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TRAUMATO ORTOPÉDICO FUNCIONAL I Gabriela Souza de Vasconcelos Complexo do cotovelo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir a propedêutica do osso, do músculo, da cartilagem, da bursa, do líquido sinovial e dos nervos periféricos relacionados com o cotovelo. Diferenciar os tratamentos fisioterapêuticos das lesões musculoes- queléticas de sobrecarga, traumáticas e compressivas relacionados com o cotovelo. Elaborar fluxos para os tratamentos fisioterapêuticos das lesões muscu- loesqueléticas de sobrecarga, traumáticas e compressivas relacionados com o cotovelo. Introdução O formato do cotovelo e o do antebraço aumentam a mobilidade da mão no espaço, encurtando e alongando a extremidade superior e girando o antebraço. Um complexo de cotovelo bastante móvel, porém forte e estável, é necessário para a função normal da extremidade superior. Os músculos, ligamentos e cápsula fornecem controle e estabilidade à região. Mesmo assim, o cotovelo está exposto a lesões por esforço repetitivo e lesões traumáticas nas estruturas laterais, pelo estresse em valgo ou varo. Neste capítulo, você vai conhecer a propedêutica do osso, do músculo, da cartilagem, da bursa, do líquido sinovial e dos nervos periféricos, as lesões musculoesqueléticas e o tratamento fisioterapêutico relacionados ao complexo do cotovelo. Aspectos morfofuncionais do complexo do cotovelo O complexo do cotovelo é essencial para o bom desempenho dos movimentos dos membros superiores. A partir dele, são possíveis movimentos funcionais, importantes para o dia a dia, como vestir, pentear o cabelo, levar o alimento a boca, alcançar objetos, entre outros. Esse complexo é uma articulação ine- rentemente forte e estável por causa da relação interna de suas superfícies articulares e restrições ligamentares, nnas não permite ajustes compensatórios e predispõe a articulação a mais lesões (KISNER; COLBY, 2015). A compreensão da anatomia e da biomecânica desse complexo é fundamental tanto para a avaliação quanto para a escolha das condutas adequadas da inter- venção fisioterapêutica (DUTTON, 2010; MAGEE, 2010; PRENTICE, 2012). Anatomia e biomecânica do cotovelo O complexo do cotovelo é formado por três ossos: úmero, rádio e ulna. Na ex- tremidade distal do úmero, encontram-se o capítulo (côndilo lateral) e a tróclea (côndilo medial), que se articulam com o rádio e com a ulna, respectivamente. Três articulações compõem esse complexo, com dois graus de liberdade: a umeroulnar, umerorradial e radioulnar proximal (DUTTON, 2010; MAGEE, 2010; PRENTICE, 2012). As articulações umeroulnar e umerroradial permitem os movimentos de fl exão e extensão, enquanto a articulação radioulnar proximal permite pronação e supinação (HOUGLUM; BERTOTI, 2014). A flexão e a extensão resultam da articulação da tróclea com a incisura troclear da ulna, enquanto a pronação e a supinação ocorrem porque a cabeça do rádio roda contra o capítulo sem restrições (DUTTON, 2010; MAGEE, 2010; PRENTICE, 2012). Durante esses movimentos, algumas tensões em valgo (que resultam em cargas de tensão medial e compressão lateral), em varo (que resultam em carga de tensão lateral), em extensão ou combinações múltiplas dessas podem acontecer (DUTTON, 2010). A flexão e a extensão de cotovelo ocorre em um eixo fixo de rotação, e a amplitude máxima de movimento passivo disponível no cotovelo é de 5° de hiperextensão até 145° de flexão. A flexão passiva pode ser limitada pelas estruturas ósseas (a cabeça do rádio contra a fossa radial e o processo coro- noide contra a fossa coronoide), pela tensão do ligamento capsular posterior e pela aproximação do tecido mole e da tensão passiva no tríceps. A extensão passiva pode ser limitada pelo impacto do processo do olécrano sobre a fossa do olécrano e a tensão na derme, as fibras do ligamento colateral ulnar e a cápsula anterior (DUTTON, 2010). Para que a pronação e a supinação ocorram, é necessário o movimento articular simultâneo nas