de	violência	
em SP. O Estado de São Paulo.	Publicado	em:	22	mar.	2019.	Disponível	em:	
.	Acesso	em:	30	jul.	2019.
PAIXÃO,	G.	P.	N.	et	al.	Naturalização,	reciprocidade	e	marcas	da	violência	conjugal:	
percepções	de	homens	processados	criminalmente. Rev. Bras. Enferm., Brasília, 
v.	71, n.	1, p.	178-184,	fev.	2018.	Disponível	em:	. 
Acesso	em:	30	jul.	2019.
POLAK,	M.	C.	et.al.	É	necessário	ressignificar	para	atingir	novos	resultados.	Gazeta 
do Povo.	Publicado	em:	14	abr.	2017.	Disponível	em:	.	Acesso	em:	30	jul.	2019.
OLIVEIRA,	I.	M.	de;	MEDEIROS,	A.	A.	A.;	MOREIRA,	M.	R.	A.	(Orgs.)	Direitos da criança 
e do adolescente:	defesa,	controle	democrático,	políticas	de	atendimento	e	
formação	de	conselheiros	em	debate.	Natal:	EDUFRN,	2014.
SELL,	M.;	OSTERMANN,	A.	C.	A	construção	da	significação	da	experiência	do	 
abuso sexual infantil através da narrativa: uma perspectiva interacional. DELTA, 
São	Paulo,	v.	31,	n.	2,	p.	307-332,	dez.	2015.	Disponível	em:	. 
Acesso	em:	30	jul.	2019.	
SELLIGMANN-SILVA.	História, memória, literatura: o testemunho na era das 
catástrofes.	Campinas:	Editora	Unicamp,	2003.
VYGOTSKY,	L.	S.	Formação social da mente.	São	Paulo:	Ed.	Martins	Fontes,	1998.
http://revistas.unisinos.br/index.php/calidoscopio/article/view/5249
http://revistas.unisinos.br/index.php/calidoscopio/article/view/5249
https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,governo-lanca-aplicativo-sos-mulher-para-vitimas-de-violencia-em-sp,70002764920
https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,governo-lanca-aplicativo-sos-mulher-para-vitimas-de-violencia-em-sp,70002764920
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672018000100178&lng=en&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672018000100178&lng=en&nrm=iso
https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/giro-sustentavel/e-necessario-ressignificar-para-atingir-novos
https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/giro-sustentavel/e-necessario-ressignificar-para-atingir-novos
https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/giro-sustentavel/e-necessario-ressignificar-para-atingir-novos
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502015000200307&lng=en&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502015000200307&lng=en&nrm=iso
164164 
Gabarito 
Questão 1 – Resposta C
Resolução:	ressignificar	implica	inovar,	compreender	de	outra	
forma	para	que	a	ação	seja	outra	e	os	resultados	possam	ser	
diferentes	da	visão	anterior.
Questão 2 – RespostaB
Resolução:	sem	dúvida,	a	ação	da	escola	de	conselheiros	
tutelares	está	associada	à	oferta	de	recursos	para	uma	prática	
e	uma	atuação	mais	qualificada.
Questão 3 – Resposta D
Resolução:	Vygostky	(1998)	pondera	que	a	rememoração	
reestrutura	suas	experiências	pela	interação	com	o	seu	
ambiente social.
165165 165
	Apresentação da disciplina 
	Conceito e tipos de violência 
	Objetivos
	1. Contextualização 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito
	Fatores de risco e proteção 
	Objetivos
	1. Introdução 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito
	Influências ambientais nos determinantes da violência 
	Objetivos
	1. Introdução 
	2. Conclusão 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito
	Contextualização da violência 
	Objetivos
	1. Introdução 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito
	Reprodução de violência como meio de comunicação 
	Objetivos
	1. A força da interação humana 
	2. Considerações finais 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito
	Naturalização da violência doméstica 
	Objetivos
	1. Perda de sensibilidade e alto índice de casos 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito
	Ressignificação do papel profissional na ruptura de ciclos de violência 
	Objetivos
	1. Introdução 
	2. A ressignificação 
	3. Considerações finais 
	Teoria em prática 
	Verificação de leitura 
	Referências bibliográficas 
	Gabarito1818 
pesado e com expressão forte e alta intensidade, dar beliscões, tapas 
e até atos como empurrar a colher para dentro da boca da criança 
pequena a fim de forçá-la a comer e acabar logo com aquele momento 
importante da nutrição. 
O componente estrutural da violência está nas posições entre 
dominador e dominado, cujo centro de tensão está na obtenção 
do poder por meio de força, pressão, imposição. Isso significa que 
não estamos falando de situações naturais em que exista a relação 
de hierarquia, em que o poder é distribuído de forma equilibrada 
sem abusos ou imposições destes. Na hierarquia, as relações são 
fundamentais em papéis e funções distintas. 
Nos casos de ambientes familiares violentos, cujo teor de violência 
psicológica é alto, a maneira pela qual a vítima vivencia pode ser 
percebida por meio de práticas, tais como:
• Controles financeiros.
• Críticas constantes, reprovação constante e de forma reiterada, 
gerando na percepção da vítima a ideia de que nunca consegue 
acertar e agradar.
• Excesso de lógica e racionalidade, que distancia muito da 
afetividade e de uma compreensão equilibrada dos fatos, gera 
muita impaciência por parte do agressor.
• Jogos mentais, inquéritos constantes, dúvidas lançadas, 
argumentos fantasiosos que colocam a vítima em situação de 
armadilha; chantagens emocionais.
• Jogos sexuais que são feitos para punir, abusar ou denegrir 
nesse quesito a vítima.
• A rejeição afetiva, depreciação de sua imagem, criando cenário 
para perda de autoconfiança.
1919 19
• Ambiguidade constante na comunicação e duplas mensagens, 
que desconfiam da idoneidade da vítima, fazendo-a estar 
sempre na berlinda de acusações, somada com a expressão 
de amor e raiva, ódio simultâneos, gerando a incerteza afetiva 
e, consequentemente, a reação na vítima de que precisa se 
esforçar mais para conquistar e ter o afeto daquele que detém 
poder sobre sua pessoa.
A expressão da violência é todo ato que se propõe a subjugar o 
outro, colocando-o numa posição de inferioridade e refém de uma 
autoridade criada para esse fim. De modo algum o outro na relação 
poderá ter “igualdade” de condições; e para manter a linha divisora 
de que a vítima escolhida não passará dos limites, ela enfrentará 
em uma escala das etapas que vão marcando seu adestramento 
nessa modalidade de vínculo patológico. Isso ocorre de forma lenta, 
tendo alguns episódios de maior intensidade, como uma expressão 
de força, um susto, um ciúme desproporcional e desmedido. Uma 
situação criada por meio de uma fantasia que existe somente na 
mente do agressor. 
Quando as pessoas travam esse tipo de vínculo, configura-se uma 
relação abusiva, em que cada um tem uma função. Naturalmente, 
ninguém é convidado a manter um relacionamento desse modo, o 
fato é que a circunstância não é clara devido à ambiguidade existente 
de forma frequente, o que confunde muito suas vítimas, pois elas 
vão perdendo a capacidade de discriminar o que é bom e ruim no 
relacionamento, tendo em vista que, na maioria das vezes, o agressor 
até atende a outras funções. Geralmente, o alvo é escolhido – aquele 
que se pretende tornar refém do seu comando. E isso se confunde com 
afeto, cuidados, proteção. Pois pessoas que têm um padrão saudável 
de vínculo podem se envolver em relações que culminem em estresse, 
inseguranças, deturpações, fantasias que, inicialmente, vão sendo 
toleradas, pois não são identificadas.
