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4 Construindo o Ensino do Basquetebol Ricardo de Camargo Introdução Se pudéssemos caracterizar sumariamente o jogo de basquetebol praticado pelos jovens aprendizes, diríamos que se trata de um jogo confuso, marcado por um sinal sobre o qual tudo decorre: a forte atração pela bola. Mas reportemo-nos à fase inicial da aprendizagem do esporte e poderemos verificar que igualmente se trata de um jogo pouco esclarecido, dominado por uma dificuldade evidente do domínio de suas técnicas fundamentais. A esse conjunto de características que determinam uma incapacidade de cooperar, junto a uma feroz oposição, que o estabelecimento de princípios e métodos de ensino-aprendizagem do basquetebol são necessários. Contudo, ressaltamos que na vivência da modalidade, a aprendizagem deve ir além do ensino dos fundamentos e suas execuções. Na verdade, deve-se direcionar o desenvolvimento do ser humano e não do atleta precoce. E é por essa razão que é preciso dar ao basquetebol um tratamento pedagógico com enfoque essencialmente educativo na busca de tornar seus alunos em adultos integrados com o mundo e, principalmente, consigo mesmos. Bom estudo a todos! Objetivos Ao término do estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: · descrever as estratégias analíticas-sintéticas; · descrever as estratégias globais-funcionais; · descrever a pluralidade das manifestações do basquetebol; · descrever os cinco aspectos essências da iniciação esportiva; Esquema 1.1 Aprendendo a ensinar 1.1.1 As estratégias analíticas-sintéticas 1.1.2 As estratégias globais-funcionais 1.2 A pluralidade das manifestações do 1.2.1 Iniciação esportiva 1.2.2 Esporte profissional 1.2.3 Esporte como conteúdo de lazer 1.2.4 Esporte de representação 1.2.5 Esporte escolar 1.2.6 Prática voltada para a reabilitação/recuperação e prevenção da saúde 1.3 Princípios pedagógicos aplicados ao basquetebol 1.4 Considerações Finais Ensine o suficiente para esperar a aprendizagem 1.1 Aprendendo a ensinar Algumas atividades, como tocar música em grupos de música pop, resolver palavras cruzadas e praticar dança folclórica, não tem uma abordagem de treinamento padrão. Não importa quais sejam os métodos, eles parecem ser negligentes e produzem resultados imprevisíveis. Outras atividades, como a execução da música clássica, a matemática e o basquetebol, são abençoadas com métodos de treinamento altamente desenvolvidos, além de amplamente aceitos. Se alguém segue esses métodos cuidadosa e diligentemente, quase certamente se tornará um especialista. A seguir, passaremos a caracterizar cada estratégia e exemplificar algumas atividades no contexto do basquetebol. Em geral, as estratégias de ensino não são apenas o modo como iremos ensinar determinado esporte; elas são formas práticas para aplicação no processo ensino-aprendizagem e se baseiam nas teorias dos métodos de ensino. Algumas das melhores estratégias para isso vão desde exercícios isolados, em que se trabalha apenas um fundamento, até o jogo de basquetebol formal. Várias atividades têm sido caracterizadas e exemplificadas no contexto do basquetebol, de modo a ensinar todos os fundamentos do esporte considerando sete possibilidades: exercícios analíticos, sincronizados e circuitos – método analítico-sintético –; brincadeiras, situações de jogo, jogos pré-desportivos e jogo formal – método global-funcional. Quando estão na formação inicial, os alunos geralmente precisam compreender o significado de suas ações, enquanto os professores necessitam promover um ambiente de aprendizagem que permita fomentar o desenvolvimento da capacidade tática do jogador. Nesta perspectiva, os educadores asseguram que o praticante aprenda de forma gradativa, ensinando primeiramente os princípios básicos de uma forma esclarecedora, que não seja exigente para o aluno. Os alunos principiantes, por sua vez, podem desenvolver um bom repertório motor e cognitivo que lhes permite resolver determinadas tarefas que possam surgir no jogo, além de desenvolver o espírito coletivo e uma comunicação eficaz com os companheiros. Por outro lado, mesmo entre os alunos de basquetebol principiantes, optar por uma via estritamente técnica e analítica significa privá-los de um conjunto de experiências lúdicas que só o jogo pode proporcionar. A dedução é que devemos contemplar o praticante com um ensino completo não apenas para aprimorar os aspectos técnicos e táticos, mas também levar todas as vivências que os esportes podem nos oportunizar, fazendo