articulações radioulnar distal e proximal, que consiste em um giro da cabeça radial dentro do anel fibrósseo formado pelo ligamento anular e pela incisura radial da ulna. A limitação nesses movimentos pode ser por rigidez muscular e/ou tecidos conjuntivos (DUTTON, 2010). Complexo do cotovelo2 Ângulo de carregamento Como a tróclea se estende mais distalmente do que o capítulo, o eixo de fl exão e extensão do cotovelo não é totalmente perpendicular ao eixo do úmero; portanto, quando o cotovelo é estendido e o antebraço supinado, o antebraço se desvia lateralmente em relação ao úmero, que é responsável pelo ângulo de carregamento ou ângulo cubital (Figura 1). Esse ângulo varia um pouco nos indivíduos, geralmente sendo mais pronunciado nas mulheres do que nos homens (MAGEE, 2010; HOUGLUM; BERTOTI, 2014). Figura 1. Ângulo de carregamento. Fonte: Prentice (2012, p. 623). Estruturas de sustentação da articulação A estabilidade da articulação do cotovelo se deve tanto à cápsula articular e aos ligamentos quanto à estrutura óssea da articulação. As estruturas de sustentação da articulação do cotovelo são a cápsula, os ligamentos colaterais lateral (radial) e medial (ulnar) e o ligamento anular. Além disso, os tendões que se inserem nessa articulação auxiliam na estabilização do cotovelo. A cápsula do cotovelo é fi na, envolta pelo músculo braquial anteriormente e pelo tríceps braquial posteriormente. O ligamento colateral lateral (radial) não está inserido no rádio, que fi ca livre para rodar. Já o ligamento colateral medial 3Complexo do cotovelo (ulnar) é formado por uma banda anterior forte, com bandas transversas e médias mais fracas. O ligamento anular estabiliza o rádio, está inserido nas margens anterior e posterior da fossa radial e circunda a cabeça e o colo do rádio (DUTTON, 2010; PRENTICE, 2012). Músculos Os músculos responsáveis pelo movimento de fl exão do cotovelo são o bíceps braquial, o braquial e o braquiorradial; pelo movimento de extensão, são o tríceps e o ancôneo. O movimento de supinação é realizado pelos músculos bíceps braquial e supinador, e o de pronação, pelos músculos pronador redondo e pronador quadrado (PRENTICE, 2012; HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Bíceps braquial: está localizado acima do cotovelo e se divide em dois (cabeça longa e cabeça curta). A origem da cabeça longa é presa por um longo tendão do tubérculo supraglenoide da escápula, e esse tendão percorre a cápsula da articulação glenoumeral e o sulco intertubercular do úmero. A cabeça curta é originada também por um longo tendão a partir do processo coracoide da escápula. As fibras musculares per- tencentes à cabeça curta formam a porção medial do ventre muscular, enquanto as fibras da cabeça longa formam a porção lateral. A inserção das duas cabeças ocorre na tuberosidade do rádio e, em parte, espalha- -se para formar a aponeurose bicipital (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Braquial: sua origem é na metade do eixo do úmero e sua inserção é no processo coronoide e em áreas adjacentes da ulna (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Braquirradial: maior e mais proeminente músculo localizado no an- tebraço, a sua origem é na crista no úmero acima do epicôndilo lateral e sua inserção é próxima ao processo estiloide do rádio (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 20157). Tríceps braquial: compõe toda a massa muscular na face posterior do braço e é dividido em três porções (cabeça longa, cabeça medial e cabeça lateral). A origem da cabeça longa é no tubérculo infraglenoide da escápula por um tendão amplo que tem uma estreita relação com a Complexo do cotovelo4 cápsula da articulação do ombro; a da cabeça medial é na porção distal do úmero e tem uma origem carnosa; e a origem da cabeça lateral é no aspecto lateral do úmero, a uma curta distância abaixo da articulação glenoumeral. A inserção das três cabeças ocorrepela junção a um tendão largo e resistente no olecrano da ulna (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Ancôneo: sua origem é na região do epicôndilo lateral do úmero e a sua inserção é na ulna, em parte no processo de olecrano, em parte abaixo desse processo (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Supinador: é um músculo curto, triangular, plano e profundo loca- lizado no lado dorsal da membrana interóssea entre os dois ossos do antebraço, coberto pelo ancôneo, o extensor radial do carpo longo e o braquiorradial. A origem desse músculo é no epicôndilo lateral do úmero e em áreas adjacentes da ulna, e a inserção é nas superfícies volares e laterais da parte proximal do rádio (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Pronador redondo: sua massa muscular está embaixo do cotovelo, sua origem é no epicôndilo medial do úmero e em uma porção menor do processo coronoide da ulna. As fibras musculares cruzam obliquamente de medial para lateral na face volar do antebraço para se inserirem na parte lateral do rádio, na metade do antebraço (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Pronador quadrado: é profundo, cruza transversalmente sobre a ulna e o rádio na região distal do antebraço, próximo ao pulso, e é coberto pelos flexores do punho e dos dedos. Sua origem e inserção é no quarto distal da ulna e do rádio (HOUGLUM; BERTOTI, 2014; KISNER; COLBY, 2015). Bursas e membrana sinovial O complexo do cotovelo possui inúmeras bursas, e a bicipital e olecraniana são as mais importantes. A bicipital fi ca no aspecto anterior da tuberosidade do rádio e acolchoa o tendão bicipital quando o antebraço está pronado; a olecraniana fi ca entre o olécrano e pele, bem superfi cialmente (DUTTON, 2010; MAGEE, 2010; PRENTICE, 2012). 5Complexo do cotovelo Na região posterior do cotovelo, estão as bursas intratendínea profunda e subtendínea profunda, que estão presentes entre o tendão do tríceps e o olécrano. Nas regiões medial e lateral do cotovelo, estão a bolsa epicondilar medial subcutânea e a epicondilar lateral subcutânea (DUTTON, 2010). Além dessas bursas, existe uma membrana sinovial comum que envolve o cotovelo e as articulações radioulnares superiores, lubrificando as estruturas mais profundas das duas articulações, e uma cápsula em formato de manga envolve toda a articulação do cotovelo (PRENTICE, 2012). Inervação Os músculos que realizam os movimentos do complexo do cotovelo são inervados pelos nervos do plexo braquial (C4-T2), que se tornam os nervos musculocutâneo, ulnar, radial e mediano na fossa ulnar (DUTTON, 2010; MAGEE, 2010; PRENTICE, 2012). A cápsula articular do complexo do cotovelo é fina, mas forte pelo reforço dos li- gamentos medial e lateralmente. Além disso, ela não responde bem a lesões ou A imobilização prolongada e forma, muitas vezes, um tecido cicatricial espesso que pode resultar em contraturas que impedem ou restringem o movimento de flexão do cotovelo (DUTTON, 2010). Lesões musculoesqueléticas do complexo do cotovelo O cotovelo é uma articulação muito forte e estável, mas, mesmo assim, está exposto a lesões por esforço repetitivo e lesões traumáticas nas estruturas laterais pelo estresse em valgo ou varo. Devido a sua formação óssea, o cotovelo não consegue realizar compensações, o que também favorece a ocorrência de lesões. Nos esportes, como tênis, golfe, beisebol, esgrima e outros com arremesso e/ou marcação, essa articulação está mais exposta a trauma mecânico e a esforço repetitivo. Complexo do cotovelo6 Algumas das lesões que acometem o cotovelo com mais frequência são fraturas, luxações, lesão do ligamento colateral ulnar, epicondilite medial, epicondilite lateral, bursite olecraniana e síndrome do túnel ulnar. Fraturas do cotovelo O mecanismo de lesão da fratura de cotovelo se deve a queda sobre a mão estendida ou sobre o cotovelo fl exionado ou a um golpe direto ao cotovelo. Essa lesão acomete mais crianças e jovens do que adultos. Tanto o úmero quanto o rádio e a ulna podem ser fraturados por esses mecanismos. A fratura no úmero (condilar) pode causar