2020 
A violência intrafamiliar é um fenômeno advindo da interação humana, 
do padrão de dominação de um ser sobre o outro. Para estar a serviço 
de seu intento de manter alguém sob seu domínio. 
A violência intrafamiliar se expressa de maneiras distintas:
• Física: que é expressa de forma aparente, pois o ataque, 
necessariamente, é físico para marcar quem tem a posse, ou 
seja, domínio sobre o outro. Gera consequências emocionais e 
psicológicas, expandem-se seus efeitos e causam traumas, medos, 
fobias, ansiedade, sequelas emocionais, como baixa autoestima, 
perda de autoconfiança e outros sintomas psíquicos. Essa 
modalidade ataca o poder do outro, tornando-o refém. 
• Psicológica: geradora de instabilidade, insegurança no 
convívio, cuja característica é estabelecer um padrão de relação 
dominador x dominado. Com danos nada aparentes, pois são 
subjetivos. O oposto da violência física que marca visivelmente, 
a violência psicológica marca em outra esfera, na emocional, 
criando feridas emocionais que, por vezes, permanecem abertas 
por longo período da vida.
Uma diferença característica entre essas modalidades é que a violência 
psicológica persiste na sua ação violenta por longo período, até haver 
uma eclosão – um episódio que revela o seu ápice e a conscientização 
por parte da vítima, enquanto que na violência física, a ação é marcada 
por fatos contundentes. 
É importante ressaltar que a violência, além dos dois modelos 
apontados, pode se dar contra si mesmo, como nos casos de suicídio; 
de pessoas que se cortam como forma de punição pelo sentimento de 
culpa que carregam, por não se sentirem adequadas ou aceitas e até 
mesmo por se considerarem imperfeitas; indivíduos que batem as suas 
cabeças e esmurram mesas e portas, sem contar a depressão severa, 
o manter rancor, cultivar o ódio, que é um modo de gerar prejuízo 
2121 21
contra a sua pessoa, sem buscar ajuda e recursos para sair dessa 
situação. E a violência destinada ao outro, que é quando o agente é 
externo, destinado a alguém externo, no entanto, a origem da violência 
é motivada pelos seus conteúdos internos. O que o agressor faz parecer 
é que a razão da sua agressividade e violência é sempre em função 
do outro, quando, na verdade, ela existe em razão de seus conteúdos 
internos, de sua percepção equivocada e distorcida. A dinâmica psíquica 
existente nessa modalidade é que o agressor entende que o mundo, 
as pessoas são agressoras dele e, portanto, reagem. Jamais admitem a 
responsabilidade, somente após gerar muito estrago e quando estão 
ameaçados de perder a vítima, o que os faz recuar. Pois precisam de 
alguém nessa posição para o domínio. 
1.5. A conduta característica do agressor e da vítima 
Algumas das características do agressor, conforme pesquisas realizadas 
para produção do livro Quem grita perde a razão: a educação começa em 
casa e a violência também (RICOTTA, 2012, p. 18-19) são:
• Ocupa posição de hierarquia, ou seja, tem uma posição de 
referência de poder.
• Predisposição a lidar com sentimentos e emoções com 
exorbitância e alta carga de tensão.
• Conduta estúpida, ignorante, irascível e desmedida em relação 
aos fatos.
• Teor de fantasia sobre os fatos, como se estivesse se precavendo 
de ser enganado, atuando de forma ostensiva e na posição 
de ataque.
• Controlador tanto fisicamente quanto psicologicamente.
• Possessivo.
• Abusivo, com atuação desrespeitosa com relação ao outro.
2222 
• Poderá ter a influência de uso de álcool e drogas.
• Visões preconcebidas e rígidas, sem base de realidade sobre 
as pessoas e situações, pois são pautadas em sua própria 
precariedade emocional.
• Tende a competir e desestabilizar o outro que, sendo atraente, 
com caráter admirável e mobilizador de empatia e afeto por 
parte das pessoas, passa a desqualificar e a utilizar a prática da 
difamação para macular a figura da sua vítima.
• Invejoso das qualidades alheias, portanto, tende a sempre 
denegrir quem pareça potente aos seus olhos, rico de qualidades, 
geralmente seus alvos.
• Tem conteúdos psicológicos mal resolvidos, a grande maioria 
foi maltratada, abusada, violada de algum modo. E acaba 
reproduzindo esse padrão aprendido em relações anteriores 
e, por consequência, adotando nas novas interações que for 
estabelecer. São pessoas que não se atualizam no tocante aos 
sentimentos, no sentido de encontrar novas maneiras de diluir 
o impacto das situações sofridas por uma nova atuação. Agem 
muitas vezes por reflexo da agressão vivida de algum modo, que 
foi interpretada desse modo. 
Algumas das condutase reações que são vividas por parte das 
vítimas são:
• Medo, terror, espanto.
• Decepção; frustração.
• Vergonha de passar por si e por isso se fecham, se calam 
e demoram para deflagrar a situação penosa a que estão 
submetidos. Ressentem-se e acabam criando uma imagem 
de que, se estão tendo esse tratamento, é em vista de algo 
reprovável que carregam.
2323 23
• Perda de autoconfiança, autoestima.
• Insegurança e desestabilidade na vida prática e emocional.
• Passam a desenvolver um autoconceito negativo acerca de 
si mesmos, tolhendo suas expressões espontâneas por elas 
desagradarem ao seu agressor.
• Tentar corresponder de algum modo às expectativas do agressor 
por não o ver desse modo e sim alguém do seu mundo afetivo, de 
figuras de importância.
• Relações ambíguas que revelam simultaneamente o negativo 
e positivo, gerando muitas dúvidas e confusão quanto a uma 
conclusão e um entendimento do cenário em que vivem.
• Desenvolvem a conduta passiva como forma de defesa, a fim de 
não provocar reações no agressor, passando a agir com temor, 
com resignação, receio e medo de alguma explosão emocional em 
que figurará como culpada.
• São reforçadas no erro, na falha ou como quem gerou o conflito. 
Passam por situações em que a realidade é invertida, sendo 
acusadas de terem provocado a situação de explosão do ato 
violento, seja físico quanto psicológico.
Vimos, portanto, que o agressor usa um rol de condutas que reforçam a 
sua figura de poder extremo na interação, permanecendo, desse modo, 
como forma de impor o seu poder. A contestação da sua imposição é 
alimento para reforçar a criação de novos mecanismos para tornar a 
vítima refém das suas armadilhas de apego. Simula um distanciamento, 
desinteresse, entende de forma deturpada algo que a vítima tenha feito 
para que esta sinta-se na condição de desculpar-se ou justificar suas 
atitudes. Vamos encontrar aí o estabelecimento do ciclo vicioso que se 
estabelece entre as partes: agressor-vítima.
Com o temor, com a conduta de tentar esclarecer o mal-entendido, o 
agressor sente-se valorado, fazendo com que a sua presa se coloque 
2424 
refém da armadilha criada. E quanto mais se utiliza de expedientes 
nesse estilo, mais vai construindo uma teia perigosa, capaz de fazer da 
sua vítima alguém que esteja sempre tentando arrumar as coisas, até 
que passa a ser passiva diante das situações para não gerar problemas e 
não vir a desagradar.
Começa sem perceber a comportar-se de acordo com o limite 
estabelecido pelo outro, que tem o poder sobre sua pessoa. Confunde-
se entre os mecanismos de proteção que a interação venha a trazer 
como elemento de elo de união.
