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VIOLÊNCIA ESTRUTURAL E INTRAFAMILIAR W BA 06 68 _v 1. 0 22 Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2019 Violência estrutural e intrafamiliar 1ª edição 33 3 © 2019 POR EDITORA E DISTRIBUIDORA EDUCACIONAL S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Giani Vendramel de Oliveira Juliana Caramigo Gennarini Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Giani Vendramel de Oliveira Revisor Juscilene Galdino da Silva Editorial Alessandra Cristina Fahl Beatriz Meloni Montefusco Daniella Fernandes Haruze Manta Hâmila Samai Franco dos Santos Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Ricotta, Luiza Cristina de Azevedo R541v Violência estrutural e intrafamiliar / Luiza Cristina de Azevedo Ricotta, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2019. 112 p. ISBN 978-85-522-1569-1 1. Famílias (aspectos psicológicos). 2. Violência. I. Ricotta, Luiza Cristina de Azevedo. II. Título. CDD 370 Thamiris Mantovani CRB: 8/9491 2019 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ 44 VIOLÊNCIA ESTRUTURAL E INTRAFAMILIAR SUMÁRIO Apresentação da disciplina 5 Conceito e tipos de violência 7 Fatores de risco e proteção 33 Influências ambientais nos determinantes da violência 55 Contextualização da violência 82 Reprodução de violência como meio de comunicação 101 Naturalização da violência doméstica 125 Ressignificação do papel profissional na ruptura de ciclos de violência 145 55 5 Apresentação da disciplina A disciplina aqui proposta refletirá sobre um dos temas mais atuais da contemporaneidade, a escalada da violência decorrente de deformações estruturais na condução dos afetos, sentimentos, emoções associados à vida em sociedade, de relevância para os profissionais atentos aos fenômenos que envolvem problemáticas de grande repercussões sociais e que têm sua nascente nos padrões de relações sociais nos seus vários âmbitos, e especificamente nas relações intrafamiliares – cercadas pelas paredes do lar, local que deveria oferecer proteção, abrigo, desenvolvimento da afetividade, aprendizado, reforço para estrutura do caráter. Causa-nos perplexidade que os estudos do Instituto de Pesquisas e Estudos Aplicados – IPEA apontem que as maiores incidências de casos de violências registradas, sejam a física, a psicológica, a sexual, o que é pior, é que sejam cometidos por pessoas conhecidas e/ou por familiares, sendo as mulheres, as crianças e os jovens os maiores alvos da deformação do convívio, estando expostas a novas situações violentas, pois os contextos sociais de suas realidades, na maioria das vezes, não se modificam. Com os problemas socioeconômicos agravados pela falta de oportunidade a todos, a competitividade desenfreada, o desemprego, a miséria, a pobreza, as drogas, a imigração e migração e o abandono nas drogas, que agravam ainda mais, tornando-os mais vulneráveis socialmente e economicamente, tais circunstâncias geram tais problemas em face das desigualdades sociais marcadas entre cidadãos pertencentes à sociedade e que por isso carecem de uma vida humanizada e a preservação da dignidade humana. A violência é um fenômeno democrático, multifatorial, advindas daí sua complexidade e erradicação. Surgindo de forma avassaladora em todas as camadas sociais e econômicas, diferindo em graus ou níveis, mas em suma pela sofisticação que vai adquirindo, à medida que ela sai do contexto da violência física para entrar em domínios abstratos, tão danosos ou mais que a conduta violenta aparente. Nossa sociedade também lida com 66 a violência simbólica, que delineia a forma de conduzir o pensamento com relação a tudo o que faz parte do seu funcionamento e dinâmica social, tornando-se problemas estruturais, imprimindo modelos de interação que discriminam e estabelecem diferenças pautadas em ideias pré-concebidas e nada condizentes com os valores humanos universais; sendo, portanto, desumanos. Os fatores aqui esclarecidos poderão afetar diretamente nas relações sociais com desencadeamento de homicídios, estupros, espancamentos, relações de domínios e subjugo, relacionamentos abusivos e que se desdobram em novas outras doenças, como o isolamento social e familiar, depressão, baixa autoestima, alienação, vícios e direcionamento para uma vida criminosa. Milhares de pessoas vivem oprimidas e com seus direitos sendo violados de algum modo, tornam-se achatados nessa realidade, desconhecendo outra realidade que não seja essa, além desta que vivenciam, acreditando que viver é isso! É fundamental que possamos refletir acerca desse tema que é a violência, no entanto ressaltamos que nosso enfoque caminhará para a violência intrafamiliar (microssocial) e a violência estrutural (macrossocial). Visamos, por fim, a conscientização dos profissionais, que na condição de agentes e facilitadores desse processo de mudança de mentalidade social e das próprias vítimas e agressores, atuam como multiplicadores dessa visão ressignificada da violência, para uma atuação diferente, em que podem explorar daquela que atua nos fatos para uma que atua em prevenção, conscientização, esclarecimentos à sociedade, grupos de reflexão entre profissionais que atuam nessa realidade. E por essa consciência compartilhada, pela ação de movimentos nessa linha, venham estimular a sociedade civil e os órgãos governamentais, como já vem ocorrendo como resposta, pela promoção de mudança de conduta e intervenção a fim de que as influências ambientais e sociais possam ser menos determinantes da ação nociva da violência estrutural e a violência intrafamiliar. 77 7 Conceito e tipos de violência Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Conceituar o fenômeno da violência estrutural e intrafamiliar. • Apresentar os tipos de violência intrafamiliar. • Caracterizar a dinâmica entre agressor e vítima. 88 1. Contextualização Olá! Sejam muito bem-vindos ao nosso primeiro tema, que abordará os conceitos e tipos de violência aos quais boa parte da população está sujeita a enfrentar. Identificamos que é um problema tanto social, estrutural da sociedade, bem como da formação dos grupos familiares. E a primeira constatação difícil de se conceber é que tais práticas sejam cometidas por outras pessoas e, em grande parte dos casos, por pessoas conhecidas e/ou familiares. Daí a reflexão que irá permear este estudo, em que o ser humano é capaz de gerar sofrimento a outro ser humano. O assunto é de total relevância na atualidade pela sua alta incidência. E pela apresentação de dados que apontam para o fato de que, entre pessoas que mantêm convivência, o índice de casos é alto em comparação com os casos entre pessoas desconhecidas. Ou seja, no âmbito intrafamiliar, a incidência é maior, o que seria impensável crer; porém, é o que ocorre. Pai, mãe, padrasto, irmãos, avós e demais pessoas de convivência e intimidade familiar são seus principais agentes. O estudo deste tema é necessário para mobilizar profissionais de diversas áreas, para que possam identificar casos de violência intrafamiliar e contribuir para um novo modelo de ação que resulte em algo que envolvalhe atenção a forma como a menina se comporta, com extrema timidez, atitudes sedutoras e roupas provocantes. A abordagem de dr. Sérgio investiga os amigos de Marina na escola, vizinhança, etc. Marina é muito tímida, fala pouco e suas respostas são monossilábicas. Dr. Sérgio convida Marina e Manuela para participarem do grupo de bate-papo, formado por adolescentes, que se reúne uma vez por semana na unidade de saúde, sob a coordenação da enfermeira Kátia. Marina e Manuela, depois de frequentarem o grupo algumas vezes, de repente deixaram de comparecer. A enfermeira Kátia, em visita domiciliar, encontra Marina e pergunta por que ela não mais estava indo às reuniões. Acaba descobrindo que o tio não permitiu que continuassem no grupo. Marina conta que o tio é muito bom, mas também muito brabo (sic). Não tendo para onde ir, não podem desagradá-lo. Aos poucos, Marina conta para Kátia que foram abandonadas pela mãe, prostituta, que vive com outro companheiro. O pai, alcoolista, mora no interior com outra companheira, que também tem dois filhos, e não permitiu que elas morassem com eles. Marina e Manuela conheceram José, de 67 anos, quando ele era vigia de uma obra e, nas vezes em que a mãe ia visitá-lo, elas também iam. Ficaram amigas de José e, mesmo depois que ele rompeu com a mãe delas, o vigia convidava as meninas 5151 51 para almoçar e dava-lhes abrigo quando o padrasto não permitia sua entrada em casa. José prometeu que quando se aposentasse iria adotá-las como filhas e as meninas acreditavam que ele estava cumprindo a promessa. Ele é muito bom, compra muitas roupas bonitas (sic). Marina comentou que ele é muito carinhoso, mais que o próprio pai, mas às vezes seu abraço apertado e seus elogios ao seu corpo a incomodavam um pouco (sic). Também não gostava quando ele dormia com ela e a irmã na cama. Analise a situação relatada acima e reflita sobre qual deveria ser a conduta da enfermeira Kátia para este caso. VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Os fatores de risco e de proteção em casos de violência são uma questão de saúde pública, sendo, portanto, de causa multifatorial, requisitadas dos profissionais certas ações que os auxiliem a lidar com a problemática. Assinale a alternativa que representa esse encaminhamento do caso. a. Os profissionais de saúde sempre devem encaminhar os casos para a Delegacia de Polícia. b. Os profissionais não têm meios de intervir em razão do fato violento já ter ocorrido, devendo apenas oferecer sua escuta diante da realidade do paciente ou cidadão. 5252 c. Os profissionais precisam de orientação e esclarecimentos, bem como informações para poder diagnosticar tais casos ou a sua suspeita. Muitos deles surgem mascarados por outras queixas. d. Os profissionais de todas as áreas têm limites para atuar, pois, em se tratando de casos que envolvem a tipificação em crime, em nada podem contribuir a não ser conduzir para órgãos competentes. e. Os profissionais ficam impactados com os casos e precisam também de cuidados para poder dar suporte adequado. Com isso, é aconselhável buscar cuidar da sua própria saúde, pois, também são, muitas vezes, vítimas de violência. 2. Sobre a conduta negligente com crianças e adolescentes, aponte a alternativa que corresponde ao que ela representa na prática do dia a dia: a. Tapas, empurrão, beliscões. b. Ofensas, desqualificação da pessoa, rebaixamento constante, críticas. c. Surras frequentes, cerceamento da autonomia, expressão de reprovação. d. Deixar de oferecer alimento, vestimenta, uma rotina em que possa desenvolver hábitos saudáveis. e. Práticas libidinosas e de molestação sexual. 5353 53 3. A violência institucional ocorre, com certa frequência, em detrimento da falta de capacitação e treinamento e pelo abuso de poder dos profissionais com os usuários do serviço. Aponte a afirmativa correta de uma conduta praticada nessa modalidade. a. Frieza, rispidez, falta de atenção, negligência. b. Escutar as queixas dos pacientes. c. Dar assistência às crianças e aos acompanhantes dela, no caso, os pais. d. Submeter a exames clínicos. e. Propor que venha em outro dia quando não houver meios de atendê-la por alguma razão informada. Referências bibliográficas BRASIL. Lei n. 8.842, de 4 de janeiro de 1994. Dispõe sobre a Política Nacional do Idoso. Brasília, 1997. ______. Lei 10.741, de 10 de outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Brasília, 2003. ______. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço. Série Cadernos de Atenção Básica; n. 8. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. ______. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Impacto da violência na saúde dos brasileiros. Série B. Textos Básicos de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2005. ______. Presidência da República. Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária. Brasília: Conanda, 2006. ______. Plano integrado de ação governamental para o desenvolvimento da Política Nacional do Idoso. Brasília, 1997. ______. Portaria SAS-073, de 10 de maio de 2001. Normas de Funcionamento de Serviços de Atenção ao Idoso no Brasil. Brasília, 2001. 5454 COELHO, R. Péssimo atendimento na saúde municipal faz sobrecarregar hospital de Barra de São Francisco. 2015. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. DE ANTONI, C. et al. Abuso sexual extrafamiliar: percepções das mães de vítimas. Estud. Psicol., Campinas, v. 28, n. 1, p. 97-106, mar. 2011. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. FREITAS, A. V. S.; NORONHA, C. V. Idosos em instituições de longa permanência: falando de cuidado. Interface, Botucatu, v. 14, n. 33, p. 359-369, jun. 2010. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. WAISELFISZ, J. J. O mapa da violência 2011: jovens no Brasil. São Paulo: 2011. São Paulo: Instituto Sangari ; Brasília, DF : Ministério da Justiça, 2011. Gabarito Questão 1 – Resposta C Resolução: os profissionais precisam de orientação e esclarecimentos, bem como informações para poder diagnosticar tais casos ou a sua suspeita. Muitos deles surgem mascarados por outras queixas. Questão 2 – Resposta D Resolução: deixar de oferecer alimento, vestimenta, apresentar uma rotina em que possam desenvolver hábitos saudáveis. A negligência é faltar a alguém em momento que ela mais precisa de apoio, auxílio e tutoria para a evolução de outros em etapa da vida diferente. Questão 3 – Resposta A Resolução: de acordo com a Leitura Fundamental, você pode constatar que a violência institucional é acirrada com serviços precários, que deveriam oferecer proteção em vez de negligência e com a postura de muitos profissionais que discriminam a própria condição de seu trabalho por estarem lidando com população que carece de maior atenção, e agem com frieza, rispidez, falta de atenção, negligência, atuando como desserviço. https://sitebarra.com.br/arquivo/2015/04/pessimo-atendimento-medico-na-prefeitura-faz-sobrecarregar-hospital-de-barra-de-sao-francisco.html https://sitebarra.com.br/arquivo/2015/04/pessimo-atendimento-medico-na-prefeitura-faz-sobrecarregar-hospital-de-barra-de-sao-francisco.html https://sitebarra.com.br/arquivo/2015/04/pessimo-atendimento-medico-na-prefeitura-faz-sobrecarregar-hospital-de-barra-de-sao-francisco.html http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2011000100010&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2011000100010&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2011000100010&lng=en&nrm=isohttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832010000200010&lng=pt&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832010000200010&lng=pt&nrm=iso 5555 55 Influências ambientais nos determinantes da violência Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Apresentar os fatores ambientais que estimulam a perpetuação da violência. • Apresentar alguns determinantes da conduta delinquencial. • Apontar fatores promotores de desagregação humana e a relação com a criminalidade. 5656 1. Introdução Vamos abordar nesta Leitura Fundamental as influências ambientais que contribuem para a ocorrência de condutas violentas e aumento desses índices. Entendemos por ambiente tudo o que for externo à pessoa e for passível de influência em sua vida. A precariedade com que boa parte da população vive, em razão das disparidades tão acentuadas de falta de recursos, emprego, moradia, saúde, educação, políticas públicas que atendam a todos, que são os fatores geradores da insatisfação, frustração, sentimentos de raiva, ódio, sentimentos de descaso e abandono com relação às suas vidas e condições desfavoráveis. Sentem-se preteridos, e esse sentimento social funciona como se não pudesse ou tivesse condições de ascensão, melhoria, face à perpetuação dos mecanismos de exclusão presentes na sociedade. E muitos confrontos são gerados e/ou violências de diversas ordens, para além da violência física. Compreendemos que a violência pode ocorrer de várias formas, que são manifestações carregadas de incongruências decorrentes dos contrastes socioeconômicos, da pobreza, da exclusão de formação educacional, saúde, cultura, saúde psicológica e mental, e outros fatores que desencadeiam a conduta delinquencial numa sociedade desigual que atua e se manifesta de forma violenta como forma de alternância nas relações de poder. Nesse contexto, a atitude delinquencial e criminosa é uma forma distorcida de recuperar o poder em situações cujos agentes se sentem reduzidos e inferiorizados, ou até mesmo desprovidos. Fatores como desemprego, superpopulação, avanço tecnológico em alguns segmentos, crescimento desenfreado em alguns cenários, bem como a falta de desenvolvimento e evolução, entre outros fatores, produzem uma série de problemas sociais, de proporções elevadas. A desigualdade social, advinda do modo de produção capitalista, gera a falta de oportunidades para todos os sujeitos, principalmente para 5757 57 as pessoas vulneráveis socialmente. Assim, o déficit na estrutura social acirra disputas, conflitos e novos problemas como delinquência, crimes, alto nível de agressividade, intolerância, impaciência, resistência, tensão, entre outros. Portanto, compreender esses fatores como causadores da violência se faz necessário, para que sejam adotadas medidas eficientes por parte do Estado. 1.1. A compreensão sociológica de tais influências O sociólogo Pierre Bourdiex (2003) se posiciona de forma crítica contra o social das instituições, pois elas trazem em si, na própria cultura, um modelo desigual que impede e dificulta a inexistência do parâmetro de dominação e subjugo, perpetuando a desigualdade social e deixando de ser neutras para atuar na desagregação e na produção da violência presente na sociedade. O autor conceitua a violência simbólica como sendo uma violência suave, insensível e quase invisível às suas vítimas, exercidas pelas vias da comunicação e do desconhecimento enquanto ignorância, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento. PARA SABER MAIS Assista ao vídeo intitulado Violência e criminalidade produzido pelo canal Se Liga Nessa História (disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019). O vídeo aborda a distinção entre a violência e a criminalidade, que nos oferece elementos para uma análise e compreensão de tais condutas quando estas são configuradas crimes. E naturalmente apontar para o fato de quando estamos diante de atos violentos, eles carregam um potencial devastador que geralmente se direciona para a sua escalada. https://www.youtube.com/watch?v=K1oq0bekHhs 5858 O fenômeno da violência, seja ela cometida na vida intrafamiliar ou na extrafamiliar, se expressa na vida coletiva em razão dos contrastes sociais, nas diferenças pessoais, econômicas, fisiológicas, psíquicas, inclusive em decorrência da consciência individual que cada ser humano possui – fator que contribui para um sentido social coletivo expressado na forma de exercer a cidadania. Constatou-se que as constatações são um dos alicerces da sociologia criminal, tendo em vista que, se boa parte dos valores coletivos não são cumpridos, os espaços para surgimento de atos criminosos tornam-se ainda mais férteis, as desigualdades sociais existentes em decorrência do antagonismo de classes. A violência está relacionada diretamente à moral e aos atos do comportamento humano, a seus valores e à expressão dos seus sentimentos mais íntimos, que, ao serem destinados ao grupo social, repercutem e identificam aspectos da precariedade da sua vivência como pessoa em sociedade e em seu grupo familiar. A Sociologia é um importante campo para a compreensão dos aspectos agressores presentes na vida em sociedade, no âmbito familiar e no âmbito profissional. Ter possibilidade de fazer uma leitura macro dessas questões permite compreender que as tensões presentes no jogo social também são influências ambientais que contribuem para o aumento das tensões da vida cotidiana, reforçando o desalinhamento do poder entre pessoas, cujo resultado favorece a desagregação das relações sociais. Há uma inter-relação entre as condições sociais na produção da microviolência e, nesse aspecto, a forte presença da violência intrafamiliar como exemplo, que figura nos índices mais altos de práticas violentas cometidas entre pessoas conhecidas e familiares, fazendo-nos observar quais variáveis estão presentes na sua manifestação: a convivência, o estabelecimento de poder na interação humana, o preconceito e discriminação como forma de manter a posição de alteridade. E também recebendo influências externas, que tendem a aumentar a pressão interna do indivíduo, como desemprego e falta de recursos para poder expandir seus talentos, de educação, conscientização, cultura, política, entre outros. Tudo isso deságua na interação familiar, sendo uma ação da microviolência. 5959 59 Soa ingênuo acreditar que a sociedade possa estar isenta de violência e da ocorrência de crimes. Pela Teoria da Anomia, de Émile Durkheim (1897), pai da sociologia moderna, aqueles a quem a sociedade não oferece oportunidades nem caminhos legais para alcançar o bem-estar acabam praticando atos reprováveis para atingir seus fins antes dos demais, geralmente contra a propriedade, já que têm como objetivo a sobrevivência. ASSIMILE No vídeo intitulado Anomia – Conceito, disponibilizado no site Cultura Livre (disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019), você pode entender mais sobre o conceito de Anomia na visão teórica de Durkheim (1897). Essa visão permanece atual para o entendimento dos comportamentos humanos que incomodam e atordoam a vida das pessoas. Outros conceitos serão aqui encontrados, dando sustentação para compreender a relação existente entre as influências ambientais na manifestação da violência. São eles: a. Anomia social. b. Coesão social. c. Consciência afetiva. d. Coerção social. 1.2. As condições ambientais que influenciam a violência Ao refletirmos sobre que condições contribuem para a ocorrência da violência, temos um universo amplo e que nem sempre é compreendido pela própria pessoa. Muitos fatores estão submersos, como nos mostra https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/ https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/ 6060 a Figura 6, onde o iceberg tem uma pequena parte que é identificada; que nos faz supor conhecer a realidade e seus desdobramentos na vida das pessoas em sociedade. No entanto há muito desse contexto, onde as influências ambientais são diluídas tendo em vista não serem identificadas. Sentidas sim, mas não compreendidas. Muitos desses aspectos passam desapercebidos, são inconscientes e estão envolvidos no contexto social mais amplo. Figura 6 – Iceberg Fonte: RomoloTavani/Istock.com. As circunstâncias ambientais vão permear a ocasião do crime e são aquelas que permitiram o desencadeamento do próprio ato, bem como aquelas inibidoras do crime, isto é, que foram reprimidas. Caso tivessem sido fortes o suficiente, o crime não ocorreria. Elas caminham juntas nessa esfera dos acontecimentos. Assim, a miséria – aspecto responsável pela maior parte dos delitos, como preponderante sobre outras influências, inclusive – nem sempre prevalecerá. Isso ocorre, por exemplo, se no último instante o indivíduo deixar de praticar a violência, em razão de ter tomado consciência a respeito da penalidade a que estará submetido caso efetive algum crime, ou se, caso sua autoria fosse descoberta, não teria mais como esconder sua identidade. Tal consciência funciona como freio, inibindo a ação antes pensada, mas ainda não praticada. 6161 61 Outra causa da prática criminosa está na personalidade do indivíduo por ocasião do momento em que comete o crime. Dessa forma, pode- se pensar: o que teria determinado tal ato? Um indivíduo pode agir de determinada forma ou de outra, conforme sua personalidade, e, sendo assim, temos elementos para prever o que é esperado de sua conduta. Cada um reage de determinada forma em situações que o levariam a um grau de estresse alto. No entanto, com o conhecimento do caráter desse individuo, é possível predizer e esperar como tal pessoa agirá em determinado momento, principalmente se nesse momento a iminência de risco e de perigo estiverem presentes. Ela pode não oferecer risco algum por não conter a passionalidade – visão exagerada e apaixonada, determinante para a ausência de consciência e de ações por impulsos. Prova disso ocorre quando aqueles que agem como tal relatam “não ter imaginado que agiriam de tal forma”, “que não esperavam que isso ocorresse”. O indivíduo é tomado por lapsos ou rompantes que lhe tiram do equilíbrio emocional costumeiro, podendo cometer atos que o envolvam em complicações de âmbito criminoso. Se os comportamentos são uma composição do histórico de vida da pessoa, há de se considerar que essas predisposições ou tendências fazem parte também de disposições individuais. Se houver tal disposição por parte daquele que optou pelo crime, esse fato revelará potencial para a prática de outros delitos, sendo necessário verificar o nível ou grau de periculosidade deste, o que teria implicações quanto à sua convivência em sociedade. Se houver grande abalo moral em razão do fato criminoso, dificilmente esse indivíduo incorrerá em outro crime dessa natureza, está demasiadamente envolvido nesse fato e com as implicações punitivas. Já não podemos dizer o mesmo daquele que pratica atos criminosos em menor escala, daqueles que saem ilesos de uma situação delituosa, daqueles que não foram punidos e muito menos descobertos. Nesse caso, a prática delinquencial passa a ser uma característica da sua personalidade e fatalmente incorrerá a esse expediente em suas relações com pessoas, situações 6262 e circunstâncias. A eles, o risco da continuidade na vida criminosa será expressivo e certo, pois se trata de uma característica particular adotada pelos infratores e cuja prática não gera arrependimento ou culpa. Ao contrário, vivem de atos infracionais, enganando pessoas, gerando mal-estar e sendo verdadeiros estrategistas nas manobras que os retirem dos flagrantes. Portanto, tornam-se profissionais do crime. Pensam e agem de tal forma. As tendências hereditárias são parte desse quadro, compondo o histórico de vida como resultado dessa evolução distorcida, e não meramente um desenvolvimento saudável. A vivência desses indivíduos está marcada por histórias difíceis desde o seu nascimento, do abandono, da negligência, da miséria, da falta de estrutura familiar, da ausência de afeto e de outras sequelas como abusos infantis, estupros e violência física. Desse modo, o indivíduo apresenta tendências à criminalidade pela carga hereditária e até mesmo pelo histórico de outros membros da família e, ainda, por influência das amizades que o influenciam à facilidade de obter satisfação imediata em razão de um impulso. Com a diferença de que estas são desviantes, abusivas, violentas, agressivas. Revelam a distorção do entendimento das condições pessoais e sociais como quem devolve o “mal” presente e internalizado em sua pessoa respondendo aos meios e ambientes dos quais participa, não como integrante e membro dessa sociedade, e sim como alguém que retira, toma, rouba, fere, mata. Deságua em tal carga explosiva a expressão de constantes impulsos internos que revelam o seu modo de ser internamente, com conflitos, distorções e percepções equivocadas; e como quem se livra de parte de sua pressão interna. Na realidade, não há prova de que exista o “criminoso nato”. Ninguém tem uma hereditariedade tal que deva ser inevitavelmente um criminoso, independentemente das situações nas quais é colocado ou das influências que sobre ele exercem. Certo tipo de temperamento, que se supõe ser herdado, poderá preveni-lo de ser criminoso num ambiente e, em outro, se tornar, seja em razão das condições pessoais (traços 6363 63 de personalidade), seja em razão do envolvimento com a situação, considerando este um indivíduo de média inteligência ou um estúpido. Toda pessoa poderia ser um criminoso em potencial, de acordo com o encaminhamento de suas tendências. O caráter de fenômeno coletivo da delinquência nas cidades está associado ao grande número de casos dos crimes individuais, sendo uma expressão da vida em sociedade, apesar de estarmos nos referindo a respostas que o indivíduo encontrou para lidar com a situação e o contexto específico em que se encontra. Esse indivíduo é, por sua vez, membro do grupo maior, social, não se tratando unicamente da sua marca individual, bem como a de pertencer à coletividade. Dessa maneira, se outras razões não forem consideradas na incidência de determinado tipo de crime, a própria justificativa está por se tratar de um fenômeno coletivo. 1.3. A alienação como promotora de violência O indivíduo alienado está à margem, tanto dele mesmo como em relação ao mundo que o cerca. Entre estar alienado ou ser alienado haveria uma diferença em relação às formas de atuar. Se a alienação for circunstancial, isso representa que, para determinada situação, a pessoa se colocará distante, sem se propor a uma reflexão e a uma tomada de consciência. Seria o caso de fechar os olhos para algo em específico. Torna-se indiferente moralmente, socialmente, politicamente e intelectualmente. Já a alienação enquanto uma constante, uma conduta alienada, envolve a marginalização do próprio indivíduo diante da vida e de condições que o conectem com a realidade social mais ampla, como a de sua história particular, envolvendo aí sua família, seus amigos, colegas de trabalho, etc. Estabelece para si uma condição e postura de vida que abre precedentes para outros fatores entrarem em ação e tornarem-se influência na sua história pessoal. Quando o indivíduo abre mão do pensar, não desenvolve a crítica necessária para sua interlocução, o que ativaria a qualidade da sua reflexão (diálogo mental instituído, ponderando aspectos de um lado 6464 e de outro, que, por fim, levam a uma conclusão ou constatação sobre algo ou fato). Como poderia se aprimorar e se desenvolver? A alienação é contráriaao processo de aquisição do conhecimento e da expansão da própria consciência, que é o que amplia a visão de mundo do homem. Indivíduos propensos à agressividade são restritos na sua atuação, têm um modo de pensar estabelecido, pois daí justificam suas ações. Sua tendência para a prática criminosa revela isso, a ausência de ocupar-se com atividades integradoras e que o coloquem em atividade. Esse indivíduo é assim porque é do modo como é, e não tem atrativo nenhum para modificar-se, aperfeiçoar-se enquanto melhoria pessoal. Vê e entende o mundo a partir dessa ótica própria, que o coloca reduzido diante das situações, associando, inclusive, que tudo teria a ver com ele. Esse indivíduo sente-se à margem de todos, sem as oportunidades que somente outros possuem. Desse modo, não consegue gerar o seu próprio processo de inclusão. Se tivermos noção da distinção entre conduta normal e conduta patológica, muitas situações poderão facilmente ser entendidas. Todo tipo de comportamento atípico, fora do normal, provoca alterações na vida social, na interação do indivíduo com o seu meio. E se ele oferece um grau de risco maior, cabe procurarmos diagnosticar e nos proteger. A ocorrência de crimes, quando não resultante dos contrastes sociais, está também associada ao grau patológico mental do criminoso, que, na manifestação doentia, quando em crise e em situação de cometer práticas delituosas ou criminosas, entra num estado tal de alienação que tende a desconhecer as implicações de seu ato, como se não soubesse o que está fazendo. Assim, chega muitas vezes a desconhecer a gravidade ou mesmo o risco a que se expõe e aos demais. E com o agravante de estarem acompanhados de delírios e alucinações, situação na qual a associação entre alienação e crime é existente. Em que, quanto maior for o comprometimento da normalidade, maior será o nível de alienação e, consequentemente, maior propensão à prática criminosa. 