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■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ Nós temos o tipo de meio interno que temos, porque temos o tipo de rim que temos Homer William Smith PALAVRAS-CHAVE Rins, ureteres, uretra, bexiga Inervação motora e somática Micção e urina Síndrome urêmica Polaquiúria, oligosúria, iscúria, disúria Incontinência urinária Poliúria, oligúria, anúria Coleta e exame de urina. Introdução Os órgãos urinários (organa urinaria) incluem os rins (renes), os ureteres (ureteres), a vesícula urinária (vesica urinaria) e a uretra (urethra masculina e urethra feminina). Os rins produzem a urina que, por meio dos ureteres, chega à bexiga, onde é temporariamente armazenada. Durante o esvaziamento vesical, a urina passa pela uretra, chegando ao meio externo. Para a produção de urina, os rins filtram o plasma, extraindo grande quantidade de um líquido chamado ultrafiltrado, que é, então, processado para reabsorção de substâncias úteis e concentração dos rejeitos a serem eliminados. A maior parte da água do ultrafiltrado é reabsorvida, de modo a manter o volume plasmático em parâmetros normais. Assim, os rins movimentam um volume muito grande de líquidos a cada 24 h. Em cães grandes (e animais de tamanho semelhante), os rins são perfundidos diariamente com 1.000 a 2.000 ℓ de sangue, dos quais são filtrados 200 a 300 ℓ (ultrafiltrado), que, por sua vez, são reduzidos, por reabsorção, para 1 a 2 ℓ de urina. As várias propriedades especiais dos rins fazem desses órgãos efetores essenciais para a homeostase de água, de eletrólitos e de dezenas de substâncias derivadas do metabolismo e do catabolismo. Não menos relevantes são as funções renais endócrinas relacionadas com o metabolismo de cálcio e fósforo, a produção de hemácias e o controle da pressão arterial. Rins O rim (ren em latim, nephrós em grego) é o órgão que repousa sob os músculos sublombares, um de cada lado da coluna vertebral. Os rins têm localização retroperitoneal, com a superfície dorsal em contato com os músculos sublombares, frequentemente circundada por gordura, e a superfície ventral coberta por peritônio transparente. Cada rim apresenta um polo cranial e um caudal, um bordo medial e um lateral, uma superfície dorsal e uma ventral. Tais referências devem ser empregadas para descrever a posição das alterações renais localizadas e para orientar procedimentos cirúrgicos. No bordo medial está localizado o hilo renal (hilus renalis), através do qual passam ureter, veias e artérias renais, vasos linfáticos e nervos. O polo cranial de cada rim é coberto com peritônio em ambas as superfícies, dorsal e ventral, enquanto o polo caudal é coberto somente na superfície ventral. O rim é revestido por uma cápsula fibrosa (capsula fibrosa), cuja rigidez restringe a habilidade de expansão do parênquima renal. O aumento de volume que ocorre em certas doenças renais tende a causar compressão do parênquima, estreitamento das vias internas e dor. A cápsula adiposa (capsula adiposa), que reveste parcialmente o rim, estende-se através do hilo para dentro do seio renal. A visibilidade do bordo renal em radiografias é facilitada pela presença dos tecidos adiposos perirrenal e retroperitoneal, que podem variar em espessura, de acordo com a espécie e o estado nutricional do animal. O parênquima renal, localizado entre a cápsula e o seio renal, é constituído pela medula renal (medulla renis) e pelo córtex renal (cortex renis). No parênquima renal estão os néfrons, que são as unidades estruturais específicas dos rins. O néfron (nephronum) consiste em um longo túbulo que se inicia no corpúsculo renal (corpusculum renale) e termina em conexão com o ducto coletor. O corpúsculo renal, por sua vez, é constituído pela cápsula glomerular (capsula glomeruli), que envolve completamente uma rede capilar esférica, denominada glomérulo (glomerulus). As diferenças de tamanho dos rins, nas várias espécies animais, estão relacionadas com o número de glomérulos presentes nesses órgãos. Cada rim do rato contém aproximadamente 30.000 glomérulos; do gato, 190.000; do cão, 400.000; do homem, 1.300.000; do suíno, 2.200.000; e do elefante, 7.000.000. ■ Equinos. O rim direito tem formato de triângulo equilátero com os bordos arredondados (Figuras 10.1 A e 10.2 A). Mede de 13 a 15 cm de comprimento e está localizado no espaço compreendido entre a 15a costela e a apófise transversa da 1a vértebra lombar, não sendo acessível à palpação retal. O rim esquerdo tem formato de feijão, mede de 15 a 20 cm de comprimento e, em geral, seu polo caudal encontra-se em relação com a apófise transversa da 3a vértebra lombar. Normalmente é mais caudal que o rim direito, mas, por ter mais mobilidade, o rim esquerdo pode variar quanto à sua localização. ■ Bovinos, ovinos e caprinos. O rim direito está relacionado dorsalmente com a última costela e com as apófises transversas das três primeiras vértebras lombares, podendo, em alguns casos, ter localização mais caudal (cerca de 8 cm). O rim esquerdo tem posição muito variável; quando o rúmen está parcialmente cheio, o que ocorre em período de jejum, o rim repousa à esquerda do plano médio. Após a ingestão de alimentos, quando o rúmen está distendido, o rim esquerdo é pressionado para o plano médio e repousa abaixo e caudalmente ao rim direito, no espaço compreendido pelas 3a, 4a e 5a vértebras lombares. Nos bovinos, os rins são lobulados; o comprimento do rim direito varia de 18 a 24 cm e o do esquerdo entre 19 e 24 cm (Figuras 10.1 B e 10.2 B). Os ovinos e caprinos têm os rins muito semelhantes aos de cães (formato de feijão), com comprimento variando entre 5,5 e 7 cm (Figuras 10.1 C e 10.2 C). ■ Cães e gatos. Os rins de cães e gatos têm o formato típico de feijão. O comprimento pode ser estimado por meio de radiografia lateral e varia entre 2,5 e 3,2 vezes o comprimento da 2a vértebra lombar no cão e entre 2,5 e 3,0 vezes no gato. Adotando o mesmo critério de medida, a largura varia de 1,4 a 1,8 para os cães (ver Figuras 10.1 C e 10.2 C) e 1,6 a 1,9 para os gatos (Figuras 10.1 D e 10.2 C). No cão, o rim direito está comumente localizado no espaço correspondente ao intervalo entre a 13a vértebra torácica e a 1a vértebra lombar, enquanto o rim esquerdo, cuja posição pode variar mais, está localizado no espaço correspondente ao intervalo entre as 2a e 4a vértebras lombares. A fixação dos rins à parede dorsal é mais frouxa nos gatos do que nas demais espécies. Assim, os rins dos gatos são bem móveis, portanto, fáceis de palpar. O rim esquerdo dos gatos ocupa posição ligeiramente pendular, o que facilita ainda mais a palpação. Pela localização particular no gato, esse órgão é, algumas vezes, mal interpretado como massa abdominal anormal. O rim direito ocupa o espaço compreendido entre as 1a e 4a vértebras lombares, e o rim esquerdo se estende da 2a até a 5a vértebra lombar. Ureteres Os ureteres transportam urina dos rins para a bexiga. Eles são estruturas tubulares, contíguas à pelve renal ou estrutura equivalente, de acordo com a espécie animal (ver Figura 10.2). Assim como os rins, os ureteres são estruturas retroperitoneais. Cada ureter se projeta no sentido caudomedial, aposto à face ventral do músculo sublombar, em direção à bexiga, quando deixa a posição sublombar e ganha acesso à superfície dorsolateral da bexiga, fixado pela prega peritoneal que forma o ligamento lateral da bexiga, um à direita e outro à esquerda. Os ureteres penetram a camada serosa da parede dorsal da bexiga, adentram a camada muscular, onde percorrem um trajeto oblíquo (trajeto intramural) e, finalmente, abrem-se para o lúmen vesical. A inserção da extremidade distal do ureter entre as fibras musculares previne refluxo de urina da bexiga para os ureteres, quando a pressão intravesical aumenta. A parede do ureter, assim como a da pelve renal, é composta por três camadas: (1) adventícia externa; (2) muscular média; e (3) mucosa interna. A musculatura ureteral apresenta movimentos peristálticos que ajudam a levar urina para a bexiga e, quando provocada por irritações tais como as determinadas por urólitos,relatada durante a anamnese e observada ao exame físico do paciente. As hematúrias podem ocorrer por lesão mecânica (traumatismo acidental ou por urólitos), inflamação ou neoplasia de qualquer órgão do sistema urinário ou genital. A observação precisa do tipo e momento de ocorrência da perda de sangue traz informações, muitas vezes decisivas, para a localização do problema. Gotejamento de sangue ou de secreção sanguinolenta pela vulva ou óstio prepucial, fora dos momentos de micção, é indicativo de transtorno dos órgãos genitais (comum na doença prostática do cão). Nas fêmeas, também devem ser consideradas as manifestações fisiológicas de cio, parto e puerpério. Bibliografia CHRISTIE, B.A. Anatomy of the urinary tract. In: SLATTER, D.H. Small animal surgery, Philadelphia, Saunders, p. 1706-21, 1985. DWORKIN, L.D.; BRENNER, B.M. Biophysical basis of glomerular filtration. In: SELDIN, D.W.; GIEBISCH, G. The kidney, physiology and pathophysiology, 2. ed. New York, Raven Press, p. 979-1016, 1992. DYCE, K.M.; SACK, W.O.; WENSING, C.J.G. Veterinary anatomy. Philadelphia, W.B. Saunders, p. 162-441, 1987. EVANS, H.E.; CHRISTENSEN, G.C. The urogenital system. In: EVANS, H.E. Millers’s anatomy of the dog. 3. ed. 