deformidade em coronha e, nessa deformidade, quando o antebraço é estendido, cria um ângulo que se assemelha a uma coronha. Os sintomas associados com as fraturas de cotovelo são hemorragia, edema, espasmo muscular e, não necessariamente, deformidades ósseas visíveis (PRENTICE, 2012). As fraturas de cotovelo podem ser instáveis ou estáveis, e o tratamento deve ser realizado para evitar deformidades e, consequentemente, limitações de amplitude de movimento (ADM). O tratamento recomendado para as fraturas instáveis é cirurgia, para estabilizar e alinhar o foco da fratura, seguida de reabilitação física por fisioterapia. Para as estáveis, o tratamento conservador pode ser utilizado por meio de imobilização por 6 a 8 semanas, seguida de reabilitação física pela fisioterapia (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Luxação do cotovelo O mecanismo de lesão das luxações de cotovelo é queda sobre a mão estendida com o cotovelo em hiperextensão ou em uma torção grave com o cotovelo em posição de fl exão. Nessa lesão, o rádio e a ulna podem ser luxados posterior (mais comum), anterior ou lateralmente e, ainda, pode ocorrer fratura da cabeça do rádio. Os sintomas dessa lesão são dor, limitações de movimento, edema e hemorragia devido a laceração e ruptura dos tecidos ligamentares. As complicações das luxações podem envolver lesão neural (mediano e radial), de artérias e veias, além de miosite ossifi cante (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). O tratamento da luxação consiste em redução, seguida de imobilização em flexão por três semanas e reabilitação física na fisioterapia, com o objetivo de melhorar os sintomas da lesão e prevenir recidivas no futuro (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). 7Complexo do cotovelo Lesão do ligamento colateral ulnar Para que a lesão do ligamento ocorra, é preciso um trauma em valgo, que costuma ocorrer em esportes com lançamentos, na tacada do golfe e no fo- rehand do tênis. Entretanto, o estresse repetitivo nessa região pode gerar infl amação do nervo ulnar ou dos tendões dos fl exores do punho. Os sintomas são sensibilidade a palpação no ligamento colateral ulnar e a dor, podendo ocorrer parestesia. No teste de estresse do cotovelo em valgo, o paciente refere exacerbação dos sintomas e é perceptível a frouxidão no fi nal do movimento (PRENTICE, 2012). Em função da instabilidade presente nessas lesões, o tratamento mais adequado é a reabilitação física na fisioterapia para melhorar a força muscular e a propriocepção do cotovelo. No caso de falha do tratamento conservador, a estabilização cirúrgica pode ser considerada (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Epicondilite lateral (cotovelo do tenista) O mecanismo de lesão da epicondilite lateral é a repetição dos movimentos de extensão do punho, seja no trabalho (digitação) ou no esporte (tênis), que provocam microtraumas no tendão dos extensores do punho. Geralmente, afeta o tendão do músculo extensor radial curto do carpo e do extensor comum dos dedos ou do pronador redondo e do fl exor radial do carpo medialmente (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). As queixas do paciente serão de dor na região do epicôndilo, durante e após a atividade que causa estresse, fraqueza na mão e no punho, sensibilidade a palpação na região e dor na extensão do punho resistida e na extensão completa do cotovelo. A reabilitação física deverá incluir medidas que minimizem os sintomas, fortaleçam a musculatura, melhorem a propriocepção, recuperem a ADM, entre outros. A cirurgia não é indicada (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Epicondilite medial (cotovelo do golfista, do arremessador) A epicondilite medial ocorre pelo estresse repetitivo dos movimentos de fl exão do punho e sobrecarga em valgo no cotovelo. Os tendões acometidos nessa lesão são o pronador redondo, o fl exor radial e ulnar do carpo e o palmar longo.Pela proximidade com o túnel do nervo ulnar, pode haver uma neuropatia