ASSIMILE
É fundamental a compreensão de que as expressões 
violentas, sejam físicas ou psicológicas, são danosas do 
mesmo modo. Na nossa sociedade, que dá enfoque 
ao que é concreto, a materialidade do ato violento 
é palpável, de clara e notória identificação. E estão 
tipificados como conduta criminosa e se tornam caso de 
penalidades judiciais. Na violência psicológica, o nível de 
tensão é alto e promotor de escalada de condutas mais 
agressivas e passionais, podendo levar a fundamentação 
dos homicídios. De situações que são direcionadas a 
tamanho extravasamento da raiva embutida com o ato de 
aniquilamento e destruição do outro. Temos como exemplo 
disso o alto índice de casos identificados pela polícia que se 
tornaram estatística, apontando que, na grande maioria, as 
mulheres são mortas por seus ex e/ou atuais maridos. Os 
agressores não admitem libertar a sua presa, preocupando-
se de que esta possa estar em posição que não a de antes, 
ou seja, de vítima. O empoderamento feminino acaba sendo 
um elemento de provocação para aqueles com alto grau de 
doença afetiva e má resolução pessoal.
2525 25
1.6 A ruptura do círculo vicioso de violência
Havendo a conscientização por parte da vítima, acompanhada de uma 
noção da realidade ao qual está inserida, ela passa, então, da posição 
de passividade a não mais tolerar tal postura agressiva em relação à 
sua pessoa. Um misto de “não aguento mais” com “eu não mereço ser 
tratada dessa forma, pois não fiz nada de errado” encontra o basta 
para tais acontecimentos, tendo em vista estar submetida pela alta 
intensidade de abusos recorrentes.
Acaba, então, questionando o modo da convivência e expressa repulsa 
por tratamento. Na maioria das vezes, a vítima entra em exaustão, 
registra o medo e passa a falar com as pessoas o que está vivendo, e 
com a quebra do segredo e conluio com o agressor, a vítima passa a 
ter contato com opiniões que a levam a compreender que sua vida está 
dentro de um modelo doentio. E ainda poderá haver tempo de sair 
a tempo desse contexto complexo padrão. É quando entende que o 
que vivencia é anormal, ruim e destrutivo. Consegue registrar boletim 
de ocorrência na delegacia, procura auxílio de familiares, psicólogos e 
amigos. Percebe que esse padrão é distante de afeto e de amor. 
E passa a qualificá-lo como algo negativo para sua vida, pessoas 
próximas e de seus familiares. Propõe-se a sair dessa situação, mas, 
por uma questão de elementos de afetos associados ao agressor, 
delimita-se na desestabilidade do sistema integrado entre as funções 
e posições de cada um, agressor e vítima, automaticamente o agressor 
se modifica. O agressor, geralmente, se arrepende, fazendo com que a 
vítima acredite que irá mudar e melhorar. O fato é que precisa manter o 
seu depositário de violência e destruição. No entanto, em muitos casos, 
ambos retomam convivência em outras bases. Conhecendo-se agora, a 
vítima descobriu que tem força caso pretenda sair dessa dinâmica cruel 
que é o ciclo de violência instaurado. 
Se entendermos que a experiência, ainda que dolorosa, como são os 
casos de violência, é possível que gerem um significativo aprendizado: 
2626 
a de perceber-se como alguém livre da culpabilidade dos fatos imposta 
geralmente pelo agressor e da consciência de que tal prática destinada à 
sua pessoa, não é adequada. É possível aprender a deixar de ser a parte 
complementar de relações e interações que envolvem trato violento. De 
igual modo, é possível não compor esse ciclo que se retroalimenta pelos 
papéis e pelas funções que cada um assume nesse tipo de interação. 
Nesse viés de pensamento, o aprendizado é deixar de ser a “presa”, 
o “alvo”, “o depositário” de maus tratos do agressor. Esse talvez seja 
um elemento de maior desafio no contexto social. Como nos prevenir 
e como identificar situações que sinalizam a violência na atualidade? 
Ou que aparentemente são nocivas? Compreendendo, antes de tudo, 
que isso não é uma conduta ética, valorosa e respeitosa. Que não há 
merecimento em se estabelecer relações precárias e conviver com 
pessoas nessa referência de um padrão violento, que se torna pior 
quando as expressões da violência ocorrem no íntimo da família, entre 
parentes, vizinhos, colegas de trabalho e na sociedade como um todo. 
No que tange ao aspecto pedagógico, a tomada de consciência é 
primordial e auxilia a identificar o nível de violência a que se está 
exposto. Direcionar o olhar com propósito, sabendo que é possível 
transformar a realidade quando se percebe que está sendo vítima ou 
agente da violência.
Se entendermos que somos capazes de aprender novas condutas 
por encontrar nelas soluções que nos oferecem bem-estar e resgate 
de elementos fundamentais para se viver bem e compreender que 
haja modos de tratá-la, é possível que esse comportamento seja 
transformado. Seja por tratamento psicoterápico, seja pelo afastamento 
de relações com padrão violento, seja pela aplicação de limites claros.
1.7. Conclusão 
A violência como um todo, direta, estrutural, cultural, física e psicológica, 
está relacionada às suas dinâmicas – ao modo como funciona e atua, ao 
2727 27
que estimula e promove a ocorrência de condutas agressivas e violentas 
quando poderiam ser de outra natureza. Deve-se refletir em que bases 
ela ocorre? Seria pela falta de percepçãoda sociedade em identificar 
as expressões da violência e os aspectos agressores como aspectos 
que favorecem o aumento da violência? De dar atenção prioritária a 
questões como essas, a fim de dar visibilidade a essa grande parte da 
população sofrida? 
A repetição de comportamento violento, a reincidência é um 
componente importante da expressão violenta, pois está calcada em 
repetir modelos absorvidos e aprendidos, reforçados por seus agentes. 
Quando se percebe, o agressor é tão vítima quanto a própria vítima 
na estrutura da violência, os direcionamentos são diferenciados e com 
possibilidades de avanços ao considerar a existência de fatores que 
determinaram o indivíduo a atuar desenvolvendo essa postura violenta. 
Certamente isso não quer dizer que se está relativizando a problemática 
e/ou diminuindo o seu teor, e sim chamar a atenção dos profissionais a 
fim de sensibilizá-los a modificar o seu olhar que costumeiramente é de 
reprovação ao autor da violência praticada, como alguém que precisa de 
ajuda e tratamento, visto que sofre de influências e condutas negativas, 
sendo nocivo tanto quanto os aspectos que o influenciaram a gerar 
essa deformação de conduta. O fato é que as influências são diversas, 
tais como ignorância, desemprego, alcoolismo, drogas, discriminação 
econômica e social, falta de oportunidades no acesso à educação e, 
consequentemente, no crescimento intelectual. Com isso, torna-se 
possível considerar o sofrimento das vítimas e de seus agressores, 
para que possam ser criadas linhas preventivas e de participação social 
que promovam políticas públicas e sociais inclusivas e que venham a 
diminuir a incidência de um grande nascedouro de novos agressores.
Certamente que o tratamento do agressor, devendo ser acompanhado 
por psicoterapia, é uma medida importante, como exigência de 
acompanhamento jurídico das medidas protetivas em que o agressor 
precisa comprovar que está se tratando até que haja condições de 
restaurar a convivência intrafamiliar sem riscos à vítima. 