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Rim bovino. C. Rim canino, felino, ovino ou caprino. 1. Córtex. 2. Medula. 3. Crista renal (estrutura única, equivalente às papilas dos rins multipiramidais, que se projeta no espaço pélvico). 4. Papila renal (estrutura presente em rins multipiramidais; as diversas papilas se projetam nos espaços caliciais). 5. Pelve renal. 6. Ramificações tubulares, derivadas do ureter, que terminam em estruturas denominadas cálices (bovinos não têm pelve renal). 7. Ureter. Vesícula urinária A vesícula urinária e a uretra, como também a musculatura associada, compõem o trato urinário inferior. A vesícula urinária, também denominada bexiga, é um órgão cavitário, musculo-membranoso que serve como reservatório temporário da urina produzida pelos rins. Na bexiga podem ser distinguidas três partes: o colo vesical (cervix vesicae), que se conecta à uretra, o corpo vesical (corpus vesicae) e o ápice vesical (apex vesicae). O termo “ápice vesical” se aplica melhor aos primatas e pode ser substituído por “polo cranial da bexiga”, quando se tratar de quadrúpedes. Na porção dorsal do colo vesical existe uma área triangular, diferenciada anatomicamente, compreendida entre os dois meatos ureterais e o início da uretra, que é denominada trígono vesical (trigonum vesicae). Em caso de alterações vesicais localizadas, para descrever o achado, deve-se fazer referência à parte afetada e, também, ao aspecto envolvido (lateral direito ou esquerdo, ventral ou dorsal). A parede vesical é constituída por três camadas de fibras de músculo liso, dispostas em sentido longitudinal e transversal, de modo entrelaçado (musculus detrusor urinae). O músculo detrusor (geralmente referido apenas como detrusor) se relaxa para ampliar o lúmen vesical e acomodar a urina que vai sendo produzida pelos rins, durante o período de armazenamento. O arranjo especial das fibras do detrusor e do colágeno entremeado garante a complacência vesical, que permite manter a pressão interna estável durante o aumento gradativo de volume de urina. Ao ser atingida a capacidade de reserva, o aumento da pressão vesical desencadeia o evento para evacuar a urina armazenada. Internamente, a camada muscular é revestida por submucosa e pela mucosa vesical (tunica mucosa), constituída por epitélio de transição. Existe um mecanismo de prevenção de perda de urina durante a fase de enchimento vesical, que envolve, principalmente, musculatura lisa do colo vesical e da própria uretra (derivada do detrusor), além de musculatura estriada disposta ao redor da uretra. Contudo, não existe uma estrutura caracterizada, anatomicamente, como esfíncter, e sim um arranjo especial de estruturas que desempenham a função de esfíncter. Durante a fase de esvaziamento vesical ocorre dilatação do colo vesical, provavelmente induzida por ação contígua do detrusor. ■ Cães e gatos. O tamanho e a posição da bexiga variam de acordo com a quantidade de urina nela contida. A bexiga vazia é pequena e tem formato globular. Quando distendida por urina, apresenta formato de pera. A bexiga distendida apresenta contorno regular; entretanto, se o enchimento for apenas parcial, o contorno poderá ser irregularmente moldado pela pressão exercida por órgãos vizinhos, como pode ser observado em radiografias de pequenos animais. Em cães com aproximadamente 12 kg de peso corporal, a bexiga relaxada mede 17,5 cm de diâmetro por 18 cm de comprimento, e a bexiga contraída mede 2 cm de diâmetro por 3,2 cm de comprimento. Para o mesmo tamanho de cão, a bexiga pode conter de 100 a 120 mℓ de urina sem estar muito distendida. No cão, a bexiga tem localização quase inteiramente pélvica quando vazia e distende-se para o abdome com o enchimento. No gato, entretanto, esse órgão estende-se amplamente para a cavidade abdominal, mesmo quando vazia. A bexiga pode distender-se pelo enchimento até que seu vértice alcance, ou mesmo ultrapasse o umbigo, e sua parede se torne tão fina quanto um papel. Em cães treinados para reter urina, a distensão da bexiga pode alcançar extremos que determinam risco de ruptura. A superfície ventral da bexiga, em sua porção imediatamente cranial ao púbis, é separada da parede abdominal apenas pelo omento maior, que geralmente está localizado entre o peritônio parietal e a camada adventícia da parede vesical. Esse fato favorece muito o exame vesical e, principalmente, a cistocentese em pequenos animais. ■ Ruminantes. A bexiga projeta-se cranialmente e, quando cheia, fica em contato com a parede ventral do abdome. ■ Equinos. A bexiga contraída é piriforme, tem cerca de 8 a 10 cm de diâmetro e repousa inteiramente sobre a porção ventral da cavidade pélvica. Quando cheia, pende sobre a rima pélvica e estende-se para a parede ventral do abdome. A capacidade da bexiga dos equinos varia de 2,8 a 3,8 ℓ. Uretra A uretra do macho leva urina, sêmen e secreções seminais para o orifício uretral externo (ostium urethrae externum), na extremidade distal do pênis. No macho, a uretra é constituída pelos segmentos pélvico (pars pelvina) e peniano (pars penina) ou parte esponjosa. A uretra feminina origina-se na bexiga e segue em sentido dorsocaudal, com sua parede dorsal em aposição à parede ventral da vagina, e adentra o trato genital caudalmente à junção vestibulovaginal na linha média da superfície ventral da vagina (assoalho vaginal). A musculatura (tunica muscularis) da uretra feminina é formada por três camadas de músculo liso. A uretra é envolvida em quase toda sua extensão por musculatura estriada (músculo urethralis), cujo fascículo cranial circunda a uretra, enquanto o fascículo caudal forma um suporte em forma de “U” preso aos aspectos laterais e ventral da parede vaginal. A contração dessa musculatura, além de diminuir o lúmen vaginal, pressiona a uretra contra a vagina, causando fechamento uretral. A musculatura voluntária em forma de “U” desempenha a função de esfíncter bastante forte. ■ Cães e gatos. A primeira parte da uretra pélvica no gato é a porção pré- prostática (pars preprostatica), mas, no cão, o início da uretra está inteiramente circundado pela próstata (pars prostatica). Em ambas as espécies, a uretra pélvica continua após a próstata. Em um cão adulto com aproximadamente 12 kg de peso corporal, a uretra tem 25 cm de comprimento, em média. No entanto, os parâmetros comprimento e diâmetro podem variar amplamente. Durante a micção ou ejaculação, a parede da uretra distende-se, mas a expansão é limitada na porção cavernosa da uretra, que passa pelo sulco ventral do osso peniano (os penis). Essa característica anatômica da uretra dos cães é fator predisponente para as obstruções uretrais por cálculos. Os gatos-machos, por sua vez, apresentam afunilamento da uretra em direção à extremidade do pênis, característica que pode facilitar acúmulo de material sólido, resultando em obstrução uretral. Embora os gatos também apresentem osso peniano, a estrutura é delicada e flexível e, provavelmente, não concorre para a obstrução uretral. A uretra da cadela tem cerca de 0,5 cm de diâmetro e 6 a 10 cm de comprimento, e a mucosa permite expansão considerável quando está sob pressão. Na cadela, pode ser visto o tubérculo uretral (tuberculum urethrale), uma elevação que demarca o orifício uretral externo. O tubérculo uretral está localizado cranialmenteao clitóris, cerca de 4 a 5 cm a partir da comissura vulvar. A cateterização da uretra é fácil nos cães e relativamente fácil na gata, mas pode ser considerada mais laboriosa no gato, devido ao tamanho, formato e posicionamento do pênis, e ao diâmetro uretral pequeno e afunilado. ■ Equinos. A uretra dos machos é bastante longa, mas a uretra pélvica mede apenas de 10 a 12 cm. Na extremidade peniana dos equinos, a uretra termina em prolongamento cilíndrico de 1,5 a 3 cm de comprimento, denominado processo uretral, que fica alojado dentro da fossa da glande (Figura 10.3 A). Nas fêmeas, a uretra mede de 5 a 7,5 cm, e o lúmen é suficientemente largo para permitir palpação digital direta. ■ Ruminantes. Nos bovinos machos, a uretra prolonga-se como processo de 2 a 3 cm, que fica encaixado no sulco localizado do lado direito da extremidade peniana (Figura 10.3 B). Nos pequenos ruminantes, existe o processo uretral que se projeta para além do pênis (Figura 10.3 C). A uretra tem cerca de 10 a 13 cm na vaca, 4 a 5 cm na ovelha e 5 a 6 cm na cabra. O orifício uretral externo abre-se no assoalho da vagina, sob formato de fenda delimitada, lateralmente, por pregas da mucosa. Caudalmente ao meato uretral externo, existe o divertículo suburetral, constituído de uma pequena bolsa, direcionada cranioventralmente, com cerca de 2 cm de diâmetro na vaca e de 1 a 1,5 cm na ovelha e na cabra. Ressalte-se que o divertículo deve ser evitado no momento de introdução de sonda uretral (Figura 10.4). Controle da micção A micção compreende o processo fisiológico de armazenamento e eliminação da urina. A bexiga e a uretra, em ação conjunta, propiciam o acúmulo da urina que vai sendo formada (fase de enchimento vesical), por meio de relaxamento do detrusor e contração do “esfíncter” uretral, evitando o fluxo de urina para o meio externo. Na etapa seguinte, quando a bexiga está suficientemente cheia, a contração vesical e a facilitação do fluxo de urina dada pelo relaxamento uretral propiciam o esvaziamento da bexiga (fase de eliminação de urina). Figura 10.3 Representação de extremidades penianas e respectivos processos uretrais. A. Equino. B. Bovino. C. Ovino ou caprino. Figura 10.4 Representação do divertículo suburetral presente em vacas, ovelhas e cabras. 