com que o jogo possa ser realizado de forma satisfatória e de um bom nível. Figura 1 – Dinâmica do jogo de basquetebol. Fonte: Elaborado pelo autor. Essas estratégias têm várias características em comum. Em primeiro lugar, a aprendizagem não é associada somente às capacidades cognitivas e motoras – como selecionar adequadamente uma resposta para a situação –, relaciona-se à motivação para a aprendizagem, ao vínculo professor-aluno e à complexidade da tarefa. Faz sentido: tendo estes conhecimentos, os resultados serão bem mais proveitosos, pois o educador saberá que os resultados não serão obtidos da noite para o dia, e sim através de um treinamento a longo prazo, respeitando as individualidades de cada aluno e corrigindo-os quando necessário. E em segundo lugar, a estruturação de jogo deve ser feita, facilitando assim a tomada de decisão por partes dos jogadores. A melhoria das habilidades e o desenvolvimento dos fundamentos seguem em frente de mãos dadas com o ensino e a aprendizagem por meio de brincadeiras ou jogos lúdicos, os quais, por sua vez, levam à realização do jogo formal de basquetebol, aplicando as regras oficiais da modalidade, em uma quadra completa e com cinco jogadores em cada equipe. Não existem apenas dois métodos de ensino. Indicamos, como forma de aprofundar mais seus conhecimentos a respeito dos métodos de ensino, a leitura da obra sobre Teaching Games for Understanding e da Pedagogia Não-Linear no Ensino da Educação Física, do autor Filipe Manuel Clemente. http://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/27495 1.1.1 As estratégias analíticas-sintéticas Nenhuma estratégia se agarra mais firmemente ao princípio analítico-sintético do que os exercícios analíticos e sincronizados, especialmente no caso do basquetebol. Além de desenvolver os fundamentos baseando-se em exercícios isolados, são também atividades que evidenciam a execução dos gestos técnicos em busca de um padrão de movimento. Em suma, são estratégias – e muito provavelmente as melhores – de ensino para aprimoramento técnico visando à posterior aplicação em jogo. Mas, infelizmente, são caracterizadas pela aprendizagem com técnicas básicas executadas sem a presença de adversário – ou seja, progridem-se do simples para o complexo. O foco será sempre em realizar atividades como passes de peito em dupla, por exemplo, ou driblar enquanto corre em volta da quadra – no caso dos exercícios analíticos –; para então driblar em volta da quadra realizando uma bandeja em cada cesta, por exemplo – no caso dos exercícios sincronizados. Até que, finalmente, após vivenciar todos os gestos técnicos, há a execução de circuitos, onde todos os praticantes passam por estações em um determinado tempo ou de acordo com o número de repetições que o professor definir, a fim de praticar cada um dos movimentos/fundamentos aprendidos. Figura 2 – Estratégias analíticas-sintéticas. Fonte: CBB, 2022. 1.1.2 As estratégias globais-funcionais É difícil descrever a dificuldade de jogar basquetebol – e, desse modo, explicar quanta habilidade um bom jogador realmente possui – para alguém cujo contato com o esporte foi ver um jogosendo praticado por um profissional. Nas brincadeiras ou jogos lúdicos, as atividades aproximam-se do contexto do jogo, sendo pautados no componente lúdico para o treinamento de aspectos técnicos, táticos e físicos, mas ainda distantes do jogo formal. Quando observamos dois alunos ficarem em situação de ataque com a bola, objetivando realizar passes, e o outro em posição defensiva, tentando recuperar a posse de bola – em uma brincadeira chamada “espertinho”, por exemplo –, é possível trabalhar os fundamentos do basquetebol em uma situação mais próxima da realidade de jogo se comparado aos exercícios analíticos. Para complicar ainda mais, podemos formar duas equipes – na brincadeira chamada “salva-bandeira” – e propor que invadam a quadra do adversário para roubar a bola e trazê-la de volta para a sua quadra. Isso significa que, além de trabalhar o conceito do basquetebol de oposição e invasão, são treinados o controle do corpo, pois é necessário pegar os adversários – e também fugir deles –, bem como o drible e o passe. Quanto mais elementos estiverem presentes, portanto, mais as tarefas serão imprevisíveis. As dificuldades começam quando passamos a fracionar o jogo com o objetivo de simular partes específicas, aquelas situações que podem ser de ataque, de defesa, ou de superioridade numérica – como 3 contra 2, ou 2 contra 1. Como o método situacional