Complexo do cotovelo8 associada, produzindo dor que irradia para a parte medial do antebraço e para os dedos (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Os sintomas da epicondilite medial são muito semelhantes aos da lateral e incluem dor, sensibilidade a palpação, dor ao movimento de flexão do punho com resistência. Em relação ao tratamento, as condutas utilizadas para a epicon- dilite lateral também se parecem com as da medial. A escolha pelo tratamento conservador é mais indicada (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Bursite olecraniana A bursite olecraniana se caracteriza pela infl amação, por estresse repetitivo ou golpe no olecrano, da bursa do olecrano, que, por sua localização superfi cial, fi ca mais exposta a lesões. Os sintomas da bursite são dor, edema e sensibilidade na região do olecrano. O tratamento é direcionado para resolver os sintomas da fase aguda e, depois, para resolver o que causa a sobrecarga na bursa, não sendo necessária correção cirúrgica (PRENTICE, 2012). Síndrome do túnel ulnar Os mecanismos que podem gerar a síndrome do túnel ulnar são tração por uma força em valgo, irregularidades dentro do túnel, subluxação do nervo ulnar por causa de um ligamento frouxo e compressão progressiva do nervo pelo ligamento (PRENTICE, 2012). Os sintomas referidos pelo paciente são dor na face medial do cotovelo com irradiação, sensibilidade a palpação e parestesia (queimação e formigamento) referida para o quarto e para o quinto dedo. O tratamento inicial indicado é repouso e imobilização por duas semanas, pois o paciente deve evitar flexão do cotovelo e estresse em valgo. Caso os sintomas piorem, pode ser realizada uma descompressão ou transposição cirúrgica de um nervo ulnar subluxado (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Acesse o link a seguir para ler um artigo sobre a artroplastia de cotovelo. https://qrgo.page.link/678V6 9Complexo do cotovelo Tratamento fisioterapêutico para as lesões musculoesqueléticas da amplitude de movimento (ADM) O complexo do cotovelo é muito importante para o desempenho das ativida- des do dia a dia, e o seu formato anatômico permite que a mão tenha mais mobilidade no espaço, consiga alcançar objetos longe e que o antebraço gire para realizar todas as funções. Qualquer lesão que acometa o cotovelo, seja articular, muscular ou de tecidos moles, pode causar comprometimento da ADM e restringir a função física do paciente. Por exemplo, a perda da fl exão trará prejuízos para atividades como comer e beber (ato de levar o alimento a boca), e a perda da extensão impede que a pessoa se levante da cadeira ou alcance um objeto (DUTTON, 2010, PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). A partir disso, o tratamento adequado dessas lesões deve ser realizado a fim de evitar essas deformidades e limitações, tão prejudiciais aos pacientes. Muitas das lesões do cotovelo se resolvem com fisioterapia, enquanto outras precisam do procedimento cirúrgico antes da reabilitação física (KISNER; COLBY, 2015). Os objetivos da reabilitação física para as lesões do complexo do cotovelo são diminuir dor e edema, controlar processo inflamatório, reduzir o es- pasmo muscular e contraturas, reestabelecer a ADM, melhorar força, controle neuromuscular e propriocepção do ombro, do cotovelo, do punho e da mão, permitir o retorno às atividades de vida diária e esportiva, enfim, melhorar a qualidade de vida e a função física do paciente (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Na fase aguda (logo após a ocorrência da lesão até umas três semanas) ou no pós-operatório, a intenção da fisioterapia é controlar dor, edema e o processo inflamatório, diminuir os pontos de tensão dos músculos envolvidos e favorecer a cicatrização dos tecidos lesados. Inúmeras condutas da fisioterapia podem auxiliar nessa fase, como crioterapia, TENS (do inglês transcutaneous electrical nerve stimulation, estimulação elétrica transcutânea do nervo), laser, ultrassom, terapia manual, mobilizações