1. Comissura vulvar. 2. Vagina. 3. Vesícula urinária. 4. Uretra. 5. Divertículo suburetral. Observar que os acessos ao divertículo suburetral e à uretra são muito próximos, o que exige cautela para a cateterização transuretral. A micção é uma função reflexa que envolve ações integradas de vias parassimpáticas, simpáticas e somáticas, que se estendem desde o segmento sacral da medula espinal até o córtex cerebral. Esse processo envolve os nervos pudendo, pélvico e hipogástrico, em ações que estão sob o controle de neurônios da formação reticular pontina, que, por sua vez, podem ser influenciados por neurônios do córtex cerebral e do cerebelo (Figura 10.5). O detrusor (musculatura lisa da bexiga) e a musculatura estriada do esfíncter uretral externo recebem inervação simpática, parassimpática e somática para o controle neural da micção. A fase de armazenamento de urina é dominada por atividade neurológica autonômica simpática, que promove relaxamento do detrusor (atividade beta-adrenérgica), e permite distensão sem aumento significativo da pressão intravesical. Simultaneamente, ocorre contração do esfíncter uretral externo que promove a contenção da urina. A contração da musculatura estriada do esfíncter uretral externo, por estimulação voluntária, pode reforçar a continência urinária quando necessário. Uma vez atingidos os limiares de volume e pressão da bexiga, impulsos motores eferentes dão início à fase de eliminação de urina ou esvaziamento vesical. Nessa fase, impulsos autônomos do parassimpático estimulam a ■ despolarização e a contração do músculo detrusor (efeito colinérgico pós- ganglionar), ao mesmo tempo que ocorre inibição da atividade simpática e somática dos esfíncteres uretrais e relaxamento da uretra. Uma vez esvaziada a bexiga, inicia-se uma nova fase de armazenamento (Quadro 10.1). Controle voluntário As vias sensoriais que seguem da bexiga para a região pontina também chegam ao córtex cerebral, onde é integrado o controle voluntário da micção. Por meio dessa via de controle do reflexo do detrusor, o animal pode iniciar voluntariamente a micção, como no caso de marcação de território, ou inibi-la, como ocorre quando é treinado para urinar em locais e momentos determinados. O controle voluntário da micção pode ser perdido nos casos de lesões do córtex cerebral. Por meio da inervação somática, pode haver contração da musculatura estriada do esfíncter uretral externo e da musculatura perineal, mecanismo voluntário que traz auxílio adicional para a contenção urinária, quando necessário (ver Figura 10.5). Figura 10.5 Representação esquemática do controle do sistema nervoso sobre o trato urinário inferior (cães e gatos). 1. Neurônio cortical para controle voluntário do esfíncter uretral. 2. Neurônio cortical para controle da micção. 3. Neurônio cerebelar para inibição da micção. 4. Neurônio reticularpontino envolvido no mecanismo de reflexo do detrusor. 5. O nervo hipogástrico supre a bexiga e a uretra proximal com inervação simpática. 6. Nervo pélvico que supre a bexiga com inervação parassimpática. 7. Nervo pudendo (ramos aferente e eferente) que supre o esfíncter uretral externo, constituído por musculatura esquelética. JVU = junção vesicouretral (colo vesical Quadro 10.1 e uretra proximal), que exerce função de esfíncter interno (musculatura lisa); EUE = esfíncter uretral externo (musculatura estriada); L = vértebra lombar; S = vértebra sacral. Resumo das inervações motora e sensorial da vesícula urinária e da uretra. Tipo de inervação Origem da inervação (medula espinal) Nervo Função da inervação Inervação motora (eferente) Somática Segmento sacral (S1-S2) Pudendo Controle voluntário do esfíncter uretral externo e musculatura perineal Simpática Segmento lombar (L1-L4 no cão, L2-L5 no gato) Hipogástrico (após sinapse no gânglio mesentérico caudal) Inervação adrenérgica da bexiga, * gânglio pélvico ** e “esfíncter” uretral interno. *** Inervação do urethralis Parassimpática Segmento sacral (S1-S3) Pélvico (com sinapse no plexo pélvico e gânglio na parede vesical) Contração do músculo detrusor (esvaziamento vesical). Inervação do urethralis Inervação sensorial (aferente) Segmento sacral Pélvico Percepção de tensão da parede vesical Segmento lombar Hipogástrico Percepção de distensão extrema da bexiga e provável receptor para dor Segmento sacral Pélvico Segmento sacral Pudendo Receptor para �uxo, distensão e dor da uretra *Estímulo promove relaxamento do músculo detrusor (receptores beta-adrenérgicos) e contração da musculatura da região do trígono, do colo vesical e da uretra proximal (receptores alfa-adrenérgicos). **A inervação simpática parece inibir a atividade parassimpática durante o enchimento vesical. ***Estimulação promove constrição do “esfíncter” (predomínio de receptores alfa-adrenérgicos). Exame ■ ■ Identificação do paciente | Resenha Para avaliar o sistema urinário, assim como ocorre com outras partes do organismo, diversas informações sobre as características do animal têm grande relevância na definição do tipo de abordagem semiológica e na interpretação dos resultados dos exames para fins diagnósticos e prognósticos. A identificação deve incluir, necessariamente: (1) espécie, (2) raça, (3) sexo, (4) idade, (6) uso e (5) procedência. O sistema urinário pode ser acometido por grande variedade de afecções. Muitas doenças (pielonefrite, urolitíase e cistite, dentre outras) podem ocorrer em animais de todas as espécies, machos ou fêmeas, jovens ou adultos. Contudo, existem afecções que ocorrem especificamente em algumas espécies (como, por exemplo, obstrução uretral por tampões nos felinos) e outras que acometem preferencialmente algumas raças (como, por exemplo, displasia renalem cães Lhasa Apso e Shih Tzu). Considerando a idade do animal, o clínico pode conduzir os exames de maneira mais eficiente. Muitos problemas manifestam-se nos primeiros meses de vida, enquanto outros aparecem na vida adulta. Um exemplo interessante é a incontinência urinária em cadelas, cuja causa mais provável será ureter ectópico se o sinal for observado nos primeiros meses de vida; todavia, se for uma fêmea adulta, a causa mais provável, a ser investigada, seria cistite crônica ou distúrbio anatômico ou hormonal relacionados com castração. Anamnese | História clínica O primeiro aspecto a ser considerado na anamnese é o conhecimento de que muitas doenças que acometem os órgãos urinários resultam em comprometimento sistêmico. Por outro lado, muitas doenças com sinais sistêmicos (p. ex., diabetes melito, lúpus eritematoso, erliquiose, toxemia e miopatia de esforço, entre outras) e outras afecções localizadas (p. ex., piometra) podem ocasionar doença renal secundária, suficientemente grave para causar óbito. Assim, o paciente pode apresentar sinais indicativos de alterações em diversos órgãos e sistemas, além daqueles especificamente relacionados com o aparelho urinário. A anamnese deve, portanto, envolver todos os itens de caráter geral que compreendem a queixa atual (tipo, frequência e duração do problema) e informações sobre apetite, tipo de alimento consumido, vômito, ■ Quadro 10.2 características das fezes e defecação, comportamento, déficit neuromotor, funções e transtornos reprodutivos, doenças e tratamentos anteriores, administração de vacinas e anti-helmínticos, tratamentos em andamento ou efetuados nos últimos dias, possíveis cirurgias, acidentes ou esforço físico recentes e outros que possam ser particularmente importantes para o animal em questão. Também devem ser feitas perguntas sobre aspectos que, direta ou indiretamente, revelem o estado e a função dos órgãos urinários, explorando mais detalhadamente, inclusive, itens já questionados na anamnese geral (Quadro 10.2). Exame físico geral No momento do exame físico geral, os órgãos urinários devem ser considerados. Contudo, em função das particularidades anatômicas de cada espécie animal, tanto no que se refere à conformação geral como às peculiaridades dos órgãos urinários, os acessos semiológicos são distintos para cada caso. Com base nas informações obtidas na anamnese e nos resultados do exame físico geral, o clínico deve decidir sobre a necessidade de aprofundar a investigação por meio de exames especiais do