6565 65 São frequentes os crimes cometidos por esquizofrênicos, com marcas de violência e imotivados (sem qualquer motivação específica para tal), e as pessoas mais próximas, geralmente as envolvidas com a família, são as que correm mais riscos, assim também como um desconhecido, até mesmo profissionais que cuidam dele, doente. Como não precisa ter um motivo forte para cometer um crime, ele é um potencial agressor. E todos os esforços em prevenção são necessários. Não se percebe com razões de ódio, ciúmes, revolta. O homicídio é cometido friamente, não sendo passional, sem qualquer noção da lógica. Logo, torna-se difícil prever quando este irá eclodir numa prática criminosa. O esquizofrênico tem alterações do pensamento, regredindo a estágios primitivos do seu desenvolvimento psicológico – pensamento mágico infantil. Ele é muito propenso à automutilação, sendo um risco para ele mesmo, porque pode atentar contra a própria vida. Já os crimes provocados por epiléticos são cometidos pela imprevisibilidade, sem motivo aparente, extraordinariamente violento, sem qualquer lembrança por parte do criminoso. A vítima poderá ser um desconhecido qualquer, que esteja presente no momento do surto. Nessa situação não há remorso, podem ter impulsos ao furto (cleptomania), ao incêndio (piromania) e ao álcool (dipsomania), ao exibicionismo das partes sexuais, muitas vezes acompanhado pela incompreensão das pessoas que desconhecem tratar-se de pessoa com comprometimento mental. Em muitos acessos epiléticos, as manifestações podem vagar sem destino, fazendo desenhos e escrevendo cartas, sem recordações do ocorrido após sair dessa crise. A agressão epilética é do tipo sadomasoquista e associada com a libido homossexual (libido destrutiva). São crimes sem motivo, sem remorso e sem premeditação, ferozes na ação, a ocorrência de muitos golpes e seguido de amnésia. Todavia, há alguns casos em que a premeditação poderá ocorrer, acompanhada da não ocorrência de amnésia. Nos intervalos de crises, muitos epiléticos têm humor instável, ora são dóceis e afáveis e ora são sombrios. Mas o comportamento habitual é ser explosivo e agressivo. 6666 Os casos de paranoia também podem eclodir em práticas criminosas, caracterizada pelo desenvolvimento de delírios de natureza não alucinatória, de causas internas, sem qualquer prejuízo do uso da inteligência. O indivíduo paranoide acredita na realidade que conclui ser de seu inimigo apesar dessa constatação existir tão somente em sua própria mente. O crime, quando cometido, é uma ação acompanhada de lógica, em que se apresentam as seguintes modalidades, conforme Dourado (1969): • No delírio de interpretação, o paranoide deforma a realidade, obedecendo às suas emoções, aos seus sentimentos, percepção e impulsos inconscientes. Os sofrimentos morais são produto de projeção advinda da maquinação alheia de inimigos ocultos que pretendem aniquilá-lo. Surgem deduções falsas que ampliam, modificam, adulteram e mistificam a realidade objetiva. Surge a ideia do crime, como expressão de ter que acabar com o seu inimigo, pois, ao considerar-se perseguido, tende ao desejo de vingança. Tais delírios de interpretação desdobram-se em delírios de grandeza, ciúme erótico, de hipocondríaco e autoacusatório. Dificilmente se apresentam de forma mista. Suas reações podem se apresentar de duas formas: a. Ou se tornam agressivos (perseguidos – perseguidores), podendo cometer suicídio. b. Ou são resignados, sem oferecer qualquer tipo de ameaça social. O estado mental do paranoide caracteriza-se pela ausência de confusão de ideias, com boa memória e inteligência. • No delírio de reivindicação, há a presença de ideias obsessivas com alta carga emocional, em que qualquer tipo de frustração passará a ser o centro de atenção do delirante, sendo discrepante a reação diante do fato. A causa costuma ser insignificante, o prejuízo menor ainda, entretanto a preocupação é extrema e vai alimentando aos poucos a ideia criminosa. São reivindicadores e 6767 67 friamente impulsionados por delírios de cunho político e religioso maníaco. Portanto, é válida a seguinte formulação: • Exaltação emocional + ideia obsessiva + intelectualização delirante do ato = crime paranoide. Sua conduta é caracterizada pelo egocentrismo, ou seja, profunda hostilidade contra todos, acreditando que todos estão contra ele e, por isso, alimenta sentimento de rejeição, de infelicidade ao se considerar vítima das situações. Costuma ser orgulhoso, desconfiado e vaidoso, valendo-se de um grau de agressividade elevado. Poderá desenvolver um quadro psicótico. • No delírio de imaginação, desenvolve-se a mitomania ou a alteração da verdade, passando a acreditar nas próprias mentiras. Caracterizado por indivíduos sem crítica, com falso juízo da realidade e grande capacidade imaginativa. Como forma de aumentar sua autoestima, poderá chegar ao ato criminoso, como compensação. Assim, projetam no mundo exterior suas criações imaginativas, como se fossem realmente reais. O sentimento de rejeição determina o comportamento antissocial, sendo a falta de afeto e de rejeição no período da infância marcas do seu desenvolvimento, promovendo inúmeros ressentimentos e hostilidade com o meio social. A falta de higiene é também uma das características presentes entre pobres e miseráveis, e também presente na promiscuidade dos cortiços, das favelas onde falta tudo: espaço físico, luz, instalações sanitárias, oxigenação ambiental. A marca da injustiça social é severa e determinante na vida das pessoas excluídas materialmente, advindas de tamanho contraste socioeconômico. A carência de recursos é determinante na criminalidade, seja contra a pessoa, contra o patrimônio e contra os costumes. Em contextos de moradias promíscuas, as crianças assistem a cenas de violência e de 6868 sexo com consequências para o seu desenvolvimento saudável, pois são precoces e expostas a uma crua realidade sem compreensão qualquer. Sem contar as doenças infectocontagiosasentre as pessoas que vivem nessas condições precárias. Esses aspectos também estão associados aos cuidados com o corpo e sua higiene, pois quando há falta de asseio na habitação, há também precariedade com o corpo, e esses aspectos têm ou podem ter influência na psique da pessoa. A nutrição e a criminalidade, de forma indireta, também estariam associadas. Nesse caso, o indivíduo com privação alimentar poderá ser induzido ao furto, como forma de driblar tal problema emergencial. A subalimentação e o estado crônico de privação alimentar levam indivíduos a comportamentos e sentimentos associais (avessos à socialização), como o ressentimento, a irritabilidade, a revolta, o ódio e a predisposição ao ato delinquencial. A ingestão abusiva do álcool e o uso de drogas geram o desequilíbrio orgânico e psíquico, funcionando como fatores predisponentes ao crime. A geografia da criminalidade faz parte da estatística criminal diante da ocorrência e da frequência associadas a determinadas regiões, bairros e estados de um país. É possível observar mudanças, diferenças que promovem reflexões pertinentes ao que estaria promovendo a delinquência. O meio geográfico influencia diretamente sobre o comportamento dos grupos (DOURADO, 1969). Temos, a partir dessa análise, os elementos que constituem o quadro natural da vida dos grupos. São os seguintes: a. Fatores físicos e antropofísicos: relevo, clima, tempestades, a linha litorânea, a combinação da natureza e a atividade humana. b. Fatores imediatos e mediatos: atuam diretamente sobre a vida humana coletiva e outros que atuam sobre a natureza. Estes, por sua vez, afetarão coletivamente os grupos. 6969 69 c. Fatores agentes e condicionantes: atuam de forma direta ou indireta no social, enquanto outros oferecem possibilidades para surtir determinado efeito social. Os mais variados fenômenos socioculturais advindos do fator ambiental, a distribuição e densidade das populações, as etnias distribuídas em determinadas regiões, o tipo de organização econômica, social e política, juntamente com o progresso das nações, as crenças religiosas, as diferentes estruturas de composição familiar, os números da violência nas cidades e os meios pelos quais o indivíduo encontra a delinquência são relacionados também às influências geográficas. Isso nos mostra que regiões periféricas, com menor acesso às possibilidades de que outros gozam, por estarem em outro local, permanecem desproporcionais, mantendo uma estrutura social desigual. 1.4. A violência quando se torna crime A violência associa-se ao crime, à conduta delinquente e transgressora que fere princípios da vida, dos elementos humanos essenciais para se viver. É expressão antissocial nos seus efeitos, demonstrando a ignorância total das pessoas, a ausência do exercício da ética, com plena ausência de percepção social, no quesito de não se lastimar por lesar ou provocar o mal na vida em sociedade. E as suas repercussões são cruéis, muitas delas definitivas, em consequência de crimes hediondos, tais como homicídios, estupros de menor ou incapaz (como judicialmente se nomeia), em que o valor da vida não é qualificado e nem mensurado na sua proporção devida. Isso é o resultado da incongruência da interação de dois fatores fundamentais: o indivíduo refém dessa realidade e seu contato com a sociedade. Ricotta (2016), no livro A psicologia do comportamento criminoso, reflete que, na sociedade moderna e globalizada, temos uma minoria dominante que vive o dilema de vencer a qualquer custo os seus semelhantes, com o intuito de obter uma espécie de poder especial 7070 sobre a própria vida e até sobre a morte. Afinal, a violência é pratica que visa o poder, resigna o outro de algum modo, a fim de promover o seu sofrimento. Mas a grande maioria das pessoas alimenta a perspectiva de se realizar como ser humano e ter acesso ao que precisa para viver com qualidade: moradia, trabalho, ambiente social, saúde, educação. Esse grupo social maior aspira tal posição e luta para que se mantenha na condição de não excluído, nem mesmo desprivilegiado. Lutam, portanto, para vencer os obstáculos do dia a dia e da sua superação, pois, na sua convivência social, o indivíduo habitualmente tem conflitos nas suas relações interpessoais, sociais e coletivas. Muitos não conseguem tal superação e posição, buscando formas ilegítimas ou violentas para vencer, ainda que atentem contra a vida de outros ou que isso venha a prejudicá-los de algum modo. O aspecto ético passa a ser muito discutido nesse âmbito, pois representa a estrutura do caráter e da formação da personalidade do indivíduo que, ao não estar preparado para emancipar-se em sociedade e buscar galgar posição de respeito, poderá ser acometido de distúrbios de toda ordem, vivenciar conflitos que lhe coloquem em estresse e em crises profundas, modificando seu comportamento diante das pessoas. Para aqueles predispostos a condutas delinquenciais, por questões de caráter, personalidade, deformações adquiridas por vivências desastrosas, vencer pode representar algo a qualquer preço, com total quebra dos modelos éticos. 1.5. O fator delinquencial como influência dos casos violentos Lombroso (2007) ocupou-se de estudar o homem diante da sua história de vida, de seu comportamento e o que teria determinado a delinquência desse ser e o que é considerado delinquente nesse homem. Em sua publicação O homem delinquente, dedicou-se, inclusive, a aspectos morfológicos, baseando-se na sua anatomia, criando o que se denominou de Antropologia Criminal. Sendo assim, tais estudos influenciaram o Direito Penal, partindo para uma linha de critérios 7171 71 objetivos e menos abstratos sobre o delito e o criminoso em si. O estudioso chegou a conclusões interessantes que vieram colaborar com a Política Criminal. Conforme essas conclusões, o criminoso nato está sujeito ao seu impulso criminal, sem qualquer impedimento moral para tal ação, e que a sociedade tem o direito de proteger-se e prevenir- se de tais pessoas que oferecem risco e perigo iminente, confiando na prisão perpétua e, para alguns casos excepcionais, a pena de morte – procedimentos que entendeu ser necessário. A adaptação do indivíduo em seu grupo social se inicia na puberdade, que, mediante seu desenvolvimento, aprende a fazer a diferenciação entre o normal e o criminoso, sendo capaz de reprimir componentes e impulsos instintivos, tipicamente criminosos. De acordo com a resposta do jovem frente a isso, se tal aprendizado não ocorrer, poderão existir três classes de criminosos, não estando associadas à condição socioeconômica exclusivamente. A violência é democrática, atingindo todos os grupos sociais, assim como o crime. São três modelos: • O neurótico: quando os conflitos psíquicos entre os aspectos sociais e antissociais da personalidade têm origem na infância e na vivência posterior, sendo, portanto, legitimados. • O normal: quando a causa da criminalidade é sociológica. • O criminoso: cuja etiologia é biológica e orgânica. Naturalmente, não podemos afastar a possibilidade de indivíduos normais tornarem-se criminosos sob a influência de determinadas circunstâncias específicas, como privações de toda ordem: afetiva, moral, social, cultural, intelectual. Para entendimento da Psicologia Criminal, de acordo com pesquisas feitas na divisão entre as ciências criminologia e psicologia, Ricotta (2016) ressalta que é importante que essa porta 7272 tenha se aberto no estudo dos fatores predisponentes da conduta criminosa, com repercussões severas na sociedade. O estudo dessas mentes criminosas é fonte de interesses em razão do perigo que oferecem, dos delitos que são capazes de cometer e as consequências desses atos nas demais pessoas e na coletividade, de acordo com a abrangência. Desse modo, utiliza-se o exame psicológico do comportamento antissocial, realizado de forma científica, a fim de desvendar o caráter e astendências do delinquente. Os motivos desse tipo de comportamento serão verificados na avaliação de periculosidade, na avaliação da reincidência e na extinção da periculosidade. Ao estudar o criminoso em si, a criminalidade e os fatores endógenos e exógenos que a influenciam diretamente, a Psicologia Criminal passou a integrar a ciência da Criminologia. Sobre o efeito da ação dos fatores endógenos, muitas, transitórios ou permanentes, e de onde se extrai a explicação dos mecanismos de vários crimes e a indicação dos meios de combate à periculosidade que estes indivíduos oferecem no convívio social, tendo aí o estudo da psicologia e da psiquiatria como recursos para o resgate da saúde psíquica. 1.5.1. Tipos de criminosos Os estudos de Lombroso (2007) são referenciais até o presente, com a contribuição de novos pesquisadores do assunto, classificando os criminosos na seguinte categorização: • Criminoso nato. • Falso delinquente, pseudodelinquente ou delinquente ocasional. • Criminaloide (entende-se como sendo o “fronteiriço”), aquele que é “meio louco”, “meio delinquente”. Na observação da Antropologia Criminal, há a presença dos fatores individuais do crime, abrangendo os aspectos endógenos (somáticos e psíquicos da vida do homem) nos quais a psicologia criminal se insere na Biologia Criminal, por meio de um estudo morfo-psico-moral do 7373 73 delinquente, compreendendo a anatomia, a psicologia e a psicopatologia do criminoso. Os aspectos sociais que conduziram o indivíduo à ação criminosa são também considerados, bem como o núcleo familiar e social na gênese do delito e na qualificação da sua estrutura e formação pessoal. Cândido Motta (1925, apud FERNANDES; FERNANDES, 2002) criou uma classificação composta por cinco tipos de criminosos: • Criminosos ocasionais (mesocriminosos: do tipo “a ocasião faz o ladrão”) – Têm o senso moral fraco, mas têm uma vida normal. Sucumbem diante de algum fato externo a ele próprio, principalmente de ordem social. Os delitos mais comuns são o furto e o estelionato. Arrependem-se, confessam o crime e são até comportados na prisão, por isso estão dispostos a não mais cometerem nenhuma prática criminosa. • Criminosos habituais (mesobiocriminosos: o biológico é predisponente e o mesológico é desencadeante) – Começam, desde a infância, a praticar atos delinquentes, unindo-se a gangues e quadrilhas. São propensos ao uso do álcool e das drogas, deteriorando-se tanto fisicamente como moralmente. Fazem parte da escória dos prisioneiros e raramente se corrigem, pois são incapazes de levar a vida honestamente. Cometem qualquer tipo de delito, até os homicídios em série. São geralmente pobres e permanecem pobres, pois não conseguem se estruturar na vida. Empregam o uso da violência nos seus ataques como forma de assustar suas vítimas e facilitar a sua ação. Raramente são astutos e com alguma instrução, e nesses casos, por meio de sequestros, assaltos a bancos e estelionato, conseguem arrecadar algum valor financeiro. • Criminosos impetuosos (mesocriminosos preponderantes: apresentam potencial interior para a prática criminosa e se manifestam se houver estímulo externo) – Não premeditam, agem estimulados pela honra. Apesar do psiquismo bem 7474 estruturado, uma falha do senso crítico desencadeia uma reação em curto-circuito, não havendo, nesse momento, juízo de valor, pois, caso houvesse, sua conduta cessaria. São aqueles tipos de crime estimulados pela passionalidade, por discussões imprevistas no trânsito e bares. Geralmente se arrependem, pois costumam ser honestos. Observa-se neles que a agressividade e o superaquecimento das emoções inibiram o senso crítico. • Fronteiriços criminosos (biocriminosos preponderantes: biologicamente anormais e esperam a oportunidade exterior para a prática ou a conduta criminosa insurgir) – Estão na fronteira entre a normalidade e a doença mental. Têm deformidade do senso ético-moral, ausência de afetividade, insensibilidade e frieza, tendo como característica básica a ausência de arrependimentos. São os criminosos mais perversos de todos, incorrigíveis e de alta periculosidade, iniciando-se na ação delituosa desde a infância ou adolescência. A morte costuma ser precoce, em confrontos com a polícia ou mesmo com outros criminosos. Aparentam normalidade, confundindo juízes e promotores, mas a reincidência é certa, tendo como guia uma ideia e um planejamento mórbido que recomeça após cada execução. Seguem determinado ritual, como atear fogo ao corpo da vítima ou de criminosos específicos, em determinadas modalidades de crimes, como aqueles que envolvem somente homossexuais ou prostitutas. Têm deformações de cunho sexual (sadismo, masoquismo, homossexualidade ativa e passiva) ligando a crimes dessa ordem. São chamados de loucos morais, psicopatas e sociopatas, idiotas morais ou condutopatas. • Loucos criminosos – (biocriminosos puros: é o fator biológico que o leva ao crime) – Indivíduos com alterações mentais permanentes e que cometem crimes. Podendo ser divididos em dois grupos: • Em decorrência de uma ideia mórbida: que brota do nada e se torna obsessiva, doentia, dominando o livre arbítrio. O crime surge envolvido a muita reflexão (paranoides e esquizofrênicos paranoides). 7575 75 • Impulso momentâneo: desencadeia reação imediata em curto-circuito, sem motivação plausível. Agindo sem pensar, com ferocidade e múltiplos golpes – convulsão comportamental (epilépticos ou oligofrênicos). Nos dois grupos, os delinquentes comentam suas intenções, ameaçam, atacam abertamente as vítimas, sendo elas conhecidas ou não. Confessam o crime sem arrependimentos e tornam-se indiferentes ao processo penal (frios e insensíveis). O médico alemão Baer (apud FERNANDES; FERNANDES, 2002) formulou estudos diferentes daquele citado por Lombroso (2007). Ao trabalhar nas prisões de Berlim, ele observou, em diversos casos, que tais criminosos não se distinguiam das pessoas fora dela, dos não criminosos, por meio de algum sinal específico que os identificasse. Confrontando Lombroso (2007), segundo o qual, o criminoso tem uma morfologia específica que lhe determina tal condição. E mesmo com as novas visões que surgiram a partir da criação da Antropologia Criminal, o grande mérito reside em esta ser a marca inicial de todos os estudos criminológicos e o surgimento da teoria da disposição, “a teoria do atavismo”, que é o aparecimento, em um descendente, de um caráter não presente em seus ascendentes imediatos, porém remotos, tidos como malformações atávicas. Decorre daí duas linhas de atavismo: • Os defensores do atavismo físico. • Os defensores do atavismo moral. 7676 2. Conclusão Figura 7 – Massacre do Carandiru Fonte: capa de Carandiru – O filme. Direção de Hector Babenco. Rio de Janeiro: Globo Filmes, 2003, 97 min. Temos um aspecto característico nas ocorrências violentas que é a sua recorrência, ou seja, a sua frequência. E isso ocorre em decorrência de influências ambientais, psíquicas e intrafamiliares, as quais permanecem atuando sob a ação das mesmas condições precárias. Enquanto não forem tratadas, o estímulo deformador e de aniquilamento do ser humano permanecerão presentes e se expressando na sociedade. Podemos observar também que a progressão da violência, quando não mediada, resulta em sua escalada, gera expressões violentas de maior intensidade, chegando potencialmente à prática criminosa. Esta assume, em consequência, proporções maiores: judiciais, policiais, psiquiátricas e punitivas, do modo como o sistema prisional e carcerário atua, havendo a perda de sintonia com ações de parâmetros saudáveis. Com isso, é decretada a passagem para uma condição criminosa, comprometendo, de uma vez por todas, os laços que até então existiam, no caso das famílias, e entre pessoas conhecidas. 7777 77 Os delinquentes sabem o que é ter uma boa conduta, mas preferem infringir a lei porque sua estrutura moral,já formada desde o período da infância, é deficiente. Contamos, em nossa análise, com influências outras, além das ambientais, como as relativas à sanidade, ao uso e estímulo de drogas, à miséria, à alienação social, à delinquência, aspectos que diminuem a força moral que trabalha de forma contrária à existência de comportamentos antissociais e instintivos. O risco e o perigo são presentes na sociedade e acusam a permanência desses efeitos, o que gera a cultura do medo. O sentido de perigo é iminente e pode ser variável e previsto em alguns casos, controlados por profissionais especializados. Poderemos prever a ocorrência desses estados e situações de risco e de perigo com pessoas que já tenham cometido algum tipo de delito, cuja probabilidade de incidir novamente, em outro fato criminoso, é real. Diante desse cenário, deve-se aumentar a vigilância e o acompanhamento desses casos, nos cuidados relativos às recaídas, algo comum no caso daqueles que estão em algum tipo de tratamento ou assistência. TEORIA EM PRÁTICA O segredo envolvendo um caso de violência Zélia, de 35 anos, com duas filhas menores, procura o atendimento psicológico do serviço de atendimento de uma unidade do CRAS. Relata ao psicólogo que se sente com dificuldade para aplicar limites nas filhas, que não a obedecem e agem com descaso para com tudo o que ela pede e diz. Afirma que elas têm tido comportamento agressivo na escola, que a coordenadora pedagógica pediu que procurasse atendimento psicológico para desenvolver maneiras de se relacionar com as filhas com mais autoridade. Houve uma sequência de três atendimentos e Zélia relata que é considerada como “burra” pelo marido, e 7878 que também suas filhas têm dito isso a ela. Foi verificado, no contexto terapêutico, que ela passou a acreditar nisso, entendendo, por fim, que não sabia ser boa mãe e talvez nem boa esposa, pois era burra e devia fazer tudo errado. No quarto atendimento, foi solicitado que ela viesse sozinha, sem a presença das filhas. Então, o psicólogo teve acesso a um relato inesperado. Zélia estava sendo vítima de violência psicológica e também física, mantendo esse segredo e sentindo-se uma mulher com poucas habilidades, pois além de se considerar burra, ela recebia maus tratos de Saulo, com quem vivia e que a desqualificava constantemente. Este, a cada dia, a criticava na frente das crianças, apontava defeitos em tudo na casa e também era frequente jogar o prato de comida na parede. Saulo afirmava que Zélia não prestava nem para fazer comida boa. A mulher, na tentativa de poupar as filhas, as retirava do ambiente sempre que o clima era nocivo. No entanto, a marca de Saulo era de torturar sua então esposa, fazendo ela permanecer ao seu lado todo o tempo. As filhas se acostumaram a sair de casa a todo momento em que o pai chegava, deixando o que estavam fazendo para que ele não brigasse com elas. Zélia ainda tentava poupar suas filhas, mas não tinha o respeito delas. Zélia finalmente chora muito e diz que seu marido tem uma arma e toda vez que ela se esquiva de ter intimidade com ele, sua atitude é forçá-la sexualmente, estuprando-a com a arma na cabeça. Por sua vez, ela tem que ficar quieta, em silêncio. Como sugere que possa ser o direcionamento desse caso em se tratando da alegação de violência? Como deflagrar o segredo familiar? 7979 79 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. A relação do crime, do ponto de vista do indivíduo e da sociedade, tem enfoques diferentes. O que basicamente diferencia um do outro? a. Tanto o indivíduo quanto a sociedade estão interligados, não sendo, portanto, diferentes. b. No primeiro, o enfoque está no histórico de vida e, no segundo, no seu comportamento social. c. A personalidade do indivíduo, somado aos seus aspectos hereditários, é que propiciará comportamentos e condutas delinquenciais em seu meio (sociedade). d. As influências ambientais são determinantes tanto no indivíduo quanto na sociedade. e. A complexidade do tema nos aponta que é multifatorial e nem sempre o ambiente é determinante na promoção dos casos de violência. 2. A delinquência somente existe na população de baixa renda? a. Sim, tal conduta está associada aos índices de pobreza. b. Não, está associada à má formação de personalidade. c. Não, é democrática, atingindo todas as classes sociais e faixas etárias. 8080 d. Sim, faz parte do maior problema relacionado à criminalidade. e. Tende a surgir por não haver condições igualitárias a todos. 3. Por que há a associação da violência com o uso de drogas? a. O uso de drogas favorece a ocorrência de violência: do roubo ao tráfico, de uma agressão física ao homicídio. b. O uso de drogas está associado à toxicomania grave, devendo o usuário ser tratado em vez de considerado um criminoso. c. O crime e a conduta violenta predispõem o sujeito ao uso das drogas. d. O uso frequente de drogas deteriora o indivíduo, predispondo a condutas antissociais, elevando seu potencial violento. e. A alienação o torna um elemento sem qualquer sensibilidade. Referências bibliográficas ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. BORDIEU, P. O poder simbólico. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. CULTURA LIVRE. Anomia – Conceito. 2018. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/ https://culturalivre.com/anomia_social_coercao_social_teoria_de_emile_durkheim_sociologia/ 8181 81 DIAS, J. F.; ANDRADE, M. C. Criminologia: o homem delinquente e a sociedade criminógena. Coimbra: Coimbra Editora, 1997. DOURADO, L. A. Ensaio de Psicologia Criminal. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. FERNANDES, N.; FERNANDES, V. Criminologia integrada. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2002. LOMBROSO, C. O homem delinquente. São Paulo: Ícone Ed., 2007. MOTTA, C. Classificação dos criminosos: introdução ao estudo do direito penal. São Paulo: Estabelecimento Gráphico J. Rossetti, 1925 RICOTTA, L. C. A. Psicologia do comportamento criminoso. Curitiba: Juruá Ed., 2016. SE LIGA NESSA HISTÓRIA. Violência e criminalidade. 2018. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. Gabarito Questão 1 – Resposta C Resolução: os fatores endógenos e exógenos são determinantes na produção de condutas delinquenciais, afetando tanto o indivíduo como a sociedade. Questão 2 – Resposta C Resolução: a expressão violenta é democrática, ocorrendo em todas as áreas da vida, em idades variadas, gêneros, ferindo a integridade moral, psíquica, moral e praticada de diversos modos. Questão 3 – Resposta D Resolução: a alternativa D reflete que o uso de drogas é estímulo para condutas antissociais, propiciando alterações de condutas fora do controle emocional e desproporcionais. Afora que as drogas repercutem em tendências que o indivíduo já possui. Ou seja, se tiver predisposição para a agressividade, seu potencial violento se eleva pelo estímulo da droga. https://www.youtube.com/watch?v=K1oq0bekHhs https://www.youtube.com/watch?v=K1oq0bekHhs 8282 Contextualização da violência Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Contextualizar a violência estrutural. • Contextualizar a violência intrafamiliar. • Propor reflexões pertinentes às modalidades de violência. 8383 83 1. Introdução Olá! Trataremos, neste tema, o contexto em que a violência se dá e como ela é desencadeada. Podemos observar a contundência e o impacto que condutas violentas desencadeiam na vida de uma pessoa, da sua família e do contexto social em que ela vive. Por vezes, o ato violento culminará no ambiente escolar, em outras situações, nas ruas. A violência se alastra na vida em sociedade, na família e nos demais ambientes, deteriorando relações e promovendoa desagregação dos pontos de contato, de apoio, de segurança, de afetividade, de proteção e de sensibilidade, afinal, todas essas instâncias ficam abaladas. A complexidade humana nos faz enxergar, por meio de um prisma amplo, os fatores envolvidos na contextualização da violência como elemento de impacto, abalando o que o indivíduo necessita para viver de forma saudável. Alguns fatores funcionam como gatilho, quando associamos as condições socioeconômicas, os contrastes e desigualdades presentes na sociedade em que vivemos, além de existir uma ausência de mentalidade crítica e humanizada frente aos problemas que boa parte da população vivencia, tal como se tornassem vítimas da violência. Nesse jogo de forças, o que até então costuma-se fazer é não pretender se identificar com essa realidade, pois, na corrida para obter uma melhor condição de vida, muita competitividade desenfreada é cultivada de modo a excluir uns em detrimento da inclusão de outros. Seja por despreparo, ignorância, dificuldade de acesso à escolarização para que possam fazer boas escolhas, bem como falta de estrutura psíquica por parte dos pilares da família. Então vamos lá percorrer esse trajeto que nos permita boas reflexões sobre o assunto e, de algum modo, mobilizar algumas ações que possam surgir dessa formação – que é nosso intuito. 8484 ASSIMILE Assista ao vídeo A violência no Brasil explicada por Sérgio Adorno. Trata-se de uma entrevista concedida pelo sociólogo ao Jornal Nexo (NEXO JORNAL, 2017). Nessa riquíssima apresentação, o sociólogo Sergio Adorno expõe o seu ponto de vista acerca da realidade brasileira, explica as consequências da disseminação da violência na sociedade e enfatiza de que maneira ela reforça as desigualdades sociais no Brasil, fornecendo, ainda, elementos para a compreensão num contexto abrangente, indo para além da instância privada e alcançando contornos e proporções grandiosas, devido ao seu enraizamento na vida coletiva e institucional, percebida pela repercussão da diminuição dos fatores de segurança e de proteção que a sociedade precisa para viver. E o que temos como realidade é a repercussão direta na vida das pessoas, pelo medo, pela intolerância, ganância, pelas tensões e pelos conflitos de alta intensidade, pela insatisfação, brutalidade, competitividade, só para citar alguns. Tudo isso ocorre em razão de desconhecermos maneiras de convivência social que sejam menos agressoras. A falta de oportunidade e a proporção dos problemas é o que vêm tornando a violência algo trabalhoso de se erradicar. Vale a pena conferir! 1.1. O contexto social em que vivemos Bourdieu (2007) é um renomado sociólogo que aborda o aspecto da desigualdade social como elemento de promoção da violência, e principalmente quando ela é perpetuada pelas instituições. 