articulares passivas, entre outros. Ainda nessa fase, a educação e orientação do paciente devem ser iniciadas. Complexo do cotovelo10 O objetivo é explicar o que é a lesão, os sintomas, causas, prognóstico e automanejo dos sintomas para realizar em casa, no trabalho e/ou durante a prática esportiva (DUTTON, 2010; KISNER; COLBY, 2015). Crioterapia: efetivo em controlar a dor, o edema e o processo infla- matório. Ideal para a fase aguda, pode ser aplicado por até 20 minutos, a cada duas horas (TOMADON et al., 2014). TENS: essa corrente elétrica pode auxiliar na analgesia local e ser utilizada com frequência de 100 Hz, intensidade confortável e posicio- namento dos eletrodos na forma bipolar por um tempo de 20 minutos (CARDOSO; BARRETO; PÉRES, 2013). Laser: pode favorecer o processo de cicatrização e reparo tecidual por meio de proliferação de fibroblastos, redução do processo inflamatório, aceleração na síntese de colágeno, facilitando a formação de fibrilas colágenas e o aumento na força tênsil final de tendões em processo de recuperação. Pode ser utilizado na forma de varredura ao longo do tendão, tempo e duração de pulso: 80 nseg, tempo de emissão: 0,0000008 s, comprimento de onda de 904 nm, uma potência de 50 mW, uma densidade de energia de 2,9 mW/mm2 e dose de 3 J/cm2 (JUSTINO et al., 2014). Ultrassom: auxilia no controle do processo inflamatório, na cicatrização e no reparo tecidual; como consequência, diminui os sintomas álgicos. Pode ser aplicado por 8 minutos, com frequência de 3 MHz e potência de 1,5 W/cm2 (SILVA et al., 2013; CARDOSO; BARRETO; PÉRES, 2013). Terapia manual: massagem, liberação miofascial, liberação de pontos gatilhos, drenagem, mobilização cicatricial, entre outros. Pode ajudar no alívio da dor, no controle do edema, na liberação de espasmos, contra- turas e pontos de tensão muscular e para evitar aderências cicatriciais, no caso de pós-operatório (KISNER; COLBY, 2015). Mobilizações articulares passivas: movimentos passivos leves, dentro da tolerância de dor do paciente, com o objetivo de manter a ADM do cotovelo livre (movimentos de flexão e extensão do cotovelo, pronação e supinação do antebraço e flexão e extensão de punho) (KISNER; COLBY, 2015). 11Complexo do cotovelo Educação e automanejo dos sintomas: é fundamental ensinar o pa- ciente sobre o que é a lesão, por que ela aconteceu e como será o prog- nóstico a partir de então, explicar a importância do comprometimento do paciente com a reabilitação física em função das complicações que podem surgir e gerar limitações e restrições nessa articulação (PRENTICE, 2012; KISNER; COLBY, 2015). Se a articulação do ombro estiver sem sintomas associados com a lesão do cotovelo, é imprescindível realizar alongamentos, mobilizações ativas e exercícios para manutenção e ganho de força muscular. No caso da articulação do punho e dos dedos, pode ser difícil fazer isso na fase aguda pela relação dos tendões extensores e flexores de punho, que estão ancorados no cotovelo (KISNER; COLBY, 2015). A partir dessas condutas, alguns sintomas serão resolvidos e poderá ter início a segunda fase da reabilitação física, que tem o objetivo de reestabelecer função e desempenho físico. Esse objetivo será alcançado a partir de alonga- mentos musculares, treino de força muscular, treino de atividades funcionais e treino proprioceptivo (KISNER; COLBY, 2015). Alongamentos musculares: iniciar com alongamentos passivos leves e progredir para alongamentos ativos, que devem ser ensinados ao paciente. Os alongamentos devem ser direcionados aos músculos bíceps braquial, tríceps, pronadores, supinadores, flexores de punho e extenso- res de punho, além dos músculos do ombro (KISNER; COLBY, 2015). Treino de força muscular: iniciar com exercícios isométricos e progre- dir para dinâmicos (concêntricos e excêntricos), dos músculos bíceps braquial, tríceps, pronadores, supinadores, flexoresde punho e extenso- res de punho, além dos músculos do ombro (KISNER; COLBY, 2015). Exercícios isométricos: realizar