sistema urinário, que incluem o exame específico e os complementares (Quadro 10.3). Resumo de itens importantes para a anamnese especí�ca do trato urinário. Itens investigados Aspectos enfocados* Urina Volume em cada micção, aspecto (coloração, transparência/turvação, presença de material sólido ou semissólido, viscosidade, presença de sangue) Micção Frequência (número de vezes e intervalo), tipo (postura à micção, sinais de di�culdade, sinais de dor ou desconforto, tenesmo, incontinência) Ingestão de água Frequência e volume Doenças urinárias anteriores Histórico completo de doenças do trato urinário (com ou sem conclusão diagnóstica), incluindo tratamentos feitos Quadro 10.3 ■ ∘ ∘ ∘ ∘ ■ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ■ ∘ ∘ ■ ∘ ∘ Sinais relacionados a outros órgãos Detalhamento de informações referentes às manifestações que possam ter relação com as causas ou consequências da afecção urinária em curso *O informante deve ser estimulado a comparar a situação atual com a que ocorria quando o animal parecia normal. Resumo da sequência de exame físico especí�co do sistema urinário, após resenha, anamnese e exame físico geral. Rins Ambos são palpáveis? Tamanho, simetria e posição? Forma, contorno e consistência? Dor? Bexiga Posição? Tamanho, formato, consistência? Cálculos ou massas palpáveis? Espessura da parede? Dor? Próstata (importante em cães) Posição, tamanho, simetria, consistência? Dor? Uretra dos machos Meato urinário Secreção uretral ou prepucial? ∘ ∘ ■ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ■ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ∘ ■ Tamanho, formato e consistência das porções palpáveis? Anormalidades periuretrais? Micção Frequência? Disúria? Retenção? Incontinência? Hematúria macroscópica? Exames complementares Análises de urina (urinálise, razão proteína:creatinina) Urocultura Diagnóstico por imagem Cateterização uretral (obstrução?) Provas de função renal Biopsia Investigação de possíveis causas primárias Provas para diagnóstico diferencial Exames específicos e complementares do trato urinário Concluída a avaliação inicial do paciente, se for encontrado qualquer indício de doença do trato urinário, ficam indicados exames complementares que serão eleitos de acordo com as possibilidades diagnósticas aventadas. Dentre os exames especiais, a urinálise destaca-se por ser necessária em praticamente 100% dos casos. Outros exames incluem as provas de função renal, exames radiográficos, ultrassonografia e uretrocistoscopia. A técnica de palpação destaca-se no exame físico de rotina. A palpação dos órgãos urinários, seja externa ou por via retal, é útil para verificação das características anatômicas e para avaliação da sensibilidade. É importante ressaltar que o examinador não pode executar movimentos bruscos. O contato de pelo menos uma das mãos do examinador com o corpo do paciente deve sempre ser mantido durante as trocas de posição. A pressão necessária para palpar cada órgão deve ser aplicada de maneira gradativa, até que se atinja o grau mínimo necessário. O término da pressão também deve ser feito de maneira gradativa. Esses cuidados evitarão desconforto desnecessário ao paciente e, principalmente, impedirão que um grau normal de sensibilidade venha a ser erroneamente interpretado como dor decorrente de doença. O aumento da sensibilidade ou dor, quando existir, será manifestado por gemidos ou reação de defesa, durante o toque suficientemente profundo, mas suave, da área afetada. Outro dado a ser destacado é que a ausência de sensibilidade dolorosa ou mesmo de alterações anatômicas detectáveis à palpação dos órgãos urinários não descarta a possibilidade de doença. Muitas afecções, várias de caráter grave, não cursam com alterações perceptíveis à palpação. Exame dos rins Para examinar os rins, deve ser realizado o exame físico de ambos os órgãos, sempre que possível, e do seu produto mais acessível, a urina. Os exames complementares dos rins incluem tanto avaliações feitas por inspeção e palpação, como exames laboratoriais e provas de função renal (Quadros 10.4 e 10.5). Palpação externa dos rins em cães e gatos A palpação externa dos rins é feita com as gemas dos dedos (indicador, médio e anular), posicionados um junto ao outro e ligeiramente �exionados. As gemas dos dedos são posicionadas o mais profundamente possível, abaixo das apó�ses transversas das vértebras lombares, a partir Quadro 10.4 do ângulo formado com as últimas costelas, e vão sendo deslizadas em direção caudal e ventrocaudal. Esse procedimento deve ser feito com ambas as mãos, simultaneamente, aplicadas cada uma em um dos lados do corpo do paciente, dirigidas uma contra a outra (como se as gemas dos dedos de uma das mãos fossem tocar as da outra). Uma vez localizados os órgãos, o examinador deve avaliar tamanho, formato, características da superfície, consistência e sensibilidade. Os rins podem apresentar diversos tipos de alterações, tanto congênitas quanto adquiridas (Quadro 10.6). Esses órgãos têm grande capacidade de reserva funcional e podem manter a produção de urina, como também suas demais funções, enquanto sofrem algum tipo de doença. Assim, ao serem examinados os rins, o clínico deve avaliar duas possibilidades: (1) a de existência de alguma doença renal em curso, sem comprometimento importante da função; e (2) a de haver dé�cit da função renal. Quando ocorre dé�cit da função renal, o exame do paciente deve ser conduzido de modo a elucidar a causa renal envolvida. Resumo das técnicas indicadas para o examedos rins de cães, gatos, equinos e ruminantes. Técnicas Aplicabilidade Exame físico de rotina Inspeção direta (região renal) E�ciente somente em casos de aumento aberrante dos rins Palpação externa Possível para alguns animais pequenos (excelente para gatos) Percussão dolorosa (região renal) Indicada somente para grandes animais (feita com o martelo de percussão, para pesquisa de dor) Exames específicos e complementares Inspeção indireta ou diagnóstico por imagem (radiogra�as simples e contrastadas, ultrassonogra�a) Possível para animais de pequeno porte e para alguns �lhotes de animais de grande porte Palpação retal Possível em grandes animais, mas nem sempre os rins são alcançados Quadro 10.5 ■ ∘ ■ ∘ ∘ ■ ∘ ∘ ∘ Urinálise (análise física, química e sedimentoscópica da urina) Exame extremamente importante que pode ser empregado em todos os animais Provas de função renal Indicadas sempre que houver suspeita de insu�ciência renal; de modo geral, são aplicáveis a todos os animais, exceto para ruminantes machos quando houver necessidade de cateterização vesical Cultura de urina Indicada para os casos de suspeita de infecção do trato urinário. Pode ser feita quando for possível coletar a urina de maneira asséptica Biopsia renal Indicada para os casos cuja de�nição precisa do tipo de doença renal possa ser útil para o prognóstico e tratamento Provas de função renal. Per�l bioquímico sérico (exames mais comuns) Dosagens das concentrações séricas de creatinina, ureia, proteína total, albumina, potássio e fósforo, entre outros Avaliação da função glomerular Clearance de creatinina Razão proteína:creatinina urinária Avaliação da função tubulointersticial Excreção fracionada de sódio Densidade ou osmolalidade urinária Teste de privação de água Nos casos de déficit funcional com comprometimento da capacidade de manter a homeostase (redução grave da filtração glomerular), o paciente apresenta aumento das concentrações séricas dos produtos do metabolismo Quadro 10.6 de substâncias nitrogenadas, especificamente creatinina e ureia. A constatação laboratorial de aumento das concentrações séricas de creatinina e ureia é denominada azotemia, cujas causas podem ser: (1) pré-renais; (2) renais; ou (3) pós-renais (Quadro 10.7). Na persistência de azotemia renal, o paciente sofrerá alterações orgânicas importantes em função da quebra da homeostase e passará a apresentar um conjunto de sinais clínicos e laboratoriais, que caracterizam o quadro conhecido como síndrome urêmica ou uremia (Figura 10.6 A a E). Essa condição pode surgir tanto sob a forma aguda como sob a crônica, de acordo com o tipo de doença renal em curso. Resumo de doenças renais já descritas em animais.* Causa ou origem Doença renal Congênita, familial ou hereditária Displasia renal Glomerulonefrite Nefrite tubulointersticial (nefrite intersticial) Rim policístico Síndrome de Fanconi Infecciosa Glomerulonefrite associada a infecção viral Nefrite intersticial (nefrite tubulointersticial) na leptospirose Pielonefrite Autoimune Glomerulonefrite Secundária a doença sistêmica Glomerulonefrite (diabetes melito, lúpus eritematoso sistêmico, peritonite infecciosa felina, leucemia felina, erliquiose, dermatite crônica, brucelose, piometra, leishmaniose, cirrose hepática, entre outras) Nefropatia por pigmento endógeno (hemoglobinúria, mioglobinúria) Fármacos, agentes químicos e isquemia renal Lesão renal aguda química ou isquêmica (antes denominadas nefrose ou necrose tubular aguda) Nefrite tubulointersticial (nefrite intersticial) Obstrução ureteral Hidronefrose Nefropatia obstrutiva Quadro 10.7 ■ ∘ ∘ ∘ ∘ ■ ∘ ■ ∘ ∘ ∘ ∘ Parasitária Destruição do parênquima renal por Dioctophyma renale Idiopática Glomerulonefrite Lipidose glomerular Outras causas Amiloidose renal Doença renal cística adquirida Neoplasia renal Nefropatia hipercalcêmica *Muitas das afecções relatadas foram observadas somente em cães e gatos. Causas de azotemia (aumento das concentrações séricas de ureia e de creatinina).