8585 85 Ele é um ferrenho crítico da globalização e entende que a violência se perpetua por causa da desigualdade de recursos e pela falta de oportunidade para todos. Desse modo, o estudioso sustenta que são as relações econômicas, culturais e simbólicas as responsáveis por guiarem as pessoas no contexto da hierarquia social vigente. Elas são reforçadas pelo habitus (hábito), na reprodução e na legitimação reiterada pela consciência desse entendimento da estrutura social, e isso ocorre também de forma inconsciente. Desse modo, é transmitida e reproduzida pelas relações humanas. Bourdieu (2007) contribui com três conceitos: a. Habitus: que é a incorporação dos recursos do indivíduo. b. Campo: o espaço onde os indivíduos atuam e onde surgem os choques e conflitos sociais. c. Capital: oferece a compreensão simbólica de que há um capital social, cultural, econômico e simbólico, havendo, portanto, uma aquisição que passa a fazer parte do sujeito. Sobre o gosto cultural, Bourdieu (2007) compreende que ele é adquirido na história de vida pessoal orientada pelo aprendizado familiar, por isso não está acessível a todos. Por outro lado, o autor constata a existência de uma violência simbólica como uma manifestação decorrente do poder simbólico. Bordieu ressalta que há uma visão de sujeito subordinada à sua própria condição imposta socialmente como alguém condenado ao exercício do jogo social. Ele aponta que há uma relação de dominação – subordinação presente na violência simbólica, não expondo o sujeito como agente dessa relação, mas como alguém que se resigna de forma estabelecida, não havendo o que pensar ou refletir. Ela é exercida pelo grupo social, no qual não se vislumbra a viabilidade de uma mudança 8686 concreta do mundo social. Nele, a subordinação é entendida como natural e a opressão social são entendidas como naturais e legítimas, e não como fruto da injustiça e da inferiorização. Mesmo havendo uma mudança de status, esta acaba sendo ofuscada pela ordem reproduzida na sociedade. Uma visão que preconiza a restrição de um ponto de vista macro, na abrangência de grupos e de classes, sem referendar a violência simbólica que marca a convivência afetiva e cotidiana dos indivíduos num contorno íntimo, na esfera microssocial. PARA SABER MAIS Temos aqui uma cronologia da obra de Pierre Bourdieu desenvolvendo um sistema de explicação sociológica a respeito da dominação social. A escola, a cultura e a economia foram, entre outros, estudadas aplicando conceitos novos na sociologia, tais como habitus, violência simbólica ou campo social. Propondo uma nova leitura das relações sociais, Bourdieu criou um modo de pensar suscitando críticas severas, mas também produziu uma obra profícua, utilizada nos mais variados setores sociais. VASCONCELOS, M. D. Pierre Bourdieu: A herança sociológica. Educ. Soc., Campinas, v. 23, n. 78, p. 77-87, abr. 2002. 1.2. O contexto da violência intrafamiliar Vimos que a violência intrafamiliar é um caso de saúde pública, pois assim aponta o manual Violência intrafamiliar, organizado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2001). E o grande desafio está na manutenção da sensibilidade em não compreender que tais casos que chegam em seu dia a dia profissional são atrocidades, e que, portanto, devem ser conduzidos e acompanhados, visando-se o devido ajuste e a correção. 8787 87 Assim, é preciso conscientizar a sociedade civil para que esta diminuía a cegueira existente no modo de tratar os desvalidos e desprotegidos, as vítimas e os agressores. Da mesma forma, é preciso compreender o papel e a função profissional, na medida em que fazem parte do atendimento primário, e, com isso, ter a oportunidade de conhecer os históricos de vida que demandam instruções técnicas. Alguns pontos são relevantes destacar, como prática do serviço, a fim de cumprir e dar vazão ao que é dimensionado nos atendimentos, ainda que o usuário do serviço de saúde não tenha condições de estabelecer uma crítica. Tais orientações, propostas pelo manual referenciado anteriormente, apontam para os seguintes aspectos: a. Que o Ministério da Saúde apoie estados e municípios em ações que promovam a diminuição da desigualdade social, cultural, de acesso à saúde e o pleno exercício dos direitos humanos. b. Relacionar com as questões de gênero. c. Observar os ciclos da vida que colocam pessoas mais vulneráveis. d. Alertar para casos envolvendo pessoas com deficiências. e. Atenção aos idosos, também vulneráveis. f. Cuidados com crianças e adolescentes, vítimas constantes. Observamos que se iniciam através da distorção dos sentimentos, interferindo no modo de enxergar as situações e julgando pessoas – membros do grupo familiar – estabelecendo com isso “uma espécie de verdade vigente” – que ocorre aos seus olhos – daquele que vê o contexto com parâmetros muito particulares, que estão distantes dos seus interesses, não aceitando que haja uma dinâmica própria nas interações grupais. E com isso a instalação de padrões agressivos e violentos no universo da convivência com especificidades, tipo: “Ana não fala com Carlos”, o pai só repreende seufilho, sem ter para com ele outra forma de relação, a mãe 8888 sempre dá preferência para determinada filha e com isso a outra filha sente-se rejeitada com relação a outra. Ou seja, quando há um desequilíbrio na dosagem de distribuição do afeto, da compreensão, justiça e divisão dos benefícios. As relações ficam desequilibradas, portanto, desniveladas, dando condições de existir terreno fértil para o desenvolvimento de relações disfuncionais – sem equilíbrio. Como consequência, o surgimento de comportamentos agressivos e que com determinada constância e frequência acabarão por configurar condutas violentas – que ficam evidenciadas como condutas violentas. (RICOTTA, 2012) A relação existente entre a violência estrutural, com todos aqueles fatores que influenciam e contribuem para a ocorrência de mais violência, ou seja, são geradoras de novas ações que perpetuam a conduta violenta, pela postura de superioridade e abuso de poder vivido na convivência diária e sobre aqueles que consideramos vulneráveis a esses riscos. O contexto é de interesse social e coletivo e a permanência dessa incidência depende de ações que envolvam a conscientização por parte da sociedade e das instituições, para que se tornem vias de acesso. Desse modo, as vítimas podem recorrer, ter o devido acolhimento, respeito diante da sua realidade e receberem orientação adequada para garantir-lhe alguma lucidez de como conduzir-se nesse processo. Sendo que o primeiro ato importante a ocorrer é a quebra do segredo – o vínculo que a mantém ligada ao agressor. Quando a informação é compartilhada, é uma resposta saudável ir em busca de ajuda, pois muitas vítimas, devido ao seu enfraquecimento emocional, têm pouca noção de que podem buscar ajuda, pois sentem-se acuadas, “emparedadas”, sem saída. Por isso que, durante um bom tempo vivido sobre agressões, a vítima não se conscientiza de que a sua vida seja um caso que necessita de apoio. Ainda acredita que sua realidade pode ser diferente, que o agressor vai mudar, que ela se modificará para não mais ocorrerem tais agressões. A vítima acredita na sua força vã, que tem condições de alterar aquela realidade, pois vive num contexto onde 8989 89 a presença da contradição é muito forte. As emoções são boas e ruins. E geralmente entende que denunciar vai prejudicar sua vida, pois, como apontamos antes, até mesmo passa a acreditar que pode ter algum defeito pelo qual mereça ser agredida. O fato é que a vítima, antes de despertar para sua realidade, vive na fantasia de que o que ocorre em sua vida é em razão de não ser perfeita, adequada ou que poderia ser melhor pessoa e finalmente agradar ao seu agressor. Ledo engano, ela está no caminho de permanência na dura realidade de exposição reiterada da violência doméstica, psicológica e intrafamiliar. Estranhamente, algumas pessoas mantêm-se expostas à perda de sua saúde e até da própria vida em razão de sua falta de compreensão diante do problema no qual estão inseridas, desconhecendo, muitas vezes, que a violência relacional e psicológica não seja tão nociva assim, ou venham gerar a escalada da violência, ou seja, o aumento do potencial agressor, adotando uma postura de tolerância e até se embrutecendo, frustrando- se e se desencantando com a vida. Acreditando que há algo errado consigo, tamanho é o achatamento que vivenciam. O segredo, nos casos de violência, é um elemento-chave que tem muita relação com o registro de ocorrências que já são registradas dentro do ambiente familiar. Isso deixa claro, na análise das estatísticas dos casos praticados no lar, que a incidência é maior, pois tais condutas já se manifestam muito antes da vítima decidir fazer queixa ou denúncia. Isso também ocorre, essa defasagem e ausência de denúncia, diante das ameaças a que as vítimas estão submetidas. Tudo isso mantendo o segredo familiar: por medo, vergonha, perda de autoestima e sentimento de opressão. De acordo com Saffioti (apud RICOTTA, 2012, p. 36): Não é difícil compreender a conspiração do silêncio que se estabelece em casos de violência, mesmo quando feitos por um agressor externo à família e/ou ao casal. A divulgação do ato violento compromete a imagem da vítima negativamente. Tendem a ser ocultos, seja porque são passíveis 9090 de punição criminal, seja porque a descoberta do agressor provocaria o desmoronamento de instituições, cuja gigantesca forma deriva do caráter sagrado, como no caso da família. Dada a sacralidade da instituição familiar, a sociedade marginaliza e estigmatiza aqueles que apontam suas mazelas. 1.3. Violência praticada contra crianças De acordo com o manual Violência intrafamiliar (BRASIL, 2001), as consequências da violência para a vida das crianças são traumáticas. É comum as crianças sofrerem algum tipo de violência doméstica e desenvolverem os seguintes sintomas: hiperatividade ou retraimento; baixa autoestima, dificuldades de relacionamento, agressividade (ciclo de violência), fobia, reações de medo, vergonha, culpa, depressão, ansiedade, transtornos afetivos, distorção da imagem corporal, enurese e/ou encoprese, amadurecimento sexual precoce, masturbação compulsiva, tentativa de suicídio, entre outros. Como denunciar: • Conselho Tutelar. • Programas de proteção e atendimento. • Promotoria da Infância e Juventude. • Delegacias (da Mulher, Civil). Ação da orientação: • Apresentação das Leis. • Orientação às vítimas. • Criação de programas que promovem a autonomia, gerando renda. • Qualificação das forças policiais. • Acompanhamento dos dados estatísticos e sua incidência. 9191 91 1.4. Violência praticada contra idosos No contexto de vulnerabilidade a que estão submetidos os idosos e pessoas com deficiências (PCD), há muita falta de humanidade e de sensibilidade com relação a essa etapa da vida, pois já trabalharam muito pelos outros membros da família e também para a sociedade. Quando se encontram em situação de dependência, o inverso nem sempre ocorre, sendo negligenciados e tidos com’o fardos. Eles certamente têm utilidade, dentro das capacidades físicas e mentais ainda conservadas, contudo também apresentam limitações de variadas ordens. Dessa maneira, o abuso contra os idosos surge em decorrência da fragilidade que ambos vivenciam, caracterizando uma relação de abuso contra o elemento tido como “frágil” ou “mais fraco”. Essa fragilidade aguça, no agressor, o desejo de impor-se e de estabelecer uma relação de domínio por não conseguir desenvolver afeto, respeito, cuidados, generosidade e demais valores humanos que representam caráter bem formado e estruturado. Pessoas nessas condições geralmente despertam, em pessoas saudáveis, a atitude de zelo, cuidado, proteção, assim como se faz a um recém-nascido que desperta, na mãe, a necessidade de ser cuidado. O fator desagregador internalizado, resultado de conteúdos mal elaborados e de vivências de cenários também drásticas, fazem do agressor a figura que é. Falta inteligência emocional, incapacidade de oferecer respostas melhores diante das situações da vida com qualidade, e que estejam alinhadas com os valores humanos – que garantem a integridade da vida. Como já mencionamos anteriormente, esses casos, além de propiciar reflexões do quanto pessoas podem ser capazes de gerar tamanha atrocidade e destrutividade, são contabilizados como um problema de saúde pública, além das inúmeras repercussões nocivas à saúde física, psicológica, social, cultural assim com a própria ignorância. 9292 De acordo com os manuais produzidos pelo Ministério da Saúde, para fins de estruturar condutas dos profissionais, é restrito o conhecimento acerca da violência cometida contra os idosos brasileiros, quer em instituições, abrigos, hospitais e/ou domicílios, e dos seus efeitos sobre a saúde. Desse modo, eles apontam para a vulnerabilidade desse grupo às diversas formas de violência praticadas, as quais comprometem tanto a sua qualidade de vida,com ocorrência de depressão, angústia, fobias, traumas, como abalos na saúde física, transtornos psicológicos, psiquiátricos e até a sua morte prematuramente, como menciona o manual Violência intrafamiliar (BRASIL, 2001). E a dificuldade das famílias em cuidar de seus idosos revela uma estranha relação de distanciamento, descompromisso e sequelas dolorosas no tocante a abandono, negligência, maus-tratos físicos e psicológicos, num período sensível da vida. Naturalmente que, dadas as proporções daqueles casos em que a interação já se apresentava doentia, é comum que haja a reprodução do mesmo comportamento quando o agente agressor envelhece e adquire o estágio da velhice. Com isso, ele recebe os maus- tratos, a mesma forma de tratamento que ele usou no passado, sendo, portanto, relações de vingança e desforra. Com exceção desses casos, a fase desse período da vida requer estudos e formas de acolhermos tais casos quando isso não pode ocorrer dentro da família. De acordo com o manual Violência intrafamiliar (BRASIL, 2001), para aqueles casos em que o idoso esteja sem vínculo familiar, sem condições de subsistência, em abandono ou solidão, que não tenham condições de permanecer em seu próprio domicílio ou viver com familiares, há a Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Os ILPIs abraçam os casos que envolvem fatores de proteção. Temos como referência a adoção e previsão em legislação, como: A Política Nacional do Idoso, O Estatuto do Idoso. E mesmo aqueles que se encontram institucionalizados passam por situações de vulnerabilidade, como aqueles que não se adaptam a certos lares comunitários, sendo excluídos, e tendo que ficar mudando de um abrigo para outro. 9393 93 O abandono cria rispidez por parte do idoso, que passa a etapa da velhice com amargura, não sabendo como despertar cuidados e afeto. O mesmo acontece para os casos de pessoas com deficiência que, quando maltratadas de forma reiterada, podem passar a ter condutas bizarras ou estranhas diante do isolamento a que são submetidas. Ainda que tenhamos legislação específica prevendo tais casos, com a tutela do Estado, no caso de total abandono ou de pessoa ou de familiar vinculado ao idoso e à pessoa com deficiência, essa não é suficiente para o processo educativo da sociedade. A vulnerabilidade à exclusão, à separação entre a instituição e o meio ainda é identificada. Entendê-los como membros da comunidade é um aspecto difícil, tanto para a Instituição de Longa Permanência para Idosos ILPI quanto para a sociedade, pois o desafio é protegê-los da tamanha violência a que são submetidos. A visão diante do problema é periférica: se a família exclui o idoso e não dá conta de protegê-lo, isso constitui um desafio cuja responsabilidade cabe à sociedade. E se, dentro da instituição, ele for rechaçado ou excluído, passará a ter uma ciranda de mudanças entre casas de apoio, o que repercute muito em seu estado emocional e físico. 1.5. Violência praticada contra mulheres Em relação à violência praticada contra mulheres, os dados apresentados no Atlas da violência 2019, elaborado pelo IPEA/FBSP, são alarmantes. Esse mapa tem por objetivo apresentar os dados sobre a violência anualmente e compará-los com estatísticas anteriores. Desse estudo, destacamos: • 536 mulheres foram vítimas de agressão física, a cada hora, no último ano, (representando 4,7 milhões de mulheres). • 27,4% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. 9494 • 21,8% das mulheres (12,5 milhões) foram vítimas de ofensa verbal, como insulto, humilhação ou xingamento. • 9,0% (4,7 milhões) sofreram empurrão, chute ou batida; 536 a cada hora. • 8,9% (4,6 milhões) foram tocadas ou agredidas fisicamente por motivos sexuais; 9 por minuto. • 3,9% (1,7 milhão) foram ameaçadas com faca ou arma de fogo. • 3,6% (1,6 milhão) sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento; 3 por minuto. • Mulheres jovens relatam maiores níveis de vitimização. • 42,6% das mulheres de 16 a 24 anos afirmam ter sofrido violência nos últimos 12 meses. • 33,5% das mulheres de 25 a 34 anos. • 27,1% das mulheres de 35 a 44 anos. • 17,8% das mulheres de 45 a 59 anos. • 13,6% das mulheres de 60 anos ou mais. • A vitimização ocorre com maior frequência em mulheres negras. • 24,7% mulheres brancas. • 27,5% mulheres pardas. • 28,4% mulheres pretas. Do ponto de vista da relação com o agressor: • 76,4% das mulheres que sofreram violência afirmam que o agressor era alguém conhecido. Um crescimento de 25% em relação a 2016, quando 61,2% das mulheres afirmaram conhecer o agressor. 9595 95 O contexto da violência contra a mulher nos faz refletir sobre a relação de gênero envolvida. Nesse caso, o homem surge como agressor principal e direto da vítima, a mulher, conforme mostram as estatísticas. Prova disso é que, em tempos atuais, há uma política voltada para o clareamento do feminicídio e para os riscos que a mulher assume quando vive relacionamentos abusivos e violentos dentro de casa. É preciso pensar em estratégias modificadoras desse modelo que transmite a crença da supremacia do homem sobre a mulher, ou segundo o qual o gênero feminino necessita resignar-se para poder manter-se vivo. Os altos índices de ataque ao gênero feminino tendem a atingir autonomia da mulher e faz o homem sentir-se ameaçado quando está numa situação em que a mulher sabe e pode opinar, escolhe e decide, trabalha e contribui. Para a mulher, o sentimento é de insegurança ou de que essa condição lhe faz insegura. Do outro lado, perder em poder, na relação conjugal, faz com que muitos homens se utilizem de subterfúgios para dominar o sexo oposto e, com isso, passam a ter a falsa pretensão de estancar seus problemas emocionais por meio do uso de sua força e de seu poder. Desse modo, torna-se urgente a superação da violência contra a mulher, pois desse pilar é que temos a formação de famílias. Estas, por sua vez, vêm sendo aniquiladas pela ação do feminicídio – prática criminosa que abrange os casos decorrentes do fato simples de a vítima ser uma mulher. Este é um fator de risco gravíssimo, pois aponta, ainda, que os números de casos são praticados pelos ex-maridos, companheiros e maridos. Grande também é o número de mulheres que são mortas diariamente quando tentam romper o vínculo com o agressor, em vista da violência sofrida por elas dentro dos lares. Quando tomam a iniciativa pela ruptura do vínculo conjugal, reafirmam, na visão do homem misógino, sua percepção distorcida a respeito da figura da mulher. Conforme essa percepção, a mulher está abusando da autoridade dele sobre ela, tirando-lhe sua força. Isso o irrita e 9696 o constrange. Com isso, as orientações de incentivo à autonomia da mulher, visando à garantia de sua subsistência e a criação dos filhos, têm sido parte do empoderamento feminino que tanto se aborda na atualidade. Romper o ciclo da violência é uma parte desse enfrentamento, a outra parte é a oferta de uma educação voltada para o fortalecimento da autonomia da mulher. Isso, portanto, torna-se um fator de proteção à vida da mulher e dos filhos, à vida das crianças e dos adolescentes – eixo estrutural da família que precisa ser resguardado. Esse núcleo, inclusive, quando desagregado, leva a desdobramentos negativos, como o abandono, o acesso a drogas, miséria, exclusão, falta de acesso à educação e à saúde. A luta entre gêneros parece-nos uma das maiores ignorâncias existentes, pois, nesse cenário, cessam os canais de estrutura pacífica e saudável que oferecem sustentação à vida das famílias. Quando associamos aos fatores causadores da violência estrutural, temos que trabalhar na base da estrutura familiar com o incentivo da autonomia da mulher – que é de onde se parte para se obter a sua subsistência e a dos filhos. Isso, portanto, gera uma visão que congrega os fatores de proteção. Concluímos, neste tema, que o simbolismouma pedagogia, que venha interferir diretamente com o cessar da expressão violenta na dinâmica familiar e sociedade. Seja por intermédio de informação, esclarecimentos, apoio emocional, tratamentos, propondo aos aperfeiçoamentos desses modelos de relação com padrão agressivo-violento para outro que envolva o resgate de valores humanos. E que as intervenções propostas pelos profissionais possibilitem frear, diminuir, conscientizar, prevenir e direcionar a outra prática de convivência, para então podermos assistir a alguns avanços e melhorias na qualidade dessas relações familiares por meio de ações dos profissionais sensibilizados com o tema, de instituições voltadas para o bem-estar social, saúde pública, saúde coletiva, e da promoção de 99 9 políticas públicas que deem respaldo de forma constante e frequente. Que faça a interrupção desse ciclo violento entre agressor e vítima. Podemos ressaltar que o trabalho dos profissionais em atenção às famílias em situações de violência é direcionar o aspecto do tratamento e de ações voltadas para ambos, tanto para a vítima como para o agressor. Bem como desenvolver ações que proporcionem informações, em mecanismos de atenção às vítimas, e que possam recorrer e buscar tratamento psicológico, apoio efetivo e, principalmente, proteção à vida. De acordo com estatísticas do Atlas da Violência 2018, com dados de pesquisa feitos pela DIEST – Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e Ministério da Saúde em diversas regiões do Brasil. Os dados são estarrecedores, pois percebe-se que, na violência estrutural, os fatores sociais que influenciam são as desigualdades sociais. Esse fenômeno, que é a violência, provoca sérios sofrimentos para as vítimas. Violências que poderiam ser evitadas com políticas sociais por parte do Estado, políticas que promovessem a inclusão social, econômica, cultural e intelectual dos sujeitos. Percebe-se pelos resultados dessas pesquisas que as famílias, principalmente as vítimas da violência, são afetadas emocionalmente pelo mecanismo da estrutura social vigente e passam a ser um foco de promoção de violência, tanto quanto se sentem vitimadas dos jogos de poder aos quais vivenciam de uma sociedade desigual. Como explicar esse fenômeno? Como admitir que o locus dessas ocorrências venham a ser o próprio ambiente familiar – a residência das próprias vítimas? Bem como de seus agressores. O que embasa a reincidência dos fatos violentos, ou seja, eles se tornam repetitivos, frequentes. Caracterizando, por fim, casos de violência doméstica, estupros, assédio a menores e outras agressões. Outro ponto alarmante 1010 a refletirmos acerca do local onde ocorrem tais práticas é que este deveria ser de proteção, tornando-se um ambiente onde as distorções e a doença relacional imperam. Compreender os aspectos que vão influenciar os agentes protagonistas dos casos de violência será um dos pontos, acompanhado do entendimento dos mecanismos agressores que contribuem para tais expressões desagregadoras. 1.1 Violência estrutural Para que ocorra um aprofundamento na questão da violência, é fundamental observar diversos fatores que impactam negativamente as famílias. Estudar formas de ações e prevenções que visem reduzir danos na vida de milhares de pessoas que compõem a sociedade e que passam por situações de violência. Não é possível dissociar de nossa análise acerca do fenômeno da violência. Da compreensão dos fatores que influenciam tais ocorrências violentas; que inclui o cenário da violência intrafamiliar e o seu contexto social. E ao mesmo tempo, identificar a cultura e o padrão relacional aprendido da família. De uma construção emocional precária geralmente. As condutas frequentes tornam-se um padrão repetitivo, associando a isso um aprendizado. Experiências que tenham um sentido negativo como as positivas, criam modelos de relação entre pessoas que convivem. E em casos de vivência negativa, dor, ofensa, mau trato, negligência, tom de voz alterado; as cenas aterrorizantes tornam-se o pano de fundo dessa convivência que ocorre com regularidade, criando-se, assim, o que conceituamos de padrão relacional. As pessoas vítimas de violência coadunam com o silêncio, o segredo, por estarem envolvidas e confusas o suficiente para considerar o fato como algo pertinente ou não. Pois a dubiedade faz parte desses casos para aqueles que a vivenciam, ficam sem saber como se comportar, pois são controlados e impelidos a guardar segredo para não terem mais represálias. 1111 11 As discrepâncias dos fatores sociais, econômicos, culturais, raciais, de gênero e psicológicos tornam as oportunidades diferentes entre as pessoas. Fatores que podem apontar discriminação, preconceitos e dividem sujeitos em grupo mais favorecidos, e outros, desfavorecidos; que podem contribuir para a elevação da criminalidade – parceira da violência em suas diferentes expressões. As estatísticas da violência no Brasil em todas as esferas são alarmantes, apontando-nos a grande miséria humana das condições precárias e de risco pelos quais a sociedade está exposta. Veja a imagem abaixo (Barriadas Caraqueñas) que nos situa nas precárias condições de parte da população abaixo da linha da pobreza, vivendo em encostas, lugares periféricos, sem acesso a cultura, trabalho, saúde, condições de vida adequadas. Tal contraste é uma violência desferida a esse grupo, bem como a outros que são negligenciados pela estrutura social vigente. Figura 1 – Caracas, América do Sul Fonte: Photofxs68 /iStock.com. PARA SABER MAIS O conceito violência estrutural foi definido por Johan Galtung, sociólogo norueguês, no ano de 1969, quando escreve o artigo “Violence, peace and peace research”, que discute como o poder negativo da organização https://www.istockphoto.com/br/portfolio/photofxs68?mediatype=photography 1212 social vigente e das instituições sociais afetam a população mais empobrecida. E que estes teriam um potencial real para se desenvolver, pelo contrário, ficam restringidos mediante as circunstâncias que lhes tiram as expectativas em decorrência de racismo, sexismo, desigualdades econômicas. 1.2. Tipos de violência Galtung (1969) amplia o conceito de violência, estabelecendo três tipos: • Violência direta: aquela que é extremamente visível e, consequentemente, a mais conhecida. Caracteriza-se por causar dano físico a alguém ou alguma coisa. É expressa de forma clara, portanto, identificável, seja pelos seus agentes – agressor e vítima – como aqueles expressos na coletividade, em que diversas pessoas vivem o prejuízo da ação violenta. • Violência estrutural: ocorre de forma indireta, não havendo a responsabilidade propriamente do autor da prática violenta. É multifatorial, não há um único autor do comportamento violento e é geradora de muitos prejuízos emocionais, tanto quanto de enorme sofrimento físico e mortes em escala maior. Decorrem do sistema socioeconômico, das desigualdades e do estabelecimento dessas condições precárias de vida expressas na falta de oportunidades que milhares de pessoas poderiam ter e não tem. Apresenta-se de forma sutil, não tão expressa como a violência direta, em que é identificada a autoria da conduta violenta. Gerada pela falta de um modelo de inclusão social, cultural, econômico, intelectuais, em que muitos são excluídos. Por isso associa-se a esse pensamento, a imagem de um iceberg, sendo o tipo de violência submersa, silenciosa, que achata boa parte da sociedade tendo em vista uma má distribuição de poder. 1313 13 • Violência cultural: expressa de forma indireta, mais sutil que a anterior e é estabelecida no tempo. Faz parte das diferenças existentes entre as pessoas no tocante ao seu padrão transacional – conjunto de crenças, valores, cultura familiar e religiosa, que são as diferenças raciais, deda violência tem seu enfoque na dominação do sujeito, na supremacia de uma pessoa sobre a outra, na tentativa frequente de estabelecer poder. O estabelecimento desse poder se configura de modo pontual ou constante, carregando uma manifestação decorrente do poder simbólico, inconsciente, presente nas relações que se concretizam pela conduta violenta. Essa violência é relacional, pois entremeia as interações humanas de forma doentia, cujo vínculo, que deveria ser de respeito aos limites (tolerância, controle dos instintos agressivos, dialogo, convivência na adversidade), tem sua finalidade desvirtuada da relação de convivência, apoio, proteção e afetividade para uma instância de abuso de poder. 9797 97 TEORIA EM PRÁTICA Vamos propor a seguinte atividade, com base em dados apurados por diversos pesquisadores pelo Atlas da Violência 2019. Verifique no infográfico Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil (2019). Eleja duas estatísticas apresentadas, que se associam diretamente ao preconceito e à discriminação. Que parâmetros de análise podem ser traduzidos a partir desses marcadores? Reflita. VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. A equipe multidisciplinar tende a ser útil em quais casos? Assinale a alternativa correta. a. Quando é realizada fora do contexto de trabalho será útil, pois garante a isenção de todos os profissionais envolvidos. b. Quando é direcionada aos profissionais do serviço e tem como propósito discutir os casos, passando informações e verificando melhores condutas. c. Quando ela é feita com determinada classe de profissionais, no caso de grupos de médicos ou grupo de enfermeiros. d. Quando é autorizado pela direção do CRAS ou CREAS daquela região. e. Quando é criado um horário fora do expediente profissional e é útil quando o profissional deseja participar, do contrário, não é positivo. 9898 2. O segredo entre vítima e agressor, em casos de violência, se dá em função de quê? a. Precisam manter segredo para garantir a privacidade da sua vida pessoal e familiar. b. Em função de quais assuntos familiares são tratados internamente, não devendo envolver pessoas de fora da família. c. Trata-se da manutenção do ciclo de violência por medo, vergonha e ameaças, e de que terão condições de solucionar as situações. d. Tanto vítima quanto agressor possuem uma relação próxima e estabelecem o conluio de proteger a imagem um do outro. e. O agressor ameaça a vítima, acusando-a de que tudo é sua culpa, paralisando-a diante de qualquer tipo de denúncia, pois será culpada de tudo. 3. A compreensão sociológica da violência é relevante devido a quê? a. São estudos diferentes com embasamentos e explicações próprias quanto aos fenômenos da sociedade em geral e aqueles em que a violência é presente. b. A sociologia ocupa-se de observar, compreender e conceituar os fenômenos sociais que envolvem grupos maiores de pessoas, enquanto que a violência relacionada ao tema em estudo aqui está presente no contexto íntimo, familiar. 9999 99 c. A desigualdade social é a maior preocupação do campo sociológico enquanto que a violência está relacionada à disputa de poder entre pessoas. d. A sociologia e a violência apresentam uma interligação importante ao explicar como fenômenos violentos da interação humana, seja de contexto privado ou social, são reproduzidos tanto na vida íntima e familiar como na sociedade. e. A violência é algo que degrada e deturpa as relações enquanto que a sociologia procura explicar os fenômenos sociais em todas as questões humanas. Referências bibliográficas NEXO JORNAL. A violência no Brasil explicada por Sergio Adorno. 2017. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. ATLAS DA VIOLÊNCIA 2019. / Organizadores: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. ISBN 978-85-67450-14-X BOURDIEU. Pierre. O poder simbólico. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço. Série Cadernos de Atenção Básica; n. 8. Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 131. Brasília: Ministério da Saúde, 2001. RICOTTA, L. Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência também. 4. ed. São Paulo: Ágora Ed., 2012. VASCONCELOS, M. D. Pierre Bourdieu: a herança sociológica. Educ. Soc., Campinas, v. 23, n. 78, p. 77-87, abr. 2002. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil. 2. ed. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. https://www.youtube.com/watch?v=Gj2odAHhPA4&t=10s http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302002000200006&lng=pt&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302002000200006&lng=pt&nrm=iso http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/02/Infogra%CC%81fico-vis%C3%ADvel-e-invis%C3%ADvel-2.pdf http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/02/Infogra%CC%81fico-vis%C3%ADvel-e-invis%C3%ADvel-2.pdf http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2019/02/Infogra%CC%81fico-vis%C3%ADvel-e-invis%C3%ADvel-2.pdf 100100 Gabarito Questão 1 – Resposta B Resolução: quando é direcionada aos profissionais do serviço social e tem como propósito discutir os casos, passando informações e verificando as melhores condutas. Questão 2 – Resposta C Resolução: aponta que a manutenção do ciclo de violência é alimentada pelo medo, pela vergonha e pelas ameaças contra a vítima e de que terão condições de solucionar as situações. A vítima tem a noção de que se prejudicará em perder seu agressor, por isso age como se estivesse defendendo interesses, distanciando- se por completo de quem mantém, assim, a recorrência de novos acontecimentos e de que prejudica a si próprio. Não compreende que a denúncia está a seu favor. Questão 3 – Resposta D Resolução: a sociologia e a violência apresentam, de fato, uma interligação importante ao explicar como fenômenos violentos da interação humana, seja de contexto privado, seja de contexto social, são reproduzidos tanto na vida íntima e familiar como na sociedade. O comportamento é reproduzido, pois se a violência advém do ambiente, ela se reflete nos agentes causadores da violência intrafamiliar e vice-versa. 