2828 
A prevenção é ponto relevante do trato violento e agressivo e temos 
atualmente, com uso tecnológico, aprimorado essa capacidade, como 
o da criação de aplicativos, para citar um exemplo, que podem ser 
utilizados para pedir socorro e informar que estão em perigo; outros 
estão sendo criados para atender e esclarecer vítimas e agressores 
sobre onde buscar auxílio e de que modalidade, se for briga física entre 
cônjuges, se for tortura psicológica, espancamento, estupro e outras. 
Investir no resgate da formação dos valores pessoais por projetos 
educativos, que abordem a ética nas relações e criem consciência para 
sua inibição e desenvolver novas soluções para os conflitos. Alguns dos 
pontos, destacamos nesta conscientização:
• O reconhecimento do outro – fundamental para sensibilizar-se 
diante das situações –, o “colocar-se” no lugar do outro.
• Conscientização de uma convivência humanizada.
• Diminuição da rigidez e de exigências excessivas.
• Valorização da qualidade das interações e percepção dos 
resultados.
• Qualidade de vida como parâmetro para uma vida saudável.
• Cuidado com a natureza, deixando de ser um elemento agressor.
• Respeito às diferenças.
• Aceitação da diversidade, diminuição do preconceito.
• Cultura da pacificação e da não violência.
Conclui-se, nesta leitura, que direcionamentos profissionais 
comprometidos e com intervenções necessárias no complexo 
fenômeno da violência poderá colaborar para a construção de um 
ser ético – oportunizando ao agressor elementos suficientes para 
2929 29
amadurecer a percepção de que não é necessário se expressar 
de forma violenta e agressiva com finalidades de ferir, denegrir, 
desqualificar, discriminar o outro em razão das diferenças existentes, 
seja em que plano for. E deixar de ser reprodutor e mantenedor de 
mecanismos de violência direta, indireta, familiar e social.
TEORIA EM PRÁTICA
Reflita e opine sobre a condução desta situação: você, na 
sua atividade profissional, recebe uma mulher que entrou 
com pedido de divórcio de seu marido, no entanto, sem 
expor a situação no documento do pedido de divórcio, 
o qual ela deseja que ele apenas assine e se mude da 
residência, tendo três crianças pequenas para criar. 
No entanto, em situação privada, essa mulher relata que 
está com medo, que na noite anterior ao aviso de pedido 
de divórcio de sua parte, seu marido a enforcou na frente 
das crianças e lhe disse que a mataria caso ela falasse 
novamente em separação e que nunca sairia da casa. 
E que ele faria uma parede dividindo a casa, pois ele não 
ficará longe dos filhos. Verbaliza também que foi vítima de 
inúmeras agressões, chora e alega que não aguenta mais e 
que pensa em fugir. No entanto, tem seu trabalho, de onde 
tira o ganho financeiro e que jamais deixaria seus filhos; 
por isso, procura uma forma de resolver a situação com 
o pedido de divórcio judicial. Desse ponto de vista, como 
você conduziria a situação após ouvir os relatos de abusos 
vividos por essa mulher? Como conduziria esse caso, 
incluindo o marido que é o agressor nesse diálogo, a fim de 
contribuir para uma solução viável?
3030 
VERIFICAÇÃO DE LEITURA
1. Assinale a alternativa que melhor define violência 
psicológica:
a. Toda ação direta contra alguém ou grupo que se 
discrimina de algum modo por raça, cor e gênero.
b. Ação violenta indireta, é a que atua em todos os níveis 
de expressão física, emocional, social e cultural.
c. Toda ação cujo autor da conduta violenta é conhecido, 
do seu universo doméstico, de forma ocasional.
d. Toda ação que atua na interação entre pessoas 
conhecidas envolvendo práticas de desqualificação 
moral, controles, ofensas, negligência de forma 
frequente.
e. Toda ação que denuncia a vitimização de uma pessoa 
em razão do poder do outro por meio de ataques 
físicos e psicológicos em qualquer ambiente.
2. Quais os tipos de expressão violenta?
a. Física e psicológica.
b. Violência direta, violência estrutural, violência cultural.
c. Social, coletiva, intrafamiliar.
d. Estrutural e intrafamiliar.
e. Passiva, ativa, relacional, coletiva.
3131 31
3. O ciclo vicioso da relação entre agressor-vítima 
entre pessoas conhecidas se dá por meio de quais 
mecanismos?
a. Relação abusiva por parte de pessoa de autoridade, 
que de forma frequente abusa de seu poder, com 
objetivo de domínio.
b. Exercer domínio sobre a vítima, indiferente ao fato de 
ela aceitar ou não em qualquer situação ou contexto 
social, familiar, profissional. 
c. Atos coercitivos de ameaça, medo, pressão sobre 
alguém em contexto e ambiente público.
d. Padrão transacional herdado de situações anteriores 
vividas pelo agressor, o qual procura reproduzir ao 
escalar sua vítima.
e. Atos de imposição, ameaças, força física, uso de armas 
com propósito de submeter a vítima ao seu comando, 
contra crianças e adolescentes que dificilmente 
podem se defender.
Referências bibliográficas 
CERQUEIRA, D. et al. Atlas da Violência 2018. Rio de Janeiro: IPEA, 2018. 
Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_
institucional/180604_atlas_da_violencia_2018.pdf. Acesso em: 27 abr. 2019.
GALTUNG, J. Violence, peace and peace research. Journal Of Peace Research, 
Sage Publications,Ltd., v. 6, n. 3, p.167-191, 1969. 
RICOTTA, L. Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência 
também. 4. ed. São Paulo: Ágora, 2012.
3232 
Gabarito 
Questão 1 – Resposta D
Resolução: a violência psicológica tem suas marcas na interação 
submetida ao poder do outro, na perda da autoconfiança e 
autoestima em vista de maus tratos, ofensas, desqualificações 
constantes e reiteradas que criam bloqueios psicológicos em 
suas vítimas.
Questão 2 – Resposta B
Resolução: são definidas por violência direta, violência estrutural e 
violência cultural (GALTUNG, 1969).
Questão 3 – Resposta A
Resolução: relação abusiva por parte de pessoa de autoridade, que 
de forma frequente abusa de seu poder, com objetivode domínio. 
Geralmente, tais pessoas de autoridade são de onde se espera 
ter proteção e, contrariando essa confiança, passam a se envolver 
numa relação de abusos crescentes. 
3333 33
Fatores de risco e proteção
Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta
Objetivos
• 	Promover	uma	reflexão	sobre	o	crescimento	
da	violência	no	âmbito	estrutural	e	
intrafamiliar.
• 	Apresentar	as	condutas	de	proteção	
existentes	que	visam	a	sua	identificação,	 
bem	como	seu	tratamento	da	violência.
• Apresentar possíveis condutas e modelos 
de	prevenção	que	podem	ser	adotados	por	
profissionais	da	área	da	saúde.
3434 
1. Introdução
Olá,	alunos!	Nesta	aula,	abordaremos	os	fatores	de	risco	e	proteção	
em	casos	relacionados	à	violência,	quando	identificados	casos	de	
violência	por	profissionais	da	área	da	saúde.	Considera-se	que	o	
fenômeno	da	violência	é	uma	questão	de	saúde	pública	e	caracteriza-
se	como	multifatorial.	Portanto,	é	preciso	esclarecer	quais	são	
esses	fatores	para	que	sejam	requisitadas	aos	profissionais	ações	
pertinentes,	as	quais	permitem:	
a. Identificar	os	casos	de	violência	e	os	indícios	suspeitos.
b.	 Direcionar	adequadamente	os	sujeitos	para	tratamento	e/ou	
realizar	busca	ativa	de	familiares	responsáveis	dos	agressores	
(quando	reclusos	pelo	crime	da	violência).
c. Propor	meios	de	prevenções,	de	acordo	com	o	conhecimento	e	a	
experiência	do	profissional.
d. Proporcionar	capacitações	frequentes,	a	fim	de	obter	um	
espaço	de	troca	de	informações,	bem	como	explorar	o	tema	
em	ambiente	protegido.