* Causas pré-renais Desidratação grave Insu�ciência cardíaca Hipoadrenocorticismo Outras Causa renal Doença renal com comprometimento da função Causas pós-renais Obstrução uretral (parcial ou total) Obstrução de colo vesical (parcial ou total) Ruptura de bexiga Deslocamento de bexiga com impedimento de �uxo de urina (hérnia perineal) *Podem ocorrer combinações das causas. Outra condição bastante peculiar é a do paciente com glomerulonefrite crônica. Nesse caso, os rins perdem a capacidade de conservar proteína, o que pode levar a uma condição sistêmica denominada síndrome nefrótica, caracterizada por proteinúria, hipoalbuminemia, edema e ascite (Figura 10.6 F). Glossário semiológico Síndrome urêmica (uremia). Conjunto de sinais e sintomas que caracterizam as manifestações sistêmicas resultantes de mau funcionamento dos rins. Na síndrome urêmica, existem comprometimentos gastrintestinais, neuromusculares, cardiopulmonares, endócrinos, hematológicos e oftálmicos. A azotemia também é um dos achados laboratoriais da síndrome urêmica. Exame dos ureteres Em animais de porte pequeno, o exame dos ureteres é possível somente por inspeção indireta, por meio de exames ultrassonográficos e radiográficos. O diagnóstico presuntivo pode ser concluído por meio de uma das técnicas de imagem, mas, comumente, os dois métodos são necessários, pois fornecem informações que se complementam. Para indicar o diagnóstico por imagem, são considerados sintomas relatados durante a anamnese e sinais observados ao exame físico, que podem ser indicativos de problemas ureterais. O exame ultrassonográfico do trato urinário não é invasivo e deve ser a escolha inicial, juntamente com urinálise e urocultura, com o objetivo de identificar sinais específicos de transtorno ureteral, se houver, ou localizar outras causas e possíveis problemas associados. A avaliação radiográfica (técnicas especiais com contraste) pode ser essencial para alguns tipos de diagnóstico (p. ex., localização de ruptura) e refinamento de diagnóstico necessário para estabelecer protocolo de tratamento cirúrgico. Os ureteres podem ser acometidos por defeitos congênitos, que resultam em processos obstrutivos parciais e acúmulo gradativo de urina em associação com dilatação ureteral suficientemente grave para caracterizar o quadro de megaureter. Essa condição cursa, invariavelmente, com incontinência urinária contínua, desde o nascimento. A anormalidade decorre de defeito na implantação do ureter na bexiga (ureter ectópico) e parece ser mais frequente em algumas raças de cães. Alguns pacientes podem apresentar quadro peculiar de incontinência urinária, observada ao longo das 24 h do dia, com gotejamento regular e contínuo, acompanhado por episódios de micção normal (fases de armazenamento e de eliminação). Nesses casos, os sinais revelados pelo histórico, pela inspeção e pela palpação da bexiga são indicadores que sugerem falha na implantação de um único ureter (Figura 10.7 A e C). Se o paciente apresentar, desde o nascimento, incontinência urinária com gotejamento regular e contínuo e ausência de micção normal, a causa mais provável será a falha de implantação de ambos os ureteres. Nos casos de megaureter em grandes animais, a anormalidade, algumas vezes, pode ser detectada por meio de palpação retal. As obstruções ureterais adquiridas (parcial ou total) podem decorrer de passagem de urólitos desprendidos da pelve renal (ou estrutura correspondente), infecção purulenta renal e ureteral, compressão por massas neoplásicas ou granulomas ureterais ou de estruturas adjacentes, dentre outras causas. Nesses casos, o ureter afetado apresenta dilatação, leve ou moderada, do segmento cranial que antecede a área obstruída; não ocorre incontinência urinária e pode haver manifestação de dor intensa se o processo for agudo (p. ex., passagem de urólito). Exame da bexiga e da uretra Em pequenos animais, a palpação externa da bexiga pode serfeita seguindo a mesma orientação das manobras já descritas para a palpação renal (Quadro 10.8). O paciente pode estar em estação ou em decúbito lateral. O local a ser acessado compreende as paredes laterais da porção mais caudal do abdome, imediatamente à frente do púbis, comumente entre as virilhas. As gemas dos dedos são deslocadas para frente, para cima e para baixo, até a localização do órgão. Para gatos e cães pequenos, a palpação vesical também pode ser feita com uma única mão, em forma de pinça, com a concorrência do polegar. Nos cães pequenos, a bexiga repousando no assoalho pélvico pode ser acessada pela combinação de palpação retal ou vaginal (com um dedo) e de palpação externa (mão sob forma de pinça). Figura 10.6 Manifestações clínicas das síndromes relacionadas com doenças renais crônicas. A. Cão com uremia crônica; observar emaciação e apatia. B. Gato com síndrome urêmica; notar apatia e fraqueza muscular. C e D. Equino com síndrome urêmica; notar úlcera de mucosa oral e de língua. E. Cão com síndrome urêmica; notar petéquias de mucosa oral e úlcera de língua. F. Cão com síndrome nefrótica; notar edema de região ventral e ascite. Quadro 10.8 Figura 10.7 Exemplos de diagnósticos que podem ser feitos por meio de radiografias e ultrassonografias. A. Megaureter e dilatação de pelve renal direita de uma cadela, diagnosticados por urografia excretora; notar a porção cranial do ureter contralateral normal. B. Cálculos radiopacos na bexiga de um cão detectados em radiografia simples. C. Ultrassonografia de rim esquerdo de uma cadela com dilatação pélvica resultante de ectopia ureteral. D. Cálculo vesical em uma cadela, detectado pela ultrassonografia. Notar a sombra acústica que se projeta abaixo do cálculo. E. Ultrassonografia de bexiga de um gato com cistite hemorrágica grave; notar o espessamento e a irregularidade da parede vesical. F. Cálculos vesicais não radiopacos na bexiga de um cão detectados em radiografia de contraste duplo. RE = rim esquerdo. Resumo das técnicas semiológicas indicadas para o exame da vesícula urinária de cães, gatos, equinos e ruminantes. Técnicas Aplicabilidade Exame físico de rotina Inspeção direta (região vesical) E�ciente somente em animais pequenos e não obesos Palpação externa E�ciente somente em animais pequenos e não obesos Exames específicos e complementares Palpação retal Somente para animais de grande porte Palpação retal digital combinada com palpação externa Indicada para cães pequenos Percussão digitodigital Indicada para esclarecimento de casos de retenção de urina em animais pequenos Cateterismo vesical com sonda �exível Indicado para cães, gatos e cavalos-machos Em bovinos, o cateterismo não é possível, em razão do comprimento da uretra e da presença da �exura sigmoide do peniano Cateterismo vesical com sonda �exível ou rígida Possível para todas as fêmeas Inspeção indireta ou diagnóstico por imagem (radiogra�as simples e contrastadas, ultrassonogra�a) Possível para cães, gatos e alguns �lhotes de animais grandes Inspeção direta por cistoscopia E�ciente para avaliação da face interna da bexiga e para biopsia; pode ser empregada em todos os animais (para machos de grande porte é necessária a uretrostomia perineal) Urinálise (análises física, química e sedimentoscópica da urina) Exame muito importante; pode ser empregado em todas as espécies Citopatologia Pode ser útil para detectar células neoplásicas obtidas em lavados vesicais; pode ser empregada quando for possível cateterização vesical Durante a palpação vesical, verificam-se localização, volume, forma, consistência, tensão e sensibilidade. Caso a bexiga contenha pouco volume de urina, pode ser avaliada a espessura da parede, e, muitas vezes, é possível detectar a presença de cálculos ou de massas anormais. Entretanto, a palpação da bexiga pode ser prejudicada ou inviabilizada nos casos de obesidade ou dor abdominal, dentre outros fatores. Quando indicado, durante a palpação, pode ser feita expressão manual da bexiga para verificar se a uretra está patente (sem obstrução) ou para coleta de amostra de urina. A bexiga também pode ser examinada por meio de radiografias e ultrassonografia, que, na maioria dos casos, são imprescindíveis para conclusão diagnóstica (Figura 10.7 B, D a F). Em pequenos animais, as grandes distensões de bexiga, causadas por retenção de urina, podem ser detectadas por inspeção direta do abdome. Nesses casos, o conteúdo líquido pode ser identificado e delimitado por meio de percussão digitodigital (som maciço). É importante salientar que, se a bexiga distendida estiver muito tensa, a palpação deve ser interrompida e a continuação do