é caracterizado pelo ensino do esporte com base em circunstâncias extraídas do jogo, os jogos ainda não possuem regras pré-definidas, como acontece nos jogos pré-desportivos, mas a complexidade já aparece na maior parte de suas atividades. Nos jogos pré-desportivos, por sua vez, embora sem a exigência de elevado nível técnico, o professor de Educação Física pode modificá-los de acordo com seu público, objetivo e faixa etária. E uma vez que estejam confortáveis com os jogos adaptados – realizar 10 passes dentro da equipe, ou que ela passe por todos da equipe, antes de ser arremessada, por exemplo –, é possível colocar em prática alguns jogos reduzidos, como 1x1, 2x2 ou 3x3, até que, enfim, o jogo formal possa ser aplicado com as regras oficiais da modalidade, em uma quadra completa e com cinco jogadores em cada equipe. Mais intervenções pedagógicas podem acontecer mesmo durante esta técnica, porque uma aula livre não é considerada uma estratégia de ensino. Figura 3 – Jogos pré-desportivos. Fonte: USA Basketball, 2022. Para saber mais acerca dessa temática, leia o texto “Especialização esportiva precoce e o ensino dos jogos coletivos de invasão, de Rafael Pombo Menezes, Renato Francisco Rodrigues Marques e Myrian Nunomura. Para isso, acesse: http://www.redalyc.org/pdf/1153/115329361017.pdf 1.2 A pluralidade das manifestações do basquetebol A prática do basquetebol não se limita apenas aos atletas de alto rendimento, como geralmente vemos nas partidas exibidas na televisão; ela também é reconhecida sob diversas outras manifestações. Não importa para onde você olhe – na iniciação esportiva ou no âmbito profissional, por exemplo –, vai descobrir que algumas delas, inclusive, acontecem concomitantemente e atendem diversos segmentos da sociedade. A evolução das ciências do esporte, das ciências tecnológicas e de tantas outras áreas do conhecimento ao final do século XX não só mudou a forma de entender o esporte, mas apresentou didaticamente sete principais e significativas manifestações: iniciação esportiva, esporte profissional, esporte como conteúdo de lazer, esporte de representação, esporte escolar, prática voltada para a reabilitação/recuperação e para a prevenção da saúde. Figura 4 – Manifestações esportivas do basquetebol. Fonte: Elaborado pelo autor. Para compreender mais a respeito do sistema de formação esportiva para todos os esportes, leia o livro “Iniciação esportiva universal”, de Pablo Juan Greco e Rodolfo Novellino Benda. 1.2.1 Iniciação esportiva Como sua própria denominação diz, a iniciação esportiva é a forma pela qual iniciamos um indivíduo na prática do desporto de forma orientada. Nesse momento, o aluno principiante precisará levar em consideração os valores, os princípios, as regras, os fundamentos e os demais aspectos que norteiam a prática para ajudá-lo no processo de ensino-aprendizagem. A compreensão dessa proposta deve criar uma filosofia de trabalho com base em uma nova visão e postura profissional. E o próprio sistema de formação esportiva deve apresentar como eixo principal a aprendizagem motora por meio de propostas pedagógicas e ser programado de maneira equilibrada e orientada para o aprendizado e o aperfeiçoamento dos gestos técnicos esportivos específicos, como arremessos, passes e dribles. Dessa forma, o basquetebol será trabalhado de maneira organizada e sistematizada para o desenvolvimento das capacidades táticas, bem como está em harmonia com as capacidades técnicas, físicas, coordenativas, psicológicas e sociais desse aluno. Mas não se preocupe – mesmo que a iniciação esportiva pareça um processo que ocorre exclusivamente no período da infância, ainda pode corresponder ao ingresso de jovens, adultos ou idosos no processo de ensino-aprendizagem-treinamento de um esporte. 1.2.2 Esporte profissional Para dar um exemplo simples de como é essencial compreender a importância do esporte profissional na sociedade moderna, vamos voltar mais uma vez à evolução do basquetebol. Quando Allen Iverson começou sua carreira profissional, as funções clássicas da posição de armador – antes bem definidas, fáceis de explicar e mais atrelada à distribuição de assistências do que a marcação de pontos – mudaram. Naquela época não haviam armadores capazes tanto de assistir o time como pontuar. Atualmente, muitos armadores – milhares ou mais – treinam para pontuar cada vez mais e de distâncias cada vez maiores. Stephen Curry, por exemplo, elevou a condição de armador-pontuador a um novo patamar com a predominância de arremessos