Veremos	aqui	os	aspectos	vulneráveis	aos	quais	a	sociedade	está	
submetida,	que	são	alvos	da	entrada	de	desproteção	ao	ser	humano,	
bem	como	pontos	que	poderemos	refletir	a	fim	de	que	possamos	criar	
medidas	preventivas.	Essa	tarefa	persiste,	pois	não	temos	respostas	
prontas	e	sim	um	caminho	longo	e	constante	para	mudança	social,	
das	suas	prioridades	e	da	instalação	de	medidas	que	venham	garantir	
melhores	condições	àqueles	que	são	mais	afetados.
3535 35
1.1 Fatores de risco
Figura	1	–	Impacto	nos	sistemas
Fonte:	elaborada	pelo	autor.
No	esquema	apresentado	acima,	temos	a	configuração	da	interação	
entre macrossistema e microssistema. Sendo a família representante 
desse	universo	micro	no	qual	está	inserida,	e	a	sociedade	num	contexto	
macro,	representada	pelas	repercussões	advindas	dos	segmentos	
econômico,	social,	dos	cuidados	da	saúde	física,	saúde	psíquica	ou	
mental.	A	família,	enquanto	um	organismo	vivo,	dinâmico,	interage	
com	seus	membros	tanto	internamente	como	externamente,	ainda	
que	não	se	dê	conta	disso.	Influenciando	o	macrossistema,	bem	como	
recebendo	dessas	estruturas	registros	que	vão	configurando	e	definindo	
uma	significação	desses	fatores	que	lhe	são	necessários	promover:	
segurança,	proteção,	subsistência.
Ao	ponderarmos	sobre	os	aspectos	de	proteção	e	de	riscos	a	que	a	
população	está	exposta,	avançamos	no	entendimento	de	que	os	casos	
de	violência	têm	impacto	social,	ainda	que	sejam	compreendidos	
3636 
na	categoria	intrafamiliar.	Eles	são	detonadores	para	o	aumento	
de	casos	extrafamiliar	–	que	ocorrem	com	pessoas	desconhecidas	
–,	pois	direcionam	a	funções	que	envolvam	a	responsabilidade	e	o	
compromisso	da	saúde	pública,	social,	coletiva	e	de	segurança	pública,	
bem	como	do	judiciário.
Desse	modo,	consideremos	a	seguinte	reflexão:	que	sociedade	é	a	
nossa	que	expõe	seus	membros	e	parcelas	expressivas	da	população	
a	fatores	agressores	graves,	com	alta	incidência	de	violência	de	formas	
variadas em todas as camadas sociais? Os riscos envolvem esses 
aspectos,	quão	bem	equacionada	é	a	sociedade	em	que	vivemos,	a	
ponto	de	produzir	sintomas	desastrosos	como	esses,	que	denunciam	
uma	deformação	humana	frente	aos	temas	humanos?	Isso	resulta	
em	práticas	agressivas	e	violentas	nas	quais	seres	humanos	geram	
sofrimento	a	outros	humanos,	seja	em	âmbito	intrafamiliar	–	que	
envolvem	relacionamento	íntimo	entre	pessoas	que	convivem,	quer	
seja	extrafamiliar	–	entre	pessoas	desconhecidas.
PARA SABER MAIS
Recomenda-se	a	leitura	do	artigo	“Abuso	sexual	
extrafamiliar:	percepções	das	mães	de	vítimas”	 
(DE	ANTONI,	2011).	Ele	aborda	a	percepção	das	mães,	
cujos	filhos,	(crianças	e	adolescentes)	foram	vítimas	de	
abusos.	São	os	casos	de	violência	extrafamiliar	praticado	
por	pessoas	desconhecidas,	diferente	dos	casos	de	
violência	intrafamiliar,	que	ocorrem	caracteristicamente	
com	pessoas	conhecidas	e	da	sua	intimidade,	que	são	
figuras	que	estão	na	função	de	oferecer	proteção	e,	ao	
contrário	disso,	desenvolvem	uma	relação	de	dominação	
e	abuso,	estabelecendo	elementos	entre	quem	é	o	mais	
forte e o mais fraco.
3737 37
1.2. Violência institucional 
Vamos	entender	de	que	forma	a	violência	institucional	atua	e	como	
influencia	a	vida	das	pessoas.
Figura	2	–	Fila	para	atendimento	em	pronto-socorro
Fonte:	COELHO,	2015.
Considerando	a	abrangência	da	violência,	vamos	entender	que	ela	
pode	ser	expressa	além	da	forma	direta,	também	de	forma	indireta,	
em	que	é	conceituada	de	estrutural	–	aquela	que	se	apresenta	na	base	
da	estrutura	social	e	política	vigente	–	negligenciando	boa	parcela	da	
sociedade,	deixando	de	envolvê-la	em	redes	de	proteção.	Os	contrastes	
sociais,	econômicos,	as	barreiras	culturais	inviabilizam	o	atendimento	
que	se	torna	precário.	São	formas	violentas	de	perpetuar	o	sentido	
de	abandono	e	de	baixa	qualidade.	A	dura	constatação	com	a	qual	a	
população	se	ressente	é	uma	questão	política	ainda	não	solucionada,	
em	que	muitos	não	têm	acesso	a	uma	saúde	de	qualidade.	Seja	pelos	
baixos	salários	dos	profissionais,	excesso	de	demanda	para	uma	
quantidade	mínima	de	especialistas.	Falta	de	recursos	financeiros	
destinados	aos	órgãos	de	assistência,	tornando	ainda	maior	a	dor	e	a	
violência	pela	qual	passam	milhares	de	cidadãos	que	dependem	do	
serviço	médico,	social,	psicológico	e	para	exames.
De	acordo	com	o	Ministério	da	Saúde	(BRASIL,	2001),	desde	que	criaram	
o manual da Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço,	
3838 
organizado	pela	Secretaria	de	Políticas	de	Saúde,	o	conceito	de	violência	
institucional	foi,	desde	então,	apresentado	como	a	violência	exercida	
nos/pelos	próprios	serviços	públicos,	por	ação	ou	omissão,	podendo	
incluir	desde	a	dimensão	mais	ampla	da	falta	de	acesso	até	a	má	
qualidade	dos	serviços.	Isso	está	relacionado	aos	abusos	cometidos	
pelo	sistema,	em	virtude	das	relações	de	desigualdades	entre	usuários	
e	profissionais	dentro	das	instituições,	até	por	uma	noção	mais	restrita	
de	dano	físico	intencional.	Essa	violência	pode	ser	identificada	de	várias	
formas,	de	acordo	com	o	manual:	
• Peregrinação	por	diversos	serviços	até	receber	atendimento.
• Falta de escuta e tempo para a clientela.
• Frieza,	rispidez,	falta	de	atenção,	negligência.
• Maus-tratos	dos	profissionais	para	com	os	usuários,	motivados	
por	discriminação,	abrangendo	questões	de	raça,	idade,	opção	
sexual,	gênero,	deficiência	física,	doença	mental.