101101 101 Reprodução de violência como meio de comunicação Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Pontuar elementos da força da interação humana como reprodutor da violência. • Apresentar os pontos fundamentais da comunicação não violenta. • Abordar as influências da mídia na reprodução de modelos violentos. 102102 1. A força da interação humana Olá! Falaremos sobre um tema que aborda a violência no viés da comunicação, ou seja, como ela é apresentada pela mídia, pelos meios simbólicos, abstratos e concretos que possibilitam propagarem a comunicação. A comunicação se dá via interação humana e está presente na relação familiar, social, bem como no âmbito da cultura e das instituições como um todo. Talvez o elemento mais preponderante para nosso estudo seja conceber que é a mentalidade, ou a forma de pensar, ou o modo de compreender e se dispor às situações que venham a ser elementos que influenciam antes mesmo de qualquer ato violento desencadeado intrinsecamente. Refiro-me ao modo como os sujeitos pensam sobre a vida, sobre as pessoas, aos que são diferentes por alguma opção e que isso faça gerar a formação de subgrupos e de divisões que contribuem para uma interação agressiva, distante do elemento humano. Talvez sejam os valores que aspessoas adotam em seu modo de viver que contribuam para a consolidação de ambientes agressivos e violentos, tais como atitudes como a intolerância, a imprudência, a impulsividade, o negativismo, a disputa, a contenda constante, o desequilíbrio, a competitividade. O que pretendemos apontar é que, com a consciência crítica e a forma de pensar humanizada e baseada em valores éticos e morais, é possível modificarmos condutas e meios de comunicação da violência que se propagariam. Pois é a falta de amor e de cuidados uns dos outros, bem como de uma forma de pensar excludente e que retira qualidades de outros, que torna o homem muito distante da sua humanidade. A vida em sociedade nos traz complexidades e ao mesmo tempo em que repercute modelos positivos de convivência também reproduz modelos violentos, desagregadores e contrários ao princípio democrático de direitos. A reprodução da violência como meio de comunicação 103103 103 nos direciona ao modo que ela vem sendo divulgada, propagada e reproduzida, trazendo para perto de nossas vidas os elementos nocivos desse aprendizado. Ao sermos expostos às notícias cujo enfoque tenha teor violento de forma explícita ou implícita, recebemos influências na forma de pensar e agir. Ter a dimensão e o conhecimento de que uma boa comunicação, clara, positiva, pautada em valores humanos, oferece condições de produzir uma ambientação saudável e um destino extremamente importante se faz necessário. A maior conexão que temos é a relacional, o modo como apresentamos as nossas ideias, nossos símbolos e referências de mundo que temos e que trocamos com as demais pessoas. São trocas de códigos comunicacionais que tendem a direcionar a relação para um caminho ou outro. São padrões transacionais que envolvem a cultura da pessoa aprendida em família, seu conjunto de hábitos, valores cultivados, crenças, formas de expressão que envolvam os códigos que interagem e transmitem algo, como informação e cultura. De forma natural, percebe-se que a qualidade da interação humana é capaz de oferecer elementos para que se torne menos violenta ou mais violenta. Com isso, e por meio da produção do conteúdo que vai sendo criado, é possível direcionar para entendimento e/ou para o desentendimento. Nesse viés de pensamento, pretendem-se fomentar reflexões sobre a importância dessa temática, isso é, do modo como pensamos, pois esse aspecto irá determinar a forma de nossa comunicação e impulsionará em sua grande maioria para os conflitos. Os conflitos, portanto, podem ocorrer seja por ter sido mal interpretado, pela comunicação interpessoal estar doente ou falha, quando o emissor da comunicação não se faz claro ou quando o receptor da informação não tem a compreensão do que foi emitido, tendo em vista seus sentimentos e crenças pessoais que não são conhecidos ou tidos como parâmetro na relação. O fato é que, quando a comunicação não é efetiva por alguma razão, poderá ser causadora de inúmeros conflitos, 104104 como vamos identificar com a reflexão poética Palavras são janelas (ou paredes), de Ruth Berermeyer no livro Comunicação Não Violenta (apud ROSENBERG, 2006, p. 17): Sinto-me tão condenada por suas palavras, tão julgada e dispensada. Antes de ir, preciso saber: foi isso que você quis dizer? Antes que eu me levante em minha defesa, Antes que eu fale com mágoa ou medo, Antes que eu erga aquela muralha de palavras, Responda: eu realmente ouvi isso? Palavras são janelas ou são paredes. Elas nos condenam ou nos libertam. Quando eu falar e quando eu ouvir, Que a luz do amor brilhe através de mim. Há coisas que preciso dizer, Coisas que significam muito para mim. Se minhas palavras não forem claras, Você me ajudará a me libertar? Se pareci menosprezar você, Se você sentiu que não me importei, Tente escutar por entre as minhas palavras Os sentimentos que compartilhamos. 1.1 A comunicação não violenta A definição de comunicação não violenta (CNV) nos diz que: A CNV se baseia em habilidades de linguagem e comunicação que fortalecem a capacidade de continuarmos humanos, mesmo em condições adversas. Ela não tem nada de novo: tudo que foi integrado à CNV já era conhecido havia séculos. O objetivo é nos lembrar do que já sabemos – de como nós, humanos, deveríamos nos relacionar uns com os outros – e nos ajudar a viver de modo que se manifeste concretamente esse 105105 105 conhecimento. A CNV nos ajuda a reformular a maneira pela qual nos expressamos e ouvimos os outros. Nossas palavras, em vez de serem reações repetitivas e automáticas, tornam-se respostas conscientes, firmemente baseadas na consciência do que estamos percebendo, sentindo e desejando. Somos levados a nos expressar com honestidade e clareza, ao mesmo tempo que damos aos outros uma atenção respeitosa e empática. Em toda troca, acabamos escutando nossas necessidades mais profundas e as dos outros. A CNV nos ensina a observarmos cuidadosamente (e sermos capazes de identificar) os comportamentos e as condições que estão nos afetando. Aprendemos a identificar e a articular claramente o que de fato desejamos em determinada situação. A forma é simples, mas profundamente transformadora. (Rosenberg, 2006, p. 21-22) Conforme apreendido na explanação do autor acima, o sentido da comunicação não violenta (CNV) não caracteriza que nos tornamos pessoas frágeis, influenciáveis, que são facilmente dominadas e que vão concordar com tudo. Não se trata de ser omisso, passivo e fazer de conta que algo exista para ser resolvido. Nesse sentido, podemos exemplificar com alguns fatos: existem algumas pessoas que se comportam no mundo como aquelas aves que enterram a cabeça na terra ou aquelas que se recolhem em si mesmas. Adotar uma comunicação não violenta tem um sentido de treino, prática que o direciona para a pacificação das relações humanas. A contribuição do autor está em tornar concreto um modo de agir que fique claro para as pessoas que suas ações são geradoras de uma repercussão. Você, aluno(a), que neste momento está tendo contato com este material para seu estudo, poderá se perguntar se o seu objetivo é tornar-se uma pessoa melhor. Isso é agir de forma não violenta ou menos violenta e que isso lhe proporcione seguir, fluir sem criar problemas com pessoas em múltiplas situações. Marshall Rosenberg, professor, pacifista, criou na década de 1960 a teoria da comunicação não violenta, com base em sua experiência de vida, de forma a substituir a violência e os conflitos entre as pessoas pelo emprego de uma comunicação compassiva. 106106 À medida que a CNV substitui nossos velhos padrões de defesa, recuo ou ataque diante de julgamentos e críticas, vamos percebendo a nós e aos outros, assim como nossas intenções e relacionamentos, por um enfoque novo. A resistência, a postura defensiva e as reações violentas são minimizadas. (Rosenberg, 2006, p. 22). Com elementos fortes associados a uma comunicação pautada em valores humanos e universais, a comunicação não violenta ganhou expressão no mundo, pois a proposta dessa comunicação em nada interfere nas diferenças culturais, raciais ou sociais. São, portanto, humanas e universais. Comprova que é possível fazer a desescaladas de tons agressivos para outro mais próximo da compreensão, o respeito mútuo, a compaixão e o colocar-se no lugar do outro. A obra Comunicação não violenta (2006) obteve grande aceitação, sendo traduzida em muitos idiomas. O professor e psicólogo Rosenberg (2006) cresceu em um bairro turbulento de Detroit, nos Estados Unidos, onde se interessou por novas formas de comunicação para criar alternativas pacíficas de diálogo que amenizassem o clima de violência. Foi o resultado de sua especialização em psicologia social, de seus estudos de religião comparada e de suas vivências pessoais. Acredito que é de nossa natureza gostar de dar e receber de forma compassiva. Assim, durante a maior parte da vida, tenho me preocupado com duas questões:o que acontece que nos desliga de nossa natureza compassiva, levando-nos a nos comportarmos de maneira violenta e baseada na exploração das outras pessoas? E, inversamente, o que permite que algumas pessoas permaneçam ligadas à sua natureza compassiva mesmo nas circunstâncias mais penosas? (Rosenberg, 2006, p. 19) Observemos quão autênticas são as impressões do autor que partiu da sua sensibilidade e vivência pessoal para refletir elementos significativos da comunicação e vivências que lhe proporcionaram as ideias e a filosofia que emprega na concepção de seu trabalho, de propor uma comunicação que seja cuidada para gerar compreensão e aceitação, compaixão e revelar elementos do coração. 107107 107 Minha preocupação com essas questões começou na infância, por volta do verão de 1943, quando nossa família se mudou para Detroit. Na segunda semana após nossa chegada, eclodiu um conflito racial, que começou com um incidente num parque público. Nos dias seguintes, mais de quarenta pessoas foram mortas. Nosso bairro ficava no centro da violência, e passamos três dias trancados em casa. Quando terminaram os tumultos raciais e começaram as aulas, descobri que o nome pode ser tão perigoso quanto qualquer cor de pele. Quando o professor disse meu nome durante a chamada, dois meninos me encararam e perguntaram, com veneno: “Você é kike?” Eu nunca tinha ouvido aquela palavra e não sabia que algumas pessoas a utilizavam de maneira depreciativa para se referir aos judeus. Depois da aula, os dois já estavam me esperando: eles me jogaram no chão, me chutaram e me bateram. (Rosenberg, 2006, p. 20) ASSIMILE Assista ao vídeo “Comunicação não violenta na prática” com Giovana Camargo – Minas que manjam #17 (COMUM, 2016). O vídeo aborda a comunicação não violenta na prática, apresentando-nos de forma concreta quatro passos propostos pelo autor Marshall Rosenberg (2006) para que as pessoas possam aplicar no cotidiano. Os passos são: 1. Observar sem julgar. 2. Identificar sentimentos. 3. Assumir responsabilidades. 4. Fazer pedidos. 1.2. A violência simbólica e sutil presente nas interações É de costume que se tenha noção da violência quando ela é expressa de forma contundente, inclusive pela mídia. Somos informados de 108108 umas enormidades de casos que nos fazem entrar em contato com as suas sequelas, bem como com as suas consequências advindas de agressões, violências e crimes. Sabe-se que nem toda violência caracteriza um crime. No entanto, todo crime contém muita violência. E esse teor nocivo não se iniciou naquele ato. Ele teve seu início muito antes de eclodir no comportamento. Quando saímos às ruas, é possível identificar alguns desses sinais ou pistas presentes na sociedade. De certo modo, a sociedade vem sendo carregada de informações sobre ataques, casos reais e de muita perda de controle entre os sujeitos, falta de equilíbrio e desarmonia em todos os níveis, desarmonia afetiva, moral, social, cultural e institucional. A violência em todos os âmbitos abala todas as estruturas da vida de alguém ou de uma sociedade; a violência simbólica e psicológica surge de forma “sofisticada” na presença da sua “sutileza” e simbolismos presentes no momento da interação. A partir daí, entende-se que ela possa ser, muitas vezes, invisível a outros sujeitos ao redor, pois, aos olhos externos, nada ocorre de grave, visto que a violência também vem travestida de forma passiva, como resistência, como ardil, vingança calculada e premeditada, escondida e escamoteada, não declarada e feita nos bastidores. Portanto, se ela for visível, declarada, pelo comportamento expresso de agressão física, por exemplo, ou de uma briga em que se possam ter testemunhas do fato, não se caracteriza como violência simbólica. Persistimos em dizer que a violência não declarada é aquela invisível, que afeta o psicológico, que atua no mundo interno do outro, abalando sua estrutura de segurança afetiva e pessoal até se transformar em perda de autoestima gradativa por permanecer refém de uma armadilha comunicacional que o enreda nessa teia de raiva, inveja, ciúmes doentios, abuso de poder, misoginia, sentimentos e emoções mal elaboradas, vivenciados no seu universo particular e não partilhados. O outro que se torna a vítima desse enredo, ainda que tente sair, vivenciará a estranheza, pois não será compreendido em sua essência, pois ora o outro o estimula ao vínculo e ora o faz 109109 109 cair em decepção. Cria mecanismos de adesão, e quando estes estão sólidos, inicia uma derrocada escalada para colocar o outro refém numa vinculação de poder, desnecessária e equivocada para aquelas relações pessoais, familiares, sociais e de convívio. Em conformidade com essa linha de pensamento, Bourdieu (2007) descreve que é violência quando esta é exercida pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento, ou, em última instância, do sentimento. Pode-se considerar também pelo aspecto da ignorância, de que existem pessoas rudes e com poucos desenvolvimentos emocionais que vivem e reproduzem a violência por meio da relação interpessoal, tendo em vista seu modelo apreendido de vivências de situações traumáticas, seja por ser uma pessoa, em termos de personalidade, que age desconectada de valores humanos, ou que atua contrariamente aos princípios morais que respeitam as condições humanas. Isso significa que, onde há segregações, discriminações, críticas constantes, controles constantes, deformações das realidades, más interpretações das intenções das pessoas, maledicências, invejas, despeitos, ironias, desprezos, bem como falta de trato com o outro de maneira educada, significa que já está ocorrendo a violência. Sua tonalidade é diferente da violência física e, no entanto, tão perniciosa quanto, pois também bate e machuca, e podem se tornar feridas emocionais no universo pessoal, desencadeando tristeza, depressão, sensação de que faz tudo errado, de que não consegue compreender a pessoa, de que seja alguém de insucesso, sentimentos de frustrações constantes, decepções, amarguras, desencantos da vida e falta de motivação. Como podem perceber, os sentimentos emocionais são aqueles que retiram as forças pessoais, a autoestima e a própria energia vital. As pessoas em comunicação violenta se desgastam e permanecem com sequelas desagradáveis, pois essa seria a principal intenção. Pode-se dizer que, quando o resultado for contrário ao bem- estar, está diante de uma condição violenta e agressiva. 110110 A violência simbólica é parte de uma realidade que avilta e constrange a pessoa, ainda que seja imperceptível, de forma silenciosa, escarrada, podendo então ser percebida pelas fronteiras existentes nas disparidades sociais, das identidades e referências pessoais econômicas e culturais. Bourdieu (2007) abarca também o entendimento da violência simbólica sob a ótica grupal das classes sociais e não especificamente das interações próximas aos sujeitos. Tratando o tema do ponto de vista da abrangência maior e ampliada, motivados pela conquista de uma posição ou manutenção da dominância sobre o outro, atuando de forma violenta para manter-se. Ainda na percepção do autor Bourdieu (2007), que defende a ideia de que as classes sociais almejam ascensões na hierarquia social, engajam- se nesse tipo de luta no intuito de superarem suas condições de subjugadas e se tornam definidoras dos preceitos que balizam o mundo social, obtendo, assim, poder para impor e demonstrar instrumentos de conhecimentos e de expressões da realidade. O sociólogo explica que há um entendimento da assimetria nas relações para que o poder simbólico possa se manifestar e se estabelecer, e não aponta como a violência se processa e como o sujeito se relaciona com ela. Podemos observar isso quanto ao aspecto da sutileza presente e inconsciente. Existem algumas crenças que são promotoras desse pensamento, cuja visão estádeterminada a uma compreensão da realidade e não a algo a ser desvendado pela interação. Por exemplo: uma mulher negra acaba de mudar-se para seu luxuoso e lindo apartamento e entra no elevador com a sua cunhada, que é branca e que veio lhe auxiliar com a mudança, e quando se encontraram com uma vizinha no elevador, a vizinha dirigiu a palavra à sua cunhada: “Seja bem-vinda, você é a moradora nova do nosso prédio”? Ela sorri diante daquela cena e nada diz; será que em nenhum momento passou pela cabeça da vizinha perguntar: qual de vocês é a nova moradora? Entende? Em muitas situações, não associam a determinadas pessoas a capacidade 111111 111 de obter sinais de sucesso, como se pudessem ser apenas de pessoas brancas. Essa mesma mulher relata vivenciar isso inúmeras vezes em situações cotidianas, por exemplo, quando foi comprar um carro, vivenciou a sutil violência presente e na loja em que ela entrou foi tratada com desinteresse pelo vendedor, ela estava decidida a comprar o carro, mas o vendedor, certamente imagina-se que estava imbuído em suas crenças de que uma mulher negra não possa ter condições financeiras para comprar um carro e/ou ter poder de compra para tal, deixou-a e foi se sentar. Ela relata que pacientemente procurou outro vendedor e que efetuou a compra de seu carro com detalhes especiais, inclusive conforme o seu gosto e a sua necessidade. E percebeu que isso trouxe certa surpresa para aquele profissional que a desconsiderou inicialmente, que, em sua opinião, se deu em razão de sua etnia, caracterizando, portanto, um preconceito. São impressões instituídas na mentalidade de muitos cidadãos que, por exemplos de convivências negativas, propagam o sentido agressivo e violento. Fatos como esses apresentados não ocorreriam se, pois, suas crenças não tivessem sido preestabelecidas culturalmente no seu íntimo por meio do cotidiano presenciado. O fato aqui em discussão é que elementos que respaldam a visão do indivíduo, sendo eles munidos de preconceitos, distorções, discriminações e conceitos mal formulados, levam a um distanciamento da interação em que o outro pode estar dentro do crivo daqueles que consciente ou inconscientemente reproduz na comunicação social e interpessoal. É preciso ir além, ter uma visão ampla realmente para evitar distorções desse tipo que conduzam as pessoas a uma visão que perpetua a violência na modelagem de padrões repetidos, ou seja, agindo somente de acordo com suas crenças, ou que aquilo que difere do que pensa simplesmente não exista! Bourdieu (2007) marca um aspecto das influências externas de campo, por exemplo, na sociedade, temos a expressão generalizada da opressão, da dominância, com o propósito de subjugar com a forte intenção de combater o poder, mas nem por isso estabelecer um outro 112112 no lugar. Que os atos violentos não são revolucionários em si só como ato de contestação, ou seja, é o domínio e a busca de romper e quebrar com essa preponderância. Mas sem qualquer sentido de colocar outra instância e manter a opressão. Quem entra em colisão não terá o efeito de ganhar o poder. A opressão permanece, pois o objetivo não é a mudança de realidade. Figura 8 – O iceberg da raiva Fonte: RomoloTavani/Istock.com. Como vimos, portanto, há uma perda de referência do que é a pauta essencial da relação humana para dar lugar a outra, isso é, a necessidade de poder é recorrente como forma de opressão do outro. Para esse fim, todos serão personagens desse viés. Não há liberdade e nem possibilidade de estabelecer uma relação com a sociedade em bases saudáveis, pois a visão já está predeterminada. Assim como aqueles radicais que contestam a ordem vigente, pois creditam toda a responsabilidade ao status vigente, seja a política ou a classe dominante, agredindo de forma contumaz tudo. São aqueles poliqueixosos, visto que nada está bom. Tendem a enxergar a vida como aquela que os coloca na condição de vítimas sem despertar elementos internos e 113113 113 psíquicos, tais como a resiliência, a persistência, a persuasão, o foco, o direcionamento, a ação correta e a força de vontade, posicionando- se como reféns do sistema vigente. Essa também é uma perda que muitos cidadãos adotam e estabelecem para si, uma ótica de vida que recai nesse prisma onde não é possível construir ou reconstruir ou dá um novo significado. Temos como exemplo radicais que depredam o patrimônio público e privado, caracterizando por alguns como ataques terroristas, atuam pelas condutas do psicoterror (situações traumáticas, geradoras de estresse). Fundamental compreender que boa parte da produção violenta expressa de forma subjetiva, sutil e psicológica está associada a entendimentos desvirtuados da realidade contextualizada na interação, do que ambos comunicam, com uma visão impregnada de conteúdo mal elaborado, doentio ou traumatizado que carregam e são transferidos para o outro. Isso se refere ao indivíduo com conteúdo interno pessoal mal elaborado que tende a responsabilizar o outro pelo seu estado emocional, culpando-o daquilo que ele entende ser estimulado pelo outro. Por isso passa a controlar e cercear o outro como forma de não permitir que seja tratado do mesmo modo como o trata. Constrói realidades que somente têm sentido para si e que não são compartilhadas para os demais, vive no estranhamento e sem compreender a fonte dessa constatação. O portador de violência faz exatamente aquilo que não gostaria que fizessem com ele. E quando não assume as responsabilidades, indica o desconhecimento, a imaturidade emocional e o desvio de percepção que tendem a nos projetar outros conteúdos mal elaborados. O fato é que um indivíduo inseguro, por vezes mal estruturado psiquicamente, refere-se àquele que comunica a violência sutil, insensível e invisível a suas vítimas de forma reiterada. 1.3. A influência da mídia na propagação da violência A definição de mídia pelo Dicionário eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa, é: “tudo o que oferece suporte de difusão da informação, 114114 que se constitui um meio intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens”. Caracterizam-se também como meios de comunicação social de massas não diretamente interpessoais: as conversas, os diálogos públicos e privados. Com os instrumentos como o rádio, o cinema, a televisão, a escrita impressa ou manuscrita, a internet, a telefonia, os cartazes e outras formas de apresentações de mensagens. Os veículos de comunicação se propõem a quatro missões: a. Informativas. b. Transmissões de culturas. c. Promover entretenimento. d. Pesquisas diversas e de que forma elas vêm sendo recebidas pelo seu público-alvo. Pode-se refletir, portanto acerca da condução da comunicação. Ao compreendermos o seu propósito, baseado na sua missão, pode-se imaginar que, se sua condução não for bem direcionada, poderá perpetuar culturas dominantes. Considera-se, assim, que elas são entendidas como a violência sutil e a violência simbólica – o que pode fazer com que a sociedade crie uma compreensão rasa ou falsa daquela realidade, resultando em transmissão de preconceitos e/ou de condutas discriminatórias, mesmo que quase invisível. É pela sensação de ausência, de falta de significado interno sobre a realidade que se viver é que podemos constatar que muitos destes fatos e acontecimentos são desconhecidos por uma mera visão míope da sociedade, do tipo aquilo que não conheço, não existe. Sugerindo, dessa forma, que o mundo real é somente o divulgado e propagado pelas forças dos meios de comunicações. 115115 115 PARA SABER MAIS Sugerimos a leitura do artigo “Mídia e violência: um olhar sobre o Brasil” (CARVALHO; FREIRE; VILAR, 2012). Este artigo aborda temáticas relevantes, tais como a utilização da violência na captura de audiência, a espetacularização da violência, as responsabilidades da mídia no enfrentamento da violência, entre outros. Vale a pena conferir! A mídia é caracterizada como um veículoforte e importante, capaz de causar impactos e induzir determinados comportamentos na vida do homem. Alguns comportamentos reproduzidos por alguns sujeitos talvez nem sejam legítimos à pessoa, por não fazerem parte do seu contexto de vida e acervo. A mídia tem o poder de convidar o público a despertar em direção a uma curiosidade específica, de igual modo, pode esclarecer algo ou gerar polêmica, opinar ou formar opinião pelo poder da influência ou de tendências, bem como corrobora para promover uma determinada conduta, ou em copiar ou imitar essas condutas. A mídia não é, em sua integralidade, um mal ou um elemento perturbador. Trata-se de veículos transmissores de mensagens que ocupam e promovem estímulos, informações e incentivos a comportamentos. Alguns desses comportamentos podem gerar angústias e um descompasso entre um mundo desconectado da essência humana ou dos valores associados às suas necessidades. Ora, precisamos pensar na estruturação da identidade do indivíduo, que perpetue em um processo de maturação em que as crianças e os adolescentes e os jovens e os adultos possam vivenciar experiências emocionais que são elaborações necessárias para a vida humana – pois promove o crescimento interno e sua interação com o mundo externo. E é por meio de atitudes seguras resultantes de um universo interno bem trabalhado ou bem desenvolvido, e consequentemente bem estruturado, que podemos concluir que o que mais precisamos é 116116 criar condições para que jovens possam ter visões críticas daquilo que assimilam ou de adquirirem maturidade suficiente para, se quiserem, manter certo distanciamento que seja necessário para essa análise, ou para refletir e/ou ponderar, em vez de engolirem o que veem e ouvem. Moreno (1997), criador da metodologia psicodramática, elucida bem quando nos fala acerca da aquisição de papéis. E os define como sendo expressões do Eu em diversas áreas da vida. Tem a ver com desenvolver papéis como forma de desenvolvimento pessoal, um modo de funcionar, ser e existir. Acaba desenvolvendo hábitos, interesses que revelam a qualidade e saúde emocional. E que quanto mais papéis um indivíduo desenvolve e pratica na vida, mais saudável e pleno se torna. E quando se retrai, deixando de praticar determinadas habilidades e competências, perde em qualidade do viver. O autor explica o desenvolvimento de papéis que um indivíduo pode adotar em seu repertório de respostas e na estruturação de personalidade, e elabora três etapas no processo de aquisição de um novo papel (forma de expressão ou resposta no cotidiano), veja: 1. Role-taking (aluno) – Tomar o papel, assumi-lo e imitá-lo. 2. Role-playing – Jogar e treinar o papel. 3. Role-creating (professor) – Criar o papel. Conjectura-se que a formação de um novo papel precisa do contrapapel para, assim, consolidar-se com o envolvimento de outra pessoa, com situações e contextos. De forma natural, o processamento das informações pode ser feito pelos pais, pelo professor, por psicólogos, assistentes sociais, representantes ou outros que se proponham a formarem grupos, por exemplo, grupos que possam promover discussões de temas de canais midiáticos e que possam percutir negativamente, e, dependendo da 117117 117 apresentação, possam ser reprodutores da violência, o que é um modelo de conduta quando não pensados de forma crítica e reflexiva. Com a adesão de caráter moral, que reflete em consequências para a vida prática, no âmbito familiar e social ou no âmbito do entretenimento, por exemplo, há muito estímulo para luta, embates, confrontos, vinganças e crueldade como elemento de poder sobre outros. E certamente não são absorvidos como elementos desagregadores, precisando ser pensado a respeito das alternativas que crianças e jovens podem ter quando suas condições socioeconômicas estão abaixo da linha da pobreza, ou seja, pessoas vulneráveis socialmente e economicamente. Na atualidade, questões precisam ser apresentadas de forma coerente, atentando-se para o fato das repercussões de influências negativas venham a refletir na vida dos filhos(as), dos alunos(as). Quais conceitos estão sendo formulados entre esse público? Conceitos esses, que possam ir de encontro à violência simbólica a qual estão expostos. Quando não há critérios e nem seleção do que é plausível de ser assimilado pelas crianças e pelos jovens, principalmente pelo período e pela etapa da vida que falta de maturidade, colocam-nas em maiores probabilidades de internalizar conceitos. Direcionando melhor os reflexos da comunicação diante da formação de indivíduos, podemos entender que o esporte e os espaços de lazer são locais que agregam jovens e por isso diminuem a contaminação da violência social na vida deles. Quanto mais os jovens e as crianças se inserirem em espaços de lazer e esporte, maior a probabilidade de se manterem distantes dessas deformações que a violência promove. O bem-estar gerado pelo esporte, como a dança, a arte, a cultura, o lazer em parques, que os colocam em contato com outras possibilidades. Dessa forma, é apresentado nas práticas vivenciadas que há entretenimentos diferentes daquelas realidades que conhecem. Portanto, o aumento e a melhoria desses espaços e centros comunitários podem agregar beneficamente e integrando as crianças e os jovens de modo que as estruturas contribuam para não perdermos 118118 para o tráfico de drogas, por exemplo. Portanto, considera-se de grande relevância aproximar os pais e os professores, agentes sociais transformadores ou mediadores, profissionais inseridos na Política de Assistente Social de forma geral, ou grupos informais com propósitos sociais de interesse nessas demandas reais e que sejam interlocutores natos para essa tarefa. Os órgãos tanto governamentais como privados, institutos de pesquisas e os meios de comunicação fazem suas pesquisas de percepção, no entanto, são, na maioria das vezes, para seu próprio interesse e foco, ou para a sua própria audiência, e tendem a aumentar a frequência da exposição de certas notícias, pois isso aumenta os índices de telespectadores sem se preocupar com o modo como essas notícias podem impactar a vida das pessoas em uma sociedade. Mesmo que isso repercuta negativamente. Por exemplo, as novelas procuram vender-se pelas cenas que apresentam, pelo nível de tramas, de armadilhas que são ali apontadas, apresentam tendências de moda, modos de linguagem que podem ser questionados, pois não seriam de acordo com a norma culta da língua portuguesa, o modo de linguagem correto e adequado. Reproduzem a fala erroneamente, adotam vícios de linguagens, pois isso é produzido nos canais de comunicação sem fazer quaisquer críticas, apenas por imitação. De forma estratégica, o uso de uma linguagem simplista e facilitada ao máximo serviria para que os sujeitos não precisem pensar racionalmente e nem desenvolverem pensamentos críticos. A grande massa da população, na maioria das vezes, apenas absorve as informações e não as questionam, uma vez que não há espaços que debatam ou que colaborem para uma reflexão, ou aprofundem temas da vida social com tendência na diminuição das condutas violentas. É indispensável que se incentive a propagação das informações que remetam a uma cultura pacificada, com valores humanos universais divulgados o que certamente se reverte em prevenção nos cuidados com as crianças e com os jovens. 