de 3 pontos e influenciou uma geração de novos armadores. Como ele fez isso? Bem, no esporte profissional, pelo menos no seu sentido mais estrito, o foco é o máximo rendimento de seus participantes. Isso significa a profissionalização de atletas, técnicos, dirigentes, gestores, mídia, entre outros, o que potencializa o contexto mercadológico, o esporte-espetáculo e a sua interferência em todo o cenário esportivo atual, inclusive, em todos os praticantes. Até onde sabemos, não há nenhuma manifestação capaz de inspirar pessoas e influenciar outros tipos de manifestações do basquetebol como os jogos profissionais. Assista a The Last Dance (Arremesso Final) para saber mais a respeito dos campeonatos e das ligas profissionais. É uma série documental produzida pela ESPN que acompanha a temporada de 1997-1998 do Chicago Bulls, além de cobrir as fases finais da carreira do melhor jogador de basquetebol de todos os tempos, Michael Jordan. 1.2.3 Esporte como conteúdo de lazer Hoje em dia, algo é diferente do que era quando James Naismith estava criando o basquetebol: agora estamos tratando a modalidade como uma forma de linguagem particular, que possui códigos universais de acordo com o contexto em que serão inseridos. Quando analisamos um drible, por exemplo, a maioria dos jogadores profissionais o reconhece como um fundamento utilizado para transpor o adversário em direção à cesta – ou seja, a sua intenção é meramente funcional. Por outro lado, para o jogador do basquetebol de rua (street basketball ou streetball), sua realização está muitas vezes relacionada ao deboche e só em segundo plano aparece o sentido funcional de consecução da cesta. Essas representações dizem respeito à sua linguagem, sentidos e significados, alémde alicerçar toda a concepção quanto aos motivos ou o porquê ensinar e aprender o basquetebol. Mas, afinal, quais seriam as suas finalidades? Ou seja, onde pretendemos chegar com essas aprendizagens? Vemos alguns tipos de finalidades em conhecer e praticar o basquetebol quando observamos a intencionalidade do sujeito que se movimenta e identificamos alguns aspectos fundamentais perseguidos por aqueles que aprendem o esporte. Motivada, geralmente, por razões próprias do interessado, a prática do basquetebol como forma de lazer está relacionada principalmente à diversão que ludicidade do jogo promove. Neste caso especificamente, um grande número de participantes está envolvido no desenvolvimento da prática esportiva utilizando o fenômeno esportivo como ocupação de seu tempo livre. E é exatamente por isso que educar o basquetebol para o lazer exige o fornecimento de repertório de movimento, bem como o tratamento de atitudes para com o lazer e a compreensão do que vem a ser esse termo. 1.2.4 Esporte de representação Se você está tentando identificar o que é uma manifestação de representação do basquetebol, baseando-se apenas na observação, muitas vezes a confundirá com o esporte profissional/de alto rendimento ou lazer. Mantenha uma coisa em mente: essa manifestação desenvolve-se quando uma pessoa ou grupo se organiza para a disputa de um torneio ou campeonato sem que haja remuneração parcial ou total para participar. Bom, neste caso, poderíamos identificá-la como conteúdo de lazer, correto? Errado. Aqui o objetivo é a representação de uma instituição, um bairro, um clube, uma cidade, um estado ou país. Em outras palavras, é considerado um esporte não profissional, mas com regras oficiais. Ou seja, amador. Para compreender mais a respeito de como o basquetebol, no contexto do esporte de representação, pode mudar a vida das pessoas, assista ao filme “O caminho de volta (The way back)”, de Peter Weir. 1.2.5 Esporte escolar O foco aqui é claro: deve ser sempre o processo de ensino-aprendizagem dos alunos quando no contexto do ensino formal, como conteúdo da Educação Física Escolar. De preferência, o esporte deve ser transmitido de forma planejada e organizada para todos com um significado cultural, de modo que a busca não seja pela formação de grandes atletas, detecção de talentos ou priorização da busca por resultados, e sim pela busca de questões educacionais. Dessa forma, cabe a você, futuro professor de Educação Física, dar ao esporte o enfoque essencialmente educativo, sob a perspectiva pedagógica, que priorize o desenvolvimento do aluno e garanta um aprendizado efetivo. Para ampliar mais seus conhecimentos sobre a prática no basquetebol em contextos educacionais, indicamos o filme Coach Carter: Treino para a vida, de 2005. Esse filme é considerado um clássico que trata de basquete e traz uma história inspiradora, com lições acadêmicas, disciplinares e morais dadas pelo técnico Carter aos jovens jogadores de sua equipe. 