exame deve ser voltada para a identificação de possível obstrução uretral. Nos equinos e bovinos, a bexiga pode ser examinada por via retal ou vaginal. A palpação permite acesso limitado, mas a ultrassonografia pode ser efetiva. O exame da uretra deve incluir inspeção do meato urinário externo, inspeção e palpação da uretra perineal (machos), palpação das uretras pélvica e peniana, palpação indireta por meio de sonda uretral e diagnóstico por imagem. Destaca-se a importância da uretrografia retrógrada, que pode ser precedida ou combinada com o exame ultrassonográfico. O refinamento do diagnóstico pode exigir uretroscopia e biopsia (Quadro 10.9) Deve-se ressaltar que o exame da uretra requer avaliação conjunta da bexiga e da próstata, além de inspeção da micção. Durante a micção avaliam-se a emissão de urina (em jatos normais, em jatos finos, por gotejamento; com ou sem sinais de dor ou esforço exagerado) e a possível eliminação de sangue, urólitos, grumos ou muco no primeiro jato de urina. As tentativas de micção sem emissão de urina são sugestivas de processo obstrutivo total da própria uretra ou do colo vesical, causados por obstáculo luminal, parietal ou externo. A uretra pode ser acometida por processo inflamatório (traumático ou infeccioso), ruptura, neoplasia, alojamento de urólito ou tampão uretral. Como consequência de qualquer uma das causas citadas, pode haver obstrução uretral parcial ou total, que se manifestam por disúria ou iscúria, respectivamente. A obstrução uretral pode ocorrer concomitantemente à causa (p. ex., urólito, neoplasia) ou como consequência tardia dos processos de reparação por cicatrização que resultem em estenose. Avaliação da micção Para avaliação da micção, devem ser consideradas as informações obtidas durante a anamnese. A esse respeito, deve ser lembrado que são frequentes informações imprecisas que, não raramente, decorrem de falta de clareza das perguntas formuladas pelo veterinário. O ideal é que a avaliação seja feita pelo próprio clínico (inspeção), assim que possível. Para identificar os transtornos da micção, deve ser considerada a postura normal à micção, que é particular para cada espécie animal (Quadro 10.10). Quadro 10.9 As alterações da micção podem estar relacionadas com vários problemas que incluem tanto afecções do trato urinário como afecções extraurinárias. Com o exame clínico completo e o detalhamento na avaliação do trato urinário, é possível diagnosticar a causa do transtorno da micção. Os termos semiológicos apropriados para cada tipo de alteração da micção e suas possíveis causas estão apresentados no boxe “Glossário semiológico”. Glossário semiológico Disúria. Caracteriza-se por sinais de desconforto ou de dor à micção, com possibilidade de haver di�culdade para eliminação da urina. De acordo com a causa e a intensidade do problema, as manifestações de disúria podem variar tanto quanto ao tipo como quanto à intensidade. Assim, a disúria pode ser classi�cada como micção dolorosa, estrangúria ou tenesmo vesical. Causas possíveis: enfermidades dolorosas da bexiga, da uretra, da vagina ou do prepúcio; enfermidade dolorosa de outros órgãos comprimidos pela prensa abdominal durante a micção; peritonite aguda; tumores ou cálculos vesicais; obstruções uretrais. Micção dolorosa. Durante os esforços de micção, o animal apresentagemidos, desassossego, movimentos de um lado para o outro, olhares dirigidos para o ventre, agitação da cauda, “sapateado”. Estrangúria. Caracteriza-se por esforços prolongados, com intervenção enérgica da prensa abdominal, sem eliminação de urina, ou que acabam por produzir eliminação de poucas gotas ou de poucos jatos �nos de urina, acompanhados de manifestação de dor (gemidos). Tenesmo vesical. É um esforço involuntário, prolongado e doloroso para emissão de urina. Em casos extremos, o animal pode conservar a postura de micção por tempo longo. Nesse quadro, a vontade de urinar é constante, mesmo que a bexiga contenha volume de urina pequeno ou já esteja vazia. Resumo das técnicas semiológicas indicadas para o exame da uretra de cães, gatos, equinos e ruminantes. Técnicas Aplicabilidade Inspeção direta Permite o exame do meato urinário externo em todos os animais. Nas fêmeas, o acesso para inspeção, requer o uso de espéculo vaginal; as gatas, na grande maioria dos casos, requerem contenção química prévia. Para exame do meato urinário externo dos Quadro 10.10 machos, faz-se necessária a exposição da extremidade peniana. Essa manobra é realizada facilmente em cães, mas requer contenção física apropriada para as demais espécies. Os gatos geralmente requerem contenção química. Os equinos podem requerer intervenção farmacológica para expor o pênis. Os ruminantes, além da contenção física, requerem intervenção farmacológica para a exposição do pênis (é necessário desfazer a �exura sigmoide) Exames específicos e complementares Inspeção direta por uretroscopia E�ciente para avaliação interna da uretra e para biopsia; pode ser empregada em todos os animais nos quais seja possível a cateterização vesical (como parte da cistoscopia transuretral) Inspeção indireta (radiogra�as contrastadas, ultrassonogra�a) Radiogra�as são úteis para animais pequenos. A ultrassonogra�a é útil para o exame de alguns segmentos da uretra Palpação indireta por meio de sonda uretral Possível em todas as fêmeas e em cães, gatos e cavalos-machos Palpação retal Útil para machos; permite examinar a parte pélvica da uretra Inspeção e palpação perineal Pode revelar sinais de obstrução por urólito Posturas normais e atitudes comuns à micção. Animais Características Equinos Geralmente, só urinam quando não estão trabalhando. A postura para micção é similar para cavalos e éguas e consiste em extensão dos membros torácicos, seguida por abaixamento do abdome e inspiração, resultando em aumento da pressão intra-abdominal. O cavalo expõe, ligeiramente, o pênis Ruminantes As vacas adiantam os membros pélvicos, arqueiam o dorso e elevam a cauda. Os bovinos machos urinam tanto quando estão parados como quando estão andando ou comendo. A urina é eliminada na cavidade prepucial, de onde escorre através do meato. Os ovinos adotam as mesmas posturas de micção observadas em bovinos Caninos As cadelas �exionam os membros pélvicos de modo que o períneo �que paralelo ao solo, faltando pouco para tocá-lo. Os cães levantam um dos membros pélvicos e direcionam o jato para um objeto selecionado. Quando �lhotes, antes da maturidade sexual, os machos adotam a mesma postura de micção das fêmeas. Os cães adultos, principalmente os machos, podem urinar pequenas quantidades, muitas vezes seguidas, para marcar território Felinos A postura adotada, tanto pelas fêmeas como pelos machos, é a mesma das cadelas. Os felinos fazem uma pequena cova, onde depositam a urina, cobrindo-a após a micção. Machos e fêmeas sexualmente maduros podem ter o hábito (indesejável) de eliminar urina sob a forma de spray (marcação de território). Primeiro, o animal cheira o alvo, e então se vira de costas e emite o jato. O alvo localiza-se sempre em uma superfície vertical, a cerca de 20 cm acima do solo Frequência da micção Para manter o equilíbrio de água, o volume da urina produzida em 24 h deve ser proporcional ao volume de água ingerida. Entretanto, quando ocorre aumento de perda de água por vias extrarrenais (respiração, transpiração, defecação, lactação), deve haver diminuição do volume de urina produzida, a menos que haja aumento compensatório da ingestão de água. A frequência de micção, indicada pelo número de vezes que o animal urina em 24 h, deve ser proporcional ao volume de urina produzida no mesmo período (Quadro 10.11). Cada espécie animal tem um padrão para a frequência de micção (lembrar que os recém-nascidos sempre urinam muito mais que os adultos). Contudo, diversas condições fisiológicas ou patológicas podem implicar alteração do número de vezes que o animal urina. As variações na frequência de micção recebem denominações específicas, as quais incluem: (1) polaquiúria ou polaciúria; (2) oligosúria; e (3) iscúria ou retenção de urina (Quadro 10.12). Outra condição que também modifica a frequência de micção é a incontinência urinária (Quadro 10.13 e Figura 10.8). Volume de urina A análise do volume de urina requer acompanhamento por 24 h com mensuração de todos os volumes eliminados (Quadro 10.14). Isso pode ser feito colocando-se o animal em gaiolas metabólicas ou empregando bolsas coletoras. Entretanto, esses procedimentos em geral não podem ser Quadro 10.11 Quadro 10.12 empregados na rotina. Mesmo assim, a avaliação por estimativa do volume de urina pode e deve ser feita. O proprietário ou tratador do animal pode inferir sobre possíveis aumentos ou diminuições do volume de urina produzida, considerando o número de vezes que o animal está urinando por dia e os tamanhos das “poças” de urina formadas a cada micção. Frequência normal de micções em 24 h, para adultos. Animais Frequência (vezes/dia) Equinos e bovinos 5 a 7 Ovinos e caprinos 1 a 4 Cães 2 a 4* Gatos 2 a 4 *Muito variável