• Violação	dos	direitos	reprodutivos	(discriminação	das	mulheres	
em	processo	de	abortamento,	aceleração	do	parto	para	liberar	
leitos,	preconceitos	acerca	dos	papéis	sexuais	e	em	relação	
às	mulheres	soropositivas	(HIV),	quando	estão	grávidas	ou	
desejam	engravidar).
• Desqualificação	do	saber	prático,	da	experiência	de	vida,	 
diante	do	saber	científico.
• Violência	física	(por	exemplo,	negar	acesso	à	anestesia	como	
forma	de	punição,	uso	de	medicamentos	para	adequar	o	paciente	
a	necessidades	do	serviço	ou	do	profissional).
• Detrimento das necessidades e dos direitos da clientela.
• Proibições	de	acompanhantes	ou	visitas	com	horários	 
rígidos	e	restritos.
3939 39
• Críticas	ou	agressões	dirigidas	a	quem	grita	ou	expressa	dor	e	
desespero,	em	vez	de	se	promover	uma	aproximação	e	escuta	
atenciosa,	visando	acalmar	a	pessoa,	fornecendo	informações	
e	buscando	condições	que	lhe	tragam	maior	segurança	do	
atendimento	ou	durante	a	internação.
• Diagnósticos	imprecisos,	acompanhados	de	prescrição	de	
medicamentos	inapropriados	ou	ineficazes,	desprezando	ou	
mascarandoos	efeitos	da	violência.	Por	exemplo,	quando	uma	
mulher	chega	à	emergência	de	um	hospital	com	“crise	histérica”	
e	é	imediatamente	medicada	com	ansiolíticos	ou	encaminhada	
para	os	setores	de	psicologia	e	psiquiatria	sem	sequer	ter	sua	
história	e	suas	queixas	registradas	adequadamente.	A	causa	de	
seus	problemas	não	é	investigada	e	ela	perde	mais	uma	chance	
de	falar	sobre	o	que	está	acontecendo	consigo.
Verificamos,	portanto,	que	a	violência	ocorre	toda	vez	que	os	direitos	
dos	usuários	do	serviço	de	saúde,	além	de	outros	necessários	aos	seus	
cuidados,	não	são	atendidos,	como	atendimento	psicológico,	realização	
de	exames	e	cirurgias,	bem	como	os	casos	que	carecem	de	assistência	
social,	São	cidadãos	usurpados	por	meio	de	condutas	desviadas	do	
cumprimento	da	função	profissional	por	mera	atitude	de	abuso	de	
poder,	negligência,	preconceito,	discriminação	sobre	as	demais	pessoas,	
tidas	como	vulneráveis,	em	situações	de	pobreza	e	miséria.
As	instituições	deveriam	cumprir	a	sua	missão	de	promoção	à	saúde,	à	
educação,	ao	trabalho	e	aos	direitos	de	todos.	
1.3. Fatores de risco da família
Como	vimos,	as	famílias	são	alvo	da	violência	entre	os	seus	próprios	
membros	e	sofrem	ainda	mais	pelo	teor	violento	imposto	pela	
desigualdade	social,	aumentando	a	pressão	pela	qual	vivenciam,	em	que	
são	negligenciadas	em	relação	a	uma	parcela	que	tem	recursos	para	
4040 
promover	melhores	condições.	São	aqueles	que	pagam	por	serviços	de	
assistência	à	saúde	privados	para	ter	um	atendimento	melhor	do	que	é	
oferecido	no	serviço	público.
A	opressão,	a	submissão	impostas	às	vítimas	da	violência,	em	sua	
maioria	crianças,	adolescentes	e	mulheres	que	passam	por	tais	
situações	mantendo	segredo	por	um	bom	tempo	antes	de	denunciarem.	
E	o	chamamento	é	para	o	destaque	de	que	o	silêncio	mata.	Pois,	sendo	
um	caso	de	saúde	pública,	torna-se	necessária	a	sua	manifestação	para	
a	devida	correção	no	tocante	ao	cessar	a	exposição	aos	ataques	aos	
quais	estejam	sendo	submetidas.
Figura	3	–	O	conluio	da	vítima	com	o	agressor	pelo	silêncio
Fonte:	vectorarts/IStock.com.
De acordo com o manual Impacto da violência na saúde dos 
brasileiros,	do	Ministério	da	Saúde	(BRASIL,	2005),	os	fatores	de	risco	
dimensionados resultam em:
• Famílias	baseadas	numa	distribuição	desigual	de	autoridade	e	
poder,	conforme	papéis	de	gênero,	sociais	ou	sexuais,	idade,	etc.,	
atribuídos	a	seus	membros.
• Famílias	cujas	relações	são	centradas	em	papéis	e	funções	
rigidamente	definidos.
4141 41
• Famílias	em	que	não	há	nenhuma	diferenciação	de	papéis,	
levando	ao	apagamento	de	limites	entre	seus	membros.
• Famílias	com	nível	de	tensão	permanente,	que	se	manifesta	por	
meio	da	dificuldade	de	diálogo	e	descontrole	da	agressividade.
• Famílias	com	estrutura	de	funcionamento	fechada,	em	que	
não	há	abertura	para	contatos	externos,	levando	a	padrões	
repetitivos de conduta.
• Famílias	que	se	encontram	em	situação	de	crise,	perdas	
(separação	do	casal,	desemprego,	morte,	migração	e	outros).
• Baixo	nível	de	desenvolvimento	da	autonomia	dos	membros	
da família.
• Presença	de	um	modelo	familiar	violento	na	história	de	 
origem	das	pessoas	envolvidas	(maus-tratos,	abuso	na	 
infância	e	abandono).
• Maior	incidência	de	abuso	de	drogas.
• História de antecedentes criminais ou uso de armas.
• Comprometimento	psicológico/psiquiátrico	dos	indivíduos.
• Dependência	econômica/emocional	e	baixa	autoestima	da	 
parte	de	algum(ns)	de	seus	membros,	levando	à	impotência	 
e/ou	fracasso	em	lidar	com	a	situação	de	violência;	fatores	 
de	risco	na	relação	de	casal.
• Indicativos	de	violência	em	relacionamentos	anteriores,	de	pelo	
menos um dos parceiros.
• Contexto	e	características	do	início	da	relação,	indicativos	de	
violência,	como,	por	exemplo,	desapego,	objetivos	perversos,	
como	interesse	econômico,	entre	outros.
4242 
• Dinâmica	agressiva,	isolamento	e	fechamento	da	relação	
(dificuldade	em	lidar	com	terceiros).
• Elevado	tempo	de	convivência	em	situação	de	violência	e	desgaste	
acumulado.
• Baixa	capacidade	de	negociação	do	casal	quanto	aos	aspectos	
conflitivos	da	relação	(dificuldade	de	lidar	com	terceiros).
• Curva	ascendente	de	grau,	intensidade	e	frequência	dos	episódios	
de violência.
• Elevado	nível	de	dependência	econômica	e/ou	emocional	dos	
parceiros.
• Baixa	autoestima	e	pouca	autonomia	dos	parceiros.
• Sentimento	de	posse	exagerado	por	parte	dos	parceiros	(ciúmes	
exacerbados).
• Alcoolismo	e/ou	drogadição	de	um	dos	membros	do	casal	
ou	de	ambos.
• Soropositividade	da	mulher,	pelo	HIV.