1.2.6 Prática voltada para a reabilitação/recuperação e prevenção da saúde No mundo esportivo, e especialmente na prática do basquetebol, há uma quantidade enorme de indivíduos que buscam melhores condições de vida relacionadas à saúde com a aprendizagem da modalidade. O basquetebol como parte de programas de reabilitação e de recuperação de lesões desempenha um papel importante na aderência e manutenção de pessoas nesses programas, devido ao seu caráter lúdico. Um simples exemplo é o basquetebol em cadeira de rodas. Com a oferta do paradesporto como terapia, por exemplo, o esporte condiciona pessoas em tratamento de reabilitação à reinserção social e à maior independência funcional possível, proporcionando assistência em saúde e qualidade de vida. Enquanto isso, a prática voltada para a prevenção da saúde merece atenção particular, visto que a prática ativa do basquetebol, apesar de bastante discutível, pode colaborar com a melhoria da saúde, se consumado em níveis apropriados de duração, intensidade e frequência. 1.3 Princípios pedagógicos aplicados ao basquetebol Um dos maiores desafios que qualquer professor enfrenta na promoção dos procedimentos pedagógicos no processo de ensino-aprendizagem dos alunos é permitir condições para uma aquisição adequada das competências de operacionalização para um bom jogo. Felizmente, a estrutura de jogo comum em partidas esportivas coletivas é similar e deve ser levada em consideração na transferência de conhecimento de um jogo para o outro. Dessa forma, o basquetebol, assim como as demais modalidades esportivas coletivas, apresenta seis invariantes: a bola, o espaço de jogo, os companheiros de equipe, os adversários, as regras e uma meta ou alvo. Essas características são necessárias para uma construção pedagógica capaz de direcionar o esporte ao aprendizado efetivo. Mas quais são, considerando principalmente o contexto escolar dentre as manifestações do basquetebol, os princípios da Pedagogia que são especificamente aplicados ao esporte? Em uma proposta pedagógica para o ensino da modalidade, são sugeridos quatro pontos fundamentais, conforme destacados na figura abaixo. Figura 5 – Os pontos fundamentais da proposta pedagógica para o ensino do basquetebol. Fonte: Elaborado pelo autor. Considere a pluralidade dos movimentos como um pré-requisito no processo de ensino-aprendizagem do basquetebol, assim como a exposição a situações problema. Quando a modalidade permite a exploração de habilidades tanto básicas quanto específicas, como fundamentos técnicos, a ideia de especialização esportiva é contraposta, uma vez que deve preparar os atletas para resultados e competições de alto nível. Neste caso, a diversidade do esporte possibilita uma constante dinâmica pela relação ataque e defesa, além da exigência de habilidades motoras básicas necessárias – como correr, saltar e lançar – e do desenvolvimento de um trabalho de modo cooperativo. Isso significa que a construção da prática esportiva com participação simultânea dos praticantes em espaço comum é um aspecto favorecedor da inclusão, de maneira a gerar um espírito de equipe em detrimento da característica excludente e seletiva. Sendo assim, a prática esportiva deve possuir um caráter diverso, cooperativo e inclusivo, o que não representa uma participação equilibrada de todos os alunos. Por isso, outro fator importante no processo de ensino, é a promoção da autonomia. Você, futuro professor de Educação Física, deve estar atento para que as oportunidades sejam promovidas de modo semelhante aos alunos, independentemente de seu grau de habilidade, mas a tomada de decisão em relação à forma com que desejam ter o esporte em sua vida cabe aos praticantes. É por essa razão que promover autonomia gera condições aos alunos de escolher alguma de suas manifestações – voltada à pratica esportiva por lazer, prevenção e saúde, ou até como profissão por meio do esporte profissional. Considerando a atuação do professor de Educação Física na escola, existem alguns aspectos essenciais a serem considerados no processo de iniciação esportiva por meio do basquetebol. Esses aspectos (que são cinco) devem ter cunho educativo devido ao contexto em que estão inseridos. Figura 6 – Aspectos essenciais no processo de iniciação esportiva com foco educativo. Fonte: Elaborado pelo autor. De modo