se houver necessidade de marcação de território, principalmente no caso de machos. Variações da frequência de micção. Nomenclatura e definição Causas Polaquiúria – aumento marcante da frequência de micção (diferenciar de poliúria) In�amação de bexiga, uretra, vagina ou prepúcio; excitação re�exa da bexiga (meningite, raiva, neurites). Nesses casos, o volume a cada micção será pequeno ou muito pequeno Aumento da produção de urina (o enchimento vesical é mais rápido). Nesse caso, o volume a cada micção será normal ou aumentado Oligosúria – micção rara em razão da diminuição do volume de urina produzida (diferenciar de oligúria) Doença renal Desidratação, privação de água ou transtornos da sede Iscúria (retenção de urina) – falta persistente de eliminação apropriada de urina, apesar de a bexiga encontrar-se cheia e de poder haver tentativas e esforço de Obstrução uretral ou de colo vesical (urólitos, tumores, in�amações graves, estenoses, tampões uretrais) Quadro 10.13 micção. A iscúria pode ser completa, incompleta (eliminação de gotas de urina) ou paradoxal (pode haver eliminação de urina se for exercida pressão sobre a bexiga) (diferenciar de anúria) Dissinergia re�exa (transtorno neuromotor) Paresia do detrusor (transtorno neuromotor ou motor) Anormalidades de armazenamento de urina. Nomenclatura e definição Causas Incontinência urinária – re�ete perda total ou parcial da capacidade de conter (armazenar) a urina, que é, então, eliminada sem a postura normal de micção. A urina pode sair em gotas, em jorros breves ou escorrer. Em muitos casos, o paciente apresenta incontinência urinária, mas, também, tem micções normais Comprometimento nervoso (medula sacral ou suas vias aferentes ou eferentes) In�amação crônica grave da bexiga (pode coexistir micção normal) Distúrbios hormonais e perda muscular em animais idosos ou castrados Ureter ectópico (se for unilateral, também existirá micção normal) Fístula vesicovaginal (pode coexistir micção normal) Fístula vesicoumbilical (persistência de úraco) Micção imprópria, sinal de submissão ou estresse (comum em cães) Enurese noturna – perda involuntária de urina durante o sono. Em estado de alerta o paciente é continente e apresenta micçãonormal Pode ocorrer pela associação de sono profundo com tônus muscular insu�ciente para manter a função de esfíncter Outros fatores podem contribuir para desencadear a perda de urina (p. ex., poliúria, constipação) Noctúria – necessidade de acordar durante a noite para urinar, uma ou mais vezes Geralmente está relacionada com poliúria A condição é percebida somente em animais de estimação que compartilham o local de dormir dos proprietários Figura 10.8 Alterações da frequência de micção. A. Imagem radiográfica de um gato com retenção urinária; notar a bexiga muito distendida. B. Extrusão de tampão que está causando obstrução uretral no gato da imagem anterior. C e D. Incontinência urinária em Quadro 10.14 um gato. E. Cadela de 1 ano com incontinência urinária causada por ectopia de ureter. F. Cadela com retenção urinária causada por deslocamento da bexiga para saco herniário inguinal. Valores de referência para quantidade de urina produzida em 24 h, para adultos. Animais Quantidade de urina Equinos 3 a 7 ℓ (máximo de 10 ℓ) Bovinos 6 a 12 ℓ (máximo de 25 ℓ) Ovinos e caprinos 0,5 a 2 ℓ Cães grandes 0,5 a 2 ℓ Cães pequenos e gatos 40 a 200 mℓ Coelhos 180 a 400 mℓ Nesse sentido, é importante que o veterinário conduza suas perguntas com muita clareza. Frequentemente, o informante se refere ao fato de que o “animal está urinando muito” não fazendo distinção entre polaquiúria (micção muito frequente, sinal típico de cistite aguda) e poliúria (aumento do volume de 24 h, comum na insuficiência renal crônica, entre outras afecções). As variações do volume de urina produzida em 24 h devem ser qualificadas obedecendo às denominações: poliúria (muita urina), oligúria (pouca ou pouquíssima urina) ou anúria (quantidade desprezível ou nenhuma urina) (Quadro 10.15). Alterações macroscópicas da urina Alguns tipos de alterações na composição da urina podem ser verificados pelos proprietários ou tratadores dos animais.O veterinário deve obter informações sobre o aspecto da urina, levando em consideração que, na maioria das vezes, a resposta só será válida se a urina foi vista durante ou imediatamente após a micção. As alterações mais comumente descritas pelos Quadro 10.15 informantes incluem urina anormalmente escura e de odor fétido. Também há relatos de presença de sangue, cálculos pequenos, muco, catarro ou pus. Uma observação importante a ser feita é a de que, em nosso meio, várias vezes, os informantes descrevem como “pus na urina” o que, na realidade, seriam cristais eliminados em abundância; “odor fétido anormal” o que seria característico da espécie, além de outros equívocos. Independentemente da alteração descrita, a informação deve ser validada pela inspeção feita pelo próprio veterinário. Uma amostra de urina, coletada adequadamente, deve ser enviada para exame laboratorial (urinálise e outros exames indicados). É importante, também, a certificação de que a amostra não esteja contaminada por material proveniente do trato genital (secreções vaginais, uterinas, prostáticas e prepuciais). A presença de sangue na urina merece investigação especial, feita por inspeção do paciente, tanto durante o ato da micção como durante um intervalo (lembrar que, muitas vezes, o informante observou atentamente e pode fornecer os detalhes, se for cuidadosamente arguido). Para essa inspeção, o clínico deve considerar três momentos distintos durante a micção: a fase inicial ou de eliminação do primeiro jato de urina, a fase intermediária ou do jato médio, e a fase de conclusão ou do jato final. Adicionalmente, considera-se a fase de repouso ou de intervalo entre as micções (Quadros 10.16 e 10.17, Figuras 10.9 e 10.10). A hematúria deve ser diferenciada da hemoglobinúria e da mioglobinúria. Variações do volume de urina produzida em 24 h, para adultos. Nomenclatura e definição Causas Poliúria – aumento do volume de urina produzida em 24 h. Nesse caso, o paciente apresentará aumento da frequência de micção, e o volume a cada micção será normal ou acima do usual. A urina terá coloração bem clara, mas a densidade variará de acordo com a causa da poliúria. De modo geral, o paciente poliúrico apresenta polidipsia compensatória (diferenciar de polaquiúria) Insu�ciência renal crônica Pielonefrite crônica Diabetes, distúrbios adrenocorticais e outros endocrinometabólicos Piometra Insu�ciência hepática Polidipsia psicogênica, encefalopatias, dor (a poliúria é compensatória ou secundária) Uso de diuréticos Quadro 10.16 Resposta �siológica a ingestão ou administração excessiva de água (a poliúria é compensatória) Oligúria – diminuição do volume de urina produzida em 24 h. A densidade e a coloração da urina variam de acordo com a causa (diferenciar de oligosúria) Doença renal grave (densidade e coloração da urina variam de acordo com o tipo de doença renal) Desidratação (a urina terá densidade alta e coloração mais intensa) Distúrbios nervosos com transtorno da sede (a urina terá densidade alta e coloração mais intensa) Resposta �siológica à privação de água (a urina terá densidade alta e coloração mais intensa, se houver capacidade renal de concentrar a urina) Febre Anúria – ausência de produção de urina ou produção de volume desprezível (diferenciar de iscúria) Doença renal aguda grave ou fase terminal de insu�ciência renal crônica Desidratação grave Hipovolemia aguda Hipotensão arterial sistêmica grave Referências para localização da origem de perdas de sangue do trato geniturinário de acordo com o momento em que a perda de sangue é veri�cada ou �ca mais evidente. Origem da hemorragia Momentos da micção Intervalo entre as micções Início Meio Fim Uretra* Presente Ausente Ausente Pode haver perda discreta de sangue Bexiga* Variável Variável Intensa com possível eliminação de coágulos Ausente Rim Presente Presente Presente Ausente Próstata/prepúcio/pênis Presente Ausente Ausente Gotejamento de sangue ou de Quadro 10.17 ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ Vulva/vagina/útero secreção serossanguinolenta pelo orifício prepucial ou pela vulva *Hematúria acompanhada de disúria. Causas de hematúria de acordo com a origem do sangramento. Hematúria de origem renal Anormalidades vasculares Doença policística Glomerulopatias Idiopática In�amação tubulointersticial Infarto renal Neoplasia Parasito renal Traumatismo Urolitíase Hematúria proveniente do trato urinário inferior Cistite hemorrágica Divertículo Infecção do trato urinário Neoplasia Pólipo Traumatismo Tratamento com substâncias tóxicas (ciclofosfamida) Urolitíase Hematúria secundária a causa sistêmica Coagulopatia Exercício intenso (diferenciar de hemoglobinúria e de mioglobinúria) Hipertermia Neoplasia Trombocitopenia Perda de sangue do trato genital ■ ■ ■ In�amação grave, neoplasia ou lesão traumática dos órgãos genitais Parto e puerpério Proestro nas cadelas (diferenciar de hematúria