119119 119 A questão não se refere ao fato de que a TV, os jogos de celular, a internet e outros sejam perniciosos, mas sim de ressaltarmos que, sem um interlocutor que promova a crítica, possivelmente resultará em um processo alienante, de vícios, de contextos indisciplinares, como a rotina, a formação escolar ou com as tarefas em casa. Temos tido acesso à informação pela mídia televisiva e impressa de vídeos que foram disseminados entre jovens que conduziam ao autossufocamento, conhecido como “baleia azul”, um tipo de jogo entre internautas,de efeitos nocivos, em que um tem de obedecer a outro. Nesses casos, temos uma mídia que auxilia na informação como meio de prevenção – sendo este um papel positivo quando a informação é imbuída na função de educar e/ou alertar. Muitos jovens são conduzidos ou influenciados para não pensar ou para não elaborar seus próprios conteúdos, e por consequência disso, agem reproduzindo ou imitando o que veem, como apontado acima. Com uma mídia responsável e educativa, temos o aspecto inverso. Nesse caso, ela se torna promotora de vários fatores positivos, por exemplo, da saúde coletiva, quando um grupo de mães assumiu e conduziu as informações visando o esclarecimento da população com relação ao sufocamento que estava sendo divulgado entre jovens como um jogo, e que eram ameaçados pelos agentes agressores (anônimos). Pois a prova incluía a obediência. Certa vez, assisti ao programa Sem Fronteiras, pelo canal de assinantes Globo News, que apresentou que, na França, foram detectados inúmeros casos de terroristas que buscam conversar com os jovens que ficam em casa quando os pais estão trabalhando, e assim, de forma estratégica e manipuladora, vão envolvendo meninas que se apaixonam por rapazes que as conquistam dia a dia sem que os pais saibam até que fogem, somem. As jovens foram cooptadas por agentes que têm a intenção de prendê-las psicologicamente a uma fantasia de amor até ocorrer o casamento para justificarem sua presença ilegal no país, ao envolver as jovens que ficam enfraquecidas diante desse assédio manipulatório. Em proporções distintas, por serem realidades de países distintos, no Brasil, temos divulgado pela mídia jornalística 120120 que um número expressivo de meninos das periferias, sem idade penal, são escalados pelo tráfico de drogas, para uma vida alienante, ganhando salários muitas vezes maiores do que de seus pais, diante da miséria e do desemprego. Sendo estes mortos precocemente, pela própria vida no crime, haja vista que foram cooptados e não tiveram chances à educação. 2. Considerações finais Conclui-se, neste tema, a importância de desenvolvermos ações que possam possibilitar ampliações da consciência de determinadas pessoas que viabilizem a sua boa convivência em sociedade. Que com a mentalidade voltada para a pacificação, compreensão, compaixão, com o ato de colocar-se no lugar do outro e desenvolver a empatia, possamos ter elementos concretos para diminuir a escalada da violência que cresce a cada minuto. Apreendemos que mediar é melhor que encerrar o diálogo, que reverter situações difíceis em posições que possam dar conta das necessidades de ambas as partes é sinal de civilidade. Que as crenças limitantes reduzem a capacidade das pessoas encontrarem outras formas de estabelecer contato que envolva a compreensão mútua. Nesse sentido, é possível criarmos espaços de discussão onde essas influências possam ser percebidas e amplamente discutidas em ambiente escolar, fazendo com que aprendam a fazer escolhas e a desenvolverem maturidade para pensarem criticamente. Poderemos conhecer a partir das novas atividades que poderão ser feitas nos espaços escolares, usando positivamente os recursos midiáticos em prol da educação e da formação de pessoas, como programas já implantados nas escolas com as atividades de pesquisas qualitativas que consideram o ponto de vista da criança, do adolescente e dos jovens estudantes. Somos capazes de mudar o padrão de consumo e capazes de mudar a linguagem que interfere na conduta humana, pensar então 121121 121 a família na figura dos pais ou seus responsáveis, que eles possam também ocupar essas posições, de interlocutores, juntamente com os seus filhos, digerindo e promovendo reflexões e transformações pessoais significativas. E certamente isso nos traz indagações. Quem poderá preparar esses pais ou responsáveis? Quem são os condutores possíveis para agregar ou desagregar a estrutura familiar? Podemos, então, deixar para os sujeitos que realizam pesquisas por meio dos seus estudos possam criar ações para intervir com preparações de pais ou responsáveis para direcionar, quem sabe, suas famílias de forma saudável, ainda que tenham adversidades oriundas de falta de oportunidades, que possam lidar com os aspectos pertinentes, como treinar, desenvolver a resiliência, pois essas famílias, em grande parte, têm sido as maiores vítimas da sociedade violenta em que vivemos. Que quanto mais estivermos expostos às informações que apontam os casos reais, validando a sua incidência, poderemos nos mobilizar a solucionar problemas que interferem na vida coletiva, pois já estamos lidando com as repercussões danosas que tais condutas promovem. E que com a conscientização e sensibilização da população, é possível reeducá-las para uma sociedade com o futuro mais humanizado e pacífico. TEORIA EM PRÁTICA Leia a matéria publicada pelo Jornal Folha de S.Paulo: “Casos de agressão a professores crescem 189% no estado de São Paulo: em média, pelo menos três docentes são atacados a cada dois dias no estado” (CAVALCANTI, 2018). Após a realização da leitura do caso envolvendo violência, faça uma análise considerando sob o ponto de vista da comunicação não violenta e da violência simbólica e psicológica. Considerando quais são os elementos que estão presentes. 122122 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Aponte qual das alternativas apresenta dois passos propostos por Rosebenrg (2006) para a prática da comunicação não violenta – CNV: a. Identificar sentimentos e compreensão mútua. b. Ser feliz e respeitar as pessoas. c. Assumir responsabilidades e observar sem julgar. d. Ter empatia e ter simpatia. e. Fazer pedidos e colocar-se no lugar do outro. 2. A comunicação interpessoal pode ser positiva, dependendo de alguns fatores presentes na relação. Para ser uma comunicação não violenta (CNV), é fundamental que contenha quais atributos? a. Que seja clara, simples e fácil de entender. b. Que seja objetiva e direta e que traduza o que quer expressar. c. Que seja uma linguagem subjetiva baseada em sentimentos e em emoções. d. Que seja pacifica, diminuindo qualquer intenção mútua de agressividade. e. Que seja alegre, motivada por algo ou interesse comum. 123123 123 3. Quais as formações acadêmicas dos estudiosos Bourdieu e Rosenberg? a. Antropólogo – Antropólogo. b. Vitimólogo – Professor pedagogo. c. Sociólogo – Sociólogo. d. Sociólogo – Pesquisador da educação. e. Sociólogo – Psicólogo. Referências bibliográficas BOURDIEU, P. O poder simbólico. 10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007. CARVALHO, D. W.; FREIRE, M. T.; VILAR, G. Mídia e violência: um olhar sobre o Brasil. Rev Panam Salud Publica, v. 31, n. 5, p. 435-438, mai. 2012. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019. Cavalcanti, T. Casos de agressão a professores crescem 189% no estado de São Paulo. Folha de S.Paulo. Publicado em: 2 ago. 2018. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019. COMUM. “Comunicação não violenta na prática” com Giovana Camargo – Minas que manjam #17. 2016. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019. MORENO, J. Psicodrama. São Paulo: Editora Cultrix, 1997. ROSENBERG, M. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora Ed., 2006. https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1020-49892012000500012&lang=pt https://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1020-49892012000500012&lang=pt https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/08/casos-de-agressao-a-professores-crescem-189-no-estado-de-sao-paulo.shtml https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/08/casos-de-agressao-a-professores-crescem-189-no-estado-de-sao-paulo.shtml https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/08/casos-de-agressao-a-professores-crescem-189-no-estado-de-sao-paulo.shtmlhttps://www.youtube.com/watch?v=7LulOMOMI7A https://www.youtube.com/watch?v=7LulOMOMI7A 124124 Gabarito Questão 1 – Resposta C Resolução: assumir responsabilidades e observar sem julgar. Questão 2 – Resposta D Resolução: que seja pacífica, diminuindo qualquer intenção agressiva. Questão 3 – Resposta E Resolução: sociólogo e psicólogo. 125125 125 Naturalização da violência doméstica Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Apontar aspectos relativos à naturalização da violência doméstica • Apresentar o contexto da violência doméstica no Brasil no momento atual. • Apresentar os fatores envolvidos que favorecem a ocorrência da violência doméstica. 126126 1. Perda de sensibilidade e alto índice de casos Iniciaremos aqui a introdução ao tema “A naturalização da violência doméstica”, que vem sendo muito difundida devido ao alto número de casos registrados. Essa constatação denota uma aberração do que vem se tornando muitos relacionamentos familiares. Escondem situações críticas, abusos, falta de respeito, opressão, bem como aviltam condições humanas. Os homens tornam-se transgressores dos seus limites, desvirtuando, portanto, a finalidade de suas funções na família. Dentro desse contexto, crianças são violadas na sua infância, seja em seus sonhos, seja fisicamente ou psiquicamente tolhidas. No caso das mulheres, estas são espancadas, agredidas de diversas formas, controladas, abusadas física e psicologicamente. Da mesma forma, existem pais que são humilhados e odiados muitas vezes; mães que abandonam o lar, pais que não protegem e afundam todos num mar de tristeza, decepção, frustração. Assim, vamos entender o que está envolvido nessa trama perigosa que carrega a semente do crime e que, portanto, constrói relações doentes que somente podem gerar risco e flagelo aos seus membros. A naturalização da violência envolve aqueles comentários e comportamentos que carregam julgamentos e relativizam as agressões, estimulando a criação de uma cultura na qual a violência doméstica é considerada aceitável. Por conseguinte, essa cultura tende a culpabilizar a vítima e não julga desproporcional a conduta do agressor, minimizando ou desfocando sua atitude violenta, enfatizando outra interpretação, do tipo: “Em algum momento, qualquer pessoa perde o controle”, “O que será que ela fez para ele ter batido nela?”, “Alguma coisa ela fez para provocar”, “Ele é um homem que trabalha, o que mais você quer?”, “Quando perceber que ele está nervoso, faz o que ele pede para não criar confusão”, “Nossa! Você não viu que ele era doente quando começou a namorar?” (induzindo a ideia de que o erro 127127 127 é da mulher que escolheu mal), “Estranho, ele nos trata tão bem, você não está aumentando os fatos?”, “Se você contar para alguém que isso aconteceu aqui em casa, eu vou matar seus pais”, “Se você falar ou fugir daqui, eu vou atrás de você”, “Eu nunca vou te largar e você não vai ser de mais ninguém”, “Se você falar para a sua família que eu te bati, eu vou dizer para eles tudo o que você faz: não sabe lavar roupas, não sabe cuidar da casa, educa mal os filhos, é chata, está uma baranga e vou dizer para eles que descobri que você tem um amante! Você vai ver!”. Muitos casos de relacionamentos abusivos envolvem também atitudes da parte do agressor, cujo objetivo é martirizar a sua vítima, tal como o exemplo: “Eu fotografei a quilometragem do seu carro quando você foi e quando voltou. Aonde você foi além do trabalho? Vai, fala!” E coloca a foto do celular em seu rosto, induzindo a confessar algo que ela própria não sabe o que é. Assim, eles torturam a vítima psicologicamente, criando a atmosfera de terror para que ela se sinta culpada de algo que não sabe o que é. Com isso, levantam provas falsas, e-mails falsos, conversas estranhas, telefonemas anônimos, ligações no trabalho para saber se chegou, criando uma situação de desconfiança explícita para as demais pessoas, que passam a pensar e a concluir que a vítima deve dar motivos para o marido, noivo ou namorado permanecer inseguro. Aparentemente, fica a impressão de que são apenas ciúmes, coisas de casal, quando, na verdade, é uma doença. Na realidade, na raiz de tudo isso está a conduta patológica de uma afetividade deformada, por parte do agressor, a qual cria uma atmosfera de desconfiança sobre a idoneidade da sua vítima. “Ela dá motivos”, “Olha o que ela fez para mim, me deixou”, “Você que é culpada, você me deixa nervoso”. E por aí seguem as acusações, em sucessivas atitudes dessa natureza, as quais amarguram a vida de milhares de pessoas. Em consequência disso, isso é, da preponderância da força do discurso do agressor sobre a vítima, muitos casos de denúncias são arquivados, mulheres desistem do inquérito não levando adiante a denúncia, músicas com letras ofensivas e indignas à mulher e seu relacionamento, entre gêneros, são também formas expressas de passar a mensagem de que práticas violentas que aviltam direitos da mulher sejam aceitáveis. 128128 PARA SABER MAIS Acesse o podcast da Rádio Band News FM intitulado Feminicídio, vamos falar sobre: naturalização da violência (MAYER, 2018) e ouça um comentário da psicóloga Sabrina Mazo, pesquisadora do Laboratório de Análise e Prevenção de Violência da Universidade Federal de São Carlos, sobre a naturalização da violência doméstica. Nesse áudio, também podemos ouvir o relato de uma vítima que enfrentou esse problema. Figura 9 – Diga não à violência, denuncie! Fonte: petekarici/Istock.com. Veja agora o relato de dois casos reais, acompanhados em defensoria pública do Tribunal de Justiça1 e com modificações de nomes, para 1exemplificarmos situações que são conhecidas no cotidiano dos profissionais que trabalham com questões relacionadas à violência doméstica. 1 A autora desta aula, como psicóloga, acompanhou casos dessa natureza tanto em atendimentos psicológicos como em mediações que ocorreram na justiça. Assim, apontou os relatos para exemplificar questões que en- volvem a violência estrutural e intrafamiliar. 129129 129 Joana, de 41 anos, relata que estava com seu marido no sítio da família e os filhos estavam em casa na cidade, pois, já maiores, com idade de 23 e 20 anos, respectivamente, tinham outros programas e não queriam acompanhar o casal durante o final de semana. O marido sempre queria se retirar da cidade na quinta-feira ou sexta-feira à noite, porém, como os filhos tinham compromissos com faculdade e estágio, não poderiam acompanhá-lo. Assim, o marido fazia de tudo para viver separado de todos, com poucos e restritos amigos. Pretendia somente que o casal vivesse sozinho entre eles. A mulher tinha que estar disponível e deixar o trabalho, pois ele sempre estava nervoso e, para acalmá-lo, dava sempre um jeito para que pudesse acompanhá-lo. Fazer a chantagem emocional já era parte da opressão, pois Francisco, seu marido, fazia-se de vítima, que não aguentava mais tanto trabalho, tantos compromissos, ficava tenso em casa, sem paciência. E queria sempre ir para esse local afastado. Assim os dois foram perdendo a conexão com as outras pessoas. Viviam somente para si mesmos. Joana relata que, num desses finais de semana, eles teriam discutido, pois a conversa teria ficado acalorada e ela recebeu do marido um tapa no rosto. Ficou aturdida com o fato, cambaleou e quase caiu no chão. Escondeu-se e ficou por horas chorando muito e chocada com o que tinha acontecido consigo. Ligou para o filho pedindo que ele fosse buscá-la, mas ele respondeu: “Mãe, isso é coisa de vocês!” E ela pediu: “Filho, as coisas não estão bem aqui, vem me buscar por favor, estou pedindo”. Porém o filho disse: “Não vou. Isso é coisa de casal e vocês se entendem”. Isso acontece em muitos lares quando alguém pede ajuda. Marisol, 32 anos, casou-se com um homem tendo uma filha ainda criança. Foi mãe muito cedo e, quando iniciou o namoro com Ronaldo, deixou claro que jamais se separariada filha. Foram viver juntos e, depois de oito anos, a menina de Marisol, então na fase da pré-adolescência, passou a apresentar um comportamento estranho, não ia bem na escola e dizia para a mãe que queria ficar estudando na escola o dia todo. 130130 A mãe não entendia, pois a rotina exigia que ela fosse para casa, pois ali passaria a tarde, almoçaria e poderia muito bem estudar em casa com a funcionária que trabalhava na casa. Aline, a jovem menina, começou a contrariar a mãe e ficava na casa de uma colega a tarde toda, e somente ia para casa perto da mãe chegar. A mãe ordenou que ela fosse para casa, mas num determinado momento, Aline vai ao trabalho da mãe e lhe conta que não gosta do padrasto, pois ele costuma importuná-la antes da mãe chegar. Marisol não acredita na filha e fica muito brava, pois, afinal, ele aceitou casar-se com ela e, portanto, Aline deveria ser muito grata a ele, pois ele era o homem da casa. Decidiu, todavia, que não contaria nada a ele, pois sabia que isso iria chateá-lo. Aline chorou e pediu para que a mãe acreditasse nela, contudo Marisol dizia que a filha estava inventando aquilo para atrapalhar sua vida, que ela, a mãe, tinha que trabalhar muito para dar conta das despesas da família, logo, a filha deveria parar de trazer problemas. Passado um mês, Marisol chega em casa e sua filha não havia retornado, e não voltou no dia seguinte. Ligou para a amiga da filha e ela estava lá, dizendo que não queria voltar para casa. A família da amiga de Aline a estava apoiando. Marisol foi até a casa dessa família e eles lhe relataram o que a menina havia contado, e que era melhor a mãe tomar providências, pois, do contrário, eles tomariam. Iriam à polícia denunciar o padrasto da menina. Marisol ficou furiosa com a intromissão da família da amiga de Aline. Então, pegou sua filha e a levou para casa, brigando com a menina, acusando-a de criar toda aquela história. Como punição, Aline foi proibida de ir à casa da amiga e a mãe ameaçou tirá-la da escola, transferindo-a para outra caso insistisse naquilo. Advertiu a família que acolheu Aline a cuidar da vida deles e não estragar a família dela. Aline chorava muito e dizia para a mãe que não aguentava mais a situação com o padrasto, insistindo que ele a incomodava, molestava, descrevendo, inclusive, o que ele fazia. Marisol não se convenceu com os lamentos de sua filha, afinal, não queria que nada abalasse seu tão sonhado casamento. Queria que tudo desse certo e não deu crédito à filha, dizendo-lhe que ela estava com ciúmes do relacionamento da mãe. 131131 131 Dois dias depois, Marisol não se sentiu bem, estava estressada, nervosa e, como se sentia mal no trabalho, resolveu passar na enfermaria da empresa. Ela foi dispensada para descansar em casa. Assim, chegou bem mais cedo que o habitual e então encontrou seu marido no quarto da filha, deitado com ela. Aline estava com as mãos amarradas e a boca amordaçada, enquanto o padrasto a molestava. O choque foi muito grande para Marisol, que avançou sobre o marido, tirando-o do quarto da filha. Foi então que se deu conta de que tudo o que a filha passava era verdade. Tomou providências e separou-se do marido. Portanto, como relatado acima, temos dois casos reais de vítimas de violência doméstica. No primeiro, a tônica é a mãe pedir auxílio para o filho e este não compreender que ela estava em risco. No segundo caso, há uma mãe que não queria enxergar nada que colocasse seu casamento em risco. PARA SABER MAIS Leia a matéria Número de mulheres vítimas de abuso sexual e violência doméstica crescem no Brasil (REVISTA IHU ON- LINE, 2017), que relata um caso de violência doméstica e suas implicações no tocante ao modo como funciona a degradação do relacionamento conjugal e o aumento dos casos de violência sexual e doméstica no Brasil. Em pesquisas e estudos sobre violência, o item relativo à percepção da população sobre determinado aspecto é um dos aspectos observados, em que se procura medir a percepção da população mediante os índices e incidências de tais casos registrados. Ainda que muitos nem percebam que mulheres são discriminadas, o fato a ser verificado é que as estatísticas das pesquisas e dos estudos feitos sobre registro de casos de violência não mentem. Existe, portanto, uma defasagem entre determinados grupos da sociedade que apresentam uma espécie 132132 de cegueira quando a visão está associada a algo que viola o direito de alguém. O preconceito e a visão discriminatória estão tão enraizados na formação das pessoas que elas fazem leituras da realidade de acordo com a sua percepção impregnada desse olhar tendencioso e parcial. Portanto, não veem, não se dão conta e não irão ter compaixão por algo que faz outras pessoas sofrerem. Ao abordarmos a violência doméstica, estamos diante de um cenário muito cruel e de crime. E parece inverídico se refletirmos a respeito de que os autores da violência são seres humanos e de relação próxima com a vítima, e ainda assim são capazes de fazerem outros seres humanos sofrerem, e essa relação próxima é geradora de muita dor e causadora de dramas. Entretanto, temos que ir além de um pensamento, refletindo quais motivações estão associadas a isso. Ainda que estejamos num momento da sociedade que carece de muita educação, inclusive neste chamamento de humanidade, temos assistido a campanhas pelas mídias que abordam o lema “Em briga de homem e mulher, se mete a colher, sim”. Culturalmente, sempre fomos direcionados a não expressar sororidade, compaixão ou empatia quando ouvimos uma briga estrondosa na casa vizinha, no apartamento ao lado do seu, ou mesmo na rua, em algum local. Sempre fomos induzidos a não nos envolvermos em discussões alheias, pois o fato se restringe àquelas pessoas. E temos notícias e comprovações pelo número de casos, os quais demonstraram as consequências dessas situações nas quais não houve uma intervenção e, em decorrência disso, não tiveram um desfecho satisfatório. Com o enorme número de casos de violência doméstica, essa tônica vem se modificando e apontando para o fato de que nem mesmo aquele que é vítima tem força suficiente e voz para fazer parar aquela situação violenta. Afinal, ele é parte envolvida naquele conflito, porém a interferência de fora, obviamente bem conduzida, são meios de intervenções que podem estancar aquela situação. Então, a conduta social se modificou. Na atualidade, recomenda-se que nos metamos em assuntos alheios se temos a noção de que isso pode não acabar bem, chamar a polícia 133133 133 quando se escuta uma briga de tonalidade forte e brutal é uma atitude de civilidade que pode interromper aquela situação, bem como auxiliar aqueles que estão totalmente perdidos em suas funções desvirtuadas de viver ou até salvar a vida da vítima, surtindo penalidades para o autor da violência doméstica. PARA SABER MAIS Leia a matéria “Eu não vou te matar”: um retrato da violência doméstica (REVISTA IHU ON-LINE, 2016). Este artigo ilustra situações constrangedoras pela qual uma vítima passa, inclusive na delegacia. É possível notar, por meio dessa leitura, a naturalização da violência doméstica, reforçando padrões de banalização. ASSIMILE Em 7 de agosto de 2019, a Lei nº 11.340 – Lei Maria da Penha, promulgada em 7 de agosto de 2006, completou 13 anos. Apesar de ser considerada pelas organizações internacionais e pela ONU uma das melhores leis do mundo para o combate à violência contra as mulheres, os registros de casos brasileiros não acompanham essa conquista, sendo desanimadores. Criamos uma lei específica para tais casos, a Lei Maria da Penha, que tipifica o crime, mas precisamos ir para o passo seguinte, que é a mudança de comportamento, até mesmo no aspecto cultural, aquele que reforça modelos patriarcais e machistas, cujo domínio é do homem. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Maria_da_Penha https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_Maria_da_Penha 134134 Com a emancipaçãoe a autonomia das mulheres com relação aos desejos, às escolhas e às decisões para suas vidas, esses aspectos de sua liberdade se chocam à regra vigente até então, pautada na supremacia masculina, tendo como decorrência o enorme índice de casos de violência contra as mulheres. A “sombra” da liberdade feminina faz muitos homens se sentirem agredidos à medida que suas mulheres se emancipam, pensam, opinam, trabalham e conquistam espaços na sociedade. Os registros das múltiplas violências contra as mulheres crescem exponencialmente, ao longo desses anos, principalmente devido ao maior acesso das mulheres aos c2anais de denúncias já conhecidos. Isso pôde ser comprovado pelo serviço ligue 180, mas, principalmente, desde a criação e a regulamentação de leis e das primeiras delegacias especiais de atendimento à mulher, DDM2 ou DEAM3, por volta dos anos 1980. 1.1. O impacto da conduta violenta A conduta violenta nos provoca horror, medos e por isso talvez façamos tantas barreiras ao refletir sobre isso, por ela ultrapassar por completo a compreensão humana, numa posição defensiva de não olhar para o lado humano destrutivo. O homem é capaz de submeter outro ser humano ao sofrimento, ao desamor, à humilhação, às surras, à vantagem da corrupção, que nada mais é que doença de caráter. Isso se configura pelo fato de considerar- se tão esperto e merecedor de benefícios (as “vantagens” dão o toque ilusório de sentirem-se especiais), que podem ter o que outros levariam uma vida inteira para obter, representando a superioridade que o criminoso precisa ter sobre o outro. Dessa maneira, complementa a fantasia de ser invejado, adulado, envaidecido, sente-se assim: superior, e gosta da posição de fazer outros resignarem-se ao seu domínio. Assim também ocorre com a mulher que sofre a violência doméstica, com 2 DDM: Delegacia de Defesa da Mulher. 3 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher. 135135 135 o funcionário que é humilhado pelo chefe, quando um ex-namorado mata a ex-namorada se ela encontra outro para amar, com aqueles que têm desfigurada a beleza por outro que dele sente raiva ou inveja, pela ação daqueles que se sentem poderosos no trânsito, pela corrupção silenciosa feita para muitos sentirem que não têm o sucesso que o outro conseguiu, desconhecendo a forma nada honrosa. Considera-se o fenômeno social da violência doméstica contra as mulheres como crime! O tema é extremamente sério, tendo em vista que se trata da escalada da violência, sendo este um dos marcos iniciais que evoluem para novas sequências violentas e de alta pressão, acompanhadas de muita tensão, reprovação, assombro, medo, instabilidade e desequilíbrio. Com isso, os envolvidos nessa relação ficam doentes e alterados psicologicamente. O agressor, na sua expressão, tem, na intimidade da relação, o ambiente para exercer sua dominação sem necessariamente ser reconhecido socialmente como tal. Vamos encontrar agressores que não demonstrar seu teor de risco e perigo, pois fazem parte da sua dinâmica de personalidade, não ser reconhecido como tal. Ou seja, tentam esconder sua forma extremamente exigente e agressiva, ou pensam que camuflam, porém a conduta de violência psicológica acaba sendo percebida pelos controles constantes, pelo sentimento de posse, pela reprovação e agressividade permanente no trato pessoal, na desqualificação e nos comentários ofensivos, podendo, em alguns casos, haver a ridicularização da pessoa na frente de outras pessoas, familiares, filhos. O que reforça, muitas vezes na visão de quem assiste, que a pessoa é imperfeita, inadequada, que faz tudo errado, que falha. Pois é essa a imagem criada pelo agressor, que sua vítima não age e não é pessoa qualificada, desmerecendo por completo sua pessoa numa inversão total de que tem dificuldades em viver com alguém assim, que lhe dá tanto trabalho. A violência doméstica, como o próprio nome retrata, faz referência ao ambiente familiar, à casa onde as pessoas convivem e por isso ficam mais expostas aos ataques, pois são reiterados e frequentes, ou seja, 136136 a expressão da violência doméstica é caracterizada pelas relações interpessoais dos sujeitos, o autor da violência e a vítima (mulher). Além disso, o fenômeno da violência doméstica, ou qualquer outra, corrompe pessoas, destrói relacionamentos, gera medo e horror e causa temor social, pois o limiar do potencial violento é desconhecido, não se sabe quando irá explodir novamente e com qual carga de destrutividade. É assim com a aquela explosão ocorrida numa discussão que se torna acalorada, em que a medida do razoável é perdida e as ações revelam o desproporcional. O ponto a refletir é se é possível a quem está envolvido no problema, sair de situações que lhe coloquem nesse ciclo destruidor. É na violência que o criminoso encontra justificativa para destilar sua forma distorcida de ver sua realidade numa conotação única e extremamente peculiar pelo seu viés desviante e fora de proporção. A prova disso é que as maiores partes dos crimes são por motivos torpes. Logo, é na forma violenta de se relacionar que o agressor encontra sentido para punir, pois é esta a sua marca: responsabilizar as pessoas pelo mal que existe dentro de si mesmo. Assim, ele entende que as pessoas próximas a ele são responsáveis de algum modo. Desse modo, se entenderem que os filhos atrapalham a vida, irá certamente tratá-los com essa visão, e tudo o que fizerem irá justificar o fato de permanecerem pensando desse modo. Naturalmente, a conduta violenta é uma resposta dissociada do comportamento saudável, por isso é necessária a compreensão do ciclo agressor e a condição da vítima como características desse dilema social. Somente assim mais pessoas poderão aprender a ler tais comportamentos quando eles ocorrerem e a aprender a sair dessas situações, bem como estabelecerem distância com racionalidade. Assim, a vítima saberá como se afastar de tais relacionamentos tóxicos, que a colocam na condição de subjugada e de perda do controle pessoal, pois o agressor não medirá esforços para mostrar-lhe quem está no comando. A Lei do Feminicídio foi sancionada em 9 de março de 2015, como resultado de um desdobramento da Comissão Parlamentar Mista de 137137 137 Inquérito (CPMI) da Violência Contra a Mulher no Brasil, Projeto de Lei 292, do Senado Federal, de 2013, sendo, portanto, tipificado como crime, a forma qualificada de homicídio, conforme o Código Penal. Segundo os dados do Mapa da Violência de 2012, em sua atualização de dados específicos sobre homicídio de mulheres no Brasil, há registro de assassinato de 92.100 mulheres no país entre 1980 e 2010. Em 2010, esse registro foi de 4.465 mulheres assassinadas. Outro estudo mais recente, do Instituto de Pesquisas Aplicadas – IPEA, mostra 5,82 mortes a cada 100 mil mulheres entre 2009 e 2011. Reproduzindo o destaque do relatório, tem-se uma média de 5.664 mortes por ano, 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, uma a cada hora e meia. Segundo dados presentes no Mapa da Violência, um número estimado de 4,4 mulheres a cada 100 mil habitantes no ano de 2009 deu ao Brasil a quinta posição entre 84 países que tiveram seus índices de homicídios contra mulheres comparados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A maior parte dessas mulheres é jovem e tem baixa escolaridade. Segundo o estudo do IPEA, 61% delas são negras. Dados apresentados pelo Mapa da Violência mostram que em 71,8% dos registros de atendimento, a violência ocorreu na casa das mulheres. Trata-se de um padrão fundamental para o entendimento do feminicídio: mulheres de diferentes faixas etárias são agredidas no espaço doméstico, por pessoas que lhes são próximas – pais, tios, namorados, companheiros. E apesar da enorme importância da Lei Maria da Penha, promulgada em 2006, as estatísticas apontam que houve pouco avanço na prevenção do homicídio de mulheres por homens que lhes são próximos e convivem com elas, o que asmantém sob o domínio do agressor e com mais obstáculos para sair da situação opressora. A naturalização da violência doméstica direciona para que as atitudes do agressor sejam absorvidas pela mentalidade coletiva como algo do casal, a quem cabe, portanto, a resolução. Rebelar-se contra o agressor coloca em risco a permanência da união, do casamento. Na maioria dos casos, as próprias mulheres ficam receosas em fazer algo, pois sentem que 138138 têm mais a perder com a separação, seja pelos filhos ou pela questão financeira, seja pelo que construíram juntos, ou porque pretendem melhorar o relacionamento. Desse modo, a vítima passa a carregar sobre seus ombros a responsabilidade para fazer dar certo a união, flexibilizando seus limites para não contrariar o agressor. Esse comportamento das vítimas pode revelar que, geralmente, elas não estão prontas para colocar fim ou limite na relação. Elas estão achatadas, sem força para lutar, portanto agem de acordo com o que acreditam ser mais prudente: salvar a família e fazer com que o agressor compreenda que ele não precisa agir daquele modo. O segredo acaba fazendo parte da convivência familiar, e assim se mantém a relação de abuso, sofrimento e de exposição à violência, pois muitas outras coisas que fazem parte da vida familiar são avaliadas como boas, como a expectativa que as vítimas nutriram de que o casamento ofereceria a elas todo o respaldo necessário para viver. Com a decepção e a frustração vivenciadas, por vezes, compreendem que elas mesmas não estão agindo o suficiente para resolver, trazendo muitas vezes o problema para si, e tentando solucionar com insucessos reiterados, até que se percebam exaustas, com medo, ressentidas, magoadas, entristecidas e naturalizadas com aquele padrão de agressividade e violência. Com isso, se submetem ao domínio do agressor e chegam ao ponto desejado por ele, em que são totalmente aprisionadas e perdem a sua espontaneidade. Portanto o esclarecimento pela ponderação de que, se em outras pessoas do seu convívio o agressor não bate, por exemplo, nos seus amigos e colegas de trabalho, por que haveria de admitir que batesse em sua esposa? Fazer as perguntas certas poderá levar a uma nova ótica em que as mulheres começam a perceber que podem aprender a sair dessa armadilha perigosa que é conviver num ambiente doentio. Pelas campanhas, cartazes e programas que abordam o tema, estamos fazendo com que as mulheres identifiquem em seus relacionamentos algo que seja nocivo e prejudicial a todos da família, pois, ao agredir a mulher, todos ali terão sequelas. 