mais abrangente, desde a criação do basquetebol, o movimento humano foi preestabelecido como uma prática completa – isto é, as capacidades físicas e habilidades específicas, como os fundamentos, deveriam ser exigidas diretamente na sua prática. Porém, diante de um ambiente diversificado e imprevisível, uma abordagem plural das habilidades e competências passoua fazer parte do contexto esportivo, fazendo com que inteligências múltiplas fossem cada vez mais exigidas. Ao pensar nestas inteligências, podemos trabalhar diferentes capacidades como: a corporal-cinestésica, a verbal-linguística, a lógico-matemática, a espacial, a intra e interpessoal, a naturalista e a musical. Isso significa que não só os aspectos psicológicos – como autoestima e liderança –, mas também alguns princípios filosóficos sejam enfatizados nessa modalidade para a construção de um ambiente de ensino-aprendizagem transformador. Diante desta perspectiva, a aprendizagem social torna-se o ponto fundamental de articulação entre os demais aspectos. 1.4 Considerações finais Neste capítulo, você viu como mudou-se a forma do esporte ser entendido. Devido às mudanças e à evolução de seus estudos, ele se organizou ao longo de sua história em diferentes manifestações: iniciação esportiva, profissional, lazer, representação, escolar, reabilitação/recuperação e prevenção da saúde. Diante das várias manifestações responsáveis pelo processo de ensino-aprendizagem, a iniciação esportiva é o primeiro contato com a prática esportiva de forma orientada, organizada e sistematizada. Concomitantemente, o esporte escolar é um conteúdo da Educação Física onde é necessário tratamento pedagógico específico no seu significado como bem cultural e humano, enquanto o esporte de alto rendimento concentra seus objetivos, fundamentalmente, para fins mercadológicos e como opção profissional. No meio termo, o basquete de representação surge como uma disputa de torneios e campeonatos com a finalidade de representar instituições públicas ou privadas, clube, cidades, estados ou países, sem que haja remuneração para tal. O basquete para o lazer, por outro lado, é um fenômeno esportivo na ocupação do tempo livre, motivados por razões próprias e/ou distintas entre si. E temos ainda a prática de certas modalidades esportivas, realizadas como prática voltada para a saúde e melhoria do condicionamento físico, e também enquanto atividade física na tentativa de contribuir com outras áreas, por exemplo, para reabilitação de algum trauma ocorrido com o indivíduo. Neste capítulo, você viu que é preciso entender que a iniciação esportiva deve parar de roubar o lúdico das atividades, valorizando a essência do aluno. Ela deve transcender a aprendizagem de uma técnica preestabelecida e permitir a manifestação original de novas formas de movimento, valorizando mais a intenção do arremesso do que a sua técnica, mais a solidariedade do passe do que a sua funcionalidade ou mais a emoção da cesta do que sua importância numérica. Para tanto, entendemos que o basquetebol é um patrimônio cultural da humanidade, sendo assim, merece ser preservado e transmitido, também como uma forma de linguagem corporal específica que permite a expressão e comunicação. Assim, a iniciação esportiva deve cobrar menos e permitir mais dentro de suas principais estratégias de ensino, as quais são: exercícios analíticos, exercícios sincronizados, circuitos, brincadeiras, situações de jogo, jogos pré-desportivos, jogo formal. Por fim, entendemos que, para uma construção pedagógica capaz de direcionar o esporte ao aprendizado efetivo, a promoção de princípios da Pedagogia aplicados ao basquetebol no processo de ensino-aprendizagem dos alunos é indispensável. Referências BAYER, C. O ensino dos desportos coletivos. Paris: Editions Vigot, 1994. BETTI, M. Educação física e sociedade. São Paulo: Movimento, 1991. BRACHT, V. A criança que pratica esporte respeita as regras do jogo... capitalista. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 7, n. 2, p. 62-68, 1986. _______, V. Esporte, estado e sociedade. Revista Brasileira de Ciência do Esporte, Campinas, v. 10, n. 2, p. 69-73, 1989. _______, V. Pesquisa-ação: educação física na escola. Ijuí: Unijuí, 2003. COUTINHO, N. F.; SILVA, S. A. P. S. Conhecimento e aplicação de métodos de ensino para os jogos desportivos coletivos na formação profissional em educação física. Movimento, v. 15, n. 1, p. 117-144, 2009. DAIUTO, M. Basquetebol: manual do técnico. 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