1.4. Fatores de risco da criança 
Infelizmente,	este	item	de	nosso	estudo	abrange	os	riscos	pelos	quais	
as	crianças	estão	submetidas	na	própria	convivência	intrafamiliar,	cuja	
ameaça	são	os	pais.	Com	relações	precárias	e	com	distúrbios	de	toda	
ordem,	a	desagregação	das	relações	é	resultado	de	falta	de	recursos	
internos	para	uma	saúde	mental	que	reverta	em	atos	e	formas	de	
estabelecimento	de	vínculos	saudáveis,	bem	como	da	capacidade	de	
resolver	problemas	e	conflitos.	Somada	a	precariedade	das	condições	
sociais	aos	quais	estão	submetidos,	muitos	cidadãos	se	perdem	na	falta	
de	emprego,	no	abandono,	no	abuso	do	álcool	e	outras	drogas.	 
4343 43
As	dificuldades	de	ser	inserido	numa	estrutura	social	melhor,	que	dê	
conta	de	evoluir	e	manter	sua	dignidade,	geram	uma	grande	tensão	
familiar	e,	sendo	mal	administradas,	geram	novos	problemas	com	a	
deformação	dos	afetos,	da	prática	violenta	e	abusiva	expressas	em	
gestos,	pelo	ódio	e	pela	raiva	acumulados.	
Figura	4	–	Cena	de	violência	familiar	protegida	pelas	paredes	de	um	“lar”
Fonte:	Peopleimages/IStock.com.
De acordo com o manual Violência intrafamiliar: orientações para 
prática em serviço,	organizado	pela	Secretaria	de	Políticas	de	Saúde	
do	Ministério	da	Saúde	(BRASIL,	2001),	os	potenciais	de	ocorrência	de	
práticas	violentas	cometidas	pelos	pais	no	trato	com	os	seus	filhos	
estão	associados	à	reprodução	de	condutas	violentas	já	vivenciadas	
por	eles,	ou	seja,	o	agressor	sendo	a	vítima	ou	por	uma	má	condução	
do	seu	próprio	desenvolvimento	psicológico	frente	às	situações	vividas	
e sua personalidade. 
4444 
A	impunidade	é	fator	de	risco	estimulado	por	não	ter	havido	denúncias	
e	queixas	claras	quanto	ao	problema	vivido	por	ele,	e	também	
considerando	que	muitos	episódios	de	violência	nas	residências,	e	
entre	familiares,	tendem	a	ser	camuflados	e	mantidos	em	segredo,	seja	
por	medo,	por	represália,	por	hábito	da	punição	ou	por	maus	tratos.	
Portanto,	torna-se	difícil	aos	equipamentos	públicos	administrar	tais	
casos	quando	o	reforço	da	prática	violenta	já	promoveu	seus	efeitos	
devastadores	de	resignação	por	parte	da	vítima.
Tendo	em	vista	o	ciclo	agressor-vítima	e	a	condição	de	manutenção	do	
segredo	existente,	que	são	elementos	mantenedores	da	prática	violenta	
e	abusiva	da	violência	doméstica,	observa-se	alguns	gatilhos	para	a	
sua	ocorrência,	conforme	a	referência	do	manual	apontado	acima,	
tais como:
• Pais	com	histórico	de	maus-tratos,	abuso	sexual	ou	rejeição/
abandono	na	infância.
• Gravidez de pais adolescentes sem suporte psicossocial.
• Gravidez	não	planejada	e/ou	negada.
• Gravidez de risco.
• Depressão	na	gravidez.
• Falta	de	acompanhamento	pré-natal.
• Pai/mãe	com	múltiplos	parceiros.
• Expectativas	demasiadamente	altas	em	relação	à	criança.
• Ausência	ou	pouca	manifestação	positiva	de	afeto	entre	 
pai/mãe/filhos.
• Delegação	à	criança	de	tarefas	domésticas	ou	parentais.
• Capacidade	limitada	em	lidar	com	situações	de	estresse	 
(perda	fácil	do	autocontrole).
4545 45
• Estilo	disciplinar	rigoroso.
• Pais	possessivos	e/ou	ciumentos	em	relação	aos	filhos,	 
referentes à criança.
• Crianças	separadas	da	mãe	ao	nascer	por	doença	ou	
prematuridade.
• Crianças	nascidas	com	más-formações	congênitas	ou	doenças	
crônicas	(retardo	mental,	anormalidades	físicas,	hiperatividade).
• Crianças	com	falta	de	vínculo	parental	nos	primeiros	anos	de	vida,	
fatores	de	risco	específicos	do	idoso.
• Várias	doenças	crônicas	ao	mesmo	tempo.
• Dependênciafísica ou mental.
• Déficits	cognitivos.
• Alterações	do	sono.
• Incontinência	urinária	e/ou	fecal.
• Dificuldades	de	locomoção.
• Necessidade	de	cuidados	intensivos	ou	de	apoio	para	realizar	
atividades	da	vida	diária,	como	alimentar-se,	ir	ao	banheiro,	trocar	
de	roupa	ou	tomar	medicamentos,	fatores	de	risco	na	deficiência.
• Maior comprometimento físico ou mental e reduzida autonomia.
• Dificuldade	de	locomoção.
• Hiperatividade.
• Dispersão.
Como	vimos	acima,	muitas	são	as	consequências	dessa	desestrutura	
familiar	e	a	perpetuação	desses	danos	percebida	e	registrada	na	
reprodução	do	trato	violento	em	demais	ambientes,	como	nas	ruas,	
escolas,	no	trabalho.
4646 
ASSIMILE
Vamos	dar	destaque	a	uma	prática	relacional	violenta	de	
conduta,	qualificada	como	negligência.	
Negligência	é	faltar	a	alguém	ou	algo	que	deveria	
representar	proteção	e	sustentação	para	o	aprendizado	
do	outro	que	depende	do	seu	acompanhamento.	É	faltar	
com	o	apoio	necessário	para	se	desenvolver,	aprender,	
evoluir,	deixando	a	pessoa	refém	da	ausência,	da	falta	
e	da	privação.	Assim,	origina	o	que	muitos	casos	nos	
apontam:	insegurança,	terror,	medo,	desenvolvimento	de	
fobias.	É	também	a	atitude	omissa,	deixando	de	prover	
as necessidades físicas e emocionais de uma criança ou 
adolescente,	no	caso	dos	pais,	podendo	ser	moderada	ou	
severa.	Com	isso,	as	crianças	e	os	adolescentes	vítimas	
de	violência	desenvolvem	sintomas	de	bloqueios	e	
impedimentos	ao	seu	desenvolvimento	natural	e	saudável.	
Em	suma,	trata-se	de	abrir	mão	de	fazer	o	papel	designado	
ou	que	deveria	ser	cumprido,	como	maternagem,	
paternagem,	zeladoria,	curadoria,	enfim,	direcionamentos	
para	a	autonomia.	A	negligência	revela-se	no	descuido,	
na	desproteção	de	quem	deveria	oferecer	isso,	sendo	
um	modelo	agressor,	que	irá	influenciar	diretamente	no	
desequilíbrio	da	autoconfiança,	do	autorrespeito.	
1.5. Violência contra o idoso e as pessoas com deficiência (PCD)
As	políticas	públicas	sociais	e	de	saúde	coletiva	são	ações	de	promoção	
à	saúde	e	condições	de	proteção	social	as	quais	o	Estado	tem	por	
obrigação	oferecer	aos	cidadãos.	
Como	nem	sempre	são	efetivas,	temos	como	resultado	o	abandono	de	
muitos	idosos	e	PCDs	vivendo	em	condições	precárias.