139139 139 Estudo realizado pelo IPEA em 2015 expôs a falta de Centros de Referência de Atendimento à Mulher3 (CRAM), que deveriam oferecer ajuda legal e psicossocial e proporcionar os cuidados adequados. Entre todas as 5.561 cidades brasileiras, apenas 191 desses centros são especializados e a maioria dos 214 centros estão localizados na região Sudeste. Esse estudo também mostrou que são escassos os abrigos que oferecem asilo a mulheres com ameaças mortíferas iminentes: apenas 77 deles em todo o país, o que corresponde a 1,3% de todas as cidades. Podemos concluir que a banalização da violência doméstica é proporcional à alta incidência de casos, apontando-nos, de forma dolorosa, o risco pelo qual muitas pessoas passam por conviverem em lares de famílias violentas, com possibilidades de se tornarem estatística criminal. Muitas situações são relevadas como atenuantes para a devida apuração de um conflito, bem como os limites que o judiciário tem para dar conta da questão. Por outro lado, tornando o assunto cada vez mais abordado, temos chances de instrumentalizar as pessoas a denunciarem o agressor e, com isso, equilibrarem o poder e a dignidade. Com a justa correção de certas condutas, é possível corrigir por meio da implicação judicial. É preciso lembrar sempre que, como as vítimas correm risco, toda ação deve ser bem conduzida, por isso é fundamental a ajuda de profissionais. Para tanto, deve-se partir da quebra do segredo familiar, relatando os fatos nos locais de atendimento que estiverem disponíveis: centro de saúde, diretoria de escolas, delegacia de amparo à denúncia, além de contar a familiares de total confiança. O problema é que, quando muitas mulheres tomam a atitude de se afastar ou de se separar do companheiro violento, este se rebela e, geralmente, não aceita bem o desfecho, pois isso representa que a mulher, a vítima, está empoderada. 3 CRAM: é um espaço destinado a prestar acolhimento e atendimento humanizado às mulheres em situação de violência, proporcionando atendimento psicológico e social e orientação, bem como encaminhamentos jurídicos necessários à superação da situação de violência, contribuindo para o fortalecimento da mulher por meio de uma atuação articulada com instituições governamentais e não governamentais que integram a Rede de Atendimento às Mulheres. 140140 Em casos assim, os agressores ficam apequenados e com medo, sentem- se acuados, mudam o comportamento de forma temporária, apenas para retomar o controle da situação. Quando o afastamento for total, temos a alta incidência de crimes praticados por ex-companheiros que não suportam o fato das suas presas ou vítimas estarem liberadas de seu domínio. A partir daí, então, decidem por algum plano que implica a morte da vítima, ou estruturam um acidente que marque a vingança. A banalização da violência doméstica leva à invisibilidade do crime, pois quando os casos não implicam mortes, são causadores de danos que marcam boa parte da vida das vítimas. Como recuperar um jovem estuprado? E uma menina molestada por muitos anos pelo padrasto, sem poder contar para ninguém, por ter passado anos sendo ameaçada? Como recuperar pessoas traumatizadas? Certamente, muito trabalho focando a saúde mental e ajustes de outras ordens serão necessários. A violência cometida contra a mulher ainda é a prática violenta ou criminosa de maior incidência no mundo, sendo o percentual mais expressivo na quebra dos Direitos Humanos, conforme estatísticas. Isso também é um grande obstáculo para o alcance das metas inscritas na agenda 2030 para o desenvolvimento humano. TEORIA EM PRÁTICA Como um bom exercício, a fim de levantar as motivações que estão por trás das condutas violentas e criminosas, poderemos chegar a uma reflexão importante do que favorece a sua ocorrência. Convido-os a ler alguns artigos publicados pela mídia impressa, cujo objetivo é identificar a motivação torpe para a agressão. Com isso, a finalidade do exercício será refletirmos, mais a fundo, a respeito da observação dos aspectos presentes em tais condutas, ou seja, o contexto que deflagra o conflito. 141141 141 Após ler as matérias jornalísticas, encontre por qual razão houve a prática violenta ou o crime em cada um dos casos. VIANA, G.; GUERRA, R. Jovem é preso após jogar ex- namorada grávida contra ônibus: câmeras flagraram Lucas Florençano, de 25 anos, empurrando a ex, em Botafogo. O Globo Rio, Rio de Janeiro, 28 jul. 2017. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019 FRANCO, L. Violência contra a mulher: novos dados mostram que “não há lugar seguro no Brasil”. BBC News Brasil em São Paulo, São Paulo, 26 fev. 2019. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019. PAIVA, R. Violência é a principal preocupação de crianças e adolescentes, diz pesquisa. Pesquisa foi feita em parceria entre a Rede Nossa SP e Ibope. Maioria dos jovens têm medo de assalto, roubo e violência. G1, Jornal Hoje, São Paulo, 23 jul. 2015. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019. VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Qual das alternativasgênero, expressões artísticas, ideológicas e formas de linguagens, que são os recursos utilizados para a luta e disputa. De impor sua posição como se demais expressões não pudessem existir. Como exemplo, o preconceito e a violência racial e de gênero que se utilizam das diferenças para justificar discrepâncias salariais, criminalização e até perseguições de grupos. Manifestações coletivas de oposição a determinados grupos, como se tivessem de ser erradicados, são exemplo dessa modalidade de violência. Partiremos agora para apresentar o conceito de violência intrafamiliar, que nos dá outro enfoque da violência. Na sua dimensão mais íntima, que é o ambiente familiar, envolvendo convivência e condutas reiteradas, pois os seus agentes protagonistas da conduta violenta estão em convivência, expostos a essa permanência nada saudável. De onde se compreende as medidas protetivas que afastam os envolvidos para que cesse e ponha um fim à recorrência das condutas violentas. 1.3. Violência intrafamiliar Com tal cenário, a assistência às famílias tem se tornado um foco de pesquisas e interesse no campo da intervenção: de como podemos contribuir enquanto sociedade, de modo a oferecer contribuições por meio de estatísticas, análises, reflexões aprofundadas e ações que venham sanar, reduzir e criar ações interventivas de proteção, prevenção e esclarecimento. Como sabemos, a violência é democrática, espalha-se por diversas populações em regiões distintas e públicos-alvo (que são as vítimas), tais como negros, crianças, jovens, mulheres e homens. Em 2016, 1414 pesquisas realizadas pela Diretoria de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia – DIEST do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública, para apurar estatísticas dessa estranha relação entre agressor e vítima, apontam que a maioria dos casos de estupros contra crianças foram praticadas por pessoas conhecidas em 30,13% dos casos, como pai, padrasto, irmãos. Na fase adolescente e adulta, encontramos uma divisão em maior frequência cometido por desconhecidos, numa margem de 32,50% em adolescentes e 53,52% em adultos. No entanto, nesse ranking, encontramos registros, em segundo lugar, de 26,09% de casos de violência sexual contra adolescentes praticadas por familiares e/ou amigos, e 18,82% em vítimas na fase adulta. Acompanhe a estatística na tabela abaixo da incidência, no Brasil, do tipo de vínculo/grau de parentesco do agressor com a vítima de estupro, segundo faixa etária (2016). Tabela 1 – Brasil: vínculo/grau de parentesco do agressor com a vítima de estupro, segundo faixa etária da vítima (2016) Vínculo vítima e agressor Criança (até 13 anos) Adolescente (14 a 17 anos) Adulto (18 anos ou mais) Desconhecido(a) 9,41% 32,50% 53,52% Amigos/ conhecidos 30,13% 26,09% 18,82 Cônjuge 1,56% 3,39% 8,20% Ex-cônjuge 0,27% 0,53% 5,44% Outros 17,59% 7,58% 4,48% Ex-namorado(a) 0,93% 2,14% 2,65% Namorado(a) 7,78% 9,01% 1,66% Padrasto 12,09% 7,38% 1,23% Pai 12,03% 6,54% 1,30% Irmão(ã) 3,26% 1,55% 0,72% Pessoa com relação institucional 1,07% 0,94% 0,63% 1515 15 Filho(a) 0,26% 0,13% 0,28% Policial/ agente da lei 0,08% 0,10% 0,32% Cuidador(a) 0,99% 0,28% 0,18% Patrão/chefe 0,09% 0,20% 0,40% Mãe 2,48% 1,63% 0,18% Fonte1: CERQUEIRA, 2018. A proporção de recorrência nesses casos é grande, pois, na medida em que seus agressores são conhecidos, existe grande probabilidade de estarem sendo vítimas há mais tempo e de que o fato venha a ocorrer futuramente, pois está exposta ao mesmo ambiente. Em 54,9% dos casos, as vítimas, de acordo com o relatório, foram vítimas anteriormente mais de uma vez. Em contrapartida, com pessoas desconhecidas, essa margem cai para 13,9% da vítima não ter passado por tal violência antes. Quando a vítima e o autor se conhecem, 78,6% dos casos acontecem dentro da residência, e em um terço desses casos, há estímulo do álcool e a força física, ameaças foram a forma de coação da vítima. Refletimos que as famílias estão nesse espectro de reprodução violenta. Sendo dilaceradas, abaladas e desviadas de sua função, que é proteger, cuidar, prover de amor, formar indivíduos para uma sociedade futura. E é na relação violenta intrafamiliar que tais deformações ocorrem, cuja nascente da violência parte do padrão relacional aprendido dessas interações humanas precárias. Passando de vítimas a um patamar de potenciais agressores de novos alvos, reproduzindo, assim, condutas a que foram submetidos, conforme estudos feitos em pesquisas realizadas para a produção do livro Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência também (RICOTTA, 2012). Corroborando nesse sentido, existem dados que apontam que o local da ocorrência de casos de violência ocorre na residência, totalizando 1 Segundo referência, as colunas não somam 100% pois, para um mesmo caso de estupro, pode haver mais de um agressor. 1616 13.093 casos em 2018, de acordo com o “Atlas da Violência 2018”, com 78,6% dos casos ocorridos com pessoas conhecidas, ou seja, familiares (pai, mãe, padrasto, irmão, tia, tio, avós), em casos de estupro, espancamento, ameaças, ofensas, uso de produtos inflamáveis ou quentes, desqualificações, armas perfurantes e de fogo. Sendo que em 5.038 casos foi suspeitado o consumo do álcool, em 29,8% com pessoas conhecidas da família. Pensarmos na violência que ocorre nas interações familiares tem a ver com a primeira constatação delicada a se fazer: há muita agressividade e violência nas paredes protegidas do lar. Havendo o surgimento de um “padrão de relação”, em que os membros da família perdem o sentido verdadeiro que a relação pressupõe, passando a estabelecer o relacionamento em bases difíceis de seguir com naturalidade e fluidez no trato pessoal. Contrariando toda e qualquer forma saudável de convivência, muitos ambientes familiares são lugares difíceis e perigosos para viver. Contrariam os princípios fundamentais para uma vida harmoniosa e criam a desagregação que reverterá na perda qualitativa de muitos indivíduos na sua contribuição em sociedade. 1.4 O ciclo da violência entre agressor e vítima Este assunto aborda a estranha relação entre agressor e vítima, que após estabelecerem uma conduta reiterada, dada a frequente exposição à agressão e violência, configura-se um ciclo vicioso, que tem um funcionamento peculiar para sua manutenção, ou seja, que não altere a posição de dominância. Precisamos compreender que a patologia das relações humanas é expressa na dinâmica relacional, no modo de ela se estabelecer. Quando se estabelece um ciclo repetitivo, reincidente, tal ação se propõe como forma de manutenção do poder – que é o aspecto de interesse maior do agressor: ser e permanecer o dominador da interação. Observem o esquema abaixo, um exemplo de um sistema que se retroalimenta pela conduta. 1717 17 Figura 2 – O Ciclo Agressor x Vítima Fonte: adaptado de Ricotta (2012, p. 55). É importante esclarecer que práticas violentas são todas aquelas que desrespeitam o limite natural da interação entre uma pessoa e outra, na tentativa frequente do agressor forçar, por meio de diversas táticas, que a vítima faça aquilo que não é seu desejo. Tais como imposições, fazer pressão, abuso de autoridade, uso da força em alguns momentos, levantar a voz, suscitar o medo, expressão de desaprovação constante e palavras que desqualificam a pessoa – práticas que marcam o representante do poder – daquele que se coloca na posição de dominador, subjugando aquele que determina como sua vítima – o elemento dessa interação que tenderá a cumprir suas exigências e vontades – na posição de dominado. Mas o que está envolvido no caso de uma pessoa que força uma criança de poucos meses de vida a comer com sua mão e que não derrube a comida? O que está em torno dessa cena? Que a faz gritar, fazer expressão feia para a criança, ser intolerante, falar palavras de teorexplica melhor o que é feminicídio? a. Homens que não gostam de mulheres. https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503 http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol 142142 b. Quando mulheres são o alvo da agressão, exatamente por serem mulheres. c. Dados baseados na sociedade apuram que mulheres são mais vítimas de violência. d. A violência pode ser democrática, mas o fenômeno explica o conflito entre gêneros. e. Quando as mulheres procuram se rebelar contra o autoritarismo masculino. 2. Qual legislação defende e criminaliza os casos contra a mulher? a. Lei do Feminicídio. b. Lei do Abuso. c. Lei Maria da Penha. d. Lei do Estatuto da Família. e. Direitos Humanos. 3. O que significa o termo “naturalização da violência doméstica”? a. Significa que a violência se tornou tão comum que todas as pessoas se acostumaram com a ocorrência dela. b. Significa que a violência é democrática, ocorrendo em todas as camadas sociais e econômicas. 143143 143 c. Significa que a violência, como um problema social relevante, tornou-se natural e corriqueira, sendo necessária a intervenção do Estado para coibi-la. d. Significa que a violência é relativizada, dando margem a uma cultura permissiva a sua ocorrência, em que a vítima é culpabilizada. e. Significa que a violência aponta claramente quem ocupa a posição de agressor e de vítima, dando a cada um as razões de atuarem desse modo. Referências bibliográficas Atlas da violência 2019. / Organizadores: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Secretaria de Documentação, Coordenadoria de Biblioteca. Lei Maria da Penha Bibliografia, Legislação e Jurisprudência Temáticas. Brasília (DF), 2010. FRANCO, L. Violência contra a mulher: novos dados mostram que “não há lugar seguro no Brasil”. BBC News Brasil em São Paulo, São Paulo, 26 fev. 2019. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019. MAYER, G. Feminicídio, vamos falar sobre: naturalização da violência. Publicado em: 18 set. 2018. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019. PAIVA, R. Violência é a principal preocupação de crianças e adolescentes, diz pesquisa. Pesquisa foi feita em parceria entre a Rede Nossa SP e Ibope. Maioria dos jovens têm medo de assalto, roubo e violência. G1, São Paulo, 23 jul. 2015. Jornal Hoje. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019. REVISTA IHU ON-LINE. “Eu não vou te matar”: um retrato da violência doméstica. Publicado em: 8 jan. 2016. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47365503 http://www.bandnewsfm.com.br/2018/09/18/feminicidio-vamos-falar-sobre-naturalizacao-da-violencia/ http://www.bandnewsfm.com.br/2018/09/18/feminicidio-vamos-falar-sobre-naturalizacao-da-violencia/ http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/07/violencia-e-principal-preocupacao-de-criancas-e-adol http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vithttp://www.ihu.un 144144 ______. Número de mulheres vítimas de abuso sexual e violência doméstica crescem no Brasil. Publicado em: 28 nov. 2017. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2019. VIANA, G.; GUERRA, R. Jovem é preso após jogar ex-namorada grávida contra ônibus. Câmeras flagraram Lucas Florençano, de 25 anos, empurrando a ex, em Botafogo. O Globo Rio, Rio de Janeiro, 28 jul. 2017. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2019. WAISELFISZ, J.J. Mapa da Violência 2012: Os Novos Padrões das Violências Homicidas no Brasil.São Paulo: Instituto Sangari. 2011. Gabarito Questão 1 – Resposta B Resolução: a alternativa B, tendo em vista que tais crimes ocorrem por serem mulheres. Questão 2 – Resposta C Resolução: é a Lei Maria da Penha, pois foi criada exatamente para amparar e qualificar como crime os casos de violência doméstica, além de punir o agressor. Questão 3 – Resposta D Resolução: significa que a violência é relativizada, dando margem a uma cultura permissiva a sua ocorrência, em que a vítima é culpabilizada. http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil http://www.ihu.unisinos.br/186-noticias/noticias-2017/574078-numero-de-mulheres-vitimas-de-abuso-sexual-e-violencia-domestica-crescem-no-brasil https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s https://oglobo.globo.com/rio/jovem-preso-apos-jogar-ex-namorada-gravida-contra-onibus-21643446?utm_s 145145 145 Ressignificação do papel profissional na ruptura de ciclos de violência Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Apresentar o conceito de ressignificação e sua relevância para o estudo. • Apontar a importância de um novo olhar sobre a violência, visando o tratamento das vítimas e dos agressores em processo de recuperação. • Apontar que novos modelos mentais são potenciais transformadores da sociedade. 146146 1. Introdução Nesta Leitura Fundamental, vamos apresentar elementos importantes que traduzem a participação dos profissionais como facilitadores do trabalho com pessoas que passam por situações de violência e, em especial destaque, com o propósito de interromper, criar consciência, educar para a vida, prevenir, orientar, tratar e transformar pessoas visando cessar o ciclo da violência. Isso é possível por meio de ações de conscientização, prevenção e respectiva modificação deconduta. Portanto, é de vital importância a cooperação desses agentes que têm contato com essa realidade, a fim de respaldar uma atuação direcionada face a sua complexidade e carga destrutiva para com os elementos da sociedade. Lidar com a violência pressupõe uma jornada árdua, pois se refere à necessidade de uma mudança de conduta que somente pode ocorrer se acompanhada de uma sensibilização para os efeitos nocivos que ela em si repercute na vida das pessoas, das famílias e da sociedade. Para tanto, é fundamental atribuir um novo significado a tal condição, seja em relação às pessoas envolvidas como ao contexto violento. Permanecer com a mesma visão da realidade faz prevalecer os mesmos códigos aplicados em vez de entender a necessidade de explorar a temática, a fim de encontrar novas tentativas que contribuam para a erradicação ou diminuição. Assim, também é fundamental uma conduta profissional que contenha um novo modelo que ressignifique a impotência vivenciada por tantas vítimas diante das situações de violência. PARA SABER MAIS Recomendamos a leitura do texto: “É necessário ressignificar para atingir novos resultados” (POLAK, 2017), que trata da necessidade de alterarmos certos modelos mentais a fim de atingir novos resultados, ou seja, fazer mudanças de comportamento para encontrar possíveis soluções de problemas. 147147 147 2. A ressignificação O sentido de ressignificar vem de uma conceituação formulada pela neurolinguística e pela teoria sistêmica, sendo parte de um método para fazer com que pessoas possam atribuir novos significados a acontecimentos por meio da mudança de visão em relação a algo ou alguém. A programação neurolinguística utiliza várias técnicas para fazer com que as pessoas percebam o mundo de uma maneira mais agradável, proveitosa e eficiente. Envolve uma atitude, porém acompanhada de um modelo mental – expansão de conceitos que oportunizam uma nova cognição para uma diferente compreensão da relação da violência com os diversos níveis da sociedade. O significado de todo acontecimento depende do filtro pelo qual o vemos. Quando mudamos o filtro, mudamos o significado do acontecimento, e a isso se chama ressignificar, ou seja, modificar o filtro pelo qual uma pessoa percebe os acontecimentos a fim de alterar o significado desse acontecimento. Quando o significado se modifica, as respostas e os comportamentos da pessoa também se modificam, tornando-se um elemento-chave para o processo criativo inclusive. Desse modo, podemos associar esse termo ao sentido de inovar sua visão diante de um fato, contexto ou realidade. Logo, é preciso pensar algo, uma ideia ou solução de forma diferente de antes, podendo ser vistos de forma inovadora. E é esse olhar inovador que contribui para o surgimento de soluções, pois, ao dar novos significados para os acontecimentos, a percepção se modifica. O termo é comum na psicologia, sendo este um recurso utilizado para fazer as pessoas compreenderem que, ao modificarem suas percepções com relação à própria vida e a fatos que estejam sendo vivenciados, boa parte de sua solução será melhor encaminhada se houver o processo da criatividade e de espontaneidade necessário para que isso ocorra. E eles são fundamentais para a saúde mental das pessoas, como aponta Moreno (1987) na teoria psicodramática. https://pt.wikipedia.org/wiki/Significado https://pt.wikipedia.org/wiki/Programa%C3%A7%C3%A3o_neuroling%C3%BC%C3%ADstica https://pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A9cnica https://pt.wikipedia.org/wiki/Comportamento https://pt.wikipedia.org/wiki/Criatividade 148148 Figura 10 – Inovando a conduta e possibilitando ressignificar velhos modelos Fonte: RapidEye/Istock.com. 2.1 Ressignificando a violência, é possível? Sabemos que os casos que envolvem situação de violência são marcados, além do próprio fato, pela ação da memória que enfatiza ainda mais a carga tensional existente em rememorar ou lembrar, por meio da memória, fatos desagradáveis, dolorosos e que levam ao sofrimento. Muito desse impacto repercute no que em psicologia se diz trauma, cujos efeitos vão sendo reproduzidos mesmo que a ação não esteja ocorrendo. Vamos explicar melhor: Maria, de 32 anos, sabe que quando seu marido, João, 33 anos, chega do trabalho bêbado, muita coisa ruim pode ocorrer naquela noite. Ele se torna agressivo, provoca-a, interpreta a situação de forma negativa e gera mal-estar e medo. Muitas brigas surgiram desse contexto e Maria, por diversas vezes, foi agredida com objetos pelo marido, que a surrou várias vezes e a forçou a ter relações sexuais sem que houvesse clima e ambiente ameno para isso. O convívio não se tornou mais natural, pois o trauma existe e se faz presente toda vez que João chega e a esposa percebe que ele está alcoolizado. Sintomas de pânico, tremor das mãos, palpitação 149149 149 de frequência cardíaca acelerada, dores de cabeça são indícios da ação traumática que atuam mesmo antes de novo fato violento ocorrer, pois o indício é o mesmo: João, alcoolizado, gera dissabores se essa for a compreensão que Maria registrou. Toda vez que ele chegar em casa bêbado, a reação será a mesma, tendo briga ou não. A ação traumática persiste enquanto padrão mental, pois isso se dá pela ação da memória. O padrão mental, registrado por Maria, compreende a situação de uma determinada forma que tem sentido para ela de acordo com a vivência pessoal passada. E, ainda que João chegue em casa alcoolizado e não seja agressivo com ela, e vá dormir, por exemplo, os sintomas vão agir, sejam eles físicos ou psíquicos. Ao se tratar de uma rememoração, tomam-se como perspectiva as ideias de Vygotsky (1998), que aponta que tais lembranças podem nos ajudar a compreender tal posição – a do que lembra –, o que nos coloca diante de novas aprendizagens, uma vez que o contato que estabelecemos com a realidade não se dá de forma passiva, mas oferece ao pesquisador possibilidades de reestruturar suas experiências pela interação com o seu ambiente social. Nesse contexto, em que as situações lembradas podem também ter um viés pedagógico de aprendizado, extraído da experiência, ainda que dolorosa, podem resultar em ações de prevenção, ocasionadas pelo medo, pelo temor ou receio de que tal situação agressiva ou violenta volte a ocorrer. Quando Maria percebe João alcoolizado, para ela, é o início de uma série de sintomas que produz, dando vazão ao medo e ao horror, pois sabe que terá que passar por situação difícil. Por outro lado, como instinto de sobrevivência, desenvolverá outras atitudes cujo intuito é diminuir a tensão e a preservação de sua vida. O fato violento tem intensidade e age na memória da vítima, mesmo que esse fato violento não esteja ocorrendo e atuando no indivíduo pela ação da memória. 150150 A perspectiva defendida por Selligman-Silva (2003) aponta a afetividade com que a memória se relaciona com o passado, intervindo e determinando seus caminhos, ou seja, na pluralidade do social é que se dá constantemente um embate entre diferentes leituras do passado, entre diferentes formas de enquadrá-lo. É a ressignificação da memória. Para Chauí (1987), filósofa brasileira, ao discutir o papel da memória, enuncia-nos que o ato de lembrar não é reviver, mas refazer. Ao lembrar, refletimos a partir do vivido, revivendo, refazendo, recriando, construindo no tempo atual e não simplesmente trazendo o vivido, tentando dar um novo significado à experiência e se tornando diferente com isso. Na ressignificação do contexto da violência, o discurso também se modifica e podemos identificá-lo na área da comunicação, com campanhas informativas de esclarecimento à sociedade, como alerta e como ensinamento de que a violência é crime, degradante e desumano. O Conselho Nacional de Justiça vem promovendo diversas campanhas pela internet, pela mídia televisiva, por meio de cartazes informativos distribuídos em órgãos públicos, pela realização de palestras e treinamentos aosprofissionais para que possam sensibilizar cidadãos frente ao tema. Tal ação é, sem dúvida, fundamental para uma ação efetiva da mudança de olhar a respeito da conscientização, gravidade e intervenção da violência. O ato de ressignificar também envolve os cidadãos, que também são agentes da perpetuação de condutas que ferem princípios basilares da constituição, por atos discriminatórios e reforço de modelos violentos e agressivos assistidos em novelas, filmes, internet, jogos ou games, noticiários que a todo tempo tendem a informar tragédias, crimes e outras mazelas nas quais o teor expresso é de que pessoas fazem outras pessoas sofrerem. 151151 151 PARA SABER MAIS Recomendamos a leitura do seguinte artigo: “A construção da significação da experiência do abuso sexual infantil através da narrativa: uma perspectiva interacional” (SELL; OSTERMANN, 2015). O texto aborda a construção da significação da experiência do abuso sexual infantil por meio da narrativa: uma perspectiva interacional. Aponta-nos uma experiência prática envolvendo a narrativa de crianças e jovens que passaram por situações de violência, destacando as repercussões entre iguais. A partir de um processo de ressignificação cultural, por exemplo, é possível atribuir novas funções e interpretações a obras de arte, músicas, filmes, etc., fazendo refletir sobre as suas repercussões, tais como a discriminação, os preconceitos e os contextos de interação que perpetuam e produzem violência. Assim, o objetivo é direcionar pessoas a uma nova consciência. A dissimetria de gênero como uma representação social vigente sinaliza para a necessidade de criarmos espaços de reflexão para que ocorram esse momento propício de ressignificação dos gêneros homem e mulher. Nas escolas, também é possível criar espaços importantes para romper com esse ciclo. Neles deve-se estimular a equanimidade entre os alunos, desde crianças, passando pela adolescência e pela fase do adulto jovem, buscando também desconstruir a ideia da agressão física. É, portanto, fundamental uma educação que estimule a resolução pacífica de conflitos, por meio da metodologia da conciliação e da mediação de conflitos, os quais podem ser utilizados tanto judicialmente como extrajudicialmente. Também é preciso estimular o reforço do 152152 diálogo e a busca pela compreensão mútua como elemento de ponto de partida para mediar situações difíceis, estimulando a visão de que o revide e a vingança não são a melhor tática de defesa, mas sim uma forma de perpetuação de violência que contribui para a sua escalada que é o fenômeno pelo qual se analisa o aceleramento das condutas que tendem a responder cada vez com maior intensidade para aquele nível de agressão recebido. Digamos que Marcos, 18 anos, levou um chute, no futebol, de Frederico de 17 anos. Se o entendimento de Marcos for o de que se trata de uma agressão proposital, ele se sentirá impelido a tirar satisfações com o colega de futebol e mandar outro chute ainda mais forte. Com esse impacto, Frederico, que por sua vez agiu na situação de forma natural, com os riscos que o esporte possui, não sendo proposital, não compreenderá o contexto daquele impacto e, sentindo- se agredido, tenderá a buscar Marcos em campo para desferir-lhe um murro ainda mais forte que o chute – onde tudo começou. Se o mesmo fato for compreendido e vivido de outra forma, isso é, Marcos recebe o tal chute, mas entende que foi uma cortada pela bola que acarretou o tal chute e não uma ação isolada de agressão, assim, não tenderá a seguir Frederico para dar-lhe outro chute maior. A escalada da agressão e violência tem essa característica, de gerar um novo ato, como revide da ação primeira, e seguindo-se para novos episódios de violência sucessivamente, aquecendo o fato inicial com ingredientes fantasiosos, de proporção extremamente elevadas do que seria necessário para lidar com a situação. Por isso que a educação é o ingrediente primordial para lidar com os temperamentos pessoais e para possibilitar um clima de conciliação de interesses, necessidades e a proporção da situação. No tocante ao preparo dos profissionais em âmbitos social, judicial, policial, educacional e de saúde, faz-se necessário que estes também sejam mais preparados para compreender esse fenômeno que se 153153 153 alastra. Isso é possível ao serem criadas estratégias para reflexão acerca das práticas, além de prever tais situações com uma expectativa prévia do que será aceito e do que será repudiado, como ações que contenham violência expressa. Empresas modernas atuam, por exemplo, apresentando seu código de ética, com condutas que não são admitidas dentro da organização, como, por exemplo, o assédio sexual e moral. Quando estabelecem esse pacto com o funcionário, este se torna ciente de que determinadas atitudes serão reprováveis e repercutirá na quebra do contrato. PARA SABER MAIS Recomendamos a leitura do artigo: “Naturalização, reciprocidade e marcas da violência conjugal: percepções de homens processados criminalmente” (PAIXAO, 2018). O artigo científico aborda o sentido da ressignificação como um passo adiante para os profissionais seguirem em busca de uma ação promotora de uma mudança social. 