verdadeira) Figura 10.9 Representação esquemática para localização da origem da hemorragia no trato urinário (em vermelho), de acordo com a quantidade de sangue, ou presença de coágulo, em cada amostra de urina. JI = jato inicial; JM = jato médio; JF = jato final. Figura 10.10 A. Gato com cistite intersticial após remoção do tampão; notar o jato de urina sanguinolenta (hematúria) obtido por expressão manual da bexiga. B. Urina de um equino com pielonefrite; notar floculação decorrente de piúria e depósito constituído principalmente por cristais. C e D. Hemorragia renal grave em cadela com neoplasia; notar o aspecto da urina durante a micção. Glossário semiológico Hematúria (termo geral). Condição em que a urina contém hemácias em número acima do normal à microscopia (> 5 hemácias/campo de 400×). Hematúria macroscópica. Presença de sangue na urina em quantidade su�ciente para ser vista a olho nu. Hematúria microscópica. Presença de hemácias na urina, visível apenas à microscopia, em quantidade acima do normal. Hemoglobinúria. Presençade hemoglobina na urina em decorrência de hemólise intravascular (p. ex., babesiose, leptospirose, anemia hemolítica do recém-nascido, envenenamentos, acidente ofídico, queimaduras extensas). A urina apresenta-se avermelhada ou acastanhada. Mioglobinúria. Presença de mioglobina na urina em decorrência de lesão muscular extensa (p. ex., miopatia de esforço). A urina tem coloração castanho-avermelhada. Coleta de urina para exame laboratorial A coleta de urina para exames laboratoriais deve ser feita obedecendo-se rigorosamente aos critérios necessários para cada caso. As amostras podem ser obtidas por micção espontânea, por cateterização transuretral ou por cistocentese. No caso de coleta por micção espontânea, recomenda-se o aproveitamento da urina do jato médio. Entretanto, em casos específicos, pode ser examinada a urina do primeiro jato (contém mais material proveniente da uretra) ou a do jato final (contém mais material que esteja sendo sedimentado na bexiga), isoladamente ou em comparação com a urina do jato médio. Caso seja empregado o cateterismo vesical, também deve ser desprezado o volume inicial, que conterá maior abundância de material que tenha sido aprisionado na sonda durante sua passagem pela uretra e pela vagina no caso de fêmeas. Quando a urina for obtida por cistocentese, pode ser aproveitado todo o volume coletado. Os resultados dos exames realizados devem ser interpretados sempre considerando o jato de urina aproveitado e o tipo de coleta da amostra. A amostra de urina deve ser acondicionada em recipiente estéril e livre de resíduos químicos. O recipiente deve ser hermeticamente fechado e refrigerado se a análise não puder ser imediata. O ideal é que não decorram mais de 40 min (máximo de 2 h) entre a coleta e realização dos exames desejados. Os exames de urina ficam indicados em diversas situações (Quadro 10.18) e as avaliações mais frequentes incluem urinálise (análises física, química e sedimentoscópica), urocultura e estimativa da proteinúria (razão ■ Quadro 10.18 ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ proteína:creatinina urinária). Os resultados esperados para amostras normais estão apresentados nos Quadros 10.19 e 10.20. Considerações gerais Como regras gerais para orientar o tipo e a sequência de procedimentos, bem como o raciocínio clínico para o diagnóstico de doenças do trato urinário, o examinador deve estar atento para as seguintes considerações: Os sintomas relativos às alterações da micção são altamente relevantes para o diagnóstico de doenças do trato urinário. Os exames devem ser conduzidos criteriosamente para identificação dos sinais indicativos da origem do problema. As anormalidades da micção podem decorrer de problemas uretrais, vesicais ou ureterais. Em adição, também podem refletir transtornos neurológicos, doenças dolorosas localizadas no abdome ou na pelve, além de incapacitações musculoesqueléticas Casos em que se deve solicitar análise de urina. Quando o paciente apresentar sinais sugestivos de doença do trato urinário (superior ou inferior) Quando o paciente apresentar sinais de doença sistêmica Quando o paciente apresentar quadro clínico de doença grave de causa desconhecida Sempre que for examinado um paciente geriátrico Sempre que for feita avaliação antes de anestesias Sempre que for solicitado check-up As doenças renais, exceto pela possibilidade de alterações do volume de urina produzida e, consequentemente, da frequência de eliminação de urina, não se manifestam por distúrbios da micção. As doenças renais são detectadas principalmente por meio das suas manifestações sistêmicas, observadas ao exame geral, em associação aos achados das análises de urina e, em parte dos casos, nos resultados de exames especiais, tais como provas de função renal e urografias excretoras. O ■ ■ Quadro 10.19 exame ultrassonográfico, por não ser invasivo, deve preceder o exame radiográfico Os exames especiais do trato urinário são empregados, algumas vezes, apenas para conferir certo refinamento ao diagnóstico (p. ex., biopsia renal para diagnóstico de um tipo específico de glomerulonefrite), mas, em grande número de casos, um ou mais exames especiais são requeridos, de modo imperativo, para o diagnóstico (p. ex., prova de função renal para diagnóstico de insuficiência renal crônica; cistografia de contraste duplo para diagnóstico de cálculos vesicais radiolucentes) Se, ao examinar o paciente, forem detectados sinais indicativos de doença do trato urinário, ou se for necessário diagnóstico diferencial, a urinálise (exames físico, químico e sedimentoscópico de urina) é imprescindível. Mesmo nos casos de processos mecânicos, como a obstrução uretral por cálculos já detectados, a urinálise deve ser feita no momento conveniente, a fim de verificar possível distúrbio concorrente ou predisponente Achados normais na urinálise de cães e gatos. Parâmetros Cães Gatos Exame físico Cor Amarela Amarela Aspecto Límpido a ligeiramente turvo Límpido Densidades mínima e máxima 1,001 e 1,065 1,001 e 1,080 Intervalo de variação mais comum 1,013 a 1,035 1,035 a 1,060 Exame químico pH 4,5 a 8,5 4,5 a 8,5 Glicose Negativo Negativo, positivo** Quadro 10.20 Cetonas Negativo Negativo Bilirrubina Negativo, traços, positivo* Negativo Sangue oculto Negativo Negativo Proteína Negativo, traços* Negativo Sedimentoscopia Hemácias/campo 400× 0 a 5 0 a 5 Leucócitos/campo 400× 0 a 5 0 a 5 Cilindros/campo 400× Hialino ocasional Hialino ocasional Células epiteliais/campo 400× Ocasional Ocasional Gotículas de gordura/campo 400× Incomum Comum Bactérias/campo 400× Negativo Negativo Cristais/campo 400× Variável Variável * Somente na urina bem concentrada (> 1,035). **Pode haver glicosúria transitória por estresse. Achados normais na urinálise de equinos, bovinos e caprinos. Parâmetros Equinos Bovinos Ovinos e caprinos Exame físico Cor Amarela Amarela Amarela Aspecto Turvo (muco e cristais) Límpido Límpido Densidade 1,020 a 1,050 1,025 a 1,045 1,015 a 1,045 ■ Exame químico pH 7,0 a 8,0 7,4 a 8,4 7,0 a 8,0 Glicose Negativo Negativo Negativo Cetonas Negativo Negativo Negativo Bilirrubina Negativo Negativo, traços Negativo Sangue oculto Negativo Negativo Negativo Proteína Negativo, traços Negativo, traços Negativo, traços Sedimentoscopia Hemácias Ausentes, raras Ausentes, raras Ausentes, raras Leucócitos Ausentes, raros Ausentes, raros Ausentes, raros Cilindros Ausentes Ausentes Ausentes Células epiteliais Poucas Ausentes, raras Ausentes, raras Filamentos de muco Presentes (mais em fêmeas) Negativo Negativo Bactérias Ausentes ou poucas Ausentes ou poucas Ausentes ou poucas Cristais Comum (em abundância) Variável Variável As doenças do trato urinário, exceto nos casos dramáticos, como a obstrução uretral (iscúria e tenesmo vesical) e a nefrite intersticial aguda causada por leptospirose (sinais sistêmicos e alteração macroscópica de urina), entre outros, podem cursar de maneira insidiosa, ou serem “suportadas” pelos animais domésticos sem manifestações relevantes. O examinador deve estar atento para os detalhes da resenha e anamnese que, combinados a resultados por vezes aparentemente irrelevantes do exame físico, indiquem a necessidade de urinálise e de exames especiais para conclusão bem-sucedida do diagnóstico ■ ■ Informações sobre volume e aspecto macroscópico da urina comumente são obtidas com facilidade na anamnese ou durante o exame físico. É importante que o examinador considere que o relato ou a observação de urina em volume normal ou abundante e com aspecto macroscópico “bom” (urina clara e límpida) não são informações que, por si mesmas, excluem a possibilidade de doença renal. A produção de urina com essas características, muitas vezes, está relacionada com doenças renais graves e possível insuficiência renal. Adicionalmente, esse tipo de urina pode estar relacionado com doenças como diabetes melito ou insípido, polidipsia psicogênica, uso de diuréticos não revelado pelo informante, dentre outros problemas A hematúria macroscópica pode ser