4747 47
Elas	constam	no	Estatuto	do	Idoso	e	da	PCD,	no	amparo	do	idoso	e	de	
pessoas	com	deficiência,	e	que	essa	assistência	possa	ser,	inclusive,	
no	familiar.	No	entanto,	muitas	vítimas	da	violência	vivem	em	espécie	
de	cárcere	privado,	sendo	exploradas	e	em	situação	humilhante,	
de	dominação	e	de	rebaixamento	pessoal,	instalando-se,	portanto,	
a	interação	do	ciclo	de	violência	doméstica.	E	novamente,	percebe-
se	nessa	dinâmica	que	nem	sempre	a	residência	será	um	lugar	
seguro	para	viver.	Os	danos	provocados	aos	idosos	e/ou	às	pessoas	
com	deficiências	(PCD1)	que	se	encontram	em	relações	de	violência	
se	aproximam	das	características	da	violência	doméstica,	pois	sua	
incidência	está	nas	residências	e	ocorre	com	pessoas	conhecidas	e	
familiares.	Cabe-nos	a	reflexão	de	promover	sensibilização	e	educação	
com	programas	de	conscientização	quanto	à	responsabilidade	e	
ao	compromisso	de	cuidar,	proteger,	respeitar	e	valorizar	a	pessoa	
humana	em	todas	as	fases	de	vida.	prevenção,	por	meio	de	projetos	
de	orientação,	sensibilização	e	educação.
Para	alguns	familiares	de	lares	violentos,	o	idoso	torna-se	um	estorvo,	
alguém	que	tem	baixa	produtividade,	sendo,	muitas	vezes,	explorado	
financeiramente	em	sua	aposentadoria,	tendo	o	valor	desta	não	
utilizado	em	favor	do	beneficiário	direto.	As	pessoas	com	deficiências	
(PCD),	que	por	vezes	são	exploradas	também	e	obrigadas	a	pedir	
esmolas	em	ruas,	são	vistas	como	“fracas”	e	como	“castigo”	nesses	
lares,	cuja	afetividade	é	baixa,	assim	como	sofrem	com	a	falta	de	
compreensão	humana.	Elas	têm	dificuldade	de	aceitação	dos	fatos	e	
sem	a	clareza	de	que	tal	realidade	pede	o	treino	e	o	desenvolvimento	de	
potencialidades,	ou	seja,	dificilmente	enxergam	o	que	podem	aprender	
para	novos	despertares	de	gratificação,	amorosidade,	gratidão	e	outros.	
Com	isso,	faltam-lhes	sentido	ético,	saúde	emocional,	integridade	do	
caráter,	valores	pessoais.
1	 	PCD:	sigla	de	pessoas	com	deficiência.
4848 
PARA SABER MAIS
Recomenda-se	a	leitura	do	artigo	“Idosos	em	instituições	
de	longa	permanência:	falando	de	cuidado”	(FREITAS;	
NORONHA,	2010),	que	aborda	a	questão	de	fatores	de	risco	
aos	quais	idosos	institucionalizados	estão	expostos.
1.6. A presença do homem como fator de risco e ameaça à 
proteção familiar 
A	participação	do	gênero	masculino	figura	nos	casos	de	violência	
doméstica	em	sua	maioria,	tornando-se	um	fator	de	risco.	E	pensar	
nas	soluções	é	tarefa	de	todos	os	profissionais	envolvidos	com	a	
problemática	intrafamiliar	e	extrafamiliar.	
Cada	vez	mais,	é	urgente,	no	cenário	brasileiro,	estancar	o	alto	
índice	dos	casos	de	violência	entre	mulheres	e	homens,	vítimas	e	
seus	agentes,	respectivamente.	É	preciso	que	seja	um	compromisso	
individual	de	cada	homem	aprimorar	a	imagem	que	possui	da	mulher,	
evoluindo	para	uma	concepção	que	seja	positiva	e	pacificadora	entre	
gêneros.	Com	isso,	será	possível	combater	a	misoginia	–	modelo	de	
perceber	o	elemento	feminino	com	sentimentos	de	raiva	e	ódio.	Para	
superarmos	esse	problema,	é	preciso	um	trabalho	profundo	das	
questões	psicológicas	que	envolvem	o	tema.	São	elementos	internos,	
conteúdos	que	compõem	a	visão	de	mundo	equivocada,	de	seu	rol	
de	valores	pessoais	e	sociais,	que	absorve	uma	visão	do	feminino,	
incomodada	com	o	direito	de	a	mulher	estar	presente	em	todos	os	
cenários	da	vida	e	não	restrito	e	exclusivo	ao	mundo	masculino.
1.7. Conclusão
Podemos	concluir	deste	tema	que	os	fatores	de	risco	e	proteção	
são	produzidos	pela	própria	sociedade,	que	a	deforma,	partindo	da	
4949 49
conduta	desviada	frente	aos	conflitos.	Assim,	em	vez	de	contribuir	para	
o	seu	tratamento,	torna-se	transmissora	da	cultura	de	violência,	pois	
também	estão	inseridos	neste	universo,	e	são	agredidos	pela	estrutura	
social	que	abriga	a	todos.	Pensar	numa	sociedade	pacificada	envolve	a	
mudança	de	postura	e	partir	para	ações	diferentes	daquelas	que	nos	
fizeram	chegar	ao	cenário	atual,	com	altos	índices	de	violência	e	de	
criminalidade.	É	preciso	dar	um	basta!
Daí	a	importância	de	treinamentos,	capacitações,	busca	pelo	
conhecimento	e	pesquisas	–	base	das	ações	de	investimento	na	
qualificação	dos	profissionais	de	saúde,	segurança,	assistência	
social,	educação	básica,	fundamental	e	universitária,	cuja	finalidade	
venham	promover	conscientização,	diminuição	gradativa	da	violência,	
com	soluções	dos	problemas	que	geram	tais	deformações	sociais	e	
consequências	sérias	às	suas	famílias.	
Dar	sustentação	para	o	enfrentamento	necessário,	a	fim	de	que	
esses	profissionais	que	estão	na	porta	de	entrada	da	identificação	
desses	casos	possam	ter	retaguarda	para	solucioná-los,	propondo	
o	tratamento	das	relações	humanas	que	adoecem	e	transmitem	
ações	violentas.	Consequentemente,	podem	criar	mecanismos	de	
prevenção,	mediante	catalogação	desses	dados,	estudos	e	pesquisas,	
como	material	para	formularem	a	geração	de	novas	ações	frente	ao	
desafio	do	combate	à	violência.
Violência	é	um	problema	de	todos,	que	afeta	a	vida	da	sociedade	
como	um	todo,	abrangendo	a	todos	os	segmentos	profissionais	nessa	
importante	sensibilização	para	o	problema,	com	o	objetivo	de	mudar	
esse	cenário.
TEORIA EM PRÁTICA 
Este	caso	foi	extraído	do	manual	Violência intrafamiliar e 
é	bastante	ilustrativo	para	os	profissionais	que	estão	no 
5050 
atendimento	primário	da	saúde,	que	suspeitam	que	o	
caso envolve violência e têm pela frente uma conduta a 
gerenciar.	A	história	conta	que	Marina,	de	13	anos,	e	sua	
irmã	Manuela,	de	15,	foram	à	unidade	de	saúde	para	uma	
consulta,	pois	estavam	tendo	dores	de	cabeça	e	na	barriga	
há	vários	dias.	Aquela	era	sua	terceira	consulta	pelo	mesmo	
motivo	em	duas	semanas.	Como	das	outras	vezes,	foi	
atendida	pelo	dr.	Sérgio	que,	ao	examiná-la,	não	encontra	
nenhuma	alteração	importante.	No	entanto,	chama-

Mais conteúdos dessa disciplina