2.2 Os profissionais que têm contato com a violência Os profissionais de saúde são os primeiros a tomar contato com os casos de violência, em função de serem procurados para tratar sintomas que estão associados ao fato gerador, bem como as adjacências, não menos importantes, que envolvem um contexto de maior gravidade. Muitas queixas, tais como dor de cabeça, disenteria, dor de estômago, febre, traumas, úlceras, manchas na pele, taquicardia, ferimentos estão associadas à exposição à violência. Mediante a identificação do caso de violência intrafamiliar numa consulta médica, psicológica ou num atendimento de assistência social, 154154 passaremos para outro patamar que envolverá uma série de condutas que são previstas em códigos de conduta ética profissional. O que fazer diante dessa realidade? Naturalmente, diante de um cenário de impotência, pois as agressões e os traumas da violência já existem e certamente que, nesses casos, temos que administrar algo que já se apresenta como um problema. É que nem sempre a vítima está totalmente convencida de confiar aos equipamentos públicos a solução para o seu caso. Isso dito, tendo em vista a vergonha e a negação acompanhadas nesses casos, há uma série de justificativas em torno do agressor. Uma delas sustenta que ele somente fica violento quando bebe; outra comum é que está nervoso, pois ficou desempregado; ou ainda, que o companheiro é cismado, mas é bom pai, que o parceiro oferece condições de vida à vítima, por isso ela precisa fazer tudo o que ele pede, apesar de não estar mais suportando ser tão humilhada. O estado de confusão é característico. A dubiedade de sentimentos e emoções acompanham esses casos e até mesmo por isso é difícil detectar tal circunstância, pois, além do segredo, há muita confusão de sentimentos nos relatos. É preciso ter havido realmente um esgotamento por parte das vítimas para que elas peçam socorro. E isso pode ser feito de inúmeras formas, sem que necessariamente digam: salve-me, pois não aguento mais! O contexto da violência é marcado pela escalada da tonalidade de brutalidade envolvida nas relações. E somente quando algo maior ocorre é que a vítima se dá conta de que vive sob um contexto totalmente aversivo. Muitas crianças são vítimas de adultos agressores que a aprisionam pela ameaça de que, se contarem para alguém, vão matá-las, ou matar a mãe e/ou algum parente. Há também crianças que vivem no medo de contar o que passam por estarem totalmente dominadas pelo subjugo cruel e mordaz de um agressor danoso, o qual elabora estratégias para manter 155155 155 o segredo familiar. Muitas esposas sabem que seus companheiros molestam suas filhas e se calam por medo. Fingem não ver e nemouvir, pois temem por suas vidas e a de seus filhos. Desse modo, passam a viver sob o domínio do medo até que criem uma força excepcional que as libertem e a suas filhas, vítimas de padrastos ou de pais que têm conduta equivocada e atuam de forma a estabelecer posse da criança e do adolescente sem sequer desenvolver qualquer afetividade nessa relação. Utilizam-nas para uso próprio, sem considerar o trauma que venham a sofrer, pois não há sensibilidade de sua parte. A conduta de um profissional diante desse cenário violento, quando identificado, é fazer a intervenção da situação, fazendo-a cessar. Essa é a primeira condição e, para isso, precisará lançar mão de expedientes como casas de abrigo, orientar para ir à casa de algum familiar, apresentar denúncia, procurar a delegacia e o ministério público. Nesse contexto, que tipo de intervenção deve ser feita? • Mapear os riscos que a vítima corre em permanecer no ambiente. • Estabelecer a confiança com a vítima. • Atuar na confidencialidade, protegendo as informações para que não sejam mal utilizadas. • Informar ao Conselho Tutelar, quando necessário, para providências em casos que envolvam menores e adolescentes, em situações de suspeita, de averiguação e de comprovação. • Buscar formas de garantir a segurança da criança e do adolescente quando não for o caso de abandono, resgatar figuras de autoridade que venham a estabelecer vínculo de proteção. • Denunciar a órgãos competentes não exclui o sigilo da informação. • Cuidar para que a intervenção não provoque mais traumas que a própria violência vivida, por isso exige-se habilidade para atuar nesses contextos de violência. 156156 • Manter como fundamental a qualificação dos profissionais e a capacitação constante, bem como o incentivo à formação de grupos de estudos multidisciplinares e de novas ações que promovam o esclarecimento dos cidadãos na detecção dos sinais que não devem ser toleráveis na convivência com as pessoas. Figura 11 – Juntos, unidos em prol da saúde Fonte: Jacob Wackerhausen/Istock.com. Temos a união de uma equipe multidisciplinar, símbolo de parceria em que diversos temas podem ser apresentados e dialogados dentro da perspectiva profissional de cada área. Isso, além de enriquecer o trabalho de todos, poderá suscitar novas ações relativas ao trabalho, como, por exemplo: criar um grupo de estudos para interessados em temas distintos ou discutir casos, a fim de se verificar a melhor conduta a ser adotada. 2.3 Ações de conscientização para a transformação social Tendo contato com essa realidade, que vai para além da sua função profissional em saúde, é fundamental garantir isenção, acolhimento para questões humanas e qualidade do atendimento, potencializando 157157 157 a conduta no atendimento e treinando-os para a destinação correta daquele caso. Com isso, é possível orientar e direcionar as vítimas para serviços de atendimentos social, apoio psicológico, assistência social, apoio especializado para dependentes químicos e familiares. Da mesma forma, dar suporte a soluções de casos de abusos contra crianças e adolescentes, casos de abuso e violência contra adultos e, com todo tipo de mal-estar presente da sociedade. Contudo, há situações em que o sentimento de impotência dos profissionais é frequente, ocasionando-lhes frustração, estados depressivos decorrentes do contato com tais casos, irritação, estresse. Tal contexto nos mostra profissionais acometidos de sintomas comuns em qualquer pessoa, e tal condição, por si só, já é suficiente para receber atenção. Karen Michel Esber, pesquisadora e consultora em atenção à violência, de Goiânia (GO), e outros profissionais desenvolveram o Programa de Atendimento ao Autor de Violência Sexual, como parte do projeto Invertendo a Rota, realizado pela Universidade Católica de Goiás entre 2004 e 2007. Segundo ela, o acompanhamento terapêutico pode diminuir os casos de reincidência entre os agressores que já cumpriram sua punição legal. “Esses sujeitos precisam de atendimento. Não adianta só punir, só encarcerar, mantê-los atrás das grades”, diz ela. Em diálogo recente que tive com a delegada da Polícia Civil da Delegacia dos Direitos da Mulher (DDM) da zona oeste da cidade de São Paulo, dra. Monica Gamboa, falamos sobre um projeto envolvendo alunos do último ano da graduação em psicologia. O intuito do projeto é fazer esses alunos atuarem em grupos junto a agressores e abusadores de mulheres. A atuação se dará por meio de dinâmicas de grupos, a fim de propor sensibilização e consciência das consequências que esses agressores geram na vida de tais mulheres e nas deles propriamente, a fim de que possam observar os prejuízos causados. O projeto também atua na participação profissional nos seminários e palestras aos profissionais da delegacia, aos estudantes e aos agressores numa atuação socioeducativa. Essa iniciativa, certamente, resultará em dados que publicaremos mais adiante. 158158 O atendimento ao abusador focaliza a ressignificação da violência: faz com que o indivíduo compreenda suas próprias motivações, reconheça a gravidade de seus atos e saiba lidar com seus impulsos. “Elaboramos uma série de questionamentos, tais como: será que esses meninos gostavam de ser abusados? Como você se sentiria se estivesse no lugar deles? Não é estranho que um menino tenha feito sexo com o tio? Levá-los a refletir de uma forma totalmente diferente sobre o fato é colocá-los em contato com algo que jamais tiveram oportunidade de ver. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), priorizando o fortalecimento do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGD) e adotando as diretrizes estabelecidas no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos – PNEDH (2003), no Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 (2003), e no Plano Decenal dos Direitos Humanos da Criança e do Adolescente (2011), definiram um conjunto de metas para promover a formação continuada em Direitos Humanos de todos os atores estratégicos desse sistema, entre eles os conselheiros dos Direitos da Criança e do Adolescente e conselheiros tutelares. As Escolas de Conselhos apresentam-se com relevantes estratégias para consolidação de núcleos de referência para a formação continuada de conselheiros dos direitos e conselheiros tutelares, e proporcionam a tais atores as condições necessárias para superarem, progressivamente, a carência de preparo para o exercício de suas funções, de forma a assegurar uma atuação qualificada dos atores na promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes. ASSIMILE Ressignificando a violência: ações que podem ser criadas com base na realidade dos casos são fundamentais na rede de apoio a vítimas e agressores. Aqui exemplificamos 159159 159 com o projeto Nenhuma Mulher Deve Sofrer Sozinha, uma plataforma que conecta mulheres que sofrem violência a uma rede de terapeutas e advogadas dispostas a ajudá-las de forma voluntária. Pesquise pela página do projeto na internet: . Temos também outro projeto de sucesso no estado de São Paulo, o SOS Violência – aplicativo no qual mulheres, homens, adolescentes ou crianças podem pedir socorro se estiverem em situação de risco à sua integridade. Conectado com a Polícia Militar, esse aplicativo tende a permitir uma prática ágil, tecnológica e acessível a todos, mesmo àqueles que não estão cadastrados e precisam pedir socorro por situação de exposição à violência. Basta um clique. Confira a reportagem: “Governo lança aplicativo ‘SOS Mulher’ para vítimas de violência em SP” (NIEDERAUER, 2019). 3. Considerações finais Concluímos ser fundamental e necessário que os profissionais de saúde possam ter respaldo para lidar com essa modalidade de trabalho, que envolve um contexto de sofrimento e dor – tais como treinamentos, capacitações, supervisãomultidisciplinar, grupos de estudos, grupos de terapia para lidar com as tensões e pressões do próprio trabalho. Defendo “a importância de cuidar de quem cuida” – ação tão necessária que visa cumprir esse objetivo exposto na citação. Afinal, é desse raciocínio que parte a preocupação com a saúde desses profissionais que lidam, nesse contexto de doenças, com tamanha disponibilidade interna para tal. Isso sem considerar que, além disso, esses profissionais acabam envolvidos no contexto social que os pacientes trazem, http://mapadoacolhimento.org 160160 apresentando-lhes realidades esperadas e inesperadas quando se tratam dos casos de violência e de condições humanas precárias. Um trabalho voltado para a saúde desses profissionais também atende ao requisito de extravasar suas emoções diante da exposição a que estão sujeitos, à medida que são informados da dura realidade que seus pacientes enfrentam. As demandas sociais surgem em meio às queixas de saúde e de cuidados físicos. Nelas podemos observar uma dupla função implícita na realidade desses profissionais, que passam a ocupar uma função de confiança com tais vítimas da violência e das precárias condições sociais e econômicas em que vivem. Isso ocorre quando as vítimas lhes contam os casos nos quais estão inseridos, concernentes à vida privada delas, e que dificilmente contariam outras pessoas. Muitas vítimas guardam segredo da sua condição de maus-tratos, negligência e abandono em que vivem, um comportamento característico desse tipo de problemática da vida privada e social. TEORIA EM PRÁTICA A seguir, temos um artigo com um exemplo prático de uma atuação que visa ressignificar os conteúdos internos dos profissionais que têm contato com casos de violência: BASTOS, L. C. Diante do sofrimento do outro – narrativas de profissionais de saúde em reuniões de trabalho. Unisinos. Calidoscópio. v. 6, n. 2, p. 76-85, mai./ago. 2008. Veremos, neste artigo cientifico, a análise da pesquisadora Liliana Cabral Bastos, resultado de uma experiência grupal de equipe multidisciplinar feita com a narrativa de profissionais. Pesquise pelo artigo na internet e, após sua leitura, registre num papel o que colheu de informação relevante que 161161 161 aponte os benefícios e resultados dessa prática. Observe também o que foi conquistado com a oportunidade da reunião de profissionais multidisciplinares diante do sofrimento e acerca das reflexões de sua atuação e do contato com a violência humana. VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Qual o entendimento mais apropriado para o conceito de ressignificação, de acordo com as alternativas abaixo? a. Trazer novos elementos que podem ser relevantes. b. Compor a história de vida dos envolvidos com fatos marcantes. c. Dar um novo significado para obtenção de um novo resultado. d. Transformar a realidade por meio de ações preventivas. e. Criar métodos de ação que tragam mais oportunidades de clareamento. 2. Com qual objetivo os profissionais do Conselho Tutelar participam de cursos para alinhar sua visão, direcionando-a à problemática da violência? a. Ampliar os conhecimentos específicos e técnicos. 162162 b. Assegurar uma atuação qualificada na defesa dos direitos de crianças e adolescentes. c. Propor conhecimento relativo à função e aos prontuários a serem preenchidos. d. Desenvolver habilidades para agir nos processos junto ao judiciário. e. Estabelecer novos parâmetros de atuação dessa classe profissional. 3. A rememoração mencionada por Vygotsky (1998) tem como perspectiva evidenciar o que se lembra, propondo novas aprendizagens. Qual(is) possibilidade(s) essa proposta oferece ao pesquisador/profissional? a. Aquela em que o ato de lembrar não significa reviver, mas refazer, tornar possível uma nova concepção. b. Viabiliza a lembrança como um reviver da ação vivida anteriormente. c. Oferece aprendizado e recursos para serem adotados por outros cidadãos. d. Reestruturar suas experiências pela interação com o seu ambiente social. e. Aquela segundo a qual a memória se torna um padrão cognitivo mental registrado. 163163 163 Referências bibliográficas BASTOS, L. C. Diante do sofrimento do outro – narrativas de profissionais de saúde em reuniões de trabalho. Unisinos. Calidoscópio, v. 6, n. 2, p. 76-85, mai./ago. 2008. Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2019. BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Programa Nacional de Direitos Humanos, 2010. CHAUÍ, M. Os trabalhos da memória. In: BOSI, A. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz/EDUSP, 1987. FISCHER, R. M.; LOPES, M. R. M. S. Pesquisa conhecendo a realidade. Brasília: CONANDA, Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007. Acesso em: 29 jun. 2019. MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO. Boletim Científico, Brasília: ESMPU, ano 15, n. 47, jan./jun., 2016. MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1987. NIEDERAUER, A. P. Governo lança aplicativo “SOS Mulher” para vítimas de violência em SP. O Estado de São Paulo. Publicado em: 22 mar. 2019. Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2019. PAIXÃO, G. P. N. et al. Naturalização, reciprocidade e marcas da violência conjugal: percepções de homens processados criminalmente. Rev. Bras. Enferm., Brasília, v. 71, n. 1, p. 178-184, fev. 2018. Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2019. POLAK, M. C. et.al. É necessário ressignificar para atingir novos resultados. Gazeta do Povo. Publicado em: 14 abr. 2017. Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2019. OLIVEIRA, I. M. de; MEDEIROS, A. A. A.; MOREIRA, M. R. A. (Orgs.) Direitos da criança e do adolescente: defesa, controle democrático, políticas de atendimento e formação de conselheiros em debate. Natal: EDUFRN, 2014. SELL, M.; OSTERMANN, A. C. 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Questão 2 – RespostaB Resolução: sem dúvida, a ação da escola de conselheiros tutelares está associada à oferta de recursos para uma prática e uma atuação mais qualificada. Questão 3 – Resposta D Resolução: Vygostky (1998) pondera que a rememoração reestrutura suas experiências pela interação com o seu ambiente social. 165165 165 Apresentação da disciplina Conceito e tipos de violência Objetivos 1. Contextualização Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito Fatores de risco e proteção Objetivos 1. Introdução Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito Influências ambientais nos determinantes da violência Objetivos 1. Introdução 2. Conclusão Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito Contextualização da violência Objetivos 1. Introdução Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito Reprodução de violência como meio de comunicação Objetivos 1. A força da interação humana 2. Considerações finais Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito Naturalização da violência doméstica Objetivos 1. Perda de sensibilidade e alto índice de casos Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito Ressignificação do papel profissional na ruptura de ciclos de violência Objetivos 1. Introdução 2. A ressignificação 3. Considerações finais Teoria em prática Verificação de leitura Referências bibliográficas Gabarito1818 pesado e com expressão forte e alta intensidade, dar beliscões, tapas e até atos como empurrar a colher para dentro da boca da criança pequena a fim de forçá-la a comer e acabar logo com aquele momento importante da nutrição. O componente estrutural da violência está nas posições entre dominador e dominado, cujo centro de tensão está na obtenção do poder por meio de força, pressão, imposição. Isso significa que não estamos falando de situações naturais em que exista a relação de hierarquia, em que o poder é distribuído de forma equilibrada sem abusos ou imposições destes. Na hierarquia, as relações são fundamentais em papéis e funções distintas. Nos casos de ambientes familiares violentos, cujo teor de violência psicológica é alto, a maneira pela qual a vítima vivencia pode ser percebida por meio de práticas, tais como: • Controles financeiros. • Críticas constantes, reprovação constante e de forma reiterada, gerando na percepção da vítima a ideia de que nunca consegue acertar e agradar. • Excesso de lógica e racionalidade, que distancia muito da afetividade e de uma compreensão equilibrada dos fatos, gera muita impaciência por parte do agressor. • Jogos mentais, inquéritos constantes, dúvidas lançadas, argumentos fantasiosos que colocam a vítima em situação de armadilha; chantagens emocionais. • Jogos sexuais que são feitos para punir, abusar ou denegrir nesse quesito a vítima. • A rejeição afetiva, depreciação de sua imagem, criando cenário para perda de autoconfiança. 1919 19 • Ambiguidade constante na comunicação e duplas mensagens, que desconfiam da idoneidade da vítima, fazendo-a estar sempre na berlinda de acusações, somada com a expressão de amor e raiva, ódio simultâneos, gerando a incerteza afetiva e, consequentemente, a reação na vítima de que precisa se esforçar mais para conquistar e ter o afeto daquele que detém poder sobre sua pessoa. A expressão da violência é todo ato que se propõe a subjugar o outro, colocando-o numa posição de inferioridade e refém de uma autoridade criada para esse fim. De modo algum o outro na relação poderá ter “igualdade” de condições; e para manter a linha divisora de que a vítima escolhida não passará dos limites, ela enfrentará em uma escala das etapas que vão marcando seu adestramento nessa modalidade de vínculo patológico. Isso ocorre de forma lenta, tendo alguns episódios de maior intensidade, como uma expressão de força, um susto, um ciúme desproporcional e desmedido. Uma situação criada por meio de uma fantasia que existe somente na mente do agressor. Quando as pessoas travam esse tipo de vínculo, configura-se uma relação abusiva, em que cada um tem uma função. Naturalmente, ninguém é convidado a manter um relacionamento desse modo, o fato é que a circunstância não é clara devido à ambiguidade existente de forma frequente, o que confunde muito suas vítimas, pois elas vão perdendo a capacidade de discriminar o que é bom e ruim no relacionamento, tendo em vista que, na maioria das vezes, o agressor até atende a outras funções. Geralmente, o alvo é escolhido – aquele que se pretende tornar refém do seu comando. E isso se confunde com afeto, cuidados, proteção. Pois pessoas que têm um padrão saudável de vínculo podem se envolver em relações que culminem em estresse, inseguranças, deturpações, fantasias que, inicialmente, vão sendo toleradas, pois não são identificadas. 2020 A violência intrafamiliar é um fenômeno advindo da interação humana, do padrão de dominação de um ser sobre o outro. Para estar a serviço de seu intento de manter alguém sob seu domínio. A violência intrafamiliar se expressa de maneiras distintas: • Física: que é expressa de forma aparente, pois o ataque, necessariamente, é físico para marcar quem tem a posse, ou seja, domínio sobre o outro. Gera consequências emocionais e psicológicas, expandem-se seus efeitos e causam traumas, medos, fobias, ansiedade, sequelas emocionais, como baixa autoestima, perda de autoconfiança e outros sintomas psíquicos. Essa modalidade ataca o poder do outro, tornando-o refém. • Psicológica: geradora de instabilidade, insegurança no convívio, cuja característica é estabelecer um padrão de relação dominador x dominado. Com danos nada aparentes, pois são subjetivos. O oposto da violência física que marca visivelmente, a violência psicológica marca em outra esfera, na emocional, criando feridas emocionais que, por vezes, permanecem abertas por longo período da vida. Uma diferença característica entre essas modalidades é que a violência psicológica persiste na sua ação violenta por longo período, até haver uma eclosão – um episódio que revela o seu ápice e a conscientização por parte da vítima, enquanto que na violência física, a ação é marcada por fatos contundentes. É importante ressaltar que a violência, além dos dois modelos apontados, pode se dar contra si mesmo, como nos casos de suicídio; de pessoas que se cortam como forma de punição pelo sentimento de culpa que carregam, por não se sentirem adequadas ou aceitas e até mesmo por se considerarem imperfeitas; indivíduos que batem as suas cabeças e esmurram mesas e portas, sem contar a depressão severa, o manter rancor, cultivar o ódio, que é um modo de gerar prejuízo 2121 21 contra a sua pessoa, sem buscar ajuda e recursos para sair dessa situação. E a violência destinada ao outro, que é quando o agente é externo, destinado a alguém externo, no entanto, a origem da violência é motivada pelos seus conteúdos internos. O que o agressor faz parecer é que a razão da sua agressividade e violência é sempre em função do outro, quando, na verdade, ela existe em razão de seus conteúdos internos, de sua percepção equivocada e distorcida. A dinâmica psíquica existente nessa modalidade é que o agressor entende que o mundo, as pessoas são agressoras dele e, portanto, reagem. Jamais admitem a responsabilidade, somente após gerar muito estrago e quando estão ameaçados de perder a vítima, o que os faz recuar. Pois precisam de alguém nessa posição para o domínio. 1.5. A conduta característica do agressor e da vítima Algumas das características do agressor, conforme pesquisas realizadas para produção do livro Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência também (RICOTTA, 2012, p. 18-19) são: • Ocupa posição de hierarquia, ou seja, tem uma posição de referência de poder. • Predisposição a lidar com sentimentos e emoções com exorbitância e alta carga de tensão. • Conduta estúpida, ignorante, irascível e desmedida em relação aos fatos. • Teor de fantasia sobre os fatos, como se estivesse se precavendo de ser enganado, atuando de forma ostensiva e na posição de ataque. • Controlador tanto fisicamente quanto psicologicamente. • Possessivo. • Abusivo, com atuação desrespeitosa com relação ao outro. 2222 • Poderá ter a influência de uso de álcool e drogas. • Visões preconcebidas e rígidas, sem base de realidade sobre as pessoas e situações, pois são pautadas em sua própria precariedade emocional. • Tende a competir e desestabilizar o outro que, sendo atraente, com caráter admirável e mobilizador de empatia e afeto por parte das pessoas, passa a desqualificar e a utilizar a prática da difamação para macular a figura da sua vítima. • Invejoso das qualidades alheias, portanto, tende a sempre denegrir quem pareça potente aos seus olhos, rico de qualidades, geralmente seus alvos. • Tem conteúdos psicológicos mal resolvidos, a grande maioria foi maltratada, abusada, violada de algum modo. E acaba reproduzindo esse padrão aprendido em relações anteriores e, por consequência, adotando nas novas interações que for estabelecer. São pessoas que não se atualizam no tocante aos sentimentos, no sentido de encontrar novas maneiras de diluir o impacto das situações sofridas por uma nova atuação. Agem muitas vezes por reflexo da agressão vivida de algum modo, que foi interpretada desse modo. Algumas das condutase reações que são vividas por parte das vítimas são: • Medo, terror, espanto. • Decepção; frustração. • Vergonha de passar por si e por isso se fecham, se calam e demoram para deflagrar a situação penosa a que estão submetidos. Ressentem-se e acabam criando uma imagem de que, se estão tendo esse tratamento, é em vista de algo reprovável que carregam. 2323 23 • Perda de autoconfiança, autoestima. • Insegurança e desestabilidade na vida prática e emocional. • Passam a desenvolver um autoconceito negativo acerca de si mesmos, tolhendo suas expressões espontâneas por elas desagradarem ao seu agressor. • Tentar corresponder de algum modo às expectativas do agressor por não o ver desse modo e sim alguém do seu mundo afetivo, de figuras de importância. • Relações ambíguas que revelam simultaneamente o negativo e positivo, gerando muitas dúvidas e confusão quanto a uma conclusão e um entendimento do cenário em que vivem. • Desenvolvem a conduta passiva como forma de defesa, a fim de não provocar reações no agressor, passando a agir com temor, com resignação, receio e medo de alguma explosão emocional em que figurará como culpada. • São reforçadas no erro, na falha ou como quem gerou o conflito. Passam por situações em que a realidade é invertida, sendo acusadas de terem provocado a situação de explosão do ato violento, seja físico quanto psicológico. Vimos, portanto, que o agressor usa um rol de condutas que reforçam a sua figura de poder extremo na interação, permanecendo, desse modo, como forma de impor o seu poder. A contestação da sua imposição é alimento para reforçar a criação de novos mecanismos para tornar a vítima refém das suas armadilhas de apego. Simula um distanciamento, desinteresse, entende de forma deturpada algo que a vítima tenha feito para que esta sinta-se na condição de desculpar-se ou justificar suas atitudes. Vamos encontrar aí o estabelecimento do ciclo vicioso que se estabelece entre as partes: agressor-vítima. Com o temor, com a conduta de tentar esclarecer o mal-entendido, o agressor sente-se valorado, fazendo com que a sua presa se coloque 2424 refém da armadilha criada. E quanto mais se utiliza de expedientes nesse estilo, mais vai construindo uma teia perigosa, capaz de fazer da sua vítima alguém que esteja sempre tentando arrumar as coisas, até que passa a ser passiva diante das situações para não gerar problemas e não vir a desagradar. Começa sem perceber a comportar-se de acordo com o limite estabelecido pelo outro, que tem o poder sobre sua pessoa. Confunde- se entre os mecanismos de proteção que a interação venha a trazer como elemento de elo de união. ASSIMILE É fundamental a compreensão de que as expressões violentas, sejam físicas ou psicológicas, são danosas do mesmo modo. Na nossa sociedade, que dá enfoque ao que é concreto, a materialidade do ato violento é palpável, de clara e notória identificação. E estão tipificados como conduta criminosa e se tornam caso de penalidades judiciais. Na violência psicológica, o nível de tensão é alto e promotor de escalada de condutas mais agressivas e passionais, podendo levar a fundamentação dos homicídios. De situações que são direcionadas a tamanho extravasamento da raiva embutida com o ato de aniquilamento e destruição do outro. Temos como exemplo disso o alto índice de casos identificados pela polícia que se tornaram estatística, apontando que, na grande maioria, as mulheres são mortas por seus ex e/ou atuais maridos. Os agressores não admitem libertar a sua presa, preocupando- se de que esta possa estar em posição que não a de antes, ou seja, de vítima. O empoderamento feminino acaba sendo um elemento de provocação para aqueles com alto grau de doença afetiva e má resolução pessoal. 2525 25 1.6 A ruptura do círculo vicioso de violência Havendo a conscientização por parte da vítima, acompanhada de uma noção da realidade ao qual está inserida, ela passa, então, da posição de passividade a não mais tolerar tal postura agressiva em relação à sua pessoa. Um misto de “não aguento mais” com “eu não mereço ser tratada dessa forma, pois não fiz nada de errado” encontra o basta para tais acontecimentos, tendo em vista estar submetida pela alta intensidade de abusos recorrentes. Acaba, então, questionando o modo da convivência e expressa repulsa por tratamento. Na maioria das vezes, a vítima entra em exaustão, registra o medo e passa a falar com as pessoas o que está vivendo, e com a quebra do segredo e conluio com o agressor, a vítima passa a ter contato com opiniões que a levam a compreender que sua vida está dentro de um modelo doentio. E ainda poderá haver tempo de sair a tempo desse contexto complexo padrão. É quando entende que o que vivencia é anormal, ruim e destrutivo. Consegue registrar boletim de ocorrência na delegacia, procura auxílio de familiares, psicólogos e amigos. Percebe que esse padrão é distante de afeto e de amor. E passa a qualificá-lo como algo negativo para sua vida, pessoas próximas e de seus familiares. Propõe-se a sair dessa situação, mas, por uma questão de elementos de afetos associados ao agressor, delimita-se na desestabilidade do sistema integrado entre as funções e posições de cada um, agressor e vítima, automaticamente o agressor se modifica. O agressor, geralmente, se arrepende, fazendo com que a vítima acredite que irá mudar e melhorar. O fato é que precisa manter o seu depositário de violência e destruição. No entanto, em muitos casos, ambos retomam convivência em outras bases. Conhecendo-se agora, a vítima descobriu que tem força caso pretenda sair dessa dinâmica cruel que é o ciclo de violência instaurado. Se entendermos que a experiência, ainda que dolorosa, como são os casos de violência, é possível que gerem um significativo aprendizado: 2626 a de perceber-se como alguém livre da culpabilidade dos fatos imposta geralmente pelo agressor e da consciência de que tal prática destinada à sua pessoa, não é adequada. É possível aprender a deixar de ser a parte complementar de relações e interações que envolvem trato violento. De igual modo, é possível não compor esse ciclo que se retroalimenta pelos papéis e pelas funções que cada um assume nesse tipo de interação. Nesse viés de pensamento, o aprendizado é deixar de ser a “presa”, o “alvo”, “o depositário” de maus tratos do agressor. Esse talvez seja um elemento de maior desafio no contexto social. Como nos prevenir e como identificar situações que sinalizam a violência na atualidade? Ou que aparentemente são nocivas? Compreendendo, antes de tudo, que isso não é uma conduta ética, valorosa e respeitosa. Que não há merecimento em se estabelecer relações precárias e conviver com pessoas nessa referência de um padrão violento, que se torna pior quando as expressões da violência ocorrem no íntimo da família, entre parentes, vizinhos, colegas de trabalho e na sociedade como um todo. No que tange ao aspecto pedagógico, a tomada de consciência é primordial e auxilia a identificar o nível de violência a que se está exposto. Direcionar o olhar com propósito, sabendo que é possível transformar a realidade quando se percebe que está sendo vítima ou agente da violência. Se entendermos que somos capazes de aprender novas condutas por encontrar nelas soluções que nos oferecem bem-estar e resgate de elementos fundamentais para se viver bem e compreender que haja modos de tratá-la, é possível que esse comportamento seja transformado. Seja por tratamento psicoterápico, seja pelo afastamento de relações com padrão violento, seja pela aplicação de limites claros. 