tanto para extensores quanto flexores do punho, manter a contração por 6 segundos e repetir algumas vezes (KISNER; COLBY, 2015). Complexo do cotovelo12 Exercícios concêntricos e excêntricos: iniciar com treino de resistência (3 a 5 séries de 15 a 25 repetições, com intervalo de 1 minuto entre as séries) e progredir para o treino para ganho de força muscular (3 séries de 8 a 12 repetições, com intervalo de 2 a 3 minutos entre as séries) (GARBER et al., 2011). Para passar para a terceira fase e, consequentemente, para a alta da fisio- terapia, o paciente deve estar sem sintomas álgicos, com ADM ativa completa e força muscular reestabelecida para realizar suas atividades. O foco é treinar as atividades funcionais, a propriocepção e a pliometria para garantir que o paciente esteja apto para retornar às suas atividades sem dor. Atividades esportivas e funcionais: tentar adaptar as atividades e gestos que o paciente executa normalmente e realizar na fisioterapia com carga, faixas elásticas, tornando as atividades mais desafiadores e próximas da realidade (DUTTON, 2010; KISNER; COLBY, 2015). Propriocepção e pliometria: atividades complexas que exijam que o paciente melhore o senso de posição articular e o equilíbrio, desafie com gestos em grandes amplitudes e alta velocidade (DUTTON, 2010; KISNER; COLBY, 2015). Nessa última fase, o fisioterapeuta deverá realizar adaptações ergonômicas ou reeducar gestos esportivos que tenham provocado a lesão para evitar a reincidência e/ou piora dos sintomas. A alta da fisioterapia será no momento em que todos esses objetivos forem alcançados e o paciente tiver retornado ao esporte, ao trabalho e a suas atividades sem nenhum prejuízo de movimento e/ou dor (KISNER; COLBY, 2015). Veja, a seguir, na Figura 2, como é possível esquematizar um fluxo de tratamento de uma epicondilite lateral. O paciente, nesse caso, é um tenista de alto rendimento e os sintomas começaram sem um evento traumático. 13Complexo do cotovelo Figura 2. Fluxo de tratamento de epicondilite lateral. Complexo do cotovelo14 O complexo do cotovelo tem uma função muito importante na realização dos movimentos da extremidade superior, servindo de conexão entre a mão e os dedos e o ombro. A partir disso, é possível realizar movimentos funcio- nais como comer, beber, escovar os dentes, lavar e pentear o cabelo, amarrar calçados e vestir roupas, além de alcançar e carregar objetos, entre outros. Inúmeras lesões podem acometer esse complexo e, entre as mais comuns, estão as fraturas e as luxações; entre as lesões por estresse repetitivo, estão a epicondilite lateral, a epicondilite medial e a bursite olecraniana. Essas lesões merecem atenção tanto na avaliação quanto no momento da escolha das condutas da intervenção fisioterapêutica, pois é comum que restem li- mitações e restrições nessa articulação após lesões não tratadas ou tradadas inadequadamente. CARDOSO, J. A.; BARRETO, W. L.; PÉRES, M. G. P. O uso do TENS e do UTRASSOM no tratamento conservador da epicondilite lateral do cotovelo (cotovelo de tenista). Caderno de Ciências Biológicas e da Saúde, n. 3, 2013. DUTTON, M. Fisioterapia ortopédica: exame, avaliação e intervenção. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. GARBER, C. E. et al. American College of Sports Medicine position stand. 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Fisioterapia na prática esportiva: uma abordagem baseada em compe- tências. 14. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. 15Complexo do cotovelo Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. SILVA, C. S. et al. Atuação do ultra-som terapêutico associado à fonoforese no tratamento da epicondilite lateral: estudo de caso. Interdisciplinar: Revista Eletrônica da Univar, v. 1, n. 9, p. 37-40, 2013. TOMADON, A. et al. Crioterapia como fator interveniente na dor muscular de início tardio. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício, v. 13, n. 4, p. 197-202, 2014. 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