1.7. Conclusão A violência como um todo, direta, estrutural, cultural, física e psicológica, está relacionada às suas dinâmicas – ao modo como funciona e atua, ao 2727 27 que estimula e promove a ocorrência de condutas agressivas e violentas quando poderiam ser de outra natureza. Deve-se refletir em que bases ela ocorre? Seria pela falta de percepçãoda sociedade em identificar as expressões da violência e os aspectos agressores como aspectos que favorecem o aumento da violência? De dar atenção prioritária a questões como essas, a fim de dar visibilidade a essa grande parte da população sofrida? A repetição de comportamento violento, a reincidência é um componente importante da expressão violenta, pois está calcada em repetir modelos absorvidos e aprendidos, reforçados por seus agentes. Quando se percebe, o agressor é tão vítima quanto a própria vítima na estrutura da violência, os direcionamentos são diferenciados e com possibilidades de avanços ao considerar a existência de fatores que determinaram o indivíduo a atuar desenvolvendo essa postura violenta. Certamente isso não quer dizer que se está relativizando a problemática e/ou diminuindo o seu teor, e sim chamar a atenção dos profissionais a fim de sensibilizá-los a modificar o seu olhar que costumeiramente é de reprovação ao autor da violência praticada, como alguém que precisa de ajuda e tratamento, visto que sofre de influências e condutas negativas, sendo nocivo tanto quanto os aspectos que o influenciaram a gerar essa deformação de conduta. O fato é que as influências são diversas, tais como ignorância, desemprego, alcoolismo, drogas, discriminação econômica e social, falta de oportunidades no acesso à educação e, consequentemente, no crescimento intelectual. Com isso, torna-se possível considerar o sofrimento das vítimas e de seus agressores, para que possam ser criadas linhas preventivas e de participação social que promovam políticas públicas e sociais inclusivas e que venham a diminuir a incidência de um grande nascedouro de novos agressores. Certamente que o tratamento do agressor, devendo ser acompanhado por psicoterapia, é uma medida importante, como exigência de acompanhamento jurídico das medidas protetivas em que o agressor precisa comprovar que está se tratando até que haja condições de restaurar a convivência intrafamiliar sem riscos à vítima. 2828 A prevenção é ponto relevante do trato violento e agressivo e temos atualmente, com uso tecnológico, aprimorado essa capacidade, como o da criação de aplicativos, para citar um exemplo, que podem ser utilizados para pedir socorro e informar que estão em perigo; outros estão sendo criados para atender e esclarecer vítimas e agressores sobre onde buscar auxílio e de que modalidade, se for briga física entre cônjuges, se for tortura psicológica, espancamento, estupro e outras. Investir no resgate da formação dos valores pessoais por projetos educativos, que abordem a ética nas relações e criem consciência para sua inibição e desenvolver novas soluções para os conflitos. Alguns dos pontos, destacamos nesta conscientização: • O reconhecimento do outro – fundamental para sensibilizar-se diante das situações –, o “colocar-se” no lugar do outro. • Conscientização de uma convivência humanizada. • Diminuição da rigidez e de exigências excessivas. • Valorização da qualidade das interações e percepção dos resultados. • Qualidade de vida como parâmetro para uma vida saudável. • Cuidado com a natureza, deixando de ser um elemento agressor. • Respeito às diferenças. • Aceitação da diversidade, diminuição do preconceito. • Cultura da pacificação e da não violência. Conclui-se, nesta leitura, que direcionamentos profissionais comprometidos e com intervenções necessárias no complexo fenômeno da violência poderá colaborar para a construção de um ser ético – oportunizando ao agressor elementos suficientes para 2929 29 amadurecer a percepção de que não é necessário se expressar de forma violenta e agressiva com finalidades de ferir, denegrir, desqualificar, discriminar o outro em razão das diferenças existentes, seja em que plano for. E deixar de ser reprodutor e mantenedor de mecanismos de violência direta, indireta, familiar e social. TEORIA EM PRÁTICA Reflita e opine sobre a condução desta situação: você, na sua atividade profissional, recebe uma mulher que entrou com pedido de divórcio de seu marido, no entanto, sem expor a situação no documento do pedido de divórcio, o qual ela deseja que ele apenas assine e se mude da residência, tendo três crianças pequenas para criar. No entanto, em situação privada, essa mulher relata que está com medo, que na noite anterior ao aviso de pedido de divórcio de sua parte, seu marido a enforcou na frente das crianças e lhe disse que a mataria caso ela falasse novamente em separação e que nunca sairia da casa. E que ele faria uma parede dividindo a casa, pois ele não ficará longe dos filhos. Verbaliza também que foi vítima de inúmeras agressões, chora e alega que não aguenta mais e que pensa em fugir. No entanto, tem seu trabalho, de onde tira o ganho financeiro e que jamais deixaria seus filhos; por isso, procura uma forma de resolver a situação com o pedido de divórcio judicial. Desse ponto de vista, como você conduziria a situação após ouvir os relatos de abusos vividos por essa mulher? Como conduziria esse caso, incluindo o marido que é o agressor nesse diálogo, a fim de contribuir para uma solução viável? 3030 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Assinale a alternativa que melhor define violência psicológica: a. Toda ação direta contra alguém ou grupo que se discrimina de algum modo por raça, cor e gênero. b. Ação violenta indireta, é a que atua em todos os níveis de expressão física, emocional, social e cultural. c. Toda ação cujo autor da conduta violenta é conhecido, do seu universo doméstico, de forma ocasional. d. Toda ação que atua na interação entre pessoas conhecidas envolvendo práticas de desqualificação moral, controles, ofensas, negligência de forma frequente. e. Toda ação que denuncia a vitimização de uma pessoa em razão do poder do outro por meio de ataques físicos e psicológicos em qualquer ambiente. 2. Quais os tipos de expressão violenta? a. Física e psicológica. b. Violência direta, violência estrutural, violência cultural. c. Social, coletiva, intrafamiliar. d. Estrutural e intrafamiliar. e. Passiva, ativa, relacional, coletiva. 3131 31 3. O ciclo vicioso da relação entre agressor-vítima entre pessoas conhecidas se dá por meio de quais mecanismos? a. Relação abusiva por parte de pessoa de autoridade, que de forma frequente abusa de seu poder, com objetivo de domínio. b. Exercer domínio sobre a vítima, indiferente ao fato de ela aceitar ou não em qualquer situação ou contexto social, familiar, profissional. c. Atos coercitivos de ameaça, medo, pressão sobre alguém em contexto e ambiente público. d. Padrão transacional herdado de situações anteriores vividas pelo agressor, o qual procura reproduzir ao escalar sua vítima. e. Atos de imposição, ameaças, força física, uso de armas com propósito de submeter a vítima ao seu comando, contra crianças e adolescentes que dificilmente podem se defender. Referências bibliográficas CERQUEIRA, D. et al. Atlas da Violência 2018. Rio de Janeiro: IPEA, 2018. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/relatorio_ institucional/180604_atlas_da_violencia_2018.pdf. Acesso em: 27 abr. 2019. GALTUNG, J. Violence, peace and peace research. Journal Of Peace Research, Sage Publications,Ltd., v. 6, n. 3, p.167-191, 1969. RICOTTA, L. Quem grita perde a razão: a educação começa em casa e a violência também. 4. ed. São Paulo: Ágora, 2012. 3232 Gabarito Questão 1 – Resposta D Resolução: a violência psicológica tem suas marcas na interação submetida ao poder do outro, na perda da autoconfiança e autoestima em vista de maus tratos, ofensas, desqualificações constantes e reiteradas que criam bloqueios psicológicos em suas vítimas. Questão 2 – Resposta B Resolução: são definidas por violência direta, violência estrutural e violência cultural (GALTUNG, 1969). Questão 3 – Resposta A Resolução: relação abusiva por parte de pessoa de autoridade, que de forma frequente abusa de seu poder, com objetivode domínio. Geralmente, tais pessoas de autoridade são de onde se espera ter proteção e, contrariando essa confiança, passam a se envolver numa relação de abusos crescentes. 3333 33 Fatores de risco e proteção Autora: Luiza Cristina de Azevedo Ricotta Objetivos • Promover uma reflexão sobre o crescimento da violência no âmbito estrutural e intrafamiliar. • Apresentar as condutas de proteção existentes que visam a sua identificação, bem como seu tratamento da violência. • Apresentar possíveis condutas e modelos de prevenção que podem ser adotados por profissionais da área da saúde. 3434 1. Introdução Olá, alunos! Nesta aula, abordaremos os fatores de risco e proteção em casos relacionados à violência, quando identificados casos de violência por profissionais da área da saúde. Considera-se que o fenômeno da violência é uma questão de saúde pública e caracteriza- se como multifatorial. Portanto, é preciso esclarecer quais são esses fatores para que sejam requisitadas aos profissionais ações pertinentes, as quais permitem: a. Identificar os casos de violência e os indícios suspeitos. b. Direcionar adequadamente os sujeitos para tratamento e/ou realizar busca ativa de familiares responsáveis dos agressores (quando reclusos pelo crime da violência). c. Propor meios de prevenções, de acordo com o conhecimento e a experiência do profissional. d. Proporcionar capacitações frequentes, a fim de obter um espaço de troca de informações, bem como explorar o tema em ambiente protegido. Veremos aqui os aspectos vulneráveis aos quais a sociedade está submetida, que são alvos da entrada de desproteção ao ser humano, bem como pontos que poderemos refletir a fim de que possamos criar medidas preventivas. Essa tarefa persiste, pois não temos respostas prontas e sim um caminho longo e constante para mudança social, das suas prioridades e da instalação de medidas que venham garantir melhores condições àqueles que são mais afetados. 3535 35 1.1 Fatores de risco Figura 1 – Impacto nos sistemas Fonte: elaborada pelo autor. No esquema apresentado acima, temos a configuração da interação entre macrossistema e microssistema. Sendo a família representante desse universo micro no qual está inserida, e a sociedade num contexto macro, representada pelas repercussões advindas dos segmentos econômico, social, dos cuidados da saúde física, saúde psíquica ou mental. A família, enquanto um organismo vivo, dinâmico, interage com seus membros tanto internamente como externamente, ainda que não se dê conta disso. Influenciando o macrossistema, bem como recebendo dessas estruturas registros que vão configurando e definindo uma significação desses fatores que lhe são necessários promover: segurança, proteção, subsistência. Ao ponderarmos sobre os aspectos de proteção e de riscos a que a população está exposta, avançamos no entendimento de que os casos de violência têm impacto social, ainda que sejam compreendidos 3636 na categoria intrafamiliar. Eles são detonadores para o aumento de casos extrafamiliar – que ocorrem com pessoas desconhecidas –, pois direcionam a funções que envolvam a responsabilidade e o compromisso da saúde pública, social, coletiva e de segurança pública, bem como do judiciário. Desse modo, consideremos a seguinte reflexão: que sociedade é a nossa que expõe seus membros e parcelas expressivas da população a fatores agressores graves, com alta incidência de violência de formas variadas em todas as camadas sociais? Os riscos envolvem esses aspectos, quão bem equacionada é a sociedade em que vivemos, a ponto de produzir sintomas desastrosos como esses, que denunciam uma deformação humana frente aos temas humanos? Isso resulta em práticas agressivas e violentas nas quais seres humanos geram sofrimento a outros humanos, seja em âmbito intrafamiliar – que envolvem relacionamento íntimo entre pessoas que convivem, quer seja extrafamiliar – entre pessoas desconhecidas. PARA SABER MAIS Recomenda-se a leitura do artigo “Abuso sexual extrafamiliar: percepções das mães de vítimas” (DE ANTONI, 2011). Ele aborda a percepção das mães, cujos filhos, (crianças e adolescentes) foram vítimas de abusos. São os casos de violência extrafamiliar praticado por pessoas desconhecidas, diferente dos casos de violência intrafamiliar, que ocorrem caracteristicamente com pessoas conhecidas e da sua intimidade, que são figuras que estão na função de oferecer proteção e, ao contrário disso, desenvolvem uma relação de dominação e abuso, estabelecendo elementos entre quem é o mais forte e o mais fraco. 3737 37 1.2. Violência institucional Vamos entender de que forma a violência institucional atua e como influencia a vida das pessoas. Figura 2 – Fila para atendimento em pronto-socorro Fonte: COELHO, 2015. Considerando a abrangência da violência, vamos entender que ela pode ser expressa além da forma direta, também de forma indireta, em que é conceituada de estrutural – aquela que se apresenta na base da estrutura social e política vigente – negligenciando boa parcela da sociedade, deixando de envolvê-la em redes de proteção. Os contrastes sociais, econômicos, as barreiras culturais inviabilizam o atendimento que se torna precário. São formas violentas de perpetuar o sentido de abandono e de baixa qualidade. A dura constatação com a qual a população se ressente é uma questão política ainda não solucionada, em que muitos não têm acesso a uma saúde de qualidade. Seja pelos baixos salários dos profissionais, excesso de demanda para uma quantidade mínima de especialistas. Falta de recursos financeiros destinados aos órgãos de assistência, tornando ainda maior a dor e a violência pela qual passam milhares de cidadãos que dependem do serviço médico, social, psicológico e para exames. De acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), desde que criaram o manual da Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço, 3838 organizado pela Secretaria de Políticas de Saúde, o conceito de violência institucional foi, desde então, apresentado como a violência exercida nos/pelos próprios serviços públicos, por ação ou omissão, podendo incluir desde a dimensão mais ampla da falta de acesso até a má qualidade dos serviços. Isso está relacionado aos abusos cometidos pelo sistema, em virtude das relações de desigualdades entre usuários e profissionais dentro das instituições, até por uma noção mais restrita de dano físico intencional. Essa violência pode ser identificada de várias formas, de acordo com o manual: • Peregrinação por diversos serviços até receber atendimento. • Falta de escuta e tempo para a clientela. • Frieza, rispidez, falta de atenção, negligência. • Maus-tratos dos profissionais para com os usuários, motivados por discriminação, abrangendo questões de raça, idade, opção sexual, gênero, deficiência física, doença mental. • Violação dos direitos reprodutivos (discriminação das mulheres em processo de abortamento, aceleração do parto para liberar leitos, preconceitos acerca dos papéis sexuais e em relação às mulheres soropositivas (HIV), quando estão grávidas ou desejam engravidar). • Desqualificação do saber prático, da experiência de vida, diante do saber científico. • Violência física (por exemplo, negar acesso à anestesia como forma de punição, uso de medicamentos para adequar o paciente a necessidades do serviço ou do profissional). • Detrimento das necessidades e dos direitos da clientela. • Proibições de acompanhantes ou visitas com horários rígidos e restritos. 3939 39 • Críticas ou agressões dirigidas a quem grita ou expressa dor e desespero, em vez de se promover uma aproximação e escuta atenciosa, visando acalmar a pessoa, fornecendo informações e buscando condições que lhe tragam maior segurança do atendimento ou durante a internação. • Diagnósticos imprecisos, acompanhados de prescrição de medicamentos inapropriados ou ineficazes, desprezando ou mascarandoos efeitos da violência. Por exemplo, quando uma mulher chega à emergência de um hospital com “crise histérica” e é imediatamente medicada com ansiolíticos ou encaminhada para os setores de psicologia e psiquiatria sem sequer ter sua história e suas queixas registradas adequadamente. A causa de seus problemas não é investigada e ela perde mais uma chance de falar sobre o que está acontecendo consigo. Verificamos, portanto, que a violência ocorre toda vez que os direitos dos usuários do serviço de saúde, além de outros necessários aos seus cuidados, não são atendidos, como atendimento psicológico, realização de exames e cirurgias, bem como os casos que carecem de assistência social, São cidadãos usurpados por meio de condutas desviadas do cumprimento da função profissional por mera atitude de abuso de poder, negligência, preconceito, discriminação sobre as demais pessoas, tidas como vulneráveis, em situações de pobreza e miséria. As instituições deveriam cumprir a sua missão de promoção à saúde, à educação, ao trabalho e aos direitos de todos. 1.3. Fatores de risco da família Como vimos, as famílias são alvo da violência entre os seus próprios membros e sofrem ainda mais pelo teor violento imposto pela desigualdade social, aumentando a pressão pela qual vivenciam, em que são negligenciadas em relação a uma parcela que tem recursos para 4040 promover melhores condições. São aqueles que pagam por serviços de assistência à saúde privados para ter um atendimento melhor do que é oferecido no serviço público. A opressão, a submissão impostas às vítimas da violência, em sua maioria crianças, adolescentes e mulheres que passam por tais situações mantendo segredo por um bom tempo antes de denunciarem. E o chamamento é para o destaque de que o silêncio mata. Pois, sendo um caso de saúde pública, torna-se necessária a sua manifestação para a devida correção no tocante ao cessar a exposição aos ataques aos quais estejam sendo submetidas. Figura 3 – O conluio da vítima com o agressor pelo silêncio Fonte: vectorarts/IStock.com. De acordo com o manual Impacto da violência na saúde dos brasileiros, do Ministério da Saúde (BRASIL, 2005), os fatores de risco dimensionados resultam em: • Famílias baseadas numa distribuição desigual de autoridade e poder, conforme papéis de gênero, sociais ou sexuais, idade, etc., atribuídos a seus membros. • Famílias cujas relações são centradas em papéis e funções rigidamente definidos. 4141 41 • Famílias em que não há nenhuma diferenciação de papéis, levando ao apagamento de limites entre seus membros. • Famílias com nível de tensão permanente, que se manifesta por meio da dificuldade de diálogo e descontrole da agressividade. • Famílias com estrutura de funcionamento fechada, em que não há abertura para contatos externos, levando a padrões repetitivos de conduta. • Famílias que se encontram em situação de crise, perdas (separação do casal, desemprego, morte, migração e outros). • Baixo nível de desenvolvimento da autonomia dos membros da família. • Presença de um modelo familiar violento na história de origem das pessoas envolvidas (maus-tratos, abuso na infância e abandono). • Maior incidência de abuso de drogas. • História de antecedentes criminais ou uso de armas. • Comprometimento psicológico/psiquiátrico dos indivíduos. • Dependência econômica/emocional e baixa autoestima da parte de algum(ns) de seus membros, levando à impotência e/ou fracasso em lidar com a situação de violência; fatores de risco na relação de casal. • Indicativos de violência em relacionamentos anteriores, de pelo menos um dos parceiros. • Contexto e características do início da relação, indicativos de violência, como, por exemplo, desapego, objetivos perversos, como interesse econômico, entre outros. 4242 • Dinâmica agressiva, isolamento e fechamento da relação (dificuldade em lidar com terceiros). • Elevado tempo de convivência em situação de violência e desgaste acumulado. • Baixa capacidade de negociação do casal quanto aos aspectos conflitivos da relação (dificuldade de lidar com terceiros). • Curva ascendente de grau, intensidade e frequência dos episódios de violência. • Elevado nível de dependência econômica e/ou emocional dos parceiros. • Baixa autoestima e pouca autonomia dos parceiros. • Sentimento de posse exagerado por parte dos parceiros (ciúmes exacerbados). • Alcoolismo e/ou drogadição de um dos membros do casal ou de ambos. • Soropositividade da mulher, pelo HIV. 1.4. Fatores de risco da criança Infelizmente, este item de nosso estudo abrange os riscos pelos quais as crianças estão submetidas na própria convivência intrafamiliar, cuja ameaça são os pais. Com relações precárias e com distúrbios de toda ordem, a desagregação das relações é resultado de falta de recursos internos para uma saúde mental que reverta em atos e formas de estabelecimento de vínculos saudáveis, bem como da capacidade de resolver problemas e conflitos. Somada a precariedade das condições sociais aos quais estão submetidos, muitos cidadãos se perdem na falta de emprego, no abandono, no abuso do álcool e outras drogas. 4343 43 As dificuldades de ser inserido numa estrutura social melhor, que dê conta de evoluir e manter sua dignidade, geram uma grande tensão familiar e, sendo mal administradas, geram novos problemas com a deformação dos afetos, da prática violenta e abusiva expressas em gestos, pelo ódio e pela raiva acumulados. Figura 4 – Cena de violência familiar protegida pelas paredes de um “lar” Fonte: Peopleimages/IStock.com. De acordo com o manual Violência intrafamiliar: orientações para prática em serviço, organizado pela Secretaria de Políticas de Saúde do Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), os potenciais de ocorrência de práticas violentas cometidas pelos pais no trato com os seus filhos estão associados à reprodução de condutas violentas já vivenciadas por eles, ou seja, o agressor sendo a vítima ou por uma má condução do seu próprio desenvolvimento psicológico frente às situações vividas e sua personalidade. 4444 A impunidade é fator de risco estimulado por não ter havido denúncias e queixas claras quanto ao problema vivido por ele, e também considerando que muitos episódios de violência nas residências, e entre familiares, tendem a ser camuflados e mantidos em segredo, seja por medo, por represália, por hábito da punição ou por maus tratos. Portanto, torna-se difícil aos equipamentos públicos administrar tais casos quando o reforço da prática violenta já promoveu seus efeitos devastadores de resignação por parte da vítima. Tendo em vista o ciclo agressor-vítima e a condição de manutenção do segredo existente, que são elementos mantenedores da prática violenta e abusiva da violência doméstica, observa-se alguns gatilhos para a sua ocorrência, conforme a referência do manual apontado acima, tais como: • Pais com histórico de maus-tratos, abuso sexual ou rejeição/ abandono na infância. • Gravidez de pais adolescentes sem suporte psicossocial. • Gravidez não planejada e/ou negada. • Gravidez de risco. • Depressão na gravidez. • Falta de acompanhamento pré-natal. • Pai/mãe com múltiplos parceiros. • Expectativas demasiadamente altas em relação à criança. • Ausência ou pouca manifestação positiva de afeto entre pai/mãe/filhos. • Delegação à criança de tarefas domésticas ou parentais. • Capacidade limitada em lidar com situações de estresse (perda fácil do autocontrole). 4545 45 • Estilo disciplinar rigoroso. • Pais possessivos e/ou ciumentos em relação aos filhos, referentes à criança. • Crianças separadas da mãe ao nascer por doença ou prematuridade. • Crianças nascidas com más-formações congênitas ou doenças crônicas (retardo mental, anormalidades físicas, hiperatividade). • Crianças com falta de vínculo parental nos primeiros anos de vida, fatores de risco específicos do idoso. • Várias doenças crônicas ao mesmo tempo. • Dependênciafísica ou mental. • Déficits cognitivos. • Alterações do sono. • Incontinência urinária e/ou fecal. • Dificuldades de locomoção. • Necessidade de cuidados intensivos ou de apoio para realizar atividades da vida diária, como alimentar-se, ir ao banheiro, trocar de roupa ou tomar medicamentos, fatores de risco na deficiência. • Maior comprometimento físico ou mental e reduzida autonomia. • Dificuldade de locomoção. • Hiperatividade. • Dispersão. Como vimos acima, muitas são as consequências dessa desestrutura familiar e a perpetuação desses danos percebida e registrada na reprodução do trato violento em demais ambientes, como nas ruas, escolas, no trabalho. 4646 ASSIMILE Vamos dar destaque a uma prática relacional violenta de conduta, qualificada como negligência. Negligência é faltar a alguém ou algo que deveria representar proteção e sustentação para o aprendizado do outro que depende do seu acompanhamento. É faltar com o apoio necessário para se desenvolver, aprender, evoluir, deixando a pessoa refém da ausência, da falta e da privação. Assim, origina o que muitos casos nos apontam: insegurança, terror, medo, desenvolvimento de fobias. É também a atitude omissa, deixando de prover as necessidades físicas e emocionais de uma criança ou adolescente, no caso dos pais, podendo ser moderada ou severa. Com isso, as crianças e os adolescentes vítimas de violência desenvolvem sintomas de bloqueios e impedimentos ao seu desenvolvimento natural e saudável. Em suma, trata-se de abrir mão de fazer o papel designado ou que deveria ser cumprido, como maternagem, paternagem, zeladoria, curadoria, enfim, direcionamentos para a autonomia. A negligência revela-se no descuido, na desproteção de quem deveria oferecer isso, sendo um modelo agressor, que irá influenciar diretamente no desequilíbrio da autoconfiança, do autorrespeito. 1.5. Violência contra o idoso e as pessoas com deficiência (PCD) As políticas públicas sociais e de saúde coletiva são ações de promoção à saúde e condições de proteção social as quais o Estado tem por obrigação oferecer aos cidadãos. Como nem sempre são efetivas, temos como resultado o abandono de muitos idosos e PCDs vivendo em condições precárias. 4747 47 Elas constam no Estatuto do Idoso e da PCD, no amparo do idoso e de pessoas com deficiência, e que essa assistência possa ser, inclusive, no familiar. No entanto, muitas vítimas da violência vivem em espécie de cárcere privado, sendo exploradas e em situação humilhante, de dominação e de rebaixamento pessoal, instalando-se, portanto, a interação do ciclo de violência doméstica. E novamente, percebe- se nessa dinâmica que nem sempre a residência será um lugar seguro para viver. Os danos provocados aos idosos e/ou às pessoas com deficiências (PCD1) que se encontram em relações de violência se aproximam das características da violência doméstica, pois sua incidência está nas residências e ocorre com pessoas conhecidas e familiares. Cabe-nos a reflexão de promover sensibilização e educação com programas de conscientização quanto à responsabilidade e ao compromisso de cuidar, proteger, respeitar e valorizar a pessoa humana em todas as fases de vida. prevenção, por meio de projetos de orientação, sensibilização e educação. Para alguns familiares de lares violentos, o idoso torna-se um estorvo, alguém que tem baixa produtividade, sendo, muitas vezes, explorado financeiramente em sua aposentadoria, tendo o valor desta não utilizado em favor do beneficiário direto. As pessoas com deficiências (PCD), que por vezes são exploradas também e obrigadas a pedir esmolas em ruas, são vistas como “fracas” e como “castigo” nesses lares, cuja afetividade é baixa, assim como sofrem com a falta de compreensão humana. Elas têm dificuldade de aceitação dos fatos e sem a clareza de que tal realidade pede o treino e o desenvolvimento de potencialidades, ou seja, dificilmente enxergam o que podem aprender para novos despertares de gratificação, amorosidade, gratidão e outros. Com isso, faltam-lhes sentido ético, saúde emocional, integridade do caráter, valores pessoais. 1 PCD: sigla de pessoas com deficiência. 4848 PARA SABER MAIS Recomenda-se a leitura do artigo “Idosos em instituições de longa permanência: falando de cuidado” (FREITAS; NORONHA, 2010), que aborda a questão de fatores de risco aos quais idosos institucionalizados estão expostos. 1.6. A presença do homem como fator de risco e ameaça à proteção familiar A participação do gênero masculino figura nos casos de violência doméstica em sua maioria, tornando-se um fator de risco. E pensar nas soluções é tarefa de todos os profissionais envolvidos com a problemática intrafamiliar e extrafamiliar. Cada vez mais, é urgente, no cenário brasileiro, estancar o alto índice dos casos de violência entre mulheres e homens, vítimas e seus agentes, respectivamente. É preciso que seja um compromisso individual de cada homem aprimorar a imagem que possui da mulher, evoluindo para uma concepção que seja positiva e pacificadora entre gêneros. Com isso, será possível combater a misoginia – modelo de perceber o elemento feminino com sentimentos de raiva e ódio. Para superarmos esse problema, é preciso um trabalho profundo das questões psicológicas que envolvem o tema. São elementos internos, conteúdos que compõem a visão de mundo equivocada, de seu rol de valores pessoais e sociais, que absorve uma visão do feminino, incomodada com o direito de a mulher estar presente em todos os cenários da vida e não restrito e exclusivo ao mundo masculino. 1.7. Conclusão Podemos concluir deste tema que os fatores de risco e proteção são produzidos pela própria sociedade, que a deforma, partindo da 4949 49 conduta desviada frente aos conflitos. Assim, em vez de contribuir para o seu tratamento, torna-se transmissora da cultura de violência, pois também estão inseridos neste universo, e são agredidos pela estrutura social que abriga a todos. Pensar numa sociedade pacificada envolve a mudança de postura e partir para ações diferentes daquelas que nos fizeram chegar ao cenário atual, com altos índices de violência e de criminalidade. É preciso dar um basta! Daí a importância de treinamentos, capacitações, busca pelo conhecimento e pesquisas – base das ações de investimento na qualificação dos profissionais de saúde, segurança, assistência social, educação básica, fundamental e universitária, cuja finalidade venham promover conscientização, diminuição gradativa da violência, com soluções dos problemas que geram tais deformações sociais e consequências sérias às suas famílias. Dar sustentação para o enfrentamento necessário, a fim de que esses profissionais que estão na porta de entrada da identificação desses casos possam ter retaguarda para solucioná-los, propondo o tratamento das relações humanas que adoecem e transmitem ações violentas. Consequentemente, podem criar mecanismos de prevenção, mediante catalogação desses dados, estudos e pesquisas, como material para formularem a geração de novas ações frente ao desafio do combate à violência. Violência é um problema de todos, que afeta a vida da sociedade como um todo, abrangendo a todos os segmentos profissionais nessa importante sensibilização para o problema, com o objetivo de mudar esse cenário. TEORIA EM PRÁTICA Este caso foi extraído do manual Violência intrafamiliar e é bastante ilustrativo para os profissionais que estão no 5050 atendimento primário da saúde, que suspeitam que o caso envolve violência e têm pela frente uma conduta a gerenciar. A história conta que Marina, de 13 anos, e sua irmã Manuela, de 15, foram à unidade de saúde para uma consulta, pois estavam tendo dores de cabeça e na barriga há vários dias. Aquela era sua terceira consulta pelo mesmo motivo em duas semanas. Como das outras vezes, foi atendida pelo dr. Sérgio que, ao examiná-la, não encontra nenhuma alteração importante. No entanto, chama-